Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Os homens
servem à máquina...
na
astronave do passado!
Há
milênios uma nave vaga pelo espaço, longe das rotas normais de
navegação. É um gigantesco couraçado. Mas, em comparação com a
amplidão do espaço, não passa de uma partícula de pó.
E
ninguém a localizou...
Que
nave será essa? Terá tripulação? Será o testemunho de uma
catástrofe espacial ocorrida numa época em que a Humanidade ainda
não sabia da existência do Universo?
Porém
Gucky, o mais competente mutante de Rhodan, afirma que alguém pensou
em voz alta e “localiza” A Nave dos Antepassados...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
D-3,
Ps-5,
M-4
e R-75
— Os
primeiros tripulantes da nave dos antepassados que se rebelam contra
a vida bitolada.
Gucky
— Um
rato-castor mutante que se apresenta como o Imperador da Nebulosa de
Andrômeda.
Wilmar
Lund
— Comandante
do cruzador ligeiro Arctic.
Cadete
Brugg
— Que
não sabe que Gucky é vegetariano.
PREFACIO
A
gigantesca esfera metálica vagava pela imensidão infinita do
Universo. Se traçássemos sua rota passada, chegaríamos ao halo
galáctico, onde se situam os gigantescos grupos estelares esféricos.
Mas se acompanhássemos sua rota futura, iríamos parar no vazio
desolado da extremidade oposta da Via Láctea. Se mantivesse a
velocidade atual, a esfera só chegaria ao destino dentro de algumas
dezenas de milênios.
Além
de gigantesca, a esfera era artificial.
Quem a
visse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar observando
um pequeno planeta. Porém, um exame mais cuidadoso logo revelaria
que essa impressão seria simplesmente falsa. A esfera era um objeto
artificial, construído e posto em movimento por seres pensantes.
Ao que
parecia, seus tripulantes também eram criaturas inteligentes.
Vez por
outra, o observador veria uma sombra que se movia atrás das vigias
iluminadas. Essas sombras possuíam formas humanóides, fato que
levava à conclusão de que, no interior da esfera, não habitavam
monstros, e sim homens.
A
esfera era uma nave espacial.
É bem
verdade que a nave tinha um diâmetro de mil e quinhentos metros e
seria capaz de abrigar alguns milhares de homens.
Seguia
firmemente a sua rota, sem preocupar-se com os acontecimentos que se
desenrolavam nos milhares de planetas habitados, situados nas
vizinhanças. As placas energéticas de radiações, que permaneciam
ligadas, ininterruptamente, evitavam sua localização eletrônica à
distância, e nenhuma nave de patrulhamento espacial, fosse de que
raça fosse, descobriu o peregrino incansável que voava para um
destino desconhecido.
Não
havia ninguém que jamais tivesse posto os olhos no interior da
misteriosa nave-fantasma, com exceção, é claro, das pessoas que
viviam e trabalhavam no interior da mesma. Mas estas pessoas só
conheciam o interior da nave; não sabiam o que se passava no mundo
situado além de suas paredes metálicas. É bem verdade que viam as
estrelas que desfilavam lentamente ao longo da trajetória da nave;
mas estas pertenciam às suas vidas e não representavam qualquer
mistério. O negrume eterno do cosmos era seu dia, e os sóis
reluzentes eram seus companheiros constantes.
Por
maior que fosse a nave, em comparação com a imensidão do Universo,
ela não passava de uma partícula de pó, que seguia com vagar uma
trajetória previamente traçada, e nela prosseguiria até que um dia
fosse devorada pela eternidade.
Ninguém
daria por sua falta...
1
O
Maquinista Sete havia terminado seu turno de trabalho e saía em
direção ao alojamento. Foi substituído pelo Maquinista Quatro, um
moço robusto, mas de poucas palavras; difícil de diálogo. O
Maquinista Sete gostava de bater um papo entre um turno e outro, mas
o Maquinista Quatro não era um bom companheiro para esse tipo de
entretenimento.
Um tanto
contrariado, M-7 caminhou pelo estreito corredor, até atingir o
elevador antigravitacional. Penetrou imediatamente no negrume do poço
e logo se sentiu atingido pelo suave fluxo ascendente, que o levou
para cima. Dali a alguns segundos, outro homem colocou-se a seu lado;
com um ligeiro aceno de cabeça, deu a entender que não gostava de
prolongadas discussões.
M-7
conhecia o homem. Era um dos médicos que velavam pela saúde do
pessoal de bordo. Se não se enganava era o Doutor Três, um homem
geralmente amável e comunicativo, especialmente com quem estivesse
doente e confiado aos seus cuidados.
Naquele
instante, o Maquinista Sete lamentou-se de não estar doente.
— O
senhor não acha que hoje o ar está mais abafado que de costume? —
indagou cautelosamente, para dar início à conversa. — Tenho a
impressão de que está fazendo mais calor que nos outros dias.
— É
apenas impressão! — respondeu o médico laconicamente.
Ao que
parecia, o doutor não tinha a menor vontade de conversar com o
maquinista. Mas M-7 não desistia tão depressa.
— Como é
que a gente pode se enganar tanto, D-3? — retrucou, usando a
abreviatura simbólica, formada pela indicação da função e pelo
número. — Quem sabe se não estou doente?
D-3 lançou
um olhar perscrutador para M-7 e sacudiu a cabeça.
— Por
que acha que está doente? Se estiver sentindo alguma coisa, avise
sua seção e apresente-se a mim. Depois veremos o que...
— Avisar
que estou doente? — M-7 parecia assustado. — Tanta coisa só
para...
Estacou.
Por pouco não fala demais. Não poderia dizer ao médico que apenas
estava com vontade de abrir-se com alguém. Seu mundo era feito
apenas de indagações que nunca obtinham resposta. É bem verdade
que nem mesmo o médico seria capaz de lhe dar as respostas que
estava procurando, mas sempre seria interessante saber se alguém já
havia formulado as mesmas perguntas.
— Só
para o quê?
M-7
parecia embaraçado.
— Nada —
disse laconicamente e saiu do elevador. Pouco importava que não
fosse o corredor ao qual pretendia ir. Apenas desejava escapar do
olhar penetrante e desconfiado do médico. Viu as pernas de D-3
subirem à sua frente e esperou dois minutos.
Depois
voltou a entrar no elevador e, dali a dez minutos, penetrava no
camarote que partilhava com M-4. Via de regra, os turnos de trabalho
dos dois eram diferentes. Quando os turnos coincidiam, M-4 costumava
ficar deitado na cama sem fazer nada e sem mostrar-se disposto a
entreter qualquer palestra.
M-7
suspirou, lavou-se e foi para a cama.
Para que
estava vivendo?
*
* *
O
comandante estava a sós em seu camarote.
O corpo
robusto, ligeiramente inclinado para a frente, revelava sua idade.
Essa impressão era reforçada pelos cabelos brancos que emolduravam
um rosto, estreito e oval, com um par de olhos avermelhados e um
nariz quase feminino, que encimava a boca estreita. O queixo revelava
energia e força de vontade, mas os traços suaves que circundavam a
boca pareciam indicar o contrário.
As mãos
do comandante estavam pousadas sobre uma pequena pilha de finíssimos
documentos de plástico. Parecia querer segurá-los, com medo de que
alguém os tirasse. As pernas estendidas quase chegavam ao lado
oposto da mesa metálica, firmemente presa ao chão. A única peça
móvel era a leve poltrona.
A parede,
feita de material transparente, mostrava o espaço cósmico. Duas das
outras paredes estavam cobertas de instrumentos de controle, em
fileiras de pequenas telas, quadros de comando, chaves e indicadores.
Além disso havia botões, mecanismos de regulagem e equipamento de
comunicação. Na última parede, existiam apenas duas portas. Uma
delas levava a uma sala na qual ninguém podia penetrar, a não ser o
comandante.
Levantou
os olhos ao ouvir um leve zumbido. A tela superior do lado esquerdo
iluminou-se. Fez um gesto de cansaço e girou o botão que existia
embaixo da tela. No mesmo instante, surgiu o rosto de um homem que,
apesar dos cabelos brancos, parecia jovem e sadio. O rosto enérgico
provava que aquele homem gostava de decidir depressa, e, nos olhos
avermelhados, havia um brilho penetrante que deveria servir de
advertência a qualquer inimigo.
— Por
que me perturba, Oficial Um?
O rosto
não demonstrou a menor comoção.
— Preciso
falar com o senhor, C-l — disse. — É importante.
O
comandante soltou um suspiro.
— Já
sei o que deseja — disse em tom de resignação. — Por que será
que a juventude nunca sabe esperar sua vez? Sei que meu tempo está
quase no fim, mas para que tanta pressa, O-l? O senhor será meu
sucessor...
— Pois
não percebo nada disso — retrucou o oficial em tom zangado. —
Como é que a juventude pode progredir se a velhice não lhe dá
oportunidade para isso?
O
comandante sorriu.
— Progredir,
O-l? Você quer progredir? Se soubesse...
— Pois
eu quero saber. O senhor tem tempo para falar comigo?
O
comandante recusou em tom resoluto.
— No
momento não, O-l! Quando estiver na hora, avisarei. Você nem
imagina o peso da responsabilidade que terá de assumir. Quando
estiver no meu lugar, se arrependerá de sua afoiteza, mas então não
haverá como voltar atrás. Qualquer um que ocupe meu lugar será a
pessoa mais solitária do Universo.
