quarta-feira, 31 de agosto de 2016

P-103 - O Monstro de Plasma - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN



Os acônidas brincam de matar...


Uma nova época raiou para a Humanidade. Cinqüenta e sete anos são passados, desde a morte de Crest. Na Terra, registra-se o ano 2.102.
Muita coisa aconteceu neste meio tempo. O arcônida Atlan conseguiu, com o auxílio dos terranos, firmar-se em sua posição de imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar trouxe seus frutos — especialmente para os terranos, muitos dos quais ocupam cargos e posições importantes em Árcon. Atlan tem de tolerar tal situação, já que não pode confiar na maior parte de seus compatriotas.
O Império Solar é agora a mais importante potência comercial da Via Láctea. Há 22 anos, um verdadeiro fluxo de emigrantes dirige-se aos mundos que podem ser colonizados. Além disso, o Império Solar mantém embaixadas e entrepostos comerciais em muitos planetas habitados...
Desta vez a curiosidade dos terranos foi a grande culpada pelos acontecimentos... Mas, também, como poderiam saber que espécie de arapuca os acônidas lhes haviam armado?






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Tenente Harald FitzgeraldOficial de serviço na estação Ori 12-1.818.

Walt BallinUm jornalista pelo qual Perry Rhodan demonstra muito interesse.

Vu-PoohCapitão do Comando Energético de Ácon.

Reginald BellQue diz certas coisas porque ainda não conhece Mal-Se.

GuckyO rato-castor que sente certa antipatia pelos robôs.
1



Quero conhecer este homem — disse Perry Rhodan, enquanto dobrava o Europa News e apontava para um nome que se encontrava sob o artigo de fundo. — Walt Ballin...
Parecia querer sentir a sonoridade do nome, enquanto de sua escrivaninha contemplava a cidade de Terrânia.
Naquele dia, as informações diárias, que seus encarregados de imprensa selecionavam entre a montanha de jornais do império, haviam despertado um estranho interesse em Rhodan. Ele, que não era amigo nem inimigo da imprensa, acabara de manifestar o desejo de travar conhecimento com determinado jornalista.
Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, lançou um olhar indagador para Rhodan, mas o Administrador do Império Solar não reagiu ao mesmo. Continuava a olhar pela janela, para além do oceano de casas de Terrânia, onde já se estendera o deserto de Gobi, hoje, transformado numa área de parques.
A pessoa precisa de muita coragem e senso de responsabilidade para perguntar-nos se estamos empenhados numa política destrutiva. Geralmente não vale a pena ler manifestações agressivas como esta, mas o tal do Walt Ballin apresenta certas reflexões que também deveriam ocupar nossas mentes. O que achei mais interessante foi sua afirmativa de que deixamos de preparar o homem para pensar em termos galácticos. Será que Walt Ballin não tem razão, Mercant?
O rosto do chefe do Serviço de Segurança estava voltado para Rhodan.
Criticar é fácil, sir — contestou com a voz tranqüila. — Não podemos acelerar ainda mais o desenvolvimento da Humanidade. Temos o dever de adaptar-nos à média. Se esclarecêssemos os homens sobre a efervescência que se verifica no interior da Galáxia, sobre os perigos iminentes que ameaçam o Império Solar, ou sobre o fato de termos descoberto no centro da Via Láctea um povo infinitamente superior aos próprios arcônidas, isso sob todos os pontos de vista, só poderíamos semear a confusão, e até mesmo o tumulto.
Acho preferível que haja um tumulto agora do que em outra época, quando não estivermos em condições de enfrentá-lo, Mercant. Geralmente gosto de seguir seus conselhos, mas hoje não posso deixar de dar razão a Walt Ballin e dizer como ele: acabaremos fazendo uma política de auto-destruição, a não ser que transformemos os terranos, ou seja, a massa do povo, em cidadãos do Universo.
Todo indivíduo, inclusive o homem da rua, deve sentir-se ligado a nós. Mas este só poderá compartilhar nossos sentimentos se deixarmos que participe das nossas preocupações e dos nossos problemas. É exatamente isso que não estamos fazendo, e é do que Walt Ballin nos acusa. Não nos esqueçamos do pânico que tomou conta de nosso planeta quando a frota dos druufs, as naves de Árcon e, com elas, as dos mercadores galácticos foram aparecendo no sistema.
Devemos preparar os homens, paulatinamente, para o fato de que, no centro da Via Láctea, há um povo infinitamente superior ao nosso, do qual devemos esperar uma visita nada agradável à Terra. Se cumprir aquilo que promete seu artigo, Walt Ballin é o homem indicado para a tarefa. Por isso quero travar conhecimento com ele o quanto antes. Quando poderá ser isso, Mercant?”
Um sorriso surgiu no rosto de Allan D. Mercant.
Sir, Walt Ballin é jornalista, e os jornalistas são uma classe toda especial de homens. Tomara que se disponha a vir a Terrânia, quando o Serviço de Segurança lhe pedir, em seu nome, que procure o senhor. Espero que chegue amanhã.

