Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Os
acônidas brincam de matar...
Uma
nova época raiou para a Humanidade. Cinqüenta e sete anos são
passados, desde a morte de Crest. Na Terra, registra-se o ano 2.102.
Muita
coisa aconteceu neste meio tempo. O arcônida Atlan conseguiu, com o
auxílio dos terranos, firmar-se em sua posição de imperador. A
aliança entre Árcon e o Império Solar trouxe seus frutos —
especialmente para os terranos, muitos dos quais ocupam cargos e
posições importantes em Árcon. Atlan tem de tolerar tal situação,
já que não pode confiar na maior parte de seus compatriotas.
O
Império Solar é agora a mais importante potência comercial da Via
Láctea. Há 22 anos, um verdadeiro fluxo de emigrantes dirige-se aos
mundos que podem ser colonizados. Além disso, o Império Solar
mantém embaixadas e entrepostos comerciais em muitos planetas
habitados...
Desta
vez a curiosidade dos terranos foi a grande culpada pelos
acontecimentos... Mas, também, como poderiam saber que espécie de
arapuca os acônidas lhes haviam armado?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Tenente
Harald
Fitzgerald
— Oficial
de serviço na estação Ori 12-1.818.
Walt
Ballin
— Um
jornalista pelo qual Perry Rhodan demonstra muito interesse.
Vu-Pooh
— Capitão
do Comando Energético de Ácon.
Reginald
Bell
— Que
diz certas coisas porque ainda não conhece Mal-Se.
Gucky
— O
rato-castor que sente certa antipatia pelos robôs.
1
— Quero
conhecer este homem — disse Perry Rhodan, enquanto dobrava o Europa
News e apontava para um nome que se encontrava sob o artigo de fundo.
— Walt Ballin...
Parecia
querer sentir a sonoridade do nome, enquanto de sua escrivaninha
contemplava a cidade de Terrânia.
Naquele
dia, as informações diárias, que seus encarregados de imprensa
selecionavam entre a montanha de jornais do império, haviam
despertado um estranho interesse em Rhodan. Ele, que não era amigo
nem inimigo da imprensa, acabara de manifestar o desejo de travar
conhecimento com determinado jornalista.
Allan D.
Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, lançou um olhar
indagador para Rhodan, mas o Administrador do Império Solar não
reagiu ao mesmo. Continuava a olhar pela janela, para além do oceano
de casas de Terrânia, onde já se estendera o deserto de Gobi, hoje,
transformado numa área de parques.
— A
pessoa precisa de muita coragem e senso de responsabilidade para
perguntar-nos se estamos empenhados numa política destrutiva.
Geralmente não vale a pena ler manifestações agressivas como esta,
mas o tal do Walt Ballin apresenta certas reflexões que também
deveriam ocupar nossas mentes. O que achei mais interessante foi sua
afirmativa de que deixamos de preparar o homem para pensar em termos
galácticos. Será que Walt Ballin não tem razão, Mercant?
O rosto do
chefe do Serviço de Segurança estava voltado para Rhodan.
— Criticar
é fácil, sir — contestou com a voz tranqüila. — Não podemos
acelerar ainda mais o desenvolvimento da Humanidade. Temos o dever de
adaptar-nos à média. Se esclarecêssemos os homens sobre a
efervescência que se verifica no interior da Galáxia, sobre os
perigos iminentes que ameaçam o Império Solar, ou sobre o fato de
termos descoberto no centro da Via Láctea um povo infinitamente
superior aos próprios arcônidas, isso sob todos os pontos de vista,
só poderíamos semear a confusão, e até mesmo o tumulto.
— Acho
preferível que haja um tumulto agora do que em outra época, quando
não estivermos em condições de enfrentá-lo, Mercant. Geralmente
gosto de seguir seus conselhos, mas hoje não posso deixar de dar
razão a Walt Ballin e dizer como ele: acabaremos fazendo uma
política de auto-destruição, a não ser que transformemos os
terranos, ou seja, a massa do povo, em cidadãos do Universo.
“Todo
indivíduo, inclusive o homem da rua, deve sentir-se ligado a nós.
Mas este só poderá compartilhar nossos sentimentos se deixarmos que
participe das nossas preocupações e dos nossos problemas. É
exatamente isso que não estamos fazendo, e é do que Walt Ballin nos
acusa. Não nos esqueçamos do pânico que tomou conta de nosso
planeta quando a frota dos druufs, as naves de Árcon e, com elas, as
dos mercadores galácticos foram aparecendo no sistema.
“Devemos
preparar os homens, paulatinamente, para o fato de que, no centro da
Via Láctea, há um povo infinitamente superior ao nosso, do qual
devemos esperar uma visita nada agradável à Terra. Se cumprir
aquilo que promete seu artigo, Walt Ballin é o homem indicado para a
tarefa. Por isso quero travar conhecimento com ele o quanto antes.
Quando poderá ser isso, Mercant?”
Um sorriso
surgiu no rosto de Allan D. Mercant.
— Sir,
Walt Ballin é jornalista, e os jornalistas são uma classe toda
especial de homens. Tomara que se disponha a vir a Terrânia, quando
o Serviço de Segurança lhe pedir, em seu nome, que procure o
senhor. Espero que chegue amanhã.
*
* *
Quando
conversava pelo videofone do jornal Europa News com Yvonne Berclais,
Walt Ballin já não se lembrava do artigo de fundo que escrevera
para o primeiro número de junho. O visitante que se encontrava na
ante-sala que esperasse mais um pouco; a visita não podia ser muito
importante. Walt Ballin não conhecia ninguém que se chamasse de
Garibaldi, e por outro lado era-lhe muito importante o encontro, que
marcaria com Yvonne para essa noite, a fim de que as coisas ficassem
esclarecidas entre eles.
— Então
está combinado, chérie?
Hoje às vinte horas no Trois Poulardes. Mandarei reservar uma mesa,
na frente e do lado esquerdo. De acordo?
Yvonne
Berclais era uma jovem encantadora, morena e elegante, mundialmente
conhecida apesar dos seus vinte e dois anos. Quando a artista
Berclais fazia soar seu soprano e as telas reproduziam suas
conferências, centenas de milhões de homens prestavam atenção à
sua voz divina.
Mas,
naquele momento, Yvonne Berclais não era cantora, apenas uma moça
jovem e feliz, apaixonada por Walt Ballin.
— Sinto-me
muito satisfeita e desta vez serei pontual, Walt. Não o farei
esperar. Até lá.
Desligou,
e Walt Ballin, que tinha vinte e sete anos, mas já era o encarregado
dos artigos de fundo do Europa News, ainda ficou fitando a tela do
videofone por alguns segundos.
Um zumbido
discreto fez-se ouvir acima de sua cabeça. Foi então que se lembrou
do visitante que esperava na ante-sala.
Que
entrasse!
Walt
Ballin encontrava-se em disposição eufórica.
Enquanto
cumprimentava distraidamente o visitante, pensava em Yvonne. Teve a
impressão de tê-la diante de seus olhos, quando o desconhecido,
atendendo ao seu gesto convidativo, sentou-se. À noite Yvonne não o
faria esperar no Trois Poulardes, e a mesa deveria ser reservada
imediatamente, pois do contrário seria tarde.
O que
dizia mesmo o visitante?
Quem era
ele? E como era?
— Hein?
Como foi mesmo? Quer fazer o favor de repetir?
Walt
Ballin lançou um olhar de perplexidade para o homem careca, que
exibia um respeitável ventre de barril.
O homem
gordo repetiu a mensagem de que era portador.
E agora
Walt Ballin aguçou o ouvido, perplexo.
“O
que era mesmo?”,
refletia o jornalista tentando ordenar seus pensamentos. “O
artigo de fundo do dia anterior foi apresentado ao administrador?”
— E daí?
— Ballin sentia-se alarmado. Tirou suas conclusões e já antevia
as maiores dificuldades, inclusive problemas com o redator-chefe.
Este já manifestara suas dúvidas, quando Ballin pedira que o artigo
fosse liberado para a impressão.
— Face
ao seu artigo, meu chefe, que é o diretor do Serviço de Segurança
Solar, me pediu...
Walt
Ballin apenas ouviu as palavras Segurança Solar e sentiu-se jogado à
rua, como jornalista desempregado. Desde já poderia riscar da agenda
a noite que pretendia passar com Yvonne.
Mas o que
é que seu artigo de fundo tinha que ver com o Serviço de Segurança
Solar? Será que na Terra voltara a ser criada a censura à imprensa?
— Para
onde quer que eu vá? Para Terrânia? — perguntou em tom mordaz.
Mais uma
vez só ouvira metade do que seu interlocutor lhe dissera, e achara
que o convite de visitar Terrânia tinha algo a ver com o Serviço de
Segurança Solar.
— Isso
mesmo, mister Ballin. Acho que o senhor não pode esperar que o
administrador venha a Paris para conversar com o senhor.
Conversar...
foi esta a palavra que o visitante calvo e barrigudo usara; teria uma
conversa com Perry Rhodan!
Walt
Ballin acendeu um cigarro e, por quatro vezes, tragou-o. Depois
esmagou-o no cinzeiro e levantou-se.
