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Quatro
horas antes do início dos debates no Parlamento, Gucky aparece de
repente ao lado de Rhodan.
— O que
você quer? — perguntou admirado. Não sabia nada da fuga de Gucky
para Vênus, pois Bell não lhe contara nada a respeito. — E como
vai você? Está doente?
O
rato-castor que brincava com todos e não respeitava nem a presença
de Perry Rhodan, ajeitou-se na poltrona mais próxima.
— Não
estou nada doente, Perry, apenas um pouco cansado. Mas isto não tem
importância. Estou voltando da espaçonave de Cokaze. Este malandro
tencionava lançar centenas de bombas atômicas sobre a Terra, Vênus
e Marte, caso você não lhe concedesse o monopólio comercial sobre
o sistema solar. Mas eu lhe estraguei este prazer, jogando fora todos
os detonadores...
— Quem
foi que mandou você para Vênus e depois para a Cok-I, Gucky? Foi
Marshall, por acaso?
— Ninguém,
chefe. Eu...
— Como é
que você é capaz de se afastar assim, por conta própria, Tenente
Guck, numa situação como esta em que estamos?
— Perry,
por favor, não use este tom comigo. Foi unicamente por sua causa que
arrisquei a vida e passei por maus momentos...
Os olhos
de Rhodan começaram a cintilar de um modo diferente.
— Tenente
Guck, não me agrada que, ultimamente, venha tomando certas
liberdades que não se coadunam com os deveres de um tenente do
Exército de Mutantes...
— Por
favor, Perry — implorou Gucky com a coragem do desespero — você
não pode falar comigo menos formalmente? Chefe, controlei os
pensamentos de Thomas Cardif... Seu filho crê cegamente que você
enviou Thora, já desenganada pelos médicos, para morrer em Árcon
e...
O resto
ficou preso na garganta, não teve coragem de dizer.
Rhodan
esticou o braço para Gucky, pousando-lhe a mão no lombo, em sinal
de reconhecimento.
— O que
você está dizendo? Como?
— Sim —
disse sem medo — ele crê exatamente o que é espalhado por aí
neste boato nojento.
— E o
que mais, Gucky? Você ainda tem alguma coisa para falar. Não tenha
receio.
— Não
tenho mais nada, não, mas uma pessoa que procede erradamente baseada
na sua convicção, deve ser julgada muito diferentemente da que age
com má intenção.
— Quer
dizer então que devo deixar o desertor Thomas Cardif fazer o que
quer? Você também já pertence ao grupo dos que me vêm pedir para
perdoá-lo, só porque é meu filho?
Gucky não
agüentou mais e fazendo uso de seus poderes telecinéticos, tomou,
pela primeira vez na vida, uma atitude quase hostil para com
Rhodan...
Todos
sabiam que o melhor amigo do administrador era Gucky, igualando ou
mesmo superando Reginald Bell. Porém, pela força telecinética de
Gucky, o braço de Rhodan foi lançado para o lado e o rato-castor se
afastou um pouco, por medida de segurança, tomando a seguir a
posição de sentido.
— Administrador...
Tenente Gucky se apresenta, de volta de sua missão espontânea.
Nesta operação, por conta e risco do operante, pude constatar que
Thomas Cardif não se colocou do lado dos saltadores por motivos
condenáveis. O desertor, Tenente Thomas Cardif, está convencido de
que o senhor condenou sua mãe à morte. E mesmo que o senhor me
mande para os quintos dos infernos, tenho de perguntar: quem é o
maior culpado das coisas chegarem a este ponto, o senhor ou seu
filho, Thomas Cardif? Perry, por que razão ele se chama Cardif e não
Rhodan? E agora, se quiser pode me mandar embora.
O
rato-castor, mantendo sempre a posição de sentido com o tronco
apoiado nas patas traseiras e na volumosa cauda, mirava firme Rhodan,
demonstrando sinceridade. Esperava pela decisão. Percebeu que o
grande homem, sentado à sua frente, travava uma verdadeira batalha
íntima, pesando agora tudo que ouvira.
De repente
seu corpo deu um leve galeio para trás, como se estivesse
despertando de um sonho, e seus olhos revelaram um brilho, afetuoso.
Aflorou-lhe o primeiro sorriso. Respirou profundamente e vieram-lhe
as primeiras palavras:
— Desapareça,
Gucky, você é um sujeito extraordinário, mas não beba todo o
conhaque de Bell.
— Não
estou com sede não, chefe — chilreou e no mesmo instante estava lá
em cima.
— Oh! O
gorducho está vindo... Havia captado os pensamentos de Bell, que
realmente chegou instantes depois. Parecia tresnoitado e
sobrecarregado de aborrecimentos. Só quando passou a seu lado, foi
que notou a presença de Gucky.
— Oh!...
Você por aqui? — disse olhando demoradamente para o rato-castor,
que, como sinal de grande contentamento, exibiu seu dente roedor.
— É
claro que estou aqui, felizmente, e não mais na nave de Cokaze.
— Que
bobagem que você está dizendo, Gucky?
Bell não
estava com a consciência tranqüila de haver ocultado a Rhodan a
missão empreendida pelo rato-castor. Gucky naturalmente estava lendo
todo o pensamento do amigo.
— Gorducho,
todos nós estamos muito cansados, mas não tanto como o malandro do
Cokaze, lá na Cok-I.
Bell lhe
chamou a atenção para que não usasse tais expressões, pois Rhodan
se aproximava. Mas o rato-castor não deu muita importância. Estava
contente demais, para modificar seu modo de falar.
— Chefe,
onde é que parei mesmo? Ah! É verdade, estava falando de Cokaze.
Ele estava preparado para lançar bombas atômicas sobre a Terra,
Vênus e Marte, caso não conseguisse o contrato do monopólio
comercial. Como é que você acha que ele se sentiu ao saber que os
fogos de artifícios, no envoltório de proteção da Cok-I, foram
causados pelas caixas de detonadores atiradas da escotilha? E depois,
quando Cokaze já estava quase desanimando, Cardif o obrigou a se
levantar para continuar a luta. Cardif está com o patriarca dos
saltadores da estirpe dos...
— O nome
não tem importância, Gucky — interveio Rhodan — mas não venha
nos contar histórias de fadas, hein?
Bell olhou
admirado para Gucky, mas mais admirado ainda para Rhodan. Pela
primeira vez, desde a fuga de Thomas Cardif para Plutão, o
administrador do Império Solar não demonstrava nenhum
constrangimento ao ouvir o nome de Cardif.
— Chefe
— continuou Gucky entusiasmado — o mais arrogante arcônida não
poderia criticar o patriarca Cokaze, como Thomas Cardif o fez. E
antes, na sala de comando da Cok-I, quando os saltadores estavam em
pânico, tremendo de medo, devido às grandes faíscas dos
detonadores no envoltório energético, Thomas lhes disse que
precisavam fazer um curso na Academia Espacial de Terrânia, para
aprenderem a se dominar na hora do perigo... Pois é — disse o
rato-castor, completando seu relato — Cokaze será um osso duro de
roer.
— Concordo
com você, Gucky — falou Rhodan, entregando a Bell uma tira de
papel com um hiper-radiograma.
Seu rosto
se anuviou ao ler a mensagem.
— O quê?
O maluco do Cokaze está exigindo o contrato sobre o monopólio
comercial à base de antigas leis das Galáxias? E este radiograma
foi também enviado para o Parlamento?
— Não,
Bell, este radiograma, não. O Parlamento recebeu dele uma
informação. Nossa estação a captou e decifrou. Aqui está ela:
Bell
passou os olhos.
— Uma
raposa esperta e um péssimo sujeito. Tenta seduzir o Parlamento,
apresentando Thomas Cardif como novo administrador.
Viu o
gesto confirmativo de Rhodan como também o brilho de seus olhos,
indicando disposição para a luta.
— Já
estão em andamento operações contra a frota dos saltadores? —
perguntou Bell com cautela.
— Sim,
mas quem está em atividade é somente o Exército de Mutantes e
estas operações serão simultâneas em Marte e Vênus, e vão
deixar os saltadores de cabelos brancos.
