sábado, 20 de agosto de 2016

P-081 - A Nave dos Antepassados - Clark Darlton [Parte 3]

O cadete Brugg começou a acreditar que seu visitante só sabia sacudir a cabeça. Teria de adivinhar o que deveria oferecer-lhe. Subitamente abriu o pequeno armário de mantimentos e descobriu os restos de seu almoço, guardados num prato. Era uma confusão de verduras, e um pedaço de carne.
Veja só que gostosinho! — disse Brugg e colocou a bacia diante do nariz de Gucky.
O rato-castor não acreditou no que seus olhos viam!
Nunca ninguém lhe havia oferecido uma coisa dessas. Era pior que o mingau que lhe fora oferecido por Tchim-La-Djen e que depois soubera ser... Não! Era preferível não pensar nisso.
Gucky engoliu a recordação. Seu dente roedor desapareceu de repente. Deixou-se cair de quatro, segurou a bacia e a atirou para dentro da lixeira aberta. Depois voltou a pôr-se sobre as pernas traseiras. Sorriu para Brugg.
O cadete sentiu-se perplexo.
Que bicho mimado! — disse antes de compreender o que o rato-castor acabara de fazer.
Ia em direção ao interfone, mas estacou em meio ao caminho e fitou Gucky. Viu um par de olhos castanhos, bondosos e um tanto travessos. Continuou a andar com uma estranha sensação de insegurança e ligou para a sala de comando.
Aqui fala o comandante Lund. O que houve?
Aqui fala o cadete Brugg, do setor de aprovisionamento. Estou chamando para comunicar o aparecimento de um animal. Alguém avisou o desaparecimento de algum bicho?
Um bicho? — ao que parecia, o comandante Lund não sabia o que pensar. — A bordo do cruzador não se permite a presença de cães e gatos.
Não se trata de cão nem de gato — disse Brugg fitando Gucky de lado. O rato-castor continuava agachado junto à porta, mantendo as patas dianteiras estendidas e exibindo um sorriso desavergonhado. — Não sei como descrever o animal que está aqui. Tem as orelhas de um filhote de elefante, focinho pontudo e cauda achatada. Seu aspecto é bastante estranho...
Subitamente teve a impressão de que alguém lhe puxava as pernas. Caiu violentamente sobre o traseiro. O comandante Lund ouviu o ruído.
Ei, Brugg. Deixe-se de tolices! Está ouvindo?
Ai, minhas costas! — gemeu a voz saída do alto-falante na sala de comando. — Acho que por aqui há algum fantasma...
Bobagem! Crie juízo, homem! Sabe quem é a criatura que está com o senhor? É Gucky, o rato-castor! Nunca ouviu falar nele? O que é que ele deseja?
Durante dez segundos, não se escutou nada. Finalmente Brugg respondeu com a voz perturbada:
Gucky? O mutante? Isso é o célebre Gucky?
É claro que sim! — respondeu Lund em tom contrariado. — Dê-lhe tudo que pedir. O próximo salto será realizado dentro de vinte minutos. Entendido?
Entendido!
Ouviu-se um clique, e o cadete Brugg viu-se novamente a sós com seu visitante. Levantou-se lentamente, apalpando as costas, e fitou Gucky com uma expressão de embaraço.
Des... desculpe, Tenente Gucky — ouvira dizer que o rato-castor gostava de ser chamado assim. — Não podia saber... por que não se apresentou?
Você também não se apresentou, meu filho. Logo se vê que é um homem. Não poderia ter percebido que sou Gucky?
Não havia argumento contra essa lógica arrasadora. O cadete Brugg suspirou desesperado e sacudiu a cabeça.
O que posso oferecer-lhe? Para falar com franqueza, pensei...
Já sei: pensou que eu fosse um bicho qualquer. Você tem cenouras frescas?
Se tenho... o quê?
Cenouras! — repetiu Gucky. — Prefiro que sejam congeladas. Sei fazer o descongelamento. Podem ser uns dois ou três quilos...
Estacou de repente.
O cadete Brugg percebeu que, subitamente, os olhos castanhos do rato-castor congelaram-se. Parecia que olhavam para longe e viam algo de horrível, incompreensível. O sorriso desapareceu de sua boca. Parecia escutar para dentro de si mesmo.
O que houve?
Silêncio! — gritou Gucky indignado e voltou a mergulhar no seu transe. Parecia ter esquecido tudo que o cercava.
Brugg sacudiu a cabeça e dirigiu-se à despensa para buscar as cenouras.
Esses mutantes têm hábitos bem esquisitos”, pensou. “Bem, vou dar as cenouras a esse sujeito, e depois será melhor que ele dê o fora. Talvez fosse preferível não pensar tanto. Os telepatas não são companheiros muito agradáveis.”
Quando voltou com um saco de plástico cheio de cenouras, viu Gucky dissolver-se no ar. O rato-castor desapareceu diante de seus olhos; desmaterializou-se. O que ficou para trás foi um cheiro delicado de sabonete. Um certo Reginald Bell costumava dizer que o fedor do rato-castor era tamanho que até mesmo as pulgas fugiam dele diretamente para a eternidade.
Ainda bem! — balbuciou o cadete Brugg, perplexo e aliviado ao mesmo tempo. — Não é telepata, mas teleportador — fitou o saco de plástico que tinha na mão. — Por que será que não pôde esperar?
Sacudiu a cabeça e voltou a colocar as cenouras no frigorífico.

