Gucky
deixou à mostra o dente de roedor e esboçou uma espécie de
sorriso.
— Não
tem tanta importância assim — disse Gucky concordato. — Em caso
de emergência eu me contento com qualquer tipo de conserva.
Todos
riram. Cada um dos homens procurava descobrir o que podia oferecer ao
hóspede. E Gucky, que adorava todo tipo de brincadeira,
principalmente as alegres “escaramuças”
verbais, deu sua contribuição para que todos se divertissem.
Cessada a
brincadeira, atravessaram o recinto dos transmissores e chegaram ao
setor da administração e dos aposentos da tripulação, localizados
mais ou menos no centro de uma caverna da base secreta. Durante todo
este tempo, Gucky continuava ouvindo o leve ruído do sinalizador
telepático que Julian Tifflor trazia “embutido”
em seu corpo.
Gucky deu
a entender que pretendia ficar mais tempo em Hades, pelo menos até
que a missão de Tifflor tivesse dado bom resultado e pudesse voltar
seguro à Terra com a Infant.
Deram-lhe
um alojamento e lhe trouxeram boa comida. O Capitão Rous lhe fez
companhia por muito tempo, enquanto os outros homens voltaram para
seus postos. Gucky aproveitou o ensejo para expor ao capitão a
situação no Universo dos druufs e no espaço de Einstein.
O plano
era bem claro, e o Capitão Rous o compreendeu facilmente.
Compreendeu também que a base secreta de Hades, instalada num dos
planetas do sistema Siamed, passaria a ter então uma importância
capital nos acontecimentos, assim que a situação de Tifflor se
tornasse perigosa ou no caso de sua missão se tornar falha.
Enquanto o
capitão se preocupava com a seqüência dos acontecimentos e
procurava prever os golpes futuros, Gucky, com toda a calma e com
todas as boas maneiras de um cavalheiro, saboreava o conteúdo de
duas latas de conserva. Não dava mais atenção a Rous nem ao fino
sibilar dos sinais dos transmissores. Estava mesmo com fome e queria
apenas saciá-la. Talvez, quando Gucky acabasse de comer, Rous já
teria recebido as notícias pelos rádios, devendo estar a par de
tudo.
— Diga-me
uma coisa — disse Rous depois de uma longa pausa, completamente
contra as expectativas de Gucky — o que é...
Gucky não
ouviu mais nada. Rous continuou falando, mas Gucky não prestava
atenção. Alguma coisa estava se passando. Não sabia o que era, mas
como possuísse um grande senso de prudência, insistiu em
descobri-la.
Era como
se um relógio parasse de repente. O ouvido habituado ao permanente
tic-tac não “sentia”
mais seu ruído. Se, porém, o ruído cessasse, o ouvido haveria de
perceber uma grande alteração, embora, de início, a pessoa não
soubesse do que se tratava.
A
comparação com o relógio levou Gucky a pegar a pista certa. Como
que de um estalo, sabia de repente do que se tratava.
Os finos
sinais do sinalizador embutido em Tifflor, haviam perdido muito em
intensidade. Às vezes sumiam completamente, para voltar instantes
depois. Isto só poderia ter uma explicação:
Tifflor
estava em perigo.
*
* *
Antes de
Gucky deixar a Drusus, para iniciar sua estada de alguns dias em
Hades, Perry Rhodan falara muitas vezes com o regente robotizado de
Árcon. Sempre conversaram sobre o mesmo assunto: descobrir o
paradeiro da nave dos desertores. O regente perguntava admirado por
que ainda não tinham chegado à zona de superposição, se sua rota
era o planeta dos druufs. E Rhodan dizia que não poderia haver outra
explicação a não ser que, se dirigindo de encontro aos druufs,
tivessem passado despercebidos pela frota arcônida de bloqueio.
Recorrendo
à sua teoria das combinações, o computador-regente elaborou para
si esta pergunta e a resposta foi a seguinte: não era realmente
impossível a uma nave de porte médio para pequeno passar
imperceptível pela frota de bloqueio. A teoria das combinações
admitia ainda uma quota de probabilidade não desprezível de que a
nave terrana já tinha conseguido penetrar no Universo dos druufs,
nas últimas horas.
O regente
estava então diante de uma situação completamente nova. O que lhe
interessava até agora era capturar a nave dos desertores. Não pelo
fato de serem desertores. O que o regente tinha em mira eram
informações sobre a posição exata da Terra na Galáxia.
Fizera
tudo para impedir a passagem dos desertores. Tinha mobilizado todo
seu poderio espacial. Mais de trinta mil espaçonaves, no encalço de
uma só nave terrana. E agora estava quase certo de ter perdido esta
oportunidade, pois os desertores já se encontravam no meio dos
druufs.
O regente
começou então a pensar seriamente numa invasão ao Universo dos
druufs. Até então havia tentado esquecer esta idéia. O regente
robotizado era um computador monstro, uma maravilha da positrônica,
mas seus construtores se esqueceram ou julgaram desnecessário lançar
nele os conhecimentos científicos, relativos à teoria dos
diferentes planos de tempo.
Na época
em que o regente foi montado, a teoria dos planos temporais ainda
estava engatinhando e era considerada pura fantasia de matemáticos
malucos. Ninguém poderia imaginar que, um dia, surgiriam problemas
que só seriam resolvidos através desta teoria. Foi por este motivo
que ela não constava no cabedal, quase infinito, do grande cérebro
positrônico. A tudo isto, acrescia ainda o fato de que o regente não
tinha o menor senso de tempo. Era uma máquina, uma máquina imortal.
Podia contar segundos, mas isto não lhe representava nada. Não
podia fazer nada com o conceito tempo.
Foi por
este motivo que o problema dos druufs, desde o primeiro instante, lhe
foi difícil de compreender, para não dizer impossível. Foi
obrigado a pedir o auxílio de Perry Rhodan. Quando surgiu a tal zona
de descarga, reuniu sua imensa frota em torno dela, contentando-se
com o fato de os druufs não tentarem invadir o espaço de Einstein.
A questão
agora era medir os prós e os contras. De um lado, a incerteza sobre
as conseqüências que podiam surgir de uma invasão maciça do
Universo dos druufs. De outro, a possibilidade de aprisionamento da
nave dos desertores terranos e, com isso, a obtenção da posição
certa da Terra na Via Láctea.
Depois de
muitas horas de hesitação, o regente se decidiu pela segunda opção.
Já que estava provado que a simples presença da frota arcônida na
abertura da zona de superposição — a zona de descarga — impedia
os druufs de tentarem uma saída para o espaço de Einstein.
Estava,
pois resolvido que a imensa frota arcônida invadiria o espaço dos
druufs. Achou prudente não retirar toda a frota de bloqueio, mas
tão-somente a frota que estava sob o comando de Door-Trabzon.
Além
disso, estavam ali, junto à entrada da zona de superposição, os
dois maiores couraçados da Terra, Drusus e Kublai Khan. E o regente
esperava matar dois coelhos com uma só cajadada: saber da posição
exata da Terra e, ao mesmo tempo, destruir a espaçonave em que
estava Perry Rhodan.
Rhodan,
naturalmente, não poderia saber nada destes planos, embora
suspeitasse de que o regente invadiria o Universo dos druufs à
procura da Infant.
Somente
alguns momentos após o salto de Gucky para os transmissores, foi que
Rhodan soube que suas suspeitas tinham razão de ser: a frota
arcônida estava se movimentando. Vinte mil naves foram mobilizadas
para atravessar a zona de superposição e invadir o espaço dos
druufs. Vinte mil belonaves estavam a caminho de uma aventura de
desfecho duvidoso. E tudo isto para capturar uma velha nave terrana
com quatorze desertores.
Foi dado o
alarme na Drusus e na Kublai Khan!
Havia
começado a grande jogada. Dentro de poucos instantes se daria o
choque das naves arcônidas com a linha de defesa dos druufs.
A tática
de Perry Rhodan era um exemplo maravilhoso de como, por meio de
golpes de inteligência, até mesmo a máquina da lógica, o monstro
positrônico imbatível, tinha que se sujeitar à vontade de um
homem.
A única
dúvida era saber se Julian Tifflor e a Infant se achariam no meio da
confusão, quando começasse o ataque, ou se já estariam seguros em
Druufon.
*
* *
Julian
Tifflor teve que se desfazer da Infant. Fê-lo com muito pesar no
coração, e somente depois de ponderar todas as hipóteses. Os doze
homens restantes, sob a liderança do Tenente Lubkov, tinham sido
levados para bordo de uma nave druuf, enquanto que a Infant, poucos
minutos após, de acordo com os planos de Tifflor, fora destruída
por uma explosão.
Foram dois
os motivos principais que levaram Tifflor a esta resolução: ele
iria ficar a bordo de uma nave druuf, e mais do que nunca iria
precisar da tripulação terrana, caso quisesse ter alguma esperança
de sucesso.
