Pouco
depois do jantar já estava mais esclarecido sobre a situação. As
naves de passageiros que haviam decolado no período crítico foram
perseguidas e trazidas de volta por unidades da frota. Encontravam-se
em Árcon II.
Já se
apurara quem eram os pilotos das quatro naves particulares. O regente
não recebera ordens para ir além dessas averiguações. Face às
providências imediatas, todas as pessoas suspeitas encontravam-se no
mundo do comércio e da indústria.
— Excelente
— disse Rhodan, em certa altura. — Ainda bem que não precisamos
dispersar nossos esforços. Por enquanto a Drusus ficará aqui.
Partiremos no cruzador Califórnia. A Togo permanecerá numa órbita
ampla em torno de Árcon II.
Olhei para
o mostrador de meu relógio. Desde o momento do furto, já haviam
passado 32 horas e 6 minutos. O tempo urgia.
4
Um homem
cujo nome era quase desconhecido na Terra, e ainda mais na Galáxia,
começara a manipular os freios. Tratava-se de Allan D. Mercant,
chefe do célebre Serviço de Defesa Solar, semimutante e marechal do
Império.
Ouvira em
silêncio, formulara poucas perguntas e agira imediatamente.
Nessa
oportunidade entendera mais uma vez que os impérios mundiais podem
ser conquistados por outros meios que não a força das armas. Aquilo
que Mercant demonstrava em silêncio e numa atitude de discrição
pessoal era um jogo sofisticado com os recursos de uma gigantesca
organização.
Três
horas após o pouso da esquadrilha terrana, comecei a representar em
conformidade com as instruções de Mercant.
Primeiramente,
convoquei o Grande Conselho. Antes que aparecesse à frente do grupo,
Mercant me entregara pessoalmente uma excelente imitação do
ativador celular, e recomendara que usasse o aparelho de forma bem
visível, por cima do uniforme.
Quando
cheguei à sala dos sábios, tive de realizar um grande esforço para
lançar um olhar de triunfo em direção aos funcionários e oficiais
mais graduados. Para um moribundo — e precisamente isso eu era
naquele momento — tornava-se difícil demonstrar tranqüilidade.
Durante a
conferência a respeito das questões de abastecimento, mencionei
como que por acaso, por recomendação de Mercant, que alguém
roubara um dos meus instrumentos mais vitais. Isso servia para
fundamentar as medidas rigorosas que estavam sendo adotadas em Árcon.
Depois que
a sessão chegara ao fim, Mercant disse em tom de aprovação:
— Foi a
primeira peça que pregamos neles. Tenho certeza de que certas
pessoas se recriminarão mutuamente. O senhor mandou medir
rigorosamente a freqüência de suas vibrações celulares?
Dali a
mais uma hora, descobri que esse mestre no jogo oculto do Serviço de
Defesa Solar já começara a agir, mesmo antes da Drusus decolar da
Terra.
Durante o
vôo, os micro mecânicos mais competentes da Galáxia, os
homens-pepino de Swoon, começaram a trabalhar. Um rastreador de
impulsos capaz de medir vibrações individuais ultracurtas foi
modificado e, por meio de um processo de ajustamento extremamente
complicado, adaptado às minhas ondulações pessoais.
De repente
cheguei à conclusão de que o raciocínio de Mercant era simples. No
entanto, tive de confessar que provavelmente a idéia em que este se
baseava nunca me teria ocorrido.
Partiu do
pressuposto de que o instrumento furtado também estava ajustado às
minhas vibrações. Por isso deveria ser possível localizá-lo,
desde que eu possuísse um goniômetro perfeitamente ajustado, que
também reagisse às minhas vibrações orgânicas, situadas na faixa
das ondas ultracurtas.
Foram
estes os preparativos.
Depois de
uma rápida verificação, os cruzadores ligeiros da classe Estado
chamados Califórnia e Togo haviam decolado. A gigantesca Drusus
permanecera no mundo de cristal, sob o comando de Bell, pronta para
entrar em combate.
Encontrava-me
na Califórnia, quando esta pousou em Árcon II, o mundo mais belo
dos setores conhecidos da Via Láctea. Ali as construções não
haviam seguido o esquema arcônida, que não permitia a reunião de
muita gente num espaço pequeno.
Árcon II
era um planeta de grandes metrópoles, que abrigava os maiores
conjuntos industriais da Galáxia. As célebres ruas de lojas e silos
das cidades eram percorridas há dez mil anos por todos os seres
inteligentes conhecidos. Em Árcon II podia-se comprar tudo que já
havia sido encontrado, descoberto ou cultivado nas amplidões do
cosmos.
As
transações que envolviam bilhões eram coisa corriqueira.
Constantemente realizavam-se operações no valor de duzentos bilhões
de solares, e o fechamento de um negócio que se aproximasse da marca
dos trilhões não causava espanto a ninguém.
A cidade
mais importante do planeta era Torgona. Era chamada assim em
homenagem ao primeiro mercador arcônida, que decolara dali com uma
nave cargueira armada, a fim de negociar em mundos estranhos. Isso
fazia cerca de oito mil anos do calendário terrano.
Assim que
a nave pousou, Mercant voltou a agir. Mais uma vez aconteceu uma
coisa com a qual eu não contava.
Construído
na Terra, um robô especial vestiu meu uniforme com os símbolos do
Imperador. Durante a viagem entre os planetas, a máquina fora
adaptada à freqüência de minha voz. O robô era cópia fiel de
minha pessoa.
Mercant
explicou em tom indiferente que na Terra essas máquinas eram usadas
vez por outra como sósia de personalidades importantes.
Minha
máscara foi feita num instante. Meu cabelo arcônida branco-alourado
foi encoberto por uma peruca, e algumas modificações foram
realizadas em meu rosto. Para isso, Mercant trouxera os especialistas
em máscaras.
Dessa
forma, ao descer da nave, estava transformado num capitão terrano,
enquanto o robô cumprimentava a guarda de honra formada às pressas.
Falava
como eu e seu comportamento era igual ao meu. Adotava atitudes frias
e reservadas e, vez por outra, soltava uma observação sarcástica.
Eu mesmo não poderia representar o papel, melhor que ele...
*
* *
Nove horas
já se haviam passado desde o pouso em Árcon II. Passara sete dessas
horas num sono pesado e pouco repousante.
Ao
despertar, lancei meus olhos sobre o cronômetro. O mostrador não
conhecia compaixão. Quarenta e três horas e trinta e sete minutos
já se haviam passado a partir do furto.
O
comandante do espaçoporto de Torgona fornecera aos visitantes
terranos, por ordem minha, excelentes alojamentos, situados junto ao
campo de pouso. Poderíamos deslocar-nos à vontade, pois ninguém
nos incomodaria com perguntas fúteis.
Os
visitantes não-arcônidas eram uma coisa tão corriqueira que não
despertavam a atenção de ninguém. As ruas amplas e belas da cidade
comercial serviam de ponto de encontro para todos os seres
inteligentes da Galáxia. Quando um ser monstruoso, que respirava
metano, passava fungando sob a proteção de um traje espacial
disforme, ninguém lhe voltava a cabeça.
Rhodan
aceitara os conselhos de Mercant. Viera como visitante oficial, e por
isso vira-se obrigado a participar de algumas recepções.
Quanto a
mim, não tinha nada a objetar, pois, na situação em que nos
encontrávamos, Rhodan de qualquer maneira não poderia fazer nada.
O
importante eram os mutantes, que, desde o pouso, desenvolviam uma
atividade incessante. Já os oficiais e tripulantes da Califórnia,
que não participavam das investigações, apareciam freqüentemente
nos lugares que Rhodan, segundo dissera, pretendia procurar.