* * *

O comandante Wilmar Lund levou um susto quando Gucky materializou-se na sala de comando, a dois metros do lugar em que se encontrava. Levantou o dedo num gesto de ameaça.
Não gosto que os tripulantes de minha nave sejam molestados — disse numa suave repreensão. — Você deu um susto daqueles no cadete Brugg. Ele lhe deu as cenouras?
Para seu espanto, o rato-castor não reagiu a estas palavras.
Recebi um pedido de socorro, comandante. A vida de um ser humano corre perigo!
Por um instante Lund fitou Gucky. Depois soltou uma gargalhada.
Não é possível! Quem poderia estar em perigo a bordo da Arctic? O imediato acaba de receber o aviso de que tudo está em ordem. Não sei quem...
Não é na Arctic, comandante — interrompeu Gucky. — O pedido de socorro vem de outra nave.
Lund sacudiu a cabeça e fitou a tela panorâmica.
Num raio de 0,2 anos-luz não existe nenhuma nave ou planeta. Quer dizer que você....
Quer dizer que eu me enganei? — completou Gucky. — É impossível! O pedido de socorro foi intenso, concentrado e foi pensado num estado de extrema angústia. O homem estava próximo à morte violenta. Preciso salvá-lo, ou ao menos saber quem são os assassinos. Além disso, quero saber em que nave ocorreu o pedido. Deve ter sido uma nave, pois o homem pensou em robôs e no conversor atômico.
Ainda acontece que neste setor não existe nenhum planeta habitado — reforçou o comandante. — Quer dizer que é uma nave. Hum! Você está com a razão, Gucky. Seria interessante sabermos de que se trata. Talvez sejam arcônidas.
Gucky girou lentamente a cabeça, até olhar diretamente no sentido do deslocamento da nave.
Posso indicar a direção, mas não a distância. Não tenho experiências precisas a este respeito. Não sei qual é a distância máxima à qual consigo captar os impulsos telepáticos. Quem sabe se a Arctic poderia executar alguns saltos pequenos em linha reta? Se tivermos sorte, daremos com a nave desconhecida.
Para que servem nossos instrumentos de localização acoplados com o hiper-transmissor, que funcionam instantaneamente a uma distância de vários anos-luz? — perguntou Lund com um sorriso. — Providenciarei para que o setor da proa seja examinado detidamente. Está satisfeito, Gucky?
O rato-castor sacudiu a cabeça.
Só estarei satisfeito quando tivermos encontrado a outra nave.
Lund transmitiu suas instruções à sala de rádio. Voltou a dirigir-se a Gucky.
Se não houver nenhum engano de sua parte, isso não demorará muito. Você tem certeza absoluta de que não se trata de uma brincadeira de alguém que se encontre a bordo da Arctic?
Consegui determinar a direção, comandante — disse Gucky, apontando para o centro da tela panorâmica. — A sala de comando da nave fica no setor externo. Você sabe de alguém que poderia estar à nossa frente?
Lund compreendeu que a constatação de Gucky não admitia a menor dúvida. Mas não teve tempo para responder. O intercomunicador emitiu um zumbido.
Há um objeto desconhecido a 1,57 anos-luz à nossa frente. Desloca-se em diagonal, em direção ao setor BC-JS-78. Dimensões e formato: cerca de um mil e quinhentos metros, esférico. Material: ligas metálicas e substâncias plásticas. Supomos que se trate...
Sim, já sei! — piou Gucky. — Trata-se de um couraçado dos arcônidas. Era o que eu imaginava — refletiu por um instante. — Alguém está precisando de auxílio. Cuidarei disso.
O que mais interessava o comandante Lund era o fato de que nesse setor havia um couraçado do Império Arcônida.
O que estaria fazendo aqui? Será que se encontrava em missão oficial?
Saltaremos o mais perto que pudermos — disse, dirigindo-se a Gucky. Passou a falar ao imediato, que se encontrava à frente do computador de astronavegação. — Calcule os dados para o salto em conformidade com os dados da sala de rádio.
Dali a dez minutos, a Arctic realizou a transição a curta distância. Dentro de alguns segundos, materializou-se a um ano-luz e meio de sua posição anterior.
Agora a outra nave já aparecia nitidamente na tela. Voava muito devagar, motivo por que foi fácil segui-la.
Realmente tratava-se de uma das gigantescas naves esféricas, cujo armamento era moderno apesar dos milênios que contava, e que era capaz de destruir todo um sistema solar.
O Império Arcônida, governado por um gigantesco computador, constantemente enviava essas naves para o espaço, a fim de descobrir o planeta Terra. Mas, até então, nada conseguira.
Será que esse gigante também se deslocava pelo espaço a fim de descobrir a Terra?
O comandante Lund mandou ativar o campo defensivo da Arctic e manteve a nave preparada para o hipersalto, com a intenção de afastar-se, caso a nave desconhecida resolvesse atacar. Por enquanto não havia o menor indício disso.
Pelo contrário.
A nave esférica prosseguia em sua rota, como se nem tivesse notado a presença da Arctic. Mas isso era praticamente impossível. A nave terrana seguia o colosso a uma distância pouco inferior a duzentos quilômetros. A tripulação da nave terrana aguardava a primeira reação dos arcônidas.
Mas essa reação não veio.
O comandante Lund estreitou os olhos e disse:
Qual será o truque que eles estão experimentando? Você tem alguma idéia, Gucky?
O rato-castor já estava controlando os pensamentos dos tripulantes da outra nave. Mas houve certas dificuldades!
Seu cérebro pequeno, mas altamente eficiente, teve de absorver e classificar milhares de impulsos dos mais diversos tipos. Como é que Gucky poderia saber o que era e o que não era importante?
A bordo da nave há uma disposição de alarma — disse. — Mas isso não nos diz respeito. Gostaria de saber...
Mais uma vez, concentrou-se intensamente.
Subitamente ergueu o corpo.
Saltarei para lá — disse numa súbita decisão. — Mantenha a rota, comandante, para que eu possa voltar a qualquer momento. Se alguma coisa me acontecer — um sorriso travesso surgiu em seu rosto — transforme esta bola gigante num montão de sucata.
Nesse caso precisaríamos de reforços — respondeu Lund um tanto deprimido. — Esperaremos por você, Gucky. Não demore demais.
Gucky fez um gesto afirmativo e concentrou-se.
Depois desapareceu; parecia ter-se dissolvido no ar.

* * *

Antes de desmaterializar-se, Gucky concentrou-se no lugar do qual vieram os pedidos de socorro telepáticos. Isso bastou para orientar sua teleportação. Seu corpo desmaterializou-se e percorreu na quinta dimensão os duzentos quilômetros que o separavam da outra nave.
Tudo não durou mais que uma fração de segundo.
O comandante Lund desapareceu diante de seus olhos. Quando as neblinas confusas desapareceram, o rato-castor viu-se no centro de uma sala desconhecida.
Logo notou que os seis vultos à sua frente eram robôs. De um lado, isso o deixou satisfeito; se tivesse de usar violência, preferia fazê-lo contra máquinas, não contra homens. De outro lado, porém, não seria capaz de captar os pensamentos dos robôs por via telepática. As idéias e os planos das máquinas permaneceriam em segredo. Acontece que um robô nunca mente. Quando responde a uma pergunta, sempre o faz segundo a verdade.
Gucky não estava armado; confiava nas suas faculdades.
Um dos robôs esteve a ponto de fechar uma tampa oval embutida na parede. Não constatou qualquer impulso mental que tivesse alguma relação com essa tampa ou com os robôs. O homem que pedira socorro já devia estar morto ou inconsciente.
O que aconteceu com o homem? — perguntou na linguagem universal dos arcônidas, que é entendida por todos os povos coloniais.
Não havia a menor dúvida de que os robôs que tinha à sua frente eram de construção arcônida.
Os homens mecânicos olharam-no sem dizer uma única palavra. A seguir, três deles bloquearam a única porta existente na sala, dois postaram-se junto às paredes e o último, que acabara de fechar a tampa, dirigiu-se a Gucky. Falando com a voz metálica, disse:
O comando especial acaba de eliminar T-39. Quem é você?
Sou o Imperador da Nebulosa de Andrômeda — respondeu Gucky, observando atentamente o robô. Seus olhos não perderam o menor movimento. — Qual foi o crime desse homem?
Atingiu a idade necessária. O comandante mandou que fosse eliminado.
Gucky percebeu que teria de aplicar padrões inteiramente novos para avaliar as condições reinantes nessa nave. A estrutura sociológica desta parecia reservar-lhe algumas surpresas. Esteve a ponto de prosseguir em suas perguntas, mas o robô disse:
É proibido entrar nesta sala — foi até a parede, abriu a tampa e prosseguiu: — Enfie a cabeça na abertura.
Gucky poderia sentir-se ofendido, pois os robôs nem se admiravam com o aspecto de sua pessoa. Simplesmente constataram que alguém havia penetrado na sala proibida e o condenavam à morte. Pouco importava quem era o intruso.
Mas Gucky sabia que um robô não é capaz de sentir curiosidade; limita-se a agir e pensar em acordo com a programação nele introduzida. Isso não excluía a possibilidade de pensar com independência, desde que os pensamentos se movessem no âmbito das tarefas que lhe foram atribuídas.
Foi o comandante que me mandou — disse com a maior energia de que sua voz fina era capaz. — A sentença de morte do tal do T-39 foi revogada.
Ao dizer isso, nem desconfiava o que estava arranjando. Até então nunca acontecera que uma ordem de eliminação fosse revogada, pelo simples motivo de que isso era impossível. Significaria uma revolução.
E uma revolução...
O robô-chefe disse:
T-39 já foi eliminado. O comandante está infringindo as leis. O caso será examinado. Enfie logo a cabeça nesta abertura.
Gucky perdeu a paciência.
Seu idiota! Se existe alguém que deve olhar para dentro desse buraco esquisito, será você. Vamos embora; dê uma olhada para ver como são as coisas lá embaixo.
Lançou mão de sua faculdade telecinética. Um fluxo mental invisível atingiu o robô, o levantou, e o fez entrar na abertura negra. Dali a um segundo, Gucky o soltou. Subitamente ouviu-se um arrastar, que logo se tornou mais fraco e cessou.
Também querem brincar de escorregar? — perguntou o rato-castor em tom amável, dirigindo-se aos cinco robôs restantes. — Isso não lhes custará nada.
Os braços com as armas levantaram-se abruptamente.
Gucky percebeu que estava na hora de mudar de posição. Teleportou-se às cegas antes que os pálidos feixes energéticos alcançassem o local exato em que estivera uma fração de segundo antes.
Materializou-se num recinto bem iluminado, situado não sabia onde. Vários homens estavam reunidos em grupos e discutiam apaixonadamente. Os quadros de comando e as telas presas à parede revelavam que se tratava de um centro técnico. Um robô arcônida semidesmontado jazia no centro da sala.
Por enquanto ninguém havia percebido a presença de Gucky. O rato-castor permaneceu imóvel e procurou extrair dos pensamentos das pessoas ali presentes as informações de que precisava. O que descobriu era bastante estranho, mas ainda não bastava para obter uma visão global.
Ao que parecia, o Maquinista Quatro queria convencer os presentes de que havia necessidade de encetar um motim ou revolta. O estranho era que vivia dizendo que o comandante da nave estava de seu lado.
O que significava isso? Um motim só podia ser realizado pelos tripulantes da nave e dirigido contra o comandante. Acontece que desta vez o comandante se amotinava juntamente com os tripulantes!
Contra quem?
Gucky sabia combinar os fatos. Lembrou-se do encontro que tivera com os seis robôs e das palavras proferidas pelos mesmos. E aqui estava um robô desativado; ao que tudo indicava, fora desmontado pelos homens que estavam reunidos. Só agora Gucky notou que as armas embutidas haviam sido retiradas.
O quadro se completava. Se havia um motim, este se dirigia contra os robôs.
Ouviu M-4 dizer:
Antes de mais nada, torna-se necessário que os vigias não descubram o que está acontecendo. Nunca devem saber que o comandante está do nosso lado. Só poderemos combatê-los frente a frente, quando tivermos uma quantidade suficiente de armas.
Gucky compreendeu que cometera um erro que poderia prejudicar os revoltosos. Então, tentando reparar a gafe, adiantou-se e disse:
Bom dia, amigos. Vim para ajudar vocês.
Ao vê-lo e ouvi-lo, os homens se assustaram. A conversa cessou de repente. Todos os olhos dirigiram-se para o rato-castor. Os homens pareciam paralisados.
Gucky percebeu que estavam com medo dele porque acreditavam que fosse um enviado do Mestre. Sacudiu a cabeça e esboçou um sorriso.
Não, venho de outra nave. Pretendo ajudá-los. Os robôs já conhecem seus planos. Eles agirão. Agora fechem a boca, ou melhor, deixem-na aberta e contem o que houve. Acho que esta é uma nave do Império, não é?
Os impulsos provocados por estas palavras logo lhe revelaram que aqueles homens nunca haviam ouvido a palavra império.
Não são arcônidas?
Nem sabiam que no Universo existiam arcônidas.
As coisas estavam ficando cada vez mais esquisitas. Bastava um relance de olhos para notar que esses homens eram arcônidas. Os cabelos brancos, os olhos albinos avermelhados, os membros delicados, tudo isso indicava que os indivíduos à frente de Gucky eram seres dessa raça humanóide.
Gucky percebeu que, para compreender a situação, teria de agir metodicamente. Dirigiu-se ao homem que já lhe despertara a atenção.
Vamos logo, M-4! Procure controlar-se e conte o que houve. Não tenha medo de mim.
O maquinista fez das tripas coração.
Adiantou-se um passo, com um gesto tímido enfiou no bolso um pequeno bastão prateado com uma lente na extremidade, e disse em arcônida:
Seu aspecto me causa estranheza, mas não temor. Acho que podemos confiar em você, embora não saibamos de onde veio. Deixe-me contar o que aconteceu...
Gucky ouviu-o com um espanto crescente. Embora não descobrisse tudo, começou a desconfiar de que por um simples acaso ele se defrontava com um dos grandes segredos do Universo!