* * *

Quando conversava pelo videofone do jornal Europa News com Yvonne Berclais, Walt Ballin já não se lembrava do artigo de fundo que escrevera para o primeiro número de junho. O visitante que se encontrava na ante-sala que esperasse mais um pouco; a visita não podia ser muito importante. Walt Ballin não conhecia ninguém que se chamasse de Garibaldi, e por outro lado era-lhe muito importante o encontro, que marcaria com Yvonne para essa noite, a fim de que as coisas ficassem esclarecidas entre eles.
Então está combinado, chérie? Hoje às vinte horas no Trois Poulardes. Mandarei reservar uma mesa, na frente e do lado esquerdo. De acordo?
Yvonne Berclais era uma jovem encantadora, morena e elegante, mundialmente conhecida apesar dos seus vinte e dois anos. Quando a artista Berclais fazia soar seu soprano e as telas reproduziam suas conferências, centenas de milhões de homens prestavam atenção à sua voz divina.
Mas, naquele momento, Yvonne Berclais não era cantora, apenas uma moça jovem e feliz, apaixonada por Walt Ballin.
Sinto-me muito satisfeita e desta vez serei pontual, Walt. Não o farei esperar. Até lá.
Desligou, e Walt Ballin, que tinha vinte e sete anos, mas já era o encarregado dos artigos de fundo do Europa News, ainda ficou fitando a tela do videofone por alguns segundos.
Um zumbido discreto fez-se ouvir acima de sua cabeça. Foi então que se lembrou do visitante que esperava na ante-sala.
Que entrasse!
Walt Ballin encontrava-se em disposição eufórica.
Enquanto cumprimentava distraidamente o visitante, pensava em Yvonne. Teve a impressão de tê-la diante de seus olhos, quando o desconhecido, atendendo ao seu gesto convidativo, sentou-se. À noite Yvonne não o faria esperar no Trois Poulardes, e a mesa deveria ser reservada imediatamente, pois do contrário seria tarde.
O que dizia mesmo o visitante?
Quem era ele? E como era?
Hein? Como foi mesmo? Quer fazer o favor de repetir?
Walt Ballin lançou um olhar de perplexidade para o homem careca, que exibia um respeitável ventre de barril.
O homem gordo repetiu a mensagem de que era portador.
E agora Walt Ballin aguçou o ouvido, perplexo.
O que era mesmo?”, refletia o jornalista tentando ordenar seus pensamentos. “O artigo de fundo do dia anterior foi apresentado ao administrador?
E daí? — Ballin sentia-se alarmado. Tirou suas conclusões e já antevia as maiores dificuldades, inclusive problemas com o redator-chefe. Este já manifestara suas dúvidas, quando Ballin pedira que o artigo fosse liberado para a impressão.
Face ao seu artigo, meu chefe, que é o diretor do Serviço de Segurança Solar, me pediu...
Walt Ballin apenas ouviu as palavras Segurança Solar e sentiu-se jogado à rua, como jornalista desempregado. Desde já poderia riscar da agenda a noite que pretendia passar com Yvonne.
Mas o que é que seu artigo de fundo tinha que ver com o Serviço de Segurança Solar? Será que na Terra voltara a ser criada a censura à imprensa?
Para onde quer que eu vá? Para Terrânia? — perguntou em tom mordaz.
Mais uma vez só ouvira metade do que seu interlocutor lhe dissera, e achara que o convite de visitar Terrânia tinha algo a ver com o Serviço de Segurança Solar.
Isso mesmo, mister Ballin. Acho que o senhor não pode esperar que o administrador venha a Paris para conversar com o senhor.
Conversar... foi esta a palavra que o visitante calvo e barrigudo usara; teria uma conversa com Perry Rhodan!
Walt Ballin acendeu um cigarro e, por quatro vezes, tragou-o. Depois esmagou-o no cinzeiro e levantou-se.
Hoje não é o dia primeiro de abril, mister — disse em tom áspero. — Não acredito que o administrador tenha tempo para ler diariamente todos os artigos de fundo da imprensa terrana.
O gorducho abriu a carteira e entregou a Ballin uma folha de plástico do tamanho de um cartão-postal.
Mister Ballin, este é seu bilhete. O senhor não viajará num dos vôos comerciais. Hoje, às 13:40 h, um jato espacial chegará ao espaçoporto, área 68-V, e esperará pelo senhor. Quer fazer o favor de anunciar-me ao redator-chefe, a fim de que possa providenciar uma licença para o senhor, mister Ballin?
Ballin respirava com dificuldade.
Devagar! — protestou. — Afinal, ainda não estou a caminho de Terrânia, mister... Como é mesmo seu nome?
Jeff Garibaldi, mister Ballin, mas no meu caso não se pode dizer que o nome representa um presságio. Meus pais vieram da Itália...
E seu avô foi o tão falado...?
Meu tetravô, mister; não foi apenas falado, mas já era célebre, enquanto vivo.
Allan D. Mercant sabia perfeitamente qual dos seus homens deveria mandar para falar com o jornalista. Aquilo que parecia ser uma conversa indiferente na verdade era um truque psicológico que tinha por fim acalmar Walt Ballin.
Mesmo sem querer, Walt Ballin sorriu, quando comparou Jeff Garibaldi, um homem pequeno, gordo e calvo, com o herói italiano Garibaldi.
Jeff Garibaldi sabia perfeitamente por que Ballin estava sorrindo, mas não se manifestou a este respeito; estava satisfeito com o curso que o diálogo ia tomando.
O que vou fazer com este bilhete, mister Garibaldi? O que farei em Terrânia? A idéia de que o administrador queira conversar comigo sobre um artigo de fundo é um absurdo rematado. Deve haver outra coisa atrás disso.
Mister Ballin, a Segurança Solar só foi incumbida da transmissão do convite; as instruções que me foram fornecidas não vão além disso.
Mas isso é ridículo — disse o jornalista em tom exaltado e agarrou seu disforme visitante pela gola do paletó. — Suas intenções para comigo são outras. Os argumentos pelos quais pretende convencer-me a aceitar o convite de Rhodan não resistem a um exame. O senhor sabe perfeitamente que no artigo do dia primeiro deste mês ataquei o governo do Império Solar, e por isso o senhor me quer silenciar. Se não conseguir isso, criará problemas para mim junto à redação, fazendo com que eu seja demitido imediatamente. Diga logo por que veio, mister Garibaldi. Tenho a impressão de que seu nome é um presságio.
O homem baixo e gordo deu uma risada bonachona.
Mister Ballin, meu antepassado não foi nenhum bandido, e a Segurança Solar não dá emprego a raptores e gângsteres. Conhece o sinete da Segurança? Pois leia minhas ordens. Ao mostrar-lhe as mesmas, infrinjo certas normas, mas assumo o risco para convencê-lo. Quem quer conversar com o senhor é Perry Rhodan, e não a Segurança Solar. Isso é uma chance única, mister Ballin. Qual é o jornalista que poderá dizer que já entrevistou o administrador?
O senhor devia ser pregador, e não funcionário da Segurança Solar — respondeu Walt Ballin, ainda desconfiado.
A idéia de que seu artigo de fundo tivesse despertado a atenção de Rhodan para um jornalista insignificante como ele era tão estranha que não estava disposto a acreditar no convite.
Mister Garibaldi, será que a Segurança Solar pagaria uma ligação de videofone para Terrânia? — perguntou Ballin.
Com quem pretende falar? Com Rhodan? — perguntou o homem gordo e baixo, com uma indiferença bem fingida.
Com quem poderia ser? Se ele quer que eu vá a Terrânia, não poderá ter nada a objetar a que eu lhe fale rapidamente, não acha?
Mister Jeff Garibaldi não estava em condições de responder a esta pergunta do jornalista. Porém disse que o escritório de Paris da Segurança Solar estaria disposto a cobrir o custo da ligação para Terrânia.
Estou curioso para descobrir! — limitou-se Walt Ballin a dizer e levantou-se de cima da borda da escrivaninha.
Entrou em contato com a central de videofone do Europa News, que, embora não tivesse nome francês, era o jornal de língua francesa de maior tiragem.
Faça o favor de ligar para Terrânia. Quero falar com Rhodan, o administrador — pediu Ballin.
Com quem? — perguntou a voz do dispositivo automático.
Com Perry Rhodan — repetiu Ballin em tom decidido e olhou para Garibaldi.
A ligação com Terrânia foi estabelecida. Um ligeiro tremeluzir da tela revelou que um relê positrônico de Terrânia estava captando as mensagens de serviço de Rhodan.
Pois não.
Walt Ballin engoliu em seco. Os olhos cinzentos do homem mais poderoso do Império Solar fitaram-no da tela.
Se as informações que acabo de receber são corretas, o senhor é Walt Ballin. Será que posso contar com sua presença em Terrânia ainda hoje, mister Ballin? Ou será que já está chamando para comunicar sua chegada?
Foram estas as frases que o jornalista estupefato ouviu da boca de Rhodan.
Sim, senhor, sim... — gaguejou.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto de Rhodan.
Fico muito satisfeito em poder conversar com o senhor, mister Ballin. Mais alguma coisa?
Não senhor... Obrigado, senhor... Não há mais nada, senhor...
Walt Ballin estava banhado em suor.
A tela esteve prestes a apagar-se, mas tremeluziu e voltou a iluminar-se.
Mister Jacqueuse, o dono do Europa News, estava diante da objetiva.
Mister Ballin, o senhor acaba de realizar uma palestra intercontinental sem licença? — perguntou em tom áspero.
Perfeitamente! — respondeu Walt Ballin. Não havia mais a menor insegurança em sua voz. — Acabo de falar com o administrador. Agradeci pelo convite que ele me enviou, mister Jacqueuse.
Com Perry Rhodan? O senhor, Ballin?
Walt Ballin não fez caso da perplexidade de seu interlocutor e resolveu aproveitar a situação.
Hoje, às 13:40 h, um jato espacial me esperará em nosso espaçoporto, mister. Quero pedir-lhe o obséquio de me conceder licença sem limite de prazo para uma visita a Terrânia. Quanto à palestra pelo videofone...
Ora, meu caro Ballin — interrompeu-o mister Jacqueuse com um gesto teatral. — Naturalmente concedo-lhe a licença que acaba de solicitar, e o custo da palestra de videofone correrá por nossa conta. Mas espero que, antes de ir ao espaçoporto, ainda escreva o artigo para a edição noturna.
Walt Ballin não tinha conhecimento de qualquer artigo que devesse escrever naquele dia.
Ora, meu caro Ballin... — Ballin tampouco se lembrava de que o arrogante Jacqueuse jamais lhe tivesse dispensado o tratamento “meu caro”. — Mandarei parar as máquinas. Publicaremos na primeira página, em letras bem grandes, que o Administrador Perry Rhodan convocou nosso redator de artigos de fundo para servir de assessor em Terrânia...
Nesse momento Walt Ballin demitiu-se, sem que tivesse usado a palavra demissão.
Mister Jacqueuse — disse, interrompendo o proprietário do Europa News — não sou assessor de Perry Rhodan ou coisa que o valha. E não lhe permito que publique um artigo nos termos que acaba de indicar. Já são 12:58 h, e por isso, dentro de alguns minutos terei de sair daqui. Bom dia, mister Jacqueuse.
O senhor deveria ter dito adeus — disse o homem gordo e baixo, levantando-se da poltrona. — Uma vez terminada sua conferência com Perry Rhodan, já não haverá neste edifício nenhum lugar que o senhor possa ocupar. Mas não se esqueça do bilhete. Sem ele não conseguirá passar pelo robô. Vamos?

