terça-feira, 23 de agosto de 2016

P-088 - O Caso Columbus - K. H. Scheer [Parte 2]

Ainda havia tempo de serem tomadas certas medidas de precaução. Se as belonaves estranhas, esperadas por Poskanow, já estivessem realmente atravessando a região de superposição, seria então tarde demais para um rádio às muitas naves em movimento na Via Láctea.
Três minutos depois da emissão de sua longa mensagem, os aperfeiçoados rastreadores da Osage já haviam registrado um leve abalo estrutural. A avaliação automática indicava que a nave, que acabara de fazer sua transição, devia ser de origem Terrana.
A transição, que somente poderia ser percebida com instrumentos especialíssimos, indicava também com toda clareza que a nave, que havia feito o salto espacial, o fizera sob a proteção de um aparelho de absorção de freqüências. A série de choques, obrigatoriamente inerentes à transição, era amortecida pelos compensadores estruturais. As vibrações destes últimos aparelhos eram, por sua vez, desviadas para grandes amortecedores. Tornava-se praticamente impossível perceber a presença de uma espaçonave que voasse com estes dispositivos avançados, ou mesmo calcular o local onde estava. Somente os cruzadores dos grupos de caça solares possuíam rastreadores tão perfeitos assim. Chegavam ao ponto de poder determinar se a nave era amiga ou inimiga. Era a segunda vez nesta mesma semana que o couraçado de Poskanow sofria um violento estremecimento.
Quando as telas do vídeo começaram a funcionar com mais clareza, desenharam-se os contornos da imponente Drusus!
Ao reconhecer a nau capitania da Frota Terrana, o Primeiro-Tenente Hauer, da Osage, ficou tranqüilo. A Drusus entrava com uma velocidade fantástica no sistema solar, em cujos limites externos ela se rematerializou.
Segundos mais tarde, realizou-se o que Poskanow havia considerado natural. Espaçonaves do tipo da Drusus possuíam um sistema de rastreamento tal, que nada lhes podia escapar. Antes mesmo que o chefe do Grupo de Caça Espacial 16 tivesse oportunidade de chamar o supercouraçado, os dois receptores da Osage estavam funcionando.
Na grande tela surgiu o rosto de Rhodan. Os traços largos, que prejudicavam a nitidez da imagem, eram um sinal evidente de que a Drusus estava trabalhando com o mínimo possível de energia. Rhodan, portanto, já devia saber o que havia acontecido nas vizinhanças da Terra.
Rhodan para o supercouraçado: — Quem são vocês?
Supercouraçado Osage, Grupo de Caças Espaciais dezesseis, falando Coronel Poskanow.
Ah! Poskanow, prazer — disse Rhodan. — Suponho que você foi transferido pelo Marechal Freyt para o extremo setor de defesa, não é?
Exatamente, Sir, pouco antes da partida da Drusus. O senhor foi informado de que se formou um funil de descarga no setor de Capela?
Sim, nós o percebemos antes de iniciarmos a última transição. O quartel-general foi posto a par disto?
Há exatamente dez minutos, Sir. Eu consegui me arriscar a isto, já que, além do fenômeno, nada mais se manifestou até agora. Meu grupo de jatos mais avançados, sob o comando do Major Untcher, está voltando em vôo normal. Por aqui está tudo em ordem.
Muito bem. Você será colocado imediatamente sob as ordens do General Deringhouse. Sua base será em Plutão. Caso os estaleiros de lá e os depósitos de suprimento forem atacados ou mesmo destruídos, recue, conforme o Plano Columbus, para situações catastróficas, para a órbita de Saturno, onde a frota do setor central deverá se reunir sob meu comando. Aguarde novas instruções e envie pequeno impulso, se surgirem naves estranhas do funil de descarga.
A imagem na tela ia ficando cada vez pior, à medida que a Drusus, mais veloz que a luz, se afastava.
O Coronel Poskanow estava aterrorizado. Plano Columbus para catástrofe? A posição galáctica da Terra havia sido descoberta por povos estranhos!
Afobadamente, sua voz voltou aos microfones:
Sir, devemos esperar por um ataque arcônida?
Que loucura! Atlan está do nosso lado. O que você está vendo foi provocado pelos druufs. Prepare-se para ser inundado, no verdadeiro sentido da palavra, por belonaves de todos os tipos. Nossa única chance está em não chamarmos a atenção desta gente. O fenômeno do funil nas imediações do sol Capela prova que mesmo os matemáticos dos druufs podem se enganar. Cometeram um engano de cálculo de, pelo menos, cerca de quarenta e dois anos-luz. A partir de agora não se deve mais usar abertamente o rádio. Se tiver que mandar alguma mensagem, só com potência bem reduzida e com grande concentração de ondas.
Antes que o rosto de Rhodan desaparecesse totalmente, Poskanow reparou que o primeiro mandatário do Império Solar estava com um sorriso amargo. Segundos depois, a ligação foi interrompida.
Embora Poskanow tivesse pedido aos operadores de rádio que redobrassem sua vigilância, não conseguiram captar as mensagens do supercouraçado, que certamente eram transmitidas em rápida sucessão. Isto provava que a técnica de concentrar as ondas transmitidas impedia-as de serem descobertas. Um rastreamento só seria possível se, por um infeliz acaso, uma espaçonave estrangeira entrasse na mesma faixa de onda. Poskanow estava resolvido a tomar todas as medidas de segurança. As Galáxias eram um espaço muito grande e 42 anos-luz também significavam alguma coisa. Com um pouco de sorte e de inteligência, podiam passar sem serem descobertos.
Poskanow sentiu um calafrio ao pensar na frota gigantesca dos druufs, os descendentes de insetos. Perto da frente de bloqueio, tinha presenciado pessoalmente como e com que fúria eles atacavam.
Tudo, menos isto — balbuciou e, em voz alta, prosseguiu: — Hauer, informe os comandantes das diversas naves das recomendações de Rhodan. Mas preste muita atenção para que nenhum impulso lhe escape dos raios direcionais.
O oficial-ajudante olhou para os armários, onde estavam dependurados os uniformes espaciais. Poskanow compreendeu.
Ainda não — determinou ele. — Ainda temos algum tempo, vamos dizer, uns momentos de descanso. Vou...
Uma mensagem da central de rádio interrompeu o chefe do grupo. Os alto-falantes chamavam.
Diversas mensagens chegam da Terra — disse o responsável pelo rádio. — Mais de quarenta delas, até o momento. Os rastreadores mostram que se destinam a todos os setores. As espaçonaves que se encontram fora do sistema solar recebem ordem de não decolarem e de não usarem o rádio. O tráfego comercial fica totalmente cancelado. Os cruzadores de vigilância da frota externa recebem ordens especiais. Há um intenso movimento, major. Puxa vida! O quartel-general age rápido e com determinação.
Poskanow preferiu ficar calado. Seus traços fisionômicos indicavam a seriedade do momento. A tela se apagou. Depois de transmitida toda a mensagem aos comandantes das unidades e confirmada sua recepção, o chefe do grupo de caças ficou mais tranqüilo. Tinha a consciência de que se fizera tudo que era humanamente possível.
Esta constatação elevou o moral de Poskanow. O coronel sentou-se à sua mesa de comando e entrou em contato com o comandante da Osage. O Primeiro-Tenente Hauer não tinha mãos a medir, para responder com precisão, conforme a ordem de serviço, às mensagens decifradas sobre assuntos estratégicos, que chegavam sem cessar. O coronel esperou uns instantes, até que Hauer, cansado, se recostou na poltrona. Atrás deles roncavam os pesados rastreadores estruturais do couraçado. O ruído estava mais uniforme, sinal de que o conhecido funil de descarga se estabilizava cada vez mais. Talvez já estaria se realizando mesmo uma troca de energia entre os dois universos.
Estou contente por Rhodan já estar em casa — disse Poskanow, em voz baixa. — Isto vai ajudar a elevar o moral da frota e apressar a tomada de importantes medidas de defesa. Hauer, tenho o pressentimento de que estamos às vésperas de uma guerra cósmica. Tudo que fizemos até agora, não foi nada em comparação com o que está para vir. Até hoje, todos os empreendimentos e ações de comando não passaram relativamente de escaramuças, sem a menor importância.
O comandante assoou o nariz estrepitosamente, dobrando depois com cuidado o lenço antiquado, enfiando-o no bolso interno do casaco do uniforme. Poskanow parecia mais feliz. Hauer era um oficial formidável, só que, de vez em quando, parecia um pouco cerimonioso. Mas isto desaparecia tão logo ele tivesse de tomar decisões importantes para sua nave. Nestes momentos então, sua reação era fulminante e precisa.
Senhor — disse ele, finalmente — não terei nenhum prazer em dar ordem de abrir fogo, mas, se for necessário, não hesitarei um segundo.
Poskanow percebeu que, com estas palavras, estava expresso o pensamento de todos os homens das naves terranas. Esboçava-se, nos confins do espaço interestelar, uma ameaça de morte e de extermínio da Humanidade. Seres estranhos, que não pertenciam às raças humanóides, achavam-se em vias de atacar o espaço vital de outros povos.
No seu íntimo, Poskanow estava em perfeito e sereno equilíbrio, pensando, com toda razão, que iria agir somente numa batalha inevitável e num caso de legítima defesa. Fazia-lhe muito bem deixar bem claros na cabeça estes pensamentos.
Ninguém quer a guerra, ninguém se alegra com ela. Por que então ela aparece? — perguntou a si mesmo. — Não tenho nenhum prazer em atirar em outras inteligências. E, Deus me perdoe, mas possuímos uma infinidade de instrumentos de destruição. Será que aqueles seres a quem chamamos de druufs sabem disso?
Eles sabem disso, senhor — respondeu Hauer, calmo. Suas mãos espalmadas se agarraram no espaldar da poltrona, parecendo querer evitar uma queda. — Eles sabem disso — repetiu. E seus olhos não se desgarravam das telas da grande galeria.
Bilhões de estrelas da Via Láctea refulgiam como sempre. Jamais o espaço parecera mais vazio e tranqüilo do que naqueles momentos.

