— Zalitas!
Bem-vindos a Naator, em nome do regente! Encontram-se no campo de
seleção das forças imperiais. Aqui serão treinados, e
posteriormente encaminhados à frota. Vocês são soldados de Árcon,
zalitas! Prestaram juramento ao regente, com o que se comprometeram a
lutar por ele, e até a morrer, se for necessário! Vocês lutam por
Árcon, mas também por Zalit, sua pátria! Um poderoso adversário
ameaça nossa existência. Quando tiver sido derrotado, vocês serão
reconduzidos a Zalit. Até lá, porém, deverão pensar
exclusivamente em seu dever. Obedeçam às ordens dos oficiais e dos
robôs, até serem investidos em comandos próprios. É tudo que
tenho a dizer-lhes hoje. Sou o Almirante Senekho, dirigente de
Naator. E agora serão encaminhados aos alojamentos.
Outra
fisionomia apareceu na tela.
— Os
alojamentos ficam a oeste do campo de pouso. Cada prédio em forma de
funil comporta mil homens. Para cada milhar, haverá um robô
encarregado da supervisão. Guardem seu número de série, pois,
daqui por diante, toda e qualquer pergunta deverá ser feita a ele.
Será a autoridade máxima para cada grupo de mil soldados.
Realmente,
maneira simples mas eficiente de organizar as coisas. Apesar disso,
ainda se passaram duas horas antes que Rhodan e seu grupo pudessem se
pôr em marcha, junto com oitocentos e cinqüenta zalitas. Eram
comandados pelo robô 574.
À direita
e à esquerda das largas ruas, Rhodan percebeu a existência de
controle de radar, a intervalos regulares. Impossível, portanto,
alguém pensar em fugir sorrateiramente, na ilusão de achar refúgio
nas proximidades. E, por certo, toda a área do campo de treinamento
estaria rodeada de aparelhamento de controle ainda mais eficiente. No
entanto, medida inteiramente desnecessária, pois no árido deserto
de Naator, qualquer fugitivo pereceria em pouco tempo.
Avistavam
agora os prédios em forma de funil. Mal se destacavam do cenário
imerso em perpétua meia-luz.
O sol de
Árcon desapareceu no horizonte, sem que a escuridão se acentuasse.
O céu continuava roxo-escuro. Milhões de estrelas forneciam luz
suficiente para a produção de leves sombras. Árcon ficava no
centro de uma massa circular de estrelas, e o deslumbramento dos
astros ultrapassava tudo que a mente humana pudesse conceber.
O prédio
possuía sete pavimentes. Cada um comportava cento e cinqüenta
zalitas, distribuídos em quartos para vinte e cinco homens cada.
Apenas no pavimento térreo, a lotação se reduzia a cem pessoas.
Constituíam o grupo de guarda, substituído a cada três dias.
O robô
repartiu o pessoal, e anunciou a distribuição de gêneros
alimentícios. Cada pavimento devia destacar dez zalitas para receber
as provisões.
Rhodan
examinou o singelo alojamento. Uma série de camas comuns, cada qual
ladeada por um pequeno armário. As janelas externas eram amplas e
desprovidas de grades; havia defesas mais eficientes do que as
primitivas grades. Encontravam-se no terceiro pavimento, com visão
panorâmica das instalações do espaçoporto. Em torno destas
ficavam os prédios baixos das academias.
Rhodan
acautelava-se ao falar. Era de supor que nenhum dos arcônidas
postados em Naator ouvira inglês em toda a sua vida, porém havia
bons aparelhos de decodificação. No entanto achava melhor dizer as
coisas importantes em inglês, e não na língua zalita.
— Tenente
Wroma, tome nove homens, e apresente-se como aprovisionador. Preste
atenção na conversa dos demais zalitas. Precisamos saber como se
portam na presente situação.
O africano
prestou continência e afastou-se.
Bell
sentara-se sobre uma das camas.
— Como
nos meus tempos de cadete! — constatou, suspirando, e testando o
colchão com a mão espalmada. — Vou ter que passar por tudo isso
novamente? E tendo, ainda por cima, um robô como sargento!
Atlan
aproximou-se dele, e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Para
que tanta reclamação, gorducho? Eu sou almirante, e tenho que fazer
papel de recruta. Para ser sincero, começo a achar graça na
brincadeira.
Bell
resmungou algo ininteligível, e dedicou-se à inspeção dos
cobertores. Mas dificilmente sentiriam frio no recinto aquecido.
Parecia ser o único conforto que lhes havia sido concedido.
— Ora,
não ficaremos aqui eternamente — consolou Gorlat. — Consideremos
Naator como uma espécie de pausa para descanso.
Bell deu
uma risada.
— Chama
a isso de descanso! Pois eu só vou descansar depois de termos
acabado com o gás do cérebro-robô. Mas, para isso, temos de chegar
ao planeta principal!
Com um
gesto, Rhodan ordenou silêncio.
— Precisamos
ser cautelosos. Falem apenas o essencial, e em voz baixa. Depois de
comer, dormiremos. Temo que amanhã seja um dia extenuante. E não se
esqueçam jamais de nosso único objetivo: Árcon! É lá que temos
uma tarefa a desempenhar. Isto aqui... — indicou as camas, os
armários e as janelas — ...isto não passa de um episódio. Será
superado, mais cedo, ou mais tarde.
No
silêncio, a voz de Marshall se ergueu:
— Finalmente
obtive contato, Sir!
Todos o
fitaram esperançosamente.
— Sim,
contato telepático com o Almirante Senekho. Logo saberemos o que nos
espera.
— E eu —
sussurrou o mutante-localizador japonês — vou distrair-me um pouco
com as emissões radiofônicas deles.
— Exato,
Tanaka, faça isso. Toda informação pode ser preciosa para nós.
Rhodan
sentou-se sobre sua cama.
— De
momento, só estou ansioso por ver o que nos servirão no jantar.
Soldados famintos não são bons lutadores.
— Nem
bem alimentado sirvo para lutar — resmungou Bell, mal-humorado.
Não
parecia nada satisfeito com o ofício de recruta.
Porém
Rhodan estava satisfeito.
Dois
passos foram dados. Os demais passos em direção a Árcon viriam
depois.
3
O primeiro
dia em Naator não trouxe novidades. Da janela, Rhodan viu diversas
colunas de zalitas serem conduzidas aos prédios administrativos,
retornando posteriormente. Porém, segundo seus cálculos, apenas
três mil recrutas foram atendidos naquele dia.
À noite,
o robô 574 veio avisar que o grupo seria registrado no dia seguinte.
John
Marshall, o telepata, passara diversas horas sentado sobre sua cama,
de olhos fechados. Ninguém o perturbava, pois sabiam que o
australiano tentava “entrar
em contato”
com as personalidades importantes de Naator, a fim de colher
informações.