4



A fim de fazerem um relato, O-2 e M-7 apresentaram-se ao comandante e a seus novos amigos. Dois dias se haviam passado, e, nesses dois dias, foram várias vezes à sala ao lado. A imagem do Mestre não modificara seu aspecto e nem a maneira de exprimir-se. Continuava a ameaçá-los com os castigos mais cruéis, mas não fazia nada.
Ao menos não perceberam que estivesse fazendo alguma coisa.
O-2 contou como fizera para informar os chefes das diversas seções a respeito da nova situação e de que forma distribuíra as tarefas entre eles. Até então não se haviam deparado com ninguém que não se mostrasse entusiasmado e disposto a romper com a cruel tradição. Se todos os chefes de seção tivessem transmitido a mensagem, a essa hora o povo já estaria informado.
O relato de M-7 também foi positivo. Graças ao trabalho preparatório, realizado pelo segundo-oficial, já encontrara um bom número de pessoas dispostas a ajudá-lo. E juntamente com ele, passaram a espreitar os vigias que ocupassem postos isolados e colocá-los fora de ação. Nem sempre isso fora fácil; por mais de uma vez tiveram de recorrer às armas de que já se haviam apoderado a fim de destruir um robô. Tudo tinha de ser tão rápido que a máquina não tivesse tempo de expedir um aviso. Sabia-se que os robôs mantinham contato permanente entre si, por meio de aparelhos embutidos de rádio. De qualquer maneira, a operação não poderia continuar em segredo por muito tempo, já que os robôs desativados deixariam de transmitir os dados relativos à sua posição.
Mal os dois homens acabaram de apresentar o relato, ouviu-se o zumbido do interfone. Nos últimos dois dias, isso acontecia constantemente. Era O-l que desejava falar com o comandante.
Ps-5 fez um gesto afirmativo.
Acho que deve saber a verdade; não podemos ocultar-lhe a ação por mais tempo. Se for um homem razoável, poderá ser nosso aliado. Caso contrário, terá de morrer.
Se isso acontecer, incumbirei o comando da morte de sua execução — disse O-1.
Mas ainda não chegara a hora de pensar nisso.
Antes de mais nada, vamos ver como reage à nossa proposta, comandante — sugeriu Ps-5. — Peça-lhe que venha até aqui.
Dali a dez minutos, O-l entrou na sala de comando. Parou diante da porta que se fechava, e fitou os presentes com um olhar de espanto. Finalmente disse em tom indignado:
O que é isso? Quero falar a sós com o comandante.
Ps-5 incumbiu-se de informar o oficial sobre o ocorrido.
Sente e preste atenção. O senhor poderá levar uma vida pacata, segura e feliz, ou poderá ser levado pelo comando da morte; tudo depende do senhor. Não me interrompa. Só depois que eu tiver concluído, tome sua decisão. O senhor não demorará a compreender que...
Com a voz calma e indiferente, narrou os acontecimentos e não se esqueceu de entremear a narrativa com suposições impressionantes, que pudessem influenciar o jovem.
É claro que, quando tudo tiver passado, o atual comandante continuará no exercício de seu cargo — sentenciou Ps-5, depois de algum tempo. — O senhor continuará a ser seu sucessor, caso queira compartilhar de suas idéias. Antes de entrar no exercício do cargo, terá de esperar bastante. Mas em compensação vai ter a chance de viver mais. Nenhum de nós sabe quanto tempo viverá. Talvez seja por três ou quatro gerações, talvez mais. Nossa existência só terminará com a decadência física das células do organismo. D-3 terá muito prazer em expor-lhe as respectivas teorias. Aguardamos sua decisão.
O-l ouvira-o com um nervosismo cada vez maior. Por várias vezes fez sinais de concordância, mas a seguir notava-se que as dúvidas o martirizavam. Assim que Ps-5 concluiu, disse:
Isso é uma revolução que significará o fim de todas as tradições. Será difícil a gente se adaptar com a necessária rapidez. Devo confessar que, em muitos pontos, minhas opiniões coincidem com as suas, mas receio que nossos desconhecidos governantes oferecerão resistência. Será que dispomos de força para enfrentá-los?
Esperamos que sim — respondeu Ps-5 em tom sério. — Esperamos e acreditamos.
O comandante estava a ponto de acrescentar alguma coisa quando se ouviu um zumbido. No primeiro instante, acreditaram que fosse o interfone, mas o comandante olhou para a porta...
Os vigias nunca anunciam previamente sua chegada. Só aparecem quando acham que devem fazê-lo. Levam dez segundos para entrar. É o tempo que demora a fechadura eletrônica para abrir a porta. Todos têm de ir ao aposento contíguo, com exceção de O-1.
A ordem foi cumprida imediatamente.
Quando a porta se abriu para dar entrada ao robô, só o comandante e seu sucessor se encontravam na sala.
Mas o robô não veio só. Mais quatro vigias estavam em sua companhia. Se fossem seis, o comandante talvez teria desconfiado que era o comando da morte que o visitava. Mas, da forma como estavam as coisas, pensou que fossem vigias como quaisquer outros.
Nem desconfiou que era o próprio comando da morte que Gucky havia desfalcado de um membro...
Desde quando o comandante tem poderes de revogar uma eliminação já determinada? — perguntou o vigia que entrou em primeiro lugar. — As infrações à lei sempre recebem o castigo adequado. Iremos...
Nunca dei uma ordem desse tipo — interrompeu o comandante. — Quem foi a pessoa que deveria ter sido liquidada?
T-39, que já foi levado para ser eliminado.
Isso é impossível. T-39 solicitou um adiamento que não pude conceder. Nunca dei ordem para suspender sua morte.
Não acreditamos no que está dizendo — respondeu o robô em tom frio. — Você virá conosco e sofrerá o justo castigo. Seu sucessor entrará no exercício do cargo.
Ele ainda não foi informado — disse o comandante.
Os vigias pareciam confusos. Enquanto não houvesse um sucessor devidamente informado, o comandante não podia ser morto. Ps-5, que viera da sala contígua sem ninguém o perceber, disse em meio à pausa de indecisão:
O comandante está dizendo a verdade, vigias. Posso testemunhar isso.
M-7 também entrou sem que ninguém o notasse e comprimiu-se junto à parede, atrás dos robôs que já haviam entrado na sala. Segurava a chave com a qual poderia soltar o parafuso que desativava os robôs. Se conseguisse fazê-lo em tempo...
E desativou dois robôs!
O terceiro devia ter notado o primeiro contato da chave, pois virou-se lentamente, dirigindo o braço com a arma para M-7.
Ps-5 agiu imediatamente.
O raio energético de sua arma portátil atingiu a cabeça do terceiro vigia e com um forte chiado derreteu o cérebro positrônico. Dali a alguns segundos, o quarto robô também foi colocado fora de ação.
O robô que se portara como chefe foi o único a ter uma pequena chance, mas não conseguiu aproveitá-la. Nesse meio tempo, D-3 saíra de seu esconderijo e passou a intervir nos acontecimentos. Só desligou a arma energética depois que o último robô se transformou num montão de metais derretidos. Um calor quase insuportável tornava difícil a respiração.
O senhor teve sorte — disse Ps-5 em tom tranqüilo, enquanto guardava a arma. — Por pouco o senhor não se transforma na vítima de suas próprias instruções, ou das instruções emitidas pelo grande Mestre. O senhor já tomou uma decisão, O-l?
O oficial fez um gesto afirmativo. Estava muito pálido.
Estou com os senhores. Mas tenho um desejo. Gostaria de ver a pessoa que vocês chamam de Mestre. Isso é possível?
Até é seu direito — disse o comandante.
Fora tudo tão rápido que nem tiveram tempo de ficar chocados. Antes que compreendessem o que estava acontecendo, o perigo fora eliminado. Os cinco guardas inutilizados eram a única lembrança de que estiveram tão próximo à morte.
Venha comigo, O-l, eu lhe apresentarei o Mestre.
Os dois homens dirigiram-se à sala contígua.
Ps-5 seguiu-os com os olhos.
Acho que não demorará muito — disse. — Os robôs já devem ter descoberto nossos planos e passarão à ação. É possível que o Mestre esteja em contato com eles. Quem dera que eu soubesse. Por enquanto não existe o menor indício, quanto mais uma prova.
D-3 foi até a parede e abriu a porta de correr de um armário embutido.
As armas que temos bastam para rechaçar qualquer ataque dos robôs. Além disso, todos os chefes de seção estão armados. Seria inútil continuarmos a manter nossos planos em segredo. Vamos apresentar uma declaração de guerra formal ao Mestre.
Antes que os outros pudessem manifestar sua concordância, ouviu-se o zumbido do interfone. Ps-5 comprimiu o botão. A tela iluminou-se e M-4 disse:
