Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Tanto
tempo gasto para uma ação inútil...
Uma
espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan,
foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e
a pedra angular do Império Solar.
O fato
de que este Império — minúsculo em comparação com as demais
potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se
transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples
colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas
dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez
das Galáxias — e também à sorte, que como fato permanente é
exclusiva dos fortes.
No
entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os
inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a
posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de
ruptura iminente...
Os
recrutas de Árcon — disfarce adotado pelos terranos comandados por
Atlan — estão prestes a cair sob o poder do cérebro
positrônico...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Atlan
— Cuja
volta ao velho mundo natal é um ato de desespero.
Perry
Rhodan
— Imediato
do couraçado arcônida Kon-Velete.
Reginald
Bell
— Oficial
da Kon-Velete.
Tako
Kakuta
e Ras
Tschubai
— Teleportadores,
que não conseguem romper um campo defensivo em favo.
Sargento
Huster
— O
homem que monta a bomba de Árcon.
Epetran
— Uma
voz do passado.
1
Era um
homem alto, esbelto e ágil. A pele marrom-avermelhada fazia supor
que se tratava de um zalita, ou seja, de um longínquo descendente
daqueles arcônidas que há muitos milênios emigraram para o sistema
planetário de Voga, situado a 3,14 anos-luz de Árcon, a fim de se
fixarem no quarto mundo do sistema. Com o correr do tempo, a cor da
pele e do cabelo dos arcônidas se modificou, mas os zalitas
conservaram o sangue arcônida.
— Breheb-Toor...!
— gritou o homem alto em voz de comando.
Duzentos
arcônidas coloniais, que eram zalitas tal qual o oficial que se
encontrava à sua frente, pareceram ter sofrido um choque elétrico.
Os corpos endireitaram-se com tamanha rapidez e precisão que davam a
impressão de serem controlados eletronicamente por uma série de
chaves automáticas.
O oficial
virou-se. Aproximou-se de mim a passos curtos e com o corpo rígido.
Trazia sobre o uniforme de fibra sintética o símbolo do Grande
Império: três planetas gravitando em torno de um sol reluzente.
O rosto
escuro estava semi-encoberto pela protuberância larga do capacete de
rádio de uso obrigatório quando em serviço. Só vi um par de olhos
cinzentos, o nariz afilado e a boca enérgica.
Parou a
três metros de mim. Fez sua apresentação no mais puro arcônida,
no qual ressoava um ligeiro sotaque zalita.
Mantinha a
mão direita cerrada comprimida contra o ombro esquerdo. Não havia
nada que pudesse revelar ao observador, que esse oficial do espaço
na verdade era um terrano. Ninguém, nem mesmo os cinqüenta zalitas
genuínos, que pertenciam ao grupo, seriam capazes de notar que o
imediato do couraçado arcônida novinho em folha, chamado
Kon-Velete, não era outro senão Perry Rhodan, administrador do
Império Solar.
Aqueles
que tinham conhecimento desse fato sabiam ficar calados. Também
segui o velho costume: coloquei a mão sobre o ombro esquerdo e
agradeci.
Atrás dos
homens enfileirados, o gigantesco vulto esférico da Kon-Velete, uma
nave de oitocentos metros de diâmetro, subia ao céu da lua Naator,
coberto de nuvens esparsas. Tratava-se do único satélite do quinto
planeta de Árcon, que servia de abrigo temporário, para fins de
treinamento militar, às tropas auxiliares recrutadas por ordem do
regente.
A postura
regulamentar rígida de Rhodan descontraiu-se. Antes de caminhar de
volta para a tropa, dando seus passos ridiculamente curtos, lançou-me
mais um olhar de advertência. Levava a sério as normas prevalentes
em Zalit.
Estreitei
a capa em torno do ombro. Um vento gelado fustigava a grande
planície, cujo solo pedregoso e desértico fora totalmente
modificado por meio da aplicação de uma camada de aço plastificado
de um metro de espessura.
O
espaçoporto criado por essa forma trazia a designação Na-IV. Há
pouco menos de 24 horas, tempo-padrão, recebera ordem de transferir
a Kon-Velete para essa área, o que indicava que a partida era
iminente.
Virei-me e
cumprimentei os dois oficiais arcônidas que pareciam congelados.
Estavam sentados num planador de campo de repulsão aberto e a
ocupação deles consistia em inspecionar as tripulações das
numerosas espaçonaves.
Usei o
rádio de capacete para, na qualidade de comandante do novo
couraçado, anunciar que minha unidade estava preparada para decolar.
O mais velho dos dois levantou a mão a título de cumprimento. Era o
Almirante Senekho. Era um homem de corpo esguio, que estava sentado
ao lado do robô-motorista. Todavia, era um dos raros arcônidas que
ainda possuíam inteligência e iniciativa suficientes para cumprir
as tarefas de comandante de uma base avançada da frota.
— Boa
sorte, Capitão Ighur — disse a voz saída dos fones de meu rádio
de capacete. — O senhor levará a glória de Árcon para a
imensidão do espaço. O senhor decolará com a esquadrilha de
unidades pesadas. Aguarde o sinal. Mais uma vez, boa sorte.
O jovem
oficial que se encontrava ao lado de Senekho cumprimentou-me com um
gesto apático. Depois disso, assinalou meu nome na lista que trazia
na mão.
O planador
foi saindo com um leve zumbido. Fitei-o com uma sensação amarga,
até que parasse junto ao comandante da nave mais próxima. Era um
cruzador pesado da classe fabricada por robôs.
“Quer
que eu leve a glória de Árcon para o espaço”,
pensei. “A
glória de Árcon...”
Aquele
homem, que devia ter cerca de dez mil anos menos que eu, nem
desconfiava de que fora almirante muito antes dele e ocupara as
funções de chefe de uma esquadrilha arcônida. Naquela época,
quando os respiradores de metano atacaram o império cósmico,
realmente se tratava de defender a concepção de força ligada ao
Grande Império. E então não tínhamos necessidade de recorrer aos
povos auxiliares para tripular as unidades de nossa frota.
Dispúnhamos de vinte bilhões de arcônidas, todos eles
especialistas altamente qualificados nos respectivos setores. Ninguém
teria tolerado a presença de um robô ou de uma inteligência
estranha nas salas de comando ou nos controles principais de uma
nave. Se exigíssemos do técnico mais jovem que se submetesse às
ordens de um não-arcônida, o resultado teria sido um motim.
E agora?
Furioso e triste ao mesmo tempo fitei a tripulação de robôs,
assinalada por cores diferentes, que se enfileirara atrás dos homens
que deveriam guarnecer minha nave.
Cada uma
dessas máquinas teria sua tarefa específica a bordo. Uma série de
programações tinha sido realizada; o “adestramento”
das criaturas metálicas insensíveis fora uma tarefa penosíssima.
Ao menos
tinha um consolo. Ao contrário dos outros comandantes — cuja
triste sorte era lamentável — teria a bordo duzentos homens que
realmente seriam criaturas vivas, com os quais se poderia falar, rir
e, se necessário, gritar. Cento e cinqüenta dentre eles eram
elementos altamente qualificados da Patrulha Espacial Solar.
Tratava-se de astronautas com os quais se poderia contar em qualquer
missão, por mais difícil e arriscada que fosse, pois não entrariam
em pânico ao primeiro impacto. Não conheciam choques nervosos nem
deserções provocadas pelo medo. Além desses cento e cinqüenta
homens, havia cinqüenta zalitas verdadeiros, que me haviam sido
entregues há várias semanas. Os novos couraçados deviam levar a
bordo pelo menos duzentos seres pensantes, pois durante as lutas
travadas nas frentes de bloqueio, situadas junto às zonas de
descarga dos druufs, se constatara que as tripulações
exclusivamente robotizadas eram incapazes de enfrentar a situação.
Nem eu nem
Perry Rhodan gostamos de levar esses soldados a bordo. Devíamos
manter um controle rígido e ininterrupto sobre nossos atos, a fim de
evitar que cometêssemos qualquer erro cujas conseqüências seriam
graves. Uma única palavra inglesa proferida por nós bastaria para
provocar espanto e desconfianças. Ainda trazíamos viva a lembrança
dos atentados por meio dos quais conseguimos fazer com que nossos
homens se saíssem bem nos testes médicos e psicológicos.
Para
completar o azar, havia entre os zalitas dois oficiais, aos quais
tive de entregar posições importantes. Afinal, tivemos de
apresentar-nos sob o disfarce dessa gente, e por isso não tinha
nenhum motivo plausível para rejeitar esses homens, que eram
considerados muito competentes.
Só com
grande dificuldade consegui afastar as preocupações. Estávamos num
ambiente estranho, cercados por nossos piores inimigos, que, à menor
suspeita sobre nossa verdadeira origem, golpeariam sem piedade.
Recentemente
o gigantesco computador de Árcon III incluíra uma nova disciplina
no programa de treinamento da frota. Seu nome era o seguinte: “Tática
de Guerra Terrana.”
Quando
ouvi falar nisso pela primeira vez, tive uma sensação nada
agradável. Concluí que o regente iniciara os preparativos para a
conquista do sistema solar, embora ainda não soubesse onde encontrar
a Terra.
