sábado, 27 de agosto de 2016

P-096 - O Mistério do Anti - K. H. Scheer [Parte 2]

Pouco depois do jantar já estava mais esclarecido sobre a situação. As naves de passageiros que haviam decolado no período crítico foram perseguidas e trazidas de volta por unidades da frota. Encontravam-se em Árcon II.
Já se apurara quem eram os pilotos das quatro naves particulares. O regente não recebera ordens para ir além dessas averiguações. Face às providências imediatas, todas as pessoas suspeitas encontravam-se no mundo do comércio e da indústria.
Excelente — disse Rhodan, em certa altura. — Ainda bem que não precisamos dispersar nossos esforços. Por enquanto a Drusus ficará aqui. Partiremos no cruzador Califórnia. A Togo permanecerá numa órbita ampla em torno de Árcon II.
Olhei para o mostrador de meu relógio. Desde o momento do furto, já haviam passado 32 horas e 6 minutos. O tempo urgia.
4



Um homem cujo nome era quase desconhecido na Terra, e ainda mais na Galáxia, começara a manipular os freios. Tratava-se de Allan D. Mercant, chefe do célebre Serviço de Defesa Solar, semimutante e marechal do Império.
Ouvira em silêncio, formulara poucas perguntas e agira imediatamente.
Nessa oportunidade entendera mais uma vez que os impérios mundiais podem ser conquistados por outros meios que não a força das armas. Aquilo que Mercant demonstrava em silêncio e numa atitude de discrição pessoal era um jogo sofisticado com os recursos de uma gigantesca organização.
Três horas após o pouso da esquadrilha terrana, comecei a representar em conformidade com as instruções de Mercant.
Primeiramente, convoquei o Grande Conselho. Antes que aparecesse à frente do grupo, Mercant me entregara pessoalmente uma excelente imitação do ativador celular, e recomendara que usasse o aparelho de forma bem visível, por cima do uniforme.
Quando cheguei à sala dos sábios, tive de realizar um grande esforço para lançar um olhar de triunfo em direção aos funcionários e oficiais mais graduados. Para um moribundo — e precisamente isso eu era naquele momento — tornava-se difícil demonstrar tranqüilidade.
Durante a conferência a respeito das questões de abastecimento, mencionei como que por acaso, por recomendação de Mercant, que alguém roubara um dos meus instrumentos mais vitais. Isso servia para fundamentar as medidas rigorosas que estavam sendo adotadas em Árcon.
Depois que a sessão chegara ao fim, Mercant disse em tom de aprovação:
Foi a primeira peça que pregamos neles. Tenho certeza de que certas pessoas se recriminarão mutuamente. O senhor mandou medir rigorosamente a freqüência de suas vibrações celulares?
Dali a mais uma hora, descobri que esse mestre no jogo oculto do Serviço de Defesa Solar já começara a agir, mesmo antes da Drusus decolar da Terra.
Durante o vôo, os micro mecânicos mais competentes da Galáxia, os homens-pepino de Swoon, começaram a trabalhar. Um rastreador de impulsos capaz de medir vibrações individuais ultracurtas foi modificado e, por meio de um processo de ajustamento extremamente complicado, adaptado às minhas ondulações pessoais.
De repente cheguei à conclusão de que o raciocínio de Mercant era simples. No entanto, tive de confessar que provavelmente a idéia em que este se baseava nunca me teria ocorrido.
Partiu do pressuposto de que o instrumento furtado também estava ajustado às minhas vibrações. Por isso deveria ser possível localizá-lo, desde que eu possuísse um goniômetro perfeitamente ajustado, que também reagisse às minhas vibrações orgânicas, situadas na faixa das ondas ultracurtas.
Foram estes os preparativos.
Depois de uma rápida verificação, os cruzadores ligeiros da classe Estado chamados Califórnia e Togo haviam decolado. A gigantesca Drusus permanecera no mundo de cristal, sob o comando de Bell, pronta para entrar em combate.
Encontrava-me na Califórnia, quando esta pousou em Árcon II, o mundo mais belo dos setores conhecidos da Via Láctea. Ali as construções não haviam seguido o esquema arcônida, que não permitia a reunião de muita gente num espaço pequeno.
Árcon II era um planeta de grandes metrópoles, que abrigava os maiores conjuntos industriais da Galáxia. As célebres ruas de lojas e silos das cidades eram percorridas há dez mil anos por todos os seres inteligentes conhecidos. Em Árcon II podia-se comprar tudo que já havia sido encontrado, descoberto ou cultivado nas amplidões do cosmos.
As transações que envolviam bilhões eram coisa corriqueira. Constantemente realizavam-se operações no valor de duzentos bilhões de solares, e o fechamento de um negócio que se aproximasse da marca dos trilhões não causava espanto a ninguém.
A cidade mais importante do planeta era Torgona. Era chamada assim em homenagem ao primeiro mercador arcônida, que decolara dali com uma nave cargueira armada, a fim de negociar em mundos estranhos. Isso fazia cerca de oito mil anos do calendário terrano.
Assim que a nave pousou, Mercant voltou a agir. Mais uma vez aconteceu uma coisa com a qual eu não contava.
Construído na Terra, um robô especial vestiu meu uniforme com os símbolos do Imperador. Durante a viagem entre os planetas, a máquina fora adaptada à freqüência de minha voz. O robô era cópia fiel de minha pessoa.
Mercant explicou em tom indiferente que na Terra essas máquinas eram usadas vez por outra como sósia de personalidades importantes.
Minha máscara foi feita num instante. Meu cabelo arcônida branco-alourado foi encoberto por uma peruca, e algumas modificações foram realizadas em meu rosto. Para isso, Mercant trouxera os especialistas em máscaras.
Dessa forma, ao descer da nave, estava transformado num capitão terrano, enquanto o robô cumprimentava a guarda de honra formada às pressas.
Falava como eu e seu comportamento era igual ao meu. Adotava atitudes frias e reservadas e, vez por outra, soltava uma observação sarcástica. Eu mesmo não poderia representar o papel, melhor que ele...

* * *

Nove horas já se haviam passado desde o pouso em Árcon II. Passara sete dessas horas num sono pesado e pouco repousante.
Ao despertar, lancei meus olhos sobre o cronômetro. O mostrador não conhecia compaixão. Quarenta e três horas e trinta e sete minutos já se haviam passado a partir do furto.
O comandante do espaçoporto de Torgona fornecera aos visitantes terranos, por ordem minha, excelentes alojamentos, situados junto ao campo de pouso. Poderíamos deslocar-nos à vontade, pois ninguém nos incomodaria com perguntas fúteis.
Os visitantes não-arcônidas eram uma coisa tão corriqueira que não despertavam a atenção de ninguém. As ruas amplas e belas da cidade comercial serviam de ponto de encontro para todos os seres inteligentes da Galáxia. Quando um ser monstruoso, que respirava metano, passava fungando sob a proteção de um traje espacial disforme, ninguém lhe voltava a cabeça.
Rhodan aceitara os conselhos de Mercant. Viera como visitante oficial, e por isso vira-se obrigado a participar de algumas recepções.
Quanto a mim, não tinha nada a objetar, pois, na situação em que nos encontrávamos, Rhodan de qualquer maneira não poderia fazer nada.