*
* *
Se havia
alguém que sabia tirar grandes proveitos de pequenas vantagens, era
Perry Rhodan.
A Frota
Espacial do Império Solar estava de prontidão. Unidades pesadas e
superpesadas circunvoavam Marte e Vênus em queda livre. A cem mil
quilômetros, caças e destróieres do Comando Espacial patrulhavam
os dois planetas ocupados pelos saltadores. Ao aparecimento de uma
espaçonave cilíndrica, mergulhavam na imensidão do espaço.
A Frota
Espacial tinha ordem de abrir fogo só se as naves dos saltadores
saíssem dos planetas para atacar a Terra.
Os
comandantes de Rhodan não tinham nada a ver com as confusões
políticas. Obedeciam apenas as ordens de Perry Rhodan e estavam
voltados exclusivamente para os problemas da Frota Espacial Solar.
Quantas vezes, Perry, em pessoa, a guiou em lutas renhidas e quantas
provas deu de ter sido seu competente comandante.
A vida em
comum nas horas difíceis era o grande elo de união de toda a Frota
Espacial. E por mais abalada que estivesse a posição de Rhodan nos
assuntos políticos, tanto mais estreitos eram os laços que uniam a
pequena, mas bem preparada força terrana.
Uma parte
dos radiogramas, trocados entre as unidades pesadas, vinham em código
simples. O patriarca Cokaze devia estar em condições de decifrá-los
e realmente as decifrava.
As
mensagens davam conta de que Rhodan havia dado ordem à frota para
que abrissem fogo sobre qualquer nave dos saltadores que apenas
tentasse se aproximar da Terra.
Numericamente,
a frota de Cokaze era muito maior do que o conjunto das unidades
terranas, embora os saltadores não possuíssem nada para enfrentar
os gigantescos encouraçados esféricos de 1.500 metros de diâmetro,
com sua tremenda potência de fogo. Estas ponderações impediam, no
momento, uma operação relâmpago das naves cilíndricas dos
saltadores contra os pontos estratégicos da Terra. Quando, há dias
atrás, deixara espontaneamente a Terra e se contentara com a
ocupação de Marte, Vênus e de alguns satélites dos planetas
maiores, Cokaze cometera um grande erro.
A frota
dos saltadores estava também de prontidão. Os saltadores, a bordo
de suas naves cilíndricas, estavam habituados a impor sua vontade a
todos. Achavam, portanto, um fato inaudito que este diminuto reino
estelar pudesse lhes opor resistência. A maioria dos saltadores não
compreendia a hesitação de seu patriarca, mas ninguém se atrevia a
protestar contra sua tática.
Cokaze já
havia, há mais tempo, entrado em contato com todas as naves de sua
frota. Havia dado instruções curtas mas precisas, para cada
comandante, indicando-lhes o que tinham de fazer ou de deixar de
fazer. Mas, quando irrompeu um incêndio no mecanismo de propulsão
da Cok-CXXX, o comandante saltador Solam ordenou de uma maneira muito
singular que deixassem a nave pegar fogo, devendo a tripulação
abandoná-la.
Nenhum dos
trezentos e cinqüenta saltadores a bordo estranhou a ordem de Solam.
Com incrível serenidade, cada um reuniu seus pertences e abandonou o
aparelho. Ao chegarem ao ar livre, viram a um quilômetro, outra nave
de sua frota em chamas. E os incêndios foram se multiplicando. Era
um atrás do outro. Mas ninguém se preocupava com a repetição do
fenômeno.
No
espaçoporto de emergência K-f 3, aconteceram outras coisas
misteriosas. Não foram apreciadas em toda a sua extensão por grande
parte da frota, em compensação, imperava entre as tripulações de
trinta outras naves uma verdadeira situação de pânico.
Em sua
Cok-I, o velho patriarca estava mais do que alarmado.
Zugan,
comandante da Cok-DV, gaguejava no telecom, o telecomunicador, seu
desconexo relatório:
— ...Senhor,
há dez minutos, a Cok-CXVI decolou deste sistema e não responde
mais a nenhum chamado. O Capitão Gudin, com toda a tripulação,
entrou nos aparelhos auxiliares, dizendo que ia explorar as matas
virgens de Vênus. Procuramos retê-los à força, mas os homens da
nave de Gudin responderam com as armas de raios hipnóticos. No
momento...
A estação
central da Cok-I interrompeu a transmissão. O telegrafista de bordo
informou com voz nervosa a seu patriarca que seu neto Kacozel pedia
com urgência para ligar para Marte, onde aconteciam coisas
terríveis.
— Como?
Também lá? Não ouviu o que está se passando em Vênus? Ligue-me
com meu neto Kacozel, mas focalize bem seu rosto na tela, melhor do
que a última imagem de Zugan.
Cokaze, um
modelo vivo de autocontrole, sentia que os nervos lhe iam estourar.
Via-se completamente desarmado e impotente diante destes
acontecimentos inexplicáveis. Para ele, o realista, que nunca se
deparara com fenômenos parapsicológicos, tudo parecia uma
monstruosidade sem nenhuma explicação.
A tela do
hipercom tremeluziu, mostrando o rosto de seu neto que comandava um
grupo de aparelhos no espaçoporto da Cidade de Marte.
— Senhor
— começou Kacozel com voz suplicante — não me julgue um louco,
se eu...
O chefe da
estirpe de Cokaze não tinha mais nervos suficientes para agüentar
longos rodeios.
— Que
aconteceu? Quero ouvir fatos. O que houve?
Enquanto o
patriarca falava, Thomas Cardif entrou no posto de comando. O
desertor ouviu tudo que Kacozel tinha para contar sobre os fatos
misteriosos no espaçoporto da Cidade de Marte. Oito naves ali
estacionadas ou foram misteriosamente incendiadas ou tiveram suas
turbinas destruídas.
— ...conjuntos
mecânicos ou eletrônicos foram arrancados da sustentação, portas
se entortaram e peças metálicas pesadas foram atiradas como bombas
contra conversores e transformadores. E, pior ainda, senhor! Quatro
tripulações abandonaram simplesmente suas naves e foram para a
cidade. É como se os maus espíritos do espaço se abatessem de
repente contra nós e...
Aí
interveio Thomas Cardif:
— Os
maus espíritos do espaço são os mutantes de Rhodan, saltador.
Kacozel,
em Marte, como que petrificado diante do aparelho de hipercom,
silenciou completamente, enquanto que o patriarca dos saltadores,
circunvoando à grande altura o planeta Vênus, olhava estarrecido
para o jovem terrano.
— Sim,
Cokaze, este é o contra-ataque de Rhodan — repetiu, calmamente,
Thomas Cardif. — Está usando seus melhores hipnos e telecinetas
contra sua frota, e, se você não conseguir se livrar deste terrível
grupo de assalto, em breve haverá de presenciar uma explosão que
mandará pelos ares sua Cok-I, como aconteceu há poucas horas com os
detonadores que explodiram de encontro ao envoltório magnético.
— Mutantes...
Mutantes! — exclamou Cokaze alarmado.
Parecia-lhe
impossível imaginar algo de real em tudo isto. Mas quando se lembrou
do relato de seu neto, e também da destruição do mecanismo de
propulsão de uma espaçonave, começou a ver uma relação entre
tudo isto e a explosão dos detonadores de suas bombas atômicas.
— ...quer
dizer então que aqui esteve também um telecineta, não é, Cardif?
O desertor
lhe riu em pleno rosto, demonstrando de novo sua arrogância
arcônida.
— O
mutante que esteve a bordo da Cok-I não era somente um telecineta,
mas também um teleportador, saltador, e ainda por cima um hipno. E
talvez nem fosse um só, não podemos saber, pois os mutantes não
deixam rastros... Talvez este mutante nem tivesse a aparência
humana... podia ser Gucky, o rato-castor.
— Podia
ser o quê? Um rato-castor, rato-castor... que é isto? — perguntou
o patriarca gaguejando, assustado.
— Parece
com um animal, uma mistura de rato com castor. Saltador, caso um dia
se depare com um ser assim e não puder destruí-lo imediatamente,
aconselho-o então a não querer entrar em luta com ele. Fatalmente,
você será derrotado. Este ser inteligente que domina bem a língua
terrana, o intercosmo e o clássico arcônida, é telecineta,
teleportador, telepata e já andam dizendo que também é hipno...
