sexta-feira, 26 de agosto de 2016

P-094 - O Sol Chamejante - Clark Darlton [Parte 2]

Dirscherl abriu a gaveta e folheou os cartões, até encontrar o que desejava. Fez um gesto de satisfação e entregou-o a Rhodan.
Demorou apenas alguns segundos.
Pelo que vejo, até agora só houve uma única transição no setor, e isso em 10 de setembro de 2.044, ou seja, há dezoito dias. O local do salto e do reingresso no espaço normal foram registrados. A distância do salto é de exatamente 20,3 anos-luz. Hum!
Tem certeza de que se trata da nave dos antepassados?
Rhodan fez um gesto afirmativo para Lund.
Qualquer outra hipótese seria pura coincidência, e esta é pouco provável.
Olhou para o cartão.
Infelizmente a direção não pôde ser registrada. Quer dizer que teremos de continuar a procurar. Mas ao menos temos algum ponto de referência.
Rhodan anotou os dados e agradeceu ao técnico em cibernética. Voltaram à Drusus e se dirigiram a Vênus, onde se certificaram das informações conseguidas através do arquivo positrônico de Terrânia.
Enquanto regressavam à Terra, Rhodan fez um resumo:
O grande cérebro positrônico de Vênus armazenou todas as informações de que uma raça de astronautas precisa para orientar-se no interior da Via Láctea. Já sabemos que, à frente da nave dos antepassados, num semicírculo de 20,3 anos-luz, só existem cinco sóis. Um deles deve ser o destino dos arcônidas. Não sabemos qual das cinco estrelas pretendem atingir, porque não podemos partir do pressuposto de que devesse ser alguma das que têm planetas habitáveis, pois os arcônidas não possuíam essa informação. Portanto, não nos resta outra alternativa senão examinar os cinco sóis. Para ganhar tempo, esperaremos em Terrânia, enquanto cinco cruzadores se dirigem aos cinco sóis, à procura de alguma pista da nave dos antepassados. Assim que tivermos informações concretas, decolaremos. Alguma pergunta?
Gucky teve uma pergunta.
Quanto tempo poderá demorar isso, Perry?
A pergunta foi proferida em tom astucioso e ligeiramente tenso. Bell aguçou os ouvidos.
Isso depende do tempo que os cruzadores levarão para localizar a nave dos antepassados. Assim que conhecermos sua posição, decolaremos.
Pretende esperar na Drusus, e não em Terrânia, na sua residência?
É claro que pretendo esperar na minha residência. Tenho muita coisa para fazer. Mas qual é a finalidade dessa pergunta?
As perguntas de Gucky ainda não haviam chegado ao fim.
Quanto tempo levaremos para decolar depois que conhecermos a posição da nave dos antepassados?
Meia hora, no máximo.
O rato-castor soltou um suspiro de alívio, escorregou do sofá e saltitou em direção a Bell.
Conseguimos, gorducho. Podemos continuar nossas férias. Do lago até aqui não levaremos mais de dez minutos de planador. Basta chamar, Perry.
Rhodan viu-se tomado de surpresa.
Está bem, Gucky e Bell. Concordo, mas sob uma condição. Um de vocês terá de permanecer constantemente ao alcance do videofone, no bangalô. Quando chegar a ordem de partida, vocês terão de estar a bordo da Drusus dentro de vinte minutos. Entendido?
Perfeitamente! — piou Gucky em tom alegre e, arrastando Bell, retirou-se da sala de comando.
Rhodan acompanhou os dois com os olhos. Tinha um sorriso nos lábios.
Lund, acredito que realmente existam perspectivas para alguns dias de descanso — disse depois de algum tempo. — Para os cruzadores não será nada fácil descobrir a nave dos antepassados. Não sabemos o que aconteceu. Até é possível que cheguemos tarde.
Como? — o comandante parecia assustado.
É possível que os arcônidas tenham saltado de novo. E desta vez não sabemos de onde. Isso não será como procurar uma agulha num palheiro, mas um micróbio no Atlântico. Basta calcular as chances...
Lund agradeceu e dispensou os cálculos.

3



Fazia mais de dez mil anos que a gigantesca nave cruzava o espaço. Era uma gigantesca esfera, de mil e quinhentos metros de diâmetro, do mesmo tipo da Drusus. Por dez mil anos, esse veículo espacial da classe Império dera prova de seu valor.
De qualquer maneira, tratava-se de uma construção especial.
Em seu interior hibernavam os arcônidas conservados no gelo. Eram descendentes das primeiras famílias governantes. Por ocasião da decolagem da nave só havia cinco mil, antes que fossem levados pelo que se acreditava ser o comando da morte e atirados para as câmaras frias — se é que realmente foi assim.
Foram os membros da última geração que assumiram o comando da nave e dominaram os robôs, os quais até então exerciam o comando da nave dos antepassados.
Vários meses se haviam passado depois disso.
O comandante C-l controlava a situação, que era difícil e perigosa. No interior da nave jaziam os antepassados, aguardando o momento de serem despertados, a fim de colonizar um planeta. C-l não sabia o que teria acontecido há dez mil anos. Gucky não o esclarecera a este respeito, para não aumentar o desassossego. O comandante nem sequer sabia que era um arcônida. Mas as pessoas que hibernavam sabiam — ou ao menos passariam a saber no momento em que fossem despertados. E mesmo entre estes apenas a primeira geração possuía esse conhecimento.
Daqui a dois séculos — dissera o estranho visitante — a nave será captada por um sol que possui planetas habitáveis.
Depois disso o visitante — que não era outro senão Gucky — desaparecera tão misteriosamente como havia surgido.
Depois, no interior da grande nave, várias mudanças ocorreram.
Nos primeiros meses, os dez mil arcônidas acordados iniciaram um novo estilo de vida. Ninguém mais era levado pelos robôs, para ser posto a hibernar. Os que morreram — e não foram muitos — foram expelidos pela comporta de lixo, a fim de vagarem pelo espaço. A velocidade da nave fazia com que o cadáver não circulasse em torno de seu bojo, como se fosse uma pequena lua, mas vagasse pelo infinito.
Os robôs deixaram de ser os senhores dos arcônidas, para transformarem-se em servos. Sua reprogramação não trouxe qualquer dificuldade.
