quarta-feira, 24 de agosto de 2016

P-089 - A Grande Hora de Gucky - Kurt Brand [Parte 3]

4



Quatro horas antes do início dos debates no Parlamento, Gucky aparece de repente ao lado de Rhodan.
O que você quer? — perguntou admirado. Não sabia nada da fuga de Gucky para Vênus, pois Bell não lhe contara nada a respeito. — E como vai você? Está doente?
O rato-castor que brincava com todos e não respeitava nem a presença de Perry Rhodan, ajeitou-se na poltrona mais próxima.
Não estou nada doente, Perry, apenas um pouco cansado. Mas isto não tem importância. Estou voltando da espaçonave de Cokaze. Este malandro tencionava lançar centenas de bombas atômicas sobre a Terra, Vênus e Marte, caso você não lhe concedesse o monopólio comercial sobre o sistema solar. Mas eu lhe estraguei este prazer, jogando fora todos os detonadores...
Quem foi que mandou você para Vênus e depois para a Cok-I, Gucky? Foi Marshall, por acaso?
Ninguém, chefe. Eu...
Como é que você é capaz de se afastar assim, por conta própria, Tenente Guck, numa situação como esta em que estamos?
Perry, por favor, não use este tom comigo. Foi unicamente por sua causa que arrisquei a vida e passei por maus momentos...
Os olhos de Rhodan começaram a cintilar de um modo diferente.
Tenente Guck, não me agrada que, ultimamente, venha tomando certas liberdades que não se coadunam com os deveres de um tenente do Exército de Mutantes...
Por favor, Perry — implorou Gucky com a coragem do desespero — você não pode falar comigo menos formalmente? Chefe, controlei os pensamentos de Thomas Cardif... Seu filho crê cegamente que você enviou Thora, já desenganada pelos médicos, para morrer em Árcon e...
O resto ficou preso na garganta, não teve coragem de dizer.
Rhodan esticou o braço para Gucky, pousando-lhe a mão no lombo, em sinal de reconhecimento.
O que você está dizendo? Como?
Sim — disse sem medo — ele crê exatamente o que é espalhado por aí neste boato nojento.
E o que mais, Gucky? Você ainda tem alguma coisa para falar. Não tenha receio.
Não tenho mais nada, não, mas uma pessoa que procede erradamente baseada na sua convicção, deve ser julgada muito diferentemente da que age com má intenção.
Quer dizer então que devo deixar o desertor Thomas Cardif fazer o que quer? Você também já pertence ao grupo dos que me vêm pedir para perdoá-lo, só porque é meu filho?
Gucky não agüentou mais e fazendo uso de seus poderes telecinéticos, tomou, pela primeira vez na vida, uma atitude quase hostil para com Rhodan...
Todos sabiam que o melhor amigo do administrador era Gucky, igualando ou mesmo superando Reginald Bell. Porém, pela força telecinética de Gucky, o braço de Rhodan foi lançado para o lado e o rato-castor se afastou um pouco, por medida de segurança, tomando a seguir a posição de sentido.
Administrador... Tenente Gucky se apresenta, de volta de sua missão espontânea. Nesta operação, por conta e risco do operante, pude constatar que Thomas Cardif não se colocou do lado dos saltadores por motivos condenáveis. O desertor, Tenente Thomas Cardif, está convencido de que o senhor condenou sua mãe à morte. E mesmo que o senhor me mande para os quintos dos infernos, tenho de perguntar: quem é o maior culpado das coisas chegarem a este ponto, o senhor ou seu filho, Thomas Cardif? Perry, por que razão ele se chama Cardif e não Rhodan? E agora, se quiser pode me mandar embora.
O rato-castor, mantendo sempre a posição de sentido com o tronco apoiado nas patas traseiras e na volumosa cauda, mirava firme Rhodan, demonstrando sinceridade. Esperava pela decisão. Percebeu que o grande homem, sentado à sua frente, travava uma verdadeira batalha íntima, pesando agora tudo que ouvira.
De repente seu corpo deu um leve galeio para trás, como se estivesse despertando de um sonho, e seus olhos revelaram um brilho, afetuoso. Aflorou-lhe o primeiro sorriso. Respirou profundamente e vieram-lhe as primeiras palavras:
Desapareça, Gucky, você é um sujeito extraordinário, mas não beba todo o conhaque de Bell.
Não estou com sede não, chefe — chilreou e no mesmo instante estava lá em cima.
Oh! O gorducho está vindo... Havia captado os pensamentos de Bell, que realmente chegou instantes depois. Parecia tresnoitado e sobrecarregado de aborrecimentos. Só quando passou a seu lado, foi que notou a presença de Gucky.
Oh!... Você por aqui? — disse olhando demoradamente para o rato-castor, que, como sinal de grande contentamento, exibiu seu dente roedor.
É claro que estou aqui, felizmente, e não mais na nave de Cokaze.
Que bobagem que você está dizendo, Gucky?
Bell não estava com a consciência tranqüila de haver ocultado a Rhodan a missão empreendida pelo rato-castor. Gucky naturalmente estava lendo todo o pensamento do amigo.
Gorducho, todos nós estamos muito cansados, mas não tanto como o malandro do Cokaze, lá na Cok-I.
Bell lhe chamou a atenção para que não usasse tais expressões, pois Rhodan se aproximava. Mas o rato-castor não deu muita importância. Estava contente demais, para modificar seu modo de falar.
Chefe, onde é que parei mesmo? Ah! É verdade, estava falando de Cokaze. Ele estava preparado para lançar bombas atômicas sobre a Terra, Vênus e Marte, caso não conseguisse o contrato do monopólio comercial. Como é que você acha que ele se sentiu ao saber que os fogos de artifícios, no envoltório de proteção da Cok-I, foram causados pelas caixas de detonadores atiradas da escotilha? E depois, quando Cokaze já estava quase desanimando, Cardif o obrigou a se levantar para continuar a luta. Cardif está com o patriarca dos saltadores da estirpe dos...
O nome não tem importância, Gucky — interveio Rhodan — mas não venha nos contar histórias de fadas, hein?
Bell olhou admirado para Gucky, mas mais admirado ainda para Rhodan. Pela primeira vez, desde a fuga de Thomas Cardif para Plutão, o administrador do Império Solar não demonstrava nenhum constrangimento ao ouvir o nome de Cardif.
Chefe — continuou Gucky entusiasmado — o mais arrogante arcônida não poderia criticar o patriarca Cokaze, como Thomas Cardif o fez. E antes, na sala de comando da Cok-I, quando os saltadores estavam em pânico, tremendo de medo, devido às grandes faíscas dos detonadores no envoltório energético, Thomas lhes disse que precisavam fazer um curso na Academia Espacial de Terrânia, para aprenderem a se dominar na hora do perigo... Pois é — disse o rato-castor, completando seu relato — Cokaze será um osso duro de roer.
Concordo com você, Gucky — falou Rhodan, entregando a Bell uma tira de papel com um hiper-radiograma.
Seu rosto se anuviou ao ler a mensagem.
O quê? O maluco do Cokaze está exigindo o contrato sobre o monopólio comercial à base de antigas leis das Galáxias? E este radiograma foi também enviado para o Parlamento?
Não, Bell, este radiograma, não. O Parlamento recebeu dele uma informação. Nossa estação a captou e decifrou. Aqui está ela:
Bell passou os olhos.
Uma raposa esperta e um péssimo sujeito. Tenta seduzir o Parlamento, apresentando Thomas Cardif como novo administrador.
Viu o gesto confirmativo de Rhodan como também o brilho de seus olhos, indicando disposição para a luta.
Já estão em andamento operações contra a frota dos saltadores? — perguntou Bell com cautela.
Sim, mas quem está em atividade é somente o Exército de Mutantes e estas operações serão simultâneas em Marte e Vênus, e vão deixar os saltadores de cabelos brancos.

