Dirscherl
abriu a gaveta e folheou os cartões, até encontrar o que desejava.
Fez um gesto de satisfação e entregou-o a Rhodan.
Demorou
apenas alguns segundos.
— Pelo
que vejo, até agora só houve uma única transição no setor, e
isso em 10 de setembro de 2.044, ou seja, há dezoito dias. O local
do salto e do reingresso no espaço normal foram registrados. A
distância do salto é de exatamente 20,3 anos-luz. Hum!
— Tem
certeza de que se trata da nave dos antepassados?
Rhodan fez
um gesto afirmativo para Lund.
— Qualquer
outra hipótese seria pura coincidência, e esta é pouco provável.
Olhou para
o cartão.
— Infelizmente
a direção não pôde ser registrada. Quer dizer que teremos de
continuar a procurar. Mas ao menos temos algum ponto de referência.
Rhodan
anotou os dados e agradeceu ao técnico em cibernética. Voltaram à
Drusus e se dirigiram a Vênus, onde se certificaram das informações
conseguidas através do arquivo positrônico de Terrânia.
Enquanto
regressavam à Terra, Rhodan fez um resumo:
— O
grande cérebro positrônico de Vênus armazenou todas as informações
de que uma raça de astronautas precisa para orientar-se no interior
da Via Láctea. Já sabemos que, à frente da nave dos antepassados,
num semicírculo de 20,3 anos-luz, só existem cinco sóis. Um deles
deve ser o destino dos arcônidas. Não sabemos qual das cinco
estrelas pretendem atingir, porque não podemos partir do pressuposto
de que devesse ser alguma das que têm planetas habitáveis, pois os
arcônidas não possuíam essa informação. Portanto, não nos resta
outra alternativa senão examinar os cinco sóis. Para ganhar tempo,
esperaremos em Terrânia, enquanto cinco cruzadores se dirigem aos
cinco sóis, à procura de alguma pista da nave dos antepassados.
Assim que tivermos informações concretas, decolaremos. Alguma
pergunta?
Gucky teve
uma pergunta.
— Quanto
tempo poderá demorar isso, Perry?
A pergunta
foi proferida em tom astucioso e ligeiramente tenso. Bell aguçou os
ouvidos.
— Isso
depende do tempo que os cruzadores levarão para localizar a nave dos
antepassados. Assim que conhecermos sua posição, decolaremos.
— Pretende
esperar na Drusus, e não em Terrânia, na sua residência?
— É
claro que pretendo esperar na minha residência. Tenho muita coisa
para fazer. Mas qual é a finalidade dessa pergunta?
As
perguntas de Gucky ainda não haviam chegado ao fim.
— Quanto
tempo levaremos para decolar depois que conhecermos a posição da
nave dos antepassados?
— Meia
hora, no máximo.
O
rato-castor soltou um suspiro de alívio, escorregou do sofá e
saltitou em direção a Bell.
— Conseguimos,
gorducho. Podemos continuar nossas férias. Do lago até aqui não
levaremos mais de dez minutos de planador. Basta chamar, Perry.
Rhodan
viu-se tomado de surpresa.
— Está
bem, Gucky e Bell. Concordo, mas sob uma condição. Um de vocês
terá de permanecer constantemente ao alcance do videofone, no
bangalô. Quando chegar a ordem de partida, vocês terão de estar a
bordo da Drusus dentro de vinte minutos. Entendido?
— Perfeitamente!
— piou Gucky em tom alegre e, arrastando Bell, retirou-se da sala
de comando.
Rhodan
acompanhou os dois com os olhos. Tinha um sorriso nos lábios.
— Lund,
acredito que realmente existam perspectivas para alguns dias de
descanso — disse depois de algum tempo. — Para os cruzadores não
será nada fácil descobrir a nave dos antepassados. Não sabemos o
que aconteceu. Até é possível que cheguemos tarde.
— Como?
— o comandante parecia assustado.
— É
possível que os arcônidas tenham saltado de novo. E desta vez não
sabemos de onde. Isso não será como procurar uma agulha num
palheiro, mas um micróbio no Atlântico. Basta calcular as
chances...
Lund
agradeceu e dispensou os cálculos.
3
Fazia mais
de dez mil anos que a gigantesca nave cruzava o espaço. Era uma
gigantesca esfera, de mil e quinhentos metros de diâmetro, do mesmo
tipo da Drusus. Por dez mil anos, esse veículo espacial da classe
Império dera prova de seu valor.
De
qualquer maneira, tratava-se de uma construção especial.
Em seu
interior hibernavam os arcônidas conservados no gelo. Eram
descendentes das primeiras famílias governantes. Por ocasião da
decolagem da nave só havia cinco mil, antes que fossem levados pelo
que se acreditava ser o comando da morte e atirados para as câmaras
frias — se é que realmente foi assim.
Foram os
membros da última geração que assumiram o comando da nave e
dominaram os robôs, os quais até então exerciam o comando da nave
dos antepassados.
Vários
meses se haviam passado depois disso.
O
comandante C-l controlava a situação, que era difícil e perigosa.
No interior da nave jaziam os antepassados, aguardando o momento de
serem despertados, a fim de colonizar um planeta. C-l não sabia o
que teria acontecido há dez mil anos. Gucky não o esclarecera a
este respeito, para não aumentar o desassossego. O comandante nem
sequer sabia que era um arcônida. Mas as pessoas que hibernavam
sabiam — ou ao menos passariam a saber no momento em que fossem
despertados. E mesmo entre estes apenas a primeira geração possuía
esse conhecimento.
— Daqui
a dois séculos — dissera o estranho visitante — a nave será
captada por um sol que possui planetas habitáveis.
Depois
disso o visitante — que não era outro senão Gucky —
desaparecera tão misteriosamente como havia surgido.
Depois, no
interior da grande nave, várias mudanças ocorreram.
Nos
primeiros meses, os dez mil arcônidas acordados iniciaram um novo
estilo de vida. Ninguém mais era levado pelos robôs, para ser posto
a hibernar. Os que morreram — e não foram muitos — foram
expelidos pela comporta de lixo, a fim de vagarem pelo espaço. A
velocidade da nave fazia com que o cadáver não circulasse em torno
de seu bojo, como se fosse uma pequena lua, mas vagasse pelo
infinito.
Os robôs
deixaram de ser os senhores dos arcônidas, para transformarem-se em
servos. Sua reprogramação não trouxe qualquer dificuldade.
Eram
duzentos anos (tempo terrano) até o sol mais próximo, segundo
dissera o misterioso visitante. Quer dizer que boa parte dos dez mil
arcônidas acordados assistiria ao pouso. No entanto, duzentos anos
representavam um tempo muito longo.