E assim
houve visitas a universidades e indústrias. Os funcionários do
serviço arcônida de informações às raças estranhas dispensaram
a Rhodan o tratamento a que fazia jus em virtude de sua graduação.
Meus antepassados já haviam elaborado diretrizes minuciosas a esse
respeito, diretrizes estas que indicavam o tratamento que deveria ser
dispensado a este ou aquele ser estranho.
Rhodan
enfrentou uma recepção atrás da outra. Diziam-lhe as palavras
prescritas em leis antiqüíssimas. Face à freqüência das
homenagens fora enquadrado na categoria VI, o que já representava
alguma coisa. Essa categoria correspondia aos chamados Soberanos
Absolutos Imitadores. Para ser posto nessa categoria, o soberano
deveria ter sob seu domínio um sistema solar de pelo menos oito
planetas.
Em Árcon
II, ninguém desconfiava de quanto Rhodan se divertia com essa
classificação. Sentia-me tão fraco que era incapaz de fazer piadas
a este respeito.
A ausência
dos impulsos estimulantes começava a produzir suas conseqüências.
De início apenas me senti nervoso. O cansaço físico começaria
abruptamente, dali a mais quinze horas.
Já
conhecia os sintomas pelas minhas amargas experiências. Por mais de
uma vez fora obrigado a esperar até o último instante.
Meu sósia
robotizado funcionava impecavelmente. A máquina estava equipada com
um micro transmissor de televisão, motivo por que em nosso
quartel-general podíamos acompanhar todos os seus passos.
Naquele
momento, meu “representante”
se retirara para dormir. Estava deitado na cama pomposa reservada ao
Imperador e seu cérebro positrônico armazenava os dados que o Dr.
Ali el Jagat, chefe da equipe de matemáticos da Drusus, lhe
transmitia. Dessa forma foram programados os atos do falso imperador
para o dia seguinte.
Perry
Rhodan voltara há poucos minutos de um espetáculo cultural. Não
tivera outra alternativa, senão martirizar-se com o programa de um
compositor de jogos simultâneos e fora obrigado a fingir que se
sentira muito entusiasmado.
Prefiro
nem tentar explicar o que deve ter sofrido. Os símbolos luminosos
que se fundiam uns nos outros eram demais até para mim, e pior eram
os terríveis uivos e os sons estridentes que o artista deitado sob
um mono transmissor “produzia”
por meio de seus reflexos nervosos.
Na sala
contígua os membros do Exército de Mutantes entravam e saíam
constantemente. Pouco depois de uma hora da madrugada, quando o
movimento nas ruas mais célebres diminuiu um pouco, Allan D. Mercant
apareceu em nossa sala de estar confortavelmente instalada. Pedira
licença para realizar só as investigações preliminares. Por isso,
eu me mantivera em segundo plano.
Rhodan
estava tirando o uniforme de gala; vestiu o uniforme de bordo, do
qual eu gostava muito mais. John Marshall entrou atrás de Mercant.
O chefe do
Serviço de Defesa do Império Solar, um homem de estatura delicada,
que quase sempre estava sorrindo, sentou-se lentamente numa poltrona
articulada. Parecia sentir minha tensão interna.
— Fale
logo — disse Rhodan em tom irritado. — Descobriu alguma pista?
— Provavelmente,
sir — respondeu Mercant na maneira tranqüila que lhe era peculiar.
— Cheguei à conclusão de que procedemos acertadamente ao não dar
atenção, por enquanto, aos numerosos passageiros e tripulantes das
cinco naves de passageiros. As naves foram examinadas com o detector.
O ativador não se encontra em nenhuma delas. Era o que se esperava.
Lançou-me
um olhar pensativo, e procurei dominar o nervosismo cada vez mais
intenso.
— Um
grupo de criminosos do gabarito desses desconhecidos não se
disporiam a transportar um aparelho que, para eles, é insubstituível
numa nave de passageiros das linhas regulares. Além disso, não
existe nenhum motivo lógico para que o ativador fosse levado do
sistema de Árcon. Se os criminosos quiserem utilizá-lo para fazer
chantagem, poderão ver-se obrigados a exibi-lo ao legítimo dono,
para provar a credibilidade de suas alegações.
— Ele
possui um cérebro eletrônico que raciocina segundo o sistema
binário, Atlan! — disse Rhodan, numa tentativa desesperada de
descontrair o ambiente.
Limitei-me
a acenar com a cabeça. A observação não produziu o menor efeito,
ainda mais que, excepcionalmente, Mercant não estava sorrindo.
Sem
modificar o tom de voz, o homem com a auréola de cabelos dourados
prosseguiu:
— O fato
de por ora não termos dado atenção aos passageiros das naves que
faziam linhas regulares não representava qualquer perigo para o
êxito das nossas investigações. O que me pareceu mais importante
foram as pessoas que saíram de Árcon I no período crítico, nas
quatro naves particulares, e que acabaram pousando no segundo mundo
deste sistema admirável. São ao todo dezessete pessoas, que já
foram identificadas pelo regente.
— Há um
minuto recebi uma notícia que, por assim dizer, fez-me ficar
apreensivo.
Ouvi que
Rhodan respirava pesadamente. Lançou um olhar furioso para Mercant,
que olhava para um canto, mergulhado em suas reflexões. Sem dar a
menor atenção ao estado de ânimo de Rhodan, o chefe do Serviço de
Defesa prosseguiu em tom indiferente:
— O
perigo de um fracasso estava na eventual falta de informação da
partida de alguma espaçonave. Caso o ativador ainda se encontrasse
em Árcon I, nossa atuação neste planeta representaria pura perda
de tempo e, portanto, seria um procedimento mortal para Atlan.
— Muito
obrigado — disse quando minha paciência já chegara ao fim. —
Não quer fazer o favor de passar logo ao que interessa?
— Estava
prestes a fazer exatamente isso, sir! As dezessete pessoas
identificadas pelo regente foram examinadas discretamente por nossos
telepatas. Nenhuma delas tem qualquer coisa a ver com o furto.
Acontece, todavia, que o piloto da pequena nave Heter-Ton se queixa
de fortes dores de cabeça.
Mal e mal
conseguia manter o autocontrole. Só quando vi os olhos inteligentes
de Marshall, comecei a desconfiar de que algo de importante havia
acontecido.
— Dores
de cabeça? — repetiu Rhodan. — Trata-se de um incômodo normal?
— Não.
É justamente isso. Diria que para nossa sorte as dores não são
normais — disse Mercant em voz baixa. — O piloto, um homem
chamado Ikort, sofre as conseqüências de um bloqueio hipnótico mal
executado e aplicado por meios mecânicos. E o mais interessante: há
uma lacuna em sua memória. Apesar disso já conseguimos apurar que
um personagem importante lhe ordenou que levasse dois oficiais da
frota arcônida para Árcon II. Por estranho que possa parecer, os
oficiais nunca chegaram a este planeta, ao menos em caráter oficial.
No entanto, partiram na nave, e o piloto sabe que penetrou na
atmosfera de Árcon II. Supomos que os oficiais tenham saltado da
nave.
Levantei-me.
Meus olhos ardentes fitaram o chefe do Serviço de Defesa, em cujos
lábios brincava um estranho sorriso.
— Quem é
o personagem importante que deu essa ordem ao piloto? — perguntei.
Mercant
fitou-me prolongadamente.
— O
senhor, sir. A ordem foi dada pelo imperador em pessoa.
Tive a
impressão de que iria afundar no chão. Senti as mãos de Rhodan me
ampararem.