* * *

Às doze horas, tempo padrão, o Tenente Harald Fitzgerald voltou a assumir o comando da estação retransmissora Ori 12-1.818. O sargento Stainless não tinha nenhum acontecimento extraordinário a comunicar e, tal qual fazia todos os dias, às doze horas, dirigiu-se ao seu camarote para repousar.
Ori 12-1.818 gravitava em torno do maior sistema da constelação de Orion, o gigante amarelo-avermelhado de Beta. Esse sol gigantesco, cujo diâmetro era quinhentas vezes maior que o de nosso sol, já possuíra quatorze planetas, mas num passado recente, mais precisamente, há cento e dezoito anos, perdera o terceiro desses planetas numa explosão atômica.
Naquela época se verificara nesse setor da Via Láctea o choque entre as grandes frotas dos saltadores e dos tópsidas. Os mercadores galácticos tomaram os tópsidas como aliados dos terranos. Já os tópsidas acreditaram na advertência de Conrad Deringhouse, segundo a qual os saltadores vinham para destruir Topsid. Quem ficou de parte, rindo, foi Perry Rhodan, que naquele tempo andava ocupadíssimo em ocultar a posição galáctica de um planeta tão fraco como a Terra, e que, com um verdadeiro golpe de mestre, conseguira falsificar os dados armazenados no computador positrônico de uma das naves dos mercadores galácticos. Segundo os dados erroneamente introduzidos no computador, o terceiro planeta de Beta era a Terra. E a terrível potência de uma só bomba de Árcon destruíra esse planeta desabitado.
O planeta número quatro, denominado Aqua, aproximadamente do tamanho da Terra, cuja superfície era formada em 95 por cento de água, era o único em que havia vida. Há anos a Terra construíra um entreposto comercial e uma base militar da frota no único continente desse planeta, cuja extensão correspondia aproximadamente à da Europa. No curso dos decênios o nome Aqua caiu no esquecimento. Tal qual os outros mundos de Beta, esse planeta era designado pelo número. O número quatro passou a ser o número três, e o último dos planetas, um gigante coberto de gás metano, passou a ser conhecido como o número treze.
Os tripulantes da estação retransmissora do terceiro planeta eram revezados de três em três meses.
Depois de ter realizado os controles, o Tenente Fitzgerald teve tempo para refletir; começou a pensar no revezamento, que era iminente.
A cento e setenta e dois milhões de quilômetros, para além da órbita do décimo terceiro planeta, Ori 12-1.818 gravitava em torno do sistema Beta. Seus aparelhos ultra-sensíveis registravam todo e qualquer abalo da estrutura espacial. Aquela estação de formato esférico, dotada de um mecanismo propulsor não muito potente, era um posto avançado do Império Solar, colocado nos limites da área de influência terrana.
Fitzgerald era alto, muito esbelto e fora dotado pela natureza com cabelos louro-claros. Quando ouviu o ruído característico, sobressaltou-se em meio às reflexões. O sistema de rastreamento estrutural dera o alarma, anunciando a presença de uma espaçonave que não fora previamente anunciada.
A Frota Solar mantinha uma vigilância ininterrupta sobre os setores espaciais incluídos na área de intercâmbio comercial da Terra. A chegada de qualquer nave estranha teria de ser previamente anunciada. Um anel de estações retransmissoras interligadas fazia com que até mesmo o mercador galáctico mais rebelde se conformasse com as ordens de Rhodan. Sempre que isso não acontecesse, as unidades da frota de Rhodan apareciam imediatamente e faziam com que a nave não anunciada se identificasse.
Deve ser mais um saltador! — disse o Tenente Fitzgerald para si mesmo, depois de ter lançado um olhar para o oscilógrafo de amplitude, cuja curva revelava que o abalo estrutural fora provocado por um hipersalto normal.
Fitzgerald comprimiu um botão. No mesmo instante, uma mensagem breve foi transmitida às duas naves da Frota Solar que cruzavam em seu setor. Estas receberam os dados que lhe permitiam atingir sem quaisquer problemas o ponto de imersão da nave desconhecida, a não ser que a mesma desaparecesse, em poucos segundos, fazendo outra transição.
A Nil, uma nave da classe Terra, com duzentos metros de diâmetro e quatrocentos tripulantes, foi colocada em estado de alarma pela mensagem de Fitzgerald. O grande computador positrônico de bordo processou as coordenadas e preparou a transição. Os potentes propulsores passaram a trabalhar a plena carga. Os geradores de absorção e as unidades energéticas começaram a uivar, os conversores trabalharam com o desempenho máximo. Quatrocentos homens vestiram apressadamente os trajes espaciais e dirigiram-se aos seus postos. A central de comando de tiro anunciou que estava preparada para entrar em combate. O sistema de intercomunicação de bordo anunciou o momento da transição.
Na sala de comando da nave tudo corria normalmente. O alarma não era motivo de nervosismo. Os homens estavam acostumados a missões mais difíceis que a de enfrentar uma nave cuja chegada não fora anunciada.
Foi um hipersalto normal? — procurou certificar-se o comandante junto à sala de rádio, que acabara de concluir a interpretação da mensagem condensada expedida por Ori 12-1.818.
Sim senhor; um hipersalto normal — respondeu a sala de rádio.
Dali a três minutos, a Nil entrou em transição e voltou a imergir no espaço a vinte e oito anos-luz de distância, desenvolvendo 0,4 da velocidade da luz.
No momento da imersão o dispositivo de localização captou a nave desconhecida e transmitiu os dados ao computador positrônico de bordo. Enquanto os tripulantes se recuperavam do choque da transição, a Nil tomou automaticamente a rota que conduzia à espaçonave desconhecida.
Na tela do dispositivo de localização surgiu um ponto cintilante; era a nave desconhecida! Sua velocidade era 0,1 por cento superior à da Nil.
Já devem estar equipados com os novos rastreadores de relevo, sir — observou o cabo Penter, sem levantar os olhos do instrumento de localização.
Está pensando na advertência de Rhodan, Penter? — perguntou o comandante.
Sim. Quem nos garante que o veículo que temos à nossa frente não é uma dessas naves de Ácon? Por que os pré-arcônidas não poderiam dominar esta arte, que para eles pertence à Idade da Pedra, a fim de saltar pelo hiperespaço com a mesma facilidade que nós?
Desde o dia em que Rhodan voltara do Sistema Azul, situado no centro da Via Láctea, onde encontrara, por ocasião de um vôo experimental com a Fantasy, os acônidas, que atingiram um nível inimaginável de desenvolvimento tecnológico, tanto ele como a Frota Solar contavam com uma visita desse povo. Acontece que não se tinha a menor idéia sobre como viriam: se numa nave espacial ou através de um processo técnico, cuja existência os homens nem sequer chegavam a imaginar.
Rhodan expediu a seguinte diretiva à Frota e às estações retransmissoras: “Se surgir em nossa área de influência uma nave não anunciada que apresente, sob qualquer forma, algum elemento extraordinário, o quartel-general de Terrânia deverá ser avisado imediatamente.
O comandante do cruzador de patrulhamento Nil não respondeu à pergunta de Penter. Introduziu em seu quadro de comando a ordem de acelerar a nave acima do máximo de segurança.
Chame a nave desconhecida! — disse pelo sistema de intercomunicação de bordo, dirigindo-se à sala de rádio.
A antena enviou a mensagem para o espaço. O setor de rádio ligou a sala de comando da Nil com o receptor. Uma leve tensão apoderou-se dos homens. A nave desconhecida acelerou fortemente, a fim de escapar à perseguição.
Atenção, comando de tiro! Faça três disparos de advertência!
O pesado canhão de impulsos da Nil, que se encontrava na torre polar da nave, expeliu um raio de vários metros de espessura em direção à nave desconhecida.
O raio de impulso cortou a trajetória da nave desconhecida a menos de cem quilômetros do ponto reluzente. A velocidade e a aceleração da nave haviam sido consideradas, motivo por que o veículo espacial não penetrou no raio, que se manteve no espaço por três segundos.
Suspender fogo! — disse o comandante da nave de patrulhamento para dentro do microfone, enquanto a identificação da nave desconhecida saía do alto-falante.
Era um saltador!
Dali a cinco minutos, a Nil freou perto da nave cilíndrica e enviou um comando de inspeção à mesma. Toda a bateria do costado do cruzador dirigia-se ameaçadoramente para o corpo cilíndrico de menos de duzentos metros de comprimento.
Abordamos uma nave dos saltadores vinda do sistema de Gelslasy — transmitiu a sala de rádio da Nil à estação retransmissora Ori 12-1.818 e à base planetária de Beta. — O comando de inspeção já entrou na nave. Atenção para as informações do comando... Santo Deus! Alô, estação Ori 12-1.818, chame imediatamente uma nave-hospital. A nave dos saltadores está contaminada. Mais da metade dos tripulantes morreu; só oito dos saltadores apresentam boas condições de saúde. O sargento Hopkins, chefe do comando, acredita que o clã dos saltadores contraiu a doença de endurecimento intestinal. Esta informação é fornecida sob reserva. Para quando poderemos contar com a chegada da nave-hospital, Tenente Fitzgerald?
Fitzgerald, que se encontrava de serviço em Ori 12-1.818, perguntou:
Já proibiu ao comando de inspeção que saia da nave UG DVI?
Ainda não, mas providenciarei imediatamente. Já chamou a nave-hospital? Em que setor ela se encontra?
O Império Solar dispunha de apenas três naves desse tipo. Estas só tinham cem metros de diâmetro, mas eram grandes clínicas voadoras, equipadas com tudo que havia de mais moderno na Medicina dos aras e dos terranos. A primeira nave desse tipo entrara em serviço há dois anos, e quatro meses depois já pôde registrar um êxito notável: num trabalho hercúleo de dez dias, realizado no planeta Sulf, conseguira isolar um germe que provocava uma transpiração contínua nos imigrantes terranos radicados no planeta, fazendo com que morressem de desidratação. Dali a mais cinco dias, já se dispunha de uma vacina que salvou a vida de cento e vinte mil colonos que, sem ela, estariam irremediavelmente perdidos.
E agora a vida dos doze membros do comando de inspeção e dos saltadores que ainda não haviam morrido estava em jogo.
Uma das naves-hospital encontrava-se no estaleiro de Terrânia. A segunda nave estava em ação, no setor de Vega. E a terceira mantinha-se em posição de espera no espaço, a 8.590 anos-luz de distância. Avisada pelo Tenente Fitzgerald, anunciou sua chegada para dali a seis horas.
Enquanto a nave-hospital III abandonava a posição de espera e tomava a rota do ponto de transição, o médico-chefe entrou em contato com o comandante do cruzador de patrulhamento e, por intermédio deste, falou com o sargento Hopkins, chefe do comando de inspeção, que se encontrava a bordo da nave contaminada.
Descreva os sintomas, sargento! — pediu o médico-chefe.
Hopkins fizera vários cursos sanitários na Academia Espacial, mas não era médico. Hesitou.
Mas o médico-chefe da nave-hospital parecia estar com pressa.
Não faça drama, sargento — disse. — Pegue um dos saltadores e apalpe seu abdômen. A esta hora pouco importa que o senhor toque em algum doente, pois já está infetado. Pois bem. O abdômen parece duro como pedra até a altura do tórax, ou está sentindo partes macias? Em caso afirmativo, diga onde estas se localizam.
O hipercomunicador transmitiu os gemidos do sargento Hopkins a uma distância de 8.500 anos-luz. Teve a impressão de que estavam exigindo demais. Com a voz hesitante transmitiu o resultado de seu exame. O médico-chefe limitava-se ora a um sim ou um não ocasionais; quase sempre estava ouvindo.
Já cheguei ao tórax, doutor — disse Hopkins, que ainda não parecia sentir-se muito seguro. — Minhas informações servem para alguma coisa?
Obrigado, sargento. O senhor fez um ótimo trabalho. Infelizmente suas suspeitas de que se trata da doença de endurecimento intestinal se confirmaram. Prepare seus homens, avisando-os de que, dentro de duas ou três horas, começarão a ter cólicas intestinais. Tomarei todos os preparativos por aqui. Desligo.
Alô, doutor! — gritou Hopkins para dentro do microfone, mas logo silenciou, bastante decepcionado.
O hipertransmissor da nave-hospital já fora desligado. Não poderia perguntar mais quais eram as chances de sobrevivência. Sabia que a doença de endurecimento intestinal era uma das que apresentavam os maiores índices de mortalidade.
O Tenente Harald Fitzgerald acompanhara a palestra e resmungara várias vezes. Nos últimos anos, a doença de endurecimento intestinal surgira com tamanha freqüência nesse setor da Via Láctea, e o número de vítimas causadas pela mesma era tão elevado, que, até os aras, que eram os médicos galácticos, se declararam dispostos a combater a terrível moléstia em cooperação com os terranos. Do trabalho em conjunto resultará um bom remédio contra a doença. Porém as pesquisas em busca do germe causador da moléstia ainda não tinham sido coroadas de êxito.
Faça uma ligação com o quartel-general de Terrânia — disse Fitzgerald, dirigindo-se à sala de rádio.
A ligação de hiper-rádio foi estabelecida num instante. O tenente relatou a ocorrência, mas não conseguiu pronunciar mais de dez palavras. A nave-hospital III já notificara a estação terrana sobre a doença.
De resto nada de extraordinário, tenente? — perguntou o Major Dung, que falava de Terrânia.
Nada, major.
Bem que eu gostaria de ficar por um mês num cargo tranqüilo como o seu — concluiu o major com uma ponta de inveja na voz, dando por terminada a palestra com a estação retransmissora Ori 12-1.818.
Tranqüilo... — resmungou o Tenente Fitzgerald. — Este trabalho chega a ser monótono. Quem me dera que estivesse em Terrânia...