No dia 8
de setembro de 2.044 (tempo terrano), o primeiro-oficial da nave
exprimiu claramente este pensamento, por ocasião de uma conferência
realizada na sala de comando:
— Não
compreendo, C-l por que temos de permanecer inativos até que os
duzentos anos se tenham passado. Afinal, temos em nosso poder uma
nave intacta, cujos propulsores funcionam perfeitamente. Não sei
quais eram as opiniões dos antepassados, mas posso garantir que dez
mil anos são um tempo muito longo. Muita coisa pode ter mudado na
Galáxia. Em outras palavras, não sei por que devemos entregar-nos
passivamente ao destino.
O médico
D-3 fez um gesto de aprovação. E os dois maquinistas, M-4 e M-7,
também não pareciam discordar de O-l. O comandante reconheceu que,
naquele momento, não seria recomendável oferecer qualquer
resistência. Mas também conhecia seus deveres e responsabilidades.
— Nenhum
de nós conhece o sistema de propulsão da nave. Pelo que conseguimos
apurar, estamos voando a uma velocidade muito inferior à da luz.
Dei-me ao trabalho de recorrer ao setor de memória do computador
positrônico, a fim de estudar certos dados científicos, O-l. Já há
dez mil anos o salto pelo hiperespaço era considerado o melhor meio
de locomoção. Todas as naves foram dotadas de equipamentos que o
possibilitam. Provavelmente, esse equipamento exista nessa, onde nos
encontramos. Os robôs nunca acionaram esse dispositivo. Não sabemos
se a causa disso foram as instruções introduzidas nos robôs. E não
sei se devemos assumir o risco.
— Por
que não? — interrompeu-o O-l em tom áspero. — Não adquirimos
nossa independência? Não somos donos de nosso destino? Não podemos
fazer aquilo que acharmos acertado? Quem poderá impedir-nos?
C-l não
viu qualquer saída.
— Se não
houver nenhum dispositivo de hipersalto a bordo, não teremos nenhuma
decisão a tomar. Teremos de prosseguir em nosso vôo até
alcançarmos o sistema planetário inicialmente previsto.
Uma
expressão de triunfo surgiu no rosto de O-l.
— C-l,
permita que um perito tome a palavra. M-7 andou dando umas olhadas
pela nave e descobriu várias coisas.
O
comandante concordou, embora sentisse uma inquietação cada vez
maior.
O
mecânico, que praticamente ascendera à condição de oficial, em
virtude do papel decisivo que desempenhara na revolta contra os
robôs, adiantou-se.
— No
interior da nave existem as instalações destinadas à hibernação
a frio — principiou. — Mas não existem só estas. Além disso, o
mecanismo propulsor fica lá. E trata-se de um excelente conjunto
propulsor, que nos permite levar a nave por toda a Galáxia, isto é,
ao menos na extensão e na configuração da mesma, revelada pelos
mapas. Levei algumas semanas para estudar as instalações. Acho que
já as conheço e posso manejá-las. Em poucas palavras, se quisermos
levar a nave através de toda a Galáxia, poderei calcular e executar
o salto.
— Não
sei se os antepassados aprovarão uma iniciativa desse tipo —
principiou o comandante.
Porém foi
interrompido imediatamente pelo primeiro-oficial.
— Os
homens que estão hibernando não serão consultados, C-l. Somos nós
que temos o controle da nave. E somos nós que determinamos sua rota.
Por muito tempo as maquinações dos antepassados nos deixaram presos
numa rede de medo e mentira. Está na hora de tomarmos uma
iniciativa. Levaremos a nave ao sistema solar mais próximo e
pousaremos num planeta habitável. Depois poderemos despertar as
pessoas que estão hibernando. Seremos um número suficiente de
homens e mulheres para fundar uma nova raça.
— Será
que a finalidade desta nave é esta? — perguntou o comandante.
Não
obteve resposta. D-3 ergueu ambas as mãos, num gesto tranqüilizador:
— Como
poderíamos conhecer o destino, o objetivo ou a finalidade da nossa
viagem, se fomos enganados há milênios? Acho que temos o direito de
controlar nosso destino. Já que M-7 conseguiu descobrir o
hiperpropulsor, deveríamos utilizar tal mecanismo para chegarmos o
quanto antes a um destino. E nosso destino só poderá ser um planeta
habitável.
— Concordo
plenamente — disse O-l.
Os dois
técnicos fizeram gestos de assentimento.
C-l viu
que fora derrotado pelo número.
— Submeto-me
à decisão da maioria — disse. — Mas quero ponderar que por
vários motivos só concordo porque sou obrigado a isso. O motivo
principal é este: nossos conhecimentos a respeito do chamado
hiperpropulsor são muito limitados. Não temos a menor experiência
com seu manejo. Se alguma coisa não der certo, estaremos perdidos.
Ou será que M-7 poderá reparar o propulsor se este falhar durante a
viagem? Além disso, cabe ressaltar que não temos a menor idéia da
finalidade que esta nave das gerações deve preencher. Talvez
devamos alcançar nosso destino com a velocidade que atualmente
estamos desenvolvendo.
— Se
fosse assim, para que serviriam as instalações de hipersalto? —
perguntou o médico com um olhar de esguelha para O-l. — Afinal, o
aparelho não entrou na nave por acaso.
— Acontece
que o hiperpropulsor se encontra em posição fácil de ser
localizado, mesmo estando no interior da nave — disse O-l em tom
frio.
O
comandante resignou-se.
— Todos
os argumentos que acabam de ser alinhados parecem lógicos e
convincentes, pouco importando de que lado tenham vindo. Não tenho
outra alternativa senão submeter-me à vontade da maioria.
— Quer
dizer que temos permissão para calcular e executar um hipersalto? —
perguntou O-l por uma questão de cautela.
O
comandante fez um gesto de assentimento.
— A
decisão pode ser interpretada dessa forma, O-l. Se D-3 também
estiver de acordo...
— Sou a
favor da experiência — disse o médico apressadamente, como se
receasse que o comandante pudesse mudar de idéia. — Quanto mais
cedo pousarmos num planeta, tanto melhor.
Subitamente
sacudiu a cabeça.
— Será
que alguém aqui presente sabe o que vem a ser um planeta e como é
ele?
Todos
haviam nascido na nave e nunca conheceram outro mundo senão o
representado pelo veículo espacial. A bordo existiam livros falando
de gigantescas esferas que gravitavam em torno de sóis chamejantes.
Eram corpos naturais, não artificiais, e seus habitantes viviam na
face das esferas, não no interior delas. O sol possibilitava esse
modo de vida, fornecendo calor e energia.