Estou falando da seção de laboratório. Acabamos de ganhar um aliado com o qual não contávamos. Surgiu de repente entre nós. Vem de outra nave. Não é como nós...
De outra nave? — interrompeu o psicólogo em tom de perplexidade. — O que quer dizer isso? Existe mais alguma nave além da nossa?
O Universo está cheio de naves — disse M-4. — Existem mundos habitados e verdadeiros impérios estelares. Mas isso é tão complicado que não posso explicar em poucas palavras. Quando os problemas terminarem, o desconhecido explicará.
Ainda não compreendi. Não notamos a presença de outra nave. Onde ela está? E como foi que o desconhecido chegou aqui?
Ele mesmo lhes contará. Não se espantem quando o virem. Eu já lhe disse que não é como nós. É menor e tem o corpo coberto de pêlo, mas fala nossa língua.
Ps-5 teve uma suspeita. Prosseguindo em tom cauteloso, disse:
Talvez nem venha de outra nave. Em nosso mundo existe muita coisa que ainda não conhecemos. Nas regiões inexploradas...
O rosto de M-4, que aparecia na tela, foi substituído por outro. Ao vê-lo, o psicólogo calou-se abruptamente. Pasmo de espanto fitou os olhos castanhos de uma criatura como nunca vira igual. Não descobriu o menor sinal de maldade nesses olhos, apenas uma alegre curiosidade. O que mais chamou a atenção de Ps-5 foi o dente roedor.
Você pode acreditar no que M-4 acaba de dizer — disse o forasteiro com uma voz fina que em outras circunstancias teria provocado uma risada de Ps-5. — Não, não tenho nada que ver com seu Mestre. Quem é mesmo esse Mestre?
Ps-5 estreitou os olhos.
Você sabe ler pensamentos? — perguntou em tom assustado.
Sei — disse Gucky. — E sei fazer outras coisas. Irei até aí e levarei M-4. Não demoraremos; no máximo levaremos cinco segundos.
Cinco segundos... — disse Ps-5 em tom de perplexidade. O setor de laboratório ficava a mais de oitocentos metros da sala de comando.
Mas o rosto de Gucky já havia desaparecido. No mesmo instante surgiu um fenômeno no centro da sala de comando!
O ar começou a tremeluzir e dois vultos saíram dos círculos turbilhonantes: M-4 e Gucky.
Cá estamos! — piou o rato-castor às costas do psicólogo, que continuava a fitar a tela de imagem. Virou-se como se tivesse sido picado por uma tarântula e fitou os dois intrusos como se fossem fantasmas.
Pelo espírito dos antepassados...! — exclamou em tom de espanto.
D-3 tivera oportunidade de assistir à materialização. Não conhecia explicação do “milagre”, mas tinha bastante imaginação para formar uma idéia sobre as faculdades de outros seres. A criatura à sua frente não infundia medo; parecia pacata e inofensiva.
Deixe seus antepassados em paz — disse Gucky, dirigindo-se ao psicólogo e aguçou os ouvidos em direção ao camarote do comandante. — Ali há dois homens. Quem são eles?
Como é que você sabe? — perguntou Ps-5 em tom de espanto, esforçando-se para recuperar o autocontrole.
Eu já lhe disse que sei ler pensamentos — disse Gucky. — Ah, já sei. É o comandante e um jovem oficial. Estão conversando, mas a conversa não faz muito sentido. Até parece que se dirigem a uma terceira pessoa que não os ouve e não responde.
Ps-5 já se recuperara da surpresa. Seu cérebro voltou a funcionar normalmente. Compreendeu que o pequeno forasteiro à sua frente sabia ler pensamentos. Talvez seria essa a chance de desmascarar o Mestre. Ficou tão alegre por ter encontrado um caminho que não ouviu as últimas palavras de Gucky.
Os dois homens estão conversando com o Mestre... — começando a explicar em poucas palavras o que estava acontecendo na sala contígua.
Logo depois concluía com as seguintes palavras:
Eles dominam nosso povo há tempos imemoriais; além disso, o governo é exercido por intermédio do comandante. Eles nos deram as leis que regem nossa vida e nossa morte. Vivem em alguma região desconhecida desta nave e só aparecem sob a forma da pessoa que chamamos de Mestre.
Surgem numa tela de imagem — disse Gucky. — Preciso dar uma olhada nisso!
Dali a alguns segundos, entrou juntamente com Ps-5 e com D-3 na sala em que ficava a grande tela de onde o rosto do Mestre os fitava.
Por alguns minutos, Gucky acompanhou a palestra que se desenvolvia em círculo, sem que se chegasse a qualquer resultado positivo. O Mestre recusava-se obstinadamente a dar qualquer explicação. Limitava-se a exigir obediência e o restabelecimento do estado anterior.
Com os olhos semicerrados, o rato-castor escutava. Seu dente roedor desapareceu. Mantinha-se imóvel embaixo da tela e fitava a imagem. Mas por mais que se esforçasse para identificar, entre os impulsos mentais que investiam sobre ele, os do Mestre, seus esforços não produziram o menor resultado.
Não era nada fácil identificar os pensamentos de um homem que aparecia na tela. O corpo deste se encontrava em outro ponto, que tinha de ser determinado. Mas, até então, Gucky nunca levara mais de dois minutos para localizar um interlocutor que se achasse nessas condições.
Nunca levara; mas agora estava levando.
Concentrou-se durante dez minutos. Depois sacudiu a cabeça e caminhou tranqüilamente para perto da imagem. Ps-5 esclareceu o comandante e O-l com poucas palavras, e os mesmos se mantiveram em atitude de expectativa.
O Mestre interrompeu o discurso que estava desfiando como se o tivesse decorado. Depois de uma ligeira pausa perguntou:
Quem é você?
Era o que eu queria perguntar a você — piou o rato-castor. — Onde está? Na nave?
Enquanto o Mestre respondia, Gucky mais uma vez se esforçou em vão para identificar a fonte dos pensamentos. A explicação só podia ser uma...
Sou o Mestre, o representante dos antepassados que construíram esta nave e a fizeram decolar. Assim que a nave chegar ao destino, certos segredos serão esclarecidos. Até lá exijo obediência. Mas você não é um dos nossos. Quem é você?
Gucky já tinha certeza, mas assim mesmo queria uma prova definitiva.
Talvez seus objetivos sejam bons, mas será que você julga conveniente que o homem seja dominado pela máquina? Por que é que todos ignoram as origens do povo? Por que é que ninguém sabe que os indivíduos desta nave são arcônidas?
O rosto do Mestre demonstrou espanto, mas sua voz continuou tranqüila e indiferente:
A máquina merece mais confiança que o homem, pois está menos sujeita a erros. Mas agora eu lhe faço uma pergunta: o que é que você sabe a respeito dos arcônidas?
Gucky acenou com a cabeça. Esperara exatamente isso.
Sem dar a menor atenção à imagem do Mestre, que o fitava rigidamente, virou-se para os homens, ou melhor, para os chefes da revolução, que aguardavam tensamente suas palavras.
Acho que no futuro não precisaremos entrar mais nesta sala. Não precisaremos tomar conhecimento da existência do Mestre que alega ser o representante dos antepassados. Acredito que, na oportunidade em que esta nave decolou, alguma coisa não deu certo. O que está acontecendo não estava previsto. Bem, não demoraremos em descobrir.
Ps-5 adiantou-se e parou à frente de Gucky.
Simples palavras não poderão eliminar o Mestre. Ele está ali, na tela; vê e ouve tudo que se passa.
Até que você tem razão — disse Gucky em tom irônico. — Por isso mesmo não entraremos mais nesta sala. Depois disso, o Mestre estará cego e surdo. E também estará mudo.
Por enquanto não entendiam o que Gucky queria dizer, mas aceitaram a sugestão do mutante.
Fecharam a porta da sala e voltaram à sala de comando. Uma vez lá, o comandante perguntou.
E agora?
O psicólogo apontou para D-3.
Talvez esteja na hora de pensarmos na terrível descoberta que fizemos no centro da nave. Deve haver alguma ligação entre aquilo e o Mestre. Nossos antepassados estão dormindo por lá...
Gucky esperou que o psicólogo contasse sua história e viu que o quadro se completava. Restava saber qual era a finalidade daquilo. Se é que havia alguma finalidade!
Acho que vou dar uma olhada nisso — disse o rato-castor assim que Ps-5 concluiu seu relato. — Aproveitaremos a oportunidade para deixar o Mestre sem energia.
Deixar o Mestre sem energia?! — repetiu M-7 em tom de espanto.
Isso mesmo. Será que vocês podem imaginar um robô que funcione sem energia? Pouco importa que o rosto desse robô seja de metal ou de plástico.
Enquanto se deleitava com o espanto provocado pela revelação, Gucky exibiu o dente roedor.
Com uma única frase, desvendara o grande mistério.