Por outro
lado, não podia deixar a Infant nas mãos dos druufs. Ninguém
poderia prever o quanto os druufs iriam aprender da tecnologia
terrana sobre a construção de espaçonaves.
A Infant
foi pelos ares. O Tenente Lubkov, o último a deixar a velha nave,
ligou o automático das bombas. A nave se reduziu a uma nuvem
incandescente de gás, espalhando-se pelo espaço e perdendo
rapidamente a luminosidade. Meia hora após a explosão, não havia
mais o menor vestígio do velho couraçado.
Parece que
os druufs estavam de acordo. Provavelmente, estes achavam-se
impressionados com a declaração sincera do coronel de que ele,
Tifflor, aderira aos druufs, mais por ódio contra os arcônidas do
quê por simpatia pelos habitantes deste Universo tão diferente do
seu. Colocava-se como um homem que, apesar de agir contra a vontade
de seus superiores, tudo fazia para não causar nenhum dano à sua
pátria, que deixara como desertor.
Julian
Tifflor já tinha, naturalmente, um novo plano. Embora seu objetivo
principal parecia ter fracassado, não queria voltar à Terra de mãos
vazias. Havia duas coisas pelas quais valia a pena correr algum
risco: primeiro, a proteção anti-rastreamento, que facultava às
naves druufs se tornarem quase invisíveis; segundo: o misterioso
sistema de propulsão que capacitava os druufs a vôos mais rápidos
que a luz, sem transição, ou seja, sem os saltos para o
hiperespaço. Tifflor estava convencido de que a posse destes dois
segredos haveria de garantir a supremacia à frota terrana, apesar da
superioridade numérica dos arcônidas.
Confiaram-lhe
o posto de comando. Um grande número de robôs druufs estava à sua
disposição, preparados para executar qualquer ordem sua, também
prontos para manejarem os instrumentos, caso ele tivesse alguma
dificuldade, por desconhecer a tecnologia druuf. Depois que Tifflor
assumiu o comando, nenhum druuf mais apareceu na cabina do piloto.
Em poucos
segundos, Tifflor avaliou bem a situação. Os robôs ali estavam,
não somente para executarem as ordens de Tifflor, mas, e talvez
principalmente, para a alta missão de controlarem os terranos,
impedindo qualquer abuso dos poderes que lhes foram atribuídos.
Pois a
parcela da frota que havia sido colocada sob o comando de Tifflor
tinha ao todo quatorze mil unidades. Equivalia a três vezes mais do
que toda a frota terrana reunida. Julian Tifflor ainda estava
convencido de que não chegaria a nenhum confronto direto com os
arcônidas. Havia instruído sua tripulação sobre seus planos e
aguardava a oportunidade para pô-los em execução.
É claro
que, com a destruição da Infant, alguma coisa lhes estava faltando.
Não tinham mais meio de locomoção próprio, com que pudessem
escapulir rapidamente, em caso de emergência. Não sabiam manobrar
uma nave druuf, e os robôs haveriam de se abster de fazer isso tão
logo notassem o que estava em jogo.
No
entanto, Tifflor via uma remota possibilidade de entrar em contato
com a base clandestina de Hades e, no momento decisivo, receber apoio
de lá. Naturalmente, mais cedo ou mais tarde, os druufs descobririam
que seus hóspedes não aspiravam a outra coisa a não ser ao roubo
de dois importantes segredos da tecnologia druuf. Haveriam de
comprovar isto no momento em que, em qualquer ponto, à volta da nave
capitania druuf surgisse uma espaçonave de Hades para receber os
terranos e colocá-los a salvo. Não eram lá muito grandes as
chances de conseguirem tal ação. Mas Tifflor era de opinião que a
vantagem obtida, a partir daí, poderia ser grande, e valia arcar
tranqüilamente com o risco inerente.
Ainda não
sabia das medidas que Perry Rhodan havia tomado neste meio tempo,
para apressar o desenrolar dos acontecimentos. Não podia, pois,
supor que suas preocupações, em breve, não teriam mais razão de
ser, porque os próximos acontecimentos as dissolveriam.
Também
não lhe era possível adivinhar a desgraça que se abateria sobre
ele...
*
* *
E o
Universo presenciou a um grande espetáculo!
O
Firmamento se tornou incandescente, quando a frota arcônida, sob o
comando do Almirante Door-Trabzon, irrompeu pela brecha da zona de
superposição, a imensa zona de descarga. A garganta afunilada, que
até então era de um vermelho-escuro, resplandeceu como sob a
claridade de milhares de raios, quando a frota de vinte mil unidades
interrompeu, quase extinguindo, a corrente compensadora de energia. O
Universo parecia partido em duas metades. De uma, uma parte escura,
recebendo apenas a tênue cintilação das estrelas, e, de outra, de
um vermelho-amarelado, refulgindo com a energia dos íons.
O próprio
Perry Rhodan assistia, de respiração presa, àquele espetáculo sem
par. Já havia previsto que a invasão de uma quantidade tão
exagerada de espaçonaves haveria de alterar a estrutura da zona de
contato, provocando uma série de conseqüências de grande alcance.
Mas não podia prever que uma destas conseqüências seria tão
nítida e de tamanha visibilidade como era o clarão ofuscante de
toda a zona de superposição.
Dava a
impressão de que, num determinado local, o Universo rebentara e na
região do rompimento se podiam ver as chamas rubras do verdadeiro
inferno. Uma visão inesquecível.
Esse fogo
infernal durou mais de uma hora. Aos poucos, a excessiva luminosidade
foi se reduzindo, voltando ao normal depois de uns vinte minutos.
Tudo terminado, ali estava de novo a região de superposição como
uma nuvem vermelho-escura, no meio do espaço.
A frota de
Door-Trabzon já tinha partido e passado pela região de
superposição. Havia ficado para trás o resto da frota arcônida,
ao todo vinte mil unidades, e as duas espaçonaves terranas, a Drusus
e a Kublai Khan, ambas poderosas e majestosas, com energia para dar e
vender.
Mas em
caso de emergência, que podiam fazer sozinhas no meio das vinte mil?
Dez
minutos após o desaparecimento das naves de Door-Trabzon, Gucky, o
rato-castor, regressava para bordo da Drusus, trazendo notícias
alarmantes...
7
Julian
Tifflor estava procurando familiarizar-se com as instalações
técnicas da cabina de comando, quando um dos robôs equipados com
transdutores idiomáticos começou a falar:
— Estão
surgindo naves estrangeiras. Uma gigantesca frota de espaçonaves
cruzou a linha de superposição. Começa, portanto, o ataque
arcônida.
Julian
Tifflor, a princípio, se sentiu meio atordoado, inclinado até a
julgar que o alarme fosse uma brincadeira de mau gosto. Lembrou-se,
porém, logo depois, que nem mesmo o mais sofisticado robô
conseguiria fazer uma brincadeira e, quase ao mesmo tempo, viu na
parede, pouco abaixo da tela panorâmica, uma tela menor que se
acendeu, mostrando uma infinidade de pontos vermelhos que se moviam
no fundo azul.
Julian
Tifflor conhecia este aparelho. A tela estava acoplada com um
dispositivo de rastreamento e outro de registro. O rastreador
funcionava na maneira convencional, enquanto o dispositivo de
registro determinava se o objeto rastreado era conhecido ou
desconhecido.
Tratava-se
de uma espaçonave inimiga. De acordo com a determinação do
registrador, que estava sempre a par da rota das naves dos druufs, o
objeto localizado surgia na tela com um sinal verde ou vermelho.
Vermelho significava perigo e verde queria dizer amigo ou aliado.
Tifflor
não perdeu tempo em querer saber de que maneira os arcônidas
penetraram no Universo dos druufs. Estavam próximos e era bastante.
O que ele tinha de fazer agora era pensar no seu novo cargo de
comandante druuf, do contrário os arcônidas haveriam de esmagá-los
com suas vinte mil naves, sem que os druufs tivessem tempo de
desfechar um só tiro.
Deu uma
outra olhada para a tela do rastreador, procurando ter uma idéia do
número das naves arcônidas.
Oito dos
quatorze companheiros de Tifflor estavam presentes no posto de
comando. Os outros seis, ele os distribuíra pelas torres blindadas
da nave capitania, colocando-lhes à disposição robôs equipados
com transdutores idiomáticos, para que os terranos pudessem
transmitir suas ordens. Julgou que isto fazia parte de seu papel como
comandante. Mas, de uma hora para a outra, não havia mais papel, o
que havia era a dura realidade.
Tifflor
começou a agir. Depois de receber algumas instruções a respeito,
não teve mais dificuldade em ler a tela do rastreador. Notou então
que o núcleo da frota arcônida se encontrava no momento a quase
cinco horas-luz de distância e se movia a uma velocidade média de
trinta e cinco mil quilômetros por segundo. A velocidade
estranhamente baixa era para Tifflor uma prova de que os arcônidas
estavam hesitantes, com medo.
