Ainda
havia tempo de serem tomadas certas medidas de precaução. Se as
belonaves estranhas, esperadas por Poskanow, já estivessem realmente
atravessando a região de superposição, seria então tarde demais
para um rádio às muitas naves em movimento na Via Láctea.
Três
minutos depois da emissão de sua longa mensagem, os aperfeiçoados
rastreadores da Osage já haviam registrado um leve abalo estrutural.
A avaliação automática indicava que a nave, que acabara de fazer
sua transição, devia ser de origem Terrana.
A
transição, que somente poderia ser percebida com instrumentos
especialíssimos, indicava também com toda clareza que a nave, que
havia feito o salto espacial, o fizera sob a proteção de um
aparelho de absorção de freqüências. A série de choques,
obrigatoriamente inerentes à transição, era amortecida pelos
compensadores estruturais. As vibrações destes últimos aparelhos
eram, por sua vez, desviadas para grandes amortecedores. Tornava-se
praticamente impossível perceber a presença de uma espaçonave que
voasse com estes dispositivos avançados, ou mesmo calcular o local
onde estava. Somente os cruzadores dos grupos de caça solares
possuíam rastreadores tão perfeitos assim. Chegavam ao ponto de
poder determinar se a nave era amiga ou inimiga. Era a segunda vez
nesta mesma semana que o couraçado de Poskanow sofria um violento
estremecimento.
Quando as
telas do vídeo começaram a funcionar com mais clareza,
desenharam-se os contornos da imponente Drusus!
Ao
reconhecer a nau capitania da Frota Terrana, o Primeiro-Tenente
Hauer, da Osage, ficou tranqüilo. A Drusus entrava com uma
velocidade fantástica no sistema solar, em cujos limites externos
ela se rematerializou.
Segundos
mais tarde, realizou-se o que Poskanow havia considerado natural.
Espaçonaves do tipo da Drusus possuíam um sistema de rastreamento
tal, que nada lhes podia escapar. Antes mesmo que o chefe do Grupo de
Caça Espacial 16 tivesse oportunidade de chamar o supercouraçado,
os dois receptores da Osage estavam funcionando.
Na grande
tela surgiu o rosto de Rhodan. Os traços largos, que prejudicavam a
nitidez da imagem, eram um sinal evidente de que a Drusus estava
trabalhando com o mínimo possível de energia. Rhodan, portanto, já
devia saber o que havia acontecido nas vizinhanças da Terra.
— Rhodan
para o supercouraçado: — Quem são vocês?
— Supercouraçado
Osage, Grupo de Caças Espaciais dezesseis, falando Coronel Poskanow.
— Ah!
Poskanow, prazer — disse Rhodan. — Suponho que você foi
transferido pelo Marechal Freyt para o extremo setor de defesa, não
é?
— Exatamente,
Sir, pouco antes da partida da Drusus. O senhor foi informado de que
se formou um funil de descarga no setor de Capela?
— Sim,
nós o percebemos antes de iniciarmos a última transição. O
quartel-general foi posto a par disto?
— Há
exatamente dez minutos, Sir. Eu consegui me arriscar a isto, já que,
além do fenômeno, nada mais se manifestou até agora. Meu grupo de
jatos mais avançados, sob o comando do Major Untcher, está voltando
em vôo normal. Por aqui está tudo em ordem.
— Muito
bem. Você será colocado imediatamente sob as ordens do General
Deringhouse. Sua base será em Plutão. Caso os estaleiros de lá e
os depósitos de suprimento forem atacados ou mesmo destruídos,
recue, conforme o Plano Columbus, para situações catastróficas,
para a órbita de Saturno, onde a frota do setor central deverá se
reunir sob meu comando. Aguarde novas instruções e envie pequeno
impulso, se surgirem naves estranhas do funil de descarga.
A imagem
na tela ia ficando cada vez pior, à medida que a Drusus, mais veloz
que a luz, se afastava.
O Coronel
Poskanow estava aterrorizado. Plano Columbus para catástrofe? A
posição galáctica da Terra havia sido descoberta por povos
estranhos!
Afobadamente,
sua voz voltou aos microfones:
— Sir,
devemos esperar por um ataque arcônida?
— Que
loucura! Atlan está do nosso lado. O que você está vendo foi
provocado pelos druufs. Prepare-se para ser inundado, no verdadeiro
sentido da palavra, por belonaves de todos os tipos. Nossa única
chance está em não chamarmos a atenção desta gente. O fenômeno
do funil nas imediações do sol Capela prova que mesmo os
matemáticos dos druufs podem se enganar. Cometeram um engano de
cálculo de, pelo menos, cerca de quarenta e dois anos-luz. A partir
de agora não se deve mais usar abertamente o rádio. Se tiver que
mandar alguma mensagem, só com potência bem reduzida e com grande
concentração de ondas.
Antes que
o rosto de Rhodan desaparecesse totalmente, Poskanow reparou que o
primeiro mandatário do Império Solar estava com um sorriso amargo.
Segundos depois, a ligação foi interrompida.
Embora
Poskanow tivesse pedido aos operadores de rádio que redobrassem sua
vigilância, não conseguiram captar as mensagens do supercouraçado,
que certamente eram transmitidas em rápida sucessão. Isto provava
que a técnica de concentrar as ondas transmitidas impedia-as de
serem descobertas. Um rastreamento só seria possível se, por um
infeliz acaso, uma espaçonave estrangeira entrasse na mesma faixa de
onda. Poskanow estava resolvido a tomar todas as medidas de
segurança. As Galáxias eram um espaço muito grande e 42 anos-luz
também significavam alguma coisa. Com um pouco de sorte e de
inteligência, podiam passar sem serem descobertos.
Poskanow
sentiu um calafrio ao pensar na frota gigantesca dos druufs, os
descendentes de insetos. Perto da frente de bloqueio, tinha
presenciado pessoalmente como e com que fúria eles atacavam.
— Tudo,
menos isto — balbuciou e, em voz alta, prosseguiu: — Hauer,
informe os comandantes das diversas naves das recomendações de
Rhodan. Mas preste muita atenção para que nenhum impulso lhe escape
dos raios direcionais.
O
oficial-ajudante olhou para os armários, onde estavam dependurados
os uniformes espaciais. Poskanow compreendeu.
— Ainda
não — determinou ele. — Ainda temos algum tempo, vamos dizer,
uns momentos de descanso. Vou...
Uma
mensagem da central de rádio interrompeu o chefe do grupo. Os
alto-falantes chamavam.
— Diversas
mensagens chegam da Terra — disse o responsável pelo rádio. —
Mais de quarenta delas, até o momento. Os rastreadores mostram que
se destinam a todos os setores. As espaçonaves que se encontram fora
do sistema solar recebem ordem de não decolarem e de não usarem o
rádio. O tráfego comercial fica totalmente cancelado. Os cruzadores
de vigilância da frota externa recebem ordens especiais. Há um
intenso movimento, major. Puxa vida! O quartel-general age rápido e
com determinação.
