O cadete
Brugg começou a acreditar que seu visitante só sabia sacudir a
cabeça. Teria de adivinhar o que deveria oferecer-lhe. Subitamente
abriu o pequeno armário de mantimentos e descobriu os restos de seu
almoço, guardados num prato. Era uma confusão de verduras, e um
pedaço de carne.
— Veja
só que gostosinho! — disse Brugg e colocou a bacia diante do nariz
de Gucky.
O
rato-castor não acreditou no que seus olhos viam!
Nunca
ninguém lhe havia oferecido uma coisa dessas. Era pior que o mingau
que lhe fora oferecido por Tchim-La-Djen e que depois soubera ser...
Não! Era preferível não pensar nisso.
Gucky
engoliu a recordação. Seu dente roedor desapareceu de repente.
Deixou-se cair de quatro, segurou a bacia e a atirou para dentro da
lixeira aberta. Depois voltou a pôr-se sobre as pernas traseiras.
Sorriu para Brugg.
O cadete
sentiu-se perplexo.
— Que
bicho mimado! — disse antes de compreender o que o rato-castor
acabara de fazer.
Ia em
direção ao interfone, mas estacou em meio ao caminho e fitou Gucky.
Viu um par de olhos castanhos, bondosos e um tanto travessos.
Continuou a andar com uma estranha sensação de insegurança e ligou
para a sala de comando.
— Aqui
fala o comandante Lund. O que houve?
— Aqui
fala o cadete Brugg, do setor de aprovisionamento. Estou chamando
para comunicar o aparecimento de um animal. Alguém avisou o
desaparecimento de algum bicho?
— Um
bicho? — ao que parecia, o comandante Lund não sabia o que pensar.
— A bordo do cruzador não se permite a presença de cães e gatos.
— Não
se trata de cão nem de gato — disse Brugg fitando Gucky de lado. O
rato-castor continuava agachado junto à porta, mantendo as patas
dianteiras estendidas e exibindo um sorriso desavergonhado. — Não
sei como descrever o animal que está aqui. Tem as orelhas de um
filhote de elefante, focinho pontudo e cauda achatada. Seu aspecto é
bastante estranho...
Subitamente
teve a impressão de que alguém lhe puxava as pernas. Caiu
violentamente sobre o traseiro. O comandante Lund ouviu o ruído.
— Ei,
Brugg. Deixe-se de tolices! Está ouvindo?
— Ai,
minhas costas! — gemeu a voz saída do alto-falante na sala de
comando. — Acho que por aqui há algum fantasma...
— Bobagem!
Crie juízo, homem! Sabe quem é a criatura que está com o senhor? É
Gucky, o rato-castor! Nunca ouviu falar nele? O que é que ele
deseja?
Durante
dez segundos, não se escutou nada. Finalmente Brugg respondeu com a
voz perturbada:
— Gucky?
O mutante? Isso é o célebre Gucky?
— É
claro que sim! — respondeu Lund em tom contrariado. — Dê-lhe
tudo que pedir. O próximo salto será realizado dentro de vinte
minutos. Entendido?
— Entendido!
Ouviu-se
um clique, e o cadete Brugg viu-se novamente a sós com seu
visitante. Levantou-se lentamente, apalpando as costas, e fitou Gucky
com uma expressão de embaraço.
— Des...
desculpe, Tenente Gucky — ouvira dizer que o rato-castor gostava de
ser chamado assim. — Não podia saber... por que não se
apresentou?
— Você
também não se apresentou, meu filho. Logo se vê que é um homem.
Não poderia ter percebido que sou Gucky?
Não havia
argumento contra essa lógica arrasadora. O cadete Brugg suspirou
desesperado e sacudiu a cabeça.
— O que
posso oferecer-lhe? Para falar com franqueza, pensei...
— Já
sei: pensou que eu fosse um bicho qualquer. Você tem cenouras
frescas?
— Se
tenho... o quê?
— Cenouras!
— repetiu Gucky. — Prefiro que sejam congeladas. Sei fazer o
descongelamento. Podem ser uns dois ou três quilos...
Estacou de
repente.
O cadete
Brugg percebeu que, subitamente, os olhos castanhos do rato-castor
congelaram-se. Parecia que olhavam para longe e viam algo de
horrível, incompreensível. O sorriso desapareceu de sua boca.
Parecia escutar para dentro de si mesmo.
— O que
houve?
— Silêncio!
— gritou Gucky indignado e voltou a mergulhar no seu transe.
Parecia ter esquecido tudo que o cercava.
Brugg
sacudiu a cabeça e dirigiu-se à despensa para buscar as cenouras.
“Esses
mutantes têm hábitos bem esquisitos”,
pensou. “Bem,
vou dar as cenouras a esse sujeito, e depois será melhor que ele dê
o fora. Talvez fosse preferível não pensar tanto. Os telepatas não
são companheiros muito agradáveis.”
Quando
voltou com um saco de plástico cheio de cenouras, viu Gucky
dissolver-se no ar. O rato-castor desapareceu diante de seus olhos;
desmaterializou-se. O que ficou para trás foi um cheiro delicado de
sabonete. Um certo Reginald Bell costumava dizer que o fedor do
rato-castor era tamanho que até mesmo as pulgas fugiam dele
diretamente para a eternidade.
— Ainda
bem! — balbuciou o cadete Brugg, perplexo e aliviado ao mesmo
tempo. — Não é telepata, mas teleportador — fitou o saco de
plástico que tinha na mão. — Por que será que não pôde
esperar?
Sacudiu a
cabeça e voltou a colocar as cenouras no frigorífico.
*
* *
O
comandante Wilmar Lund levou um susto quando Gucky materializou-se na
sala de comando, a dois metros do lugar em que se encontrava.
Levantou o dedo num gesto de ameaça.
— Não
gosto que os tripulantes de minha nave sejam molestados — disse
numa suave repreensão. — Você deu um susto daqueles no cadete
Brugg. Ele lhe deu as cenouras?
Para seu
espanto, o rato-castor não reagiu a estas palavras.
— Recebi
um pedido de socorro, comandante. A vida de um ser humano corre
perigo!
Por um
instante Lund fitou Gucky. Depois soltou uma gargalhada.
— Não é
possível! Quem poderia estar em perigo a bordo da Arctic? O imediato
acaba de receber o aviso de que tudo está em ordem. Não sei quem...
— Não é
na Arctic, comandante — interrompeu Gucky. — O pedido de socorro
vem de outra nave.
Lund
sacudiu a cabeça e fitou a tela panorâmica.
— Num
raio de 0,2 anos-luz não existe nenhuma nave ou planeta. Quer dizer
que você....
— Quer
dizer que eu me enganei? — completou Gucky. — É impossível! O
pedido de socorro foi intenso, concentrado e foi pensado num estado
de extrema angústia. O homem estava próximo à morte violenta.
Preciso salvá-lo, ou ao menos saber quem são os assassinos. Além
disso, quero saber em que nave ocorreu o pedido. Deve ter sido uma
nave, pois o homem pensou em robôs e no conversor atômico.
— Ainda
acontece que neste setor não existe nenhum planeta habitado —
reforçou o comandante. — Quer dizer que é uma nave. Hum! Você
está com a razão, Gucky. Seria interessante sabermos de que se
trata. Talvez sejam arcônidas.
Gucky
girou lentamente a cabeça, até olhar diretamente no sentido do
deslocamento da nave.
— Posso
indicar a direção, mas não a distância. Não tenho experiências
precisas a este respeito. Não sei qual é a distância máxima à
qual consigo captar os impulsos telepáticos. Quem sabe se a Arctic
poderia executar alguns saltos pequenos em linha reta? Se tivermos
sorte, daremos com a nave desconhecida.
— Para
que servem nossos instrumentos de localização acoplados com o
hiper-transmissor, que funcionam instantaneamente a uma distância de
vários anos-luz? — perguntou Lund com um sorriso. —
Providenciarei para que o setor da proa seja examinado detidamente.
Está satisfeito, Gucky?
O
rato-castor sacudiu a cabeça.
— Só
estarei satisfeito quando tivermos encontrado a outra nave.
Lund
transmitiu suas instruções à sala de rádio. Voltou a dirigir-se a
Gucky.
— Se não
houver nenhum engano de sua parte, isso não demorará muito. Você
tem certeza absoluta de que não se trata de uma brincadeira de
alguém que se encontre a bordo da Arctic?
— Consegui
determinar a direção, comandante — disse Gucky, apontando para o
centro da tela panorâmica. — A sala de comando da nave fica no
setor externo. Você sabe de alguém que poderia estar à nossa
frente?