Isto daria
aos druufs uma boa chance.
— Todas
as naves prontas para a partida! — explicou Tifflor ao robô que
lhe estava mais próximo.
Uma pessoa
estranha teria ali a impressão de que o robô não mostrava a menor
reação ao comando recebido. Mas Tifflor sabia que o robô estava
transmitindo a instrução por via rádio, e os comandantes das
outras naves recebiam a mensagem.
Para os
conceitos de Tifflor, demorou muito até que o robô respondeu:
— Todas
as naves prontas para a largada.
Tifflor se
viu obrigado a expor seu plano de combate. Os robôs druufs possuíam
uma qualidade fantástica: a duplicidade mental. E isto lhes
possibilitava simultaneamente ouvir e transmitir. Tifflor sabia,
portanto, que, com a transmissão de suas explicações, não se
perdia tempo algum.
— Vamos
acelerar, dentro de poucos instantes, para velocidade superior à da
luz. Não adianta nada chegarmos até os arcônidas como alvos
visíveis em campo aberto. São superiores a nós em velocidade e no
poder de reação. Só começaremos as manobras de frenagem depois
que tivermos deixado para trás a vanguarda da frota arcônida. Desta
maneira, vamos aparecer de repente, bem no meio deles. No momento em
que aparecermos, abrimos fogo. Os arcônidas ficarão surpresos,
embora esta surpresa não dure muito, pois quase todas as naves deles
são robotizadas. Depois de rápidos ataques, ficaremos um pouco
abaixo da velocidade da luz, a fim de podermos desaparecer a qualquer
momento. É tudo. Cada um deve cuidar de si. E agora... vamos!
A fantasia
de Tifflor tentava imaginar como, nos quatorze mil aparelhos druufs,
neste momento, os comandantes agigantados, estariam ouvindo suas
palavras através dos receptores de telecomunicação.
Que
haveriam de pensar, recebendo ordens de um terrano?
Tifflor
não gostaria de ouvir e receber ordens de um arcônida. Mas as
coisas aqui eram diferentes.
As naves
dos druufs também estavam equipadas com amortecedores
antigravitacionais, como as da Terra. Não se sentia nada, mesmo com
a nave na mais alta velocidade. Nem mesmo a imagem da tela panorâmica
sofria qualquer influência. Os pontos de luminosidade fosca das
demais naves, moviam-se na mesma direção e com a mesma velocidade,
tal qual a nau capitania.
Já há
uns instantes atrás, o Tenente Lubkov tomara seu lugar numa mesa de
comando. Precisava fazer grande esforço para acionar a grande
alavanca e os demais controles. O principal, porém, era que ele
sabia a função de cada um daqueles comandos.
— Diga a
Fryberg que o barulho vai começar — ordenou-lhe Tifflor. —
Precisa explicar aos druufs que devem atirar o mais rápido possível
e sem parar. Diga-lhes que temos à nossa frente mais ou menos vinte
mil espaçonaves arcônidas e que nossa vida depende da velocidade de
nosso ataque.
— Perfeito,
senhor — respondeu ele.
Depois se
levantou e, passando para o outro lado da mesa, pegou no cabo da
enorme alavanca, que ultrapassava o quadro de comandos. Pegou-o no
ponto mais alto possível, levantando-se para isso nas pontas dos
pés, de maneira que todo o peso de seu corpo ficou dependurado na
alavanca. Isto fez com que esta cedesse um pouco. Foi abaixando
devagar. Lubkov veio-lhe em auxílio, conseguindo os dois abaixá-la
completamente.
Pela
viseira do capacete, Tifflor viu que o suor escorria pela face do
tenente, que continuava sorrindo.
Lubkov
repetiu palavra por palavra o que Tifflor dissera. Fryberg fez um
gesto afirmativo e acrescentou:
— Se
eles souberem atirar tão rapidamente como nós, os arcônidas serão
facilmente aniquilados. Tenho receio de que o negócio não vai
depender só de nós.
Julian
Tifflor ouviu sua resposta e lhe deu razão.
Quando
aparecessem no meio dos arcônidas, os druufs começariam a atirar.
Mas como? Levariam mais tempo para localizar o alvo, do que os robôs
arcônidas para se refazerem da surpresa e organizar a resistência.
Como é
que os aparelhos de Árcon penetraram assim tão depressa e em tão
grande quantidade no espaço dos druufs?
Julian
Tifflor estava correndo este risco todo, para se apoderar de dois
segredos e poder transmiti-los à tecnologia terrana. Mas, enfrentar
uma gigantesca frota dos arcônidas a bordo de uma nave druuf, com
uma tripulação cuja capacidade de reação era exageradamente
lenta, era bem outra coisa. Seu nome verdadeiro seria suicídio.
Mesmo sem
se deixar abater, Tifflor estava pensando neste assunto, enquanto a
nave mantinha sua aceleração e enquanto na tela panorâmica já se
podiam ver as conseqüências do duplo efeito.
O
mecanismo de propulsão dos druufs era muito potente. Bastariam
poucos minutos para se atingir a velocidade do ponto crítico,
ultrapassar o contínuo quadridimensional e começar a mover-se num
espaço superior, sem contudo perder de vista o Universo de quatro
dimensões.
O tempo
era curto demais e os acontecimentos se precipitavam de tal forma,
que Tifflor não podia tomar uma resolução clara sobre se
continuava na rota inicial ou se devia tentar chegar até à base de
Hades.
A única
coisa, bem clara no seu subconsciente, era o seguinte: no plano
primitivo estava previsto que os druufs e os arcônidas deviam se
dizimar em ataques recíprocos. O plano como tal falhara, mas seu
objetivo verdadeiro estava se concretizando por si mesmo. Os
arcônidas iriam atacar e, dentro de quinze minutos, teria lugar uma
batalha espacial, como nunca houve na história. Vinte mil naves
arcônidas investiriam contra quase o dobro de naves druufs. Os danos
seriam pesados, dos dois lados. Frotas inteiras seriam destruídas —
tal e qual previa o plano primitivo.
E os
quinze terranos, envolvidos nesta catástrofe, não teriam função
nenhuma? Não, eles tinham uma missão muito importante. Os druufs,
de antemão convencidos de sua flagrante inferioridade, iriam logo no
começo dar a batalha como perdida e haveriam de fugir. Os prejuízos
dos arcônidas seriam relativamente pequenos. Somente quando a frota
comandada por Julian Tifflor provou que era possível enfrentar com
sucesso os arcônidas, foi que o resto da força espacial druuf se
mostrou inclinada a tomar parte ativa na luta e causar grandes danos
ao adversário.
Tifflor
chegou à conclusão de que, absolutamente, não era possível voltar
atrás.
“Aqui
está a oportunidade que nós esperávamos”,
pensou o coronel, “e,
mesmo que nos custe a vida, ainda é um preço muito pequeno para a
sobrevivência da nossa querida Terra.”
Resolveu
não pensar mais no assunto e dedicou toda sua atenção em observar
o que acontecia com a nave enquanto a aceleração atingia o ponto
crítico.
*
* *
O
acontecimento em si não foi nada de sensacional. A alteração do
colorido na tela panorâmica foi a única coisa que aconteceu.
Desapareceu o vermelho-escuro, dando lugar a um preto nebuloso,
contra o qual cintilavam com maior brilho as estrelas.
A nave
druuf já havia deixado o Universo quadridimensional e rumava, com
uma velocidade superior à da luz, para o ponto em que pretendia
encontrar-se com a frota arcônida. A visão das naves inimigas —
os pontos vermelhos na tela do rastreador — ainda era a mesma. O
aparelho de rastreamento funcionava independente do meio em que a
nave se achasse.
Julian
Tifflor estava calmo. Não imaginara que as coisas pudessem correr
tão bem, como até então. A princípio, julgava que teria de ser
comandante de uma nave, cujo curso lhe fosse imposto e cuja direção
estivesse nas mãos frias de estranhos robôs. Só o fato de ele
poder ver para onde ia sua nave, já lhe parecia uma grande vantagem.
Na tela do
rastreador, a avalancha dos pontos vermelhos se aproximava com
incrível velocidade. Tifflor procurava perceber qual seria a
primeira manobra dos arcônidas, quando as espaçonaves inimigas
surgissem no meio deles. Mas seus pensamentos estavam confusos. Não
conseguiu se concentrar.
Olhou para
o Tenente Lubkov, que lhe sorriu tranqüilamente. Neste momento,
ouviu-se o intercomunicador. Era Fryberg quem estava falando:
— Não
sei — disse para Lubkov — se isto ainda tem importância. Mas o
cabo Mainland descobriu nas proximidades da torre blindada um hangar
de naves auxiliares. O hangar tem...
— Não —
interrompeu-o Lubkov. — A esta altura isto não tem mais
importância alguma.