5



O técnico Trinta e Nove só caiu durante um segundo, mas este segundo transformou-se numa eternidade.
Teve oportunidade para ter uma percepção nítida do fim que o aguardava.
E esse fim parecia ser muito diferente do que ele supusera!
O escorrega não terminava na fogueira atômica do reator. Enquanto T-39 descia em direção ao centro de gravitação da nave, a temperatura não subia, mas baixava ininterruptamente. Numa questão de segundos, começou a fazer um frio insuportável.
O técnico ainda não sabia que seu corpo já estava sendo atingido pelo sopro do gelo eterno que avançava rapidamente pelas suas carnes.
Enquanto caía velozmente, percebeu abaixo de si um gigantesco pavilhão no qual havia vigias imóveis à sua espera. Estes se encontravam postados em torno de uma tina retangular feita de um metal branco que lembrava o mármore. Ao que parecia, a tina estava cheia de água sobre a qual havia uma névoa.
T-39 mergulhou na névoa e, depois disso, na água.
Não chegou a sentir o tremendo frio que congelou seu corpo e esfacelou a roupa sintética...
Era o momento pelo qual os vigias haviam esperado.
Moveram-se lentamente em direção à tina. Pegaram instrumentos parecidos com varas e puxaram o corpo para junto de si. Depois retiraram-no cautelosamente do líquido.
T-39 foi colocado numa maca especialmente trazida ao pavilhão. Os robôs agiam com a maior cautela, pois sabiam que qualquer descuido poderia quebrar o corpo congelado.
Dois guardas levaram a maca para fora.
Os outros continuaram postados junto à tina, onde esperavam a próxima vítima.
Nem desconfiavam de que a vítima que acabavam de retirar do líquido era a última.

