Untcher
caminhou bem para frente. Lembrou-se de que os éfogos lhe haviam
dito que, no meio das ruínas, havia moradias ainda inteiras e ele se
perguntava como seria isto possível no meio de tanta destruição
provocada pelos séculos. À boa altura, usando agora a lanterna de
seu capacete, viu as ruínas do terraço da cidade, que protegia os
éfogos contra a terrível pressão da coluna de água. As bordas do
terraço estavam “cortadas”,
dando a impressão de que esta camada protetora da cidade tinha sido
parcialmente destruída à força.
Por um
daqueles buracos no teto, o veículo anfíbio penetrara na casa.
Thomea Untcher não se dera ao trabalho de procurar uma comporta, com
seu funcionamento complicado e seu mecanismo de abertura tão pesado,
quando havia meios mais simples. Parou diante da janela oval,
completamente escura, olhando para a residência abandonada e cheia
d’água. Procurou se livrar da angústia que se abatera sobre ele,
desde o momento em que deixara o barco anfíbio e saíra sozinho. Não
sabia explicar aquele sentimento. Talvez fosse a visão tétrica
daquela cidade, ou mesmo um medo inconsciente de monstros marinhos,
naquela profundeza.
Não sabia
mesmo a causa de seu abatimento moral. O fato é que não conseguia
livrar-se do medo.
De
repente, assustadas pela súbita luz do farolete, duas ou três
enguias, com seu corpo serpentiforme, se atiraram para fora da
janela, passando rente ao seu rosto. Untcher quase desmaiou de pavor.
Depois,
envergonhado, percebeu que havia feito papel de bobo, enquanto seu
coração ainda batia muito forte. Mas, mesmo com esta confissão,
sua situação não melhorava. A cada movimento que fazia, vinha-lhe
a impressão de que teria de enfrentar um novo e inesperado
adversário.
Apesar de
tudo, continuou seu caminho. Achou, sem esperar, um lugar de onde
saía uma viela, que dobrava para a direita, isto naturalmente lhe
provocou a curiosidade. Não tinha mais de dois metros da largura e
terminava quase ali mesmo. Mas a parede que a interrompia, indo de
uma casa próxima até o outro lado, parecia muito estranha e não
combinava com a construção em volta, dando impressão de ser bem
mais recente do que as velhas e amareladas paredes dos éfogos.
Cauteloso,
Thomea Untcher foi seguindo a ruela, enquanto a iluminação das ruas
ficava mais para trás. Teve de usar o farolete do capacete com sua
luz mais forte. Então descobriu um grande número de fendas
regulares que percorriam a estranha parede formando um retângulo de
dois metros e meio de altura por um de largura.
Mas uma
coisa chamou a atenção de Untcher: o chão da ruazinha estava livre
de qualquer planta marinha. Enquanto nas outras ruas, as plantas
cresciam por toda parte, chegando mesmo a trincar e esfacelar a pedra
com o correr dos séculos, aqui o piso da ruela estava liso e muito
bem conservado.
Com as
grossas luvas, à prova de pressão, Untcher apalpou a parede
misteriosa. Desta vez, não se espantou tanto, quando o trecho
retangular, formado pelas fendas, fez de repente um movimento de
recuo, deixando livre uma espécie de entrada. Houve apenas uma
pequena correnteza, quase imperceptível. Isto significava que o
cômodo atrás daquela entrada ou estava cheio de água ou tornou-se
cheio na hora em que Untcher, sem querer, tocou no mecanismo
invisível.
Untcher se
pôs em contato com o barco anfíbio:
— Encontrei
uma espécie de comporta. Acho que não é sensato andar sozinho por
aqui. Estou precisando de alguns de vocês que queiram repartir o
medo comigo.
Thomea
Untcher era um dos poucos comandantes espaciais que podiam tomar a
liberdade de falar abertamente de seu medo, sem perder o respeito de
que gozava. Sabiam que ele devia estar sujeito ao medo, mas sabiam
também que teria condições de enfrentar qualquer situação,
realizando verdadeiras proezas, se necessário fosse.
Untcher se
aproximou da pequena abertura, na esperança de bloquear o mecanismo
de esvaziamento. Mas esperou até a chegada de seus companheiros.