— Continue
falando, sargento — ordenou-lhe Tifflor antes que Fryberg
desligasse. — O assunto me interessa muito.
Fryberg
pigarreou e continuou:
— Há um
grande aparelho aqui no hangar, Sir. O cabo Mainland informou-se com
um dos robôs e ficou sabendo que este aparelho está sempre
preparado para decolar. Há um druuf sentado no posto do piloto,
vigiando o aparelho. Ele faz o papel de piloto quando esta nave
auxiliar é utilizada. E... parece que este aparelho alcança a
velocidade da luz, senhor.
Tifflor
olhou de novo para a tela do rastreador. Conforme seus cálculos,
faltariam poucos segundos para que as naves druufs começassem a
frenagem e iniciassem o fogo cerrado.
— Avise
a Mainland — ordenou ele — que não se preocupe mais com o
aparelho auxiliar. Informe a todos, com muita discrição, que se a
situação ficar impossível aqui, nós fugiremos com este aparelho.
Lubkov ou eu daremos a ordem para isto. Ninguém deve agir por conta
própria, entendeu?
— Entendido,
senhor — respondeu Fryberg, desligando logo após.
Julian
Tifflor virou-se para trás. Fez todo o possível para manter a
conversa em tom muito baixo. Os robôs estavam tão preocupados com
seus afazeres — iniciar a frenagem e aparecer de novo no espaço
quadridimensional no momento certo — que não podiam prestar
atenção em outras coisas. Mas ele não estava muito seguro disto.
Esperou ainda uns instantes e só depois que não havia nenhum robô
por ali, dirigiu-se a Ras Tschubai, o teleportador.
— Tschubai,
chegou sua hora — disse ele baixinho e apressado. — Leve Noir com
você. Ele tem que tentar sugestionar o piloto.
André
Noir, o sugestor ou o hipno, como era chamado, estava encostado
comodamente contra a parede, ao lado da grande comporta. Ao ouvir seu
nome, se aproximou.
— Não
posso garantir que isto vai dar certo, Sir — disse pensativo. — É
um cérebro completamente diferente do nosso.
— Tente,
Noir — insistiu Tifflor. — Agarre-se bem firme em Tschubai.
Noir
obedeceu. Parou na frente de Tschubai, enlaçou os braços em seu
pescoço e deixou que Tschubai o agarrasse pela cintura. O africano
fechou os olhos e quase no mesmo instante, os dois, Ras Tschubai e
André Noir, dissolveram-se.
Julian
Tifflor esperava que os dois chegassem sem dificuldade a seu
objetivo. Dedicava agora toda atenção, novamente, aos robôs. Um
dos homens-máquina virou-se e disse:
— Estamos
no momento exato. A luta pode ser iniciada.
No mesmo
instante, o firmamento vermelho-escuro do Universo druuf iluminou-se
nas telas da sala de comando. Entre as estrelas cintilantes, pairavam
os pontos luminosos da frota arcônida. Eram como uma nuvem de
gafanhotos, alucinantemente numerosos.
— Fogo
com todas as baterias! — exclamou Tifflor. — E vamos para frente.
Um dos
robôs transmitiu suas palavras na língua dos druufs. Tifflor não
tirava os olhos das telas, aguardando com grande excitação os
primeiros relâmpagos. E eles vieram.
A pouca
distância das naves druufs surgiu um novo sol de uma claridade
ofuscante. Era uma bola incandescente que se avolumava, crescendo em
poucos segundos até o tamanho de uma lua cheia e depois se
desfazendo numa nuvem de gás. Uma outra bola de fogo surgiu ao lado.
Quando a primeira estava se apagando, a segunda atingiu o maior grau
de incandescência.
De um
momento para o outro, o Universo vermelho-escuro estava congestionado
de bolas incandescentes. E num avanço curioso, a frota dos druufs ia
ceifando, às centenas, as filas imensas das naves arcônidas. Sem
serem vistos, os raios energéticos das baterias atingiam os
adversários, transformando-os em pequenos sóis. Morte e destruição
reinavam nas hostes arcônidas. Em poucos minutos, haviam perdido
mais de oito mil naves.
Mas, de
qualquer maneira, já se haviam refeito da surpresa inicial e estavam
se adaptando à nova situação. Sabiam agora onde estava o inimigo e
a positrônica central indicava que somente um contra-ataque imediato
poderia salvar a gigantesca frota de um colapso total.
E veio o
contra-ataque!
As bolas
incandescentes iluminaram de novo o espaço. Mas desta vez a
destruição e a morte se espalhavam mais pelo lado dos druufs.
Julian
Tifflor ordenou retirada imediata para o espaço superior. As naves
druufs aceleraram novamente e tomaram uma outra rota, que, num ângulo
agudo com a órbita de até então, conduzia para fora da zona
ocupada pelos arcônidas. Mais ou menos doze minutos depois de
surgirem repentinamente entre os arcônidas, desapareceram de novo.
Nestes doze minutos perderam cerca de dois mil aparelhos.
Tifflor
parou para respirar. O primeiro round lhes fora plenamente favorável.
Sabia que o resto da frota teria agora coragem para repetir outro
golpe semelhante. Já conheciam a receita: surgir de repente, atacar
rapidamente e fugir.
Mas de
qualquer maneira, o resultado final do combate ainda era um ponto de
interrogação. É claro que, no segundo ataque, os arcônidas não
iam levar mais três minutos para se adaptar à situação. E os
druufs sabiam muito bem que eles eram muito mais rápidos e muito
mais concentrados no seu ataque.
Julian
Tifflor deu algum tempo para que as naves que se haviam desgarrado
durante a peleja, se reunissem novamente. Nas telas, tendo como fundo
o preto nebuloso do hiperespaço, ainda se viam os últimos vestígios
das naves destruídas, em forma de pequenas nuvens alvacentas.
Julian
Tifflor estava mesmo resolvido a um segundo ataque. Pela movimentação
dos pontos vermelhos na tela do rastreador, era evidente que os
arcônidas não tinham desistido de sua intenção, isto é, penetrar
ainda mais no Universo dos druufs. A frota arcônida vinha em linha
reta da zona de descarga, na direção do centro do sistema Siamed. A
velocidade havia também aumentado. Deviam estar a oitenta mil
quilômetros por segundo.
Por parte
dos druufs não havia nenhuma objeção contra um novo ataque. Julian
Tifflor manteve a frota que estava sob seu comando em posição de
alerta, até que na tela panorâmica surgissem novos pontos
brilhantes, indicando que também o restante das naves já estava em
condições de partir.
Só então
permitiu a partida de suas naves. Duro e sem piedade, como na
primeira vez...
Quando sua
frota, depois da manobra rápida de frenagem, emergiu do hiperespaço
e entrou de rijo na luta, o Universo vermelho-escuro incandescia no
brilho ofuscante de milhares de sóis. O número de pontos verdes na
tela do rastreador havia diminuído. Os arcônidas não se deixaram
mais surpreender, como na primeira vez. Mais de três quartos das
bolas incandescentes provinham das naves druufs. A lentidão de suas
tripulações era-lhes uma verdadeira desgraça.
Mas o
ataque mais rápido da nau capitania de Tifflor pelos flancos do
inimigo deu novo alento aos druufs. A frota arcônida, atacada
simultaneamente e maciçamente dos dois lados, abriu-se, formando
duas alas. Assim, os arcônidas não conseguiam mais concentrar o
fogo de dez ou mais naves sobre um único alvo, destruindo assim seu
envoltório de proteção logo na primeira saraivada de disparos. Os
druufs se recuperaram um pouco do desânimo sobre suas primeiras
perdas.
A nau
capitania de Julian Tifflor, juntamente com cinqüenta naves dos
druufs, abriu caminho por entre um grupo de aparelhos arcônidas,
desgarrados dos demais, grupo este de mais ou menos quarenta
unidades. Tifflor sabia que estava enfrentando um grande risco. Se os
arcônidas tivessem a oportunidade de concentrar o fogo de dez
aparelhos numa única nave druuf, era uma vez uma espaçonave...
O que
estava dando mais força a Tifflor nestes momentos era a coordenação
verdadeiramente surpreendente das unidades dos druufs entre si,
durante as refregas. Dava a impressão de que aquela infinidade de
naves de origens diferentes pertencessem a uma só frota e estivessem
muito treinadas. Os enormes danos que as forças de Árcon estavam
sofrendo deviam ser atribuídos mais a esta coordenação dos druufs
do que à reação inteligente e rápida de Tifflor.
Tifflor
deu a ordem de atacar, ainda quando as forças arcônidas estavam a
uma distância de quarenta mil quilômetros. As naves dos druufs
tinham ajustado sua velocidade pela dos arcônidas. Era como se os
aparelhos estivessem parados no espaço.
