sábado, 20 de agosto de 2016

P-082 - Xeque-Mate Universo - Kurt Mahr [Parte 3]

Gucky deixou à mostra o dente de roedor e esboçou uma espécie de sorriso.
Não tem tanta importância assim — disse Gucky concordato. — Em caso de emergência eu me contento com qualquer tipo de conserva.
Todos riram. Cada um dos homens procurava descobrir o que podia oferecer ao hóspede. E Gucky, que adorava todo tipo de brincadeira, principalmente as alegres “escaramuças” verbais, deu sua contribuição para que todos se divertissem.
Cessada a brincadeira, atravessaram o recinto dos transmissores e chegaram ao setor da administração e dos aposentos da tripulação, localizados mais ou menos no centro de uma caverna da base secreta. Durante todo este tempo, Gucky continuava ouvindo o leve ruído do sinalizador telepático que Julian Tifflor trazia “embutido” em seu corpo.
Gucky deu a entender que pretendia ficar mais tempo em Hades, pelo menos até que a missão de Tifflor tivesse dado bom resultado e pudesse voltar seguro à Terra com a Infant.
Deram-lhe um alojamento e lhe trouxeram boa comida. O Capitão Rous lhe fez companhia por muito tempo, enquanto os outros homens voltaram para seus postos. Gucky aproveitou o ensejo para expor ao capitão a situação no Universo dos druufs e no espaço de Einstein.
O plano era bem claro, e o Capitão Rous o compreendeu facilmente. Compreendeu também que a base secreta de Hades, instalada num dos planetas do sistema Siamed, passaria a ter então uma importância capital nos acontecimentos, assim que a situação de Tifflor se tornasse perigosa ou no caso de sua missão se tornar falha.
Enquanto o capitão se preocupava com a seqüência dos acontecimentos e procurava prever os golpes futuros, Gucky, com toda a calma e com todas as boas maneiras de um cavalheiro, saboreava o conteúdo de duas latas de conserva. Não dava mais atenção a Rous nem ao fino sibilar dos sinais dos transmissores. Estava mesmo com fome e queria apenas saciá-la. Talvez, quando Gucky acabasse de comer, Rous já teria recebido as notícias pelos rádios, devendo estar a par de tudo.
Diga-me uma coisa — disse Rous depois de uma longa pausa, completamente contra as expectativas de Gucky — o que é...
Gucky não ouviu mais nada. Rous continuou falando, mas Gucky não prestava atenção. Alguma coisa estava se passando. Não sabia o que era, mas como possuísse um grande senso de prudência, insistiu em descobri-la.
Era como se um relógio parasse de repente. O ouvido habituado ao permanente tic-tac não “sentia” mais seu ruído. Se, porém, o ruído cessasse, o ouvido haveria de perceber uma grande alteração, embora, de início, a pessoa não soubesse do que se tratava.
A comparação com o relógio levou Gucky a pegar a pista certa. Como que de um estalo, sabia de repente do que se tratava.
Os finos sinais do sinalizador embutido em Tifflor, haviam perdido muito em intensidade. Às vezes sumiam completamente, para voltar instantes depois. Isto só poderia ter uma explicação:
Tifflor estava em perigo.

* * *

Antes de Gucky deixar a Drusus, para iniciar sua estada de alguns dias em Hades, Perry Rhodan falara muitas vezes com o regente robotizado de Árcon. Sempre conversaram sobre o mesmo assunto: descobrir o paradeiro da nave dos desertores. O regente perguntava admirado por que ainda não tinham chegado à zona de superposição, se sua rota era o planeta dos druufs. E Rhodan dizia que não poderia haver outra explicação a não ser que, se dirigindo de encontro aos druufs, tivessem passado despercebidos pela frota arcônida de bloqueio.
Recorrendo à sua teoria das combinações, o computador-regente elaborou para si esta pergunta e a resposta foi a seguinte: não era realmente impossível a uma nave de porte médio para pequeno passar imperceptível pela frota de bloqueio. A teoria das combinações admitia ainda uma quota de probabilidade não desprezível de que a nave terrana já tinha conseguido penetrar no Universo dos druufs, nas últimas horas.
O regente estava então diante de uma situação completamente nova. O que lhe interessava até agora era capturar a nave dos desertores. Não pelo fato de serem desertores. O que o regente tinha em mira eram informações sobre a posição exata da Terra na Galáxia.
Fizera tudo para impedir a passagem dos desertores. Tinha mobilizado todo seu poderio espacial. Mais de trinta mil espaçonaves, no encalço de uma só nave terrana. E agora estava quase certo de ter perdido esta oportunidade, pois os desertores já se encontravam no meio dos druufs.
O regente começou então a pensar seriamente numa invasão ao Universo dos druufs. Até então havia tentado esquecer esta idéia. O regente robotizado era um computador monstro, uma maravilha da positrônica, mas seus construtores se esqueceram ou julgaram desnecessário lançar nele os conhecimentos científicos, relativos à teoria dos diferentes planos de tempo.
Na época em que o regente foi montado, a teoria dos planos temporais ainda estava engatinhando e era considerada pura fantasia de matemáticos malucos. Ninguém poderia imaginar que, um dia, surgiriam problemas que só seriam resolvidos através desta teoria. Foi por este motivo que ela não constava no cabedal, quase infinito, do grande cérebro positrônico. A tudo isto, acrescia ainda o fato de que o regente não tinha o menor senso de tempo. Era uma máquina, uma máquina imortal. Podia contar segundos, mas isto não lhe representava nada. Não podia fazer nada com o conceito tempo.
Foi por este motivo que o problema dos druufs, desde o primeiro instante, lhe foi difícil de compreender, para não dizer impossível. Foi obrigado a pedir o auxílio de Perry Rhodan. Quando surgiu a tal zona de descarga, reuniu sua imensa frota em torno dela, contentando-se com o fato de os druufs não tentarem invadir o espaço de Einstein.
A questão agora era medir os prós e os contras. De um lado, a incerteza sobre as conseqüências que podiam surgir de uma invasão maciça do Universo dos druufs. De outro, a possibilidade de aprisionamento da nave dos desertores terranos e, com isso, a obtenção da posição certa da Terra na Via Láctea.
Depois de muitas horas de hesitação, o regente se decidiu pela segunda opção. Já que estava provado que a simples presença da frota arcônida na abertura da zona de superposição — a zona de descarga — impedia os druufs de tentarem uma saída para o espaço de Einstein.
Estava, pois resolvido que a imensa frota arcônida invadiria o espaço dos druufs. Achou prudente não retirar toda a frota de bloqueio, mas tão-somente a frota que estava sob o comando de Door-Trabzon.
Além disso, estavam ali, junto à entrada da zona de superposição, os dois maiores couraçados da Terra, Drusus e Kublai Khan. E o regente esperava matar dois coelhos com uma só cajadada: saber da posição exata da Terra e, ao mesmo tempo, destruir a espaçonave em que estava Perry Rhodan.
Rhodan, naturalmente, não poderia saber nada destes planos, embora suspeitasse de que o regente invadiria o Universo dos druufs à procura da Infant.
Somente alguns momentos após o salto de Gucky para os transmissores, foi que Rhodan soube que suas suspeitas tinham razão de ser: a frota arcônida estava se movimentando. Vinte mil naves foram mobilizadas para atravessar a zona de superposição e invadir o espaço dos druufs. Vinte mil belonaves estavam a caminho de uma aventura de desfecho duvidoso. E tudo isto para capturar uma velha nave terrana com quatorze desertores.
Foi dado o alarme na Drusus e na Kublai Khan!
Havia começado a grande jogada. Dentro de poucos instantes se daria o choque das naves arcônidas com a linha de defesa dos druufs.
A tática de Perry Rhodan era um exemplo maravilhoso de como, por meio de golpes de inteligência, até mesmo a máquina da lógica, o monstro positrônico imbatível, tinha que se sujeitar à vontade de um homem.
A única dúvida era saber se Julian Tifflor e a Infant se achariam no meio da confusão, quando começasse o ataque, ou se já estariam seguros em Druufon.