Eram duzentos anos (tempo terrano) até o sol mais próximo, segundo dissera o misterioso visitante. Quer dizer que boa parte dos dez mil arcônidas acordados assistiria ao pouso. No entanto, duzentos anos representavam um tempo muito longo.
No dia 8 de setembro de 2.044 (tempo terrano), o primeiro-oficial da nave exprimiu claramente este pensamento, por ocasião de uma conferência realizada na sala de comando:
Não compreendo, C-l por que temos de permanecer inativos até que os duzentos anos se tenham passado. Afinal, temos em nosso poder uma nave intacta, cujos propulsores funcionam perfeitamente. Não sei quais eram as opiniões dos antepassados, mas posso garantir que dez mil anos são um tempo muito longo. Muita coisa pode ter mudado na Galáxia. Em outras palavras, não sei por que devemos entregar-nos passivamente ao destino.
O médico D-3 fez um gesto de aprovação. E os dois maquinistas, M-4 e M-7, também não pareciam discordar de O-l. O comandante reconheceu que, naquele momento, não seria recomendável oferecer qualquer resistência. Mas também conhecia seus deveres e responsabilidades.
Nenhum de nós conhece o sistema de propulsão da nave. Pelo que conseguimos apurar, estamos voando a uma velocidade muito inferior à da luz. Dei-me ao trabalho de recorrer ao setor de memória do computador positrônico, a fim de estudar certos dados científicos, O-l. Já há dez mil anos o salto pelo hiperespaço era considerado o melhor meio de locomoção. Todas as naves foram dotadas de equipamentos que o possibilitam. Provavelmente, esse equipamento exista nessa, onde nos encontramos. Os robôs nunca acionaram esse dispositivo. Não sabemos se a causa disso foram as instruções introduzidas nos robôs. E não sei se devemos assumir o risco.
Por que não? — interrompeu-o O-l em tom áspero. — Não adquirimos nossa independência? Não somos donos de nosso destino? Não podemos fazer aquilo que acharmos acertado? Quem poderá impedir-nos?
C-l não viu qualquer saída.
Se não houver nenhum dispositivo de hipersalto a bordo, não teremos nenhuma decisão a tomar. Teremos de prosseguir em nosso vôo até alcançarmos o sistema planetário inicialmente previsto.
Uma expressão de triunfo surgiu no rosto de O-l.
C-l, permita que um perito tome a palavra. M-7 andou dando umas olhadas pela nave e descobriu várias coisas.
O comandante concordou, embora sentisse uma inquietação cada vez maior.
O mecânico, que praticamente ascendera à condição de oficial, em virtude do papel decisivo que desempenhara na revolta contra os robôs, adiantou-se.
No interior da nave existem as instalações destinadas à hibernação a frio — principiou. — Mas não existem só estas. Além disso, o mecanismo propulsor fica lá. E trata-se de um excelente conjunto propulsor, que nos permite levar a nave por toda a Galáxia, isto é, ao menos na extensão e na configuração da mesma, revelada pelos mapas. Levei algumas semanas para estudar as instalações. Acho que já as conheço e posso manejá-las. Em poucas palavras, se quisermos levar a nave através de toda a Galáxia, poderei calcular e executar o salto.
Não sei se os antepassados aprovarão uma iniciativa desse tipo — principiou o comandante.
Porém foi interrompido imediatamente pelo primeiro-oficial.
Os homens que estão hibernando não serão consultados, C-l. Somos nós que temos o controle da nave. E somos nós que determinamos sua rota. Por muito tempo as maquinações dos antepassados nos deixaram presos numa rede de medo e mentira. Está na hora de tomarmos uma iniciativa. Levaremos a nave ao sistema solar mais próximo e pousaremos num planeta habitável. Depois poderemos despertar as pessoas que estão hibernando. Seremos um número suficiente de homens e mulheres para fundar uma nova raça.
Será que a finalidade desta nave é esta? — perguntou o comandante.
Não obteve resposta. D-3 ergueu ambas as mãos, num gesto tranqüilizador:
Como poderíamos conhecer o destino, o objetivo ou a finalidade da nossa viagem, se fomos enganados há milênios? Acho que temos o direito de controlar nosso destino. Já que M-7 conseguiu descobrir o hiperpropulsor, deveríamos utilizar tal mecanismo para chegarmos o quanto antes a um destino. E nosso destino só poderá ser um planeta habitável.
Concordo plenamente — disse O-l.
Os dois técnicos fizeram gestos de assentimento.
C-l viu que fora derrotado pelo número.
Submeto-me à decisão da maioria — disse. — Mas quero ponderar que por vários motivos só concordo porque sou obrigado a isso. O motivo principal é este: nossos conhecimentos a respeito do chamado hiperpropulsor são muito limitados. Não temos a menor experiência com seu manejo. Se alguma coisa não der certo, estaremos perdidos. Ou será que M-7 poderá reparar o propulsor se este falhar durante a viagem? Além disso, cabe ressaltar que não temos a menor idéia da finalidade que esta nave das gerações deve preencher. Talvez devamos alcançar nosso destino com a velocidade que atualmente estamos desenvolvendo.
Se fosse assim, para que serviriam as instalações de hipersalto? — perguntou o médico com um olhar de esguelha para O-l. — Afinal, o aparelho não entrou na nave por acaso.
Acontece que o hiperpropulsor se encontra em posição fácil de ser localizado, mesmo estando no interior da nave — disse O-l em tom frio.
O comandante resignou-se.
Todos os argumentos que acabam de ser alinhados parecem lógicos e convincentes, pouco importando de que lado tenham vindo. Não tenho outra alternativa senão submeter-me à vontade da maioria.
Quer dizer que temos permissão para calcular e executar um hipersalto? — perguntou O-l por uma questão de cautela.
O comandante fez um gesto de assentimento.
A decisão pode ser interpretada dessa forma, O-l. Se D-3 também estiver de acordo...
Sou a favor da experiência — disse o médico apressadamente, como se receasse que o comandante pudesse mudar de idéia. — Quanto mais cedo pousarmos num planeta, tanto melhor.
Subitamente sacudiu a cabeça.
Será que alguém aqui presente sabe o que vem a ser um planeta e como é ele?
Todos haviam nascido na nave e nunca conheceram outro mundo senão o representado pelo veículo espacial. A bordo existiam livros falando de gigantescas esferas que gravitavam em torno de sóis chamejantes. Eram corpos naturais, não artificiais, e seus habitantes viviam na face das esferas, não no interior delas. O sol possibilitava esse modo de vida, fornecendo calor e energia.