* * *

Se havia alguém que sabia tirar grandes proveitos de pequenas vantagens, era Perry Rhodan.
A Frota Espacial do Império Solar estava de prontidão. Unidades pesadas e superpesadas circunvoavam Marte e Vênus em queda livre. A cem mil quilômetros, caças e destróieres do Comando Espacial patrulhavam os dois planetas ocupados pelos saltadores. Ao aparecimento de uma espaçonave cilíndrica, mergulhavam na imensidão do espaço.
A Frota Espacial tinha ordem de abrir fogo só se as naves dos saltadores saíssem dos planetas para atacar a Terra.
Os comandantes de Rhodan não tinham nada a ver com as confusões políticas. Obedeciam apenas as ordens de Perry Rhodan e estavam voltados exclusivamente para os problemas da Frota Espacial Solar. Quantas vezes, Perry, em pessoa, a guiou em lutas renhidas e quantas provas deu de ter sido seu competente comandante.
A vida em comum nas horas difíceis era o grande elo de união de toda a Frota Espacial. E por mais abalada que estivesse a posição de Rhodan nos assuntos políticos, tanto mais estreitos eram os laços que uniam a pequena, mas bem preparada força terrana.
Uma parte dos radiogramas, trocados entre as unidades pesadas, vinham em código simples. O patriarca Cokaze devia estar em condições de decifrá-los e realmente as decifrava.
As mensagens davam conta de que Rhodan havia dado ordem à frota para que abrissem fogo sobre qualquer nave dos saltadores que apenas tentasse se aproximar da Terra.
Numericamente, a frota de Cokaze era muito maior do que o conjunto das unidades terranas, embora os saltadores não possuíssem nada para enfrentar os gigantescos encouraçados esféricos de 1.500 metros de diâmetro, com sua tremenda potência de fogo. Estas ponderações impediam, no momento, uma operação relâmpago das naves cilíndricas dos saltadores contra os pontos estratégicos da Terra. Quando, há dias atrás, deixara espontaneamente a Terra e se contentara com a ocupação de Marte, Vênus e de alguns satélites dos planetas maiores, Cokaze cometera um grande erro.
A frota dos saltadores estava também de prontidão. Os saltadores, a bordo de suas naves cilíndricas, estavam habituados a impor sua vontade a todos. Achavam, portanto, um fato inaudito que este diminuto reino estelar pudesse lhes opor resistência. A maioria dos saltadores não compreendia a hesitação de seu patriarca, mas ninguém se atrevia a protestar contra sua tática.
Cokaze já havia, há mais tempo, entrado em contato com todas as naves de sua frota. Havia dado instruções curtas mas precisas, para cada comandante, indicando-lhes o que tinham de fazer ou de deixar de fazer. Mas, quando irrompeu um incêndio no mecanismo de propulsão da Cok-CXXX, o comandante saltador Solam ordenou de uma maneira muito singular que deixassem a nave pegar fogo, devendo a tripulação abandoná-la.
Nenhum dos trezentos e cinqüenta saltadores a bordo estranhou a ordem de Solam. Com incrível serenidade, cada um reuniu seus pertences e abandonou o aparelho. Ao chegarem ao ar livre, viram a um quilômetro, outra nave de sua frota em chamas. E os incêndios foram se multiplicando. Era um atrás do outro. Mas ninguém se preocupava com a repetição do fenômeno.
No espaçoporto de emergência K-f 3, aconteceram outras coisas misteriosas. Não foram apreciadas em toda a sua extensão por grande parte da frota, em compensação, imperava entre as tripulações de trinta outras naves uma verdadeira situação de pânico.
Em sua Cok-I, o velho patriarca estava mais do que alarmado.
Zugan, comandante da Cok-DV, gaguejava no telecom, o telecomunicador, seu desconexo relatório:
...Senhor, há dez minutos, a Cok-CXVI decolou deste sistema e não responde mais a nenhum chamado. O Capitão Gudin, com toda a tripulação, entrou nos aparelhos auxiliares, dizendo que ia explorar as matas virgens de Vênus. Procuramos retê-los à força, mas os homens da nave de Gudin responderam com as armas de raios hipnóticos. No momento...
A estação central da Cok-I interrompeu a transmissão. O telegrafista de bordo informou com voz nervosa a seu patriarca que seu neto Kacozel pedia com urgência para ligar para Marte, onde aconteciam coisas terríveis.
Como? Também lá? Não ouviu o que está se passando em Vênus? Ligue-me com meu neto Kacozel, mas focalize bem seu rosto na tela, melhor do que a última imagem de Zugan.
Cokaze, um modelo vivo de autocontrole, sentia que os nervos lhe iam estourar. Via-se completamente desarmado e impotente diante destes acontecimentos inexplicáveis. Para ele, o realista, que nunca se deparara com fenômenos parapsicológicos, tudo parecia uma monstruosidade sem nenhuma explicação.
A tela do hipercom tremeluziu, mostrando o rosto de seu neto que comandava um grupo de aparelhos no espaçoporto da Cidade de Marte.
Senhor — começou Kacozel com voz suplicante — não me julgue um louco, se eu...
O chefe da estirpe de Cokaze não tinha mais nervos suficientes para agüentar longos rodeios.
Que aconteceu? Quero ouvir fatos. O que houve?
Enquanto o patriarca falava, Thomas Cardif entrou no posto de comando. O desertor ouviu tudo que Kacozel tinha para contar sobre os fatos misteriosos no espaçoporto da Cidade de Marte. Oito naves ali estacionadas ou foram misteriosamente incendiadas ou tiveram suas turbinas destruídas.
...conjuntos mecânicos ou eletrônicos foram arrancados da sustentação, portas se entortaram e peças metálicas pesadas foram atiradas como bombas contra conversores e transformadores. E, pior ainda, senhor! Quatro tripulações abandonaram simplesmente suas naves e foram para a cidade. É como se os maus espíritos do espaço se abatessem de repente contra nós e...
Aí interveio Thomas Cardif:
Os maus espíritos do espaço são os mutantes de Rhodan, saltador.
Kacozel, em Marte, como que petrificado diante do aparelho de hipercom, silenciou completamente, enquanto que o patriarca dos saltadores, circunvoando à grande altura o planeta Vênus, olhava estarrecido para o jovem terrano.
Sim, Cokaze, este é o contra-ataque de Rhodan — repetiu, calmamente, Thomas Cardif. — Está usando seus melhores hipnos e telecinetas contra sua frota, e, se você não conseguir se livrar deste terrível grupo de assalto, em breve haverá de presenciar uma explosão que mandará pelos ares sua Cok-I, como aconteceu há poucas horas com os detonadores que explodiram de encontro ao envoltório magnético.
Mutantes... Mutantes! — exclamou Cokaze alarmado.
Parecia-lhe impossível imaginar algo de real em tudo isto. Mas quando se lembrou do relato de seu neto, e também da destruição do mecanismo de propulsão de uma espaçonave, começou a ver uma relação entre tudo isto e a explosão dos detonadores de suas bombas atômicas.
...quer dizer então que aqui esteve também um telecineta, não é, Cardif?
O desertor lhe riu em pleno rosto, demonstrando de novo sua arrogância arcônida.
O mutante que esteve a bordo da Cok-I não era somente um telecineta, mas também um teleportador, saltador, e ainda por cima um hipno. E talvez nem fosse um só, não podemos saber, pois os mutantes não deixam rastros... Talvez este mutante nem tivesse a aparência humana... podia ser Gucky, o rato-castor.
Podia ser o quê? Um rato-castor, rato-castor... que é isto? — perguntou o patriarca gaguejando, assustado.