Num
impulso violento, Thomas Cardif deu um pulo para o lado e queria
acionar suas duas pistolas energéticas que sacou rapidamente, quando
uma força irresistível as arrancou de suas mãos, projetando-o para
o teto do posto de comando. Ao lado de Thomas Cardif, ouviu-se um
ruído no forro do teto. Era o patriarca Cokaze que ia fazer
companhia ao terrano...
Alguns
metros abaixo, estava Gucky, com sua voz chilreante:
— Thomas
Cardif, você é o maior boateiro das Galáxias. Mas, quando olho
para você assim, sinto-me realmente feliz por não pertencer à raça
do Homo
Sapiens.
Fora disso, está gostando do ar aí em cima? E o cacique dos
saltadores, já compreendeu agora o que é um mutante? Mas acho que
não compreendeu ainda que a sua Cok-I será um montão de ferro
velho em cinco minutos. Repare bem que confusão doida reina em sua
nave. Recomendo a vocês, saltadores, que, antes de programarem uma
nova série de roubos, passem uma temporada na Academia Espacial
Solar, para ficarem um pouco mais corajosos.
“Cardif,
é pena que minhas mãos estejam atadas, por uma promessa que fiz a
Rhodan. Prometi não maltratá-lo e, infelizmente, não posso
arranjar o pretexto de sofrer de falta de memória, senão vocês
dois iam me pagar a sujeira que fizeram na Terra.”
Cokaze, o
patriarca da mais rica estirpe dos saltadores, os mercadores
galácticos, não estava nem mais em condições de rezar para seus
deuses estelares. Estava vivendo os minutos mais cruciantes de sua
vida. Seu sistema nervoso estava caminhando rapidamente para a pane
total. E não era para menos, pois não havia mesmo nenhuma
explicação pelo fato de, após uma leve cintilação do ar, surgir
de repente um animal e, no mesmo instante, ser atirado para o teto da
sala de comando e lá ficar pairando, sem poder descer...
Horrorizado
e cheio de medo, olhava para o estranho animal abaixo dele. Viu que,
de vez em quando, passava a língua no único dente roedor que
possuía. Os olhos brilhantes do rato-castor, que se dirigiam no
sentido dele e de Thomas Cardif, pareciam ir além, vendo outras
coisas muito distantes.
Passou-se
mais um minuto angustiante e nada aconteceu, até que, no
telecomunicador de bordo, se ouviu um estalo diferente. O rato-castor
desapareceu no mesmo instante, para surgir, após um rápido
cintilar, atrás da tela de televisão do intercomunicador.
— Senhor...
— alguém estava chamando o patriarca no telecomunicador — os
geradores de onze a quatorze estão escapando de suas bases e...
O resto
perdeu-se numa enorme gritaria e num estrondo infernal. Contente com
os acontecimentos, Gucky falou através do telecomunicador:
— Este
foi o primeiro golpe e o segundo não vai demorar.
Depois de
se achar preso ao teto, Thomas Cardif não fez nenhuma tentativa para
se mover. Sabia que qualquer resistência seria inútil. Mas já o
velho patriarca não agia assim. Gemia o resfolegava. Tentava, sempre
inutilmente, pegar uma de suas pistolas de raios energéticos. Porém
não conseguia nem mover um dedo.
Neste meio
tempo, Gucky empregou a maior parte de suas energias telecinéticas
nos motores e transformadores da Cok-I.
Nada
escapou da destruição. Diante dos olhos estupefatos do último
saltador que ainda estava de serviço no setor das máquinas de
propulsão e que, tolhido de pavor, não conseguia dar um passo, como
se fosse uma terrível bomba, o gerador do campo antigravitacional
rebentou a parede divisória de duas polegadas. A tubulação
principal de distribuição da energia das turbinas fora destruída.
Uma faísca
do curto-circuito atingiu no mesmo instante o teto de material
plástico, derretendo-o por completo.
As
centelhas e estampidos livraram do estarrecimento nervoso o pobre
saltador, que ainda se encontrava no setor das máquinas e que via
com olhos arregalados o desastre em volta dele. Soltando um grito
lancinante, pulou para fora, como que acuado por mil cães furiosos.
As sirenes
começaram a soar na Cok-I. Apitavam, alternando-se em agudo e grave
que mesmo os saltadores mais viajados, jamais tinham ouvido. Esta
alternância significava que todos tinham que abandonar a grande nave
em aparelhos auxiliares. Também Cokaze ouviu os apitos da sirene em
sua cabina e sabia seu significado.
Os olhos
de Gucky brilhavam felizes.
— Devia
deixar os senhores esturricarem aí em cima — disse cheio de
desprezo. — Fosse eu um ser humano como vocês, este seria seu
destino: morrerem carbonizados. Felizmente, porém, não pertenço à
laia de vocês, como Cardif mesmo já frisou minutos atrás. Assim
poderão ainda escapar no último aparelho auxiliar. Mas isto vai
demorar um pouquinho e vocês ainda terão de esperar mais alguns
instantes, aí em cima.
Ouviram-se,
no convés superior, passos rápidos e pesados. Desesperados, os
tripulantes que se encaminhavam para as naves auxiliares, procuravam
também por seu chefe. Três homens irromperam no posto de comando,
lugar onde ficava geralmente Cokaze.
— Também
não está aqui! — exclamou o primeiro deles, depois de dar uma
rápida olhada no ambiente.
Os três
saltadores davam a entender que já haviam procurado o patriarca em
outros lugares.
Ninguém
viu Gucky, pois, quando a porta da central de comando se abriu,
procurou abrigo atrás de um armário. Mas nenhum dos três
saltadores teve a idéia de olhar para cima. No entanto, o próprio
Cokaze alertou-os.
E no mesmo
instante, os três receberam um safanão na nuca! Os jovens
saltadores, homens de boa constituição, ficaram atônitos. Um deles
gritou e correu. Os outros saíram atrás, como se a morte os
perseguisse.
Do seu
esconderijo no armário, veio a ironia de Gucky:
— Sempre
imaginei os heróis de outra maneira.
Cessara o
barulho ensurdecedor da sirene, mas os fortes estrondos, o fogo e os
abalos produzidos pelas explosões eram cada vez mais intensos. O
rato-castor saiu de sua toca improvisada.
— Dentro
de três minutos, sua nave vai explodir e sair de órbita, saltador.
Vou tomar a liberdade de fazer uma regulagem nos instrumentos para
que ela caia exatamente em Vênus, o mais depressa possível. E
porque não quero ter a fama de ser um monstro, dou-lhe a
oportunidade de vestir seu uniforme espacial, patriarca. Não se
esqueça, porém, de que estou lendo seus pensamentos e de que um
raio energético desta pistola não é brincadeira. Preste atenção
e não queira bancar o esperto.
Cokaze
soltou um grito, quando sentiu que estava caindo do forro. Mas no
meio do caminho, as forças telecinéticas de Gucky o apararam e o
conduziram para a direita, libertando-o depois. A cadeira, onde o
patriarca caiu, espatifou-se.
— Você...!
— exclamou o patriarca depois de se levantar com dificuldade e nos
seus olhos, junto com o pavor, havia o ódio indomável.
Neste
momento, Gucky captou as ondas cerebrais de uma meia dúzia de
saltadores que, vindos da escotilha principal, se aproximavam da sala
de comando, em passo acelerado. O rato-castor não tinha nenhum
interesse em se mostrar a esta gente.
— Cardif,
pule — disse para o filho de Rhodan, deixando-o descer um terço da
distância do solo, e depois o libertou da telecinese.
Thomas
Cardif, muito bem treinado na Academia Espacial, desceu corretamente,
como se tivesse molas nas pernas. Fez questão de não dar pela
presença de Gucky, que lendo seus pensamentos, disse:
— Você
ainda tem traços de terrano, Cardif e também traços de boa
educação. É pena que você pensa tão erradamente a respeito de
seu pai...
Não teve
mais tempo de continuar sua conversa. O grupo de saltadores, que
viera para salvar seu chefe, já estava perto.