* * *

O encontro decisivo entre os oficiais da Frota e os da Defesa Solar, para discussão da situação, teve lugar em meados de maio de 2.044, no profundo abrigo antiaéreo do quartel-general do Comando Supremo. As gigantescas instalações subterrâneas foram construídas expressamente para que, no caso Columbus, pudessem proporcionar o máximo em medidas de segurança.
Os centros de comando, com suas enormes instalações automatizadas e caríssimas, obra de muitos decênios de sérios trabalhos, formavam a célula central do Império Solar, do qual o Almirante Atlan dizia ironicamente não ser mais do que “uma caverna de trogloditas”, em comparação com os elevados padrões arcônidas.
Mas Perry Rhodan e outros homens de importância da Terra tinham uma outra opinião...
Os planos, já há muito tempo preparados pelos melhores cientistas e estrategistas da Terra, constantemente renovados e atualizados com a ciência e a tecnologia mais avançada do momento, foram novamente avaliados no curto espaço de duas horas.
Se não tivesse havido esta previsão miraculosa de conservar o plano Columbus sempre atualizado, com a máxima noção de responsabilidade, mesmo nos menores e aparentemente supérfluos detalhes, o tão jovem Império Solar estaria agora diante do mais completo caos.
Assim que Rhodan chegou, entraram em vigor as normas de emergência. Computadores especiais transmitiam os impulsos, programados há muitos anos, para as gigantescas instalações industriais da Terra, todas automatizadas. A produção normal, feita durante o tempo de paz, iria terminar dentro de trinta minutos. Novos dados para produção maciça e em série foram transmitidos aos técnicos e diretores responsáveis.
Os grandes parques industriais da Terra, planejados para esta eventualidade, se adaptaram prontamente à nova situação. A matéria-prima acumulada há muito tempo, reservada exclusivamente para esta emergência, foi retirada dos grandes silos e transportada para os pátios das fábricas.
Ninguém nas três Américas, na Europa, na Ásia ou na Austrália e nas regiões povoadas dos Pólos, precisava nesta hora vital de um plano ou de instruções especiais. Todos estavam, há muito, cientes de suas ações.
O denodado trabalho dos últimos decênios agora começava a aparecer. Tudo corria harmoniosamente dentro dos planos já traçados; corria como que lubrificado pelo óleo de uma racionalização previdente e de uma Humanidade educada para a cooperação.
O Ministério do Planejamento em Terrânia teve muito pouco trabalho em responder a algumas perguntas. Cada qual sabia o que devia fazer.
A convocação dos reservistas da Força Espacial foi feita em pouco tempo. Os grandes transportes das linhas aéreas terranas conduziam as tripulações para os conhecidos espaçoportos.
Em tempo algum da História da Humanidade se viu coisa semelhante. Uma organização perfeita. A base da Lua começou a trabalhar a todo vapor. Principalmente os aparelhos menores e rápidos dos tipos de caça, destróieres, gazelas e space-jets, passavam pelas instalações de controle.
A Terra estava bem armada — bem armada mesmo — em unidades pequenas e médias. Neste particular, não estava muito atrás do Império Arcônida, apenas a Terra não conseguia ainda fabricar assim em série os grandes cruzadores. A construção de um couraçado de 500 metros de diâmetro levava anos. E um supercouraçado tipo Império, apesar de toda racionalização e automatização, demorava, no mínimo, 12 anos. Com as instalações gigantescas de Árcon, um aparelho destes poderia ser feito em 5 meses.
Rhodan, que estava a par da produção terrana, conhecia bem as limitações de sua grande Terra. Sabia dos recursos de que podia dispor. Os pequenos e rápidos aparelhos podiam causar muito prejuízo aos inimigos, mas não iriam decidir uma guerra. Faltavam a estas pequenas naves os armamentos pesados e superpesados, que só podiam ser instalados nos gigantes do espaço. Faltavam à Terra principalmente as grandes espaçonaves de transporte, sem as quais seria impossível levar centenas e centenas de caças e rápidos destróieres, de uma só vez, de curto raio de ação, para os longínquos teatros de guerra no espaço.
Os novos cruzadores de 100 metros não tinham grande poder de ataque. A Terra nunca esteve interessada em atacar outros povos ou em subjugá-los. Daí a razão por que as naves construídas até então estavam insuficientemente preparadas para a atual emergência. Os novos cruzadores de 100 metros eram naves de reconhecimento, destinadas a grandes velocidades para operações de sondagens.
Foram estes os assuntos tratados na grande reunião da segurança terrana. Ninguém sobreestimava a força da Terra e ninguém pretendia que os habitantes da Terra fossem os mais aguerridos de todo o Universo.
Dentro destas condições, chegou-se a um plano de defesa muito meticuloso e cheio de responsabilidade para os terranos. Todas as unidades disponíveis da frota foram distribuídas, os respectivos comandantes, determinados. E todas as outras naves que estavam fora do sistema solar foram chamadas de volta.
Não havia dúvida de que o aparecimento de um funil de descarga druuf tinha colocado a Terra, de repente, numa situação desagradável. Rhodan não se aventurou a mudar o estado de coisas com golpes de surpresa ou pela intervenção dos mutantes. Qualquer passo impensado poderia provocar uma catástrofe.
A população dos planetas habitados recebia informações da Terra através da televisão. Abriram-se as portas blindadas do abrigo subterrâneo e as esteiras rolantes do abastecimento começaram a funcionar. Gêneros alimentícios armazenados e bens de consumo de toda espécie foram levados para os abrigos antiatômicos.
O trânsito nas grandes cidades da Terra quase que parou!
Cinco horas depois da chegada de Rhodan ao espaçoporto de Terrânia, o planeta parecia uma fortaleza abandonada. A partir daí, toda a vida humana se concentrava apenas nos subterrâneos. Somente aqueles que tinham obrigações indispensáveis, tinham autorização para permanecerem fora.
Milhares de caças, destróieres e pequenos discos voadores cortavam os céus em todos os sentidos. Os grupos mais pesados da Frota Terrana estavam assumindo as posições já bem calculadas.
Isto tudo aconteceu antes que a primeira espaçonave druuf cruzasse a fenda cintilante do funil de descarga.