* * *

Ps-5, D-3 e R-75 acompanharam Gucky, enquanto os outros permaneceram na sala central, com o comandante, para que pudessem alarmar a tripulação, caso houvesse uma revolta dos robôs.
R-75 apontou para a parede.
Foi aqui que abrimos o buraco. Os esquifes ficam atrás desta parede. Mas os guardas armados também estão à espera por lá.
Gucky acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
Acho que terão uma surpresa. Vocês estão fortemente armados e lhes armarão um fogo de artifício que será um deleite para seus olhos de lente. Quanto a mim, bem, acho que vou ter uma boa brincadeira.
Quer brincar? — o psicólogo lançou um olhar de dúvida para Gucky.
Até então, Ps-5 não recebera qualquer resposta satisfatória às seguintes perguntas: quem era e de onde vinha o rato-castor. Ps-5 limitara-se a aceitar o fato de ter encontrado mais um aliado.
Você acha que conseguirá espantar os guardas com suas brincadeiras?
Minha brincadeira tem o nome de telecinese — explicou Gucky enquanto via R-75 abrir a chapa da parede a maçarico. — Basta concentrar os pensamentos para descolar a matéria sem pôr as mãos nela. Com isso já pus fora de ação verdadeiros exércitos de robôs.
Aquilo era um exagero. Mas verdade seja dita: por meio de sua capacidade telecinética Gucky já dominara muitos inimigos que poderiam tê-lo massacrado com os punhos.
O pedaço de metal retirado da parede caiu ruidosamente ao chão.
Via de regra, os guardas levam cerca de uma hora para aparecer — disse Ps-5 em tom apressado. — É possível que desta vez sejam mais rápidos.
Bem, veremos — piou Gucky e espremeu-se pela abertura na parede assim que as bordas esfriaram um pouco. — Vamos logo, amigos.
Desta vez, não precisavam vigiar a retaguarda. Dirigiram sua atenção para a frente, onde as longas fileiras de blocos de vidro, com as pessoas adormecidas, continuavam a aparecer na penumbra.
Gucky deu alguns passos e parou à frente do primeiro bloco. Saltou para a borda do recipiente e fitou o corpo nu do arcônida. Para ele, não havia nenhum mistério naquilo que permanecia oculto aos seus companheiros. Antes de entrar no pavilhão, já sabia o que estava sendo feito ali; apenas não conhecia a finalidade daquilo.
Ps-5 também se aproximou e fitou a pessoa adormecida.
Estreitou os olhos e lançou um olhar de perplexidade para D-3.
Dê uma olhada nisso — disse com a voz embaraçada. — Depois diga se estou louco.
O médico acenou lentamente com a cabeça.
Você não está louco — disse com um tremor na voz. — Sei perfeitamente o que você quer dizer. Mas antes de cometermos um engano vamos procurar a prova. Em qual dos blocos estava guardada a moça?
No bloco que se segue a este — respondeu Ps-5 e caminhou até o bloco vizinho. Olhou para dentro do mesmo e recuou apavorado. — Sim, é isso mesmo. Foram trocados. Por quê?
Gucky, que além de acompanhar a conversa lia os pensamentos dos dois homens, levou apenas alguns segundos para descobrir toda a história. Procurou certificar-se:
Vocês têm certeza de que não há nenhum engano? É a mesma sala?
Temos certeza absoluta — respondeu Ps-5. — Há poucos dias havia outras pessoas nestes recipientes.
Gucky teve de confessar que já não compreendia mais nada. Há um instante tivera a impressão de que, no setor central, um grupo de arcônidas hibernava no frio. O líquido turvo parecia indicar esse fato. Devia suportar temperaturas bem abaixo de zero sem modificar seu estado, que continuava líquido. Até ali estava tudo em ordem.
Mas por que de repente eram outras as pessoas que se encontravam nesses estranhos recipientes?
Subitamente o raciocínio de Gucky foi interrompido pela exclamação do médico:
Conheço este homem. É T-39; eu o tratei várias vezes. Ocupa o lugar da moça. Mas...
O psicólogo estremeceu e recuou apavorado. Em seu rosto havia uma expressão de horror e uma indagação.
Há uma hora o comando da morte levou o técnico e o empurrou para dentro do conversor — disse em tom seco. — Ele está morto.
Aos poucos, Gucky começou a orientar-se em meio aos fatos.
Há uma hora? Estava condenado à morte? E aqui está deitado à nossa frente? Então, Ps-5 e D-3, será que vocês já começam a compreender?
Os dois homens lançaram um olhar de perplexidade para o rato-castor.
Pois é simples — piou Gucky em tom exaltado. — Eles sempre lhes contaram que vocês têm de morrer quando chega a hora. Na realidade, ninguém morre. Já sei que as pessoas condenadas à morte não vão parar no reator, mas sim na câmara de congelação. Foi o que aconteceu com este técnico. Acho que até aí o mistério está esclarecido. Mas vemo-nos diante de outra indagação. O que aconteceu com as pessoas que se encontravam neste recipiente antes que o mesmo fosse ocupado por T-39? Devemos descobrir isso, pois só assim poderemos acompanhar a pista.
Ps-5 acenou lentamente com a cabeça. Embora fizesse bastante frio, começou a transpirar. De um instante para outro, os vigias deixavam de ser impiedosos homens-máquina para transformarem-se em benfeitores.
Mas qual seria a finalidade daquilo?
Gucky percebeu o conflito que lavrava na mente do psicólogo e disse:
É perfeitamente possível que tenhamos cometido uma injustiça contra os robôs, mas afinal estes permitiram que vocês ficassem na incerteza. Acho que não importa o que irá acontecer daqui em diante. Vim apenas por ter recebido um pedido de socorro transmitido por via telepática. Este pedido foi expedido por um homem que corria perigo de vida. Provavelmente foi este homem que vocês chamam de T-39. Ao que parece, ainda está vivo e continuará vivo por muito tempo. Suponho que viva até que esta nave chegue ao destino. Quer dizer que posso voltar à minha nave e deixar que vocês continuem como antes.
Em hipótese alguma desejamos que o estado anterior volte a reinar — protestou o médico. — No futuro cuidaremos do nosso destino; não nos deixaremos governar pelas leis do Mestre. Quem é mesmo esse Mestre?
Antes de despedir-me de vocês, pretendo descobrir isso — disse Gucky com a voz tranqüila. — Esperem aqui mesmo.
Antes que alguém pudesse responder, o rato-castor desapareceu.
Ficaram a sós na penumbra do pavilhão.

* * *

Enquanto isso, na sala de comando, a situação começava a tornar-se crítica.
Mal Gucky e os três homens partiram para a expedição, tiveram de dar o alarma. Anunciou-se que os vigias se reuniam e marchavam em direção à central. Atiravam contra tudo que se interpunha em seu caminho.
Era a declaração de guerra!
O comandante deu ordens de resistir. Os chefes das diversas seções distribuíram as armas e organizaram os grupos de combate. Acabara de chegar o temível momento do confronto aberto.
Enquanto o comandante transmitia suas instruções, a ligação pelo interfone foi interrompida de repente. O suprimento de energia fora suspenso.
O verdadeiro chefe acabara de desferir seu golpe.
Mas desferira o golpe alguns minutos depois da hora adequada.
Os homens revoltosos já sabiam o que fazer.
Um dos grupos de choque, dirigido por M-4 e M-7, correu à frente dos vigias e chegou antes deles ao corredor que dava para a sala de comando. Uma vez lá, montaram uma armadilha e passaram a aguardar os robôs num estado de tensão febril.
Não esperaram por muito tempo.
Os vigias vieram andando com os braços em ângulo reto e as armas prontas para disparar.
Os dois mecânicos sabiam que não haveria mais lugar para as artimanhas. Agora só importava saber quem era mais rápido e mais forte.
Os vinte vigias, marchando na devida ordem, ofereciam um quadro apavorante. A vontade de matar parecia ter-se gravado em suas cabeças metálicas, embora os rostos permanecessem impassíveis.
M-7 esperou que a primeira fila passasse pelos atiradores ocultos e se encontrasse a menos de dois metros do lugar em que estava, para dar o sinal combinado.
O raio energético por ele disparado derrubou o primeiro colosso e atirou-o contra a parede. A detonação seguinte destruiu mais alguns robôs.
Os raios energéticos chiavam de todos os lados, colocando fora de combate os desajeitados robôs. Foi tudo muito mais fácil e rápido do que esperavam. Antes que os vigias tão temidos pudessem organizar a defesa, estavam todos destruídos.
Era bem verdade que a luta também custara a vida de três homens.
A porta da sala de comando abriu-se. Acompanhado de O-l e O-2, o comandante saiu e ficou apavorado com o cenário à sua frente. Parecia dominado pelo pânico enquanto dizia:
Foi o primeiro ataque dos vigias. Quanto tempo demorará até que voltem?
M-7 disse com um sorriso forçado, que ao mesmo tempo exprimia certo alívio.
Estes aqui não atacarão mais ninguém — disse, apontando para os corpos metálicos imobilizados. — Acho que conseguiremos. Quantos vigias existem ao todo?
Pelo que sei, devem ser mais ou menos cem — respondeu o comandante em tom hesitante. Teve de confessar que não sabia exatamente. — E por enquanto ainda não ganhamos a batalha.
Sabemos disso — respondeu M-7 e fez um sinal aos seus homens. — Acontece que não estamos sós. Em todos os cantos da nave nossos grupos de choque esperam os vigias. Daqui a pouco seremos os donos desta nave e poderemos viver nossa vida, até atingirmos nosso objetivo.
O comandante fez um gesto e voltou à sala de comando. Os dois oficiais seguiram-no.
E agora? — perguntou O-l com a voz insegura. — A energia para o intercomunicador falhou. Estamos cegos e mudos...
Vou dar uma olhada para ver o que diz o Mestre — respondeu o comandante e abriu a porta que dava para a sala ao lado. — Talvez ele nos ofereça a capitulação. Nunca podemos saber...
Mas quando entrou na sala e contemplou a grande tela quase caiu de susto.
Quem o fitava, com o rosto sorridente e as orelhas em pé, era a estranha criatura que tão inesperadamente acorrera em seu auxílio.
Gucky ocupara o lugar do Mestre!