De
repente, Marshall abriu os olhos, e fitou Rhodan. O convite mudo era
óbvio. Também Gorlat e Bell se aproximaram. Atlan estava ausente no
momento.
— Que
foi, Marshall? Descobriu algo?
O telepata
acenou.
— Os
primeiros três milhares de zalitas foram submetidos à inspeção
médica hoje. Não, não conforme julgam. Em Zalit, era apenas uma
farsa, a fim de dar os recrutas como válidos. Aqui em Naator, a
inspeção é rigorosa. Pude localizar os membros da junta médica, e
ler seus pensamentos. Não deixam passar nada!
— Não
deixam passar nada? — repetiu Bell, apavorado.
Notou a
repentina seriedade no rosto de Rhodan. Nem mesmo a arte dos
maquiladores os livraria agora da descoberta.
Marshall
prosseguiu:
— Ainda
não é tudo. Descobri que a inspeção não visa apenas determinar o
estado de saúde dos recrutas; sua finalidade primordial é detectar
a possível infiltração de espiões disfarçados entre os homens
alistados, impedindo que cheguem a Árcon. Contam com a possibilidade
de haver agentes terranos entre os zalitas, transformados por meio de
operações plásticas em representantes de outras raças.
Rhodan
aparentava nervosismo.
— Quer
dizer que suspeitam exatamente do que ocorreu na realidade...
surpreendente! E agora?
— Infelizmente
tem mais — continuou Marshall suas desanimadoras informações. —
Os médicos examinadores são aras, sem exceção.
Desta vez,
todos ficaram calados.
Justamente
os aras tinham que estar envolvidos no caso! Conheciam os terranos, e
os detestavam. Fora Rhodan que lhes estragara a negociata com a
doença. Conheciam a estrutura óssea dos terranos; a primeira
radiografia revelaria toda a farsa.
Rhodan
perguntou mais uma vez:
— E
agora, meus amigos? Sabem de alguma saída? Duvido que possamos
subtrair-nos à inspeção, pois logo despertaríamos suspeitas.
Portanto, temos de enfrentar os aras, e passar no exame. Falando
francamente, sinto-me desorientado.
— Bem,
sugiro que estudemos todas as possibilidades — disse Gorlat. — Se
cada um expuser suas idéias, talvez consigamos elaborar um plano
viável. Nossa intenção seria a de iludir os médicos aras.
Portanto, o mais indicado é colocar Noir em ação.
— Noir é
um hipno extraordinário, mas não poderia influenciar em tão curto
espaço de tempo uma dúzia ou mais de aras, submetendo-os a bloqueio
hipnótico.
Bell
sacudia a cabeça, desanimado.
— Ras
Tschubai poderia saltar até lá, e pô-los fora de ação.
— Isso
não! — discordou Rhodan. — Seria a maior das tolices. No
entanto, você me deu uma boa idéia, Bell. Ras poderia procurar os
aras junto com Noir. Nestas circunstâncias, o bloqueio poderá ser
feito rapidamente.
— Oba,
funcionou meu palpite de trocarmos idéias! — exclamou Gorlat,
radiante. — De duas sugestões inaproveitáveis acabou surgindo uma
bastante usável. Mais alguns detalhes, e nosso plano de guerra está
pronto. Que tal desviar um pouco o tal de Almirante Senekho de suas
funções regulamentares? Caso esteja bastante ocupado, terá menos
tempo para preocupar-se com os zalitas... e conosco.
— E de
que maneira pensa fazer isso? Gorlat sorriu astutamente.
— Son
Okura enxerga tão bem à noite quanto de dia. Caso vá com Ras
Tschubai, serão como duas sombras: rápidos, invisíveis e
perigosos. Poderiam executar alguns atos de sabotagem, que certamente
seriam imputados aos naats.
— Um
momento! — interrompeu Rhodan, com ar preocupado. — Receio que
estejamos indo longe demais. Nossa missão não é produzir
inquietude em Naator, e sim alcançar Árcon. Apesar disso, preciso
reconhecer que, às vezes, um pequeno rodeio nos leva mais depressa
ao objetivo. Nossa tarefa mais imediata é pressionar os aras, sem
que eles e os zalitas percebam.
— Não
seria possível fazê-lo numa única noite, pois sou incapaz de
localizar todos eles ao mesmo tempo — observou Marshall, derrubando
todas as especulações até então feitas. — Portanto, seria bom
que pudéssemos ganhar tempo. Talvez Gorlat esteja certo com sua
sugestão de ocupar Senekho.
Quando
Atlan regressou, duas horas depois, o plano estava combinado,
organizado e definitivamente traçado.
Faltava
apenas dar ciência dele a Atlan.
Son Okura
era de constituição frágil, e tinha alguma dificuldade em andar.
Fatores que precisaram ser levados em consideração quando
transformaram-no em zalita; porém o resultado foi tão satisfatório
que ninguém seria capaz de diferenciá-lo de um genuíno habitante
de Tagnor. Era um perceptor de freqüência, capaz de reconhecer
qualquer objeto mesmo na escuridão. Até raios infravermelhos eram
visíveis para seus olhos. Mesmo horas após seu desaparecimento,
percebia a aura de calor emitida por um corpo.
Sob o
aspecto físico, o teleportador Ras Tschubai vinha a ser o exato
oposto de Okura. Sua estatura lembrava a dos naats, mas naturalmente
o africano tinha apenas dois olhos, e não três.
Os dois
mutantes formaram o primeiro comando de ação da noite incipiente.
Ras sabia
que era arriscado saltar ao acaso, sem saber para onde ia.
Preocupar-se-ia menos caso estivesse sozinho, mas levava o japonês...
Claro que, apesar da sobrecarga, era capaz de desmaterializar-se
instantaneamente, caso algum perigo ameaçador o obrigasse a
desaparecer o mais rápido possível. Porém Rhodan recomendara
insistentemente que fosse cauteloso, e não chamasse a atenção.
Pessoa alguma deveria suspeitar da presença do teleportador em
Naator.
— Pronto!
— disse Son Okura, segurando a mão do africano.
Ras
Tschubai concentrou-se para um salto curto, que os deixaria nas
proximidades dos prédios administrativos, e lojas. Desconhecia seu
alvo, o que no entanto não representava dificuldade. Visualizava-o.
Quando se
materializaram, Ras Tschubai não viu absolutamente nada de início.
As estrelas brilhavam com a intensidade habitual, mas eram ofuscadas
pela iluminação vinda de dentro das casas.
— Boa
pontaria — disse Okura, cujos olhos tinham se ajustado
imediatamente. — Estamos bem perto das primeiras construções. À
direita, há um sentinela patrulhando. Um zalita. Portanto, eles já
foram designados para o serviço de guarda.