— Sente-se
— disse Perry.
Ouvi o
pedido como se eu estivesse sonhando. Cambaleei em direção ao meu
leito e, uma vez lá, gaguejei:
— Eu?
Será que o senhor ficou louco, Mercant?
— Não
senhor. Apenas repito aquilo que o piloto sabe, segundo revelam as
investigações telepáticas realizadas com todas as cautelas.
Evidentemente trata-se de um truque. O homem realmente tem a
impressão de que recebeu a ordem do senhor em pessoa. Não
demoraremos a desfazer o bloqueio hipnótico. Gucky e Betty Toufry já
estão trabalhando. É de supor que alguns traidores, alojados no
palácio de cristal, tenham dado a ordem em seu nome. Será possível
apurar quem são esses homens, mas no momento não temos tempo para
isso. O que mais importa é sabermos quem foram os dois
desconhecidos. O piloto deve tê-los visto.
— O que
nos adiantaria isso? — perguntou Rhodan em tom pensativo. — A
descrição dos personagens será completamente inútil.
— Acredito
que sim, sir. Mas podemos conseguir alguma indicação sobre a área
do planeta na qual saltaram da espaçonave. O piloto estava
obedecendo estritamente às ordens que recebera ao pousar no
espaçoporto de Torgona, onde, ao passar pelos controles, declarou
que estava chegando só e saíra só. O regente já realizou suas
investigações. A estação de controle do palácio de cristal
confirmou essa informação.
— É
incrível! — admirei-me em voz tênue. — Como pode ser possível
uma coisa dessas?
— Os
robôs que trabalham lá receberam uma programação correspondente
da parte de arcônidas autorizados, sir — explicou Mercant. —
Trata-se de um jogo muito bem urdido, que nunca seria desvendado,
caso o senhor tivesse recorrido à polícia secreta arcônida.
Voltei a
olhar para o relógio. As cifras do mostrador continuavam a avançar
implacavelmente. Era claro que Mercant tinha razão. Foi justamente
por isso que solicitei o auxílio de Rhodan. Lembrei-me de uma coisa.
Será que Mercant se esquecera?
— Pelos
meus cálculos, dentro em breve, deverão entrar em contato comigo —
disse em tom hesitante. — Se os criminosos sabem que não posso
viver sem o ativador, também deverão saber que chegou a hora da
chantagem. Por que não dão sinal de vida?
Perry
Rhodan baixou os olhos. Ao que parecia, sabia mais que eu. Meu
nervosismo voltou a crescer.
— Mercant!
— gritei em tom áspero para o Chefe do Serviço de Defesa.
Este olhou
para as pontas dos dedos.
— O
senhor não deveria contar mais com isso, sir. No âmbito de nosso
planejamento, eliminei essa possibilidade, com base em dados
científicos. O senhor não compareceu à sessão com a imitação do
ativador? Além disso, o senhor mostrou-se bastante cínico ao dar a
entender que ainda possuía algumas peças de reserva. Face a seu
extraordinário autodomínio, não existe a menor dúvida de que
acreditaram em suas palavras. Ainda acontece que suas observações
possuíam bons fundamentos lógicos. Ninguém pode afirmar com
segurança se o senhor realmente não possui ao menos um aparelho
sobressalente. Era o que indicavam suas atitudes. Qualquer homem,
para o qual a perda de um objeto insubstituível praticamente
representa a condenação à morte, fará todos os esforços para
recuperar o exemplar perdido. O senhor não fez nada disso; apenas
escarneceu velada-mente dos ladrões. Estes acreditarão que perderam
a oportunidade de exercer pressão contra o senhor. No meu entender,
os ladrões não se exporão ao risco de serem descobertos por
ocasião de uma tentativa de chantagem que de antemão estaria
condenada ao fracasso. Ninguém entrará em contato com o senhor.
Deixei-me
cair lentamente sobre o leito pneumático. Rodas de fogo pareciam
girar no meu crânio. Meu raciocínio cessou e o setor lógico de
minha mente não se manifestou, o que provava que as explicações
fornecidas por Mercant eram lógicas.
O cérebro
desse homem parecia-se com um computador positrônico. Não esquecia
nada.
Demorou
alguns minutos até que eu recuperasse o autocontrole. Quando voltei
a erguer-me, Rhodan estava sentado na beira do meu leito. Parecia
desesperado. Começou a falar, sem o menor intróito:
— Ainda
não falamos a este respeito, Atlan! Mas sei que você suspeita da
mesma coisa que eu e todos nós. Os arcônidas deste sistema só
podem ter recebido de uma pessoa, que está bem inteirada, a
informação sobre o papel importante que o ativador desempenha para
você.
Exibi um
sorriso martirizado. Era claro que já me dera conta disso. E também
não achara necessário falar a este respeito. Com isso, o aparelho
não voltaria às minhas mãos.
Mas Rhodan
mostrou-se persistente. Parecia que fazia questão de martirizar-se a
si mesmo.
— Esqueça-se
disso — pedi. — Não adianta pronunciar o nome.
— Além
dos meus elementos de confiança, só havia uma única pessoa que
sabia disso — prosseguiu Rhodan, mantendo-se fiel ao assunto. —
Meu filho, Atlan. O homem que traiu a Terra e o Império de Árcon e
celebrou um acordo traiçoeiro com os mercadores galácticos.
Esperava encontrá-lo aqui. Desta vez não terei mais a menor
complacência. Thomas Cardif é vítima de uma mistura de sangue que
domina inteiramente seus sentimentos e seu pensamento. Agradeço ao
Criador por Thora não ter de assistir a uma coisa dessas.
Perry
Rhodan levantou-se e foi até a larga galeria de janelas. Uma vez lá,
ficou imóvel. Marshall já saíra da sala. Vozes soaram do lado de
fora. Atlan D. Mercant também se levantou. Fitou-me com uma
expressão de indecisão e falou em tom hesitante:
— Sir, é
bom que saiba que esta é a única possibilidade. Nenhum dos
colaboradores, que estão informados a este respeito, perdeu uma
única palavra sobre o ativador.
— Acho
que lá fora estão precisando do senhor — disse, esquivando-me às
suas palavras.
Mercant
saiu. O sorriso já voltara aos seus lábios.
O rosto de
Rhodan parecia uma máscara.
— Isso
não poderia ter sido evitado? — perguntei em tom tranqüilo. —
Um dia nós o encontraremos, e então surgirá a solução do
problema. Você deveria esquecer-se de que tem um filho...
— Esquecer?
— repetiu Rhodan em tom amargo. — Isso é fácil de dizer.
Mordi o
lábio. Não escolhera a palavra certa.
Dali a
alguns segundos, o sugestor Kitai Ishibashi entrou na sala. O mutante
alto e magro, nascido no Estado confederado do Japão, limitou-se a
dizer:
— Descobrimos,
sir! O bloqueio foi desfeito. Quer ver a imagem simultânea? Talvez
seja útil conhecermos os dois homens desaparecidos.
Esqueci
minhas preocupações por Thomas Cardif. Também Rhodan forçou-se a
sair do estado de desânimo em que se encontrava.
Quando me
fitou, parecia novamente repleto de energia. Um sorriso ameaçador
fez-me compreender que considerava a questão um problema seu.
Parecia sentir-se responsável por aquilo.
— Vamos
andando, arcônida! De quanto tempo ainda podemos dispor?
Lancei um
olhar para o relógio. O mostrador indicava quarenta e cinco horas e
cinqüenta e oito minutos.
— Mais
ou menos quinze horas, bárbaro.
