segunda-feira, 22 de agosto de 2016

P-086 - A Chave do Poder - K. H. Scheer [Parte 1]

Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN



Tanto tempo gasto para uma ação inútil...


Uma espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan, foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e a pedra angular do Império Solar.
O fato de que este Império — minúsculo em comparação com as demais potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez das Galáxias — e também à sorte, que como fato permanente é exclusiva dos fortes.
No entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de ruptura iminente...
Os recrutas de Árcon — disfarce adotado pelos terranos comandados por Atlan — estão prestes a cair sob o poder do cérebro positrônico...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

AtlanCuja volta ao velho mundo natal é um ato de desespero.

Perry RhodanImediato do couraçado arcônida Kon-Velete.

Reginald BellOficial da Kon-Velete.

Tako Kakuta e Ras TschubaiTeleportadores, que não conseguem romper um campo defensivo em favo.

Sargento HusterO homem que monta a bomba de Árcon.

EpetranUma voz do passado.
1



Era um homem alto, esbelto e ágil. A pele marrom-avermelhada fazia supor que se tratava de um zalita, ou seja, de um longínquo descendente daqueles arcônidas que há muitos milênios emigraram para o sistema planetário de Voga, situado a 3,14 anos-luz de Árcon, a fim de se fixarem no quarto mundo do sistema. Com o correr do tempo, a cor da pele e do cabelo dos arcônidas se modificou, mas os zalitas conservaram o sangue arcônida.
Breheb-Toor...! — gritou o homem alto em voz de comando.
Duzentos arcônidas coloniais, que eram zalitas tal qual o oficial que se encontrava à sua frente, pareceram ter sofrido um choque elétrico. Os corpos endireitaram-se com tamanha rapidez e precisão que davam a impressão de serem controlados eletronicamente por uma série de chaves automáticas.
O oficial virou-se. Aproximou-se de mim a passos curtos e com o corpo rígido. Trazia sobre o uniforme de fibra sintética o símbolo do Grande Império: três planetas gravitando em torno de um sol reluzente.
O rosto escuro estava semi-encoberto pela protuberância larga do capacete de rádio de uso obrigatório quando em serviço. Só vi um par de olhos cinzentos, o nariz afilado e a boca enérgica.
Parou a três metros de mim. Fez sua apresentação no mais puro arcônida, no qual ressoava um ligeiro sotaque zalita.
Mantinha a mão direita cerrada comprimida contra o ombro esquerdo. Não havia nada que pudesse revelar ao observador, que esse oficial do espaço na verdade era um terrano. Ninguém, nem mesmo os cinqüenta zalitas genuínos, que pertenciam ao grupo, seriam capazes de notar que o imediato do couraçado arcônida novinho em folha, chamado Kon-Velete, não era outro senão Perry Rhodan, administrador do Império Solar.
Aqueles que tinham conhecimento desse fato sabiam ficar calados. Também segui o velho costume: coloquei a mão sobre o ombro esquerdo e agradeci.
Atrás dos homens enfileirados, o gigantesco vulto esférico da Kon-Velete, uma nave de oitocentos metros de diâmetro, subia ao céu da lua Naator, coberto de nuvens esparsas. Tratava-se do único satélite do quinto planeta de Árcon, que servia de abrigo temporário, para fins de treinamento militar, às tropas auxiliares recrutadas por ordem do regente.
A postura regulamentar rígida de Rhodan descontraiu-se. Antes de caminhar de volta para a tropa, dando seus passos ridiculamente curtos, lançou-me mais um olhar de advertência. Levava a sério as normas prevalentes em Zalit.
Estreitei a capa em torno do ombro. Um vento gelado fustigava a grande planície, cujo solo pedregoso e desértico fora totalmente modificado por meio da aplicação de uma camada de aço plastificado de um metro de espessura.
O espaçoporto criado por essa forma trazia a designação Na-IV. Há pouco menos de 24 horas, tempo-padrão, recebera ordem de transferir a Kon-Velete para essa área, o que indicava que a partida era iminente.
Virei-me e cumprimentei os dois oficiais arcônidas que pareciam congelados. Estavam sentados num planador de campo de repulsão aberto e a ocupação deles consistia em inspecionar as tripulações das numerosas espaçonaves.
Usei o rádio de capacete para, na qualidade de comandante do novo couraçado, anunciar que minha unidade estava preparada para decolar. O mais velho dos dois levantou a mão a título de cumprimento. Era o Almirante Senekho. Era um homem de corpo esguio, que estava sentado ao lado do robô-motorista. Todavia, era um dos raros arcônidas que ainda possuíam inteligência e iniciativa suficientes para cumprir as tarefas de comandante de uma base avançada da frota.
Boa sorte, Capitão Ighur — disse a voz saída dos fones de meu rádio de capacete. — O senhor levará a glória de Árcon para a imensidão do espaço. O senhor decolará com a esquadrilha de unidades pesadas. Aguarde o sinal. Mais uma vez, boa sorte.
O jovem oficial que se encontrava ao lado de Senekho cumprimentou-me com um gesto apático. Depois disso, assinalou meu nome na lista que trazia na mão.
O planador foi saindo com um leve zumbido. Fitei-o com uma sensação amarga, até que parasse junto ao comandante da nave mais próxima. Era um cruzador pesado da classe fabricada por robôs.
Quer que eu leve a glória de Árcon para o espaço”, pensei. “A glória de Árcon...”
Aquele homem, que devia ter cerca de dez mil anos menos que eu, nem desconfiava de que fora almirante muito antes dele e ocupara as funções de chefe de uma esquadrilha arcônida. Naquela época, quando os respiradores de metano atacaram o império cósmico, realmente se tratava de defender a concepção de força ligada ao Grande Império. E então não tínhamos necessidade de recorrer aos povos auxiliares para tripular as unidades de nossa frota. Dispúnhamos de vinte bilhões de arcônidas, todos eles especialistas altamente qualificados nos respectivos setores. Ninguém teria tolerado a presença de um robô ou de uma inteligência estranha nas salas de comando ou nos controles principais de uma nave. Se exigíssemos do técnico mais jovem que se submetesse às ordens de um não-arcônida, o resultado teria sido um motim.
E agora? Furioso e triste ao mesmo tempo fitei a tripulação de robôs, assinalada por cores diferentes, que se enfileirara atrás dos homens que deveriam guarnecer minha nave.
Cada uma dessas máquinas teria sua tarefa específica a bordo. Uma série de programações tinha sido realizada; o “adestramento” das criaturas metálicas insensíveis fora uma tarefa penosíssima.
Ao menos tinha um consolo. Ao contrário dos outros comandantes — cuja triste sorte era lamentável — teria a bordo duzentos homens que realmente seriam criaturas vivas, com os quais se poderia falar, rir e, se necessário, gritar. Cento e cinqüenta dentre eles eram elementos altamente qualificados da Patrulha Espacial Solar. Tratava-se de astronautas com os quais se poderia contar em qualquer missão, por mais difícil e arriscada que fosse, pois não entrariam em pânico ao primeiro impacto. Não conheciam choques nervosos nem deserções provocadas pelo medo. Além desses cento e cinqüenta homens, havia cinqüenta zalitas verdadeiros, que me haviam sido entregues há várias semanas. Os novos couraçados deviam levar a bordo pelo menos duzentos seres pensantes, pois durante as lutas travadas nas frentes de bloqueio, situadas junto às zonas de descarga dos druufs, se constatara que as tripulações exclusivamente robotizadas eram incapazes de enfrentar a situação.
Nem eu nem Perry Rhodan gostamos de levar esses soldados a bordo. Devíamos manter um controle rígido e ininterrupto sobre nossos atos, a fim de evitar que cometêssemos qualquer erro cujas conseqüências seriam graves. Uma única palavra inglesa proferida por nós bastaria para provocar espanto e desconfianças. Ainda trazíamos viva a lembrança dos atentados por meio dos quais conseguimos fazer com que nossos homens se saíssem bem nos testes médicos e psicológicos.
Para completar o azar, havia entre os zalitas dois oficiais, aos quais tive de entregar posições importantes. Afinal, tivemos de apresentar-nos sob o disfarce dessa gente, e por isso não tinha nenhum motivo plausível para rejeitar esses homens, que eram considerados muito competentes.
Só com grande dificuldade consegui afastar as preocupações. Estávamos num ambiente estranho, cercados por nossos piores inimigos, que, à menor suspeita sobre nossa verdadeira origem, golpeariam sem piedade.
Recentemente o gigantesco computador de Árcon III incluíra uma nova disciplina no programa de treinamento da frota. Seu nome era o seguinte: “Tática de Guerra Terrana.
Quando ouvi falar nisso pela primeira vez, tive uma sensação nada agradável. Concluí que o regente iniciara os preparativos para a conquista do sistema solar, embora ainda não soubesse onde encontrar a Terra.
