segunda-feira, 22 de agosto de 2016

P-085 - Escola de Guerra Naator - Clark Darlton [Parte 2]

Zalitas! Bem-vindos a Naator, em nome do regente! Encontram-se no campo de seleção das forças imperiais. Aqui serão treinados, e posteriormente encaminhados à frota. Vocês são soldados de Árcon, zalitas! Prestaram juramento ao regente, com o que se comprometeram a lutar por ele, e até a morrer, se for necessário! Vocês lutam por Árcon, mas também por Zalit, sua pátria! Um poderoso adversário ameaça nossa existência. Quando tiver sido derrotado, vocês serão reconduzidos a Zalit. Até lá, porém, deverão pensar exclusivamente em seu dever. Obedeçam às ordens dos oficiais e dos robôs, até serem investidos em comandos próprios. É tudo que tenho a dizer-lhes hoje. Sou o Almirante Senekho, dirigente de Naator. E agora serão encaminhados aos alojamentos.
Outra fisionomia apareceu na tela.
Os alojamentos ficam a oeste do campo de pouso. Cada prédio em forma de funil comporta mil homens. Para cada milhar, haverá um robô encarregado da supervisão. Guardem seu número de série, pois, daqui por diante, toda e qualquer pergunta deverá ser feita a ele. Será a autoridade máxima para cada grupo de mil soldados.
Realmente, maneira simples mas eficiente de organizar as coisas. Apesar disso, ainda se passaram duas horas antes que Rhodan e seu grupo pudessem se pôr em marcha, junto com oitocentos e cinqüenta zalitas. Eram comandados pelo robô 574.
À direita e à esquerda das largas ruas, Rhodan percebeu a existência de controle de radar, a intervalos regulares. Impossível, portanto, alguém pensar em fugir sorrateiramente, na ilusão de achar refúgio nas proximidades. E, por certo, toda a área do campo de treinamento estaria rodeada de aparelhamento de controle ainda mais eficiente. No entanto, medida inteiramente desnecessária, pois no árido deserto de Naator, qualquer fugitivo pereceria em pouco tempo.
Avistavam agora os prédios em forma de funil. Mal se destacavam do cenário imerso em perpétua meia-luz.
O sol de Árcon desapareceu no horizonte, sem que a escuridão se acentuasse. O céu continuava roxo-escuro. Milhões de estrelas forneciam luz suficiente para a produção de leves sombras. Árcon ficava no centro de uma massa circular de estrelas, e o deslumbramento dos astros ultrapassava tudo que a mente humana pudesse conceber.
O prédio possuía sete pavimentes. Cada um comportava cento e cinqüenta zalitas, distribuídos em quartos para vinte e cinco homens cada. Apenas no pavimento térreo, a lotação se reduzia a cem pessoas. Constituíam o grupo de guarda, substituído a cada três dias.
O robô repartiu o pessoal, e anunciou a distribuição de gêneros alimentícios. Cada pavimento devia destacar dez zalitas para receber as provisões.
Rhodan examinou o singelo alojamento. Uma série de camas comuns, cada qual ladeada por um pequeno armário. As janelas externas eram amplas e desprovidas de grades; havia defesas mais eficientes do que as primitivas grades. Encontravam-se no terceiro pavimento, com visão panorâmica das instalações do espaçoporto. Em torno destas ficavam os prédios baixos das academias.
Rhodan acautelava-se ao falar. Era de supor que nenhum dos arcônidas postados em Naator ouvira inglês em toda a sua vida, porém havia bons aparelhos de decodificação. No entanto achava melhor dizer as coisas importantes em inglês, e não na língua zalita.
Tenente Wroma, tome nove homens, e apresente-se como aprovisionador. Preste atenção na conversa dos demais zalitas. Precisamos saber como se portam na presente situação.
O africano prestou continência e afastou-se.
Bell sentara-se sobre uma das camas.
Como nos meus tempos de cadete! — constatou, suspirando, e testando o colchão com a mão espalmada. — Vou ter que passar por tudo isso novamente? E tendo, ainda por cima, um robô como sargento!
Atlan aproximou-se dele, e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
Para que tanta reclamação, gorducho? Eu sou almirante, e tenho que fazer papel de recruta. Para ser sincero, começo a achar graça na brincadeira.
Bell resmungou algo ininteligível, e dedicou-se à inspeção dos cobertores. Mas dificilmente sentiriam frio no recinto aquecido. Parecia ser o único conforto que lhes havia sido concedido.
Ora, não ficaremos aqui eternamente — consolou Gorlat. — Consideremos Naator como uma espécie de pausa para descanso.
Bell deu uma risada.
Chama a isso de descanso! Pois eu só vou descansar depois de termos acabado com o gás do cérebro-robô. Mas, para isso, temos de chegar ao planeta principal!
Com um gesto, Rhodan ordenou silêncio.
Precisamos ser cautelosos. Falem apenas o essencial, e em voz baixa. Depois de comer, dormiremos. Temo que amanhã seja um dia extenuante. E não se esqueçam jamais de nosso único objetivo: Árcon! É lá que temos uma tarefa a desempenhar. Isto aqui... — indicou as camas, os armários e as janelas — ...isto não passa de um episódio. Será superado, mais cedo, ou mais tarde.
No silêncio, a voz de Marshall se ergueu:
Finalmente obtive contato, Sir!
Todos o fitaram esperançosamente.
Sim, contato telepático com o Almirante Senekho. Logo saberemos o que nos espera.
E eu — sussurrou o mutante-localizador japonês — vou distrair-me um pouco com as emissões radiofônicas deles.
Exato, Tanaka, faça isso. Toda informação pode ser preciosa para nós.
Rhodan sentou-se sobre sua cama.
De momento, só estou ansioso por ver o que nos servirão no jantar. Soldados famintos não são bons lutadores.
Nem bem alimentado sirvo para lutar — resmungou Bell, mal-humorado.
Não parecia nada satisfeito com o ofício de recruta.
Porém Rhodan estava satisfeito.
Dois passos foram dados. Os demais passos em direção a Árcon viriam depois.
3