Parece com um animal, uma mistura de rato com castor. Saltador, caso um dia se depare com um ser assim e não puder destruí-lo imediatamente, aconselho-o então a não querer entrar em luta com ele. Fatalmente, você será derrotado. Este ser inteligente que domina bem a língua terrana, o intercosmo e o clássico arcônida, é telecineta, teleportador, telepata e já andam dizendo que também é hipno...
Num impulso violento, Thomas Cardif deu um pulo para o lado e queria acionar suas duas pistolas energéticas que sacou rapidamente, quando uma força irresistível as arrancou de suas mãos, projetando-o para o teto do posto de comando. Ao lado de Thomas Cardif, ouviu-se um ruído no forro do teto. Era o patriarca Cokaze que ia fazer companhia ao terrano...
Alguns metros abaixo, estava Gucky, com sua voz chilreante:
Thomas Cardif, você é o maior boateiro das Galáxias. Mas, quando olho para você assim, sinto-me realmente feliz por não pertencer à raça do Homo Sapiens. Fora disso, está gostando do ar aí em cima? E o cacique dos saltadores, já compreendeu agora o que é um mutante? Mas acho que não compreendeu ainda que a sua Cok-I será um montão de ferro velho em cinco minutos. Repare bem que confusão doida reina em sua nave. Recomendo a vocês, saltadores, que, antes de programarem uma nova série de roubos, passem uma temporada na Academia Espacial Solar, para ficarem um pouco mais corajosos.
Cardif, é pena que minhas mãos estejam atadas, por uma promessa que fiz a Rhodan. Prometi não maltratá-lo e, infelizmente, não posso arranjar o pretexto de sofrer de falta de memória, senão vocês dois iam me pagar a sujeira que fizeram na Terra.”
Cokaze, o patriarca da mais rica estirpe dos saltadores, os mercadores galácticos, não estava nem mais em condições de rezar para seus deuses estelares. Estava vivendo os minutos mais cruciantes de sua vida. Seu sistema nervoso estava caminhando rapidamente para a pane total. E não era para menos, pois não havia mesmo nenhuma explicação pelo fato de, após uma leve cintilação do ar, surgir de repente um animal e, no mesmo instante, ser atirado para o teto da sala de comando e lá ficar pairando, sem poder descer...
Horrorizado e cheio de medo, olhava para o estranho animal abaixo dele. Viu que, de vez em quando, passava a língua no único dente roedor que possuía. Os olhos brilhantes do rato-castor, que se dirigiam no sentido dele e de Thomas Cardif, pareciam ir além, vendo outras coisas muito distantes.
Passou-se mais um minuto angustiante e nada aconteceu, até que, no telecomunicador de bordo, se ouviu um estalo diferente. O rato-castor desapareceu no mesmo instante, para surgir, após um rápido cintilar, atrás da tela de televisão do intercomunicador.
Senhor... — alguém estava chamando o patriarca no telecomunicador — os geradores de onze a quatorze estão escapando de suas bases e...
O resto perdeu-se numa enorme gritaria e num estrondo infernal. Contente com os acontecimentos, Gucky falou através do telecomunicador:
Este foi o primeiro golpe e o segundo não vai demorar.
Depois de se achar preso ao teto, Thomas Cardif não fez nenhuma tentativa para se mover. Sabia que qualquer resistência seria inútil. Mas já o velho patriarca não agia assim. Gemia o resfolegava. Tentava, sempre inutilmente, pegar uma de suas pistolas de raios energéticos. Porém não conseguia nem mover um dedo.
Neste meio tempo, Gucky empregou a maior parte de suas energias telecinéticas nos motores e transformadores da Cok-I.
Nada escapou da destruição. Diante dos olhos estupefatos do último saltador que ainda estava de serviço no setor das máquinas de propulsão e que, tolhido de pavor, não conseguia dar um passo, como se fosse uma terrível bomba, o gerador do campo antigravitacional rebentou a parede divisória de duas polegadas. A tubulação principal de distribuição da energia das turbinas fora destruída.
Uma faísca do curto-circuito atingiu no mesmo instante o teto de material plástico, derretendo-o por completo.
As centelhas e estampidos livraram do estarrecimento nervoso o pobre saltador, que ainda se encontrava no setor das máquinas e que via com olhos arregalados o desastre em volta dele. Soltando um grito lancinante, pulou para fora, como que acuado por mil cães furiosos.
As sirenes começaram a soar na Cok-I. Apitavam, alternando-se em agudo e grave que mesmo os saltadores mais viajados, jamais tinham ouvido. Esta alternância significava que todos tinham que abandonar a grande nave em aparelhos auxiliares. Também Cokaze ouviu os apitos da sirene em sua cabina e sabia seu significado.
Os olhos de Gucky brilhavam felizes.
Devia deixar os senhores esturricarem aí em cima — disse cheio de desprezo. — Fosse eu um ser humano como vocês, este seria seu destino: morrerem carbonizados. Felizmente, porém, não pertenço à laia de vocês, como Cardif mesmo já frisou minutos atrás. Assim poderão ainda escapar no último aparelho auxiliar. Mas isto vai demorar um pouquinho e vocês ainda terão de esperar mais alguns instantes, aí em cima.
Ouviram-se, no convés superior, passos rápidos e pesados. Desesperados, os tripulantes que se encaminhavam para as naves auxiliares, procuravam também por seu chefe. Três homens irromperam no posto de comando, lugar onde ficava geralmente Cokaze.
Também não está aqui! — exclamou o primeiro deles, depois de dar uma rápida olhada no ambiente.
Os três saltadores davam a entender que já haviam procurado o patriarca em outros lugares.
Ninguém viu Gucky, pois, quando a porta da central de comando se abriu, procurou abrigo atrás de um armário. Mas nenhum dos três saltadores teve a idéia de olhar para cima. No entanto, o próprio Cokaze alertou-os.
E no mesmo instante, os três receberam um safanão na nuca! Os jovens saltadores, homens de boa constituição, ficaram atônitos. Um deles gritou e correu. Os outros saíram atrás, como se a morte os perseguisse.
Do seu esconderijo no armário, veio a ironia de Gucky:
Sempre imaginei os heróis de outra maneira.
Cessara o barulho ensurdecedor da sirene, mas os fortes estrondos, o fogo e os abalos produzidos pelas explosões eram cada vez mais intensos. O rato-castor saiu de sua toca improvisada.
Dentro de três minutos, sua nave vai explodir e sair de órbita, saltador. Vou tomar a liberdade de fazer uma regulagem nos instrumentos para que ela caia exatamente em Vênus, o mais depressa possível. E porque não quero ter a fama de ser um monstro, dou-lhe a oportunidade de vestir seu uniforme espacial, patriarca. Não se esqueça, porém, de que estou lendo seus pensamentos e de que um raio energético desta pistola não é brincadeira. Preste atenção e não queira bancar o esperto.
Cokaze soltou um grito, quando sentiu que estava caindo do forro. Mas no meio do caminho, as forças telecinéticas de Gucky o apararam e o conduziram para a direita, libertando-o depois. A cadeira, onde o patriarca caiu, espatifou-se.
Você...! — exclamou o patriarca depois de se levantar com dificuldade e nos seus olhos, junto com o pavor, havia o ódio indomável.
Neste momento, Gucky captou as ondas cerebrais de uma meia dúzia de saltadores que, vindos da escotilha principal, se aproximavam da sala de comando, em passo acelerado. O rato-castor não tinha nenhum interesse em se mostrar a esta gente.
Cardif, pule — disse para o filho de Rhodan, deixando-o descer um terço da distância do solo, e depois o libertou da telecinese.
Thomas Cardif, muito bem treinado na Academia Espacial, desceu corretamente, como se tivesse molas nas pernas. Fez questão de não dar pela presença de Gucky, que lendo seus pensamentos, disse:
Você ainda tem traços de terrano, Cardif e também traços de boa educação. É pena que você pensa tão erradamente a respeito de seu pai...
Não teve mais tempo de continuar sua conversa. O grupo de saltadores, que viera para salvar seu chefe, já estava perto.