* * *

O carro parou, e a voz metálica e impessoal de um monstro de aço exigiu os documentos pessoais.
Walt Ballin já conhecia os robôs, mas nunca tivera contato com nenhum deles. E agora um desses homens mecânicos o levava para junto de Perry Rhodan, que apenas conhecia das apresentações na televisão.
Não se deu conta de que, enquanto se dirigia ao gabinete do administrador, passou por meia dezena de controles invisíveis. Mesmo que o trabalho destes fosse menos discreto, a essa hora ele não os teria notado. Walt Ballin transpirava de tão nervoso que estava e, ao lembrar-se do atrevimento que tivera ao chamar Perry Rhodan de Paris, começava a sentir-se mal.
O robô que caminhava à sua frente abriu mais uma porta e disse:
Mister Walt Ballin, sir!
O jornalista quase sofreu um colapso. Parou e, estupefato, fitou a grande sala inundada de luz e a escrivaninha atrás da qual estava sentado o homem que transformara uma Terra, antes desunida pelas dissensões políticas, no Império Solar.
Faça o favor de aproximar-se, mister Ballin! — disse a voz amável de Rhodan. Ballin viu o Administrador do Império Solar levantar-se atrás da escrivaninha.
Walt Ballin procurou controlar-se. Mas, devido ao nervosismo, esquecera-se das palavras de cumprimento que estudara durante o vôo para Terrânia. Entrou em atitude hesitante, sentou-se e viu-se diante do homem, cujo rosto jamais seria esquecido por quem tivesse fitado esses olhos frios e cinzentos.
Rhodan foi diretamente ao assunto.
Li seu artigo de fundo no Europa News, mister Ballin. Interessei-me tanto por ele, que gostaria de ouvir outros comentários a este respeito. O senhor acusa a administração por não deixar os terranos suficientemente informados sobre o que acontece na Via Láctea. Essa acusação já foi formulada antes contra nós. Na época foi manifestada no Parlamento; ao que parece, o artigo escrito pelo senhor despertou a atenção da imprensa mundial para o assunto. Mister Ballin, peço-lhe que me diga o que tinha em mente, ao escrever o artigo para a primeira edição de junho.
Perry reservara trinta minutos para a palestra com Walt Ballin, pois sua agenda não apresentava grandes disponibilidades de tempo. Mas uma hora e meia depois, o jornalista ainda se encontrava à frente de Rhodan, que continuava a ouvi-lo atentamente. Já formara seu juízo sobre Walt Ballin. O lugar desse homem era em Terrânia; mas não deveria juntar-se às dezenas de milhares de colaboradores que executavam trabalhos de rotina, e sim passar a pertencer ao círculo dos elementos mais chegados a Rhodan.
Estava a ponto de submeter essa proposta a Ballin, quando o videofone transmitiu o alarma.
Rhodan levantou-se de um salto e correu para a escrivaninha. Fitou o rosto do chefe da grande estação de hiper-rádio de Terrânia, que estava fortemente marcado pelo nervosismo.
Sir... — disse o homem em voz rouca, e teve de engolir em seco.
Perry Rhodan imaginava o que viria a seguir.
Lembrou-se do Sistema Azul.
Eram 18 horas e 59 minutos, tempo padrão.
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Eram 18 horas e 50 minutos, tempo padrão. O Tenente Harald Fitzgerald bocejava gostosamente no interior da estação retransmissora Ori 12-1.818.
Fazia uma hora que a nave-hospital se encontrava ao lado da nave dos saltadores UG DVI. Uma equipe de médicos dirigira-se à nave contaminada, a fim de iniciar a luta contra a doença traiçoeira.
Por algum tempo Fitzgerald acompanhara a troca de mensagens. Para a maior parte dos tripulantes da nave cilíndrica, o socorro vinha tarde. E, na opinião dos médicos era duvidoso que vinte saltadores enfermos jamais sarassem. Uma das características da doença consistia no fato de provocar a morte com uma rapidez extraordinária, e de, já num estágio incipiente, paralisar e petrificar todo o aparelho intestinal. Este processo de petrificação podia ser detido e invertido por meio de um preparado mas, uma vez atingido o estágio final, os médicos viam-se impotentes diante da doença.
Durante a hora em que acompanhara a troca de mensagens, Fitzgerald soubera tanto a respeito da moléstia traiçoeira, que, por várias vezes, se vira levado a apalpar o abdômen, a fim de verificar se continuava macio. Chamou de idiota a si mesmo e esteve prestes a desligar-se da troca de mensagens. Porém só conseguiu fazê-lo quando os médicos passaram a palestrar exclusivamente em sua linguagem técnica.
E agora estava sentindo tédio.
O relógio mostrava 18 horas e 51 minutos.
Harald Fitzgerald, o escocês louro e muito esbelto, levantou-se e ia bater um papo na sala de rádio, quando viu o oscilógrafo do rastreador estrutural entrar em funcionamento. No mesmo instante perdeu a vontade de conversar. Com um salto colocou-se diante do aparelho de localização. O oscilógrafo encontrava-se à sua frente.
Curvas muito achatadas surgiram na tela esverdeada. Eram curvas provocadas por uma transição. Acontece que nem as naves terranas, nem as do Império Arcônida seriam capazes de revelar um salto pelo hiperespaço por meio de amplitudes tão estranhas.
A deformação das curvas mostrava a suavidade da manobra de imersão da nave desconhecida.
O alarma soou. Mais uma vez, o grande computador positrônico de bordo constatara a presença de uma nave não anunciada. O Tenente Fitzgerald não teve necessidade de espantar seus cinco auxiliares da modorra em que trabalhavam.
O rastreador de relevo, criado juntamente com o sistema de propulsão linear, estava acoplado ao computador. E quase ao mesmo tempo que o alarma, transmitiu as coordenadas ao rastreador de matéria. O computador positrônico levou apenas alguns segundos para determinar a posição galáctica da espaçonave desconhecida.
Alain Berliez e Roger Dempsey, que há seis meses, quando eram tenentes recém-promovidos, tinham sido designados para a estação Ori 12-1.818, haviam recebido um treinamento especial no rastreador de relevo. Era sobre eles que pesava a carga principal da responsabilidade.
No caso, aplicava-se a advertência de Perry Rhodan. Mas antes de irradiar o alarma para o quartel-general, teriam de apurar mais alguns dados.
Dali a pouco, os contornos da nave desenharam-se na tela do rastreador.
É uma nave esférica! — irrompeu Alain Berliez em tom de surpresa. — Por pouco não cometemos um vergonhoso engano.
Tem certeza de que é uma nave esférica?
O Tenente Fitzgerald lembrou-se da curva achatada e não era capaz de acreditar que o estranho abalo estrutural tivesse sido provocado por uma nave de Árcon.
Não existe a menor dúvida! — respondeu Berliez, em tom convicto.
Não é verdade! — observou Roger Dempsey. — Esta nave tem os pólos muito achatados, Berliez. Que diabo! Qual será a causa da distorção da imagem?
Fitzgerald foi apressadamente até o rastreador. Um dos jovens tenentes afastou-se para ceder-lhe o lugar. Examinou atentamente o quadro que se apresentava na tela. A imagem estava distorcida, mas não tanto que o achatamento se apagasse.
Nave desconhecida desloca-se a 0,8 luz. Distância 4,10 horas-luz.
Qual é a direção? — perguntou Fitzgerald.
O sistema Orion! — respondeu um dos tenentes.
O relógio mostrava 18 horas e 56 minutos, tempo padrão.
Berliez, o senhor não poderia obter uma imagem mais nítida?
Fitzgerald nem se deu conta de que numerosos pingos de suor apareciam em sua testa. Deixou que Berliez se aproximasse do hiper-rastreador. O jovem tenente começou a manipular com uma segurança de sonâmbulo os três botões de regulagem. A imagem desfez-se, voltou, ficou muito nítida e dali a pouco voltou a desaparecer.
Berliez... — gritou Fitzgerald, em tom impaciente.
Alain Berliez, um tenente de vinte e um anos, não deixou que essa observação o perturbasse.
A imagem voltou bastante nítida.
E apresentou claramente os achata-mentos nos dois pólos da nave.
18 horas e 57 minutos.
Fitzgerald transmitiu a ordem destinada à sala de rádio. Esta ordem restringia-se a poucas palavras:
Comando 486. Alarma para o quartel-general.
O comando 486 dizia respeito à advertência de Rhodan. Dois impulsos concentrados, preparados pelo computador positrônico, foram irradiados pela antena de hiper-rádio. Frases lacônicas informaram o quartel-general da Frota Solar, situado em
Terrânia, sobre as observações realizadas pela estação Ori 12-1.818.
Terrânia não fez perguntas. O conteúdo da mensagem era inequívoco.
No supercouraçado Drusus, as sereias de alarma começaram a uivar. O cintilante quadro transparente da gigantesca sala de comando, que não poderia deixar de ser notado, informou os três oficiais de plantão de que o alarma fora desencadeado pelo chefe, o que significava que a decolagem seria imediata.