— Hoje
não é o dia primeiro de abril, mister — disse em tom áspero. —
Não acredito que o administrador tenha tempo para ler diariamente
todos os artigos de fundo da imprensa terrana.
O gorducho
abriu a carteira e entregou a Ballin uma folha de plástico do
tamanho de um cartão-postal.
— Mister
Ballin, este é seu bilhete. O senhor não viajará num dos vôos
comerciais. Hoje, às 13:40 h, um jato espacial chegará ao
espaçoporto, área 68-V, e esperará pelo senhor. Quer fazer o favor
de anunciar-me ao redator-chefe, a fim de que possa providenciar uma
licença para o senhor, mister Ballin?
Ballin
respirava com dificuldade.
— Devagar!
— protestou. — Afinal, ainda não estou a caminho de Terrânia,
mister... Como é mesmo seu nome?
— Jeff
Garibaldi, mister Ballin, mas no meu caso não se pode dizer que o
nome representa um presságio. Meus pais vieram da Itália...
— E seu
avô foi o tão falado...?
— Meu
tetravô, mister; não foi apenas falado, mas já era célebre,
enquanto vivo.
Allan D.
Mercant sabia perfeitamente qual dos seus homens deveria mandar para
falar com o jornalista. Aquilo que parecia ser uma conversa
indiferente na verdade era um truque psicológico que tinha por fim
acalmar Walt Ballin.
Mesmo sem
querer, Walt Ballin sorriu, quando comparou Jeff Garibaldi, um homem
pequeno, gordo e calvo, com o herói italiano Garibaldi.
Jeff
Garibaldi sabia perfeitamente por que Ballin estava sorrindo, mas não
se manifestou a este respeito; estava satisfeito com o curso que o
diálogo ia tomando.
— O que
vou fazer com este bilhete, mister Garibaldi? O que farei em
Terrânia? A idéia de que o administrador queira conversar comigo
sobre um artigo de fundo é um absurdo rematado. Deve haver outra
coisa atrás disso.
— Mister
Ballin, a Segurança Solar só foi incumbida da transmissão do
convite; as instruções que me foram fornecidas não vão além
disso.
— Mas
isso é ridículo — disse o jornalista em tom exaltado e agarrou
seu disforme visitante pela gola do paletó. — Suas intenções
para comigo são outras. Os argumentos pelos quais pretende
convencer-me a aceitar o convite de Rhodan não resistem a um exame.
O senhor sabe perfeitamente que no artigo do dia primeiro deste mês
ataquei o governo do Império Solar, e por isso o senhor me quer
silenciar. Se não conseguir isso, criará problemas para mim junto à
redação, fazendo com que eu seja demitido imediatamente. Diga logo
por que veio, mister Garibaldi. Tenho a impressão de que seu nome é
um presságio.
O homem
baixo e gordo deu uma risada bonachona.
— Mister
Ballin, meu antepassado não foi nenhum bandido, e a Segurança Solar
não dá emprego a raptores e gângsteres. Conhece o sinete da
Segurança? Pois leia minhas ordens. Ao mostrar-lhe as mesmas,
infrinjo certas normas, mas assumo o risco para convencê-lo. Quem
quer conversar com o senhor é Perry Rhodan, e não a Segurança
Solar. Isso é uma chance única, mister Ballin. Qual é o jornalista
que poderá dizer que já entrevistou o administrador?
— O
senhor devia ser pregador, e não funcionário da Segurança Solar —
respondeu Walt Ballin, ainda desconfiado.
A idéia
de que seu artigo de fundo tivesse despertado a atenção de Rhodan
para um jornalista insignificante como ele era tão estranha que não
estava disposto a acreditar no convite.
— Mister
Garibaldi, será que a Segurança Solar pagaria uma ligação de
videofone para Terrânia? — perguntou Ballin.
— Com
quem pretende falar? Com Rhodan? — perguntou o homem gordo e baixo,
com uma indiferença bem fingida.
— Com
quem poderia ser? Se ele quer que eu vá a Terrânia, não poderá
ter nada a objetar a que eu lhe fale rapidamente, não acha?
Mister
Jeff Garibaldi não estava em condições de responder a esta
pergunta do jornalista. Porém disse que o escritório de Paris da
Segurança Solar estaria disposto a cobrir o custo da ligação para
Terrânia.
— Estou
curioso para descobrir! — limitou-se Walt Ballin a dizer e
levantou-se de cima da borda da escrivaninha.
Entrou em
contato com a central de videofone do Europa News, que, embora não
tivesse nome francês, era o jornal de língua francesa de maior
tiragem.
— Faça
o favor de ligar para Terrânia. Quero falar com Rhodan, o
administrador — pediu Ballin.
— Com
quem? — perguntou a voz do dispositivo automático.
— Com
Perry Rhodan — repetiu Ballin em tom decidido e olhou para
Garibaldi.
A ligação
com Terrânia foi estabelecida. Um ligeiro tremeluzir da tela revelou
que um relê positrônico de Terrânia estava captando as mensagens
de serviço de Rhodan.
— Pois
não.
Walt
Ballin engoliu em seco. Os olhos cinzentos do homem mais poderoso do
Império Solar fitaram-no da tela.
— Se as
informações que acabo de receber são corretas, o senhor é Walt
Ballin. Será que posso contar com sua presença em Terrânia ainda
hoje, mister Ballin? Ou será que já está chamando para comunicar
sua chegada?
Foram
estas as frases que o jornalista estupefato ouviu da boca de Rhodan.
— Sim,
senhor, sim... — gaguejou.
Um sorriso
fugaz passou pelo rosto de Rhodan.
— Fico
muito satisfeito em poder conversar com o senhor, mister Ballin. Mais
alguma coisa?
— Não
senhor... Obrigado, senhor... Não há mais nada, senhor...
Walt
Ballin estava banhado em suor.
A tela
esteve prestes a apagar-se, mas tremeluziu e voltou a iluminar-se.
Mister
Jacqueuse, o dono do Europa News, estava diante da objetiva.
— Mister
Ballin, o senhor acaba de realizar uma palestra intercontinental sem
licença? — perguntou em tom áspero.
— Perfeitamente!
— respondeu Walt Ballin. Não havia mais a menor insegurança em
sua voz. — Acabo de falar com o administrador. Agradeci pelo
convite que ele me enviou, mister Jacqueuse.
— Com
Perry Rhodan? O senhor, Ballin?
Walt
Ballin não fez caso da perplexidade de seu interlocutor e resolveu
aproveitar a situação.
— Hoje,
às 13:40 h, um jato espacial me esperará em nosso espaçoporto,
mister. Quero pedir-lhe o obséquio de me conceder licença sem
limite de prazo para uma visita a Terrânia. Quanto à palestra pelo
videofone...
— Ora,
meu caro Ballin — interrompeu-o mister Jacqueuse com um gesto
teatral. — Naturalmente concedo-lhe a licença que acaba de
solicitar, e o custo da palestra de videofone correrá por nossa
conta. Mas espero que, antes de ir ao espaçoporto, ainda escreva o
artigo para a edição noturna.
Walt
Ballin não tinha conhecimento de qualquer artigo que devesse
escrever naquele dia.
— Ora,
meu caro Ballin... — Ballin tampouco se lembrava de que o arrogante
Jacqueuse jamais lhe tivesse dispensado o tratamento “meu
caro”.
— Mandarei parar as máquinas. Publicaremos na primeira página, em
letras bem grandes, que o Administrador Perry Rhodan convocou nosso
redator de artigos de fundo para servir de assessor em Terrânia...
Nesse
momento Walt Ballin demitiu-se, sem que tivesse usado a palavra
demissão.
— Mister
Jacqueuse — disse, interrompendo o proprietário do Europa News —
não sou assessor de Perry Rhodan ou coisa que o valha. E não lhe
permito que publique um artigo nos termos que acaba de indicar. Já
são 12:58 h, e por isso, dentro de alguns minutos terei de sair
daqui. Bom dia, mister Jacqueuse.
— O
senhor deveria ter dito adeus — disse o homem gordo e baixo,
levantando-se da poltrona. — Uma vez terminada sua conferência com
Perry Rhodan, já não haverá neste edifício nenhum lugar que o
senhor possa ocupar. Mas não se esqueça do bilhete. Sem ele não
conseguirá passar pelo robô. Vamos?
*
* *
Às doze
horas, tempo padrão, o Tenente Harald Fitzgerald voltou a assumir o
comando da estação retransmissora Ori 12-1.818. O sargento
Stainless não tinha nenhum acontecimento extraordinário a comunicar
e, tal qual fazia todos os dias, às doze horas, dirigiu-se ao seu
camarote para repousar.
Ori
12-1.818 gravitava em torno do maior sistema da constelação de
Orion, o gigante amarelo-avermelhado de Beta. Esse sol gigantesco,
cujo diâmetro era quinhentas vezes maior que o de nosso sol, já
possuíra quatorze planetas, mas num passado recente, mais
precisamente, há cento e dezoito anos, perdera o terceiro desses
planetas numa explosão atômica.