— A vida
num mundo como este sempre deve ser mais bela que no interior de uma
nave — disse O-l em tom convicto. — Cheguei a ler que as naves
iguais a esta só são utilizadas no transporte, por mais absurdo que
isso possa parecer. Pelo que dizem, a vida natural e digna de ser
vivida é a que se desenvolve na face dos planetas. Conclui-se que,
se ligarmos o hiperpropulsor, estaremos cumprindo as leis da natureza
e buscando de modo mais rápido um mundo que nos abrigue.
— Um
mundo onde não existe geração de ar — disse C-l em tom
pensativo. — Isso é inimaginável e deprimente. Quem sabe que
decepções nos esperam?! Está bem, O-l. Providencie para que tudo
seja preparado. Não podemos assumir qualquer risco. O primeiro salto
deverá ser bem sucedido. Nunca permitirei um segundo salto.
Isso
aconteceu no dia 8 de setembro de 2.044.
Dali a
dois dias, o primeiro-oficial anunciou que o departamento técnico
acabara de examinar detidamente e analisar o hiperpropulsor e que os
respectivos computadores positrônicos haviam sido ativados. Mas o
comandante continuou no seu ceticismo.
— Já
sei! O senhor quer os mapas estelares para calcular o salto? —
perguntou.
— Sem
esses mapas não há possibilidade de executarmos um salto bem
orientado. Neles estão registrados os dados necessários. Nossa
posição também pode ser apurada com base em tais dados.
— Podemos
dar-nos por felizes por termos os mapas a bordo — disse o
comandante. — Encontrei-os nesse armário. Aliás, a existência
desses mapas pode ser interpretada como uma prova de que a nave tem
permissão para executar manobras independentes.
— O
propulsor também constitui uma prova disso — observou O-l em tom
de triunfo.
Colocou-se
ao lado do comandante e inclinou-se sobre os mapas.
— Escolheremos
a estrela mais próxima, a fim de que o risco seja o menor possível.
Iremos em linha reta. Só haverá necessidade de uma insignificante
correção de rota. Desde que os dados sejam corretos...
— Por
que não seriam corretos? — disse o comandante, que, de repente,
parecia mais confiante que o primeiro-oficial. — Estudei os manuais
e aprendi a teoria do salto. É claro que não sei como as coisas
funcionarão na prática.
— Não
demoraremos a descobrir — comentou O-l em tom obstinado. — Desde
o momento em que soube que, no interior desta nave, muitas gerações
de nosso povo estão hibernando, sou perseguido dia e noite por um
terrível pesadelo: quem sabe se eles não poderão acordar de
repente?
O
comandante levantou a cabeça. Seu rosto estava pálido.
— Por
que iria acontecer uma coisa dessas, O-l? Só depois de pousarmos num
planeta, nós os acordaremos. Os antepassados, que estavam presentes
por ocasião da decolagem desta nave, já conhecem as condições de
vida num planeta. Eles nos ajudarão.
Ao que
parecia, o primeiro-oficial estava interessado em encerrar este
assunto desagradável.
— Entregue-me
os mapas, C-l, a fim de que eu possa mandar calcular os dados. Um dos
robôs vai nos auxiliar. Pelo que diz, já foi robô de navegação.
Os técnicos mais competentes passaram os últimos dias estudando
minuciosamente os detalhes do mecanismo de propulsão, e outros robôs
reprogramados estão à nossa disposição com sua experiência. Não
pode nem deve haver qualquer falha, comandante.
— Naturalmente,
O-l. O que devo fazer?
— Permanecerei
em contato com o senhor. Quando tudo tiver acertado, bastará puxar
aquela chave embutida. O resto será providenciado pelos dispositivos
automáticos. Oportunamente eu o avisarei.
O
comandante seguiu-o com um olhar pensativo.
Parecia
que a longa viagem estava chegando ao fim.
Ninguém
sabia de onde vinha a nave. O diário de bordo positrônico não
dizia nada a este respeito, e não existia outra fonte de
informações. Se tal fonte existira, havia sido destruída, no
momento em que os robôs assumiram o comando. Também o destino e a
finalidade do vôo estavam ocultos nas brumas do tempo.
O
comandante lembrou-se das pessoas que hibernavam. Elas estavam
empilhadas no interior de uma imensa esfera oca, situada no centro da
nave. Os robôs de vigilância colocaram-nas lá, uma vez concluído
o tratamento nas câmaras frigoríficas. Estas agora permaneciam
vazias, porque ninguém mais dava ordens para alguém ser mergulhado
num estado de hibernação, pois os robôs passaram a ser dominados
pelos homens.
O veículo
espacial oferecia lugar de sobra para dez mil pessoas, mas aquelas
que dormiam, e que representavam o décuplo dessa cifra, só poderiam
ser despertadas após o pouso num planeta habitável. Caso fossem
acordadas antes da descida, a nave não poderia abrigá-las.
O
comandante olhou para as telas.
Lá fora o
espaço cósmico se estendia repleto de estrelas. Há um ano nem
sabia o que vinham a ser estrelas. Sem dúvida, para ele, todas eram
sóis. Mesmo agora, ainda ignorava que a maior parte delas possuía
planetas nos quais se podia viver e respirar.
Um zumbido
arrancou-o das reflexões.
— Aqui
fala O-l, comandante. Encontro-me no centro hiperpropulsor. Os robôs
de navegação processaram os dados e me entregaram o resultado,
contendo as respectivas coordenadas. Está tudo devidamente regulado.
Já podemos saltar.
O
comandante levantou-se e foi até a parede. Colocou a mão sobre a
chave vermelha.
— Tomara
que não tenhamos cometido nenhum engano, O-l...
— Fizemos
tudo que estava ao nosso alcance para evitar um possível erro,
comandante.
— Está
bem — o comandante inspirou e expirou fortemente. — E a
tripulação?
— Estão
todos nos seus lugares.
— Muito
bem! — C-l puxou a chave. Foi fácil movê-la.
Nada dava
a impressão de ter mudado. Apenas as estrelas, que a tela mostrava,
pareciam ter sido apagadas por uma mão invisível. Por uma fração
de segundo o espaço sumiu. E logo depois outras estrelas se
aglomeravam em estranhas constelações e... permaneceram na tela.
O
comandante sentiu a dor da rematerialização, à qual não estava
acostumado. Por alguns segundos essa dor foi acompanhada de um
terrível pavor, mas à medida que ia passando, o temor de que alguma
coisa poderia ter saído errada também perdia a intensidade.
Com um
salto C-l colocou-se junto ao intercomunicador.