* * *

Julian Tifflor teve que se desfazer da Infant. Fê-lo com muito pesar no coração, e somente depois de ponderar todas as hipóteses. Os doze homens restantes, sob a liderança do Tenente Lubkov, tinham sido levados para bordo de uma nave druuf, enquanto que a Infant, poucos minutos após, de acordo com os planos de Tifflor, fora destruída por uma explosão.
Foram dois os motivos principais que levaram Tifflor a esta resolução: ele iria ficar a bordo de uma nave druuf, e mais do que nunca iria precisar da tripulação terrana, caso quisesse ter alguma esperança de sucesso.
Por outro lado, não podia deixar a Infant nas mãos dos druufs. Ninguém poderia prever o quanto os druufs iriam aprender da tecnologia terrana sobre a construção de espaçonaves.
A Infant foi pelos ares. O Tenente Lubkov, o último a deixar a velha nave, ligou o automático das bombas. A nave se reduziu a uma nuvem incandescente de gás, espalhando-se pelo espaço e perdendo rapidamente a luminosidade. Meia hora após a explosão, não havia mais o menor vestígio do velho couraçado.
Parece que os druufs estavam de acordo. Provavelmente, estes achavam-se impressionados com a declaração sincera do coronel de que ele, Tifflor, aderira aos druufs, mais por ódio contra os arcônidas do quê por simpatia pelos habitantes deste Universo tão diferente do seu. Colocava-se como um homem que, apesar de agir contra a vontade de seus superiores, tudo fazia para não causar nenhum dano à sua pátria, que deixara como desertor.
Julian Tifflor já tinha, naturalmente, um novo plano. Embora seu objetivo principal parecia ter fracassado, não queria voltar à Terra de mãos vazias. Havia duas coisas pelas quais valia a pena correr algum risco: primeiro, a proteção anti-rastreamento, que facultava às naves druufs se tornarem quase invisíveis; segundo: o misterioso sistema de propulsão que capacitava os druufs a vôos mais rápidos que a luz, sem transição, ou seja, sem os saltos para o hiperespaço. Tifflor estava convencido de que a posse destes dois segredos haveria de garantir a supremacia à frota terrana, apesar da superioridade numérica dos arcônidas.
Confiaram-lhe o posto de comando. Um grande número de robôs druufs estava à sua disposição, preparados para executar qualquer ordem sua, também prontos para manejarem os instrumentos, caso ele tivesse alguma dificuldade, por desconhecer a tecnologia druuf. Depois que Tifflor assumiu o comando, nenhum druuf mais apareceu na cabina do piloto.
Em poucos segundos, Tifflor avaliou bem a situação. Os robôs ali estavam, não somente para executarem as ordens de Tifflor, mas, e talvez principalmente, para a alta missão de controlarem os terranos, impedindo qualquer abuso dos poderes que lhes foram atribuídos.
Pois a parcela da frota que havia sido colocada sob o comando de Tifflor tinha ao todo quatorze mil unidades. Equivalia a três vezes mais do que toda a frota terrana reunida. Julian Tifflor ainda estava convencido de que não chegaria a nenhum confronto direto com os arcônidas. Havia instruído sua tripulação sobre seus planos e aguardava a oportunidade para pô-los em execução.
É claro que, com a destruição da Infant, alguma coisa lhes estava faltando. Não tinham mais meio de locomoção próprio, com que pudessem escapulir rapidamente, em caso de emergência. Não sabiam manobrar uma nave druuf, e os robôs haveriam de se abster de fazer isso tão logo notassem o que estava em jogo.
No entanto, Tifflor via uma remota possibilidade de entrar em contato com a base clandestina de Hades e, no momento decisivo, receber apoio de lá. Naturalmente, mais cedo ou mais tarde, os druufs descobririam que seus hóspedes não aspiravam a outra coisa a não ser ao roubo de dois importantes segredos da tecnologia druuf. Haveriam de comprovar isto no momento em que, em qualquer ponto, à volta da nave capitania druuf surgisse uma espaçonave de Hades para receber os terranos e colocá-los a salvo. Não eram lá muito grandes as chances de conseguirem tal ação. Mas Tifflor era de opinião que a vantagem obtida, a partir daí, poderia ser grande, e valia arcar tranqüilamente com o risco inerente.
Ainda não sabia das medidas que Perry Rhodan havia tomado neste meio tempo, para apressar o desenrolar dos acontecimentos. Não podia, pois, supor que suas preocupações, em breve, não teriam mais razão de ser, porque os próximos acontecimentos as dissolveriam.
Também não lhe era possível adivinhar a desgraça que se abateria sobre ele...

* * *

E o Universo presenciou a um grande espetáculo!
O Firmamento se tornou incandescente, quando a frota arcônida, sob o comando do Almirante Door-Trabzon, irrompeu pela brecha da zona de superposição, a imensa zona de descarga. A garganta afunilada, que até então era de um vermelho-escuro, resplandeceu como sob a claridade de milhares de raios, quando a frota de vinte mil unidades interrompeu, quase extinguindo, a corrente compensadora de energia. O Universo parecia partido em duas metades. De uma, uma parte escura, recebendo apenas a tênue cintilação das estrelas, e, de outra, de um vermelho-amarelado, refulgindo com a energia dos íons.
O próprio Perry Rhodan assistia, de respiração presa, àquele espetáculo sem par. Já havia previsto que a invasão de uma quantidade tão exagerada de espaçonaves haveria de alterar a estrutura da zona de contato, provocando uma série de conseqüências de grande alcance. Mas não podia prever que uma destas conseqüências seria tão nítida e de tamanha visibilidade como era o clarão ofuscante de toda a zona de superposição.
Dava a impressão de que, num determinado local, o Universo rebentara e na região do rompimento se podiam ver as chamas rubras do verdadeiro inferno. Uma visão inesquecível.
Esse fogo infernal durou mais de uma hora. Aos poucos, a excessiva luminosidade foi se reduzindo, voltando ao normal depois de uns vinte minutos. Tudo terminado, ali estava de novo a região de superposição como uma nuvem vermelho-escura, no meio do espaço.
A frota de Door-Trabzon já tinha partido e passado pela região de superposição. Havia ficado para trás o resto da frota arcônida, ao todo vinte mil unidades, e as duas espaçonaves terranas, a Drusus e a Kublai Khan, ambas poderosas e majestosas, com energia para dar e vender.
Mas em caso de emergência, que podiam fazer sozinhas no meio das vinte mil?
Dez minutos após o desaparecimento das naves de Door-Trabzon, Gucky, o rato-castor, regressava para bordo da Drusus, trazendo notícias alarmantes...
7