— Não
há ninguém mais solitário que aquele que se isola voluntariamente.
E é o que o senhor está fazendo, comandante.
— Você
fará a mesma coisa, porque não terá outra alternativa. Um dia
compreenderá. Até lá só lhe posso pedir que tenha paciência.
Permita que eu o previna, O-l: qualquer insistência de sua parte
poderá ter conseqüências funestas. Ainda não chegou a hora...
O jovem
acenou com a cabeça... parecia zangado.
— É o
senhor quem decide o momento da substituição?
O
comandante sorriu.
— Faça
de conta que sou eu quem decido. Desta forma, não terá um peso na
consciência. Você só saberá de toda a verdade quando ocupar meu
lugar — olhou para o relógio que se encontrava em cima do painel
de instrumentos. — Com licença; tenho o que fazer.
A tela
apagou-se subitamente, antes que o oficial tivesse tempo para
responder.
O
comandante voltou a acomodar-se em sua poltrona. Apoiou a cabeça nas
mãos, como se esta pesasse demais. Compreendia perfeitamente o jovem
oficial que um dia ocuparia seu lugar.
O
regulamento não permitia qualquer exceção, sob pena de morte no
conversor. O sucessor teria de esperar até que fosse dado o sinal.
Só depois disso, poderia assumir o cargo, a fim de que só uma
pessoa de cada vez conhecesse o segredo.
“De
qualquer maneira terei de morrer”,
pensou o comandante com uma amargura cada vez maior. “É
o preço que tenho de pagar. Os que vieram antes de mim morreram, e
os que vierem depois também morrerão.”
Não havia
nada que pudesse interromper a seqüência.
Mais uma
vez sobressaltou-se com o zumbido do videofone. Tinha a obrigação
de dar atenção a todo e qualquer chamado. Levantou-se para
verificar se não era o Oficial Um.
Desta vez,
era o Oficial Dois, porta-voz da tripulação.
— Comandante,
Ps-5, D-3 e R-75 querem falar com o senhor. Pode recebê-los?
O
comandante refletiu rapidamente.
Não havia
nada de extraordinário em que o doutor e o psicólogo desejassem uma
entrevista. Isso acontecia quase todas as semanas. Mas o fato de o
Reparador Setenta e Cinco querer falar com ele não era corriqueiro.
Por isso falou num misto de curiosidade e estranheza:
— Conceda
a permissão. Aguardo estas pessoas na hora de costume.
Teve um
pressentimento e acrescentou:
— Só
quero falar com as pessoas que acabam de ser nomeadas, O-2. Tome as
necessárias precauções para que O-l não venha, sob qualquer
pretexto.
— Entendido,
senhor — disse o interlocutor e desligou.
O
comandante voltou a sentar-se e refletiu intensamente.
Desconfiava
de que uma desgraça estava para desabar sobre ele.
Porém não
sabia de que espécie era essa desgraça...
*
* *
Alguns
dias antes...
O
psicólogo levantou os olhos, perplexo, quando a porta se abriu e o
Doutor Três entrou em seu gabinete sem fazer-se anunciar.
Os dois
homens tinham aproximadamente a mesma idade, e, se não fosse seus
trajes profissionais, seria difícil distingui-los.
— Ora,
D-3. É uma visita rara...
— Preciso
falar com você, Ps-5. Só você pode responder às inúmeras
perguntas que formulo a mim mesmo e que outros me formulam.
— Perguntas?
Desde quando a gente costuma formular perguntas a si mesmo?
— É a
vida que coloca estas perguntas diante de nós, e compreendo qualquer
pessoa que queira transmiti-las aos círculos dirigentes. E os
círculos dirigentes somos nós, que não devemos responder.
O
psicólogo sorriu.
— Não
devemos, meu caro? Mesmo que quiséssemos, que resposta poderíamos
dar? O que sabemos da vida? Nascemos aqui, aqui vivemos e
trabalhamos, e é aqui que morreremos quando chegar nossa hora.
— Mas
por quê? Por que vivemos e morremos aqui? Que sentido tem nossa
existência? São estas as perguntas que ouvi repetidamente nos
últimos dias, Ps-5. Que resposta poderia dar? Sei que perguntas
deste tipo são proibidas, e sempre que alguém as ouve deve avisar o
comandante. Mas também sei que o comando da morte sai à procura das
pessoas que formulam tais questões e... Se nos ativéssemos às
ordens que nos são dadas, dentro de pouco tempo não haveria uma
criatura viva em nosso mundo.
O médico
fez uma pausa, inclinou-se para a frente e fitou os olhos de seu
interlocutor.
— O que
vem a ser este mundo? Você sabe?
— Ninguém
sabe — respondeu o psicólogo, sacudindo a cabeça e voltando a
sorrir. — Por que quer saber? Nascemos e somos criados neste mundo,
nele recebemos nossas tarefas e as cumprimos. Nosso mundo nos
sustenta, nos dá comida, bebida e oxigênio; nos veste e, uma vez
por ano, permite que entremos em contato com as mulheres. Por fim
ainda nos concede uma morte rápida e indolor. Devemos agradecer a
este mundo por cuidar tão bem de nós. Você não acha?
— Acho.
Concordo plenamente com você. Mas gostaria de saber por que as
coisas são assim e quem rege nossos destinos.
— Quem
rege nossos destinos? — o psicólogo refletiu por algum tempo e
parou de sorrir. — Ora, é o comandante; quem poderia ser? É ele
que dá as ordens e, felizmente, tem de morrer da mesma forma que
nós. Muita gente se sente reconfortada com esta idéia e, quando
chega sua vez, morre alegre.
— Não é
o comandante quem rege nossos destinos — disse o médico em tom
tranqüilo.
O
psicólogo estremeceu. Seus olhos estreitaram-se; com uma expressão
de pavor fitou as fendas do equipamento de renovação de ar, situado
no teto, como se acreditasse que ali havia alguém que os escutasse.
Seu rosto assumiu uma expressão de dúvida misturada com medo.
— Psiu!
Que bobagem é essa? Você ainda acabará por nos levar ao conversor.
A morte no
reator atômico seria a estação final de sua vida. Ninguém poderia
escapar a esse destino, mas quem não soubesse conduzir-se com a
necessária cautela apressaria o destino inevitável. O comandante
não hesitava muito em proferir uma sentença de morte, e sua vontade
era lei.
O médico
afastou a objeção com um gesto da mão.
— Tolice,
Ps-5! Não somos crianças às quais se possa meter medo com o
conversor. Somos homens para nos defendermos se quiserem levar-nos.
Tomei minhas precauções. Você acredita que andei pensando sobre
isso e não arranjei armas?
— Armas?
— perguntou Ps-5 em tom de espanto, ao qual se misturava uma
fagulha de medo. — Você sabe que a posse de armas é proibida.
Aliás, como é que você poderia tê-las arranjado? Neste mundo
ninguém tem armas, a não ser...
— Isso
mesmo! Ninguém possui armas, a não ser os guardas. Eles as trazem
ocultas em seus corpos mecânicos. Para nos apossarmos das armas de
um guarda, temos de destruí-lo.
O
psicólogo fitou o médico com uma expressão de espanto.
— Não
venha me dizer que...
— Pois é
isso mesmo. Atraí um robô para uma emboscada e o coloquei fora de
ação. Depois desmontei-o e fiquei com suas armas energéticas. Um
maquinista me ajudou. Ele é de confiança.
— Um
maquinista?! Será que ele não o trairá?
Desta vez,
o médico sorriu.
— Ele
não pode, meu caro. Fiz dele um viciado. Sei que isso é proibido.
Se descobrirem, serei punido. Mas M-4 ficaria sem drogas e definharia
miseravelmente. Como vê, tomei minhas precauções. E estou decidido
a descobrir a verdade. Quer me ajudar a descobri-la, Ps-5? Reflita
sobre isso. Caso não pense como eu, esqueça-se de nossa conversa.
Confio em sua palavra.
— Quem,
além de você e M-4, está agindo?
— Mais
ninguém.
O
psicólogo recostou-se na poltrona e lançou um olhar pensativo para
o teto de seu gabinete.
Era aqui
que trabalhava e dava suas ordens à Divisão de Psicologia. Gozava
de certo renome. Deveria arriscar tudo isso apenas para satisfazer a
curiosidade? Não se encontrava junto à fonte das informações? Não
era ele que, juntamente com o comandante, era informado sobre todas
as novidades em virtude de sua profissão? Por que teria de bancar o
curioso?
Lançou um
olhar pensativo para o amigo, que o fitou com uma expressão de
expectativa, cheia de fé e esperança, mas também com temor.
De
repente, teve uma idéia.
— Você
tem aí a arma? — perguntou.
D-3 fez
que sim. Pôs a mão no bolso e tirou um bastão pequeno e jeitoso,
em cuja extremidade havia uma lente de vidro.
— Você
nunca viu esta arma em funcionamento, Ps-5. Mas eu lhe garanto que
seus efeitos são terríveis. Se quiser, poderei perfurar a parede
externa de nosso mundo e dar entrada à morte gelada. Seria facílimo
matar um homem com ela.