O importante eram os mutantes, que, desde o pouso, desenvolviam uma atividade incessante. Já os oficiais e tripulantes da Califórnia, que não participavam das investigações, apareciam freqüentemente nos lugares que Rhodan, segundo dissera, pretendia procurar.
E assim houve visitas a universidades e indústrias. Os funcionários do serviço arcônida de informações às raças estranhas dispensaram a Rhodan o tratamento a que fazia jus em virtude de sua graduação. Meus antepassados já haviam elaborado diretrizes minuciosas a esse respeito, diretrizes estas que indicavam o tratamento que deveria ser dispensado a este ou aquele ser estranho.
Rhodan enfrentou uma recepção atrás da outra. Diziam-lhe as palavras prescritas em leis antiqüíssimas. Face à freqüência das homenagens fora enquadrado na categoria VI, o que já representava alguma coisa. Essa categoria correspondia aos chamados Soberanos Absolutos Imitadores. Para ser posto nessa categoria, o soberano deveria ter sob seu domínio um sistema solar de pelo menos oito planetas.
Em Árcon II, ninguém desconfiava de quanto Rhodan se divertia com essa classificação. Sentia-me tão fraco que era incapaz de fazer piadas a este respeito.
A ausência dos impulsos estimulantes começava a produzir suas conseqüências. De início apenas me senti nervoso. O cansaço físico começaria abruptamente, dali a mais quinze horas.
Já conhecia os sintomas pelas minhas amargas experiências. Por mais de uma vez fora obrigado a esperar até o último instante.
Meu sósia robotizado funcionava impecavelmente. A máquina estava equipada com um micro transmissor de televisão, motivo por que em nosso quartel-general podíamos acompanhar todos os seus passos.
Naquele momento, meu “representante” se retirara para dormir. Estava deitado na cama pomposa reservada ao Imperador e seu cérebro positrônico armazenava os dados que o Dr. Ali el Jagat, chefe da equipe de matemáticos da Drusus, lhe transmitia. Dessa forma foram programados os atos do falso imperador para o dia seguinte.
Perry Rhodan voltara há poucos minutos de um espetáculo cultural. Não tivera outra alternativa, senão martirizar-se com o programa de um compositor de jogos simultâneos e fora obrigado a fingir que se sentira muito entusiasmado.
Prefiro nem tentar explicar o que deve ter sofrido. Os símbolos luminosos que se fundiam uns nos outros eram demais até para mim, e pior eram os terríveis uivos e os sons estridentes que o artista deitado sob um mono transmissor “produzia” por meio de seus reflexos nervosos.
Na sala contígua os membros do Exército de Mutantes entravam e saíam constantemente. Pouco depois de uma hora da madrugada, quando o movimento nas ruas mais célebres diminuiu um pouco, Allan D. Mercant apareceu em nossa sala de estar confortavelmente instalada. Pedira licença para realizar só as investigações preliminares. Por isso, eu me mantivera em segundo plano.
Rhodan estava tirando o uniforme de gala; vestiu o uniforme de bordo, do qual eu gostava muito mais. John Marshall entrou atrás de Mercant.
O chefe do Serviço de Defesa do Império Solar, um homem de estatura delicada, que quase sempre estava sorrindo, sentou-se lentamente numa poltrona articulada. Parecia sentir minha tensão interna.
Fale logo — disse Rhodan em tom irritado. — Descobriu alguma pista?
Provavelmente, sir — respondeu Mercant na maneira tranqüila que lhe era peculiar. — Cheguei à conclusão de que procedemos acertadamente ao não dar atenção, por enquanto, aos numerosos passageiros e tripulantes das cinco naves de passageiros. As naves foram examinadas com o detector. O ativador não se encontra em nenhuma delas. Era o que se esperava.
Lançou-me um olhar pensativo, e procurei dominar o nervosismo cada vez mais intenso.
Um grupo de criminosos do gabarito desses desconhecidos não se disporiam a transportar um aparelho que, para eles, é insubstituível numa nave de passageiros das linhas regulares. Além disso, não existe nenhum motivo lógico para que o ativador fosse levado do sistema de Árcon. Se os criminosos quiserem utilizá-lo para fazer chantagem, poderão ver-se obrigados a exibi-lo ao legítimo dono, para provar a credibilidade de suas alegações.
Ele possui um cérebro eletrônico que raciocina segundo o sistema binário, Atlan! — disse Rhodan, numa tentativa desesperada de descontrair o ambiente.
Limitei-me a acenar com a cabeça. A observação não produziu o menor efeito, ainda mais que, excepcionalmente, Mercant não estava sorrindo.
Sem modificar o tom de voz, o homem com a auréola de cabelos dourados prosseguiu:
O fato de por ora não termos dado atenção aos passageiros das naves que faziam linhas regulares não representava qualquer perigo para o êxito das nossas investigações. O que me pareceu mais importante foram as pessoas que saíram de Árcon I no período crítico, nas quatro naves particulares, e que acabaram pousando no segundo mundo deste sistema admirável. São ao todo dezessete pessoas, que já foram identificadas pelo regente.
Há um minuto recebi uma notícia que, por assim dizer, fez-me ficar apreensivo.
Ouvi que Rhodan respirava pesadamente. Lançou um olhar furioso para Mercant, que olhava para um canto, mergulhado em suas reflexões. Sem dar a menor atenção ao estado de ânimo de Rhodan, o chefe do Serviço de Defesa prosseguiu em tom indiferente:
O perigo de um fracasso estava na eventual falta de informação da partida de alguma espaçonave. Caso o ativador ainda se encontrasse em Árcon I, nossa atuação neste planeta representaria pura perda de tempo e, portanto, seria um procedimento mortal para Atlan.
Muito obrigado — disse quando minha paciência já chegara ao fim. — Não quer fazer o favor de passar logo ao que interessa?
Estava prestes a fazer exatamente isso, sir! As dezessete pessoas identificadas pelo regente foram examinadas discretamente por nossos telepatas. Nenhuma delas tem qualquer coisa a ver com o furto. Acontece, todavia, que o piloto da pequena nave Heter-Ton se queixa de fortes dores de cabeça.
Mal e mal conseguia manter o autocontrole. Só quando vi os olhos inteligentes de Marshall, comecei a desconfiar de que algo de importante havia acontecido.
Dores de cabeça? — repetiu Rhodan. — Trata-se de um incômodo normal?
Não. É justamente isso. Diria que para nossa sorte as dores não são normais — disse Mercant em voz baixa. — O piloto, um homem chamado Ikort, sofre as conseqüências de um bloqueio hipnótico mal executado e aplicado por meios mecânicos. E o mais interessante: há uma lacuna em sua memória. Apesar disso já conseguimos apurar que um personagem importante lhe ordenou que levasse dois oficiais da frota arcônida para Árcon II. Por estranho que possa parecer, os oficiais nunca chegaram a este planeta, ao menos em caráter oficial. No entanto, partiram na nave, e o piloto sabe que penetrou na atmosfera de Árcon II. Supomos que os oficiais tenham saltado da nave.
Levantei-me. Meus olhos ardentes fitaram o chefe do Serviço de Defesa, em cujos lábios brincava um estranho sorriso.
Quem é o personagem importante que deu essa ordem ao piloto? — perguntei.
Mercant fitou-me prolongadamente.
