sexta-feira, 19 de agosto de 2016

P-080 - Nas Cavernas dos Druufs - Kurt Mahr [Parte 2]

O recinto estava frio e escuro. Perry Rhodan acordou com um pensamento pouco amistoso, provocado por aquilo que os druufs chamavam de hospitalidade.
Levantou-se. Para seu espanto, isso não lhe custou nenhum esforço. Ao menos o medicamento cumprira aquilo que fora prometido pelos druufs: não apresentava nenhum efeito colateral.
Rhodan estendeu a mão e procurou tatear as paredes da cela em que se encontrava. Era simples. O recinto tinha o formato aproximado de um quadrado de quatro metros de lado. Nem mesmo com um salto conseguiu atingir o teto. Devia ficar a quatro ou cinco metros de altura.
Numa das paredes parecia haver uma porta. Rhodan sentiu duas ranhuras paralelas. Além disso, havia um campo de gravitação artificial, pois a gravidade no interior do recinto não ultrapassava a intensidade normal da gravidade da Terra. Rhodan ficou espantado. Era estranhável que os druufs, que o haviam trancafiado numa cela fria e pequena, na qual não havia nada além dele mesmo, se tivessem dado ao trabalho de tornar-lhe a situação mais suportável por meio de um campo de gravitação artificial.
De repente lembrou-se da idéia que tivera no momento em que a injeção o deixou inconsciente. Agachou-se no chão e começou a concentrar-se. Esforçou-se para imaginar a presença de Fellmer Lloyd. Depois de alguns minutos conseguiu. O rosto de Lloyd surgiu num pálido círculo luminoso que se destacava na escuridão. Estava sorrindo.
Onde está o senhor? — emitiu Rhodan.
Numa cela escura — respondeu Lloyd imediatamente. — Seu tamanho é de quatro metros por quatro metros. O teto é bem alto, não há móveis, é fria, tem uma porta que está trancada e há um terrível mau cheiro.
É amoníaco — disse Rhodan.
Proferiu a palavra em voz alta, porque os pensamentos se formulavam com maior precisão, quando concebidos juntamente com a palavra falada.
Também ouvia as palavras de Fellmer Lloyd como se este as pronunciasse à sua frente. Mas isso não passava de uma ilusão dos sentidos. Era o dom telepático de Lloyd que provocava uma espécie de ressonância em suas células cerebrais.
Perry Rhodan não era um telepata nato. Ou melhor, sempre possuíra essa qualidade, mas a mesma era recessiva. Só depois de um treinamento intensivo e do apoio de telepatas experimentados, Rhodan pôde colocar-se em condições de usar a faculdade. Continuava a ser um telepata fraco, pois só conseguia receber mensagens, quando as condições fossem extraordinariamente favoráveis. Mas o dom lhe permitia entrar em contato com outro telepata.
Preste atenção — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Deve haver um meio de abrir a porta. Os druufs não têm nenhuma necessidade de prender-nos. Sabem perfeitamente que nunca sairíamos espontaneamente, pois existe o ar venenoso do planeta.
Lloyd parecia fazer um gesto afirmativo.
Isso parece bastante razoável — emitiu. — Acontece que na porta não há maçaneta nem botão.
Lembra-se da mesa? — perguntou Rhodan. — Bastou aproximarmo-nos de determinado lugar e logo a mesa ficou na sua posição normal.
Ah, sim. Então o senhor acha que basta colocar a mão em determinado lugar para que a porta se abra?
Exatamente. Provavelmente para os druufs isso nem chega a ser um mistério. É de supor que estejam acostumados a abrir portas dessa forma.
Mas é possível que esse lugar fique tão alto que nem conseguiríamos alcançá-lo — ponderou Lloyd. — Afinal, os seres-toco têm três metros de altura.
Temos de experimentar — decidiu Rhodan. — Não podemos ficar parados, esperando que os druufs tenham outra idéia. Precisamos sair.
Assim que terminou de proferir estas palavras, sentiu a perplexidade de Lloyd. Adiantando-se à pergunta deste, disse:
Por quanto tempo você agüenta sem respirar?
Lloyd ficou confuso.
Como?
Quanto tempo o senhor pode passar sem respirar?
Uma luz acendeu-se na mente de Lloyd.
Não sei exatamente — respondeu. — Talvez seja mais ou menos um minuto.
Não se esqueça de que terá de trabalhar durante esse tempo — lembrou Rhodan. — De qualquer maneira terá tempo de sobra. Preste atenção. Passarei a expor meu plano. Repita cada frase, para que eu saiba que a transmissão está funcionando.