O
psicólogo sentiu um calafrio. Desconfiava de que nunca estivera tão
próximo da morte como naquele instante. Mas o médico era seu
amigo...
Seria
mesmo...?
Fitou
detidamente a lente e procurou imaginar como seria a morte que se
ocultava naquele bastão prateado. Seria uma morte rápida e indolor?
Seria
mesmo...?
Mais uma
vez, surgiram perguntas. Porém todas ficaram sem respostas.
— Ontem
fui procurado por um homem — principiou Ps-5, rompendo o silêncio
reinante após as indagações. — Sua divisão encaminhou-o a mim
porque não se conduziu com a necessária cautela durante o trabalho.
Não consegui tirar nada dele, pois mantinha um silêncio obstinado
sobre os motivos de sua distração. Não tive outra alternativa:
apliquei-lhe o radiador psíquico. Com isso, sua língua se soltou.
Descobri por que já não pode cumprir suas obrigações com toda
dedicação. Está interessado em ouvir a história que ele me
contou?
O médico
limitou-se a acenar com a cabeça. Continuava a segurar o bastão
prateado. Até parecia que se esquecera dele.
— Pois
bem. Preste atenção, D-3. O homem pertence ao comando de reparos do
setor dez. É um simples trabalhador. Há cerca de meio ano, um dos
aparelhos de exaustão falhou e teve de ser reparado. R-75 foi
incumbido de fazer os reparos. Com o auxílio de um colega procurou
descobrir a causa das avarias e repará-las. Era a primeira vez que a
instalação entrava em pane. Por isso, não foi fácil descobrir o
defeito. Depois de algum tempo, viram que seria necessário romper
uma parede para atingir as instalações propriamente ditas.
D-3
inclinou-se para a frente; parecia muito interessado.
— Espero
que não tenha sido a parede externa.
— Não;
nem poderia ter sido, pois nesse caso R-75 e seu colega teriam
morrido imediatamente. Usaram o aparelho de solda para cortar a
parede e fizeram uma abertura capaz de dar passagem a um homem. É
claro que estavam contrariando as ordens vigentes, segundo as quais
não deve ser realizada qualquer modificação. Porém uma abertura
na parede é uma modificação... Passaram pela abertura e foram
parar num recinto em que reinava uma penumbra. Segundo o relato de
R-75, havia no teto pequenas luzes, que espalhavam uma débil
luminosidade. De qualquer maneira, a parte dos fundos do exaustor
estava exposta à sua frente. Logo descobriram a causa do defeito e
conseguiram removê-la.
“Mas os
dois não voltaram imediatamente para fechar a abertura, como deviam
ter feito. Começaram a examinar a misteriosa sala; ou ao menos,
tiveram essa intenção. Porém foram impedidos. Isso mesmo, D-3,
foram impedidos. Os guardas andam até mesmo nos setores inexplorados
de nosso mundo. R-75 conseguiu colocar-se em segurança, mas seu
colega foi atingido por um raio energético e teve morte instantânea.
“Os
guardas não saíram em perseguição de R-75, como este receava.
Talvez tivessem recebido contra-ordem, pois retiraram-se
imediatamente. R-75 soldou a abertura e apresentou-se a seu superior.
Relatou os acontecimentos e descreveu a morte de seu colega, mas não
contou o que havia visto no tal recinto. Porém não pôde deixar de
contar a mim, já que estava submetido ao tratamento psíquico. Dessa
forma, consegui saber o que o atormentava. Era um terrível segredo,
que inevitavelmente acarreta a morte de quem o descobre. E é por
isso que R-75 ainda está vivo.”
— Não
compreendo — confessou o médico.
O
psicólogo sorriu.
— Você
logo compreenderá. O reparador revelou-me um segredo que ninguém
deve conhecer. Se transmitisse o segredo a alguém, R-75 não
escaparia à morte. Mas eu teria de entrar no conversor a seu lado,
pois também conheço o segredo. E comigo entrariam outras pessoas,
caso eu as comunicasse de... Já compreendeu por que R-75 ainda está
vivo?
— Compreendo.
Mas prossiga; que segredo é este?
O
psicólogo voltou a fitar o perigoso bastão prateado.
— Será
que você poderia guardar isso, D-3? Se eu tiver de olhar
constantemente para a lente de um aparelho que expele raios
mortíferos, fico nervoso. Obrigado, amigo. Bem, vamos ao segredo. É
claro que R-75 não conseguiu distinguir todos os detalhes, porque a
iluminação não era boa. De qualquer forma, conseguiu distinguir na
penumbra duas fileiras de blocos transparentes, entre os quais havia
espaço suficiente para que os guardas se locomovessem à vontade.
Cada bloco estava ligado por meio de fios e tubos de plástico a uma
máquina embutida na parede. Nos blocos havia um líquido turvo, que
devia ser mais viscoso que a água, pois permanecia imóvel. E, nesse
líquido, boiava... gente!
— O
quê?! — exclamou o médico, empalidecendo. — Havia gente?!
O
psicólogo fez um gesto afirmativo.
— Em
cada bloco havia uma pessoa nua — um homem ou uma mulher. Você
sabe quem são essas pessoas? Não, você não sabe. Pois eu lhe
direi, D-3. Essas pessoas são nossos antepassados que, segundo reza
a história, teriam morrido há dez mil anos. É isso mesmo. Depois
de terem colocado nosso mundo na rota certa, eles não morreram, mas
ficaram mergulhados naquele líquido e ali dormem até hoje. São
vigiados por guardas metálicos que, além de nos dominar, impõem
também sua vontade ao comandante. E a vontade que nos impõem é a
vontade de pessoas que, segundo se diz, teriam morrido há muito
tempo. Pense bem, D-3! Nós fomos logrados!
O médico
estava estupefato.
— Não é
possível, Ps-5. Sei que você acredita nisso, mas não consigo
imaginar que realmente seja assim. Então nós somos escravos de
pessoas que morreram há muito tempo?
— Acontece
que não morreram!
O
psicólogo quase chegou a gritar estas palavras. Mas logo calou-se,
assustado. Se alguém o ouvisse, estaria perdido.
— Você
quer dizer que ainda estão vivos?
A voz com
que o médico proferiu estas palavras quase chegava a ser incrédula.
Subitamente deu-se conta de que, face aos seus conhecimentos médicos,
estaria em melhores condições de pronunciar-se sobre o assunto que
seu interlocutor, e prosseguiu.
— Naturalmente.
De que serviriam seus corpos, perfeitamente conservados, mas mortos?
Quer dizer que estão vivos! Mas por quê?
O
psicólogo inclinou-se para a frente.
— Nós
sabemos, D-3. Nós sabemos! Nós e R-75. Mas este nem desconfia de
que consegui apoderar-me de seu conhecimento. Ainda bem. Suspendi seu
tratamento sem informar seus superiores sobre os motivos de seu
estado de perturbação. Talvez saiba ficar com a boca calada; neste
caso ainda viverá algum tempo.
— Quer
dizer que nós sabemos. Como vamos utilizar esta descoberta?
— Bem, o
que sabemos realmente? Em algum ponto inexplorado deste mundo, jazem
nossos antepassados, mergulhados num sono profundo e conservados
através dos séculos; ao menos, à primeira vista, parece-me assim.
É possível que na verdade estejam mortos. Talvez tenham morrido em
virtude de algum erro imprevisto e apenas seus corpos se tenham
conservado. Seja como for, a esta hora já podemos fazer uma idéia
sobre suas intenções. Um belo dia, quando nosso mundo chegasse ao
destino, desejavam ser despertados. Ao que suponho, as gerações
intermediárias só preencheriam uma finalidade: manter o maquinismo
em funcionamento. Sempre acreditamos que vivíamos e trabalhávamos
para nós, mas na realidade nós o fazemos pelas pessoas que dormem
no centro de nosso mundo metálico. Gostaria de saber se o comandante
conhece a verdade, ou se também está sendo enganado.
D-3 lançou
um olhar pensativo para o psicólogo.
— Com a
arma na mão eu me sinto seguro. Mas quem mais tem uma arma? Só os
guardas. E estes não podem ser conversados, pois não são homens,
mas simples máquinas. Porém não tenho apenas um radiador, mas
três. Posso dar-lhe um. Dessa forma poderemos arriscar-nos a fazer
perguntas ao comandante, face a face, e pedir que ele nos explique
tudo.
— Você
tem coragem — disse o psicólogo em tom de inveja. Refletiu por
alguns segundos e prosseguiu: — Nos tempos de escola, meu maior
problema era a indagação sobre a finalidade de nossa existência.
Sabia que nascíamos nos asilos e nunca veríamos nossos pais. Ao
sermos levados para a instituição educadora, não mais veríamos
nossa mãe. Vinha a escola, o aprendizado e o estudo. Por fim, o
trabalho, que prossegue até o momento em que alcançamos a idade
adequada para morrermos no conversor. Até mesmo depois de mortos,
servimos ao nosso povo, pois nossos corpos fornecem energia. O
circuito de nossa vida é claro e prefixado, mas não preenche
qualquer finalidade. Para que serve tudo isso? Por que as coisas se
passam dessa forma? Qual é nosso destino? Ou será que nosso mundo
vaga ao acaso pelo Universo dos sóis?