Colocou a cabeça de tal modo que o farolete do capacete penetrasse
no aposento escuro, vendo então que o cômodo tinha uns nove metros
quadrados, com uma altura de três metros. Na parede fronteiriça
havia também um retângulo de fendas, o que fez com que Thomea
Untcher chegasse à conclusão de que se tratava mesmo de uma
comporta.
O
compartimento da eclusa estava vazio e Untcher não pôde localizar o
mecanismo que conseguia neutralizar a fantástica pressão da água,
no fundo do oceano, a mais de quatro mil metros de profundidade. As
paredes eram lisas e não lhe deixavam perceber nada.
Na esquina
da ruela, já definiam-se os vultos dos homens que Untcher havia
chamado. Envolvidos pelo halo de suas lanternas de capacete, pareciam
verdadeiros fantasmas dentro d’água; os corpos muito inclinados
para frente, numa posição em que, em condições normais, já
teriam caído no chão. Assim é que eles tinham que caminhar para
poder vencer a terrível pressão da água. Untcher os esperava
ansioso. Eram três homens e juntos entrariam na câmara da eclusa.
Era importante que assim fosse, pois não sabiam o que os esperava do
outro lado da comporta.
— Não
preciso dizer a vocês que devem permanecer com as armas engatilhadas
— disse Untcher, depois que todos penetraram na câmara da eclusa.
— Atrás desta porta, é a terra de ninguém e pode ser que quem
for mais rápido no tiro, tenha mais chance.
Depois
deixou o lugar que ocupava sob a entrada e, como havia previsto, na
mesma hora a comporta se fechou. O trecho da parede, que havia
deslizado para o lado, movimentou-se, indo de encontro à abertura,
fechando-a hermeticamente.
Thomea
Untcher estava quebrando a cabeça para compreender como os éfogos
chegaram a construir uma tecnologia tão avançada. Observara nas
residências dos éfogos que para o fechamento das portas de suas
casas, havia uma barra de ferro que puxavam para o lado, empurrando
depois a porta para dentro. Portanto, na tecnologia dos homens-peixe,
não havia possibilidade de fechos automáticos nas comportas.
Curioso e
tenso ao mesmo tempo, aguardava o que estava para vir. Seu olhar
estava em movimento contínuo, a fim de não perder o momento em que
as águas começariam a fluir, sob a pressão das bombas invisíveis.
Quando
notou o que estava de fato acontecendo, teve momentaneamente
aceleradas as batidas do coração. Percebeu que uma parte da câmara
ficou de repente vazia, sem que tivesse havido o menor movimento na
massa líquida. Pensou a princípio que se tratava de um erro óptico,
devido à pouca visibilidade. Mas o “fenômeno”
continuou e, quando a outra parte da câmara também se esvaziou, sem
que ninguém pudesse dizer para onde ia toda aquela água, tornou-se
impossível negar a existência de alguma coisa terrivelmente
misteriosa...
Podia-se
ver como a água corria para a direita, para o portão de fora.
Via-se a coluna de água que se levantava do chão, chegando até o
teto da comporta, zombando de todas as leis da natureza. Esta coluna
d’água se movia e era o único movimento que se podia ver.
Movia-se para dentro da comporta, como se deslizasse sobre rodas e
como se houvesse alguém encarregado de tocá-la para frente — este
alguém naturalmente seria invisível! Sendo que em tudo isto não se
ouvia o menor ruído. Tudo se fazia num silêncio tétrico, deixando
Untcher e seus três comandados apavorados e boquiabertos.
Untcher
ainda estava imóvel, estarrecido, quando a última gota já havia
desaparecido da comporta. Mecanicamente, sem estar consciente do que
fazia, levantou o braço esquerdo e consultou os instrumentos de
medição que lhe estavam no local do relógio de pulso. O manômetro
indicava uma pressão de uma atmosfera e meia. A comporta estava
cheia de um gás e a uma pressão facilmente suportáveis para os
terranos.
Thomea
Untcher notou como seus pensamentos se tornavam cada vez mais
independentes, e como, sob o impacto de coisas nunca vistas, também
lhe escapava o controle do raciocínio frio e objetivo. Teve de
repente uma idéia a qual lhe podia servir de chave para explicar os
fenômenos presenciados.
Lembrou-se
dos resultados da moderna teoria de campo, um ramo das ciências
naturais, que muito tinha ajudado no descobrimento dos transmissores
ferrônios de matéria. Não lhe parecia agora impossível que a água
pudesse ser tocada para fora da comporta por intermédio de um campo
transportador, como também a introdução de gás, pela mesma via. E
quanto mais pensava a respeito, enquanto seus comandados pareciam
petrificados, tanto mais lhe parecia ser esta a única explicação
possível. Suas conseqüências, porém, não lhe agradavam muito.