O primeiro dia em Naator não trouxe novidades. Da janela, Rhodan viu diversas colunas de zalitas serem conduzidas aos prédios administrativos, retornando posteriormente. Porém, segundo seus cálculos, apenas três mil recrutas foram atendidos naquele dia.
À noite, o robô 574 veio avisar que o grupo seria registrado no dia seguinte.
John Marshall, o telepata, passara diversas horas sentado sobre sua cama, de olhos fechados. Ninguém o perturbava, pois sabiam que o australiano tentava “entrar em contato” com as personalidades importantes de Naator, a fim de colher informações.
De repente, Marshall abriu os olhos, e fitou Rhodan. O convite mudo era óbvio. Também Gorlat e Bell se aproximaram. Atlan estava ausente no momento.
Que foi, Marshall? Descobriu algo?
O telepata acenou.
Os primeiros três milhares de zalitas foram submetidos à inspeção médica hoje. Não, não conforme julgam. Em Zalit, era apenas uma farsa, a fim de dar os recrutas como válidos. Aqui em Naator, a inspeção é rigorosa. Pude localizar os membros da junta médica, e ler seus pensamentos. Não deixam passar nada!
Não deixam passar nada? — repetiu Bell, apavorado.
Notou a repentina seriedade no rosto de Rhodan. Nem mesmo a arte dos maquiladores os livraria agora da descoberta.
Marshall prosseguiu:
Ainda não é tudo. Descobri que a inspeção não visa apenas determinar o estado de saúde dos recrutas; sua finalidade primordial é detectar a possível infiltração de espiões disfarçados entre os homens alistados, impedindo que cheguem a Árcon. Contam com a possibilidade de haver agentes terranos entre os zalitas, transformados por meio de operações plásticas em representantes de outras raças.
Rhodan aparentava nervosismo.
Quer dizer que suspeitam exatamente do que ocorreu na realidade... surpreendente! E agora?
Infelizmente tem mais — continuou Marshall suas desanimadoras informações. — Os médicos examinadores são aras, sem exceção.
Desta vez, todos ficaram calados.
Justamente os aras tinham que estar envolvidos no caso! Conheciam os terranos, e os detestavam. Fora Rhodan que lhes estragara a negociata com a doença. Conheciam a estrutura óssea dos terranos; a primeira radiografia revelaria toda a farsa.
Rhodan perguntou mais uma vez:
E agora, meus amigos? Sabem de alguma saída? Duvido que possamos subtrair-nos à inspeção, pois logo despertaríamos suspeitas. Portanto, temos de enfrentar os aras, e passar no exame. Falando francamente, sinto-me desorientado.
Bem, sugiro que estudemos todas as possibilidades — disse Gorlat. — Se cada um expuser suas idéias, talvez consigamos elaborar um plano viável. Nossa intenção seria a de iludir os médicos aras. Portanto, o mais indicado é colocar Noir em ação.
Noir é um hipno extraordinário, mas não poderia influenciar em tão curto espaço de tempo uma dúzia ou mais de aras, submetendo-os a bloqueio hipnótico.
Bell sacudia a cabeça, desanimado.
Ras Tschubai poderia saltar até lá, e pô-los fora de ação.
Isso não! — discordou Rhodan. — Seria a maior das tolices. No entanto, você me deu uma boa idéia, Bell. Ras poderia procurar os aras junto com Noir. Nestas circunstâncias, o bloqueio poderá ser feito rapidamente.
Oba, funcionou meu palpite de trocarmos idéias! — exclamou Gorlat, radiante. — De duas sugestões inaproveitáveis acabou surgindo uma bastante usável. Mais alguns detalhes, e nosso plano de guerra está pronto. Que tal desviar um pouco o tal de Almirante Senekho de suas funções regulamentares? Caso esteja bastante ocupado, terá menos tempo para preocupar-se com os zalitas... e conosco.
E de que maneira pensa fazer isso? Gorlat sorriu astutamente.
Son Okura enxerga tão bem à noite quanto de dia. Caso vá com Ras Tschubai, serão como duas sombras: rápidos, invisíveis e perigosos. Poderiam executar alguns atos de sabotagem, que certamente seriam imputados aos naats.
Um momento! — interrompeu Rhodan, com ar preocupado. — Receio que estejamos indo longe demais. Nossa missão não é produzir inquietude em Naator, e sim alcançar Árcon. Apesar disso, preciso reconhecer que, às vezes, um pequeno rodeio nos leva mais depressa ao objetivo. Nossa tarefa mais imediata é pressionar os aras, sem que eles e os zalitas percebam.
Não seria possível fazê-lo numa única noite, pois sou incapaz de localizar todos eles ao mesmo tempo — observou Marshall, derrubando todas as especulações até então feitas. — Portanto, seria bom que pudéssemos ganhar tempo. Talvez Gorlat esteja certo com sua sugestão de ocupar Senekho.
Quando Atlan regressou, duas horas depois, o plano estava combinado, organizado e definitivamente traçado.
Faltava apenas dar ciência dele a Atlan.
Son Okura era de constituição frágil, e tinha alguma dificuldade em andar. Fatores que precisaram ser levados em consideração quando transformaram-no em zalita; porém o resultado foi tão satisfatório que ninguém seria capaz de diferenciá-lo de um genuíno habitante de Tagnor. Era um perceptor de freqüência, capaz de reconhecer qualquer objeto mesmo na escuridão. Até raios infravermelhos eram visíveis para seus olhos. Mesmo horas após seu desaparecimento, percebia a aura de calor emitida por um corpo.
Sob o aspecto físico, o teleportador Ras Tschubai vinha a ser o exato oposto de Okura. Sua estatura lembrava a dos naats, mas naturalmente o africano tinha apenas dois olhos, e não três.
Os dois mutantes formaram o primeiro comando de ação da noite incipiente.
Ras sabia que era arriscado saltar ao acaso, sem saber para onde ia. Preocupar-se-ia menos caso estivesse sozinho, mas levava o japonês... Claro que, apesar da sobrecarga, era capaz de desmaterializar-se instantaneamente, caso algum perigo ameaçador o obrigasse a desaparecer o mais rápido possível. Porém Rhodan recomendara insistentemente que fosse cauteloso, e não chamasse a atenção. Pessoa alguma deveria suspeitar da presença do teleportador em Naator.
Pronto! — disse Son Okura, segurando a mão do africano.
Ras Tschubai concentrou-se para um salto curto, que os deixaria nas proximidades dos prédios administrativos, e lojas. Desconhecia seu alvo, o que no entanto não representava dificuldade. Visualizava-o.