Dentro de poucos meses, o perigo dos druufs desapareceria, já que a zona de descarga se aproximava de nova fase de estabilização. Os estranhos, vindos de outra dimensão temporal, não teriam mais nenhuma possibilidade de atacar o espaço einsteiniano. Se soubessem que suas chances se acabariam dentro de poucos meses, o computador-regente de Árcon poderia contar com uma situação bem difícil. Já se sabia que os druufs atacavam com gigantescas frotas robotizadas. Quando esses ataques cessassem, o cérebro positrônico passaria a interessar-se pela Terra, que começava a incomodá-lo. Quando isso acontecesse, a descoberta de nossa posição galáctica seria apenas uma questão de tempo.
Foi justamente por sabermos disso que decidimos pôr o regente fora de combate, desde que conseguíssemos desligá-lo ou fazê-lo voar pelos ares. Naquele momento ainda parecia que a operação, que Rhodan preparara com enormes esforços e a um custo elevadíssimo, estava fadada ao fracasso.
Estávamos no dia 18 de março de 2.044 do calendário terrano. Decoláramos no dia 21 de janeiro com a Drusus e o cruzador ligeiro Califórnia. Uma vez preparado o terreno, pretendíamos arriscar uma tentativa de derrotar o computador.
Um ataque aberto seria uma loucura rematada. Na época, o computador mantinha quase sessenta mil naves de guerra nas proximidades da zona de descarga. Nossa única chance seria inutilizá-lo numa ação de comando.
E foi assim que, quando ainda se encontravam na Terra, cento e cinqüenta homens pertencentes ao comando foram transformados em zalitas. Também eu recebera a pele típica marrom-avermelhada e os longos cabelos cor de cobre que, conforme o ângulo de incidência da luz, emitiam um brilho esverdeado.
Ouvi uma ligeira tosse nos meus fones. Rhodan, que se encontrava à esquerda dos homens enfileirados, lançou-me mais um olhar de advertência. Voltara a apresentar a expressão pensativa, o que naquele momento representava um comportamento totalmente inadequado.
Voltei a cumprimentar os homens enfileirados e ordenei pelo rádio de capacete:
Embarque a tripulação, Major Sesete!
Rhodan virou-se. Sua voz de comando ressoou sobre toda a área. Duzentos homens uniformizados marcharam em direção às comportas inferiores do couraçado, que se encontravam abertas. Foram seguidos por mais de mil robôs, entre os quais se viam as novas máquinas de guerra, destinadas a operações de desembarque. Tratava-se de gigantes metálicos dotados de armas giratórias e quatro braços de quatro juntas. Com seus quase três metros de altura sobressaíam entre as outras máquinas.
Parei junto a uma coluna telescópica de apoio e contemplei a tropa altamente disciplinada. Esforçamo-nos ao máximo para aprender os regulamentos militares dos zalitas.
Pousáramos em Voga IV por meio de um transmissor de matéria colocado às escondidas no planeta. O agente cósmico Jeremy Toffner levara-nos a Tagnor, capital do planeta, onde encontramos uma base de operações sob as cavernas da arena.
A partir dali, a operação começou a tornar-se perigosa. Pouco tempo antes, um almirante espacial chamado Calus chegara ao planeta. O computador-regente incumbira-o de recrutar astronautas zalitas para prestarem serviço na frota de Árcon. Para todos os efeitos práticos, era Calus quem mandava em Voga IV, motivo por que procuramos substituí-lo por outro homem.
Depois de prolongados preparativos, realizados por nossa equipe científica, conseguimos introduzir no palácio do governo de Tagnor o sargento Osega, sob a máscara de Calus. O verdadeiro Calus era nosso prisioneiro.
Dali em diante não houve o menor problema em fazer os cento e cinqüenta terranos disfarçados passarem por zalitas. Tínhamos documentos impecáveis, com os quais conseguimos enganar a comissão de recrutamento dos arcônidas.
Em meados de fevereiro de 2.044, uma nave transportadora da frota de Árcon levou-nos à grande lua do planeta Naat, onde surgiram outras dificuldades. O computador-regente incumbira os médicos galácticos do exame das novas tropas espaciais. Não foi nada fácil enganar os aras e introduzir dados individuais falsos nos registros automáticos.
De qualquer maneira, conseguimos fazer isso. Mas poucas semanas depois, a catástrofe foi evitada por pouco.
No planeta distante de Zalit, situado a 3,14 anos-luz do sistema de Árcon, um grupo zalita de revoltosos foi bem sucedido numa tentativa de assassinato do comandante arcônida Calus. Com isso, o sargento Osega perdeu a vida.
No último instante, os mutantes e cientistas de nossa equipe, que tinham ficado em Zalit, conseguiram remover o cadáver de Osega. Se o tivessem enviado para Árcon, sem dúvida teriam percebido que uma pessoa totalmente estranha fora vitimada pelo atentado.
Escapamos por pouco, mas o incidente nos ensinou que o destino é imprevisível. Quando chegamos a Zalit, tínhamos certeza absoluta de que, dentro de poucas semanas, conseguiríamos chegar a Árcon III, onde passaríamos à execução de nosso plano.
Nenhuma dessas previsões se realizara. Enfrentamos verdadeiras montanhas de dificuldades. Constantemente tivemos de contentar-nos com soluções parciais. A cada dia defrontávamo-nos com situações não previstas em nosso programa.
Por algumas semanas ficamos presos na grande lua do quinto planeta de Árcon. Logo após a chegada entregaram-nos um couraçado da Frota Imperial, recém-saído do estaleiro. Fui nomeado comandante, já que em Zalit fora provido com a necessária documentação.
Mas, se pensávamos que logo seguiríamos viagem, mais uma vez estávamos enganados. Os vôos de treinamento seguiram-se numa série ininterrupta. Tivemos de treinar o vôo em todos os tipos de formação, e, simultaneamente, devíamos tomar cuidado para que os zalitas não ouvissem nenhuma palavra que pudesse trair-nos.
Nossos especialistas ficaram ocupados durante quinze dias com a programação dos robôs. Os deveres tomavam todo nosso tempo, e assim não tínhamos tempo para refletir detidamente sobre nossos planos.
Esperando firmemente que as coisas ainda acabassem dando certo, entregamo-nos inteiramente ao serviço militar. A disciplina era rígida e os castigos muito rigorosos. Os arcônidas sempre souberam lidar com os povos auxiliares, que sempre executavam o serviço mais ou menos coagidos. Deles não se podia esperar que trabalhassem com muito entusiasmo.
Hoje finalmente recebi ordem para levar o couraçado com a tripulação já treinada a Árcon, onde provavelmente seria realizado mais um exame de aptidão. Senti um calafrio ao pensar no perigo que esse exame poderia acarretar. Os homens mais importantes do Império Solar encontravam-se a bordo de uma nave que voaria diretamente para a toca do leão.
A esta hora já me sentia muito satisfeito por termos deixado na base de Zalit o rato-castor Gucky, Goratchim, um mutante de duas cabeças e as mutantes do sexo feminino. Se tivéssemos trazido essas pessoas na missão que estávamos realizando, provavelmente haveria dificuldades insuperáveis. Gucky e Goratchim de forma alguma poderiam ser disfarçados para se parecerem com os nativos de Zalit.
Os últimos contingentes de robôs passaram por mim. Tratava-se das máquinas especiais do comando de controle de vazamentos. Todas essas máquinas tinham uma faixa vermelha no peito.
Perry Rhodan encontrava-se ao pé da escada rolante. A Kon-Velete era uma nave nova e potente, mas não possuía o menor conforto. Até mesmo as instalações do camarote do comandante eram grosseiras, e para os nossos padrões, as instalações sanitárias deixavam muito a desejar.
Ao que parecia, o computador-regente de Árcon não achava necessário modificar as gigantescas linhas de montagem de Árcon III pelo simples fato de que de repente as novas naves espaciais seriam tripuladas por seres vivos.
Quando o último robô desapareceu, lancei um ligeiro olhar para o alto. As escotilhas blindadas da comporta de ar, que estavam abertas, ficavam a 22 metros acima do lugar em que nos encontrávamos. Só lá começava o abaulamento da calota polar. O gigante de oitocentos metros era uma nave que deixaria qualquer comandante orgulhoso.
Nunca teria contado com a possibilidade de algum dia encontrar-me novamente na sala de comando de um veículo espacial arcônida. Minha longa peregrinação pela história da Terra chegara ao fim. Uma nova época iria começar. Perto de mim estava um homem que, em poucos decênios, fizera do primitivo mundo terrano um planeta de importância galáctica.
Antes de dirigir-se a mim, Rhodan verificou os controles de seu transmissor de capacete. Se tal aparelho continuasse ligado durante uma de nossas palestras confidenciais, isso poderia significar nosso fim.
Também verifiquei o meu. Estava desligado. Os três sentinelas apareceram na comporta de ar. Aqueles homens pertenciam ao nosso comando. O Tenente Olavson fez um gesto tranqüilizador em nossa direção.