Julian Tifflor estava procurando familiarizar-se com as instalações técnicas da cabina de comando, quando um dos robôs equipados com transdutores idiomáticos começou a falar:
Estão surgindo naves estrangeiras. Uma gigantesca frota de espaçonaves cruzou a linha de superposição. Começa, portanto, o ataque arcônida.
Julian Tifflor, a princípio, se sentiu meio atordoado, inclinado até a julgar que o alarme fosse uma brincadeira de mau gosto. Lembrou-se, porém, logo depois, que nem mesmo o mais sofisticado robô conseguiria fazer uma brincadeira e, quase ao mesmo tempo, viu na parede, pouco abaixo da tela panorâmica, uma tela menor que se acendeu, mostrando uma infinidade de pontos vermelhos que se moviam no fundo azul.
Julian Tifflor conhecia este aparelho. A tela estava acoplada com um dispositivo de rastreamento e outro de registro. O rastreador funcionava na maneira convencional, enquanto o dispositivo de registro determinava se o objeto rastreado era conhecido ou desconhecido.
Tratava-se de uma espaçonave inimiga. De acordo com a determinação do registrador, que estava sempre a par da rota das naves dos druufs, o objeto localizado surgia na tela com um sinal verde ou vermelho. Vermelho significava perigo e verde queria dizer amigo ou aliado.
Tifflor não perdeu tempo em querer saber de que maneira os arcônidas penetraram no Universo dos druufs. Estavam próximos e era bastante. O que ele tinha de fazer agora era pensar no seu novo cargo de comandante druuf, do contrário os arcônidas haveriam de esmagá-los com suas vinte mil naves, sem que os druufs tivessem tempo de desfechar um só tiro.
Deu uma outra olhada para a tela do rastreador, procurando ter uma idéia do número das naves arcônidas.
Oito dos quatorze companheiros de Tifflor estavam presentes no posto de comando. Os outros seis, ele os distribuíra pelas torres blindadas da nave capitania, colocando-lhes à disposição robôs equipados com transdutores idiomáticos, para que os terranos pudessem transmitir suas ordens. Julgou que isto fazia parte de seu papel como comandante. Mas, de uma hora para a outra, não havia mais papel, o que havia era a dura realidade.
Tifflor começou a agir. Depois de receber algumas instruções a respeito, não teve mais dificuldade em ler a tela do rastreador. Notou então que o núcleo da frota arcônida se encontrava no momento a quase cinco horas-luz de distância e se movia a uma velocidade média de trinta e cinco mil quilômetros por segundo. A velocidade estranhamente baixa era para Tifflor uma prova de que os arcônidas estavam hesitantes, com medo.
Isto daria aos druufs uma boa chance.
Todas as naves prontas para a partida! — explicou Tifflor ao robô que lhe estava mais próximo.
Uma pessoa estranha teria ali a impressão de que o robô não mostrava a menor reação ao comando recebido. Mas Tifflor sabia que o robô estava transmitindo a instrução por via rádio, e os comandantes das outras naves recebiam a mensagem.
Para os conceitos de Tifflor, demorou muito até que o robô respondeu:
Todas as naves prontas para a largada.
Tifflor se viu obrigado a expor seu plano de combate. Os robôs druufs possuíam uma qualidade fantástica: a duplicidade mental. E isto lhes possibilitava simultaneamente ouvir e transmitir. Tifflor sabia, portanto, que, com a transmissão de suas explicações, não se perdia tempo algum.
Vamos acelerar, dentro de poucos instantes, para velocidade superior à da luz. Não adianta nada chegarmos até os arcônidas como alvos visíveis em campo aberto. São superiores a nós em velocidade e no poder de reação. Só começaremos as manobras de frenagem depois que tivermos deixado para trás a vanguarda da frota arcônida. Desta maneira, vamos aparecer de repente, bem no meio deles. No momento em que aparecermos, abrimos fogo. Os arcônidas ficarão surpresos, embora esta surpresa não dure muito, pois quase todas as naves deles são robotizadas. Depois de rápidos ataques, ficaremos um pouco abaixo da velocidade da luz, a fim de podermos desaparecer a qualquer momento. É tudo. Cada um deve cuidar de si. E agora... vamos!
A fantasia de Tifflor tentava imaginar como, nos quatorze mil aparelhos druufs, neste momento, os comandantes agigantados, estariam ouvindo suas palavras através dos receptores de telecomunicação.
Que haveriam de pensar, recebendo ordens de um terrano?
Tifflor não gostaria de ouvir e receber ordens de um arcônida. Mas as coisas aqui eram diferentes.
As naves dos druufs também estavam equipadas com amortecedores antigravitacionais, como as da Terra. Não se sentia nada, mesmo com a nave na mais alta velocidade. Nem mesmo a imagem da tela panorâmica sofria qualquer influência. Os pontos de luminosidade fosca das demais naves, moviam-se na mesma direção e com a mesma velocidade, tal qual a nau capitania.
Já há uns instantes atrás, o Tenente Lubkov tomara seu lugar numa mesa de comando. Precisava fazer grande esforço para acionar a grande alavanca e os demais controles. O principal, porém, era que ele sabia a função de cada um daqueles comandos.
Diga a Fryberg que o barulho vai começar — ordenou-lhe Tifflor. — Precisa explicar aos druufs que devem atirar o mais rápido possível e sem parar. Diga-lhes que temos à nossa frente mais ou menos vinte mil espaçonaves arcônidas e que nossa vida depende da velocidade de nosso ataque.
Perfeito, senhor — respondeu ele.
Depois se levantou e, passando para o outro lado da mesa, pegou no cabo da enorme alavanca, que ultrapassava o quadro de comandos. Pegou-o no ponto mais alto possível, levantando-se para isso nas pontas dos pés, de maneira que todo o peso de seu corpo ficou dependurado na alavanca. Isto fez com que esta cedesse um pouco. Foi abaixando devagar. Lubkov veio-lhe em auxílio, conseguindo os dois abaixá-la completamente.
Pela viseira do capacete, Tifflor viu que o suor escorria pela face do tenente, que continuava sorrindo.
Lubkov repetiu palavra por palavra o que Tifflor dissera. Fryberg fez um gesto afirmativo e acrescentou:
Se eles souberem atirar tão rapidamente como nós, os arcônidas serão facilmente aniquilados. Tenho receio de que o negócio não vai depender só de nós.
Julian Tifflor ouviu sua resposta e lhe deu razão.
Quando aparecessem no meio dos arcônidas, os druufs começariam a atirar. Mas como? Levariam mais tempo para localizar o alvo, do que os robôs arcônidas para se refazerem da surpresa e organizar a resistência.
Como é que os aparelhos de Árcon penetraram assim tão depressa e em tão grande quantidade no espaço dos druufs?
Julian Tifflor estava correndo este risco todo, para se apoderar de dois segredos e poder transmiti-los à tecnologia terrana. Mas, enfrentar uma gigantesca frota dos arcônidas a bordo de uma nave druuf, com uma tripulação cuja capacidade de reação era exageradamente lenta, era bem outra coisa. Seu nome verdadeiro seria suicídio.
Mesmo sem se deixar abater, Tifflor estava pensando neste assunto, enquanto a nave mantinha sua aceleração e enquanto na tela panorâmica já se podiam ver as conseqüências do duplo efeito.
O mecanismo de propulsão dos druufs era muito potente. Bastariam poucos minutos para se atingir a velocidade do ponto crítico, ultrapassar o contínuo quadridimensional e começar a mover-se num espaço superior, sem contudo perder de vista o Universo de quatro dimensões.
O tempo era curto demais e os acontecimentos se precipitavam de tal forma, que Tifflor não podia tomar uma resolução clara sobre se continuava na rota inicial ou se devia tentar chegar até à base de Hades.
A única coisa, bem clara no seu subconsciente, era o seguinte: no plano primitivo estava previsto que os druufs e os arcônidas deviam se dizimar em ataques recíprocos. O plano como tal falhara, mas seu objetivo verdadeiro estava se concretizando por si mesmo. Os arcônidas iriam atacar e, dentro de quinze minutos, teria lugar uma batalha espacial, como nunca houve na história. Vinte mil naves arcônidas investiriam contra quase o dobro de naves druufs. Os danos seriam pesados, dos dois lados. Frotas inteiras seriam destruídas — tal e qual previa o plano primitivo.
E os quinze terranos, envolvidos nesta catástrofe, não teriam função nenhuma? Não, eles tinham uma missão muito importante. Os druufs, de antemão convencidos de sua flagrante inferioridade, iriam logo no começo dar a batalha como perdida e haveriam de fugir. Os prejuízos dos arcônidas seriam relativamente pequenos. Somente quando a frota comandada por Julian Tifflor provou que era possível enfrentar com sucesso os arcônidas, foi que o resto da força espacial druuf se mostrou inclinada a tomar parte ativa na luta e causar grandes danos ao adversário.
Tifflor chegou à conclusão de que, absolutamente, não era possível voltar atrás.
Aqui está a oportunidade que nós esperávamos”, pensou o coronel, “e, mesmo que nos custe a vida, ainda é um preço muito pequeno para a sobrevivência da nossa querida Terra.
Resolveu não pensar mais no assunto e dedicou toda sua atenção em observar o que acontecia com a nave enquanto a aceleração atingia o ponto crítico.