Um campo
de transporte era uma coisa, para cuja produção seria necessário
conhecimento profundo da teoria energética pentadimensional.
Não havia
dúvida de que os habitantes de Opghan podiam ser criaturas
adoráveis, com dotes esquisitos, às vezes mesmo admiráveis. Mas,
da teoria energética penta-dimensional, certamente não entendiam
nada.
Aquela
comporta fora construída pelos estrangeiros, cuja tecnologia era,
pelo menos, equivalente à dos terranos.
Olhando
para cima, Thomea Untcher constatou que a comporta interna se movia
lentamente. Ainda não conseguia ver o que havia lá fora. Sacou a
arma porque estava convencido de que nos próximos minutos tinha que
resolver muita coisa séria.
*
* *
Nrrhooch
sentia-se tão horrorizado, que no momento não pôde mover-se. O
pequeno e velho barco estava no meio da rota do grande barco dos
estrangeiros e, além disso, este último se movia tão rápido que
por mais imediata que fosse a reação de Nrrhooch, não havia
nenhuma possibilidade de se evitar o choque.
Mas
aconteceu um quase milagre. Quando o barco dos estrangeiros surgiu à
tona, rompendo a nuvem de lama, provocada pela queda do tronco de
psimo, a proa pontiaguda irrompeu vertical, como se estivesse apenas
esperando por esta abertura para escapar do emaranhado vermelho da
floresta.
A quilha
do barco dos estrangeiros passou raspando no pequeno bote dos
homens-peixe. Nrrhooch até julgou ter ouvido o ruído leve do
raspão.
Estupefato,
ele viu como o veículo de proa pontiaguda deu uma guinada para o
alto até desaparecer totalmente na penumbra leitosa das águas
profundas. Nrrhooch não acreditou no que seus olhos viram. Os
estrangeiros estiveram tão perto que poderia tocar no moderno barco.
O mais esquisito é que foram eles mesmos que proibiram os éfogos de
se utilizarem de qualquer tipo de embarcação. Se os tivessem visto,
os teriam detido e apreendido o velho barco de Grghaok.
Certamente
nem chegaram a ver a pequena embarcação dos éfogos e continuaram
sua viagem.
Nrrhooch
olhou para os dois velhos e soltou um grito de alegria. Era visível
a felicidade estampada no semblante de Grghaok.
— Para
frente! — ordenou Nrrhooch. — Não podemos parar, o mar está
sendo nosso amigo. Em pouco tempo estaremos em Pchchogh e nos
encontraremos com os terranos.
*
* *
Ran Loodey
não tinha nada contra o fato de os estrangeiros quererem vir a bordo
da Finmark. Eram de boa estatura, musculosos e espadaúdos; seis ao
todo e, desde o começo, se comportaram de tal modo como se a nave
lhes pertencesse. Ran Loodey parecia estar de acordo. Tinha
pessoalmente a opinião de que os invasores barbudos eram os
legítimos donos da Finmark e... estava tudo muito bem. Indiferente,
nem quis saber quem eram aqueles estrangeiros, de onde vinham e o que
pretendiam. Sentia-se até mais aliviado porque o comando da
espaçonave havia passado às mãos dos invasores. Parece que todos
os amigos do sargento pensavam do mesmo modo.
Nesta
pronunciada apatia, ninguém reparou que os estrangeiros traziam
pequenos cilindros metálicos, e os escondiam cuidadosamente por
todos os cantos da Finmark, de tal maneira que não seriam
encontrados facilmente. Porém, mesmo que Ran Loodey tivesse notado
qualquer coisa, não ia fazer nenhuma objeção e concordaria com
tudo.
Finalmente,
um dos corpulentos estrangeiros penetrou na sala de comando e ordenou
a Loodey que preparasse a espaçonave para partir imediatamente.
— Vocês
retornarão imediatamente à Terra, pelo caminho mais curto —
ordenou o gigante barbudo.
*
* *
O único
que não estava satisfeito com sua situação era o Dr. Teodoro
Dunyan.