Dentro de
poucos meses, o perigo dos druufs desapareceria, já que a zona de
descarga se aproximava de nova fase de estabilização. Os estranhos,
vindos de outra dimensão temporal, não teriam mais nenhuma
possibilidade de atacar o espaço einsteiniano. Se soubessem que suas
chances se acabariam dentro de poucos meses, o computador-regente de
Árcon poderia contar com uma situação bem difícil. Já se sabia
que os druufs atacavam com gigantescas frotas robotizadas. Quando
esses ataques cessassem, o cérebro positrônico passaria a
interessar-se pela Terra, que começava a incomodá-lo. Quando isso
acontecesse, a descoberta de nossa posição galáctica seria apenas
uma questão de tempo.
Foi
justamente por sabermos disso que decidimos pôr o regente fora de
combate, desde que conseguíssemos desligá-lo ou fazê-lo voar pelos
ares. Naquele momento ainda parecia que a operação, que Rhodan
preparara com enormes esforços e a um custo elevadíssimo, estava
fadada ao fracasso.
Estávamos
no dia 18 de março de 2.044 do calendário terrano. Decoláramos no
dia 21 de janeiro com a Drusus e o cruzador ligeiro Califórnia. Uma
vez preparado o terreno, pretendíamos arriscar uma tentativa de
derrotar o computador.
Um ataque
aberto seria uma loucura rematada. Na época, o computador mantinha
quase sessenta mil naves de guerra nas proximidades da zona de
descarga. Nossa única chance seria inutilizá-lo numa ação de
comando.
E foi
assim que, quando ainda se encontravam na Terra, cento e cinqüenta
homens pertencentes ao comando foram transformados em zalitas. Também
eu recebera a pele típica marrom-avermelhada e os longos cabelos cor
de cobre que, conforme o ângulo de incidência da luz, emitiam um
brilho esverdeado.
Ouvi uma
ligeira tosse nos meus fones. Rhodan, que se encontrava à esquerda
dos homens enfileirados, lançou-me mais um olhar de advertência.
Voltara a apresentar a expressão pensativa, o que naquele momento
representava um comportamento totalmente inadequado.
Voltei a
cumprimentar os homens enfileirados e ordenei pelo rádio de
capacete:
— Embarque
a tripulação, Major Sesete!
Rhodan
virou-se. Sua voz de comando ressoou sobre toda a área. Duzentos
homens uniformizados marcharam em direção às comportas inferiores
do couraçado, que se encontravam abertas. Foram seguidos por mais de
mil robôs, entre os quais se viam as novas máquinas de guerra,
destinadas a operações de desembarque. Tratava-se de gigantes
metálicos dotados de armas giratórias e quatro braços de quatro
juntas. Com seus quase três metros de altura sobressaíam entre as
outras máquinas.
Parei
junto a uma coluna telescópica de apoio e contemplei a tropa
altamente disciplinada. Esforçamo-nos ao máximo para aprender os
regulamentos militares dos zalitas.
Pousáramos
em Voga IV por meio de um transmissor de matéria colocado às
escondidas no planeta. O agente cósmico Jeremy Toffner levara-nos a
Tagnor, capital do planeta, onde encontramos uma base de operações
sob as cavernas da arena.
A partir
dali, a operação começou a tornar-se perigosa. Pouco tempo antes,
um almirante espacial chamado Calus chegara ao planeta. O
computador-regente incumbira-o de recrutar astronautas zalitas para
prestarem serviço na frota de Árcon. Para todos os efeitos
práticos, era Calus quem mandava em Voga IV, motivo por que
procuramos substituí-lo por outro homem.
Depois de
prolongados preparativos, realizados por nossa equipe científica,
conseguimos introduzir no palácio do governo de Tagnor o sargento
Osega, sob a máscara de Calus. O verdadeiro Calus era nosso
prisioneiro.
Dali em
diante não houve o menor problema em fazer os cento e cinqüenta
terranos disfarçados passarem por zalitas. Tínhamos documentos
impecáveis, com os quais conseguimos enganar a comissão de
recrutamento dos arcônidas.
Em meados
de fevereiro de 2.044, uma nave transportadora da frota de Árcon
levou-nos à grande lua do planeta Naat, onde surgiram outras
dificuldades. O computador-regente incumbira os médicos galácticos
do exame das novas tropas espaciais. Não foi nada fácil enganar os
aras e introduzir dados individuais falsos nos registros automáticos.
De
qualquer maneira, conseguimos fazer isso. Mas poucas semanas depois,
a catástrofe foi evitada por pouco.
No planeta
distante de Zalit, situado a 3,14 anos-luz do sistema de Árcon, um
grupo zalita de revoltosos foi bem sucedido numa tentativa de
assassinato do comandante arcônida Calus. Com isso, o sargento Osega
perdeu a vida.
No último
instante, os mutantes e cientistas de nossa equipe, que tinham ficado
em Zalit, conseguiram remover o cadáver de Osega. Se o tivessem
enviado para Árcon, sem dúvida teriam percebido que uma pessoa
totalmente estranha fora vitimada pelo atentado.
Escapamos
por pouco, mas o incidente nos ensinou que o destino é imprevisível.
Quando chegamos a Zalit, tínhamos certeza absoluta de que, dentro de
poucas semanas, conseguiríamos chegar a Árcon III, onde passaríamos
à execução de nosso plano.
Nenhuma
dessas previsões se realizara. Enfrentamos verdadeiras montanhas de
dificuldades. Constantemente tivemos de contentar-nos com soluções
parciais. A cada dia defrontávamo-nos com situações não previstas
em nosso programa.
Por
algumas semanas ficamos presos na grande lua do quinto planeta de
Árcon. Logo após a chegada entregaram-nos um couraçado da Frota
Imperial, recém-saído do estaleiro. Fui nomeado comandante, já que
em Zalit fora provido com a necessária documentação.
Mas, se
pensávamos que logo seguiríamos viagem, mais uma vez estávamos
enganados. Os vôos de treinamento seguiram-se numa série
ininterrupta. Tivemos de treinar o vôo em todos os tipos de
formação, e, simultaneamente, devíamos tomar cuidado para que os
zalitas não ouvissem nenhuma palavra que pudesse trair-nos.
Nossos
especialistas ficaram ocupados durante quinze dias com a programação
dos robôs. Os deveres tomavam todo nosso tempo, e assim não
tínhamos tempo para refletir detidamente sobre nossos planos.
Esperando
firmemente que as coisas ainda acabassem dando certo, entregamo-nos
inteiramente ao serviço militar. A disciplina era rígida e os
castigos muito rigorosos. Os arcônidas sempre souberam lidar com os
povos auxiliares, que sempre executavam o serviço mais ou menos
coagidos. Deles não se podia esperar que trabalhassem com muito
entusiasmo.
Hoje
finalmente recebi ordem para levar o couraçado com a tripulação já
treinada a Árcon, onde provavelmente seria realizado mais um exame
de aptidão. Senti um calafrio ao pensar no perigo que esse exame
poderia acarretar. Os homens mais importantes do Império Solar
encontravam-se a bordo de uma nave que voaria diretamente para a toca
do leão.
A esta
hora já me sentia muito satisfeito por termos deixado na base de
Zalit o rato-castor Gucky, Goratchim, um mutante de duas cabeças e
as mutantes do sexo feminino. Se tivéssemos trazido essas pessoas na
missão que estávamos realizando, provavelmente haveria dificuldades
insuperáveis. Gucky e Goratchim de forma alguma poderiam ser
disfarçados para se parecerem com os nativos de Zalit.
Os últimos
contingentes de robôs passaram por mim. Tratava-se das máquinas
especiais do comando de controle de vazamentos. Todas essas máquinas
tinham uma faixa vermelha no peito.
Perry
Rhodan encontrava-se ao pé da escada rolante. A Kon-Velete era uma
nave nova e potente, mas não possuía o menor conforto. Até mesmo
as instalações do camarote do comandante eram grosseiras, e para os
nossos padrões, as instalações sanitárias deixavam muito a
desejar.
Ao que
parecia, o computador-regente de Árcon não achava necessário
modificar as gigantescas linhas de montagem de Árcon III pelo
simples fato de que de repente as novas naves espaciais seriam
tripuladas por seres vivos.
Quando o
último robô desapareceu, lancei um ligeiro olhar para o alto. As
escotilhas blindadas da comporta de ar, que estavam abertas, ficavam
a 22 metros acima do lugar em que nos encontrávamos. Só lá
começava o abaulamento da calota polar. O gigante de oitocentos
metros era uma nave que deixaria qualquer comandante orgulhoso.
Nunca
teria contado com a possibilidade de algum dia encontrar-me novamente
na sala de comando de um veículo espacial arcônida. Minha longa
peregrinação pela história da Terra chegara ao fim. Uma nova época
iria começar. Perto de mim estava um homem que, em poucos decênios,
fizera do primitivo mundo terrano um planeta de importância
galáctica.
Antes de
dirigir-se a mim, Rhodan verificou os controles de seu transmissor de
capacete. Se tal aparelho continuasse ligado durante uma de nossas
palestras confidenciais, isso poderia significar nosso fim.
Também
verifiquei o meu. Estava desligado. Os três sentinelas apareceram na
comporta de ar. Aqueles homens pertenciam ao nosso comando. O Tenente
Olavson fez um gesto tranqüilizador em nossa direção.