* * *

O acontecimento em si não foi nada de sensacional. A alteração do colorido na tela panorâmica foi a única coisa que aconteceu. Desapareceu o vermelho-escuro, dando lugar a um preto nebuloso, contra o qual cintilavam com maior brilho as estrelas.
A nave druuf já havia deixado o Universo quadridimensional e rumava, com uma velocidade superior à da luz, para o ponto em que pretendia encontrar-se com a frota arcônida. A visão das naves inimigas — os pontos vermelhos na tela do rastreador — ainda era a mesma. O aparelho de rastreamento funcionava independente do meio em que a nave se achasse.
Julian Tifflor estava calmo. Não imaginara que as coisas pudessem correr tão bem, como até então. A princípio, julgava que teria de ser comandante de uma nave, cujo curso lhe fosse imposto e cuja direção estivesse nas mãos frias de estranhos robôs. Só o fato de ele poder ver para onde ia sua nave, já lhe parecia uma grande vantagem.
Na tela do rastreador, a avalancha dos pontos vermelhos se aproximava com incrível velocidade. Tifflor procurava perceber qual seria a primeira manobra dos arcônidas, quando as espaçonaves inimigas surgissem no meio deles. Mas seus pensamentos estavam confusos. Não conseguiu se concentrar.
Olhou para o Tenente Lubkov, que lhe sorriu tranqüilamente. Neste momento, ouviu-se o intercomunicador. Era Fryberg quem estava falando:
Não sei — disse para Lubkov — se isto ainda tem importância. Mas o cabo Mainland descobriu nas proximidades da torre blindada um hangar de naves auxiliares. O hangar tem...
Não — interrompeu-o Lubkov. — A esta altura isto não tem mais importância alguma.
Continue falando, sargento — ordenou-lhe Tifflor antes que Fryberg desligasse. — O assunto me interessa muito.
Fryberg pigarreou e continuou:
Há um grande aparelho aqui no hangar, Sir. O cabo Mainland informou-se com um dos robôs e ficou sabendo que este aparelho está sempre preparado para decolar. Há um druuf sentado no posto do piloto, vigiando o aparelho. Ele faz o papel de piloto quando esta nave auxiliar é utilizada. E... parece que este aparelho alcança a velocidade da luz, senhor.
Tifflor olhou de novo para a tela do rastreador. Conforme seus cálculos, faltariam poucos segundos para que as naves druufs começassem a frenagem e iniciassem o fogo cerrado.
Avise a Mainland — ordenou ele — que não se preocupe mais com o aparelho auxiliar. Informe a todos, com muita discrição, que se a situação ficar impossível aqui, nós fugiremos com este aparelho. Lubkov ou eu daremos a ordem para isto. Ninguém deve agir por conta própria, entendeu?
Entendido, senhor — respondeu Fryberg, desligando logo após.
Julian Tifflor virou-se para trás. Fez todo o possível para manter a conversa em tom muito baixo. Os robôs estavam tão preocupados com seus afazeres — iniciar a frenagem e aparecer de novo no espaço quadridimensional no momento certo — que não podiam prestar atenção em outras coisas. Mas ele não estava muito seguro disto. Esperou ainda uns instantes e só depois que não havia nenhum robô por ali, dirigiu-se a Ras Tschubai, o teleportador.
Tschubai, chegou sua hora — disse ele baixinho e apressado. — Leve Noir com você. Ele tem que tentar sugestionar o piloto.
André Noir, o sugestor ou o hipno, como era chamado, estava encostado comodamente contra a parede, ao lado da grande comporta. Ao ouvir seu nome, se aproximou.
Não posso garantir que isto vai dar certo, Sir — disse pensativo. — É um cérebro completamente diferente do nosso.
Tente, Noir — insistiu Tifflor. — Agarre-se bem firme em Tschubai.
Noir obedeceu. Parou na frente de Tschubai, enlaçou os braços em seu pescoço e deixou que Tschubai o agarrasse pela cintura. O africano fechou os olhos e quase no mesmo instante, os dois, Ras Tschubai e André Noir, dissolveram-se.
Julian Tifflor esperava que os dois chegassem sem dificuldade a seu objetivo. Dedicava agora toda atenção, novamente, aos robôs. Um dos homens-máquina virou-se e disse:
Estamos no momento exato. A luta pode ser iniciada.
No mesmo instante, o firmamento vermelho-escuro do Universo druuf iluminou-se nas telas da sala de comando. Entre as estrelas cintilantes, pairavam os pontos luminosos da frota arcônida. Eram como uma nuvem de gafanhotos, alucinantemente numerosos.
Fogo com todas as baterias! — exclamou Tifflor. — E vamos para frente.
Um dos robôs transmitiu suas palavras na língua dos druufs. Tifflor não tirava os olhos das telas, aguardando com grande excitação os primeiros relâmpagos. E eles vieram.
A pouca distância das naves druufs surgiu um novo sol de uma claridade ofuscante. Era uma bola incandescente que se avolumava, crescendo em poucos segundos até o tamanho de uma lua cheia e depois se desfazendo numa nuvem de gás. Uma outra bola de fogo surgiu ao lado. Quando a primeira estava se apagando, a segunda atingiu o maior grau de incandescência.
De um momento para o outro, o Universo vermelho-escuro estava congestionado de bolas incandescentes. E num avanço curioso, a frota dos druufs ia ceifando, às centenas, as filas imensas das naves arcônidas. Sem serem vistos, os raios energéticos das baterias atingiam os adversários, transformando-os em pequenos sóis. Morte e destruição reinavam nas hostes arcônidas. Em poucos minutos, haviam perdido mais de oito mil naves.
Mas, de qualquer maneira, já se haviam refeito da surpresa inicial e estavam se adaptando à nova situação. Sabiam agora onde estava o inimigo e a positrônica central indicava que somente um contra-ataque imediato poderia salvar a gigantesca frota de um colapso total.
E veio o contra-ataque!
As bolas incandescentes iluminaram de novo o espaço. Mas desta vez a destruição e a morte se espalhavam mais pelo lado dos druufs.
Julian Tifflor ordenou retirada imediata para o espaço superior. As naves druufs aceleraram novamente e tomaram uma outra rota, que, num ângulo agudo com a órbita de até então, conduzia para fora da zona ocupada pelos arcônidas. Mais ou menos doze minutos depois de surgirem repentinamente entre os arcônidas, desapareceram de novo. Nestes doze minutos perderam cerca de dois mil aparelhos.
Tifflor parou para respirar. O primeiro round lhes fora plenamente favorável. Sabia que o resto da frota teria agora coragem para repetir outro golpe semelhante. Já conheciam a receita: surgir de repente, atacar rapidamente e fugir.
Mas de qualquer maneira, o resultado final do combate ainda era um ponto de interrogação. É claro que, no segundo ataque, os arcônidas não iam levar mais três minutos para se adaptar à situação. E os druufs sabiam muito bem que eles eram muito mais rápidos e muito mais concentrados no seu ataque.
Julian Tifflor deu algum tempo para que as naves que se haviam desgarrado durante a peleja, se reunissem novamente. Nas telas, tendo como fundo o preto nebuloso do hiperespaço, ainda se viam os últimos vestígios das naves destruídas, em forma de pequenas nuvens alvacentas.
Julian Tifflor estava mesmo resolvido a um segundo ataque. Pela movimentação dos pontos vermelhos na tela do rastreador, era evidente que os arcônidas não tinham desistido de sua intenção, isto é, penetrar ainda mais no Universo dos druufs. A frota arcônida vinha em linha reta da zona de descarga, na direção do centro do sistema Siamed. A velocidade havia também aumentado. Deviam estar a oitenta mil quilômetros por segundo.
Por parte dos druufs não havia nenhuma objeção contra um novo ataque. Julian Tifflor manteve a frota que estava sob seu comando em posição de alerta, até que na tela panorâmica surgissem novos pontos brilhantes, indicando que também o restante das naves já estava em condições de partir.
Só então permitiu a partida de suas naves. Duro e sem piedade, como na primeira vez...
Quando sua frota, depois da manobra rápida de frenagem, emergiu do hiperespaço e entrou de rijo na luta, o Universo vermelho-escuro incandescia no brilho ofuscante de milhares de sóis. O número de pontos verdes na tela do rastreador havia diminuído. Os arcônidas não se deixaram mais surpreender, como na primeira vez. Mais de três quartos das bolas incandescentes provinham das naves druufs. A lentidão de suas tripulações era-lhes uma verdadeira desgraça.
Mas o ataque mais rápido da nau capitania de Tifflor pelos flancos do inimigo deu novo alento aos druufs. A frota arcônida, atacada simultaneamente e maciçamente dos dois lados, abriu-se, formando duas alas. Assim, os arcônidas não conseguiam mais concentrar o fogo de dez ou mais naves sobre um único alvo, destruindo assim seu envoltório de proteção logo na primeira saraivada de disparos. Os druufs se recuperaram um pouco do desânimo sobre suas primeiras perdas.
A nau capitania de Julian Tifflor, juntamente com cinqüenta naves dos druufs, abriu caminho por entre um grupo de aparelhos arcônidas, desgarrados dos demais, grupo este de mais ou menos quarenta unidades. Tifflor sabia que estava enfrentando um grande risco. Se os arcônidas tivessem a oportunidade de concentrar o fogo de dez aparelhos numa única nave druuf, era uma vez uma espaçonave...
O que estava dando mais força a Tifflor nestes momentos era a coordenação verdadeiramente surpreendente das unidades dos druufs entre si, durante as refregas. Dava a impressão de que aquela infinidade de naves de origens diferentes pertencessem a uma só frota e estivessem muito treinadas. Os enormes danos que as forças de Árcon estavam sofrendo deviam ser atribuídos mais a esta coordenação dos druufs do que à reação inteligente e rápida de Tifflor.
Tifflor deu a ordem de atacar, ainda quando as forças arcônidas estavam a uma distância de quarenta mil quilômetros. As naves dos druufs tinham ajustado sua velocidade pela dos arcônidas. Era como se os aparelhos estivessem parados no espaço.
Mais uma vez, luziam as bolas de fogo. Seu clarão ofuscante se estendia até ao centro da grande aglomeração das forças arcônidas, que pareciam completamente desorientadas. Não se notava o menor sinal de reação por parte delas.
Pelo menos assim pensava Tifflor, até que, de repente, faltou-lhe o chão sob os pés e foi atirado para cima. Bateu com a cabeça no teto, com bastante força. Um pouco mais lentamente do que a catástrofe que sobre ele se abatia, seu amortecedor antigravitacional reagiu à nova situação, colocando-o de novo de pé no chão da nave. A cabeça lhe doía barbaramente e seu estado geral era péssimo. Ouvia muita gente gritando, inclusive a voz de Lubkov, mas não entendia nada do que diziam.
Foi aí que se lembrou da nave auxiliar, já de prontidão lá no hangar. Deu uma olhada para a tela e viu o brilho amarelado do envoltório de proteção que estava sendo destruído. A nave capitania fora atingida em seu flanco. Não estava totalmente destruída, mas podia se considerar perdida. Ouviu-se um forte estalo, como que um impacto de metal com metal. Julian Tifflor sentiu um novo abalo. Apoiou-se no último instante numa alavanca.
De repente havia alguém a seu lado. Através dos olhos embaciados por dores atrozes, reconheceu vagamente a figura de Lubkov. Viu que os lábios de Lubkov se moviam, mas levou muito tempo para compreender que o que estava ouvindo eram as palavras dele:
Temos de fugir, a nave foi destroçada.
Fez um gesto de confirmação, esperando que Lubkov o entendesse. Lubkov o deixou ali e saiu correndo. Parece que corria ao longo da parede. Tifflor tentou reunir toda sua força. Sacudiu a cabeça para afugentar a dor e se dirigiu para a porta. No recinto, só havia robôs.
Alguma coisa devia ter acontecido com o soalho. Tifflor tinha a impressão de estar pisando numa rampa de cascalho. Quem sabe seu aparelho antigravitacional estava com defeito, após o choque? Subiu com dificuldade até a porta, sem olhar para trás. Tinha só uma preocupação, que lhe era martelada pelo subconsciente: “Você tem que chegar até a nave auxiliar”.
Não percebeu que um dos robôs se levantou. O grande impacto o obrigara a cair e certamente algumas de suas funções ficaram prejudicadas. Mas ainda sabia qual era a sua obrigação, quando o estrangeiro tentasse fugir. Postou-se de tal maneira que uma de suas armas apontava diretamente para a porta, e quando Julian Tifflor ia ultrapassá-la, ele atirou.
Julian Tifflor sentiu que uma dor lancinante se espalhava por todo o corpo. Gritou e segurou no batente da porta. Mas os braços foram perdendo as forças, parece que não lhe pertenciam mais. As mãos escaparam no seu ponto de apoio e Tifflor rolou no chão inclinado, até encostar na parede. Quando ali chegou, já estava inconsciente.
8