Quando se materializaram, Ras Tschubai não viu absolutamente nada de início. As estrelas brilhavam com a intensidade habitual, mas eram ofuscadas pela iluminação vinda de dentro das casas.
Boa pontaria — disse Okura, cujos olhos tinham se ajustado imediatamente. — Estamos bem perto das primeiras construções. À direita, há um sentinela patrulhando. Um zalita. Portanto, eles já foram designados para o serviço de guarda.
Vamos saltar para a área diretamente à nossa frente. Sabe o que procuramos?
Okura acenou, porém Ras não via. Saltou.
Desta vez, estava realmente escuro, e não havia estrelas.
Onde estamos? — perguntou o teleportador.
Num depósito de equipamento militar. Uniformes, até onde posso verificar. Mais atrás, trajes espaciais leves. Tudo caprichosamente empilhado em prateleiras.
Bem, se o frio apertar, saberemos como nos defender. Mas hoje procuramos outra coisa, Okura. Vamos andando.
O japonês guiou Ras através das trevas, com impressionante segurança. O africano confiava incondicionalmente no detectador humano de freqüência. Não tinha o menor receio de tropeçar em algum objeto, ou dar com a cabeça contra a parede.
Uma porta! Ah, não está trancada.
Seguiram adiante.
Um corredor. Portas por todo lado. Qual delas nos serve?
Okura não respondeu. Ouvira um ruído lá adiante. Passos! Alguém caminhava na direção deles. Porém o andar revelava o cansaço do caminhante. Os pés arrastavam no chão.
Um sentinela! — cochichou Ras. — Não se trata de um robô; talvez seja zalita. Ande, a próxima porta!
Foi um acaso, conforme asseguraram repetidas vezes mais tarde; porém todos interpretaram suas afirmativas como manifestação de modéstia. Pois quando penetraram no recinto, Okura deixou escapar uma exclamação de surpresa, e Ras compreendeu que desta vez não haviam dado com nenhuma rouparia.
Armas! — sussurrou Okura. — Granadas de mão, pistolas portáteis de raios, pequenas bombas de tempo... um paraíso para rebeldes!
E consta-me que existe um bocado deles em Naator — murmurou Ras, satisfeito. — Por que deixariam esta porta sem chave?
A entrada principal é impenetrável, Ras. Defendida por um campo energético. Ninguém pode sair deste prédio. O próprio sentinela está trancafiado.
Bem, isso explicava tudo. Picaram escutando os passos do sentinela.
Que diabo! — praguejou Ras. — Por que não consigo enxergar nada?
Porque está escuro — respondeu Okura, lacônico. — Seu coração pularia de alegria, se pudesse ver o que vejo. Exatamente o que precisamos para executar nosso plano. Tivemos uma sorte danada!
Ótimo!' Neste caso, apressemo-nos. Levaremos um bom sortimento para nosso quarto, onde estabeleceremos a base de operações. Com três ou quatro pulos estará feito.
Uma hora depois, Ras teleportou-se com Okura e André Noir, o hipno, para o hospital, prometendo vir buscá-los novamente duas horas mais tarde. Depois desapareceu diante dos olhos dos outros mutantes, carregando uma respeitável quantidade de pequenas bombas de tempo, algumas granadas de mão e um radiador energético. Poderiam reservar agora para a ação em Árcon todas as armas e recursos de sabotagem discretamente embutidos em seus uniformes, ou entre a reduzida bagagem.
Noir não era muito alto, e fazia um terrano bastante simpático. Mas como zalita, transformara-se num indivíduo de ar ameaçador e pouco digno de confiança. No entanto, sua especialidade de “dobrar” mentes estranhas à sua vontade não sofrerá com o disfarce.
Os aras alojam-se mais adiante — sussurrou ele, apontando para o corredor imerso em meia-luz. — Posso sentir suas ondas de pensamento. Estão dormindo.
Seria capaz de descobrir o médico-chefe, André?
Dificilmente, Son. Dormem, e, em sonhos, qualquer deles pode se considerar chefe.
Rindo, o japonês se pôs a caminho.
Então teremos que controlar um por um. Vamos lá, a primeira porta!
Como também o hospital — caso pudesse ser designado por este nome — estivesse hermeticamente isolado do mundo exterior por uma cortina energética, as portas internas não possuíam chave. Quando os dois homens penetraram no quarto, apenas o japonês podia ver o que havia nele.
No canto, abaixo da janela, via-se uma cama, ocupada por um vulto deitado; ao lado, um armário. Dependuradas no encosto de uma cadeira, peças de roupa; entre elas, um jaleco branco, traje profissional característico dos aras em atividade.
Gradualmente, os olhos de Noir se ajustaram à escassa luz. As estrelas brilhavam livremente através da janela desprovida de cortinas. O homem deitado tinha estatura bem acima da média, e era impressionantemente magro. O rosto encovado dava-lhe ar doentio. Porém Noir sabia que as aparências enganavam; aquele homem era perfeitamente são.
Noir acionou seus poderes. Cautelosamente, penetrou na consciência adormecida do ara, apossando-se dela. Em vista da ausência de resistência do paciente, conseguiu seu intento rapidamente, com a maior facilidade. Depois despertou o ara.
Como se chama?
O hipno falara em voz baixa e insinuante. Os olhos arregalados do médico fixaram-se nele por um instante, depois tornaram-se mortiços e indiferentes.
Renol.
Faz parte da junta médica que examina os recrutas? Quem é o médico-chefe?
Sim, examinamos os recrutas. Bóris é o chefe. Mora alguns quartos depois do meu.
Noir exultou. A coisa ia melhor do que esperara.
Levante, agora, e siga-me. Saberá achar uma evasiva, caso encontremos alguém. Deve obedecer a todas as minhas ordens. Receberá instruções adicionais conforme as circunstâncias forem exigindo. Mostre-nos as salas de exame.
Mecanicamente, o ara levantou da cama e enfiou as roupas. Apesar de lentos, seus movimentos eram regulares e inteiramente normais. Nem de longe suspeitava do perigo que corria. E no dia seguinte teria esquecido tudo.
Saíram do quarto, com Renol na frente. Atravessaram uma sala de operações, e foram dar num amplo recinto subdividido em nichos, por delgadas paredes. Neles se viam estranhos aparelhos, cuja finalidade Noir não compreendeu de imediato. Ordenou ao ara que fornecesse as devidas explicações.