— O que
sabemos sobre os sóis é muito pouco — disse D-3, lembrando os
ensinamentos recebidos na escola. — Apenas conhecemos as tradições,
e quem sabe se estas não são falsas? Talvez tenham sido inventadas
por aqueles que dormem no centro deste mundo e aguardam a chegada de
sua hora.
Hesitou
por um momento e prosseguiu lentamente:
— Acho
que perguntar ao comandante não seria a melhor solução. Vamos
tomar nossas providências.
Ps-5
inclinou-se para a frente. Parecia muito interessado nas palavras de
seu interlocutor.
— Que
providências serão estas?
— Iremos
mais uma vez, com R-75, à sala onde dormem nossos antepassados.
Talvez consigamos descobrir seus planos.
O
psicólogo deu sinais evidentes de susto, mas logo conseguiu vencer o
medo.
— Talvez
você esteja com a razão, D-3 Antes morrer com uma certeza no
coração que viver na incerteza. Quando iremos?
— Ainda
hoje — respondeu o médico e levantou-se. — Mande chamar R-75.
Ficarei escondido na sala ao lado e aparecerei assim que seja
necessário.
Ao sair,
tirou do bolso a arma de radiações e destravou-a. Não estava
disposto a assumir qualquer risco. Ps-5 concordou plenamente.
A seguir,
o psicólogo comprimiu a tecla do intercomunicador e deu suas
instruções.
*
* *
O
Reparador Setenta e Cinco não conseguia tirar da cabeça a lembrança
daquele acontecimento de alguns meses atrás. Seu sono era repleto de
pesadelos. Via constantemente o colega ser atingido e morto pelos
ofuscantes raios energéticos. Ouvia sempre os passos metálicos dos
vigias saídos da escuridão, que pretendiam agarrá-lo com suas mãos
frias. Porém acordava em tempo para não ter de viver o terrível
momento.
Talvez um
dia, seus sonhos se tornariam realidade: viriam realmente para
levá-lo ao conversor. Ainda bem que ninguém conhecia seu segredo.
Enquanto se mantivesse em silêncio, estaria em segurança.
E as
longas fileiras de blocos com os corpos imóveis. O que vinha a ser
isso? Seria gente morta há muito tempo, que estava sendo guardada
para um fim todo especial? Que fim poderia ser este? O que
significavam esses cadáveres, guardados há milênios naquela câmara
mortuária?
Ou não
estariam mortos?
R-75
formulara esta pergunta inúmeras vezes, mas nunca conseguira
descobrir a resposta. Seus conhecimentos estavam restritos à área
tecnológica. Pouco entendia das ciências médicas.
Quando o
intercomunicador chamou, estremeceu. A voz de seu superior, saída do
alto-falante, disse:
— Apresente-se
à Divisão de Psicologia, R-75. Imediatamente! Faça o favor de
confirmar.
— Entendido
— respondeu R-75, um tanto apreensivo.
Suas mãos
nervosas ajeitaram a roupa. Caminhou até a porta.
O que
queriam? Não passara bem pelo teste? Ou teriam desconfiado de alguma
coisa e desejavam submetê-lo a outro exame?
O elevador
deixou-o no respectivo andar. Enquanto caminhava pelo corredor,
esforçou-se em vão para lembrar qualquer fato que pudesse ter
provocado suspeitas na Divisão de Psicologia. Sabia que ninguém
tremia por nada na frente de um psicólogo. E era isso que o
preocupava.
Quando
fechou a porta atrás de si, compreendeu que sua situação não era
tão séria como receara. O psicólogo sorriu; sorriu para ele, que
era um simples trabalhador.
— Faça
o favor de sentar-se, R-75 — disse Ps-5 em tom amável e apontou
para uma cadeira. — Quero formular algumas perguntas. Peço-lhe que
responda conforme a verdade. Não tenha receio, mas é bom que saiba
que, na situação em que se encontra, o silêncio só poderá
prejudicá-lo. Será que me exprimi com suficiente clareza?
R-75
sentiu sua tranqüilidade desvanecer-se de uma hora para outra. Era
bem verdade que o psicólogo continuava a sorrir, porém esse sorriso
parecia agora uma armadilha.
— Não
sei... — principiou R-75, mas logo foi interrompido.
— O
senhor logo saberá, meu caro. Antes de iniciarmos nossa conversa,
propriamente dita, quero dizer-lhe uma coisa. Depois de terminada a
presente palestra, só haverá duas alternativas. O senhor e eu
poderemos viver, ou então ambos teremos de entrar no conversor. Tudo
depende do senhor.
— No
conversor?
O
psicólogo repetiu:
— Isso
mesmo; no conversor. Vamos resumir as coisas. Há alguns dias, esteve
aqui porque alguém o mandou. Eu o submeti a um tratamento
psicológico e fiquei sabendo da verdade sobre a morte de seu colega.
Com isso, também fiquei conhecendo seu segredo. Não se assuste; o
segredo está em boas mãos. Se eu o denunciar, terei de morrer
também. Espero que isto o deixe mais tranqüilo.
R-75
realmente parecia mais calmo. Teve bastante inteligência para
avaliar o significado das palavras do psicólogo.
— Pois
bem; vejo que estamos de acordo — prosseguiu Ps-5. — Vejo que o
senhor compreendeu em que situação se encontra. Por isso, não há
nenhum motivo para não conversarmos abertamente — virou a cabeça
e, falando em direção à porta que levava à sala ao lado, disse: —
Venha, doutor. Acho que poderemos expor nosso plano a R-75.
D-3
guardou a arma energética. Entrou na sala e cumprimentou R-75 com um
gesto.
Naquele
momento, R-75 compreendeu que o número das pessoas que eventualmente
seriam condenadas à morte já subira para três.
*
* *
Não se
encontraram com nenhuma pessoa ou vigia.
R-75 os
guiava; não se sentia muito à vontade. Sabia que, à sua
retaguarda, havia dois homens armados que não hesitariam em matar
qualquer inimigo, sem medir as conseqüências. Acontece que R-75
ainda não confiava plenamente nas armas que não conhecia. Nunca as
vira serem usadas por um ser humano.
Entraram
no elevador e deslizaram em direção ao centro do gigantesco mundo
esférico. Foram-se aproximando das regiões desconhecidas em que
ficavam as salas de máquinas. Nem o médico e nem o psicólogo
jamais haviam chegado até lá. Seu mundo resumia-se aos corredores
limpos e reluzentes dos setores científicos. Quanto a R-75, este,
por assim dizer, conhecia todos os lugares. O exercício de sua
profissão exigia sua presença em todos setores.
Parou.
— Não
falta muito. Aliás, nenhum homem deveria chegar até aqui. Admiro-me
de não termos encontrado nenhum vigia.
— Os
vigias são máquinas às quais falta o pensamento impulsivo. Apenas
sabem pensar logicamente. Não suspeitam de que alguém ande por
aqui, pois ninguém tem nada a fazer por estes lados. Não nos
esqueçamos de que, provavelmente, vêm desempenhando suas funções
há dez mil anos. E, pelo que sabemos da história de nossa raça,
nunca houve um acontecimento como o que se verifica agora. Somos os
primeiros que procuram desvendar o mistério.
— É bem
possível que outros o tenham feito antes de nós — ponderou o
médico. — Nesse caso teriam morrido com seu segredo, motivo por
que ninguém chegou a ter conhecimento do mesmo.
— Isso é
pouco provável, meu caro. Aposto que nem mesmo os vigias conhecem o
segredo. Quando muito, apenas os que vivem atrás da parede e cuidam
das pessoas que dormem ali estão informados a respeito.
— Talvez
— disse D-3 e calou-se.
— Vamos
andando — disse Ps-5 em tom impaciente, pesando a arma na mão.
O médico
lhe ensinara como usá-la, mas a verdadeira potência do artefato só
seria revelada por meio de uma experiência.
A
iluminação tornou-se cada vez mais escassa. Mal se enxergava um
palmo diante do nariz. Dificilmente alguém penetrava nestas regiões
da nave, motivo por que havia boas razões para economizar energia.
As reservas não deviam ser inesgotáveis.
R-75
prosseguiu na caminhada e parou à frente de uma porta. Era grossa e
estava firmemente encaixada no batente, mas à primeira tentativa
deixou claro que não havia sido trancada.
— Atrás
desta porta fica a sala onde terminam os dutos do sistema de
renovação de ar. Será que devemos entrar?
— Foi
para isso que viemos! — disse Ps-5 em tom impaciente e entrou à
frente dos outros.
O
psicólogo mantinha a arma engatilhada, mas a precaução revelou-se
desnecessária. Na sala só havia os gigantescos blocos de geradores
e os enormes quadros de comando.
A penumbra
bastou para mostrar a solda retangular da parede oposta. Via-se
perfeitamente que, naquele lugar, alguém fizera uma abertura e
voltara a fechá-la.
— Foi
ali — disse R-75 e estremeceu ao rememorar os acontecimentos.
Subitamente seus pesadelos pareciam transformar-se em realidade. —
Como pretende abrir passagem?
Ps-5 não
respondeu. O médico levantou a arma energética.
— Com
isto! — disse em tom resoluto. — A energia existente nesta arma é
suficiente para derreter a parede. Mas não precisaremos chegar a
tanto. Basta remover a chapa soldada.
R-75
hesitou. De repente, as dúvidas pareciam surgir em sua mente, mas
quando olhou para o rosto de seus companheiros, compreendeu que não
havia como voltar atrás. A decisão fora tomada e era irrevogável.