O senhor, sir. A ordem foi dada pelo imperador em pessoa.
Tive a impressão de que iria afundar no chão. Senti as mãos de Rhodan me ampararem.
Sente-se — disse Perry.
Ouvi o pedido como se eu estivesse sonhando. Cambaleei em direção ao meu leito e, uma vez lá, gaguejei:
Eu? Será que o senhor ficou louco, Mercant?
Não senhor. Apenas repito aquilo que o piloto sabe, segundo revelam as investigações telepáticas realizadas com todas as cautelas. Evidentemente trata-se de um truque. O homem realmente tem a impressão de que recebeu a ordem do senhor em pessoa. Não demoraremos a desfazer o bloqueio hipnótico. Gucky e Betty Toufry já estão trabalhando. É de supor que alguns traidores, alojados no palácio de cristal, tenham dado a ordem em seu nome. Será possível apurar quem são esses homens, mas no momento não temos tempo para isso. O que mais importa é sabermos quem foram os dois desconhecidos. O piloto deve tê-los visto.
O que nos adiantaria isso? — perguntou Rhodan em tom pensativo. — A descrição dos personagens será completamente inútil.
Acredito que sim, sir. Mas podemos conseguir alguma indicação sobre a área do planeta na qual saltaram da espaçonave. O piloto estava obedecendo estritamente às ordens que recebera ao pousar no espaçoporto de Torgona, onde, ao passar pelos controles, declarou que estava chegando só e saíra só. O regente já realizou suas investigações. A estação de controle do palácio de cristal confirmou essa informação.
É incrível! — admirei-me em voz tênue. — Como pode ser possível uma coisa dessas?
Os robôs que trabalham lá receberam uma programação correspondente da parte de arcônidas autorizados, sir — explicou Mercant. — Trata-se de um jogo muito bem urdido, que nunca seria desvendado, caso o senhor tivesse recorrido à polícia secreta arcônida.
Voltei a olhar para o relógio. As cifras do mostrador continuavam a avançar implacavelmente. Era claro que Mercant tinha razão. Foi justamente por isso que solicitei o auxílio de Rhodan. Lembrei-me de uma coisa. Será que Mercant se esquecera?
Pelos meus cálculos, dentro em breve, deverão entrar em contato comigo — disse em tom hesitante. — Se os criminosos sabem que não posso viver sem o ativador, também deverão saber que chegou a hora da chantagem. Por que não dão sinal de vida?
Perry Rhodan baixou os olhos. Ao que parecia, sabia mais que eu. Meu nervosismo voltou a crescer.
Mercant! — gritei em tom áspero para o Chefe do Serviço de Defesa.
Este olhou para as pontas dos dedos.
O senhor não deveria contar mais com isso, sir. No âmbito de nosso planejamento, eliminei essa possibilidade, com base em dados científicos. O senhor não compareceu à sessão com a imitação do ativador? Além disso, o senhor mostrou-se bastante cínico ao dar a entender que ainda possuía algumas peças de reserva. Face a seu extraordinário autodomínio, não existe a menor dúvida de que acreditaram em suas palavras. Ainda acontece que suas observações possuíam bons fundamentos lógicos. Ninguém pode afirmar com segurança se o senhor realmente não possui ao menos um aparelho sobressalente. Era o que indicavam suas atitudes. Qualquer homem, para o qual a perda de um objeto insubstituível praticamente representa a condenação à morte, fará todos os esforços para recuperar o exemplar perdido. O senhor não fez nada disso; apenas escarneceu velada-mente dos ladrões. Estes acreditarão que perderam a oportunidade de exercer pressão contra o senhor. No meu entender, os ladrões não se exporão ao risco de serem descobertos por ocasião de uma tentativa de chantagem que de antemão estaria condenada ao fracasso. Ninguém entrará em contato com o senhor.
Deixei-me cair lentamente sobre o leito pneumático. Rodas de fogo pareciam girar no meu crânio. Meu raciocínio cessou e o setor lógico de minha mente não se manifestou, o que provava que as explicações fornecidas por Mercant eram lógicas.
O cérebro desse homem parecia-se com um computador positrônico. Não esquecia nada.
Demorou alguns minutos até que eu recuperasse o autocontrole. Quando voltei a erguer-me, Rhodan estava sentado na beira do meu leito. Parecia desesperado. Começou a falar, sem o menor intróito:
Ainda não falamos a este respeito, Atlan! Mas sei que você suspeita da mesma coisa que eu e todos nós. Os arcônidas deste sistema só podem ter recebido de uma pessoa, que está bem inteirada, a informação sobre o papel importante que o ativador desempenha para você.
Exibi um sorriso martirizado. Era claro que já me dera conta disso. E também não achara necessário falar a este respeito. Com isso, o aparelho não voltaria às minhas mãos.
Mas Rhodan mostrou-se persistente. Parecia que fazia questão de martirizar-se a si mesmo.
Esqueça-se disso — pedi. — Não adianta pronunciar o nome.
Além dos meus elementos de confiança, só havia uma única pessoa que sabia disso — prosseguiu Rhodan, mantendo-se fiel ao assunto. — Meu filho, Atlan. O homem que traiu a Terra e o Império de Árcon e celebrou um acordo traiçoeiro com os mercadores galácticos. Esperava encontrá-lo aqui. Desta vez não terei mais a menor complacência. Thomas Cardif é vítima de uma mistura de sangue que domina inteiramente seus sentimentos e seu pensamento. Agradeço ao Criador por Thora não ter de assistir a uma coisa dessas.
Perry Rhodan levantou-se e foi até a larga galeria de janelas. Uma vez lá, ficou imóvel. Marshall já saíra da sala. Vozes soaram do lado de fora. Atlan D. Mercant também se levantou. Fitou-me com uma expressão de indecisão e falou em tom hesitante:
Sir, é bom que saiba que esta é a única possibilidade. Nenhum dos colaboradores, que estão informados a este respeito, perdeu uma única palavra sobre o ativador.
Acho que lá fora estão precisando do senhor — disse, esquivando-me às suas palavras.
Mercant saiu. O sorriso já voltara aos seus lábios.
O rosto de Rhodan parecia uma máscara.
Isso não poderia ter sido evitado? — perguntei em tom tranqüilo. — Um dia nós o encontraremos, e então surgirá a solução do problema. Você deveria esquecer-se de que tem um filho...
Esquecer? — repetiu Rhodan em tom amargo. — Isso é fácil de dizer.
Mordi o lábio. Não escolhera a palavra certa.
Dali a alguns segundos, o sugestor Kitai Ishibashi entrou na sala. O mutante alto e magro, nascido no Estado confederado do Japão, limitou-se a dizer:
Descobrimos, sir! O bloqueio foi desfeito. Quer ver a imagem simultânea? Talvez seja útil conhecermos os dois homens desaparecidos.
Esqueci minhas preocupações por Thomas Cardif. Também Rhodan forçou-se a sair do estado de desânimo em que se encontrava.
Quando me fitou, parecia novamente repleto de energia. Um sorriso ameaçador fez-me compreender que considerava a questão um problema seu. Parecia sentir-se responsável por aquilo.
Vamos andando, arcônida! De quanto tempo ainda podemos dispor?
Lancei um olhar para o relógio. O mostrador indicava quarenta e cinco horas e cinqüenta e oito minutos.