— Alô,
O-l. O senhor me ouve?
O
dispositivo de imagem foi ativado. O rosto do primeiro-oficial
parecia perturbado, mas logo nele começou a desenhar-se um sorriso
de triunfo.
— Acho
que conseguimos. Com as máquinas está tudo normal. O que está
aparecendo na tela da sala de comando?
— Novas
estrelas. O deslocamento de certas constelações faz supor que
percorremos uma distância na qual normalmente teríamos gasto vários
decênios. Há um sol branco bem perto de nós. Estamos voando
diretamente em sua direção.
— É a
estrela que representa nosso destino.
O
primeiro-oficial passou a mão pela testa.
— O
senhor está com a razão, C-l. Conseguimos! Dentro em breve
pousaremos num planeta.
— Acha
que conseguiremos controlar a nave?
— Os
robôs cuidarão disso para nós. Estão obedecendo às nossas
ordens.
— Pois
mande calcular a nova rota. Não sei quanto tempo levaremos para
chegar à estrela.
— Se
mantivermos a mesma velocidade deveremos levar perto de três
semanas.
— Quer
dizer que teremos tempo de sobra — disse C-l com um suspiro de
alívio.
Nem
desconfiavam do perigo que corriam...
*
* *
O técnico
M-7, acompanhado de M-4, realizou sua inspeção diária no centro da
esfera.
Há um ano
essa parte da nave era considerada um tabu para os homens. Só os
robôs tinham acesso à mesma. A violação dessa regra era punida
com a morte, que na verdade não era nenhuma morte, mas a vida
eterna. As pessoas condenadas eram levadas às câmaras frigoríficas,
e ali preparadas para a hibernação sem que o soubessem. Quando isso
acontecia, os delinqüentes já estavam inconscientes.
Os dois
homens entraram na sala.
As longas
fileiras de recipientes, nos quais antigamente costumavam ficar
deitadas as pessoas adormecidas, estavam vazias. Há muito os homens
e as mulheres congelados haviam sido levados à esfera, onde
permaneceriam até o momento em que a nave chegasse ao destino.
M-7 ouviu
passos e parou.
“Ninguém
tem nada a fazer aqui embaixo”,
pensou. “Os
antigos robôs de vigilância foram retirados dali do centro da
esfera, porque tiveram de executar trabalhos em outros lugares...”
Soltou um
suspiro de alívio ao reconhecer o médico.
— Olá,
D-3! Também está realizando uma inspeção?
O médico
aproximou-se dos dois homens e parou à frente deles.
— Estou
na ronda diária, M-7. E vocês?
— Também
estamos fazendo nossa ronda diária. Esta parte da nave pertence ao
meu setor. Mas não demorará muito e logo poderemos abandonar a
nave. É uma idéia magnífica: abandonar a nave!
O médico
fez um gesto de assentimento e olhou para trás, como se tivesse
ouvido alguma coisa. Depois de algum tempo sacudiu a cabeça e disse:
— Estou
ouvindo fantasmas. Desde que realizamos o hipersalto, há três dias,
as coisas andam muito esquisitas aqui embaixo.
Passou os
olhos pelas longas fileiras de “aquários”.
— Tive a
impressão de ter visto uma sombra junto à parede que nos separa da
esfera de gelo. Pedi a um robô que fosse dar uma olhada e... ele não
voltou.
M-7 ficou
pálido como cera.
— Não
voltou?
— É o
que acabo de dizer. O robô passou pela comporta de frio, entrou no
recinto em que se encontram as pessoas adormecidas, e não voltou. A
comporta voltou a ser fechada automaticamente.
— Quer
dizer que o robô ficou no interior da esfera?
O médico
fez um gesto afirmativo. Continuava a aguçar os ouvidos, mas atrás
dos esquifes de vidro tudo continuava em silêncio. O líquido turvo
e espesso, em que costumavam ser guardadas as pessoas aparentemente
mortas, permanecia imóvel.
— Por
que o comandante não foi avisado? — perguntou M-4 em tom
assustado. — Talvez...
Estacou,
como se receasse pronunciar sua suspeita.
O médico
não olhou para ele.
— Talvez
o quê?
M-4 não
teve necessidade de responder.
Atrás da
longa fileira de recipientes de vidro, ouviu-se um ruído. Uma sombra
saiu da penumbra e aproximou-se.
Só a
identificaram, quando se encontrava à sua frente.
Era um
homem e estava nu.
*
* *
A volta do
primeiro sopro de vida fê-lo sentir frio, um frio inconcebível.
Estava
emergindo à superfície, vindo de uma noite que não conhecera
nenhuma luz, uma noite que devia ter durado uma eternidade, uma noite
que não conhecia nenhum amanhecer.
Mas a
manhã acabara de chegar...
Procurou
mover os membros, mas não conseguiu. Pareciam estar envoltos numa
blindagem invisível, que irradiava um frio imenso. Mas as pernas
pareciam livres. Começou a tatear com os pés e constatou não ter
encontrado qualquer resistência.
A memória
começou a funcionar.
A nave dos
emigrantes decolara para o grande vôo. Porém os tripulantes foram
dominados pelos robôs, que deram continuidade à missão
originariamente programada. Era a Missão Regeneração, conforme se
dissera por ocasião da decolagem. As testemunhas vivas do presente
voltariam a viver num futuro distante. Os conselheiros sabiam que um
belo dia o Império precisaria do sangue jovem, ainda não
corrompido.
Os
robôs...?
O homem
que despertava assustou-se. Tudo dera errado. Despertara cedo demais.
Ou seria
tarde demais?
Subitamente
lembrou-se de seu nome. Era Alos, o técnico de cibernética,
responsável pelo funcionamento dos robôs que se encontravam a
bordo. Fora dominado pelos robôs, tal qual os outros passageiros.
Por que
estava sendo despertado?
Subitamente
sentiu a umidade. Em certo lugar o gelo derreteu, transformando-se em
água. Naquele momento percebeu que estava nu.
Conseguiu
mover-se com grande esforço, numa só direção. Saiu do pequeno
recipiente de gelo, com os pés à frente e, por alguns segundos,
ficou suspenso sobre um abismo, cuja profundidade não conseguia
avaliar. Os dedos endurecidos não conseguiram mais agüentar o peso
do corpo. Soltou-se e caiu.
Percorreu
menos de um metro na queda e foi parar no chão.
No mesmo
instante, as luzes acenderam-se no teto.
Alos
fechou os olhos ofuscados, que por muitos séculos não haviam visto
nenhuma luz. Aos poucos, a retina começou a funcionar e transmitiu
as impressões ao cérebro.