Lund
compreendeu que a constatação de Gucky não admitia a menor dúvida.
Mas não teve tempo para responder. O intercomunicador emitiu um
zumbido.
— Há um
objeto desconhecido a 1,57 anos-luz à nossa frente. Desloca-se em
diagonal, em direção ao setor BC-JS-78. Dimensões e formato: cerca
de um mil e quinhentos metros, esférico. Material: ligas metálicas
e substâncias plásticas. Supomos que se trate...
— Sim,
já sei! — piou Gucky. — Trata-se de um couraçado dos arcônidas.
Era o que eu imaginava — refletiu por um instante. — Alguém está
precisando de auxílio. Cuidarei disso.
O que mais
interessava o comandante Lund era o fato de que nesse setor havia um
couraçado do Império Arcônida.
O que
estaria fazendo aqui? Será que se encontrava em missão oficial?
— Saltaremos
o mais perto que pudermos — disse, dirigindo-se a Gucky. Passou a
falar ao imediato, que se encontrava à frente do computador de
astronavegação. — Calcule os dados para o salto em conformidade
com os dados da sala de rádio.
Dali a dez
minutos, a Arctic realizou a transição a curta distância. Dentro
de alguns segundos, materializou-se a um ano-luz e meio de sua
posição anterior.
Agora a
outra nave já aparecia nitidamente na tela. Voava muito devagar,
motivo por que foi fácil segui-la.
Realmente
tratava-se de uma das gigantescas naves esféricas, cujo armamento
era moderno apesar dos milênios que contava, e que era capaz de
destruir todo um sistema solar.
O Império
Arcônida, governado por um gigantesco computador, constantemente
enviava essas naves para o espaço, a fim de descobrir o planeta
Terra. Mas, até então, nada conseguira.
Será que
esse gigante também se deslocava pelo espaço a fim de descobrir a
Terra?
O
comandante Lund mandou ativar o campo defensivo da Arctic e manteve a
nave preparada para o hipersalto, com a intenção de afastar-se,
caso a nave desconhecida resolvesse atacar. Por enquanto não havia o
menor indício disso.
Pelo
contrário.
A nave
esférica prosseguia em sua rota, como se nem tivesse notado a
presença da Arctic. Mas isso era praticamente impossível. A nave
terrana seguia o colosso a uma distância pouco inferior a duzentos
quilômetros. A tripulação da nave terrana aguardava a primeira
reação dos arcônidas.
Mas essa
reação não veio.
O
comandante Lund estreitou os olhos e disse:
— Qual
será o truque que eles estão experimentando? Você tem alguma
idéia, Gucky?
O
rato-castor já estava controlando os pensamentos dos tripulantes da
outra nave. Mas houve certas dificuldades!
Seu
cérebro pequeno, mas altamente eficiente, teve de absorver e
classificar milhares de impulsos dos mais diversos tipos. Como é que
Gucky poderia saber o que era e o que não era importante?
— A
bordo da nave há uma disposição de alarma — disse. — Mas isso
não nos diz respeito. Gostaria de saber...
Mais uma
vez, concentrou-se intensamente.
Subitamente
ergueu o corpo.
— Saltarei
para lá — disse numa súbita decisão. — Mantenha a rota,
comandante, para que eu possa voltar a qualquer momento. Se alguma
coisa me acontecer — um sorriso travesso surgiu em seu rosto —
transforme esta bola gigante num montão de sucata.
— Nesse
caso precisaríamos de reforços — respondeu Lund um tanto
deprimido. — Esperaremos por você, Gucky. Não demore demais.
Gucky fez
um gesto afirmativo e concentrou-se.
Depois
desapareceu; parecia ter-se dissolvido no ar.
*
* *
Antes de
desmaterializar-se, Gucky concentrou-se no lugar do qual vieram os
pedidos de socorro telepáticos. Isso bastou para orientar sua
teleportação. Seu corpo desmaterializou-se e percorreu na quinta
dimensão os duzentos quilômetros que o separavam da outra nave.
Tudo não
durou mais que uma fração de segundo.
O
comandante Lund desapareceu diante de seus olhos. Quando as neblinas
confusas desapareceram, o rato-castor viu-se no centro de uma sala
desconhecida.
Logo notou
que os seis vultos à sua frente eram robôs. De um lado, isso o
deixou satisfeito; se tivesse de usar violência, preferia fazê-lo
contra máquinas, não contra homens. De outro lado, porém, não
seria capaz de captar os pensamentos dos robôs por via telepática.
As idéias e os planos das máquinas permaneceriam em segredo.
Acontece que um robô nunca mente. Quando responde a uma pergunta,
sempre o faz segundo a verdade.
Gucky não
estava armado; confiava nas suas faculdades.
Um dos
robôs esteve a ponto de fechar uma tampa oval embutida na parede.
Não constatou qualquer impulso mental que tivesse alguma relação
com essa tampa ou com os robôs. O homem que pedira socorro já devia
estar morto ou inconsciente.
— O que
aconteceu com o homem? — perguntou na linguagem universal dos
arcônidas, que é entendida por todos os povos coloniais.
Não havia
a menor dúvida de que os robôs que tinha à sua frente eram de
construção arcônida.
Os homens
mecânicos olharam-no sem dizer uma única palavra. A seguir, três
deles bloquearam a única porta existente na sala, dois postaram-se
junto às paredes e o último, que acabara de fechar a tampa,
dirigiu-se a Gucky. Falando com a voz metálica, disse:
— O
comando especial acaba de eliminar T-39. Quem é você?
— Sou o
Imperador da Nebulosa de Andrômeda — respondeu Gucky, observando
atentamente o robô. Seus olhos não perderam o menor movimento. —
Qual foi o crime desse homem?
— Atingiu
a idade necessária. O comandante mandou que fosse eliminado.
Gucky
percebeu que teria de aplicar padrões inteiramente novos para
avaliar as condições reinantes nessa nave. A estrutura sociológica
desta parecia reservar-lhe algumas surpresas. Esteve a ponto de
prosseguir em suas perguntas, mas o robô disse:
— É
proibido entrar nesta sala — foi até a parede, abriu a tampa e
prosseguiu: — Enfie a cabeça na abertura.
Gucky
poderia sentir-se ofendido, pois os robôs nem se admiravam com o
aspecto de sua pessoa. Simplesmente constataram que alguém havia
penetrado na sala proibida e o condenavam à morte. Pouco importava
quem era o intruso.
Mas Gucky
sabia que um robô não é capaz de sentir curiosidade; limita-se a
agir e pensar em acordo com a programação nele introduzida. Isso
não excluía a possibilidade de pensar com independência, desde que
os pensamentos se movessem no âmbito das tarefas que lhe foram
atribuídas.
— Foi o
comandante que me mandou — disse com a maior energia de que sua voz
fina era capaz. — A sentença de morte do tal do T-39 foi revogada.
Ao dizer
isso, nem desconfiava o que estava arranjando. Até então nunca
acontecera que uma ordem de eliminação fosse revogada, pelo simples
motivo de que isso era impossível. Significaria uma revolução.
E uma
revolução...
O
robô-chefe disse:
— T-39
já foi eliminado. O comandante está infringindo as leis. O caso
será examinado. Enfie logo a cabeça nesta abertura.
Gucky
perdeu a paciência.
— Seu
idiota! Se existe alguém que deve olhar para dentro desse buraco
esquisito, será você. Vamos embora; dê uma olhada para ver como
são as coisas lá embaixo.
Lançou
mão de sua faculdade telecinética. Um fluxo mental invisível
atingiu o robô, o levantou, e o fez entrar na abertura negra. Dali a
um segundo, Gucky o soltou. Subitamente ouviu-se um arrastar, que
logo se tornou mais fraco e cessou.
— Também
querem brincar de escorregar? — perguntou o rato-castor em tom
amável, dirigindo-se aos cinco robôs restantes. — Isso não lhes
custará nada.
Os braços
com as armas levantaram-se abruptamente.
Gucky
percebeu que estava na hora de mudar de posição. Teleportou-se às
cegas antes que os pálidos feixes energéticos alcançassem o local
exato em que estivera uma fração de segundo antes.
Materializou-se
num recinto bem iluminado, situado não sabia onde. Vários homens
estavam reunidos em grupos e discutiam apaixonadamente. Os quadros de
comando e as telas presas à parede revelavam que se tratava de um
centro técnico. Um robô arcônida semidesmontado jazia no centro da
sala.
Por
enquanto ninguém havia percebido a presença de Gucky. O rato-castor
permaneceu imóvel e procurou extrair dos pensamentos das pessoas ali
presentes as informações de que precisava. O que descobriu era
bastante estranho, mas ainda não bastava para obter uma visão
global.