Naquela
época se verificara nesse setor da Via Láctea o choque entre as
grandes frotas dos saltadores e dos tópsidas. Os mercadores
galácticos tomaram os tópsidas como aliados dos terranos. Já os
tópsidas acreditaram na advertência de Conrad Deringhouse, segundo
a qual os saltadores vinham para destruir Topsid. Quem ficou de
parte, rindo, foi Perry Rhodan, que naquele tempo andava ocupadíssimo
em ocultar a posição galáctica de um planeta tão fraco como a
Terra, e que, com um verdadeiro golpe de mestre, conseguira
falsificar os dados armazenados no computador positrônico de uma das
naves dos mercadores galácticos. Segundo os dados erroneamente
introduzidos no computador, o terceiro planeta de Beta era a Terra. E
a terrível potência de uma só bomba de Árcon destruíra esse
planeta desabitado.
O planeta
número quatro, denominado Aqua,
aproximadamente do tamanho da Terra, cuja superfície era formada em
95 por cento de água, era o único em que havia vida. Há anos a
Terra construíra um entreposto comercial e uma base militar da frota
no único continente desse planeta, cuja extensão correspondia
aproximadamente à da Europa. No curso dos decênios o nome Aqua caiu
no esquecimento. Tal qual os outros mundos de Beta, esse planeta era
designado pelo número. O número quatro passou a ser o número três,
e o último dos planetas, um gigante coberto de gás metano, passou a
ser conhecido como o número treze.
Os
tripulantes da estação retransmissora do terceiro planeta eram
revezados de três em três meses.
Depois de
ter realizado os controles, o Tenente Fitzgerald teve tempo para
refletir; começou a pensar no revezamento, que era iminente.
A cento e
setenta e dois milhões de quilômetros, para além da órbita do
décimo terceiro planeta, Ori 12-1.818 gravitava em torno do sistema
Beta. Seus aparelhos ultra-sensíveis registravam todo e qualquer
abalo da estrutura espacial. Aquela estação de formato esférico,
dotada de um mecanismo propulsor não muito potente, era um posto
avançado do Império Solar, colocado nos limites da área de
influência terrana.
Fitzgerald
era alto, muito esbelto e fora dotado pela natureza com cabelos
louro-claros. Quando ouviu o ruído característico, sobressaltou-se
em meio às reflexões. O sistema de rastreamento estrutural dera o
alarma, anunciando a presença de uma espaçonave que não fora
previamente anunciada.
A Frota
Solar mantinha uma vigilância ininterrupta sobre os setores
espaciais incluídos na área de intercâmbio comercial da Terra. A
chegada de qualquer nave estranha teria de ser previamente anunciada.
Um anel de estações retransmissoras interligadas fazia com que até
mesmo o mercador galáctico mais rebelde se conformasse com as ordens
de Rhodan. Sempre que isso não acontecesse, as unidades da frota de
Rhodan apareciam imediatamente e faziam com que a nave não anunciada
se identificasse.
— Deve
ser mais um saltador! — disse o Tenente Fitzgerald para si mesmo,
depois de ter lançado um olhar para o oscilógrafo de amplitude,
cuja curva revelava que o abalo estrutural fora provocado por um
hipersalto normal.
Fitzgerald
comprimiu um botão. No mesmo instante, uma mensagem breve foi
transmitida às duas naves da Frota Solar que cruzavam em seu setor.
Estas receberam os dados que lhe permitiam atingir sem quaisquer
problemas o ponto de imersão da nave desconhecida, a não ser que a
mesma desaparecesse, em poucos segundos, fazendo outra transição.
A Nil, uma
nave da classe Terra, com duzentos metros de diâmetro e quatrocentos
tripulantes, foi colocada em estado de alarma pela mensagem de
Fitzgerald. O grande computador positrônico de bordo processou as
coordenadas e preparou a transição. Os potentes propulsores
passaram a trabalhar a plena carga. Os geradores de absorção e as
unidades energéticas começaram a uivar, os conversores trabalharam
com o desempenho máximo. Quatrocentos homens vestiram apressadamente
os trajes espaciais e dirigiram-se aos seus postos. A central de
comando de tiro anunciou que estava preparada para entrar em combate.
O sistema de intercomunicação de bordo anunciou o momento da
transição.
Na sala de
comando da nave tudo corria normalmente. O alarma não era motivo de
nervosismo. Os homens estavam acostumados a missões mais difíceis
que a de enfrentar uma nave cuja chegada não fora anunciada.
— Foi um
hipersalto normal? — procurou certificar-se o comandante junto à
sala de rádio, que acabara de concluir a interpretação da mensagem
condensada expedida por Ori 12-1.818.
— Sim
senhor; um hipersalto normal — respondeu a sala de rádio.
Dali a
três minutos, a Nil entrou em transição e voltou a imergir no
espaço a vinte e oito anos-luz de distância, desenvolvendo 0,4 da
velocidade da luz.
No momento
da imersão o dispositivo de localização captou a nave desconhecida
e transmitiu os dados ao computador positrônico de bordo. Enquanto
os tripulantes se recuperavam do choque da transição, a Nil tomou
automaticamente a rota que conduzia à espaçonave desconhecida.
Na tela do
dispositivo de localização surgiu um ponto cintilante; era a nave
desconhecida! Sua velocidade era 0,1 por cento superior à da Nil.
— Já
devem estar equipados com os novos rastreadores de relevo, sir —
observou o cabo Penter, sem levantar os olhos do instrumento de
localização.
— Está
pensando na advertência de Rhodan, Penter? — perguntou o
comandante.
— Sim.
Quem nos garante que o veículo que temos à nossa frente não é uma
dessas naves de Ácon? Por que os pré-arcônidas não poderiam
dominar esta arte, que para eles pertence à Idade da Pedra, a fim de
saltar pelo hiperespaço com a mesma facilidade que nós?
Desde o
dia em que Rhodan voltara do Sistema Azul, situado no centro da Via
Láctea, onde encontrara, por ocasião de um vôo experimental com a
Fantasy, os acônidas, que atingiram um nível inimaginável de
desenvolvimento tecnológico, tanto ele como a Frota Solar contavam
com uma visita desse povo. Acontece que não se tinha a menor idéia
sobre como viriam: se numa nave espacial ou através de um processo
técnico, cuja existência os homens nem sequer chegavam a imaginar.
Rhodan
expediu a seguinte diretiva à Frota e às estações
retransmissoras: “Se
surgir em nossa área de influência uma nave não anunciada que
apresente, sob qualquer forma, algum elemento extraordinário, o
quartel-general de Terrânia deverá ser avisado imediatamente.”
O
comandante do cruzador de patrulhamento Nil não respondeu à
pergunta de Penter. Introduziu em seu quadro de comando a ordem de
acelerar a nave acima do máximo de segurança.
— Chame
a nave desconhecida! — disse pelo sistema de intercomunicação de
bordo, dirigindo-se à sala de rádio.
A antena
enviou a mensagem para o espaço. O setor de rádio ligou a sala de
comando da Nil com o receptor. Uma leve tensão apoderou-se dos
homens. A nave desconhecida acelerou fortemente, a fim de escapar à
perseguição.
— Atenção,
comando de tiro! Faça três disparos de advertência!
O pesado
canhão de impulsos da Nil, que se encontrava na torre polar da nave,
expeliu um raio de vários metros de espessura em direção à nave
desconhecida.
O raio de
impulso cortou a trajetória da nave desconhecida a menos de cem
quilômetros do ponto reluzente. A velocidade e a aceleração da
nave haviam sido consideradas, motivo por que o veículo espacial não
penetrou no raio, que se manteve no espaço por três segundos.
— Suspender
fogo! — disse o comandante da nave de patrulhamento para dentro do
microfone, enquanto a identificação da nave desconhecida saía do
alto-falante.
Era um
saltador!
Dali a
cinco minutos, a Nil freou perto da nave cilíndrica e enviou um
comando de inspeção à mesma. Toda a bateria do costado do cruzador
dirigia-se ameaçadoramente para o corpo cilíndrico de menos de
duzentos metros de comprimento.
— Abordamos
uma nave dos saltadores vinda do sistema de Gelslasy
— transmitiu a sala de rádio da Nil à estação retransmissora
Ori 12-1.818 e à base planetária de Beta. — O comando de inspeção
já entrou na nave. Atenção para as informações do comando...
Santo Deus! Alô, estação Ori 12-1.818, chame imediatamente uma
nave-hospital. A nave dos saltadores está contaminada. Mais da
metade dos tripulantes morreu; só oito dos saltadores apresentam
boas condições de saúde. O sargento Hopkins, chefe do comando,
acredita que o clã dos saltadores contraiu a doença de
endurecimento intestinal. Esta informação é fornecida sob reserva.
Para quando poderemos contar com a chegada da nave-hospital, Tenente
Fitzgerald?
Fitzgerald,
que se encontrava de serviço em Ori 12-1.818, perguntou:
— Já
proibiu ao comando de inspeção que saia da nave UG DVI?
— Ainda
não, mas providenciarei imediatamente. Já chamou a nave-hospital?
Em que setor ela se encontra?