Alos
começou a enxergar.
Milhares e
milhares de homens e mulheres achavam-se empilhados no recinto.
Sobrepunham-se em enormes fileiras, separadas apenas pelas paredes de
gelo dos recipientes nos quais estavam guardados. Conservados dessa
forma, poderiam durar por milênios, desde que a temperatura fosse
mantida constante.
Estiver a
deitado na terceira fileira, contada de baixo, junto ao corredor
central. Abaixo do seu lugar havia mais dois blocos de gelo, nos
quais dois homens se encontravam imóveis, como se estivessem mortos.
De
repente, o de baixo começou a mover-se. Estendeu os pés e a placa
de gelo semiderretida começou a desprender-se. Caiu ao chão e
esfacelou-se.
Por um
instante Alos desligou-se do que observava. Uma dor lancinante
atravessou seu corpo, ao qual a vida retornava lentamente. O sangue
formigava nas veias. Sabia que o processo de revitalização tivera
início há algumas horas. As dores não eram muito fortes, e por
isso não causavam maiores preocupações.
O outro
arcônida também começou a sair do lugar. Empurrou a placa de gelo
com os pés e retirou-se pela parte de baixo, onde foi recebido por
Alos.
— É o
senhor, comodoro Ceshal?
O homem
que acabara de despertar lançou um olhar atento para Alos, como se o
visse pela primeira vez. Balançou a cabeça.
— Os
robôs devem ter reconhecido seu erro. Resolveram despertar-nos.
Provavelmente não conseguem arranjar-se sem nós.
Alos
percebeu que o comandante ainda não havia compreendido toda a
verdade. E esta representaria um choque para ele.
— Quanto
tempo dormimos, comodoro Ceshal? O que lhe diz o sentimento?
— Se me
orientasse pelo sentimento, diria que dormimos uma hora. Acontece que
os robôs levaram algum tempo para transportar-nos até as
instalações e empilhar-nos. Além disso...
Estacou de
repente. Enquanto falava, olhara em torno. A luz forte iluminava as
longas fileiras de pessoas congeladas, que estavam empilhadas até o
teto. Não havia necessidade de contá-las. Ao primeiro relance de
olhos, Ceshal percebeu que por ali descansavam dez ou vinte vezes
mais pessoas do que aquelas que se encontravam a bordo no início da
viagem.
— Foi
uma hora muito longa, Ceshal — disse Alos em tom amargurado.
— Pelo
Império! — exclamou o comandante. — O que aconteceu?
Neste meio
tempo mais um homem conseguira libertar-se do bloco de gelo. Era
Ekral, o cientista, que se ergueu e fitou o estranho quadro com os
olhos arregalados. Seu raciocínio cristalino logo começou a
funcionar perfeitamente. Mas sua voz parecia muito rouca, quando
constatou:
— Vários
milênios devem ter-se passado. Os robôs fizeram exatamente aquilo
que planejamos. Apenas eles o fizeram de uma maneira que corresponde
à sua mentalidade. Lembro-me de que me empurraram para dentro do
conversor. Depois morri. E agora muitas gerações descansam neste
túmulo de gelo. Para quê? Por quê?
— Ainda
saberemos — disse Ceshal em tom tranqüilizador. — De qualquer
maneira, ligaram o dispositivo que nos desperta. Devemos ter chegado
a algum planeta. Talvez tenham conseguido reparar o hiperpropulsor
defeituoso. O rádio não entrou em pane também após a explosão?
Alos
acenou lentamente com a cabeça.
— Minha
memória não está nada boa; não me lembro mais com exatidão do
que aconteceu.
Afastou-se
para o lado, quando mais dois arcônidas se puseram de pé e ajudaram
um terceiro a sair do esquife de gelo.
— Esta
instalação deve funcionar de forma sincronizada — disse Ceshal
por entre os dentes. — Devemos dirigir-nos à saída. O abandono da
nave deve ser realizado de forma ordenada, pois do contrário haverá
uma catástrofe.
Passando
pelas pessoas que despertavam, os três homens atravessaram
apressadamente o corredor. No fim deste, viram-se diante de uma
parede coberta de cristais de gelo. Apenas uma roda de comando de
ferro fazia imaginar o local de saída. Mas não foi possível
movê-la.
— É o
fecho — constatou Ceshal. — Só deve ser isso. A câmara
frigorífica só pode ser aberta do lado de fora. Teremos de esperar
até que alguém nos solte.
— Quem
será esse alguém, comodoro? — perguntou Alos em tom desconfiado.
— Os robôs?
— Não
poderemos esperar por muito tempo — observou Ekral e apontou para
as pessoas que despertavam em todos os lados. — Se todos
despertarem...
A idéia
era apavorante.
Louco de
desespero, Ceshal usou toda sua força, mas a roda não se moveu por
um milímetro que fosse. Enquanto isso, a água proveniente do gelo
derretido formava pequenos regatos que iam unir-se no centro da nave.
Mas o nível da mesma não subiu. Fora sugada por algum mecanismo
desconhecido.
Pelo menos
não morreriam afogados.
Trinta ou
quarenta homens espremeram-se pelo corredor e cercaram o comodoro
Ceshal, Ekral e Alos. Outros seguiram-nos. O ar já começava a ficar
viciado. A luz forte aquecia o recinto. Em algum lugar ouviu-se um
grito de mulher.
— Temos
de sair daqui! — berrou alguém, erguendo os punhos. — Se todos
acordarem...
As
palavras restantes não foram pronunciadas, mas a simples idéia
bastava para infundir pavor. Cem mil pessoas encontravam-se no
pequeno recinto. Deitados e empilhados, com o corpo cercado por finas
camadas de gelo, houvera lugar para todos. Mas as camadas de gelo
derretiam e as pessoas despertavam. Precisariam de ar para respirar,
de lugar para ficar de pé...
Ceshal
continuou a balançar a roda.
— Eles
nos acordaram, minha gente — disse, procurando dar um tom
autoritário à voz. — Eles também nos libertarão em tempo.
Talvez as manobras de pouso ainda não tenham sido concluídas.
Nos fundos
do depósito, a mulher continuava a gritar. Procuraram
tranqüilizá-la, dizendo que seu marido não estava morto e também
não demoraria a despertar. Quanto ao filho...
Bem, o
filho já seria um homem, talvez até mais velho que ela.
Subitamente
o comodoro Ceshal estacou. A roda, contra a qual usava a sua força,
tremera ligeiramente e girara alguns centímetros.
Levantou
os braços e exigiu silêncio.
A roda
continuava a girar. Uma pequena fresta abriu-se na parede. Do lado de
fora estava tudo escuro. Um vulto penetrou no depósito e ficou
parado.