Ao que
parecia, o Maquinista Quatro queria convencer os presentes de que
havia necessidade de encetar um motim ou revolta. O estranho era que
vivia dizendo que o comandante da nave estava de seu lado.
O que
significava isso? Um motim só podia ser realizado pelos tripulantes
da nave e dirigido contra o comandante. Acontece que desta vez o
comandante se amotinava juntamente com os tripulantes!
Contra
quem?
Gucky
sabia combinar os fatos. Lembrou-se do encontro que tivera com os
seis robôs e das palavras proferidas pelos mesmos. E aqui estava um
robô desativado; ao que tudo indicava, fora desmontado pelos homens
que estavam reunidos. Só agora Gucky notou que as armas embutidas
haviam sido retiradas.
O quadro
se completava. Se havia um motim, este se dirigia contra os robôs.
Ouviu M-4
dizer:
— Antes
de mais nada, torna-se necessário que os vigias não descubram o que
está acontecendo. Nunca devem saber que o comandante está do nosso
lado. Só poderemos combatê-los frente a frente, quando tivermos uma
quantidade suficiente de armas.
Gucky
compreendeu que cometera um erro que poderia prejudicar os
revoltosos. Então, tentando reparar a gafe, adiantou-se e disse:
— Bom
dia, amigos. Vim para ajudar vocês.
Ao vê-lo
e ouvi-lo, os homens se assustaram. A conversa cessou de repente.
Todos os olhos dirigiram-se para o rato-castor. Os homens pareciam
paralisados.
Gucky
percebeu que estavam com medo dele porque acreditavam que fosse um
enviado do Mestre. Sacudiu a cabeça e esboçou um sorriso.
— Não,
venho de outra nave. Pretendo ajudá-los. Os robôs já conhecem seus
planos. Eles agirão. Agora fechem a boca, ou melhor, deixem-na
aberta e contem o que houve. Acho que esta é uma nave do Império,
não é?
Os
impulsos provocados por estas palavras logo lhe revelaram que aqueles
homens nunca haviam ouvido a palavra império.
— Não
são arcônidas?
Nem sabiam
que no Universo existiam arcônidas.
As coisas
estavam ficando cada vez mais esquisitas. Bastava um relance de olhos
para notar que esses homens eram arcônidas. Os cabelos brancos, os
olhos albinos avermelhados, os membros delicados, tudo isso indicava
que os indivíduos à frente de Gucky eram seres dessa raça
humanóide.
Gucky
percebeu que, para compreender a situação, teria de agir
metodicamente. Dirigiu-se ao homem que já lhe despertara a atenção.
— Vamos
logo, M-4! Procure controlar-se e conte o que houve. Não tenha medo
de mim.
O
maquinista fez das tripas coração.
Adiantou-se
um passo, com um gesto tímido enfiou no bolso um pequeno bastão
prateado com uma lente na extremidade, e disse em arcônida:
— Seu
aspecto me causa estranheza, mas não temor. Acho que podemos confiar
em você, embora não saibamos de onde veio. Deixe-me contar o que
aconteceu...
Gucky
ouviu-o com um espanto crescente. Embora não descobrisse tudo,
começou a desconfiar de que por um simples acaso ele se defrontava
com um dos grandes segredos do Universo!
4
A fim de
fazerem um relato, O-2 e M-7 apresentaram-se ao comandante e a seus
novos amigos. Dois dias se haviam passado, e, nesses dois dias, foram
várias vezes à sala ao lado. A imagem do Mestre não modificara seu
aspecto e nem a maneira de exprimir-se. Continuava a ameaçá-los com
os castigos mais cruéis, mas não fazia nada.
Ao menos
não perceberam que estivesse fazendo alguma coisa.
O-2 contou
como fizera para informar os chefes das diversas seções a respeito
da nova situação e de que forma distribuíra as tarefas entre eles.
Até então não se haviam deparado com ninguém que não se
mostrasse entusiasmado e disposto a romper com a cruel tradição. Se
todos os chefes de seção tivessem transmitido a mensagem, a essa
hora o povo já estaria informado.
O relato
de M-7 também foi positivo. Graças ao trabalho preparatório,
realizado pelo segundo-oficial, já encontrara um bom número de
pessoas dispostas a ajudá-lo. E juntamente com ele, passaram a
espreitar os vigias que ocupassem postos isolados e colocá-los fora
de ação. Nem sempre isso fora fácil; por mais de uma vez tiveram
de recorrer às armas de que já se haviam apoderado a fim de
destruir um robô. Tudo tinha de ser tão rápido que a máquina não
tivesse tempo de expedir um aviso. Sabia-se que os robôs mantinham
contato permanente entre si, por meio de aparelhos embutidos de
rádio. De qualquer maneira, a operação não poderia continuar em
segredo por muito tempo, já que os robôs desativados deixariam de
transmitir os dados relativos à sua posição.
Mal os
dois homens acabaram de apresentar o relato, ouviu-se o zumbido do
interfone. Nos últimos dois dias, isso acontecia constantemente. Era
O-l que desejava falar com o comandante.
Ps-5 fez
um gesto afirmativo.
— Acho
que deve saber a verdade; não podemos ocultar-lhe a ação por mais
tempo. Se for um homem razoável, poderá ser nosso aliado. Caso
contrário, terá de morrer.
— Se
isso acontecer, incumbirei o comando da morte de sua execução —
disse O-1.
Mas ainda
não chegara a hora de pensar nisso.
— Antes
de mais nada, vamos ver como reage à nossa proposta, comandante —
sugeriu Ps-5. — Peça-lhe que venha até aqui.
Dali a dez
minutos, O-l entrou na sala de comando. Parou diante da porta que se
fechava, e fitou os presentes com um olhar de espanto. Finalmente
disse em tom indignado:
— O que
é isso? Quero falar a sós com o comandante.
Ps-5
incumbiu-se de informar o oficial sobre o ocorrido.
— Sente
e preste atenção. O senhor poderá levar uma vida pacata, segura e
feliz, ou poderá ser levado pelo comando da morte; tudo depende do
senhor. Não me interrompa. Só depois que eu tiver concluído, tome
sua decisão. O senhor não demorará a compreender que...
Com a voz
calma e indiferente, narrou os acontecimentos e não se esqueceu de
entremear a narrativa com suposições impressionantes, que pudessem
influenciar o jovem.
— É
claro que, quando tudo tiver passado, o atual comandante continuará
no exercício de seu cargo — sentenciou Ps-5, depois de algum
tempo. — O senhor continuará a ser seu sucessor, caso queira
compartilhar de suas idéias. Antes de entrar no exercício do cargo,
terá de esperar bastante. Mas em compensação vai ter a chance de
viver mais. Nenhum de nós sabe quanto tempo viverá. Talvez seja por
três ou quatro gerações, talvez mais. Nossa existência só
terminará com a decadência física das células do organismo. D-3
terá muito prazer em expor-lhe as respectivas teorias. Aguardamos
sua decisão.
O-l
ouvira-o com um nervosismo cada vez maior. Por várias vezes fez
sinais de concordância, mas a seguir notava-se que as dúvidas o
martirizavam. Assim que Ps-5 concluiu, disse:
— Isso é
uma revolução que significará o fim de todas as tradições. Será
difícil a gente se adaptar com a necessária rapidez. Devo confessar
que, em muitos pontos, minhas opiniões coincidem com as suas, mas
receio que nossos desconhecidos governantes oferecerão resistência.
Será que dispomos de força para enfrentá-los?
— Esperamos
que sim — respondeu Ps-5 em tom sério. — Esperamos e
acreditamos.
O
comandante estava a ponto de acrescentar alguma coisa quando se ouviu
um zumbido. No primeiro instante, acreditaram que fosse o interfone,
mas o comandante olhou para a porta...
— Os
vigias nunca anunciam previamente sua chegada. Só aparecem quando
acham que devem fazê-lo. Levam dez segundos para entrar. É o tempo
que demora a fechadura eletrônica para abrir a porta. Todos têm de
ir ao aposento contíguo, com exceção de O-1.
A ordem
foi cumprida imediatamente.
Quando a
porta se abriu para dar entrada ao robô, só o comandante e seu
sucessor se encontravam na sala.
Mas o robô
não veio só. Mais quatro vigias estavam em sua companhia. Se fossem
seis, o comandante talvez teria desconfiado que era o comando da
morte que o visitava. Mas, da forma como estavam as coisas, pensou
que fossem vigias como quaisquer outros.
Nem
desconfiou que era o próprio comando da morte que Gucky havia
desfalcado de um membro...