* * *

Walt Ballin sentiu-se fascinado com a ação rapidíssima, mas ponderada de Perry Rhodan. Levou algum tempo para compreender que assistia ao início de uma nova série de acontecimentos.
Chegaram, Bell!
Marshall, envie todos os mutantes disponíveis à Drusus. Alarma!
Freyt, assuma aqui. Tenho de sair.
Drusus...?
Pela primeira vez ouviram-se palavras saídas do alto-falante.
Sim senhor, aqui fala a sala de comando da...
Decolagem de emergência dentro de quinze minutos. Desligar tráfego de hiper-rádio; triangular Drusus—Terrânia—estação Ori 12-1.818.
Entendido, sir. Decolagem de emergência em...
Rhodan modificou a posição da chave e entrou em contato com o quartel-general.
Instruções para a frota de Orion: Não dar combate à nave desconhecida que se encontra no setor. A Drusus irá até aí. Se surgirem outras naves desconhecidas, entrem em ação imediatamente, guiando-se pela instrução 486-A. Toda a frota de Orion deverá ficar de prontidão para decolar. Desligo.
Walt Ballin estremeceu sob o olhar de Perry Rhodan.
Quer ir comigo, Ballin?
O jornalista voltou a estremecer.
Eu...?
Pois bem. Venha comigo. Decolaremos dentro de treze minutos.
Rhodan correu em direção à porta. Ballin seguiu-o. O elevador antigravitacional levou-os à cobertura do edifício. Enquanto subiam, Rhodan dirigiu-se ao jornalista.
Se não quiser não precisa vir, Ballin. Suponho que o vôo envolva certos riscos.
Tenho o maior prazer em aceitar seu convite. Toda profissão tem seus riscos.
Estas palavras fizeram surgir um sorriso no rosto de Rhodan. Ballin não saberia dizer se este sorriso exprimia compaixão ou ironia.
O que o senhor acaba de dizer sobre o risco não deixa de ser exato, mister Ballin. Mas tenho minhas dúvidas de que o senhor esteja avaliando corretamente a diferença entre o risco profissional comum e o risco ligado aos nossos vôos.
No momento em que chegaram à cobertura do edifício, o planador de Reginald Bell levantava vôo e saía velozmente em direção ao espaçoporto. Dali a pouco, Walt Ballin viu-se em outro planador, ao lado de Rhodan. Seguiram a toda velocidade em direção ao setor do espaçoporto em que o vulto gigantesco da Drusus se erguia para o céu.
Por que não faz perguntas, Ballin? — disse Rhodan ao jornalista surpreso. — Naturalmente pode conhecer o destino do vôo e o motivo do alarma.
Não deu maior atenção ao espanto de Ballin. Quando voltou a controlar os pensamentos do jornalista, percebeu que ele acreditava tratar-se de um acaso. Nem desconfiava de que o homem que se encontrava a seu lado dispusesse de certas faculdades.
Sir, a modificação da situação é tão surpreendente... — gaguejou Ballin e interrompeu-se, perplexo, ao ouvir a risada de Rhodan.
Foi uma surpresa para o senhor, Ballin. Para mim e meus colaboradores, não foi. Já nos habituamos a isso, e talvez o hábito seja o culpado de não informarmos os terranos conforme devíamos. Gostaria que o senhor se incumbisse disso, Ballin. Foi por isso que lhe pedi que viesse para Terrânia. Bem, chegamos.
Rhodan fez pousar o planador junto às primeiras colunas telescópicas da Drusus, que tinham a grossura de uma torre de igreja. Saltou agilmente do veículo e já tinha dado dez passos quando Walt Ballin se dispôs a segui-lo.
Walt Ballin não sabia para onde devia dirigir seus passos. Nunca estivera nas imediações de um supercouraçado da Frota Solar e, agora que o via à sua frente, não queria conformar-se com a idéia de que um colosso deste pudesse erguer-se um centímetro que fosse.
A rampa que levava à comporta polar tinha o formato de uma grande rodovia. A comporta propriamente dita parecia um portão superdimensionado. E ainda havia um gigantesco tubo. Era o elevador antigravitacional, que os fez subir com uma velocidade espantosa.
Compare o tempo, Ballin — disse Rhodan, arrancando-o de seu espanto.
São 19 horas e 12 minutos, sir — disse Ballin, sem desconfiar de nada.
Correto. Dentro de dois minutos decolaremos. Desculpe se não posso dedicar-me mais ao senhor, Ballin. Fique com as orelhas de pé e os olhos bem abertos. Seu trabalho começará depois que tivermos concluído nossa missão. Por que estremeceu de repente, Ballin?
Walt Ballin acabara de lembrar-se de uma jovem chamada Yvonne Berclais, com a qual combinara um encontro no Trois Poulardes, às vinte horas daquele dia.
Ballin esquecera-se completamente desse encontro...
No elevador antigravitacional havia um tráfego de emergência. Algumas centenas de pessoas subiam e desciam ininterruptamente, cada uma em direção ao lugar que lhe cabia no interior da nave. Desde o momento em que entrara na Drusus, Walt Ballin notara que ninguém tomava conhecimento da presença do administrador, que não fora cumprimentado por uma única pessoa. Este fato e a impressão tremenda causada pelo gigante esférico foram esquecidos, quando se lembrou do encontro com Yvonne.
Pela primeira vez compreendeu o sentido da frase “dar um tranco no coração”.
E foi o que fez. Contou a Rhodan aquilo que ele esquecera completamente na turbulência daquele dia.
Vamos sair aqui — disse Rhodan, segurando-o e subindo ao convés central da nave, que levava à sala de comando. — Quer voltar, Ballin?
Isso não, mas... Bem, acho que não é possível, sir! — gaguejou o jornalista, confuso.
Venha comigo, Ballin. É claro que podemos arranjar isso. Vou deixá-lo na sala de rádio. Entre em contato com quem estiver lá e peça uma ligação para Paris. É aqui... Vá. Tudo de bom, Ballin!
Será que Rhodan desconfiava de que, naquele momento, conquistara mais um amigo?
Que homem — cochichou Ballin, enquanto acompanhava Rhodan com os olhos, até que o administrador desaparecesse no interior da escotilha que dava para a sala de comando.
No momento em que ia entrar na sala de rádio, o jornalista estremeceu.
A Drusus soltou um rugido.
A espaçonave esférica de mil e quinhentos metros de diâmetro iniciou a decolagem. Os motores de impulsos titânicos, instalados na protuberância equatorial da nave, foram regulados para o desempenho máximo, e o envoltório da nave ressoou sob a ação das tremendas energias liberadas.
Olá, quem é o senhor? — disse uma potente voz masculina perto do ouvido de Ballin, que sentiu uma mão pousada em seu ombro.
Virou-se. Já conhecia o rosto sardento que fitou.
Mister Bell, eu sou Walt Ballin do jornal Europa News. O administrador convidou-me a acompanhá-lo no vôo da Drusus.
Um par de olhos desconfiados fitou o jornalista.
Percebe-se de pronto que o senhor é estranho no lugar. Logo saberemos se as informações que acaba de fornecer são corretas. Afinal, o senhor não pode fugir. Quando muito pode perder-se na nave. O que veio fazer na sala de rádio? Não sabe ler? Aqui há uma placa que diz “Entrada Proibida”.
O administrador...
Ballin não conseguiu prosseguir. Bell interrompeu-o com um gesto violento.
Pare com isso. O maior favor que pode fazer a Perry e a nós é chamá-lo de chefe, não de administrador. Mas o que deseja na sala de rádio?
Walt Ballin estava muito bem informado sobre a posição que Reginald Bell ocupava na nave, e por isso não teve outra alternativa, senão confessar que esquecera-se de um encontro e que, agora, queria desculpar-se.
O sorriso de Bell tornou-se cada vez mais amplo.
Ora — disse. — Se o senhor quiser me pregar uma peça...
Walt soltou um grito e afastou-se, pois uma forte lufada de ar quase lhe arrancara o boné, e um animal de um metro de altura, que na parte de cima era um rato e na de baixo, um castor, materializou-se e piou com a voz penetrante:
O rapaz não está mentindo, gorducho. Realmente quer falar com a namorada. Você nunca fez uma coisa dessas, não é? Mas não houve uma certa Sheila Gibbons, uma Madeleine Ykes, uma Rosita Menderes e...
Por favor, mister — disse Bell.
Walt Ballin não compreendeu por que merecera a honra de ver o representante de Rhodan abrir a porta, que dava para o sala de rádio, e convidá-lo a entrar.
Mas Bell sabia por que se deixara levar a este ato de ridículo. Mal acabou de fechar a porta virou-se para Gucky. Ao ver que a pequena criatura, que o fizera passar vergonha diante do jovem, desaparecera tão depressa como havia surgido, soltou uma praga.
Enquanto Walt Ballin conseguia a ligação com Paris e esperava o momento em que o rosto de Yvonne Berclais aparecesse na tela, Perry Rhodan, que se encontrava na sala de comando, pediu que lhe dessem as últimas notícias vindas da estação retransmissora Ori 12-1.818.
O General Conrad Deringhouse estava de pé a seu lado.
Não há muitas novidades, sir — disse na sua maneira tranqüila. — Mas o pouco que há é muito inquietante. Acho que são eles.
Tem tanta certeza, Deringhouse?
A pergunta de Rhodan não foi proferida em tom irônico.
Sem dizer uma palavra, o general entregou-lhe uma fotografia transmitida pelo rádio, que mostrava uma pequena espaçonave com os pólos achatados.
Olhe também este oscilograma com as curvas achatadas, sir. Para nós, é uma coisa nunca vista. Se não for uma nave acônida, vinda do Sistema Azul, então, mais uma vez, iremos encontrar-nos com uma raça desconhecida. Acontece que o formato esférico contraria essa suposição. Pouco importa que haja um achatamento nos pólos ou não, em princípio a nave representa uma esfera, e face a isso só se pode concluir que se trata de um artefato acônida.
Enquanto isso a Drusus saía do sistema solar em velocidade cada vez maior. Mas muitos minutos preciosos ainda se passariam antes que a nave capitania do Império Solar entrasse em transição.
Novos dados chegaram da estação re-transmissora Ori. Com base em tais cifras, os oficiais da sala de comando da Drusus marcaram a rota da nave desconhecida no mapa estelar. Rhodan e Deringhouse aproximaram-se, Bell entrou sem que ninguém o percebesse e colocou-se atrás dos dois.