* * *

Os terranos passaram a chamar esse druuf de Tommy, um comandante político. Na verdade, seu nome era composto de uma série de ultra-sons, imperceptíveis ao ouvido e impronunciáveis pela língua do homem.
O conjunto usado dava a entender que se tratava de um alto dignitário. Esse conjunto era ao mesmo tempo um traje especial de trabalho e de proteção contra radiações. Para os druufs, o cinza-escuro era a cor mais bela do mundo. Por isso, várias faixas cinza-escuras enfeitavam o traje quase negro do druuf, a fim de indicar sua graduação.
Por mais que esses seres diferissem dos homens, os pensamentos de ambas as raças seguiam trilhas idênticas. Este druuf, por exemplo, estava sentado atrás de uma monstruosa mesa, e trabalhava em alguma coisa. Procurava calcular por quanto tempo ainda teria de esperar nos recintos pouco agradáveis da base subterrânea do planeta de metano, antes que viesse o revezamento.
Aceitara o posto de comandante da base, pois, assim que voltasse para Druufon, este lhe renderia uma promoção. Para isso, teria de passar meio ano fora de Druufon, no interior das cavernas. E agora só faltavam poucos dias para completar meio ano. Seu sucessor deveria chegar a qualquer momento.
Tommy lembrou-se de que a acomodação adequada dos prisioneiros e a frustração da tentativa de fuga — para ele, a manipulação do gerador antigravitacional pelos prisioneiros representava nada menos que isso — seriam atos que pesariam a seu favor, quando chegasse o momento de ser avaliada sua atuação.
Quando voltou a dedicar sua atenção ao trabalho que tinha sobre a mesa, seus quatro olhos facetados brilhavam. Uma comissão de altos funcionários anunciara sua chegada. Desembarcariam no planeta de metano dentro de alguns dias de Druufon. Não sabia se nessa oportunidade a base ainda se encontraria sob seu comando ou se seu sucessor já teria assumido as funções.
Ao lembrar-se de que devia tomar todas as providências para que os visitantes fossem tratados condignamente, Tommy sentiu-se contrariado.
O anúncio da próxima visita trouxe certo mistério. Os funcionários viriam para interrogar os prisioneiros. Entre os nomes anunciados havia os de alguns membros da aristocracia de Druufon.
Por que essa gente se daria ao trabalho e aos incômodos de uma visita ao planeta de atmosfera venenosa? Por que não mandaram levar os prisioneiros a Druufon para interrogá-los?
Tommy não sabia quem eram os prisioneiros dos quais tinha de cuidar. Uma espaçonave os trouxera e os mesmos lhe foram entregues com a indicação de que se tratava de terranos. Ainda lhe disseram que, em hipótese alguma, deveria deixar que fugissem. Também outras pessoas com as quais entrou em contato não sabiam qual a grande importância dos prisioneiros.
O simples fato de a comissão pretender vir de Druufon parecia indicar que, naquela cidade, desejavam manter em segredo não só a identidade dos prisioneiros, mas até mesmo o próprio ato de prisão.
Tommy voltou a estudar a lista dos nomes. Depois de algum tempo, teve a impressão de que deveria procurar um dos subordinados para falar sobre o problema. Pegou o pequeno videofone, que se encontrava sobre a mesa, e comprimiu uma tecla. A tela iluminou-se e o sinal de linha livre se fez ouvir; era um ruído agudo e chiante.
Mas a tela continuou vazia. Ninguém respondeu do outro lado da linha.
Que diabo! O que aconteceu?”, pensou irado.
A essa hora, seu subordinado, que os terranos teriam chamado de Oscar, um oficial-cientista, devia estar trabalhando. Não tinha autorização para sair do local de trabalho. Por que não respondia?
Tommy deixou a ligação em aberto e voltou a dedicar sua atenção à lista. Depois de algum tempo começou a ficar nervoso. Levantou-se e foi até a porta. Para abri-la, colocou a mão finamente articulada na parede junto à porta e à meia altura desta.
A porta escorregou para o lado, deixando livre a entrada da comporta. Do outro lado estava o corredor principal do sistema de cavernas. Uma vez no interior deste corredor, o druuf colocou o capacete e fechou-o. Deixou que a porta interna se fechasse e esperou que as bombas aspirassem o ar respirável e enchessem o recinto com a mistura venenosa de metano e amoníaco.
Saiu. Nessa parte da caverna existiam as condições de gravitação do planeta Druufon. Mais adiante, no lugar onde ficavam as celas dos prisioneiros, até haviam criado mais um campo gravitacional que reduzia a gravidade a 1 G. Não queriam cansar desnecessariamente os terranos, antes da chegada da comissão. Mas, no resto da caverna, reinava integralmente a gravidade própria do planeta de metano. Seria um desperdício de energia proporcionar proteção antigravitacional para toda a caverna, pois, nas outras partes, só havia peças sobressalentes e matérias-primas, e os homens que trabalhavam lá eram de graduação inferior.
Tommy subiu na fita rolante e saltou na terceira porta adiante. Chegou à comporta da sala com a qual procurara entrar em contato pelo videofone. Abriu imediatamente a comporta e entrou. O bombeamento foi repetido, mas em seqüência invertida. Em apenas alguns segundos, a atmosfera venenosa, sob alta pressão, foi expelida pelas bombas. Simultaneamente, o bombeamento encheu o recinto da mistura de oxigênio e nitrogênio. Tommy deixou o capacete cair nas costas e, abrindo a porta interna, entrou na sala.
À primeira vista, o recinto parecia estar vazio, com exceção do mobiliário abundante que o guarnecia. Não viu Oscar. Seus gritos furiosos ficaram sem resposta. Contornou a escrivaninha e...
Logo viu Oscar. Estava estendido atrás da mesa de trabalho e tinha um olho fechado.
Tommy soltou um grito estridente de surpresa e abaixou-se para ver o que havia acontecido com seu subordinado. Apalpou sua mão. Estava mole e fria. Pôs o dedo em determinado ponto do braço onde deveria sentir a pulsação da mistura de sangue e linfa. Durante alguns terríveis segundos, chegou a acreditar que Oscar estivesse morto. Mas comprimiu mais fortemente o lugar e sentiu as ligeiras batidas.
Dali a pouco descobriu a ferida, que se encontrava na parte inferior da esfera sem cabelo, perto do lugar em que a mesma se ligava ao corpo. A “esfera” estava amassada. Oscar devia ter sido atingido por uma pancada muito violenta. Ou talvez apenas tivesse caído.
De qualquer maneira já sabia por que Oscar não respondera a seu chamado. O ferimento era grave. Se fosse um pouco mais profundo, teria sido mortal. No entanto, era provável que Oscar escapasse com vida.
Porém, as funções cerebrais estariam prejudicadas para sempre. O cérebro dos druufs era muito sensível, desde que se soubesse onde golpear.
Tommy sabia o que devia fazer. Antes de mais nada teria de avisar o serviço médico, para que este prestasse os primeiros socorros a Oscar. Depois deveria providenciar, a fim de que o paciente fosse levado a Druufon. No planeta de metano não seria possível dispensar-lhe o tratamento de que precisava. Tommy refletiu por algum tempo sobre se esse incidente poderia lançar uma luz desfavorável na sua atuação como comandante. Mas logo concluiu pela negativa. Se Oscar caiu e sofreu ferimentos graves, o único culpado era ele mesmo.
Tommy ergueu-se. Isso lhe custou um considerável esforço, pois o corpo dos druufs foi feito exclusivamente para andar ereto. Ficar sentado era bastante desagradável, muito embora essa posição fosse indispensável para muitos trabalhos. Só de noite ficavam deitados. Não foi nada fácil erguer aquele corpo que nas condições gravitacionais de Druufon pesava quatrocentos quilos.
Por isso, quando descobriu a pequena criatura, que estava de pé em cima da mesa, já era.
Fez um esforço para erguer-se rapidamente. Mas a criaturinha segurava um objeto reluzente e comprido, maior que ele mesmo, brandiu-o ameaçadoramente. Tommy procurou desviar-se do golpe, mas não conseguiu sair em tempo do raio de ação daquela vara. A forte pancada atingiu-o exatamente no mesmo lugar em que Oscar fora atingido, isto é, na junção da cabeça com o tronco. Tommy deu mais um passo, cambaleou e caiu ruidosamente sobre seu subordinado.
Nem chegou a ver o pequeno ser atirar para longe a vara reluzente e massagear os braços, praguejando sempre.