— Desde
quando o comandante tem poderes de revogar uma eliminação já
determinada? — perguntou o vigia que entrou em primeiro lugar. —
As infrações à lei sempre recebem o castigo adequado. Iremos...
— Nunca
dei uma ordem desse tipo — interrompeu o comandante. — Quem foi a
pessoa que deveria ter sido liquidada?
— T-39,
que já foi levado para ser eliminado.
— Isso é
impossível. T-39 solicitou um adiamento que não pude conceder.
Nunca dei ordem para suspender sua morte.
— Não
acreditamos no que está dizendo — respondeu o robô em tom frio. —
Você virá conosco e sofrerá o justo castigo. Seu sucessor entrará
no exercício do cargo.
— Ele
ainda não foi informado — disse o comandante.
Os vigias
pareciam confusos. Enquanto não houvesse um sucessor devidamente
informado, o comandante não podia ser morto. Ps-5, que viera da sala
contígua sem ninguém o perceber, disse em meio à pausa de
indecisão:
— O
comandante está dizendo a verdade, vigias. Posso testemunhar isso.
M-7 também
entrou sem que ninguém o notasse e comprimiu-se junto à parede,
atrás dos robôs que já haviam entrado na sala. Segurava a chave
com a qual poderia soltar o parafuso que desativava os robôs. Se
conseguisse fazê-lo em tempo...
E
desativou dois robôs!
O terceiro
devia ter notado o primeiro contato da chave, pois virou-se
lentamente, dirigindo o braço com a arma para M-7.
Ps-5 agiu
imediatamente.
O raio
energético de sua arma portátil atingiu a cabeça do terceiro vigia
e com um forte chiado derreteu o cérebro positrônico. Dali a alguns
segundos, o quarto robô também foi colocado fora de ação.
O robô
que se portara como chefe foi o único a ter uma pequena chance, mas
não conseguiu aproveitá-la. Nesse meio tempo, D-3 saíra de seu
esconderijo e passou a intervir nos acontecimentos. Só desligou a
arma energética depois que o último robô se transformou num montão
de metais derretidos. Um calor quase insuportável tornava difícil a
respiração.
— O
senhor teve sorte — disse Ps-5 em tom tranqüilo, enquanto guardava
a arma. — Por pouco o senhor não se transforma na vítima de suas
próprias instruções, ou das instruções emitidas pelo grande
Mestre. O senhor já tomou uma decisão, O-l?
O oficial
fez um gesto afirmativo. Estava muito pálido.
— Estou
com os senhores. Mas tenho um desejo. Gostaria de ver a pessoa que
vocês chamam de Mestre. Isso é possível?
— Até é
seu direito — disse o comandante.
Fora tudo
tão rápido que nem tiveram tempo de ficar chocados. Antes que
compreendessem o que estava acontecendo, o perigo fora eliminado. Os
cinco guardas inutilizados eram a única lembrança de que estiveram
tão próximo à morte.
— Venha
comigo, O-l, eu lhe apresentarei o Mestre.
Os dois
homens dirigiram-se à sala contígua.
Ps-5
seguiu-os com os olhos.
— Acho
que não demorará muito — disse. — Os robôs já devem ter
descoberto nossos planos e passarão à ação. É possível que o
Mestre esteja em contato com eles. Quem dera que eu soubesse. Por
enquanto não existe o menor indício, quanto mais uma prova.
D-3 foi
até a parede e abriu a porta de correr de um armário embutido.
— As
armas que temos bastam para rechaçar qualquer ataque dos robôs.
Além disso, todos os chefes de seção estão armados. Seria inútil
continuarmos a manter nossos planos em segredo. Vamos apresentar uma
declaração de guerra formal ao Mestre.
Antes que
os outros pudessem manifestar sua concordância, ouviu-se o zumbido
do interfone. Ps-5 comprimiu o botão. A tela iluminou-se e M-4
disse:
— Estou
falando da seção de laboratório. Acabamos de ganhar um aliado com
o qual não contávamos. Surgiu de repente entre nós. Vem de outra
nave. Não é como nós...
— De
outra nave? — interrompeu o psicólogo em tom de perplexidade. —
O que quer dizer isso? Existe mais alguma nave além da nossa?
— O
Universo está cheio de naves — disse M-4. — Existem mundos
habitados e verdadeiros impérios estelares. Mas isso é tão
complicado que não posso explicar em poucas palavras. Quando os
problemas terminarem, o desconhecido explicará.
— Ainda
não compreendi. Não notamos a presença de outra nave. Onde ela
está? E como foi que o desconhecido chegou aqui?
— Ele
mesmo lhes contará. Não se espantem quando o virem. Eu já lhe
disse que não é como nós. É menor e tem o corpo coberto de pêlo,
mas fala nossa língua.
Ps-5 teve
uma suspeita. Prosseguindo em tom cauteloso, disse:
— Talvez
nem venha de outra nave. Em nosso mundo existe muita coisa que ainda
não conhecemos. Nas regiões inexploradas...
O rosto de
M-4, que aparecia na tela, foi substituído por outro. Ao vê-lo, o
psicólogo calou-se abruptamente. Pasmo de espanto fitou os olhos
castanhos de uma criatura como nunca vira igual. Não descobriu o
menor sinal de maldade nesses olhos, apenas uma alegre curiosidade. O
que mais chamou a atenção de Ps-5 foi o dente roedor.
— Você
pode acreditar no que M-4 acaba de dizer — disse o forasteiro com
uma voz fina que em outras circunstancias teria provocado uma risada
de Ps-5. — Não, não tenho nada que ver com seu Mestre. Quem é
mesmo esse Mestre?
Ps-5
estreitou os olhos.
— Você
sabe ler pensamentos? — perguntou em tom assustado.
— Sei —
disse Gucky. — E sei fazer outras coisas. Irei até aí e levarei
M-4. Não demoraremos; no máximo levaremos cinco segundos.
— Cinco
segundos... — disse Ps-5 em tom de perplexidade. O setor de
laboratório ficava a mais de oitocentos metros da sala de comando.
Mas o
rosto de Gucky já havia desaparecido. No mesmo instante surgiu um
fenômeno no centro da sala de comando!
O ar
começou a tremeluzir e dois vultos saíram dos círculos
turbilhonantes: M-4 e Gucky.
— Cá
estamos! — piou o rato-castor às costas do psicólogo, que
continuava a fitar a tela de imagem. Virou-se como se tivesse sido
picado por uma tarântula e fitou os dois intrusos como se fossem
fantasmas.
— Pelo
espírito dos antepassados...! — exclamou em tom de espanto.
D-3 tivera
oportunidade de assistir à materialização. Não conhecia
explicação do “milagre”,
mas tinha bastante imaginação para formar uma idéia sobre as
faculdades de outros seres. A criatura à sua frente não infundia
medo; parecia pacata e inofensiva.
— Deixe
seus antepassados em paz — disse Gucky, dirigindo-se ao psicólogo
e aguçou os ouvidos em direção ao camarote do comandante. — Ali
há dois homens. Quem são eles?
— Como é
que você sabe? — perguntou Ps-5 em tom de espanto, esforçando-se
para recuperar o autocontrole.
— Eu já
lhe disse que sei ler pensamentos — disse Gucky. — Ah, já sei. É
o comandante e um jovem oficial. Estão conversando, mas a conversa
não faz muito sentido. Até parece que se dirigem a uma terceira
pessoa que não os ouve e não responde.
Ps-5 já
se recuperara da surpresa. Seu cérebro voltou a funcionar
normalmente. Compreendeu que o pequeno forasteiro à sua frente sabia
ler pensamentos. Talvez seria essa a chance de desmascarar o Mestre.
Ficou tão alegre por ter encontrado um caminho que não ouviu as
últimas palavras de Gucky.
— Os
dois homens estão conversando com o Mestre... — começando a
explicar em poucas palavras o que estava acontecendo na sala
contígua.
Logo
depois concluía com as seguintes palavras:
— Eles
dominam nosso povo há tempos imemoriais; além disso, o governo é
exercido por intermédio do comandante. Eles nos deram as leis que
regem nossa vida e nossa morte. Vivem em alguma região desconhecida
desta nave e só aparecem sob a forma da pessoa que chamamos de
Mestre.
— Surgem
numa tela de imagem — disse Gucky. — Preciso dar uma olhada
nisso!
Dali a
alguns segundos, entrou juntamente com Ps-5 e com D-3 na sala em que
ficava a grande tela de onde o rosto do Mestre os fitava.