Noir assustou-se ao perceber de que armadilha se haviam livrado. Com a ajuda dos instrumentos e máquinas instalados naquela sala, terrano algum teria passado pelo controle sem ser descoberto. Aliás, o aparelhamento desmascararia qualquer indivíduo não pertencente à raça zalita.
O hipno demonstrou particular interesse pelo medidor de Q.I. Externamente, o aparelho constava de uma poltrona com capacete, alguns fios, e do avaliador positrônico. Bastava o examinando sentar, e tudo se processava automaticamente. Os resultados eram arquivados num fichário.
Noir sabia que o quociente intelectual dos terranos era sempre superior ao dos zalitas. Submetidos à inspeção de rotina, tal particularidade se revelaria fatal para o comando especial. Seriam denunciados pelos elevados índices alcançados.
Quem opera este medidor de Q.I., Renol?
Bóris em pessoa — foi a resposta.
Gastaram muito tempo na ronda; quando reconduziram Renol ao seu quarto, duas horas depois, Ras ainda não regressara.
Aguardaram por mais meia hora.
Como Ras continuava ausente, começaram a ficar inquietos. Sem o teleportador, estariam presos no interior do hospital, a não ser que Renol possuísse chave para desligar a cortina energética. Probabilidade das mais improváveis. Noir descobrira que as barreiras de energia eram comandadas por uma central, e só podiam ser desligadas por ordem de Senekho.
Mais dez minutos se passaram.
Espere aqui, Son. Vou aproveitar o tempo para “tratar” do tal de Bóris. Com o médico-chefe do nosso lado, muitas dificuldades poderão ser contornadas. Sei onde fica o quarto dele.
Noir enxergava o suficiente para poder orientar-se sem ajuda do japonês. Encontrando a porta encostada, entrou na peça semi-imersa em sombra. Reconheceu o vulto de uma cama ao fundo. A janela estava escancarada.
Algo alertou Noir.
Antes que pudesse constatar que se tratava dos pensamentos do ara, este exclamou, ameaçadoramente:
Seja lá o que pretende, e seja lá quem for, não se mexa! Estou com uma pistola energética apontada para você. Volte-se cuidadosamente, e acenda a luz. O comutador fica à direita da porta.
Sem alternativa no momento, Noir obedeceu. A mente do ara estava ativa demais por ora, para ser influenciada com facilidade. Mais tarde, talvez...
A luz invadiu o quarto. Noir percebeu que o ara não mentira. Apesar de continuar estendido ao comprido na cama, debaixo do cobertor, distinguia claramente os contornos de um possante radiador. A boca apontava diretamente para o hipno, de acordo com a ameaça feita.
Responda, meu caro! — disse o ara, suavemente; porém a voz calma denotava absoluta autoconfiança. — O que me confere a honra desta visita noturna?
Posso fazer uma pergunta, primeiro? — falou Noir, procurando ganhar tempo. — Como sabia que eu vinha vindo?
O ara riu, complacentemente.
Sou médico-chefe em Naator — replicou ele benevolamente, e o tom de sua voz revelava a razão da benevolência. Era simplesmente vaidoso. — O Almirante Senekho concede-me total confiança, e os arcônidas são desconfiados. Não confiam em ninguém. Nem mesmo em seus amigos, os aras. Portanto, fui encarregado de vigiar meus médicos. Há sistemas de escuta entre meu quarto e os deles. Quando você foi procurar Renol, acordei. Desta forma, fiquei sabendo que Renol é um delator. Como revelou meu nome, eu devia preparar-me para sua visita ainda no decorrer desta noite.
De repente, o tom de voz se tornou ríspido e exigente.
Agora chega de evasivas! Quem é você, e o que quer aqui?
Quem sou...? Ora, ainda não me identificou?
Mas claro! Já vi que é zalita! Como entrou aqui? As cortinas energéticas...
Com grande precaução, Noir tentou penetrar na consciência de seu oponente. Mas era difícil, quase impossível. O ara estava em guarda. E qualquer provocação poderia levá-lo a apertar o gatilho.
Consegui esconder-me no decorrer da inspeção de hoje, com a intenção de esperar pela noite. Para ser sincero, recuso servir na frota do regente. Pretendia falsificar o resultado dos exames, para ser mandado de volta a Zalit.
Talvez o choque dessas revelações provocasse certo descuido por parte do ara. Noir sentiu um espasmo na região do estômago. Era exatamente para onde apontava o radiador de Bóris, ainda oculto sob o cobertor.
E se não fosse radiador nenhum...?
Tentou o impossível — disse o médico-chefe, ironicamente. — Os autômatos não se deixam enganar. Vou chamar a guarda, e mandar entregá-lo aos robôs.
Lançando o cobertor para o lado, levantou da cama. Noir viu que se enganara em sua suposição. A mão de Bóris empunhava realmente uma pistola. Não se tratava de blefe do ara.
Caso ainda tenha algo a me dizer, fale agora. Mais tarde não terá oportunidade para isso.
Noir percebeu que sua posição não era nada boa. Lá fora, no corredor, Son Okura esperava por Ras. Porém o teleportador não aparecia; possivelmente também fora apanhado em alguma armadilha. Caso fossem submetidos a interrogatório, com aplicação dos psicodetectores, o plano de Rhodan iria por água abaixo. Com a vontade paralisada, revelariam tudo.
Não vai chamar guarda nenhuma! — disse Noir, em tom incisivo. — Pois eu não vou deixar!
Tentou mais uma vez dominar o cérebro do ara, porém ele reagia, sem saber, opondo-se com todas as forças disponíveis. Noir sabia que apenas uma operação relâmpago teria êxito. Alguma surpresa que assustasse suficientemente o ara, provocando um momentâneo descuido.
Ou acha que vim para cá sem arma?
Não vejo nenhuma — replicou Bóris.
Existem armas invisíveis. Caso pudesse estar, neste preciso instante, na grande sala de exames, saberia a que me refiro. Não é lá que estão arquivados os resultados de suas análises?
O médico-chefe enfiou seu jaleco. Não parecia nem um pouco impressionado, nem preocupado com as ameaças de Noir.
Pois vamos até lá verificar — sugeriu ele, forçando o hipno a voltar-se. Simultaneamente, apertou-lhe a boca da arma nas costas. — E ai de você se mexeu em alguma coisa! Ficaria bem satisfeito se o entregasse aos guardas... coisa que não farei. Você vai morrer, e morrerá lamentando jamais ter nascido.
Noir hesitou.
Ande logo, zalita!
E Noir saiu para o corredor.