* * *

Os relógios eletrônicos no Comando Supremo da Frota marcavam onze horas da noite. A conferência ainda não terminara. As primeiras avaliações sobre a natureza dos fenômenos da região de descarga já estavam prontas.
Crest, o velho arcônida, pediu para falar com Rhodan. Os resultados, apresentados de forma objetiva, mas de qualquer maneira assustadora, davam o que a pobre Humanidade ainda tinha que esperar.
Além das questões com a defesa, surgiu um problema que o cientista Crest descreveu assim:
Com os meios que nos estão à disposição, não pode ser constatado se a existência de um funil de descarga, que permanece estável, é algo intencional ou casual. A experiência demonstra que tais formações energéticas têm uma duração relativamente curta, caso sejam conseqüência de superposição natural. Já que, há oito horas e num crescendo contínuo e uniforme, a zona descoberta por nós liga os dois planos temporais, pode-se admitir que os druufs conseguiram, com uma base artificial, criar a transição. Aponto aqui para o jogo de espelhos, por nós inventado e utilizado, que possibilita igualmente a entrada para outros tipos de espaços. Temos de admitir que os druufs também puderam chegar a uma descoberta semelhante ou melhor. No interesse da defesa, é conveniente que aceitemos como real a existência desse invento perigoso.
Também eram estas as idéias que os mais eminentes matemáticos da Terra conseguiram depreender.
A partir de então, diante da possibilidade do aparecimento de outras zonas de descarga, o estado-maior do Império Solar resolveu tomar todas as providências. Foi Reginald Bell quem resumiu em poucas palavras os fatos inquietadores:
De um só funil de descarga ainda podemos dar conta, mas mais de um, não. Pois se tivermos que lutar em várias frentes de combate, seremos obrigados a dividir nossas forças. Isto significaria a derrota da Terra. Como seria uma grande loucura confiarmos no acaso, solicito o envio imediato do já previsto e preparado radiograma urgentíssimo de calamidade, destinado a Atlan.
Marechal Freyt ficou perplexo. Allan D. Mercant não deixou transparecer nenhuma emoção maior. Rhodan cruzou os braços nas costas e caminhou, ao longo da enorme parede da tela panorâmica. Depois de alguns minutos, parou de novo diante da mesa dos mapas.
Radiograma para Atlan? Muito bem, mas só em último caso. Para Atlan nos poder ajudar, terá que nos mandar seus grandes aparelhos. Isto quer dizer que ele estará obrigado a tornar pública a posição da Terra, ou então suas naves jamais chegarão até aqui. A partir deste momento, o caminho para a Terra estaria franqueado a todos os seres inteligentes da Via Láctea. Acabaria assim nosso longo e necessário jogo de esconder.
Chegará o dia em que teremos que botar as cartas na mesa — interveio Mercant.
Não há dúvida, chegará este dia. Tenho, porém, a intenção de continuar “escondendo” o tempo que nos for possível. Estamos ainda demasiadamente fracos para agüentar abertamente o jogo com os povos galácticos, meu amigo Mercant — Rhodan fez uma pausa proposital. — Mercant, temos de tentar botar por água abaixo os planos dos druufs, com os meios que estão ao nosso alcance. Mande-me, por favor, John Marshall.
O chefe da defesa tinha lá suas dúvidas. Acreditava que os mutantes não teriam nenhuma chance num caso destes.
Quando ele se levantou, ocorreu o que todos aguardavam já há várias horas. Uma das telas se acendeu, surgindo bem reconhecível o rosto do Major Abucot.
Central de Rádio da Defesa — identificou-se ele. — Sir, acabamos de decifrar uma curta mensagem da frota de vanguarda. No mencionado funil de descarga, estão aparecendo as primeiras espaçonaves. O Major Poskanow já conseguiu avistar vários corpos estranhos. Chegam cada vez mais. De acordo com os cálculos dos nossos instrumentos de medição, nenhum deles tem menos de duzentos metros. Estamos, portanto, diante de grandes unidades.
Marechal Freyt passou o dedo nervoso entre o colarinho e o pescoço. Reginald Bell tinha um sorriso amargo.
Obrigado — interrompeu a voz de Rhodan o pesado silêncio. — Chame-me assim que tiver outras notícias. Mas não por causa de uma única nave. Agrupe-as, vamos dizer, em lotes de cem.
Abucot desligou. Havia compreendido a intenção de Rhodan.
Sua idéia é boa — disse Bell irônico. — De cem para cima, não é? Quantos encouraçados druufs você está esperando?
Conforme as experiências na frente do bloqueio arcônida, o primeiro ataque será feito com cinco mil aparelhos. Se forem rechaçados, voltarão depois com dez mil.
Marechal Freyt procurou uma cadeira. Rhodan recomeçou seu vaivém ao longo da parede das grandes telas, dizendo para si mesmo:
Tudo vai depender se eles vão ou não vão nos achar. Acho que estão tomando o sistema Capela como se fosse o nosso sistema solar. Vamos deixá-los nesta crença. Mercant, traga-me finalmente John Marshall e me prepare uma missão especial para os mutantes. Tenho um bom plano.
O chefe da defesa retirou-se. Antes que entrasse no elevador, Rhodan ainda lhe disse:
Nossa base em Hades ainda não se manifestou?
Mercant abanou a cabeça.
Não. O cruzador ligeiro Nippon está, porém, diante da frente de bloqueio arcônida. A ligação com Hades continua normal. Estou aguardando informações a qualquer hora.
Elas não podem ser transmitidas pelo rádio. Você explicou isto ao comandante?
Naturalmente, Sir. Em caso de necessidade, o Major Matsuro terminará sua transição nas proximidades da Terra. Já tomamos as providências para absorver as ondas de superchoque. Até lá, se formos descobertos, chamarei então Matsuro, pois, neste momento, não terá mais nenhuma importância o rádio ser ou não captado.
Rhodan, preocupado, acompanhou com os olhos o chefe da segurança da Terra. Tudo estava dependendo de não se cometer nenhum erro.
4