Lancei mais um olhar desconfiado em torno. Os cruzadores pesados do quarto grupo estavam pousados à nossa direita e esquerda. Tinham uma tripulação de apenas cinqüenta homens. Era pouco para aquelas naves, que mediam seus quinhentos metros de diâmetro, e que por isso perdiam muito em eficiência.
Face à degenerescência completa de minha raça, o robô-regente sofria a falta de pessoal. Procurava substituir pela quantidade a perda de potência combativa resultante da deficiência de pessoal.
Decolaremos dentro de trinta e dois minutos — disse em voz baixa, dirigindo-me a Rhodan.
O vento cortante penetrou na boca aberta, fazendo com que os dentes doessem.
Perry limitou-se a acenar com a cabeça. Não era seu costume falar sobre assuntos que já haviam sido discutidos inúmeras vezes. Naquela altura, a única coisa que importava era levar nosso comando a um lugar em que pudesse entrar em ação.
Havíamos feito tudo que estava ao nosso alcance. Só nos restava confiar nas boas graças do destino. Já não tínhamos condições de intervir de forma decisiva nos acontecimentos que nos esperavam.
Mais três zalitas adoeceram — informou. — Bell acaba de receber o aviso. Não suportam o clima daqui. Como se sente?
Fitou-me atentamente. Sem dúvida meu rosto mostrava sinais de tensão nervosa.
Tudo bem — respondi para esquivar-me. — Procure não esquecer-se novamente de fazer continência.
Quando já me encontrava na escada rolante, que seguia muito devagar, ainda o ouvi praguejar. As três sentinelas entraram em posição de sentido. O berreiro de Olavson me fez estremecer. Não sabia dirigir-se a mim em tom normal. Não fazia mal, pois o regulamento zalita exigia esse volume de voz.
Agradeci e entrei à frente de Rhodan no elevador axial, que parou automaticamente no hall da sala de comando.
Perry caminhou na minha frente, abriu as pesadas escotilhas blindadas e voltou a apresentar-se. Só depois pude entrar. Aos poucos, o cerimonial começava a aborrecer-nos. Os zalitas o haviam copiado das antiqüíssimas normas arcônidas. No entanto, com o tempo, tal cerimonial foi levado a tamanho exagero que já não me sentia muito bem com isso.
Além dos nossos homens, estavam presentes dois “genuínos”. Face à rigorosa disciplina militar, existente em Voga IV, consideravam-me uma espécie de ser superior. O Tenente Kecc, oficial de plantão do posto de observação, continuava como uma estátua junto à sua cadeira giratória, embora os terranos já estivessem sentados.
O rosto furioso de Rhodan dava a entender que esse cerimonial lhe causava repugnância. O outro zalita estava sentado junto aos controles automáticos dos campos antigravitacionais. Por lá não poderia ocorrer nenhuma dificuldade, pois, independentemente de sua atuação, o dispositivo inteiramente positronizado corrigiria qualquer discrepância.
Olhei atentamente em torno. Os rostos com os quais já estava familiarizado revelavam, com uma franqueza maior ou menor, que aqueles homens já achavam-se saturados do jogo de esconder que vinha se prolongando por algumas semanas.
Conhecia perfeitamente os problemas psicológicos e sabia que tais dificuldades representavam uma pesada carga para todos. Por isso resolvi transmitir uma informação ambígua:
O Grande Coordenador de Árcon manda dizer que, dentro de algumas horas, deveremos pousar em Árcon III. Depois disso terá início o treinamento tático final.
Acho que daqui a trinta dias, no máximo, seremos enviados ao front. Viva o Grande Império!
Os dois zalitas repetiram as últimas palavras em voz extremamente alta. Os terranos não pareciam tão entusiasmados. Eram detalhes que dariam a um atento observador muito que pensar. Ainda bem que os zalitas genuínos não eram tão fanáticos como pareciam ser. Sabia que pelo menos quarenta deles haviam sido coagidos à prestação do serviço militar.
John Marshall, comandante do Exército de Mutantes, acenou com a cabeça de forma quase imperceptível. Verificara os impulsos mentais dos zalitas. Ao que parecia, tudo estava em ordem quanto a eles.
A fim de receber as instruções para a decolagem, Rhodan plantou-se à minha frente. Transmiti-as em palavras fortes e lacônicas. Fitou-me com uma expressão tão fria que até parecia que eu era culpado por ainda não termos chegado ao planeta de Árcon. Afinal de contas, a operação em que estávamos empenhados não era nenhum piquenique.
Aliás, essa ação baseava-se exclusivamente numa suposição que há poucos meses ainda me parecera uma certeza. Mas as dificuldades que estávamos encontrando eram tamanhas que os cálculos e as conclusões daquele tempo, a meu ver, se tornaram altamente duvidosos. Quando pensava nisso, quase chegava a sentir náuseas. Esforçava-me constantemente para que ninguém desconfiasse de que não acreditava mais nos meus prognósticos.
Era evidente que não poderíamos derrotar o regente numa luta aberta. Também já se haviam passado os tempos em que a penetração no sistema do sol branco de Árcon, embora perigosa, ainda era possível. O regente mandara fechar hermeticamente esse setor espacial.
Face a isso só havia uma maneira de destruir o computador-regente, cujo poder já se vinha tornando exclusivamente ditatorial. Teríamos de aproximar-nos discretamente, golpeá-lo e aguardar os acontecimentos.
Na fase de planejamento não deixara de informar Rhodan de que uma fuga de Árcon não mais teria qualquer possibilidade de êxito. Já conseguira fugir uma vez. Mas, na época, os preparativos do regente ainda não estavam concluídos. Agora as coisas eram diferentes.
Crest, o cientista arcônida, e eu afirmáramos que nossos veneráveis antepassados nunca deixariam de incluir, na construção do computador-regente, um dispositivo de segurança no qual se pudesse confiar. Certamente tratava-se de um relê sobreposto que apagava todas as programações do cérebro positrônico, assim que o funcionamento deste deixasse de inspirar confiança e não atendesse aos objetivos dos construtores arcônidas.
Não havia dúvida de que esse momento havia chegado. O regente funcionava praticamente como se estivesse em curto-circuito. Seus atos eram tão contraditórios que o dispositivo de segurança, com cuja presença Crest e eu contávamos, já deveria ter intervindo. Não sabíamos explicar por que isso não tinha acontecido.
Só iniciamos nossa operação porque acreditávamos que devia haver um caminho. E foi assim que nos colocamos na situação em que nos encontrávamos.
Mas há algum tempo senti que os membros do comando terrano já não confiavam cem por cento em mim... Tudo acontecera de forma inteiramente diferente das nossas previsões. E agora viamo-nos obrigados a desempenhar corretamente o papel de uma tripulação colonial fiel e submissa, cujos cento e cinqüenta membros dificilmente seriam capazes de conduzir uma nave espacial.
Partiríamos para nossa destruição ou para a vitória. Não havia outra alternativa. Na fase dos preparativos, em Zalit, ainda poderíamos desistir e bater em retirada. Mas agora estávamos na armadilha. Minhas dúvidas sobre os argumentos, que antes pareciam tão lógicos, me corroíam os nervos.
Ao que tudo indicava, Rhodan já percebera alguma coisa, pois do contrário não teria perguntado constantemente pela minha saúde.
Um forte estrondo abalou a Kon-Velete e arrancou-me das reflexões martirizantes. Três luzes vermelhas acenderam-se no setor de controle 18. Ouvi Bell praguejar em zalita e vi os olhos de Rhodan chamejarem de raiva. O rosto abatido de um zalita surgiu numa das telas do sistema de intercomunicação da nave.
Não venha me dizer nada — gritou Bell em tom furioso. — Faça as chaves automáticas engatarem de novo. Quantas vezes ainda lhe terei de explicar como são ligados os projetos antigravitacionais? Nunca ligue todos de uma só vez, seu idiota. Estamos registrando um pique de carga de cerca de oito mil ampères. Vamos logo; engate as chaves automáticas.
As chaves de segurança estão trancadas — respondeu o zalita, todo trêmulo.
Bell descontrolou-se. Rhodan e eu esforçamo-nos para não perder o autocontrole. Era sempre a mesma coisa com essa gente, embora eles devessem ter bastante experiência para evitar isso. Toda a aparelhagem do novo couraçado trabalhava com o máximo possível de tensão, a fim de que a amperagem pudesse ser mantida em nível baixo. Até parecia que um engenheiro zalita nunca era capaz de compreender isso. Faziam as ligações como se só trabalhássemos com dispositivos de dez mil volts, nos quais a amperagem fatalmente teria de ser bastante elevada.
Faça a ligação manual das chaves automáticas — ordenou Rhodan em tom áspero. — Mande alguns técnicos para baixo e destaque dois operadores eletrônicos para acompanhá-los. Ande logo. E apresente-se a mim assim que estivermos no espaço.