Ceshal
agiu de forma instintiva.
Levantou a
mão e girou a roda em sentido contrário. A porta voltou a
fechar-se. O intruso voltou-se abruptamente, mas já era tarde.
Ceshal
fitou o rosto inexpressivo de um robô.
— O que
aconteceu lá fora, na nave? — perguntou. — Responda!
Na
verdade, não esperava nenhuma resposta, pois quando pela última vez
vira um robô, este comandava a nave. Mas, para seu espanto, a
máquina que tinha à sua frente mostrou-se obediente.
— O
hipersalto deve ter ativado o equipamento que desperta os
adormecidos, senhor. Isso não estava previsto.
O robô o
chamara de senhor. Ceshal registrou o fato com uma forte sensação
de alívio. Será que os amotinados haviam refletido sobre seus atos
— agora, que sem dúvida já era tarde?
— O
hipersalto? O mecanismo voltou a funcionar?
— O
mesmo nunca apresentou qualquer defeito, senhor.
Admirando-se,
Ceshal fitou o robô.
— O quê?
— Só
sei que o mecanismo nunca apresentou qualquer defeito, senhor. Minha
memória foi parcialmente apagada, e por isso não posso dar outras
informações. Recebi ordens para entrar neste recinto e apurar a
origem de um ruído que foi ouvido do lado de fora. Permita que eu
volte, a fim de relatar o que aconteceu.
— Relatar
a quem?
E o robô
começou a contar...
*
* *
Num gesto
destemido, o comodoro Ceshal abriu a comporta de frio e dirigiu-se
aos três homens, que se espantaram ao vê-lo.
— Então?
— disse em meio ao silêncio de morte. — Vocês nos despertaram;
providenciem roupas para nós. Depois que o sangue voltou a circular
em nossas veias, passamos â sentir frio. Vocês puseram fim ao
domínio dos robôs. Portanto, resolvam este problema.
A-3 foi o
primeiro a recuperar-se do susto.
— Quem
despertou? Quantos?
— Espero
que sejam todos. Não sabemos se a instalação funciona
perfeitamente. Ekral e Tunuter ajudaram a construí-la e, portanto,
também são responsáveis por ela.
O médico
empalideceu.
— Todos?
Só deveremos chegar ao planeta daqui a três semanas. Onde vamos
arranjar roupas para todos? Volte à câmara de hibernação e
tranqüilize o pessoal. Na nave não há lugar para todos...
— O
senhor está louco! — disse Ceshal com a voz fria. — Somos mais
de cem mil arcônidas, entre homens e mulheres, comprimidos num
espaço extremamente reduzido. Precisamos de roupas e de alimentos.
Ainda acontece que, de direito, eu sou o comandante da nave.
Com uma
terrível nitidez, D-3 pressentiu as complicações que se
aproximavam. Quem dera que pudesse avisar C-l do perigo, sem provocar
as suspeitas do homem que acabara de ser despertado.
— Naturalmente
seu posto será respeitado — disse em tom cauteloso. — Acontece
que não tenho poderes para tomar qualquer decisão. Sou apenas um
dos médicos de bordo. Desde o momento em que reprogramamos os robôs,
assumi certas responsabilidades. Antes disso, bem, é uma história
muito longa. Acho que adquirirá um sentido mais claro, se
interpretada com os dados que o senhor poderá acrescentar. Venha
conosco. Vamos apresentá-lo a C-l. Ele encontra-se na sua sala de
comando.
Ceshal
fitou-o atentamente.
— Não
adianta mentir para mim, doutor. Nasci milhares de anos antes do
senhor e pertenço à família reinante do Império...
— De que
império? — perguntou D-3.
Ceshal
começou a imaginar o grau de esquecimento que se espalhara entre os
descendentes. Os robôs haviam cuidado disso. Deveriam ter tido seus
próprios planos com os humanos. Que planos seriam estes?
— Somos
arcônidas e donos de um império estelar de dimensões
inimagináveis. Fomos incumbidos de realizar uma experiência, mas a
mesma foi mal sucedida. Talvez não. Minha memória está falhando.
Na sala de comando deve haver indicações a este respeito, se é que
não foram destruídas pelos robôs. Muito bem, doutor. Leve-me ao
comandante.
A mudança
de disposição foi tão rápida que D-3 se sentiu surpreso. Foi a um
armário e revirou-o até encontrar uma coberta. Entregou-a a Ceshal.
— Vamos.
Acho que não podemos perder um minuto, se quisermos evitar uma
catástrofe. M- 4 e M-7, fiquem aqui. Cuidem para que ninguém mais
saia da câmara fria.
Depois de
ligeira hesitação pôs a mão no bolso e tirou uma pequena arma de
radiações.
— Usem,
se preciso, esta pistola. Ceshal esteve a ponto de dizer alguma
coisa, mas preferiu ficar calado e envolveu-se no cobertor. Não
fazia uma figura muito imponente e começou a desconfiar dos efeitos
psicológicos de um uniforme bem talhado. O médico fez-lhe um sinal
e foi andando à sua frente. Seguiu-o, sem dizer uma palavra. Antes
de abaixar-se para passar pela porta, olhou para trás.
Os dois
técnicos se haviam postado junto à comporta de frio. Seus rostos
exprimiam uma resolução implacável.
Ceshal
desconfiou de que as dificuldades apenas estavam começando...
*
* *
O
comandante soube dominar-se muito bem.
No momento
em que D-3 entrou na sala de comando ao lado do arcônida despertado,
C-l acabara de receber de O-l a notícia pouco tranqüilizadora de
que os técnicos haviam constatado falhas graves na sala de máquinas.
O hipersalto devia ter causado alguns curto-circuitos. Os bancos de
energia se haviam descarregado. Ninguém sabia de que forma a energia
fora consumida. Não havia a menor dúvida de que o mecanismo de
transição não estava mais em condições de funcionar.
O salto a
uma distância de vinte anos-luz fora bem sucedido, mas tiveram de
pagar muito caro pelo mesmo. Só no momento em que D-3 entrou com o
visitante involuntário, C-l deu-se conta de como o preço era
elevado.
— Quem é
este? — perguntou com a voz tranqüila.
O
primeiro-oficial empalideceu, mas não disse nada.
— As
pessoas adormecidas despertaram, C-l — respondeu o médico em tom
nervoso.
— Onde
foi que vocês o encontraram?
— Saiu
da câmara fria. Conseguiram dominar um robô que mandei lá para
dentro. Foi ele que lhes abriu a comporta... Deixei M-4 e M-7 para
vigiar o local. Devemos providenciar reforços imediatamente, se
quisermos evitar uma catástrofe.