Gucky se concentrou, fechou o capacete de seu uniforme espacial e desmaterializou-se exatamente no momento em que o primeiro mercador irrompeu pela porta da cabina de comando, dando de cara com o patriarca de pé, no meio da sala.
Senhor, acho que três guardas foram vítimas de alucinação e...
Não — atalhou Cokaze, ríspido — aqui ninguém foi vítima de alucinações. Fiquei preso com Cardif lá em cima, dependurado como roupa no varal. Ah!... se eu pudesse pegar este rato-castor!
Cokaze percebeu como os homens, que vieram para libertá-lo daquela situação incrível, se afastaram assustados, deixando a cabina de comando. Compreendeu logo qual a razão de seu pânico. Acreditavam que seu chefe havia enlouquecido. Tinha falado de um rato-castor e viram nisso o indício claro de insanidade mental.
Foi aí que Cokaze deu mais uma prova de sua personalidade. Não prestou nenhum esclarecimento, era de fato o senhor absoluto da grande estirpe. Perguntou secamente:
Em que nave auxiliar ainda há lugar para mim e para Cardif?
Na nave seis, senhor — balbuciou um dos homens.
Então esperem por nós e...
A frase parou por aí. Na nave parcialmente destruída houve no momento uma alteração sensível. Os instrumentos de absorção de pressão falharam. Além disso, a Cok-I devia ter saído de órbita e aumentado muito a velocidade. Os dois fatores da lei da gravidade se abateram sobre eles, fazendo com que cada movimento, que tentassem fazer, se transformasse num suplício.
Que é isto? — gemeu Cokaze, num esforço de suas últimas energias. — Será que ainda podemos controlar o aparelho?
Mas um estrondo ensurdecedor, vindo da parte traseira da Cok-I, fê-lo compreender que o rato-castor, com suas inauditas forças, estava fazendo o que prometera: converter a Cok-I num montão de ferro velho.
Thomas Cardif reconheceu que a situação em que estavam era muito perigosa. Sabia também que Gucky não estava ali para brincadeira, que lhes havia dado um prazo mais do que suficiente para chegarem até os aparelhos auxiliares. O rato-castor não estaria disposto a lhes dar possibilidade de um contra-ataque.
Cardif, que já havia posto o capacete do uniforme espacial, exigiu que Cokaze abandonasse a Cok-I o mais rápido possível.
...ou vamos esperar até que a pressão seja tão intensa, que não consigamos nos movimentar?
Mas Cokaze, que aos poucos estava se refazendo do choque, não quis perder a oportunidade de dar uma boa resposta a Thomas Cardif:
Terrano — disse com desdém — você está com medo, acho que precisa voltar para a Academia Espacial de Terrânia para aprender a enfrentar o perigo e...
A Cok-I que até então circunvoava Vênus a uma altura de cinqüenta mil quilômetros, mudou de repente de direção. Eram novamente as forças telecinéticas do rato-castor, que pairando no espaço, a uns dez quilômetros da nave de Cokaze, a conduzia diretamente para a queda, acabando de destruir o que ainda restava dela.
A partir daí, Gucky não se preocupou mais com a Cok-I, que irremediavelmente se projetava com aceleração crescente de encontro ao planeta. Teleportou-se e chegou com cinco minutos de atraso ao local combinado com John Marshall, que já o esperava impaciente à beira do espaçoporto de Vênus, para “fazer uns consertos” em outras grandes naves dos saltadores.
5



No curto espaço de três horas e sob a proteção da noite, cem mil homens, todos especialistas em vôo espacial, embarcaram no supercouraçado Titan e em outras naves gigantescas.
Cokaze, que através de seus agentes estava a par do aquartelamento destes cem mil homens selecionados, apesar de todas as suas indagações, não conseguia compreender por que razão Perry Rhodan os mantinha enclausurados nos quartéis.
Somente os auxiliares imediatos de Rhodan sabiam qual a missão que estava reservada a esta gente.
O Marechal Freyt, meia hora antes da decolagem, reunira na cabina de sua Titan os oficiais superiores, inculcando-lhes que somente poderiam comunicar a seus comandados o destino da missão, quando estivessem já aterrissando.
Três horas depois da partida, os cinco gigantescos transportes esféricos já tinham alcançado a velocidade necessária para a transição. Com os absorvedores de vibrações ligados, o pequeno grupo de supernaves desapareceu entre os astros, para abandonar novamente o hiperespaço já no centro da nebulosa esférica M-13.
Um radiograma de um quinto de milésimo de segundo, captado através do hiper-comunicador, contendo três mensagens importantes, informava Perry Rhodan de que o Marechal Freyt, com seus cem mil homens selecionados, estava prestes a aterrissar em Árcon III.
Recebeu esta mensagem uma hora após terminarem os debates no Congresso, debates estes encerrados por uma votação.
Com 365 votos a favor e 198 contra, ao lado de numerosas abstenções e votos nulos, Rhodan foi confirmado como administrador, não obstante toda a especulação do Parlamento.

* * *

Allan D. Mercant e John Marshall trabalhavam de mãos dadas.
A Segurança Solar e o Exército de Mutantes não deixavam um minuto de descanso aos saltadores, que haviam se instalado principalmente em Vênus e em Marte. Não eram grandes operações bélicas, levadas a cabo contra a numerosa frota de Cokaze, mas eram suficientes para desnortear toda sua estratégia. E, pela primeira vez na vida, aconteceu que o grande poder do riquíssimo patriarca não foi bastante para acalmar seus comandados.
Aqui e ali, eram destruídos constantemente, pelos meios mais misteriosos, os grandes aparelhos cilíndricos dos saltadores, sem que com isso as famílias, que residiam nestas naves, fossem feridas ou mortas. Era freqüente o fato de tripulações inteiras serem dominadas por forças hipnóticas, agindo como inofensivos débeis mentais.
Porém, quando se tratou de impedir que os saltadores desvendassem o cérebro positrônico de Vênus, os homens de Allan D. Mercant e os mutantes de Marshall tiveram que fazer uso dos direitos de guerra. Foi realmente um verdadeiro milagre que este computador ultrapotente, com suas amplas instalações, demorou a ser descoberto pelos homens de Cokaze. Somente depois das primeiras horas estafantes, Rhodan conseguiu tomar as providências necessárias para que estas instalações continuassem ignoradas pelos ávidos saltadores.
Após a destruição da Cok-I, sua nave capitania, Cokaze aterrissou em Vênus com as sete naves auxiliares, como um verdadeiro náufrago, enquanto os restos da Cok-I se espalhavam como fumaça na densa atmosfera do planeta. Uma hora depois de sua chegada a Vênus, já havia se transladado para a Cok-II. Já era o terceiro dia em que se reunia com seus parentes. Em confabulações ininterruptas, traçavam planos de batalha para a conquista da Terra.
Desta vez, Cokaze seguiu as orientações de Cardif e por este motivo, a Cok-II agora pousada tranqüilamente a 3.460 metros de profundidade, no fundo do oceano de Vênus, permanecia protegida contra qualquer ataque por parte dos mutantes.
O resultado da votação no Parlamento Solar decepcionou tanto a Cardif como a Cokaze. Ambos estavam crentes de que com os boatos espalhados maldosamente, causariam, no mínimo, tanta dificuldade ao administrador, que este se veria obrigado a assinar o contrato de monopólio com a estirpe de Cokaze. Por confiarem demais nestes boatos, não deram importância ao contragolpe de Reginald Bell, que havia ordenado a todas as emissoras de TV do governo que transmitissem de duas em duas horas as cerimônias do sepultamento de Thora no mausoléu da Lua. Assim, não era sem razão que estranhavam o resultado da votação e não podiam compreender como Rhodan obteve tão facilmente a prorrogação da Lei de Calamidade Pública.