D-3 fez um
gesto para Ps-5 e R-75.
— Recuem
um pouco; será preferível que fiquem neste canto. É possível que
os raios energéticos sejam refletidos. Devemos agir com cautela.
Ainda não estou familiarizado com o manejo da arma.
Esperou
até que os companheiros se colocassem em segurança, agachou-se
atrás de um bloco de metal e dirigiu a lente para o setor assinalado
pela marca de solda.
O raio
pálido desmanchou-se na parede. Pingos grossos de metal liquefeito
caíam ao chão.
De início
D-3 não viu nada, porque a luminosidade o ofuscava, mas seus olhos
logo se acostumaram à claridade. Sabia que, assim que desligasse a
arma, não enxergaria mais nada. Ao menos por dez minutos, ficaria
cego.
A abertura
custou a esfriar nas bordas. Com isso, os homens tiveram tempo para
acostumar-se à penumbra. R-75 fitou a abertura com um ar obstinado.
Depois de algum tempo, disse:
— Se
soubesse o que iria encontrar lá atrás, nunca teria passado por
esta parede. É estranho, mas naquela oportunidade não tive medo.
Hoje as coisas são diferentes.
— Não
há perigo. Não precisa ter medo — disse Ps-5, procurando
aparentar maior frieza e apalpando a borda entrecortada da abertura
pela qual pretendiam passar. — Já está fria. Acho que não
devemos esperar mais. Se houver algum dispositivo de alarma, os
guardas não demorarão a aparecer. Quanto tempo demoraram daquela
vez, R-75?
— Não
sei dizer com exatidão. Fiz os reparos e depois fui dar uma olhada
por aí. Deve ter sido mais ou menos uma hora.
D-3 olhou
para o relógio.
— Meia
hora já se foi. Quer dizer que não temos muito tempo. Quem irá na
frente?
O
psicólogo sabia que um dos membros do grupo deveria exercer as
funções de chefe, pois só assim teriam alguma chance de serem bem
sucedidos. Quando se deu conta disso, as dúvidas que ainda sentia
desapareceram. O que se apossou de sua mente não foi propriamente a
coragem, mas antes a consciência de que, naquela altura, já não
havia como escapar ao destino. Pouco lhe importava o que acontecesse
com ele, desde que descobrisse o segredo escondido no centro da
gigantesca nave.
— Irei
na frente — disse e abaixou-se para passar pela abertura estreita.
— Sigam-me se quiserem.
Não
esperou resposta. Espremeu-se pela abertura e voltou a erguer o corpo
do outro lado da parede, depois de ter dado um passo para o lado, a
fim de que seus companheiros tivessem lugar para segui-lo.
Além da
penumbra, reinava um silêncio total. Os ruídos da nave não
chegavam até lá. O ar era puro, mas gelado. A intervalos regulares
viam-se pequenas lâmpadas embutidas no teto, que espalhavam uma
débil luminosidade. Os quadros de comando, embutidos na parede,
indicavam que havia instalações ocultas, cuja finalidade era
desconhecida.
O
psicólogo olhou para as duas longas fileiras de blocos de vidro. O
líquido existente no interior destes devia ser de densidade muito
elevada pois os corpos imóveis quase não tinham penetrado no mesmo;
jaziam na superfície. Eram como pedaços de madeira, boiando num
vaso com mercúrio.
— É
fantástico! — exclamou D-3, que se encontrava ao lado do
psicólogo. — Se não visse com meus olhos, não acreditaria.
Ps-5
parecia despertar de um sonho.
— Não
temos tempo a perder. Vamos andando.
Manteve a
arma engatilhada, enquanto caminhava em direção ao primeiro bloco.
O médico seguiu-o, enquanto R-75 ficou parado junto à abertura,
para cobrir a retaguarda. Também recebera uma arma energética e
sabia como lidar com a mesma.
Pararam
junto ao primeiro bloco.
Os dois
homens olharam para o corpo esbelto do jovem de cabelos brancos, que
dormia na superfície do líquido. Os olhos estavam fechados, mas
parecia ser capaz de abri-los a qualquer momento e, com uma expressão
de espanto, fitar os intrusos. A boca estreita, combinando
perfeitamente com o queixo pequeno e enérgico, também estava
fechada. Nas narinas não se notava o menor movimento que pudesse dar
a entender que naquele corpo imóvel ainda havia um vestígio de
vida.
O homem
estava nu. A cor pálida da pele quase não se distinguia da do
líquido. Os braços jaziam ao lado do corpo, como se não
pertencessem a este. As pernas estavam encolhidas; parecia que antes
de adormecer o desconhecido fizera mais um movimento.
Os
condutores e tubos terminavam na parte superior do bloco de vidro. Só
agora, Ps-5 e D-3 perceberam que um fluxo quase invisível de gás
penetrava constantemente no recipiente, e era aspirado por outro
tubo. A iluminação não permitia verificar se o homem adormecido
aspirava esse gás.
Ps-5
encostou cautelosamente a mão ao bloco. Retirou-a abruptamente.
— Isso é
muito frio! — cochichou. — O líquido deve ser mais frio que
gelo.
— É
mais frio que gelo, mas continua em estado líquido — disse o
médico em tom pensativo. — O processo vital foi detido subitamente
por meio do congelamento. Pode ser reiniciado a qualquer momento. Não
se sabe quando isso acontecerá. Mas deverá acontecer. Pode ser hoje
ou num futuro distante.
O
psicólogo manteve-se calado. Lançou mais um olhar sobre a pessoa
adormecida e saiu andando. No bloco seguinte havia uma mulher.
Ps-5 e D-3
fitaram-na com um ar de estupefação e notaram que era de uma beleza
extraordinária. Só uma única vez na vida, durante o tempo de
aprendizado, os homens de seu mundo podiam ver uma mulher...
Concluído
o estudo ou o treinamento, tinham um ano de férias. Durante esse
ano, conheciam uma espécie de vida familiar; só tinham uma
obrigação: providenciar para que chegasse um filho. Depois os
casamentos temporários eram dissolvidos e os cônjuges nunca mais se
viam. O homem era encaminhado ao setor de trabalho, correspondente a
seu aprendizado, e ali permanecer até que o comandante o mandasse
eliminar. A mulher permanecia no setor infantil até que, depois de
alguns anos, lhe fossem concedidas férias pela segunda vez.
Depois de
parir o segundo filho, seu ciclo de vida estaria cumprido. Caso não
se tivesse destacado em algum setor e pleiteado um lugar nos serviços
de criação e educação de crianças, seria levada ao conversor
para morrer.
Além de
bela, a moça que se encontrava no recipiente de vidro corporificava
os desejos e anseios mais recônditos dos dois homens que apenas
conheciam uma vida inútil e já agora perdida.
O
psicólogo falou com a voz trêmula:
— É uma
maravilha! Até parece milagre! É muito jovem...
— Tem
alguns milhares de anos — disse o médico em tom frio. — Parece
jovem porque as células de seu corpo não ficaram expostas ao
processo de degenerescência.
O
psicólogo fitou a figura nua. Seus dedos crisparam-se em torno da
arma energética. Um brilho perigoso surgiu em seus olhos e disse em
voz baixa:
— Que
monstros! Não sei quem são, mas vejam a que tipo de vida eles nos
condenaram — fitou o companheiro. — Agora já sabemos por que
sempre nos ocultaram a verdade. Sabiam que não agüentaríamos esse
tipo de... A vida que levamos é uma farsa. Só podemos saber aquilo
que vemos e sempre nos dizem que isso é a coisa mais bela que existe
no Universo. Acontece que agora já sabemos...
— O que
é que sabemos? — interrompeu o médico, procurando aparentar
calma. — Aqui vemos as pessoas mergulhadas num sono eterno. E daí?
Será que são culpados da existência que levamos? Ou será que os
culpados são os...?
— Quem
poderia ser?
— O
comandante, por exemplo. Não tenho certeza, mas acho que ele deve
saber mais que eu.
Ps-5
sacudiu a cabeça e voltou a fitar a moça.
— O
comandante é tão mortal como nós. Quando chegar a hora, o
conversor também estará à sua espera.
Refletiu
um pouco e acrescentou:
— De
qualquer maneira, perguntaremos ao comandante se sabe alguma coisa.
Finalmente criamos coragem para isso.
— É
claro que perguntaremos — concordou D-3. — Mas pelo que sabemos,
isso será o fim da nossa vida. Não venha me dizer que você
acredita que, uma hora depois de nossa palestra com o comandante,
ainda estejamos vivos!
— Aceito
o risco, meu caro. Afinal, possuímos armas. Se nos colocarmos em
posição favorável, poderemos defender-nos contra um exército de
guardas.
— Está
pensando num motim? — disse D-3 num cochicho. — Você quer
rebelar-se contra a ordem estabelecida?
— Nunca
tive esta intenção. Porém cada vez melhor, compreendo que, se não
nos defendermos, jamais sobreviveremos às perguntas que pretendemos
formular ao comandante. Não o conheço profundamente. Nossos únicos
contatos foram mantidos durante várias palestras, e nestas nem uma
única vez se tocou em qualquer assunto particular. É possível que
ele mesmo esteja sendo martirizado pelas dúvidas. Mas também pode
ser que não passe de um autômato insensível, que se limita ao
cumprimento mecânico do dever, ou daquilo que acredita ser seu
dever.