— Vamos
saltar para a área diretamente à nossa frente. Sabe o que
procuramos?
Okura
acenou, porém Ras não via. Saltou.
Desta vez,
estava realmente escuro, e não havia estrelas.
— Onde
estamos? — perguntou o teleportador.
— Num
depósito de equipamento militar. Uniformes, até onde posso
verificar. Mais atrás, trajes espaciais leves. Tudo caprichosamente
empilhado em prateleiras.
— Bem,
se o frio apertar, saberemos como nos defender. Mas hoje procuramos
outra coisa, Okura. Vamos andando.
O japonês
guiou Ras através das trevas, com impressionante segurança. O
africano confiava incondicionalmente no detectador humano de
freqüência. Não tinha o menor receio de tropeçar em algum objeto,
ou dar com a cabeça contra a parede.
— Uma
porta! Ah, não está trancada.
Seguiram
adiante.
— Um
corredor. Portas por todo lado. Qual delas nos serve?
Okura não
respondeu. Ouvira um ruído lá adiante. Passos! Alguém caminhava na
direção deles. Porém o andar revelava o cansaço do caminhante. Os
pés arrastavam no chão.
— Um
sentinela! — cochichou Ras. — Não se trata de um robô; talvez
seja zalita. Ande, a próxima porta!
Foi um
acaso, conforme asseguraram repetidas vezes mais tarde; porém todos
interpretaram suas afirmativas como manifestação de modéstia. Pois
quando penetraram no recinto, Okura deixou escapar uma exclamação
de surpresa, e Ras compreendeu que desta vez não haviam dado com
nenhuma rouparia.
— Armas!
— sussurrou Okura. — Granadas de mão, pistolas portáteis de
raios, pequenas bombas de tempo... um paraíso para rebeldes!
— E
consta-me que existe um bocado deles em Naator — murmurou Ras,
satisfeito. — Por que deixariam esta porta sem chave?
— A
entrada principal é impenetrável, Ras. Defendida por um campo
energético. Ninguém pode sair deste prédio. O próprio sentinela
está trancafiado.
Bem, isso
explicava tudo. Picaram escutando os passos do sentinela.
— Que
diabo! — praguejou Ras. — Por que não consigo enxergar nada?
— Porque
está escuro — respondeu Okura, lacônico. — Seu coração
pularia de alegria, se pudesse ver o que vejo. Exatamente o que
precisamos para executar nosso plano. Tivemos uma sorte danada!
— Ótimo!'
Neste caso, apressemo-nos. Levaremos um bom sortimento para nosso
quarto, onde estabeleceremos a base de operações. Com três ou
quatro pulos estará feito.
Uma hora
depois, Ras teleportou-se com Okura e André Noir, o hipno, para o
hospital, prometendo vir buscá-los novamente duas horas mais tarde.
Depois desapareceu diante dos olhos dos outros mutantes, carregando
uma respeitável quantidade de pequenas bombas de tempo, algumas
granadas de mão e um radiador energético. Poderiam reservar agora
para a ação em Árcon todas as armas e recursos de sabotagem
discretamente embutidos em seus uniformes, ou entre a reduzida
bagagem.
Noir não
era muito alto, e fazia um terrano bastante simpático. Mas como
zalita, transformara-se num indivíduo de ar ameaçador e pouco digno
de confiança. No entanto, sua especialidade de “dobrar”
mentes estranhas à sua vontade não sofrerá com o disfarce.
— Os
aras alojam-se mais adiante — sussurrou ele, apontando para o
corredor imerso em meia-luz. — Posso sentir suas ondas de
pensamento. Estão dormindo.
— Seria
capaz de descobrir o médico-chefe, André?
— Dificilmente,
Son. Dormem, e, em sonhos, qualquer deles pode se considerar chefe.
Rindo, o
japonês se pôs a caminho.
— Então
teremos que controlar um por um. Vamos lá, a primeira porta!
Como
também o hospital — caso pudesse ser designado por este nome —
estivesse hermeticamente isolado do mundo exterior por uma cortina
energética, as portas internas não possuíam chave. Quando os dois
homens penetraram no quarto, apenas o japonês podia ver o que havia
nele.
No canto,
abaixo da janela, via-se uma cama, ocupada por um vulto deitado; ao
lado, um armário. Dependuradas no encosto de uma cadeira, peças de
roupa; entre elas, um jaleco branco, traje profissional
característico dos aras em atividade.
Gradualmente,
os olhos de Noir se ajustaram à escassa luz. As estrelas brilhavam
livremente através da janela desprovida de cortinas. O homem deitado
tinha estatura bem acima da média, e era impressionantemente magro.
O rosto encovado dava-lhe ar doentio. Porém Noir sabia que as
aparências enganavam; aquele homem era perfeitamente são.
Noir
acionou seus poderes. Cautelosamente, penetrou na consciência
adormecida do ara, apossando-se dela. Em vista da ausência de
resistência do paciente, conseguiu seu intento rapidamente, com a
maior facilidade. Depois despertou o ara.
— Como
se chama?
O hipno
falara em voz baixa e insinuante. Os olhos arregalados do médico
fixaram-se nele por um instante, depois tornaram-se mortiços e
indiferentes.
— Renol.
— Faz
parte da junta médica que examina os recrutas? Quem é o
médico-chefe?
— Sim,
examinamos os recrutas. Bóris é o chefe. Mora alguns quartos depois
do meu.
Noir
exultou. A coisa ia melhor do que esperara.
— Levante,
agora, e siga-me. Saberá achar uma evasiva, caso encontremos alguém.
Deve obedecer a todas as minhas ordens. Receberá instruções
adicionais conforme as circunstâncias forem exigindo. Mostre-nos as
salas de exame.
Mecanicamente,
o ara levantou da cama e enfiou as roupas. Apesar de lentos, seus
movimentos eram regulares e inteiramente normais. Nem de longe
suspeitava do perigo que corria. E no dia seguinte teria esquecido
tudo.
Saíram do
quarto, com Renol na frente. Atravessaram uma sala de operações, e
foram dar num amplo recinto subdividido em nichos, por delgadas
paredes. Neles se viam estranhos aparelhos, cuja finalidade Noir não
compreendeu de imediato. Ordenou ao ara que fornecesse as devidas
explicações.
Noir
assustou-se ao perceber de que armadilha se haviam livrado. Com a
ajuda dos instrumentos e máquinas instalados naquela sala, terrano
algum teria passado pelo controle sem ser descoberto. Aliás, o
aparelhamento desmascararia qualquer indivíduo não pertencente à
raça zalita.
O hipno
demonstrou particular interesse pelo medidor de Q.I. Externamente, o
aparelho constava de uma poltrona com capacete, alguns fios, e do
avaliador positrônico. Bastava o examinando sentar, e tudo se
processava automaticamente. Os resultados eram arquivados num
fichário.