Por alguns
minutos, Gucky acompanhou a palestra que se desenvolvia em círculo,
sem que se chegasse a qualquer resultado positivo. O Mestre
recusava-se obstinadamente a dar qualquer explicação. Limitava-se a
exigir obediência e o restabelecimento do estado anterior.
Com os
olhos semicerrados, o rato-castor escutava. Seu dente roedor
desapareceu. Mantinha-se imóvel embaixo da tela e fitava a imagem.
Mas por mais que se esforçasse para identificar, entre os impulsos
mentais que investiam sobre ele, os do Mestre, seus esforços não
produziram o menor resultado.
Não era
nada fácil identificar os pensamentos de um homem que aparecia na
tela. O corpo deste se encontrava em outro ponto, que tinha de ser
determinado. Mas, até então, Gucky nunca levara mais de dois
minutos para localizar um interlocutor que se achasse nessas
condições.
Nunca
levara; mas agora estava levando.
Concentrou-se
durante dez minutos. Depois sacudiu a cabeça e caminhou
tranqüilamente para perto da imagem. Ps-5 esclareceu o comandante e
O-l com poucas palavras, e os mesmos se mantiveram em atitude de
expectativa.
O Mestre
interrompeu o discurso que estava desfiando como se o tivesse
decorado. Depois de uma ligeira pausa perguntou:
— Quem é
você?
— Era o
que eu queria perguntar a você — piou o rato-castor. — Onde
está? Na nave?
Enquanto o
Mestre respondia, Gucky mais uma vez se esforçou em vão para
identificar a fonte dos pensamentos. A explicação só podia ser
uma...
— Sou o
Mestre, o representante dos antepassados que construíram esta nave e
a fizeram decolar. Assim que a nave chegar ao destino, certos
segredos serão esclarecidos. Até lá exijo obediência. Mas você
não é um dos nossos. Quem é você?
Gucky já
tinha certeza, mas assim mesmo queria uma prova definitiva.
— Talvez
seus objetivos sejam bons, mas será que você julga conveniente que
o homem seja dominado pela máquina? Por que é que todos ignoram as
origens do povo? Por que é que ninguém sabe que os indivíduos
desta nave são arcônidas?
O rosto do
Mestre demonstrou espanto, mas sua voz continuou tranqüila e
indiferente:
— A
máquina merece mais confiança que o homem, pois está menos sujeita
a erros. Mas agora eu lhe faço uma pergunta: o que é que você sabe
a respeito dos arcônidas?
Gucky
acenou com a cabeça. Esperara exatamente isso.
Sem dar a
menor atenção à imagem do Mestre, que o fitava rigidamente,
virou-se para os homens, ou melhor, para os chefes da revolução,
que aguardavam tensamente suas palavras.
— Acho
que no futuro não precisaremos entrar mais nesta sala. Não
precisaremos tomar conhecimento da existência do Mestre que alega
ser o representante dos antepassados. Acredito que, na oportunidade
em que esta nave decolou, alguma coisa não deu certo. O que está
acontecendo não estava previsto. Bem, não demoraremos em descobrir.
Ps-5
adiantou-se e parou à frente de Gucky.
— Simples
palavras não poderão eliminar o Mestre. Ele está ali, na tela; vê
e ouve tudo que se passa.
— Até
que você tem razão — disse Gucky em tom irônico. — Por isso
mesmo não entraremos mais nesta sala. Depois disso, o Mestre estará
cego e surdo. E também estará mudo.
Por
enquanto não entendiam o que Gucky queria dizer, mas aceitaram a
sugestão do mutante.
Fecharam a
porta da sala e voltaram à sala de comando. Uma vez lá, o
comandante perguntou.
— E
agora?
O
psicólogo apontou para D-3.
— Talvez
esteja na hora de pensarmos na terrível descoberta que fizemos no
centro da nave. Deve haver alguma ligação entre aquilo e o Mestre.
Nossos antepassados estão dormindo por lá...
Gucky
esperou que o psicólogo contasse sua história e viu que o quadro se
completava. Restava saber qual era a finalidade daquilo. Se é que
havia alguma finalidade!
— Acho
que vou dar uma olhada nisso — disse o rato-castor assim que Ps-5
concluiu seu relato. — Aproveitaremos a oportunidade para deixar o
Mestre sem energia.
— Deixar
o Mestre sem energia?! — repetiu M-7 em tom de espanto.
— Isso
mesmo. Será que vocês podem imaginar um robô que funcione sem
energia? Pouco importa que o rosto desse robô seja de metal ou de
plástico.
Enquanto
se deleitava com o espanto provocado pela revelação, Gucky exibiu o
dente roedor.
Com uma
única frase, desvendara o grande mistério.
5
O técnico
Trinta e Nove só caiu durante um segundo, mas este segundo
transformou-se numa eternidade.
Teve
oportunidade para ter uma percepção nítida do fim que o aguardava.
E esse fim
parecia ser muito diferente do que ele supusera!
O
escorrega não terminava na fogueira atômica do reator. Enquanto
T-39 descia em direção ao centro de gravitação da nave, a
temperatura não subia, mas baixava ininterruptamente. Numa questão
de segundos, começou a fazer um frio insuportável.
O técnico
ainda não sabia que seu corpo já estava sendo atingido pelo sopro
do gelo eterno que avançava rapidamente pelas suas carnes.
Enquanto
caía velozmente, percebeu abaixo de si um gigantesco pavilhão no
qual havia vigias imóveis à sua espera. Estes se encontravam
postados em torno de uma tina retangular feita de um metal branco que
lembrava o mármore. Ao que parecia, a tina estava cheia de água
sobre a qual havia uma névoa.
T-39
mergulhou na névoa e, depois disso, na água.
Não
chegou a sentir o tremendo frio que congelou seu corpo e esfacelou a
roupa sintética...
Era o
momento pelo qual os vigias haviam esperado.
Moveram-se
lentamente em direção à tina. Pegaram instrumentos parecidos com
varas e puxaram o corpo para junto de si. Depois retiraram-no
cautelosamente do líquido.
T-39 foi
colocado numa maca especialmente trazida ao pavilhão. Os robôs
agiam com a maior cautela, pois sabiam que qualquer descuido poderia
quebrar o corpo congelado.
Dois
guardas levaram a maca para fora.
Os outros
continuaram postados junto à tina, onde esperavam a próxima vítima.
Nem
desconfiavam de que a vítima que acabavam de retirar do líquido era
a última.
*
* *
Ps-5, D-3
e R-75 acompanharam Gucky, enquanto os outros permaneceram na sala
central, com o comandante, para que pudessem alarmar a tripulação,
caso houvesse uma revolta dos robôs.
R-75
apontou para a parede.
— Foi
aqui que abrimos o buraco. Os esquifes ficam atrás desta parede. Mas
os guardas armados também estão à espera por lá.
Gucky
acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
— Acho
que terão uma surpresa. Vocês estão fortemente armados e lhes
armarão um fogo de artifício que será um deleite para seus olhos
de lente. Quanto a mim, bem, acho que vou ter uma boa brincadeira.
— Quer
brincar? — o psicólogo lançou um olhar de dúvida para Gucky.
Até
então, Ps-5 não recebera qualquer resposta satisfatória às
seguintes perguntas: quem era e de onde vinha o rato-castor. Ps-5
limitara-se a aceitar o fato de ter encontrado mais um aliado.
— Você
acha que conseguirá espantar os guardas com suas brincadeiras?
— Minha
brincadeira tem o nome de telecinese — explicou Gucky enquanto via
R-75 abrir a chapa da parede a maçarico. — Basta concentrar os
pensamentos para descolar a matéria sem pôr as mãos nela. Com isso
já pus fora de ação verdadeiros exércitos de robôs.
Aquilo era
um exagero. Mas verdade seja dita: por meio de sua capacidade
telecinética Gucky já dominara muitos inimigos que poderiam tê-lo
massacrado com os punhos.
O pedaço
de metal retirado da parede caiu ruidosamente ao chão.
— Via de
regra, os guardas levam cerca de uma hora para aparecer — disse
Ps-5 em tom apressado. — É possível que desta vez sejam mais
rápidos.
— Bem,
veremos — piou Gucky e espremeu-se pela abertura na parede assim
que as bordas esfriaram um pouco. — Vamos logo, amigos.
Desta vez,
não precisavam vigiar a retaguarda. Dirigiram sua atenção para a
frente, onde as longas fileiras de blocos de vidro, com as pessoas
adormecidas, continuavam a aparecer na penumbra.