Mais ou menos quinze horas, bárbaro.
Rhodan e eu nos olhamos nos olhos. Ishibashi entregou-me o cinto terrano com a arma de impulsos bastante simples. Estava na hora de agir.
5



O projetor simultâneo era um aparelho usado em todo o sistema de Árcon para a produção de jogos coloridos.
Tal aparelho permitia a representação figurativa dos estados emocionais e das impressões do espírito. Para isso dava nova conformação às vibrações cerebrais captadas por seu detector e as projetava sobre uma tela. O processo possibilitava uma apresentação exata de imagens de todos os tipos. A qualidade da imagem mudava de acordo com as energias físicas do transmissor orgânico, que em nosso caso se chamava de Ikort.
Aquele jovem arcônida parecia ser descendente de nobres. Usava o uniforme da frota e exibia as insígnias de tenente. O símbolo bordado no peito de seu uniforme identificava-o como piloto da guarda palaciana, motivo por que pertencia ao círculo dos meus colaboradores mais chegados.
Apesar disso nunca vira aquele rosto, agora enrijecido numa máscara.
Ikort estava esticado sob o capacete do detector. O aparelho pertencia ao equipamento padronizado dos nossos alojamentos. A tela estava embutida na parede. Gucky e Betty Toufry, que haviam desfeito o bloqueio hipnótico, estavam totalmente exaustos ao lado do apático oficial.
Marshall incumbira-se do prosseguimento do interrogatório.
Dez minutos depois, alcançou o primeiro êxito. Um fluxo sugestivo emitido por Kitai obrigou o tenente a revelar o que sabia.
Lancei um olhar tenso para a tela, na qual se desenhavam modelos coloridos. Ao que parecia Ikort estava bem treinado no jogo mental com o aparelho simultâneo, fato que confirmava minha suposição sobre sua descendência.
Seria de admirar se um jovem de uma família abastada ainda não se tivesse entregue à mania generalizada da composição.
A voz de Marshall assumiu um tom mais insistente, e Ishibashi inclinou-se ainda mais sobre o tenente.
As áreas coloridas desapareceram. Um espaçoporto apareceu na tela. Era o campo de pouso particular do imperador em Árcon I.
Vimos dois homens. Estava escuro, mas seus rostos se tornaram visíveis à luz da comporta, no momento em que entraram na pequena espaçonave.
Uma câmera emitiu um zumbido. Os especialistas terranos estavam fixando a imagem.
A próxima cena mostrava o espaço livre situado entre os três mundos de Árcon dispostos em triângulo eqüilátero, mundos estes que giravam em torno do sol branco, segundo a vontade de meus ancestrais.
Dali a pouco assistimos à manobra de penetração no envoltório atmosférico de Árcon II.
Peço sua atenção toda especial — disse Mercant.
Outra câmera começou a zumbir.
Os controles da nave tornaram-se visíveis. Uma linha verde assinalava a rota sobre o mapa em baixo-relevo.
De repente, a imagem simultânea tornou-se menos nítida. Era o momento em que a hipnose devia ter começado a produzir seus efeitos. Apesar disso conseguimos reconhecer dois homens equipados com mochilas antigravitacionais, que atravessaram a cabina e abriram a escotilha interna da comporta. Desta vez os rostos eram nitidamente perceptíveis.
Saltaram pela escotilha dianteira e desapareceram. A comporta fechou-se automaticamente. Dali a pouco assistimos ao pouso.
As imagens que se seguiram não ofereciam maior interesse. Marshall suspendeu o interrogatório simultâneo e passou a formular perguntas diretas. O piloto sabia em que ponto os passageiros haviam abandonado a nave. Fora pouco antes da chegada a Torgona.
Dali a meia hora, Mercant dispensou o jovem oficial. Estava parado no meio da sala, confuso e com os olhos vidrados. Ishibashi aplicou-lhe um bloqueio sugestivo que fez Ikort esquecer-se de que um misterioso desconhecido, de pele escura, fora tirá-lo de seu quarto de hotel.
Rhodan olhou para o relógio. Ras Tschubai, o africano alto e esbelto, aproximou-se.
Ras, o senhor retirou este oficial de seus aposentos?
O teleportador fez que sim.
O.K. Leve-o de volta, deixando-o no lugar em que foi recolhê-lo.
Ras soltou uma risada.
Estava deitado sobre a cama, completamente vestido. Sentia dor de cabeça.
Rhodan limitou-se a confirmar com um gesto. Tratava-se de uma ação que só podia ser qualificada de admirável, mas segundo os padrões terranos representava uma ocorrência corriqueira. Tive a impressão de que Rhodan nem se dava conta do poder representado pelos mutantes.
Dois homens levantaram o piloto, que parecia narcotizado, e colocaram-no nas costas de Tschubai. Vi que o mutante se concentrava. Quando saltou, conforme se costumava dizer, surgiu um ligeiro tremor no ar. Logo após, o teleportador desapareceu.
Dali a dez minutos, quando voltou tão subitamente como havia desaparecido, os filmes já haviam sido revelados. Os mutantes receberam retratos coloridos dos dois desconhecidos. Chamei o computador-regente com meu rádio de campanha e, recorrendo à televisão, mandei que copiasse os negativos.
Pronto, alteza — disse a voz saída do alto-falante. — Tem instruções especiais?
Tenho — disse para dentro do microfone. — Verifique se conhece algum dos homens que procuramos. Em caso afirmativo, entre imediatamente em contato comigo.
Entendido. Desligo.
O gigantesco centro de computação, instalado no mundo vizinho, desligou. Rhodan disse em tom obstinado:
Tenho a impressão de que a máquina começou a funcionar. Ras, levou o piloto são e salvo ao lugar do qual o tirou?
Sim senhor. Está dormindo. Quando acordar pensará que não saiu do quarto. Além disso estará curado da dor de cabeça.
Excelente. O que houve, Gucky?
O rato-castor enrodilhara-se sobre uma das poltronas articuladas. Sua cabeça descansava sobre o colo da mutante Betty Toufry. Esta parecia imersa em profundas reflexões, enquanto acariciava o pêlo macio da nuca de Gucky.
Não perturbe, por favor! Estou meditando — chiou o rato-castor com sua voz aguda.
Que sujeito convencido — disse a cabeça esquerda do mutante Goratchim. — Você costuma livrar-se facilmente dos problemas. Diz que está meditando, e pronto!
Gucky ergueu-se. Seus olhos enormes chispavam.
Então acha que estou pronto?
Desviou-se em tempo, e conseguiu evitar o impacto do corpo gigantesco que atravessou o ar como um projétil. Dali a alguns segundos o colosso estava pendurado sob o teto. Gucky soltou uma risada estridente. Suas energias telecinéticas eram inimagináveis.
Eu não disse nada — gritou a cabeça direita, que representava Ivanovitch, o jovem. — O que é isso?
Faço explodir seu dente roedor — ameaçou Ivã, o velho. — Seu pincel de olhos de peixe!
Deixe-o descer — ordenou Rhodan em tom indignado.
Gucky movimentou as mãos num gesto de resignação e deixou o gigante de dois metros e cinqüenta descer lentamente ao chão. Assim que os pés tocaram no piso, as duas cabeças logo começaram a brigar.
