sábado, 20 de agosto de 2016

P-081 - A Nave dos Antepassados - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN




Os homens servem à máquina...
na astronave do passado!




Há milênios uma nave vaga pelo espaço, longe das rotas normais de navegação. É um gigantesco couraçado. Mas, em comparação com a amplidão do espaço, não passa de uma partícula de pó.
E ninguém a localizou...
Que nave será essa? Terá tripulação? Será o testemunho de uma catástrofe espacial ocorrida numa época em que a Humanidade ainda não sabia da existência do Universo?
Porém Gucky, o mais competente mutante de Rhodan, afirma que alguém pensou em voz alta e “localiza” A Nave dos Antepassados...






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

D-3, Ps-5, M-4 e R-75Os primeiros tripulantes da nave dos antepassados que se rebelam contra a vida bitolada.

GuckyUm rato-castor mutante que se apresenta como o Imperador da Nebulosa de Andrômeda.

Wilmar LundComandante do cruzador ligeiro Arctic.

Cadete BruggQue não sabe que Gucky é vegetariano.


PREFACIO

A gigantesca esfera metálica vagava pela imensidão infinita do Universo. Se traçássemos sua rota passada, chegaríamos ao halo galáctico, onde se situam os gigantescos grupos estelares esféricos. Mas se acompanhássemos sua rota futura, iríamos parar no vazio desolado da extremidade oposta da Via Láctea. Se mantivesse a velocidade atual, a esfera só chegaria ao destino dentro de algumas dezenas de milênios.
Além de gigantesca, a esfera era artificial.
Quem a visse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar observando um pequeno planeta. Porém, um exame mais cuidadoso logo revelaria que essa impressão seria simplesmente falsa. A esfera era um objeto artificial, construído e posto em movimento por seres pensantes.
Ao que parecia, seus tripulantes também eram criaturas inteligentes.
Vez por outra, o observador veria uma sombra que se movia atrás das vigias iluminadas. Essas sombras possuíam formas humanóides, fato que levava à conclusão de que, no interior da esfera, não habitavam monstros, e sim homens.
A esfera era uma nave espacial.
É bem verdade que a nave tinha um diâmetro de mil e quinhentos metros e seria capaz de abrigar alguns milhares de homens.
Seguia firmemente a sua rota, sem preocupar-se com os acontecimentos que se desenrolavam nos milhares de planetas habitados, situados nas vizinhanças. As placas energéticas de radiações, que permaneciam ligadas, ininterruptamente, evitavam sua localização eletrônica à distância, e nenhuma nave de patrulhamento espacial, fosse de que raça fosse, descobriu o peregrino incansável que voava para um destino desconhecido.
Não havia ninguém que jamais tivesse posto os olhos no interior da misteriosa nave-fantasma, com exceção, é claro, das pessoas que viviam e trabalhavam no interior da mesma. Mas estas pessoas só conheciam o interior da nave; não sabiam o que se passava no mundo situado além de suas paredes metálicas. É bem verdade que viam as estrelas que desfilavam lentamente ao longo da trajetória da nave; mas estas pertenciam às suas vidas e não representavam qualquer mistério. O negrume eterno do cosmos era seu dia, e os sóis reluzentes eram seus companheiros constantes.
Por maior que fosse a nave, em comparação com a imensidão do Universo, ela não passava de uma partícula de pó, que seguia com vagar uma trajetória previamente traçada, e nela prosseguiria até que um dia fosse devorada pela eternidade.
Ninguém daria por sua falta...


1

O Maquinista Sete havia terminado seu turno de trabalho e saía em direção ao alojamento. Foi substituído pelo Maquinista Quatro, um moço robusto, mas de poucas palavras; difícil de diálogo. O Maquinista Sete gostava de bater um papo entre um turno e outro, mas o Maquinista Quatro não era um bom companheiro para esse tipo de entretenimento.
Um tanto contrariado, M-7 caminhou pelo estreito corredor, até atingir o elevador antigravitacional. Penetrou imediatamente no negrume do poço e logo se sentiu atingido pelo suave fluxo ascendente, que o levou para cima. Dali a alguns segundos, outro homem colocou-se a seu lado; com um ligeiro aceno de cabeça, deu a entender que não gostava de prolongadas discussões.
M-7 conhecia o homem. Era um dos médicos que velavam pela saúde do pessoal de bordo. Se não se enganava era o Doutor Três, um homem geralmente amável e comunicativo, especialmente com quem estivesse doente e confiado aos seus cuidados.
Naquele instante, o Maquinista Sete lamentou-se de não estar doente.
O senhor não acha que hoje o ar está mais abafado que de costume? — indagou cautelosamente, para dar início à conversa. — Tenho a impressão de que está fazendo mais calor que nos outros dias.
É apenas impressão! — respondeu o médico laconicamente.
Ao que parecia, o doutor não tinha a menor vontade de conversar com o maquinista. Mas M-7 não desistia tão depressa.
Como é que a gente pode se enganar tanto, D-3? — retrucou, usando a abreviatura simbólica, formada pela indicação da função e pelo número. — Quem sabe se não estou doente?
D-3 lançou um olhar perscrutador para M-7 e sacudiu a cabeça.
Por que acha que está doente? Se estiver sentindo alguma coisa, avise sua seção e apresente-se a mim. Depois veremos o que...
Avisar que estou doente? — M-7 parecia assustado. — Tanta coisa só para...
Estacou. Por pouco não fala demais. Não poderia dizer ao médico que apenas estava com vontade de abrir-se com alguém. Seu mundo era feito apenas de indagações que nunca obtinham resposta. É bem verdade que nem mesmo o médico seria capaz de lhe dar as respostas que estava procurando, mas sempre seria interessante saber se alguém já havia formulado as mesmas perguntas.
Só para o quê?
M-7 parecia embaraçado.
Nada — disse laconicamente e saiu do elevador. Pouco importava que não fosse o corredor ao qual pretendia ir. Apenas desejava escapar do olhar penetrante e desconfiado do médico. Viu as pernas de D-3 subirem à sua frente e esperou dois minutos.
Depois voltou a entrar no elevador e, dali a dez minutos, penetrava no camarote que partilhava com M-4. Via de regra, os turnos de trabalho dos dois eram diferentes. Quando os turnos coincidiam, M-4 costumava ficar deitado na cama sem fazer nada e sem mostrar-se disposto a entreter qualquer palestra.
M-7 suspirou, lavou-se e foi para a cama.
Para que estava vivendo?