O Estrela da Terra, um velho cruzador tipo normal, transformado depois em nave de carga e de passageiros, partira do espaçoporto intercósmico do planeta central do sistema Vega, no dia 16 de maio, às 14 horas e 32 minutos, em vôo normal de carreira.
O Estrela da Terra estava voando, há muitos anos, na linha normal entre os sistemas planetários de Vega e do Sol, tendo em vista que, devido às intensas relações comerciais entre os homens e os ferrônios, o tráfego de passageiros havia aumentado muito.
Seu comandante era o Capitão Carl Lister, ex-astronauta da Frota Terrana. Lister era tido como um homem corajoso, de muita iniciativa e muito agradável no convívio com tripulantes e passageiros. Por ser de estatura avantajada e por sua grande sociabilidade com todos, era realmente um comandante ideal para uma espaçonave da frota comercial.
A carreira militar de Lister, no entanto, não foi muito feliz. Nunca conseguiu de fato conquistar a benevolência de seus superiores. Entre seus companheiros, passava simplesmente por um terrível azarento, para quem tudo corria mal nos momentos decisivos. Foi assim que Lister achou melhor se afastar da Frota Espacial. Desde então passou a comandar o velho Estrela da Terra.
Já há seis anos neste serviço, sem lhe haver ocorrido nenhum contratempo, muito menos um acidente sério, Lister tinha pois toda razão em pensar que o azar o havia completamente esquecido.
Mas o destino quis que, exatamente quando ele já não mais se recordava da série de complicações e acidentes, quando ele fazia tudo para andar na linha e ser correto, que exatamente neste momento, os velhos tempos fossem revividos.
Lister tinha feito sua refeição com os passageiros no salão da primeira classe, soltara naturalmente algumas piadas galantes e já bem gastas e, por fim, até permitiu que um rapaz de seus dezoito anos fosse visitar o salão de máquinas da velha nave.
Um quarto de hora mais tarde, já estavam prontos os cálculos para o salto e o Estrela da Terra iniciou a transição. Lister venceu 27 anos-luz num único salto. Achava uma coisa sem sentido castigar os passageiros duas vezes com transições sucessivas.
Estaria tudo certo, se Carl Lister não tivesse aparecido na dimensão superior, exatamente no momento em que a grande estação transmissora de Terrânia estava mandando para o espaço cósmico uma advertência dirigida especialmente a ele. Entretanto o Capitão Lister não pôde ouvir as importantes ordens.
Quando sua nave se rematerializou a sete horas-luz antes de Plutão, a transmissão já tinha terminado. Desta maneira, o Estrela da Terra continuou tranqüilo sua rota na direção do sistema solar com oitenta por cento da velocidade da luz.
Plutão estava no outro lado do Sol. Seguindo as normas de segurança, Lister reduziu ainda mais sua velocidade. E com apenas setenta por cento da velocidade da luz, foi levando sua velha espaçonave na rota certa. Mas não demorou muito para que a conhecida má sorte do experimentado capitão voltasse a se manifestar. Quando as primeiras naves dos druufs estavam saindo do funil de descarga, Lister resolveu comunicar sua chegada à Terra através de hiper-rádio.
Enviou um radiograma longo, com ondas pouco concentradas. Nessa mensagem falava até que o soberano de Ferrol estava quase à morte. Lister achava que esta notícia era muito importante para explaná-la com muitos detalhes. E tudo isto em linguagem decifrada, na freqüência de uso normal nas comunicações comerciais.
Mesmo isto seria tolerável, se o Estrela da Terra não estivesse saindo do hiper-espaço diretamente de encontro ao funil de descarga. Assim aconteceu que o amplo feixe de ondas atingiu a Terra, mas dali continuou em linha reta para o sistema Capela.
Depois de estar telegrafando uns vinte segundos, ouviu um grande ruído no receptor do hiper-rádio de bordo, vendo ao mesmo tempo na tela o semblante furioso de um major terrano.
Você ficou louco? — ouviu-se com toda força nos alto-falantes. — Pare imediatamente com seu rádio. Desligue, seu maluco. Está em vigor o caso Columbus. Terei que colocá-lo diante de uma corte marcial. Não transmita mais nada. Você está transmitindo para Capela...
Com isto, a mensagem foi interrompida. O Capitão Lister estava branco como cera.
Como fazia sempre, estava de pé na cabina de rádio, para controlar pessoalmente a transmissão de suas ordens. Lister puxou as mãos do telegrafista, que, estupefato, ficou olhando para ele. Naturalmente, todos sabiam o que significava a expressão caso Columbus.
Santo Deus! — suspirou o pobre telegrafista. — Terrânia deve ter comunicado o que está se passando ou, pelo menos, deve ter dado o alarme habitual...
...quando estávamos efetuando a transição — completou Lister, assustado.
Tinha compreendido o erro que havia cometido. Sabia também agora que o perigo vinha do sistema Capela.
Sem perder tempo com qualquer palavra inútil, virou-se para trás e, devagar, como se estivesse acordando naquele instante, dirigiu-se para a central de comando.
A novidade se espalhou num instante e os homens atônitos olhavam para seu comandante, que, pálido e de olhos parados, perscrutava o espaço.
Lister parecia um sonâmbulo. A idéia de ter cometido uma traição, mesmo sem o querer, o afogava num mar de tristeza. Como era cruel seu destino de ter que passar sempre por um homem errado. Gostaria de gritar ou chorar, mas não conseguia emitir nenhum som, tão secos estavam seus lábios. Seu corpo pesado parecia o de um animal mortalmente ferido, em busca da toca salvadora. Nada lhe seria poupado, teria de sofrer as conseqüências de sua má sorte, além dos remorsos que lhe ficariam na alma.
Lá fora, ao lado da central de comando, estavam alguns passageiros. O segundo-oficial do Estrela da Terra, encarregado dos serviços normais a bordo, estava explicando a um grupo de passageiros, com termos rebuscados e conceitos supercientíficos, as vantagens de uma eclusa de divisões transversais.
Lister sentiu que alguém o agarrava pelo braço. Era a senhora Nattan, esposa do diretor das minas da General Cosmic, residente em Ferrol, que dava expansão ao seu explosivo entusiasmo.
Oh! Meu querido capitão, que coisa fenomenal! Nem sabia que isto existe. Estou vendo que esta nave é uma maravilha, e como tudo isto funciona encantadoramente.
Carl Lister esboçava um sorriso forçado.
Naturalmente, minha senhora, tudo aqui funciona.
O gargalhar estridente da velha senhora o irritou mais ainda. Mas teve de ouvir até o fim aquela avalanche de palavras bobas, até que foi obrigado a responder a uma pergunta:
Mas, capitão, o senhor está muito pálido! Não está se sentindo bem?