Saltadores, temos que ocupar a Terra!
Era a palavra-chave de Thomas Cardif, sempre repetida. E na sua voz vibrava o ódio.
Thomas Cardif tornou-se o “advogado do diabo”, o porta-voz e, simultaneamente, o conselheiro número um do patriarca. A admiração de Cokaze, sempre crescente, pelo amplo saber do jovem terrano, por sua lógica concludente, por sua capacidade de persuadir, era um fato inegável.
O plano estabelecido foi o de ocupar a Terra num assalto-relâmpago e não deixar pedra sobre pedra de sua brilhante capital. Estavam ali sentados para dar os últimos retoques na ação e resolver detalhes do plano de ataque.
Cokaze achava-se mesmo disposto a sacrificar no ataque um quinto de sua frota, se necessário fosse.
Duzentas espaçonaves cilíndricas deveriam não somente entrar em combate com as belonaves terranas, mas também tentar levá-las para bem longe da Terra.
O estrategista Thomas Cardif estava mostrando assim, na elaboração deste plano, que era filho de Perry Rhodan. O próprio experimentado administrador do Império Solar não faria um planejamento melhor. O velho patriarca, no seu íntimo, dava graças a Deus de contar no seu ataque à Terra com este fantástico conselheiro: o tenente desertor da Frota Espacial Terrana.
Mas Perry Rhodan já havia alcançado o pensamento de Cokaze e, há dez horas, ordenara à Frota Espacial para que não se deixassem encurralar, quer por um ataque simulado, quer por um ataque parcial de alguns grupos de aparelhos dos saltadores, pois a Terra não podia ficar sem a cobertura dos supercouraçados.
Concomitantemente a estes preparativos, prosseguia com urgência urgentíssima a construção, na Lua, de um grande parque industrial bélico para armas espaciais. Com os debates no Parlamento, surgira um novo problema, de solução aparentemente impossível. Foi levantada a grande questão do paradeiro das três mil naves dos druufs que, com quase absoluta certeza, não conseguiram regressar às suas plagas, após a pretensa invasão da Terra.
Sem olhar para interesses particulares, Rhodan deu ordem de que se tomassem todas as providências para a solução deste inquietante problema. Pessoalmente, acreditava que os druufs ainda vagavam pelo Universo de Einstein e uma boa parte dos técnicos estava a favor de sua opinião.
Tanto antes como agora, estas três mil naves druufs representavam um perigo latente, não apenas para o sistema solar, mas também para o próprio Império de Árcon, cuja frota gigantesca continuava ainda na zona de superposição, tentando impedir a invasão dos druufs. Árcon não iria permitir que aquelas três mil naves continuassem vagando em nosso Universo, pois correria o risco de sofrer um ataque de surpresa. Atlan, o administrador do Grande Império, apesar da aprovação incondicional do cérebro positrônico, não gozava ainda de uma boa posição, e era obrigado a dirigir o Império praticamente no anonimato, pois toda a Galáxia estava crente de que quem dava as ordens era o cérebro positrônico.
Para dar um apoio substancial ao amigo Atlan e ajudá-lo na difícil missão de combater o ímpeto invasor dos druufs, era indispensável que Rhodan descobrisse o paradeiro das três mil naves.

* * *

Tanaka Seiko, o mutante japonês, especialista em auscultar ondas magnéticas, estava em Marte, com o único objetivo de interceptar as comunicações de hiper-rádio dos mercadores galácticos, comunicações estas que eram transmitidas exclusivamente para Vênus.
Depois de ter observado que as grandes estações de goniometria do Império Solar ainda estavam intactas, Tanaka estranhou que, a partir das 14 horas e 45 minutos, tempo de Marte, o movimento de hiper-rádio com Vênus havia subitamente aumentado em mais de cem vezes. Não estava, porém, em condições de decifrar nem um só destes constantes rádios, pois vinham codificados, fragmentados e retorcidos. Somente com aparelhamento apropriado lhe seria possível entendê-los.
Durante dez minutos, Tanaka ficou ouvindo aquela confusão toda no hiper-rádio, até sentir um certo mal-estar. Resolveu então fazer uso de seu hipercomunicador portátil.
A central do Exército de Mutantes de Terrânia respondeu no mesmo instante. Na tela em miniatura de seu aparelho, reconheceu o rosto do Major Shenk, que devia também estar vendo o rosto alongado de Tanaka Seiko.
Tanaka não se apresentou nem com seu nome, nem com seu número de código.
165 745-Lb-876/56 — disse ele em perfeito arcônida.
Quem captasse esta mensagem, haveria de pensar que se tratava de um sol gigantesco no catálogo sideral de Árcon. Para a Terra, porém, este número significava alarme de primeiro grau. Quase simultaneamente com a combinação numérica de Tanaka, John Marshall, que dirigia as operações dos mutantes em Vênus, recebeu notícias alarmantes.
Observava-se nos espaçoportos de Vênus uma atividade muito intensa dos saltadores, pessimamente camuflada. Os mutantes repararam freqüentemente que os saltadores, de uma hora para a outra, não estavam mais se preocupando com as catástrofes ocorridas em certos aparelhos de suas frotas. Era evidente que tinham recebido ordens do patriarca para não darem mais importância a estes fenômenos desconcertantes. Isto significava que uma grande ação estava em andamento.
John Marshall, que estava na beira da mata virgem, com dois homens da Segurança Solar, transmitiu para a Terra, através de seu hipercomunicador, estas novidades, naturalmente em código. Sua mensagem chegou poucos segundos após o aviso de alarme de Tanaka Seiko.
Até a Frota Espacial tinha reparado em coisas estranhas.
Todas as naves cilíndricas, em menos de meia hora, abandonaram a órbita em que estavam há muito tempo e se preparavam para aterrissar em Vênus e Marte.
Perry Rhodan e Reginald Bell estavam sentados, estudando as últimas mensagens.
São os passos finais para o ataque — disse Bell convicto, esticando o dedo da mão direita que ele, no réveillon havia ferido com os cacos de uma taça.
Não precisa mostrar o dedo, gorducho — disse Rhodan sorrindo — nas próximas horas Cokaze vai se dar mal. E, por favor, me dê aí uma ligação para o hiper-rádio.
Por que não? Mas diga-nos antes que pretende fazer.
Você vai ver logo. A tela já está acendendo, obrigado.
Perry Rhodan estava falando no grande microfone.
Bell ia arregalando os olhos cada vez mais. De repente deixou escapar a frase:
... sem-vergonhice deslavada. Foram dez as frases de Rhodan, cada uma mais grave do que a outra. Sua mensagem fora endereçada a Cokaze, no planeta Vênus. Perry Rhodan dera ao patriarca dos saltadores um ultimato para abandonar Marte e Vênus incondicionalmente dentro de cinco horas, e desaparecer no espaço.
A mensagem terminava com a ameaça de destruição total da estirpe de Cokaze.
... a partir deste momento, todas as naves terranas receberam ordens de, ao avistarem um aparelho dos saltadores, abrir fogo incontinenti, com todos os meios possíveis.
Um fraco estalo indicou que a ligação do escritório de Rhodan para a central de hiper-rádio estava desfeita. Bell ria à bandeira despregada, até que, de repente, sua expressão se transformou, dando sinais de apreensão.
Thomas Cardif está com Cokaze, Perry, e conhece muito bem seus truques.
Tanto pior para Cokaze e para sua estirpe — respondeu Rhodan laconicamente, sem contra-argumentar. — Quero ver se o patriarca se atreve a atacar ou se depois de cinco horas...
Perry — interrompeu Bell excitado — para mim, você não precisa expor seus truques e golpes. E se o chefe do clã resolve mesmo atacar dentro de meia hora, com toda sua frota? Que vai ser então? Em duas horas o velho chegaria à Terra com a maioria de suas naves e transformaria nosso planeta numa grande fogueira. Com os diabos! Eu e você sabemos melhor do que ninguém que nossa frota não suportaria um ataque sério.