Noir sabia
que o quociente intelectual dos terranos era sempre superior ao dos
zalitas. Submetidos à inspeção de rotina, tal particularidade se
revelaria fatal para o comando especial. Seriam denunciados pelos
elevados índices alcançados.
— Quem
opera este medidor de Q.I., Renol?
— Bóris
em pessoa — foi a resposta.
Gastaram
muito tempo na ronda; quando reconduziram Renol ao seu quarto, duas
horas depois, Ras ainda não regressara.
Aguardaram
por mais meia hora.
Como Ras
continuava ausente, começaram a ficar inquietos. Sem o teleportador,
estariam presos no interior do hospital, a não ser que Renol
possuísse chave para desligar a cortina energética. Probabilidade
das mais improváveis. Noir descobrira que as barreiras de energia
eram comandadas por uma central, e só podiam ser desligadas por
ordem de Senekho.
Mais dez
minutos se passaram.
— Espere
aqui, Son. Vou aproveitar o tempo para “tratar”
do tal de Bóris. Com o médico-chefe do nosso lado, muitas
dificuldades poderão ser contornadas. Sei onde fica o quarto dele.
Noir
enxergava o suficiente para poder orientar-se sem ajuda do japonês.
Encontrando a porta encostada, entrou na peça semi-imersa em sombra.
Reconheceu o vulto de uma cama ao fundo. A janela estava escancarada.
Algo
alertou Noir.
Antes que
pudesse constatar que se tratava dos pensamentos do ara, este
exclamou, ameaçadoramente:
— Seja
lá o que pretende, e seja lá quem for, não se mexa! Estou com uma
pistola energética apontada para você. Volte-se cuidadosamente, e
acenda a luz. O comutador fica à direita da porta.
Sem
alternativa no momento, Noir obedeceu. A mente do ara estava ativa
demais por ora, para ser influenciada com facilidade. Mais tarde,
talvez...
A luz
invadiu o quarto. Noir percebeu que o ara não mentira. Apesar de
continuar estendido ao comprido na cama, debaixo do cobertor,
distinguia claramente os contornos de um possante radiador. A boca
apontava diretamente para o hipno, de acordo com a ameaça feita.
— Responda,
meu caro! — disse o ara, suavemente; porém a voz calma denotava
absoluta autoconfiança. — O que me confere a honra desta visita
noturna?
— Posso
fazer uma pergunta, primeiro? — falou Noir, procurando ganhar
tempo. — Como sabia que eu vinha vindo?
O ara riu,
complacentemente.
— Sou
médico-chefe em Naator — replicou ele benevolamente, e o tom de
sua voz revelava a razão da benevolência. Era simplesmente vaidoso.
— O Almirante Senekho concede-me total confiança, e os arcônidas
são desconfiados. Não confiam em ninguém. Nem mesmo em seus
amigos, os aras. Portanto, fui encarregado de vigiar meus médicos.
Há sistemas de escuta entre meu quarto e os deles. Quando você foi
procurar Renol, acordei. Desta forma, fiquei sabendo que Renol é um
delator. Como revelou meu nome, eu devia preparar-me para sua visita
ainda no decorrer desta noite.
De
repente, o tom de voz se tornou ríspido e exigente.
— Agora
chega de evasivas! Quem é você, e o que quer aqui?
— Quem
sou...? Ora, ainda não me identificou?
— Mas
claro! Já vi que é zalita! Como entrou aqui? As cortinas
energéticas...
Com grande
precaução, Noir tentou penetrar na consciência de seu oponente.
Mas era difícil, quase impossível. O ara estava em guarda. E
qualquer provocação poderia levá-lo a apertar o gatilho.
— Consegui
esconder-me no decorrer da inspeção de hoje, com a intenção de
esperar pela noite. Para ser sincero, recuso servir na frota do
regente. Pretendia falsificar o resultado dos exames, para ser
mandado de volta a Zalit.
Talvez o
choque dessas revelações provocasse certo descuido por parte do
ara. Noir sentiu um espasmo na região do estômago. Era exatamente
para onde apontava o radiador de Bóris, ainda oculto sob o cobertor.
E se não
fosse radiador nenhum...?
— Tentou
o impossível — disse o médico-chefe, ironicamente. — Os
autômatos não se deixam enganar. Vou chamar a guarda, e mandar
entregá-lo aos robôs.
Lançando
o cobertor para o lado, levantou da cama. Noir viu que se enganara em
sua suposição. A mão de Bóris empunhava realmente uma pistola.
Não se tratava de blefe do ara.
— Caso
ainda tenha algo a me dizer, fale agora. Mais tarde não terá
oportunidade para isso.
Noir
percebeu que sua posição não era nada boa. Lá fora, no corredor,
Son Okura esperava por Ras. Porém o teleportador não aparecia;
possivelmente também fora apanhado em alguma armadilha. Caso fossem
submetidos a interrogatório, com aplicação dos psicodetectores, o
plano de Rhodan iria por água abaixo. Com a vontade paralisada,
revelariam tudo.
— Não
vai chamar guarda nenhuma! — disse Noir, em tom incisivo. — Pois
eu não vou deixar!
Tentou
mais uma vez dominar o cérebro do ara, porém ele reagia, sem saber,
opondo-se com todas as forças disponíveis. Noir sabia que apenas
uma operação relâmpago teria êxito. Alguma surpresa que
assustasse suficientemente o ara, provocando um momentâneo descuido.
— Ou
acha que vim para cá sem arma?
— Não
vejo nenhuma — replicou Bóris.
— Existem
armas invisíveis. Caso pudesse estar, neste preciso instante, na
grande sala de exames, saberia a que me refiro. Não é lá que estão
arquivados os resultados de suas análises?
O
médico-chefe enfiou seu jaleco. Não parecia nem um pouco
impressionado, nem preocupado com as ameaças de Noir.
— Pois
vamos até lá verificar — sugeriu ele, forçando o hipno a
voltar-se. Simultaneamente, apertou-lhe a boca da arma nas costas. —
E ai de você se mexeu em alguma coisa! Ficaria bem satisfeito se o
entregasse aos guardas... coisa que não farei. Você vai morrer, e
morrerá lamentando jamais ter nascido.
Noir
hesitou.
— Ande
logo, zalita!
E Noir
saiu para o corredor.
*
* *
A carga
privou Ras Tschubai da liberdade de movimentos que gostaria de ter.
Materializou-se,
e permaneceu em total imobilidade até os olhos se habituarem à
escuridão. Sentiu uma vibração sob os pés, e escutava sussurros
regulares, acompanhados de leves pancadas.