Gucky deu
alguns passos e parou à frente do primeiro bloco. Saltou para a
borda do recipiente e fitou o corpo nu do arcônida. Para ele, não
havia nenhum mistério naquilo que permanecia oculto aos seus
companheiros. Antes de entrar no pavilhão, já sabia o que estava
sendo feito ali; apenas não conhecia a finalidade daquilo.
Ps-5
também se aproximou e fitou a pessoa adormecida.
Estreitou
os olhos e lançou um olhar de perplexidade para D-3.
— Dê
uma olhada nisso — disse com a voz embaraçada. — Depois diga se
estou louco.
O médico
acenou lentamente com a cabeça.
— Você
não está louco — disse com um tremor na voz. — Sei
perfeitamente o que você quer dizer. Mas antes de cometermos um
engano vamos procurar a prova. Em qual dos blocos estava guardada a
moça?
— No
bloco que se segue a este — respondeu Ps-5 e caminhou até o bloco
vizinho. Olhou para dentro do mesmo e recuou apavorado. — Sim, é
isso mesmo. Foram trocados. Por quê?
Gucky, que
além de acompanhar a conversa lia os pensamentos dos dois homens,
levou apenas alguns segundos para descobrir toda a história.
Procurou certificar-se:
— Vocês
têm certeza de que não há nenhum engano? É a mesma sala?
— Temos
certeza absoluta — respondeu Ps-5. — Há poucos dias havia outras
pessoas nestes recipientes.
Gucky teve
de confessar que já não compreendia mais nada. Há um instante
tivera a impressão de que, no setor central, um grupo de arcônidas
hibernava no frio. O líquido turvo parecia indicar esse fato. Devia
suportar temperaturas bem abaixo de zero sem modificar seu estado,
que continuava líquido. Até ali estava tudo em ordem.
Mas por
que de repente eram outras as pessoas que se encontravam nesses
estranhos recipientes?
Subitamente
o raciocínio de Gucky foi interrompido pela exclamação do médico:
— Conheço
este homem. É T-39; eu o tratei várias vezes. Ocupa o lugar da
moça. Mas...
O
psicólogo estremeceu e recuou apavorado. Em seu rosto havia uma
expressão de horror e uma indagação.
— Há
uma hora o comando da morte levou o técnico e o empurrou para dentro
do conversor — disse em tom seco. — Ele está morto.
Aos
poucos, Gucky começou a orientar-se em meio aos fatos.
— Há
uma hora? Estava condenado à morte? E aqui está deitado à nossa
frente? Então, Ps-5 e D-3, será que vocês já começam a
compreender?
Os dois
homens lançaram um olhar de perplexidade para o rato-castor.
— Pois é
simples — piou Gucky em tom exaltado. — Eles sempre lhes contaram
que vocês têm de morrer quando chega a hora. Na realidade, ninguém
morre. Já sei que as pessoas condenadas à morte não vão parar no
reator, mas sim na câmara de congelação.
Foi o que aconteceu com este técnico. Acho que até aí o mistério
está esclarecido. Mas vemo-nos diante de outra indagação. O que
aconteceu com as pessoas que se encontravam neste recipiente antes
que o mesmo fosse ocupado por T-39? Devemos descobrir isso, pois só
assim poderemos acompanhar a pista.
Ps-5
acenou lentamente com a cabeça. Embora fizesse bastante frio,
começou a transpirar. De um instante para outro, os vigias deixavam
de ser impiedosos homens-máquina para transformarem-se em
benfeitores.
Mas qual
seria a finalidade daquilo?
Gucky
percebeu o conflito que lavrava na mente do psicólogo e disse:
— É
perfeitamente possível que tenhamos cometido uma injustiça contra
os robôs, mas afinal estes permitiram que vocês ficassem na
incerteza. Acho que não importa o que irá acontecer daqui em
diante. Vim apenas por ter recebido um pedido de socorro transmitido
por via telepática. Este pedido foi expedido por um homem que corria
perigo de vida. Provavelmente foi este homem que vocês chamam de
T-39. Ao que parece, ainda está vivo e continuará vivo por muito
tempo. Suponho que viva até que esta nave chegue ao destino. Quer
dizer que posso voltar à minha nave e deixar que vocês continuem
como antes.
— Em
hipótese alguma desejamos que o estado anterior volte a reinar —
protestou o médico. — No futuro cuidaremos do nosso destino; não
nos deixaremos governar pelas leis do Mestre. Quem é mesmo esse
Mestre?
— Antes
de despedir-me de vocês, pretendo descobrir isso — disse Gucky com
a voz tranqüila. — Esperem aqui mesmo.
Antes que
alguém pudesse responder, o rato-castor desapareceu.
Ficaram a
sós na penumbra do pavilhão.
*
* *
Enquanto
isso, na sala de comando, a situação começava a tornar-se crítica.
Mal Gucky
e os três homens partiram para a expedição, tiveram de dar o
alarma. Anunciou-se que os vigias se reuniam e marchavam em direção
à central. Atiravam contra tudo que se interpunha em seu caminho.
Era a
declaração de guerra!
O
comandante deu ordens de resistir. Os chefes das diversas seções
distribuíram as armas e organizaram os grupos de combate. Acabara de
chegar o temível momento do confronto aberto.
Enquanto o
comandante transmitia suas instruções, a ligação pelo interfone
foi interrompida de repente. O suprimento de energia fora suspenso.
O
verdadeiro chefe acabara de desferir seu golpe.
Mas
desferira o golpe alguns minutos depois da hora adequada.
Os homens
revoltosos já sabiam o que fazer.
Um dos
grupos de choque, dirigido por M-4 e M-7, correu à frente dos vigias
e chegou antes deles ao corredor que dava para a sala de comando. Uma
vez lá, montaram uma armadilha e passaram a aguardar os robôs num
estado de tensão febril.
Não
esperaram por muito tempo.
Os vigias
vieram andando com os braços em ângulo reto e as armas prontas para
disparar.
Os dois
mecânicos sabiam que não haveria mais lugar para as artimanhas.
Agora só importava saber quem era mais rápido e mais forte.
Os vinte
vigias, marchando na devida ordem, ofereciam um quadro apavorante. A
vontade de matar parecia ter-se gravado em suas cabeças metálicas,
embora os rostos permanecessem impassíveis.
M-7
esperou que a primeira fila passasse pelos atiradores ocultos e se
encontrasse a menos de dois metros do lugar em que estava, para dar o
sinal combinado.
O raio
energético por ele disparado derrubou o primeiro colosso e atirou-o
contra a parede. A detonação seguinte destruiu mais alguns robôs.
Os raios
energéticos chiavam de todos os lados, colocando fora de combate os
desajeitados robôs. Foi tudo muito mais fácil e rápido do que
esperavam. Antes que os vigias tão temidos pudessem organizar a
defesa, estavam todos destruídos.
Era bem
verdade que a luta também custara a vida de três homens.
A porta da
sala de comando abriu-se. Acompanhado de O-l e O-2, o comandante saiu
e ficou apavorado com o cenário à sua frente. Parecia dominado pelo
pânico enquanto dizia:
— Foi o
primeiro ataque dos vigias. Quanto tempo demorará até que voltem?
M-7 disse
com um sorriso forçado, que ao mesmo tempo exprimia certo alívio.
— Estes
aqui não atacarão mais ninguém — disse, apontando para os corpos
metálicos imobilizados. — Acho que conseguiremos. Quantos vigias
existem ao todo?
— Pelo
que sei, devem ser mais ou menos cem — respondeu o comandante em
tom hesitante. Teve de confessar que não sabia exatamente. — E por
enquanto ainda não ganhamos a batalha.
— Sabemos
disso — respondeu M-7 e fez um sinal aos seus homens. — Acontece
que não estamos sós. Em todos os cantos da nave nossos grupos de
choque esperam os vigias. Daqui a pouco seremos os donos desta nave e
poderemos viver nossa vida, até atingirmos nosso objetivo.
O
comandante fez um gesto e voltou à sala de comando. Os dois oficiais
seguiram-no.
— E
agora? — perguntou O-l com a voz insegura. — A energia para o
intercomunicador falhou. Estamos cegos e mudos...
— Vou
dar uma olhada para ver o que diz o Mestre — respondeu o comandante
e abriu a porta que dava para a sala ao lado. — Talvez ele nos
ofereça a capitulação. Nunca podemos saber...
Mas quando
entrou na sala e contemplou a grande tela quase caiu de susto.
Quem o
fitava, com o rosto sorridente e as orelhas em pé, era a estranha
criatura que tão inesperadamente acorrera em seu auxílio.
Gucky
ocupara o lugar do Mestre!
*
* *
O
rato-castor conhecia perfeitamente esse tipo de nave esférica, da
qual o Império Solar possuía várias unidades. Sabia orientar-se em
todos os cantos da mesma.