* * *

O comandante estava a sós em seu camarote.
O corpo robusto, ligeiramente inclinado para a frente, revelava sua idade. Essa impressão era reforçada pelos cabelos brancos que emolduravam um rosto, estreito e oval, com um par de olhos avermelhados e um nariz quase feminino, que encimava a boca estreita. O queixo revelava energia e força de vontade, mas os traços suaves que circundavam a boca pareciam indicar o contrário.
As mãos do comandante estavam pousadas sobre uma pequena pilha de finíssimos documentos de plástico. Parecia querer segurá-los, com medo de que alguém os tirasse. As pernas estendidas quase chegavam ao lado oposto da mesa metálica, firmemente presa ao chão. A única peça móvel era a leve poltrona.
A parede, feita de material transparente, mostrava o espaço cósmico. Duas das outras paredes estavam cobertas de instrumentos de controle, em fileiras de pequenas telas, quadros de comando, chaves e indicadores. Além disso havia botões, mecanismos de regulagem e equipamento de comunicação. Na última parede, existiam apenas duas portas. Uma delas levava a uma sala na qual ninguém podia penetrar, a não ser o comandante.
Levantou os olhos ao ouvir um leve zumbido. A tela superior do lado esquerdo iluminou-se. Fez um gesto de cansaço e girou o botão que existia embaixo da tela. No mesmo instante, surgiu o rosto de um homem que, apesar dos cabelos brancos, parecia jovem e sadio. O rosto enérgico provava que aquele homem gostava de decidir depressa, e, nos olhos avermelhados, havia um brilho penetrante que deveria servir de advertência a qualquer inimigo.
Por que me perturba, Oficial Um?
O rosto não demonstrou a menor comoção.
Preciso falar com o senhor, C-l — disse. — É importante.
O comandante soltou um suspiro.
Já sei o que deseja — disse em tom de resignação. — Por que será que a juventude nunca sabe esperar sua vez? Sei que meu tempo está quase no fim, mas para que tanta pressa, O-l? O senhor será meu sucessor...
Pois não percebo nada disso — retrucou o oficial em tom zangado. — Como é que a juventude pode progredir se a velhice não lhe dá oportunidade para isso?
O comandante sorriu.
Progredir, O-l? Você quer progredir? Se soubesse...
Pois eu quero saber. O senhor tem tempo para falar comigo?
O comandante recusou em tom resoluto.
No momento não, O-l! Quando estiver na hora, avisarei. Você nem imagina o peso da responsabilidade que terá de assumir. Quando estiver no meu lugar, se arrependerá de sua afoiteza, mas então não haverá como voltar atrás. Qualquer um que ocupe meu lugar será a pessoa mais solitária do Universo.
Não há ninguém mais solitário que aquele que se isola voluntariamente. E é o que o senhor está fazendo, comandante.
Você fará a mesma coisa, porque não terá outra alternativa. Um dia compreenderá. Até lá só lhe posso pedir que tenha paciência. Permita que eu o previna, O-l: qualquer insistência de sua parte poderá ter conseqüências funestas. Ainda não chegou a hora...
O jovem acenou com a cabeça... parecia zangado.
É o senhor quem decide o momento da substituição?
O comandante sorriu.
Faça de conta que sou eu quem decido. Desta forma, não terá um peso na consciência. Você só saberá de toda a verdade quando ocupar meu lugar — olhou para o relógio que se encontrava em cima do painel de instrumentos. — Com licença; tenho o que fazer.
A tela apagou-se subitamente, antes que o oficial tivesse tempo para responder.
O comandante voltou a acomodar-se em sua poltrona. Apoiou a cabeça nas mãos, como se esta pesasse demais. Compreendia perfeitamente o jovem oficial que um dia ocuparia seu lugar.
O regulamento não permitia qualquer exceção, sob pena de morte no conversor. O sucessor teria de esperar até que fosse dado o sinal. Só depois disso, poderia assumir o cargo, a fim de que só uma pessoa de cada vez conhecesse o segredo.
De qualquer maneira terei de morrer”, pensou o comandante com uma amargura cada vez maior. “É o preço que tenho de pagar. Os que vieram antes de mim morreram, e os que vierem depois também morrerão.”
Não havia nada que pudesse interromper a seqüência.
Mais uma vez sobressaltou-se com o zumbido do videofone. Tinha a obrigação de dar atenção a todo e qualquer chamado. Levantou-se para verificar se não era o Oficial Um.
Desta vez, era o Oficial Dois, porta-voz da tripulação.
Comandante, Ps-5, D-3 e R-75 querem falar com o senhor. Pode recebê-los?
O comandante refletiu rapidamente.
Não havia nada de extraordinário em que o doutor e o psicólogo desejassem uma entrevista. Isso acontecia quase todas as semanas. Mas o fato de o Reparador Setenta e Cinco querer falar com ele não era corriqueiro. Por isso falou num misto de curiosidade e estranheza:
Conceda a permissão. Aguardo estas pessoas na hora de costume.
Teve um pressentimento e acrescentou:
Só quero falar com as pessoas que acabam de ser nomeadas, O-2. Tome as necessárias precauções para que O-l não venha, sob qualquer pretexto.
Entendido, senhor — disse o interlocutor e desligou.
O comandante voltou a sentar-se e refletiu intensamente.
Desconfiava de que uma desgraça estava para desabar sobre ele.
Porém não sabia de que espécie era essa desgraça...