Rhodan e
eu nos olhamos nos olhos. Ishibashi entregou-me o cinto terrano com a
arma de impulsos bastante simples. Estava na hora de agir.
5
O projetor
simultâneo era um aparelho usado em todo o sistema de Árcon para a
produção de jogos coloridos.
Tal
aparelho permitia a representação figurativa dos estados emocionais
e das impressões do espírito. Para isso dava nova conformação às
vibrações cerebrais captadas por seu detector e as projetava sobre
uma tela. O processo possibilitava uma apresentação exata de
imagens de todos os tipos. A qualidade da imagem mudava de acordo com
as energias físicas do transmissor orgânico, que em nosso caso se
chamava de Ikort.
Aquele
jovem arcônida parecia ser descendente de nobres. Usava o uniforme
da frota e exibia as insígnias de tenente. O símbolo bordado no
peito de seu uniforme identificava-o como piloto da guarda palaciana,
motivo por que pertencia ao círculo dos meus colaboradores mais
chegados.
Apesar
disso nunca vira aquele rosto, agora enrijecido numa máscara.
Ikort
estava esticado sob o capacete do detector. O aparelho pertencia ao
equipamento padronizado dos nossos alojamentos. A tela estava
embutida na parede. Gucky e Betty Toufry, que haviam desfeito o
bloqueio hipnótico, estavam totalmente exaustos ao lado do apático
oficial.
Marshall
incumbira-se do prosseguimento do interrogatório.
Dez
minutos depois, alcançou o primeiro êxito. Um fluxo sugestivo
emitido por Kitai obrigou o tenente a revelar o que sabia.
Lancei um
olhar tenso para a tela, na qual se desenhavam modelos coloridos. Ao
que parecia Ikort estava bem treinado no jogo mental com o aparelho
simultâneo, fato que confirmava minha suposição sobre sua
descendência.
Seria de
admirar se um jovem de uma família abastada ainda não se tivesse
entregue à mania generalizada da composição.
A voz de
Marshall assumiu um tom mais insistente, e Ishibashi inclinou-se
ainda mais sobre o tenente.
As áreas
coloridas desapareceram. Um espaçoporto apareceu na tela. Era o
campo de pouso particular do imperador em Árcon I.
Vimos dois
homens. Estava escuro, mas seus rostos se tornaram visíveis à luz
da comporta, no momento em que entraram na pequena espaçonave.
Uma câmera
emitiu um zumbido. Os especialistas terranos estavam fixando a
imagem.
A próxima
cena mostrava o espaço livre situado entre os três mundos de Árcon
dispostos em triângulo eqüilátero, mundos estes que giravam em
torno do sol branco, segundo a vontade de meus ancestrais.
Dali a
pouco assistimos à manobra de penetração no envoltório
atmosférico de Árcon II.
— Peço
sua atenção toda especial — disse Mercant.
Outra
câmera começou a zumbir.
Os
controles da nave tornaram-se visíveis. Uma linha verde assinalava a
rota sobre o mapa em baixo-relevo.
De
repente, a imagem simultânea tornou-se menos nítida. Era o momento
em que a hipnose devia ter começado a produzir seus efeitos. Apesar
disso conseguimos reconhecer dois homens equipados com mochilas
antigravitacionais, que atravessaram a cabina e abriram a escotilha
interna da comporta. Desta vez os rostos eram nitidamente
perceptíveis.
Saltaram
pela escotilha dianteira e desapareceram. A comporta fechou-se
automaticamente. Dali a pouco assistimos ao pouso.
As imagens
que se seguiram não ofereciam maior interesse. Marshall suspendeu o
interrogatório simultâneo e passou a formular perguntas diretas. O
piloto sabia em que ponto os passageiros haviam abandonado a nave.
Fora pouco antes da chegada a Torgona.
Dali a
meia hora, Mercant dispensou o jovem oficial. Estava parado no meio
da sala, confuso e com os olhos vidrados. Ishibashi aplicou-lhe um
bloqueio sugestivo que fez Ikort esquecer-se de que um misterioso
desconhecido, de pele escura, fora tirá-lo de seu quarto de hotel.
Rhodan
olhou para o relógio. Ras Tschubai, o africano alto e esbelto,
aproximou-se.
— Ras, o
senhor retirou este oficial de seus aposentos?
O
teleportador fez que sim.
— O.K.
Leve-o de volta, deixando-o no lugar em que foi recolhê-lo.
Ras soltou
uma risada.
— Estava
deitado sobre a cama, completamente vestido. Sentia dor de cabeça.
Rhodan
limitou-se a confirmar com um gesto. Tratava-se de uma ação que só
podia ser qualificada de admirável, mas segundo os padrões terranos
representava uma ocorrência corriqueira. Tive a impressão de que
Rhodan nem se dava conta do poder representado pelos mutantes.
Dois
homens levantaram o piloto, que parecia narcotizado, e colocaram-no
nas costas de Tschubai. Vi que o mutante se concentrava. Quando
saltou, conforme se costumava dizer, surgiu um ligeiro tremor no ar.
Logo após, o teleportador desapareceu.
Dali a dez
minutos, quando voltou tão subitamente como havia desaparecido, os
filmes já haviam sido revelados. Os mutantes receberam retratos
coloridos dos dois desconhecidos. Chamei o computador-regente com meu
rádio de campanha e, recorrendo à televisão, mandei que copiasse
os negativos.
— Pronto,
alteza — disse a voz saída do alto-falante. — Tem instruções
especiais?
— Tenho
— disse para dentro do microfone. — Verifique se conhece algum
dos homens que procuramos. Em caso afirmativo, entre imediatamente em
contato comigo.
— Entendido.
Desligo.
O
gigantesco centro de computação, instalado no mundo vizinho,
desligou. Rhodan disse em tom obstinado:
— Tenho
a impressão de que a máquina começou a funcionar. Ras, levou o
piloto são e salvo ao lugar do qual o tirou?
— Sim
senhor. Está dormindo. Quando acordar pensará que não saiu do
quarto. Além disso estará curado da dor de cabeça.
— Excelente.
O que houve, Gucky?
O
rato-castor enrodilhara-se sobre uma das poltronas articuladas. Sua
cabeça descansava sobre o colo da mutante Betty Toufry. Esta parecia
imersa em profundas reflexões, enquanto acariciava o pêlo macio da
nuca de Gucky.
— Não
perturbe, por favor! Estou meditando — chiou o rato-castor com sua
voz aguda.
— Que
sujeito convencido — disse a cabeça esquerda do mutante Goratchim.
— Você costuma livrar-se facilmente dos problemas. Diz que está
meditando, e pronto!
Gucky
ergueu-se. Seus olhos enormes chispavam.
— Então
acha que estou pronto?
Desviou-se
em tempo, e conseguiu evitar o impacto do corpo gigantesco que
atravessou o ar como um projétil. Dali a alguns segundos o colosso
estava pendurado sob o teto. Gucky soltou uma risada estridente. Suas
energias telecinéticas eram inimagináveis.
— Eu não
disse nada — gritou a cabeça direita, que representava Ivanovitch,
o jovem. — O que é isso?
— Faço
explodir seu dente roedor — ameaçou Ivã, o velho. — Seu pincel
de olhos de peixe!
— Deixe-o
descer — ordenou Rhodan em tom indignado.
Gucky
movimentou as mãos num gesto de resignação e deixou o gigante de
dois metros e cinqüenta descer lentamente ao chão. Assim que os pés
tocaram no piso, as duas cabeças logo começaram a brigar.
Ivã o
velho afirmou que Ivanovitch oferecera indiretamente a capitulação.