O zalita ponderou que, ainda no dia anterior, tinha havido dois acidentes no equipamento elétrico, o que não deixava de ser verdade. De qualquer maneira, porém, a trava das chaves de segurança tinha de ser aberta com a mão. Enquanto isso não fosse feito, elas não reagiriam aos impulsos teleguiados.
A notícia de que as chaves estavam em ordem só foi transmitida a dois minutos da decolagem. Antes, as chaves de segurança de deslocaram mais três vezes, o que constituía prova inequívoca de que, no setor 18, a sobrecarga era um fato freqüente, e, face a isso, os quadros de chave sempre reagiam através do dispositivo de travamento. As chaves só voltavam a ligar-se três vezes. Se até lá o defeito não tivesse sido corrigido, o dispositivo automático de segurança as desligava definitivamente. Se isso acontecesse no curso de uma batalha, a conseqüência poderia ser a destruição da nave.
Desde o momento em que voamos, com uma tripulação composta parcialmente de zalitas, começamos a compreender por que a frota de bloqueio do computador-regente sofrerá perdas tão pesadas. Os druufs estavam em situação de inferioridade numérica, mas suas tripulações eram muito melhores.
Face à minha natureza e à dos terranos, procurávamos constantemente corrigir esse tipo de falha. Esforçamo-nos para provar aos zalitas que estas podiam ser evitadas. Os técnicos do nosso comando fitaram-me com uma expressão de espanto quando, alguns dias antes, expliquei-lhes que o maior ou menor grau de treinamento dos colonos de Árcon nos era totalmente indiferente. Em hipótese alguma poderíamos tirar qualquer proveito de seus treinamentos.
Até mesmo Rhodan cedeu a custo â lógica das minhas palavras. Não compreendia como a gente pode mostrar-se indiferente às repetidas negligências. A meticulosidade dos amigos do Império Solar começava a incomodar-me. Ficavam muito nervosos quando um zalita não queria ou não conseguia compreender. Paciência: os humanos eram assim mesmo. Quase tudo que faziam tinha uma boa base.
Quando, à direita e à esquerda do lugar em que nos encontrávamos, dois cruzadores pesados do quarto grupo ergueram-se do solo, ainda pensava nesse fato incontestável. Ouvi o rugido dos mecanismos propulsores, que, apesar da redução do volume dos microfones, ainda era quase insuportável. Um gigante após o outro rompia o fino envoltório atmosférico da lua. Finalmente chegou nossa vez.
Estava sentado numa poltrona de encosto alto, destinada ao comandante da Kon-Velete. À minha frente estavam montados os controles principais. Se necessário, poderia paralisar com um só movimento de chave as instalações mais importantes do couraçado.
Rhodan estava sentado à minha direita e Bell à esquerda. Cabia-lhes pilotar a gigantesca esfera de aço, na parte em que a aparelhagem automática não cuidava disso.
Uma tela iluminou-se e nela surgiu o rosto enrugado do Almirante Senekho.
Decolagem permitida — anunciou. — Reunir-se no setor três e seguir a rota em formação. Siga as instruções da nave capitania. Boa sorte. Desligo.
Rhodan fitou-me. Acenei com a cabeça. O vôo em formação seria desagradável. Mas seria totalmente ilusório contarmos com qualquer outra possibilidade. Sozinhos nunca chegaríamos a Árcon.
Dali a dez segundos, nossos mecanismos propulsores começaram a trovejar. Erguemo-nos do solo com um valor de compensação gravitacional correspondente a cem por cento do nível de Naator. Rhodan mantinha as pontas dos dedos sobre os controles manuais, uma vez que havíamos verificado que os dispositivos automáticos sincronizados destinados à coordenação do empuxo dos vários bocais de jato não funcionavam com a necessária precisão. Durante os vôos experimentais, houvera desvios que chegavam a 1,85 graus. Apesar disso, o defeito ainda não fora removido. Isso constituía mais uma prova de que a fabricação em escala gigantesca, realizada por ordem do regente, não era um processo perfeito. Por certo, as linhas automáticas de montagem estavam precisando de uma revisão.
Avançamos para o espaço a uma aceleração reduzida e, nas proximidades da fortaleza espacial Naat-V, reunimo-nos ao grupo de naves que se mantinha em posição de espera. A Kon-Velete era considerada a nave-guia do quarto grupo de cruzadores pesados. Isso bastou para convencer-me que, logo após nossa chegada a Árcon, um comodoro subiria a bordo. Não era muito provável que eu fosse nomeado para o posto de chefe de esquadrilha.
Senti-me dominado pelo ódio e pela amargura. Há dez mil anos partira desse sistema solar para cumprir as ordens do Grande Conselho. Só me haviam pedido que fosse dar uma olhada num sistema distante, a fim de verificar qual era o motivo dos constantes pedidos de socorro dos colonos ali radicados.
O vôo de rotina transformara-se num desterro... Finalmente estava regressando, mas o velho Árcon deixara de existir. Meus veneráveis antepassados há muito tinham desaparecido, e tive a sensação de não passar de um remanescente inútil, cujos anseios e esperanças se tornaram impossíveis.
O império cósmico era governado por um computador. Nessas condições, de nada me adiantaria a alegação orgulhosa e soberba de ser Atlan, membro da família dos Gonozal. Minha família provavelmente já caíra no esquecimento. Ninguém se lembraria de que dela já haviam saído imperadores. Meu elevado grau de príncipe de cristal não causaria maior impressão, nem o cargo de almirante da Frota Imperial. Por isso só me restava esperar que não me subordinassem a algum oficial tolo e arrogante, com uma educação supersofisticada e imbuído de pensamentos reveladores de decadência e inaptidão para a vida. Acontece que esse perigo existia, motivo por que, desde logo, começava a preparar-me para o inevitável.
Num gesto instintivo pus a mão no peito, onde meu ativador de vibrações celulares pulsava sob o fino tecido de plástico do uniforme zalita. Graças a ele, possuía uma imortalidade relativa, embora ainda não soubesse como o aparelho funcionava. Ele me foi entregue, há muito tempo, por um ser coletivo, altamente desenvolvido, que também se sentia ameaçado pelas mesmas inteligências que me perseguiam. Ao suspender por meio de um misterioso micro-conjunto o processo de envelhecimento natural de meu corpo, esse ser fizera de mim o representante para a defesa dos seus interesses.
Fiz um grande esforço de concentração. Os olhares perscrutadores de Rhodan deixaram-me envergonhado. Parecia saber exatamente o que acontecia na minha mente.
Será dentro em breve — disse em voz baixa.
O sentido dessa frase lacônica era tão profundo que me fez estremecer.
O que seria feito da minha teoria? Será que realmente havia um dispositivo de segurança no maior computador da Via Láctea? Em caso afirmativo restaria saber em que hipótese esse dispositivo entraria em funcionamento e o que deveria ser feito para ativá-lo.
Eram muitas perguntas para as quais não havia respostas. Só tínhamos certeza absoluta de uma coisa: quando estivéssemos em Árcon, não haveria mais nenhum caminho de volta.
A esquadrilha continuou a entrar em formação. Assim que o grupo de 68 unidades ficou completo, recebemos ordem de partida. Aceleramos a apenas 1.002 km/seg. Até então nunca se havia conseguido constituir uma formação dotada de boa manobrabilidade, com uma aceleração mais elevada. Neste ponto, as velhas tripulações de robôs mereciam mais confiança que os zalitas.
Não gostei nem um pouco do sorriso irônico de Bell. Os terranos não deveriam acreditar que eram o máximo em perfeição.
Era claro que cada um deles valia mais do que cinqüenta colonos treinados. Mas nem por isso tínhamos motivo para acreditar que o problema poderia ser resolvido apressadamente. Até agora a sorte nos tinha favorecido; só isso. Em todas as hipóteses, alguém conseguira remover no último instante um perigo que surgia de repente. O papel principal fora desempenhado pelos nossos mutantes. Se não fossem suas capacidades supersensoriais, a missão em que estávamos empenhados seria totalmente impossível. Restava saber se em Árcon III conseguiriam a consagração final. Face a certas circunstâncias irremovíveis, Gucky e Goratchim tiveram de ser deixados de fora.
Betty Toufry e Ishy Matsu também tiveram de permanecer no labirinto cavernoso, situado sob a arena zalita.
Rhodan ligou o piloto automático. Reclinou-se confortavelmente na poltrona, abrangeu com um só olhar as telas da galeria de visão global e dirigiu o rosto para mim.
É uma beleza irreal, não é? — observou. A expressão de seus olhos era indiferente. Parecia enxergar através de meu corpo.
O grupo estelar M-13 realmente era lindo. Neste setor, as estrelas ficavam muito mais perto umas das outras que nas outras áreas da Galáxia. Segundo as concepções arcônidas, o grupo M-13 representava a espinha dorsal do Universo, muito embora se situasse nos confins da Galáxia. Tratava-se da célula-máter do Grande Império. Foi aqui que teve início o processo de conquista, colonização e... submissão. Era meu mundo natal. Restava-me saber como seria recebido agora. Sentia-me mais desamparado que um filho extraviado, pois por aqui não havia mais ninguém que pudesse lembrar-se de mim.