* * *

O rato-castor conhecia perfeitamente esse tipo de nave esférica, da qual o Império Solar possuía várias unidades. Sabia orientar-se em todos os cantos da mesma.
Ps-5 lhe dissera que devia haver mais nove ou dez salas ligeiramente curvas, e que, em algumas dessas, talvez também estivessem guardados os recipientes com pessoas adormecidas. Mas Gucky sabia fazer cálculos. Aquela nave errava pelo espaço há vários milênios. As gerações se sucediam, e os indivíduos iam “desaparecendo” no interior do conversor.
Era ao menos o que sempre se acreditara. Mas agora as coisas mudavam de figura...
As pessoas condenadas à morte não estavam mortas. Viviam, sendo conservadas para o futuro. Os arcônidas do interior dos recipientes de vidro não eram apenas os antepassados, mas também os que haviam morrido neste meio tempo.
Gucky conhecia a nave esférica e soube calcular perfeitamente que os recintos, onde eram guardados os blocos de vidro, não formavam o centro da nave, mas circundavam-no. Ainda havia um espaço livre, em forma esférica, com um diâmetro de cerca de duzentos metros.
Se esse espaço fosse bem dividido, nele caberiam mais de cem mil pessoas.
A idéia fez Gucky estremecer. Nunca ninguém se lembrara dessa possibilidade. A pessoa que concebera esse plano tresloucado devia ser louca, ou então era um gênio em estado de desespero.
E ele, Gucky, acabara de romper a corrente!
Saltou às cegas, mas sempre com um máximo de concentração. Ao materializar-se, percebeu imediatamente que seu raciocínio fora correto.
Sentiu um frio insuportável que atravessou seu pêlo e investiu contra a pele. Sabia que não poderia permanecer ali por mais de um segundo, pois do contrário seria vitimado pelo frio. E um ligeiro olhar bastou para que percebesse a verdade.
Milhares de arcônidas, aparentemente mortos, estavam empilhados na gigantesca sala. Eram mulheres e homens nus. Mesmo que Gucky não soubesse que essas pessoas apenas estavam dormindo, aquela visão não o teria deixado mais assustado. Era aqui que estavam as gerações que há milênios desapareciam nas profundezas da nave.
Por quê?
Ninguém sabia dar uma resposta satisfatória.
Logo teleportou-se e foi parar num recinto recheado de máquinas que zumbiam. Esse recinto ficava fora do círculo em que se encontravam os recipientes de vidro. Os robôs caminhavam silenciosamente de um lado para outro, sem tomar conhecimento de sua presença. Verificavam os geradores e os quadros de comando. Devia ser a gigantesca sala de máquinas do centro da nave.
Nos fundos havia uma porta larga; verificou que esta não estava fechada.
Gucky atravessou a sala e entrou rapidamente no recinto que ficava atrás da mesma. Suas suspeitas se confirmaram.
Viu diante de si a solução do enigma...

* * *

Tanto Ps-5 como D-3 não se lembraram de que os robôs são capazes de aprender. Nem mesmo R-75 teria desconfiado disso. Por isso, o próximo ataque veio colhê-los de surpresa.
De início ouviram o arrastar de pés vindo dos fundos da sala. A porta abriu-se lentamente e alguns vigias entraram. Caminharam devagar na direção em que se encontravam.
O psicólogo deu mostras de pânico.
Estão chegando! Onde será que ficou nosso amiguinho? Se não aparecer, teremos de fugir sem ele.
Poderemos resistir por alguns minutos — garantiu o médico e pegou a arma. — Procuraremos abrigar-nos atrás dos recipientes de vidro. Não se atreverão a destruí-los.
R-75 juntou-se a eles, mas depois de algum tempo resolveu fugir, enquanto era tempo. Correu em direção à saída, e foi recebido por um raio fulgurante, que apagou sua consciência e sua vida.
Dois robôs colocados junto à saída cortavam a retirada.
Ps-5 viu R-75 morrer. Quando viu que estavam encurralados, seu coração quase parou de bater.
Os outros vigias aproximaram-se e pararam.
Mais uma vez fizeram ouvir sua voz fria e metálica.
Não resistam! Vocês penetraram nas regiões proibidas da nave e não escaparão à morte. É o que diz a lei.
Ps-5 recobrou o ânimo.
Essa lei não existe mais! — exclamou em voz alta, na esperança de que o rato-castor pudesse ter a atenção despertada para o perigo. Não sabia onde estava o aliado. Talvez pudesse ouvi-lo. — Nem pensamos em capitular. Lutaremos até o fim.
É inútil resistir.
Abriram fogo sem mais aviso, mas os disparos passaram acima do alvo, pois não desejavam atingir os recipientes. Mas logo reconheceram a situação. Os guardas começaram a andar, tentando contornar o obstáculo, isto é, os recipientes. Os robôs que se encontravam junto à saída também se aproximavam com as armas levantadas.
Os dois homens olharam-se por algum tempo e acenaram com a cabeça.
Se tivessem de morrer, não queriam que isso acontecesse em vão. Haviam desencadeado a revolta e posto as pedras para rolar. Sua vida preenchera uma finalidade, e a mesma coisa deveria acontecer com sua morte.
Concentraram seu fogo sobre os vigias.
Mas estes não responderam ao fogo.
Mantiveram-se imóveis em sua nova posição, com as armas levantadas.
Mas foi só isso.
Dois ou três robôs caíram sob o fogo dos raios energéticos. Depois disso os dois homens suspenderam o fogo. Por que destruir um inimigo que não se defendia mais?
Por que não lutam? — gritou Ps-5 com a voz nervosa. — O que aconteceu?
A estas palavras seguiu-se um silêncio completo. Ninguém respondeu.
De repente, o ar começou a tremeluzir entre o lugar em que se encontravam e os robôs. O rato-castor voltou a aparecer. Sem dar a menor atenção aos inimigos, arrastou os pés para junto do psicólogo e piou em tom orgulhoso:
Estes estão liquidados. Desliguei a força na sala de máquinas. Estes robôs são teleguiados. Vocês estão livres.
Teleguiados? — indagou Ps-5 em tom de perplexidade. — O que significa isso? O que foi que você descobriu? Por onde andou?
Um sorriso alegre surgiu no rosto de Gucky.
Nós nos encontraremos na sala de comando. Esperem-me lá. Ainda tenho de liquidar outro assunto.
E desapareceu de novo.