Ps-5 lhe
dissera que devia haver mais nove ou dez salas ligeiramente curvas, e
que, em algumas dessas, talvez também estivessem guardados os
recipientes com pessoas adormecidas. Mas Gucky sabia fazer cálculos.
Aquela nave errava pelo espaço há vários milênios. As gerações
se sucediam, e os indivíduos iam “desaparecendo”
no interior do conversor.
Era ao
menos o que sempre se acreditara. Mas agora as coisas mudavam de
figura...
As pessoas
condenadas à morte não estavam mortas. Viviam, sendo conservadas
para o futuro. Os arcônidas do interior dos recipientes de vidro não
eram apenas os antepassados, mas também os que haviam morrido neste
meio tempo.
Gucky
conhecia a nave esférica e soube calcular perfeitamente que os
recintos, onde eram guardados os blocos de vidro, não formavam o
centro da nave, mas circundavam-no. Ainda havia um espaço livre, em
forma esférica, com um diâmetro de cerca de duzentos metros.
Se esse
espaço fosse bem dividido, nele caberiam mais de cem mil pessoas.
A idéia
fez Gucky estremecer. Nunca ninguém se lembrara dessa possibilidade.
A pessoa que concebera esse plano tresloucado devia ser louca, ou
então era um gênio em estado de desespero.
E ele,
Gucky, acabara de romper a corrente!
Saltou às
cegas, mas sempre com um máximo de concentração. Ao
materializar-se, percebeu imediatamente que seu raciocínio fora
correto.
Sentiu um
frio insuportável que atravessou seu pêlo e investiu contra a pele.
Sabia que não poderia permanecer ali por mais de um segundo, pois do
contrário seria vitimado pelo frio. E um ligeiro olhar bastou para
que percebesse a verdade.
Milhares
de arcônidas, aparentemente mortos, estavam empilhados na gigantesca
sala. Eram mulheres e homens nus. Mesmo que Gucky não soubesse que
essas pessoas apenas estavam dormindo, aquela visão não o teria
deixado mais assustado. Era aqui que estavam as gerações que há
milênios desapareciam nas profundezas da nave.
Por quê?
Ninguém
sabia dar uma resposta satisfatória.
Logo
teleportou-se e foi parar num recinto recheado de máquinas que
zumbiam. Esse recinto ficava fora do círculo em que se encontravam
os recipientes de vidro. Os robôs caminhavam silenciosamente de um
lado para outro, sem tomar conhecimento de sua presença. Verificavam
os geradores e os quadros de comando. Devia ser a gigantesca sala de
máquinas do centro da nave.
Nos fundos
havia uma porta larga; verificou que esta não estava fechada.
Gucky
atravessou a sala e entrou rapidamente no recinto que ficava atrás
da mesma. Suas suspeitas se confirmaram.
Viu diante
de si a solução do enigma...
*
* *
Tanto Ps-5
como D-3 não se lembraram de que os robôs são capazes de aprender.
Nem mesmo R-75 teria desconfiado disso. Por isso, o próximo ataque
veio colhê-los de surpresa.
De início
ouviram o arrastar de pés vindo dos fundos da sala. A porta abriu-se
lentamente e alguns vigias entraram. Caminharam devagar na direção
em que se encontravam.
O
psicólogo deu mostras de pânico.
— Estão
chegando! Onde será que ficou nosso amiguinho? Se não aparecer,
teremos de fugir sem ele.
— Poderemos
resistir por alguns minutos — garantiu o médico e pegou a arma. —
Procuraremos abrigar-nos atrás dos recipientes de vidro. Não se
atreverão a destruí-los.
R-75
juntou-se a eles, mas depois de algum tempo resolveu fugir, enquanto
era tempo. Correu em direção à saída, e foi recebido por um raio
fulgurante, que apagou sua consciência e sua vida.
Dois robôs
colocados junto à saída cortavam a retirada.
Ps-5 viu
R-75 morrer. Quando viu que estavam encurralados, seu coração quase
parou de bater.
Os outros
vigias aproximaram-se e pararam.
Mais uma
vez fizeram ouvir sua voz fria e metálica.
— Não
resistam! Vocês penetraram nas regiões proibidas da nave e não
escaparão à morte. É o que diz a lei.
Ps-5
recobrou o ânimo.
— Essa
lei não existe mais! — exclamou em voz alta, na esperança de que
o rato-castor pudesse ter a atenção despertada para o perigo. Não
sabia onde estava o aliado. Talvez pudesse ouvi-lo. — Nem pensamos
em capitular. Lutaremos até o fim.
— É
inútil resistir.
Abriram
fogo sem mais aviso, mas os disparos passaram acima do alvo, pois não
desejavam atingir os recipientes. Mas logo reconheceram a situação.
Os guardas começaram a andar, tentando contornar o obstáculo, isto
é, os recipientes. Os robôs que se encontravam junto à saída
também se aproximavam com as armas levantadas.
Os dois
homens olharam-se por algum tempo e acenaram com a cabeça.
Se
tivessem de morrer, não queriam que isso acontecesse em vão. Haviam
desencadeado a revolta e posto as pedras para rolar. Sua vida
preenchera uma finalidade, e a mesma coisa deveria acontecer com sua
morte.
Concentraram
seu fogo sobre os vigias.
Mas estes
não responderam ao fogo.
Mantiveram-se
imóveis em sua nova posição, com as armas levantadas.
Mas foi só
isso.
Dois ou
três robôs caíram sob o fogo dos raios energéticos. Depois disso
os dois homens suspenderam o fogo. Por que destruir um inimigo que
não se defendia mais?
— Por
que não lutam? — gritou Ps-5 com a voz nervosa. — O que
aconteceu?
A estas
palavras seguiu-se um silêncio completo. Ninguém respondeu.
De
repente, o ar começou a tremeluzir entre o lugar em que se
encontravam e os robôs. O rato-castor voltou a aparecer. Sem dar a
menor atenção aos inimigos, arrastou os pés para junto do
psicólogo e piou em tom orgulhoso:
— Estes
estão liquidados. Desliguei a força na sala de máquinas. Estes
robôs são teleguiados. Vocês estão livres.
— Teleguiados?
— indagou Ps-5 em tom de perplexidade. — O que significa isso? O
que foi que você descobriu? Por onde andou?
Um sorriso
alegre surgiu no rosto de Gucky.
— Nós
nos encontraremos na sala de comando. Esperem-me lá. Ainda tenho de
liquidar outro assunto.
E
desapareceu de novo.
6
— Dei
uma olhada no Mestre — disse Gucky dali a meia hora aos homens
reunidos na sala de comando. Todos os oficiais e chefes de seção
haviam comparecido para serem informados sobre a nova situação. —
Consiste num filme de plástico sincronizado com um robô falante.
Com isso, aqui na tela, surge a impressão de que uma pessoa viva
está falando diante da câmara. Na verdade quem fala é um robô. É
um processo bastante complicado, e durante vários milênios o
espetáculo produziu os efeitos desejados. Era esse robô-imagem que
dava as ordens e comandava a nave. Por isso tinha-se a impressão de
que pelo menos um dos antepassados continuava vivo e dirigia o vôo
da nave. Na verdade, todos os antepassados estão vivos, embora não
tenham uma vida consciente. Foram postos a hibernar no frio e só
serão despertados quando a respectiva maquinaria for ligada.
“A morte
no conversor foi apenas um pretexto. Todas as pessoas levadas pelo
comando sinistro foram congeladas, ficaram em observação durante
algumas semanas no interior dos recipientes de vidro e depois foram
literalmente empilhadas no depósito. Dessa forma, as pessoas
adormecidas ocupam menor lugar. No centro da nave repousam cerca de
cem mil criaturas. Isso corresponde ao núcleo de uma população
planetária, e era o que se planejava. Mas houve uma coisa que não
correu segundo os planos...”
Gucky fez
uma ligeira pausa para deleitar-se com o espanto dos ouvintes. Eram
arcônidas, conforme suspeitara, mas por que afirmar-lhes isso agora?
Por que teriam de saber que sua raça dominava a Via Láctea, ou ao
menos a dominara até que foram atingidos pelo destino que...?
Um belo
dia, eles mesmos descobririam o segredo.
— Durante
os primeiros séculos do vôo, que seria apenas uma experiência, os
robôs colocados a bordo obedeciam ao comandante. Um dia enganaram a
pessoa que se encontrava no comando e investiram o sucessor em suas
funções. Recorreram ao transmissor de imagens para transmitir-lhe
as instruções que vigoram até hoje.