2



Fomos tratados como um bando de moleques vagabundos que devem dar-se por satisfeitos por não serem presos.
As belas recordações de Árcon foram desaparecendo, para ceder lugar a uma raiva surda.
O setor lógico de meu segundo cérebro não dava mais nenhum sinal de sua existência. Em compensação, as reações de minha memória fotográfica eram mais freqüentes e intensas. Um arcônida de posição elevada — cujo cérebro tivesse recebido um ativamento especial, mediante licença do conselho médico — não seria capaz de esquecer qualquer coisa. Foi por isso que o deserto de aço de Árcon III me pareceu tão familiar.
Nada mudara naquele planeta que meus antepassados haviam trazido para junto do planeta-irmão, usando gigantescos campos gravitacionais, a fim de transformá-lo num mundo de armamento.
Era o maior dos três que, dispostos em forma de triângulo, circulavam em torno do grande sol branco.
Árcon I, conhecido como o mundo de cristal, continuava reservado às finalidades residenciais. Árcon II voltara a ser considerado o mais importante dos mundos mercantis do Império. Ali pousavam constantemente as naves mercantes de todas as raças conhecidas. Todavia, não obtivemos permissão para visitar as ruas comerciais que abrangiam verdadeiros mundos. Triste e martirizado por uma dor penetrante, lembrei-me dos silos e depósitos recheados, nos quais eram guardadas as mercadorias de toda parte da Galáxia.
Ao que parecia, tudo isso tinha chegado ao fim. O computador-regente restringira o comércio ao estritamente necessário, fazendo com que este se dedicasse, quase exclusivamente, à aquisição das necessárias matérias-primas.
Árcon III, que era o mundo da frota e dos gigantescos estaleiros, precisava de quantidades imensas de materiais, para satisfazer a voracidade constante das linhas de montagem.
O mundo dos arcônidas continuava a ser uma maravilha galáctica. Nenhuma outra raça jamais conseguira arrancar de suas órbitas dois astros naturais e colocá-los em outra posição. Desde o momento em que meus antepassados conseguiram essa dificílima realização científica, a falta de espaço deixou de representar um problema para nosso povo.
A isso, seguira-se o tempo das grandes emigrações. O império cósmico foi-se formando.
O sol de Voga, não muito distante, foi nosso primeiro objetivo. Mas, menos de quinhentos anos depois do início da colonização, os descendentes dos colonizadores já deixaram de ser considerados arcônidas puros. As influências ambientais sobre o corpo e a mente que ali se verificaram, aconteceram em quase todos os outros lugares.
O número exato dos descendentes dos arcônidas era desconhecido. Porém, segundo as estimativas, o número das inteligências espalhadas pela Galáxia devia chegar a cinqüenta trilhões.
Estes descendentes desligaram-se de Árcon. Na maioria das vezes, nem sequer sabiam de onde tinham vindo. Em virtude disso ocorreram encarniçadas guerras coloniais, nas quais a luta sempre girava em torno de pretensões de posse e de arrojadas pretensões de autonomia.
Agora estávamos recebendo as conseqüências desse estado de coisas. Pela primeira vez senti na própria carne o tratamento que costumava ser dispensado a uma criatura subdesenvolvida. Se as pessoas que escarneciam de nós fossem arcônidas com elevados dotes espirituais, minha vida não seria tão insuportável. Acontece que as pessoas que lidavam conosco eram cabeças-de-vento, cuja atividade mental se reduzia ao anseio de executar pela forma mais rápida e confortável as missões que lhes eram atribuídas pelo regente.
O comodoro da quarta esquadrilha, cuja chegada eu esperava, subiu a bordo duas horas depois de nosso pouso em Árcon III. Aquele homem ainda jovem — rosto inexpressivo e olhos apagados, que às vezes pareciam sonhadores — considerava-se um semideus.
Se alguma vez entendera algo de astronáutica moderna parecia ter esquecido tudo que sabia. No início eu o odiei, mas depois tive pena dele. A primeira medida por ele adotada consistiu em mandar levar para bordo um simulador portátil. Tive que tomar uma atitude enérgica para evitar que esse aparelho, destinado à reprodução de combinações idiotas de reflexos luminosos, fosse colocado na sala de comando. Jamais me esqueceria do olhar aniquilador que o arcônida me lançou, e sempre me lembraria do rosto pálido e dos punhos cerrados de Rhodan.
Era esse degenerado, lacaio de um gigantesco autômato, que comandava a quarta esquadrilha, que sempre contava com dezessete naves de guerra.
Seu nome era Gailos. Nunca ouvira falar em sua família. Aquele homem era um exemplo vivo da transformação sofrida pelo povo arcônida, que de uma comunidade altiva passara à categoria de um grupo de fracalhões presunçosos. No entanto, Gailos ainda devia pertencer aos membros mais ativos da raça dos arcônidas, pois do contrário o regente não o teria investido nas funções de comodoro.
Durante quinze dias, sob as ordens desse homem, realizamos manobras espaciais em condições de batalha. Pela primeira vez tivemos permissão para manejar os controles de armamento e realizar ataques simulados contra unidades dirigidas por robôs. O resultado dessas manobras provocou uma atitude imprudente dos terranos, que, vez por outra, soltavam algumas risadinhas escondidas.
Depois de conhecer o grau de “competência” de nosso novo comandante, Rhodan resolveu arriscar uma ação que durante semanas não tínhamos arriscado.
Durante a confusão inextricável, surgida durante um malogrado ataque em cunha, Rhodan ligou o dispositivo automático de hipersalto, sob os olhares atônitos dos companheiros. Sem dúvida pretendia realizar a título experimental uma transição a pequena distância, a fim de verificar se poderia confiar no novo couraçado. Provavelmente mais tarde saberia culpar Gailos pelo “salto involuntário”.
Mas não houve nenhum salto, pois a Kon-Velete não estava em condições de realizar qualquer transição. Os conversores de campos estruturais não deram sinal de sua presença, e as luzes de controle nem sequer chegaram a acender-se. Compreendemos que o computador-regente era muito cauteloso.
Pela primeira vez deveríamos pousar em Árcon III. Quatorze dias já se haviam passado, e ainda não tinha surgido qualquer possibilidade de cuidar de nossa tarefa propriamente dita. Isso acontecia pelo motivo muito simples de que não obtínhamos licença.
Nossos alojamentos ficavam bem embaixo do pavimento de aço do espaçoporto A-R-145. Assim que a nave pousava éramos obrigados a sair de bordo e desaparecer nas entranhas do planeta da guerra.
Uma vez que a superfície de Árcon III também foi-se tornando muito pequena, meus remotos antepassados começaram a escavar o interior desse mundo. Era por isso que as unidades energéticas, de controle e de comando, muitas vezes ficavam até seis mil metros abaixo da superfície. A rigor, Árcon III não passava de um astro perfurado e escavado, em que todas as coisas tinham um aspecto puramente finalista.
De início, a permanência nos subterrâneos era um verdadeiro pesadelo para os terranos. Mas acabaram por conformar-se com o inevitável e procuraram encontrar alguns atrativos nessa prisão.
Muito embora o ambiente fosse antinatural e pouco agradável para meus amigos, não deixava de ter seu fascínio. Árcon III fora preparado para rechaçar qualquer ataque vindo do espaço. Lá embaixo, Rhodan e seus colaboradores viram como se faz para transformar um planeta comum numa fortaleza galáctica de primeira categoria.
Finalmente Gailos fez uma débil alocução aos comandantes das unidades, transmitida pelo intercomunicador, e ordenou o fim das manobras, o que nos fez suspirar aliviados.
Reginald Bell, oficial da Kon-Velete, inchou visivelmente as bochechas vermelhas e lançou um olhar para Gailos, que me fez sentir calafrios.
Lancei um sinal de advertência para Bell, e ele cerrou os enormes punhos. Depois de Rhodan, Bell era o homem dotado de maior dose de sangue-frio em toda a frota solar, muito embora às vezes costumasse disfarçar essa qualidade. Naquele instante, porém, estava próximo a um colapso nervoso.
A falha do dispositivo automático de hipersalto representara um choque para ele e para outros homens. Até então contáramos com a possibilidade de, em caso de perigo, realizar um hipersalto e desaparecer com a Kon-Velete.
Agora até essa saída fora fechada. Provavelmente o conversor estrutural só era liberado pelo regente, quando a nave se dirigisse ao campo de batalha. Ao que tudo indicava, não confiava nos seus aliados, mesmo se tratando dos zalitas, seus vizinhos mais próximos.
Já nos acostumáramos a não fazer observações na presença de estranhos e a evitar conversas comprometedoras. Rhodan formulara uma advertência enfática nesse sentido, pois era possível que houvesse algum dispositivo de vigilância controlado por robôs.