* * *

Alguns dias antes...
O psicólogo levantou os olhos, perplexo, quando a porta se abriu e o Doutor Três entrou em seu gabinete sem fazer-se anunciar.
Os dois homens tinham aproximadamente a mesma idade, e, se não fosse seus trajes profissionais, seria difícil distingui-los.
Ora, D-3. É uma visita rara...
Preciso falar com você, Ps-5. Só você pode responder às inúmeras perguntas que formulo a mim mesmo e que outros me formulam.
Perguntas? Desde quando a gente costuma formular perguntas a si mesmo?
É a vida que coloca estas perguntas diante de nós, e compreendo qualquer pessoa que queira transmiti-las aos círculos dirigentes. E os círculos dirigentes somos nós, que não devemos responder.
O psicólogo sorriu.
Não devemos, meu caro? Mesmo que quiséssemos, que resposta poderíamos dar? O que sabemos da vida? Nascemos aqui, aqui vivemos e trabalhamos, e é aqui que morreremos quando chegar nossa hora.
Mas por quê? Por que vivemos e morremos aqui? Que sentido tem nossa existência? São estas as perguntas que ouvi repetidamente nos últimos dias, Ps-5. Que resposta poderia dar? Sei que perguntas deste tipo são proibidas, e sempre que alguém as ouve deve avisar o comandante. Mas também sei que o comando da morte sai à procura das pessoas que formulam tais questões e... Se nos ativéssemos às ordens que nos são dadas, dentro de pouco tempo não haveria uma criatura viva em nosso mundo.
O médico fez uma pausa, inclinou-se para a frente e fitou os olhos de seu interlocutor.
O que vem a ser este mundo? Você sabe?
Ninguém sabe — respondeu o psicólogo, sacudindo a cabeça e voltando a sorrir. — Por que quer saber? Nascemos e somos criados neste mundo, nele recebemos nossas tarefas e as cumprimos. Nosso mundo nos sustenta, nos dá comida, bebida e oxigênio; nos veste e, uma vez por ano, permite que entremos em contato com as mulheres. Por fim ainda nos concede uma morte rápida e indolor. Devemos agradecer a este mundo por cuidar tão bem de nós. Você não acha?
Acho. Concordo plenamente com você. Mas gostaria de saber por que as coisas são assim e quem rege nossos destinos.
Quem rege nossos destinos? — o psicólogo refletiu por algum tempo e parou de sorrir. — Ora, é o comandante; quem poderia ser? É ele que dá as ordens e, felizmente, tem de morrer da mesma forma que nós. Muita gente se sente reconfortada com esta idéia e, quando chega sua vez, morre alegre.
Não é o comandante quem rege nossos destinos — disse o médico em tom tranqüilo.
O psicólogo estremeceu. Seus olhos estreitaram-se; com uma expressão de pavor fitou as fendas do equipamento de renovação de ar, situado no teto, como se acreditasse que ali havia alguém que os escutasse. Seu rosto assumiu uma expressão de dúvida misturada com medo.
Psiu! Que bobagem é essa? Você ainda acabará por nos levar ao conversor.
A morte no reator atômico seria a estação final de sua vida. Ninguém poderia escapar a esse destino, mas quem não soubesse conduzir-se com a necessária cautela apressaria o destino inevitável. O comandante não hesitava muito em proferir uma sentença de morte, e sua vontade era lei.
O médico afastou a objeção com um gesto da mão.
Tolice, Ps-5! Não somos crianças às quais se possa meter medo com o conversor. Somos homens para nos defendermos se quiserem levar-nos. Tomei minhas precauções. Você acredita que andei pensando sobre isso e não arranjei armas?
Armas? — perguntou Ps-5 em tom de espanto, ao qual se misturava uma fagulha de medo. — Você sabe que a posse de armas é proibida. Aliás, como é que você poderia tê-las arranjado? Neste mundo ninguém tem armas, a não ser...
Isso mesmo! Ninguém possui armas, a não ser os guardas. Eles as trazem ocultas em seus corpos mecânicos. Para nos apossarmos das armas de um guarda, temos de destruí-lo.
O psicólogo fitou o médico com uma expressão de espanto.
Não venha me dizer que...
Pois é isso mesmo. Atraí um robô para uma emboscada e o coloquei fora de ação. Depois desmontei-o e fiquei com suas armas energéticas. Um maquinista me ajudou. Ele é de confiança.
Um maquinista?! Será que ele não o trairá?
Desta vez, o médico sorriu.
Ele não pode, meu caro. Fiz dele um viciado. Sei que isso é proibido. Se descobrirem, serei punido. Mas M-4 ficaria sem drogas e definharia miseravelmente. Como vê, tomei minhas precauções. E estou decidido a descobrir a verdade. Quer me ajudar a descobri-la, Ps-5? Reflita sobre isso. Caso não pense como eu, esqueça-se de nossa conversa. Confio em sua palavra.
Quem, além de você e M-4, está agindo?
Mais ninguém.
O psicólogo recostou-se na poltrona e lançou um olhar pensativo para o teto de seu gabinete.
Era aqui que trabalhava e dava suas ordens à Divisão de Psicologia. Gozava de certo renome. Deveria arriscar tudo isso apenas para satisfazer a curiosidade? Não se encontrava junto à fonte das informações? Não era ele que, juntamente com o comandante, era informado sobre todas as novidades em virtude de sua profissão? Por que teria de bancar o curioso?
Lançou um olhar pensativo para o amigo, que o fitou com uma expressão de expectativa, cheia de fé e esperança, mas também com temor.
De repente, teve uma idéia.
Você tem aí a arma? — perguntou.
D-3 fez que sim. Pôs a mão no bolso e tirou um bastão pequeno e jeitoso, em cuja extremidade havia uma lente de vidro.
Você nunca viu esta arma em funcionamento, Ps-5. Mas eu lhe garanto que seus efeitos são terríveis. Se quiser, poderei perfurar a parede externa de nosso mundo e dar entrada à morte gelada. Seria facílimo matar um homem com ela.
O psicólogo sentiu um calafrio. Desconfiava de que nunca estivera tão próximo da morte como naquele instante. Mas o médico era seu amigo...
Seria mesmo...?
Fitou detidamente a lente e procurou imaginar como seria a morte que se ocultava naquele bastão prateado. Seria uma morte rápida e indolor?
Seria mesmo...?
Mais uma vez, surgiram perguntas. Porém todas ficaram sem respostas.
Ontem fui procurado por um homem — principiou Ps-5, rompendo o silêncio reinante após as indagações. — Sua divisão encaminhou-o a mim porque não se conduziu com a necessária cautela durante o trabalho. Não consegui tirar nada dele, pois mantinha um silêncio obstinado sobre os motivos de sua distração. Não tive outra alternativa: apliquei-lhe o radiador psíquico. Com isso, sua língua se soltou. Descobri por que já não pode cumprir suas obrigações com toda dedicação. Está interessado em ouvir a história que ele me contou?
O médico limitou-se a acenar com a cabeça. Continuava a segurar o bastão prateado. Até parecia que se esquecera dele.
Pois bem. Preste atenção, D-3. O homem pertence ao comando de reparos do setor dez. É um simples trabalhador. Há cerca de meio ano, um dos aparelhos de exaustão falhou e teve de ser reparado. R-75 foi incumbido de fazer os reparos. Com o auxílio de um colega procurou descobrir a causa das avarias e repará-las. Era a primeira vez que a instalação entrava em pane. Por isso, não foi fácil descobrir o defeito. Depois de algum tempo, viram que seria necessário romper uma parede para atingir as instalações propriamente ditas.
D-3 inclinou-se para a frente; parecia muito interessado.
Espero que não tenha sido a parede externa.
Não; nem poderia ter sido, pois nesse caso R-75 e seu colega teriam morrido imediatamente. Usaram o aparelho de solda para cortar a parede e fizeram uma abertura capaz de dar passagem a um homem. É claro que estavam contrariando as ordens vigentes, segundo as quais não deve ser realizada qualquer modificação. Porém uma abertura na parede é uma modificação... Passaram pela abertura e foram parar num recinto em que reinava uma penumbra. Segundo o relato de R-75, havia no teto pequenas luzes, que espalhavam uma débil luminosidade. De qualquer maneira, a parte dos fundos do exaustor estava exposta à sua frente. Logo descobriram a causa do defeito e conseguiram removê-la.
Mas os dois não voltaram imediatamente para fechar a abertura, como deviam ter feito. Começaram a examinar a misteriosa sala; ou ao menos, tiveram essa intenção. Porém foram impedidos. Isso mesmo, D-3, foram impedidos. Os guardas andam até mesmo nos setores inexplorados de nosso mundo. R-75 conseguiu colocar-se em segurança, mas seu colega foi atingido por um raio energético e teve morte instantânea.
Os guardas não saíram em perseguição de R-75, como este receava. Talvez tivessem recebido contra-ordem, pois retiraram-se imediatamente. R-75 soldou a abertura e apresentou-se a seu superior. Relatou os acontecimentos e descreveu a morte de seu colega, mas não contou o que havia visto no tal recinto. Porém não pôde deixar de contar a mim, já que estava submetido ao tratamento psíquico. Dessa forma, consegui saber o que o atormentava. Era um terrível segredo, que inevitavelmente acarreta a morte de quem o descobre. E é por isso que R-75 ainda está vivo.”
Não compreendo — confessou o médico.
O psicólogo sorriu.
Você logo compreenderá. O reparador revelou-me um segredo que ninguém deve conhecer. Se transmitisse o segredo a alguém, R-75 não escaparia à morte. Mas eu teria de entrar no conversor a seu lado, pois também conheço o segredo. E comigo entrariam outras pessoas, caso eu as comunicasse de... Já compreendeu por que R-75 ainda está vivo?
Compreendo. Mas prossiga; que segredo é este?
O psicólogo voltou a fitar o perigoso bastão prateado.
Será que você poderia guardar isso, D-3? Se eu tiver de olhar constantemente para a lente de um aparelho que expele raios mortíferos, fico nervoso. Obrigado, amigo. Bem, vamos ao segredo. É claro que R-75 não conseguiu distinguir todos os detalhes, porque a iluminação não era boa. De qualquer forma, conseguiu distinguir na penumbra duas fileiras de blocos transparentes, entre os quais havia espaço suficiente para que os guardas se locomovessem à vontade. Cada bloco estava ligado por meio de fios e tubos de plástico a uma máquina embutida na parede. Nos blocos havia um líquido turvo, que devia ser mais viscoso que a água, pois permanecia imóvel. E, nesse líquido, boiava... gente!
O quê?! — exclamou o médico, empalidecendo. — Havia gente?!
O psicólogo fez um gesto afirmativo.
Em cada bloco havia uma pessoa nua — um homem ou uma mulher. Você sabe quem são essas pessoas? Não, você não sabe. Pois eu lhe direi, D-3. Essas pessoas são nossos antepassados que, segundo reza a história, teriam morrido há dez mil anos. É isso mesmo. Depois de terem colocado nosso mundo na rota certa, eles não morreram, mas ficaram mergulhados naquele líquido e ali dormem até hoje. São vigiados por guardas metálicos que, além de nos dominar, impõem também sua vontade ao comandante. E a vontade que nos impõem é a vontade de pessoas que, segundo se diz, teriam morrido há muito tempo. Pense bem, D-3! Nós fomos logrados!
O médico estava estupefato.
Não é possível, Ps-5. Sei que você acredita nisso, mas não consigo imaginar que realmente seja assim. Então nós somos escravos de pessoas que morreram há muito tempo?
Acontece que não morreram!
O psicólogo quase chegou a gritar estas palavras. Mas logo calou-se, assustado. Se alguém o ouvisse, estaria perdido.
Você quer dizer que ainda estão vivos?
A voz com que o médico proferiu estas palavras quase chegava a ser incrédula. Subitamente deu-se conta de que, face aos seus conhecimentos médicos, estaria em melhores condições de pronunciar-se sobre o assunto que seu interlocutor, e prosseguiu.
Naturalmente. De que serviriam seus corpos, perfeitamente conservados, mas mortos? Quer dizer que estão vivos! Mas por quê?
O psicólogo inclinou-se para a frente.
Nós sabemos, D-3. Nós sabemos! Nós e R-75. Mas este nem desconfia de que consegui apoderar-me de seu conhecimento. Ainda bem. Suspendi seu tratamento sem informar seus superiores sobre os motivos de seu estado de perturbação. Talvez saiba ficar com a boca calada; neste caso ainda viverá algum tempo.
Quer dizer que nós sabemos. Como vamos utilizar esta descoberta?
Bem, o que sabemos realmente? Em algum ponto inexplorado deste mundo, jazem nossos antepassados, mergulhados num sono profundo e conservados através dos séculos; ao menos, à primeira vista, parece-me assim. É possível que na verdade estejam mortos. Talvez tenham morrido em virtude de algum erro imprevisto e apenas seus corpos se tenham conservado. Seja como for, a esta hora já podemos fazer uma idéia sobre suas intenções. Um belo dia, quando nosso mundo chegasse ao destino, desejavam ser despertados. Ao que suponho, as gerações intermediárias só preencheriam uma finalidade: manter o maquinismo em funcionamento. Sempre acreditamos que vivíamos e trabalhávamos para nós, mas na realidade nós o fazemos pelas pessoas que dormem no centro de nosso mundo metálico. Gostaria de saber se o comandante conhece a verdade, ou se também está sendo enganado.
D-3 lançou um olhar pensativo para o psicólogo.
Com a arma na mão eu me sinto seguro. Mas quem mais tem uma arma? Só os guardas. E estes não podem ser conversados, pois não são homens, mas simples máquinas. Porém não tenho apenas um radiador, mas três. Posso dar-lhe um. Dessa forma poderemos arriscar-nos a fazer perguntas ao comandante, face a face, e pedir que ele nos explique tudo.
Você tem coragem — disse o psicólogo em tom de inveja. Refletiu por alguns segundos e prosseguiu: — Nos tempos de escola, meu maior problema era a indagação sobre a finalidade de nossa existência. Sabia que nascíamos nos asilos e nunca veríamos nossos pais. Ao sermos levados para a instituição educadora, não mais veríamos nossa mãe. Vinha a escola, o aprendizado e o estudo. Por fim, o trabalho, que prossegue até o momento em que alcançamos a idade adequada para morrermos no conversor. Até mesmo depois de mortos, servimos ao nosso povo, pois nossos corpos fornecem energia. O circuito de nossa vida é claro e prefixado, mas não preenche qualquer finalidade. Para que serve tudo isso? Por que as coisas se passam dessa forma? Qual é nosso destino? Ou será que nosso mundo vaga ao acaso pelo Universo dos sóis?
O que sabemos sobre os sóis é muito pouco — disse D-3, lembrando os ensinamentos recebidos na escola. — Apenas conhecemos as tradições, e quem sabe se estas não são falsas? Talvez tenham sido inventadas por aqueles que dormem no centro deste mundo e aguardam a chegada de sua hora.
Hesitou por um momento e prosseguiu lentamente:
Acho que perguntar ao comandante não seria a melhor solução. Vamos tomar nossas providências.
Ps-5 inclinou-se para a frente. Parecia muito interessado nas palavras de seu interlocutor.
Que providências serão estas?
Iremos mais uma vez, com R-75, à sala onde dormem nossos antepassados. Talvez consigamos descobrir seus planos.
O psicólogo deu sinais evidentes de susto, mas logo conseguiu vencer o medo.
Talvez você esteja com a razão, D-3 Antes morrer com uma certeza no coração que viver na incerteza. Quando iremos?
Ainda hoje — respondeu o médico e levantou-se. — Mande chamar R-75. Ficarei escondido na sala ao lado e aparecerei assim que seja necessário.
Ao sair, tirou do bolso a arma de radiações e destravou-a. Não estava disposto a assumir qualquer risco. Ps-5 concordou plenamente.
A seguir, o psicólogo comprimiu a tecla do intercomunicador e deu suas instruções.