* * *

A carga privou Ras Tschubai da liberdade de movimentos que gostaria de ter.
Materializou-se, e permaneceu em total imobilidade até os olhos se habituarem à escuridão. Sentiu uma vibração sob os pés, e escutava sussurros regulares, acompanhados de leves pancadas.
Encontrava-se num imenso recinto subterrâneo segundo seus cálculos. E havia outras instalações abaixo daquela, conforme revelava o murmúrio dos geradores. Era ali que se localizava a central energética do campo. Na certa, rigorosamente protegida por fora contra a entrada de qualquer indesejável ou sabotador, que de maneira alguma teria acesso ao recinto. Mas Ras estava decidido a provocar uma boa perturbação entre os arcônidas. Eles que quebrassem a cabeça para saber se suas medidas de segurança continuavam funcionando, ou se já eram insuficientes.
As lâmpadas embutidas nas paredes davam pouca luz. Ras mal conseguia distinguir os possantes blocos metálicos, por entre os quais serpenteavam estreitas passagens. Reluzentes isoladores suportavam e distribuíam a fiação, que se perdia mais adiante nas sombras.
Ras avançou cautelosamente por entre o caos de maquinaria, selecionando a que lhe parecia mais importante. Apresentava uma concavidade lateral apropriada ao seu intento. Tirou do bolso um objeto ovalado, apalpando-o de leve até dar com o pino de tempo. Apertou-o três vezes. Portanto, a detonação se efetuaria dentro de cerca de três horas.
Depositou a bomba próximo à máquina, esperando que a explosão causasse danos suficientes para paralisá-la. Ao mesmo tempo, desejava que os estragos não fossem de vulto a despertar as suspeitas dos arcônidas, ou dos robôs, pois a capacidade dos naats era limitada. Dois atos de sabotagem naquele setor seriam o bastante. E caso houvesse outra detonação bem longe dali, ao mesmo tempo, não se lembrariam de vir procurar o autor do atentado justamente naquele recinto.
Ras colocou a segunda bomba, e teleportou-se para o ar livre.
Materializou-se diretamente diante das rígidas lentes dos olhos de um pesado robô guerreiro, cujas armas energéticas se ergueram instantaneamente, apontando para o africano.

* * *

Postado junto à parede, Son Okura viu abrir-se a porta por trás da qual desaparecera Noir. Aprontou-se para receber o amigo que saía para o corredor com uma exclamação de alívio, quando percebeu o cano da arma energética pressionada contra o dorso do hipno.
O japonês ocultou-se no pequeno nicho formado pelo vão de uma porta. Não sem tempo, pois no mesmo instante as luzes foram acesas. Agora também o ara que ameaçava Noir se tornou visível. Para Okura, era mistério saber como escapara à sugestiva influência do hipno. De qualquer maneira, não poderia perder ambos de vista daí por diante.
E Ras Tschubai? Se voltasse agora, para levá-los de volta?
Okura não teve muito tempo para preocupar-se com isso. Precisava apressar-se, a fim de não deixar Noir desamparado. Esgueirou-se atrás do hipno e do ara. Conhecia o caminho.
A grande sala de exames!
Só que desta vez, os prenúncios estavam invertidos. Os trunfos se encontravam em mãos erradas. Era preciso agir com cautela, caso quisessem recuperá-los.
A mão de Okura deslizou para o bolso. Sorte sua, Ras ter-lhe cedido um dos mini-radiadores. Apesar de contarem apenas com três cargas, derrubariam bem uma dúzia de adversários em caso de necessidade.
Por enquanto, tinha que enfrentar apenas um.
Este um, no entanto, atormentava seriamente o pobre Noir. A desagradável pressão da arma nas costas em nada contribuía para seu bom humor. Procurava incessantemente achar algum ponto fraco na consciência do ara, porém Bóris demonstrava incomum resistência, como se tivesse passado por um condicionamento hipnótico especial. Hipótese que não devia ser excluída, visto que se tratava do dirigente do departamento médico em Naator.
Passaram pela sala de operações, entrando no recinto equipado com inúmera aparelhagem, distribuída pelos diversos nichos.
Parece uma moderna câmara de tortura”, pensou Noir.
Finalmente o médico estacou, intimando Noir a explicar-se. Parecia ter chegado à conclusão de que não lidava apenas com um mero simulante. Teria sido alertado por alguma coisa?
Vamos, malandro, fale! Quais são suas reais intenções? Pretendia assassinar-me? Em caso afirmativo, por quê? Que proveito lhe traria?
Noir fez uma derradeira investida. Recorreu a todas as suas forças para romper o bloqueio em torno do cérebro de Bóris. Porém inutilmente.
O ara já se encontrava sob a influência de um hipnobloqueio! De um bloqueio arcônida, no entanto. Unicamente um choque seria capaz de desfazê-lo.
Cuidado, Noir! Jogue-se no chão!
A voz parecia vir do nada. Bóris estremeceu, pois desconhecia aquela língua. Mas devia ser a razão menor de seu susto. Mais inquietante era a hipótese de ver-se diante de dois sabotadores. Voltou-se bruscamente, esquecendo Noir por um segundo.
Reconhecendo a voz de Okura, Noir apressou-se a seguir o conselho dado. Lançou-se para o lado, rolando pelo chão para o nicho mais próximo. Quando o delgado raio energético relampejou da porta através da sala, acertando na lâmpada, ofuscado, cerrou os olhos, Bóris acendera apenas aquela, e bruscamente tudo ficou imerso em trevas.
Jogue fora a arma! — gritou Okura, mudando imediatamente de posição.
O tiro energético de Bóris errou o alvo por três metros, no mínimo.
Não adianta, Bóris! Estou vendo você! Vejo, sim! Não é tapeação! Por que fechou os olhos agora? Para poder me ouvir melhor?
Noir ouviu o ara gemer.
Mas como é possível? Assim, completamente no escuro...? Está mentindo!
Acha? Agora, por exemplo, está apontando sua arma em direção oposta... o armário ao lado da porta provoca uma ilusão sonora, alterando o rumo das ondas de som! Ah, agora leva o cano para a esquerda. Errado também! Mas, agora, talvez acredite que o vejo.
Quem é você? — perguntou Bóris, aparentemente esquecido de Noir.
Foi seu erro capital.
Noir percebeu o relaxamento da resistência, e intensificou a pressão. O cérebro do ara estava literalmente aberto diante dele, e bastava servir-se. Okura representava para Bóris um problema insolúvel. Nem mesmo o hipnobloqueio arcônida resistiu diante do ímpeto final de Noir. O ara dobrou-se ao jugo mental do hipno.