Se a programação tão antiga do computador-regente fazia com que fosse desconfiado a ponto de desligar o hiperpropulsor até mesmo durante manobras muito importantes, devia-se contar com a existência de outras medidas de segurança.
Fiquei satisfeito ao ver que Bell conseguia controlar-se. Provavelmente estivera prestes a dirigir uma observação mordaz a Gailos. Rhodan voltara a ficar sentado, que nem uma estátua, na poltrona do imediato. Ao que parecia, dedicava seu interesse exclusivamente aos controles de seu setor.
Observei-o discretamente, até que a sala de máquinas chamasse pelo videofone. O engenheiro-chefe, também era um terrano disfarçado, informou que, a uma velocidade altamente relativista, o consumo de substância de apoio de radiações ficava 6,85 por cento acima do normal.
Confirmei a notícia importante e olhei para Gailos. O comodoro estava comodamente deitado em sua poltrona reclinada. O rosto exprimia tédio. Quando, em conformidade com os regulamentos, me plantei à sua frente para repetir a informação, ele girou a cabeça e suspirou.
De acordo com os usos arcônidas deveria chamá-lo de Alteza, tratamento que lhe cabia na qualidade de chefe de esquadrilha. Em compensação ele, com um desprezo patente, nos dava o tratamento de você.
Quando vi seu rosto presunçoso tão perto de mim senti-me tomado pelo ódio.
Durante minha longa peregrinação pela Terra, chegara a curvar-me diante de reis bárbaros e príncipes ignorantes, que poderiam ser humilhados por qualquer rapazola arcônida mediante duas ou três perguntas. O comportamento pedante dessa gente me fizera sorrir. Porém, imbuído da sensação de minha infinita superioridade, curvei a cabeça e, tal qual os outros, desfiava as frases costumeiras. Pouco me importava que, às vezes, fosse tratado como escravo, ou que, num convencimento ridículo, me considerassem como indivíduo de classe inferior.
Mas agora as coisas eram diferentes! Tornava-se quase impossível manter uma certa calma diante de um homem pertencente ao meu povo, que se interessava exclusivamente pelo bem-estar e, nos palácios do planeta de cristal, costumava entreter-se em apaixonadas conversas sobre incompreensíveis “obras de arte”. O soldado mais insignificante de minha antiga nave capitania valia mais que cem parasitas do tipo de Gailos.
Repeti a informação sobre o consumo excessivo de massa de apoio.
Reabasteceremos a nave — disse o comandante em tom sonolento.
Alteza, se formos enviados à frente de combate dificilmente teremos oportunidade para fazer isso.
Ao que parecia, estava refletindo. Mais uma vez ouvi um profundo suspiro.
Ora, Ighur, acho que teremos sim. Realmente houve um consumo excessivo? E, o que é mais importante, as microfitas com a nova obra-prima de Askor, por mim solicitadas, ainda não chegaram?
Não, Alteza.
Isso é um insulto — resmungou Gailos. Suas mãos finas seguravam as braçadeiras da poltrona. — Farei uma queixa. Aliás, nesta sala de comando há um cheiro desagradável. Qual é a causa? Será que terei de suportar tudo isso?
Para conservar o autocontrole, fechei os olhos por um segundo. Ainda bem que meu velho mestre Tarts não estava vendo uma coisa dessas. Também fora um arcônida. Mas que arcônida!
Este cheiro é muito comum nas salas de comando, Alteza. As telas automáticas esquentam e os isoladores aquecidos desprendem um fluido peculiar.
É uma coisa horrível. Realmente, uma coisa horrível. Ajude-me a levantar.
Estendeu a mão, e puxei-o para fora da poltrona. Quando se encontrava de pé à minha frente, parecia ainda mais esguio e... insignificante, embora tivesse o meu tamanho. Num gesto furioso esfregou o pulso esquerdo.
Ao que parece, os zalitas ainda não aprenderam como se deve tratar um arcônida — disse com certo tom áspero na voz.
Olhei para seu braço, que fora cingido com pouca força.
Queira desculpar, Alteza.
Fitou-me e sua raiva foi-se desvanecendo. Fez um gesto condescendente e deu-me as costas. Saiu todo empertigado, sem olhar para trás. Os dois robôs pesados, designados e programados especialmente para servirem de guardas pessoais do comodoro, seguiram-no prontamente. O importante problema, ligado à massa de apoio, deixara de ser solucionado.
O zalita, junto aos controles do campo antigravitacional, fitou-me. Em seu rosto havia uma palidez cadavérica. O homem a seu lado sorriu discretamente; era um terrano disfarçado.
Sem dizer uma palavra, sentei na poltrona do comandante, situada à frente dos controles principais, e chamei a sala de máquinas. Quando contei ao engenheiro-chefe a conversa durante a qual se aludira a um possível reabastecimento, ele arregalou os olhos. No entanto, conseguiu controlar-se e apenas acenou com a cabeça.
Enquanto isso, o quarto grupo de cruzadores pesados aproximava-se de Árcon III. Pouco antes do pouso, Rhodan ligou o ampliador automático de observação ótica externa.
As telas setoriais apresentavam vistas parciais da superfície do planeta. A única coisa avistada foram gigantescos espaçoportos e conjuntos de edifícios que o olhar não conseguia abranger. Não havia praticamente nenhuma área livre. O mundo da guerra era uma única metrópole compacta, na qual não crescia nenhuma planta e não havia um único regato que alegrasse os olhos.
Árcon III era um deserto de aço. Não havia nenhuma possibilidade de comparar esse planeta a qualquer outro. Se alguém interrompesse as comunicações com esse mundo, o enorme potencial produtivo faria com que as provisões se esgotassem em menos de um mês.
No passado, esse fato levara várias vezes as outras potências a realizar bloqueios interestelares, mas nem assim se conseguiu vencer o Grande Império. Lembrava-me perfeitamente dos comboios formados por ocasião da revolta dos nopoletas, a fim de proteger a artéria vital de Árcon. Nossos inúmeros inimigos nunca conseguiram realizar, por uma hora que fosse, um bloqueio eficaz de nosso sistema. Atualmente nem se podia pensar nessa possibilidade. A vinte e oito mil anos-luz, um inimigo não arcônida ameaçava os povos humanóides da Via Láctea. O regente aproveitara-se da situação para enviar à frente de combate todas as raças revoltadas contra o poder do Império.
A unidade forçada entre povos, antes inimigos, foi motivo bastante para que Perry Rhodan resolvesse imediatamente fazer alguma coisa contra o regente.
O que havíamos conseguido até então? Apenas arriscáramos a vida para conseguir o privilégio de realizar vôos de manobra em um dos couraçados do computador!
Se dependesse de Bell, teríamos subjugado os cinqüenta zalitas a bordo e procuraríamos destruir com as armas da Kon-Velete o gigantesco envoltório energético que protegia o autômato.
Precisamos de muito tempo e paciência para provar-lhe, com base em exemplos flagrantes, que nem mesmo mil supercouraçados com tripulações de primeira ordem seriam capazes de uma façanha dessa natureza.
Bell voltou a lançar um olhar ansioso para as telas iluminadas. Os numerosos espaçoportos estavam abarrotados de naves de guerra de todos os tipos. As fábricas de Árcon trabalhavam a plena potência.
Como o comodoro Gailos não desse mais sinal de sua presença, assumi o comando sobre o pequeno grupo. Liguei o equipamento de hipercomunicação e controlei a regulagem automática da freqüência de nosso grupo. Nesse instante, recebemos um chamado da estação retransmissora A-R-145.
Tratava-se apenas de um terminal secundário do grande cérebro positrônico. Em cada espaçoporto de Árcon III, havia uma unidade de comando desse tipo, que transmitia as ordens e decisões menos importantes aos comandantes das unidades estacionadas na respectiva área.
Uma figura vermelha e triangular surgiu na tela. Levantei-me e, seguindo estritamente o figurino, fiquei em posição de sentido. Era o verdadeiro chefe do Grande Império que estava falando.
Sou o Capitão Ighur, regente — disse em voz alta.
O setor acessório do cérebro preferiu não formular qualquer indagação sobre o comodoro. Ao que parecia, sabia perfeitamente como costumam agir os arcônidas de seu tipo.
Ordem coletiva 12345 — disse a voz monótona que saía do grande alto-falante do receptor especial.
O triângulo vermelho permaneceu na tela. Era o símbolo da unidade retransmissora A-R-145.
Rhodan comprimiu a chave da registradora automática. Qualquer ordem coletiva teria de ser conservada nos registros de bordo.
A fita está correndo, regente — anunciei.
As manobras estão encerradas. O quarto grupo de cruzadores pesados é transferido para o espaçoporto A-3. Preparar as unidades para um vôo não tripulado de sessenta horas. Os tripulantes sairão de bordo. Concedemos uma licença de cinqüenta horas. As instalações destinadas aos zalitas poderão ser visitadas. As ordens dos oficiais-robôs devem ser cumpridas. Alguma pergunta?