Fascinado, acompanhei o espetáculo. Durante a disputa cada um dos
dois cérebros esforçou-se para controlar o enorme corpo.
Houve um
duelo mudo, que prosseguiu até que Ivã conseguisse levantar o braço
esquerdo, contra a vontade da outra cabeça, e aplicar uma violenta
bofetada em Ivanovitch. Ouviu-se um forte estalido.
Com isso,
a luta chegou ao fim. As duas cabeças concordaram em descansar o
corpo sobre o leito mais próximo. Só eu acompanhara o pequeno
acontecimento. Para os terranos, essas coisas pareciam corriqueiras.
O dom de
Goratchim era uma das mais perigosas qualidades positivas dos
mutantes. O fluxo de impulsos de ordem superior expelido por seu
cérebro produzia a desintegração atômica no centro da área
visada. Goratchim era capaz de desencadear, independentemente de
qualquer recurso técnico, a fissão de qualquer composto do cálcio
e do carbono. Seu treinamento já o habilitara a reunir os impulsos
num feixe tão estreito que só atingiam uns poucos núcleos
atômicos. Os compostos do cálcio e do carbono eram encontrados em
toda parte. Com isso, a faculdade do gigante disforme, coberto de
escamas verdes, transformara-se numa arma terrível.
Olhei os
outros mutantes, um por um. Conhecia-os todos e sabia de que forma
haviam sido recrutados por Rhodan. Para todos os efeitos práticos,
encontrava-me num círculo de pessoas imortais, pois Rhodan concedera
a todos os mutantes o benefício da conservação celular. Compreendi
que essas pessoas seriam capazes de conquistar a Galáxia. Rhodan já
agia com excessiva benevolência quando no trato com os mutantes, o
que em minha opinião envolvia certos riscos.
Era
espantoso que, vez por outra, os mutantes não se deixassem dominar
pela embriagues do poder. Certa vez já houvera uma pequena revolta,
que Rhodan conseguiu reprimir com o auxílio dos outros mutantes.
Mas, se estes se rebelassem em conjunto, a situação poderia
tornar-se insustentável.
Betty
Toufry, a telepata competentíssima, fitou-me atentamente.
Provavelmente negligenciara o bloqueio protetor dos meus pensamentos.
Sorri para ela, e seu rosto descontraiu-se. Ao que tudo indicava,
apesar de seu dom parapsicológico, só conseguira captar alguns
fragmentos de idéias. Gucky dormia com a boca aberta. Rhodan e
Mercant realizavam uma conferência com alguns cientistas da Drusus.
Tratava-se de revistar a área em que os criminosos saltaram com seus
aparelhos antigravitacionais, utilizando uma nave que não chamasse a
atenção.
Era de
supor que o destino dos desconhecidos não ficasse muito longe desse
ponto. Ao menos não encontramos nenhum fundamento lógico, que
justificasse a suposição de que poderiam ter abandonado a nave
arcônida, a milhares de quilômetros do seu esconderijo. Os dois
homens que praticaram o astucioso furto não teriam necessidade
disso. Por certo acreditavam que o piloto estivesse mudo, em virtude
do bloqueio hipnótico que lhe fora imposto.
Antes de
mais nada tornava-se necessário ocultar as faculdades dos mutantes.
Além disso, o aparelho de rastreamento, adaptado à situação,
teria de entrar em ação imediatamente.
Esperava-se
que, dentro em breve, seriam encontrados os primeiros indícios.
Dali a
alguns minutos, o comandante da Califórnia, que se mantinha à
espera no espaçoporto próximo, recebeu ordem para fazer sair uma
nave espacial pequena, do tipo Space Jet, a fim de sobrevoar a uma
altura de dez ou vinte quilômetros a área sobre a qual os dois
desconhecidos haviam saltado. O goniômetro era supersensível, e meu
ativador celular irradiava ininterruptamente os impulsos estimulantes
destinados ao meu organismo. A localização goniométrica era apenas
uma questão de tempo. Porém não tínhamos tempo. O Coronel
Sikermann, comandante da nave capitania Drusus, assumira o comando da
Califórnia, durante a operação em que estávamos empenhados.
Enquanto isso, Reginald Bell assumira o comando do supercouraçado.
Tudo se
achava muito bem organizado, mas estava na hora de recuperarmos o
aparelho que assumia importância tão vital para mim.
Voltei a
olhar para o relógio. Quarenta e oito horas e trinta e seis minutos
já se haviam passado desde o furto. Ainda me restavam
aproximadamente onze horas e meia.
No momento
em que o Coronel Sikermann anunciou que o jato espacial acabara de
partir, chamei o computador-regente, a fim de instruí-lo a não
molestar a pequena nave terrana. De outra forma os controles
automáticos a obrigariam a pousar ou até a derrubariam. Ninguém
podia “brincar”
nos céus de Árcon II.
O centro
de computação confirmou e desligou. Mas dali a um segundo, a luz
verde voltou a acender-se no painel de comando. Rhodan percebeu.
Estava bastante tenso.
Lancei um
olhar espantado para o transmissor especial achatado, que
encontrava-se preso ao meu antebraço. Por que o computador voltara a
chamar tão depressa?
Quando
comprimi o botão de contato e dirigi a micro lente da transmissão
de imagem para meu rosto, compreendi que outro setor do centro de
computação me chamava. Afinal, o grande cérebro era formado por
milhões de circuitos, cada qual com sua tarefa específica.
Naquele
momento ninguém desconfiava de que todos os nossos planos se haviam
tornado inúteis. Acontecera alguma coisa com que nem sequer Mercant
contara.
— Regente
chamando Sua Alteza — disse a voz metálica e dura saída do micro
alto-falante. — Resultado da indagação 122-A, relativa a pessoas
desconhecidas que saltaram da espaçonave Heter-Ton. Os filmes por
mim copiados foram transmitidos ao setor de armazenamento. Um dos
homens foi identificado. Sua fotografia e dados pessoais encontram-se
disponíveis, porque essa pessoa foi punida há dezoito anos por ter
operado sem licença um laboratório biofísico particular.
“Dados
dessa pessoa. Nome: Segno Kaata, idade desconhecida, sacerdote-chefe
do templo de Baalol local, chefe do culto de Baalol no âmbito do
sistema de Árcon.
“O culto
de Baalol é a organização mais rica da Galáxia. Calcula-se que,
só no sistema de Árcon, existam duzentos milhões de adeptos,
formados por arcônidas, naats e outras inteligências aqui
radicadas. O culto não venera nenhuma divindade. Os objetivos da
seita são duvidosos. Os dados disponíveis provam, com cem por cento
de certeza, que os diversos supremos sacerdotes do culto de Baalol
nunca tentaram conquistar o poder político ou militar. De outro
lado, também sabemos, com cem por cento de certeza, que os
dirigentes do culto desempenham papel proeminente na área econômica.
Ao que tudo indica, mantêm contato com os mercadores galácticos e
os aras. A doutrina da seita proclama a sanidade física e mental do
indivíduo em base cientificamente fundada, de conotação ocultista.
As ciências secretas da seita só são conhecidas por ouvir dizer,
mas ao que parece assumem certa importância.
“Atenção,
este detalhe é importante.
Não temos
elementos para verificar de onde vieram os baalols e qual o nome que
se dá a seus sumos sacerdotes. Ao que se supõe, são descendentes
de colonos arcônidas emigrados há muito tempo. Os baalols nunca
colonizaram qualquer planeta. São encontrados em todos os mundos da
Galáxia.
“Dados
sobre a estrutura do culto: Qualquer pessoa que não tenha nascido de
um casamento entre baalols jamais poderá ser um sacerdote da seita.