Perry não tinha dúvida do que devia fazer. Tifflor corria perigo, Rhodan tinha de socorrê-lo. As duas naves terranas, a Drusus e a Kublai Khan, deviam penetrar no Universo dos druufs para procurar por Tifflor e seus auxiliares. Deu ordens para isto. Não sabia, porém, que uma grande parte da frota arcônida estava de olho e registrava com cuidado cada passo que ele dava. Quando as duas naves alteraram a rota e se dirigiram para a zona de superposição, os arcônidas logo perceberam.
O regente robotizado foi colocado a par de tudo e julgou que o momento era oportuno. Quando a Drusus e a Kublai Khan estavam a um décimo de ano-luz da região de superposição, surgiu na frente delas uma frota de belonaves pesadas e os arcônidas abriram fogo sem nenhum aviso.
Rhodan sabia que estava em inferioridade numérica. Ordenou uma transição imediata, não tendo nem tempo para se preocupar com a direção a ser tomada. O essencial era escapar da armadilha dos arcônidas.
Os envoltórios de proteção da Drusus já estavam incandescentes sob o fogo cerrado da primeira saraivada, quando a gigantesca nave deu o salto para a quinta dimensão, desaparecendo no hiperespaço.
Não foi um mero acaso o fato de a Drusus e a Kublai Khan terem realizado o mesmo salto, com transição igual. Ao voltarem para o espaço de Einstein, estavam novamente próximas uma da outra. Medições exatas feitas na hora, constatavam que, tomando-se como ponto de referência sua rota anterior, a zona de superposição estava quinze anos-luz atrás delas.
Isto queria dizer, primeiramente, que estavam a salvo. Mas que adiantava isto, se Tifflor e seus companheiros estavam em perigo, precisando de seu auxílio? As duas naves tinham que voltar.
Rhodan não perdeu tempo com considerações inúteis. Era supérfluo falar de sua responsabilidade com Julian Tifflor. Jamais poderia ignorá-la. E de nada valia o argumento de que iria arriscar duas das maiores belonaves da Terra, na tentativa de salvar Tifflor.
É verdade que não havia nenhum plano de combate para resolver o problema. Havia um único caminho: avançar e procurar abrir uma brecha na “nuvem” de naves arcônidas.
Perry Rhodan instruiu a Kublai Khan de como coordenar seus movimentos com os da Drusus. As duas naves terranas juntas tinham uma fantástica potência de fogo. Não precisavam ficar preocupadas com o número de naves arcônidas que tinham de enfrentar, desde que esse não fosse superior a quinze unidades.
A desgraça era que os arcônidas também sabiam disso e mandavam sempre um número bem grande de naves no encalço dos terranos.
Perry Rhodan tomou sobre seus ombros toda a responsabilidade e deu ordens para o vôo de volta. As duas naves partiram e, dentro de poucos minutos, já estavam em transição.

* * *

A grande nave druuf sacolejava. Diante do painel dos instrumentos, estava o piloto druuf, olhando petrificado para frente, sem desviar a atenção da tela escura, como se a confusão ali dentro não tivesse nada com ele. A seu lado, estava sentado André Noir, o hipno. Seu rosto estava assustadoramente pálido. Os olhos fechados. O suor escorria pela sua testa.
O Tenente Lubkov, apesar dos estremeções da nave capitania, tentava ficar sempre ao lado do mutante. Sua preocupação era se o hipnotizador André Noir iria suportar toda aquela carga nervosa. Se ele falhasse, seria uma desgraça para todos. Pois ninguém, fora o piloto druuf, estaria em condições de manejar o aparelho e de conseguir tirá-los dali. Podiam matar o piloto, caso André Noir fracassasse, mas isto não resolveria nada.
John Marshall foi o último a entrar. O telepata subiu rápido a escada que dava para o posto de comando e a primeira coisa que os homens ouviram de seus lábios foi:
Coisa muito perigosa! Tifflor sofreu um ataque.
Lubkov não perdeu tempo. Sabia que o telepata estava em condições de, mesmo a grande distância, saber se alguém estava acordado ou dormindo, se estava doente ou com saúde. Os pensamentos captados indicavam tudo.
Onde está ele? — gritou Lubkov.
É difícil dizer — respondeu Marshall. — Estou recebendo apenas sinais muito fracos, quase imperceptíveis. Aparentemente, está inconsciente. Nas proximidades do posto de comando, acho eu.
Um novo abalo percorreu toda a grande nave. Lubkov foi atirado para o alto, caindo depois com muita força.
Tschubai! — disse ele, sem dar importância a sua queda. — A nave está se rebentando. Você não quer procurar Tifflor? Temos de levá-lo conosco.
Ras Tschubai nem perdeu tempo em responder. Apenas se concentrou, mentalizando a imagem da cabina de comando, e desapareceu.