Fiz um esforço para não demonstrar a esperança que me empolgava.
O Comodoro Gailos não responde, regente. Posso assumir o comando provisório do grupo?
Permissão concedida. Sua Alteza está repousando. Desligo.
O triângulo vermelho foi desaparecendo. A estação retransmissora A-R-145 interrompera a ligação.
Preferi não olhar em torno com uma expressão de triunfo. Aliás, era possível que, embora pudéssemos desfrutar a primeira licença, minha alegria fosse prematura. Aquela licença poderia significar tudo ou nada.
Os comandantes das outras dezesseis unidades haviam acompanhado a transmissão da ordem coletiva. Submeteram-se imediatamente ao meu comando.
Penetramos na atmosfera densa de Árcon e passamos pelos postos de defesa. Numa altitude de oitenta quilômetros, passamos a ser dirigidos pelo dispositivo automático de telecomando A-3. Nenhum comandante podia pousar a seu bel-prazer. Tratava-se de mais uma medida de segurança concebida pelo cérebro positrônico.
Com isso fiquei livre da responsabilidade de pilotar a nave. Notei a expressão tensa do rosto de Rhodan. Seus ombros estavam levemente encolhidos. Até parecia que retesava o corpo para dar um salto.
Enquanto os microfones externos transmitiam o rugir e assobiar das moléculas de ar deslocadas à força, Rhodan virou a cabeça. Havia em seus olhos a expressão rígida que indicava uma forte tensão interior.
Não reagiu ao meu olhar indagador. Bell também parecia inquieto. Marshall, o telepata, fitava-nos atentamente. Parecia ter notado que os pensamentos de Rhodan se atropelavam...
Num gesto quase imperceptível, apontei para a tela iluminada do receptor especial. Enquanto estivesse em andamento a manobra de teledireção, seria uma insensatez proferir qualquer palavra comprometedora. Sem dúvida, o retransmissor automático A-3 ouvia tudo.
Com certa impaciência esperávamos o ruído do impacto das placas de apoio sobre o pavimento do espaçoporto. Ao ouvir esse ruído, tinha-se a impressão de que a nave se esfacelaria.
Dali a menos de cinco minutos, as luzes vermelhas acenderam-se. O dispositivo automático acabara de escamotear as colunas telescópicas de apoio. A Kon-Velete pousou com um rugido final dos mecanismos propulsores instalados na protuberância equatorial da nave.
A posição de Rhodan continuava inalterada, mas um sorriso enigmático brincava em seus lábios. Percebi que devia ter notado alguma coisa que me escapara. O que seria?
Depois disso, os controles de rotina mantiveram-nos ocupados durante quinze minutos. Em seqüência, os setores foram anunciando sua paralisação. No fim, apenas o gerador especial, destinado ao suprimento energético de emergência da sala de comando, continuava a zumbir. O silêncio passou a reinar na gigantesca esfera de aço que trazia o nome Kon-Velete.
Levantei e coloquei-me à frente da tela. O sinal de identificação do comando automático A-3 consistia numa série de ondulações verde-claras.
Sou o Capitão Ighur, regente — anunciei. — Nave preparada para ser introduzida no estaleiro.
A estação anunciou imediatamente:
A tripulação zalita abandonará a nave. Não é permitido portar armas. Desligo.
Naturalmente lá fora já estaria esperando um comando de robôs que nos conduziria para baixo da superfície.
A operação de desembarque dos tripulantes cabia ao imediato. Rhodan entrou imediatamente em atividade, muito embora desse a impressão de que não conseguia livrar-se das reflexões em que estava mergulhado.
Por um instante prestei atenção às suas ordens, proferidas em tom de exagerada compenetração. Depois chamei o Comodoro Gailos pelo videofone. O sinal de ocupado iluminou-se na tela. Ao que tudo indicava, Gailos não fazia nenhuma questão de apoiar ativamente as instruções do regente.
Aliás”, pensei, “como comandante de grupo, eleja não tem nada com isso. O controle das atividades que se desenrolam no interior da nave cabe ao comandante da mesma.
Bell gritou em voz rouca um comando de atenção. Cumprimentei ligeiramente e atravessei a comporta blindada dos fundos, onde meu robô de serviço já me aguardava. Ordenei-lhe que arrumasse meus reduzidos pertences, a fim de levá-los posteriormente aos alojamentos ainda desconhecidos.
Na entrada do elevador central, um comando de guardas, chefiado pelo Tenente David Stern, se mantinha à espera. O rosto do jovem oficial estava pálido como cera.
Passei perto dele e Stern cochichou apressadamente:
Gailos já saiu, Sir. Estou preocupado com o equipamento especial. Não será possível que sejamos revistados mais uma vez, já que não temos permissão para levar armas? Talvez queiram verificar se estamos cumprindo as instruções.
Lancei um rápido olhar para a objetiva de videofone mais próxima. Era possível que estivesse em funcionamento. Sempre que uma nave pousava em Árcon III, as paredes passavam a ter olhos e ouvidos. Era ao menos o que se dizia.
Comecei a realizar um controle minucioso dos botões do elevador. Fiz uma repreensão em voz alta e contrariada já que, na minha opinião, a placa de revestimento do painel de chaves não estava corretamente parafusado.
No curso dessa manobra, cochichei algumas palavras para Stern. Se falasse muito alto a bordo do couraçado, nossa vida poderia correr perigo.
Os homens voltaram a tirar os objetos dos esconderijos?
Assim que recebemos instruções para pousar. Está tudo conosco. Se nos revistarem...
Calou-se, e seu rosto ficou ainda mais pálido. Os outros três homens do comando de guardas fitaram-se com uma expressão ansiosa. No entanto, eu sentia que a decisão se aproximava a passos de gigante...
Fique aqui e espere por Rhodan — disse em voz baixa. — Comunique-lhe seus receios. Se houver um controle, verei o que posso fazer. Os mutantes deverão espalhar-se entre os outros, a fim de poderem intervir sempre que seja necessário. Cale-se.
Saltei para dentro do campo antigravitacional reluzente. Uma vez lá embaixo, constatei que os cinqüenta zalitas genuínos já se retiravam de bordo. Com isso, Rhodan criara para seus homens a possibilidade de fazerem mais uma verificação de seu equipamento especial.
Ao lembrar-me do que aqueles cento e cinqüenta homens, pertencentes ao comando, traziam sob os uniformes, meu nervosismo cresceu. Estive presente quando os laboratórios mais eficientes da Terra iniciaram a “produção em massa”. Os cientistas de Swoon, que eram os microtécnicos mais competentes da Galáxia, haviam desempenhado um papel relevante nessa tarefa.
Rhodan conseguira aquilo que me parecera impossível. Nos uniformes especiais dos membros do comando, havia tantos esconderijos que seu conteúdo seria suficiente para derrotar um exército convencional.
Naturalmente não nos poderíamos ter lançado à missão sem contar com uma série de armas eficientes. Apesar disso, quando imaginei o que aconteceria se o equipamento fosse descoberto, comecei a tremer.
Aguardei junto à grande comporta inferior da nave até que os tripulantes entrassem em forma. Rhodan fez a apresentação. Seu rosto estava rígido. O Comodoro Gailos não apareceu mais. Por certo já se instalara confortavelmente em seus alojamentos.
Dali a menos de dois minutos, chegaram os veículos abertos que nos transportariam. Possuíam grandes plataformas de carga com assentos de plástico e eram teleguiados. As ordens subseqüentes da estação re-transmissora foram recebidas por intermédio de meu rádio de capacete.
Deveríamos subir aos veículos e aguardar os acontecimentos. Para os oficiais da Kon-Velete, havia um carro especial.
Rhodan mandou que os homens subissem aos grandes veículos. Alguns olhares significativos foram suficientes para fazer surgir em meu interior o tipo de rigidez emocional que costumava envolver-me nos momentos de perigo. Então havia chegado a hora da decisão!
Bell subiu depois de mim ao carro achatado, que deslizava sobre um campo energético. Ao contrário dos veículos de carga, este possuía um piloto robotizado. Seria muito arriscado discutirmos a situação.
Ao chegar, Rhodan inclinou-se sobre mim. Notei que sua arma de impulsos se encontrava sob o uniforme.
Como é que se reconhece uma espaçonave cujos hiperpropulsores estejam prontos para entrar em funcionamento? — perguntei em voz baixa.
Olhei em torno. O espaçoporto A-3 era imenso e impossível de ser abrangido com a vista, tal qual os outros do mesmo tipo. As unidades grandes e pequenas da frota arcônida estavam estacionadas em todos os cantos, mas por mais boa vontade que tivesse, não seria capaz de dizer quais delas estavam em condições de realizar um hipervôo.
Dirigi os olhos para a abóbada energética azulada e luminosa, que, além dos limites do campo de pouso, enchia o horizonte, subindo ao céu azul e tremeluzente de calor do planeta Árcon III.