As conclusões lógicas extraídas desse fato, ao lado de outros
dados, fazem supor que para isso se exigem determinadas
características físicas e espirituais. Sabe-se que os sacerdotes
desse culto fabricam os campos defensivos individuais mais
aperfeiçoados e de maior conteúdo energético. Minhas investigações
por ocasião da prisão do sumo sacerdote Segno Kaata, à qual já me
referi, não trouxeram qualquer resultado concreto no que diz
respeito aos legendários campos defensivos energéticos. Trata-se de
aparelhos iguais aos que são usados em toda parte. Mas que, em
outras pessoas, nunca geram um campo energético tão impenetrável
como num baalol.
“Existe
a possibilidade de que os baalols possuam determinadas faculdades em
virtude de alguma mutação ainda desconhecida. Recomenda-se a maior
cautela. Os sacerdotes são considerados invulneráveis.
“Fim da
transmissão, alteza.”
O
alto-falante emitiu um estalido, mas o computador permanecia em
recepção. Rhodan fitou-me. Parecia perplexo. Um sorriso
significativo brincou nos lábios de Allan D. Mercant. Os mutantes
presentes pareciam ser os primeiros a compreenderem que alguma coisa
não estava certa.
— O
culto de Baalol? — disse John Marshall, esticando as palavras. —
Caramba!
Apressei-me
em ordenar ao regente que aguardasse novas instruções e desliguei.
O centro de computação me havia transmitido todas as informações
armazenadas em sua memória. Parecia impossível saber mais alguma
coisa...
— O
senhor conhece esses estranhos sacerdotes, sir? — indagou o chefe
do Serviço de Defesa Solar.
O tom
suave de sua voz me fez empalidecer. Sim, já ouvira falar nos
baalols.
— Não
tenho nada a acrescentar às declarações do regente — confessei.
— O culto já existe há dez mil anos. Se este se basear em alguma
mutação, tal fenômeno deve ter ocorrido nos primórdios de nossa
história. A partir do momento em que assumi o cargo de imperador,
não ouvi falar mais a este respeito. Já havia esquecido a
existência dessa seita, que cobriu toda a Galáxia.
Mercant
confirmou com um gesto.
Rhodan
parecia pensativo diante da tela escurecida do aparelho de jogos
simultâneos. Tive a impressão de que procurava alguma coisa.
— Há
certas coisas que não entendi muito bem, Atlan! Como é que um
aparelho gerador de campo defensivo, igual a qualquer outro, pode
produzir determinado efeito num arcônida comum, enquanto num
sacerdote produz um campo individual impenetrável? Essa afirmativa
encerra um verdadeiro paradoxo! Os micro projetores não podem
multiplicar seu desempenho pelo simples fato de estarem presos ao
corpo de um baalol. Se for assim, isso não depende dos aparelhos,
mas de alguma qualidade especial dessa gente. Se admitirmos esse
pressuposto, torna-se quase certo que houve uma mutação numa época
muito recuada da história. Como se explica que até agora ninguém
tenha notado isso?
Virou a
cabeça e fitou-me. Senti-me perplexo.
— Hum! —
fez, e um brilho irônico surgiu em seus olhos cinzentos. — Acho
que a responsabilidade disso cabe mais uma vez à administração
desleixada de Árcon, não é? Mas pelo que se diz, há dez mil anos
as coisas ainda eram diferentes. Por que nessa época não se
realizaram investigações mais detalhadas?
Não soube
responder a essa pergunta.
— Por
certo naquele tempo adotavam um comportamento mais discreto. Não me
consta que, durante os anos em que servi na frota, tenham acontecido
coisas misteriosas ou sequer inquietantes. Se tivessem acontecido,
teríamos tomado providências imediatas. Os arcônidas do meu tempo
sabiam agir com uma tremenda rapidez e coerência.
No momento
estes aspectos são secundários — disse Mercant em tom cortês,
mas firme. — Já sabemos por onde podemos começar. Não vamos
perder tempo. A descrição do personagem, realizada pelo piloto,
revelou-se correta. Vejamos o que nos oferecem no templo.
De
repente, todos pareceram perder os nervos no quartel-general
camuflado dos terranos. As ordens atropelavam-se. O desempenho de
Rhodan teria sido suficiente para subjugar a população de um
planeta.
Reginald
Bell recebeu uma ordem pelo rádio: decolar imediatamente. Rhodan
queria que a Drusus permanecesse nas proximidades.
Dali a
cinco minutos foi localizado o ativador tão procurado. Realmente se
encontrava no templo de Baalol situado em Árcon II. Face aos dados
até então conhecidos, dificilmente haveria outra possibilidade,
ainda mais que sempre existia pelo menos um templo dessa seita em
cada mundo. Isso constituía outra peculiaridade da seita, mas esta
por certo também tinha um significado mais profundo.
Uma hora
depois, a Drusus chegou. Cada um dos comandantes de campanha recebeu
ordens bem definidas.
Mobilizei
as unidades robotizadas do regente. O planeta foi isolado por uma
frota de gigantescas naves. Pesados blindados voadores estavam
estacionados nas pistas dos depósitos, prontos para a ação.
No momento
em que entramos no planador, acompanhados pelos mutantes, a fim de
procurar ocupar o templo, cinqüenta e uma horas e três minutos já
se haviam passado desde o furto.
O prazo
ia-se esgotando!
Não
sabíamos se os misteriosos sacerdotes dispunham de aparelhagem
moderna de localização. Por isso resolvemos aproximar-nos do
templo, o mais discretamente possível. A edificação ficava situada
junto a uma colina baixa, nos arredores da metrópole Torgona, mas
era fácil alcançá-la pelas largas vias elevadas e expressas.
Éramos
seguidos pelos destacamentos especiais dos terranos, que a qualquer
momento poderiam ser reforçados por tropas de robôs. A longa noite
de Árcon II facilitava a execução de nosso plano. Apesar disso era
bastante duvidoso que conseguíssemos cercar a área do templo, antes
que alguém detectasse nossa presença.
6
Árcon II
não possuía lua.
Quando
meus antepassados arrancaram os planetas dois e quatro de suas
órbitas naturais, a fim de, num processo prolongado, agregá-lo ao
de número três, eles preferiram não enquadrar algumas luas no
complicado sistema.
Apesar
disso não era completamente escuro.
O próximo
período de chuvas, segundo os planos do computador-regente, só
ocorreria na noite seguinte. Por isso não havia nenhuma nuvem e a
luz das inúmeras estrelas atingia livremente a superfície do
planeta.
A
luminosidade e cintilação era muito diferente daquela que se
conhecia na Terra distante, pois encontrávamo-nos no centro de um
grupo estelar esférico, cujas concentrações de sóis bastavam para
iluminar o terreno, mesmo de noite.
Enxergávamos
perfeitamente, sem recorrer aos aparelhos de luz infravermelha.
Os
edifícios do templo transmitiam uma impressão deprimente. Não
haviam sido construídos segundo o modelo do funil, usado pelos
arcônidas, mas em conformidade com os conceitos arquitetônicos de
uma raça desconhecida.
O templo
de Baalol quase chegava a ser uma fortaleza, com as muralhas externas
circulares, os baluartes avançados e as estreitas vias de acesso. Os
edifícios, que surgiam atrás dos muros, pareciam ser esféricos. Os
telhados pontudos, aparentemente feitos de metais nobres,
estendiam-se bem alto, em direção ao céu.
No cume do
telhado mais alto havia uma lâmpada vermelha, cuja luz se derramava
pelo terreno circundante.