Reginald Bell estava nervoso. Acompanhara suas palavras com fortes murros na mesa de Rhodan. Mas nem isto impressionou o ponderado administrador. Olhou pensativo para seu amigo de todas as horas e, fazendo um gesto com a mão direita, lhe entregou uma tira de papel.
Sua fisionomia mudou, os olhos lhe começaram a brilhar. Excitado, passou uma das mãos pelos cabelos, depois bateu com a outra estrondosamente nas coxas e disse sorrindo:
Gostaria agora de ver a cara de Cokaze. Acho que o momento deve ser celebrado com um trago de conhaque.
A ligação direta de emergência do hiper-rádio fez acender a luz vermelha.
Sir, nossa frota já travou combate em cinco lugares de Marte e em três outros de Vênus. Perdemos com toda certeza um destróier do Grupo de Caças Espaciais. Das naves cilíndricas que nos atacaram, três ficaram fora de combate, as restantes se retiraram.
Obrigado — disse Rhodan, secamente.
Sentado ao lado de Rhodan, Bell estava assobiando baixinho, mas muito desafinado. Não havia mais otimismo no semblante do gorducho.
Perry, seu plano não deu certo e eu apostaria qualquer coisa que por trás da resposta de Cokaze ao seu ultimato, deve haver certamente o dedo de Thomas Cardif.
Não precisa apostar. Tenho certeza de que Thomas Cardif haverá de influenciar e já influenciou o velho patriarca.
Sua voz soava tão naturalmente como se estivesse dizendo que o sol lá fora estava bem forte. Reginald Bell, porém, resfolegava inquieto.
Perry, às vezes, você me parece meio misterioso. Gostaria mesmo de acreditar que ainda conseguiremos salvar alguma coisa, mas quando olho para a ponta do meu polegar ferido com o... e quando penso em todo o azar que nos vem perseguindo neste ano pesado, desde primeiro de janeiro de 2.044...
Por que você não estudou astrologia, seu gorducho? Tem tudo para um astrólogo, inclusive o físico baixo e arredondado.
Podia ter sido uma brincadeira, mas o olhar firme e sério de Rhodan indicava o contrário. É que já estava saturado com esse tipo de agouro. Bell estava tomado por um exagerado pessimismo. Desde o último réveillon que Bell vinha aterrorizando todo mundo, devido ao acidente com a taça de champanha. Daí deduzia um ano de desgraças para o Império Solar. É verdade que o gorducho não era supersticioso, mas estava cismado com aquele incidente sem nenhuma importância.
Assim foi que não deu a mínima à observação de Rhodan, e continuou com seu pessimismo:
Perry, Thomas vai destruir todo seu plano.
Novamente o ruído de alarme do hiper-rádio. Era John Marshall, falando de Vênus:
Já estão ligados os motores de propulsão de todas as naves e as comportas já estão fechadas. Calculo a partida de Vênus, no máximo para dentro de meia hora. Fim. Marshall.
Como está otimista, este Marshall — disse Bell. — Em dez minutos eles vão para o espaço. Perry, você tem um filho diabolicamente inteligente. Parece que Thomas conhece-o melhor do que eu. Não quero mais apostar. Digo apenas que, atrás desta pressa, está o dedo de Thomas.
Não havia mais dúvida de que o plano de Rhodan tinha ido água abaixo. A própria expressão de Rhodan o demonstrava.
Bateram à porta. A comissão técnica dos relatores, composta de quatro homens, entrou. Eram os maiores especialistas em direito arcônida de que dispunha o Império Solar. Seus conhecimentos no assunto eram realmente mais amplos do que tudo que estava armazenado no grande conjunto de computação da Terra.
Por favor, senhores, sejam sucintos — pediu Rhodan.
Era um fato muito singular quando ele não oferecia lugar para os visitantes sentarem-se. Tinham muito pouco para falar e este pouco não iria agradar a Rhodan.
Tratava-se da resposta à pergunta, se o cérebro positrônico de Árcon estava autorizado a dar ordens expressas à estirpe de Cokaze para que abandonasse imediatamente o Império Solar e, no futuro, jamais importunasse seus habitantes com qualquer tipo de exigência.
O parecer técnico da comissão de juristas foi negativo.
... se o almirante arcônida Atlan não quiser ser prematuramente descoberto na função de mandatário do Império Arcônida, terá que dar plena liberdade de ação ao patriarca Cokaze. As leis obrigam a positrônica a isto e, concomitantemente, também o Almirante Atlan.
Com simples aceno de cabeça, despediu os integrantes da comissão. De pé, calado, ao lado da janela, Bell não se manifestou. Mas assim que a porta se fechou atrás dos juristas, ele disse:
É mais uma esperança que desaparece diante de nossos olhos sofredores. Dá vontade de a gente arrancar os fios de cabelo. Perry, por que você foi tão afobado com seu ultimato de apenas cinco horas? Se meu polegar...
Pare de uma vez por todas com esta bobagem de polegar — gritou na cara do amigo, dando um forte soco na mesa.
Este rompante de raiva em Rhodan foi uma novidade. Ninguém jamais o vira tão nervoso assim. O homem ponderado, modelo da serenidade, perdera o cavalheirismo por causa de uma bagatela. Mas o verdadeiro motivo foi o fato de que, pelo ultimato, havia imobilizado a si mesmo e não dispunha mais da possibilidade de ganhar tempo.
Chegou então uma mensagem de Marte:
A frota dos mercadores galácticos está decolando.
Dois minutos depois veio outro rádio de Vênus:
A frota dos saltadores está decolando.
Bell ainda acrescentou com sarcasmo:
E a nossa vassoura de ferro precisará ainda de três horas para estar em condições de começar a varrer os saltadores para fora do sistema solar. Santa Via-Láctea, quantos reveses teremos que agüentar ainda este ano de 2.044.
Mais um rádio e, desta vez, com bem mais volume:
A frota dos saltadores, num fogo cruzado de curtos e indecifráveis rádios, fica agora parada a uma altura de três a cinco mil quilômetros acima de Vênus.
Antes que Bell pudesse dizer qualquer coisa, manifestou-se também o quartel-general dos agentes em Marte. Ali se dera a mesma coisa:
As naves cilíndricas de Cokaze, após receberem o alarme de decolagem, ficaram de repente paradas no espaço.
Bell e Rhodan se entreolharam, com a mesma pergunta nos olhos. O gorducho de cabeleira ruiva parecia atônito.
Por que nossos telepatas não conseguem ler os pensamentos de Cokaze?
Você esqueceu ou quer esquecer que nossos telepatas até agora não descobriram onde se encontram o patriarca Cokaze e Thomas Cardif. Sabemos apenas que fizeram uma aterrissagem forçada em Vênus.
Não sabia disso não — respondeu Bell com tranqüilidade. — No espaço não podem estar, isto é mais do que certo. Também não podem andar por Vênus, senão já teriam sido descobertos. Temos que tirar da cabeça a idéia de ver Thomas Cardif apenas como desertor. O desgraçado do rapaz é seu filho, Perry, e acho que ele é muito ladino... Conclusão: o jovem tenente e o velho patriarca devem ter se escondido debaixo d’água, ou melhor, nas profundezas do oceano de Vênus. Pois somente aí é que estariam a salvo dos nossos mutantes.
Está bem. Mas nada disso explica o fato de os saltadores terem retido sua frota, de um momento para o outro, em volta de Vênus e de Marte.
Gostaria de saber também a razão disso, Perry.

* * *

Foi com uma leve cintilação nos olhos que Cokaze ouviu a notícia do ultimato dado por Perry Rhodan. Olhou em volta e se deteve contemplando a figura tranqüila de Thomas Cardif. Era o único que conseguia falar francamente com o temido patriarca.