Encontrava-se
num imenso recinto subterrâneo segundo seus cálculos. E havia
outras instalações abaixo daquela, conforme revelava o murmúrio
dos geradores. Era ali que se localizava a central energética do
campo. Na certa, rigorosamente protegida por fora contra a entrada de
qualquer indesejável ou sabotador, que de maneira alguma teria
acesso ao recinto. Mas Ras estava decidido a provocar uma boa
perturbação entre os arcônidas. Eles que quebrassem a cabeça para
saber se suas medidas de segurança continuavam funcionando, ou se já
eram insuficientes.
As
lâmpadas embutidas nas paredes davam pouca luz. Ras mal conseguia
distinguir os possantes blocos metálicos, por entre os quais
serpenteavam estreitas passagens. Reluzentes isoladores suportavam e
distribuíam a fiação, que se perdia mais adiante nas sombras.
Ras
avançou cautelosamente por entre o caos de maquinaria, selecionando
a que lhe parecia mais importante. Apresentava uma concavidade
lateral apropriada ao seu intento. Tirou do bolso um objeto ovalado,
apalpando-o de leve até dar com o pino de tempo. Apertou-o três
vezes. Portanto, a detonação se efetuaria dentro de cerca de três
horas.
Depositou
a bomba próximo à máquina, esperando que a explosão causasse
danos suficientes para paralisá-la. Ao mesmo tempo, desejava que os
estragos não fossem de vulto a despertar as suspeitas dos arcônidas,
ou dos robôs, pois a capacidade dos naats era limitada. Dois atos de
sabotagem naquele setor seriam o bastante. E caso houvesse outra
detonação bem longe dali, ao mesmo tempo, não se lembrariam de vir
procurar o autor do atentado justamente naquele recinto.
Ras
colocou a segunda bomba, e teleportou-se para o ar livre.
Materializou-se
diretamente diante das rígidas lentes dos olhos de um pesado robô
guerreiro, cujas armas energéticas se ergueram instantaneamente,
apontando para o africano.
*
* *
Postado
junto à parede, Son Okura viu abrir-se a porta por trás da qual
desaparecera Noir. Aprontou-se para receber o amigo que saía para o
corredor com uma exclamação de alívio, quando percebeu o cano da
arma energética pressionada contra o dorso do hipno.
O japonês
ocultou-se no pequeno nicho formado pelo vão de uma porta. Não sem
tempo, pois no mesmo instante as luzes foram acesas. Agora também o
ara que ameaçava Noir se tornou visível. Para Okura, era mistério
saber como escapara à sugestiva influência do hipno. De qualquer
maneira, não poderia perder ambos de vista daí por diante.
E Ras
Tschubai? Se voltasse agora, para levá-los de volta?
Okura não
teve muito tempo para preocupar-se com isso. Precisava apressar-se, a
fim de não deixar Noir desamparado. Esgueirou-se atrás do hipno e
do ara. Conhecia o caminho.
A grande
sala de exames!
Só que
desta vez, os prenúncios estavam invertidos. Os trunfos se
encontravam em mãos erradas. Era preciso agir com cautela, caso
quisessem recuperá-los.
A mão de
Okura deslizou para o bolso. Sorte sua, Ras ter-lhe cedido um dos
mini-radiadores. Apesar de contarem apenas com três cargas,
derrubariam bem uma dúzia de adversários em caso de necessidade.
Por
enquanto, tinha que enfrentar apenas um.
Este um,
no entanto, atormentava seriamente o pobre Noir. A desagradável
pressão da arma nas costas em nada contribuía para seu bom humor.
Procurava incessantemente achar algum ponto fraco na consciência do
ara, porém Bóris demonstrava incomum resistência, como se tivesse
passado por um condicionamento hipnótico especial. Hipótese que não
devia ser excluída, visto que se tratava do dirigente do
departamento médico em Naator.
Passaram
pela sala de operações, entrando no recinto equipado com inúmera
aparelhagem, distribuída pelos diversos nichos.
“Parece
uma moderna câmara de tortura”,
pensou Noir.
Finalmente
o médico estacou, intimando Noir a explicar-se. Parecia ter chegado
à conclusão de que não lidava apenas com um mero simulante. Teria
sido alertado por alguma coisa?
— Vamos,
malandro, fale! Quais são suas reais intenções? Pretendia
assassinar-me? Em caso afirmativo, por quê? Que proveito lhe traria?
Noir fez
uma derradeira investida. Recorreu a todas as suas forças para
romper o bloqueio em torno do cérebro de Bóris. Porém inutilmente.
O ara já
se encontrava sob a influência de um hipnobloqueio! De um bloqueio
arcônida, no entanto. Unicamente um choque seria capaz de
desfazê-lo.
— Cuidado,
Noir! Jogue-se no chão!
A voz
parecia vir do nada. Bóris estremeceu, pois desconhecia aquela
língua. Mas devia ser a razão menor de seu susto. Mais inquietante
era a hipótese de ver-se diante de dois sabotadores. Voltou-se
bruscamente, esquecendo Noir por um segundo.
Reconhecendo
a voz de Okura, Noir apressou-se a seguir o conselho dado. Lançou-se
para o lado, rolando pelo chão para o nicho mais próximo. Quando o
delgado raio energético relampejou da porta através da sala,
acertando na lâmpada, ofuscado, cerrou os olhos, Bóris acendera
apenas aquela, e bruscamente tudo ficou imerso em trevas.
— Jogue
fora a arma! — gritou Okura, mudando imediatamente de posição.
O tiro
energético de Bóris errou o alvo por três metros, no mínimo.
— Não
adianta, Bóris! Estou vendo você! Vejo, sim! Não é tapeação!
Por que fechou os olhos agora? Para poder me ouvir melhor?
Noir ouviu
o ara gemer.
— Mas
como é possível? Assim, completamente no escuro...? Está mentindo!
— Acha?
Agora, por exemplo, está apontando sua arma em direção oposta... o
armário ao lado da porta provoca uma ilusão sonora, alterando o
rumo das ondas de som! Ah, agora leva o cano para a esquerda. Errado
também! Mas, agora, talvez acredite que o vejo.
— Quem é
você? — perguntou Bóris, aparentemente esquecido de Noir.
Foi seu
erro capital.
Noir
percebeu o relaxamento da resistência, e intensificou a pressão. O
cérebro do ara estava literalmente aberto diante dele, e bastava
servir-se. Okura representava para Bóris um problema insolúvel. Nem
mesmo o hipnobloqueio arcônida resistiu diante do ímpeto final de
Noir. O ara dobrou-se ao jugo mental do hipno.
*
* *
Ras
Tschubai reagiu instantaneamente, e teleportou-se para a escuridão.
Quando pôde enxergar novamente, o robô estava parado a menos de
trinta metros, olhando fixamente para o local onde acabara de avistar
um zalita.