Mais uma
vez, luziam as bolas de fogo. Seu clarão ofuscante se estendia até
ao centro da grande aglomeração das forças arcônidas, que
pareciam completamente desorientadas. Não se notava o menor sinal de
reação por parte delas.
Pelo menos
assim pensava Tifflor, até que, de repente, faltou-lhe o chão sob
os pés e foi atirado para cima. Bateu com a cabeça no teto, com
bastante força. Um pouco mais lentamente do que a catástrofe que
sobre ele se abatia, seu amortecedor antigravitacional reagiu à nova
situação, colocando-o de novo de pé no chão da nave. A cabeça
lhe doía barbaramente e seu estado geral era péssimo. Ouvia muita
gente gritando, inclusive a voz de Lubkov, mas não entendia nada do
que diziam.
Foi aí
que se lembrou da nave auxiliar, já de prontidão lá no hangar. Deu
uma olhada para a tela e viu o brilho amarelado do envoltório de
proteção que estava sendo destruído. A nave capitania fora
atingida em seu flanco. Não estava totalmente destruída, mas podia
se considerar perdida. Ouviu-se um forte estalo, como que um impacto
de metal com metal. Julian Tifflor sentiu um novo abalo. Apoiou-se no
último instante numa alavanca.
De repente
havia alguém a seu lado. Através dos olhos embaciados por dores
atrozes, reconheceu vagamente a figura de Lubkov. Viu que os lábios
de Lubkov se moviam, mas levou muito tempo para compreender que o que
estava ouvindo eram as palavras dele:
— Temos
de fugir, a nave foi destroçada.
Fez um
gesto de confirmação, esperando que Lubkov o entendesse. Lubkov o
deixou ali e saiu correndo. Parece que corria ao longo da parede.
Tifflor tentou reunir toda sua força. Sacudiu a cabeça para
afugentar a dor e se dirigiu para a porta. No recinto, só havia
robôs.
Alguma
coisa devia ter acontecido com o soalho. Tifflor tinha a impressão
de estar pisando numa rampa de cascalho. Quem sabe seu aparelho
antigravitacional estava com defeito, após o choque? Subiu com
dificuldade até a porta, sem olhar para trás. Tinha só uma
preocupação, que lhe era martelada pelo subconsciente: “Você
tem que chegar até a nave auxiliar”.
Não
percebeu que um dos robôs se levantou. O grande impacto o obrigara a
cair e certamente algumas de suas funções ficaram prejudicadas. Mas
ainda sabia qual era a sua obrigação, quando o estrangeiro tentasse
fugir. Postou-se de tal maneira que uma de suas armas apontava
diretamente para a porta, e quando Julian Tifflor ia ultrapassá-la,
ele atirou.
Julian
Tifflor sentiu que uma dor lancinante se espalhava por todo o corpo.
Gritou e segurou no batente da porta. Mas os braços foram perdendo
as forças, parece que não lhe pertenciam mais. As mãos escaparam
no seu ponto de apoio e Tifflor rolou no chão inclinado, até
encostar na parede. Quando ali chegou, já estava inconsciente.
8
Perry não
tinha dúvida do que devia fazer. Tifflor corria perigo, Rhodan tinha
de socorrê-lo. As duas naves terranas, a Drusus e a Kublai Khan,
deviam penetrar no Universo dos druufs para procurar por Tifflor e
seus auxiliares. Deu ordens para isto. Não sabia, porém, que uma
grande parte da frota arcônida estava de olho e registrava com
cuidado cada passo que ele dava. Quando as duas naves alteraram a
rota e se dirigiram para a zona de superposição, os arcônidas logo
perceberam.
O regente
robotizado foi colocado a par de tudo e julgou que o momento era
oportuno. Quando a Drusus e a Kublai Khan estavam a um décimo de
ano-luz da região de superposição, surgiu na frente delas uma
frota de belonaves pesadas e os arcônidas abriram fogo sem nenhum
aviso.
Rhodan
sabia que estava em inferioridade numérica. Ordenou uma transição
imediata, não tendo nem tempo para se preocupar com a direção a
ser tomada. O essencial era escapar da armadilha dos arcônidas.
Os
envoltórios de proteção da Drusus já estavam incandescentes sob o
fogo cerrado da primeira saraivada, quando a gigantesca nave deu o
salto para a quinta dimensão, desaparecendo no hiperespaço.
Não foi
um mero acaso o fato de a Drusus e a Kublai Khan terem realizado o
mesmo salto, com transição igual. Ao voltarem para o espaço de
Einstein, estavam novamente próximas uma da outra. Medições exatas
feitas na hora, constatavam que, tomando-se como ponto de referência
sua rota anterior, a zona de superposição estava quinze anos-luz
atrás delas.
Isto
queria dizer, primeiramente, que estavam a salvo. Mas que adiantava
isto, se Tifflor e seus companheiros estavam em perigo, precisando de
seu auxílio? As duas naves tinham que voltar.
Rhodan não
perdeu tempo com considerações inúteis. Era supérfluo falar de
sua responsabilidade com Julian Tifflor. Jamais poderia ignorá-la. E
de nada valia o argumento de que iria arriscar duas das maiores
belonaves da Terra, na tentativa de salvar Tifflor.
É verdade
que não havia nenhum plano de combate para resolver o problema.
Havia um único caminho: avançar e procurar abrir uma brecha na
“nuvem”
de naves arcônidas.
Perry
Rhodan instruiu a Kublai Khan de como coordenar seus movimentos com
os da Drusus. As duas naves terranas juntas tinham uma fantástica
potência de fogo. Não precisavam ficar preocupadas com o número de
naves arcônidas que tinham de enfrentar, desde que esse não fosse
superior a quinze unidades.
A desgraça
era que os arcônidas também sabiam disso e mandavam sempre um
número bem grande de naves no encalço dos terranos.
Perry
Rhodan tomou sobre seus ombros toda a responsabilidade e deu ordens
para o vôo de volta. As duas naves partiram e, dentro de poucos
minutos, já estavam em transição.
*
* *
A grande
nave druuf sacolejava. Diante do painel dos instrumentos, estava o
piloto druuf, olhando petrificado para frente, sem desviar a atenção
da tela escura, como se a confusão ali dentro não tivesse nada com
ele. A seu lado, estava sentado André Noir, o hipno. Seu rosto
estava assustadoramente pálido. Os olhos fechados. O suor escorria
pela sua testa.
O Tenente
Lubkov, apesar dos estremeções da nave capitania, tentava ficar
sempre ao lado do mutante. Sua preocupação era se o hipnotizador
André Noir iria suportar toda aquela carga nervosa. Se ele falhasse,
seria uma desgraça para todos. Pois ninguém, fora o piloto druuf,
estaria em condições de manejar o aparelho e de conseguir tirá-los
dali. Podiam matar o piloto, caso André Noir fracassasse, mas isto
não resolveria nada.
John
Marshall foi o último a entrar. O telepata subiu rápido a escada
que dava para o posto de comando e a primeira coisa que os homens
ouviram de seus lábios foi:
— Coisa
muito perigosa! Tifflor sofreu um ataque.
Lubkov não
perdeu tempo. Sabia que o telepata estava em condições de, mesmo a
grande distância, saber se alguém estava acordado ou dormindo, se
estava doente ou com saúde. Os pensamentos captados indicavam tudo.
— Onde
está ele? — gritou Lubkov.
— É
difícil dizer — respondeu Marshall. — Estou recebendo apenas
sinais muito fracos, quase imperceptíveis. Aparentemente, está
inconsciente. Nas proximidades do posto de comando, acho eu.
Um novo
abalo percorreu toda a grande nave. Lubkov foi atirado para o alto,
caindo depois com muita força.
— Tschubai!
— disse ele, sem dar importância a sua queda. — A nave está se
rebentando. Você não quer procurar Tifflor? Temos de levá-lo
conosco.
Ras
Tschubai nem perdeu tempo em responder. Apenas se concentrou,
mentalizando a imagem da cabina de comando, e desapareceu.
*
* *
Não
conseguiu encontrar Tifflor. O posto de comando estava com o chão e
as paredes entortados. Os robôs achavam-se ocupados em consertar um
aparelho rebentado. A tela panorâmica havia caído da parede. A
iluminação estava piscando. Qualquer um podia ver que a nave
capitania estava sendo destruída.
Mas, pelo
menos os tiros tinham cessado. Ras Tschubai gostaria de saber o que
estava acontecendo lá fora. Será que os arcônidas voltariam a um
novo ataque para desfechar o tiro da misericórdia na pobre nave
druuf?
Mas não
havia meios de se saber isso. Os instrumentos não funcionavam mais e
de Julian Tifflor ninguém tinha mais notícia.
Os robôs
não deram maior atenção a Ras Tschubai. Estavam muito ocupados.
Assim sendo, Tschubai não tinha nenhum receio deles. O africano
subiu despreocupado para a cabina de comando, olhou em volta com
calma e descobriu o corpo de Tifflor, deitado entre a parede e o chão
rebentado. Estava sem sentidos.