* * *

Ras Tschubai reagiu instantaneamente, e teleportou-se para a escuridão. Quando pôde enxergar novamente, o robô estava parado a menos de trinta metros, olhando fixamente para o local onde acabara de avistar um zalita.
Se eu inutilizar um destes robôs guerreiros no meio do acampamento”, refletiu apressadamente Ras, “deixá-los-ei bem intrigados. Além disso, a máquina precisa ser destruída. De maneira nenhuma poderá ir contar-lhes o que viu...”
Enfiando a mão no amplo bolso do uniforme zalita, Ras retirou uma pequena granada. Sabia que poderia ser regulada para explodir dentro de dois segundos. Bastava apertar o botão, e procurar um esconderijo o mais depressa possível.
O robô voltou-se pesadamente. Talvez por ter escutado algum ruído. Quando a noite foi rasgada pelo luminoso facho de um holofote, Ras agachou-se. A luz emanava da testa do colosso. Ao mesmo tempo, o cinturão armado começou a girar vagarosamente.
Ras segurou a granada na mão direita, calcou o botão e lançou-a contra o robô.
Em certas circunstâncias, dois segundos podem representar longo espaço de tempo. Para Ras, duraram uma eternidade. Desistira de teleportar-se para lugar seguro, pois não sabia se conseguiria fazê-lo naquela situação. Ainda enquanto jogava a granada, pulou para o lado, num salto gigantesco, em direção de uma vala que oferecia proteção.
Enquanto caía, as armas do robô foram descarregadas. Sibilando, os fulgurantes raios energéticos varreram o chão pouco acima dele; Ras chegou a ter a impressão de que sentia o calor emanado pelos mortais disparos. Felizmente o robô mirara alto demais. Sua salva de energia perdeu-se além dos limites do espaçoporto.
Ras viu nitidamente a granada cair aos pés do robô. Agachou-se o melhor possível dentro da vala, cuja utilidade original ignorava. De qualquer forma, era artificial, e talvez servisse para a drenagem de água.
A chispa de ignição coincidiu com o estrondo da carga explosiva em erupção. A onda de choque atingiu o dorso curvado de Ras. Seguiu-se tremendo impacto, sacudindo o chão.
Depois reinou um silêncio mortal. Cautelosamente, o teleportador se ergueu. Depois daquele estardalhaço, o local não tardaria a fervilhar de gente. Além disso, os robôs guerreiros mantinham contato radiofônico entre si.
O lugar do colosso era ocupado agora por enorme cratera. Peças metálicas juncavam o chão nas redondezas, como se algum avião tivesse se despedaçado no local. Do robô propriamente, pouco restava.
Em algum ponto elevou-se o lamentoso uivo de uma sirene. As pisadas vigorosas de possantes pernas metálicas faziam vibrar o concreto. Um alto-falante berrava ordens estridentes, holofotes foram acesos, banhando a área em deslumbrante claridade.
Ras Tschubai compreendeu que precisava sumir. Ninguém devia vê-lo teleportando-se. Representaria sério perigo para todos eles. Caso chegasse aos ouvidos do regente o menor boato acerca de truques paranormais, suas suspeitas se dirigiriam imediatamente contra Rhodan e seu Exército de Mutantes.
A primeira onda de robôs guerreiros espalhou-se pelo campo, avançando em direção da cratera, quando Ras desmaterializou-se, e saltou de volta para o hospital.
Ainda chegou a ver Son Okura esgueirar-se pelo corredor, agora iluminado, dando mostras da maior cautela.
Sem refletir, seguiu atrás dele.
4