Ivã o velho afirmou que Ivanovitch oferecera indiretamente a capitulação. Fascinado, acompanhei o espetáculo. Durante a disputa cada um dos dois cérebros esforçou-se para controlar o enorme corpo.
Houve um duelo mudo, que prosseguiu até que Ivã conseguisse levantar o braço esquerdo, contra a vontade da outra cabeça, e aplicar uma violenta bofetada em Ivanovitch. Ouviu-se um forte estalido.
Com isso, a luta chegou ao fim. As duas cabeças concordaram em descansar o corpo sobre o leito mais próximo. Só eu acompanhara o pequeno acontecimento. Para os terranos, essas coisas pareciam corriqueiras.
O dom de Goratchim era uma das mais perigosas qualidades positivas dos mutantes. O fluxo de impulsos de ordem superior expelido por seu cérebro produzia a desintegração atômica no centro da área visada. Goratchim era capaz de desencadear, independentemente de qualquer recurso técnico, a fissão de qualquer composto do cálcio e do carbono. Seu treinamento já o habilitara a reunir os impulsos num feixe tão estreito que só atingiam uns poucos núcleos atômicos. Os compostos do cálcio e do carbono eram encontrados em toda parte. Com isso, a faculdade do gigante disforme, coberto de escamas verdes, transformara-se numa arma terrível.
Olhei os outros mutantes, um por um. Conhecia-os todos e sabia de que forma haviam sido recrutados por Rhodan. Para todos os efeitos práticos, encontrava-me num círculo de pessoas imortais, pois Rhodan concedera a todos os mutantes o benefício da conservação celular. Compreendi que essas pessoas seriam capazes de conquistar a Galáxia. Rhodan já agia com excessiva benevolência quando no trato com os mutantes, o que em minha opinião envolvia certos riscos.
Era espantoso que, vez por outra, os mutantes não se deixassem dominar pela embriagues do poder. Certa vez já houvera uma pequena revolta, que Rhodan conseguiu reprimir com o auxílio dos outros mutantes. Mas, se estes se rebelassem em conjunto, a situação poderia tornar-se insustentável.
Betty Toufry, a telepata competentíssima, fitou-me atentamente. Provavelmente negligenciara o bloqueio protetor dos meus pensamentos. Sorri para ela, e seu rosto descontraiu-se. Ao que tudo indicava, apesar de seu dom parapsicológico, só conseguira captar alguns fragmentos de idéias. Gucky dormia com a boca aberta. Rhodan e Mercant realizavam uma conferência com alguns cientistas da Drusus. Tratava-se de revistar a área em que os criminosos saltaram com seus aparelhos antigravitacionais, utilizando uma nave que não chamasse a atenção.
Era de supor que o destino dos desconhecidos não ficasse muito longe desse ponto. Ao menos não encontramos nenhum fundamento lógico, que justificasse a suposição de que poderiam ter abandonado a nave arcônida, a milhares de quilômetros do seu esconderijo. Os dois homens que praticaram o astucioso furto não teriam necessidade disso. Por certo acreditavam que o piloto estivesse mudo, em virtude do bloqueio hipnótico que lhe fora imposto.
Antes de mais nada tornava-se necessário ocultar as faculdades dos mutantes. Além disso, o aparelho de rastreamento, adaptado à situação, teria de entrar em ação imediatamente.
Esperava-se que, dentro em breve, seriam encontrados os primeiros indícios.
Dali a alguns minutos, o comandante da Califórnia, que se mantinha à espera no espaçoporto próximo, recebeu ordem para fazer sair uma nave espacial pequena, do tipo Space Jet, a fim de sobrevoar a uma altura de dez ou vinte quilômetros a área sobre a qual os dois desconhecidos haviam saltado. O goniômetro era supersensível, e meu ativador celular irradiava ininterruptamente os impulsos estimulantes destinados ao meu organismo. A localização goniométrica era apenas uma questão de tempo. Porém não tínhamos tempo. O Coronel Sikermann, comandante da nave capitania Drusus, assumira o comando da Califórnia, durante a operação em que estávamos empenhados. Enquanto isso, Reginald Bell assumira o comando do supercouraçado.
Tudo se achava muito bem organizado, mas estava na hora de recuperarmos o aparelho que assumia importância tão vital para mim.
Voltei a olhar para o relógio. Quarenta e oito horas e trinta e seis minutos já se haviam passado desde o furto. Ainda me restavam aproximadamente onze horas e meia.
No momento em que o Coronel Sikermann anunciou que o jato espacial acabara de partir, chamei o computador-regente, a fim de instruí-lo a não molestar a pequena nave terrana. De outra forma os controles automáticos a obrigariam a pousar ou até a derrubariam. Ninguém podia “brincar” nos céus de Árcon II.
O centro de computação confirmou e desligou. Mas dali a um segundo, a luz verde voltou a acender-se no painel de comando. Rhodan percebeu. Estava bastante tenso.
Lancei um olhar espantado para o transmissor especial achatado, que encontrava-se preso ao meu antebraço. Por que o computador voltara a chamar tão depressa?
Quando comprimi o botão de contato e dirigi a micro lente da transmissão de imagem para meu rosto, compreendi que outro setor do centro de computação me chamava. Afinal, o grande cérebro era formado por milhões de circuitos, cada qual com sua tarefa específica.
Naquele momento ninguém desconfiava de que todos os nossos planos se haviam tornado inúteis. Acontecera alguma coisa com que nem sequer Mercant contara.
Regente chamando Sua Alteza — disse a voz metálica e dura saída do micro alto-falante. — Resultado da indagação 122-A, relativa a pessoas desconhecidas que saltaram da espaçonave Heter-Ton. Os filmes por mim copiados foram transmitidos ao setor de armazenamento. Um dos homens foi identificado. Sua fotografia e dados pessoais encontram-se disponíveis, porque essa pessoa foi punida há dezoito anos por ter operado sem licença um laboratório biofísico particular.
Dados dessa pessoa. Nome: Segno Kaata, idade desconhecida, sacerdote-chefe do templo de Baalol local, chefe do culto de Baalol no âmbito do sistema de Árcon.
O culto de Baalol é a organização mais rica da Galáxia. Calcula-se que, só no sistema de Árcon, existam duzentos milhões de adeptos, formados por arcônidas, naats e outras inteligências aqui radicadas. O culto não venera nenhuma divindade. Os objetivos da seita são duvidosos. Os dados disponíveis provam, com cem por cento de certeza, que os diversos supremos sacerdotes do culto de Baalol nunca tentaram conquistar o poder político ou militar. De outro lado, também sabemos, com cem por cento de certeza, que os dirigentes do culto desempenham papel proeminente na área econômica. Ao que tudo indica, mantêm contato com os mercadores galácticos e os aras. A doutrina da seita proclama a sanidade física e mental do indivíduo em base cientificamente fundada, de conotação ocultista. As ciências secretas da seita só são conhecidas por ouvir dizer, mas ao que parece assumem certa importância.
Atenção, este detalhe é importante.
Não temos elementos para verificar de onde vieram os baalols e qual o nome que se dá a seus sumos sacerdotes. Ao que se supõe, são descendentes de colonos arcônidas emigrados há muito tempo. Os baalols nunca colonizaram qualquer planeta. São encontrados em todos os mundos da Galáxia.