É... é por causa do vôo, um rapaz tão jovem como eu está muito sujeito ao enjôo do espaço, não é?
Quando fechou atrás de si a porta de seu camarote, o Capitão Lister cambaleava. Muito abatido, deixou-se cair em seu beliche, para ficar de olhos perdidos no forro do camarote.
Você ficou louco?... Desligue, seu maluco... Caso Columbus... Corte marcial... Capela... pare com a porcaria de seu rádio...!
Tudo isto estava martelando seu cérebro. Maldito o dia em que, pela primeira vez, transpôs os degraus da Academia Espacial.

* * *

Apenas alguns poucos homens poderiam compreender a finalidade daquele estranho instrumento. Ao invés das curvas de medição, usadas convencionalmente nos cérebros positrônicos da Terra e dos registros de comando eletromagnético, este aparelho vomitava símbolos geométricos terrivelmente confusos.
Por dentro, o aparelho não se diferenciava muito dos outros, construídos por seres vivos humanóides. Os princípios da matemática eram válidos também para as inteligências estranhas, não humanas. Em consonância com estes princípios básicos da matemática, possuíam somente a possibilidade de ligar os diversos circuitos e de regular de tal modo os coletores finais escalonados, que os resultados obtidos podiam ser reconhecidos de outra forma.
Mas, tudo isto eram exterioridades de somenos importância. Capital mesmo era o fato de que existia uma segurança de funcionamento fora do comum.
A aterrorizante luz vermelha do espaço se espelhava nos grandes olhos de um monstruoso ser vivo. Ali, ele estava inerte diante da máquina que trabalhava com um zunido constante, até que os últimos sinais fossem reconhecidos.
Um som superagudo, numa amplitude de freqüência de mais ou menos duzentos mil hertz, podia ser captado pelas antenas orgânicas que os corpos dos druufs possuíam.
Pisando firme, o gigante druuf de três metros de altura passou pela porta aberta. No interior do recinto reconhecia-se uma grande tela oval e uma quantidade de instrumentos de todas as formas. Cabeças esféricas com bocas triangulares sem lábios e de olhos fosforescentes se viraram para aquele que estava entrando. Era uma cópia fiel das profundezas do inferno. Um ser humano não ouviria nenhuma palavra e, no entanto, todos estavam falando. Impulsos ultra-elevados substituíam os movimentos da boca para formar palavras. As antenas invisíveis de seus corpos captavam as vibrações, para levá-las ao cérebro a fim de serem identificadas.
Mas estes descendentes dos insetos, vindos de um plano temporal que não tinha nada em comum com o restante Universo, não eram totalmente incompreensíveis...
O diálogo mudo entre os matemáticos e os oficiais do comprido aparelho bélico se deu quinze minutos depois do registro do estranho radiograma. Foi o tempo necessário para os druufs realizarem a localização do ponto de onde partira o rádio. Outras máquinas de cálculo estavam em funcionamento. Numa tela arredondada, viam-se as estrelas daquele setor do espaço, que circundava o funil de descarga.
Os surpreendentemente finos dedos do druuf apontaram para um trecho onde as quatro linhas goniométricas se cruzavam. Neste local havia uma estrela de clarão amarelado, porém de muito pequeno tamanho.
O ribombar cavernoso dos motores de propulsão aumentou de intensidade. A nave começou a se mover. Ao mesmo tempo, chegaram as primeiras informações. Neste exato instante, um grupo de quinhentas naves estava transpondo a fenda na região da superposição. Na tela da nave capitânia, a cabeça redonda de um druuf brilhava. Comunicou mais ou menos o seguinte:
Resultado da radiogoniometria. Vejam depois e confiram. Seguirei assim que a localização estiver bem conhecida.
As quinhentas grandes belonaves desapareceram. Aconteceu naturalmente o que os cientistas da Terra chamam de mergulho na quinta dimensão.
A técnica de hipervôo dos druufs, ao contrário do método básico dos arcônidas, se baseava no curso linear, sob a influência do espaço de cinco dimensões. Era um vôo liso, sem saltos constantes. Neste sentido, os druufs eram muito superiores aos demais seres vivos, cujos mecanismos de propulsão seguiam os moldes e a experiência dos arcônidas.
A frota desapareceu com uma onda de choque estrutural curta e muito lisa, rumando para o espaço superior. Não houve propriamente nem desmaterialização, como nas naves terranas, nem processos dolorosos de dissolução e perda total dos sentidos.
Voavam a uma velocidade milhares de vezes superior à da luz, em direção daquele ponto de onde haviam recebido o hiper-rádio. A orientação foi de fato perfeita e eles estavam no sentido certo...
Só um ponto lhes estava um pouco obscuro. Não sabiam se os sinais rítmicos provinham dos procurados terranos ou de qualquer nave comercial, que por acaso passasse por ali, talvez de raça desconhecida. Caso desvendassem tal ponto, estaria comprovada a alta técnica de sua radiogoniometria. Entretanto não conseguiriam por vias científicas nenhum resultado prático.
De qualquer maneira era necessário olhar o que se passava em volta deste solzinho de terceira categoria. De acordo com as concepções dos druufs, que, fiéis à sua mentalidade, julgavam tudo em escalas de enormes proporções, parecia excluído, impossível mesmo, que uma raça tão importante como a dos terranos vivesse e crescesse sob a luz de um sol tão fraco.
A nau capitânia da frota druuf rumou direto para Capela. Porém, nos planetas desse sol, não podia haver condições de vida. Foi dada então a ordem de se reunirem. Duas mil unidades, que, a cada hora, conforme os planos dos druufs, recebiam um reforço de mais quinhentas naves, se agruparam nas proximidades do sistema Capela. Enquanto isto, o comandante druuf estava ocupado com o pensamento de mandar dar uma busca rigorosa nos sóis em volta, dentro de um raio de ação de pelo menos cinqüenta anos-luz. Os matemáticos druufs não poderiam de maneira alguma ter se enganado tanto assim. Mas de qualquer maneira, era bom olhar um pouco em volta.
O comandante supremo da frota resolveu então aguardar o resultado das pesquisas. Tinham bastante tempo. Além disso, durante esta exploração, poderiam confeccionar mapas siderais tentando localizar a frente de bloqueio dos terranos entre estas estrelas da Galáxia.
Estes seres esquisitos do segundo plano temporal haviam feito cálculos maravilhosos sobre tudo, esquecendo-se apenas de calcular o patriotismo dos terranos e sua vontade de resistir. O chefe dos druufs também não suspeitava que sua infinidade de naves já havia sido localizada. O decisivo seria agora o potencial bélico, especialmente em grandes encouraçados. Assim o chefe druuf não precisava se preocupar se já tinha ou não sido visto pelos terranos. Seu potencial bélico era berrantemente superior. Uma descoberta prematura poderia significar, no máximo, uma pequena dificuldade para os planos druufs. Mas uma pequena dificuldade não ia atrasar a vitória dos seres de Druufon.
Os druufs tinham é que ter paciência e saber esperar. Do funil artificial de descarga saía uma esquadrilha depois da outra. Não podiam se expor sem necessidade. Afinal de contas, estavam penetrando num Universo estranho, cujo tempo natural corria duas vezes mais rápido que o do segundo plano. O comandante druuf estava a par de tudo isto. Sabia que suas naves teriam apenas a metade da velocidade que as do adversário. Quando se conhece, porém, o perigo, tem-se muito mais possibilidade de evitá-lo. E os druufs tinham a intenção de superar tal inferioridade através do potencial mirabolante de suas enormes espaçonaves, armadas até os dentes.
Esta tática já dera bons resultados na linha de bloqueio contra os arcônidas. Para o sucesso de todo o plano, era necessário apenas impedir o acesso da frota arcônida, que eles conheciam de sobra. A Terra seria derrotada e estaria aberta uma nova frente de combate nas costas dos arcônidas. Assim que terminasse esta primeira fase de seus planos, a estratégia toda se modificaria, de uma hora para outra.
5