Poskanow
preferiu ficar calado. Seus traços fisionômicos indicavam a
seriedade do momento. A tela se apagou. Depois de transmitida toda a
mensagem aos comandantes das unidades e confirmada sua recepção, o
chefe do grupo de caças ficou mais tranqüilo. Tinha a consciência
de que se fizera tudo que era humanamente possível.
Esta
constatação elevou o moral de Poskanow. O coronel sentou-se à sua
mesa de comando e entrou em contato com o comandante da Osage. O
Primeiro-Tenente Hauer não tinha mãos a medir, para responder com
precisão, conforme a ordem de serviço, às mensagens decifradas
sobre assuntos estratégicos, que chegavam sem cessar. O coronel
esperou uns instantes, até que Hauer, cansado, se recostou na
poltrona. Atrás deles roncavam os pesados rastreadores estruturais
do couraçado. O ruído estava mais uniforme, sinal de que o
conhecido funil de descarga se estabilizava cada vez mais. Talvez já
estaria se realizando mesmo uma troca de energia entre os dois
universos.
— Estou
contente por Rhodan já estar em casa — disse Poskanow, em voz
baixa. — Isto vai ajudar a elevar o moral da frota e apressar a
tomada de importantes medidas de defesa. Hauer, tenho o
pressentimento de que estamos às vésperas de uma guerra cósmica.
Tudo que fizemos até agora, não foi nada em comparação com o que
está para vir. Até hoje, todos os empreendimentos e ações de
comando não passaram relativamente de escaramuças, sem a menor
importância.
O
comandante assoou o nariz estrepitosamente, dobrando depois com
cuidado o lenço antiquado, enfiando-o no bolso interno do casaco do
uniforme. Poskanow parecia mais feliz. Hauer era um oficial
formidável, só que, de vez em quando, parecia um pouco cerimonioso.
Mas isto desaparecia tão logo ele tivesse de tomar decisões
importantes para sua nave. Nestes momentos então, sua reação era
fulminante e precisa.
— Senhor
— disse ele, finalmente — não terei nenhum prazer em dar ordem
de abrir fogo, mas, se for necessário, não hesitarei um segundo.
Poskanow
percebeu que, com estas palavras, estava expresso o pensamento de
todos os homens das naves terranas. Esboçava-se, nos confins do
espaço interestelar, uma ameaça de morte e de extermínio da
Humanidade. Seres estranhos, que não pertenciam às raças
humanóides, achavam-se em vias de atacar o espaço vital de outros
povos.
No seu
íntimo, Poskanow estava em perfeito e sereno equilíbrio, pensando,
com toda razão, que iria agir somente numa batalha inevitável e num
caso de legítima defesa. Fazia-lhe muito bem deixar bem claros na
cabeça estes pensamentos.
— Ninguém
quer a guerra, ninguém se alegra com ela. Por que então ela
aparece? — perguntou a si mesmo. — Não tenho nenhum prazer em
atirar em outras inteligências. E, Deus me perdoe, mas possuímos
uma infinidade de instrumentos de destruição. Será que aqueles
seres a quem chamamos de druufs sabem disso?
— Eles
sabem disso, senhor — respondeu Hauer, calmo. Suas mãos espalmadas
se agarraram no espaldar da poltrona, parecendo querer evitar uma
queda. — Eles sabem disso — repetiu. E seus olhos não se
desgarravam das telas da grande galeria.
Bilhões
de estrelas da Via Láctea refulgiam como sempre. Jamais o espaço
parecera mais vazio e tranqüilo do que naqueles momentos.
*
* *
O encontro
decisivo entre os oficiais da Frota e os da Defesa Solar, para
discussão da situação, teve lugar em meados de maio de 2.044, no
profundo abrigo antiaéreo do quartel-general do Comando Supremo. As
gigantescas instalações subterrâneas foram construídas
expressamente para que, no caso Columbus, pudessem proporcionar o
máximo em medidas de segurança.
Os centros
de comando, com suas enormes instalações automatizadas e
caríssimas, obra de muitos decênios de sérios trabalhos, formavam
a célula central do Império Solar, do qual o Almirante Atlan dizia
ironicamente não ser mais do que “uma
caverna de trogloditas”,
em comparação com os elevados padrões arcônidas.
Mas Perry
Rhodan e outros homens de importância da Terra tinham uma outra
opinião...
Os planos,
já há muito tempo preparados pelos melhores cientistas e
estrategistas da Terra, constantemente renovados e atualizados com a
ciência e a tecnologia mais avançada do momento, foram novamente
avaliados no curto espaço de duas horas.
Se não
tivesse havido esta previsão miraculosa de conservar o plano
Columbus sempre atualizado, com a máxima noção de
responsabilidade, mesmo nos menores e aparentemente supérfluos
detalhes, o tão jovem Império Solar estaria agora diante do mais
completo caos.
Assim que
Rhodan chegou, entraram em vigor as normas de emergência.
Computadores especiais transmitiam os impulsos, programados há
muitos anos, para as gigantescas instalações industriais da Terra,
todas automatizadas. A produção normal, feita durante o tempo de
paz, iria terminar dentro de trinta minutos. Novos dados para
produção maciça e em série foram transmitidos aos técnicos e
diretores responsáveis.
Os grandes
parques industriais da Terra, planejados para esta eventualidade, se
adaptaram prontamente à nova situação. A matéria-prima acumulada
há muito tempo, reservada exclusivamente para esta emergência, foi
retirada dos grandes silos e transportada para os pátios das
fábricas.
Ninguém
nas três Américas, na Europa, na Ásia ou na Austrália e nas
regiões povoadas dos Pólos, precisava nesta hora vital de um plano
ou de instruções especiais. Todos estavam, há muito, cientes de
suas ações.
O denodado
trabalho dos últimos decênios agora começava a aparecer. Tudo
corria harmoniosamente dentro dos planos já traçados; corria como
que lubrificado pelo óleo de uma racionalização previdente e de
uma Humanidade educada para a cooperação.
O
Ministério do Planejamento em Terrânia teve muito pouco trabalho em
responder a algumas perguntas. Cada qual sabia o que devia fazer.
A
convocação dos reservistas da Força Espacial foi feita em pouco
tempo. Os grandes transportes das linhas aéreas terranas conduziam
as tripulações para os conhecidos espaçoportos.
Em tempo
algum da História da Humanidade se viu coisa semelhante. Uma
organização perfeita. A base da Lua começou a trabalhar a todo
vapor. Principalmente os aparelhos menores e rápidos dos tipos de
caça, destróieres, gazelas e space-jets, passavam pelas instalações
de controle.
A Terra
estava bem armada — bem armada mesmo — em unidades pequenas e
médias. Neste particular, não estava muito atrás do Império
Arcônida, apenas a Terra não conseguia ainda fabricar assim em
série os grandes cruzadores. A construção de um couraçado de 500
metros de diâmetro levava anos. E um supercouraçado tipo Império,
apesar de toda racionalização e automatização, demorava, no
mínimo, 12 anos. Com as instalações gigantescas de Árcon, um
aparelho destes poderia ser feito em 5 meses.