Dados sobre a estrutura do culto: Qualquer pessoa que não tenha nascido de um casamento entre baalols jamais poderá ser um sacerdote da seita. As conclusões lógicas extraídas desse fato, ao lado de outros dados, fazem supor que para isso se exigem determinadas características físicas e espirituais. Sabe-se que os sacerdotes desse culto fabricam os campos defensivos individuais mais aperfeiçoados e de maior conteúdo energético. Minhas investigações por ocasião da prisão do sumo sacerdote Segno Kaata, à qual já me referi, não trouxeram qualquer resultado concreto no que diz respeito aos legendários campos defensivos energéticos. Trata-se de aparelhos iguais aos que são usados em toda parte. Mas que, em outras pessoas, nunca geram um campo energético tão impenetrável como num baalol.
Existe a possibilidade de que os baalols possuam determinadas faculdades em virtude de alguma mutação ainda desconhecida. Recomenda-se a maior cautela. Os sacerdotes são considerados invulneráveis.
Fim da transmissão, alteza.”
O alto-falante emitiu um estalido, mas o computador permanecia em recepção. Rhodan fitou-me. Parecia perplexo. Um sorriso significativo brincou nos lábios de Allan D. Mercant. Os mutantes presentes pareciam ser os primeiros a compreenderem que alguma coisa não estava certa.
O culto de Baalol? — disse John Marshall, esticando as palavras. — Caramba!
Apressei-me em ordenar ao regente que aguardasse novas instruções e desliguei. O centro de computação me havia transmitido todas as informações armazenadas em sua memória. Parecia impossível saber mais alguma coisa...
O senhor conhece esses estranhos sacerdotes, sir? — indagou o chefe do Serviço de Defesa Solar.
O tom suave de sua voz me fez empalidecer. Sim, já ouvira falar nos baalols.
Não tenho nada a acrescentar às declarações do regente — confessei. — O culto já existe há dez mil anos. Se este se basear em alguma mutação, tal fenômeno deve ter ocorrido nos primórdios de nossa história. A partir do momento em que assumi o cargo de imperador, não ouvi falar mais a este respeito. Já havia esquecido a existência dessa seita, que cobriu toda a Galáxia.
Mercant confirmou com um gesto.
Rhodan parecia pensativo diante da tela escurecida do aparelho de jogos simultâneos. Tive a impressão de que procurava alguma coisa.
Há certas coisas que não entendi muito bem, Atlan! Como é que um aparelho gerador de campo defensivo, igual a qualquer outro, pode produzir determinado efeito num arcônida comum, enquanto num sacerdote produz um campo individual impenetrável? Essa afirmativa encerra um verdadeiro paradoxo! Os micro projetores não podem multiplicar seu desempenho pelo simples fato de estarem presos ao corpo de um baalol. Se for assim, isso não depende dos aparelhos, mas de alguma qualidade especial dessa gente. Se admitirmos esse pressuposto, torna-se quase certo que houve uma mutação numa época muito recuada da história. Como se explica que até agora ninguém tenha notado isso?
Virou a cabeça e fitou-me. Senti-me perplexo.
Hum! — fez, e um brilho irônico surgiu em seus olhos cinzentos. — Acho que a responsabilidade disso cabe mais uma vez à administração desleixada de Árcon, não é? Mas pelo que se diz, há dez mil anos as coisas ainda eram diferentes. Por que nessa época não se realizaram investigações mais detalhadas?
Não soube responder a essa pergunta.
Por certo naquele tempo adotavam um comportamento mais discreto. Não me consta que, durante os anos em que servi na frota, tenham acontecido coisas misteriosas ou sequer inquietantes. Se tivessem acontecido, teríamos tomado providências imediatas. Os arcônidas do meu tempo sabiam agir com uma tremenda rapidez e coerência.
No momento estes aspectos são secundários — disse Mercant em tom cortês, mas firme. — Já sabemos por onde podemos começar. Não vamos perder tempo. A descrição do personagem, realizada pelo piloto, revelou-se correta. Vejamos o que nos oferecem no templo.
De repente, todos pareceram perder os nervos no quartel-general camuflado dos terranos. As ordens atropelavam-se. O desempenho de Rhodan teria sido suficiente para subjugar a população de um planeta.
Reginald Bell recebeu uma ordem pelo rádio: decolar imediatamente. Rhodan queria que a Drusus permanecesse nas proximidades.
Dali a cinco minutos foi localizado o ativador tão procurado. Realmente se encontrava no templo de Baalol situado em Árcon II. Face aos dados até então conhecidos, dificilmente haveria outra possibilidade, ainda mais que sempre existia pelo menos um templo dessa seita em cada mundo. Isso constituía outra peculiaridade da seita, mas esta por certo também tinha um significado mais profundo.
Uma hora depois, a Drusus chegou. Cada um dos comandantes de campanha recebeu ordens bem definidas.
Mobilizei as unidades robotizadas do regente. O planeta foi isolado por uma frota de gigantescas naves. Pesados blindados voadores estavam estacionados nas pistas dos depósitos, prontos para a ação.
No momento em que entramos no planador, acompanhados pelos mutantes, a fim de procurar ocupar o templo, cinqüenta e uma horas e três minutos já se haviam passado desde o furto.
O prazo ia-se esgotando!
Não sabíamos se os misteriosos sacerdotes dispunham de aparelhagem moderna de localização. Por isso resolvemos aproximar-nos do templo, o mais discretamente possível. A edificação ficava situada junto a uma colina baixa, nos arredores da metrópole Torgona, mas era fácil alcançá-la pelas largas vias elevadas e expressas.
Éramos seguidos pelos destacamentos especiais dos terranos, que a qualquer momento poderiam ser reforçados por tropas de robôs. A longa noite de Árcon II facilitava a execução de nosso plano. Apesar disso era bastante duvidoso que conseguíssemos cercar a área do templo, antes que alguém detectasse nossa presença.
6



Árcon II não possuía lua.
Quando meus antepassados arrancaram os planetas dois e quatro de suas órbitas naturais, a fim de, num processo prolongado, agregá-lo ao de número três, eles preferiram não enquadrar algumas luas no complicado sistema.
Apesar disso não era completamente escuro.
O próximo período de chuvas, segundo os planos do computador-regente, só ocorreria na noite seguinte. Por isso não havia nenhuma nuvem e a luz das inúmeras estrelas atingia livremente a superfície do planeta.
A luminosidade e cintilação era muito diferente daquela que se conhecia na Terra distante, pois encontrávamo-nos no centro de um grupo estelar esférico, cujas concentrações de sóis bastavam para iluminar o terreno, mesmo de noite.
Enxergávamos perfeitamente, sem recorrer aos aparelhos de luz infravermelha.
Os edifícios do templo transmitiam uma impressão deprimente. Não haviam sido construídos segundo o modelo do funil, usado pelos arcônidas, mas em conformidade com os conceitos arquitetônicos de uma raça desconhecida.
O templo de Baalol quase chegava a ser uma fortaleza, com as muralhas externas circulares, os baluartes avançados e as estreitas vias de acesso. Os edifícios, que surgiam atrás dos muros, pareciam ser esféricos. Os telhados pontudos, aparentemente feitos de metais nobres, estendiam-se bem alto, em direção ao céu.
No cume do telhado mais alto havia uma lâmpada vermelha, cuja luz se derramava pelo terreno circundante.