O Império
Solar dispunha de apenas três naves desse tipo. Estas só tinham cem
metros de diâmetro, mas eram grandes clínicas voadoras, equipadas
com tudo que havia de mais moderno na Medicina dos aras e dos
terranos. A primeira nave desse tipo entrara em serviço há dois
anos, e quatro meses depois já pôde registrar um êxito notável:
num trabalho hercúleo de dez dias, realizado no planeta Sulf,
conseguira isolar um germe que provocava uma transpiração contínua
nos imigrantes terranos radicados no planeta, fazendo com que
morressem de desidratação. Dali a mais cinco dias, já se dispunha
de uma vacina que salvou a vida de cento e vinte mil colonos que, sem
ela, estariam irremediavelmente perdidos.
E agora a
vida dos doze membros do comando de inspeção e dos saltadores que
ainda não haviam morrido estava em jogo.
Uma das
naves-hospital encontrava-se no estaleiro de Terrânia. A segunda
nave estava em ação, no setor de Vega. E a terceira mantinha-se em
posição de espera no espaço, a 8.590 anos-luz de distância.
Avisada pelo Tenente Fitzgerald, anunciou sua chegada para dali a
seis horas.
Enquanto a
nave-hospital III abandonava a posição de espera e tomava a rota do
ponto de transição, o médico-chefe entrou em contato com o
comandante do cruzador de patrulhamento e, por intermédio deste,
falou com o sargento Hopkins, chefe do comando de inspeção, que se
encontrava a bordo da nave contaminada.
— Descreva
os sintomas, sargento! — pediu o médico-chefe.
Hopkins
fizera vários cursos sanitários na Academia Espacial, mas não era
médico. Hesitou.
Mas o
médico-chefe da nave-hospital parecia estar com pressa.
— Não
faça drama, sargento — disse. — Pegue um dos saltadores e apalpe
seu abdômen. A esta hora pouco importa que o senhor toque em algum
doente, pois já está infetado. Pois bem. O abdômen parece duro
como pedra até a altura do tórax, ou está sentindo partes macias?
Em caso afirmativo, diga onde estas se localizam.
O
hipercomunicador transmitiu os gemidos do sargento Hopkins a uma
distância de 8.500 anos-luz. Teve a impressão de que estavam
exigindo demais. Com a voz hesitante transmitiu o resultado de seu
exame. O médico-chefe limitava-se ora a um sim ou um não
ocasionais; quase sempre estava ouvindo.
— Já
cheguei ao tórax, doutor — disse Hopkins, que ainda não parecia
sentir-se muito seguro. — Minhas informações servem para alguma
coisa?
— Obrigado,
sargento. O senhor fez um ótimo trabalho. Infelizmente suas
suspeitas de que se trata da doença de endurecimento intestinal se
confirmaram. Prepare seus homens, avisando-os de que, dentro de duas
ou três horas, começarão a ter cólicas intestinais. Tomarei todos
os preparativos por aqui. Desligo.
— Alô,
doutor! — gritou Hopkins para dentro do microfone, mas logo
silenciou, bastante decepcionado.
O
hipertransmissor da nave-hospital já fora desligado. Não poderia
perguntar mais quais eram as chances de sobrevivência. Sabia que a
doença de endurecimento intestinal era uma das que apresentavam os
maiores índices de mortalidade.
O Tenente
Harald Fitzgerald acompanhara a palestra e resmungara várias vezes.
Nos últimos anos, a doença de endurecimento intestinal surgira com
tamanha freqüência nesse setor da Via Láctea, e o número de
vítimas causadas pela mesma era tão elevado, que, até os aras, que
eram os médicos galácticos, se declararam dispostos a combater a
terrível moléstia em cooperação com os terranos. Do trabalho em
conjunto resultará um bom remédio contra a doença. Porém as
pesquisas em busca do germe causador da moléstia ainda não tinham
sido coroadas de êxito.
— Faça
uma ligação com o quartel-general de Terrânia — disse
Fitzgerald, dirigindo-se à sala de rádio.
A ligação
de hiper-rádio foi estabelecida num instante. O tenente relatou a
ocorrência, mas não conseguiu pronunciar mais de dez palavras. A
nave-hospital III já notificara a estação terrana sobre a doença.
— De
resto nada de extraordinário, tenente? — perguntou o Major Dung,
que falava de Terrânia.
— Nada,
major.
— Bem
que eu gostaria de ficar por um mês num cargo tranqüilo como o seu
— concluiu o major com uma ponta de inveja na voz, dando por
terminada a palestra com a estação retransmissora Ori 12-1.818.
— Tranqüilo...
— resmungou o Tenente Fitzgerald. — Este trabalho chega a ser
monótono. Quem me dera que estivesse em Terrânia...
*
* *
O carro
parou, e a voz metálica e impessoal de um monstro de aço exigiu os
documentos pessoais.
Walt
Ballin já conhecia os robôs, mas nunca tivera contato com nenhum
deles. E agora um desses homens mecânicos o levava para junto de
Perry Rhodan, que apenas conhecia das apresentações na televisão.
Não se
deu conta de que, enquanto se dirigia ao gabinete do administrador,
passou por meia dezena de controles invisíveis. Mesmo que o trabalho
destes fosse menos discreto, a essa hora ele não os teria notado.
Walt Ballin transpirava de tão nervoso que estava e, ao lembrar-se
do atrevimento que tivera ao chamar Perry Rhodan de Paris, começava
a sentir-se mal.
O robô
que caminhava à sua frente abriu mais uma porta e disse:
— Mister
Walt Ballin, sir!
O
jornalista quase sofreu um colapso. Parou e, estupefato, fitou a
grande sala inundada de luz e a escrivaninha atrás da qual estava
sentado o homem que transformara uma Terra, antes desunida pelas
dissensões políticas, no Império Solar.
— Faça
o favor de aproximar-se, mister Ballin! — disse a voz amável de
Rhodan. Ballin viu o Administrador do Império Solar levantar-se
atrás da escrivaninha.
Walt
Ballin procurou controlar-se. Mas, devido ao nervosismo, esquecera-se
das palavras de cumprimento que estudara durante o vôo para
Terrânia. Entrou em atitude hesitante, sentou-se e viu-se diante do
homem, cujo rosto jamais seria esquecido por quem tivesse fitado
esses olhos frios e cinzentos.
Rhodan foi
diretamente ao assunto.
— Li seu
artigo de fundo no Europa News, mister Ballin. Interessei-me tanto
por ele, que gostaria de ouvir outros comentários a este respeito. O
senhor acusa a administração por não deixar os terranos
suficientemente informados sobre o que acontece na Via Láctea. Essa
acusação já foi formulada antes contra nós. Na época foi
manifestada no Parlamento; ao que parece, o artigo escrito pelo
senhor despertou a atenção da imprensa mundial para o assunto.
Mister Ballin, peço-lhe que me diga o que tinha em mente, ao
escrever o artigo para a primeira edição de junho.
Perry
reservara trinta minutos para a palestra com Walt Ballin, pois sua
agenda não apresentava grandes disponibilidades de tempo. Mas uma
hora e meia depois, o jornalista ainda se encontrava à frente de
Rhodan, que continuava a ouvi-lo atentamente. Já formara seu juízo
sobre Walt Ballin. O lugar desse homem era em Terrânia; mas não
deveria juntar-se às dezenas de milhares de colaboradores que
executavam trabalhos de rotina, e sim passar a pertencer ao círculo
dos elementos mais chegados a Rhodan.
Estava a
ponto de submeter essa proposta a Ballin, quando o videofone
transmitiu o alarma.
Rhodan
levantou-se de um salto e correu para a escrivaninha. Fitou o rosto
do chefe da grande estação de hiper-rádio de Terrânia, que estava
fortemente marcado pelo nervosismo.
— Sir...
— disse o homem em voz rouca, e teve de engolir em seco.
Perry
Rhodan imaginava o que viria a seguir.
Lembrou-se
do Sistema Azul.
Eram 18
horas e 59 minutos, tempo padrão.
2
Eram 18
horas e 50 minutos, tempo padrão. O Tenente Harald Fitzgerald
bocejava gostosamente no interior da estação retransmissora Ori
12-1.818.
Fazia uma
hora que a nave-hospital se encontrava ao lado da nave dos saltadores
UG DVI. Uma equipe de médicos dirigira-se à nave contaminada, a fim
de iniciar a luta contra a doença traiçoeira.
Por algum
tempo Fitzgerald acompanhara a troca de mensagens. Para a maior parte
dos tripulantes da nave cilíndrica, o socorro vinha tarde. E, na
opinião dos médicos era duvidoso que vinte saltadores enfermos
jamais sarassem. Uma das características da doença consistia no
fato de provocar a morte com uma rapidez extraordinária, e de, já
num estágio incipiente, paralisar e petrificar todo o aparelho
intestinal. Este processo de petrificação podia ser detido e
invertido por meio de um preparado mas, uma vez atingido o estágio
final, os médicos viam-se impotentes diante da doença.
Durante a
hora em que acompanhara a troca de mensagens, Fitzgerald soubera
tanto a respeito da moléstia traiçoeira, que, por várias vezes, se
vira levado a apalpar o abdômen, a fim de verificar se continuava
macio. Chamou de idiota a si mesmo e esteve prestes a desligar-se da
troca de mensagens. Porém só conseguiu fazê-lo quando os médicos
passaram a palestrar exclusivamente em sua linguagem técnica.