A vida num mundo como este sempre deve ser mais bela que no interior de uma nave — disse O-l em tom convicto. — Cheguei a ler que as naves iguais a esta só são utilizadas no transporte, por mais absurdo que isso possa parecer. Pelo que dizem, a vida natural e digna de ser vivida é a que se desenvolve na face dos planetas. Conclui-se que, se ligarmos o hiperpropulsor, estaremos cumprindo as leis da natureza e buscando de modo mais rápido um mundo que nos abrigue.
Um mundo onde não existe geração de ar — disse C-l em tom pensativo. — Isso é inimaginável e deprimente. Quem sabe que decepções nos esperam?! Está bem, O-l. Providencie para que tudo seja preparado. Não podemos assumir qualquer risco. O primeiro salto deverá ser bem sucedido. Nunca permitirei um segundo salto.
Isso aconteceu no dia 8 de setembro de 2.044.
Dali a dois dias, o primeiro-oficial anunciou que o departamento técnico acabara de examinar detidamente e analisar o hiperpropulsor e que os respectivos computadores positrônicos haviam sido ativados. Mas o comandante continuou no seu ceticismo.
Já sei! O senhor quer os mapas estelares para calcular o salto? — perguntou.
Sem esses mapas não há possibilidade de executarmos um salto bem orientado. Neles estão registrados os dados necessários. Nossa posição também pode ser apurada com base em tais dados.
Podemos dar-nos por felizes por termos os mapas a bordo — disse o comandante. — Encontrei-os nesse armário. Aliás, a existência desses mapas pode ser interpretada como uma prova de que a nave tem permissão para executar manobras independentes.
O propulsor também constitui uma prova disso — observou O-l em tom de triunfo.
Colocou-se ao lado do comandante e inclinou-se sobre os mapas.
Escolheremos a estrela mais próxima, a fim de que o risco seja o menor possível. Iremos em linha reta. Só haverá necessidade de uma insignificante correção de rota. Desde que os dados sejam corretos...
Por que não seriam corretos? — disse o comandante, que, de repente, parecia mais confiante que o primeiro-oficial. — Estudei os manuais e aprendi a teoria do salto. É claro que não sei como as coisas funcionarão na prática.
Não demoraremos a descobrir — comentou O-l em tom obstinado. — Desde o momento em que soube que, no interior desta nave, muitas gerações de nosso povo estão hibernando, sou perseguido dia e noite por um terrível pesadelo: quem sabe se eles não poderão acordar de repente?
O comandante levantou a cabeça. Seu rosto estava pálido.
Por que iria acontecer uma coisa dessas, O-l? Só depois de pousarmos num planeta, nós os acordaremos. Os antepassados, que estavam presentes por ocasião da decolagem desta nave, já conhecem as condições de vida num planeta. Eles nos ajudarão.
Ao que parecia, o primeiro-oficial estava interessado em encerrar este assunto desagradável.
Entregue-me os mapas, C-l, a fim de que eu possa mandar calcular os dados. Um dos robôs vai nos auxiliar. Pelo que diz, já foi robô de navegação. Os técnicos mais competentes passaram os últimos dias estudando minuciosamente os detalhes do mecanismo de propulsão, e outros robôs reprogramados estão à nossa disposição com sua experiência. Não pode nem deve haver qualquer falha, comandante.
Naturalmente, O-l. O que devo fazer?
Permanecerei em contato com o senhor. Quando tudo tiver acertado, bastará puxar aquela chave embutida. O resto será providenciado pelos dispositivos automáticos. Oportunamente eu o avisarei.
O comandante seguiu-o com um olhar pensativo.
Parecia que a longa viagem estava chegando ao fim.
Ninguém sabia de onde vinha a nave. O diário de bordo positrônico não dizia nada a este respeito, e não existia outra fonte de informações. Se tal fonte existira, havia sido destruída, no momento em que os robôs assumiram o comando. Também o destino e a finalidade do vôo estavam ocultos nas brumas do tempo.
O comandante lembrou-se das pessoas que hibernavam. Elas estavam empilhadas no interior de uma imensa esfera oca, situada no centro da nave. Os robôs de vigilância colocaram-nas lá, uma vez concluído o tratamento nas câmaras frigoríficas. Estas agora permaneciam vazias, porque ninguém mais dava ordens para alguém ser mergulhado num estado de hibernação, pois os robôs passaram a ser dominados pelos homens.
O veículo espacial oferecia lugar de sobra para dez mil pessoas, mas aquelas que dormiam, e que representavam o décuplo dessa cifra, só poderiam ser despertadas após o pouso num planeta habitável. Caso fossem acordadas antes da descida, a nave não poderia abrigá-las.
O comandante olhou para as telas.
Lá fora o espaço cósmico se estendia repleto de estrelas. Há um ano nem sabia o que vinham a ser estrelas. Sem dúvida, para ele, todas eram sóis. Mesmo agora, ainda ignorava que a maior parte delas possuía planetas nos quais se podia viver e respirar.
Um zumbido arrancou-o das reflexões.
Aqui fala O-l, comandante. Encontro-me no centro hiperpropulsor. Os robôs de navegação processaram os dados e me entregaram o resultado, contendo as respectivas coordenadas. Está tudo devidamente regulado. Já podemos saltar.
O comandante levantou-se e foi até a parede. Colocou a mão sobre a chave vermelha.
Tomara que não tenhamos cometido nenhum engano, O-l...
Fizemos tudo que estava ao nosso alcance para evitar um possível erro, comandante.
Está bem — o comandante inspirou e expirou fortemente. — E a tripulação?
Estão todos nos seus lugares.
Muito bem! — C-l puxou a chave. Foi fácil movê-la.
Nada dava a impressão de ter mudado. Apenas as estrelas, que a tela mostrava, pareciam ter sido apagadas por uma mão invisível. Por uma fração de segundo o espaço sumiu. E logo depois outras estrelas se aglomeravam em estranhas constelações e... permaneceram na tela.
O comandante sentiu a dor da rematerialização, à qual não estava acostumado. Por alguns segundos essa dor foi acompanhada de um terrível pavor, mas à medida que ia passando, o temor de que alguma coisa poderia ter saído errada também perdia a intensidade.