O Tenente Aluf Tehete, comandante do grupo de Caça 586, da esquadra RJV-64, pertencia ao número dos primeiros oficiais terranos que atacou, num vôo rasante, com seu caça de um só tripulante, de velocidade superior à da luz, a densa falange de reconhecimento das naves druufs.
O caça de Tehete não era nada mais que um projétil de 15 metros de comprimento e de um e meio de diâmetro, cujo espaço interno era ocupado 90 por cento pelo conjunto compacto de propulsão de alta potência. Possuía ainda um canhão de impulso embutido, de grande alcance. Quando este canhão atirava, o piloto tinha a impressão de que toda a fuselagem explodiria junto, reduzindo tudo a poeira, no espaço.
Seus envoltórios de proteção eram frágeis demais. Mas mais lamentável ainda foi o espaço diminuto que os construtores deixaram para o piloto. Tehete estava espremido num banquinho redondo, bem rente ao nariz agudo do aparelho, que coincidia com a boca do canhão. Não deixava de ser uma temeridade colocar rapazes corajosos para lutar em tais condições.
No entanto, estes jovens estavam entusiasmados e não tinham inveja dos homens que desempenhavam suas funções em grandes aparelhos com todos os recursos. A vida de piloto de caça tinha que ser assim mesmo. Viam e ouviam tudo que se passava no espaço e não precisavam esperar por uma ordem de fogo. Eles é que tinham de decidir quando deviam atacar e o que deviam fazer para salvar a vida.
Tehete levou sua esquadrilha para a frente de ataque druuf, assim os cruzadores rápidos do RJV-64 perceberam a invasão do inimigo no espaço normal da Terra. Do seu lado direito, Tehete tinha a alavanca do comando dos impulsos, que dava ao aparelho um domínio maravilhoso de controle energético para manobras rapidíssimas, manobras estas que, alguns minutos depois, haveriam de deixar os druufs de boca aberta.
O primeiro combate na luta em defesa do Império Solar se desenrolou exclusivamente entre os grupos de caça da Terra e as unidades de reconhecimento dos druufs. Nenhum grande couraçado da Frota Terrana participou deste embate. O choque deu-se muito depressa e não houve tempo para o deslocamento dos aparelhos maiores.
Os ágeis caças terranos, ou “vespas”, como eram chamados, obtiveram seu primeiro sucesso, exatamente pelo fator surpresa. Equipados com enormes canhões que, em geral, somente se instalam em aparelhos de pelo menos 500 metros, produziram um verdadeiro furacão atômico entre os druufs e no curto espaço de sete minutos destruíram 85 por cento de seus pequenos cruzadores de reconhecimento.
O Tenente Tehete estava pensando em sua pátria, no Oeste Africano, quando apoiou a mão na alavanca de comando dos impulsos, que controlava os tiros do canhão. Na tela de 30 centímetros de diâmetro, totalmente automatizada, brilhavam os contornos bem delineados de uma espaçonave alongada, tipo charuto. A lâmpada verde do goniômetro piscava sem cessar. Por aí se podia saber que o objeto descoberto não era uma nave terrana. As ligas metálicas empregadas eram diferentes e os impulsos eram muito diversos dos terranos.
Aluf constatou que o druuf que voava na frente dele tinha apenas a metade da velocidade da luz. Portanto, estavam certos os dados de que havia uma diferença de tempo de um para dois. Naturalmente a maior velocidade representava uma grande vantagem. Maior vantagem ainda eram as dimensões reduzidas de sua pequena nave, que, no meio do espaço infinito, mal era reconhecida.
Assim, continuou no rumo certo, até que o dispositivo automático lhe indicou a distância de apenas trezentos mil quilômetros — distância ideal para o canhão do pequeno caça. Era suficientemente grande para a própria segurança e ainda contava com 95 por cento da possibilidade de atingir o alvo. O ângulo de correção era mínimo e os raios energéticos atingiriam o objetivo em um segundo.
Quando os contornos da nave inimiga, depois das manobras de pontaria de controle automático e positrônico, entraram no círculo verde da mira, Tehete comprimiu o botão de disparo. Seu aparelho estava numa velocidade quase idêntica à da luz. Diante da proa do aparelho, se formou a bola cósmica da micromatéria, que normalmente não é visível. A compressão ali provocada não era nada simpática aos pilotos de caça, pois os impulsos energéticos do projétil ao explodir provocavam um clarão de sol, que naturalmente poderia trair sua posição no espaço. Sempre havia naves inimigas por perto. Se não houvesse esta explosão luminosa, os disparos energéticos jamais seriam percebidos.
Tehete sentiu o bruto contrachoque de seu aparelho. Diante dele se levantou a chama branca, formando uma bola de fogo de onde saiu um raio energético de uns dez metros de comprimento. Depois disso, desapareceu completamente nas profundezas do espaço. No entanto ele estava ali, apenas não podia ser visto devido à ausência do meio material.