Rhodan,
que estava a par da produção terrana, conhecia bem as limitações
de sua grande Terra. Sabia dos recursos de que podia dispor. Os
pequenos e rápidos aparelhos podiam causar muito prejuízo aos
inimigos, mas não iriam decidir uma guerra. Faltavam a estas
pequenas naves os armamentos pesados e superpesados, que só podiam
ser instalados nos gigantes do espaço. Faltavam à Terra
principalmente as grandes espaçonaves de transporte, sem as quais
seria impossível levar centenas e centenas de caças e rápidos
destróieres, de uma só vez, de curto raio de ação, para os
longínquos teatros de guerra no espaço.
Os novos
cruzadores de 100 metros não tinham grande poder de ataque. A Terra
nunca esteve interessada em atacar outros povos ou em subjugá-los.
Daí a razão por que as naves construídas até então estavam
insuficientemente preparadas para a atual emergência. Os novos
cruzadores de 100 metros eram naves de reconhecimento, destinadas a
grandes velocidades para operações de sondagens.
Foram
estes os assuntos tratados na grande reunião da segurança terrana.
Ninguém sobreestimava a força da Terra e ninguém pretendia que os
habitantes da Terra fossem os mais aguerridos de todo o Universo.
Dentro
destas condições, chegou-se a um plano de defesa muito meticuloso e
cheio de responsabilidade para os terranos. Todas as unidades
disponíveis da frota foram distribuídas, os respectivos
comandantes, determinados. E todas as outras naves que estavam fora
do sistema solar foram chamadas de volta.
Não havia
dúvida de que o aparecimento de um funil de descarga druuf tinha
colocado a Terra, de repente, numa situação desagradável. Rhodan
não se aventurou a mudar o estado de coisas com golpes de surpresa
ou pela intervenção dos mutantes. Qualquer passo impensado poderia
provocar uma catástrofe.
A
população dos planetas habitados recebia informações da Terra
através da televisão. Abriram-se as portas blindadas do abrigo
subterrâneo e as esteiras rolantes do abastecimento começaram a
funcionar. Gêneros alimentícios armazenados e bens de consumo de
toda espécie foram levados para os abrigos antiatômicos.
O trânsito
nas grandes cidades da Terra quase que parou!
Cinco
horas depois da chegada de Rhodan ao espaçoporto de Terrânia, o
planeta parecia uma fortaleza abandonada. A partir daí, toda a vida
humana se concentrava apenas nos subterrâneos. Somente aqueles que
tinham obrigações indispensáveis, tinham autorização para
permanecerem fora.
Milhares
de caças, destróieres e pequenos discos voadores cortavam os céus
em todos os sentidos. Os grupos mais pesados da Frota Terrana estavam
assumindo as posições já bem calculadas.
Isto tudo
aconteceu antes que a primeira espaçonave druuf cruzasse a fenda
cintilante do funil de descarga.
*
* *
Os
relógios eletrônicos no Comando Supremo da Frota marcavam onze
horas da noite. A conferência ainda não terminara. As primeiras
avaliações sobre a natureza dos fenômenos da região de descarga
já estavam prontas.
Crest, o
velho arcônida, pediu para falar com Rhodan. Os resultados,
apresentados de forma objetiva, mas de qualquer maneira assustadora,
davam o que a pobre Humanidade ainda tinha que esperar.
Além das
questões com a defesa, surgiu um problema que o cientista Crest
descreveu assim:
— Com os
meios que nos estão à disposição, não pode ser constatado se a
existência de um funil de descarga, que permanece estável, é algo
intencional ou casual. A experiência demonstra que tais formações
energéticas têm uma duração relativamente curta, caso sejam
conseqüência de superposição natural. Já que, há oito horas e
num crescendo contínuo e uniforme, a zona descoberta por nós liga
os dois planos temporais, pode-se admitir que os druufs conseguiram,
com uma base artificial, criar a transição. Aponto aqui para o jogo
de espelhos, por nós inventado e utilizado, que possibilita
igualmente a entrada para outros tipos de espaços. Temos de admitir
que os druufs também puderam chegar a uma descoberta semelhante ou
melhor. No interesse da defesa, é conveniente que aceitemos como
real a existência desse invento perigoso.
Também
eram estas as idéias que os mais eminentes matemáticos da Terra
conseguiram depreender.
A partir
de então, diante da possibilidade do aparecimento de outras zonas de
descarga, o estado-maior do Império Solar resolveu tomar todas as
providências. Foi Reginald Bell quem resumiu em poucas palavras os
fatos inquietadores:
— De um
só funil de descarga ainda podemos dar conta, mas mais de um, não.
Pois se tivermos que lutar em várias frentes de combate, seremos
obrigados a dividir nossas forças. Isto significaria a derrota da
Terra. Como seria uma grande loucura confiarmos no acaso, solicito o
envio imediato do já previsto e preparado radiograma urgentíssimo
de calamidade, destinado a Atlan.
Marechal
Freyt ficou perplexo. Allan D. Mercant não deixou transparecer
nenhuma emoção maior. Rhodan cruzou os braços nas costas e
caminhou, ao longo da enorme parede da tela panorâmica. Depois de
alguns minutos, parou de novo diante da mesa dos mapas.
— Radiograma
para Atlan? Muito bem, mas só em último caso. Para Atlan nos poder
ajudar, terá que nos mandar seus grandes aparelhos. Isto quer dizer
que ele estará obrigado a tornar pública a posição da Terra, ou
então suas naves jamais chegarão até aqui. A partir deste momento,
o caminho para a Terra estaria franqueado a todos os seres
inteligentes da Via Láctea. Acabaria assim nosso longo e necessário
jogo de esconder.
— Chegará
o dia em que teremos que botar as cartas na mesa — interveio
Mercant.
— Não
há dúvida, chegará este dia. Tenho, porém, a intenção de
continuar “escondendo”
o tempo que nos for possível. Estamos ainda demasiadamente fracos
para agüentar abertamente o jogo com os povos galácticos, meu amigo
Mercant — Rhodan fez uma pausa proposital. — Mercant, temos de
tentar botar por água abaixo os planos dos druufs, com os meios que
estão ao nosso alcance. Mande-me, por favor, John Marshall.
O chefe da
defesa tinha lá suas dúvidas. Acreditava que os mutantes não
teriam nenhuma chance num caso destes.
Quando ele
se levantou, ocorreu o que todos aguardavam já há várias horas.
Uma das telas se acendeu, surgindo bem reconhecível o rosto do Major
Abucot.
— Central
de Rádio da Defesa — identificou-se ele. — Sir, acabamos de
decifrar uma curta mensagem da frota de vanguarda. No mencionado
funil de descarga, estão aparecendo as primeiras espaçonaves. O
Major Poskanow já conseguiu avistar vários corpos estranhos. Chegam
cada vez mais. De acordo com os cálculos dos nossos instrumentos de
medição, nenhum deles tem menos de duzentos metros. Estamos,
portanto, diante de grandes unidades.
Marechal
Freyt passou o dedo nervoso entre o colarinho e o pescoço. Reginald
Bell tinha um sorriso amargo.
— Obrigado
— interrompeu a voz de Rhodan o pesado silêncio. — Chame-me
assim que tiver outras notícias. Mas não por causa de uma única
nave. Agrupe-as, vamos dizer, em lotes de cem.