* * *

Fellmer Lloyd bem que precisava da massagem. Acabara de derrubar dois druufs e colocara toda a força de que dispunha nos golpes desferidos. Fellmer Lloyd teve a impressão de que os braços lhe estavam sendo arrancados, mas conseguira escapar ileso.
O plano de Perry Rhodan estava funcionando!
E era tão simples. A pressão da mistura de amoníaco e metano no interior da caverna era de dois mil torrs, ou seja, 2,7 atmosferas. O ser humano poderia perfeitamente suportar essa pressão, desde que tapasse os ouvidos e prendesse a respiração.
Cada recinto da caverna possuía sua comporta independente, e a troca da atmosfera existente no interior desta demorava apenas alguns segundos. Por isso, o ar venenoso nos corredores já não era um obstáculo insuperável. Bastava colocar um pedacinho de pano nos ouvidos e no nariz, comprimir a mão contra a boca, precipitar-se até a comporta da sala mais próxima e entrar.
Era verdade que havia um fator de incerteza: a gravitação. Perry Rhodan esperara que fora das celas dos prisioneiros reinasse a gravitação normal do planeta. Nesse caso, provavelmente, teriam de arrastar-se com dificuldade, e talvez levassem mais de quarenta segundos para chegar de uma comporta a outra. Mas, por um feliz acaso, naquela parte do subterrâneo reinava a gravitação de Druufon, correspondente a 0,95 do nível terrano.
Uma vez concluídos os preparativos, Perry Rhodan e Fellmer Lloyd puseram-se a caminho simultaneamente. Cada um viu o outro abrir a comporta e sair correndo, um para a direita e outro para a esquerda. As celas eram vizinhas.
De início acreditavam que os druufs os houvessem abrigado num canto afastado da caverna. Raciocinavam de acordo com a mentalidade terrana. As celas ficariam no porão e os escritórios no primeiro andar. Fellmer Lloyd não demorou a descobrir que, neste ponto, as idéias dos druufs eram completamente diferentes. Mas, antes disso, teve a sorte de encontrar uma espécie de depósito. Assim que sua comporta se abriu, saiu correndo sem escolher a direção. Não perdeu tempo em escolher a fita rolante mais adequada. Depois, deslocando-se fora das fitas, chegou à primeira comporta. Isso não lhe custou maiores esforços. No momento em que manipulou o mecanismo de abertura — já sabia que todos ficavam à direita da porta, a pouco menos de dois metros de altura — sentiu-se martirizado por fortes zumbidos no ouvido. Mal conseguiu prender a respiração até o momento em que a comporta se encheu com a mistura respirável. A rápida normalização da pressão deixou-o um pouco tonto, mas sentia-se forte e ávido de ação como antes.
Na sala que ficava atrás da comporta havia uma quantidade enorme de armações sobre as quais se viam os mais variados objetos, desde minúsculos parafusos até tubos de três metros de comprimento, que provavelmente constituíam peças sobressalentes dos aparelhos de bombeamento. Face ao tamanho dos druufs e às dimensões dos recintos em que viviam, escolheu um pedaço de tubo de pouco menos de dois metros de comprimento. Era bem pesado, mas teve a impressão de que conseguiria segurá-lo e usá-lo para desferir golpes, caso isso se tornasse necessário.
Não “ouviu” nada de Perry Rhodan.
Captou fragmentos de idéias, mas não conseguiu descobrir de onde e de quem provinham. Concentrou-se fortemente e percebeu que, na sala contígua do lado esquerdo, havia alguém. Reconheceu o modelo de vibrações, mas não foi capaz de ler os pensamentos. Estes provinham de um cérebro estranho. Do cérebro de um druuf.
Sentiu-se dominado pelo pânico. Já sabia que a parte do subterrâneo em que se encontrava não era nenhum recanto afastado nem estava vazia. Devia prevenir Perry Rhodan. Este era telepata, mas quando se defrontasse com alguém que pensasse com um cérebro inumano, não reconheceria qualquer pensamento; quando muito sentiria dor de cabeça. Lloyd concentrou-se ao máximo para chamá-lo. Depois de algum tempo, conseguiu estabelecer contato com Rhodan, que, neste meio tempo, havia penetrado nas celas de Reginald Bell e Atlan e os avisara sobre os acontecimentos mais recentes. A essa hora, os três estavam vasculhando o corredor do lado oposto ao da cela de Lloyd.
Fellmer Lloyd pegou o pedaço de tubo e pôs-se a caminho. Desta vez, soube controlar melhor a respiração; quando se encontrava no interior da comporta seguinte, também não sentiu qualquer espécie de mal-estar. Assim que conseguiu respirar normalmente subiu pelas travessas do sistema de bombeamento.
Encontrou um lugar em que podia prender as pernas atrás de uma vareta de metal, e assim ficou com as mãos livres. A posição não era muito cômoda. Esperava não ter de suportá-la por muito tempo.
Experimentou a melhor maneira de manejar a “arma” de que acabara de apoderar-se e ficou satisfeito com o resultado. Depois bateu fortemente com a peça metálica contra a porta interna. Percebeu que o druuf que se encontrava no interior da sala notara alguma coisa. Voltou a bater. O druuf levantou-se para verificar o que estava acontecendo em sua comporta. Fellmer Lloyd estava pendurado uns três metros e meio acima do chão. O druuf viu-o imediatamente, mas o susto paralisou-o por alguns segundos. Os olhos facetados brilhantes fitaram a estranha e pequena criatura. Fellmer Lloyd teve tempo para levantar o tubo metálico e golpear violentamente a cabeça do druuf.
Não esperava que o resultado fosse tão rápido. O fato é que o ser-toco caiu, desfalecendo. Lloyd desceu pelas travessas metálicas e examinou a ferida que causara no druuf. Não parecia muito perigosa. Concluiu que, nessa parte do crânio, devia localizar-se algum órgão muito sensível, talvez o cérebro. Procurou lembrar o lugar.
Tinha de contar com a possibilidade de que o corpo do druuf, deitado parte na comporta, parte no interior do recinto, provocaria a desconfiança de qualquer pessoa que entrasse ali. Por isso fez um esforço tremendo e arrastou-o até a gigantesca escrivaninha. Escondeu-o atrás da mesma e começou a procurar armas. Não acreditava que ele, Perry Rhodan e os dois outros conseguissem conquistar a base subterrânea, se tivessem que derrubar todos os habitantes da caverna, um por um, com a peça de metal.
Logo depois, ver-se-ia obrigado a usar pela segunda vez a arma original.
Assim que iniciou sua busca, o videofone chamou. Naturalmente deixou de responder ao chamado. Nem saberia como lidar com o aparelho. Tornou-se ainda mais cauteloso.
Dali a pouco, captou as vibrações cerebrais de um druuf que se aproximava!
Escondeu-se com a “arma”, entre a escrivaninha e uma espécie de arquivo, e ficou observando as ações do “monstro”.
Depois, sem que o druuf que se inclinava sobre o companheiro inconsciente percebesse nada, conseguiu subir à escrivaninha. Assim que o ser-toco começou a erguer-se, Lloyd o golpeou com força e obteve excelente resultado: mais um fora de ação.
Continuou a procurar armas. A sala estava recheada de armários de todos os tamanhos. O maior deles tinha as dimensões de uma casa de fim-de-semana dos terranos. As portas abriam-se da mesma maneira que as da comporta.
Fellmer Lloyd levou mais ou menos uma hora para revistar todos os armários; não encontrou nada que se parecesse com uma arma. Conhecia perfeitamente os artefatos em forma de pistola usados pelos druufs e tinha certeza de que nenhum lhe tinha passado despercebido.
Subitamente teve uma idéia. Que idiota não era ele! Onde é que um homem costuma guardar a pistola? Num lugar em que possa alcançá-la facilmente e com rapidez.
Fellmer Lloyd teve de subir ao corpo imóvel do druuf que golpeara por último para alcançar a gaveta da escrivaninha. Examinou-o cuidadosamente. Viu que continuava inconsciente. Também viu meia dúzia de faixas cinzentas que se estendiam sobre os ombros de seu conjunto-uniforme. Se essas faixas fossem divisas, esse sujeito devia ocupar ao menos o posto de comando. Portanto, seria um Tommy, um político.
A gaveta não era uma gaveta do tipo que Lloyd imaginava. Consistia de duas peças triangulares, que saíam à direita e à esquerda de quem estivesse sentado atrás da escrivaninha. Para tanto, bastava que se colocasse a mão em determinado lugar. Fellmer Lloyd examinou o conteúdo das gavetas e, após alguns segundos, segurava a pistola. Muito satisfeito, examinou-a e descobriu que não possuía qualquer peça móvel além do pequeno gatilho. Parecia muito simples. Fez pontaria para a porta de um armário e puxou o gatilho.
Não aconteceu nada. Fellmer Lloyd voltou a puxar o gatilho. O efeito continuou a ser nulo. Sentiu-se perplexo e examinou a pistola de todos os lados. Finalmente teve a idéia de que talvez se tratasse de uma arma de choque; e ninguém poderia dar um choque de nervos numa porta de armário. Precisava de outro objeto para realizar a experiência.
Acontece que não havia nenhum. E não tinha tempo para procurar. Havia coisas mais importantes em jogo.
Desceu de cima do druuf inconsciente e voltou a examiná-lo.
Deve haver uma possibilidade de evitar o amoníaco, o metano e a pressão de 2,7 atmosferas”, pensou, depois de recordar-se do ardor que sentira, quando da corrida pelo corredor.
Fitou os dois druufs. E teve a idéia salvadora.