* * *

Não conseguiu encontrar Tifflor. O posto de comando estava com o chão e as paredes entortados. Os robôs achavam-se ocupados em consertar um aparelho rebentado. A tela panorâmica havia caído da parede. A iluminação estava piscando. Qualquer um podia ver que a nave capitania estava sendo destruída.
Mas, pelo menos os tiros tinham cessado. Ras Tschubai gostaria de saber o que estava acontecendo lá fora. Será que os arcônidas voltariam a um novo ataque para desfechar o tiro da misericórdia na pobre nave druuf?
Mas não havia meios de se saber isso. Os instrumentos não funcionavam mais e de Julian Tifflor ninguém tinha mais notícia.
Os robôs não deram maior atenção a Ras Tschubai. Estavam muito ocupados. Assim sendo, Tschubai não tinha nenhum receio deles. O africano subiu despreocupado para a cabina de comando, olhou em volta com calma e descobriu o corpo de Tifflor, deitado entre a parede e o chão rebentado. Estava sem sentidos.
Num só escorregão, Tschubai chegou lá embaixo e auscultou Tifflor. Tinha impressão que seu peito subia e descia lentamente; estava, portanto, vivo. Alguma coisa o devia ter atingido, mas o esquisito era que não se achava o menor sinal de ferimento.
A nave druuf tremia como se tivesse um ataque de malária. Parecia, nestes últimos instantes, ter se transformado num ser vivo que lutava contra a morte.
Ras Tschubai pegou Tifflor e o carregou nos ombros. Sabia que não podia perder um segundo. Olhou mais uma vez em volta. Lá na frente vinha um robô, caminhando com cautela. Ras não sabia por que, mas de repente ficou com medo de ser visto pelo robô. Fechou os olhos, segurou firmemente o corpo inerte de Tifflor e se concentrou na diminuta cabina de comando da nave auxiliar. Quando o quadro se apresentou bem nítido em sua mente, a parte especial de seu cérebro lhe forneceu aquela energia extraordinária e Ras desapareceu, deixando o robô ali parado, sem saber o que fazer.
O tiro, com que o robô pretendia aniquilar Ras Tschubai e o terrano inconsciente, abriu uma fenda na parede da sala de comando da nave druuf de mais de um metro de diâmetro.
Quando Ras Tschubai chegou à nave auxiliar, André Noir jazia no chão. Sua resistência física não deu para agüentar mais. Mas o druuf continuava petrificado, olhando para frente, sem tomar conhecimento do que se passava em torno dele. Queria dizer então que os influxos hipnóticos de Noir ainda continuavam ativos. Mas até quando?
Para o Tenente Lubkov, que havia assumido o comando, a volta de Ras Tschubai com Tifflor era o sinal para a partida. Inclinou-se para André Noir e lhe gritou no ouvido:
Partida, imediatamente!
Noir piscou os olhos por um segundo. Era o único sinal de que ele havia compreendido.
Momentos depois, o druuf começou a se mexer. Com as mãos fortes, puxou a alavanca tão grande que parecia uma barra de ginástica. Seus dedos exageradamente longos apertaram botões. O chão começou a vibrar, a tela se iluminou, mostrando o interior do hangar.
A comporta se abriu para a pequena nave sair. O Tenente Lubkov ainda não tinha visto o funcionamento das comportas druufs. Ao entrar na nau capitania, a comporta já estava aberta. Ficou encantado com a velocidade com que as duas partes da comporta interna recuaram para os lados, deixando livre o caminho para o espaço. O druuf na poltrona do piloto atirou a pequena nave para o espaço. Lubkov olhou para a nave semidestruída e viu a parte superior da comporta de repente tombar para o lado. A imagem da tela panorâmica da nave auxiliar lhe provou que não estava tendo alucinações. A queda da parte superior da comporta não fora ilusão ou sugestão.
A grande nave capitania estava desintegrando-se, exatamente quando o aparelho auxiliar saltou para o espaço. A fuga deu-se literalmente no último instante. Um segundo mais tarde, a nave auxiliar seria também destruída.
O capacete do Tenente Lubkov estava bem fechado, de maneira que seu gesto de enxugar o suor foi mais simbólico. Depois de se recuperar do susto, passou a observar o comportamento do piloto druuf. Constatou, muito surpreendido, que em volta da nave auxiliar havia poucos pontos de luz fosca, que pelo tipo de seu brilho se diferenciavam das estrelas. Muito menos do que imaginara. Bem para o fundo, muito longe, ainda brilhavam algumas bolas de fogo das naves destruídas e, a cada segundo, outras mais se incendiavam. Mas o setor para onde se dirigia a pequena nave, achava-se incrivelmente calmo.
Lubkov, não muito acostumado com os instrumentos druufs, procurou inutilmente por uma tela de rastreador, como na nau capitania, mas não encontrou.
Teria que dar ordem a André Noir para que arrancasse telepaticamente do piloto druuf o que desejava saber, mas cada pergunta custaria um grande esforço para o já debilitado hipnotizador. Assim, Lubkov acabou desistindo. Noir já havia sugestionado ao druuf o destino do vôo e isto devia ser suficiente. De fato, o piloto dirigia aparentemente certo do que fazia.
Os pontos luminosos dos aparelhos no espaço — arcônidas ou druufs, de qualquer maneira ambos inimigos — foram ficando para trás. A pequena, mas veloz nave, foi deixando o teatro de operações bélicas, onde o terrano representara um papel importante. Infelizmente Lubkov não tinha nenhum meio de saber como havia terminado a luta, isto é, os prejuízos de ambos os lados. Deu-se por feliz em saber que Tifflor e os seus estavam fora de perigo.
Mas isto não era bem verdade.
Dez minutos depois de saírem dos destroços da grande nave druuf, quando as estrelas começaram a luzir com maior brilho na pequena tela, André Noir interrompeu repentinamente sua atuação telepática sobre o druuf. Com um soluço quase imperceptível, descontraiu-se e perdeu os sentidos.
No mesmo instante, o druuf começou a se virar de um lado para o outro. Parece que estava se lembrando de que, originariamente, não deveria ser sua missão obedecer cegamente a um grupo de terranos.
Virou-se e olhou para Lubkov. Este nada entendia da mímica dos druufs, mas deu para entender que o até então tranqüilo piloto estava resolvido a se opor a eles.

* * *

Já tinham feito três tentativas de furar a frente inimiga e três vezes foram rechaçados. Aliás, a Drusus foi atingida por um projétil que deixara fora de funcionamento um dos motores de seu envoltório de proteção. Daí para frente, a Drusus teria de agir com mais cautela. O gerador podia ser reparado na Terra em um dia, mas no espaço era totalmente impossível.
A quarta investida foi realizada para, por meio do transmissor, enviar Gucky para Hades. Combinaram um determinado tempo para que a Drusus ou a Kublai Khan ficassem preparadas, nas proximidades da zona de superposição, para receber Gucky de volta.
O resto do tempo ficariam aguardando. Gucky teria de informar-se sobre o que acontecera com Julian Tifflor. Havia três hipóteses: ou o sinalizador do corpo de Tifflor continuava funcionando com a força de sempre, ou estaria trabalhando com muito pouca força e com intermitência, ou então não funcionava mais. A primeira e a última hipótese significava que seria completamente inútil a intervenção dos dois grandes couraçados. A segunda hipótese, porém, os obrigava a tentar, pela quinta, sexta, centésima ou milésima vez, irromper pela frente inimiga e penetrar no Universo druuf.
Os arcônidas não se limitaram a ficar esperando pelas duas naves terranas nas proximidades da zona de superposição. Pelo menos a metade da frota de bloqueio, isto é, cerca de dez mil unidades, estava sempre em movimento, pesquisando todo o espaço em volta para destruírem os dois couraçados, assim que os localizassem.
Por este motivo, Perry Rhodan fazia com que toda transição que a Drusus e a Kublai Khan fizessem, fosse terminar, pelo menos, a dez anos-luz da garganta afunilada da região de superposição. Naturalmente ele pensava que os arcônidas não o fossem procurar tão longe assim.
Os minutos de espera pela chegada de Gucky foram momentos de terrível tensão nervosa. O nervosismo ia num crescendo constante a bordo dos dois couraçados. Pois a maior infelicidade para o homem é ficar sem poder fazer nada numa hora das mais importantes decisões.

* * *

O druuf não tinha nenhum transdutor idiomático para se entender com os terranos. O Tenente Lubkov fez o que supôs ser o mais indicado. Ordenou que quatro de seus homens se postassem de armas embaladas na frente do piloto, esperando que com isso ele compreendesse qual era sua obrigação. Depois aproximou-se dele, pegou no seu tronco quase cúbico e tentou virá-lo para a posição em que estava antes.
O druuf devia entender toda esta movimentação tão “palpável” para qualquer tipo de cérebro.
Se entendeu ou não entendeu, o fato é que o druuf fez apenas um pequeno movimento com seu corpo e com os longos braços. O Tenente Lubkov recebeu um tremendo golpe e foi atirado para frente, rolando no chão. Ao bater com o ombro em qualquer coisa dura, deu um grito de dor. Mas logo a seguir se levantou e viu como o druuf virou para a frente, levando a mão à alavanca de comando.
Depois de um soco daquele, a mão do druuf na alavanca de comando somente poderia significar a alteração da rota. Lubkov sacou da arma e atirou. A violência do tiro seria suficiente para matar um homem instantaneamente, mas para o druuf mal foi suficiente para obrigá-lo a curvar-se e cair no chão.
E não passou disso. Depois que o druuf rolou no chão com grande ruído, passou a reinar silêncio total na diminuta cabina de comando. Parecia que na cabeça de todos só havia um pensamento: como conseguiremos agora chegar ao nosso objetivo?
De repente, porém, soou um grito agudo de Marshall, que lhes fez gelar o sangue nas veias:
Cuidado! Deixem-no em paz. Ele está pensando... e eu o posso compreender.