Os amplos parques, que rodeavam os edifícios, foram cercados em poucos minutos, de acordo com nosso plano. Na escuridão, três mil homens de uma unidade terrana, transportada pelo espaço, esperavam que Rhodan desse ordem para entrar em ação.
Robôs especiais revistavam uma larga faixa de terra em torno do templo, à procura de passagens subterrâneas. Em pouco tempo, os rastreadores de espaços vazios, que funcionavam com uma precisão extraordinária, descobriram oito galerias, situadas em diversos níveis de profundidade.
Ao receber a notícia, um sorriso feroz surgiu no rosto de Rhodan. Seguiram-se suas ordens, das quais se depreendia que não estava disposto a assumir qualquer risco.
Os pesados blindados energéticos caíram ao chão sob a proteção de seus campos antigravitacionais. Desceram exatamente nos lugares em que os rastreadores de espaços vazios haviam descoberto as passagens subterrâneas.
No mesmo instante, os canhões de impulso dos carros de combate, apontados para baixo, quase na vertical, começaram a disparar. Subitamente, as fúrias do inferno pareciam estar às soltas. Avançamos resolutos, uma vez descobertos os caminhos de fuga. Em hipótese alguma, o homem que procurávamos devia escapar.
Fluxos energéticos de luminosidade solar penetravam no solo que se tornou incandescente, para volatilizar-se em seguida. As galerias foram atingidas por penetração direta. Foram parcialmente derretidas e, depois, algumas bombas de vibrações as fizeram desmoronar de vez.
Aqueles homens altamente especializados, que sabiam o que estava em jogo, passaram a trabalhar com uma rapidez e precisão extraordinárias.
No momento em que as luzes se acenderam no templo, as passagens subterrâneas já haviam sido completamente destruídas. O ribombo dos canhões energéticos perdeu-se na distância. Depois de um último rugido, o silêncio voltou a reinar.
No templo não havia sinal de vida. Mas as luzes continuaram acesas. Aguardamos as tropas de robôs fortemente armadas. Os robôs de guerra, capazes de voar, formavam um segundo círculo que cercava a área.
Estávamos convencidos de que pegáramos o sumo sacerdote na armadilha.
Rhodan esforçou-se para ouvir o que se passava no templo, mas tudo permanecia em silêncio.
Para meu gosto aquilo está muito quieto — disse Mercant de repente.
Achávamo-nos ao lado do jato espacial pousado, no qual se encontrava o aparelho de localização especialmente adaptado. O chiado agudo que saía do alto-falante provava que meu ativador celular estava no interior do templo.
Procurei o olhar de Rhodan e notei que em sua testa haviam surgido rugas profundas.
Que situação danada! — exclamou em tom nervoso. — Seria fácil atacarmos com todas as forças, mas o que acontecerá com seu aparelho se o fizermos?
Ri um tanto sem jeito. Essa pergunta já ocupava meu espírito há uma hora.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, houve um tumulto à nossa esquerda. John Marshall e o mutante Wuriu Sengu aproximaram-se. Wuriu apoiava-se em John. O japonês baixo e robusto dava a impressão de estar totalmente exausto. Mal conseguia manter-se de pé.
Um soldado aproximou-se rapidamente e abriu uma cadeira de campanha. Wuriu sentou-se pesadamente. Dirigi-me ao local em que se encontrava. Rhodan passou por mim correndo. De repente toda a nossa euforia se foi. Eu sentia um mal-estar indefinido. Talvez pressentisse que algo de terrível estava para acontecer.
O que houve com o senhor, Sengu? — perguntou Rhodan em tom áspero. Segurou o mutante pelos ombros e sacudiu-o.
Wuriu levantou os olhos, que brilhavam à luz das estrelas.
Sir, houve uma coisa que não consigo compreender — gaguejou.
O que houve? Fale logo!
Não consigo enxergar através das paredes. Devem ter ativado um campo defensivo de natureza ainda desconhecida, ou então está acontecendo outra coisa que não consigo superar. Minha faculdade nunca me abandonou, mas aqui está falhando.
Experimentei uma sensação dolorosa na parte posterior do crânio. Depois de muitas horas de silêncio, meu cérebro adicional voltava a chamar.
Pense na possibilidade da ocorrência de mutações nos baalols!”, transmitiu o setor lógico de minha mente.
Muito surpreso, prendi a respiração. Rhodan também se manteve em silêncio. Olhava nervosamente para o espia, que parecia estonteado. O dom parapsicológico positivo de Sengu consistia na capacidade de enxergar através da matéria sólida e compacta, como se fosse uma parede transparente. Até então o mutante nunca falhara. Sempre pudera dizer exatamente o que estava acontecendo atrás deste ou daquele muro.
Son Okura, um homem franzino, que andava com certa dificuldade e era um visor de freqüências, surgiu em meio à escuridão. Possuía a capacidade de enxergar as radiações invisíveis ao homem, mesmo nas faixas de ondas extremas. De noite costumava enxergar melhor.
Parou ao meu lado. Seu rosto também parecia cansado. Rhodan virou-se com uma lentidão extraordinária. Tive a impressão de que receava o momento de fitar o rosto do mutante.
Son, o senhor também? — perguntou Rhodan em tom hesitante.
Sim, sir. Uma coisa terrível está acontecendo. Estou captando uma radiação semelhante às nossas hiperondas curtas, que se desenvolvem em outro plano espacial. Mas desta vez é diferente: dói. Estou sentindo uma terrível dor de cabeça.
Dor de cabeça — repetiu Rhodan, falando devagar.
Havia algo de inquietante em seu olhar.
De repente obtivemos a explicação que procurávamos. Betty Toufry, que se encontrava mais longe, tomou a palavra.
Também não consigo perceber mais nada, sir, nem um único impulso cerebral, nenhum retalho de pensamento. Tenho certeza absoluta de que não se trata de um campo defensivo. Por ali praticamente não está funcionando nenhuma máquina. Tanaka Seiko não está localizando nenhuma fonte de energia.
É verdade — disse um oficial da equipe de goniometria. — No templo, um único reator está funcionando com o desempenho mínimo. São no máximo quinhentos quilowatts, sir. É apenas o suficiente para a iluminação, o sistema de condicionamento de ar e os elevadores. Porém nunca seria suficiente para alimentar um campo energético. Os dados são corretos.
Será que o diabo está solto por aqui?! — interrogou-se Rhodan, em tom furioso. — Betty, tem mais alguma coisa a dizer?
A jovem mulher aproximou-se. À luz das estrelas, seu rosto estreito parecia pálido como cera.
Comum tom de medo e pavor, Betty falou balbuciando:
São antis, sir! Inteligências que possuem a capacidade de neutralizar nossos dons por completo. Trata-se de antimutantes. Certa vez travei conhecimento com um ser dessa espécie em Velogra VII, mas essa criatura nem desconfiava de suas qualidades de absorção. Mas os que se encontram lá adiante sabem perfeitamente. Estão triunfando sobre nós.
Senti um mal-estar. De repente notei minha fraqueza física. Os contornos dos edifícios, que cercavam o templo, começaram a desmanchar-se diante de meus olhos.
Quando recuperei os sentidos, estava deitado numa maca. O médico de bordo do cruzador Califórnia acabara de aplicar-me uma injeção nucal.