Lancei
mais um olhar desconfiado em torno. Os cruzadores pesados do quarto
grupo estavam pousados à nossa direita e esquerda. Tinham uma
tripulação de apenas cinqüenta homens. Era pouco para aquelas
naves, que mediam seus quinhentos metros de diâmetro, e que por isso
perdiam muito em eficiência.
Face à
degenerescência completa de minha raça, o robô-regente sofria a
falta de pessoal. Procurava substituir pela quantidade a perda de
potência combativa resultante da deficiência de pessoal.
— Decolaremos
dentro de trinta e dois minutos — disse em voz baixa, dirigindo-me
a Rhodan.
O vento
cortante penetrou na boca aberta, fazendo com que os dentes doessem.
Perry
limitou-se a acenar com a cabeça. Não era seu costume falar sobre
assuntos que já haviam sido discutidos inúmeras vezes. Naquela
altura, a única coisa que importava era levar nosso comando a um
lugar em que pudesse entrar em ação.
Havíamos
feito tudo que estava ao nosso alcance. Só nos restava confiar nas
boas graças do destino. Já não tínhamos condições de intervir
de forma decisiva nos acontecimentos que nos esperavam.
— Mais
três zalitas adoeceram — informou. — Bell acaba de receber o
aviso. Não suportam o clima daqui. Como se sente?
Fitou-me
atentamente. Sem dúvida meu rosto mostrava sinais de tensão
nervosa.
— Tudo
bem — respondi para esquivar-me. — Procure não esquecer-se
novamente de fazer continência.
Quando já
me encontrava na escada rolante, que seguia muito devagar, ainda o
ouvi praguejar. As três sentinelas entraram em posição de sentido.
O berreiro de Olavson me fez estremecer. Não sabia dirigir-se a mim
em tom normal. Não fazia mal, pois o regulamento zalita exigia esse
volume de voz.
Agradeci e
entrei à frente de Rhodan no elevador axial, que parou
automaticamente no hall da sala de comando.
Perry
caminhou na minha frente, abriu as pesadas escotilhas blindadas e
voltou a apresentar-se. Só depois pude entrar. Aos poucos, o
cerimonial começava a aborrecer-nos. Os zalitas o haviam copiado das
antiqüíssimas normas arcônidas. No entanto, com o tempo, tal
cerimonial foi levado a tamanho exagero que já não me sentia muito
bem com isso.
Além dos
nossos homens, estavam presentes dois “genuínos”.
Face à rigorosa disciplina militar, existente em Voga IV,
consideravam-me uma espécie de ser superior. O Tenente Kecc, oficial
de plantão do posto de observação, continuava como uma estátua
junto à sua cadeira giratória, embora os terranos já estivessem
sentados.
O rosto
furioso de Rhodan dava a entender que esse cerimonial lhe causava
repugnância. O outro zalita estava sentado junto aos controles
automáticos dos campos antigravitacionais. Por lá não poderia
ocorrer nenhuma dificuldade, pois, independentemente de sua atuação,
o dispositivo inteiramente positronizado corrigiria qualquer
discrepância.
Olhei
atentamente em torno. Os rostos com os quais já estava familiarizado
revelavam, com uma franqueza maior ou menor, que aqueles homens já
achavam-se saturados do jogo de esconder que vinha se prolongando por
algumas semanas.
Conhecia
perfeitamente os problemas psicológicos e sabia que tais
dificuldades representavam uma pesada carga para todos. Por isso
resolvi transmitir uma informação ambígua:
— O
Grande Coordenador de Árcon manda dizer que, dentro de algumas
horas, deveremos pousar em Árcon III. Depois disso terá início o
treinamento tático final.
Acho que
daqui a trinta dias, no máximo, seremos enviados ao front. Viva o
Grande Império!
Os dois
zalitas repetiram as últimas palavras em voz extremamente alta. Os
terranos não pareciam tão entusiasmados. Eram detalhes que dariam a
um atento observador muito que pensar. Ainda bem que os zalitas
genuínos não eram tão fanáticos como pareciam ser. Sabia que pelo
menos quarenta deles haviam sido coagidos à prestação do serviço
militar.
John
Marshall, comandante do Exército de Mutantes, acenou com a cabeça
de forma quase imperceptível. Verificara os impulsos mentais dos
zalitas. Ao que parecia, tudo estava em ordem quanto a eles.
A fim de
receber as instruções para a decolagem, Rhodan plantou-se à minha
frente. Transmiti-as em palavras fortes e lacônicas. Fitou-me com
uma expressão tão fria que até parecia que eu era culpado por
ainda não termos chegado ao planeta de Árcon. Afinal de contas, a
operação em que estávamos empenhados não era nenhum piquenique.
Aliás,
essa ação baseava-se exclusivamente numa suposição que há poucos
meses ainda me parecera uma certeza. Mas as dificuldades que
estávamos encontrando eram tamanhas que os cálculos e as conclusões
daquele tempo, a meu ver, se tornaram altamente duvidosos. Quando
pensava nisso, quase chegava a sentir náuseas. Esforçava-me
constantemente para que ninguém desconfiasse de que não acreditava
mais nos meus prognósticos.
Era
evidente que não poderíamos derrotar o regente numa luta aberta.
Também já se haviam passado os tempos em que a penetração no
sistema do sol branco de Árcon, embora perigosa, ainda era possível.
O regente mandara fechar hermeticamente esse setor espacial.
Face a
isso só havia uma maneira de destruir o computador-regente, cujo
poder já se vinha tornando exclusivamente ditatorial. Teríamos de
aproximar-nos discretamente, golpeá-lo e aguardar os acontecimentos.
Na fase de
planejamento não deixara de informar Rhodan de que uma fuga de Árcon
não mais teria qualquer possibilidade de êxito. Já conseguira
fugir uma vez. Mas, na época, os preparativos do regente ainda não
estavam concluídos. Agora as coisas eram diferentes.
Crest, o
cientista arcônida, e eu afirmáramos que nossos veneráveis
antepassados nunca deixariam de incluir, na construção do
computador-regente, um dispositivo de segurança no qual se pudesse
confiar. Certamente tratava-se de um relê sobreposto que apagava
todas as programações do cérebro positrônico, assim que o
funcionamento deste deixasse de inspirar confiança e não atendesse
aos objetivos dos construtores arcônidas.
Não havia
dúvida de que esse momento havia chegado. O regente funcionava
praticamente como se estivesse em curto-circuito. Seus atos eram tão
contraditórios que o dispositivo de segurança, com cuja presença
Crest e eu contávamos, já deveria ter intervindo. Não sabíamos
explicar por que isso não tinha acontecido.
Só
iniciamos nossa operação porque acreditávamos que devia haver um
caminho. E foi assim que nos colocamos na situação em que nos
encontrávamos.
Mas há
algum tempo senti que os membros do comando terrano já não
confiavam cem por cento em mim... Tudo acontecera de forma
inteiramente diferente das nossas previsões. E agora viamo-nos
obrigados a desempenhar corretamente o papel de uma tripulação
colonial fiel e submissa, cujos cento e cinqüenta membros
dificilmente seriam capazes de conduzir uma nave espacial.
Partiríamos
para nossa destruição ou para a vitória. Não havia outra
alternativa. Na fase dos preparativos, em Zalit, ainda poderíamos
desistir e bater em retirada. Mas agora estávamos na armadilha.
Minhas dúvidas sobre os argumentos, que antes pareciam tão lógicos,
me corroíam os nervos.
Ao que
tudo indicava, Rhodan já percebera alguma coisa, pois do contrário
não teria perguntado constantemente pela minha saúde.
Um forte
estrondo abalou a Kon-Velete e arrancou-me das reflexões
martirizantes. Três luzes vermelhas acenderam-se no setor de
controle 18. Ouvi Bell praguejar em zalita e vi os olhos de Rhodan
chamejarem de raiva. O rosto abatido de um zalita surgiu numa das
telas do sistema de intercomunicação da nave.
— Não
venha me dizer nada — gritou Bell em tom furioso. — Faça as
chaves automáticas engatarem de novo. Quantas vezes ainda lhe terei
de explicar como são ligados os projetos antigravitacionais? Nunca
ligue todos de uma só vez, seu idiota. Estamos registrando um pique
de carga de cerca de oito mil ampères. Vamos logo; engate as chaves
automáticas.
— As
chaves de segurança estão trancadas — respondeu o zalita, todo
trêmulo.
Bell
descontrolou-se. Rhodan e eu esforçamo-nos para não perder o
autocontrole. Era sempre a mesma coisa com essa gente, embora eles
devessem ter bastante experiência para evitar isso. Toda a
aparelhagem do novo couraçado trabalhava com o máximo possível de
tensão, a fim de que a amperagem pudesse ser mantida em nível
baixo. Até parecia que um engenheiro zalita nunca era capaz de
compreender isso. Faziam as ligações como se só trabalhássemos
com dispositivos de dez mil volts, nos quais a amperagem fatalmente
teria de ser bastante elevada.
— Faça
a ligação manual das chaves automáticas — ordenou Rhodan em tom
áspero. — Mande alguns técnicos para baixo e destaque dois
operadores eletrônicos para acompanhá-los. Ande logo. E
apresente-se a mim assim que estivermos no espaço.