E agora
estava sentindo tédio.
O relógio
mostrava 18 horas e 51 minutos.
Harald
Fitzgerald, o escocês louro e muito esbelto, levantou-se e ia bater
um papo na sala de rádio, quando viu o oscilógrafo do rastreador
estrutural entrar em funcionamento. No mesmo instante perdeu a
vontade de conversar. Com um salto colocou-se diante do aparelho de
localização. O oscilógrafo encontrava-se à sua frente.
Curvas
muito achatadas surgiram na tela esverdeada. Eram curvas provocadas
por uma transição. Acontece que nem as naves terranas, nem as do
Império Arcônida seriam capazes de revelar um salto pelo
hiperespaço por meio de amplitudes tão estranhas.
A
deformação das curvas mostrava a suavidade da manobra de imersão
da nave desconhecida.
O alarma
soou. Mais uma vez, o grande computador positrônico de bordo
constatara a presença de uma nave não anunciada. O Tenente
Fitzgerald não teve necessidade de espantar seus cinco auxiliares da
modorra em que trabalhavam.
O
rastreador de relevo, criado juntamente com o sistema de propulsão
linear, estava acoplado ao computador. E quase ao mesmo tempo que o
alarma, transmitiu as coordenadas ao rastreador de matéria. O
computador positrônico levou apenas alguns segundos para determinar
a posição galáctica da espaçonave desconhecida.
Alain
Berliez e Roger Dempsey, que há seis meses, quando eram tenentes
recém-promovidos, tinham sido designados para a estação Ori
12-1.818, haviam recebido um treinamento especial no rastreador de
relevo. Era sobre eles que pesava a carga principal da
responsabilidade.
No caso,
aplicava-se a advertência de Perry Rhodan. Mas antes de irradiar o
alarma para o quartel-general, teriam de apurar mais alguns dados.
Dali a
pouco, os contornos da nave desenharam-se na tela do rastreador.
— É uma
nave esférica! — irrompeu Alain Berliez em tom de surpresa. —
Por pouco não cometemos um vergonhoso engano.
— Tem
certeza de que é uma nave esférica?
O Tenente
Fitzgerald lembrou-se da curva achatada e não era capaz de acreditar
que o estranho abalo estrutural tivesse sido provocado por uma nave
de Árcon.
— Não
existe a menor dúvida! — respondeu Berliez, em tom convicto.
— Não é
verdade! — observou Roger Dempsey. — Esta nave tem os pólos
muito achatados, Berliez. Que diabo! Qual será a causa da distorção
da imagem?
Fitzgerald
foi apressadamente até o rastreador. Um dos jovens tenentes
afastou-se para ceder-lhe o lugar. Examinou atentamente o quadro que
se apresentava na tela. A imagem estava distorcida, mas não tanto
que o achatamento se apagasse.
— Nave
desconhecida desloca-se a 0,8 luz. Distância 4,10 horas-luz.
— Qual é
a direção? — perguntou Fitzgerald.
— O
sistema Orion! — respondeu um dos tenentes.
O relógio
mostrava 18 horas e 56 minutos, tempo padrão.
— Berliez,
o senhor não poderia obter uma imagem mais nítida?
Fitzgerald
nem se deu conta de que numerosos pingos de suor apareciam em sua
testa. Deixou que Berliez se aproximasse do hiper-rastreador. O jovem
tenente começou a manipular com uma segurança de sonâmbulo os três
botões de regulagem. A imagem desfez-se, voltou, ficou muito nítida
e dali a pouco voltou a desaparecer.
— Berliez...
— gritou Fitzgerald, em tom impaciente.
Alain
Berliez, um tenente de vinte e um anos, não deixou que essa
observação o perturbasse.
A imagem
voltou bastante nítida.
E
apresentou claramente os achata-mentos nos dois pólos da nave.
18 horas e
57 minutos.
Fitzgerald
transmitiu a ordem destinada à sala de rádio. Esta ordem
restringia-se a poucas palavras:
— Comando
486. Alarma para o quartel-general.
O comando
486 dizia respeito à advertência de Rhodan. Dois impulsos
concentrados, preparados pelo computador positrônico, foram
irradiados pela antena de hiper-rádio. Frases lacônicas informaram
o quartel-general da Frota Solar, situado em
Terrânia,
sobre as observações realizadas pela estação Ori 12-1.818.
Terrânia
não fez perguntas. O conteúdo da mensagem era inequívoco.
No
supercouraçado Drusus, as sereias de alarma começaram a uivar. O
cintilante quadro transparente da gigantesca sala de comando, que não
poderia deixar de ser notado, informou os três oficiais de plantão
de que o alarma fora desencadeado pelo chefe, o que significava que a
decolagem seria imediata.
*
* *
Walt
Ballin sentiu-se fascinado com a ação rapidíssima, mas ponderada
de Perry Rhodan. Levou algum tempo para compreender que assistia ao
início de uma nova série de acontecimentos.
— Chegaram,
Bell!
— Marshall,
envie todos os mutantes disponíveis à Drusus. Alarma!
— Freyt,
assuma aqui. Tenho de sair.
— Drusus...?
Pela
primeira vez ouviram-se palavras saídas do alto-falante.
— Sim
senhor, aqui fala a sala de comando da...
— Decolagem
de emergência dentro de quinze minutos. Desligar tráfego de
hiper-rádio; triangular Drusus—Terrânia—estação Ori 12-1.818.
— Entendido,
sir. Decolagem de emergência em...
Rhodan
modificou a posição da chave e entrou em contato com o
quartel-general.
— Instruções
para a frota de Orion: Não dar combate à nave desconhecida que se
encontra no setor. A Drusus irá até aí. Se surgirem outras naves
desconhecidas, entrem em ação imediatamente, guiando-se pela
instrução 486-A. Toda a frota de Orion deverá ficar de prontidão
para decolar. Desligo.
Walt
Ballin estremeceu sob o olhar de Perry Rhodan.
— Quer
ir comigo, Ballin?
O
jornalista voltou a estremecer.
— Eu...?
— Pois
bem. Venha comigo. Decolaremos dentro de treze minutos.
Rhodan
correu em direção à porta. Ballin seguiu-o. O elevador
antigravitacional levou-os à cobertura do edifício. Enquanto
subiam, Rhodan dirigiu-se ao jornalista.
— Se não
quiser não precisa vir, Ballin. Suponho que o vôo envolva certos
riscos.
— Tenho
o maior prazer em aceitar seu convite. Toda profissão tem seus
riscos.
Estas
palavras fizeram surgir um sorriso no rosto de Rhodan. Ballin não
saberia dizer se este sorriso exprimia compaixão ou ironia.
— O que
o senhor acaba de dizer sobre o risco não deixa de ser exato, mister
Ballin. Mas tenho minhas dúvidas de que o senhor esteja avaliando
corretamente a diferença entre o risco profissional comum e o risco
ligado aos nossos vôos.
No momento
em que chegaram à cobertura do edifício, o planador de Reginald
Bell levantava vôo e saía velozmente em direção ao espaçoporto.
Dali a pouco, Walt Ballin viu-se em outro planador, ao lado de
Rhodan. Seguiram a toda velocidade em direção ao setor do
espaçoporto em que o vulto gigantesco da Drusus se erguia para o
céu.
— Por
que não faz perguntas, Ballin? — disse Rhodan ao jornalista
surpreso. — Naturalmente pode conhecer o destino do vôo e o motivo
do alarma.
Não deu
maior atenção ao espanto de Ballin. Quando voltou a controlar os
pensamentos do jornalista, percebeu que ele acreditava tratar-se de
um acaso. Nem desconfiava de que o homem que se encontrava a seu lado
dispusesse de certas faculdades.
— Sir, a
modificação da situação é tão surpreendente... — gaguejou
Ballin e interrompeu-se, perplexo, ao ouvir a risada de Rhodan.
— Foi
uma surpresa para o senhor, Ballin. Para mim e meus colaboradores,
não foi. Já nos habituamos a isso, e talvez o hábito seja o
culpado de não informarmos os terranos conforme devíamos. Gostaria
que o senhor se incumbisse disso, Ballin. Foi por isso que lhe pedi
que viesse para Terrânia. Bem, chegamos.
Rhodan fez
pousar o planador junto às primeiras colunas telescópicas da
Drusus, que tinham a grossura de uma torre de igreja. Saltou
agilmente do veículo e já tinha dado dez passos quando Walt Ballin
se dispôs a segui-lo.
Walt
Ballin não sabia para onde devia dirigir seus passos. Nunca estivera
nas imediações de um supercouraçado da Frota Solar e, agora que o
via à sua frente, não queria conformar-se com a idéia de que um
colosso deste pudesse erguer-se um centímetro que fosse.
A rampa
que levava à comporta polar tinha o formato de uma grande rodovia. A
comporta propriamente dita parecia um portão superdimensionado. E
ainda havia um gigantesco tubo. Era o elevador antigravitacional, que
os fez subir com uma velocidade espantosa.