“Se
eu inutilizar um destes robôs guerreiros no meio do acampamento”,
refletiu apressadamente Ras, “deixá-los-ei
bem intrigados. Além disso, a máquina precisa ser destruída. De
maneira nenhuma poderá ir contar-lhes o que viu...”
Enfiando a
mão no amplo bolso do uniforme zalita, Ras retirou uma pequena
granada. Sabia que poderia ser regulada para explodir dentro de dois
segundos. Bastava apertar o botão, e procurar um esconderijo o mais
depressa possível.
O robô
voltou-se pesadamente. Talvez por ter escutado algum ruído. Quando a
noite foi rasgada pelo luminoso facho de um holofote, Ras agachou-se.
A luz emanava da testa do colosso. Ao mesmo tempo, o cinturão armado
começou a girar vagarosamente.
Ras
segurou a granada na mão direita, calcou o botão e lançou-a contra
o robô.
Em certas
circunstâncias, dois segundos podem representar longo espaço de
tempo. Para Ras, duraram uma eternidade. Desistira de teleportar-se
para lugar seguro, pois não sabia se conseguiria fazê-lo naquela
situação. Ainda enquanto jogava a granada, pulou para o lado, num
salto gigantesco, em direção de uma vala que oferecia proteção.
Enquanto
caía, as armas do robô foram descarregadas. Sibilando, os
fulgurantes raios energéticos varreram o chão pouco acima dele; Ras
chegou a ter a impressão de que sentia o calor emanado pelos mortais
disparos. Felizmente o robô mirara alto demais. Sua salva de energia
perdeu-se além dos limites do espaçoporto.
Ras viu
nitidamente a granada cair aos pés do robô. Agachou-se o melhor
possível dentro da vala, cuja utilidade original ignorava. De
qualquer forma, era artificial, e talvez servisse para a drenagem de
água.
A chispa
de ignição coincidiu com o estrondo da carga explosiva em erupção.
A onda de choque atingiu o dorso curvado de Ras. Seguiu-se tremendo
impacto, sacudindo o chão.
Depois
reinou um silêncio mortal. Cautelosamente, o teleportador se ergueu.
Depois daquele estardalhaço, o local não tardaria a fervilhar de
gente. Além disso, os robôs guerreiros mantinham contato
radiofônico entre si.
O lugar do
colosso era ocupado agora por enorme cratera. Peças metálicas
juncavam o chão nas redondezas, como se algum avião tivesse se
despedaçado no local. Do robô propriamente, pouco restava.
Em algum
ponto elevou-se o lamentoso uivo de uma sirene. As pisadas vigorosas
de possantes pernas metálicas faziam vibrar o concreto. Um
alto-falante berrava ordens estridentes, holofotes foram acesos,
banhando a área em deslumbrante claridade.
Ras
Tschubai compreendeu que precisava sumir. Ninguém devia vê-lo
teleportando-se. Representaria sério perigo para todos eles. Caso
chegasse aos ouvidos do regente o menor boato acerca de truques
paranormais, suas suspeitas se dirigiriam imediatamente contra Rhodan
e seu Exército de Mutantes.
A primeira
onda de robôs guerreiros espalhou-se pelo campo, avançando em
direção da cratera, quando Ras desmaterializou-se, e saltou de
volta para o hospital.
Ainda
chegou a ver Son Okura esgueirar-se pelo corredor, agora iluminado,
dando mostras da maior cautela.
Sem
refletir, seguiu atrás dele.
4
Uma sirene
acordou os ocupantes do edifício-funil. Pouco depois, o robô 574
distribuía as ordens do dia. No quarto de Rhodan, todos escutavam
atentos, e ansiosos por descobrir se a ação dos mutantes no
decorrer da noite já produzira frutos.
O robô
começou com as determinações de rotina, que certamente eram
idênticas todos os dias. Depois a voz metálica comunicou:
— A
inspeção médica prevista para hoje foi adiada para amanhã.
Ninguém deve deixar o prédio. Por volta de meio-dia, será dada a
primeira aula teórica de armamento.
Ras
Tschubai parecia satisfeito. Quando o alto-falante emudeceu, olhou
para Rhodan com ar triunfante.
— Viu
como eu tinha razão, Sir? A destruição do robô guerreiro e as
duas detonações na central de energia deram-lhes o que fazer.
— Porém
um único dia de adiamento não basta — replicou Rhodan. — Noir
conseguiu controlar só dois aras; enquanto todos não forem
dominados, estaremos sujeitos à descoberta.
— Conheço
os locais agora — objetou o hipno. — Se saltar para o hospital
esta noite, em companhia de Ras, creio que darei conta do recado.
— É o
que espero — disse Rhodan, não muito otimista. — Seria bom
estarmos a par do que se passa.
Voltou-se
para Atlan, calmamente sentado sobre seu leito.
— Por
favor vá buscar Tanaka Seiko. No Exército de Mutantes, Seiko era o
localizador. Seu cérebro tinha a capacidade de detectar ondas de
rádio, determinando a posição do transmissor; além disso, podia
“ouvi-las”.
Em outras palavras: o mutante dispensava receptor para captar
mensagens radiofônicas.
Atlan
ergueu-se e deixou o recinto.
Bell
acercou-se de Rhodan.
— Será
que espera transmissões não codificadas?
Rhodan
acenou.
— Exatamente.
Os robôs certamente se comunicam um com o outro sem usar código.
Mesmo que empregassem um, teríamos pouca dificuldade em decifrá-lo.
Seja como for, precisamos estar informados, a fim de poder agir
convenientemente. Nunca esqueça que estamos metidos numa verdadeira
armadilha. Caso os arcônidas nos apanhem, não só nós estaremos
perdidos, mas a Terra estaria praticamente aniquilada. A ameaça
representada pelos druufs da outra dimensão temporal está um tanto
afastada, apesar de continuar existindo. O regente tem tempo para
dedicar-se à Terra. E, conforme constatamos, cuida disso com toda a
determinação de um cérebro positrônico! Precisamos agir da mesma
maneira. Só então teremos uma chance.
Atlan
voltou, trazendo o japonês. Tanaka Seiko era esbelto. Uma cicatriz
vermelha desfigurava sua face esquerda: era um disfarce que o fazia
passar por zalita, e não japonês. Haviam conseguido “corrigir”
os olhos oblíquos. A epiderme vermelha lhe dava aparência de índio.
— Sinto-me
realmente faminto, agora — disse Atlan, retomando o lugar em cima
da cama.
Parecia
não conhecer problema mais importante no momento; no entanto, quem o
conhecesse de perto, sabia que estava tão envolvido nos
acontecimentos quanto os demais. É que o imortal arcônida tinha
marcada predileção por gozações, e gostava de emitir comentários
jocosos sobre assuntos da maior gravidade.
Rhodan
voltou-se para Seiko.