Com um salto C-l colocou-se junto ao intercomunicador.
Alô, O-l. O senhor me ouve?
O dispositivo de imagem foi ativado. O rosto do primeiro-oficial parecia perturbado, mas logo nele começou a desenhar-se um sorriso de triunfo.
Acho que conseguimos. Com as máquinas está tudo normal. O que está aparecendo na tela da sala de comando?
Novas estrelas. O deslocamento de certas constelações faz supor que percorremos uma distância na qual normalmente teríamos gasto vários decênios. Há um sol branco bem perto de nós. Estamos voando diretamente em sua direção.
É a estrela que representa nosso destino.
O primeiro-oficial passou a mão pela testa.
O senhor está com a razão, C-l. Conseguimos! Dentro em breve pousaremos num planeta.
Acha que conseguiremos controlar a nave?
Os robôs cuidarão disso para nós. Estão obedecendo às nossas ordens.
Pois mande calcular a nova rota. Não sei quanto tempo levaremos para chegar à estrela.
Se mantivermos a mesma velocidade deveremos levar perto de três semanas.
Quer dizer que teremos tempo de sobra — disse C-l com um suspiro de alívio.
Nem desconfiavam do perigo que corriam...

* * *

O técnico M-7, acompanhado de M-4, realizou sua inspeção diária no centro da esfera.
Há um ano essa parte da nave era considerada um tabu para os homens. Só os robôs tinham acesso à mesma. A violação dessa regra era punida com a morte, que na verdade não era nenhuma morte, mas a vida eterna. As pessoas condenadas eram levadas às câmaras frigoríficas, e ali preparadas para a hibernação sem que o soubessem. Quando isso acontecia, os delinqüentes já estavam inconscientes.
Os dois homens entraram na sala.
As longas fileiras de recipientes, nos quais antigamente costumavam ficar deitadas as pessoas adormecidas, estavam vazias. Há muito os homens e as mulheres congelados haviam sido levados à esfera, onde permaneceriam até o momento em que a nave chegasse ao destino.
M-7 ouviu passos e parou.
Ninguém tem nada a fazer aqui embaixo”, pensou. “Os antigos robôs de vigilância foram retirados dali do centro da esfera, porque tiveram de executar trabalhos em outros lugares...
Soltou um suspiro de alívio ao reconhecer o médico.
Olá, D-3! Também está realizando uma inspeção?
O médico aproximou-se dos dois homens e parou à frente deles.
Estou na ronda diária, M-7. E vocês?
Também estamos fazendo nossa ronda diária. Esta parte da nave pertence ao meu setor. Mas não demorará muito e logo poderemos abandonar a nave. É uma idéia magnífica: abandonar a nave!
O médico fez um gesto de assentimento e olhou para trás, como se tivesse ouvido alguma coisa. Depois de algum tempo sacudiu a cabeça e disse:
Estou ouvindo fantasmas. Desde que realizamos o hipersalto, há três dias, as coisas andam muito esquisitas aqui embaixo.
Passou os olhos pelas longas fileiras de “aquários”.
Tive a impressão de ter visto uma sombra junto à parede que nos separa da esfera de gelo. Pedi a um robô que fosse dar uma olhada e... ele não voltou.
M-7 ficou pálido como cera.
Não voltou?
É o que acabo de dizer. O robô passou pela comporta de frio, entrou no recinto em que se encontram as pessoas adormecidas, e não voltou. A comporta voltou a ser fechada automaticamente.
Quer dizer que o robô ficou no interior da esfera?
O médico fez um gesto afirmativo. Continuava a aguçar os ouvidos, mas atrás dos esquifes de vidro tudo continuava em silêncio. O líquido turvo e espesso, em que costumavam ser guardadas as pessoas aparentemente mortas, permanecia imóvel.
Por que o comandante não foi avisado? — perguntou M-4 em tom assustado. — Talvez...
Estacou, como se receasse pronunciar sua suspeita.
O médico não olhou para ele.
Talvez o quê?
M-4 não teve necessidade de responder.
Atrás da longa fileira de recipientes de vidro, ouviu-se um ruído. Uma sombra saiu da penumbra e aproximou-se.
Só a identificaram, quando se encontrava à sua frente.
Era um homem e estava nu.

* * *

A volta do primeiro sopro de vida fê-lo sentir frio, um frio inconcebível.
Estava emergindo à superfície, vindo de uma noite que não conhecera nenhuma luz, uma noite que devia ter durado uma eternidade, uma noite que não conhecia nenhum amanhecer.
Mas a manhã acabara de chegar...
Procurou mover os membros, mas não conseguiu. Pareciam estar envoltos numa blindagem invisível, que irradiava um frio imenso. Mas as pernas pareciam livres. Começou a tatear com os pés e constatou não ter encontrado qualquer resistência.
A memória começou a funcionar.
A nave dos emigrantes decolara para o grande vôo. Porém os tripulantes foram dominados pelos robôs, que deram continuidade à missão originariamente programada. Era a Missão Regeneração, conforme se dissera por ocasião da decolagem. As testemunhas vivas do presente voltariam a viver num futuro distante. Os conselheiros sabiam que um belo dia o Império precisaria do sangue jovem, ainda não corrompido.
Os robôs...?
O homem que despertava assustou-se. Tudo dera errado. Despertara cedo demais.
Ou seria tarde demais?
Subitamente lembrou-se de seu nome. Era Alos, o técnico de cibernética, responsável pelo funcionamento dos robôs que se encontravam a bordo. Fora dominado pelos robôs, tal qual os outros passageiros.
Por que estava sendo despertado?
Subitamente sentiu a umidade. Em certo lugar o gelo derreteu, transformando-se em água. Naquele momento percebeu que estava nu.
Conseguiu mover-se com grande esforço, numa só direção. Saiu do pequeno recipiente de gelo, com os pés à frente e, por alguns segundos, ficou suspenso sobre um abismo, cuja profundidade não conseguia avaliar. Os dedos endurecidos não conseguiram mais agüentar o peso do corpo. Soltou-se e caiu.
Percorreu menos de um metro na queda e foi parar no chão.
No mesmo instante, as luzes acenderam-se no teto.
Alos fechou os olhos ofuscados, que por muitos séculos não haviam visto nenhuma luz. Aos poucos, a retina começou a funcionar e transmitiu as impressões ao cérebro.