6



Dei uma olhada no Mestre — disse Gucky dali a meia hora aos homens reunidos na sala de comando. Todos os oficiais e chefes de seção haviam comparecido para serem informados sobre a nova situação. — Consiste num filme de plástico sincronizado com um robô falante. Com isso, aqui na tela, surge a impressão de que uma pessoa viva está falando diante da câmara. Na verdade quem fala é um robô. É um processo bastante complicado, e durante vários milênios o espetáculo produziu os efeitos desejados. Era esse robô-imagem que dava as ordens e comandava a nave. Por isso tinha-se a impressão de que pelo menos um dos antepassados continuava vivo e dirigia o vôo da nave. Na verdade, todos os antepassados estão vivos, embora não tenham uma vida consciente. Foram postos a hibernar no frio e só serão despertados quando a respectiva maquinaria for ligada.
A morte no conversor foi apenas um pretexto. Todas as pessoas levadas pelo comando sinistro foram congeladas, ficaram em observação durante algumas semanas no interior dos recipientes de vidro e depois foram literalmente empilhadas no depósito. Dessa forma, as pessoas adormecidas ocupam menor lugar. No centro da nave repousam cerca de cem mil criaturas. Isso corresponde ao núcleo de uma população planetária, e era o que se planejava. Mas houve uma coisa que não correu segundo os planos...”
Gucky fez uma ligeira pausa para deleitar-se com o espanto dos ouvintes. Eram arcônidas, conforme suspeitara, mas por que afirmar-lhes isso agora? Por que teriam de saber que sua raça dominava a Via Láctea, ou ao menos a dominara até que foram atingidos pelo destino que...?
Um belo dia, eles mesmos descobririam o segredo.
Durante os primeiros séculos do vôo, que seria apenas uma experiência, os robôs colocados a bordo obedeciam ao comandante. Um dia enganaram a pessoa que se encontrava no comando e investiram o sucessor em suas funções. Recorreram ao transmissor de imagens para transmitir-lhe as instruções que vigoram até hoje.
Os homens ouviram-no em silêncio. Não estavam compreendendo nada. Gucky prosseguiu:
Não sei por que a nave voa com uma relativa lentidão. É possível que as instalações de hipersalto tenham entrado em pane, motivo por que a viagem teve de prosseguir apenas em vôo normal. Acontece que a nave também não conhece qualquer tipo de astronavegação ou pilotagem. Se a presente rota for mantida, dentro de dois séculos a nave penetrará no campo de gravitação de um grande sol circundado por vinte planetas. Mandei verificar isso pelo computador de minha nave. Quer dizer que dentro de duzentos anos, aproximadamente, vocês chegarão ao destino. E depois disso, acontecerá aquilo que seus antepassados desejavam. Vocês entrarão em órbita em torno do sol. O processo que fará despertar as pessoas congeladas será iniciado automaticamente. Essas pessoas despertarão uma após a outra. Depois de algum tempo, a nave pousará. Os homens povoarão o planeta. Uma nova civilização terá início, se é que o planeta pode sustentar a vida.
O comandante lançou um olhar de perplexidade para Ps-5. Muito confuso, perguntou:
E se esse planeta não puder sustentar a vida?
Gucky interrompeu-o com um gesto.
Não se preocupem. É possível que seus antepassados tenham escolhido a rota por simples acaso, mas a mesma justifica certas esperanças. O sol de que acabo de falar possui pelo menos três planetas adequados à vida.
Quem foi o Mestre? — perguntou o médico em tom curioso.
Mais uma vez, o rato-castor sorriu.
Um enorme computador que fica no centro da nave, e que assumiu o poder há milhares de anos. Tinha a intenção de pousar no planeta, despertar as pessoas adormecidas e transformá-las em escravos. Pretendia formar uma verdadeira civilização de robôs. O planeta, colonizado por vocês, se transformaria no centro de um gigantesco império que seria governado pelo computador. Seria uma bela surpresa; ainda bem que a mesma não se concretizou. No fundo devemos isso a um único homem.
Refiro-me a T-39, que ainda dorme no seu esquife de vidro. Se o mesmo não tivesse pensado em sua morte, e se eu não me encontrasse por perto, tudo poderia ter saído muito diferente. Os robôs haviam notado a revolta que se esboçava, e estavam preparando sua reação. No último instante consegui desligar a central energética. Se não dispusesse da capacidade telecinética, isso teria sido totalmente impossível. Basta realizar uma pequena reprogramação, e a energia pertencerá a vocês, ou seja, aos humanos. Com isso, a missão que tenho de cumprir aqui estará concluída; trata-se de uma missão que me foi trazida pelo acaso. Talvez ainda nos encontremos. Talvez consigamos conferir à nave de vocês a velocidade que lhes permita atingir o planeta dentro de alguns anos. Talvez... conforme acabo de dizer.”
O comandante adiantou-se. Estendeu as mãos para Gucky.
Seus pensamentos são muito humanos, embora você não pertença a nenhuma raça humana — disse muito comovido. — Nós lhe agradecemos. Transmita nossos cumprimentos ao seu povo.
Gucky fez um gesto condescendente. A idéia de ser considerado o representante da Terra divertia-o.
Faremos o possível para ajudá-los e sempre estaremos empenhados em que entre nós reine a paz eterna. Mas tenham cuidado para que os robôs continuem sempre a ser seus servos; nunca mais deverão assumir o poder. Antes de retirar-me, ainda falarei com os técnicos e os cientistas. Se vocês não puderem contar com os robôs reprogramados, estarão perdidos. Quanto ao Mestre — um sorriso de triunfo surgiu em seu rosto — bem, ele está liquidado. O acesso às instalações frigoríficas está livre, e um de vocês terá de ocupar o lugar do Mestre.
Deixem que as pessoas adormecidas descansem até que vocês cheguem ao destino. Se algum falso alarma os despertasse, haveria uma catástrofe de proporções inimagináveis. Nestas naves cabem mais de cem mil pessoas adormecidas, mas poucos milhares de pessoas vivas. Como vêem, o raciocínio dos robôs também se desenvolve segundo as trilhas humanas. Eles tomaram todas as providências para que apenas alguns milhares de pessoas estivessem vivas de cada vez. E deixaram que vivessem por muito tempo: aquilo que vocês designam como uma geração corresponde a cem anos em nosso planeta. Os padrões de tempo estão bastante deslocados.”
Gucky respondeu a mais algumas perguntas, orientou os técnicos sobre as tarefas que teriam de cumprir e despediu-se.
Passem bem, amigos, e procurem ser dignos da liberdade reconquistada. Obedeçam ao comandante, mas nunca se submetam às ordens de uma máquina. O homem sempre deve ser o senhor da máquina; no momento em que esta “começa a pensar”, inicia-se um terrível perigo. Mas, embora a máquina saiba ser mais lógica, a longo prazo ela nunca consegue ser mais inteligente que o homem. Passem bem...
Diante dos olhos perplexos da assistência, Gucky desmanchou-se como um espírito bondoso que, uma vez cumprida sua missão, retornasse ao reino do invisível. O que ficou para trás foi um novo presente, que garantia um futuro razoável.
A porta abriu-se e um vigia entrou.
O comandante dirigiu-se ao mesmo e disse:
O setor RC está sujo. Providencie para que o comando de limpeza imediatamente inicie o trabalho.
A voz do robô soou com a monotonia de sempre:
A ordem será executada imediatamente. Há outras instruções, senhor?
O comandante sorriu.
Sim, há muitas instruções. Você as receberá dos setores competentes. Retire-se.
O robô saiu sem dizer uma palavra.

* * *

O cadete Brugg quase morreu de susto, quando uma voz soou às suas costas:
Será que você já se esqueceu de mim, cadete?
Gucky exibiu o dente roedor e foi arrastando os pés em direção ao cadete perplexo. Plantou-se à sua frente, apoiando-se sobre o rabo.
Então?
Pensei... — principiou o cadete muito confuso, procurando em vão uma explicação sobre o lugar em que o rato-castor estivera nestas últimas horas. — Pensei...
Ora esta! Quem não sabe pensar deve deixar isso para outras pessoas — recomendou Gucky em tom paternal. Subitamente sua voz assumiu um tom penetrante: — Onde estão as cenouras, meu filho?
O cadete Brugg tinha quase o dobro do tamanho de Gucky, mas preferiu não responder. Girou sobre os calcanhares. Sem dizer uma palavra entregou dali a dez segundos o saco de plástico a Gucky, e este desapareceu tão depressa como viera. Brugg viu-se novamente a sós em seu “reino”, mas não se sentia como um rei. Para evitar novos problemas preparou nada menos de cinqüenta quilos das malditas cenouras, pois se fosse necessário pretendia...
Enquanto isso, Gucky materializava-se na sala de comando.
Ao contrário de Brugg, desta vez Wilmar Lund não se assustou.
Então? — perguntou. — O que houve com essa nave? Afinal, você demorou muito. Quase três horas...
O que são três horas para quem tem de corrigir uma história de dez milênios? — perguntou Gucky por sua vez.
Gucky não pretendia informar Lund sobre tudo que vira e soubera. Só Perry Rhodan poderia tomar uma decisão sobre isso. Uma nova civilização poderia representar um apoio importante para o Império Solar, mas também poderia acarretar um perigo.
Essa nave está à deriva. Um belo dia teremos de cuidar dela.
Se é que conseguiremos encontrá-la.
Os dados já foram armazenados no computador — disse Gucky, sacudindo o saco de plástico com as cenouras.
O comandante Lund esteve a ponto de irritar-se, mas resolveu calar-se.
Logo depois, fez o registro no diário de bordo:

Data: ...Posição CM-13-HB. Houve um atraso no vôo porque um couraçado arcônida que está à deriva cruzou nossa rota. O exame não trouxe qualquer resultado. Dados relativos à rota do barco arcônida foram armazenados. O próximo salto será realizado dentro de...




* * *
* *
*




Gucky sempre detestou os robôs. E, mais uma vez, fazendo uso de suas “brincadeiras”, esclareceu a situação...
Em Xeque-Mate: Universo, título do próximo volume da insuperável série Perry Rhodan, novas emoções o aguardam...

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