— Compare
o tempo, Ballin — disse Rhodan, arrancando-o de seu espanto.
— São
19 horas e 12 minutos, sir — disse Ballin, sem desconfiar de nada.
— Correto.
Dentro de dois minutos decolaremos. Desculpe se não posso dedicar-me
mais ao senhor, Ballin. Fique com as orelhas de pé e os olhos bem
abertos. Seu trabalho começará depois que tivermos concluído nossa
missão. Por que estremeceu de repente, Ballin?
Walt
Ballin acabara de lembrar-se de uma jovem chamada Yvonne Berclais,
com a qual combinara um encontro no Trois Poulardes, às vinte horas
daquele dia.
Ballin
esquecera-se completamente desse encontro...
No
elevador antigravitacional havia um tráfego de emergência. Algumas
centenas de pessoas subiam e desciam ininterruptamente, cada uma em
direção ao lugar que lhe cabia no interior da nave. Desde o momento
em que entrara na Drusus, Walt Ballin notara que ninguém tomava
conhecimento da presença do administrador, que não fora
cumprimentado por uma única pessoa. Este fato e a impressão
tremenda causada pelo gigante esférico foram esquecidos, quando se
lembrou do encontro com Yvonne.
Pela
primeira vez compreendeu o sentido da frase “dar
um tranco no coração”.
E foi o
que fez. Contou a Rhodan aquilo que ele esquecera completamente na
turbulência daquele dia.
— Vamos
sair aqui — disse Rhodan, segurando-o e subindo ao convés central
da nave, que levava à sala de comando. — Quer voltar, Ballin?
— Isso
não, mas... Bem, acho que não é possível, sir! — gaguejou o
jornalista, confuso.
— Venha
comigo, Ballin. É claro que podemos arranjar isso. Vou deixá-lo na
sala de rádio. Entre em contato com quem estiver lá e peça uma
ligação para Paris. É aqui... Vá. Tudo de bom, Ballin!
Será que
Rhodan desconfiava de que, naquele momento, conquistara mais um
amigo?
— Que
homem — cochichou Ballin, enquanto acompanhava Rhodan com os olhos,
até que o administrador desaparecesse no interior da escotilha que
dava para a sala de comando.
No momento
em que ia entrar na sala de rádio, o jornalista estremeceu.
A Drusus
soltou um rugido.
A
espaçonave esférica de mil e quinhentos metros de diâmetro iniciou
a decolagem. Os motores de impulsos titânicos, instalados na
protuberância equatorial da nave, foram regulados para o desempenho
máximo, e o envoltório da nave ressoou sob a ação das tremendas
energias liberadas.
— Olá,
quem é o senhor? — disse uma potente voz masculina perto do ouvido
de Ballin, que sentiu uma mão pousada em seu ombro.
Virou-se.
Já conhecia o rosto sardento que fitou.
— Mister
Bell, eu sou Walt Ballin do jornal Europa News. O administrador
convidou-me a acompanhá-lo no vôo da Drusus.
Um par de
olhos desconfiados fitou o jornalista.
— Percebe-se
de pronto que o senhor é estranho no lugar. Logo saberemos se as
informações que acaba de fornecer são corretas. Afinal, o senhor
não pode fugir. Quando muito pode perder-se na nave. O que veio
fazer na sala de rádio? Não sabe ler? Aqui há uma placa que diz
“Entrada
Proibida”.
— O
administrador...
Ballin não
conseguiu prosseguir. Bell interrompeu-o com um gesto violento.
— Pare
com isso. O maior favor que pode fazer a Perry e a nós é chamá-lo
de chefe, não de administrador. Mas o que deseja na sala de rádio?
Walt
Ballin estava muito bem informado sobre a posição que Reginald Bell
ocupava na nave, e por isso não teve outra alternativa, senão
confessar que esquecera-se de um encontro e que, agora, queria
desculpar-se.
O sorriso
de Bell tornou-se cada vez mais amplo.
— Ora —
disse. — Se o senhor quiser me pregar uma peça...
Walt
soltou um grito e afastou-se, pois uma forte lufada de ar quase lhe
arrancara o boné, e um animal de um metro de altura, que na parte de
cima era um rato e na de baixo, um castor, materializou-se e piou com
a voz penetrante:
— O
rapaz não está mentindo, gorducho. Realmente quer falar com a
namorada. Você nunca fez uma coisa dessas, não é? Mas não houve
uma certa Sheila Gibbons, uma Madeleine Ykes, uma Rosita Menderes
e...
— Por
favor, mister — disse Bell.
Walt
Ballin não compreendeu por que merecera a honra de ver o
representante de Rhodan abrir a porta, que dava para o sala de rádio,
e convidá-lo a entrar.
Mas Bell
sabia por que se deixara levar a este ato de ridículo. Mal acabou de
fechar a porta virou-se para Gucky. Ao ver que a pequena criatura,
que o fizera passar vergonha diante do jovem, desaparecera tão
depressa como havia surgido, soltou uma praga.
Enquanto
Walt Ballin conseguia a ligação com Paris e esperava o momento em
que o rosto de Yvonne Berclais aparecesse na tela, Perry Rhodan, que
se encontrava na sala de comando, pediu que lhe dessem as últimas
notícias vindas da estação retransmissora Ori 12-1.818.
O General
Conrad Deringhouse estava de pé a seu lado.
— Não
há muitas novidades, sir — disse na sua maneira tranqüila. —
Mas o pouco que há é muito inquietante. Acho que são eles.
— Tem
tanta certeza, Deringhouse?
A pergunta
de Rhodan não foi proferida em tom irônico.
Sem dizer
uma palavra, o general entregou-lhe uma fotografia transmitida pelo
rádio, que mostrava uma pequena espaçonave com os pólos achatados.
— Olhe
também este oscilograma com as curvas achatadas, sir. Para nós, é
uma coisa nunca vista. Se não for uma nave acônida, vinda do
Sistema Azul, então, mais uma vez, iremos encontrar-nos com uma raça
desconhecida. Acontece que o formato esférico contraria essa
suposição. Pouco importa que haja um achatamento nos pólos ou não,
em princípio a nave representa uma esfera, e face a isso só se pode
concluir que se trata de um artefato acônida.
Enquanto
isso a Drusus saía do sistema solar em velocidade cada vez maior.
Mas muitos minutos preciosos ainda se passariam antes que a nave
capitania do Império Solar entrasse em transição.
Novos
dados chegaram da estação re-transmissora Ori. Com base em tais
cifras, os oficiais da sala de comando da Drusus marcaram a rota da
nave desconhecida no mapa estelar. Rhodan e Deringhouse
aproximaram-se, Bell entrou sem que ninguém o percebesse e
colocou-se atrás dos dois.
— Não
parece que pretendem pousar no número três do sistema Beta — mais
uma vez Bell disse o que pensava.
— Tive a
mesma impressão, gordo — respondeu Rhodan. — Mas o que é que a
nave veio fazer em Beta, se não pretende pousar no único planeta
habitado do sistema?
— Deveríamos
chamar a nave e perguntar. A propósito, você sabe que na Drusus há
um jovem...
— Fui eu
quem o trouxe. No momento, o jovem não nos interessa. Encarregue-se
do hiper-rádio, Bell. Acho que não devemos irradiar mais de três
impulsos.
Reginald
Bell adiantou-se e lançou um olhar um tanto desconfiado para o
amigo.
— O que
é feito do seu otimismo, Perry?
— Ele só
voltará depois que eu souber quem se encontra na nave desconhecida e
o que está procurando na constelação de Orion. Deringhouse, mande
que toda a frota e todas as bases fiquem de prontidão. Acho que não
lhes devo ocultar que há alguns minutos sinto algo parecido com o
medo.
Bell e o
General Deringhouse entreolharam-se ligeiramente e saíram. Um deles
chamaria o veículo espacial desconhecido pelo hiper-rádio, a fim de
perguntar de onde vinha e para onde ia, enquanto o outro colocaria em
estado de prontidão a Frota Solar e as bases fortemente armadas.
Dali a
cinco minutos chegou mais uma informação de Ori 12-1.818. Mais um
trecho da rota percorrida pela nave desconhecida foi assinalado no
mapa estelar.
Reconhecia-se
perfeitamente que, por enquanto, seu destino era o sistema do sol
gigante de Beta, um monstro de mais de quatrocentos milhões de
quilômetros de diâmetro e um verdadeiro gigante da classe M.
Perry
Rhodan refletia cada vez mais intensamente sobre a superioridade
técnica dos acônidas do Sistema Azul, que descobrira no centro da
Galáxia por meio do conversor de compensação de Kalup, isso por
ocasião do primeiro vôo experimental da Fantasy. Os acônidas já
não usavam espaçonaves, quando iam de uma estrela a outra.
Recorriam a transmissores de alta capacidade. Mas, para sair de sua
área de soberania, dependiam de espaçonaves, a não ser que no
planeta de destino houvesse uma estação de transmissores.
A nave
desconhecida cada vez mais se aproximava do sistema Beta. Via-se
nitidamente que o destino era um dos planetas exteriores, a não ser
que a nave pretendesse desviar as atenções dos terranos.