Abucot
desligou. Havia compreendido a intenção de Rhodan.
— Sua
idéia é boa — disse Bell irônico. — De cem para cima, não é?
Quantos encouraçados druufs você está esperando?
— Conforme
as experiências na frente do bloqueio arcônida, o primeiro ataque
será feito com cinco mil aparelhos. Se forem rechaçados, voltarão
depois com dez mil.
Marechal
Freyt procurou uma cadeira. Rhodan recomeçou seu vaivém ao longo da
parede das grandes telas, dizendo para si mesmo:
— Tudo
vai depender se eles vão ou não vão nos achar. Acho que estão
tomando o sistema Capela como se fosse o nosso sistema solar. Vamos
deixá-los nesta crença. Mercant, traga-me finalmente John Marshall
e me prepare uma missão especial para os mutantes. Tenho um bom
plano.
O chefe da
defesa retirou-se. Antes que entrasse no elevador, Rhodan ainda lhe
disse:
— Nossa
base em Hades ainda não se manifestou?
Mercant
abanou a cabeça.
— Não.
O cruzador ligeiro Nippon está, porém, diante da frente de bloqueio
arcônida. A ligação com Hades continua normal. Estou aguardando
informações a qualquer hora.
— Elas
não podem ser transmitidas pelo rádio. Você explicou isto ao
comandante?
— Naturalmente,
Sir. Em caso de necessidade, o Major Matsuro terminará sua transição
nas proximidades da Terra. Já tomamos as providências para absorver
as ondas de superchoque. Até lá, se formos descobertos, chamarei
então Matsuro, pois, neste momento, não terá mais nenhuma
importância o rádio ser ou não captado.
Rhodan,
preocupado, acompanhou com os olhos o chefe da segurança da Terra.
Tudo estava dependendo de não se cometer nenhum erro.
4
O Estrela
da Terra, um velho cruzador tipo normal, transformado depois em nave
de carga e de passageiros, partira do espaçoporto intercósmico do
planeta central do sistema Vega, no dia 16 de maio, às 14 horas e 32
minutos, em vôo normal de carreira.
O Estrela
da Terra estava voando, há muitos anos, na linha normal entre os
sistemas planetários de Vega e do Sol, tendo em vista que, devido às
intensas relações comerciais entre os homens e os ferrônios, o
tráfego de passageiros havia aumentado muito.
Seu
comandante era o Capitão Carl Lister, ex-astronauta da Frota
Terrana. Lister era tido como um homem corajoso, de muita iniciativa
e muito agradável no convívio com tripulantes e passageiros. Por
ser de estatura avantajada e por sua grande sociabilidade com todos,
era realmente um comandante ideal para uma espaçonave da frota
comercial.
A carreira
militar de Lister, no entanto, não foi muito feliz. Nunca conseguiu
de fato conquistar a benevolência de seus superiores. Entre seus
companheiros, passava simplesmente por um terrível azarento, para
quem tudo corria mal nos momentos decisivos. Foi assim que Lister
achou melhor se afastar da Frota Espacial. Desde então passou a
comandar o velho Estrela da Terra.
Já há
seis anos neste serviço, sem lhe haver ocorrido nenhum contratempo,
muito menos um acidente sério, Lister tinha pois toda razão em
pensar que o azar o havia completamente esquecido.
Mas o
destino quis que, exatamente quando ele já não mais se recordava da
série de complicações e acidentes, quando ele fazia tudo para
andar na linha e ser correto, que exatamente neste momento, os velhos
tempos fossem revividos.
Lister
tinha feito sua refeição com os passageiros no salão da primeira
classe, soltara naturalmente algumas piadas galantes e já bem gastas
e, por fim, até permitiu que um rapaz de seus dezoito anos fosse
visitar o salão de máquinas da velha nave.
Um quarto
de hora mais tarde, já estavam prontos os cálculos para o salto e o
Estrela da Terra iniciou a transição. Lister venceu 27 anos-luz num
único salto. Achava uma coisa sem sentido castigar os passageiros
duas vezes com transições sucessivas.
Estaria
tudo certo, se Carl Lister não tivesse aparecido na dimensão
superior, exatamente no momento em que a grande estação
transmissora de Terrânia estava mandando para o espaço cósmico uma
advertência dirigida especialmente a ele. Entretanto o Capitão
Lister não pôde ouvir as importantes ordens.
Quando sua
nave se rematerializou a sete horas-luz antes de Plutão, a
transmissão já tinha terminado. Desta maneira, o Estrela da Terra
continuou tranqüilo sua rota na direção do sistema solar com
oitenta por cento da velocidade da luz.
Plutão
estava no outro lado do Sol. Seguindo as normas de segurança, Lister
reduziu ainda mais sua velocidade. E com apenas setenta por cento da
velocidade da luz, foi levando sua velha espaçonave na rota certa.
Mas não demorou muito para que a conhecida má sorte do
experimentado capitão voltasse a se manifestar. Quando as primeiras
naves dos druufs estavam saindo do funil de descarga, Lister resolveu
comunicar sua chegada à Terra através de hiper-rádio.
Enviou um
radiograma longo, com ondas pouco concentradas. Nessa mensagem falava
até que o soberano de Ferrol estava quase à morte. Lister achava
que esta notícia era muito importante para explaná-la com muitos
detalhes. E tudo isto em linguagem decifrada, na freqüência de uso
normal nas comunicações comerciais.
Mesmo isto
seria tolerável, se o Estrela da Terra não estivesse saindo do
hiper-espaço diretamente de encontro ao funil de descarga. Assim
aconteceu que o amplo feixe de ondas atingiu a Terra, mas dali
continuou em linha reta para o sistema Capela.
Depois de
estar telegrafando uns vinte segundos, ouviu um grande ruído no
receptor do hiper-rádio de bordo, vendo ao mesmo tempo na tela o
semblante furioso de um major terrano.
— Você
ficou louco? — ouviu-se com toda força nos alto-falantes. — Pare
imediatamente com seu rádio. Desligue, seu maluco. Está em vigor o
caso Columbus. Terei que colocá-lo diante de uma corte marcial. Não
transmita mais nada. Você está transmitindo para Capela...
Com isto,
a mensagem foi interrompida. O Capitão Lister estava branco como
cera.
Como fazia
sempre, estava de pé na cabina de rádio, para controlar
pessoalmente a transmissão de suas ordens. Lister puxou as mãos do
telegrafista, que, estupefato, ficou olhando para ele. Naturalmente,
todos sabiam o que significava a expressão caso Columbus.
— Santo
Deus! — suspirou o pobre telegrafista. — Terrânia deve ter
comunicado o que está se passando ou, pelo menos, deve ter dado o
alarme habitual...
— ...quando
estávamos efetuando a transição — completou Lister, assustado.
Tinha
compreendido o erro que havia cometido. Sabia também agora que o
perigo vinha do sistema Capela.
Sem perder
tempo com qualquer palavra inútil, virou-se para trás e, devagar,
como se estivesse acordando naquele instante, dirigiu-se para a
central de comando.