Ocupe a Terra, saltador! Ataque imediatamente. Conheço muito bem a tática de Rhodan. A finalidade de seu ultimato é apenas ganhar tempo. Transcorrido o prazo do ultimato, você não terá mais chance. Isso, eu lhe posso garantir. Ou agora ou nunca.
O modo de argumentar de Cardif fascinava e aterrorizava ao mesmo tempo. Falava sempre sem nenhuma excitação, frio e racional como um computador. Sua voz não era impulsiva, pelo contrário, dava a impressão de total desinteresse. Porém, atrás de todos seus pensamentos, tudo convergia para um ponto: destruir o homem que assassinara sua mãe.
Nada mais lhe interessava. Se depois da destruição de Rhodan, ele seria ou não seu sucessor, como administrador do Império Solar, isto não tinha nenhuma importância. Seu orgulho, ou melhor, sua ambição política, ainda não tinha nascido. Neste particular, Cardif não se conhecia ainda.
Agüentou serenamente o olhar penetrante do patriarca. Depois de seu breve apelo para que Cokaze atacasse, Cardif silenciou. Não podia supor o que os demais saltadores estavam pensando:
Estavam vendo o jovem Perry Rhodan sentado com eles. Nunca o filho estivera tão semelhante com o pai.
Saltador, você se esqueceu de que Rhodan até hoje sempre sofreu derrotas, uma após a outra, quer dos saltadores, quer dos aras. Vocês foram sempre os mais fortes. Rhodan nunca foi forte e todos já sabem qual é a potência de sua frota. No entanto, sempre conseguiu tapeá-los e continua conseguindo hoje, Cokaze.
Com seus olhos de arcônida, Thomas fitou o patriarca com altivez, com a altivez de sangue real.
Bem — disse Cokaze resoluto — darei ordem para minhas naves atacarem. Mas você, terrano — e nos seus olhos acenderam-se chispas ameaçadoras — você viverá num permanente inferno se ficar positivado que Rhodan o mandou para cá como um simples espião ou quinta-coluna.
Velho estúpido! — atreveu-se Thomas a dizer, fazendo como se não tivesse ouvido o soluço de espanto dos demais saltadores.
Levantou-se lentamente, depondo as duas pistolas de raios energéticos, com gestos comedidos, sobre a mesa.
Você deve estar agora mais ou menos contente, não é, saltador? — perguntou cheio de ironia. — Resolva suas coisas sem mim, já que sabe tudo melhor que os outros. Vou interrogar os dois prisioneiros terranos que se salvaram do destróier abatido. Com passadas largas, saiu pelo convés central afora, pegando o elevador antigravitacional que o levou três andares para baixo. Diante da porta do camarote, onde estavam detidos os dois prisioneiros terranos, postava-se um robô de combate, que automaticamente lhe permitiu entrada.
Sir!... — com esta exclamação, um jovem que estava sentado na cama, deu um salto.
Mas logo reconheceu que não era Perry Rhodan quem estava entrando, porém o filho do administrador.
O segundo terrano, também vestido com o uniforme da Frota Espacial, se levantou de trás da mesa tosca, olhando para Thomas com desdém, mantendo nos lábios um sorriso de ironia.
Meus senhores... — começou Cardif e não conseguiu ir além.
O primeiro rapaz, Val Douglas, que havia dado um salto pensando tratar-se de Perry Rhodan, interrompeu-lhe as palavras.
Com desertores nós não falamos. Livre-nos de sua incômoda presença, traidor.
Imperturbável, Thomas Cardif nem piscou.
Desapareça daqui, seu malandro! — exclamou o outro cheio de selvagem desprezo.
Com a palavra malandro, Thomas se curvou involuntariamente. Seus olhos arcônidas se afoguearam.
Os senhores dois serão os primeiros que, por ordem do regente robotizado, terão de obedecer-me.
Que regente robotizado o quê... — disse Val Douglas sorrindo sarcasticamente. — Este negócio não existe mais. O Almirante Atlan haverá de entregá-lo ao chefe, como traidor.
Os caminhos tortuosos do destino quiseram que este jovem fosse um dos cento e cinqüenta terranos que tomaram parte na campanha, comandada por Rhodan, Atlan e Bell, em Árcon III, contra o regente robotizado.
Thomas Cardif, que não era apenas externamente o retrato do pai, mas era-lhe a cópia fiel também em suas qualidades psíquicas, não se deixou trair, dominando a grande surpresa que a notícia lhe causou.
Atlan não pode agir contra a vontade do cérebro positrônico — revidou drástico.
O jovem terrano da Frota Espacial não percebeu a malícia de Thomas Cardif. O desertor o provocava para obter informações. Sorrindo com desprezo, o prisioneiro disse:
O que Atlan pode ou não pode, ele haverá de mostrar a vocês todos, principalmente aos traidores de sua laia. A enorme positrônica de Árcon não tem mais nada para dizer. Silenciou totalmente, já no tempo em que estávamos em Árcon não havia mais o grande cérebro positrônico. E não tenho dúvida nenhuma de que Atlan o pegará, seu desertor.
Os pensamentos ferviam na cabeça de Thomas. Deixou a cabina sem dizer uma palavra, voltando para seu camarote. Neste momento, ainda não estava em condições de comunicar esta grande novidade a Cokaze. Tinha que refletir um pouco.
Neste meio tempo, Cokaze havia enviado duas sondas de rádio da Cok-II, que ainda estava submersa no oceano de Vênus, sondas estas que, com seus sinais, dariam a ordem de decolar para todas as naves, que esperavam em torno de Marte e de Vênus. Esta ordem de partir incluía a de ataque à Terra com o grosso da frota, enquanto um grupo de mais ou menos duzentas espaçonaves tinha a incumbência de manter a Frota Solar em combate no espaço, impedindo-a de defender a Terra.
Tocado por súbita intranqüilidade, coisa que nunca sentira antes, Cardif procurou o camarote do Cokaze. A Cok-II, que durante muitas horas estivera parada, sem nenhum ruído, achava-se agora em grande agitação, com os transformadores zumbindo e os motores aquecendo. A nave capitania estava prestes a deixar seu esconderijo no fundo do oceano.
Thomas Cardif irrompeu subitamente na cabina de Cokaze, que encontrava-se sentado com seus parentes mais próximos, diante do receptor de hipercomunicação. Estavam ouvindo as mensagens oriundas de Marte e de Vênus.
Qual é a novidade? — perguntou Cokaze, virando-se para o lado e dando com o rosto transtornado do tenente desertor.
Atrás de Cokaze ainda havia um lugar livre. Thomas o ocupou.
O que há de novo, terrano? — perguntou novamente o patriarca, dando vazão à pressão nervosa que o oprimia.
Num gesto de orgulho, Thomas ergueu a cabeça e sorriu forçado, disfarçando sua inquietação:
Saltador, ganhamos a guerra! O regente robotizado de Árcon foi substituído pelo Almirante Atlan. Para conservar as aparências, Atlan ainda se oculta sob o manto do antigo cérebro positrônico.
Ficou louco, terrano? — disse-lhe com rispidez o velho patriarca.
Pegou Cardif pelos ombros e o sacudiu.
Então vá perguntar aos dois terranos aprisionados. Quando Atlan desligou o computador gigante em Árcon III, o cabo estava presente.
Cokaze se levantou de um pulo e correu para o microfone direto da central de radiotelegrafia da Cok-II:
Para toda a frota: cancelar a partida para o espaço. Permanecer em posição de espera, aguardando novas ordens. Mas atenção, transmitam esta ordem em código.