Gucky se
concentrou, fechou o capacete de seu uniforme espacial e
desmaterializou-se exatamente no momento em que o primeiro mercador
irrompeu pela porta da cabina de comando, dando de cara com o
patriarca de pé, no meio da sala.
— Senhor,
acho que três guardas foram vítimas de alucinação e...
— Não —
atalhou Cokaze, ríspido — aqui ninguém foi vítima de
alucinações. Fiquei preso com Cardif lá em cima, dependurado como
roupa no varal. Ah!... se eu pudesse pegar este rato-castor!
Cokaze
percebeu como os homens, que vieram para libertá-lo daquela situação
incrível, se afastaram assustados, deixando a cabina de comando.
Compreendeu logo qual a razão de seu pânico. Acreditavam que seu
chefe havia enlouquecido. Tinha falado de um rato-castor e viram
nisso o indício claro de insanidade mental.
Foi aí
que Cokaze deu mais uma prova de sua personalidade. Não prestou
nenhum esclarecimento, era de fato o senhor absoluto da grande
estirpe. Perguntou secamente:
— Em que
nave auxiliar ainda há lugar para mim e para Cardif?
— Na
nave seis, senhor — balbuciou um dos homens.
— Então
esperem por nós e...
A frase
parou por aí. Na nave parcialmente destruída houve no momento uma
alteração sensível. Os instrumentos de absorção de pressão
falharam. Além disso, a Cok-I devia ter saído de órbita e
aumentado muito a velocidade. Os dois fatores da lei da gravidade se
abateram sobre eles, fazendo com que cada movimento, que tentassem
fazer, se transformasse num suplício.
— Que é
isto? — gemeu Cokaze, num esforço de suas últimas energias. —
Será que ainda podemos controlar o aparelho?
Mas um
estrondo ensurdecedor, vindo da parte traseira da Cok-I, fê-lo
compreender que o rato-castor, com suas inauditas forças, estava
fazendo o que prometera: converter a Cok-I num montão de ferro
velho.
Thomas
Cardif reconheceu que a situação em que estavam era muito perigosa.
Sabia também que Gucky não estava ali para brincadeira, que lhes
havia dado um prazo mais do que suficiente para chegarem até os
aparelhos auxiliares. O rato-castor não estaria disposto a lhes dar
possibilidade de um contra-ataque.
Cardif,
que já havia posto o capacete do uniforme espacial, exigiu que
Cokaze abandonasse a Cok-I o mais rápido possível.
— ...ou
vamos esperar até que a pressão seja tão intensa, que não
consigamos nos movimentar?
Mas
Cokaze, que aos poucos estava se refazendo do choque, não quis
perder a oportunidade de dar uma boa resposta a Thomas Cardif:
— Terrano
— disse com desdém — você está com medo, acho que precisa
voltar para a Academia Espacial de Terrânia para aprender a
enfrentar o perigo e...
A Cok-I
que até então circunvoava Vênus a uma altura de cinqüenta mil
quilômetros, mudou de repente de direção. Eram novamente as forças
telecinéticas do rato-castor, que pairando no espaço, a uns dez
quilômetros da nave de Cokaze, a conduzia diretamente para a queda,
acabando de destruir o que ainda restava dela.
A partir
daí, Gucky não se preocupou mais com a Cok-I, que irremediavelmente
se projetava com aceleração crescente de encontro ao planeta.
Teleportou-se e chegou com cinco minutos de atraso ao local combinado
com John Marshall, que já o esperava impaciente à beira do
espaçoporto de Vênus, para “fazer
uns consertos”
em outras grandes naves dos saltadores.
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No curto
espaço de três horas e sob a proteção da noite, cem mil homens,
todos especialistas em vôo espacial, embarcaram no supercouraçado
Titan e em outras naves gigantescas.
Cokaze,
que através de seus agentes estava a par do aquartelamento destes
cem mil homens selecionados, apesar de todas as suas indagações,
não conseguia compreender por que razão Perry Rhodan os mantinha
enclausurados nos quartéis.
Somente os
auxiliares imediatos de Rhodan sabiam qual a missão que estava
reservada a esta gente.
O Marechal
Freyt, meia hora antes da decolagem, reunira na cabina de sua Titan
os oficiais superiores, inculcando-lhes que somente poderiam
comunicar a seus comandados o destino da missão, quando estivessem
já aterrissando.
Três
horas depois da partida, os cinco gigantescos transportes esféricos
já tinham alcançado a velocidade necessária para a transição.
Com os absorvedores de vibrações ligados, o pequeno grupo de
supernaves desapareceu entre os astros, para abandonar novamente o
hiperespaço já no centro da nebulosa esférica M-13.
Um
radiograma de um quinto de milésimo de segundo, captado através do
hiper-comunicador, contendo três mensagens importantes, informava
Perry Rhodan de que o Marechal Freyt, com seus cem mil homens
selecionados, estava prestes a aterrissar em Árcon III.
Recebeu
esta mensagem uma hora após terminarem os debates no Congresso,
debates estes encerrados por uma votação.
Com 365
votos a favor e 198 contra, ao lado de numerosas abstenções e votos
nulos, Rhodan foi confirmado como administrador, não obstante toda a
especulação do Parlamento.
*
* *
Allan D.
Mercant e John Marshall trabalhavam de mãos dadas.
A
Segurança Solar e o Exército de Mutantes não deixavam um minuto de
descanso aos saltadores, que haviam se instalado principalmente em
Vênus e em Marte. Não eram grandes operações bélicas, levadas a
cabo contra a numerosa frota de Cokaze, mas eram suficientes para
desnortear toda sua estratégia. E, pela primeira vez na vida,
aconteceu que o grande poder do riquíssimo patriarca não foi
bastante para acalmar seus comandados.
Aqui e
ali, eram destruídos constantemente, pelos meios mais misteriosos,
os grandes aparelhos cilíndricos dos saltadores, sem que com isso as
famílias, que residiam nestas naves, fossem feridas ou mortas. Era
freqüente o fato de tripulações inteiras serem dominadas por
forças hipnóticas, agindo como inofensivos débeis mentais.
Porém,
quando se tratou de impedir que os saltadores desvendassem o cérebro
positrônico de Vênus, os homens de Allan D. Mercant e os mutantes
de Marshall tiveram que fazer uso dos direitos de guerra. Foi
realmente um verdadeiro milagre que este computador ultrapotente, com
suas amplas instalações, demorou a ser descoberto pelos homens de
Cokaze. Somente depois das primeiras horas estafantes, Rhodan
conseguiu tomar as providências necessárias para que estas
instalações continuassem ignoradas pelos ávidos saltadores.
Após a
destruição da Cok-I, sua nave capitania, Cokaze aterrissou em Vênus
com as sete naves auxiliares, como um verdadeiro náufrago, enquanto
os restos da Cok-I se espalhavam como fumaça na densa atmosfera do
planeta. Uma hora depois de sua chegada a Vênus, já havia se
transladado para a Cok-II. Já era o terceiro dia em que se reunia
com seus parentes. Em confabulações ininterruptas, traçavam planos
de batalha para a conquista da Terra.
Desta vez,
Cokaze seguiu as orientações de Cardif e por este motivo, a Cok-II
agora pousada tranqüilamente a 3.460 metros de profundidade, no
fundo do oceano de Vênus, permanecia protegida contra qualquer
ataque por parte dos mutantes.
O
resultado da votação no Parlamento Solar decepcionou tanto a Cardif
como a Cokaze. Ambos estavam crentes de que com os boatos espalhados
maldosamente, causariam, no mínimo, tanta dificuldade ao
administrador, que este se veria obrigado a assinar o contrato de
monopólio com a estirpe de Cokaze. Por confiarem demais nestes
boatos, não deram importância ao contragolpe de Reginald Bell, que
havia ordenado a todas as emissoras de TV do governo que
transmitissem de duas em duas horas as cerimônias do sepultamento de
Thora no mausoléu da Lua. Assim, não era sem razão que estranhavam
o resultado da votação e não podiam compreender como Rhodan obteve
tão facilmente a prorrogação da Lei de Calamidade Pública.
— Saltadores,
temos que ocupar a Terra!