Não parece que pretendem pousar no número três do sistema Beta — mais uma vez Bell disse o que pensava.
Tive a mesma impressão, gordo — respondeu Rhodan. — Mas o que é que a nave veio fazer em Beta, se não pretende pousar no único planeta habitado do sistema?
Deveríamos chamar a nave e perguntar. A propósito, você sabe que na Drusus há um jovem...
Fui eu quem o trouxe. No momento, o jovem não nos interessa. Encarregue-se do hiper-rádio, Bell. Acho que não devemos irradiar mais de três impulsos.
Reginald Bell adiantou-se e lançou um olhar um tanto desconfiado para o amigo.
O que é feito do seu otimismo, Perry?
Ele só voltará depois que eu souber quem se encontra na nave desconhecida e o que está procurando na constelação de Orion. Deringhouse, mande que toda a frota e todas as bases fiquem de prontidão. Acho que não lhes devo ocultar que há alguns minutos sinto algo parecido com o medo.
Bell e o General Deringhouse entreolharam-se ligeiramente e saíram. Um deles chamaria o veículo espacial desconhecido pelo hiper-rádio, a fim de perguntar de onde vinha e para onde ia, enquanto o outro colocaria em estado de prontidão a Frota Solar e as bases fortemente armadas.
Dali a cinco minutos chegou mais uma informação de Ori 12-1.818. Mais um trecho da rota percorrida pela nave desconhecida foi assinalado no mapa estelar.
Reconhecia-se perfeitamente que, por enquanto, seu destino era o sistema do sol gigante de Beta, um monstro de mais de quatrocentos milhões de quilômetros de diâmetro e um verdadeiro gigante da classe M.
Perry Rhodan refletia cada vez mais intensamente sobre a superioridade técnica dos acônidas do Sistema Azul, que descobrira no centro da Galáxia por meio do conversor de compensação de Kalup, isso por ocasião do primeiro vôo experimental da Fantasy. Os acônidas já não usavam espaçonaves, quando iam de uma estrela a outra. Recorriam a transmissores de alta capacidade. Mas, para sair de sua área de soberania, dependiam de espaçonaves, a não ser que no planeta de destino houvesse uma estação de transmissores.
A nave desconhecida cada vez mais se aproximava do sistema Beta. Via-se nitidamente que o destino era um dos planetas exteriores, a não ser que a nave pretendesse desviar as atenções dos terranos.
Bell voltou da sala de rádio.
Não respondem. E não estão transmitindo qualquer mensagem. Ao menos, a estação do sistema Orion ainda não constatou nada.
Bell não estava gostando do caso que tinham de resolver. Respeitava o poderio dos acônidas.
Que diabo os acônidas querem conosco? — continuou o gorducho. — Seu aparecimento numa área tão próxima ao nosso sistema solar não poder ser um simples acaso. Ou será que você acredita no acaso, Perry?
Desde que tive conhecimento da existência do Sistema Azul, prefiro não especular com o acaso. Faço votos de que meus temores sejam infundados. Torçamos para que os acônidas não conheçam a posição galáctica da Terra. Você pode fitar-me com essa cara de espanto, Bell. Com os acônidas não podemos brincar de esconder, tal qual fizemos com os arcônidas e os mercadores galácticos.
Você está com uma excelente disposição — ironizou Bell, passando a mão pelos cabelos ruivos. — E isso somente porque esta pequenina estrela candente achatada voa pelo sistema Beta. Não compreendo o seu pessimismo.
E eu não compreendo o que os acônidas estão procurando por aqui. No meu entender pretendem chocar-nos. Querem que nós os observemos. E quem age assim sempre tem um trunfo escondido.
Um sorriso juvenil surgiu no rosto de Bell.
Pelo menos num ponto levamos vantagem sobre eles — disse. — E isso no que diz respeito ao sistema de propulsão linear, Perry. Ele nos permitiu entrar num sistema estelar, fortemente guarnecido, e depois abandoná-lo.
Coitado! — exclamou Perry Rhodan, em tom de compaixão.
Você deve saber — respondeu o gorducho. — Mas se continuar assim, tornar-se-á contagiante; tão contagiante como a doença de endurecimento intestinal. Ora! Será que não existe uma relação entre o adoecimento dos saltadores e o aparecimento dos acônidas?
A pergunta foi formulada em voz exaltada.
Os saltadores gostam de viver tanto quanto nós, gordo. Pense um pouco antes de falar. Um moribundo não faz um jogo equívoco, e os médicos da nave-hospital III já nos teriam informado se houvesse qualquer combinação entre os acônidas e os mercadores galácticos. Sua teoria é absurda, Bell.
E qual é a sua teoria, Perry?
Por enquanto não me ocorreu nenhuma. Gostaria que alguém respondesse à minha pergunta: por que os acônidas vieram?
Com uma expressão pensativa, o administrador examinou a rota da nave desconhecida, assinalada no mapa estelar.
Quer dizer que você está convencido de que se trata de uma nave dos acônidas, Perry?
Por enquanto estou.
E pretende enfrentar essa nave com a Drusus?
Se necessário, sim. Mesmo que o poder de fogo da pequena nave acônida seja muito superior ao nosso, os campos defensivos da Drusus resistirão ao ataque.
Mais uma vez, Bell lançou um olhar desconfiado para o amigo.
Você está ficando preocupado por pouca coisa, Perry. O que receia com o aparecimento da espaçonave acônida?
Tudo! Não me esqueci da recepção e do tratamento que recebemos no Sistema Azul. Trataram-nos como selvagens rudes, não como homens dotados de certo grau de inteligência.
Os acônidas são os esnobes galácticos — disse Bell, em tom impulsivo.
Rhodan não pôde deixar de rir.
Você que é feliz — ainda conseguiu dizer antes que o general aparecesse.
Trago uma notícia importante, sir. O Tenente Fitzgerald, da estação retransmissora do setor de Orion, acaba de informar que a nave desconhecida emite impulsos de rastreamento, para os quais ainda não há nenhuma explicação. Inicialmente Ori 12-1.818 foi atingida por impulsos condensados numa potência extraordinária. Depois disso, a nave de patrulhamento Nil percebeu que estava sendo envolta em alguma coisa que era capaz de interferir nas recepções de hiper-rádio, a tal ponto que as transmissões quase não podiam ser entendidas. Antes que a estação e a nave de patrulhamento pudessem realizar qualquer medição, o fenômeno chegou ao fim. A estação Ori apenas conseguiu determinar a intensidade da transmissão. Foi de 2512 Oersted, sir, e isso a uma distância daquelas...
Reginald Bell estava perfeitamente familiarizado com essa área da Física. Numa só operação de raciocínio estabeleceu a ligação entre a distância que separava a nave desconhecida da retransmissora Ori 12-1.818 e a intensidade do campo magnético que a atingiu, e disse em tom convicto:
Essa espaçonave só pode ser tripulada por acônidas.
Rhodan e Deringhouse não formularam qualquer objeção.
Dessa forma, nossa lógica e o centro de computação de Vênus mais uma vez estão com a razão — disse o General. — Por ocasião de nossa visita involuntária ao Sistema Azul, devemos ter exibido nosso cartão de visita.
Acho mais provável que ele nos tenha sido arrancado do bolso — conjeturou Rhodan. — Talvez seja graças à dama acônida Auris que os habitantes do centro da Via Láctea já saibam de onde viemos. Será que não há motivo para suspeitarmos que o traidor seja o computador de bordo da nave Fantasy, destruída numa explosão?
Dois homens balançaram a cabeça; ambos respiravam com dificuldade. Não refletiram sobre a maneira pela qual a acônida Auris teria conseguido extrair do computador de bordo da nave-protótipo os dados galácticos da Terra. Dali só resultaria uma série de perguntas, e não haveria possibilidade de responder a qualquer uma delas, face à enorme superioridade técnica dos acônidas.
Rhodan lançou um olhar ao oficial que estava próximo do grande computador positrônico de bordo e perguntou:
Quando saltaremos?
Daqui a oito minutos, sir. Então já teremos saído do campo gravitacional do sistema solar.
Obrigado — respondeu Rhodan e voltou a dirigir-se a Bell e ao general. — Por enquanto a única coisa que podemos fazer é esperar. Não vale a pena irmos aos camarotes. Vamos descansar um pouco.
Naquele momento, a voz metálica do computador de bordo iniciou a contagem regressiva para a transição. Os três homens se haviam acomodado nas poltronas dos pilotos.
Deringhouse lançou um olhar ligeiro, mas penetrante para seu chefe, e disse:
Está preocupado, sir?
Estou — confessou Rhodan. — Realmente estou. Este vôo bem traçado da espaçonave dos acônidas constitui prova inequívoca da existência de um plano. E minhas suspeitas a este respeito ainda se reforçam pelo fato de a nave desconhecida não expedir mensagens pelo rádio. Mas as adivinhações não nos levarão a nada. Teremos de aprisionar aquela nave e obrigar os acônidas a pôr as cartas na mesa.
Bell, que ouvira a resposta de Rhodan, endireitou o corpo de sopetão.
A idéia de que os acônidas só vieram com uma única nave, que além do mais é um veículo de cem metros, deixa-me muito assustado. Será que outras naves estão percorrendo as áreas de influência da Terra, sem que até agora tenham sido descobertas?
Não há nada que seja impossível. Nem sequer podemos excluir a hipótese de que sejam capazes de envolver suas naves num campo antilocalização diante do qual somos impotentes.
Nesse caso ainda poderemos esperar algumas surpresas — resmungou Bell.
A Drusus estava prestes a realizar a transição em direção ao sistema Orion, situado a seiscentos e cinqüenta anos-luz.
O computador positrônico de bordo estava fazendo a contagem do último minuto que precedia a transição. As sereias começaram a uivar em todos os recantos da gigantesca nave esférica. Seu uivo ligeiro representava o seguinte: todos os tripulantes teriam de atar os cintos.
Finalmente chegou o momento X. Seguiu-se a transição. O local do espaço, onde há pouco se encontrava uma gigantesca esfera, estava vazio.
3