Terrivelmente ofuscado, o comandante do grupo tirou o aparelho da direção em que ia, pois sua velocidade era quase idêntica à do raio energético, portanto não podia continuar na mesma rota. Quando Tehete, a apenas dez mil quilômetros da nave dos druufs, deu uma guinada para outra direção, abaixo dele se formou uma bola de fogo. O rastreador energético registrava a explosão de forte carga atômica. O jovem terrano se sentiu orgulhoso, sabia que o primeiro aparelho abatido nesta guerra era um feito dele. Seu grito de alegria assustou os telegrafistas da nave capitânia do RJV-64. Mas não foi apenas o urro que os operadores do rádio tiveram de ouvir, parecia mesmo uma transmissão especial em hiperfreqüência, vinda dos fundos do inferno.
Os pilotos eram jovens demais e não podiam ter muita experiência de luta para receberem seus primeiros triunfos com ânimo mais calmo. Precisavam de reconhecimento, de aplauso, de uma palavra quente de amigo ou do sorriso feliz de seus superiores.
Mas ficaram roucos de tanto gritar e seus vôos foram executados com tanto ardor que a grande frota de reconhecimento dos druufs ficou quase dizimada.
Porém aconteceu que um cruzador terrano, emergindo do hiperespaço, foi atingido tão seriamente pelos raios energéticos de um dos caças, que três turbinas pararam e houve um princípio de incêndio na casa de máquinas.
O comandante deste cruzador do tipo Estado era o Major Matsuro, que estava acabando de chegar com notícias importantes da frente de bloqueio. Por questões da importância de suas notícias, Matsuro se atrevera a transpor a grande distância entre o sistema Mirta e a Terra através de uma única transição. Em saltos tão grandes assim, nunca se podem evitar pequenos erros. Em relação com as proporções da transição, este pequeno erro podia ser, por exemplo, emergir do hiperespaço oito bilhões de quilômetros antes do ponto pretendido.
Jamais se conseguiu saber quem foi o piloto de caça que deu este tiro tão nocivo. A Nippon foi se arrastando lentamente com menos da metade de sua potência. Mas, nem mesmo assim, Matsuro teve coragem de usar o rádio. Porém a resolução do primeiro mandatário da Terra veio auxiliá-lo.
Em todas as espaçonaves do Império Solar, a começar pelos poderosos supercouraçados até os pequenos caças, acenderam-se as telas do videofone. Rhodan irradiava na freqüência convergente, sendo ouvido e visto em toda parte.
Fala Perry Rhodan, atenção! É para todos. A partir deste momento fica cancelada a proibição de uso do rádio. Qualquer um pode falar. Mantenham as freqüências obrigatórias de cada grupo, para que um não prejudique o outro. Fomos finalmente descobertos. Radiogramas das unidades dos druufs, atacadas por nossos caças, foram captados e os especialistas tentam decifrá-los. Acostumem-se agora com o pensamento de que têm que lutar de olhos abertos. Nossa brincadeira de esconde-esconde já terminou.
A seguir, foram transmitidas diversas informações a respeito da disposição estratégica das forças terranas. Muitas esquadrilhas de cruzadores transpuseram com curtos supersaltos a frente de defesa externa. Nas proximidades de Saturno, o cinturão de defesa foi reforçado com naves maiores. Neste cinturão, o próprio Rhodan assumiu o comando. A primeira zona de defesa estava sob o comando do General Deringhouse.
Major Matsuro esperou pacientemente até que as mensagens mais importantes fossem transmitidas. Somente após isto, chamou a Drusus, com urgência urgentíssima. A ligação foi imediata. O semblante de Matsuro apareceu na gigantesca tela de hipercomunicação do supercouraçado, cuja central estava funcionando como quartel-general no espaço, há já algumas horas.
Cruzador Nippon, comandante Major Matsuro — apresentou-se o oficial. — Estou chegando da frente de bloqueio, Sir, mas um piloto de caça, que deve ter enlouquecido, no calor da batalha me confundiu com uma nave dos druufs. Meu cruzador perdeu a metade de sua eficiência. O incêndio na casa de máquinas pôde ser dominado com a diminuição do teor de oxigênio do ar. No entanto, a central ficou imprestável. O senhor tem algumas instruções especiais para mim?
Rhodan compreendeu imediatamente. A Nippon devia trazer notícias especiais da base de Hades.
Proibido falar — foi a rápida resolução de Rhodan. — Solte uma gazela e venha com ela para bordo da Drusus. Nós o receberemos aqui por telecomando. Seu primeiro-oficial deve assumir o comando da Nippon e dirigir-se devagar para a base de Plutão, onde o cruzador irá para os estaleiros. Ainda é possível fazer isto?
Matsuro olhou para seu engenheiro-chefe. O técnico fez um sinal afirmativo.
Perfeitamente, Sir, os motores ainda darão para isto. Só não sei como conseguiremos aterrissar.
Está bem, a base de Plutão será avisada. Eu o estou esperando. Prepare um relatório da situação. Quero saber quais foram os efeitos do tiro do caça. Em que parte é que a Nippon foi atingida?
No meio do bojo, pouco acima do rebordo de reforço. O impulso energético destruiu ambos os envoltórios de proteção, derreteu a parte blindada, conduzindo o restante da energia térmica para o quadro de comandos.
Matsuro não se admirou da expressão de contentamento no rosto do primeiro mandatário do Império Solar. Naturalmente Rhodan queria saber como o projétil dos caças atuava. Por certo, esta constatação muito o agradou.
Está certo, Matsuro, isto me basta por ora. Não perca mais tempo e venha depressa. Você tem notícias importantes, não é?
E como, senhor! Do contrário, não teria voltado de Hades.