É parastimulim, Atlan — disse em tom tranqüilo. — Sabe o que significa isso? Sua verdadeira idade começa a manifestar-se...
Quantas horas duram seus efeitos? — perguntei em tom tranqüilo.
De repente sentia-me muito forte e psiquicamente equilibrado.
Normalmente oito ou dez. No seu caso, provavelmente será um pouco menos. O senhor está acostumado aos estímulos proporcionados pelo ativador. A rigor está totalmente viciado.
Muito obrigado — disse um tanto ofendido. — Afinal, não sou culpado disso.
O médico riu. Ao que parecia, tinha um estranho senso de humor.
Olhei para o relógio. Cinqüenta e duas horas e quatorze minutos já se haviam passado desde o furto.
Rhodan inclinou-se sobre mim. Ergui o corpo, sentei de pernas abertas sobre a maca e olhei em torno. Minhas energias físicas pareciam ter retornado em toda plenitude. Esse parastimulim era uma droga formidável.
Nesse instante, seu colarinho está arrebentando! — disse alguém com a voz aguda.
Gucky sentou-se ao meu lado. Para ele, a maca tinha a altura certa.
Até consegui rir. O rato-castor era uma criatura deliciosa à sua maneira.
O.K., Perry. Não vamos esperar mais — disse, dirigindo-me a Rhodan. — Disponho de apenas oito horas. Agora vou arriscar; é tudo ou nada.
Vamos atacar? — limitou-se Rhodan a perguntar.
Vamos, com todos os nossos recursos. Neste momento, declaro o estado de emergência em Árcon II. As respectivas ordens serão transmitidas imediatamente ao regente. Pouco importa que fiquemos parados ou façamos alguma coisa. Não tenho nada a perder.
Quando se sentir em situação periclitante, esse tal de Segno Kaata vai nos ameaçar, dizendo que destruirá o ativador. Sob um ponto de vista prático, não podemos fazer absolutamente nada.
Podemos, sim. É possível que esses indivíduos pertençam à classe dos chamados antis, que neutralizam as faculdades dos mutantes. Mas quero ver de que forma reagirão à tormenta atômica desencadeada por meus canhões robotizados autopropulsados. Face a isso, seus superdons não lhes adiantarão muito.
Já me conformara com a idéia de que minha vida chegara ao fim. O sumo sacerdote me tinha nas mãos. Talvez fosse possível enganá-lo. Se conseguisse fazê-lo acreditar que eu dispunha de outro aparelho, nossa ação ainda poderia ser bem sucedida.
Mas se ele já tivesse descoberto que nós havíamos blefado, poderia considerar-me morto!
Levantei o braço esquerdo para chamar o centro de computação. Neste momento, Gucky colocou-se à minha frente. Suas mãos suaves seguraram meu pulso.
Não faça isso... ainda não — disse o pequeno ser com uma suavidade extraordinária na voz.
Seus olhos grandes e leais, que tinham dado origem ao nome que lhe fora dado, brilhavam à luz das inúmeras estrelas.
Atlan, eu vou tentar... Sou o melhor teleportador do Exército de Mutantes. Espere até que eu salte. Se conseguir penetrar no templo, o supremo sacerdote estará liquidado.
Não, meu pequeno, não faça isso — respondi em voz baixa. — Você ouviu o que seus colegas acabam de dizer. São antis! Sua vida estará em perigo. Antes de ser obrigado a despedir-me deste mundo, não quero perder mais um amigo. Talvez seja bom que isso tenha de acontecer. Já vivi demais, contrariando todas as leis da natureza. Isso não foi previsto pelo Criador. Recorri a um truque para obter fraudulentamente alguns milênios de vida. Agora o fim está chegando. Não salte, ouviu?
O rato-castor encostou seu corpo ao meu.
Amigo? Você usou a palavra amigo? — chilreou em voz baixa.
Naturalmente — confirmei com um ligeiro embaraço.
Gucky colocou-se, em posição de luta, à frente da figura alta de Rhodan. O ser pequenino com as mãos na cintura oferecia um quadro esquisito.
Irei, chefe. Não procure deter-me, pois nesse caso terei de recusar-lhe a obediência. Tenho uma chance.
Rhodan concordou.
Muito bem, tente. Segundo os resultados das últimas medições goniométricas, o ativador encontra-se no mais alto desses edifícios esféricos. O recinto em que está guardado deve ficar no terço superior desse edifício. Cuide-se, sim?
Quer que eu salte com ele? — perguntou Tako Kakuta, que também era teleportador.
Kakuta achava-se um tanto afastado do grupo.
Nada disso! Irei só — disse o rato-castor, em tom violento.
A arma, especialmente fabricada para ele, surgiu em sua mãozinha. Tratava-se de uma mortífera pistola de raios energéticos concentrados.
O inteligente habitante do planeta Vagabundo concentrou-se e teleportou-se com tamanha força que mal se viu o conhecido fenômeno luminoso.
Aguardamos ansiosos. Subitamente viramo-nos com alguns gritos horríveis.
A uns cem metros do lugar em que nos encontrávamos, bem longe do ponto de partida, Gucky voltara a tornar-se visível. Apenas, já não era ele mesmo.
Um monstro inchado, que tinha dez vezes as dimensões de Gucky, cambaleava aos berros em nossa direção. As proporções modificavam-se constantemente. Por um momento a cabeça aumentou assustadoramente seu volume, depois os braços tornaram-se mais longos e, finalmente, o ventre inchado encolheu.
Os gritos não constituíam uma manifestação de agressividade, mas eram a expressão de uma dor terrível. O gigante de dez metros caminhava em nossa direção, em busca de auxílio. Sua pele parecia ser iluminada de dentro para fora. Vez por outra surgiam pequenas descargas ruidosas, que iluminavam os arredores.
Enquanto corríamos em sua direção, o terrível efeito de gigantismo parecia diminuir rapidamente. No momento em que o alcançamos, o rato-castor já havia desmaiado, mas ainda media seus cinco metros. O processo de redução foi acompanhado das mesmas distensões e deformações que já havíamos observado. A luminosidade da pele tornou-se menos intensa.
Os médicos e os outros mutantes cuidaram do ser desmaiado. Profundamente abalados, fitávamos o corpo que se contorcia em convulsões, até que Rhodan disse em tom de desânimo:
Atlan, o que acontecerá agora? Meus mutantes estão falhando. Santo Deus, eu nunca teria contado com os antis. Nem sabíamos da existência de tais criaturas.
Allan D. Mercant conservara o sangue-frio. Aguardou o relatório de John Marshall, que nos comunicou que, por ocasião do salto de Gucky, houve uma rejeição violenta da massa desmaterializada. Assim, quando da rematerialização que se seguiu, as moléculas e os grupos de átomos do corpo não se enquadraram corretamente no conjunto. Foi por isso que ocorreu a triste cena que acabamos de presenciar.
A seguir Mercant disse, demonstrando uma avaliação correta da situação:
Foi o último trunfo. E nós o perdemos. Mande atacar, Atlan! Como imperador, o senhor tem autoridade para isso. Não gostaria que no futuro alguém viesse chamar-me de criminoso. É o senhor quem dá as ordens.
Tem alguma sugestão? — perguntei com uma estranha tranqüilidade.

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