O
psicólogo lançou mais um olhar, que quase chegava a ser triste,
para a moça nua e virou-se. Olhou para a pequena abertura pela qual
tinham vindo. R-75 continuava a manter guarda junto à mesma. Por
enquanto ainda reinava o silêncio.
— São
mais de duzentos blocos de vidro — disse D-3. — Será que há
outras salas desta espécie?
— Você
deve ter notado que a sala descreve uma ligeira curva — respondeu
Ps-5, em tom de superioridade. — Meus conhecimentos matemáticos
não são muitos extensos, mas pelos meus cálculos deve haver ao
menos nove ou dez salas como esta no setor em que nos encontramos.
Não sei como são os outros setores da nave, mas não há nada
indicando que as instalações frigoríficas existam apenas neste
setor.
D-3 teve
um calafrio.
— A
palavra que você acaba de usar me fez lembrar o frio. Não
agüentarei por muito tempo. Vamos dar uma olhada nas outras
criaturas adormecidas?
— Em
algumas — respondeu o psicólogo que, de repente, parecia um tanto
taciturno. — Dificilmente descobriremos qualquer coisa além do que
já sabemos, e os guardas poderão aparecer a qualquer momento. Eu me
admiro de que isso ainda não tenha acontecido.
Mais uma
vez prestaram atenção a eventuais ruídos, vindos da
semi-escuridão, mas não ouviram nada. R-75 lançou-lhes olhares
indagadores e apavorados. Fez um sinal com a mão.
Quase uma
hora já se passara!
— Será
preferível que nos apressemos — disse Ps-5, dirigindo-se ao
médico. — Quero evitar qualquer encontro com os guardas, ao menos
por hoje. Algum dia, teremos de defrontarmo-nos com eles.
— Um
confronto com esses monstros metálicos? — D-3 sacudiu-se. — A
idéia não me deixa muito à vontade.
O
psicólogo fingiu-se de perplexo.
— Mas
como? Você não liquidou um deles?
— Liquidei.
Mas acho que há uma diferença entre os guardas que ficam deste lado
da parede, e os que ficam do outro. É verdade que ainda não vi
nenhum dos primeiros, mas o relato de nosso amigo R-75 basta...
De
repente, calou-se.
Não
ouvira um ruído?
Lançou um
olhar rápido para o lugar em que R-75 montava guarda. O reparador
mantinha-se imóvel, procurando ouvir o que se passava na penumbra,
para além dos recipientes de vidro. Em algum lugar, ouvia-se um
esfregar de metal contra metal. Parecia que alguma coisa se esfregava
no chão. Subitamente a luminosidade aumentou.
E então
viram!
Do outro
lado da sala, abriu-se uma fresta que aumentou rapidamente,
transformando-se numa porta. O recinto, atrás dessa porta, estava
profusamente iluminado. Cinco ou seis sombras gigantescas
destacavam-se contra a luz e puseram-se em movimento.
— São
os guardas! — berrou R-75 em tom de pavor.
Passou
pela estreita abertura o mais rápido que pôde, soltando
ininterruptamente gritos de pavor.
— Vamos
embora! — gritou D-3 e pegou o braço do psicólogo. — O que está
esperando? Se eles nos pegarem...
— Já
sabem que estamos aqui — respondeu Ps-5 com uma tranqüilidade
apavorante.
Talvez a
perspectiva do perigo lhe infundisse medo, mas agora que via o perigo
diante de si, logo recuperou a calma. Empurrou para trás a trava de
sua arma.
— É bom
que saibam que seu tempo de espera também terminou. Liquidaremos ao
menos um deles.
D-3
hesitou. Não queria fugir só e abandonar o amigo à sua sorte.
Porém amava a sua vida, mesmo que fosse uma vida sem sentido. Num
gesto resoluto, também se preparou para enfrentar o inimigo.
— Procuremos
ao menos garantir nossa retirada — sugeriu apressadamente. —
Vamos até a abertura!
— Muito
bem; mas ande depressa!
O
psicólogo lançou mais um olhar para a moça adormecida e correu
atrás do médico.
Chegaram
ao lugar em que poderiam sair para os recintos habitados. Ficaram à
espera do que estava para vir. Não tiveram de esperar muito.
Seis robôs
aproximaram-se entre as fileiras de esquifes de vidro. Seus braços
estavam curvados num ângulo de noventa graus. Não possuíam mãos;
no lugar das mesmas, estavam as lentes traiçoeiras das armas
energéticas. Eram verdadeiros gigantes; mediam quase dois metros e
meio. Os guardas das partes habitadas da nave não mediam mais de
dois metros. A diferença era notável. E havia outra diferença: os
guardas que viram diante de si sabiam falar.
De
repente, uma voz dura e metálica gritou:
— Fiquem
onde estão. Não tentem fugir!
Ps-5 teve
a impressão de que estava despertando de um sonho. Quando levantou a
arma e a apontou para o robô, sua mão tremia levemente. O médico,
que já tinha uma perna enfiada na abertura por onde pretendiam
fugir, seguiu seu exemplo.
— Se
vocês ficarem onde estão, poderemos conversar! — respondeu Ps-5 o
mais alto que pôde.
Suas
palavras ressoaram pelo recinto e foram refletidas pelas paredes.
Atingiram os ouvidos mecânicos dos robôs, pois os seis vultos
estacaram de repente. Um deles deu mais dois passos, mas também
acabou parando.
— Você
não pode impor condições — ressoou seu barítono metálico. —
A partir do instante em que penetraram neste recinto, vocês estão
condenados à morte. Ninguém poderá salvá-los. Por que vieram?
— Será
que você não consegue adivinhar? — perguntou Ps-5 e conseguiu dar
um tom irônico à sua voz, embora estivesse todo arrepiado. Nunca
vira a morte tão de perto como naquele instante. — Quem é essa
gente que está dormindo nos recipientes de vidro? O que aconteceu
com eles? Qual é a tarefa que vocês devem executar?
Por um
instante, reinou o silêncio; mas a resposta não tardou.
— Talvez
você e seu amigo ainda ouçam a resposta de nossa boca, mas somente
quando estiverem a um segundo da morte. Venham cá; não procurem
fugir. Sabemos que um homem conseguiu escapar, mas este será
alcançado pela lei do comandante.
— Não
se movam! — ordenou Ps-5, quando os robôs fizeram menção de
pôr-se em movimento. — Por que não perseguem nosso amigo que
fugiu?
— Não
podemos sair do setor proibido — confessou o robô. Não sabia
mentir; seus criadores haviam cuidado disso. Era uma precaução que
a esta hora se voltava contra eles mesmos. — Virão até aqui, ou
será que teremos de buscá-los?
— Vocês
ainda não responderam às nossas perguntas.
— Eu já
lhe disse que a resposta será dada mais tarde.
D-3
cochichou para Ps-5:
— Não
adianta discutir com eles. Os robôs se orientam exclusivamente pelas
ordens que receberam; só modificam seu comportamento quando são
reprogramados. Entendo disso, pois um conhecido meu, um físico...
— Nesse
caso, devemos ao menos dar-lhes uma lição — interrompeu o
psicólogo em tom decidido. — Vamos fazer o possível para pôr
fora de ação ao menos duas dessas máquinas. Depois vamos dar o
fora. Eles não poderão ir atrás de nós.
Não
esperou resposta; comprimiu o gatilho de sua arma.
Os seis
robôs, que estavam de costas para a luz, eram nitidamente
perceptíveis. O feixe energético disparado pela arma do psicólogo
atingiu o peito do robô que usara a palavra e com um chiado penetrou
no metal frio.
Antes que
o médico pudesse abrir fogo, ouviu-se uma leve detonação, que
literalmente esfacelou o chefe do grupo de robôs. O gigante caiu ao
chão. O barulho foi tamanho que os dois homens receavam que este
pudesse ser ouvido em todos os cantos da nave.
O
psicólogo fez pontaria contra o segundo robô.
Antes que
as criaturas mecânicas pudessem responder ao fogo, três delas
haviam sido destruídas.
De
repente, D-3 sentiu um ardor no quadril direito. Ao notar que sua
roupa começava a pegar fogo, ficou apavorado. Dominado pelo pânico,
fugiu pela abertura que dava para a sala dos geradores. Pouco lhe
importava o que Ps-5 fizesse...
O
psicólogo teve bastante inteligência para perceber que não estava
em condições de enfrentar sozinho os três inimigos que ainda
restavam. Seguiu o médico e ajudou-o a recolocar a peça de metal na
abertura.
Só agora
notaram a presença de R-75, que saiu todo trêmulo detrás de um
gerador. Ao que parecia, estava envergonhado por ter sido tão
covarde. Mas os companheiros o compreenderam e não levaram a mal a
sua fuga. Afinal, também ficaram em pânico.
— Ajude-nos,
R-75! Solde a emenda. Dali a dez minutos, estavam voltando aos seus
camarotes. Mais de uma vez sentiram os olhares curiosos dos
trabalhadores e cientistas com que se encontravam, mas ninguém
formulou perguntas.