* * *

O Reparador Setenta e Cinco não conseguia tirar da cabeça a lembrança daquele acontecimento de alguns meses atrás. Seu sono era repleto de pesadelos. Via constantemente o colega ser atingido e morto pelos ofuscantes raios energéticos. Ouvia sempre os passos metálicos dos vigias saídos da escuridão, que pretendiam agarrá-lo com suas mãos frias. Porém acordava em tempo para não ter de viver o terrível momento.
Talvez um dia, seus sonhos se tornariam realidade: viriam realmente para levá-lo ao conversor. Ainda bem que ninguém conhecia seu segredo. Enquanto se mantivesse em silêncio, estaria em segurança.
E as longas fileiras de blocos com os corpos imóveis. O que vinha a ser isso? Seria gente morta há muito tempo, que estava sendo guardada para um fim todo especial? Que fim poderia ser este? O que significavam esses cadáveres, guardados há milênios naquela câmara mortuária?
Ou não estariam mortos?
R-75 formulara esta pergunta inúmeras vezes, mas nunca conseguira descobrir a resposta. Seus conhecimentos estavam restritos à área tecnológica. Pouco entendia das ciências médicas.
Quando o intercomunicador chamou, estremeceu. A voz de seu superior, saída do alto-falante, disse:
Apresente-se à Divisão de Psicologia, R-75. Imediatamente! Faça o favor de confirmar.
Entendido — respondeu R-75, um tanto apreensivo.
Suas mãos nervosas ajeitaram a roupa. Caminhou até a porta.
O que queriam? Não passara bem pelo teste? Ou teriam desconfiado de alguma coisa e desejavam submetê-lo a outro exame?
O elevador deixou-o no respectivo andar. Enquanto caminhava pelo corredor, esforçou-se em vão para lembrar qualquer fato que pudesse ter provocado suspeitas na Divisão de Psicologia. Sabia que ninguém tremia por nada na frente de um psicólogo. E era isso que o preocupava.
Quando fechou a porta atrás de si, compreendeu que sua situação não era tão séria como receara. O psicólogo sorriu; sorriu para ele, que era um simples trabalhador.
Faça o favor de sentar-se, R-75 — disse Ps-5 em tom amável e apontou para uma cadeira. — Quero formular algumas perguntas. Peço-lhe que responda conforme a verdade. Não tenha receio, mas é bom que saiba que, na situação em que se encontra, o silêncio só poderá prejudicá-lo. Será que me exprimi com suficiente clareza?
R-75 sentiu sua tranqüilidade desvanecer-se de uma hora para outra. Era bem verdade que o psicólogo continuava a sorrir, porém esse sorriso parecia agora uma armadilha.
Não sei... — principiou R-75, mas logo foi interrompido.
O senhor logo saberá, meu caro. Antes de iniciarmos nossa conversa, propriamente dita, quero dizer-lhe uma coisa. Depois de terminada a presente palestra, só haverá duas alternativas. O senhor e eu poderemos viver, ou então ambos teremos de entrar no conversor. Tudo depende do senhor.
No conversor?
O psicólogo repetiu:
Isso mesmo; no conversor. Vamos resumir as coisas. Há alguns dias, esteve aqui porque alguém o mandou. Eu o submeti a um tratamento psicológico e fiquei sabendo da verdade sobre a morte de seu colega. Com isso, também fiquei conhecendo seu segredo. Não se assuste; o segredo está em boas mãos. Se eu o denunciar, terei de morrer também. Espero que isto o deixe mais tranqüilo.
R-75 realmente parecia mais calmo. Teve bastante inteligência para avaliar o significado das palavras do psicólogo.
Pois bem; vejo que estamos de acordo — prosseguiu Ps-5. — Vejo que o senhor compreendeu em que situação se encontra. Por isso, não há nenhum motivo para não conversarmos abertamente — virou a cabeça e, falando em direção à porta que levava à sala ao lado, disse: — Venha, doutor. Acho que poderemos expor nosso plano a R-75.
D-3 guardou a arma energética. Entrou na sala e cumprimentou R-75 com um gesto.
Naquele momento, R-75 compreendeu que o número das pessoas que eventualmente seriam condenadas à morte já subira para três.