— Estamos
interessados em saber o que os arcônidas pretendem fazer. Antes de
qualquer coisa, queremos saber a quem imputaram a culpa pelas
explosões na central energética. Disso dependerão nossas próximas
providências.
— Muito
bem, Sir — concordou Seiko, modestamente, olhando em torno. —
Onde posso me instalar?
Bell
indicou a cama debaixo da janela.
— Pode
usar meu beliche, Tanaka. Ficará à vontade nele, ninguém o
perturbará. E assim que ouvir alguma coisa, avise-nos.
— Ora,
estou sempre ouvindo coisas — assegurou o mutante, sorrindo. — De
momento, o Almirante Senekho declarou estado de alarme para todos os
robôs de guarda e combatentes. Todo naat encontrado no interior dos
setores delimitados deverá ser preso...
— Exatamente
o que desejávamos saber! — interrompeu Rhodan. Pitou Ras Tschubai.
— Parece ter acertado com sua suposição. Senekho crê que foram
os naats. Lamento pelos pobres ciclopes, porém não podemos poupar
ninguém. Continue, Seiko! Que é que o almirante pretende fazer?
O japonês
voltou a sorrir.
— Não
me apresse, Sir. Necessito de tempo para selecionar e coordenar as
transmissões captadas. Dentro de uma hora, aproximadamente, poderei
dizer-lhe mais...
Deram-lhe
prazo até o meio-dia. Então o quadro se configurara:
O
Almirante Senekho estava firmemente convencido da culpabilidade dos
naats nos atentados realizados. Há menos de um ano — tempo da
Terra — haviam sido forçados a conter uma rebelião no quinto
planeta. Os ciclopes reagiam contra o costume de fornecer exemplares
de sua raça para experiências científicas nos laboratórios dos
aras.
Também na
lua Naator viviam naats. Eram empregados como mão-de-obra barata, ou
como atendentes pessoais dos oficiais-instrutores arcônidas
destacados para servir em Naator.
Senekho
expedira ordem de expulsar imediatamente todos os ciclopes das zonas
reservadas. Alegava que o afastamento dos naats das instalações
mais importantes evitaria futuros atentados. De onde se depreendia
claramente que considerava os nativos culpados.
— O dia
de hoje — informou Tanaka — será dedicado à execução das
novas regulamentações. A partir de amanhã, voltarão ao regime
normal.
O que
significava que Rhodan tinha vinte horas para estabelecer novos
arranjos — ou submeter a totalidade dos aras a controle hipnótico,
pois estes representavam perigo permanente.
Após o
almoço, todos os mil recrutas foram reunidos no enorme salão do
primeiro pavimento. O robô dava a aula. Discorreu sobre assuntos já
fartamente conhecidos — pelo menos para os integrantes do comando
de Rhodan. Falou dos começos do Império, sua ascensão, e seu
poderio atual, sem se deter nas dificuldades existentes. Por fim,
frisou que Árcon alcançara tão destacada posição apenas por
dispor de excelentes armas e soldados. E aperfeiçoar ainda mais
ambos era a meta principal da academia militar em Naator, na qual os
“voluntários”
eram saudados cordialmente, em nome do regente.
Bell
estava parado ao lado de Rhodan. Não havia assentos.
— Poxa,
bem que eu gostaria de tapar a boca deste sujeito! — sussurrou ele.
— Jamais ouvi tanta mentira de uma só vez. Nem mesmo de Gucky!
— Mentir
faz parte da propaganda — replicou Rhodan, em voz igualmente baixa.
— Mas
fique quieto, agora! Alguns dos zalitas já estão nos olhando.
As horas
correram. A longa permanência em pé começava a produzir
desconforto entre os homens, mas o robô naturalmente não era
afetado. Prosseguiu em sua ladainha.
Minutos
depois, deu o sinal de encerramento da aula.
Os
recrutas retornaram aos alojamentos, e o jantar foi servido.
Após o
jantar, Rhodan chamou os dois teleportadores Ras Tschubai e Tako
Kakuta para junto de si. O japonês ainda não tinha entrado em ação
até o presente, mas agora as circunstâncias exigiam que também
desse sua contribuição para o êxito do plano.
Rhodan
fitava Ras, enquanto dizia:
— Vocês
têm diante de si uma noite trabalhosa. O Almirante Senekho proibiu a
entrada de qualquer naat nas zonas reservadas. Entretanto temos de
continuar jogando a culpa dos atentados sobre os ciclopes. Logo,
vocês terão que estender sua atividade a alvos fora dos limites da
academia. Por todos os cantos da lua precisam explodir bombas no
decorrer desta noite, provocando destruição. Todo o sistema de
vigilância dos arcônidas deve concentrar-se na prisão dos
sabotadores. Creio que assim ganharemos o tempo necessário para Noir
submeter todos os aras ao seu controle. Esta medida é essencial para
não sermos descobertos. O repentino levante dos naats dará o que
fazer aos arcônidas. Quero que relaxem a vigilância sobre nós, e
procurem o inimigo em outro lugar.
— Conseguiremos
— assegurou Ras, alisando significativamente sua colcha, debaixo da
qual se ocultava um bem sortido arsenal. — Com estas coisinhas
aqui, faremos metade da lua voar pelos ares.
Rhodan
recomendou:
— Cuidado
para não exagerar, Ras! Claro que os naats teriam possibilidade de
arranjar bombas e granadas de mão: Porém lembre-se de que os naats
são pouco inteligentes, apesar de o regente lhes ter confiado até
funções na frota espacial, antes da rebelião. Providenciem pois a
detonação de algumas bombas em locais inteiramente absurdos, onde
não possam causar mal algum. As suspeitas de Senekho devem recair
apenas sobre os naats, e sobre ninguém mais. Fato que se dará
naturalmente caso ocorram atos de sabotagem no outro lado da lua,
portanto, em plena luz do dia. Pessoa alguma poderia estar em dois
lugares ao mesmo tempo.
— Salvo
teleportadores... — lembrou Ras.
Também
André Noir recebeu as últimas instruções e conselhos. Acompanhado
de Son Okura, seria levado ao hospital por Ras, que tornaria a ir
buscá-lo antes do amanhecer. Durante este período, o hipno e o
perceptor de freqüência estariam por conta própria. Porém já não
correriam tanto perigo, visto que o médico-chefe Bóris e seu
subordinado Renol haviam sido submetidos com êxito ao tratamento
hipnótico, e os transformaram em aliados.
Meia hora
mais tarde, Ras saltou com Noir e Okura. Regressou em meio minuto,
tomando a mão de seu colega Tako Kakuta. Empreenderiam o primeiro
salto em conjunto.
Cada qual
levava numa sacola duas dúzias de granadas e bombas de tempo. E,
antes do sol raiar, todas explodiriam em diversos pontos da lua
Naator...