O-l
controlou-se. Fez um sinal para
C-l e saiu
apressadamente da sala de comando.
Ceshal
viu-se tomado de surpresa.
— O que
é que o senhor está pensando? — perguntou em tom indignado,
apontando para a porta. — Não me venha dizer que vai utilizar
soldados contra gente desarmada. Sabe com quem está falando? Sou o
comodoro Ceshal, chefe desta expedição. Os senhores são meus
subordinados. Providenciarei para que...
— Receio
que o senhor não esteja avaliando corretamente a situação —
interrompeu-o D-3. — O senhor já foi comandante desta nave, há
dez mil anos. Mas permitiu que os robôs assumissem o poder. Os robôs
passaram a ser os senhores; os homens, os servos. Nós nos rebelamos
contra o domínio das máquinas e saímos vitoriosos. E agora o
senhor sai do túmulo e vem nos dizer que é o comandante...
C-l fez um
sinal para o médico. Sentia-se grato pelo apoio que o doutor lhe
estava proporcionando.
— Como
vê, meu caro, suas reivindicações morais não têm uma base muito
firme. Se é que o senhor já foi comandante desta nave, isso faz
muito tempo. Acontece que, no momento, eu sou o comandante. E fui eu
quem dirigiu a revolta contra os robôs.
— Sou o
comodoro Ceshal...
— Muito
bem — respondeu C-l. — Use o nome que quiser. Mas providencie
para que seu pessoal fique no interior da cúpula de gelo. Dentro de
três semanas, no máximo, chegaremos a um planeta e pousaremos.
Quando isso acontecer, tudo se resolverá por si.
— Três
semanas! Ficaremos congelados! — gritou Ceshal, perdendo
completamente o autocontrole. — O senhor só pode estar louco!
Dentro de três semanas todos nós já estaremos mortos, ou de fome
ou por asfixia. Foram vocês que nos despertaram antes da hora.
Providenciem para que não morramos.
C-l não
pôde mostrar-se indiferente a esses argumentos. Naturalmente era
responsável pelo fato de as gerações adormecidas terem despertado.
Mas não via nenhum meio de ajudá-las, sem colocar em risco sua vida
e a dos tripulantes.
— Ceshal,
a bordo da nave não existem mantimentos nem roupas para tanta gente.
Naturalmente faremos o possível para satisfazer as necessidades mais
prementes. Distribuiremos cobertores e forneceremos rações de
emergência. No entanto, exijo a disciplina mais rigorosa. Nenhuma
das pessoas adormecidas poderá deixar o convés central. Mandarei
postar sentinelas. Acredito que assim será possível...
— Vai
dar ordens para que os seus atirem contra os velhos arcônidas? —
perguntou Ceshal em tom indignado. — O senhor se esquece de que são
descendentes puros das castas governantes e parentes de sangue da
estirpe do imperador.
— Do
imperador? — perguntou O-l, que acabara de voltar à sala de
comando e ouvira as últimas palavras. — O que é que nós temos
com seu imperador? Vivemos de acordo com as leis desta nave, como
todos que vieram antes de nós. Quem foi que nos colocou nesta
situação?
Ceshal
reconheceu que não conseguiria nada com seus argumentos.
— Não
devemos falar em culpa, mas pensar no futuro. No nosso futuro. Quando
foi que o senhor manteve o último contato pelo rádio com as naves
do Império?
C-l fitou
Ceshal como quem não compreende nada.
— Contato
com outras naves? Será que existem outras naves além da nossa?
Ceshal
começou a desconfiar de que não seria tão simples chegar a um
acordo. O “grande
esquecimento”
interpunha-se entre ele e os descendentes. Esteve a ponto de iniciar
uma explicação, quando se ouviu o som estridente de uma campainha.
Vinha de
um dos cantos da sala de comando. O primeiro-oficial correu para
junto da tela e girou alguns botões. Quando a tela pálida se
iluminou, surgiu um rosto que parecia conhecido até mesmo a Ceshal.
— O que
aconteceu, M-7? De onde está falando? Acho que o senhor...
— Foi no
convés central. Não conseguimos deter os antepassados, O-l.
Passaram por cima de M-4, quando ele quis detê-los de arma na mão.
Consegui colocar-me em segurança a tempo e fechei a escotilha da
comporta que dá para o convés central. Agora lhes será mais
dificultoso ultrapassar...
— Mande
guarnecer todas as comportas, M-7. Devemos impedir os antepassados
pela força das armas, de inundarem toda a nave. Isso seria o fim.
— Com a
colaboração dos robôs, conseguiremos — garantiu o técnico.
A tela
apagou-se.
O comodoro
Ceshal ouvira tudo, mudo de pavor. Sabia perfeitamente que os
arcônidas despertos não podiam ser mantidos presos num espaço
extremamente exíguo, pois isso acarretaria uma catástrofe. Pelo
menos alguns já haviam conseguido fugir das câmaras geladas. O
convés central era amplo. Compreendia os doze pavilhões redondos,
com as salas de preparativos, os recipientes de vidro e algumas salas
de máquinas. Fazendo uma divisão adequada e mantendo uma ordem
rígida deveria ser possível agrupar as pessoas de forma tal...
— E
agora? — indagou C-l em tom furioso. — O que me diz, arcônida?
Lá embaixo o inferno está às soltas, exclusivamente por sua culpa.
— Por
minha culpa?! — perguntou Ceshal, em tom amargurado. — Deixe-me
voltar para junto de minha gente, para que possa acalmá-la. Talvez
consigamos arranjar-nos no convés central.
— Terão
de arranjar-se — disse C-l em tom ríspido. — Reprimirei qualquer
tentativa de fuga, usando de todos os meios que estão ao nosso
alcance. As rações de mantimentos lhes serão fornecidas através
das comportas, mas isso somente se obedecerem à nossas instruções.
Ainda providenciarei a distribuição de roupas. Não serão
suficientes, mas quero que ao menos as mulheres não andem nuas.
Conduzirei uma quantidade suficiente de ar morno para o convés
central. Espero que, com isso, tenha feito tudo para tornar-lhes a
vida o mais suportável possível.
— Obrigado
— respondeu Ceshal.
Não lhe
foi nada fácil pronunciar esta palavra. Em sua opinião, C-l era um
bárbaro ignorante, que se tornara comandante em virtude de um acaso.
O imperador de Árcon e seu conselheiro científico haviam formulado
uma previsão correta ao afirmarem que, no futuro, a raça
atravessaria um processo de degenerescência. Quem dera que houvesse
uma possibilidade de verificar quanto tempo se passara desde então...