Alos começou a enxergar.
Milhares e milhares de homens e mulheres achavam-se empilhados no recinto. Sobrepunham-se em enormes fileiras, separadas apenas pelas paredes de gelo dos recipientes nos quais estavam guardados. Conservados dessa forma, poderiam durar por milênios, desde que a temperatura fosse mantida constante.
Estiver a deitado na terceira fileira, contada de baixo, junto ao corredor central. Abaixo do seu lugar havia mais dois blocos de gelo, nos quais dois homens se encontravam imóveis, como se estivessem mortos.
De repente, o de baixo começou a mover-se. Estendeu os pés e a placa de gelo semiderretida começou a desprender-se. Caiu ao chão e esfacelou-se.
Por um instante Alos desligou-se do que observava. Uma dor lancinante atravessou seu corpo, ao qual a vida retornava lentamente. O sangue formigava nas veias. Sabia que o processo de revitalização tivera início há algumas horas. As dores não eram muito fortes, e por isso não causavam maiores preocupações.
O outro arcônida também começou a sair do lugar. Empurrou a placa de gelo com os pés e retirou-se pela parte de baixo, onde foi recebido por Alos.
É o senhor, comodoro Ceshal?
O homem que acabara de despertar lançou um olhar atento para Alos, como se o visse pela primeira vez. Balançou a cabeça.
Os robôs devem ter reconhecido seu erro. Resolveram despertar-nos. Provavelmente não conseguem arranjar-se sem nós.
Alos percebeu que o comandante ainda não havia compreendido toda a verdade. E esta representaria um choque para ele.
Quanto tempo dormimos, comodoro Ceshal? O que lhe diz o sentimento?
Se me orientasse pelo sentimento, diria que dormimos uma hora. Acontece que os robôs levaram algum tempo para transportar-nos até as instalações e empilhar-nos. Além disso...
Estacou de repente. Enquanto falava, olhara em torno. A luz forte iluminava as longas fileiras de pessoas congeladas, que estavam empilhadas até o teto. Não havia necessidade de contá-las. Ao primeiro relance de olhos, Ceshal percebeu que por ali descansavam dez ou vinte vezes mais pessoas do que aquelas que se encontravam a bordo no início da viagem.
Foi uma hora muito longa, Ceshal — disse Alos em tom amargurado.
Pelo Império! — exclamou o comandante. — O que aconteceu?
Neste meio tempo mais um homem conseguira libertar-se do bloco de gelo. Era Ekral, o cientista, que se ergueu e fitou o estranho quadro com os olhos arregalados. Seu raciocínio cristalino logo começou a funcionar perfeitamente. Mas sua voz parecia muito rouca, quando constatou:
Vários milênios devem ter-se passado. Os robôs fizeram exatamente aquilo que planejamos. Apenas eles o fizeram de uma maneira que corresponde à sua mentalidade. Lembro-me de que me empurraram para dentro do conversor. Depois morri. E agora muitas gerações descansam neste túmulo de gelo. Para quê? Por quê?
Ainda saberemos — disse Ceshal em tom tranqüilizador. — De qualquer maneira, ligaram o dispositivo que nos desperta. Devemos ter chegado a algum planeta. Talvez tenham conseguido reparar o hiperpropulsor defeituoso. O rádio não entrou em pane também após a explosão?
Alos acenou lentamente com a cabeça.
Minha memória não está nada boa; não me lembro mais com exatidão do que aconteceu.
Afastou-se para o lado, quando mais dois arcônidas se puseram de pé e ajudaram um terceiro a sair do esquife de gelo.
Esta instalação deve funcionar de forma sincronizada — disse Ceshal por entre os dentes. — Devemos dirigir-nos à saída. O abandono da nave deve ser realizado de forma ordenada, pois do contrário haverá uma catástrofe.
Passando pelas pessoas que despertavam, os três homens atravessaram apressadamente o corredor. No fim deste, viram-se diante de uma parede coberta de cristais de gelo. Apenas uma roda de comando de ferro fazia imaginar o local de saída. Mas não foi possível movê-la.
É o fecho — constatou Ceshal. — Só deve ser isso. A câmara frigorífica só pode ser aberta do lado de fora. Teremos de esperar até que alguém nos solte.
Quem será esse alguém, comodoro? — perguntou Alos em tom desconfiado. — Os robôs?
Não poderemos esperar por muito tempo — observou Ekral e apontou para as pessoas que despertavam em todos os lados. — Se todos despertarem...
A idéia era apavorante.
Louco de desespero, Ceshal usou toda sua força, mas a roda não se moveu por um milímetro que fosse. Enquanto isso, a água proveniente do gelo derretido formava pequenos regatos que iam unir-se no centro da nave. Mas o nível da mesma não subiu. Fora sugada por algum mecanismo desconhecido.
Pelo menos não morreriam afogados.
Trinta ou quarenta homens espremeram-se pelo corredor e cercaram o comodoro Ceshal, Ekral e Alos. Outros seguiram-nos. O ar já começava a ficar viciado. A luz forte aquecia o recinto. Em algum lugar ouviu-se um grito de mulher.
Temos de sair daqui! — berrou alguém, erguendo os punhos. — Se todos acordarem...
As palavras restantes não foram pronunciadas, mas a simples idéia bastava para infundir pavor. Cem mil pessoas encontravam-se no pequeno recinto. Deitados e empilhados, com o corpo cercado por finas camadas de gelo, houvera lugar para todos. Mas as camadas de gelo derretiam e as pessoas despertavam. Precisariam de ar para respirar, de lugar para ficar de pé...
Ceshal continuou a balançar a roda.
Eles nos acordaram, minha gente — disse, procurando dar um tom autoritário à voz. — Eles também nos libertarão em tempo. Talvez as manobras de pouso ainda não tenham sido concluídas.
Nos fundos do depósito, a mulher continuava a gritar. Procuraram tranqüilizá-la, dizendo que seu marido não estava morto e também não demoraria a despertar. Quanto ao filho...
Bem, o filho já seria um homem, talvez até mais velho que ela.
Subitamente o comodoro Ceshal estacou. A roda, contra a qual usava a sua força, tremera ligeiramente e girara alguns centímetros.
Levantou os braços e exigiu silêncio.