A novidade
se espalhou num instante e os homens atônitos olhavam para seu
comandante, que, pálido e de olhos parados, perscrutava o espaço.
Lister
parecia um sonâmbulo. A idéia de ter cometido uma traição, mesmo
sem o querer, o afogava num mar de tristeza. Como era cruel seu
destino de ter que passar sempre por um homem errado. Gostaria de
gritar ou chorar, mas não conseguia emitir nenhum som, tão secos
estavam seus lábios. Seu corpo pesado parecia o de um animal
mortalmente ferido, em busca da toca salvadora. Nada lhe seria
poupado, teria de sofrer as conseqüências de sua má sorte, além
dos remorsos que lhe ficariam na alma.
Lá fora,
ao lado da central de comando, estavam alguns passageiros. O
segundo-oficial do Estrela da Terra, encarregado dos serviços
normais a bordo, estava explicando a um grupo de passageiros, com
termos rebuscados e conceitos supercientíficos, as vantagens de uma
eclusa de divisões transversais.
Lister
sentiu que alguém o agarrava pelo braço. Era a senhora Nattan,
esposa do diretor das minas da General Cosmic, residente em Ferrol,
que dava expansão ao seu explosivo entusiasmo.
— Oh!
Meu querido capitão, que coisa fenomenal! Nem sabia que isto existe.
Estou vendo que esta nave é uma maravilha, e como tudo isto funciona
encantadoramente.
Carl
Lister esboçava um sorriso forçado.
— Naturalmente,
minha senhora, tudo aqui funciona.
O
gargalhar estridente da velha senhora o irritou mais ainda. Mas teve
de ouvir até o fim aquela avalanche de palavras bobas, até que foi
obrigado a responder a uma pergunta:
— Mas,
capitão, o senhor está muito pálido! Não está se sentindo bem?
— É...
é por causa do vôo, um rapaz tão jovem como eu está muito sujeito
ao enjôo do espaço, não é?
Quando
fechou atrás de si a porta de seu camarote, o Capitão Lister
cambaleava. Muito abatido, deixou-se cair em seu beliche, para ficar
de olhos perdidos no forro do camarote.
“Você
ficou louco?... Desligue, seu maluco... Caso Columbus... Corte
marcial... Capela... pare com a porcaria de seu rádio...!”
Tudo isto
estava martelando seu cérebro. Maldito o dia em que, pela primeira
vez, transpôs os degraus da Academia Espacial.
*
* *
Apenas
alguns poucos homens poderiam compreender a finalidade daquele
estranho instrumento. Ao invés das curvas de medição, usadas
convencionalmente nos cérebros positrônicos da Terra e dos
registros de comando eletromagnético, este aparelho vomitava
símbolos geométricos terrivelmente confusos.
Por
dentro, o aparelho não se diferenciava muito dos outros, construídos
por seres vivos humanóides. Os princípios da matemática eram
válidos também para as inteligências estranhas, não humanas. Em
consonância com estes princípios básicos da matemática, possuíam
somente a possibilidade de ligar os diversos circuitos e de regular
de tal modo os coletores finais escalonados, que os resultados
obtidos podiam ser reconhecidos de outra forma.
Mas, tudo
isto eram exterioridades de somenos importância. Capital mesmo era o
fato de que existia uma segurança de funcionamento fora do comum.
A
aterrorizante luz vermelha do espaço se espelhava nos grandes olhos
de um monstruoso ser vivo. Ali, ele estava inerte diante da máquina
que trabalhava com um zunido constante, até que os últimos sinais
fossem reconhecidos.
Um som
superagudo, numa amplitude de freqüência de mais ou menos duzentos
mil hertz, podia ser captado pelas antenas orgânicas que os corpos
dos druufs possuíam.
Pisando
firme, o gigante druuf de três metros de altura passou pela porta
aberta. No interior do recinto reconhecia-se uma grande tela oval e
uma quantidade de instrumentos de todas as formas. Cabeças esféricas
com bocas triangulares sem lábios e de olhos fosforescentes se
viraram para aquele que estava entrando. Era uma cópia fiel das
profundezas do inferno. Um ser humano não ouviria nenhuma palavra e,
no entanto, todos estavam falando. Impulsos ultra-elevados
substituíam os movimentos da boca para formar palavras. As antenas
invisíveis de seus corpos captavam as vibrações, para levá-las ao
cérebro a fim de serem identificadas.
Mas estes
descendentes dos insetos, vindos de um plano temporal que não tinha
nada em comum com o restante Universo, não eram totalmente
incompreensíveis...
O diálogo
mudo entre os matemáticos e os oficiais do comprido aparelho bélico
se deu quinze minutos depois do registro do estranho radiograma. Foi
o tempo necessário para os druufs realizarem a localização do
ponto de onde partira o rádio. Outras máquinas de cálculo estavam
em funcionamento. Numa tela arredondada, viam-se as estrelas daquele
setor do espaço, que circundava o funil de descarga.
Os
surpreendentemente finos dedos do druuf apontaram para um trecho onde
as quatro linhas goniométricas se cruzavam. Neste local havia uma
estrela de clarão amarelado, porém de muito pequeno tamanho.
O ribombar
cavernoso dos motores de propulsão aumentou de intensidade. A nave
começou a se mover. Ao mesmo tempo, chegaram as primeiras
informações. Neste exato instante, um grupo de quinhentas naves
estava transpondo a fenda na região da superposição. Na tela da
nave capitânia, a cabeça redonda de um druuf brilhava. Comunicou
mais ou menos o seguinte:
— Resultado
da radiogoniometria. Vejam depois e confiram. Seguirei assim que a
localização estiver bem conhecida.
As
quinhentas grandes belonaves desapareceram. Aconteceu naturalmente o
que os cientistas da Terra chamam de mergulho na quinta dimensão.
A técnica
de hipervôo dos druufs, ao contrário do método básico dos
arcônidas, se baseava no curso linear, sob a influência do espaço
de cinco dimensões. Era um vôo liso,
sem saltos constantes. Neste sentido, os druufs eram muito superiores
aos demais seres vivos, cujos mecanismos de propulsão seguiam os
moldes e a experiência dos arcônidas.
A frota
desapareceu com uma onda de choque estrutural curta e muito lisa,
rumando para o espaço superior. Não houve propriamente nem
desmaterialização, como nas naves terranas, nem processos dolorosos
de dissolução e perda total dos sentidos.
Voavam a
uma velocidade milhares de vezes superior à da luz, em direção
daquele ponto de onde haviam recebido o hiper-rádio. A orientação
foi de fato perfeita e eles estavam no sentido certo...
Só um
ponto lhes estava um pouco obscuro. Não sabiam se os sinais rítmicos
provinham dos procurados terranos ou de qualquer nave comercial, que
por acaso passasse por ali, talvez de raça desconhecida. Caso
desvendassem tal ponto, estaria comprovada a alta técnica de sua
radiogoniometria. Entretanto não conseguiriam por vias científicas
nenhum resultado prático.
De
qualquer maneira era necessário olhar o que se passava em volta
deste solzinho de terceira categoria. De acordo com as concepções
dos druufs, que, fiéis à sua mentalidade, julgavam tudo em escalas
de enormes proporções, parecia excluído, impossível mesmo, que
uma raça tão importante como a dos terranos vivesse e crescesse sob
a luz de um sol tão fraco.