O zalita
ponderou que, ainda no dia anterior, tinha havido dois acidentes no
equipamento elétrico, o que não deixava de ser verdade. De qualquer
maneira, porém, a trava das chaves de segurança tinha de ser aberta
com a mão. Enquanto isso não fosse feito, elas não reagiriam aos
impulsos teleguiados.
A notícia
de que as chaves estavam em ordem só foi transmitida a dois minutos
da decolagem. Antes, as chaves de segurança de deslocaram mais três
vezes, o que constituía prova inequívoca de que, no setor 18, a
sobrecarga era um fato freqüente, e, face a isso, os quadros de
chave sempre reagiam através do dispositivo de travamento. As chaves
só voltavam a ligar-se três vezes. Se até lá o defeito não
tivesse sido corrigido, o dispositivo automático de segurança as
desligava definitivamente. Se isso acontecesse no curso de uma
batalha, a conseqüência poderia ser a destruição da nave.
Desde o
momento em que voamos, com uma tripulação composta parcialmente de
zalitas, começamos a compreender por que a frota de bloqueio do
computador-regente sofrerá perdas tão pesadas. Os druufs estavam em
situação de inferioridade numérica, mas suas tripulações eram
muito melhores.
Face à
minha natureza e à dos terranos, procurávamos constantemente
corrigir esse tipo de falha. Esforçamo-nos para provar aos zalitas
que estas podiam ser evitadas. Os técnicos do nosso comando
fitaram-me com uma expressão de espanto quando, alguns dias antes,
expliquei-lhes que o maior ou menor grau de treinamento dos colonos
de Árcon nos era totalmente indiferente. Em hipótese alguma
poderíamos tirar qualquer proveito de seus treinamentos.
Até mesmo
Rhodan cedeu a custo â lógica das minhas palavras. Não compreendia
como a gente pode mostrar-se indiferente às repetidas negligências.
A meticulosidade dos amigos do Império Solar começava a
incomodar-me. Ficavam muito nervosos quando um zalita não queria ou
não conseguia compreender. Paciência: os humanos eram assim mesmo.
Quase tudo que faziam tinha uma boa base.
Quando, à
direita e à esquerda do lugar em que nos encontrávamos, dois
cruzadores pesados do quarto grupo ergueram-se do solo, ainda pensava
nesse fato incontestável. Ouvi o rugido dos mecanismos propulsores,
que, apesar da redução do volume dos microfones, ainda era quase
insuportável. Um gigante após o outro rompia o fino envoltório
atmosférico da lua. Finalmente chegou nossa vez.
Estava
sentado numa poltrona de encosto alto, destinada ao comandante da
Kon-Velete. À minha frente estavam montados os controles principais.
Se necessário, poderia paralisar com um só movimento de chave as
instalações mais importantes do couraçado.
Rhodan
estava sentado à minha direita e Bell à esquerda. Cabia-lhes
pilotar a gigantesca esfera de aço, na parte em que a aparelhagem
automática não cuidava disso.
Uma tela
iluminou-se e nela surgiu o rosto enrugado do Almirante Senekho.
— Decolagem
permitida — anunciou. — Reunir-se no setor três e seguir a rota
em formação. Siga as instruções da nave capitania. Boa sorte.
Desligo.
Rhodan
fitou-me. Acenei com a cabeça. O vôo em formação seria
desagradável. Mas seria totalmente ilusório contarmos com qualquer
outra possibilidade. Sozinhos nunca chegaríamos a Árcon.
Dali a dez
segundos, nossos mecanismos propulsores começaram a trovejar.
Erguemo-nos do solo com um valor de compensação gravitacional
correspondente a cem por cento do nível de Naator. Rhodan mantinha
as pontas dos dedos sobre os controles manuais, uma vez que havíamos
verificado que os dispositivos automáticos sincronizados destinados
à coordenação do empuxo dos vários bocais de jato não
funcionavam com a necessária precisão. Durante os vôos
experimentais, houvera desvios que chegavam a 1,85 graus. Apesar
disso, o defeito ainda não fora removido. Isso constituía mais uma
prova de que a fabricação em escala gigantesca, realizada por ordem
do regente, não era um processo perfeito. Por certo, as linhas
automáticas de montagem estavam precisando de uma revisão.
Avançamos
para o espaço a uma aceleração reduzida e, nas proximidades da
fortaleza espacial Naat-V, reunimo-nos ao grupo de naves que se
mantinha em posição de espera. A Kon-Velete era considerada a
nave-guia do quarto grupo de cruzadores pesados. Isso bastou para
convencer-me que, logo após nossa chegada a Árcon, um comodoro
subiria a bordo. Não era muito provável que eu fosse nomeado para o
posto de chefe de esquadrilha.
Senti-me
dominado pelo ódio e pela amargura. Há dez mil anos partira desse
sistema solar para cumprir as ordens do Grande Conselho. Só me
haviam pedido que fosse dar uma olhada num sistema distante, a fim de
verificar qual era o motivo dos constantes pedidos de socorro dos
colonos ali radicados.
O vôo de
rotina transformara-se num desterro... Finalmente estava regressando,
mas o velho Árcon deixara de existir. Meus veneráveis antepassados
há muito tinham desaparecido, e tive a sensação de não passar de
um remanescente inútil, cujos anseios e esperanças se tornaram
impossíveis.
O império
cósmico era governado por um computador. Nessas condições, de nada
me adiantaria a alegação orgulhosa e soberba de ser Atlan, membro
da família dos Gonozal. Minha família provavelmente já caíra no
esquecimento. Ninguém se lembraria de que dela já haviam saído
imperadores. Meu elevado grau de príncipe de cristal não causaria
maior impressão, nem o cargo de almirante da Frota Imperial. Por
isso só me restava esperar que não me subordinassem a algum oficial
tolo e arrogante, com uma educação supersofisticada e imbuído de
pensamentos reveladores de decadência e inaptidão para a vida.
Acontece que esse perigo existia, motivo por que, desde logo,
começava a preparar-me para o inevitável.
Num gesto
instintivo pus a mão no peito, onde meu ativador de vibrações
celulares pulsava sob o fino tecido de plástico do uniforme zalita.
Graças a ele, possuía uma imortalidade relativa, embora ainda não
soubesse como o aparelho funcionava. Ele me foi entregue, há muito
tempo, por um ser coletivo, altamente desenvolvido, que também se
sentia ameaçado pelas mesmas inteligências que me perseguiam. Ao
suspender por meio de um misterioso micro-conjunto o processo de
envelhecimento natural de meu corpo, esse ser fizera de mim o
representante para a defesa dos seus interesses.
Fiz um
grande esforço de concentração. Os olhares perscrutadores de
Rhodan deixaram-me envergonhado. Parecia saber exatamente o que
acontecia na minha mente.
— Será
dentro em breve — disse em voz baixa.
O sentido
dessa frase lacônica era tão profundo que me fez estremecer.
O que
seria feito da minha teoria? Será que realmente havia um dispositivo
de segurança no maior computador da Via Láctea? Em caso afirmativo
restaria saber em que hipótese esse dispositivo entraria em
funcionamento e o que deveria ser feito para ativá-lo.
Eram
muitas perguntas para as quais não havia respostas. Só tínhamos
certeza absoluta de uma coisa: quando estivéssemos em Árcon, não
haveria mais nenhum caminho de volta.
A
esquadrilha continuou a entrar em formação. Assim que o grupo de 68
unidades ficou completo, recebemos ordem de partida. Aceleramos a
apenas 1.002 km/seg. Até então nunca se havia conseguido constituir
uma formação dotada de boa manobrabilidade, com uma aceleração
mais elevada. Neste ponto, as velhas tripulações de robôs mereciam
mais confiança que os zalitas.
Não
gostei nem um pouco do sorriso irônico de Bell. Os terranos não
deveriam acreditar que eram o máximo em perfeição.
Era claro
que cada um deles valia mais do que cinqüenta colonos treinados. Mas
nem por isso tínhamos motivo para acreditar que o problema poderia
ser resolvido apressadamente. Até agora a sorte nos tinha
favorecido; só isso. Em todas as hipóteses, alguém conseguira
remover no último instante um perigo que surgia de repente. O papel
principal fora desempenhado pelos nossos mutantes. Se não fossem
suas capacidades supersensoriais, a missão em que estávamos
empenhados seria totalmente impossível. Restava saber se em Árcon
III conseguiriam a consagração final. Face a certas circunstâncias
irremovíveis, Gucky e Goratchim tiveram de ser deixados de fora.
Betty
Toufry e Ishy Matsu também tiveram de permanecer no labirinto
cavernoso, situado sob a arena zalita.
Rhodan
ligou o piloto automático. Reclinou-se confortavelmente na poltrona,
abrangeu com um só olhar as telas da galeria de visão global e
dirigiu o rosto para mim.
— É uma
beleza irreal, não é? — observou. A expressão de seus olhos era
indiferente. Parecia enxergar através de meu corpo.
O grupo
estelar M-13 realmente era lindo. Neste setor, as estrelas ficavam
muito mais perto umas das outras que nas outras áreas da Galáxia.
Segundo as concepções arcônidas, o grupo M-13 representava a
espinha dorsal do Universo, muito embora se situasse nos confins da
Galáxia. Tratava-se da célula-máter do Grande Império. Foi aqui
que teve início o processo de conquista, colonização e...
submissão. Era meu mundo natal. Restava-me saber como seria recebido
agora. Sentia-me mais desamparado que um filho extraviado, pois por
aqui não havia mais ninguém que pudesse lembrar-se de mim.