Bell
voltou da sala de rádio.
— Não
respondem. E não estão transmitindo qualquer mensagem. Ao menos, a
estação do sistema Orion ainda não constatou nada.
Bell não
estava gostando do caso que tinham de resolver. Respeitava o poderio
dos acônidas.
— Que
diabo os acônidas querem conosco? — continuou o gorducho. — Seu
aparecimento numa área tão próxima ao nosso sistema solar não
poder ser um simples acaso. Ou será que você acredita no acaso,
Perry?
— Desde
que tive conhecimento da existência do Sistema Azul, prefiro não
especular com o acaso. Faço votos de que meus temores sejam
infundados. Torçamos para que os acônidas não conheçam a posição
galáctica da Terra. Você pode fitar-me com essa cara de espanto,
Bell. Com os acônidas não podemos brincar de esconder, tal qual
fizemos com os arcônidas e os mercadores galácticos.
— Você
está com uma excelente disposição — ironizou Bell, passando a
mão pelos cabelos ruivos. — E isso somente porque esta pequenina
estrela candente achatada voa pelo sistema Beta. Não compreendo o
seu pessimismo.
— E eu
não compreendo o que os acônidas estão procurando por aqui. No meu
entender pretendem chocar-nos. Querem que nós os observemos. E quem
age assim sempre tem um trunfo escondido.
Um sorriso
juvenil surgiu no rosto de Bell.
— Pelo
menos num ponto levamos vantagem sobre eles — disse. — E isso no
que diz respeito ao sistema de propulsão linear, Perry. Ele nos
permitiu entrar num sistema estelar, fortemente guarnecido, e depois
abandoná-lo.
— Coitado!
— exclamou Perry Rhodan, em tom de compaixão.
— Você
deve saber — respondeu o gorducho. — Mas se continuar assim,
tornar-se-á contagiante; tão contagiante como a doença de
endurecimento intestinal. Ora! Será que não existe uma relação
entre o adoecimento dos saltadores e o aparecimento dos acônidas?
A pergunta
foi formulada em voz exaltada.
— Os
saltadores gostam de viver tanto quanto nós, gordo. Pense um pouco
antes de falar. Um moribundo não faz um jogo equívoco, e os médicos
da nave-hospital III já nos teriam informado se houvesse qualquer
combinação entre os acônidas e os mercadores galácticos. Sua
teoria é absurda, Bell.
— E qual
é a sua teoria, Perry?
— Por
enquanto não me ocorreu nenhuma. Gostaria que alguém respondesse à
minha pergunta: por que os acônidas vieram?
Com uma
expressão pensativa, o administrador examinou a rota da nave
desconhecida, assinalada no mapa estelar.
— Quer
dizer que você está convencido de que se trata de uma nave dos
acônidas, Perry?
— Por
enquanto estou.
— E
pretende enfrentar essa nave com a Drusus?
— Se
necessário, sim. Mesmo que o poder de fogo da pequena nave acônida
seja muito superior ao nosso, os campos defensivos da Drusus
resistirão ao ataque.
Mais uma
vez, Bell lançou um olhar desconfiado para o amigo.
— Você
está ficando preocupado por pouca coisa, Perry. O que receia com o
aparecimento da espaçonave acônida?
— Tudo!
Não me esqueci da recepção e do tratamento que recebemos no
Sistema Azul. Trataram-nos como selvagens rudes, não como homens
dotados de certo grau de inteligência.
— Os
acônidas são os esnobes galácticos — disse Bell, em tom
impulsivo.
Rhodan não
pôde deixar de rir.
— Você
que é feliz — ainda conseguiu dizer antes que o general
aparecesse.
— Trago
uma notícia importante, sir. O Tenente Fitzgerald, da estação
retransmissora do setor de Orion, acaba de informar que a nave
desconhecida emite impulsos de rastreamento, para os quais ainda não
há nenhuma explicação. Inicialmente Ori 12-1.818 foi atingida por
impulsos condensados numa potência extraordinária. Depois disso, a
nave de patrulhamento Nil percebeu que estava sendo envolta em alguma
coisa que era capaz de interferir nas recepções de hiper-rádio, a
tal ponto que as transmissões quase não podiam ser entendidas.
Antes que a estação e a nave de patrulhamento pudessem realizar
qualquer medição, o fenômeno chegou ao fim. A estação Ori apenas
conseguiu determinar a intensidade da transmissão. Foi de 2512
Oersted, sir, e isso a uma distância daquelas...
Reginald
Bell estava perfeitamente familiarizado com essa área da Física.
Numa só operação de raciocínio estabeleceu a ligação entre a
distância que separava a nave desconhecida da retransmissora Ori
12-1.818 e a intensidade do campo magnético que a atingiu, e disse
em tom convicto:
— Essa
espaçonave só pode ser tripulada por acônidas.
Rhodan e
Deringhouse não formularam qualquer objeção.
— Dessa
forma, nossa lógica e o centro de computação de Vênus mais uma
vez estão com a razão — disse o General. — Por ocasião de
nossa visita involuntária ao Sistema Azul, devemos ter exibido nosso
cartão de visita.
— Acho
mais provável que ele nos tenha sido arrancado do bolso —
conjeturou Rhodan. — Talvez seja graças à dama acônida Auris que
os habitantes do centro da Via Láctea já saibam de onde viemos.
Será que não há motivo para suspeitarmos que o traidor seja o
computador de bordo da nave Fantasy, destruída numa explosão?
Dois
homens balançaram a cabeça; ambos respiravam com dificuldade. Não
refletiram sobre a maneira pela qual a acônida Auris teria
conseguido extrair do computador de bordo da nave-protótipo os dados
galácticos da Terra. Dali só resultaria uma série de perguntas, e
não haveria possibilidade de responder a qualquer uma delas, face à
enorme superioridade técnica dos acônidas.
Rhodan
lançou um olhar ao oficial que estava próximo do grande computador
positrônico de bordo e perguntou:
— Quando
saltaremos?
— Daqui
a oito minutos, sir. Então já teremos saído do campo gravitacional
do sistema solar.
— Obrigado
— respondeu Rhodan e voltou a dirigir-se a Bell e ao general. —
Por enquanto a única coisa que podemos fazer é esperar. Não vale a
pena irmos aos camarotes. Vamos descansar um pouco.
Naquele
momento, a voz metálica do computador de bordo iniciou a contagem
regressiva para a transição. Os três homens se haviam acomodado
nas poltronas dos pilotos.
Deringhouse
lançou um olhar ligeiro, mas penetrante para seu chefe, e disse:
— Está
preocupado, sir?
— Estou
— confessou Rhodan. — Realmente estou. Este vôo bem traçado da
espaçonave dos acônidas constitui prova inequívoca da existência
de um plano. E minhas suspeitas a este respeito ainda se reforçam
pelo fato de a nave desconhecida não expedir mensagens pelo rádio.
Mas as adivinhações não nos levarão a nada. Teremos de aprisionar
aquela nave e obrigar os acônidas a pôr as cartas na mesa.
Bell, que
ouvira a resposta de Rhodan, endireitou o corpo de sopetão.
— A
idéia de que os acônidas só vieram com uma única nave, que além
do mais é um veículo de cem metros, deixa-me muito assustado. Será
que outras naves estão percorrendo as áreas de influência da
Terra, sem que até agora tenham sido descobertas?
— Não
há nada que seja impossível. Nem sequer podemos excluir a hipótese
de que sejam capazes de envolver suas naves num campo antilocalização
diante do qual somos impotentes.
— Nesse
caso ainda poderemos esperar algumas surpresas — resmungou Bell.
A Drusus
estava prestes a realizar a transição em direção ao sistema
Orion, situado a seiscentos e cinqüenta anos-luz.
O
computador positrônico de bordo estava fazendo a contagem do último
minuto que precedia a transição. As sereias começaram a uivar em
todos os recantos da gigantesca nave esférica. Seu uivo ligeiro
representava o seguinte: todos os tripulantes teriam de atar os
cintos.
Finalmente
chegou o momento X. Seguiu-se a transição. O local do espaço, onde
há pouco se encontrava uma gigantesca esfera, estava vazio.
3
Homens
altos de pele morena aveludada estavam de pé junto à sua espaçonave
e conversavam; riam e contavam piadas, como se fossem habitantes do
planeta Terra e não forças especiais do Sistema Azul, que levavam
uma vida cheia de ações perigosas.
A pele
morena era um produto natural do gigantesco sol azul sob o qual
viviam, e que tinha cento e oitenta vezes o diâmetro do sol terrano.
As potentes radiações ultravioletas haviam produzido a cor, que
caracterizava esta raça.
A luz do
sol azul de Ácon rompeu uma camada de nuvens pouco espessas e fez
com que, naquele dia de verão, um calor sufocante reinasse no
planeta Esfinge.
O pequeno
grupo de acônidas não se importou com isso. Era composto de jovens
que conversavam alegremente e nem pensavam na missão que tinham pela
frente. Estavam esperando Vu-Pooh, comandante da Retse-U, uma nave
esférica de cem metros de diâmetro.