* * *

Não se encontraram com nenhuma pessoa ou vigia.
R-75 os guiava; não se sentia muito à vontade. Sabia que, à sua retaguarda, havia dois homens armados que não hesitariam em matar qualquer inimigo, sem medir as conseqüências. Acontece que R-75 ainda não confiava plenamente nas armas que não conhecia. Nunca as vira serem usadas por um ser humano.
Entraram no elevador e deslizaram em direção ao centro do gigantesco mundo esférico. Foram-se aproximando das regiões desconhecidas em que ficavam as salas de máquinas. Nem o médico e nem o psicólogo jamais haviam chegado até lá. Seu mundo resumia-se aos corredores limpos e reluzentes dos setores científicos. Quanto a R-75, este, por assim dizer, conhecia todos os lugares. O exercício de sua profissão exigia sua presença em todos setores.
Parou.
Não falta muito. Aliás, nenhum homem deveria chegar até aqui. Admiro-me de não termos encontrado nenhum vigia.
Os vigias são máquinas às quais falta o pensamento impulsivo. Apenas sabem pensar logicamente. Não suspeitam de que alguém ande por aqui, pois ninguém tem nada a fazer por estes lados. Não nos esqueçamos de que, provavelmente, vêm desempenhando suas funções há dez mil anos. E, pelo que sabemos da história de nossa raça, nunca houve um acontecimento como o que se verifica agora. Somos os primeiros que procuram desvendar o mistério.
É bem possível que outros o tenham feito antes de nós — ponderou o médico. — Nesse caso teriam morrido com seu segredo, motivo por que ninguém chegou a ter conhecimento do mesmo.
Isso é pouco provável, meu caro. Aposto que nem mesmo os vigias conhecem o segredo. Quando muito, apenas os que vivem atrás da parede e cuidam das pessoas que dormem ali estão informados a respeito.
Talvez — disse D-3 e calou-se.
Vamos andando — disse Ps-5 em tom impaciente, pesando a arma na mão.
O médico lhe ensinara como usá-la, mas a verdadeira potência do artefato só seria revelada por meio de uma experiência.
A iluminação tornou-se cada vez mais escassa. Mal se enxergava um palmo diante do nariz. Dificilmente alguém penetrava nestas regiões da nave, motivo por que havia boas razões para economizar energia. As reservas não deviam ser inesgotáveis.
R-75 prosseguiu na caminhada e parou à frente de uma porta. Era grossa e estava firmemente encaixada no batente, mas à primeira tentativa deixou claro que não havia sido trancada.
Atrás desta porta fica a sala onde terminam os dutos do sistema de renovação de ar. Será que devemos entrar?
Foi para isso que viemos! — disse Ps-5 em tom impaciente e entrou à frente dos outros.
O psicólogo mantinha a arma engatilhada, mas a precaução revelou-se desnecessária. Na sala só havia os gigantescos blocos de geradores e os enormes quadros de comando.
A penumbra bastou para mostrar a solda retangular da parede oposta. Via-se perfeitamente que, naquele lugar, alguém fizera uma abertura e voltara a fechá-la.
Foi ali — disse R-75 e estremeceu ao rememorar os acontecimentos. Subitamente seus pesadelos pareciam transformar-se em realidade. — Como pretende abrir passagem?
Ps-5 não respondeu. O médico levantou a arma energética.
Com isto! — disse em tom resoluto. — A energia existente nesta arma é suficiente para derreter a parede. Mas não precisaremos chegar a tanto. Basta remover a chapa soldada.
R-75 hesitou. De repente, as dúvidas pareciam surgir em sua mente, mas quando olhou para o rosto de seus companheiros, compreendeu que não havia como voltar atrás. A decisão fora tomada e era irrevogável.
D-3 fez um gesto para Ps-5 e R-75.
Recuem um pouco; será preferível que fiquem neste canto. É possível que os raios energéticos sejam refletidos. Devemos agir com cautela. Ainda não estou familiarizado com o manejo da arma.
Esperou até que os companheiros se colocassem em segurança, agachou-se atrás de um bloco de metal e dirigiu a lente para o setor assinalado pela marca de solda.
O raio pálido desmanchou-se na parede. Pingos grossos de metal liquefeito caíam ao chão.
De início D-3 não viu nada, porque a luminosidade o ofuscava, mas seus olhos logo se acostumaram à claridade. Sabia que, assim que desligasse a arma, não enxergaria mais nada. Ao menos por dez minutos, ficaria cego.
A abertura custou a esfriar nas bordas. Com isso, os homens tiveram tempo para acostumar-se à penumbra. R-75 fitou a abertura com um ar obstinado. Depois de algum tempo, disse:
Se soubesse o que iria encontrar lá atrás, nunca teria passado por esta parede. É estranho, mas naquela oportunidade não tive medo. Hoje as coisas são diferentes.
Não há perigo. Não precisa ter medo — disse Ps-5, procurando aparentar maior frieza e apalpando a borda entrecortada da abertura pela qual pretendiam passar. — Já está fria. Acho que não devemos esperar mais. Se houver algum dispositivo de alarma, os guardas não demorarão a aparecer. Quanto tempo demoraram daquela vez, R-75?
Não sei dizer com exatidão. Fiz os reparos e depois fui dar uma olhada por aí. Deve ter sido mais ou menos uma hora.
D-3 olhou para o relógio.
Meia hora já se foi. Quer dizer que não temos muito tempo. Quem irá na frente?
O psicólogo sabia que um dos membros do grupo deveria exercer as funções de chefe, pois só assim teriam alguma chance de serem bem sucedidos. Quando se deu conta disso, as dúvidas que ainda sentia desapareceram. O que se apossou de sua mente não foi propriamente a coragem, mas antes a consciência de que, naquela altura, já não havia como escapar ao destino. Pouco lhe importava o que acontecesse com ele, desde que descobrisse o segredo escondido no centro da gigantesca nave.
Irei na frente — disse e abaixou-se para passar pela abertura estreita. — Sigam-me se quiserem.
Não esperou resposta. Espremeu-se pela abertura e voltou a erguer o corpo do outro lado da parede, depois de ter dado um passo para o lado, a fim de que seus companheiros tivessem lugar para segui-lo.
Além da penumbra, reinava um silêncio total. Os ruídos da nave não chegavam até lá. O ar era puro, mas gelado. A intervalos regulares viam-se pequenas lâmpadas embutidas no teto, que espalhavam uma débil luminosidade. Os quadros de comando, embutidos na parede, indicavam que havia instalações ocultas, cuja finalidade era desconhecida.
O psicólogo olhou para as duas longas fileiras de blocos de vidro. O líquido existente no interior destes devia ser de densidade muito elevada pois os corpos imóveis quase não tinham penetrado no mesmo; jaziam na superfície. Eram como pedaços de madeira, boiando num vaso com mercúrio.
É fantástico! — exclamou D-3, que se encontrava ao lado do psicólogo. — Se não visse com meus olhos, não acreditaria.
Ps-5 parecia despertar de um sonho.
Não temos tempo a perder. Vamos andando.
Manteve a arma engatilhada, enquanto caminhava em direção ao primeiro bloco. O médico seguiu-o, enquanto R-75 ficou parado junto à abertura, para cobrir a retaguarda. Também recebera uma arma energética e sabia como lidar com a mesma.
Pararam junto ao primeiro bloco.
Os dois homens olharam para o corpo esbelto do jovem de cabelos brancos, que dormia na superfície do líquido. Os olhos estavam fechados, mas parecia ser capaz de abri-los a qualquer momento e, com uma expressão de espanto, fitar os intrusos. A boca estreita, combinando perfeitamente com o queixo pequeno e enérgico, também estava fechada. Nas narinas não se notava o menor movimento que pudesse dar a entender que naquele corpo imóvel ainda havia um vestígio de vida.
O homem estava nu. A cor pálida da pele quase não se distinguia da do líquido. Os braços jaziam ao lado do corpo, como se não pertencessem a este. As pernas estavam encolhidas; parecia que antes de adormecer o desconhecido fizera mais um movimento.
Os condutores e tubos terminavam na parte superior do bloco de vidro. Só agora, Ps-5 e D-3 perceberam que um fluxo quase invisível de gás penetrava constantemente no recipiente, e era aspirado por outro tubo. A iluminação não permitia verificar se o homem adormecido aspirava esse gás.
Ps-5 encostou cautelosamente a mão ao bloco. Retirou-a abruptamente.
Isso é muito frio! — cochichou. — O líquido deve ser mais frio que gelo.
É mais frio que gelo, mas continua em estado líquido — disse o médico em tom pensativo. — O processo vital foi detido subitamente por meio do congelamento. Pode ser reiniciado a qualquer momento. Não se sabe quando isso acontecerá. Mas deverá acontecer. Pode ser hoje ou num futuro distante.
O psicólogo manteve-se calado. Lançou mais um olhar sobre a pessoa adormecida e saiu andando. No bloco seguinte havia uma mulher.
Ps-5 e D-3 fitaram-na com um ar de estupefação e notaram que era de uma beleza extraordinária. Só uma única vez na vida, durante o tempo de aprendizado, os homens de seu mundo podiam ver uma mulher...
Concluído o estudo ou o treinamento, tinham um ano de férias. Durante esse ano, conheciam uma espécie de vida familiar; só tinham uma obrigação: providenciar para que chegasse um filho. Depois os casamentos temporários eram dissolvidos e os cônjuges nunca mais se viam. O homem era encaminhado ao setor de trabalho, correspondente a seu aprendizado, e ali permanecer até que o comandante o mandasse eliminar. A mulher permanecia no setor infantil até que, depois de alguns anos, lhe fossem concedidas férias pela segunda vez.
Depois de parir o segundo filho, seu ciclo de vida estaria cumprido. Caso não se tivesse destacado em algum setor e pleiteado um lugar nos serviços de criação e educação de crianças, seria levada ao conversor para morrer.
Além de bela, a moça que se encontrava no recipiente de vidro corporificava os desejos e anseios mais recônditos dos dois homens que apenas conheciam uma vida inútil e já agora perdida.
O psicólogo falou com a voz trêmula:
É uma maravilha! Até parece milagre! É muito jovem...
Tem alguns milhares de anos — disse o médico em tom frio. — Parece jovem porque as células de seu corpo não ficaram expostas ao processo de degenerescência.
O psicólogo fitou a figura nua. Seus dedos crisparam-se em torno da arma energética. Um brilho perigoso surgiu em seus olhos e disse em voz baixa:
Que monstros! Não sei quem são, mas vejam a que tipo de vida eles nos condenaram — fitou o companheiro. — Agora já sabemos por que sempre nos ocultaram a verdade. Sabiam que não agüentaríamos esse tipo de... A vida que levamos é uma farsa. Só podemos saber aquilo que vemos e sempre nos dizem que isso é a coisa mais bela que existe no Universo. Acontece que agora já sabemos...