Uma sirene acordou os ocupantes do edifício-funil. Pouco depois, o robô 574 distribuía as ordens do dia. No quarto de Rhodan, todos escutavam atentos, e ansiosos por descobrir se a ação dos mutantes no decorrer da noite já produzira frutos.
O robô começou com as determinações de rotina, que certamente eram idênticas todos os dias. Depois a voz metálica comunicou:
A inspeção médica prevista para hoje foi adiada para amanhã. Ninguém deve deixar o prédio. Por volta de meio-dia, será dada a primeira aula teórica de armamento.
Ras Tschubai parecia satisfeito. Quando o alto-falante emudeceu, olhou para Rhodan com ar triunfante.
Viu como eu tinha razão, Sir? A destruição do robô guerreiro e as duas detonações na central de energia deram-lhes o que fazer.
Porém um único dia de adiamento não basta — replicou Rhodan. — Noir conseguiu controlar só dois aras; enquanto todos não forem dominados, estaremos sujeitos à descoberta.
Conheço os locais agora — objetou o hipno. — Se saltar para o hospital esta noite, em companhia de Ras, creio que darei conta do recado.
É o que espero — disse Rhodan, não muito otimista. — Seria bom estarmos a par do que se passa.
Voltou-se para Atlan, calmamente sentado sobre seu leito.
Por favor vá buscar Tanaka Seiko. No Exército de Mutantes, Seiko era o localizador. Seu cérebro tinha a capacidade de detectar ondas de rádio, determinando a posição do transmissor; além disso, podia “ouvi-las”. Em outras palavras: o mutante dispensava receptor para captar mensagens radiofônicas.
Atlan ergueu-se e deixou o recinto.
Bell acercou-se de Rhodan.
Será que espera transmissões não codificadas?
Rhodan acenou.
Exatamente. Os robôs certamente se comunicam um com o outro sem usar código. Mesmo que empregassem um, teríamos pouca dificuldade em decifrá-lo. Seja como for, precisamos estar informados, a fim de poder agir convenientemente. Nunca esqueça que estamos metidos numa verdadeira armadilha. Caso os arcônidas nos apanhem, não só nós estaremos perdidos, mas a Terra estaria praticamente aniquilada. A ameaça representada pelos druufs da outra dimensão temporal está um tanto afastada, apesar de continuar existindo. O regente tem tempo para dedicar-se à Terra. E, conforme constatamos, cuida disso com toda a determinação de um cérebro positrônico! Precisamos agir da mesma maneira. Só então teremos uma chance.
Atlan voltou, trazendo o japonês. Tanaka Seiko era esbelto. Uma cicatriz vermelha desfigurava sua face esquerda: era um disfarce que o fazia passar por zalita, e não japonês. Haviam conseguido “corrigir” os olhos oblíquos. A epiderme vermelha lhe dava aparência de índio.
Sinto-me realmente faminto, agora — disse Atlan, retomando o lugar em cima da cama.
Parecia não conhecer problema mais importante no momento; no entanto, quem o conhecesse de perto, sabia que estava tão envolvido nos acontecimentos quanto os demais. É que o imortal arcônida tinha marcada predileção por gozações, e gostava de emitir comentários jocosos sobre assuntos da maior gravidade.
Rhodan voltou-se para Seiko.
Estamos interessados em saber o que os arcônidas pretendem fazer. Antes de qualquer coisa, queremos saber a quem imputaram a culpa pelas explosões na central energética. Disso dependerão nossas próximas providências.
Muito bem, Sir — concordou Seiko, modestamente, olhando em torno. — Onde posso me instalar?
Bell indicou a cama debaixo da janela.
Pode usar meu beliche, Tanaka. Ficará à vontade nele, ninguém o perturbará. E assim que ouvir alguma coisa, avise-nos.
Ora, estou sempre ouvindo coisas — assegurou o mutante, sorrindo. — De momento, o Almirante Senekho declarou estado de alarme para todos os robôs de guarda e combatentes. Todo naat encontrado no interior dos setores delimitados deverá ser preso...
Exatamente o que desejávamos saber! — interrompeu Rhodan. Pitou Ras Tschubai. — Parece ter acertado com sua suposição. Senekho crê que foram os naats. Lamento pelos pobres ciclopes, porém não podemos poupar ninguém. Continue, Seiko! Que é que o almirante pretende fazer?
O japonês voltou a sorrir.
Não me apresse, Sir. Necessito de tempo para selecionar e coordenar as transmissões captadas. Dentro de uma hora, aproximadamente, poderei dizer-lhe mais...
Deram-lhe prazo até o meio-dia. Então o quadro se configurara:
O Almirante Senekho estava firmemente convencido da culpabilidade dos naats nos atentados realizados. Há menos de um ano — tempo da Terra — haviam sido forçados a conter uma rebelião no quinto planeta. Os ciclopes reagiam contra o costume de fornecer exemplares de sua raça para experiências científicas nos laboratórios dos aras.
Também na lua Naator viviam naats. Eram empregados como mão-de-obra barata, ou como atendentes pessoais dos oficiais-instrutores arcônidas destacados para servir em Naator.
Senekho expedira ordem de expulsar imediatamente todos os ciclopes das zonas reservadas. Alegava que o afastamento dos naats das instalações mais importantes evitaria futuros atentados. De onde se depreendia claramente que considerava os nativos culpados.
O dia de hoje — informou Tanaka — será dedicado à execução das novas regulamentações. A partir de amanhã, voltarão ao regime normal.
O que significava que Rhodan tinha vinte horas para estabelecer novos arranjos — ou submeter a totalidade dos aras a controle hipnótico, pois estes representavam perigo permanente.
Após o almoço, todos os mil recrutas foram reunidos no enorme salão do primeiro pavimento. O robô dava a aula. Discorreu sobre assuntos já fartamente conhecidos — pelo menos para os integrantes do comando de Rhodan. Falou dos começos do Império, sua ascensão, e seu poderio atual, sem se deter nas dificuldades existentes. Por fim, frisou que Árcon alcançara tão destacada posição apenas por dispor de excelentes armas e soldados. E aperfeiçoar ainda mais ambos era a meta principal da academia militar em Naator, na qual os “voluntários” eram saudados cordialmente, em nome do regente.
Bell estava parado ao lado de Rhodan. Não havia assentos.
Poxa, bem que eu gostaria de tapar a boca deste sujeito! — sussurrou ele. — Jamais ouvi tanta mentira de uma só vez. Nem mesmo de Gucky!
Mentir faz parte da propaganda — replicou Rhodan, em voz igualmente baixa.
Mas fique quieto, agora! Alguns dos zalitas já estão nos olhando.
As horas correram. A longa permanência em pé começava a produzir desconforto entre os homens, mas o robô naturalmente não era afetado. Prosseguiu em sua ladainha.
Minutos depois, deu o sinal de encerramento da aula.
Os recrutas retornaram aos alojamentos, e o jantar foi servido.
Após o jantar, Rhodan chamou os dois teleportadores Ras Tschubai e Tako Kakuta para junto de si. O japonês ainda não tinha entrado em ação até o presente, mas agora as circunstâncias exigiam que também desse sua contribuição para o êxito do plano.
Rhodan fitava Ras, enquanto dizia:
Vocês têm diante de si uma noite trabalhosa. O Almirante Senekho proibiu a entrada de qualquer naat nas zonas reservadas. Entretanto temos de continuar jogando a culpa dos atentados sobre os ciclopes. Logo, vocês terão que estender sua atividade a alvos fora dos limites da academia. Por todos os cantos da lua precisam explodir bombas no decorrer desta noite, provocando destruição. Todo o sistema de vigilância dos arcônidas deve concentrar-se na prisão dos sabotadores. Creio que assim ganharemos o tempo necessário para Noir submeter todos os aras ao seu controle. Esta medida é essencial para não sermos descobertos. O repentino levante dos naats dará o que fazer aos arcônidas. Quero que relaxem a vigilância sobre nós, e procurem o inimigo em outro lugar.
Conseguiremos — assegurou Ras, alisando significativamente sua colcha, debaixo da qual se ocultava um bem sortido arsenal. — Com estas coisinhas aqui, faremos metade da lua voar pelos ares.
Rhodan recomendou:
Cuidado para não exagerar, Ras! Claro que os naats teriam possibilidade de arranjar bombas e granadas de mão: Porém lembre-se de que os naats são pouco inteligentes, apesar de o regente lhes ter confiado até funções na frota espacial, antes da rebelião. Providenciem pois a detonação de algumas bombas em locais inteiramente absurdos, onde não possam causar mal algum. As suspeitas de Senekho devem recair apenas sobre os naats, e sobre ninguém mais. Fato que se dará naturalmente caso ocorram atos de sabotagem no outro lado da lua, portanto, em plena luz do dia. Pessoa alguma poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Salvo teleportadores... — lembrou Ras.
Também André Noir recebeu as últimas instruções e conselhos. Acompanhado de Son Okura, seria levado ao hospital por Ras, que tornaria a ir buscá-lo antes do amanhecer. Durante este período, o hipno e o perceptor de freqüência estariam por conta própria. Porém já não correriam tanto perigo, visto que o médico-chefe Bóris e seu subordinado Renol haviam sido submetidos com êxito ao tratamento hipnótico, e os transformaram em aliados.
Meia hora mais tarde, Ras saltou com Noir e Okura. Regressou em meio minuto, tomando a mão de seu colega Tako Kakuta. Empreenderiam o primeiro salto em conjunto.
Cada qual levava numa sacola duas dúzias de granadas e bombas de tempo. E, antes do sol raiar, todas explodiriam em diversos pontos da lua Naator...