2
Fomos
tratados como um bando de moleques vagabundos que devem dar-se por
satisfeitos por não serem presos.
As belas
recordações de Árcon foram desaparecendo, para ceder lugar a uma
raiva surda.
O setor
lógico de meu segundo cérebro não dava mais nenhum sinal de sua
existência. Em compensação, as reações de minha memória
fotográfica eram mais freqüentes e intensas. Um arcônida de
posição elevada — cujo cérebro tivesse recebido um ativamento
especial, mediante licença do conselho médico — não seria capaz
de esquecer qualquer coisa. Foi por isso que o deserto de aço de
Árcon III me pareceu tão familiar.
Nada
mudara naquele planeta que meus antepassados haviam trazido para
junto do planeta-irmão, usando gigantescos campos gravitacionais, a
fim de transformá-lo num mundo de armamento.
Era o
maior dos três que, dispostos em forma de triângulo, circulavam em
torno do grande sol branco.
Árcon I,
conhecido como o mundo de cristal, continuava reservado às
finalidades residenciais. Árcon II voltara a ser considerado o mais
importante dos mundos mercantis do Império. Ali pousavam
constantemente as naves mercantes de todas as raças conhecidas.
Todavia, não obtivemos permissão para visitar as ruas comerciais
que abrangiam verdadeiros mundos. Triste e martirizado por uma dor
penetrante, lembrei-me dos silos e depósitos recheados, nos quais
eram guardadas as mercadorias de toda parte da Galáxia.
Ao que
parecia, tudo isso tinha chegado ao fim. O computador-regente
restringira o comércio ao estritamente necessário, fazendo com que
este se dedicasse, quase exclusivamente, à aquisição das
necessárias matérias-primas.
Árcon
III, que era o mundo da frota e dos gigantescos estaleiros, precisava
de quantidades imensas de materiais, para satisfazer a voracidade
constante das linhas de montagem.
O mundo
dos arcônidas continuava a ser uma maravilha galáctica. Nenhuma
outra raça jamais conseguira arrancar de suas órbitas dois astros
naturais e colocá-los em outra posição. Desde o momento em que
meus antepassados conseguiram essa dificílima realização
científica, a falta de espaço deixou de representar um problema
para nosso povo.
A isso,
seguira-se o tempo das grandes emigrações. O império cósmico
foi-se formando.
O sol de
Voga, não muito distante, foi nosso primeiro objetivo. Mas, menos de
quinhentos anos depois do início da colonização, os descendentes
dos colonizadores já deixaram de ser considerados arcônidas puros.
As influências ambientais sobre o corpo e a mente que ali se
verificaram, aconteceram em quase todos os outros lugares.
O número
exato dos descendentes dos arcônidas era desconhecido. Porém,
segundo as estimativas, o número das inteligências espalhadas pela
Galáxia devia chegar a cinqüenta trilhões.
Estes
descendentes desligaram-se de Árcon. Na maioria das vezes, nem
sequer sabiam de onde tinham vindo. Em virtude disso ocorreram
encarniçadas guerras coloniais, nas quais a luta sempre girava em
torno de pretensões de posse e de arrojadas pretensões de
autonomia.
Agora
estávamos recebendo as conseqüências desse estado de coisas. Pela
primeira vez senti na própria carne o tratamento que costumava ser
dispensado a uma criatura subdesenvolvida. Se as pessoas que
escarneciam de nós fossem arcônidas com elevados dotes espirituais,
minha vida não seria tão insuportável. Acontece que as pessoas que
lidavam conosco eram cabeças-de-vento, cuja atividade mental se
reduzia ao anseio de executar pela forma mais rápida e confortável
as missões que lhes eram atribuídas pelo regente.
O comodoro
da quarta esquadrilha, cuja chegada eu esperava, subiu a bordo duas
horas depois de nosso pouso em Árcon III. Aquele homem ainda jovem —
rosto inexpressivo e olhos apagados, que às vezes pareciam
sonhadores — considerava-se um semideus.
Se alguma
vez entendera algo de astronáutica moderna parecia ter esquecido
tudo que sabia. No início eu o odiei, mas depois tive pena dele. A
primeira medida por ele adotada consistiu em mandar levar para bordo
um simulador portátil. Tive que tomar uma atitude enérgica para
evitar que esse aparelho, destinado à reprodução de combinações
idiotas de reflexos luminosos, fosse colocado na sala de comando.
Jamais me esqueceria do olhar aniquilador que o arcônida me lançou,
e sempre me lembraria do rosto pálido e dos punhos cerrados de
Rhodan.
Era esse
degenerado, lacaio de um gigantesco autômato, que comandava a quarta
esquadrilha, que sempre contava com dezessete naves de guerra.
Seu nome
era Gailos. Nunca ouvira falar em sua família. Aquele homem era um
exemplo vivo da transformação sofrida pelo povo arcônida, que de
uma comunidade altiva passara à categoria de um grupo de fracalhões
presunçosos. No entanto, Gailos ainda devia pertencer aos membros
mais ativos da raça dos arcônidas, pois do contrário o regente não
o teria investido nas funções de comodoro.
Durante
quinze dias, sob as ordens desse homem, realizamos manobras espaciais
em condições de batalha. Pela primeira vez tivemos permissão para
manejar os controles de armamento e realizar ataques simulados contra
unidades dirigidas por robôs. O resultado dessas manobras provocou
uma atitude imprudente dos terranos, que, vez por outra, soltavam
algumas risadinhas escondidas.
Depois de
conhecer o grau de “competência”
de nosso novo comandante, Rhodan resolveu arriscar uma ação que
durante semanas não tínhamos arriscado.
Durante a
confusão inextricável, surgida durante um malogrado ataque em
cunha, Rhodan ligou o dispositivo automático de hipersalto, sob os
olhares atônitos dos companheiros. Sem dúvida pretendia realizar a
título experimental uma transição a pequena distância, a fim de
verificar se poderia confiar no novo couraçado. Provavelmente mais
tarde saberia culpar Gailos pelo “salto
involuntário”.
Mas não
houve nenhum salto, pois a Kon-Velete não estava em condições de
realizar qualquer transição. Os conversores de campos estruturais
não deram sinal de sua presença, e as luzes de controle nem sequer
chegaram a acender-se. Compreendemos que o computador-regente era
muito cauteloso.
Pela
primeira vez deveríamos pousar em Árcon III. Quatorze dias já se
haviam passado, e ainda não tinha surgido qualquer possibilidade de
cuidar de nossa tarefa propriamente dita. Isso acontecia pelo motivo
muito simples de que não obtínhamos licença.
Nossos
alojamentos ficavam bem embaixo do pavimento de aço do espaçoporto
A-R-145. Assim que a nave pousava éramos obrigados a sair de bordo e
desaparecer nas entranhas do planeta da guerra.
Uma vez
que a superfície de Árcon III também foi-se tornando muito
pequena, meus remotos antepassados começaram a escavar o interior
desse mundo. Era por isso que as unidades energéticas, de controle e
de comando, muitas vezes ficavam até seis mil metros abaixo da
superfície. A rigor, Árcon III não passava de um astro perfurado e
escavado, em que todas as coisas tinham um aspecto puramente
finalista.
De início,
a permanência nos subterrâneos era um verdadeiro pesadelo para os
terranos. Mas acabaram por conformar-se com o inevitável e
procuraram encontrar alguns atrativos nessa prisão.
Muito
embora o ambiente fosse antinatural e pouco agradável para meus
amigos, não deixava de ter seu fascínio. Árcon III fora preparado
para rechaçar qualquer ataque vindo do espaço. Lá embaixo, Rhodan
e seus colaboradores viram como se faz para transformar um planeta
comum numa fortaleza galáctica de primeira categoria.
Finalmente
Gailos fez uma débil alocução aos comandantes das unidades,
transmitida pelo intercomunicador, e ordenou o fim das manobras, o
que nos fez suspirar aliviados.
Reginald
Bell, oficial da Kon-Velete, inchou visivelmente as bochechas
vermelhas e lançou um olhar para Gailos, que me fez sentir
calafrios.
Lancei um
sinal de advertência para Bell, e ele cerrou os enormes punhos.
Depois de Rhodan, Bell era o homem dotado de maior dose de
sangue-frio em toda a frota solar, muito embora às vezes costumasse
disfarçar essa qualidade. Naquele instante, porém, estava próximo
a um colapso nervoso.
A falha do
dispositivo automático de hipersalto representara um choque para ele
e para outros homens. Até então contáramos com a possibilidade de,
em caso de perigo, realizar um hipersalto e desaparecer com a
Kon-Velete.
Agora até
essa saída fora fechada. Provavelmente o conversor estrutural só
era liberado pelo regente, quando a nave se dirigisse ao campo de
batalha. Ao que tudo indicava, não confiava nos seus aliados, mesmo
se tratando dos zalitas, seus vizinhos mais próximos.
Já nos
acostumáramos a não fazer observações na presença de estranhos e
a evitar conversas comprometedoras. Rhodan formulara uma advertência
enfática nesse sentido, pois era possível que houvesse algum
dispositivo de vigilância controlado por robôs.