O que é que sabemos? — interrompeu o médico, procurando aparentar calma. — Aqui vemos as pessoas mergulhadas num sono eterno. E daí? Será que são culpados da existência que levamos? Ou será que os culpados são os...?
Quem poderia ser?
O comandante, por exemplo. Não tenho certeza, mas acho que ele deve saber mais que eu.
Ps-5 sacudiu a cabeça e voltou a fitar a moça.
O comandante é tão mortal como nós. Quando chegar a hora, o conversor também estará à sua espera.
Refletiu um pouco e acrescentou:
De qualquer maneira, perguntaremos ao comandante se sabe alguma coisa. Finalmente criamos coragem para isso.
É claro que perguntaremos — concordou D-3. — Mas pelo que sabemos, isso será o fim da nossa vida. Não venha me dizer que você acredita que, uma hora depois de nossa palestra com o comandante, ainda estejamos vivos!
Aceito o risco, meu caro. Afinal, possuímos armas. Se nos colocarmos em posição favorável, poderemos defender-nos contra um exército de guardas.
Está pensando num motim? — disse D-3 num cochicho. — Você quer rebelar-se contra a ordem estabelecida?
Nunca tive esta intenção. Porém cada vez melhor, compreendo que, se não nos defendermos, jamais sobreviveremos às perguntas que pretendemos formular ao comandante. Não o conheço profundamente. Nossos únicos contatos foram mantidos durante várias palestras, e nestas nem uma única vez se tocou em qualquer assunto particular. É possível que ele mesmo esteja sendo martirizado pelas dúvidas. Mas também pode ser que não passe de um autômato insensível, que se limita ao cumprimento mecânico do dever, ou daquilo que acredita ser seu dever.
O psicólogo lançou mais um olhar, que quase chegava a ser triste, para a moça nua e virou-se. Olhou para a pequena abertura pela qual tinham vindo. R-75 continuava a manter guarda junto à mesma. Por enquanto ainda reinava o silêncio.
São mais de duzentos blocos de vidro — disse D-3. — Será que há outras salas desta espécie?
Você deve ter notado que a sala descreve uma ligeira curva — respondeu Ps-5, em tom de superioridade. — Meus conhecimentos matemáticos não são muitos extensos, mas pelos meus cálculos deve haver ao menos nove ou dez salas como esta no setor em que nos encontramos. Não sei como são os outros setores da nave, mas não há nada indicando que as instalações frigoríficas existam apenas neste setor.
D-3 teve um calafrio.
A palavra que você acaba de usar me fez lembrar o frio. Não agüentarei por muito tempo. Vamos dar uma olhada nas outras criaturas adormecidas?
Em algumas — respondeu o psicólogo que, de repente, parecia um tanto taciturno. — Dificilmente descobriremos qualquer coisa além do que já sabemos, e os guardas poderão aparecer a qualquer momento. Eu me admiro de que isso ainda não tenha acontecido.
Mais uma vez prestaram atenção a eventuais ruídos, vindos da semi-escuridão, mas não ouviram nada. R-75 lançou-lhes olhares indagadores e apavorados. Fez um sinal com a mão.
Quase uma hora já se passara!
Será preferível que nos apressemos — disse Ps-5, dirigindo-se ao médico. — Quero evitar qualquer encontro com os guardas, ao menos por hoje. Algum dia, teremos de defrontarmo-nos com eles.
Um confronto com esses monstros metálicos? — D-3 sacudiu-se. — A idéia não me deixa muito à vontade.
O psicólogo fingiu-se de perplexo.
Mas como? Você não liquidou um deles?
Liquidei. Mas acho que há uma diferença entre os guardas que ficam deste lado da parede, e os que ficam do outro. É verdade que ainda não vi nenhum dos primeiros, mas o relato de nosso amigo R-75 basta...
De repente, calou-se.
Não ouvira um ruído?
Lançou um olhar rápido para o lugar em que R-75 montava guarda. O reparador mantinha-se imóvel, procurando ouvir o que se passava na penumbra, para além dos recipientes de vidro. Em algum lugar, ouvia-se um esfregar de metal contra metal. Parecia que alguma coisa se esfregava no chão. Subitamente a luminosidade aumentou.
E então viram!
Do outro lado da sala, abriu-se uma fresta que aumentou rapidamente, transformando-se numa porta. O recinto, atrás dessa porta, estava profusamente iluminado. Cinco ou seis sombras gigantescas destacavam-se contra a luz e puseram-se em movimento.
São os guardas! — berrou R-75 em tom de pavor.
Passou pela estreita abertura o mais rápido que pôde, soltando ininterruptamente gritos de pavor.
Vamos embora! — gritou D-3 e pegou o braço do psicólogo. — O que está esperando? Se eles nos pegarem...
Já sabem que estamos aqui — respondeu Ps-5 com uma tranqüilidade apavorante.
Talvez a perspectiva do perigo lhe infundisse medo, mas agora que via o perigo diante de si, logo recuperou a calma. Empurrou para trás a trava de sua arma.
É bom que saibam que seu tempo de espera também terminou. Liquidaremos ao menos um deles.
D-3 hesitou. Não queria fugir só e abandonar o amigo à sua sorte. Porém amava a sua vida, mesmo que fosse uma vida sem sentido. Num gesto resoluto, também se preparou para enfrentar o inimigo.
Procuremos ao menos garantir nossa retirada — sugeriu apressadamente. — Vamos até a abertura!
Muito bem; mas ande depressa!
O psicólogo lançou mais um olhar para a moça adormecida e correu atrás do médico.
Chegaram ao lugar em que poderiam sair para os recintos habitados. Ficaram à espera do que estava para vir. Não tiveram de esperar muito.
Seis robôs aproximaram-se entre as fileiras de esquifes de vidro. Seus braços estavam curvados num ângulo de noventa graus. Não possuíam mãos; no lugar das mesmas, estavam as lentes traiçoeiras das armas energéticas. Eram verdadeiros gigantes; mediam quase dois metros e meio. Os guardas das partes habitadas da nave não mediam mais de dois metros. A diferença era notável. E havia outra diferença: os guardas que viram diante de si sabiam falar.
De repente, uma voz dura e metálica gritou:
Fiquem onde estão. Não tentem fugir!
Ps-5 teve a impressão de que estava despertando de um sonho. Quando levantou a arma e a apontou para o robô, sua mão tremia levemente. O médico, que já tinha uma perna enfiada na abertura por onde pretendiam fugir, seguiu seu exemplo.
Se vocês ficarem onde estão, poderemos conversar! — respondeu Ps-5 o mais alto que pôde.
Suas palavras ressoaram pelo recinto e foram refletidas pelas paredes. Atingiram os ouvidos mecânicos dos robôs, pois os seis vultos estacaram de repente. Um deles deu mais dois passos, mas também acabou parando.
Você não pode impor condições — ressoou seu barítono metálico. — A partir do instante em que penetraram neste recinto, vocês estão condenados à morte. Ninguém poderá salvá-los. Por que vieram?
Será que você não consegue adivinhar? — perguntou Ps-5 e conseguiu dar um tom irônico à sua voz, embora estivesse todo arrepiado. Nunca vira a morte tão de perto como naquele instante. — Quem é essa gente que está dormindo nos recipientes de vidro? O que aconteceu com eles? Qual é a tarefa que vocês devem executar?
Por um instante, reinou o silêncio; mas a resposta não tardou.
Talvez você e seu amigo ainda ouçam a resposta de nossa boca, mas somente quando estiverem a um segundo da morte. Venham cá; não procurem fugir. Sabemos que um homem conseguiu escapar, mas este será alcançado pela lei do comandante.
Não se movam! — ordenou Ps-5, quando os robôs fizeram menção de pôr-se em movimento. — Por que não perseguem nosso amigo que fugiu?
Não podemos sair do setor proibido — confessou o robô. Não sabia mentir; seus criadores haviam cuidado disso. Era uma precaução que a esta hora se voltava contra eles mesmos. — Virão até aqui, ou será que teremos de buscá-los?
Vocês ainda não responderam às nossas perguntas.
Eu já lhe disse que a resposta será dada mais tarde.
D-3 cochichou para Ps-5:
Não adianta discutir com eles. Os robôs se orientam exclusivamente pelas ordens que receberam; só modificam seu comportamento quando são reprogramados. Entendo disso, pois um conhecido meu, um físico...
Nesse caso, devemos ao menos dar-lhes uma lição — interrompeu o psicólogo em tom decidido. — Vamos fazer o possível para pôr fora de ação ao menos duas dessas máquinas. Depois vamos dar o fora. Eles não poderão ir atrás de nós.
Não esperou resposta; comprimiu o gatilho de sua arma.
Os seis robôs, que estavam de costas para a luz, eram nitidamente perceptíveis. O feixe energético disparado pela arma do psicólogo atingiu o peito do robô que usara a palavra e com um chiado penetrou no metal frio.
Antes que o médico pudesse abrir fogo, ouviu-se uma leve detonação, que literalmente esfacelou o chefe do grupo de robôs. O gigante caiu ao chão. O barulho foi tamanho que os dois homens receavam que este pudesse ser ouvido em todos os cantos da nave.
O psicólogo fez pontaria contra o segundo robô.
Antes que as criaturas mecânicas pudessem responder ao fogo, três delas haviam sido destruídas.
De repente, D-3 sentiu um ardor no quadril direito. Ao notar que sua roupa começava a pegar fogo, ficou apavorado. Dominado pelo pânico, fugiu pela abertura que dava para a sala dos geradores. Pouco lhe importava o que Ps-5 fizesse...
O psicólogo teve bastante inteligência para perceber que não estava em condições de enfrentar sozinho os três inimigos que ainda restavam. Seguiu o médico e ajudou-o a recolocar a peça de metal na abertura.
Só agora notaram a presença de R-75, que saiu todo trêmulo detrás de um gerador. Ao que parecia, estava envergonhado por ter sido tão covarde. Mas os companheiros o compreenderam e não levaram a mal a sua fuga. Afinal, também ficaram em pânico.
Ajude-nos, R-75! Solde a emenda. Dali a dez minutos, estavam voltando aos seus camarotes. Mais de uma vez sentiram os olhares curiosos dos trabalhadores e cientistas com que se encontravam, mas ninguém formulou perguntas.
Antes de despedir-se, Ps-5 disse a R-75:
Daqui a dois dias, você comparecerá à minha presença para ser submetido a novo exame. Venha assim que terminar seu turno de trabalho. Mais uma coisa: não fale com ninguém sobre o que acaba de acontecer. Se não ficar com a boca calada...
Guardarei silêncio e comparecerei depois de amanhã — prometeu o reparador e despediu-se. Afastou-se tranqüilamente.
D-3 seguiu-o com os olhos.
É um homem simples, mas podemos confiar nele.
O psicólogo confirmou com um gesto.
Temos de confiar. Sabe por que não procuramos o comandante ainda hoje?
Acho que sim — respondeu D-3. — Você quer descobrir se os robôs realmente mantêm contato com ele e se o avisarão.
Isso mesmo! — confirmou Ps-5. — Não tenho tanta certeza de que eles o farão.
Despediram-se com um aperto de mão.