Meia hora mais tarde, o cabo Val Douglas despejou, sob a coação do soro da verdade dos aras, tudo que ele e mais cento e cinqüenta terranos, em companhia de Atlan, haviam presenciado em Árcon III. Mais de trinta saltadores ouviram fascinados e quase de respiração presa o relato gaguejado e muitas vezes confuso do cabo Val Douglas. Cokaze insistia nas mesmas perguntas, de maneira que lhes ficou cada vez mais claro, pela repetição, o momento decisivo em que Atlan desligou o gigantesco conjunto positrônico de Árcon III.
Tão fascinante era tudo, que os saltadores não sentiram o tempo passar. O espetáculo terminou quando Douglas, sob a atuação das terríveis drogas dos aras, dando um grito lancinante, desfaleceu. O patriarca ainda demonstrou algum sentimento de humanidade, ordenando ao médico de bordo que cuidasse do jovem terrano, administrando-lhe todos os antídotos necessários.
Foi aí que o patriarca reparou o avançado da hora. Com um palavrão, partiu apressado para a sala de comando. Lá estava Thomas Cardif diante do hipercomunicador.
Algo de novo? — foi a pergunta de Cokaze.
Nada de importante, saltador. Suas naves esperam pela ordem de ataque. A Cok-II está a uma altura de dez quilômetros de...
Está bem! — disse o velho, batendo-lhe no ombro. — Jovem inexperiente!
Cardif já estava com uma pergunta na ponta da língua, mas Cokaze não lhe deu tempo.
Vocês só enxergam o hoje, o imediato e se esquecem do amanhã. O regente robotizado está extinto e então chega este Atlan e declara-se imperador. Oh! Deuses do espaço! Esta é a hora sideral dos comerciantes das Galáxias.
O velho patriarca juntou as palmas das mãos, como se faz para rezar, ergueu-as na direção do céu, dando a impressão de estar mesmo numa prece de ação de graças.
Thomas Cardif não entendia mais nada. E Cokaze notou que o terrano não o estava compreendendo.
Jovem inexperiente! — repetiu com certo ar de triunfo — esta é a nossa hora, a hora dos mercadores galácticos. Este ridículo Império Solar de Perry Rhodan não me interessa mais. Ele que viva em paz por aqui. Retiro-me do Império Solar sem exigir nada, para... para fazer o que, terrano? Você acha que, por causa de um miserável contrato comercial, iria perder a oportunidade de, junto com meus irmãos e os aras, conquistar o imenso, riquíssimo Império de Árcon? Quem é este Atlan?
Senhor — ouviu-se do alto-falante do intercomunicador de bordo — estamos registrando inúmeros estremecimentos estruturais. Está se aproximando uma frota gigantesca do hiperespaço. Já conseguimos contar duas mil naves.
Cale a boca! — gritou o patriarca, encobrindo a voz forte e nervosa de seu telegrafista. — Comunique a Rhodan que eu aceito seu ultimato e estou dando ordens à minha frota para que entre em transição na direção de 45 GH 32. Preste atenção para não cometer nenhum erro.
Para Cardif, ordenou apenas:
Venha comigo.
Dirigiram-se à sala de comando. A Cok-II deixara o esconderijo nas profundezas do oceano de Vênus e estava agora a dez quilômetros do solo de Vênus.
Os saltadores, que estavam em volta do rastreador estrutural, foram se retirando assim que viram seu patriarca entrar. Por sobre os ombros de Cokaze, Thomas Cardif olhava para a tela, cheia de diagramas. O dispositivo de contagem, ao lado, que registrava os estremecimentos estruturais, pulara no momento de 2.185 para 2.318. Isto queria dizer que, a partir dos últimos cinco minutos, isto é, a contar do primeiro estremecimento, 2.318 supernaves já haviam saltado do hiperespaço para o sistema solar.
Isto é a ajuda de Atlan para Perry Rhodan — disse Cardif nas costas de Cokaze, esbravejando de cólera.
O velho patriarca enxugou o suor do rosto.
Deuses do espaço! — disse com voz rouca. — Eu vos agradeço. Agradeço também a você Cardif.
Batia afavelmente com a mão direita nos ombros de Thomas.
Não fosse você, terrano, que teve a idéia de interrogar os dois prisioneiros do destróier abatido, esta novidade chegaria tarde demais para nós. Teríamos atacado a Terra e seríamos destroçados por esta frota recém-chegada, até o último aparelho. Obrigado, terrano. Você merecerá a eterna gratidão da estirpe de Cokaze.
Acoplado ao rastreador, o totalizador estrutural estava, no momento, parado exatamente no número 2.500. Duas mil e quinhentas naves apareceram em poucos minutos, para se unirem à Frota Solar e resguardarem o pequeno sistema.
Soltem os dois prisioneiros e os coloquem numa nave auxiliar — foi a última ordem de Cokaze, antes que a Cok-II iniciasse a aceleração, para se afastar do sistema solar com toda a frota dos saltadores.
Cerca de quatro mil naves tinham o mesmo destino: iam para 45 GH 32, um local qualquer no espaço, que não devia ser identificado facilmente.
Uma hora e quarenta e oito minutos antes de esgotar o prazo dado pelo ultimato, o espaço, nas proximidades do sistema solar, foi fortemente abalado por intensos estremecimentos, indicando que as naves de Cokaze estavam desaparecendo.
Os cem mil homens de esmerada formação, que deixaram a Terra secretamente na Titan e em cinco outras supernaves de carga, estavam voltando com mil novas belonaves arcônidas, novinhas em folha. Traziam também uma frota de mil e quinhentas naves robotizadas.
Foi o máximo em auxílio militar que Atlan podia fornecer à Terra. Mas foi também um verdadeiro milagre da técnica o fato de cem mil especialistas em espaçonáutica chegaram a Árcon e não terem outra coisa a fazer a não ser entrar nas supernaves, já prontas, e voltar para a Terra. Os cem mil especialistas se sentiam à vontade nestas moderníssimas criações arcônidas, e, abstraindo-se de pequenos incidentes normais em grandes transições, tudo correu com perfeição.
O repentino aparecimento deste auxílio de Árcon poderia causar a impressão de que Cokaze tivesse mudado de opinião em vista desta força imensa que vinha em socorro da Terra. Mas Rhodan e Bell sabiam perfeitamente que o velho saltador dera ordem de sustar a decolagem para o ataque, muito antes de chegarem as duas mil naves de Árcon.
Perry — disse Bell — meu dedo polegar da mão direita está comichando. Creio que temos de passar ainda por surpresas desagradáveis. Antes já tivesse acabado este carregado ano 2.044.
Prefiro que você me diga por que razão Cokaze sustou a decolagem de suas naves, já prontas para o ataque da Terra. É melhor do que esta bobagem do seu dedo polegar.
Estou quebrando a cabeça há muito tempo com isto. É exatamente este o motivo por que meu polegar está...
Bell! Por favor, somos amigos, não somos?
Claro que somos amigos — disse Bell distraído. — Mas tenho que lhe explicar que...
Então conservemos nossa amizade, Bell, ponha uma pimenta bem forte na boca, quando pensar em falar do seu dedo polegar. Você vai me prometer isto, não é?
Posso prometer sim. Mas neste exato momento meu polegar esta comichando demais.
Rhodan deu um suspiro e sacudiu a cabeça resignado.




* * *
* *
*




Para ajudar seu chefe e amigo, o rato-castor Gucky empreende um perigosíssimo salto até Vênus e, penetrando na nave capitania de Cokaze, desativa as centenas de bombas nucleares, destinadas a arrasar não só a Terra, como todo o sistema solar.
Enfraquecida pelos ataques inteligentes de Gucky e de seus companheiros, a frota dos saltadores abandona o sistema solar. Mas pouco antes de decolar, seu chefe, Cokaze, fica sabendo de algo que certamente trará amargas conseqüências para o novo chefe do Império Arcônida, Atlan, o grande amigo de Rhodan...
Em “Atlan em Perigo”, título do próximo volume da série, a posição do amigo número um do Império Solar corre sério risco...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html