Os homens
ouviram-no em silêncio. Não estavam compreendendo nada. Gucky
prosseguiu:
— Não
sei por que a nave voa com uma relativa lentidão. É possível que
as instalações de hipersalto tenham entrado em pane, motivo por que
a viagem teve de prosseguir apenas em vôo normal. Acontece que a
nave também não conhece qualquer tipo de astronavegação ou
pilotagem. Se a presente rota for mantida, dentro de dois séculos a
nave penetrará no campo de gravitação de um grande sol circundado
por vinte planetas. Mandei verificar isso pelo computador de minha
nave. Quer dizer que dentro de duzentos anos, aproximadamente, vocês
chegarão ao destino. E depois disso, acontecerá aquilo que seus
antepassados desejavam. Vocês entrarão em órbita em torno do sol.
O processo que fará despertar as pessoas congeladas será iniciado
automaticamente. Essas pessoas despertarão uma após a outra. Depois
de algum tempo, a nave pousará. Os homens povoarão o planeta. Uma
nova civilização terá início, se é que o planeta pode sustentar
a vida.
O
comandante lançou um olhar de perplexidade para Ps-5. Muito confuso,
perguntou:
— E se
esse planeta não puder sustentar a vida?
Gucky
interrompeu-o com um gesto.
— Não
se preocupem. É possível que seus antepassados tenham escolhido a
rota por simples acaso, mas a mesma justifica certas esperanças. O
sol de que acabo de falar possui pelo menos três planetas adequados
à vida.
— Quem
foi o Mestre? — perguntou o médico em tom curioso.
Mais uma
vez, o rato-castor sorriu.
— Um
enorme computador que fica no centro da nave, e que assumiu o poder
há milhares de anos. Tinha a intenção de pousar no planeta,
despertar as pessoas adormecidas e transformá-las em escravos.
Pretendia formar uma verdadeira civilização de robôs. O planeta,
colonizado por vocês, se transformaria no centro de um gigantesco
império que seria governado pelo computador. Seria uma bela
surpresa; ainda bem que a mesma não se concretizou. No fundo devemos
isso a um único homem.
“Refiro-me
a T-39, que ainda dorme no seu esquife de vidro. Se o mesmo não
tivesse pensado em sua morte, e se eu não me encontrasse por perto,
tudo poderia ter saído muito diferente. Os robôs haviam notado a
revolta que se esboçava, e estavam preparando sua reação. No
último instante consegui desligar a central energética. Se não
dispusesse da capacidade telecinética, isso teria sido totalmente
impossível. Basta realizar uma pequena reprogramação, e a energia
pertencerá a vocês, ou seja, aos humanos. Com isso, a missão que
tenho de cumprir aqui estará concluída; trata-se de uma missão que
me foi trazida pelo acaso. Talvez ainda nos encontremos. Talvez
consigamos conferir à nave de vocês a velocidade que lhes permita
atingir o planeta dentro de alguns anos. Talvez... conforme acabo de
dizer.”
O
comandante adiantou-se. Estendeu as mãos para Gucky.
— Seus
pensamentos são muito humanos, embora você não pertença a nenhuma
raça humana — disse muito comovido. — Nós lhe agradecemos.
Transmita nossos cumprimentos ao seu povo.
Gucky fez
um gesto condescendente. A idéia de ser considerado o representante
da Terra divertia-o.
— Faremos
o possível para ajudá-los e sempre estaremos empenhados em que
entre nós reine a paz eterna. Mas tenham cuidado para que os robôs
continuem sempre a ser seus servos; nunca mais deverão assumir o
poder. Antes de retirar-me, ainda falarei com os técnicos e os
cientistas. Se vocês não puderem contar com os robôs
reprogramados, estarão perdidos. Quanto ao Mestre — um sorriso de
triunfo surgiu em seu rosto — bem, ele está liquidado. O acesso às
instalações frigoríficas está livre, e um de vocês terá de
ocupar o lugar do Mestre.
“Deixem
que as pessoas adormecidas descansem até que vocês cheguem ao
destino. Se algum falso alarma os despertasse, haveria uma catástrofe
de proporções inimagináveis. Nestas naves cabem mais de cem mil
pessoas adormecidas, mas poucos milhares de pessoas vivas. Como vêem,
o raciocínio dos robôs também se desenvolve segundo as trilhas
humanas. Eles tomaram todas as providências para que apenas alguns
milhares de pessoas estivessem vivas de cada vez. E deixaram que
vivessem por muito tempo: aquilo que vocês designam como uma geração
corresponde a cem anos em nosso planeta. Os padrões de tempo estão
bastante deslocados.”
Gucky
respondeu a mais algumas perguntas, orientou os técnicos sobre as
tarefas que teriam de cumprir e despediu-se.
— Passem
bem, amigos, e procurem ser dignos da liberdade reconquistada.
Obedeçam ao comandante, mas nunca se submetam às ordens de uma
máquina. O homem sempre deve ser o senhor da máquina; no momento em
que esta “começa
a pensar”,
inicia-se um terrível perigo. Mas, embora a máquina saiba ser mais
lógica, a longo prazo ela nunca consegue ser mais inteligente que o
homem. Passem bem...
Diante dos
olhos perplexos da assistência, Gucky desmanchou-se como um espírito
bondoso que, uma vez cumprida sua missão, retornasse ao reino do
invisível. O que ficou para trás foi um novo presente, que garantia
um futuro razoável.
A porta
abriu-se e um vigia entrou.
O
comandante dirigiu-se ao mesmo e disse:
— O
setor RC está sujo. Providencie para que o comando de limpeza
imediatamente inicie o trabalho.
A voz do
robô soou com a monotonia de sempre:
— A
ordem será executada imediatamente. Há outras instruções, senhor?
O
comandante sorriu.
— Sim,
há muitas instruções. Você as receberá dos setores competentes.
Retire-se.
O robô
saiu sem dizer uma palavra.
*
* *
O cadete
Brugg quase morreu de susto, quando uma voz soou às suas costas:
— Será
que você já se esqueceu de mim, cadete?
Gucky
exibiu o dente roedor e foi arrastando os pés em direção ao cadete
perplexo. Plantou-se à sua frente, apoiando-se sobre o rabo.
— Então?
— Pensei...
— principiou o cadete muito confuso, procurando em vão uma
explicação sobre o lugar em que o rato-castor estivera nestas
últimas horas. — Pensei...
— Ora
esta! Quem não sabe pensar deve deixar isso para outras pessoas —
recomendou Gucky em tom paternal. Subitamente sua voz assumiu um tom
penetrante: — Onde estão as cenouras, meu filho?
O cadete
Brugg tinha quase o dobro do tamanho de Gucky, mas preferiu não
responder. Girou sobre os calcanhares. Sem dizer uma palavra entregou
dali a dez segundos o saco de plástico a Gucky, e este desapareceu
tão depressa como viera. Brugg viu-se novamente a sós em seu
“reino”,
mas não se sentia como um rei. Para evitar novos problemas preparou
nada menos de cinqüenta quilos das malditas cenouras, pois se fosse
necessário pretendia...
Enquanto
isso, Gucky materializava-se na sala de comando.
Ao
contrário de Brugg, desta vez Wilmar Lund não se assustou.
— Então?
— perguntou. — O que houve com essa nave? Afinal, você demorou
muito. Quase três horas...
— O que
são três horas para quem tem de corrigir uma história de dez
milênios? — perguntou Gucky por sua vez.
Gucky não
pretendia informar Lund sobre tudo que vira e soubera. Só Perry
Rhodan poderia tomar uma decisão sobre isso. Uma nova civilização
poderia representar um apoio importante para o Império Solar, mas
também poderia acarretar um perigo.
— Essa
nave está à deriva. Um belo dia teremos de cuidar dela.
— Se é
que conseguiremos encontrá-la.
— Os
dados já foram armazenados no computador — disse Gucky, sacudindo
o saco de plástico com as cenouras.
O
comandante Lund esteve a ponto de irritar-se, mas resolveu calar-se.
Logo
depois, fez o registro no diário de bordo:
Data:
...Posição CM-13-HB. Houve um atraso no vôo porque um couraçado
arcônida que está à deriva cruzou nossa rota. O exame não trouxe
qualquer resultado. Dados relativos à rota do barco arcônida foram
armazenados. O próximo salto será realizado dentro de...
*
*
*
Gucky
sempre detestou os robôs. E, mais uma vez, fazendo uso de suas
“brincadeiras”, esclareceu a situação...
Em
Xeque-Mate: Universo, título do próximo volume da insuperável
série Perry Rhodan, novas emoções o aguardam...

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