* * *

No início, as coisas foram mais fáceis do que Rhodan julgava possível. A distância da comporta de sua cela até o recinto vizinho era de uns cinco metros. Levou menos de três segundos para percorrê-la. Da primeira vez, ficou cinqüenta segundos com a respiração presa. Isso era perfeitamente suportável. Mas os vapores cáusticos do amoníaco eram muito mais desagradáveis. Rhodan procurou avançar com os olhos fechados. Não haveria como errar o caminho. Bastava seguir junto à parede.
Encontrou Reginald Bell e Atlan. Reginald Bell demonstrou certa surpresa, enquanto Atlan afirmou que, naquele momento, tivera a mesma idéia. Perry Rhodan não teve a menor dúvida de que falava a verdade. Na mente de cada um deles sempre caminhava uma idéia à frente ou atrás da do outro.
Saíram para revistar os arredores. Constataram que quase todos os recintos, situados além de sua cela, eram depósitos. Viram uma porção de coisas, mas nada que lhes pudesse ser útil. Estavam à procura de armas e dos trajes protetores, que os druufs lhes haviam tirado. Se não os encontrassem poderiam voltar à sua cela e esperar até que os “monstros” tivessem outra idéia. Descobriram quatro salas que pareciam ser escritórios. Estavam vazias e, ao que parecia, já há muito tempo não vinham sendo usadas. Uma fina camada de pó cobria o chão e os móveis. Era claro que ninguém deixaria uma arma num lugar como este.
O que os tranqüilizou foi o fato de não terem visto nenhum druuf. Se isso acontecesse antes que tivessem uma arma, o encontro provavelmente seria desastroso para eles.
Depois de duas horas, aproximadamente, chegaram a um lugar em que o corredor parecia terminar. Uma parede de rocha natural fechava-o por completo. Mas as fitas rolantes passavam por baixo da parede, motivo por que Rhodan pensou que ali houvesse uma porta camuflada. Procuraram abri-la, mas a parede não saiu do lugar. Atlan disse que talvez os druufs apenas tivessem instalado o mecanismo de reversão da fita rolante atrás da porta, a fim de não perturbar o movimento no interior do corredor.
Haviam chegado ao fim do caminho. Tinham revistado vinte e uma salas e não encontraram nada; só restava uma. Se nesta também não achassem o que estavam procurando, a situação seria praticamente desesperadora.
Penetraram na última sala. Nos fundos do corredor, a atmosfera era tão venenosa como na parte anterior, e assim não podiam colocar ninguém à frente da comporta para ver se porventura aparecia algum druuf. A sala era outro depósito. Nos armários, nas prateleiras e nas gavetas havia milhares de coisas diferentes, todas elas completamente inúteis para os prisioneiros.
Bastante abatidos, iniciaram o caminho de volta. Tinham uma pequenina chance de regressar às suas celas, antes que os druufs aparecessem ou o robô lhes trouxesse a comida.
Ao aproximarem-se da comporta, esta se abriu. O quadro que se lhes ofereceu era inconfundível. Três maciços druufs encontravam-se à sua frente, segurando aquilo que os prisioneiros procuravam desesperadamente há duas horas e meia: armas.
4