* * *

Ao chegar a Hades, Gucky se admirou do chiado estridente do sinalizador telepático de Julian Tifflor. Pois realmente Gucky estava muito temeroso sobre o estado do coronel. E de fato não lhe tinha passado pela cabeça uma possibilidade de encontrar Tifflor em boas condições.
Comunicou apressadamente ao Capitão Rous o objetivo de sua segunda vinda a Hades. Explicou-lhe que, entretanto, tudo estava bem com Julian Tifflor e que tinha a impressão de que ele se aproximava da base de Hades. Não sabia, porém, explicar como isto era possível.
Em vista disso, o Capitão Rous deu ordem para que as estações de rastreamento estivessem bem atentas, principalmente no setor da zona de superposição, chamando atenção especial para um objeto desconhecido que se deslocava a grande velocidade na direção da Base Hades. Devido à comparação das mais diversas estações, isto é, do observado por seus aparelhos de rastreamento, com o que Gucky estava percebendo, podia-se afirmar que Julian Tifflor estava mesmo a bordo do objeto desconhecido. Como ele tinha penetrado neste aparelho, que pretendia ali dentro, por que vinha em linha reta para Hades — isto ninguém podia explicar.
A batalha espacial nos limites do sistema Siamed tinha sido observada pela base de Hades. Ela mesmo se mantivera calada, sem tomar parte na luta. As diversas bolas de fogo das explosões foram filmadas. Este filme, mais tarde, seria utilizado para estudo do andamento da batalha e seu resultado. Ninguém até agora sabia ao certo o que acontecera por lá, e quais as conseqüências que daí podiam advir.
O maior interesse no momento se concentrava em Tifflor que, provavelmente numa nave druuf, estava a caminho de Hades.

* * *

Apesar das enormes dificuldades, estavam conseguindo o que queriam. Lubkov fez como se quisesse manobrar as alavancas do quadro de comando, e o druuf ferido começou, em pensamentos, a zombar dele:
Desta maneira o aparelho vai se perder no espaço.
No entanto, Marshall conseguira captar-lhe os pensamentos. A dor que o piloto druuf sentia, a ira que crescia dentro dele, rebentaram o possível envoltório mental que até então impedira a comunicação telepática entre os terranos e o druuf. Marshall era um telepata experimentado. Assim, o druuf ali deitado não sabia que seus pensamentos estavam sendo lidos por Marshall. Logo que notava um pensamento importante, comunicava-o a Lubkov.
Lubkov largou as alavancas, e tentou mexer em outros comandos.
Logo veio o pensamento do druuf:
Desgraçado, como é que você sabe que são estes os certos? Mas ainda está faltando uma coisa. Tem de “ligar também a outra alavanca”
Marshall não compreendeu bem o termo técnico, mas disse a Lubkov simplesmente o que ouvira. E Lubkov começou a procurar, entre outras, as tais alavancas. Procurou tanto até que o druuf, todo encolerizado, pensou:
Com os diabos! Acertou outra vez!
Desta maneira aprenderam, passo a passo, como funcionava o comando da nave druuf. Tão logo tudo lhes estava claro, ultrapassaram a velocidade da luz e se aproximaram de Hades, em vôo mais rápido que a luz, através do hiperespaço.
As manobras de frenagem correram normalmente. O temperamental druuf, que levado pela dor e pela cólera não descobriu que era ele mesmo quem fornecia todas as dicas, continuou sendo uma fonte inesgotável de informações.
Depois que emergiram do hiperespaço, Julian Tifflor voltou a si. Levou alguns minutos para compreender a nova situação. A seguir, assumiu o comando. Lubkov ficou muito contente, porque daí em diante tinha todo o tempo para prestar atenção nas complicadas alavancas e botões.
Finalmente surgiu no canto de dentro da tela panorâmica a base de Hades. A pequena nave auxiliar, em menos de duas horas, venceu uma distância de quase doze bilhões de quilômetros — devendo-se notar que foi pilotada por terranos que há duas horas antes não tinham a menor noção da astronáutica dos druufs.
Aliás, ainda lhes restava uma parte substancial de sua missão: a aterrissagem em Hades. O Capitão Rous haveria de tomar a nave como pertencente aos druufs, como de fato era, e teria todo o direito e mesmo o dever de abrir fogo contra ela. Não poderia permitir que uma nave druuf se aproximasse demais da entrada das cavernas onde se escondia a base terrana.
Tifflor tinha muitas idéias de como evitar este erro, mas todas elas eram de execução demorada. Uma destas idéias, por exemplo, era descrever com a nave no espaço voltas enormes para formar letras da escrita terrana, com um S ou um R, qualquer letra, enfim, até que Rous chegasse à conclusão de que não eram os druufs. Mas havia um caminho aparentemente mais garantido. Assim como os terranos aprenderam o segredo da navegação através do truque da telepatia, podiam tentar fazer o mesmo para aprender a lidar com os transmissores de bordo.
Havia muita coisa que podia ser feita. Mas enquanto Tifflor e Lubkov discutiam qual seria a mais prática, surge a voz de Marshall, trazendo uma grande sensação:
Havia “percebido” a voz de Gucky, por via telepática. Gucky estava em Hades e tinha notado a aproximação da nave dos druufs. As comportas da base de Hades já achavam-se abertas para acolher a nave. Portanto, tudo certo.

* * *

No momento predeterminado, a Drusus e a Kublai Khan estavam com seus transmissores fictícios já preparados para receber Gucky da base de Hades. No exato segundo, Hades solicitou o sinal verde e o recebeu. Um momento após, Gucky já se encontrava a bordo da Drusus, justamente oito horas depois de sua última despedida.
As novidades que trazia eram importantes e mesmo excitantes. Julian Tifflor não somente estava fora de perigo, como tinha “aprisionado” uma nave druuf, equipada com a assombrosa turbina de velocidade superior à da luz.
O Capitão Rous compreendera a importância do fato e instruíra seus homens para desmontarem todo o mecanismo, o mais depressa possível, e acondicionar as diversas peças de modo a facilitar um transporte rápido. Fizeram tudo isto em apenas oito horas. Quando Gucky estava penetrando na Drusus, as quinze toneladas de todo o maquinismo já achavam-se acondicionadas em fardos de duzentos quilos cada um. Iriam para bordo dos dois couraçados terranos pelo mesmo meio como Gucky viajara há poucas horas.
Enquanto Gucky estava “despejando”, emocionado, suas novidades, o setor de rastreamento anunciou que havia uma formação de cerca de cem belonaves arcônidas voando em direção ao local onde se encontravam os dois couraçados e que, dentro de doze minutos, já estariam em distância de atirar.
Perry Rhodan não titubeou.
A posse do novo tipo de mecanismo de velocidade acima da luz era importante demais para a Terra. Tinham, pois, que topar a jogada. Hades recebeu sinal verde. Marcel Rous mandou carregar todos os transmissores fictícios, para que, de sua parte, não se perdesse um segundo. A Kublai Khan foi avisada e começou o transporte. E, peça por peça, todo o pesado mecanismo foi “pulando” de Hades para os dois encouraçados, numa distância fabulosa. Numa agitação febril, homens e robôs iam recebendo os fardos de duzentos quilos dos transmissores.
É claro que Marcel Rous, em Hades, não podia estar a par da difícil situação dos dois couraçados, mas mesmo assim fez tudo para não perder um segundo. Os homens da Infant eram incansáveis no transporte das peças do mecanismo. A última coisa a ser transportada foi o druuf ferido.
Dez minutos depois, havia acabado todo o trabalho. A esquadra arcônida estava se formando para o ataque. Mas antes de chegarem à distância de fazer fogo, as duas supernaves partiram para o espaço. Os arcônidas tentaram ir em seu encalço. Mas Perry ordenou a transição, e as naves terranas desapareceram, diante dos inimigos boquiabertos.
Não era a primeira vez, nem seria a última, que Perry Rhodan zombava da supremacia numérica dos arcônidas.