A roda continuava a girar. Uma pequena fresta abriu-se na parede. Do lado de fora estava tudo escuro. Um vulto penetrou no depósito e ficou parado.
Ceshal agiu de forma instintiva.
Levantou a mão e girou a roda em sentido contrário. A porta voltou a fechar-se. O intruso voltou-se abruptamente, mas já era tarde.
Ceshal fitou o rosto inexpressivo de um robô.
O que aconteceu lá fora, na nave? — perguntou. — Responda!
Na verdade, não esperava nenhuma resposta, pois quando pela última vez vira um robô, este comandava a nave. Mas, para seu espanto, a máquina que tinha à sua frente mostrou-se obediente.
O hipersalto deve ter ativado o equipamento que desperta os adormecidos, senhor. Isso não estava previsto.
O robô o chamara de senhor. Ceshal registrou o fato com uma forte sensação de alívio. Será que os amotinados haviam refletido sobre seus atos — agora, que sem dúvida já era tarde?
O hipersalto? O mecanismo voltou a funcionar?
O mesmo nunca apresentou qualquer defeito, senhor.
Admirando-se, Ceshal fitou o robô.
O quê?
Só sei que o mecanismo nunca apresentou qualquer defeito, senhor. Minha memória foi parcialmente apagada, e por isso não posso dar outras informações. Recebi ordens para entrar neste recinto e apurar a origem de um ruído que foi ouvido do lado de fora. Permita que eu volte, a fim de relatar o que aconteceu.
Relatar a quem?
E o robô começou a contar...

* * *

Num gesto destemido, o comodoro Ceshal abriu a comporta de frio e dirigiu-se aos três homens, que se espantaram ao vê-lo.
Então? — disse em meio ao silêncio de morte. — Vocês nos despertaram; providenciem roupas para nós. Depois que o sangue voltou a circular em nossas veias, passamos â sentir frio. Vocês puseram fim ao domínio dos robôs. Portanto, resolvam este problema.
A-3 foi o primeiro a recuperar-se do susto.
Quem despertou? Quantos?
Espero que sejam todos. Não sabemos se a instalação funciona perfeitamente. Ekral e Tunuter ajudaram a construí-la e, portanto, também são responsáveis por ela.
O médico empalideceu.
Todos? Só deveremos chegar ao planeta daqui a três semanas. Onde vamos arranjar roupas para todos? Volte à câmara de hibernação e tranqüilize o pessoal. Na nave não há lugar para todos...
O senhor está louco! — disse Ceshal com a voz fria. — Somos mais de cem mil arcônidas, entre homens e mulheres, comprimidos num espaço extremamente reduzido. Precisamos de roupas e de alimentos. Ainda acontece que, de direito, eu sou o comandante da nave.
Com uma terrível nitidez, D-3 pressentiu as complicações que se aproximavam. Quem dera que pudesse avisar C-l do perigo, sem provocar as suspeitas do homem que acabara de ser despertado.
Naturalmente seu posto será respeitado — disse em tom cauteloso. — Acontece que não tenho poderes para tomar qualquer decisão. Sou apenas um dos médicos de bordo. Desde o momento em que reprogramamos os robôs, assumi certas responsabilidades. Antes disso, bem, é uma história muito longa. Acho que adquirirá um sentido mais claro, se interpretada com os dados que o senhor poderá acrescentar. Venha conosco. Vamos apresentá-lo a C-l. Ele encontra-se na sua sala de comando.
Ceshal fitou-o atentamente.
Não adianta mentir para mim, doutor. Nasci milhares de anos antes do senhor e pertenço à família reinante do Império...
De que império? — perguntou D-3.
Ceshal começou a imaginar o grau de esquecimento que se espalhara entre os descendentes. Os robôs haviam cuidado disso. Deveriam ter tido seus próprios planos com os humanos. Que planos seriam estes?
Somos arcônidas e donos de um império estelar de dimensões inimagináveis. Fomos incumbidos de realizar uma experiência, mas a mesma foi mal sucedida. Talvez não. Minha memória está falhando. Na sala de comando deve haver indicações a este respeito, se é que não foram destruídas pelos robôs. Muito bem, doutor. Leve-me ao comandante.
A mudança de disposição foi tão rápida que D-3 se sentiu surpreso. Foi a um armário e revirou-o até encontrar uma coberta. Entregou-a a Ceshal.
Vamos. Acho que não podemos perder um minuto, se quisermos evitar uma catástrofe. M- 4 e M-7, fiquem aqui. Cuidem para que ninguém mais saia da câmara fria.
Depois de ligeira hesitação pôs a mão no bolso e tirou uma pequena arma de radiações.
Usem, se preciso, esta pistola. Ceshal esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas preferiu ficar calado e envolveu-se no cobertor. Não fazia uma figura muito imponente e começou a desconfiar dos efeitos psicológicos de um uniforme bem talhado. O médico fez-lhe um sinal e foi andando à sua frente. Seguiu-o, sem dizer uma palavra. Antes de abaixar-se para passar pela porta, olhou para trás.
Os dois técnicos se haviam postado junto à comporta de frio. Seus rostos exprimiam uma resolução implacável.
Ceshal desconfiou de que as dificuldades apenas estavam começando...

* * *

O comandante soube dominar-se muito bem.
No momento em que D-3 entrou na sala de comando ao lado do arcônida despertado, C-l acabara de receber de O-l a notícia pouco tranqüilizadora de que os técnicos haviam constatado falhas graves na sala de máquinas. O hipersalto devia ter causado alguns curto-circuitos. Os bancos de energia se haviam descarregado. Ninguém sabia de que forma a energia fora consumida. Não havia a menor dúvida de que o mecanismo de transição não estava mais em condições de funcionar.
O salto a uma distância de vinte anos-luz fora bem sucedido, mas tiveram de pagar muito caro pelo mesmo. Só no momento em que D-3 entrou com o visitante involuntário, C-l deu-se conta de como o preço era elevado.
Quem é este? — perguntou com a voz tranqüila.
O primeiro-oficial empalideceu, mas não disse nada.
As pessoas adormecidas despertaram, C-l — respondeu o médico em tom nervoso.
Onde foi que vocês o encontraram?
Saiu da câmara fria. Conseguiram dominar um robô que mandei lá para dentro. Foi ele que lhes abriu a comporta... Deixei M-4 e M-7 para vigiar o local. Devemos providenciar reforços imediatamente, se quisermos evitar uma catástrofe.