Os amplos
parques, que rodeavam os edifícios, foram cercados em poucos
minutos, de acordo com nosso plano. Na escuridão, três mil homens
de uma unidade terrana, transportada pelo espaço, esperavam que
Rhodan desse ordem para entrar em ação.
Robôs
especiais revistavam uma larga faixa de terra em torno do templo, à
procura de passagens subterrâneas. Em pouco tempo, os rastreadores
de espaços vazios, que funcionavam com uma precisão extraordinária,
descobriram oito galerias, situadas em diversos níveis de
profundidade.
Ao receber
a notícia, um sorriso feroz surgiu no rosto de Rhodan. Seguiram-se
suas ordens, das quais se depreendia que não estava disposto a
assumir qualquer risco.
Os pesados
blindados energéticos caíram ao chão sob a proteção de seus
campos antigravitacionais. Desceram exatamente nos lugares em que os
rastreadores de espaços vazios haviam descoberto as passagens
subterrâneas.
No mesmo
instante, os canhões de impulso dos carros de combate, apontados
para baixo, quase na vertical, começaram a disparar. Subitamente, as
fúrias do inferno pareciam estar às soltas. Avançamos resolutos,
uma vez descobertos os caminhos de fuga. Em hipótese alguma, o homem
que procurávamos devia escapar.
Fluxos
energéticos de luminosidade solar penetravam no solo que se tornou
incandescente, para volatilizar-se em seguida. As galerias foram
atingidas por penetração direta. Foram parcialmente derretidas e,
depois, algumas bombas de vibrações as fizeram desmoronar de vez.
Aqueles
homens altamente especializados, que sabiam o que estava em jogo,
passaram a trabalhar com uma rapidez e precisão extraordinárias.
No momento
em que as luzes se acenderam no templo, as passagens subterrâneas já
haviam sido completamente destruídas. O ribombo dos canhões
energéticos perdeu-se na distância. Depois de um último rugido, o
silêncio voltou a reinar.
No templo
não havia sinal de vida. Mas as luzes continuaram acesas. Aguardamos
as tropas de robôs fortemente armadas. Os robôs de guerra, capazes
de voar, formavam um segundo círculo que cercava a área.
Estávamos
convencidos de que pegáramos o sumo sacerdote na armadilha.
Rhodan
esforçou-se para ouvir o que se passava no templo, mas tudo
permanecia em silêncio.
— Para
meu gosto aquilo está muito quieto — disse Mercant de repente.
Achávamo-nos
ao lado do jato espacial pousado, no qual se encontrava o aparelho de
localização especialmente adaptado. O chiado agudo que saía do
alto-falante provava que meu ativador celular estava no interior do
templo.
Procurei o
olhar de Rhodan e notei que em sua testa haviam surgido rugas
profundas.
— Que
situação danada! — exclamou em tom nervoso. — Seria fácil
atacarmos com todas as forças, mas o que acontecerá com seu
aparelho se o fizermos?
Ri um
tanto sem jeito. Essa pergunta já ocupava meu espírito há uma
hora.
Antes que
pudesse dizer qualquer coisa, houve um tumulto à nossa esquerda.
John Marshall e o mutante Wuriu Sengu aproximaram-se. Wuriu
apoiava-se em John. O japonês baixo e robusto dava a impressão de
estar totalmente exausto. Mal conseguia manter-se de pé.
Um soldado
aproximou-se rapidamente e abriu uma cadeira de campanha. Wuriu
sentou-se pesadamente. Dirigi-me ao local em que se encontrava.
Rhodan passou por mim correndo. De repente toda a nossa euforia se
foi. Eu sentia um mal-estar indefinido. Talvez pressentisse que algo
de terrível estava para acontecer.
— O que
houve com o senhor, Sengu? — perguntou Rhodan em tom áspero.
Segurou o mutante pelos ombros e sacudiu-o.
Wuriu
levantou os olhos, que brilhavam à luz das estrelas.
— Sir,
houve uma coisa que não consigo compreender — gaguejou.
— O que
houve? Fale logo!
— Não
consigo enxergar através das paredes. Devem ter ativado um campo
defensivo de natureza ainda desconhecida, ou então está acontecendo
outra coisa que não consigo superar. Minha faculdade nunca me
abandonou, mas aqui está falhando.
Experimentei
uma sensação dolorosa na parte posterior do crânio. Depois de
muitas horas de silêncio, meu cérebro adicional voltava a chamar.
“Pense
na possibilidade da ocorrência de mutações nos baalols!”,
transmitiu o setor lógico de minha mente.
Muito
surpreso, prendi a respiração. Rhodan também se manteve em
silêncio. Olhava nervosamente para o espia, que parecia estonteado.
O dom parapsicológico positivo de Sengu consistia na capacidade de
enxergar através da matéria sólida e compacta, como se fosse uma
parede transparente. Até então o mutante nunca falhara. Sempre
pudera dizer exatamente o que estava acontecendo atrás deste ou
daquele muro.
Son Okura,
um homem franzino, que andava com certa dificuldade e era um visor de
freqüências, surgiu em meio à escuridão. Possuía a capacidade de
enxergar as radiações invisíveis ao homem, mesmo nas faixas de
ondas extremas. De noite costumava enxergar melhor.
Parou ao
meu lado. Seu rosto também parecia cansado. Rhodan virou-se com uma
lentidão extraordinária. Tive a impressão de que receava o momento
de fitar o rosto do mutante.
— Son, o
senhor também? — perguntou Rhodan em tom hesitante.
— Sim,
sir. Uma coisa terrível está acontecendo. Estou captando uma
radiação semelhante às nossas hiperondas curtas, que se
desenvolvem em outro plano espacial. Mas desta vez é diferente: dói.
Estou sentindo uma terrível dor de cabeça.
— Dor de
cabeça — repetiu Rhodan, falando devagar.
Havia algo
de inquietante em seu olhar.
De repente
obtivemos a explicação que procurávamos. Betty Toufry, que se
encontrava mais longe, tomou a palavra.
— Também
não consigo perceber mais nada, sir, nem um único impulso cerebral,
nenhum retalho de pensamento. Tenho certeza absoluta de que não se
trata de um campo defensivo. Por ali praticamente não está
funcionando nenhuma máquina. Tanaka Seiko não está localizando
nenhuma fonte de energia.
— É
verdade — disse um oficial da equipe de goniometria. — No templo,
um único reator está funcionando com o desempenho mínimo. São no
máximo quinhentos quilowatts, sir. É apenas o suficiente para a
iluminação, o sistema de condicionamento de ar e os elevadores.
Porém nunca seria suficiente para alimentar um campo energético. Os
dados são corretos.
— Será
que o diabo está solto por aqui?! — interrogou-se Rhodan, em tom
furioso. — Betty, tem mais alguma coisa a dizer?
A jovem
mulher aproximou-se. À luz das estrelas, seu rosto estreito parecia
pálido como cera.
Comum tom
de medo e pavor, Betty falou balbuciando:
— São
antis, sir! Inteligências que possuem a capacidade de neutralizar
nossos dons por completo. Trata-se de antimutantes. Certa vez travei
conhecimento com um ser dessa espécie em Velogra VII, mas essa
criatura nem desconfiava de suas qualidades de absorção. Mas os que
se encontram lá adiante sabem perfeitamente. Estão triunfando sobre
nós.
Senti um
mal-estar. De repente notei minha fraqueza física. Os contornos dos
edifícios, que cercavam o templo, começaram a desmanchar-se diante
de meus olhos.
Quando
recuperei os sentidos, estava deitado numa maca. O médico de bordo
do cruzador Califórnia acabara de aplicar-me uma injeção nucal.