Era a
palavra-chave de Thomas Cardif, sempre repetida. E na sua voz vibrava
o ódio.
Thomas
Cardif tornou-se o “advogado
do diabo”,
o porta-voz e, simultaneamente, o conselheiro número um do
patriarca. A admiração de Cokaze, sempre crescente, pelo amplo
saber do jovem terrano, por sua lógica concludente, por sua
capacidade de persuadir, era um fato inegável.
O plano
estabelecido foi o de ocupar a Terra num assalto-relâmpago e não
deixar pedra sobre pedra de sua brilhante capital. Estavam ali
sentados para dar os últimos retoques na ação e resolver detalhes
do plano de ataque.
Cokaze
achava-se mesmo disposto a sacrificar no ataque um quinto de sua
frota, se necessário fosse.
Duzentas
espaçonaves cilíndricas deveriam não somente entrar em combate com
as belonaves terranas, mas também tentar levá-las para bem longe da
Terra.
O
estrategista Thomas Cardif estava mostrando assim, na elaboração
deste plano, que era filho de Perry Rhodan. O próprio experimentado
administrador do Império Solar não faria um planejamento melhor. O
velho patriarca, no seu íntimo, dava graças a Deus de contar no seu
ataque à Terra com este fantástico conselheiro: o tenente desertor
da Frota Espacial Terrana.
Mas Perry
Rhodan já havia alcançado o pensamento de Cokaze e, há dez horas,
ordenara à Frota Espacial para que não se deixassem encurralar,
quer por um ataque simulado, quer por um ataque parcial de alguns
grupos de aparelhos dos saltadores, pois a Terra não podia ficar sem
a cobertura dos supercouraçados.
Concomitantemente
a estes preparativos, prosseguia com urgência urgentíssima a
construção, na Lua, de um grande parque industrial bélico para
armas espaciais. Com os debates no Parlamento, surgira um novo
problema, de solução aparentemente impossível. Foi levantada a
grande questão do paradeiro das três mil naves dos druufs que, com
quase absoluta certeza, não conseguiram regressar às suas plagas,
após a pretensa invasão da Terra.
Sem olhar
para interesses particulares, Rhodan deu ordem de que se tomassem
todas as providências para a solução deste inquietante problema.
Pessoalmente, acreditava que os druufs ainda vagavam pelo Universo de
Einstein e uma boa parte dos técnicos estava a favor de sua opinião.
Tanto
antes como agora, estas três mil naves druufs representavam um
perigo latente, não apenas para o sistema solar, mas também para o
próprio Império de Árcon, cuja frota gigantesca continuava ainda
na zona de superposição, tentando impedir a invasão dos druufs.
Árcon não iria permitir que aquelas três mil naves continuassem
vagando em nosso Universo, pois correria o risco de sofrer um ataque
de surpresa. Atlan, o administrador do Grande Império, apesar da
aprovação incondicional do cérebro positrônico, não gozava ainda
de uma boa posição, e era obrigado a dirigir o Império
praticamente no anonimato, pois toda a Galáxia estava crente de que
quem dava as ordens era o cérebro positrônico.
Para dar
um apoio substancial ao amigo Atlan e ajudá-lo na difícil missão
de combater o ímpeto invasor dos druufs, era indispensável que
Rhodan descobrisse o paradeiro das três mil naves.
*
* *
Tanaka
Seiko, o mutante japonês, especialista em auscultar ondas
magnéticas, estava em Marte, com o único objetivo de interceptar as
comunicações de hiper-rádio dos mercadores galácticos,
comunicações estas que eram transmitidas exclusivamente para Vênus.
Depois de
ter observado que as grandes estações de goniometria do Império
Solar ainda estavam intactas, Tanaka estranhou que, a partir das 14
horas e 45 minutos, tempo de Marte, o movimento de hiper-rádio com
Vênus havia subitamente aumentado em mais de cem vezes. Não estava,
porém, em condições de decifrar nem um só destes constantes
rádios, pois vinham codificados, fragmentados e retorcidos. Somente
com aparelhamento apropriado lhe seria possível entendê-los.
Durante
dez minutos, Tanaka ficou ouvindo aquela confusão toda no
hiper-rádio, até sentir um certo mal-estar. Resolveu então fazer
uso de seu hipercomunicador portátil.
A central
do Exército de Mutantes de Terrânia respondeu no mesmo instante. Na
tela em miniatura de seu aparelho, reconheceu o rosto do Major Shenk,
que devia também estar vendo o rosto alongado de Tanaka Seiko.
Tanaka não
se apresentou nem com seu nome, nem com seu número de código.
— 165
745-Lb-876/56 — disse ele em perfeito arcônida.
Quem
captasse esta mensagem, haveria de pensar que se tratava de um sol
gigantesco no catálogo sideral de Árcon. Para a Terra, porém, este
número significava alarme de primeiro grau. Quase simultaneamente
com a combinação numérica de Tanaka, John Marshall, que dirigia as
operações dos mutantes em Vênus, recebeu notícias alarmantes.
Observava-se
nos espaçoportos de Vênus uma atividade muito intensa dos
saltadores, pessimamente camuflada. Os mutantes repararam
freqüentemente que os saltadores, de uma hora para a outra, não
estavam mais se preocupando com as catástrofes ocorridas em certos
aparelhos de suas frotas. Era evidente que tinham recebido ordens do
patriarca para não darem mais importância a estes fenômenos
desconcertantes. Isto significava que uma grande ação estava em
andamento.
John
Marshall, que estava na beira da mata virgem, com dois homens da
Segurança Solar, transmitiu para a Terra, através de seu
hipercomunicador, estas novidades, naturalmente em código. Sua
mensagem chegou poucos segundos após o aviso de alarme de Tanaka
Seiko.
Até a
Frota Espacial tinha reparado em coisas estranhas.
Todas as
naves cilíndricas, em menos de meia hora, abandonaram a órbita em
que estavam há muito tempo e se preparavam para aterrissar em Vênus
e Marte.
Perry
Rhodan e Reginald Bell estavam sentados, estudando as últimas
mensagens.
— São
os passos finais para o ataque — disse Bell convicto, esticando o
dedo da mão direita que ele, no réveillon
havia ferido com os cacos de uma taça.
— Não
precisa mostrar o dedo, gorducho — disse Rhodan sorrindo — nas
próximas horas Cokaze vai se dar mal. E, por favor, me dê aí uma
ligação para o hiper-rádio.
— Por
que não? Mas diga-nos antes que pretende fazer.
— Você
vai ver logo. A tela já está acendendo, obrigado.
Perry
Rhodan estava falando no grande microfone.
Bell ia
arregalando os olhos cada vez mais. De repente deixou escapar a
frase:
— ...
sem-vergonhice deslavada. Foram dez as frases de Rhodan, cada uma
mais grave do que a outra. Sua mensagem fora endereçada a Cokaze, no
planeta Vênus. Perry Rhodan dera ao patriarca dos saltadores um
ultimato para abandonar Marte e Vênus incondicionalmente dentro de
cinco horas, e desaparecer no espaço.
A mensagem
terminava com a ameaça de destruição total da estirpe de Cokaze.
— ... a
partir deste momento, todas as naves terranas receberam ordens de, ao
avistarem um aparelho dos saltadores, abrir fogo incontinenti, com
todos os meios possíveis.
Um fraco
estalo indicou que a ligação do escritório de Rhodan para a
central de hiper-rádio estava desfeita. Bell ria à bandeira
despregada, até que, de repente, sua expressão se transformou,
dando sinais de apreensão.
— Thomas
Cardif está com Cokaze, Perry, e conhece muito bem seus truques.
— Tanto
pior para Cokaze e para sua estirpe — respondeu Rhodan
laconicamente, sem contra-argumentar. — Quero ver se o patriarca se
atreve a atacar ou se depois de cinco horas...
— Perry
— interrompeu Bell excitado — para mim, você não precisa expor
seus truques e golpes. E se o chefe do clã resolve mesmo atacar
dentro de meia hora, com toda sua frota? Que vai ser então? Em duas
horas o velho chegaria à Terra com a maioria de suas naves e
transformaria nosso planeta numa grande fogueira. Com os diabos! Eu e
você sabemos melhor do que ninguém que nossa frota não suportaria
um ataque sério.