Se a
programação tão antiga do computador-regente fazia com que fosse
desconfiado a ponto de desligar o hiperpropulsor até mesmo durante
manobras muito importantes, devia-se contar com a existência de
outras medidas de segurança.
Fiquei
satisfeito ao ver que Bell conseguia controlar-se. Provavelmente
estivera prestes a dirigir uma observação mordaz a Gailos. Rhodan
voltara a ficar sentado, que nem uma estátua, na poltrona do
imediato. Ao que parecia, dedicava seu interesse exclusivamente aos
controles de seu setor.
Observei-o
discretamente, até que a sala de máquinas chamasse pelo videofone.
O engenheiro-chefe, também era um terrano disfarçado, informou que,
a uma velocidade altamente relativista, o consumo de substância de
apoio de radiações ficava 6,85 por cento acima do normal.
Confirmei
a notícia importante e olhei para Gailos. O comodoro estava
comodamente deitado em sua poltrona reclinada. O rosto exprimia
tédio. Quando, em conformidade com os regulamentos, me plantei à
sua frente para repetir a informação, ele girou a cabeça e
suspirou.
De acordo
com os usos arcônidas deveria chamá-lo de Alteza, tratamento que
lhe cabia na qualidade de chefe de esquadrilha. Em compensação ele,
com um desprezo patente, nos dava o tratamento de você.
Quando vi
seu rosto presunçoso tão perto de mim senti-me tomado pelo ódio.
Durante
minha longa peregrinação pela Terra, chegara a curvar-me diante de
reis bárbaros e príncipes ignorantes, que poderiam ser humilhados
por qualquer rapazola arcônida mediante duas ou três perguntas. O
comportamento pedante dessa gente me fizera sorrir. Porém, imbuído
da sensação de minha infinita superioridade, curvei a cabeça e,
tal qual os outros, desfiava as frases costumeiras. Pouco me
importava que, às vezes, fosse tratado como escravo, ou que, num
convencimento ridículo, me considerassem como indivíduo de classe
inferior.
Mas agora
as coisas eram diferentes! Tornava-se quase impossível manter uma
certa calma diante de um homem pertencente ao meu povo, que se
interessava exclusivamente pelo bem-estar e, nos palácios do planeta
de cristal, costumava entreter-se em apaixonadas conversas sobre
incompreensíveis “obras
de arte”.
O soldado mais insignificante de minha antiga nave capitania valia
mais que cem parasitas do tipo de Gailos.
Repeti a
informação sobre o consumo excessivo de massa de apoio.
— Reabasteceremos
a nave — disse o comandante em tom sonolento.
— Alteza,
se formos enviados à frente de combate dificilmente teremos
oportunidade para fazer isso.
Ao que
parecia, estava refletindo. Mais uma vez ouvi um profundo suspiro.
— Ora,
Ighur, acho que teremos sim. Realmente houve um consumo excessivo? E,
o que é mais importante, as microfitas com a nova obra-prima de
Askor, por mim solicitadas, ainda não chegaram?
— Não,
Alteza.
— Isso é
um insulto — resmungou Gailos. Suas mãos finas seguravam as
braçadeiras da poltrona. — Farei uma queixa. Aliás, nesta sala de
comando há um cheiro desagradável. Qual é a causa? Será que terei
de suportar tudo isso?
Para
conservar o autocontrole, fechei os olhos por um segundo. Ainda bem
que meu velho mestre Tarts não estava vendo uma coisa dessas. Também
fora um arcônida. Mas que arcônida!
— Este
cheiro é muito comum nas salas de comando, Alteza. As telas
automáticas esquentam e os isoladores aquecidos desprendem um fluido
peculiar.
— É uma
coisa horrível. Realmente, uma coisa horrível. Ajude-me a levantar.
Estendeu a
mão, e puxei-o para fora da poltrona. Quando se encontrava de pé à
minha frente, parecia ainda mais esguio e... insignificante, embora
tivesse o meu tamanho. Num gesto furioso esfregou o pulso esquerdo.
— Ao que
parece, os zalitas ainda não aprenderam como se deve tratar um
arcônida — disse com certo tom áspero na voz.
Olhei para
seu braço, que fora cingido com pouca força.
— Queira
desculpar, Alteza.
Fitou-me e
sua raiva foi-se desvanecendo. Fez um gesto condescendente e deu-me
as costas. Saiu todo empertigado, sem olhar para trás. Os dois robôs
pesados, designados e programados especialmente para servirem de
guardas pessoais do comodoro, seguiram-no prontamente. O importante
problema, ligado à massa de apoio, deixara de ser solucionado.
O zalita,
junto aos controles do campo antigravitacional, fitou-me. Em seu
rosto havia uma palidez cadavérica. O homem a seu lado sorriu
discretamente; era um terrano disfarçado.
Sem dizer
uma palavra, sentei na poltrona do comandante, situada à frente dos
controles principais, e chamei a sala de máquinas. Quando contei ao
engenheiro-chefe a conversa durante a qual se aludira a um possível
reabastecimento, ele arregalou os olhos. No entanto, conseguiu
controlar-se e apenas acenou com a cabeça.
Enquanto
isso, o quarto grupo de cruzadores pesados aproximava-se de Árcon
III. Pouco antes do pouso, Rhodan ligou o ampliador automático de
observação ótica externa.
As telas
setoriais apresentavam vistas parciais da superfície do planeta. A
única coisa avistada foram gigantescos espaçoportos e conjuntos de
edifícios que o olhar não conseguia abranger. Não havia
praticamente nenhuma área livre. O mundo da guerra era uma única
metrópole compacta, na qual não crescia nenhuma planta e não havia
um único regato que alegrasse os olhos.
Árcon III
era um deserto de aço. Não havia nenhuma possibilidade de comparar
esse planeta a qualquer outro. Se alguém interrompesse as
comunicações com esse mundo, o enorme potencial produtivo faria com
que as provisões se esgotassem em menos de um mês.
No
passado, esse fato levara várias vezes as outras potências a
realizar bloqueios interestelares, mas nem assim se conseguiu vencer
o Grande Império. Lembrava-me perfeitamente dos comboios formados
por ocasião da revolta dos nopoletas, a fim de proteger a artéria
vital de Árcon. Nossos inúmeros inimigos nunca conseguiram
realizar, por uma hora que fosse, um bloqueio eficaz de nosso
sistema. Atualmente nem se podia pensar nessa possibilidade. A vinte
e oito mil anos-luz, um inimigo não arcônida ameaçava os povos
humanóides da Via Láctea. O regente aproveitara-se da situação
para enviar à frente de combate todas as raças revoltadas contra o
poder do Império.
A unidade
forçada entre povos, antes inimigos, foi motivo bastante para que
Perry Rhodan resolvesse imediatamente fazer alguma coisa contra o
regente.
O que
havíamos conseguido até então? Apenas arriscáramos a vida para
conseguir o privilégio de realizar vôos de manobra em um dos
couraçados do computador!
Se
dependesse de Bell, teríamos subjugado os cinqüenta zalitas a bordo
e procuraríamos destruir com as armas da Kon-Velete o gigantesco
envoltório energético que protegia o autômato.
Precisamos
de muito tempo e paciência para provar-lhe, com base em exemplos
flagrantes, que nem mesmo mil supercouraçados com tripulações de
primeira ordem seriam capazes de uma façanha dessa natureza.
Bell
voltou a lançar um olhar ansioso para as telas iluminadas. Os
numerosos espaçoportos estavam abarrotados de naves de guerra de
todos os tipos. As fábricas de Árcon trabalhavam a plena potência.
Como o
comodoro Gailos não desse mais sinal de sua presença, assumi o
comando sobre o pequeno grupo. Liguei o equipamento de
hipercomunicação e controlei a regulagem automática da freqüência
de nosso grupo. Nesse instante, recebemos um chamado da estação
retransmissora A-R-145.
Tratava-se
apenas de um terminal secundário do grande cérebro positrônico. Em
cada espaçoporto de Árcon III, havia uma unidade de comando desse
tipo, que transmitia as ordens e decisões menos importantes aos
comandantes das unidades estacionadas na respectiva área.
Uma figura
vermelha e triangular surgiu na tela. Levantei-me e, seguindo
estritamente o figurino, fiquei em posição de sentido. Era o
verdadeiro chefe do Grande Império que estava falando.
— Sou o
Capitão Ighur, regente — disse em voz alta.
O setor
acessório do cérebro preferiu não formular qualquer indagação
sobre o comodoro. Ao que parecia, sabia perfeitamente como costumam
agir os arcônidas de seu tipo.
— Ordem
coletiva 12345 — disse a voz monótona que saía do grande
alto-falante do receptor especial.
O
triângulo vermelho permaneceu na tela. Era o símbolo da unidade
retransmissora A-R-145.
Rhodan
comprimiu a chave da registradora automática. Qualquer ordem
coletiva teria de ser conservada nos registros de bordo.
— A fita
está correndo, regente — anunciei.
— As
manobras estão encerradas. O quarto grupo de cruzadores pesados é
transferido para o espaçoporto A-3. Preparar as unidades para um vôo
não tripulado de sessenta horas. Os tripulantes sairão de bordo.
Concedemos uma licença de cinqüenta horas. As instalações
destinadas aos zalitas poderão ser visitadas. As ordens dos
oficiais-robôs devem ser cumpridas. Alguma pergunta?