Homens altos de pele morena aveludada estavam de pé junto à sua espaçonave e conversavam; riam e contavam piadas, como se fossem habitantes do planeta Terra e não forças especiais do Sistema Azul, que levavam uma vida cheia de ações perigosas.
A pele morena era um produto natural do gigantesco sol azul sob o qual viviam, e que tinha cento e oitenta vezes o diâmetro do sol terrano. As potentes radiações ultravioletas haviam produzido a cor, que caracterizava esta raça.
A luz do sol azul de Ácon rompeu uma camada de nuvens pouco espessas e fez com que, naquele dia de verão, um calor sufocante reinasse no planeta Esfinge.
O pequeno grupo de acônidas não se importou com isso. Era composto de jovens que conversavam alegremente e nem pensavam na missão que tinham pela frente. Estavam esperando Vu-Pooh, comandante da Retse-U, uma nave esférica de cem metros de diâmetro.
O veículo estelar de pólos achatados era a trigésima oitava unidade do Comando Energético, formado por cinqüenta e duas naves desse tipo.
No Sistema Azul não chegava a haver cinqüenta e três espaçonaves.
Há muitos milênios neste sistema deixara de existir aquilo que os homens e os arcônidas designavam como navegação espacial. Há muito os acônidas haviam dispensado estes meios de transporte. Consideravam-nos lentos. Transformaram a lua do planeta Esfinge numa gigantesca estação transmissora e instalaram em quase todas as colônias, situadas num círculo muito amplo, pequenas estações receptoras conjugadas com a estação transmissora da lua. Essas estações realizavam o transporte de homens e mercadorias através do tempo e do espaço.
Com isso uma viagem de um planeta a outro transformara-se num simples passeio. O acônida atravessava a porta energética da estação, dava um passo adiante, e saía no planeta que queria.
A pequena frota de espaçonaves de cem metros era reservada para cuidar de casos muito especiais. Seu nome oficial era Comando Energético. Mas por menores e insignificantes que fossem, encerravam um gigantesco volume de energia. Há mais de oito mil anos do calendário acônida o comando não perdera uma única nave. Por isso os tripulantes achavam que suas missões não eram perigosas. Para eles, aquilo não passava de uma viagem pela Galáxia, realizada por meios primitivos, durante a qual surgiriam certas aventuras, sem nenhum perigo.
Voavam para resguardar a segurança do Sistema Azul. E agora parte da tripulação da Retse-U esperava seu comandante, a fim de proteger mais uma vez a segurança de seu império estelar.
Pan-Thel, o acônida de cabelos negros, foi o primeiro a ver o comandante Vu-Pooh atravessar o pequeno espaçoporto. Avisou os companheiros. As risadas cessaram de repente. Todos lançaram um olhar cheio de expectativa para Vu-Pooh.
Era um homem gigantesco, de cabelo encaracolado cor de fogo, que já de longe fez um gesto de desapontamento.
Ainda não é nada! — disse Mna E-Ig, um homem esbelto. — E olhem que eu esperava que, pelo menos desta vez, tivéssemos um trabalho interessante.
Você está pensando naquelas criaturas pequenas, feias, e de pele branca e repugnante, Mna? — perguntou Gim Sarem, que era o representante do comandante.
Será que há alguém que não estava pensando nelas? — interveio O1 Pan-Thel. — Também os vi, mas devo confessar que para mim não foram feios nem repugnantes. A gente logo se acostuma à cor estranha de sua pele e, quando me lembro de um homem alto, de olhos cinzentos, devo dizer que me impressionou de certa forma. E esses desconhecidos não acabaram nos impressionando porque desapareceram de repente, embora devessem ficar presos.
Mna E-Ig riu baixinho. Dirigiu-se a O1 Pan-Thel.
Se é assim, nosso trabalho ainda poderá tornar-se interessante, OI.
Tolice — disse Gim Sarem. — O1 tem uma queda toda especial por esses seres. Os nojentos peles-brancas apenas tiveram sorte. Soube de fonte segura que subestimaram a potência de seu propulsor. Quanto ao resto, sua nave não vale nada — por acaso lançou um olhar para O1 Pan-Thel e notou-lhe o sorriso irônico. — Sei que você não acredita no que acabo de dizer, O1. Isso é uma atitude tipicamente sua. Neste ponto você já se manifestou por várias vezes de forma bastante desagradável. Não gostou de alguma coisa do que eu disse?
Não gostei de você ter chamado os desconhecidos de nojentos peles-brancas, Gim. Será que nós os conhecemos? Afinal, na Galáxia existem outras criaturas além de nós.
Ora! — chiou o representante do comandante da Retse-U, dirigindo-se a O1 Pan-Thel. — Então você não gostou. Mas será que você concorda com o comportamento que esses peles-brancas adotaram? Será que nos dispensaram um tratamento modesto e discreto, conforme convém a desconhecidos? Nada disso. Insinuaram-se de forma altamente inconveniente, muito embora nós tivéssemos dado a perceber de forma inequívoca que não queríamos nada com eles. Será que você se atreve a contestar este ponto, O1 Pan-Thel?
Gim Sarem, lembro-me de uma frase de Untk, nosso maior filósofo — respondeu Pan-Thel com a voz tranqüila, muito embora o comandante Vu-Pooh já se tivesse juntado ao grupo. — Untk disse...
Deixe-nos em paz com seus velhos filósofos... — esbravejou Sarem. Porém teve de ficar calado, porque Vu-Pooh interveio na palestra.
Que frase pretendia citar, O1?
É uma frase lacônica de Untk: “Não há nada que aconteça sem motivo.”
Alguns homens riram; quem riu mais alto foi Gim Sarem. Mas Vu-Pooh não riu.
Nossa missão também não deixa de ter um motivo, Pan-Thel. O Conselho Deliberativo de Ácon decidiu que se lançaria mão de Mal-Se. Vamos subir a bordo. É melhor do que discutir os pronunciamentos dos filósofos.
Era uma ordem. A discussão não foi reencetada. Dali a pouco, um recipiente foi colocado a bordo. Segundo os caracteres acônidas que apareciam no mesmo, sua representação gráfica formava “Mal-Se”.
A Retse-U obteve permissão de decolar.
A espaçonave esférica achatada nos pólos subiu tal qual uma flecha, atravessou a camada de nuvens pouco espessa e desapareceu. Sua missão iniciara-se.