O veículo
estelar de pólos achatados era a trigésima oitava unidade do
Comando Energético, formado por cinqüenta e duas naves desse tipo.
No Sistema
Azul não chegava a haver cinqüenta e três espaçonaves.
Há muitos
milênios neste sistema deixara de existir aquilo que os homens e os
arcônidas designavam como navegação espacial. Há muito os
acônidas haviam dispensado estes meios de transporte.
Consideravam-nos lentos. Transformaram a lua do planeta Esfinge numa
gigantesca estação transmissora e instalaram em quase todas as
colônias, situadas num círculo muito amplo, pequenas estações
receptoras conjugadas com a estação transmissora da lua. Essas
estações realizavam o transporte de homens e mercadorias através
do tempo e do espaço.
Com isso
uma viagem de um planeta a outro transformara-se num simples passeio.
O acônida atravessava a porta energética da estação, dava um
passo adiante, e saía no planeta que queria.
A pequena
frota de espaçonaves de cem metros era reservada para cuidar de
casos muito especiais. Seu nome oficial era Comando Energético. Mas
por menores e insignificantes que fossem, encerravam um gigantesco
volume de energia. Há mais de oito mil anos do calendário acônida
o comando não perdera uma única nave. Por isso os tripulantes
achavam que suas missões não eram perigosas. Para eles, aquilo não
passava de uma viagem pela Galáxia, realizada por meios primitivos,
durante a qual surgiriam certas aventuras, sem nenhum perigo.
Voavam
para resguardar a segurança do Sistema Azul. E agora parte da
tripulação da Retse-U esperava seu comandante, a fim de proteger
mais uma vez a segurança de seu império estelar.
Pan-Thel,
o acônida de cabelos negros, foi o primeiro a ver o comandante
Vu-Pooh atravessar o pequeno espaçoporto. Avisou os companheiros. As
risadas cessaram de repente. Todos lançaram um olhar cheio de
expectativa para Vu-Pooh.
Era um
homem gigantesco, de cabelo encaracolado cor de fogo, que já de
longe fez um gesto de desapontamento.
— Ainda
não é nada! — disse Mna E-Ig, um homem esbelto. — E olhem que
eu esperava que, pelo menos desta vez, tivéssemos um trabalho
interessante.
— Você
está pensando naquelas criaturas pequenas, feias, e de pele branca e
repugnante, Mna? — perguntou Gim Sarem, que era o representante do
comandante.
— Será
que há alguém que não estava pensando nelas? — interveio O1
Pan-Thel. — Também os vi, mas devo confessar que para mim não
foram feios nem repugnantes. A gente logo se acostuma à cor estranha
de sua pele e, quando me lembro de um homem alto, de olhos cinzentos,
devo dizer que me impressionou de certa forma. E esses desconhecidos
não acabaram nos impressionando porque desapareceram de repente,
embora devessem ficar presos.
Mna E-Ig
riu baixinho. Dirigiu-se a O1 Pan-Thel.
— Se é
assim, nosso trabalho ainda poderá tornar-se interessante, OI.
— Tolice
— disse Gim Sarem. — O1 tem uma queda toda especial por esses
seres. Os nojentos peles-brancas apenas tiveram sorte. Soube de fonte
segura que subestimaram a potência de seu propulsor. Quanto ao
resto, sua nave não vale nada — por acaso lançou um olhar para O1
Pan-Thel e notou-lhe o sorriso irônico. — Sei que você não
acredita no que acabo de dizer, O1. Isso é uma atitude tipicamente
sua. Neste ponto você já se manifestou por várias vezes de forma
bastante desagradável. Não gostou de alguma coisa do que eu disse?
— Não
gostei de você ter chamado os desconhecidos de nojentos
peles-brancas, Gim. Será que nós os conhecemos? Afinal, na Galáxia
existem outras criaturas além de nós.
— Ora! —
chiou o representante do comandante da Retse-U, dirigindo-se a O1
Pan-Thel. — Então você não gostou. Mas será que você concorda
com o comportamento que esses peles-brancas adotaram? Será que nos
dispensaram um tratamento modesto e discreto, conforme convém a
desconhecidos? Nada disso. Insinuaram-se de forma altamente
inconveniente, muito embora nós tivéssemos dado a perceber de forma
inequívoca que não queríamos nada com eles. Será que você se
atreve a contestar este ponto, O1 Pan-Thel?
— Gim
Sarem, lembro-me de uma frase de Untk, nosso maior filósofo —
respondeu Pan-Thel com a voz tranqüila, muito embora o comandante
Vu-Pooh já se tivesse juntado ao grupo. — Untk disse...
— Deixe-nos
em paz com seus velhos filósofos... — esbravejou Sarem. Porém
teve de ficar calado, porque Vu-Pooh interveio na palestra.
— Que
frase pretendia citar, O1?
— É uma
frase lacônica de Untk: “Não
há nada que aconteça sem motivo.”
Alguns
homens riram; quem riu mais alto foi Gim Sarem. Mas Vu-Pooh não riu.
— Nossa
missão também não deixa de ter um motivo, Pan-Thel. O Conselho
Deliberativo de Ácon decidiu que se lançaria mão de Mal-Se. Vamos
subir a bordo. É melhor do que discutir os pronunciamentos dos
filósofos.
Era uma
ordem. A discussão não foi reencetada. Dali a pouco, um recipiente
foi colocado a bordo. Segundo os caracteres acônidas que apareciam
no mesmo, sua representação gráfica formava “Mal-Se”.
A Retse-U
obteve permissão de decolar.
A
espaçonave esférica achatada nos pólos subiu tal qual uma flecha,
atravessou a camada de nuvens pouco espessa e desapareceu. Sua missão
iniciara-se.
*
* *
O retorno
da Retse-U ao Universo normal foi macio, sem qualquer efeito de
choque. Beta apareceu à sua frente sob a forma de um olho vermelho
luminoso.
Vu-Pooh e
Gim Sarem eram os únicos que se encontravam na minúscula sala de
comando. Não se impressionaram com aquele sol monstruoso.
Mantiveram-se inativos em suas poltronas; nem sequer dedicavam um
olhar de controle aos poucos instrumentos que tinham diante de si.
Alguns
minutos passaram-se em silêncio. De repente Vu-Pooh inclinou-se para
a frente e contemplou uma pequena esfera, que parecia flutuar no
interior de um estojo metálico. Dois pontos incandescentes surgiram
na superfície da esfera. Vu-Pooh parecia satisfeito; acenou com a
cabeça e voltou a reclinar-se na poltrona.
— Fomos
descobertos, Sarem.
— Está
bem — respondeu Sarem. Com isso, o caso estava liquidado para
ambos...
A Retse-U
parecia correr desgovernada em direção ao sistema planetário de
Beta. Os dois acônidas fitavam com uma expressão indiferente a tela
que pareceria estranha aos olhos de um homem. Estava regulada para a
área de destino da nave, e conseguia captar até mesmo os planetas
exteriores do sol gigante.
O tempo
foi passando. A Retse-U continuava a correr vertiginosamente em
direção ao destino. De repente Gim Sarem fez um movimento. Apontou
para a tela, que mostrava um círculo, debilmente refletido, de
diâmetro extremamente reduzido.
Vu-Pooh
limitou-se a lançar-lhe um olhar ligeiro.
— Deve
ser a estação localizadora, Gim.
O
comandante da nave Retse-U, pertencente ao Comando Energético,
achava que não valia a pena perder mais palavras sobre isso. Por que
haveria de fazê-lo? Aquela missão era simples rotina, tal qual as
que já realizara.
A pequena
nave cruzou a órbita do planeta exterior, que era um mundo de gás
congelado. Aproximou-se a apenas 30 mil quilômetros do astro
seguinte. No interior da nave ninguém percebeu que esta penetrara
nas massas de ar revolto. Dali a alguns segundos, o planeta já
ficara bem para trás.
De repente
um instrumento destacou-se da superfície do pequeno painel de
comando. Parou na altura dos olhos dos dois acônidas.
— Ora,
veja... — disse Gim Sarem em tom de espanto. — São três naves
dos peles-brancas.
Os corpos
dos dois acônidas pareciam adquirir vida. Não tiravam os olhos do
instrumento, e com um ar desconfiado liam os dados fornecidos pelo
mesmo.
— É
estranho — murmurou Vu-Pooh. — Não tomam conhecimento de nossa
presença. São três naves que não saem do lugar.
E
continuaram no mesmo lugar.
Os
acônidas não poderiam saber que a nave de patrulhamento Nil
recebera ordens expressas de não tomar nenhuma providência diante
da presença da nave desconhecida, permanecendo junto à
nave-hospital e à nave cilíndrica contaminada.
O
interesse dos acônidas pelas três naves logo diminuiu. Confiavam
demais na força combativa e na velocidade da Retse-U.
A nave
achatada passou a uma distância enorme de Beta. O monstro tangia
para o espaço protuberâncias de centenas de milhões de
quilômetros. Era uma fornalha de energias atômicas em constante
mutação.
Os
acônidas nem sequer chegaram a lançar um olhar para o gigante.
— Há um
chamado — constatou Vu-Pooh laconicamente, quando a tradutora
estacionaria se dirigiu a eles.

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