Conrad Deringhouse foi parar no interior do transmissor montado na base subterrânea.
Quando alguém procurou abri-la de fora, o fecho da porta gradeada tiniu. Olhando pela grade, Deringhouse viu um homem com um uniforme de capitão. Reconheceu Marcel Rous, comandante da base.
Bem-vindo, Sir — disse Rous laconicamente, enquanto Deringhouse saía do transmissor.
Deringhouse apertou-lhe a mão. A seu lado apareceram Gucky e Ras Tschubai. O pequeno rato-castor usava um traje espacial feito exclusivamente para ele.
Conrad Deringhouse já se recuperara do nervosismo passado a bordo da Califórnia. A primeira parte da missão fora bem sucedida; não se podia dizer que tudo correra sem incidentes, mas as coisas haviam sido feitas de acordo com os planos. Não havia a menor dúvida de que, a essa hora, a Califórnia já se encontrava em segurança.
O senhor está chegando em bom momento — disse Marcel Rous, dando início à palestra. — Alguma coisa está acontecendo no Universo dos druufs.
Deringhouse lançou-lhe um olhar de surpresa. Rous falou em palavras lacônicas no estranho S.O.S. captado há poucas horas.
O lugar de expedição da mensagem só pode ser um gigante de metano do tipo de Júpiter. Parece que os druufs mantêm prisioneiros terranos por lá. Já demos um nome ao planeta. Chamamo-lo de Rolando.
É um bonito nome — disse Deringhouse.
Porém o general estava alheio ao assunto. Refletia. Haveria alguma ligação entre a mensagem de S.O.S. e o pedido de socorro emitido por Ernst Ellert?
Deringhouse fitou a estação do transmissor. Uns vinte aparelhos desse tipo estavam montados num pavilhão de vinte por trinta metros. Era por meio deles que se fazia a ligação entre a base de Hades, situada no Universo dos druufs, e o Universo einsteiniano. Depois da instalação dos transmissores, já não era necessário que as naves terranas rompessem as linhas de bloqueio dos arcônidas e atravessassem a área de superposição, a fim de penetrar no Universo dos druufs, onde estes ficavam sempre de olho para que ninguém lhes estragasse os planos.
A única desvantagem do transmissor consistia no fato de que sua utilização só se tornava possível caso existisse outro aparelho do mesmo tipo, pronto para receber a remessa. Quando isso se desse, bastava comprimir um botão. Então os dois aparelhos forneceriam a energia necessária para que o objeto a ser transportado fosse levado de um aparelho ao outro, numa espécie de hipersalto.
Não vamos ficar parados por aqui — sugeriu Deringhouse. — Nosso amigo de Vagabundo, mais que qualquer outro, precisa de um local adequado, onde ninguém o perturbe. Nas próximas horas, terá que desenvolver uma concentração bastante intensa.
Com um sorriso, o Capitão Rous fitou o rato-castor. Este lançava olhares curiosos em torno e fez de conta que não tinha ouvido uma única palavra.
Rous levou-os pelo corredor que separava as duas fileiras de transmissores. O ar no interior do pavimento era puro e fresco. Ninguém desconfiaria de que às portas da base reinava um verdadeiro inferno, já que esse mundo sempre voltava a mesma face para seu astro central, motivo por que só conhecia temperaturas elevadíssimas. A jovem tecnologia terrana realizou esforços febris para construir, às pressas, e em meio a um segredo absoluto, uma base situada no território inimigo, e que quase chegava a ser mais que uma simples cabeça-de-ponte.
Junto ao pavilhão dos transmissores ficavam as salas ocupadas pela administração, inclusive o escritório no qual Marcel Rous costumava ficar, quando estava de serviço. Às vezes, costumava ficar demais, motivo por que no gabinete havia uma peça muito interessante. Tratava-se de um sofá. E sofá era justamente aquilo que Gucky, o rato-castor, estava procurando. Saltou até a peça e estendeu-se confortavelmente.
O Capitão Rous mandou que seu ordenança servisse um lanche aos hóspedes. Deringhouse ponderou que, a rigor, a refeição seria um jantar, pois os relógios indicavam vinte horas, tempo de Terrânia. Rous respondeu com um sorriso embaraçado que em Hades as coisas não podiam ser levadas tão a sério. As lâmpadas solares, brilhando no interior da base, nunca eram desligadas, e dessa forma cada um podia escolher à vontade suas horas diurnas e noturnas.
O lanche, composto de alimentos em conserva, foi servido prontamente. Seu sabor era apenas regular. O ordenança retirou-se, sempre pronto a receber novas ordens. O General Deringhouse começou a contar o que havia acontecido na Terra, levando-o a voar para Hades.
Na sua opinião o chamado de Ellert e a mensagem de S.O.S. têm a mesma causa? — perguntou Marcel Rous.
Não é bem isso — respondeu Deringhouse. — Não tenho essa opinião; apenas afirmo que talvez seja assim. Por isso, a primeira coisa que temos que fazer é entrar em contato com Ellert. Precisamos saber qual foi o motivo de seu chamado.
Via-se que Marcel Rous queria dizer mais alguma coisa.
Mais alguma sugestão, capitão? — perguntou Deringhouse.
Rous fez que sim. As palavras foram saindo lentamente de sua boca.
Recebemos pelos transmissores as peças de várias naves de reconhecimento a grande distância do tipo gazela. Esses veículos já foram montados e estão em condições de decolar a qualquer momento. Não acho que correríamos um risco excessivo se mandássemos uma das gazelas a Rolando para...
Deringhouse o interrompeu com um gesto.
Acho que é uma boa idéia — disse. — Mas não convém que o veiculo decole antes que Ellert nos tenha dito o que está acontecendo por aqui.
Naquele instante, Gucky, um pouco afastado do grupo, tomou a palavra:
Tenham mais um pouquinho de paciência; já estou “varenando”.
Ninguém sabia o que significava varenar. De qualquer maneira, os sinais telepáticos de Gucky deviam estar a caminho de Druufon, onde deveriam ser captados por Ernst Ellert. Dentro de mais alguns segundos, este deveria responder e resolveria o mistério que cercava a mensagem enviada para a Terra pelo mutante; era ao menos o que se esperava.