Reginald
Bell estava nervoso. Acompanhara suas palavras com fortes murros na
mesa de Rhodan. Mas nem isto impressionou o ponderado administrador.
Olhou pensativo para seu amigo de todas as horas e, fazendo um gesto
com a mão direita, lhe entregou uma tira de papel.
Sua
fisionomia mudou, os olhos lhe começaram a brilhar. Excitado, passou
uma das mãos pelos cabelos, depois bateu com a outra estrondosamente
nas coxas e disse sorrindo:
— Gostaria
agora de ver a cara de Cokaze. Acho que o momento deve ser celebrado
com um trago de conhaque.
A ligação
direta de emergência do hiper-rádio fez acender a luz vermelha.
— Sir,
nossa frota já travou combate em cinco lugares de Marte e em três
outros de Vênus. Perdemos com toda certeza um destróier do Grupo de
Caças Espaciais. Das naves cilíndricas que nos atacaram, três
ficaram fora de combate, as restantes se retiraram.
— Obrigado
— disse Rhodan, secamente.
Sentado ao
lado de Rhodan, Bell estava assobiando baixinho, mas muito
desafinado. Não havia mais otimismo no semblante do gorducho.
— Perry,
seu plano não deu certo e eu apostaria qualquer coisa que por trás
da resposta de Cokaze ao seu ultimato, deve haver certamente o dedo
de Thomas Cardif.
— Não
precisa apostar. Tenho certeza de que Thomas Cardif haverá de
influenciar e já influenciou o velho patriarca.
Sua voz
soava tão naturalmente como se estivesse dizendo que o sol lá fora
estava bem forte. Reginald Bell, porém, resfolegava inquieto.
— Perry,
às vezes, você me parece meio misterioso. Gostaria mesmo de
acreditar que ainda conseguiremos salvar alguma coisa, mas quando
olho para a ponta do meu polegar ferido com o... e quando penso em
todo o azar que nos vem perseguindo neste ano pesado, desde primeiro
de janeiro de 2.044...
— Por
que você não estudou astrologia, seu gorducho? Tem tudo para um
astrólogo, inclusive o físico baixo e arredondado.
Podia ter
sido uma brincadeira, mas o olhar firme e sério de Rhodan indicava o
contrário. É que já estava saturado com esse tipo de agouro. Bell
estava tomado por um exagerado pessimismo. Desde o último réveillon
que Bell vinha aterrorizando todo mundo, devido ao acidente com a
taça de champanha. Daí deduzia um ano de desgraças para o Império
Solar. É verdade que o gorducho não era supersticioso, mas estava
cismado com aquele incidente sem nenhuma importância.
Assim foi
que não deu a mínima à observação de Rhodan, e continuou com seu
pessimismo:
— Perry,
Thomas vai destruir todo seu plano.
Novamente
o ruído de alarme do hiper-rádio. Era John Marshall, falando de
Vênus:
— Já
estão ligados os motores de propulsão de todas as naves e as
comportas já estão fechadas. Calculo a partida de Vênus, no máximo
para dentro de meia hora. Fim. Marshall.
— Como
está otimista, este Marshall — disse Bell. — Em dez minutos eles
vão para o espaço. Perry, você tem um filho diabolicamente
inteligente. Parece que Thomas conhece-o melhor do que eu. Não quero
mais apostar. Digo apenas que, atrás desta pressa, está o dedo de
Thomas.
Não havia
mais dúvida de que o plano de Rhodan tinha ido água abaixo. A
própria expressão de Rhodan o demonstrava.
Bateram à
porta. A comissão técnica dos relatores, composta de quatro homens,
entrou. Eram os maiores especialistas em direito arcônida de que
dispunha o Império Solar. Seus conhecimentos no assunto eram
realmente mais amplos do que tudo que estava armazenado no grande
conjunto de computação da Terra.
— Por
favor, senhores, sejam sucintos — pediu Rhodan.
Era um
fato muito singular quando ele não oferecia lugar para os visitantes
sentarem-se. Tinham muito pouco para falar e este pouco não iria
agradar a Rhodan.
Tratava-se
da resposta à pergunta, se o cérebro positrônico de Árcon estava
autorizado a dar ordens expressas à estirpe de Cokaze para que
abandonasse imediatamente o Império Solar e, no futuro, jamais
importunasse seus habitantes com qualquer tipo de exigência.
O parecer
técnico da comissão de juristas foi negativo.
— ... se
o almirante arcônida Atlan não quiser ser prematuramente descoberto
na função de mandatário do Império Arcônida, terá que dar plena
liberdade de ação ao patriarca Cokaze. As leis obrigam a
positrônica a isto e, concomitantemente, também o Almirante Atlan.
Com
simples aceno de cabeça, despediu os integrantes da comissão. De
pé, calado, ao lado da janela, Bell não se manifestou. Mas assim
que a porta se fechou atrás dos juristas, ele disse:
— É
mais uma esperança que desaparece diante de nossos olhos sofredores.
Dá vontade de a gente arrancar os fios de cabelo. Perry, por que
você foi tão afobado com seu ultimato de apenas cinco horas? Se meu
polegar...
— Pare
de uma vez por todas com esta bobagem de polegar — gritou na cara
do amigo, dando um forte soco na mesa.
Este
rompante de raiva em Rhodan foi uma novidade. Ninguém jamais o vira
tão nervoso assim. O homem ponderado, modelo da serenidade, perdera
o cavalheirismo por causa de uma bagatela. Mas o verdadeiro motivo
foi o fato de que, pelo ultimato, havia imobilizado a si mesmo e não
dispunha mais da possibilidade de ganhar tempo.
Chegou
então uma mensagem de Marte:
— A
frota dos mercadores galácticos está decolando.
Dois
minutos depois veio outro rádio de Vênus:
— A
frota dos saltadores está decolando.
Bell ainda
acrescentou com sarcasmo:
— E a
nossa vassoura de ferro precisará ainda de três horas para estar em
condições de começar a varrer os saltadores para fora do sistema
solar. Santa Via-Láctea, quantos reveses teremos que agüentar ainda
este ano de 2.044.
Mais um
rádio e, desta vez, com bem mais volume:
— A
frota dos saltadores, num fogo cruzado de curtos e indecifráveis
rádios, fica agora parada a uma altura de três a cinco mil
quilômetros acima de Vênus.
Antes que
Bell pudesse dizer qualquer coisa, manifestou-se também o
quartel-general dos agentes em Marte. Ali se dera a mesma coisa:
— As
naves cilíndricas de Cokaze, após receberem o alarme de decolagem,
ficaram de repente paradas no espaço.
Bell e
Rhodan se entreolharam, com a mesma pergunta nos olhos. O gorducho de
cabeleira ruiva parecia atônito.
— Por
que nossos telepatas não conseguem ler os pensamentos de Cokaze?
— Você
esqueceu ou quer esquecer que nossos telepatas até agora não
descobriram onde se encontram o patriarca Cokaze e Thomas Cardif.
Sabemos apenas que fizeram uma aterrissagem forçada em Vênus.
— Não
sabia disso não — respondeu Bell com tranqüilidade. — No espaço
não podem estar, isto é mais do que certo. Também não podem andar
por Vênus, senão já teriam sido descobertos. Temos que tirar da
cabeça a idéia de ver Thomas Cardif apenas como desertor. O
desgraçado do rapaz é seu filho, Perry, e acho que ele é muito
ladino... Conclusão: o jovem tenente e o velho patriarca devem ter
se escondido debaixo d’água, ou melhor, nas profundezas do oceano
de Vênus. Pois somente aí é que estariam a salvo dos nossos
mutantes.
— Está
bem. Mas nada disso explica o fato de os saltadores terem retido sua
frota, de um momento para o outro, em volta de Vênus e de Marte.
— Gostaria
de saber também a razão disso, Perry.
*
* *
Foi com
uma leve cintilação nos olhos que Cokaze ouviu a notícia do
ultimato dado por Perry Rhodan. Olhou em volta e se deteve
contemplando a figura tranqüila de Thomas Cardif. Era o único que
conseguia falar francamente com o temido patriarca.