* * *

É verdade que eles pretendiam muito mais. Mas, deviam estar contentes com o que conseguiram. Queriam que os arcônidas e os druufs se aniquilassem mutuamente e não deixassem de lutar, senão depois que, dos dois lados, não houvesse ninguém mais em condições de se levantar. Esperavam, com um único empreendimento, criar uma situação em que o poderio terrano pudesse ficar igualado ao dos arcônidas.
Não chegaram até isto. E era mesmo impossível.
Conforme cálculos bem ponderados, o Império Arcônida perdera em toda a refrega dezoito mil naves. Era realmente um número respeitável, conforme os parâmetros da Terra, mas de maneira alguma uma perda irreparável, capaz de colocar em jogo o poderio de Árcon.
As perdas dos druufs foram também elevadas, mas isto não interessava a ninguém na Terra. Conforme as previsões da positrônica de Vênus, a zona de descarga estaria em pouco tempo fechada e, a partir daí, os druufs não representariam nada mais para a Terra.
O dever da Terra continuaria sendo, portanto, de acompanhar de longe a política da Galáxia. Ainda não era chegado o momento em que a frota terrana podia entrar em cena e impor, pela força, sua vontade. O grande dia da Terra ainda iria demorar um pouco. Estas considerações eram uma boa lição que se podia tirar da missão de Julian Tifflor.
De outro lado, porém, havia dois grandes sucessos a registrar: a captura de uma nave druuf, com o mecanismo de propulsão de velocidade superior à da luz e do aprisionamento de um piloto druuf, que podia fornecer informações sobre o desenvolvimento tecnológico de sua raça.
Os cientistas e técnicos terranos haveriam de se lançar com grande ardor para estudar o fabuloso mecanismo que a Drusus e a Kublai Khan lhes estava desembarcando. E teriam uma função dupla: tentariam procurar compreender uma tecnologia estranha e transmitir o modo de funcionamento de um dispositivo, cujo princípio lhes era totalmente desconhecido.
Quatro semanas após, já haviam desvendado o essencial e, em pouco tempo, estariam construindo mecanismos iguais.
Uma das exposições mais conhecidas, explicando o funcionamento da propulsão druuf de velocidade superior à da luz, era a do professor Lawrence, do Instituto de Tecnologia de Terrânia. O trabalho deste mestre começava clareando o incompreensível através de um exemplo da física:
Pode-se aquecer um pedaço de matéria sólida. Pode-se transferir calor para ela e, para cada caloria que se adiciona ao pedaço de matéria, aumenta sua temperatura, conforme o calor específico de cada corpo, num determinado número de graus. Mas se chegará a um ponto em que o calor adicionado não servirá mais para aumentar a temperatura do objeto, mas tão-somente para alterar o estado da matéria.
Tomemos como exemplo um pedaço de gelo, H2O em estado sólido, para falarmos mais exatamente. Comecemos com dez graus abaixo de zero grau Celsius a aquecer o gelo. Quanto mais calor lhe adicionarmos, tanto mais sobe sua temperatura, até atingirmos grau zero de Celsius. Se ao gelo de zero grau adicionarmos mais calor, ele passa a não se aquecer, mas apenas se derrete. Continua com a temperatura de zero grau, até se liquefazer todo, portanto, H2O líquido. Somente depois disso, é que o calor adicionado à matéria será aplicado para elevar a temperatura da água. A quantidade de calor que adicionarmos ao grau zero, sem que a temperatura da matéria aumente, chamamos de calor da fusão do gelo e, com relação ao peso molar, chamamos de calor da fusão molar.
Os senhores, futuros galatonautas, como certamente o serão, haverão de me perguntar o que o gelo derretido tem a ver com a sua vocação de cosmonauta. Permitam-me explicar um pouco mais. Os senhores adicionam mais energia ao motor da nave e este motor aumenta-lhe a velocidade. Este princípio não funciona indefinidamente, como os senhores sabem. Até hoje, nós acreditávamos que não podíamos ultrapassar um determinado limite, isto é, o da velocidade da luz.
Já os druufs estão um passo à frente. Do mesmo modo que nós, eles adicionam energia ao mecanismo, para aumentar a velocidade de suas naves. Mas chega então o ponto em que a energia fornecida não é mais utilizada para aumentar a velocidade, e sim para mudar o estado do aparelho. É claro que a nave sólida não se transforma em nave líquida, como é o caso do gelo, mas o estado da nave se altera de tal maneira, que depois do acréscimo de uma determinada quantidade de energia, ela, a nave, não pertence mais ao contínuo quadridimensional, mas passa para um espaço superior.
É, pois, como o fenômeno do gelo. A função, que o aumento de temperatura possui com relação à massa e com a dimensão do calor fornecido, permanece contínua até o ponto de fusão, quando tem então um momento de instabilidade. Diz-se então que para qualquer alteração na temperatura, por menor que seja, é necessário um aditamento de certa dose de calor.
O mesmo se dá com a nave dos druufs: aumento de velocidade de acordo com o tamanho da massa e da quantidade de energia, como função da velocidade imprimida, é uma função contínua, até um ponto-limite. Ali chega o clímax, semelhante a uma função delta. Esta função delta marca o ponto em que a energia adicionada é utilizada para levar a nave para um outro estado espacial.
Por favor, meus senhores, não julguem toda esta complicada explicação mais do que como uma comparação, pois toda comparação é falha em algum ponto. Deve-se tomar também em consideração a estrutura da energia fornecida ao mecanismo, além do tipo de propulsão e muitas coisas mais.
Tudo que lhes disse tem o único propósito de lhes dar um quadro rudimentar do processo. Não se esqueçam de que estamos tocando num setor da ciência onde uma demonstração concreta se torna impossível. A tentativa de dar um modelo do fenômeno ou um esboço claro tem de falhar sempre.”
Foi este o quadro esquemático do professor Lawrence. Assim mesmo, apesar de parecer um tanto irreal, os conceitos do professor entraram para os manuais de técnica e aí ficaram por muito tempo, imutáveis.
A inquirição do piloto druuf aprisionado não trouxe grandes elucidações sobre o fenômeno ou sobre a técnica de camuflagem com que a nave druuf pôde, sem ser vista, arrastar a Infant para dentro da garganta afunilada.
O druuf sabia que o aparelho ainda estava em fase experimental — um dos motivos por que os terranos ainda não tinham dificuldades em determinar a posição das naves druufs. Eram pouquíssimos os aparelhos que já estavam equipados com os novos dispositivos.
O druuf sabia ainda que o funcionamento do aparelho se baseava no fato de que ele só podia absorver dois setores restritos e bem determinados do feixe de ondas eletromagnéticas. Estes setores pertenciam à parte visível do espectro. Eram ondas cujo comprimento variava de 4.000 a 7.500 unidades de angstrõm, sendo que uma parte delas também pertencia ao pequeno setor em que se moviam as freqüências dos rastreadores terranos. Se fosse utilizada uma outra freqüência de rastreamento, a nave invisível dos druufs certamente aparecia nítida na tela do rastreador. Em outras palavras, no tocante ao rastreamento com microondas, o novo aparelho druuf oferecia apenas a vantagem de operar numa faixa muito raramente utilizada pelos operadores dos postos de rastreamento.
Esta constatação não chegou a ser uma novidade sensacional para os terranos. Tudo que se pôde concluir sobre o processo druuf foi encaminhado aos técnicos em alta freqüência, com a sugestão de se aprofundarem mais no assunto. Ninguém, porém, acreditava que surgisse alguma coisa útil de tudo isto.
Apenas três semanas depois de ter chegado à Terra, o druuf morreu, recusou-se a ser atendido por um médico. Seu ferimento foi piorando mais do que os responsáveis podiam supor. Fora disso, não se tomou muito a sério sua obstinação em recusar tratamento, do mesmo modo que a inquirição também foi feita contra sua vontade.
A Terra havia, pois, dado mais um passo em busca da supremacia galáctica. Estava de posse do mecanismo de velocidade superior à da luz, graças aos druufs. E os cientistas terranos estavam em vias de dar, também, mais um passo para vencer a superioridade numérica dos arcônidas.




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Mais uma vez, Perry Rhodan conseguiu executar uma arriscada missão: enfraquecer os dois grandes adversários do Império Solar.
No entanto, o potencial bélico de que dispõe o Império de Árcon é ainda superior ao do Império Solar.
Em Planeta Topsid, Favor Responder, próximo volume da série, tal poderio bélico é mostrado de modo inesquecível.

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