— O
senhor pode voltar para junto de sua gente, comodoro Ceshal.
C-l fez um
gesto condescendente para o homem envolto apenas num cobertor e
voltou a manipular os botões da tela. D-3 segurou Ceshal pelo braço.
— Venha
comigo. Estão precisando muito do senhor.
Pelos
corredores encontraram-se com vários homens armados, que se dirigiam
a seus postos. Robôs com mantimentos, cobertores e peças de roupa
entravam nos elevadores antigravitacionais e deixavam-se cair para o
convés central.
— Como
vê, não temos a intenção de deixá-los perecer — observou o
médico, enquanto esperavam uma vaga para usarem o elevador. — É
necessário que o senhor compreenda que a anarquia seria a morte de
todos.
No seu
íntimo, Ceshal não pôde deixar de dar-lhe razão. Mas o orgulho
impediu-o de reconhecê-lo. A contragosto fez um gesto de
assentimento.
— Um dia
vocês ficarão satisfeitos, se nós os ajudarmos. Conhecemos a vida
melhor que vocês, que nasceram na nave e nunca viram um planeta.
Quando quiserem construir uma civilização e entrar em contato com o
Império, precisarão de nós.
— Com o
Império? Será que ele ainda existe? Se existisse, já se teria
interessado por nós.
Ceshal não
respondeu. Era este um ponto que o havia preocupado demais. Devia ter
ocorrido algo no Império, pois do contrário não se poderia
compreender a interrupção dos contatos. Isso acontecera, talvez, na
época que os robôs assumiram o governo da nave. E o Império
aceitara o fato.
O elevador
ficou livre, e eles desceram em direção ao centro da nave. As
fileiras de guardas fortemente armados deixaram-nos passar. Diante da
comporta fora montada uma peça de artilharia ligeira. O cano
apontava para a escotilha fechada. D-3 parou.
— Vamos
abrir a escotilha, Ceshal. O senhor ordenará aos seus homens que
recuem e o deixem entrar. Qualquer um que se oponha às nossas
ordens, será morto imediatamente. Somos obrigados a tomar essa
atitude, Ceshal, pois do contrário morreremos todos. Está
preparado? Ceshal fitou os olhos do médico. — O senhor pensa que
somos tão primitivos quanto os senhores. Realmente acredita que, se
voltássemos a assumir o governo da nave, aconteceria uma catástrofe?
D-3 viu os
olhos do comodoro dirigidos para si. Sua resposta não correspondeu
inteiramente à sua convicção:
— O
senhor só causaria um desastre, Ceshal. A geração de hoje pode ser
menos capaz do que a sua, mas não há dúvida de que saberemos agir
com maior ponderação. Além do mais, o senhor sabe que não temos
outra alternativa. Vá andando.
Fez um
sinal para a sentinela que estava postada junto à porta.
A
escotilha só podia ser aberta manualmente. Só em caso de emergência
entrava em ação o comando central, que era automático.
Viu-se uma
fresta.
Mas a
fresta permaneceu apenas por um segundo. Logo transformou-se numa
grande abertura, criada pela força de duas ou três dezenas de
pessoas nuas que se comprimiam contra o obstáculo que cedia de
repente.
— Parem!
— gritou Ceshal em tom assustado e levantou os braços. — Fiquem
onde estão!
Suas
palavras perderam-se em meio ao grito dos homens desesperados. D-3
viu que os homens mal conseguiam manter os pés sobre o chão. Não
dominavam os próprios movimentos. Aqueles que vinham na frente
transformaram-se no alvo da guarnição do canhão.
Nem mesmo
D-3 conseguiu impedir a luta.
Através
do fogo energético e das nuvens de fumaça, saltavam os vultos nus,
precipitando-se com uma coragem a toda prova sobre os guardas
armados. Os arcônidas despertos, por serem numerosos, tentavam
dominar seus opositores.
Ceshal
percebeu a chance única que se lhe oferecia. Virou-se e acompanhou a
torrente humana, que investia contra os tripulantes da nave. Estes
fugiram, dominados pelo pânico. Ele mesmo abateu D-3 com o punho e
viu-o desaparecer sob os pés dos homens nus. Seu cobertor já havia
caído no chão. Nu como os outros, foi abrindo o caminho para a
liberdade.
O alarma
ressoara por toda a nave.
A
escotilha seguinte fechou-se automaticamente.
De
qualquer maneira, a primeira geração conseguira ampliar
consideravelmente sua área de influência. Mais uma parte da esfera
encontrava-se em seu poder.
O comodoro
Ceshal soltou um suspiro de alívio, quando viu Alos.
— Alos,
venha cá!
Esperou
que o outro se encontrasse a seu lado.
— O
senhor conhece esta área? Podemos atingir algum setor vital da nave,
sem passar por outras escotilhas?
O
cibernético baixou a mão que segurava a barra de ferro.
— Podemos
atingir as instalações de renovação de ar, comodoro. Será que
são importantes para as finalidades que tem em vista?
Ceshal
respirou profundamente.
— São —
disse, sem reprimir o brilho de triunfo de seus olhos. — As
instalações de renovação de ar são muito importantes. Com isto,
a primeira geração volta a assumir o poder no interior da nave.
Depois
desenvolveu seu plano de batalha.
4
A estrela
branca crescera na tela de imagem.
Os
oficiais navegadores haviam realizado seus cálculos, ao lado de O-l
e O-2, e chegaram à conclusão de que, dentro de alguns dias, a nave
seria captada pelo gigantesco campo de gravitação do sol.
Acontece
que os propulsores apresentavam avarias. Não reagiam mais. Face a
isso, a nave se precipitaria para o sol e se incendiaria.
Os
técnicos trabalhavam ininterruptamente nas salas de máquinas, para
conseguir ao menos uma modificação de rota. Seus esforços não
deram o menor resultado. A nave prosseguia em sua trajetória,
aproximando-se implacavelmente da destruição. A longa viagem
poderia ter um fim abrupto e terrível.
Em meio a
este clima de desespero, irrompeu outra notícia calamitosa. O ar no
interior da nave tornava-se cada vez mais viciado e não havia como
renová-lo.
C-l
convocou os técnicos para uma conferência na sala de comando e teve
o desgosto de descobrir que as instalações de renovação de ar
ficavam na parte da nave controlada pelos homens despertados. Com
isso, as frentes de combate se delimitavam. O comandante entrou em
contato com os “rebeldes”.
O intercomunicador continuava a funcionar perfeitamente.
Quando a
tela se iluminou, viu Ceshal e os outros homens, que vestiam
cobertores ou macacões. Todos estavam armados.

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