— Ocupe
a Terra, saltador! Ataque imediatamente. Conheço muito bem a tática
de Rhodan. A finalidade de seu ultimato é apenas ganhar tempo.
Transcorrido o prazo do ultimato, você não terá mais chance. Isso,
eu lhe posso garantir. Ou agora ou nunca.
O modo de
argumentar de Cardif fascinava e aterrorizava ao mesmo tempo. Falava
sempre sem nenhuma excitação, frio e racional como um computador.
Sua voz não era impulsiva, pelo contrário, dava a impressão de
total desinteresse. Porém, atrás de todos seus pensamentos, tudo
convergia para um ponto: destruir o homem que assassinara sua mãe.
Nada mais
lhe interessava. Se depois da destruição de Rhodan, ele seria ou
não seu sucessor, como administrador do Império Solar, isto não
tinha nenhuma importância. Seu orgulho, ou melhor, sua ambição
política, ainda não tinha nascido. Neste particular, Cardif não se
conhecia ainda.
Agüentou
serenamente o olhar penetrante do patriarca. Depois de seu breve
apelo para que Cokaze atacasse, Cardif silenciou. Não podia supor o
que os demais saltadores estavam pensando:
Estavam
vendo o jovem Perry Rhodan sentado com eles. Nunca o filho estivera
tão semelhante com o pai.
— Saltador,
você se esqueceu de que Rhodan até hoje sempre sofreu derrotas, uma
após a outra, quer dos saltadores, quer dos aras. Vocês foram
sempre os mais fortes. Rhodan nunca foi forte e todos já sabem qual
é a potência de sua frota. No entanto, sempre conseguiu tapeá-los
e continua conseguindo hoje, Cokaze.
Com seus
olhos de arcônida, Thomas fitou o patriarca com altivez, com a
altivez de sangue real.
— Bem —
disse Cokaze resoluto — darei ordem para minhas naves atacarem. Mas
você, terrano — e nos seus olhos acenderam-se chispas ameaçadoras
— você viverá num permanente inferno se ficar positivado que
Rhodan o mandou para cá como um simples espião ou quinta-coluna.
— Velho
estúpido! — atreveu-se Thomas a dizer, fazendo como se não
tivesse ouvido o soluço de espanto dos demais saltadores.
Levantou-se
lentamente, depondo as duas pistolas de raios energéticos, com
gestos comedidos, sobre a mesa.
— Você
deve estar agora mais ou menos contente, não é, saltador? —
perguntou cheio de ironia. — Resolva suas coisas sem mim, já que
sabe tudo melhor que os outros. Vou interrogar os dois prisioneiros
terranos que se salvaram do destróier abatido. Com passadas largas,
saiu pelo convés central afora, pegando o elevador antigravitacional
que o levou três andares para baixo. Diante da porta do camarote,
onde estavam detidos os dois prisioneiros terranos, postava-se um
robô de combate, que automaticamente lhe permitiu entrada.
— Sir!...
— com esta exclamação, um jovem que estava sentado na cama, deu
um salto.
Mas logo
reconheceu que não era Perry Rhodan quem estava entrando, porém o
filho do administrador.
O segundo
terrano, também vestido com o uniforme da Frota Espacial, se
levantou de trás da mesa tosca, olhando para Thomas com desdém,
mantendo nos lábios um sorriso de ironia.
— Meus
senhores... — começou Cardif e não conseguiu ir além.
O primeiro
rapaz, Val Douglas, que havia dado um salto pensando tratar-se de
Perry Rhodan, interrompeu-lhe as palavras.
— Com
desertores nós não falamos. Livre-nos de sua incômoda presença,
traidor.
Imperturbável,
Thomas Cardif nem piscou.
— Desapareça
daqui, seu malandro! — exclamou o outro cheio de selvagem desprezo.
Com a
palavra malandro, Thomas se curvou involuntariamente. Seus olhos
arcônidas se afoguearam.
— Os
senhores dois serão os primeiros que, por ordem do regente
robotizado, terão de obedecer-me.
— Que
regente robotizado o quê... — disse Val Douglas sorrindo
sarcasticamente. — Este negócio não existe mais. O Almirante
Atlan haverá de entregá-lo ao chefe, como traidor.
Os
caminhos tortuosos do destino quiseram que este jovem fosse um dos
cento e cinqüenta terranos que tomaram parte na campanha, comandada
por Rhodan, Atlan e Bell, em Árcon III, contra o regente robotizado.
Thomas
Cardif, que não era apenas externamente o retrato do pai, mas
era-lhe a cópia fiel também em suas qualidades psíquicas, não se
deixou trair, dominando a grande surpresa que a notícia lhe causou.
— Atlan
não pode agir contra a vontade do cérebro positrônico — revidou
drástico.
O jovem
terrano da Frota Espacial não percebeu a malícia de Thomas Cardif.
O desertor o provocava para obter informações. Sorrindo com
desprezo, o prisioneiro disse:
— O que
Atlan pode ou não pode, ele haverá de mostrar a vocês todos,
principalmente aos traidores de sua laia. A enorme positrônica de
Árcon não tem mais nada para dizer. Silenciou totalmente, já no
tempo em que estávamos em Árcon não havia mais o grande cérebro
positrônico. E não tenho dúvida nenhuma de que Atlan o pegará,
seu desertor.
Os
pensamentos ferviam na cabeça de Thomas. Deixou a cabina sem dizer
uma palavra, voltando para seu camarote. Neste momento, ainda não
estava em condições de comunicar esta grande novidade a Cokaze.
Tinha que refletir um pouco.
Neste meio
tempo, Cokaze havia enviado duas sondas de rádio da Cok-II, que
ainda estava submersa no oceano de Vênus, sondas estas que, com seus
sinais, dariam a ordem de decolar para todas as naves, que esperavam
em torno de Marte e de Vênus. Esta ordem de partir incluía a de
ataque à Terra com o grosso da frota, enquanto um grupo de mais ou
menos duzentas espaçonaves tinha a incumbência de manter a Frota
Solar em combate no espaço, impedindo-a de defender a Terra.
Tocado por
súbita intranqüilidade, coisa que nunca sentira antes, Cardif
procurou o camarote do Cokaze. A Cok-II, que durante muitas horas
estivera parada, sem nenhum ruído, achava-se agora em grande
agitação, com os transformadores zumbindo e os motores aquecendo. A
nave capitania estava prestes a deixar seu esconderijo no fundo do
oceano.
Thomas
Cardif irrompeu subitamente na cabina de Cokaze, que encontrava-se
sentado com seus parentes mais próximos, diante do receptor de
hipercomunicação. Estavam ouvindo as mensagens oriundas de Marte e
de Vênus.
— Qual é
a novidade? — perguntou Cokaze, virando-se para o lado e dando com
o rosto transtornado do tenente desertor.
Atrás de
Cokaze ainda havia um lugar livre. Thomas o ocupou.
— O que
há de novo, terrano? — perguntou novamente o patriarca, dando
vazão à pressão nervosa que o oprimia.
Num gesto
de orgulho, Thomas ergueu a cabeça e sorriu forçado, disfarçando
sua inquietação:
— Saltador,
ganhamos a guerra! O regente robotizado de Árcon foi substituído
pelo Almirante Atlan. Para conservar as aparências, Atlan ainda se
oculta sob o manto do antigo cérebro positrônico.
— Ficou
louco, terrano? — disse-lhe com rispidez o velho patriarca.
Pegou
Cardif pelos ombros e o sacudiu.
— Então
vá perguntar aos dois terranos aprisionados. Quando Atlan desligou o
computador gigante em Árcon III, o cabo estava presente.
Cokaze se
levantou de um pulo e correu para o microfone direto da central de
radiotelegrafia da Cok-II:
— Para
toda a frota: cancelar a partida para o espaço. Permanecer em
posição de espera, aguardando novas ordens. Mas atenção,
transmitam esta ordem em código.