O-l controlou-se. Fez um sinal para
C-l e saiu apressadamente da sala de comando.
Ceshal viu-se tomado de surpresa.
O que é que o senhor está pensando? — perguntou em tom indignado, apontando para a porta. — Não me venha dizer que vai utilizar soldados contra gente desarmada. Sabe com quem está falando? Sou o comodoro Ceshal, chefe desta expedição. Os senhores são meus subordinados. Providenciarei para que...
Receio que o senhor não esteja avaliando corretamente a situação — interrompeu-o D-3. — O senhor já foi comandante desta nave, há dez mil anos. Mas permitiu que os robôs assumissem o poder. Os robôs passaram a ser os senhores; os homens, os servos. Nós nos rebelamos contra o domínio das máquinas e saímos vitoriosos. E agora o senhor sai do túmulo e vem nos dizer que é o comandante...
C-l fez um sinal para o médico. Sentia-se grato pelo apoio que o doutor lhe estava proporcionando.
Como vê, meu caro, suas reivindicações morais não têm uma base muito firme. Se é que o senhor já foi comandante desta nave, isso faz muito tempo. Acontece que, no momento, eu sou o comandante. E fui eu quem dirigiu a revolta contra os robôs.
Sou o comodoro Ceshal...
Muito bem — respondeu C-l. — Use o nome que quiser. Mas providencie para que seu pessoal fique no interior da cúpula de gelo. Dentro de três semanas, no máximo, chegaremos a um planeta e pousaremos. Quando isso acontecer, tudo se resolverá por si.
Três semanas! Ficaremos congelados! — gritou Ceshal, perdendo completamente o autocontrole. — O senhor só pode estar louco! Dentro de três semanas todos nós já estaremos mortos, ou de fome ou por asfixia. Foram vocês que nos despertaram antes da hora. Providenciem para que não morramos.
C-l não pôde mostrar-se indiferente a esses argumentos. Naturalmente era responsável pelo fato de as gerações adormecidas terem despertado. Mas não via nenhum meio de ajudá-las, sem colocar em risco sua vida e a dos tripulantes.
Ceshal, a bordo da nave não existem mantimentos nem roupas para tanta gente. Naturalmente faremos o possível para satisfazer as necessidades mais prementes. Distribuiremos cobertores e forneceremos rações de emergência. No entanto, exijo a disciplina mais rigorosa. Nenhuma das pessoas adormecidas poderá deixar o convés central. Mandarei postar sentinelas. Acredito que assim será possível...
Vai dar ordens para que os seus atirem contra os velhos arcônidas? — perguntou Ceshal em tom indignado. — O senhor se esquece de que são descendentes puros das castas governantes e parentes de sangue da estirpe do imperador.
Do imperador? — perguntou O-l, que acabara de voltar à sala de comando e ouvira as últimas palavras. — O que é que nós temos com seu imperador? Vivemos de acordo com as leis desta nave, como todos que vieram antes de nós. Quem foi que nos colocou nesta situação?
Ceshal reconheceu que não conseguiria nada com seus argumentos.
Não devemos falar em culpa, mas pensar no futuro. No nosso futuro. Quando foi que o senhor manteve o último contato pelo rádio com as naves do Império?
C-l fitou Ceshal como quem não compreende nada.
Contato com outras naves? Será que existem outras naves além da nossa?
Ceshal começou a desconfiar de que não seria tão simples chegar a um acordo. O “grande esquecimento” interpunha-se entre ele e os descendentes. Esteve a ponto de iniciar uma explicação, quando se ouviu o som estridente de uma campainha.
Vinha de um dos cantos da sala de comando. O primeiro-oficial correu para junto da tela e girou alguns botões. Quando a tela pálida se iluminou, surgiu um rosto que parecia conhecido até mesmo a Ceshal.
O que aconteceu, M-7? De onde está falando? Acho que o senhor...
Foi no convés central. Não conseguimos deter os antepassados, O-l. Passaram por cima de M-4, quando ele quis detê-los de arma na mão. Consegui colocar-me em segurança a tempo e fechei a escotilha da comporta que dá para o convés central. Agora lhes será mais dificultoso ultrapassar...
Mande guarnecer todas as comportas, M-7. Devemos impedir os antepassados pela força das armas, de inundarem toda a nave. Isso seria o fim.
Com a colaboração dos robôs, conseguiremos — garantiu o técnico.
A tela apagou-se.
O comodoro Ceshal ouvira tudo, mudo de pavor. Sabia perfeitamente que os arcônidas despertos não podiam ser mantidos presos num espaço extremamente exíguo, pois isso acarretaria uma catástrofe. Pelo menos alguns já haviam conseguido fugir das câmaras geladas. O convés central era amplo. Compreendia os doze pavilhões redondos, com as salas de preparativos, os recipientes de vidro e algumas salas de máquinas. Fazendo uma divisão adequada e mantendo uma ordem rígida deveria ser possível agrupar as pessoas de forma tal...
E agora? — indagou C-l em tom furioso. — O que me diz, arcônida? Lá embaixo o inferno está às soltas, exclusivamente por sua culpa.
Por minha culpa?! — perguntou Ceshal, em tom amargurado. — Deixe-me voltar para junto de minha gente, para que possa acalmá-la. Talvez consigamos arranjar-nos no convés central.
Terão de arranjar-se — disse C-l em tom ríspido. — Reprimirei qualquer tentativa de fuga, usando de todos os meios que estão ao nosso alcance. As rações de mantimentos lhes serão fornecidas através das comportas, mas isso somente se obedecerem à nossas instruções. Ainda providenciarei a distribuição de roupas. Não serão suficientes, mas quero que ao menos as mulheres não andem nuas. Conduzirei uma quantidade suficiente de ar morno para o convés central. Espero que, com isso, tenha feito tudo para tornar-lhes a vida o mais suportável possível.
Obrigado — respondeu Ceshal.
Não lhe foi nada fácil pronunciar esta palavra. Em sua opinião, C-l era um bárbaro ignorante, que se tornara comandante em virtude de um acaso. O imperador de Árcon e seu conselheiro científico haviam formulado uma previsão correta ao afirmarem que, no futuro, a raça atravessaria um processo de degenerescência. Quem dera que houvesse uma possibilidade de verificar quanto tempo se passara desde então...