* * *

Toda a base ficou curiosa. O General Deringhouse havia assumido o comando. Parecia que, depois de tantos dias de calma, algo de importante estava para acontecer.
Na grande comporta do hangar havia uma gazela preparada para a decolagem. Não se sabia quem a pilotaria, muito menos para onde deveria voar. Corriam boatos de que o piloto seria Deringhouse em pessoa.
Deringhouse em pessoa? De que se tratava? Será que Druufon seria atacada? Será que a Terra se preparava para conquistar o poder também na dimensão temporal dos druufs? E isso logo agora, poucos dias depois da morte de Perry Rhodan?
As especulações atropelavam-se no cérebro dos homens. Porém quem sabia alguma coisa, nada dizia.
Marcel Rous estava satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos. Lembrou-se da suposição que surgira em sua mente, quando procurou descobrir a origem do S.O.S. Se o que estava em jogo era realmente a vida de terranos tão importantes como Perry Rhodan, Reginald Bell e do arcônida Atlan, então seria preferível que outra pessoa assumisse a responsabilidade. As conseqüências de qualquer erro seriam imprevisíveis. Aliás, até então não havia transmitido sua suposição a ninguém, nem mesmo ao General Deringhouse.
Quanto ao mais, as tentativas de entrar em contato com Ernst Ellert, realizadas por Gucky, falharam por completo. A distância entre Hades e Druufon era muito grande. Gucky recebeu alguns sinais telepáticos, mas estes eram quase incompreensíveis. Não pôde identificar qualquer pensamento. Aqui em Hades não podia contar com o corpo humano de Ellert, que na Terra desempenhara as funções de estação retransmissora. Embora a distancia entre Hades e Druufon fosse muito menor do que aquela que separava este último da Terra, aqui não se entendia sequer uma pequena fração daquilo que Betty Toufry compreendera em Terrânia, às portas do mausoléu.
Conrad Deringhouse sabia perfeitamente que não poderia perder mais tempo. Não sabia o que Ellert pretendia dizer, mas Gucky sentiu que o assunto era muito importante, e que os pensamentos de Ellert recomendavam pressa. Foi a única coisa que conseguiu entender.
Vinte horas após sua chegada a Hades, Deringhouse concluiu que a gazela teria que decolar logo, mesmo sem as informações de Ellert. O destino era Rolando e Deringhouse estaria a bordo. Se o pouso fosse muito difícil, Ras Tschubai procuraria atingir a superfície do planeta por meio da teleportação. Gucky também pertencia à tripulação da nave de reconhecimento de longa distância. Se em Rolando houvesse terranos, ele os reconheceria pelas emanações de seus cérebros.
A última conferência foi realizada no gabinete de Marcel Rous.
Como já sabe, vamos correr um risco — disse Deringhouse, dirigindo-se ao capitão. — E o risco atingirá não só os ocupantes da gazela, mas todos nós, inclusive a guarnição da base. Por enquanto os druufs nem desconfiam de que a Terra lhes preparou uma boa, bem no centro de seu sistema. É possível que o vôo da gazela atraia a atenção deles para a base e que resolvam atacar. Por isso, toda vigilância será pouca. Se acontecer o pior, procure agüentar até que o transmissor da Califórnia dê o sinal verde e salve o maior numero possível de pessoas. Entendido?
Rous fez que sim. Naturalmente entendia muito mais. Desde o primeiro momento de sua existência, a base corria certo risco. Tiveram de manter-se atentos durante todo o tempo. A situação não ficaria pior com a partida da gazela.
Marcel Rous procurou imaginar o que aconteceria quando os druufs vissem pela primeira vez um veículo espacial que, em caso de perigo, pudesse desaparecer prontamente, sem deixar o menor vestígio de transição.
Tudo que fora transferido do Universo einsteiniano ao plano temporal dos druufs conservaria sua dimensão temporal primitiva. Isso significava que, neste espaço, uma gazela atingiria velocidades que no Universo dos druufs seriam impossíveis, por ficarem acima da velocidade-limite aqui prevalente, isto é, a da luz. Qualquer objeto que se deslocasse a uma velocidade superior à da luz já não pertenceria ao espaço em que se encontrava antes. Os druufs teriam a impressão de que a gazela desaparecera sem mais nem menos.
A idéia divertia Marcel Rous. Gostaria de ver o druuf ao qual acontecesse isso.
Rous ouviu que Deringhouse continuava a falar. Procurou afastar as idéias que lhe iam pela mente, a fim de concentrar-se nas palavras de Deringhouse, mas não conseguiu.
Como seriam as coisas para o druuf? A partir da sala de comando de sua espaçonave, veria a gazela desaparecer de um instante para outro. Isso representaria uma surpresa enorme. Menos para um dos seres-toco: Ernst Ellert. Este tinha conhecimento da diferença das dimensões temporais e conseguiria imaginar os efeitos que poderiam resultar do fenômeno. Mas Ellert vivia em Druufon, onde era um cientista de renome; nunca subiria a bordo de uma nave de guerra.
Alguém disse:
Capitão, tenho a impressão de que o senhor não está dedicando a necessária atenção ao assunto.
Rous ouviu estas palavras, mas não pôde deixar de refletir sobre o problema que ocupava sua mente.
É esquisito”, pensou. “Até parece que alguém está segurando minha inteligência.”
Pensava em Ernst Ellert. Ernst Ellert, que nunca viajaria numa nave de guerra.
Era claro que não. Por que iria viajar? Ou será que poderia vir a viajar? Será que o assunto que o fizera expedir a mensagem para a Terra era tão importante que o faria praticar certos atos que normalmente nunca praticaria? Por que teria chamado? O que estava acontecendo?
De repente Marcel Rous viu um druuf à sua frente; tinha pele escura, cabeça redonda e era gigantesco. Parecia aproximar-se dele. Marcel Rous teve certeza absoluta: o druuf era Ernst Ellert. Era o ser-toco, cujo corpo fora tomado pelo espírito de Ellert, enquanto o corpo do próprio mutante jazia no mausoléu de Terrânia, aparentemente morto.
O que queria?
Marcel Rous fez menção de afastar-se para o lado, mas alguma coisa o travava. O druuf continuava a aproximar-se, como se quisesse passar por cima dele. Mas, no momento em que entrou em contato com seu corpo, fundiu-se com o mesmo; ambos passaram a ser um só. Subitamente, passou a saber o que o druuf estava pensando. E quando abriu a boca para falar, ele o fez a pedido e com os pensamentos do druuf, cujo corpo era habitado pelo espírito de Ernst Ellert.
Para os circunstantes, o fenômeno era estonteante, mas não assustador. Quem primeiro notou que Marcel Rous estava absorto em seus pensamentos foi Conrad Deringhouse. Deixou-o à vontade por algum tempo. Finalmente fez uma observação. Ao que parecia, Rous não a ouvira. Continuava a fitar o ar com a expressão de quem reflete sobre um problema muito importante.
Subitamente, seus olhos se arregalaram. Parecia enxergar alguma coisa que os outros não viam!
Deringhouse esteve a ponto de pôr as mãos em seu ombro e sacudi-lo para que acordasse. Mas alguma coisa o preveniu para não o fazer. Por um motivo que ele mesmo não conhecia estava convencido de que alguma coisa importante iria acontecer, e seria preferível que ele e os outros se mantivessem em silêncio.
Parou de falar e acenou para que todos também ficassem quietos. Marcel Rous fez uma tentativa para sair do lugar. Parecia que desejava dar um passo para trás e para o lado. Deringhouse teve a impressão de que queria desviar-se de alguém. Mas continuou parado. Alguma coisa parecia paralisá-lo. Seu rosto assumiu uma expressão de espanto, e depois de medo. Mas, quando o pavor chegou ao auge, o rosto se descontraiu e Rous suspirou aliviado.
Repentinamente, começou a falar. A fala era desajeitada e a voz não parecia ser a de Rous.
Não se assustem — disse a voz. — Não estou bêbedo, mas tenho que me adaptar à constituição da laringe deste homem.
Estas palavras pareciam apavorantes.
Quem seria o homem que estava falando por Rous?
Sou Ernst Ellert — prosseguiu “Rous”. — Escolhi este caminho para entrar em contato com os senhores, pois todos os outros falharam. Peço-lhes que não fiquem refletindo sobre como consegui apossar-me do corpo de Marcel Rous. Prefiro que prestem atenção às minhas palavras. O assunto é muito importante. De acordo?
De acordo — respondeu Deringhouse em tom automático.
Muito bem. Podemos começar — disse “Rous”.
Ellert parecia adaptar-se aos poucos aos órgãos de fonação do corpo estranho. A fala passou a ser fluente, mas o tom de voz continuava a ser estranho.
Há pouco tempo uma das nossas naves, quer dizer, um cruzador dos druufs, conseguiu romper as linhas do bloqueio arcônida e penetrar no Universo de Árcon. Bem além da área de superposição, encontrou uma nave inimiga que ia à deriva. Os tripulantes eram aliados dos arcônidas e, na nave, havia quatro prisioneiros. Terranos. Os druufs deixaram os aliados dos arcônidas no lugar em que os encontraram, mas recolheram os prisioneiros terranos.
Agora, o mais importante. Não consegui descobrir quem são os prisioneiros. O assunto é considerado altamente sigiloso. Os prisioneiros foram colocados no trigésimo sexto planeta deste sistema, que é um mundo de metano semelhante a Júpiter. Nos próximos dias, uma comissão de altos funcionários viajará para lá, a fim de interrogar os prisioneiros.
A conclusão só pode ser uma: os quatro prisioneiros devem ser gente muito importante. E se são importantes para nós, ou seja, para os druufs, também devem ser importantes para os terranos.
Foi por isso que resolvi entrar em contato com os senhores. Pensei que talvez tivessem dado pela falta de quatro pessoas. Talvez possa ajudá-los a encontrá-las.”
Ficou calado, e os ouvintes também se mantiveram em silêncio, porque ninguém soube o que responder. O número quatro parecia ter exercido um encanto sobre eles. Desde a perda da base de Fera Cinzenta, destruída num ataque-relâmpago dos arcônidas, dera-se pela falta de quatro homens, e, ao dizer que essas quatro pessoas eram muito importantes, Ellert tinha toda razão. Eram as pessoas mais importantes do Império Solar.
A mente do General Deringhouse trabalhava febrilmente. Procurou rememorar o que havia acontecido em Fera Cinzenta.
Há quinze dias — quando a Drusus realizou uma viagem arriscadíssima, contornando várias vezes o planeta moribundo, a fim de localizar os sobreviventes da catástrofe — foi irradiado um pedido de socorro. Não encontrara o menor sinal de vida em Fera Cinzenta.
Deringhouse teve certeza de que as pessoas que o haviam chamado já não estavam vivas, quando a Drusus chegou. No entanto, o relato de Ellert oferecia um ângulo totalmente novo. Outra nave fora mais rápida que a Drusus; e, conforme Ellert acabara de dizer, essa outra nave era tripulada por aliados dos arcônidas. Pouco importava quem seriam esses aliados. O que realmente importava era que o aliado dos arcônidas não conseguira ir muito longe com as pessoas salvas da catástrofe. Alguma coisa devia ter acontecido com sua nave. Os druufs a haviam encontrado à deriva. Não se sabia como a encontraram. Talvez a nave tivesse transmitido pedidos de socorro, que acabaram atraindo a atenção dos seres-toco.
Deringhouse esteve a ponto de abandonar a idéia, mas lembrou-se de uma coisa. Há onze ou doze dias, algumas naves terranas de patrulhamento haviam captado uma transmissão de telecomunicação redigida em arcônida, cujo teor era o seguinte: “Lamira XII chama YNLISS posição Goshun.
Os comandantes examinaram a mensagem. Parecia uma transmissão rotineira realizada por uma espaçonave — provavelmente seria uma nave dos saltadores — chamada Lamira XII, proveniente de um lugar, ou destinada a uma pessoa de nome Ynliss. No entanto, a posição da Lamira XII era bastante estranhável: Goshun!
Goshun era o nome do lago em cujas margens ficava a cidade de Terrânia, capital do planeta Terra. Era pouco provável que, em algum ponto da Galáxia, houvesse outro lugar com o mesmo nome, ainda mais numa língua estranha. As naves terranas puseram-se a caminho. Iriam tentar localizar o transmissor que irradiara a estranha mensagem. Os cálculos goniométricos revelaram que a nave terrana mais próxima desse lugar se encontrava a mais de cinco mil anos-luz de distância. Acontece que, depois da estranha mensagem, o transmissor só voltou a chamar uma única vez, irradiando uma mensagem codificada em arcônida. Por isso, seria muito difícil ou talvez impossível que as naves terranas o localizassem. Depois de alguns dias, estas suspenderam as buscas e voltaram às posições anteriores.
Face ao relato de Ellert, o episódio ganhava em importância. Deringhouse tinha certeza, quase absoluta, de que a mensagem com a palavra Goshun fora transmitida por um dos quatro prisioneiros. Ele a redigiu dessa forma porque era altamente provável que qualquer mensagem menos corriqueira atrairia um verdadeiro enxame de naves arcônidas.
Os prisioneiros deviam ter se apossado de um telecomunicador, instalado a bordo da nave arcônida. Qual não devia ter sido a decepção deles, quando em vez da nave terrana surgiu uma espaçonave dos druufs, fazendo com que fossem de mal a pior?
Quer dizer que os seres-toco os haviam levado a Rolando. Ellert soubera disso, embora não conhecesse a identidade dos prisioneiros. Mais tarde, estes puseram a funcionar um gerador gravitacional, a fim de realizar uma transmissão precária para a base de Hades, informando sobre a situação em que se encontravam.
O fato de terem realizado a tentativa provava que sabiam da existência da base de Hades. Os sinais transmitidos por meio de um gerador antigravitacional não seriam capazes de atravessar a área de superposição e chegar a uma das naves terranas que se encontravam além da zona de descarga. Acontece que o fato do conhecimento da existência da base delimitava quem seriam as quatro pessoas prisioneiras, pois o projeto Hades era altamente sigiloso.
Conrad Deringhouse estava convencido de que os prisioneiros não eram outros senão aqueles quatro homens que permaneceram em Fera Cinzenta até o último instante, quando então pretendiam reunir-se à frota que preparara um ataque a Árcon. E estes homens eram Fellmer Lloyd, Atlan, Reginald Bell e Perry Rhodan!
Deringhouse teve de esforçar-se ao máximo, para conservar o autocontrole. Ernst Ellert sabia que os prisioneiros se encontravam em Rolando. Será que conhecia a situação da prisão?
Perguntou a “Rous”. Ellert respondeu prontamente:
No planeta de metano existe uma base subterrânea, destinada principalmente à realização de experiências perigosas. É claro que conheço a situação dessa base, pois estive lá muitas vezes.
Fez uma pausa.
É bem verdade que tenho de realizar a conversão — prosseguiu. — Os padrões dos druufs são completamente diferentes dos padrões terranos. Um momento. Vamos definir o pólo norte. O pólo norte é uma das extremidades do eixo do planeta. Para quem estiver em cima desse ponto, o planeta gira para a esquerda, que nem a Terra. Entendido?
Deringhouse procurou visualizar a descrição.
Entendido — respondeu.
Pois bem. A base fica no hemisfério norte, ou melhor, a quarenta e cinco graus de latitude norte. Também compreendeu esta parte?
Naturalmente.
Vamos prosseguir. Será mais difícil fixar a longitude, porque o respectivo ponto de referência foi escolhido ao acaso. Mas o senhor não poderá deixar de notar um lago em forma de ferradura, que fica quase exatamente no equador. O lago é grande; na Terra, quase chegaria a ser um oceano. Cada lado da ferradura tem dois mil quilômetros de comprimento, e sua largura, no ponto mais largo, também tem dois mil quilômetros. O meridiano zero passa pelo ponto extremo da curva da ferradura. A esta hora, convém lembrar que os druufs dividiram o círculo em quinhentos e doze graus, uma vez que usam um sistema octonal. O número quinhentos e doze corresponde a oito na terceira potência. Pois bem. Dentro deste sistema, a base subterrânea fica em cento e vinte graus de longitude leste. Acho que o senhor poderá fazer a conversão.
Poderei, se alguém tiver anotado — respondeu Deringhouse com a maior tranqüilidade.
Eu anotei — disse Ras Tschubai, que se encontrava num ponto mais afastado.
As informações que lhe posso dar são só estas — prosseguiu Ellert. — Apenas posso acrescentar que deve agir com cautela. Para os druufs, a base subterrânea é muito importante, motivo por que ela tem uma guarnição permanente de dois mil homens. E o socorro, vindo de Druufon ou de outra base espacial, poderá chegar dentro de poucos minutos. Se alguma coisa acontecer no planeta de metano, o senhor pode ter certeza de que, dentro de uma hora, no máximo, a frota chegará ao local. Ah, sim. A gravitação do planeta de metano corresponde a um vírgula três, quatro vezes a de Druufon. O senhor também poderá fazer a conversão deste dado. É um nível bastante elevado.
Obrigado; já conhecíamos este detalhe — respondeu Deringhouse.
Neste caso, minha missão está concluída — disse Ellert.
Nós todos lhe somos muito gratos — disse Deringhouse. — Já lhe devemos muito. Se um dia pudermos fazer alguma coisa por você, não deixe de nos avisar.
O rosto de Rous continuou impassível, mas a voz de Ellert soou como a de alguém que está sorrindo:
Será um prazer. Se um dia estiver em apuros, não deixarei de avisar.
Neste momento, Marcel Rous estremeceu. Deu um passo desajeitado, tropeçou, conseguiu firmar se sobre os pés, olhou em torno com uma expressão de perplexidade e passou a mão pela testa.
Onde... como?
Era novamente a voz de Rous. Ernst Ellert se havia retirado de seu corpo. Durante um momento de perplexidade, Deringhouse perguntou a si mesmo o que teria feito com seu corpo de druuf, enquanto estivera ali.
A memória de Rous começou a funcionar.
Ellert esteve aqui, não esteve? — perguntou, ainda um tanto perplexo.
Deringhouse fez um gesto afirmativo.
Esteve em seu interior — disse em tom enfático.
Rous não parecia surpreender-se com a notícia.
Tive a impressão... — respondeu em tom distraído, quase sonhador.
Ao que parecia, consideravam o caso liquidado. Deringhouse e Ras Tschubai atribuíram maior importância ao relato propriamente dito de Ellert que à maneira pela qual conseguiu aproximar-se deles.
Não foi necessário informar Rous. Depois de um momento de reflexão, o capitão se lembrou de tudo que Ernst Ellert acabara de dizer.
Deram-se ordens definitivas para que a gazela decolasse.
5