* * *

O retorno da Retse-U ao Universo normal foi macio, sem qualquer efeito de choque. Beta apareceu à sua frente sob a forma de um olho vermelho luminoso.
Vu-Pooh e Gim Sarem eram os únicos que se encontravam na minúscula sala de comando. Não se impressionaram com aquele sol monstruoso. Mantiveram-se inativos em suas poltronas; nem sequer dedicavam um olhar de controle aos poucos instrumentos que tinham diante de si.
Alguns minutos passaram-se em silêncio. De repente Vu-Pooh inclinou-se para a frente e contemplou uma pequena esfera, que parecia flutuar no interior de um estojo metálico. Dois pontos incandescentes surgiram na superfície da esfera. Vu-Pooh parecia satisfeito; acenou com a cabeça e voltou a reclinar-se na poltrona.
Fomos descobertos, Sarem.
Está bem — respondeu Sarem. Com isso, o caso estava liquidado para ambos...
A Retse-U parecia correr desgovernada em direção ao sistema planetário de Beta. Os dois acônidas fitavam com uma expressão indiferente a tela que pareceria estranha aos olhos de um homem. Estava regulada para a área de destino da nave, e conseguia captar até mesmo os planetas exteriores do sol gigante.
O tempo foi passando. A Retse-U continuava a correr vertiginosamente em direção ao destino. De repente Gim Sarem fez um movimento. Apontou para a tela, que mostrava um círculo, debilmente refletido, de diâmetro extremamente reduzido.
Vu-Pooh limitou-se a lançar-lhe um olhar ligeiro.
Deve ser a estação localizadora, Gim.
O comandante da nave Retse-U, pertencente ao Comando Energético, achava que não valia a pena perder mais palavras sobre isso. Por que haveria de fazê-lo? Aquela missão era simples rotina, tal qual as que já realizara.
A pequena nave cruzou a órbita do planeta exterior, que era um mundo de gás congelado. Aproximou-se a apenas 30 mil quilômetros do astro seguinte. No interior da nave ninguém percebeu que esta penetrara nas massas de ar revolto. Dali a alguns segundos, o planeta já ficara bem para trás.
De repente um instrumento destacou-se da superfície do pequeno painel de comando. Parou na altura dos olhos dos dois acônidas.
Ora, veja... — disse Gim Sarem em tom de espanto. — São três naves dos peles-brancas.
Os corpos dos dois acônidas pareciam adquirir vida. Não tiravam os olhos do instrumento, e com um ar desconfiado liam os dados fornecidos pelo mesmo.
É estranho — murmurou Vu-Pooh. — Não tomam conhecimento de nossa presença. São três naves que não saem do lugar.
E continuaram no mesmo lugar.
Os acônidas não poderiam saber que a nave de patrulhamento Nil recebera ordens expressas de não tomar nenhuma providência diante da presença da nave desconhecida, permanecendo junto à nave-hospital e à nave cilíndrica contaminada.
O interesse dos acônidas pelas três naves logo diminuiu. Confiavam demais na força combativa e na velocidade da Retse-U.
A nave achatada passou a uma distância enorme de Beta. O monstro tangia para o espaço protuberâncias de centenas de milhões de quilômetros. Era uma fornalha de energias atômicas em constante mutação.
Os acônidas nem sequer chegaram a lançar um olhar para o gigante.
Há um chamado — constatou Vu-Pooh laconicamente, quando a tradutora estacionaria se dirigiu a eles.

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