Antes de
despedir-se, Ps-5 disse a R-75:
— Daqui
a dois dias, você comparecerá à minha presença para ser submetido
a novo exame. Venha assim que terminar seu turno de trabalho. Mais
uma coisa: não fale com ninguém sobre o que acaba de acontecer. Se
não ficar com a boca calada...
— Guardarei
silêncio e comparecerei depois de amanhã — prometeu o reparador e
despediu-se. Afastou-se tranqüilamente.
D-3
seguiu-o com os olhos.
— É um
homem simples, mas podemos confiar nele.
O
psicólogo confirmou com um gesto.
— Temos
de confiar. Sabe por que não procuramos o comandante ainda hoje?
— Acho
que sim — respondeu D-3. — Você quer descobrir se os robôs
realmente mantêm contato com ele e se o avisarão.
— Isso
mesmo! — confirmou Ps-5. — Não tenho tanta certeza de que eles o
farão.
Despediram-se
com um aperto de mão.
*
* *
A porta da
esquerda abriu-se e os três homens entraram no santuário da nave: a
sala de comando.
O
comandante estava sentado atrás de sua escrivaninha e fitou-os.
Assim que viu as marcas de identificação que os homens traziam no
peito, percebeu que realmente eram as pessoas anunciadas. Fez um
sinal para os dois guardas, que haviam acompanhado os visitantes até
a porta.
Os dois
colossos viraram-se e desapareceram em silêncio.
A porta
fechou-se.
Seguiram-se
alguns tensos segundos, mas logo o ambiente se descontraiu. O
comandante fez um gesto amável em direção às poltronas.
— Façam
o favor de sentar, senhores. São as únicas pessoas que solicitaram
uma entrevista para hoje. Pela data da entrevista concluo que não se
pode tratar de um assunto rotineiro. Por isso, estou muito curioso
para saber o que os trouxe à minha presença. E o que me deixa ainda
mais curioso é o comparecimento do Reparador Setenta e Cinco.
Realmente
era muito raro que um simples trabalhador desejasse falar com o
comandante.
Os três
haviam combinado que Ps-5 seria seu porta-voz. Conhecia a alma das
pessoas e saberia reagir adequadamente até mesmo aos impulsos mais
estranhos de um coração.
— Antes
de o informarmos sobre o motivo real de nossa presença, queremos
formular algumas perguntas — principiou o psicólogo, subvertendo
propositadamente a ordem estabelecida. Não era costume formular
perguntas ao comandante. — Se responder segundo a verdade, talvez
possamos ter uma conversa franca.
O
comandante manteve-se impassível. É verdade que, em seus olhos
avermelhados de albino, surgiu uma expressão de espanto. Porém o
rosto não traiu o espanto causado por tão estranha proposta. Lançou
um olhar curioso para os três homens e disse em tom tranqüilo:
— Formule
sua pergunta, Ps-5.
Foi a vez
do psicólogo espantar-se. Esperara encontrar maior resistência. A
extraordinária disposição de contornar as leis, demonstrada pelo
comandante, parecia indicar que estava informado sobre o incidente
ocorrido no centro da nave. No entanto, era possível que tal atitude
fosse ditada apenas pela curiosidade.
— Minhas
perguntas se referem a um assunto muito banal, comandante. São
formuladas não apenas por mim, mas ocupam a mente de milhares de
seres humanos que nascem, vivem e são eliminados nesta nave. Estas
perguntas podem ser resumidas numa só: Para que vivemos?
O homem de
cabelos brancos, que era senhor absoluto dos destinos, fitou o
psicólogo. Suas mãos estavam pousadas sobre a mesa. Ps-5 notou que
os dedos tremiam nervosamente. Era um sinal animador.
— Para
que vivemos? Ora, esta é uma pergunta muito estranha, Ps-5, se é
que me permite falar assim. Mas sua tarefa especializada desculpa a
curiosidade que o fez formular essa pergunta. O que me admira é que
R-75 também me venha com uma pergunta desse tipo. Atrevendo-se a vir
à minha presença para ver respondida essa pergunta! O senhor, que
afinal é um psicólogo, pode andar refletindo sobre isso, mas...
— Estou
esperando sua resposta — interrompeu-o o psicólogo abruptamente.
Seu braço pendia junto ao corpo e a mão sentiu a presença
tranqüilizadora da perigosa arma energética. — Não se esquive à
minha pergunta, comandante.
Desta vez,
o comandante mostrou sem rebuços seu espanto. De acordo com as leis
vigentes, era senhor absoluto da vida e da morte dos seres que
habitavam o mundo metálico. Uma palavra sua bastava para que a pena
mais severa fosse imediatamente executada. E a desobediência sempre
era punida com a morte. O que estava presenciando agora era mais que
a desobediência.
Era um
motim!
— Muito
bem, Ps-5, o senhor terá sua resposta. Cada um de nós vive para um
dia prestar um serviço à comunidade por meio da morte. A
decomposição de um organismo no conversor fornece novas energias às
máquinas da nave. Os vivos têm de respirar, comer e beber; os
geradores precisam ser alimentados e a rota deve ser mantida.
— Por
quê? Para quem serve isso, se todos vamos morrer?
Desta vez,
o comandante não deu atenção às palavras de seu interlocutor.
— Qualquer
pessoa que só pensa em seu insignificante destino comete um crime
contra nossa comunidade. O indivíduo não conta. Quem não quiser
submeter-se terá de entregar sua energia física, antes que esteja
terminado o tempo que lhe foi concedido. Ninguém vive sem preencher
uma finalidade.
— Que
objetivo é esse?
— O
objetivo de cada um consiste em terminar seus dias no conversor. E o
destino de nosso povo é desconhecido.
— Quero
conhecer esse destino; foi por isso que vim até aqui.
O
comandante lançou um longo olhar pensativo para Ps-5. Finalmente
sacudiu a cabeça.
— Mesmo
que quisesse, não poderia atender a seu desejo. Também não conheço
o objetivo supremo. Apenas estou cumprindo a tarefa que me foi
confiada pelo destino. É só o que posso fazer. Não demorará
muito, e meu lugar será ocupado por outra pessoa. Não sei se essa
pessoa teria paciência para ouvi-los por um segundo que fosse.
O
psicólogo sentiu que a palestra estava entrando num estágio
crítico. Estava na hora de pôr as cartas na mesa para forçar a
decisão.
— No
momento em que outra pessoa ocupar seu lugar, o senhor terá de
morrer. Será que o senhor espera esse momento com uma alegria e
satisfação toda especial, comandante?
A resposta
demorou mais de um minuto.
— O
inevitável me deixa frio e indiferente. Quando, uma geração atrás,
aceitei o lugar, já conhecia essa norma. Fui eu quem levou ao
conversor a pessoa que me precedeu. Portanto, não poderei escapar ao
mesmo destino. Escolho um rapaz inteligente da nova geração e faço
dele o O-l e, portanto, meu sucessor. Para demonstrar sua gratidão,
assim que eu lhe der o sinal, ele me matará.
— Será
que o senhor nunca pensou em retardar esse desfecho, a fim de viver
mais um pouco? — perguntou Ps-5. — Quer nos fazer crer que encara
este tipo de morte, sem a menor comoção? Não acredito!
— Com os
senhores acontece a mesma coisa — retrucou o comandante. — No
momento em que resolveram dirigir-me estas perguntas, os senhores se
conformaram com o fato de que seriam mortos imediatamente. Ou será
que acreditam que ainda verão o fim deste dia?
— Sim,
comandante, acreditamos nisso. E digo mais. Não viveremos só até
hoje de noite, até amanhã ou até o dia em que o senhor resolva
mandar-nos ao conversor. Viveremos até que a natureza decida nossa
morte. Viveremos nossa vida até que chegue o fim natural.
O
comandante sacudiu a cabeça; estava muito sério.
— Não
viverão, não! O que estão pedindo é uma rematada loucura. Os
senhores envelheceriam e representariam uma carga para a comunidade.
Na fase final de sua vida, seriam inúteis para nosso povo e
destruiriam todas as vantagens que conseguimos criar em muitos anos
de atividade. Ninguém de nós deve ter uma morte natural, pois isso
representaria o fim de nossa raça. É o que nos diz o raciocínio.
Haveria crianças demais, gente demais, e o lugar seria escasso.
— Quem
terá de decidir isso é a natureza. Se suas palavras fossem
verdadeiras, ela, a natureza, nos faria morrer na flor dos anos.
Acontece que não faz nada disso. Por quanto tempo pode viver o ser
humano, comandante? O senhor saberia dizer? Se não sabe, como pode
fixar nosso tempo de vida? Será que não pronuncia as sentenças de
morte antes da hora?
— O
tempo de vida não se determina pelo tempo de vida biológico, mas
pelas circunstâncias espaço-físicas de nosso mundo. Nunca podemos
permitir que o número de nascimentos seja excessivo, nem que o de
mortes seja insuficiente. Nosso destino resulta da necessidade de
mantermos o equilíbrio...
— É um
destino cruel e injusto, comandante. Viemos para promover uma radical
modificação. Não queremos assistir mais ao desprezo e ao
desperdício das vidas. O que está em jogo não é apenas nossa
vida, mas a de nosso povo. A natureza concedeu a cada um de nós o
direito de viver até que chegue a hora da morte, se é que me posso
exprimir assim. Não sei quem criou as leis que regem nossa
existência, mas acho que o Criador do Universo há de maldizer o
senhor e essa pessoa.