A nau
capitânia da frota druuf rumou direto para Capela. Porém, nos
planetas desse sol, não podia haver condições de vida. Foi dada
então a ordem de se reunirem. Duas mil unidades, que, a cada hora,
conforme os planos dos druufs, recebiam um reforço de mais
quinhentas naves, se agruparam nas proximidades do sistema Capela.
Enquanto isto, o comandante druuf estava ocupado com o pensamento de
mandar dar uma busca rigorosa nos sóis em volta, dentro de um raio
de ação de pelo menos cinqüenta anos-luz. Os matemáticos druufs
não poderiam de maneira alguma ter se enganado tanto assim. Mas de
qualquer maneira, era bom olhar um pouco em volta.
O
comandante supremo da frota resolveu então aguardar o resultado das
pesquisas. Tinham bastante tempo. Além disso, durante esta
exploração, poderiam confeccionar mapas siderais tentando localizar
a frente de bloqueio dos terranos entre estas estrelas da Galáxia.
Estes
seres esquisitos do segundo plano temporal haviam feito cálculos
maravilhosos sobre tudo, esquecendo-se apenas de calcular o
patriotismo dos terranos e sua vontade de resistir. O chefe dos
druufs também não suspeitava que sua infinidade de naves já havia
sido localizada. O decisivo seria agora o potencial bélico,
especialmente em grandes encouraçados. Assim o chefe druuf não
precisava se preocupar se já tinha ou não sido visto pelos
terranos. Seu potencial bélico era berrantemente superior. Uma
descoberta prematura poderia significar, no máximo, uma pequena
dificuldade para os planos druufs. Mas uma pequena dificuldade não
ia atrasar a vitória dos seres de Druufon.
Os druufs
tinham é que ter paciência e saber esperar. Do funil artificial de
descarga saía uma esquadrilha depois da outra. Não podiam se expor
sem necessidade. Afinal de contas, estavam penetrando num Universo
estranho, cujo tempo natural corria duas vezes mais rápido que o do
segundo plano. O comandante druuf estava a par de tudo isto. Sabia
que suas naves teriam apenas a metade da velocidade que as do
adversário. Quando se conhece, porém, o perigo, tem-se muito mais
possibilidade de evitá-lo. E os druufs tinham a intenção de
superar tal inferioridade através do potencial mirabolante de suas
enormes espaçonaves, armadas até os dentes.
Esta
tática já dera bons resultados na linha de bloqueio contra os
arcônidas. Para o sucesso de todo o plano, era necessário apenas
impedir o acesso da frota arcônida, que eles conheciam de sobra. A
Terra seria derrotada e estaria aberta uma nova frente de combate nas
costas dos arcônidas. Assim que terminasse esta primeira fase de
seus planos, a estratégia toda se modificaria, de uma hora para
outra.
5
O Tenente
Aluf Tehete, comandante do grupo de Caça 586, da esquadra RJV-64,
pertencia ao número dos primeiros oficiais terranos que atacou, num
vôo rasante, com seu caça de um só tripulante, de velocidade
superior à da luz, a densa falange de reconhecimento das naves
druufs.
O caça de
Tehete não era nada mais que um projétil de 15 metros de
comprimento e de um e meio de diâmetro, cujo espaço interno era
ocupado 90 por cento pelo conjunto compacto de propulsão de alta
potência. Possuía ainda um canhão de impulso embutido, de grande
alcance. Quando este canhão atirava, o piloto tinha a impressão de
que toda a fuselagem explodiria junto, reduzindo tudo a poeira, no
espaço.
Seus
envoltórios de proteção eram frágeis demais. Mas mais lamentável
ainda foi o espaço diminuto que os construtores deixaram para o
piloto. Tehete estava espremido num banquinho redondo, bem rente ao
nariz agudo do aparelho, que coincidia com a boca do canhão. Não
deixava de ser uma temeridade colocar rapazes corajosos para lutar em
tais condições.
No
entanto, estes jovens estavam entusiasmados e não tinham inveja dos
homens que desempenhavam suas funções em grandes aparelhos com
todos os recursos. A vida de piloto de caça tinha que ser assim
mesmo. Viam e ouviam tudo que se passava no espaço e não precisavam
esperar por uma ordem de fogo. Eles é que tinham de decidir quando
deviam atacar e o que deviam fazer para salvar a vida.
Tehete
levou sua esquadrilha para a frente de ataque druuf, assim os
cruzadores rápidos do RJV-64 perceberam a invasão do inimigo no
espaço normal da Terra. Do seu lado direito, Tehete tinha a alavanca
do comando dos impulsos, que dava ao aparelho um domínio maravilhoso
de controle energético para manobras rapidíssimas, manobras estas
que, alguns minutos depois, haveriam de deixar os druufs de boca
aberta.
O primeiro
combate na luta em defesa do Império Solar se desenrolou
exclusivamente entre os grupos de caça da Terra e as unidades de
reconhecimento dos druufs. Nenhum grande couraçado da Frota Terrana
participou deste embate. O choque deu-se muito depressa e não houve
tempo para o deslocamento dos aparelhos maiores.
Os ágeis
caças terranos, ou “vespas”,
como eram chamados, obtiveram seu primeiro sucesso, exatamente pelo
fator surpresa. Equipados com enormes canhões que, em geral, somente
se instalam em aparelhos de pelo menos 500 metros, produziram um
verdadeiro furacão atômico entre os druufs e no curto espaço de
sete minutos destruíram 85 por cento de seus pequenos cruzadores de
reconhecimento.
O Tenente
Tehete estava pensando em sua pátria, no Oeste Africano, quando
apoiou a mão na alavanca de comando dos impulsos, que controlava os
tiros do canhão. Na tela de 30 centímetros de diâmetro, totalmente
automatizada, brilhavam os contornos bem delineados de uma espaçonave
alongada, tipo charuto. A lâmpada verde do goniômetro piscava sem
cessar. Por aí se podia saber que o objeto descoberto não era uma
nave terrana. As ligas metálicas empregadas eram diferentes e os
impulsos eram muito diversos dos terranos.
Aluf
constatou que o druuf que voava na frente dele tinha apenas a metade
da velocidade da luz. Portanto, estavam certos os dados de que havia
uma diferença de tempo de um para dois. Naturalmente a maior
velocidade representava uma grande vantagem. Maior vantagem ainda
eram as dimensões reduzidas de sua pequena nave, que, no meio do
espaço infinito, mal era reconhecida.
Assim,
continuou no rumo certo, até que o dispositivo automático lhe
indicou a distância de apenas trezentos mil quilômetros —
distância ideal para o canhão do pequeno caça. Era suficientemente
grande para a própria segurança e ainda contava com 95 por cento da
possibilidade de atingir o alvo. O ângulo de correção era mínimo
e os raios energéticos atingiriam o objetivo em um segundo.