*
* *
Graças,
primordialmente a Tanaka Seiko, Rhodan manteve-se informado acerca do
sucesso da ação, e das contramedidas dos arcônidas. O localizador
passou a noite inteira escutando as mensagens radiofônicas.
O
Almirante Senekho foi acordado ainda no decorrer da noite. Quando uma
bomba explodiu a vinte quilômetros, no meio de um depósito de peças
de reposição, o alarme invadiu estridentemente a academia. A região
foi imediatamente cercada, e prenderam os poucos naats residentes nas
imediações daquela zona militar. Porém tornaram a ser liberados
dez minutos após, quando houve segunda explosão.
Senekho
viu confirmada sua suposição de que a resistência passiva dos
nativos se intensificava gradualmente. E libertou os naats julgando
que assim acharia a pista dos cabeças do movimento.
Simultaneamente
chegaram-lhe alarmantes comunicados do lado oposto da lua. Dois
pesados robôs guerreiros tinham sido abatidos numa tocaia. Fato
jamais verificado anteriormente em Naator. Aquilo era rebelião
declarada!
Senekho
entrou em contato imediato com o regente, exigindo maior liberdade de
ação em relação aos nativos. O cérebro-robô deu ordem para
prender qualquer naat suspeito.
Ainda na
mesma noite, os robôs invadiram as residências dos desavisados
ciclopes, levando-os para campos de concentração. A ação,
desencadeada de maneira fulminante, teve o maior êxito; pouquíssimos
naats conseguiram escapar, refugiando-se nos inacessíveis ermos de
Naator.
A onda de
sabotagem prosseguia, a despeito das prisões efetuadas. Por toda a
parte explodiam bombas de tempo, colocadas com maior ou menor
habilidade, causando sensíveis estragos. Diversas estações-relé
para transmissão de energia pararam de funcionar. Entre os robôs,
as destruições vitimaram dois tanques, e sete guerreiros.
O
Almirante Senekho perdeu a compostura, e esbravejava. Em contato
constante com a estação radiofônica da academia, recebia as
sucessivas mensagens funestas, e distribuía ordens. Nos intervalos,
informava Árcon, pedindo instruções. Os verdadeiros rebeldes
tinham se safado, a despeito da internação da maioria dos naats.
Senekho
desejava que os novos recrutas, os zalitas alistados, nada chegassem
a saber a respeito dos atentados.
Porém,
tal desejo foi por água abaixo, pois o regente enviou a seguinte
mensagem:
Exames
médicos e instrução das tropas suspensos por três dias!
*
* *
Notícia
recebida com o maior alívio pelo grupo de Rhodan, quando Tanaka
Seiko a captou e transmitiu-a.
O plano
fora coroado de êxito. O objetivo havia sido alcançado.
Pouco
depois, Ras trazia de volta o hipno André Noir e Son Okura. Os dois
mutantes tinham conseguido submeter a controle hipnótico mais cinco
aras. Os médicos restantes seriam tratados na próxima noite. E a
terceira noite seria reservada aos instrumentos médicos de controle.
A preocupação principal de Rhodan era “viciar”
o medidor de Q.I.; seus técnicos cuidariam disso. Não bastava que o
aparelho fosse operado pelo médico-chefe sujeito a bloqueio
hipnótico.
Três dias
e três noites se passaram. Os atos de sabotagem cessaram.
Quando o
robô 574 ordenou a formação, em filas de cinco, diante do
edifício-funil, a fim de reiniciarem o treinamento interrompido no
academia, Rhodan e seu grupo de terranos estavam preparados.
Haviam
tomado todas as providências para impedir que fossem descobertos
pelos aras. Calmos e tranqüilos, marcharam para o hospital na
primeira turma. Um oficial arcônida assumiu o comando no portão de
entrada, mandando o robô 574 de volta. Apesar de não prevista no
programa, a intervenção daquele arcônida já não representava
perigo. John Marshall sondou-lhe os pensamentos, constatando que não
suspeitava de nada.
Foram
admitidos em grupos de dez, com intervalos de um minuto. O
aprimoramento técnico permitia tão breve interstício, e a inspeção
se processava rapidamente. Aras subordinados conduziam cada grupo de
uma sala de exames para outra.
Noir podia
considerar-se satisfeito com sua obra. Bastava dar a palavra-senha ao
respectivo médico ao entrar no nicho, e podia estar certo de que o
ara agiria de acordo com o desejo dos terranos.
Rhodan
integrava o primeiro grupo, assim como Noir, Atlan, Marshall e
Gorlat. Caso desse tudo certo com eles, teriam a garantia de que os
exames dos catorze grupos seguintes se processariam sem problemas.
— Salve
o regente! — disse André Noir, ao entrarem duas horas após na
grande sala onde pontificava Bóris.
Erguendo o
olhar, o médico-chefe deu com os olhos do hipno. Seus olhos
brilharam de forma estranha, depois estarreceram. Mas apenas por
alguns segundos.
— Salve
o regente! — replicou ele, fazendo sinal para seus assistentes.
Gesto
completamente supérfluo, pois Noir controlara igualmente os
assistentes. Os procedimentos que teriam início agora não passariam
de uma farsa, em proveito de eventuais câmaras fotográficas ou
microfones existentes.
O medidor
de Q.I. funcionou “com
perfeição”.
Unicamente o quociente intelectual de Atlan — agora Capitão Ighur
— superava um pouco o de Rhodan e dos demais terranos. Com isso,
ele se colocava bem acima da média dos zalitas, circunstância que
mal despertaria suspeitas. Mesmo que houvesse dúvidas, Atlan nada
tinha a recear na eventualidade de um segundo exame. Como arcônida,
possuía todas as características de um zalita, inclusive a
estrutura óssea.
As fichas
foram encaminhadas ao arquivo. Seriam devidamente estudadas pelos
arcônidas, e aproveitadas de acordo com os resultados obtidos.
Quando o
primeiro grupo deixou o hospital, e marchou de volta para os
alojamentos, a tarde já chegava ao fim. Um minuto após veio a
segunda turma de dez homens.
— Salve
o regente! — exclamou também Reginald Bell, quando seu grupo
concluiu a prova com Bóris.
Ainda
enquanto deixava o recinto com seus nove companheiros, e eram
conduzidos por um ara para a saída, o código funcionou. O
hipnobloqueio colocado por Noir no cérebro de Bóris neutralizou-se,
devolvendo-lhe o raciocínio normal... mas junto com as falsas
recordações.
O mesmo se
deu com os demais médicos.
Chegara o
intervalo para o almoço. Tinham examinado mil recrutas. Com mais
vagar e cautela do que de hábito, por ordem expressa do almirante.
Em vez de mil e quinhentos, apenas mil numa manhã.
Nenhuma
ocorrência especial. E que ocorrências podiam aparecer, afinal...?

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