O
comandante empalideceu.
— Eu lhe
proíbo que fale assim! — gritou em tom indignado.
Mas Ps-5
resolveu jogar todas as cartas.
— O
senhor não me pode proibir nada, comandante. Sabemos perfeitamente
que nossa vida estará perdida, se nos submetermos à sua vontade.
Portanto, se resolvermos eliminar as leis antigas e substituí-las
por outras melhores, não temos nada a perder. E o senhor nos ajudará
a fazer isso. A título de recompensa nós o presentearemos com o
resto de sua vida natural. É esta a proposta que lhe fazemos. O
senhor poderá recusá-la se tiver coragem e for suficientemente
louco.
A mão do
comandante ergueu-se da mesa e aproximou-se de um botão. O psicólogo
sorriu.
— Não o
impedirei de dar o alarma para os guardas. Quanto mais cedo eles
aparecerem, tanto mais cedo todos os homens desta nave saberão o que
aconteceu. Posso garantir-lhe que eles não se manterão inativos
quando virem que estamos sendo trucidados. Se não der o alarma,
ainda teremos oportunidade de discutir o assunto e chegar a uma
solução harmoniosa. Aliás — tirou do bolso a arma energética e
destravou-a — como vê, não estamos indefesos.
O
comandante ficou perplexo ao ver a arma. Hesitou um pouco e recuou a
mão. O psicólogo sorriu.
— Muito
bem — disse em tom amável. — Vejo que é um homem razoável.
Podemos continuar a falar francamente.
— Não
se entregue a qualquer ilusão, Ps-5 — advertiu o comandante. —
Ainda não dei o alarma porque quero evitar um derramamento de
sangue. Este exerceria uma influência nefasta sobre a ordem
estabelecida. A redução excessiva do número de habitantes de nosso
mundo seria tão perigosa como seu aumento desmedido. O senhor já
deve ter compreendido que o segredo de uma vida bem regrada é o
justo equilíbrio...
— Justo?
— indagou Ps-5, numa ironia mordaz. — É menos injusto evitar o
nascimento de uma criança que matar, antes da hora, um ser já
formado.
— O
senhor quer negar os direitos da vida adormecida? — disse o
comandante em tom resignado. Ao que parecia, estava convencido de ter
razão sob o seu ponto de vista. — Os senhores só sairão desta
sala em companhia dos guardas do conversor...
— Esperemos!
Aliás, isso me faz lembrar outra coisa. O senhor acaba de falar em
“vida
adormecida”.
Isso traz à tona outro problema. O senhor poderia dizer quem
elaborou as leis que nos regem? Foi um dos homens que o precederam no
cargo?
— O
senhor não tem direito de formular essa pergunta!
— Esse
aspecto é secundário. Tenho o poder! — o psicólogo ergueu a
arma. — Posso matá-lo!
Um sorriso
de desprezo surgiu no rosto do comandante.
— Meu
tempo terminará dentro de poucos dias, e então morrerei de qualquer
forma. Não receio a morte, para a qual me preparei durante toda a
vida. Com isso, o senhor não me obrigará a revelar o segredo que
tem garantido a existência de nosso povo.
— Diga-me
uma coisa, comandante. Será que só a pessoa que está no comando
tem direito de conhecer os segredos?
— Perfeitamente
— confirmou C-l, irrefletidamente.
— Excelente!
— respondeu Ps-5. — Quer dizer que, antes de morrer, o senhor
terá de informar seu sucessor. Se não o fizer, a ordem estabelecida
entrará em colapso. Se eu o matasse, o segredo morreria com o
senhor. Não é isso?
O
comandante reconheceu o terrível engano que acabara de cometer.
Ficou ainda mais pálido.
— O
senhor não se atreveria...
— Atrevo-me,
sim. Mataremos o senhor e seu sucessor nunca terá oportunidade de
conhecer a verdade pela sua boca, mesmo que isso nos leve à morte.
Assim seu sucessor se veria totalmente desamparado. Acho que não
será difícil imaginar as conseqüências.
Para que o
comandante tivesse oportunidade de refletir sobre as conseqüências
de seu comportamento obstinado, Ps-5 calou-se. Viu que o médico
recuperara a confiança. R-75 manteve-se imóvel, com a arma
apontada. Em seu rosto havia uma expressão resoluta.
Depois de
algum tempo, o comandante disse:
— Está
bem; os senhores ganharam. Não vejo nenhuma saída. Se eu violar as
leis, revelando aos senhores o segredo de que só meu sucessor
deveria ter conhecimento, estarei servindo melhor ao meu povo e ao
espírito dos antepassados — levantou-se e manteve-se em atitude
orgulhosa diante dos conspiradores que exigiam a morte natural. —
Mas garanto-lhes que os senhores não viverão muito tempo com esses
conhecimentos.
— Deixe
isso por nossa conta — respondeu Ps-5 em tom tranqüilo. — Fale!
— Falarei
muito pouco, mas eu lhes mostrarei uma coisa — apontou para uma
segunda porta, firmemente embutida no metal. — Venham comigo.
O
psicólogo demonstrou certa hesitação, porque desconfiava de que se
tratasse de uma armadilha, mas logo percebeu que não lhe restava
outra alternativa senão confiar no comandante. Viu-o caminhar em
direção à porta e girar a roda.
— Não
se preocupem; atrás desta porta fica apenas a cabine-dormitório; e,
lá nos fundos, fica aquilo que os senhores querem saber.
A pesada
porta abriu-se, pondo à mostra um aposento. Seguiram o comandante.
O camarote
era praticamente igual ao que já conheciam e àqueles ocupados por
eles mesmos. Mas havia uma diferença. Possuía mais uma saída.
Havia uma porta situada bem em frente à entrada. Era um verdadeiro
monstro metálico dotado de fechaduras eletrônicas e outros
mecanismos de segurança. Só mesmo a pessoa que a conhecesse estaria
em condições de abri-la.
O
comandante apontou para a porta.
— É ali
que fica o segredo de nossa vida. Só o comandante pode entrar neste
recinto. Qualquer outra pessoa que o fizer terá de morrer. Não
posso modificar a lei; mesmo que quisesse poupá-los, não escapariam
ao castigo. A sentença será executada pelos vigias.
— Como é
que os vigias iriam saber que estivemos aqui? — perguntou o
psicólogo. — Não são seres feitos de carne e osso; não passam
de máquinas construídas por nossos antepassados. Por que temos de
submeter-nos à sua vontade? As máquinas não foram feitas para
servir ao homem? Por que aqui tem de ser o contrário?
O
comandante não respondeu. Continuou a caminhar e parou em frente à
porta. Sem dizer uma palavra, pôs-se a mexer nos controles.
Pela
primeira vez, D-3 fez uso da palavra.
— Meu
amigo Ps-5 não se lembrou de mencionar que, caso o senhor esteja
tramando algo, nós o mataremos imediatamente. As armas que temos nas
mãos são mortais. Tirei-as de um vigia.
O
comandante estacou em meio ao movimento.
— Um
vigia? E ele não reagiu?
— Como
poderia ter reagido? Coloquei-o fora de ação. Por dentro está
transformado num monte de sucata.
— Um
vigia...
— Os
vigias são fáceis de enganar, comandante — disse o médico em tom
irônico. — Dentro de pouco tempo não haverá mais nenhum vigia
nesta nave, e então o homem voltará a reinar.
O
comandante não hesitou mais. Girou repentinamente a roda, desligou
as barreiras eletrônicas e abriu a porta.
Entraram
na sala.
Estava
completamente vazia. As paredes estavam nuas... com exceção de uma.
Nessa
parede havia uma grande tela.
Nela viram
a imagem aumentada de um velho de cabelos brancos.
Parecia
observá-los, e logo depois, começou a falar...
*
* *
Fazia
quatro dias que o Maquinista Quatro não via o médico. A droga
maravilhosa, que despertara sonhos tão belos, já terminara. Se não
conseguisse logo uma nova provisão, acabaria enlouquecendo. M-4
sabia perfeitamente que sua vida não seria suportável sem sonhos.
Avisou que
estava doente, mas quem o atendeu não foi D-3, mas um médico
desconhecido.
De
qualquer maneira conseguiu um dia de folga. Mas isso não lhe deu
muito prazer, pois os olhares de M-7, que também não estava de
serviço, podiam ser tudo menos agradáveis.
— Você
realmente não parece nada bom, M-4. O que há com você?
— Muita
coisa — respondeu o viciado, em tom lacônico. — Antes de mais
nada, preciso de sossego.
Mas M-7
não se deu por vencido.
— A mim
você não engana, meu velho. Até um cego enxerga que alguma coisa o
preocupa. Poderá usar de franqueza comigo, embora quase não nos
conheçamos. Afinal já vivemos juntos neste camarote há alguns anos
e provavelmente o faremos até o fim de nossas vidas.
— Vivemos!?
— exclamou M-4 em tom de surpresa.
Estacou,
assustado. Já dissera demais. Mas M-7 apenas sorriu.
— Sou da
mesma opinião que você. Acho que a vida que levamos é inútil e
sem esperanças. Posso falar sem receio, já que você pensa como eu.
Afinal, o que estamos esperando? O comando da morte, que nos levará
ao conversor? Você não acha que estou com a razão?
— Se
está! — disse M-4.

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