Com a segunda tentativa de fuga, os druufs pareciam ter perdido a vontade de Ironizar. Um dos três disse por intermédio da tradutora:
Os senhores não terão outra oportunidade de fugir. Daqui por diante, ficarão amarrados.
Os terranos não responderam. A única coisa que lhes interessava naquele momento era saber o que havia acontecido com Fellmer Lloyd.
Venham conosco! — ordenou o druuf. — E é bom avisar que ao menor movimento suspeito atiraremos.
Não havia ninguém que duvidasse disso. A comporta fechou-se atrás dos druufs. Ameaçando-os com as armas, eles tangeram os prisioneiros para um canto da sala. O que carregava a tradutora automática disse:
Os senhores receberão outra injeção igual à primeira. Estamos aguardando o preparado.
Perry Rhodan foi de opinião que não convinha protestar contra isso. Encostou-se à parede e lançou um olhar de tédio para as prateleiras. Ainda tinha um resquício de esperança de que pudesse ter uma idéia que lhe permitisse enganar os druufs. Procurou estabelecer contato telepático com Fellmer Lloyd, mas a tentativa resultou num fracasso completo. Lloyd devia estar muito longe ou “desligara” sua mente, o que poderia significar perfeitamente que os druufs já o tinham prendido e lhe aplicaram a injeção.
Alguns minutos se passaram. Perry Rhodan viu a porta externa da comporta abrir-se.
Deve ser o druuf com a injeção”, pensou, sem olhar sequer para o lugar.
A porta externa abriu-se com um forte ruído, e, dali a alguns segundos, a interna também abriu-se. Perry Rhodan nem virou o rosto. Seu olhar passou pelas prateleiras e foi pousar num dos druufs, que mantinha a arma engatilhada e não tirava os olhos deles. Perry Rhodan tentou dar a seu olhar uma expressão de escárnio e desprezo, embora não tivesse certeza sobre se o “monstro” compreenderia a mímica facial dos homens.
Seu olhar de desprezo pareceu produzir um efeito surpreendente!
O druuf deu um pequeno passo para a frente e caiu. Quando seus quatrocentos quilos atingiram o chão, ouviu-se um forte estrondo.
E não foi apenas este estrondo. O mesmo ruído foi ouvido mais duas vezes, quando os outros druufs caíram. Perry Rhodan estava estupefato. Evidentemente não cometeria a tolice de acreditar que os derrubara com seu olhar.
Levantou os olhos e viu uma criatura estranha sair da comporta. Esta estava enfiada num traje espacial dos druufs, mas este parecia engoli-lo.
Só um dos componentes do quadro não era ridículo: a arma que o “ser” segurava, e com a qual, num movimento seguro e conseqüente, pusera fora de ação os três druufs.
Perry Rhodan lançou um olhar perplexo pelo visor do capacete. Viu o rosto sorridente do “ser”, e disse:
Como foi que o senhor fez isso, Lloyd?