— É
parastimulim,
Atlan — disse em tom tranqüilo. — Sabe o que significa isso? Sua
verdadeira idade começa a manifestar-se...
— Quantas
horas duram seus efeitos? — perguntei em tom tranqüilo.
De repente
sentia-me muito forte e psiquicamente equilibrado.
— Normalmente
oito ou dez. No seu caso, provavelmente será um pouco menos. O
senhor está acostumado aos estímulos proporcionados pelo ativador.
A rigor está totalmente viciado.
— Muito
obrigado — disse um tanto ofendido. — Afinal, não sou culpado
disso.
O médico
riu. Ao que parecia, tinha um estranho senso de humor.
Olhei para
o relógio. Cinqüenta e duas horas e quatorze minutos já se haviam
passado desde o furto.
Rhodan
inclinou-se sobre mim. Ergui o corpo, sentei de pernas abertas sobre
a maca e olhei em torno. Minhas energias físicas pareciam ter
retornado em toda plenitude. Esse parastimulim era uma droga
formidável.
— Nesse
instante, seu colarinho está arrebentando! — disse alguém com a
voz aguda.
Gucky
sentou-se ao meu lado. Para ele, a maca tinha a altura certa.
Até
consegui rir. O rato-castor era uma criatura deliciosa à sua
maneira.
— O.K.,
Perry. Não vamos esperar mais — disse, dirigindo-me a Rhodan. —
Disponho de apenas oito horas. Agora vou arriscar; é tudo ou nada.
— Vamos
atacar? — limitou-se Rhodan a perguntar.
— Vamos,
com todos os nossos recursos. Neste momento, declaro o estado de
emergência em Árcon II. As respectivas ordens serão transmitidas
imediatamente ao regente. Pouco importa que fiquemos parados ou
façamos alguma coisa. Não tenho nada a perder.
— Quando
se sentir em situação periclitante, esse tal de Segno Kaata vai nos
ameaçar, dizendo que destruirá o ativador. Sob um ponto de vista
prático, não podemos fazer absolutamente nada.
— Podemos,
sim. É possível que esses indivíduos pertençam à classe dos
chamados antis, que neutralizam as faculdades dos mutantes. Mas quero
ver de que forma reagirão à tormenta atômica desencadeada por meus
canhões robotizados autopropulsados. Face a isso, seus superdons não
lhes adiantarão muito.
Já me
conformara com a idéia de que minha vida chegara ao fim. O sumo
sacerdote me tinha nas mãos. Talvez fosse possível enganá-lo. Se
conseguisse fazê-lo acreditar que eu dispunha de outro aparelho,
nossa ação ainda poderia ser bem sucedida.
Mas se ele
já tivesse descoberto que nós havíamos blefado, poderia
considerar-me morto!
Levantei o
braço esquerdo para chamar o centro de computação. Neste momento,
Gucky colocou-se à minha frente. Suas mãos suaves seguraram meu
pulso.
— Não
faça isso... ainda não — disse o pequeno ser com uma suavidade
extraordinária na voz.
Seus olhos
grandes e leais, que tinham dado origem ao nome que lhe fora dado,
brilhavam à luz das inúmeras estrelas.
— Atlan,
eu vou tentar... Sou o melhor teleportador do Exército de Mutantes.
Espere até que eu salte. Se conseguir penetrar no templo, o supremo
sacerdote estará liquidado.
— Não,
meu pequeno, não faça isso — respondi em voz baixa. — Você
ouviu o que seus colegas acabam de dizer. São antis! Sua vida estará
em perigo. Antes de ser obrigado a despedir-me deste mundo, não
quero perder mais um amigo. Talvez seja bom que isso tenha de
acontecer. Já vivi demais, contrariando todas as leis da natureza.
Isso não foi previsto pelo Criador. Recorri a um truque para obter
fraudulentamente alguns milênios de vida. Agora o fim está
chegando. Não salte, ouviu?
O
rato-castor encostou seu corpo ao meu.
— Amigo?
Você usou a palavra amigo? — chilreou em voz baixa.
— Naturalmente
— confirmei com um ligeiro embaraço.
Gucky
colocou-se, em posição de luta, à frente da figura alta de Rhodan.
O ser pequenino com as mãos na cintura oferecia um quadro esquisito.
— Irei,
chefe. Não procure deter-me, pois nesse caso terei de recusar-lhe a
obediência. Tenho uma chance.
Rhodan
concordou.
— Muito
bem, tente. Segundo os resultados das últimas medições
goniométricas, o ativador encontra-se no mais alto desses edifícios
esféricos. O recinto em que está guardado deve ficar no terço
superior desse edifício. Cuide-se, sim?
— Quer
que eu salte com ele? — perguntou Tako Kakuta, que também era
teleportador.
Kakuta
achava-se um tanto afastado do grupo.
— Nada
disso! Irei só — disse o rato-castor, em tom violento.
A arma,
especialmente fabricada para ele, surgiu em sua mãozinha. Tratava-se
de uma mortífera pistola de raios energéticos concentrados.
O
inteligente habitante do planeta Vagabundo concentrou-se e
teleportou-se com tamanha força que mal se viu o conhecido fenômeno
luminoso.
Aguardamos
ansiosos. Subitamente viramo-nos com alguns gritos horríveis.
A uns cem
metros do lugar em que nos encontrávamos, bem longe do ponto de
partida, Gucky voltara a tornar-se visível. Apenas, já não era ele
mesmo.
Um monstro
inchado, que tinha dez vezes as dimensões de Gucky, cambaleava aos
berros em nossa direção. As proporções modificavam-se
constantemente. Por um momento a cabeça aumentou assustadoramente
seu volume, depois os braços tornaram-se mais longos e, finalmente,
o ventre inchado encolheu.
Os gritos
não constituíam uma manifestação de agressividade, mas eram a
expressão de uma dor terrível. O gigante de dez metros caminhava em
nossa direção, em busca de auxílio. Sua pele parecia ser iluminada
de dentro para fora. Vez por outra surgiam pequenas descargas
ruidosas, que iluminavam os arredores.
Enquanto
corríamos em sua direção, o terrível efeito de gigantismo parecia
diminuir rapidamente. No momento em que o alcançamos, o rato-castor
já havia desmaiado, mas ainda media seus cinco metros. O processo de
redução foi acompanhado das mesmas distensões e deformações que
já havíamos observado. A luminosidade da pele tornou-se menos
intensa.
Os médicos
e os outros mutantes cuidaram do ser desmaiado. Profundamente
abalados, fitávamos o corpo que se contorcia em convulsões, até
que Rhodan disse em tom de desânimo:
— Atlan,
o que acontecerá agora? Meus mutantes estão falhando. Santo Deus,
eu nunca teria contado com os antis. Nem sabíamos da existência de
tais criaturas.
Allan D.
Mercant conservara o sangue-frio. Aguardou o relatório de John
Marshall, que nos comunicou que, por ocasião do salto de Gucky,
houve uma rejeição violenta da massa desmaterializada. Assim,
quando da rematerialização que se seguiu, as moléculas e os grupos
de átomos do corpo não se enquadraram corretamente no conjunto. Foi
por isso que ocorreu a triste cena que acabamos de presenciar.
A seguir
Mercant disse, demonstrando uma avaliação correta da situação:
— Foi o
último trunfo. E nós o perdemos. Mande atacar, Atlan! Como
imperador, o senhor tem autoridade para isso. Não gostaria que no
futuro alguém viesse chamar-me de criminoso. É o senhor quem dá as
ordens.
— Tem
alguma sugestão? — perguntei com uma estranha tranqüilidade.

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