* * *

O Major Nako Matsuro se viu no meio dos mais graduados oficiais da Terra. Até o Marechal Allan D. Mercant se encontrava na central do supercouraçado Drusus. Parecia que se planejara algo que apenas alguns homens sabiam.
O relatório de Matsuro já havia sido apreciado. Tinha conseguido entrar em contato com os agentes na base de Hades. Interrogado mais uma vez, o comandante do cruzador de reconhecimento resumiu em poucas palavras:
Perfeitamente, Sir. Os dados foram fornecidos integralmente. O Capitão Rous afirma que os druufs conseguiram criar um funil de descarga artificial. Nosso agente Ernst Ellert parece estar em sérias dificuldades. Confessou a Rous que está perdendo aos poucos o poder sobre a mente do cientista druuf Onot. Onot é acusado pelo Conselho de Ministros de Druufon de culpado pela destruição da grande central calculadora, pelo menos de ter participado nas ações de sabotagem.
No que eles têm razão — observou Rhodan, secamente. — Continue, Matsuro!
É mais ou menos tudo, Sir. Ernst Ellert se esconde agora, aliás, como sempre, atrás deste Onot. A ligação pelo rádio com o décimo terceiro planeta do sistema gigantesco não parece fácil para Ellert. Capitão Rous teme complicações.
E para que serve aquela gigantesca estação espacial perto do sol duplo de Siamed? — perguntou Mercant.
Matsuro percebeu que o homem que parecia tão indiferente estava tocando no cerne da questão.
Esta notícia chegou exatamente na hora em que eu me preparava para a transição. Por intermédio de Rous, Ellert comunicou que os druufs haviam construído este monstro. A estação espacial foi montada com a finalidade exclusiva de se obter um funil de descarga artificial. Rous conseguiu ainda constatar, por meio de medições, que a zona de ligação começa logo acima desta estação espacial.
Mais não se conseguiu tirar de Matsuro. A bem treinada tripulação do cruzador, seriamente danificado, foi rebocada por uma nave-socorro da Frota e levada para a base da Lua. Quando Matsuro lá chegou, foi-lhe dado o comando de uma nave recém-saída dos estaleiros.
Sete horas após a conversa com Perry Rhodan, o Major Matsuro partia novamente para um vôo experimental.

* * *

Estas sete horas se converteram nos momentos decisivos para o plano de defesa do comando supremo solar. Primeiramente, o cruzador leve Califórnia, sob o comando do já famoso Coronel Tifflor, atracou perto do rebordo de reforço na fuselagem da Drusus. E depois, o comandante supremo da gigantesca nave deu certas ordens importantes.
Quando Matsuro partiu para o vôo experimental, quando o Coronel Tifflor chegava a bordo da nave capitânia, quando o chefe dos mutantes, John Marshall, reunia seu grupamento em torno de si, e quando cinco mil caças mono piloto se reuniam sob a proteção dos grupos de cruzadores, que avançavam para um determinado setor de defesa, apareciam as primeiras belonaves dos druufs, irrompendo de seu esconderijo... o segundo plano espacial.
O cruzador pesado Cattano, da ala direita do RJV-106, explodiu sob o impacto dos disparos de quatro grandes unidades dos druufs. O Cattano foi o primeiro cruzador que a Frota do Império Solar perdeu em combate.
Para surpresa dos pilotos dos jatos, os atacantes fizeram uso de uma arma que jamais teria sido nociva a uma belonave de maior tamanho. Tratava-se de um lançador de agulhas térmicas, cujos impulsos super-potentes eram transformados em milhares e milhares de raios de ataque de poucos milímetros de extensão, por meio de um desintegrador filtrante de circuitos. Surgia assim uma verdadeira granada atômica com um enorme raio de divergência e conseqüentemente com grande garantia de acertar o alvo.
Já para uma nave auxiliar do tipo girino, estes raios finíssimos de muito pouca energia não trariam perigo. No entanto, conseguiriam prejudicar muito os pequenos jatos e os destróieres de três tripulantes. As espaçonaves de menor tamanho da Terra que entrassem em ataque, em sessenta por cento dos casos seriam logo descobertas e atacadas com este novo tipo de arma.
O Tenente Aluf Tehete voou com suas máquinas para uma destas frentes de combate. Nem ele, nem nenhum de seus companheiros ainda tinha tido a honra de derrubar algum aparelho inimigo. Os doze aparelhos do grupo de caça 586 foram todos destruídos pelo fogo da frota dos druufs, que avançava com um número de naves nunca visto antes.
Poucos segundos antes da desgraça, o cruzador pesado Osage ainda conseguiu escapar da frente arrasadora dos druufs, graças à ousadia de seu comandante. Os impactos vibratórios destinados a ele resvalavam em seu bojo e se perdiam no espaço.
Duas horas depois do ataque maciço, aliás, após o primeiro embate, a situação já estava mais ou menos clara. Tomaram parte neste ataque cerca de cinco mil unidades dos druufs, mas do funil de descarga brotavam ininterruptamente centenas e centenas de outras naves. Após três horas de combate, Perry Rhodan sabia que, com suas forças em visível inferioridade numérica, não poderia salvar a Terra. Estava iminente um fracasso total. As primeiras naves druufs já achavam-se atacando a base de Plutão, cujo fogo antiaéreo, a princípio, parecia suficiente para afastar os invasores. Mas o planeta não ia resistir por muito tempo a este ataque maciço.
À crua realidade destes fatos, advinha ainda a seguinte pergunta cruel: Será que os druufs não iriam conseguir abrir um outro funil de descarga? Caso isto acontecesse, não se podia mais nem pensar em defesa...
O Coronel Poskanow anunciou a perda de onze cruzadores de seu grupo de caças espaciais. Os caças e os destróieres de três tripulantes, catapultados dos grandes couraçados, não podiam mais retornar à nave-mãe durante os combates que se davam no momento da fuga.
Foi assim que os pilotos receberam a instrução de tentarem romper o cerco cada vez mais fechado dos druufs, para ver se conseguiam chegar até o setor, onde estava a frota sob o comando direto de Rhodan.
Terminada a missão de vigiar os postos mais avançados no espaço, reduziu-se o trecho a ser defendido. Quanto mais se aproximavam do Sol, que era o centro de todo o sistema, tanto mais se encurtava o teatro de operações bélicas.
Rhodan antevia assim melhores possibilidades de defesa. Seus poucos supercouraçados podiam se concentrar melhor e mais rapidamente chegar aos pontos de maior urgência.
Cinco horas após o início da invasão dos druufs, os gigantes terranos entraram em ação pela primeira vez. Eram os supercouraçados de 1.500 metros de diâmetro Hannibal, General Pounder, Barbarossa, Wellington e Alexander, que, depois de uma curta transição, apareceram no meio da enorme confusão para abrir fogo imediatamente.
Somente a Titan, já um tanto envelhecida, e a Drusus ficaram para trás para proteger a retaguarda. Em tempo algum de sua vida, os druufs experimentaram desgraça tão grande. Já conheciam estes gigantes do tipo Império, de outras refregas, mas tão-somente como supernaves robotizadas do Império Arcônida.

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