Fiz um
esforço para não demonstrar a esperança que me empolgava.
— O
Comodoro Gailos não responde, regente. Posso assumir o comando
provisório do grupo?
— Permissão
concedida. Sua Alteza está repousando. Desligo.
O
triângulo vermelho foi desaparecendo. A estação retransmissora
A-R-145 interrompera a ligação.
Preferi
não olhar em torno com uma expressão de triunfo. Aliás, era
possível que, embora pudéssemos desfrutar a primeira licença,
minha alegria fosse prematura. Aquela licença poderia significar
tudo ou nada.
Os
comandantes das outras dezesseis unidades haviam acompanhado a
transmissão da ordem coletiva. Submeteram-se imediatamente ao meu
comando.
Penetramos
na atmosfera densa de Árcon e passamos pelos postos de defesa. Numa
altitude de oitenta quilômetros, passamos a ser dirigidos pelo
dispositivo automático de telecomando A-3. Nenhum comandante podia
pousar a seu bel-prazer. Tratava-se de mais uma medida de segurança
concebida pelo cérebro positrônico.
Com isso
fiquei livre da responsabilidade de pilotar a nave. Notei a expressão
tensa do rosto de Rhodan. Seus ombros estavam levemente encolhidos.
Até parecia que retesava o corpo para dar um salto.
Enquanto
os microfones externos transmitiam o rugir e assobiar das moléculas
de ar deslocadas à força, Rhodan virou a cabeça. Havia em seus
olhos a expressão rígida que indicava uma forte tensão interior.
Não
reagiu ao meu olhar indagador. Bell também parecia inquieto.
Marshall, o telepata, fitava-nos atentamente. Parecia ter notado que
os pensamentos de Rhodan se atropelavam...
Num gesto
quase imperceptível, apontei para a tela iluminada do receptor
especial. Enquanto estivesse em andamento a manobra de teledireção,
seria uma insensatez proferir qualquer palavra comprometedora. Sem
dúvida, o retransmissor automático A-3 ouvia tudo.
Com certa
impaciência esperávamos o ruído do impacto das placas de apoio
sobre o pavimento do espaçoporto. Ao ouvir esse ruído, tinha-se a
impressão de que a nave se esfacelaria.
Dali a
menos de cinco minutos, as luzes vermelhas acenderam-se. O
dispositivo automático acabara de escamotear as colunas telescópicas
de apoio. A Kon-Velete pousou com um rugido final dos mecanismos
propulsores instalados na protuberância equatorial da nave.
A posição
de Rhodan continuava inalterada, mas um sorriso enigmático brincava
em seus lábios. Percebi que devia ter notado alguma coisa que me
escapara. O que seria?
Depois
disso, os controles de rotina mantiveram-nos ocupados durante quinze
minutos. Em seqüência, os setores foram anunciando sua paralisação.
No fim, apenas o gerador especial, destinado ao suprimento energético
de emergência da sala de comando, continuava a zumbir. O silêncio
passou a reinar na gigantesca esfera de aço que trazia o nome
Kon-Velete.
Levantei e
coloquei-me à frente da tela. O sinal de identificação do comando
automático A-3 consistia numa série de ondulações verde-claras.
— Sou o
Capitão Ighur, regente — anunciei. — Nave preparada para ser
introduzida no estaleiro.
A estação
anunciou imediatamente:
— A
tripulação zalita abandonará a nave. Não é permitido portar
armas. Desligo.
Naturalmente
lá fora já estaria esperando um comando de robôs que nos
conduziria para baixo da superfície.
A operação
de desembarque dos tripulantes cabia ao imediato. Rhodan entrou
imediatamente em atividade, muito embora desse a impressão de que
não conseguia livrar-se das reflexões em que estava mergulhado.
Por um
instante prestei atenção às suas ordens, proferidas em tom de
exagerada compenetração. Depois chamei o Comodoro Gailos pelo
videofone. O sinal de ocupado iluminou-se na tela. Ao que tudo
indicava, Gailos não fazia nenhuma questão de apoiar ativamente as
instruções do regente.
“Aliás”,
pensei, “como
comandante de grupo, eleja não tem nada com isso. O controle das
atividades que se desenrolam no interior da nave cabe ao comandante
da mesma.”
Bell
gritou em voz rouca um comando de atenção. Cumprimentei
ligeiramente e atravessei a comporta blindada dos fundos, onde meu
robô de serviço já me aguardava. Ordenei-lhe que arrumasse meus
reduzidos pertences, a fim de levá-los posteriormente aos
alojamentos ainda desconhecidos.
Na entrada
do elevador central, um comando de guardas, chefiado pelo Tenente
David Stern, se mantinha à espera. O rosto do jovem oficial estava
pálido como cera.
Passei
perto dele e Stern cochichou apressadamente:
— Gailos
já saiu, Sir. Estou preocupado com o equipamento especial. Não será
possível que sejamos revistados mais uma vez, já que não temos
permissão para levar armas? Talvez queiram verificar se estamos
cumprindo as instruções.
Lancei um
rápido olhar para a objetiva de videofone mais próxima. Era
possível que estivesse em funcionamento. Sempre que uma nave pousava
em Árcon III, as paredes passavam a ter olhos e ouvidos. Era ao
menos o que se dizia.
Comecei a
realizar um controle minucioso dos botões do elevador. Fiz uma
repreensão em voz alta e contrariada já que, na minha opinião, a
placa de revestimento do painel de chaves não estava corretamente
parafusado.
No curso
dessa manobra, cochichei algumas palavras para Stern. Se falasse
muito alto a bordo do couraçado, nossa vida poderia correr perigo.
— Os
homens voltaram a tirar os objetos dos esconderijos?
— Assim
que recebemos instruções para pousar. Está tudo conosco. Se nos
revistarem...
Calou-se,
e seu rosto ficou ainda mais pálido. Os outros três homens do
comando de guardas fitaram-se com uma expressão ansiosa. No entanto,
eu sentia que a decisão se aproximava a passos de gigante...
— Fique
aqui e espere por Rhodan — disse em voz baixa. — Comunique-lhe
seus receios. Se houver um controle, verei o que posso fazer. Os
mutantes deverão espalhar-se entre os outros, a fim de poderem
intervir sempre que seja necessário. Cale-se.
Saltei
para dentro do campo antigravitacional reluzente. Uma vez lá
embaixo, constatei que os cinqüenta zalitas genuínos já se
retiravam de bordo. Com isso, Rhodan criara para seus homens a
possibilidade de fazerem mais uma verificação de seu equipamento
especial.
Ao
lembrar-me do que aqueles cento e cinqüenta homens, pertencentes ao
comando, traziam sob os uniformes, meu nervosismo cresceu. Estive
presente quando os laboratórios mais eficientes da Terra iniciaram a
“produção em massa”. Os cientistas de Swoon, que eram os
microtécnicos mais competentes da Galáxia, haviam desempenhado um
papel relevante nessa tarefa.
Rhodan
conseguira aquilo que me parecera impossível. Nos uniformes
especiais dos membros do comando, havia tantos esconderijos que seu
conteúdo seria suficiente para derrotar um exército convencional.
Naturalmente
não nos poderíamos ter lançado à missão sem contar com uma série
de armas eficientes. Apesar disso, quando imaginei o que aconteceria
se o equipamento fosse descoberto, comecei a tremer.
Aguardei
junto à grande comporta inferior da nave até que os tripulantes
entrassem em forma. Rhodan fez a apresentação. Seu rosto estava
rígido. O Comodoro Gailos não apareceu mais. Por certo já se
instalara confortavelmente em seus alojamentos.
Dali a
menos de dois minutos, chegaram os veículos abertos que nos
transportariam. Possuíam grandes plataformas de carga com assentos
de plástico e eram teleguiados. As ordens subseqüentes da estação
re-transmissora foram recebidas por intermédio de meu rádio de
capacete.
Deveríamos
subir aos veículos e aguardar os acontecimentos. Para os oficiais da
Kon-Velete, havia um carro especial.
Rhodan
mandou que os homens subissem aos grandes veículos. Alguns olhares
significativos foram suficientes para fazer surgir em meu interior o
tipo de rigidez emocional que costumava envolver-me nos momentos de
perigo. Então havia chegado a hora da decisão!
Bell subiu
depois de mim ao carro achatado, que deslizava sobre um campo
energético. Ao contrário dos veículos de carga, este possuía um
piloto robotizado. Seria muito arriscado discutirmos a situação.
Ao chegar,
Rhodan inclinou-se sobre mim. Notei que sua arma de impulsos se
encontrava sob o uniforme.
— Como é
que se reconhece uma espaçonave cujos hiperpropulsores estejam
prontos para entrar em funcionamento? — perguntei em voz baixa.
Olhei em
torno. O espaçoporto A-3 era imenso e impossível de ser abrangido
com a vista, tal qual os outros do mesmo tipo. As unidades grandes e
pequenas da frota arcônida estavam estacionadas em todos os cantos,
mas por mais boa vontade que tivesse, não seria capaz de dizer quais
delas estavam em condições de realizar um hipervôo.
Dirigi os
olhos para a abóbada energética azulada e luminosa, que, além dos
limites do campo de pouso, enchia o horizonte, subindo ao céu azul e
tremeluzente de calor do planeta Árcon III.