Meia hora
mais tarde, o cabo Val Douglas despejou, sob a coação do soro da
verdade dos aras, tudo que ele e mais cento e cinqüenta terranos, em
companhia de Atlan, haviam presenciado em Árcon III. Mais de trinta
saltadores ouviram fascinados e quase de respiração presa o relato
gaguejado e muitas vezes confuso do cabo Val Douglas. Cokaze insistia
nas mesmas perguntas, de maneira que lhes ficou cada vez mais claro,
pela repetição, o momento decisivo em que Atlan desligou o
gigantesco conjunto positrônico de Árcon III.
Tão
fascinante era tudo, que os saltadores não sentiram o tempo passar.
O espetáculo terminou quando Douglas, sob a atuação das terríveis
drogas dos aras, dando um grito lancinante, desfaleceu. O patriarca
ainda demonstrou algum sentimento de humanidade, ordenando ao médico
de bordo que cuidasse do jovem terrano, administrando-lhe todos os
antídotos necessários.
Foi aí
que o patriarca reparou o avançado da hora. Com um palavrão, partiu
apressado para a sala de comando. Lá estava Thomas Cardif diante do
hipercomunicador.
— Algo
de novo? — foi a pergunta de Cokaze.
— Nada
de importante, saltador. Suas naves esperam pela ordem de ataque. A
Cok-II está a uma altura de dez quilômetros de...
— Está
bem! — disse o velho, batendo-lhe no ombro. — Jovem inexperiente!
Cardif já
estava com uma pergunta na ponta da língua, mas Cokaze não lhe deu
tempo.
— Vocês
só enxergam o hoje, o imediato e se esquecem do amanhã. O regente
robotizado está extinto e então chega este Atlan e declara-se
imperador. Oh! Deuses do espaço! Esta é a hora sideral dos
comerciantes das Galáxias.
O velho
patriarca juntou as palmas das mãos, como se faz para rezar,
ergueu-as na direção do céu, dando a impressão de estar mesmo
numa prece de ação de graças.
Thomas
Cardif não entendia mais nada. E Cokaze notou que o terrano não o
estava compreendendo.
— Jovem
inexperiente! — repetiu com certo ar de triunfo — esta é a nossa
hora, a hora dos mercadores galácticos. Este ridículo Império
Solar de Perry Rhodan não me interessa mais. Ele que viva em paz por
aqui. Retiro-me do Império Solar sem exigir nada, para... para fazer
o que, terrano? Você acha que, por causa de um miserável contrato
comercial, iria perder a oportunidade de, junto com meus irmãos e os
aras, conquistar o imenso, riquíssimo Império de Árcon? Quem é
este Atlan?
— Senhor
— ouviu-se do alto-falante do intercomunicador de bordo — estamos
registrando inúmeros estremecimentos estruturais. Está se
aproximando uma frota gigantesca do hiperespaço. Já conseguimos
contar duas mil naves.
— Cale a
boca! — gritou o patriarca, encobrindo a voz forte e nervosa de seu
telegrafista. — Comunique a Rhodan que eu aceito seu ultimato e
estou dando ordens à minha frota para que entre em transição na
direção de 45 GH 32. Preste atenção para não cometer nenhum
erro.
Para
Cardif, ordenou apenas:
— Venha
comigo.
Dirigiram-se
à sala de comando. A Cok-II deixara o esconderijo nas profundezas do
oceano de Vênus e estava agora a dez quilômetros do solo de Vênus.
Os
saltadores, que estavam em volta do rastreador estrutural, foram se
retirando assim que viram seu patriarca entrar. Por sobre os ombros
de Cokaze, Thomas Cardif olhava para a tela, cheia de diagramas. O
dispositivo de contagem, ao lado, que registrava os estremecimentos
estruturais, pulara no momento de 2.185 para 2.318. Isto queria dizer
que, a partir dos últimos cinco minutos, isto é, a contar do
primeiro estremecimento, 2.318 supernaves já haviam saltado do
hiperespaço para o sistema solar.
— Isto é
a ajuda de Atlan para Perry Rhodan — disse Cardif nas costas de
Cokaze, esbravejando de cólera.
O velho
patriarca enxugou o suor do rosto.
— Deuses
do espaço! — disse com voz rouca. — Eu vos agradeço. Agradeço
também a você Cardif.
Batia
afavelmente com a mão direita nos ombros de Thomas.
— Não
fosse você, terrano, que teve a idéia de interrogar os dois
prisioneiros do destróier abatido, esta novidade chegaria tarde
demais para nós. Teríamos atacado a Terra e seríamos destroçados
por esta frota recém-chegada, até o último aparelho. Obrigado,
terrano. Você merecerá a eterna gratidão da estirpe de Cokaze.
Acoplado
ao rastreador, o totalizador estrutural estava, no momento, parado
exatamente no número 2.500. Duas mil e quinhentas naves apareceram
em poucos minutos, para se unirem à Frota Solar e resguardarem o
pequeno sistema.
— Soltem
os dois prisioneiros e os coloquem numa nave auxiliar — foi a
última ordem de Cokaze, antes que a Cok-II iniciasse a aceleração,
para se afastar do sistema solar com toda a frota dos saltadores.
Cerca de
quatro mil naves tinham o mesmo destino: iam para 45 GH 32, um local
qualquer no espaço, que não devia ser identificado facilmente.
Uma hora e
quarenta e oito minutos antes de esgotar o prazo dado pelo ultimato,
o espaço, nas proximidades do sistema solar, foi fortemente abalado
por intensos estremecimentos, indicando que as naves de Cokaze
estavam desaparecendo.
Os cem mil
homens de esmerada formação, que deixaram a Terra secretamente na
Titan e em cinco outras supernaves de carga, estavam voltando com mil
novas belonaves arcônidas, novinhas em folha. Traziam também uma
frota de mil e quinhentas naves robotizadas.
Foi o
máximo em auxílio militar que Atlan podia fornecer à Terra. Mas
foi também um verdadeiro milagre da técnica o fato de cem mil
especialistas em espaçonáutica chegaram a Árcon e não terem outra
coisa a fazer a não ser entrar nas supernaves, já prontas, e voltar
para a Terra. Os cem mil especialistas se sentiam à vontade nestas
moderníssimas criações arcônidas, e, abstraindo-se de pequenos
incidentes normais em grandes transições, tudo correu com
perfeição.
O
repentino aparecimento deste auxílio de Árcon poderia causar a
impressão de que Cokaze tivesse mudado de opinião em vista desta
força imensa que vinha em socorro da Terra. Mas Rhodan e Bell sabiam
perfeitamente que o velho saltador dera ordem de sustar a decolagem
para o ataque, muito antes de chegarem as duas mil naves de Árcon.
— Perry
— disse Bell — meu dedo polegar da mão direita está comichando.
Creio que temos de passar ainda por surpresas desagradáveis. Antes
já tivesse acabado este carregado ano 2.044.
— Prefiro
que você me diga por que razão Cokaze sustou a decolagem de suas
naves, já prontas para o ataque da Terra. É melhor do que esta
bobagem do seu dedo polegar.
— Estou
quebrando a cabeça há muito tempo com isto. É exatamente este o
motivo por que meu polegar está...
— Bell!
Por favor, somos amigos, não somos?
— Claro
que somos amigos — disse Bell distraído. — Mas tenho que lhe
explicar que...
— Então
conservemos nossa amizade, Bell, ponha uma pimenta bem forte na boca,
quando pensar em falar do seu dedo polegar. Você vai me prometer
isto, não é?
— Posso
prometer sim. Mas neste exato momento meu polegar esta comichando
demais.
Rhodan deu
um suspiro e sacudiu a cabeça resignado.
*
* *
*
*
*
Para
ajudar seu chefe e amigo, o rato-castor Gucky empreende um
perigosíssimo salto até Vênus e, penetrando na nave capitania de
Cokaze, desativa as centenas de bombas nucleares, destinadas a
arrasar não só a Terra, como todo o sistema solar.
Enfraquecida
pelos ataques inteligentes de Gucky e de seus companheiros, a frota
dos saltadores abandona o sistema solar. Mas pouco antes de decolar,
seu chefe, Cokaze, fica sabendo de algo que certamente trará amargas
conseqüências para o novo chefe do Império Arcônida, Atlan, o
grande amigo de Rhodan...
Em “Atlan
em Perigo”,
título do próximo volume da série, a posição do amigo número um
do Império Solar corre sério risco...

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