O senhor pode voltar para junto de sua gente, comodoro Ceshal.
C-l fez um gesto condescendente para o homem envolto apenas num cobertor e voltou a manipular os botões da tela. D-3 segurou Ceshal pelo braço.
Venha comigo. Estão precisando muito do senhor.
Pelos corredores encontraram-se com vários homens armados, que se dirigiam a seus postos. Robôs com mantimentos, cobertores e peças de roupa entravam nos elevadores antigravitacionais e deixavam-se cair para o convés central.
Como vê, não temos a intenção de deixá-los perecer — observou o médico, enquanto esperavam uma vaga para usarem o elevador. — É necessário que o senhor compreenda que a anarquia seria a morte de todos.
No seu íntimo, Ceshal não pôde deixar de dar-lhe razão. Mas o orgulho impediu-o de reconhecê-lo. A contragosto fez um gesto de assentimento.
Um dia vocês ficarão satisfeitos, se nós os ajudarmos. Conhecemos a vida melhor que vocês, que nasceram na nave e nunca viram um planeta. Quando quiserem construir uma civilização e entrar em contato com o Império, precisarão de nós.
Com o Império? Será que ele ainda existe? Se existisse, já se teria interessado por nós.
Ceshal não respondeu. Era este um ponto que o havia preocupado demais. Devia ter ocorrido algo no Império, pois do contrário não se poderia compreender a interrupção dos contatos. Isso acontecera, talvez, na época que os robôs assumiram o governo da nave. E o Império aceitara o fato.
O elevador ficou livre, e eles desceram em direção ao centro da nave. As fileiras de guardas fortemente armados deixaram-nos passar. Diante da comporta fora montada uma peça de artilharia ligeira. O cano apontava para a escotilha fechada. D-3 parou.
Vamos abrir a escotilha, Ceshal. O senhor ordenará aos seus homens que recuem e o deixem entrar. Qualquer um que se oponha às nossas ordens, será morto imediatamente. Somos obrigados a tomar essa atitude, Ceshal, pois do contrário morreremos todos. Está preparado? Ceshal fitou os olhos do médico. — O senhor pensa que somos tão primitivos quanto os senhores. Realmente acredita que, se voltássemos a assumir o governo da nave, aconteceria uma catástrofe?
D-3 viu os olhos do comodoro dirigidos para si. Sua resposta não correspondeu inteiramente à sua convicção:
O senhor só causaria um desastre, Ceshal. A geração de hoje pode ser menos capaz do que a sua, mas não há dúvida de que saberemos agir com maior ponderação. Além do mais, o senhor sabe que não temos outra alternativa. Vá andando.
Fez um sinal para a sentinela que estava postada junto à porta.
A escotilha só podia ser aberta manualmente. Só em caso de emergência entrava em ação o comando central, que era automático.
Viu-se uma fresta.
Mas a fresta permaneceu apenas por um segundo. Logo transformou-se numa grande abertura, criada pela força de duas ou três dezenas de pessoas nuas que se comprimiam contra o obstáculo que cedia de repente.
Parem! — gritou Ceshal em tom assustado e levantou os braços. — Fiquem onde estão!
Suas palavras perderam-se em meio ao grito dos homens desesperados. D-3 viu que os homens mal conseguiam manter os pés sobre o chão. Não dominavam os próprios movimentos. Aqueles que vinham na frente transformaram-se no alvo da guarnição do canhão.
Nem mesmo D-3 conseguiu impedir a luta.
Através do fogo energético e das nuvens de fumaça, saltavam os vultos nus, precipitando-se com uma coragem a toda prova sobre os guardas armados. Os arcônidas despertos, por serem numerosos, tentavam dominar seus opositores.
Ceshal percebeu a chance única que se lhe oferecia. Virou-se e acompanhou a torrente humana, que investia contra os tripulantes da nave. Estes fugiram, dominados pelo pânico. Ele mesmo abateu D-3 com o punho e viu-o desaparecer sob os pés dos homens nus. Seu cobertor já havia caído no chão. Nu como os outros, foi abrindo o caminho para a liberdade.
O alarma ressoara por toda a nave.
A escotilha seguinte fechou-se automaticamente.
De qualquer maneira, a primeira geração conseguira ampliar consideravelmente sua área de influência. Mais uma parte da esfera encontrava-se em seu poder.
O comodoro Ceshal soltou um suspiro de alívio, quando viu Alos.
Alos, venha cá!
Esperou que o outro se encontrasse a seu lado.
O senhor conhece esta área? Podemos atingir algum setor vital da nave, sem passar por outras escotilhas?
O cibernético baixou a mão que segurava a barra de ferro.
Podemos atingir as instalações de renovação de ar, comodoro. Será que são importantes para as finalidades que tem em vista?
Ceshal respirou profundamente.
São — disse, sem reprimir o brilho de triunfo de seus olhos. — As instalações de renovação de ar são muito importantes. Com isto, a primeira geração volta a assumir o poder no interior da nave.
Depois desenvolveu seu plano de batalha.
4



A estrela branca crescera na tela de imagem.
Os oficiais navegadores haviam realizado seus cálculos, ao lado de O-l e O-2, e chegaram à conclusão de que, dentro de alguns dias, a nave seria captada pelo gigantesco campo de gravitação do sol.
Acontece que os propulsores apresentavam avarias. Não reagiam mais. Face a isso, a nave se precipitaria para o sol e se incendiaria.
Os técnicos trabalhavam ininterruptamente nas salas de máquinas, para conseguir ao menos uma modificação de rota. Seus esforços não deram o menor resultado. A nave prosseguia em sua trajetória, aproximando-se implacavelmente da destruição. A longa viagem poderia ter um fim abrupto e terrível.
Em meio a este clima de desespero, irrompeu outra notícia calamitosa. O ar no interior da nave tornava-se cada vez mais viciado e não havia como renová-lo.
C-l convocou os técnicos para uma conferência na sala de comando e teve o desgosto de descobrir que as instalações de renovação de ar ficavam na parte da nave controlada pelos homens despertados. Com isso, as frentes de combate se delimitavam. O comandante entrou em contato com os “rebeldes”. O intercomunicador continuava a funcionar perfeitamente.
Quando a tela se iluminou, viu Ceshal e os outros homens, que vestiam cobertores ou macacões. Todos estavam armados.

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