Era o
maior campo defensivo que vira em toda minha vida. Embaixo estava
abrigado o computador-regente de Árcon. As medições realizadas por
Rhodan em tempos passados provavam que o envoltório cobria uma
superfície de cerca de dez mil quilômetros quadrados. Isso
correspondia a um quadrado de cem quilômetros de lado.
Era
duvidoso que houvesse uma possibilidade de destruí-lo!
Nunca
conseguiríamos saber com exatidão onde ficavam os pontos
vulneráveis e como deveríamos fazer para atingir num golpe de
surpresa os pontos vitais do mecanismo.
Enquanto
não descobríssemos um meio de introduzir uma arma eficiente na
abóbada que cobria todo o conjunto, tais reflexões seriam
totalmente estéreis. Tinha certeza absoluta de que a detonação de
uma bomba em seu campo defensivo seria totalmente inútil.
Punha toda
minha esperança nos dois teleportadores que participavam de nosso
comando. Se estes homens não conseguissem penetrar rápida e
discretamente no gigantesco mecanismo, teríamos de procurar outro
meio. Há algumas semanas, o problema do suprimento de energia, que
era minha especialidade, vinha ocupando meus pensamentos.
Sabia
perfeitamente que um computador com essas dimensões precisava de
várias unidades geradoras, pois seu consumo de energia era enorme.
Conhecia suficientemente meus antepassados para saber que eles haviam
providenciado um suprimento de emergência, que entraria em
funcionamento automaticamente assim que surgisse qualquer perigo. A
sobrevivência do regente dependeria única e exclusivamente de um
perfeito suprimento energético. Mas como funcionava, ninguém
sabia...
Nosso
carro deu partida. Os quatro veículos de carga, cada um com
cinqüenta homens, seguiram-nos de perto. Rhodan providenciara para
que os verdadeiros zalitas seguissem num veículo distinto. Dessa
forma, os homens de nosso grupo teriam oportunidade para uma ligeira
troca de idéias. Face a uma modulação temporária das vibrações
cerebrais, que Harno realizara em Rhodan enquanto ainda nos
encontrávamos em Zalit, os reduzidos dons telepáticos do mesmo
tornaram-se suficientes para captar mensagens expedidas pelos
mutantes. Dessa forma não dependíamos das comunicações de rádio.
Passamos
silenciosamente junto a um grupo de supercouraçados, que também
acabavam de pousar, e que pertenciam a uma esquadrilha recém-formada.
Os gigantes de 1.500 metros de diâmetro também tinham tripulações
coloniais. Não saberia dizer quais seriam os resultados dessa
miscelânea numa luta contra um inimigo bem treinado.
Apesar da
situação confusa, esforcei-me para raciocinar de modo lógico.
Lutei energicamente contra os sentimentos conflitantes, que sempre me
diziam que a eliminação total do computador-regente poderia
significar a destruição da Galáxia.
O que
aconteceria se realmente conseguíssemos colocar o cérebro fora de
ação? Qual seria a atitude dos numerosos povos coloniais e das
oprimidas raças estranhas, que naquele instante lutavam na frente de
combate, em defesa do Império, com espaçonaves mais ou menos
aperfeiçoadas? O que viria a seguir, se o sistema de comunicações,
controlado pelo computador, deixasse de funcionar de repente? E se as
linhas de aprovisionamento, todas controladas a distância, entrassem
em colapso?
E os
bilhões de inteligências estranhas se submeteriam às ordens de um
arcônida que já deveria estar morto? De que meios disporia para
obrigá-los a obedecer? Poderia contar com os tripulantes zalitas que
se encontravam a bordo dos couraçados?
Por outro
lado, nunca poderia programar adequadamente os bilhões de robôs
pertencentes a cerca de dez mil tipos diferentes. Nem mesmo uma
equipe científica de cem mil homens seria capaz disso.
Minha
inteligência dizia que a destruição do regente seria uma espécie
de suicídio... E se o deixássemos intacto, dentro de nove meses a
Terra e todo o sistema solar seriam destruídos!
Fitei
Rhodan de lado. Ao que parecia, só pensava numa eventual fuga e
procurava descobrir quais eram as naves capazes de realizar
hipervôos. Provavelmente ainda não compreendera que não havia
possibilidade de fugir de Árcon por essa forma. Há cerca de setenta
e cinco anos, ele o conseguira. Mas as condições daquela época
eram diferentes.
Procurei
afastar os pensamentos relativos à utilidade ou à inutilidade de
nossa operação. Procurei ater-me à idéia originária, logicamente
bem fundada, segundo a qual meus veneráveis antepassados nunca
teriam deixado de prover esse gigantesco cérebro positrônico de um
dispositivo de segurança. Precisávamos descobrir quando e em que
condições, tal mecanismo entraria em ação para desligar o
regente. Depois disso, todos os problemas estariam resolvidos.
Estremeci.
Poucas centenas de metros à minha frente, surgiu uma achatada
abóbada de aço que se erguia repentinamente sobre o pavimento de
metal plastificado. Se houvesse algum controle, este seria realizado
nas comportas pressurizadas e à prova de radiações, existentes na
entrada dos alojamentos subterrâneos.
Tateei
discretamente a coxa direita, onde se encontrava uma arma. O trabalho
dos cientistas terranos era tão perfeito que seria praticamente
impossível descobrir as peças de equipamento por meio de um simples
processo de apalpamento.
Seu
procedimento baseava-se nos padrões humanos. Pensavam como policiais
terranos, que por tradição examinavam qualquer pessoa suspeita com
as ferramentas que a natureza lhes havia dado: as mãos.
Acontece
que não se lembraram de que, num mundo noventa e nove por cento
automatizado, não havia a menor possibilidade de aplicar esse
método. Sempre que em Árcon III se realizavam verificações desse
tipo, a pessoa era enviada simples e racionalmente através de uma
comporta de raios X.
Se isso
acontecesse, restava saber se o revestimento interno do uniforme
resistiria às radiações. Caso esse tipo de proteção desse certo,
ainda restaria esperar que o observador não soubesse interpretar
devidamente as sombras que haveriam de surgir na tela.
Subitamente
a testa de Rhodan cobriu-se de uma fina camada de suor. Por estranho
que pudesse parecer, isso fez com que seu autocontrole vacilante logo
se estabilizasse. Olhei tranqüilamente para as portas blindadas que
se abriam à nossa frente.
Essa
entrada existente na superfície era apenas uma entre muitas. Se
possuía uma comporta de raios X, ainda restaria saber se o
respectivo equipamento estava em funcionamento.
O
motorista robotizado parou o veículo a poucos metros da parede que
se erguia ao céu. Desci para receber os tripulantes.
Rhodan,
Bell e os oficiais de patente mais elevada do couraçado colocaram-se
atrás de mim. Examinei as numerosas objetivas do sistema ótico de
teleobservação. As lentes reluzentes estavam embutidas de ambos os
lados da entrada,
Franzi a
testa, numa expressão de contrariedade, pisquei para o sol de Árcon
que nos fustigava impiedosamente e, num gesto violento, acionei a
chave do transmissor de capacete.
— Capitão
Ighur ao regente — disse em tom muito áspero. — O contrato de
prestação de ajuda que celebrei com o Almirante Calus não me
obriga a expor-me por horas a fio aos raios de um sol escaldante.
Exijo que sejamos introduzidos imediatamente nos subterrâneos e
abrigados em alojamentos climatizados, pois do contrário
sentir-me-ei desligado do contrato. Parece que alguém se esqueceu de
que não estamos acostumados a temperaturas como esta. Meus homens
mostram sinais de esgotamento. Câmbio.
Vi Bell
arregalar os olhos. Rhodan pigarreou, mas logo compreendeu a
situação. Devíamos encontrar um meio de passar pela comporta o
mais depressa possível.
Os membros
do comando tinham ouvido minhas palavras. Pareciam prender a
respiração. Os cinqüenta zalitas genuínos fitaram-me com uma
expressão de veneração. Na opinião desses, assumira um risco
muito grande.
Depois de
alguns segundos, recebemos a resposta do cérebro.
— Comece
a introduzir os homens. Sua observação relativa a uma eventual
insubordinação foi registrada.
— Isso
não me importa nem um pouco — respondi em tom ainda mais
agressivo. — Não estou interessado em arruinar nossa saúde antes
do tempo. Apelo para o senso lógico do regente. Ele quer soldados
descansados e robustos, ou um grupo de homens febris e esgotados?
— Entrem
— respondeu a estação retransmissora A-3.
Não falou
mais em insubordinação.
— Descer,
ficar à vontade e entrar em passo de corrida — berrou Rhodan num
volume de voz que me fez dar um passo para o lado. — Os ocupantes
do veículo da frente entrarão em primeiro lugar. Rápido! Já disse
que deverão correr.
Os
cinqüenta zalitas genuínos começaram a correr como se o demônio
estivesse atrás deles. Nossos homens seguiram-nos. Dali a alguns
segundos, comprimiram-se pelas entradas, que mediam cerca de três
metros de largura. A confusão era tamanha que nem se poderia pensar
mais num exame eficiente de raios X.
Meu
coração batia forte e lentamente. O sangue parecia correr
pesadamente pelas veias. Mantive-me junto à entrada. Coloquei a capa
de oficial em cima do capacete de metal plastificado e fiquei de
costas para o sol.

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