Era o maior campo defensivo que vira em toda minha vida. Embaixo estava abrigado o computador-regente de Árcon. As medições realizadas por Rhodan em tempos passados provavam que o envoltório cobria uma superfície de cerca de dez mil quilômetros quadrados. Isso correspondia a um quadrado de cem quilômetros de lado.
Era duvidoso que houvesse uma possibilidade de destruí-lo!
Nunca conseguiríamos saber com exatidão onde ficavam os pontos vulneráveis e como deveríamos fazer para atingir num golpe de surpresa os pontos vitais do mecanismo.
Enquanto não descobríssemos um meio de introduzir uma arma eficiente na abóbada que cobria todo o conjunto, tais reflexões seriam totalmente estéreis. Tinha certeza absoluta de que a detonação de uma bomba em seu campo defensivo seria totalmente inútil.
Punha toda minha esperança nos dois teleportadores que participavam de nosso comando. Se estes homens não conseguissem penetrar rápida e discretamente no gigantesco mecanismo, teríamos de procurar outro meio. Há algumas semanas, o problema do suprimento de energia, que era minha especialidade, vinha ocupando meus pensamentos.
Sabia perfeitamente que um computador com essas dimensões precisava de várias unidades geradoras, pois seu consumo de energia era enorme. Conhecia suficientemente meus antepassados para saber que eles haviam providenciado um suprimento de emergência, que entraria em funcionamento automaticamente assim que surgisse qualquer perigo. A sobrevivência do regente dependeria única e exclusivamente de um perfeito suprimento energético. Mas como funcionava, ninguém sabia...
Nosso carro deu partida. Os quatro veículos de carga, cada um com cinqüenta homens, seguiram-nos de perto. Rhodan providenciara para que os verdadeiros zalitas seguissem num veículo distinto. Dessa forma, os homens de nosso grupo teriam oportunidade para uma ligeira troca de idéias. Face a uma modulação temporária das vibrações cerebrais, que Harno realizara em Rhodan enquanto ainda nos encontrávamos em Zalit, os reduzidos dons telepáticos do mesmo tornaram-se suficientes para captar mensagens expedidas pelos mutantes. Dessa forma não dependíamos das comunicações de rádio.
Passamos silenciosamente junto a um grupo de supercouraçados, que também acabavam de pousar, e que pertenciam a uma esquadrilha recém-formada. Os gigantes de 1.500 metros de diâmetro também tinham tripulações coloniais. Não saberia dizer quais seriam os resultados dessa miscelânea numa luta contra um inimigo bem treinado.
Apesar da situação confusa, esforcei-me para raciocinar de modo lógico. Lutei energicamente contra os sentimentos conflitantes, que sempre me diziam que a eliminação total do computador-regente poderia significar a destruição da Galáxia.
O que aconteceria se realmente conseguíssemos colocar o cérebro fora de ação? Qual seria a atitude dos numerosos povos coloniais e das oprimidas raças estranhas, que naquele instante lutavam na frente de combate, em defesa do Império, com espaçonaves mais ou menos aperfeiçoadas? O que viria a seguir, se o sistema de comunicações, controlado pelo computador, deixasse de funcionar de repente? E se as linhas de aprovisionamento, todas controladas a distância, entrassem em colapso?
E os bilhões de inteligências estranhas se submeteriam às ordens de um arcônida que já deveria estar morto? De que meios disporia para obrigá-los a obedecer? Poderia contar com os tripulantes zalitas que se encontravam a bordo dos couraçados?
Por outro lado, nunca poderia programar adequadamente os bilhões de robôs pertencentes a cerca de dez mil tipos diferentes. Nem mesmo uma equipe científica de cem mil homens seria capaz disso.
Minha inteligência dizia que a destruição do regente seria uma espécie de suicídio... E se o deixássemos intacto, dentro de nove meses a Terra e todo o sistema solar seriam destruídos!
Fitei Rhodan de lado. Ao que parecia, só pensava numa eventual fuga e procurava descobrir quais eram as naves capazes de realizar hipervôos. Provavelmente ainda não compreendera que não havia possibilidade de fugir de Árcon por essa forma. Há cerca de setenta e cinco anos, ele o conseguira. Mas as condições daquela época eram diferentes.
Procurei afastar os pensamentos relativos à utilidade ou à inutilidade de nossa operação. Procurei ater-me à idéia originária, logicamente bem fundada, segundo a qual meus veneráveis antepassados nunca teriam deixado de prover esse gigantesco cérebro positrônico de um dispositivo de segurança. Precisávamos descobrir quando e em que condições, tal mecanismo entraria em ação para desligar o regente. Depois disso, todos os problemas estariam resolvidos.
Estremeci. Poucas centenas de metros à minha frente, surgiu uma achatada abóbada de aço que se erguia repentinamente sobre o pavimento de metal plastificado. Se houvesse algum controle, este seria realizado nas comportas pressurizadas e à prova de radiações, existentes na entrada dos alojamentos subterrâneos.
Tateei discretamente a coxa direita, onde se encontrava uma arma. O trabalho dos cientistas terranos era tão perfeito que seria praticamente impossível descobrir as peças de equipamento por meio de um simples processo de apalpamento.
Seu procedimento baseava-se nos padrões humanos. Pensavam como policiais terranos, que por tradição examinavam qualquer pessoa suspeita com as ferramentas que a natureza lhes havia dado: as mãos.
Acontece que não se lembraram de que, num mundo noventa e nove por cento automatizado, não havia a menor possibilidade de aplicar esse método. Sempre que em Árcon III se realizavam verificações desse tipo, a pessoa era enviada simples e racionalmente através de uma comporta de raios X.
Se isso acontecesse, restava saber se o revestimento interno do uniforme resistiria às radiações. Caso esse tipo de proteção desse certo, ainda restaria esperar que o observador não soubesse interpretar devidamente as sombras que haveriam de surgir na tela.
Subitamente a testa de Rhodan cobriu-se de uma fina camada de suor. Por estranho que pudesse parecer, isso fez com que seu autocontrole vacilante logo se estabilizasse. Olhei tranqüilamente para as portas blindadas que se abriam à nossa frente.
Essa entrada existente na superfície era apenas uma entre muitas. Se possuía uma comporta de raios X, ainda restaria saber se o respectivo equipamento estava em funcionamento.
O motorista robotizado parou o veículo a poucos metros da parede que se erguia ao céu. Desci para receber os tripulantes.
Rhodan, Bell e os oficiais de patente mais elevada do couraçado colocaram-se atrás de mim. Examinei as numerosas objetivas do sistema ótico de teleobservação. As lentes reluzentes estavam embutidas de ambos os lados da entrada,
Franzi a testa, numa expressão de contrariedade, pisquei para o sol de Árcon que nos fustigava impiedosamente e, num gesto violento, acionei a chave do transmissor de capacete.
Capitão Ighur ao regente — disse em tom muito áspero. — O contrato de prestação de ajuda que celebrei com o Almirante Calus não me obriga a expor-me por horas a fio aos raios de um sol escaldante. Exijo que sejamos introduzidos imediatamente nos subterrâneos e abrigados em alojamentos climatizados, pois do contrário sentir-me-ei desligado do contrato. Parece que alguém se esqueceu de que não estamos acostumados a temperaturas como esta. Meus homens mostram sinais de esgotamento. Câmbio.
Vi Bell arregalar os olhos. Rhodan pigarreou, mas logo compreendeu a situação. Devíamos encontrar um meio de passar pela comporta o mais depressa possível.
Os membros do comando tinham ouvido minhas palavras. Pareciam prender a respiração. Os cinqüenta zalitas genuínos fitaram-me com uma expressão de veneração. Na opinião desses, assumira um risco muito grande.
Depois de alguns segundos, recebemos a resposta do cérebro.
Comece a introduzir os homens. Sua observação relativa a uma eventual insubordinação foi registrada.
Isso não me importa nem um pouco — respondi em tom ainda mais agressivo. — Não estou interessado em arruinar nossa saúde antes do tempo. Apelo para o senso lógico do regente. Ele quer soldados descansados e robustos, ou um grupo de homens febris e esgotados?
Entrem — respondeu a estação retransmissora A-3.
Não falou mais em insubordinação.
Descer, ficar à vontade e entrar em passo de corrida — berrou Rhodan num volume de voz que me fez dar um passo para o lado. — Os ocupantes do veículo da frente entrarão em primeiro lugar. Rápido! Já disse que deverão correr.
Os cinqüenta zalitas genuínos começaram a correr como se o demônio estivesse atrás deles. Nossos homens seguiram-nos. Dali a alguns segundos, comprimiram-se pelas entradas, que mediam cerca de três metros de largura. A confusão era tamanha que nem se poderia pensar mais num exame eficiente de raios X.
Meu coração batia forte e lentamente. O sangue parecia correr pesadamente pelas veias. Mantive-me junto à entrada. Coloquei a capa de oficial em cima do capacete de metal plastificado e fiquei de costas para o sol.

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