Quando os
contornos da nave inimiga, depois das manobras de pontaria de
controle automático e positrônico, entraram no círculo verde da
mira, Tehete comprimiu o botão de disparo. Seu aparelho estava numa
velocidade quase idêntica à da luz. Diante da proa do aparelho, se
formou a bola cósmica da micromatéria, que normalmente não é
visível. A compressão ali provocada não era nada simpática aos
pilotos de caça, pois os impulsos energéticos do projétil ao
explodir provocavam um clarão de sol, que naturalmente poderia trair
sua posição no espaço. Sempre havia naves inimigas por perto. Se
não houvesse esta explosão luminosa, os disparos energéticos
jamais seriam percebidos.
Tehete
sentiu o bruto contrachoque de seu aparelho. Diante dele se levantou
a chama branca, formando uma bola de fogo de onde saiu um raio
energético de uns dez metros de comprimento. Depois disso,
desapareceu completamente nas profundezas do espaço. No entanto ele
estava ali, apenas não podia ser visto devido à ausência do meio
material.
Terrivelmente
ofuscado, o comandante do grupo tirou o aparelho da direção em que
ia, pois sua velocidade era quase idêntica à do raio energético,
portanto não podia continuar na mesma rota. Quando Tehete, a apenas
dez mil quilômetros da nave dos druufs, deu uma guinada para outra
direção, abaixo dele se formou uma bola de fogo. O rastreador
energético registrava a explosão de forte carga atômica. O jovem
terrano se sentiu orgulhoso, sabia que o primeiro aparelho abatido
nesta guerra era um feito dele. Seu grito de alegria assustou os
telegrafistas da nave capitânia do RJV-64. Mas não foi apenas o
urro que os operadores do rádio tiveram de ouvir, parecia mesmo uma
transmissão especial em hiperfreqüência, vinda dos fundos do
inferno.
Os pilotos
eram jovens demais e não podiam ter muita experiência de luta para
receberem seus primeiros triunfos com ânimo mais calmo. Precisavam
de reconhecimento, de aplauso, de uma palavra quente de amigo ou do
sorriso feliz de seus superiores.
Mas
ficaram roucos de tanto gritar e seus vôos foram executados com
tanto ardor que a grande frota de reconhecimento dos druufs ficou
quase dizimada.
Porém
aconteceu que um cruzador terrano, emergindo do hiperespaço, foi
atingido tão seriamente pelos raios energéticos de um dos caças,
que três turbinas pararam e houve um princípio de incêndio na casa
de máquinas.
O
comandante deste cruzador do tipo Estado era o Major Matsuro, que
estava acabando de chegar com notícias importantes da frente de
bloqueio. Por questões da importância de suas notícias, Matsuro se
atrevera a transpor a grande distância entre o sistema Mirta e a
Terra através de uma única transição. Em saltos tão grandes
assim, nunca se podem evitar pequenos erros. Em relação com as
proporções da transição, este pequeno erro podia ser, por
exemplo, emergir do hiperespaço oito bilhões de quilômetros antes
do ponto pretendido.
Jamais se
conseguiu saber quem foi o piloto de caça que deu este tiro tão
nocivo. A Nippon foi se arrastando lentamente com menos da metade de
sua potência. Mas, nem mesmo assim, Matsuro teve coragem de usar o
rádio. Porém a resolução do primeiro mandatário da Terra veio
auxiliá-lo.
Em todas
as espaçonaves do Império Solar, a começar pelos poderosos
supercouraçados até os pequenos caças, acenderam-se as telas do
videofone. Rhodan irradiava na freqüência convergente, sendo ouvido
e visto em toda parte.
— Fala
Perry Rhodan, atenção! É para todos. A partir deste momento fica
cancelada a proibição de uso do rádio. Qualquer um pode falar.
Mantenham as freqüências obrigatórias de cada grupo, para que um
não prejudique o outro. Fomos finalmente descobertos. Radiogramas
das unidades dos druufs, atacadas por nossos caças, foram captados e
os especialistas tentam decifrá-los. Acostumem-se agora com o
pensamento de que têm que lutar de olhos abertos. Nossa brincadeira
de esconde-esconde já terminou.
A seguir,
foram transmitidas diversas informações a respeito da disposição
estratégica das forças terranas. Muitas esquadrilhas de cruzadores
transpuseram com curtos supersaltos a frente de defesa externa. Nas
proximidades de Saturno, o cinturão de defesa foi reforçado com
naves maiores. Neste cinturão, o próprio Rhodan assumiu o comando.
A primeira zona de defesa estava sob o comando do General
Deringhouse.
Major
Matsuro esperou pacientemente até que as mensagens mais importantes
fossem transmitidas. Somente após isto, chamou a Drusus, com
urgência urgentíssima. A ligação foi imediata. O semblante de
Matsuro apareceu na gigantesca tela de hipercomunicação do
supercouraçado, cuja central estava funcionando como quartel-general
no espaço, há já algumas horas.
— Cruzador
Nippon, comandante Major Matsuro — apresentou-se o oficial. —
Estou chegando da frente de bloqueio, Sir, mas um piloto de caça,
que deve ter enlouquecido, no calor da batalha me confundiu com uma
nave dos druufs. Meu cruzador perdeu a metade de sua eficiência. O
incêndio na casa de máquinas pôde ser dominado com a diminuição
do teor de oxigênio do ar. No entanto, a central ficou imprestável.
O senhor tem algumas instruções especiais para mim?
Rhodan
compreendeu imediatamente. A Nippon devia trazer notícias especiais
da base de Hades.
— Proibido
falar — foi a rápida resolução de Rhodan. — Solte uma gazela e
venha com ela para bordo da Drusus. Nós o receberemos aqui por
telecomando. Seu primeiro-oficial deve assumir o comando da Nippon e
dirigir-se devagar para a base de Plutão, onde o cruzador irá para
os estaleiros. Ainda é possível fazer isto?
Matsuro
olhou para seu engenheiro-chefe. O técnico fez um sinal afirmativo.
— Perfeitamente,
Sir, os motores ainda darão para isto. Só não sei como
conseguiremos aterrissar.
— Está
bem, a base de Plutão será avisada. Eu o estou esperando. Prepare
um relatório da situação. Quero saber quais foram os efeitos do
tiro do caça. Em que parte é que a Nippon foi atingida?
— No
meio do bojo, pouco acima do rebordo de reforço. O impulso
energético destruiu ambos os envoltórios de proteção, derreteu a
parte blindada, conduzindo o restante da energia térmica para o
quadro de comandos.
Matsuro
não se admirou da expressão de contentamento no rosto do primeiro
mandatário do Império Solar. Naturalmente Rhodan queria saber como
o projétil dos caças atuava. Por certo, esta constatação muito o
agradou.
— Está
certo, Matsuro, isto me basta por ora. Não perca mais tempo e venha
depressa. Você tem notícias importantes, não é?
— E
como, senhor! Do contrário, não teria voltado de Hades.
*
* *
O Major
Nako Matsuro se viu no meio dos mais graduados oficiais da Terra. Até
o Marechal Allan D. Mercant se encontrava na central do
supercouraçado Drusus. Parecia que se planejara algo que apenas
alguns homens sabiam.