Num só
escorregão, Tschubai chegou lá embaixo e auscultou Tifflor. Tinha
impressão que seu peito subia e descia lentamente; estava, portanto,
vivo. Alguma coisa o devia ter atingido, mas o esquisito era que não
se achava o menor sinal de ferimento.
A nave
druuf tremia como se tivesse um ataque de malária. Parecia, nestes
últimos instantes, ter se transformado num ser vivo que lutava
contra a morte.
Ras
Tschubai pegou Tifflor e o carregou nos ombros. Sabia que não podia
perder um segundo. Olhou mais uma vez em volta. Lá na frente vinha
um robô, caminhando com cautela. Ras não sabia por que, mas de
repente ficou com medo de ser visto pelo robô. Fechou os olhos,
segurou firmemente o corpo inerte de Tifflor e se concentrou na
diminuta cabina de comando da nave auxiliar. Quando o quadro se
apresentou bem nítido em sua mente, a parte especial de seu cérebro
lhe forneceu aquela energia extraordinária e Ras desapareceu,
deixando o robô ali parado, sem saber o que fazer.
O tiro,
com que o robô pretendia aniquilar Ras Tschubai e o terrano
inconsciente, abriu uma fenda na parede da sala de comando da nave
druuf de mais de um metro de diâmetro.
Quando Ras
Tschubai chegou à nave auxiliar, André Noir jazia no chão. Sua
resistência física não deu para agüentar mais. Mas o druuf
continuava petrificado, olhando para frente, sem tomar conhecimento
do que se passava em torno dele. Queria dizer então que os influxos
hipnóticos de Noir ainda continuavam ativos. Mas até quando?
Para o
Tenente Lubkov, que havia assumido o comando, a volta de Ras Tschubai
com Tifflor era o sinal para a partida. Inclinou-se para André Noir
e lhe gritou no ouvido:
— Partida,
imediatamente!
Noir
piscou os olhos por um segundo. Era o único sinal de que ele havia
compreendido.
Momentos
depois, o druuf começou a se mexer. Com as mãos fortes, puxou a
alavanca tão grande que parecia uma barra de ginástica. Seus dedos
exageradamente longos apertaram botões. O chão começou a vibrar, a
tela se iluminou, mostrando o interior do hangar.
A comporta
se abriu para a pequena nave sair. O Tenente Lubkov ainda não tinha
visto o funcionamento das comportas druufs. Ao entrar na nau
capitania, a comporta já estava aberta. Ficou encantado com a
velocidade com que as duas partes da comporta interna recuaram para
os lados, deixando livre o caminho para o espaço. O druuf na
poltrona do piloto atirou a pequena nave para o espaço. Lubkov olhou
para a nave semidestruída e viu a parte superior da comporta de
repente tombar para o lado. A imagem da tela panorâmica da nave
auxiliar lhe provou que não estava tendo alucinações. A queda da
parte superior da comporta não fora ilusão ou sugestão.
A grande
nave capitania estava desintegrando-se, exatamente quando o aparelho
auxiliar saltou para o espaço. A fuga deu-se literalmente no último
instante. Um segundo mais tarde, a nave auxiliar seria também
destruída.
O capacete
do Tenente Lubkov estava bem fechado, de maneira que seu gesto de
enxugar o suor foi mais simbólico. Depois de se recuperar do susto,
passou a observar o comportamento do piloto druuf. Constatou, muito
surpreendido, que em volta da nave auxiliar havia poucos pontos de
luz fosca, que pelo tipo de seu brilho se diferenciavam das estrelas.
Muito menos do que imaginara. Bem para o fundo, muito longe, ainda
brilhavam algumas bolas de fogo das naves destruídas e, a cada
segundo, outras mais se incendiavam. Mas o setor para onde se dirigia
a pequena nave, achava-se incrivelmente calmo.
Lubkov,
não muito acostumado com os instrumentos druufs, procurou
inutilmente por uma tela de rastreador, como na nau capitania, mas
não encontrou.
Teria que
dar ordem a André Noir para que arrancasse telepaticamente do piloto
druuf o que desejava saber, mas cada pergunta custaria um grande
esforço para o já debilitado hipnotizador. Assim, Lubkov acabou
desistindo. Noir já havia sugestionado ao druuf o destino do vôo e
isto devia ser suficiente. De fato, o piloto dirigia aparentemente
certo do que fazia.
Os pontos
luminosos dos aparelhos no espaço — arcônidas ou druufs, de
qualquer maneira ambos inimigos — foram ficando para trás. A
pequena, mas veloz nave, foi deixando o teatro de operações
bélicas, onde o terrano representara um papel importante.
Infelizmente Lubkov não tinha nenhum meio de saber como havia
terminado a luta, isto é, os prejuízos de ambos os lados. Deu-se
por feliz em saber que Tifflor e os seus estavam fora de perigo.
Mas isto
não era bem verdade.
Dez
minutos depois de saírem dos destroços da grande nave druuf, quando
as estrelas começaram a luzir com maior brilho na pequena tela,
André Noir interrompeu repentinamente sua atuação telepática
sobre o druuf. Com um soluço quase imperceptível, descontraiu-se e
perdeu os sentidos.
No mesmo
instante, o druuf começou a se virar de um lado para o outro. Parece
que estava se lembrando de que, originariamente, não deveria ser sua
missão obedecer cegamente a um grupo de terranos.
Virou-se e
olhou para Lubkov. Este nada entendia da mímica dos druufs, mas deu
para entender que o até então tranqüilo piloto estava resolvido a
se opor a eles.
*
* *
Já tinham
feito três tentativas de furar a frente inimiga e três vezes foram
rechaçados. Aliás, a Drusus foi atingida por um projétil que
deixara fora de funcionamento um dos motores de seu envoltório de
proteção. Daí para frente, a Drusus teria de agir com mais
cautela. O gerador podia ser reparado na Terra em um dia, mas no
espaço era totalmente impossível.
A quarta
investida foi realizada para, por meio do transmissor, enviar Gucky
para Hades. Combinaram um determinado tempo para que a Drusus ou a
Kublai Khan ficassem preparadas, nas proximidades da zona de
superposição, para receber Gucky de volta.
O resto do
tempo ficariam aguardando. Gucky teria de informar-se sobre o que
acontecera com Julian Tifflor. Havia três hipóteses: ou o
sinalizador do corpo de Tifflor continuava funcionando com a força
de sempre, ou estaria trabalhando com muito pouca força e com
intermitência, ou então não funcionava mais. A primeira e a última
hipótese significava que seria completamente inútil a intervenção
dos dois grandes couraçados. A segunda hipótese, porém, os
obrigava a tentar, pela quinta, sexta, centésima ou milésima vez,
irromper pela frente inimiga e penetrar no Universo druuf.
Os
arcônidas não se limitaram a ficar esperando pelas duas naves
terranas nas proximidades da zona de superposição. Pelo menos a
metade da frota de bloqueio, isto é, cerca de dez mil unidades,
estava sempre em movimento, pesquisando todo o espaço em volta para
destruírem os dois couraçados, assim que os localizassem.
Por este
motivo, Perry Rhodan fazia com que toda transição que a Drusus e a
Kublai Khan fizessem, fosse terminar, pelo menos, a dez anos-luz da
garganta afunilada da região de superposição. Naturalmente ele
pensava que os arcônidas não o fossem procurar tão longe assim.
Os minutos
de espera pela chegada de Gucky foram momentos de terrível tensão
nervosa. O nervosismo ia num crescendo constante a bordo dos dois
couraçados. Pois a maior infelicidade para o homem é ficar sem
poder fazer nada numa hora das mais importantes decisões.
*
* *
O druuf
não tinha nenhum transdutor idiomático para se entender com os
terranos. O Tenente Lubkov fez o que supôs ser o mais indicado.
Ordenou que quatro de seus homens se postassem de armas embaladas na
frente do piloto, esperando que com isso ele compreendesse qual era
sua obrigação. Depois aproximou-se dele, pegou no seu tronco quase
cúbico e tentou virá-lo para a posição em que estava antes.
O druuf
devia entender toda esta movimentação tão “palpável”
para qualquer tipo de cérebro.
Se
entendeu ou não entendeu, o fato é que o druuf fez apenas um
pequeno movimento com seu corpo e com os longos braços. O Tenente
Lubkov recebeu um tremendo golpe e foi atirado para frente, rolando
no chão. Ao bater com o ombro em qualquer coisa dura, deu um grito
de dor. Mas logo a seguir se levantou e viu como o druuf virou para a
frente, levando a mão à alavanca de comando.
Depois de
um soco daquele, a mão do druuf na alavanca de comando somente
poderia significar a alteração da rota. Lubkov sacou da arma e
atirou. A violência do tiro seria suficiente para matar um homem
instantaneamente, mas para o druuf mal foi suficiente para obrigá-lo
a curvar-se e cair no chão.