* * *

Graças, primordialmente a Tanaka Seiko, Rhodan manteve-se informado acerca do sucesso da ação, e das contramedidas dos arcônidas. O localizador passou a noite inteira escutando as mensagens radiofônicas.
O Almirante Senekho foi acordado ainda no decorrer da noite. Quando uma bomba explodiu a vinte quilômetros, no meio de um depósito de peças de reposição, o alarme invadiu estridentemente a academia. A região foi imediatamente cercada, e prenderam os poucos naats residentes nas imediações daquela zona militar. Porém tornaram a ser liberados dez minutos após, quando houve segunda explosão.
Senekho viu confirmada sua suposição de que a resistência passiva dos nativos se intensificava gradualmente. E libertou os naats julgando que assim acharia a pista dos cabeças do movimento.
Simultaneamente chegaram-lhe alarmantes comunicados do lado oposto da lua. Dois pesados robôs guerreiros tinham sido abatidos numa tocaia. Fato jamais verificado anteriormente em Naator. Aquilo era rebelião declarada!
Senekho entrou em contato imediato com o regente, exigindo maior liberdade de ação em relação aos nativos. O cérebro-robô deu ordem para prender qualquer naat suspeito.
Ainda na mesma noite, os robôs invadiram as residências dos desavisados ciclopes, levando-os para campos de concentração. A ação, desencadeada de maneira fulminante, teve o maior êxito; pouquíssimos naats conseguiram escapar, refugiando-se nos inacessíveis ermos de Naator.
A onda de sabotagem prosseguia, a despeito das prisões efetuadas. Por toda a parte explodiam bombas de tempo, colocadas com maior ou menor habilidade, causando sensíveis estragos. Diversas estações-relé para transmissão de energia pararam de funcionar. Entre os robôs, as destruições vitimaram dois tanques, e sete guerreiros.
O Almirante Senekho perdeu a compostura, e esbravejava. Em contato constante com a estação radiofônica da academia, recebia as sucessivas mensagens funestas, e distribuía ordens. Nos intervalos, informava Árcon, pedindo instruções. Os verdadeiros rebeldes tinham se safado, a despeito da internação da maioria dos naats.
Senekho desejava que os novos recrutas, os zalitas alistados, nada chegassem a saber a respeito dos atentados.
Porém, tal desejo foi por água abaixo, pois o regente enviou a seguinte mensagem:
Exames médicos e instrução das tropas suspensos por três dias!

* * *

Notícia recebida com o maior alívio pelo grupo de Rhodan, quando Tanaka Seiko a captou e transmitiu-a.
O plano fora coroado de êxito. O objetivo havia sido alcançado.
Pouco depois, Ras trazia de volta o hipno André Noir e Son Okura. Os dois mutantes tinham conseguido submeter a controle hipnótico mais cinco aras. Os médicos restantes seriam tratados na próxima noite. E a terceira noite seria reservada aos instrumentos médicos de controle. A preocupação principal de Rhodan era “viciar” o medidor de Q.I.; seus técnicos cuidariam disso. Não bastava que o aparelho fosse operado pelo médico-chefe sujeito a bloqueio hipnótico.
Três dias e três noites se passaram. Os atos de sabotagem cessaram.
Quando o robô 574 ordenou a formação, em filas de cinco, diante do edifício-funil, a fim de reiniciarem o treinamento interrompido no academia, Rhodan e seu grupo de terranos estavam preparados.
Haviam tomado todas as providências para impedir que fossem descobertos pelos aras. Calmos e tranqüilos, marcharam para o hospital na primeira turma. Um oficial arcônida assumiu o comando no portão de entrada, mandando o robô 574 de volta. Apesar de não prevista no programa, a intervenção daquele arcônida já não representava perigo. John Marshall sondou-lhe os pensamentos, constatando que não suspeitava de nada.
Foram admitidos em grupos de dez, com intervalos de um minuto. O aprimoramento técnico permitia tão breve interstício, e a inspeção se processava rapidamente. Aras subordinados conduziam cada grupo de uma sala de exames para outra.
Noir podia considerar-se satisfeito com sua obra. Bastava dar a palavra-senha ao respectivo médico ao entrar no nicho, e podia estar certo de que o ara agiria de acordo com o desejo dos terranos.
Rhodan integrava o primeiro grupo, assim como Noir, Atlan, Marshall e Gorlat. Caso desse tudo certo com eles, teriam a garantia de que os exames dos catorze grupos seguintes se processariam sem problemas.
Salve o regente! — disse André Noir, ao entrarem duas horas após na grande sala onde pontificava Bóris.
Erguendo o olhar, o médico-chefe deu com os olhos do hipno. Seus olhos brilharam de forma estranha, depois estarreceram. Mas apenas por alguns segundos.
Salve o regente! — replicou ele, fazendo sinal para seus assistentes.
Gesto completamente supérfluo, pois Noir controlara igualmente os assistentes. Os procedimentos que teriam início agora não passariam de uma farsa, em proveito de eventuais câmaras fotográficas ou microfones existentes.
O medidor de Q.I. funcionou “com perfeição”. Unicamente o quociente intelectual de Atlan — agora Capitão Ighur — superava um pouco o de Rhodan e dos demais terranos. Com isso, ele se colocava bem acima da média dos zalitas, circunstância que mal despertaria suspeitas. Mesmo que houvesse dúvidas, Atlan nada tinha a recear na eventualidade de um segundo exame. Como arcônida, possuía todas as características de um zalita, inclusive a estrutura óssea.
As fichas foram encaminhadas ao arquivo. Seriam devidamente estudadas pelos arcônidas, e aproveitadas de acordo com os resultados obtidos.
Quando o primeiro grupo deixou o hospital, e marchou de volta para os alojamentos, a tarde já chegava ao fim. Um minuto após veio a segunda turma de dez homens.
Salve o regente! — exclamou também Reginald Bell, quando seu grupo concluiu a prova com Bóris.
Ainda enquanto deixava o recinto com seus nove companheiros, e eram conduzidos por um ara para a saída, o código funcionou. O hipnobloqueio colocado por Noir no cérebro de Bóris neutralizou-se, devolvendo-lhe o raciocínio normal... mas junto com as falsas recordações.
O mesmo se deu com os demais médicos.
Chegara o intervalo para o almoço. Tinham examinado mil recrutas. Com mais vagar e cautela do que de hábito, por ordem expressa do almirante. Em vez de mil e quinhentos, apenas mil numa manhã.
Nenhuma ocorrência especial. E que ocorrências podiam aparecer, afinal...?

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