O
relatório de Matsuro já havia sido apreciado. Tinha conseguido
entrar em contato com os agentes na base de Hades. Interrogado mais
uma vez, o comandante do cruzador de reconhecimento resumiu em poucas
palavras:
— Perfeitamente,
Sir. Os dados foram fornecidos integralmente. O Capitão Rous afirma
que os druufs conseguiram criar um funil de descarga artificial.
Nosso agente Ernst Ellert parece estar em sérias dificuldades.
Confessou a Rous que está perdendo aos poucos o poder sobre a mente
do cientista druuf Onot. Onot é acusado pelo Conselho de Ministros
de Druufon de culpado pela destruição da grande central
calculadora, pelo menos de ter participado nas ações de sabotagem.
— No que
eles têm razão — observou Rhodan, secamente. — Continue,
Matsuro!
— É
mais ou menos tudo, Sir. Ernst Ellert se esconde agora, aliás, como
sempre, atrás deste Onot. A ligação pelo rádio com o décimo
terceiro planeta do sistema gigantesco não parece fácil para
Ellert. Capitão Rous teme complicações.
— E para
que serve aquela gigantesca estação espacial perto do sol duplo de
Siamed? — perguntou Mercant.
Matsuro
percebeu que o homem que parecia tão indiferente estava tocando no
cerne da questão.
— Esta
notícia chegou exatamente na hora em que eu me preparava para a
transição. Por intermédio de Rous, Ellert comunicou que os druufs
haviam construído este monstro. A estação espacial foi montada com
a finalidade exclusiva de se obter um funil de descarga artificial.
Rous conseguiu ainda constatar, por meio de medições, que a zona de
ligação começa logo acima desta estação espacial.
Mais não
se conseguiu tirar de Matsuro. A bem treinada tripulação do
cruzador, seriamente danificado, foi rebocada por uma nave-socorro da
Frota e levada para a base da Lua. Quando Matsuro lá chegou, foi-lhe
dado o comando de uma nave recém-saída dos estaleiros.
Sete horas
após a conversa com Perry Rhodan, o Major Matsuro partia novamente
para um vôo experimental.
*
* *
Estas sete
horas se converteram nos momentos decisivos para o plano de defesa do
comando supremo solar. Primeiramente, o cruzador leve Califórnia,
sob o comando do já famoso Coronel Tifflor, atracou perto do rebordo
de reforço na fuselagem da Drusus. E depois, o comandante supremo da
gigantesca nave deu certas ordens importantes.
Quando
Matsuro partiu para o vôo experimental, quando o Coronel Tifflor
chegava a bordo da nave capitânia, quando o chefe dos mutantes, John
Marshall, reunia seu grupamento em torno de si, e quando cinco mil
caças mono piloto se reuniam sob a proteção dos grupos de
cruzadores, que avançavam para um determinado setor de defesa,
apareciam as primeiras belonaves dos druufs, irrompendo de seu
esconderijo... o segundo plano espacial.
O cruzador
pesado Cattano, da ala direita do RJV-106, explodiu sob o impacto dos
disparos de quatro grandes unidades dos druufs. O Cattano foi o
primeiro cruzador que a Frota do Império Solar perdeu em combate.
Para
surpresa dos pilotos dos jatos, os atacantes fizeram uso de uma arma
que jamais teria sido nociva a uma belonave de maior tamanho.
Tratava-se de um lançador de agulhas térmicas, cujos impulsos
super-potentes eram transformados em milhares e milhares de raios de
ataque de poucos milímetros de extensão, por meio de um
desintegrador filtrante de circuitos. Surgia assim uma verdadeira
granada atômica com um enorme raio de divergência e
conseqüentemente com grande garantia de acertar o alvo.
Já para
uma nave auxiliar do tipo girino, estes raios finíssimos de muito
pouca energia não trariam perigo. No entanto, conseguiriam
prejudicar muito os pequenos jatos e os destróieres de três
tripulantes. As espaçonaves de menor tamanho da Terra que entrassem
em ataque, em sessenta por cento dos casos seriam logo descobertas e
atacadas com este novo tipo de arma.
O Tenente
Aluf Tehete voou com suas máquinas para uma destas frentes de
combate. Nem ele, nem nenhum de seus companheiros ainda tinha tido a
honra de derrubar algum aparelho inimigo. Os doze aparelhos do grupo
de caça 586 foram todos destruídos pelo fogo da frota dos druufs,
que avançava com um número de naves nunca visto antes.
Poucos
segundos antes da desgraça, o cruzador pesado Osage ainda conseguiu
escapar da frente arrasadora dos druufs, graças à ousadia de seu
comandante. Os impactos vibratórios destinados a ele resvalavam em
seu bojo e se perdiam no espaço.
Duas horas
depois do ataque maciço, aliás, após o primeiro embate, a situação
já estava mais ou menos clara. Tomaram parte neste ataque cerca de
cinco mil unidades dos druufs, mas do funil de descarga brotavam
ininterruptamente centenas e centenas de outras naves. Após três
horas de combate, Perry Rhodan sabia que, com suas forças em visível
inferioridade numérica, não poderia salvar a Terra. Estava iminente
um fracasso total. As primeiras naves druufs já achavam-se atacando
a base de Plutão, cujo fogo antiaéreo, a princípio, parecia
suficiente para afastar os invasores. Mas o planeta não ia resistir
por muito tempo a este ataque maciço.
À crua
realidade destes fatos, advinha ainda a seguinte pergunta cruel: Será
que os druufs não iriam conseguir abrir um outro funil de descarga?
Caso isto acontecesse, não se podia mais nem pensar em defesa...
O Coronel
Poskanow anunciou a perda de onze cruzadores de seu grupo de caças
espaciais. Os caças e os destróieres de três tripulantes,
catapultados dos grandes couraçados, não podiam mais retornar à
nave-mãe durante os combates que se davam no momento da fuga.
Foi assim
que os pilotos receberam a instrução de tentarem romper o cerco
cada vez mais fechado dos druufs, para ver se conseguiam chegar até
o setor, onde estava a frota sob o comando direto de Rhodan.
Terminada
a missão de vigiar os postos mais avançados no espaço, reduziu-se
o trecho a ser defendido. Quanto mais se aproximavam do Sol, que era
o centro de todo o sistema, tanto mais se encurtava o teatro de
operações bélicas.
Rhodan
antevia assim melhores possibilidades de defesa. Seus poucos
supercouraçados podiam se concentrar melhor e mais rapidamente
chegar aos pontos de maior urgência.
Cinco
horas após o início da invasão dos druufs, os gigantes terranos
entraram em ação pela primeira vez. Eram os supercouraçados de
1.500 metros de diâmetro Hannibal, General Pounder, Barbarossa,
Wellington e Alexander, que, depois de uma curta transição,
apareceram no meio da enorme confusão para abrir fogo imediatamente.
Somente a
Titan, já um tanto envelhecida, e a Drusus ficaram para trás para
proteger a retaguarda. Em tempo algum de sua vida, os druufs
experimentaram desgraça tão grande. Já conheciam estes gigantes do
tipo Império, de outras refregas, mas tão-somente como supernaves
robotizadas do Império Arcônida.

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