E não
passou disso. Depois que o druuf rolou no chão com grande ruído,
passou a reinar silêncio total na diminuta cabina de comando.
Parecia que na cabeça de todos só havia um pensamento: como
conseguiremos agora chegar ao nosso objetivo?
De
repente, porém, soou um grito agudo de Marshall, que lhes fez gelar
o sangue nas veias:
— Cuidado!
Deixem-no em paz. Ele está pensando... e eu o posso compreender.
*
* *
Ao chegar
a Hades, Gucky se admirou do chiado estridente do sinalizador
telepático de Julian Tifflor. Pois realmente Gucky estava muito
temeroso sobre o estado do coronel. E de fato não lhe tinha passado
pela cabeça uma possibilidade de encontrar Tifflor em boas
condições.
Comunicou
apressadamente ao Capitão Rous o objetivo de sua segunda vinda a
Hades. Explicou-lhe que, entretanto, tudo estava bem com Julian
Tifflor e que tinha a impressão de que ele se aproximava da base de
Hades. Não sabia, porém, explicar como isto era possível.
Em vista
disso, o Capitão Rous deu ordem para que as estações de
rastreamento estivessem bem atentas, principalmente no setor da zona
de superposição, chamando atenção especial para um objeto
desconhecido que se deslocava a grande velocidade na direção da
Base Hades. Devido à comparação das mais diversas estações, isto
é, do observado por seus aparelhos de rastreamento, com o que Gucky
estava percebendo, podia-se afirmar que Julian Tifflor estava mesmo a
bordo do objeto desconhecido. Como ele tinha penetrado neste
aparelho, que pretendia ali dentro, por que vinha em linha reta para
Hades — isto ninguém podia explicar.
A batalha
espacial nos limites do sistema Siamed tinha sido observada pela base
de Hades. Ela mesmo se mantivera calada, sem tomar parte na luta. As
diversas bolas de fogo das explosões foram filmadas. Este filme,
mais tarde, seria utilizado para estudo do andamento da batalha e seu
resultado. Ninguém até agora sabia ao certo o que acontecera por
lá, e quais as conseqüências que daí podiam advir.
O maior
interesse no momento se concentrava em Tifflor que, provavelmente
numa nave druuf, estava a caminho de Hades.
*
* *
Apesar das
enormes dificuldades, estavam conseguindo o que queriam. Lubkov fez
como se quisesse manobrar as alavancas do quadro de comando, e o
druuf ferido começou, em pensamentos, a zombar dele:
— Desta
maneira o aparelho vai se perder no espaço.
No
entanto, Marshall conseguira captar-lhe os pensamentos. A dor que o
piloto druuf sentia, a ira que crescia dentro dele, rebentaram o
possível envoltório mental que até então impedira a comunicação
telepática entre os terranos e o druuf. Marshall era um telepata
experimentado. Assim, o druuf ali deitado não sabia que seus
pensamentos estavam sendo lidos por Marshall. Logo que notava um
pensamento importante, comunicava-o a Lubkov.
Lubkov
largou as alavancas, e tentou mexer em outros comandos.
Logo veio
o pensamento do druuf:
— Desgraçado,
como é que você sabe que são estes os certos? Mas ainda está
faltando uma coisa. Tem de “ligar também a outra alavanca”
Marshall
não compreendeu bem o termo técnico, mas disse a Lubkov
simplesmente o que ouvira. E Lubkov começou a procurar, entre
outras, as tais alavancas. Procurou tanto até que o druuf, todo
encolerizado, pensou:
— Com
os diabos! Acertou outra vez!
Desta
maneira aprenderam, passo a passo, como funcionava o comando da nave
druuf. Tão logo tudo lhes estava claro, ultrapassaram a velocidade
da luz e se aproximaram de Hades, em vôo mais rápido que a luz,
através do hiperespaço.
As
manobras de frenagem correram normalmente. O temperamental druuf, que
levado pela dor e pela cólera não descobriu que era ele mesmo quem
fornecia todas as dicas, continuou sendo uma fonte inesgotável de
informações.
Depois que
emergiram do hiperespaço, Julian Tifflor voltou a si. Levou alguns
minutos para compreender a nova situação. A seguir, assumiu o
comando. Lubkov ficou muito contente, porque daí em diante tinha
todo o tempo para prestar atenção nas complicadas alavancas e
botões.
Finalmente
surgiu no canto de dentro da tela panorâmica a base de Hades. A
pequena nave auxiliar, em menos de duas horas, venceu uma distância
de quase doze bilhões de quilômetros — devendo-se notar que foi
pilotada por terranos que há duas horas antes não tinham a menor
noção da astronáutica dos druufs.
Aliás,
ainda lhes restava uma parte substancial de sua missão: a
aterrissagem em Hades. O Capitão Rous haveria de tomar a nave como
pertencente aos druufs, como de fato era, e teria todo o direito e
mesmo o dever de abrir fogo contra ela. Não poderia permitir que uma
nave druuf se aproximasse demais da entrada das cavernas onde se
escondia a base terrana.
Tifflor
tinha muitas idéias de como evitar este erro, mas todas elas eram de
execução demorada. Uma destas idéias, por exemplo, era descrever
com a nave no espaço voltas enormes para formar letras da escrita
terrana, com um S ou um R, qualquer letra, enfim, até que Rous
chegasse à conclusão de que não eram os druufs. Mas havia um
caminho aparentemente mais garantido. Assim como os terranos
aprenderam o segredo da navegação através do truque da telepatia,
podiam tentar fazer o mesmo para aprender a lidar com os
transmissores de bordo.
Havia
muita coisa que podia ser feita. Mas enquanto Tifflor e Lubkov
discutiam qual seria a mais prática, surge a voz de Marshall,
trazendo uma grande sensação:
Havia
“percebido”
a voz de Gucky, por via telepática. Gucky estava em Hades e tinha
notado a aproximação da nave dos druufs. As comportas da base de
Hades já achavam-se abertas para acolher a nave. Portanto, tudo
certo.
*
* *
No momento
predeterminado, a Drusus e a Kublai Khan estavam com seus
transmissores fictícios já preparados para receber Gucky da base de
Hades. No exato segundo, Hades solicitou o sinal verde e o recebeu.
Um momento após, Gucky já se encontrava a bordo da Drusus,
justamente oito horas depois de sua última despedida.
As
novidades que trazia eram importantes e mesmo excitantes. Julian
Tifflor não somente estava fora de perigo, como tinha “aprisionado”
uma nave druuf, equipada com a assombrosa turbina de velocidade
superior à da luz.
O Capitão
Rous compreendera a importância do fato e instruíra seus homens
para desmontarem todo o mecanismo, o mais depressa possível, e
acondicionar as diversas peças de modo a facilitar um transporte
rápido. Fizeram tudo isto em apenas oito horas. Quando Gucky estava
penetrando na Drusus, as quinze toneladas de todo o maquinismo já
achavam-se acondicionadas em fardos de duzentos quilos cada um. Iriam
para bordo dos dois couraçados terranos pelo mesmo meio como Gucky
viajara há poucas horas.
Enquanto
Gucky estava “despejando”,
emocionado, suas novidades, o setor de rastreamento anunciou que
havia uma formação de cerca de cem belonaves arcônidas voando em
direção ao local onde se encontravam os dois couraçados e que,
dentro de doze minutos, já estariam em distância de atirar.
Perry
Rhodan não titubeou.
A posse do
novo tipo de mecanismo de velocidade acima da luz era importante
demais para a Terra. Tinham, pois, que topar a jogada. Hades recebeu
sinal verde. Marcel Rous mandou carregar todos os transmissores
fictícios, para que, de sua parte, não se perdesse um segundo. A
Kublai Khan foi avisada e começou o transporte. E, peça por peça,
todo o pesado mecanismo foi “pulando”
de Hades para os dois encouraçados, numa distância fabulosa. Numa
agitação febril, homens e robôs iam recebendo os fardos de
duzentos quilos dos transmissores.
É claro
que Marcel Rous, em Hades, não podia estar a par da difícil
situação dos dois couraçados, mas mesmo assim fez tudo para não
perder um segundo. Os homens da Infant eram incansáveis no
transporte das peças do mecanismo. A última coisa a ser
transportada foi o druuf ferido.
Dez
minutos depois, havia acabado todo o trabalho. A esquadra arcônida
estava se formando para o ataque. Mas antes de chegarem à distância
de fazer fogo, as duas supernaves partiram para o espaço. Os
arcônidas tentaram ir em seu encalço. Mas Perry ordenou a
transição, e as naves terranas desapareceram, diante dos inimigos
boquiabertos.
Não era a
primeira vez, nem seria a última, que Perry Rhodan zombava da
supremacia numérica dos arcônidas.