* * *

A porta da esquerda abriu-se e os três homens entraram no santuário da nave: a sala de comando.
O comandante estava sentado atrás de sua escrivaninha e fitou-os. Assim que viu as marcas de identificação que os homens traziam no peito, percebeu que realmente eram as pessoas anunciadas. Fez um sinal para os dois guardas, que haviam acompanhado os visitantes até a porta.
Os dois colossos viraram-se e desapareceram em silêncio.
A porta fechou-se.
Seguiram-se alguns tensos segundos, mas logo o ambiente se descontraiu. O comandante fez um gesto amável em direção às poltronas.
Façam o favor de sentar, senhores. São as únicas pessoas que solicitaram uma entrevista para hoje. Pela data da entrevista concluo que não se pode tratar de um assunto rotineiro. Por isso, estou muito curioso para saber o que os trouxe à minha presença. E o que me deixa ainda mais curioso é o comparecimento do Reparador Setenta e Cinco.
Realmente era muito raro que um simples trabalhador desejasse falar com o comandante.
Os três haviam combinado que Ps-5 seria seu porta-voz. Conhecia a alma das pessoas e saberia reagir adequadamente até mesmo aos impulsos mais estranhos de um coração.
Antes de o informarmos sobre o motivo real de nossa presença, queremos formular algumas perguntas — principiou o psicólogo, subvertendo propositadamente a ordem estabelecida. Não era costume formular perguntas ao comandante. — Se responder segundo a verdade, talvez possamos ter uma conversa franca.
O comandante manteve-se impassível. É verdade que, em seus olhos avermelhados de albino, surgiu uma expressão de espanto. Porém o rosto não traiu o espanto causado por tão estranha proposta. Lançou um olhar curioso para os três homens e disse em tom tranqüilo:
Formule sua pergunta, Ps-5.
Foi a vez do psicólogo espantar-se. Esperara encontrar maior resistência. A extraordinária disposição de contornar as leis, demonstrada pelo comandante, parecia indicar que estava informado sobre o incidente ocorrido no centro da nave. No entanto, era possível que tal atitude fosse ditada apenas pela curiosidade.
Minhas perguntas se referem a um assunto muito banal, comandante. São formuladas não apenas por mim, mas ocupam a mente de milhares de seres humanos que nascem, vivem e são eliminados nesta nave. Estas perguntas podem ser resumidas numa só: Para que vivemos?
O homem de cabelos brancos, que era senhor absoluto dos destinos, fitou o psicólogo. Suas mãos estavam pousadas sobre a mesa. Ps-5 notou que os dedos tremiam nervosamente. Era um sinal animador.
Para que vivemos? Ora, esta é uma pergunta muito estranha, Ps-5, se é que me permite falar assim. Mas sua tarefa especializada desculpa a curiosidade que o fez formular essa pergunta. O que me admira é que R-75 também me venha com uma pergunta desse tipo. Atrevendo-se a vir à minha presença para ver respondida essa pergunta! O senhor, que afinal é um psicólogo, pode andar refletindo sobre isso, mas...
Estou esperando sua resposta — interrompeu-o o psicólogo abruptamente. Seu braço pendia junto ao corpo e a mão sentiu a presença tranqüilizadora da perigosa arma energética. — Não se esquive à minha pergunta, comandante.
Desta vez, o comandante mostrou sem rebuços seu espanto. De acordo com as leis vigentes, era senhor absoluto da vida e da morte dos seres que habitavam o mundo metálico. Uma palavra sua bastava para que a pena mais severa fosse imediatamente executada. E a desobediência sempre era punida com a morte. O que estava presenciando agora era mais que a desobediência.
Era um motim!
Muito bem, Ps-5, o senhor terá sua resposta. Cada um de nós vive para um dia prestar um serviço à comunidade por meio da morte. A decomposição de um organismo no conversor fornece novas energias às máquinas da nave. Os vivos têm de respirar, comer e beber; os geradores precisam ser alimentados e a rota deve ser mantida.
Por quê? Para quem serve isso, se todos vamos morrer?
Desta vez, o comandante não deu atenção às palavras de seu interlocutor.
Qualquer pessoa que só pensa em seu insignificante destino comete um crime contra nossa comunidade. O indivíduo não conta. Quem não quiser submeter-se terá de entregar sua energia física, antes que esteja terminado o tempo que lhe foi concedido. Ninguém vive sem preencher uma finalidade.
Que objetivo é esse?
O objetivo de cada um consiste em terminar seus dias no conversor. E o destino de nosso povo é desconhecido.
Quero conhecer esse destino; foi por isso que vim até aqui.
O comandante lançou um longo olhar pensativo para Ps-5. Finalmente sacudiu a cabeça.
Mesmo que quisesse, não poderia atender a seu desejo. Também não conheço o objetivo supremo. Apenas estou cumprindo a tarefa que me foi confiada pelo destino. É só o que posso fazer. Não demorará muito, e meu lugar será ocupado por outra pessoa. Não sei se essa pessoa teria paciência para ouvi-los por um segundo que fosse.
O psicólogo sentiu que a palestra estava entrando num estágio crítico. Estava na hora de pôr as cartas na mesa para forçar a decisão.
No momento em que outra pessoa ocupar seu lugar, o senhor terá de morrer. Será que o senhor espera esse momento com uma alegria e satisfação toda especial, comandante?
A resposta demorou mais de um minuto.
O inevitável me deixa frio e indiferente. Quando, uma geração atrás, aceitei o lugar, já conhecia essa norma. Fui eu quem levou ao conversor a pessoa que me precedeu. Portanto, não poderei escapar ao mesmo destino. Escolho um rapaz inteligente da nova geração e faço dele o O-l e, portanto, meu sucessor. Para demonstrar sua gratidão, assim que eu lhe der o sinal, ele me matará.
Será que o senhor nunca pensou em retardar esse desfecho, a fim de viver mais um pouco? — perguntou Ps-5. — Quer nos fazer crer que encara este tipo de morte, sem a menor comoção? Não acredito!
Com os senhores acontece a mesma coisa — retrucou o comandante. — No momento em que resolveram dirigir-me estas perguntas, os senhores se conformaram com o fato de que seriam mortos imediatamente. Ou será que acreditam que ainda verão o fim deste dia?
Sim, comandante, acreditamos nisso. E digo mais. Não viveremos só até hoje de noite, até amanhã ou até o dia em que o senhor resolva mandar-nos ao conversor. Viveremos até que a natureza decida nossa morte. Viveremos nossa vida até que chegue o fim natural.
O comandante sacudiu a cabeça; estava muito sério.
Não viverão, não! O que estão pedindo é uma rematada loucura. Os senhores envelheceriam e representariam uma carga para a comunidade. Na fase final de sua vida, seriam inúteis para nosso povo e destruiriam todas as vantagens que conseguimos criar em muitos anos de atividade. Ninguém de nós deve ter uma morte natural, pois isso representaria o fim de nossa raça. É o que nos diz o raciocínio. Haveria crianças demais, gente demais, e o lugar seria escasso.
Quem terá de decidir isso é a natureza. Se suas palavras fossem verdadeiras, ela, a natureza, nos faria morrer na flor dos anos. Acontece que não faz nada disso. Por quanto tempo pode viver o ser humano, comandante? O senhor saberia dizer? Se não sabe, como pode fixar nosso tempo de vida? Será que não pronuncia as sentenças de morte antes da hora?
O tempo de vida não se determina pelo tempo de vida biológico, mas pelas circunstâncias espaço-físicas de nosso mundo. Nunca podemos permitir que o número de nascimentos seja excessivo, nem que o de mortes seja insuficiente. Nosso destino resulta da necessidade de mantermos o equilíbrio...
É um destino cruel e injusto, comandante. Viemos para promover uma radical modificação. Não queremos assistir mais ao desprezo e ao desperdício das vidas. O que está em jogo não é apenas nossa vida, mas a de nosso povo. A natureza concedeu a cada um de nós o direito de viver até que chegue a hora da morte, se é que me posso exprimir assim. Não sei quem criou as leis que regem nossa existência, mas acho que o Criador do Universo há de maldizer o senhor e essa pessoa.
O comandante empalideceu.
Eu lhe proíbo que fale assim! — gritou em tom indignado.
Mas Ps-5 resolveu jogar todas as cartas.
O senhor não me pode proibir nada, comandante. Sabemos perfeitamente que nossa vida estará perdida, se nos submetermos à sua vontade. Portanto, se resolvermos eliminar as leis antigas e substituí-las por outras melhores, não temos nada a perder. E o senhor nos ajudará a fazer isso. A título de recompensa nós o presentearemos com o resto de sua vida natural. É esta a proposta que lhe fazemos. O senhor poderá recusá-la se tiver coragem e for suficientemente louco.
A mão do comandante ergueu-se da mesa e aproximou-se de um botão. O psicólogo sorriu.
Não o impedirei de dar o alarma para os guardas. Quanto mais cedo eles aparecerem, tanto mais cedo todos os homens desta nave saberão o que aconteceu. Posso garantir-lhe que eles não se manterão inativos quando virem que estamos sendo trucidados. Se não der o alarma, ainda teremos oportunidade de discutir o assunto e chegar a uma solução harmoniosa. Aliás — tirou do bolso a arma energética e destravou-a — como vê, não estamos indefesos.
O comandante ficou perplexo ao ver a arma. Hesitou um pouco e recuou a mão. O psicólogo sorriu.
Muito bem — disse em tom amável. — Vejo que é um homem razoável. Podemos continuar a falar francamente.
Não se entregue a qualquer ilusão, Ps-5 — advertiu o comandante. — Ainda não dei o alarma porque quero evitar um derramamento de sangue. Este exerceria uma influência nefasta sobre a ordem estabelecida. A redução excessiva do número de habitantes de nosso mundo seria tão perigosa como seu aumento desmedido. O senhor já deve ter compreendido que o segredo de uma vida bem regrada é o justo equilíbrio...
Justo? — indagou Ps-5, numa ironia mordaz. — É menos injusto evitar o nascimento de uma criança que matar, antes da hora, um ser já formado.
O senhor quer negar os direitos da vida adormecida? — disse o comandante em tom resignado. Ao que parecia, estava convencido de ter razão sob o seu ponto de vista. — Os senhores só sairão desta sala em companhia dos guardas do conversor...
Esperemos! Aliás, isso me faz lembrar outra coisa. O senhor acaba de falar em “vida adormecida”. Isso traz à tona outro problema. O senhor poderia dizer quem elaborou as leis que nos regem? Foi um dos homens que o precederam no cargo?
O senhor não tem direito de formular essa pergunta!
Esse aspecto é secundário. Tenho o poder! — o psicólogo ergueu a arma. — Posso matá-lo!
Um sorriso de desprezo surgiu no rosto do comandante.
Meu tempo terminará dentro de poucos dias, e então morrerei de qualquer forma. Não receio a morte, para a qual me preparei durante toda a vida. Com isso, o senhor não me obrigará a revelar o segredo que tem garantido a existência de nosso povo.
Diga-me uma coisa, comandante. Será que só a pessoa que está no comando tem direito de conhecer os segredos?
Perfeitamente — confirmou C-l, irrefletidamente.
Excelente! — respondeu Ps-5. — Quer dizer que, antes de morrer, o senhor terá de informar seu sucessor. Se não o fizer, a ordem estabelecida entrará em colapso. Se eu o matasse, o segredo morreria com o senhor. Não é isso?
O comandante reconheceu o terrível engano que acabara de cometer. Ficou ainda mais pálido.
O senhor não se atreveria...
Atrevo-me, sim. Mataremos o senhor e seu sucessor nunca terá oportunidade de conhecer a verdade pela sua boca, mesmo que isso nos leve à morte. Assim seu sucessor se veria totalmente desamparado. Acho que não será difícil imaginar as conseqüências.
Para que o comandante tivesse oportunidade de refletir sobre as conseqüências de seu comportamento obstinado, Ps-5 calou-se. Viu que o médico recuperara a confiança. R-75 manteve-se imóvel, com a arma apontada. Em seu rosto havia uma expressão resoluta.
Depois de algum tempo, o comandante disse:
Está bem; os senhores ganharam. Não vejo nenhuma saída. Se eu violar as leis, revelando aos senhores o segredo de que só meu sucessor deveria ter conhecimento, estarei servindo melhor ao meu povo e ao espírito dos antepassados — levantou-se e manteve-se em atitude orgulhosa diante dos conspiradores que exigiam a morte natural. — Mas garanto-lhes que os senhores não viverão muito tempo com esses conhecimentos.
Deixe isso por nossa conta — respondeu Ps-5 em tom tranqüilo. — Fale!
Falarei muito pouco, mas eu lhes mostrarei uma coisa — apontou para uma segunda porta, firmemente embutida no metal. — Venham comigo.
O psicólogo demonstrou certa hesitação, porque desconfiava de que se tratasse de uma armadilha, mas logo percebeu que não lhe restava outra alternativa senão confiar no comandante. Viu-o caminhar em direção à porta e girar a roda.
Não se preocupem; atrás desta porta fica apenas a cabine-dormitório; e, lá nos fundos, fica aquilo que os senhores querem saber.
A pesada porta abriu-se, pondo à mostra um aposento. Seguiram o comandante.
O camarote era praticamente igual ao que já conheciam e àqueles ocupados por eles mesmos. Mas havia uma diferença. Possuía mais uma saída. Havia uma porta situada bem em frente à entrada. Era um verdadeiro monstro metálico dotado de fechaduras eletrônicas e outros mecanismos de segurança. Só mesmo a pessoa que a conhecesse estaria em condições de abri-la.
O comandante apontou para a porta.
É ali que fica o segredo de nossa vida. Só o comandante pode entrar neste recinto. Qualquer outra pessoa que o fizer terá de morrer. Não posso modificar a lei; mesmo que quisesse poupá-los, não escapariam ao castigo. A sentença será executada pelos vigias.
Como é que os vigias iriam saber que estivemos aqui? — perguntou o psicólogo. — Não são seres feitos de carne e osso; não passam de máquinas construídas por nossos antepassados. Por que temos de submeter-nos à sua vontade? As máquinas não foram feitas para servir ao homem? Por que aqui tem de ser o contrário?
O comandante não respondeu. Continuou a caminhar e parou em frente à porta. Sem dizer uma palavra, pôs-se a mexer nos controles.
Pela primeira vez, D-3 fez uso da palavra.
Meu amigo Ps-5 não se lembrou de mencionar que, caso o senhor esteja tramando algo, nós o mataremos imediatamente. As armas que temos nas mãos são mortais. Tirei-as de um vigia.
O comandante estacou em meio ao movimento.
Um vigia? E ele não reagiu?
Como poderia ter reagido? Coloquei-o fora de ação. Por dentro está transformado num monte de sucata.
Um vigia...
Os vigias são fáceis de enganar, comandante — disse o médico em tom irônico. — Dentro de pouco tempo não haverá mais nenhum vigia nesta nave, e então o homem voltará a reinar.
O comandante não hesitou mais. Girou repentinamente a roda, desligou as barreiras eletrônicas e abriu a porta.
Entraram na sala.
Estava completamente vazia. As paredes estavam nuas... com exceção de uma.
Nessa parede havia uma grande tela.
Nela viram a imagem aumentada de um velho de cabelos brancos.
Parecia observá-los, e logo depois, começou a falar...