* * *

Fellmer Lloyd abriu o capacete e jogou-o para trás com tamanha habilidade que até parecia que nunca usara outra coisa senão trajes espaciais dos druufs. Antes que começasse a falar, lançou um olhar demorado e pensativo sobre os druufs.
Isso aconteceu mais ou menos por acaso — disse com um sorriso embaraçado. — Nem sabia se esta pistola iria funcionar.
Pois funcionou — respondeu Reginald Bell, que começava a recuperar-se da surpresa. — Parece que é uma arma de choque.
Perry Rhodan passou por cima do corpo de um dos druufs e examinou de perto o traje de Fellmer Lloyd.
É claro que isso também pode ser uma solução — disse. — Como está se arranjando com esse traje?
Não é tão confortável como o meu — confessou Lloyd. — Mas, de qualquer maneira, é melhor andar com este do que andar sem nenhum.
Como estão as coisas lá fora? O corredor continua livre?
Quando cheguei, estava livre — respondeu Lloyd. — Mas a situação pode mudar de um instante para outro. Parece que eles descobriram nossa fuga.
O senhor é um menino inteligente! — exclamou Bell, que se encontrava em lugar mais afastado.
Estava inclinado sobre um dos druufs desmaiados, e começava a abrir o traje protetor do mesmo.
Encontrou alguma coisa que nos possa ser útil? — indagou Atlan.
Fellmer Lloyd sacudiu a cabeça.
Apenas a pistola. Não vi nem sinal de um transmissor, se é a isso que o senhor se refere.
Mas deve haver um transmissor! — disse Rhodan. — Ninguém me convencerá que os druufs não têm nenhuma possibilidade de entrar em contato com Druufon.
Atlan colocou-se a seu lado.
Esta caverna tem pelo menos mil salas — ponderou. — Por enquanto conhecemos menos de trinta. O transmissor pode ficar em alguma das novecentas e setenta salas restantes.

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