*
* *
É verdade
que eles pretendiam muito mais. Mas, deviam estar contentes com o que
conseguiram. Queriam que os arcônidas e os druufs se aniquilassem
mutuamente e não deixassem de lutar, senão depois que, dos dois
lados, não houvesse ninguém mais em condições de se levantar.
Esperavam, com um único empreendimento, criar uma situação em que
o poderio terrano pudesse ficar igualado ao dos arcônidas.
Não
chegaram até isto. E era mesmo impossível.
Conforme
cálculos bem ponderados, o Império Arcônida perdera em toda a
refrega dezoito mil naves. Era realmente um número respeitável,
conforme os parâmetros da Terra, mas de maneira alguma uma perda
irreparável, capaz de colocar em jogo o poderio de Árcon.
As perdas
dos druufs foram também elevadas, mas isto não interessava a
ninguém na Terra. Conforme as previsões da positrônica de Vênus,
a zona de descarga estaria em pouco tempo fechada e, a partir daí,
os druufs não representariam nada mais para a Terra.
O dever da
Terra continuaria sendo, portanto, de acompanhar de longe a política
da Galáxia. Ainda não era chegado o momento em que a frota terrana
podia entrar em cena e impor, pela força, sua vontade. O grande dia
da Terra ainda iria demorar um pouco. Estas considerações eram uma
boa lição que se podia tirar da missão de Julian Tifflor.
De outro
lado, porém, havia dois grandes sucessos a registrar: a captura de
uma nave druuf, com o mecanismo de propulsão de velocidade superior
à da luz e do aprisionamento de um piloto druuf, que podia fornecer
informações sobre o desenvolvimento tecnológico de sua raça.
Os
cientistas e técnicos terranos haveriam de se lançar com grande
ardor para estudar o fabuloso mecanismo que a Drusus e a Kublai Khan
lhes estava desembarcando. E teriam uma função dupla: tentariam
procurar compreender uma tecnologia estranha e transmitir o modo de
funcionamento de um dispositivo, cujo princípio lhes era totalmente
desconhecido.
Quatro
semanas após, já haviam desvendado o essencial e, em pouco tempo,
estariam construindo mecanismos iguais.
Uma das
exposições mais conhecidas, explicando o funcionamento da propulsão
druuf de velocidade superior à da luz, era a do professor Lawrence,
do Instituto de Tecnologia de Terrânia. O trabalho deste mestre
começava clareando o incompreensível através de um exemplo da
física:
— Pode-se
aquecer um pedaço de matéria sólida. Pode-se transferir calor para
ela e, para cada caloria que se adiciona ao pedaço de matéria,
aumenta sua temperatura, conforme o calor específico de cada corpo,
num determinado número de graus. Mas se chegará a um ponto em que o
calor adicionado não servirá mais para aumentar a temperatura do
objeto, mas tão-somente para alterar o estado da matéria.
“Tomemos
como exemplo um pedaço de gelo, H2O
em estado sólido, para falarmos mais exatamente. Comecemos com dez
graus abaixo de zero grau Celsius a aquecer o gelo. Quanto mais calor
lhe adicionarmos, tanto mais sobe sua temperatura, até atingirmos
grau zero de Celsius. Se ao gelo de zero grau adicionarmos mais
calor, ele passa a não se aquecer, mas apenas se derrete. Continua
com a temperatura de zero grau, até se liquefazer todo, portanto,
H2O
líquido. Somente depois disso, é que o calor adicionado à matéria
será aplicado para elevar a temperatura da água. A quantidade de
calor que adicionarmos ao grau zero, sem que a temperatura da matéria
aumente, chamamos de calor da fusão do gelo e, com relação ao peso
molar, chamamos de calor da fusão molar.
“Os
senhores, futuros galatonautas, como certamente o serão, haverão de
me perguntar o que o gelo derretido tem a ver com a sua vocação de
cosmonauta. Permitam-me explicar um pouco mais. Os senhores adicionam
mais energia ao motor da nave e este motor aumenta-lhe a velocidade.
Este princípio não funciona indefinidamente, como os senhores
sabem. Até hoje, nós acreditávamos que não podíamos ultrapassar
um determinado limite, isto é, o da velocidade da luz.
“Já os
druufs estão um passo à frente. Do mesmo modo que nós, eles
adicionam energia ao mecanismo, para aumentar a velocidade de suas
naves. Mas chega então o ponto em que a energia fornecida não é
mais utilizada para aumentar a velocidade, e sim para mudar o estado
do aparelho. É claro que a nave sólida não se transforma em nave
líquida, como é o caso do gelo, mas o estado da nave se altera de
tal maneira, que depois do acréscimo de uma determinada quantidade
de energia, ela, a nave, não pertence mais ao contínuo
quadridimensional, mas passa para um espaço superior.
“É,
pois, como o fenômeno do gelo. A função, que o aumento de
temperatura possui com relação à massa e com a dimensão do calor
fornecido, permanece contínua até o ponto de fusão, quando tem
então um momento de instabilidade. Diz-se então que para qualquer
alteração na temperatura, por menor que seja, é necessário um
aditamento de certa dose de calor.
“O mesmo
se dá com a nave dos druufs: aumento de velocidade de acordo com o
tamanho da massa e da quantidade de energia, como função da
velocidade imprimida, é uma função contínua, até um
ponto-limite. Ali chega o clímax, semelhante a uma função delta.
Esta função delta marca o ponto em que a energia adicionada é
utilizada para levar a nave para um outro estado espacial.
“Por
favor, meus senhores, não julguem toda esta complicada explicação
mais do que como uma comparação, pois toda comparação é falha em
algum ponto. Deve-se tomar também em consideração a estrutura da
energia fornecida ao mecanismo, além do tipo de propulsão e muitas
coisas mais.
Tudo que
lhes disse tem o único propósito de lhes dar um quadro rudimentar
do processo. Não se esqueçam de que estamos tocando num setor da
ciência onde uma demonstração concreta se torna impossível. A
tentativa de dar um modelo do fenômeno ou um esboço claro tem de
falhar sempre.”
Foi este o
quadro esquemático do professor Lawrence. Assim mesmo, apesar de
parecer um tanto irreal, os conceitos do professor entraram para os
manuais de técnica e aí ficaram por muito tempo, imutáveis.
A
inquirição do piloto druuf aprisionado não trouxe grandes
elucidações sobre o fenômeno ou sobre a técnica de camuflagem com
que a nave druuf pôde, sem ser vista, arrastar a Infant para dentro
da garganta afunilada.
O druuf
sabia que o aparelho ainda estava em fase experimental — um dos
motivos por que os terranos ainda não tinham dificuldades em
determinar a posição das naves druufs. Eram pouquíssimos os
aparelhos que já estavam equipados com os novos dispositivos.
O druuf
sabia ainda que o funcionamento do aparelho se baseava no fato de que
ele só podia absorver dois setores restritos e bem determinados do
feixe de ondas eletromagnéticas. Estes setores pertenciam à parte
visível do espectro. Eram ondas cujo comprimento variava de 4.000 a
7.500 unidades de angstrõm, sendo que uma parte delas também
pertencia ao pequeno setor em que se moviam as freqüências dos
rastreadores terranos. Se fosse utilizada uma outra freqüência de
rastreamento, a nave invisível dos druufs certamente aparecia nítida
na tela do rastreador. Em outras palavras, no tocante ao rastreamento
com microondas, o novo aparelho druuf oferecia apenas a vantagem de
operar numa faixa muito raramente utilizada pelos operadores dos
postos de rastreamento.
Esta
constatação não chegou a ser uma novidade sensacional para os
terranos. Tudo que se pôde concluir sobre o processo druuf foi
encaminhado aos técnicos em alta freqüência, com a sugestão de se
aprofundarem mais no assunto. Ninguém, porém, acreditava que
surgisse alguma coisa útil de tudo isto.
Apenas
três semanas depois de ter chegado à Terra, o druuf morreu,
recusou-se a ser atendido por um médico. Seu ferimento foi piorando
mais do que os responsáveis podiam supor. Fora disso, não se tomou
muito a sério sua obstinação em recusar tratamento, do mesmo modo
que a inquirição também foi feita contra sua vontade.
A Terra
havia, pois, dado mais um passo em busca da supremacia galáctica.
Estava de posse do mecanismo de velocidade superior à da luz, graças
aos druufs. E os cientistas terranos estavam em vias de dar, também,
mais um passo para vencer a superioridade numérica dos arcônidas.
*
* *
*
*
*
Mais
uma vez, Perry Rhodan conseguiu executar uma arriscada missão:
enfraquecer os dois grandes adversários do Império Solar.
No
entanto, o potencial bélico de que dispõe o Império de Árcon é
ainda superior ao do Império Solar.
Em
Planeta Topsid, Favor Responder, próximo volume da série, tal
poderio bélico é mostrado de modo inesquecível.

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