* * *

Fazia quatro dias que o Maquinista Quatro não via o médico. A droga maravilhosa, que despertara sonhos tão belos, já terminara. Se não conseguisse logo uma nova provisão, acabaria enlouquecendo. M-4 sabia perfeitamente que sua vida não seria suportável sem sonhos.
Avisou que estava doente, mas quem o atendeu não foi D-3, mas um médico desconhecido.
De qualquer maneira conseguiu um dia de folga. Mas isso não lhe deu muito prazer, pois os olhares de M-7, que também não estava de serviço, podiam ser tudo menos agradáveis.
Você realmente não parece nada bom, M-4. O que há com você?
Muita coisa — respondeu o viciado, em tom lacônico. — Antes de mais nada, preciso de sossego.
Mas M-7 não se deu por vencido.
A mim você não engana, meu velho. Até um cego enxerga que alguma coisa o preocupa. Poderá usar de franqueza comigo, embora quase não nos conheçamos. Afinal já vivemos juntos neste camarote há alguns anos e provavelmente o faremos até o fim de nossas vidas.
Vivemos!? — exclamou M-4 em tom de surpresa.
Estacou, assustado. Já dissera demais. Mas M-7 apenas sorriu.
Sou da mesma opinião que você. Acho que a vida que levamos é inútil e sem esperanças. Posso falar sem receio, já que você pensa como eu. Afinal, o que estamos esperando? O comando da morte, que nos levará ao conversor? Você não acha que estou com a razão?
Se está! — disse M-4.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html