Quando
voltou a si, sentiu uma coisa fibrosa na boca, não conseguindo nem
mover a língua. A cabeça lhe doía tremendamente por deficiência
de respiração. Também não enxergava nada, pois em cima dele havia
uma série de cobertores, roupas e coisas semelhantes que o isolavam
do ambiente externo. Não podia nem mover os braços. O malandro do
Loodey o havia amordaçado e amarrado com técnica de mestre.
Por falar
em Ran Loodey... O Dr. Ted Dunyan descobrira finalmente a causa da
estranha alteração no comportamento de Loodey e de alguns membros
da tripulação. O resultado das pesquisas foi tão surpreendente e
ao mesmo tempo incrível, que Dunyan a princípio julgou ter sido
vítima de algum erro, e tal dúvida obrigou-o a repetir os exames.
Com a
confirmação do primeiro resultado, Dunyan teve um grande choque
emocional, ao perceber que havia descoberto uma coisa importantíssima
para a Humanidade.
Loodey
tinha voltado a si e agia com a naturalidade de quem é dono de todas
as suas faculdades. Disse com toda autenticidade que lamentava tudo
que fizera contra a disciplina e não queria outra coisa, a não ser
dirigir-se diretamente ao comandante, para desculpar-se.
Dunyan
tinha previsto esta fase no processo do misterioso mal. E o fato de
ela ter se concretizado era mais uma prova da veracidade de suas
descobertas. Fez tudo que pôde para que Loodey não percebesse que
estava sendo observado e que ele, Dunyan, sabia do estado
semi-hipnótico que perdurava em Loodey.
Mas, de
alguma maneira Dunyan se traíra, ou então Loodey chegara à
conclusão de que um adversário a menos era sempre melhor. O fato
foi que, quando o médico estava ocupado com seus instrumentos,
Loodey saltou de repente contra ele. O Dr. Dunyan ainda guardou a
expressão fria do rosto de Loodey. E a partir deste momento, o
médico não sabia de mais nada. Quando voltou a si, sentia uma
enorme falta de ar e percebeu que estava amarrado e amordaçado.
Ted Dunyan
era acima de tudo cientista. Ainda rapaz, com vinte e poucos anos,
entrara para a Frota Solar por estar convencido de que nas viagens
pelos confins das Galáxias teria oportunidade de ampliar seus
conhecimentos.
Agora,
somente a preocupação com sua vida não lhe teria dado forças para
escapar das mordaças e dos laços bem dados. Mas a consciência de
estar de posse de uma importantíssima descoberta e ficar ali preso,
lutando para respirar, ao invés de voltar à Terra e expor a todos o
que acabara de descobrir, o fez converter toda sua ira inteligente em
força física, a fim de libertar-se das amarras.
Ficou mais
esperançoso, quando ouviu vozes. Pensou que Loodey estivesse
voltando para ver seu estado, mas notou que as pessoas falavam o
arcônida.
Ficou
naturalmente mais curioso. Não fez mais nenhum movimento para não
fazer barulho e ser descoberto. Ouviu como um dos interlocutores
desconhecidos ria bem alto e afirmava:
— Até
que a Terra tenha notado que o negócio se espalhou por toda a sua
atmosfera, não estarão mais em condições de se protegerem.
E seu
companheiro o acompanhou na estrondosa gargalhada.
Ted Dunyan
sabia a respeito de que os dois arcônidas estavam falando. Era o
único terrano que sabia o que os estrangeiros pretendiam dizer com a
palavra “negócio”.
Assim que as vozes emudeceram e os passos se afastaram, como um
louco, começou a forçar suas amarras, usando uma força que não
era sua, mas do conhecimento do perigo iminente que a Terra corria.
*
* *
Atrás da
comporta, a ruazinha continuava. E continuava igual ao trecho lá de
fora, com a diferença apenas de que as casas, de ambos os lados eram
agora bem conservadas e, ao invés da água turva e leitosa do mar,
estavam cheias de um ar claro e puro.
Thomea
Untcher não teve mais tempo de olhar para cima, a fim de constatar
que o terraço, que protegia as casas contra a incrível pressão da
água, estava inteiro, enquanto do outro lado, havia mais buracos do
que espaços cobertos. Não teve tempo nem mesmo de sacar a arma,
embora se esforçasse ao máximo para estar sempre preparado. Isto
porque não via o inimigo. A ruela jazia tranqüila e vazia, sob os
reflexos da luz amarelada. Convencido de que seu temor era exagerado,
Untcher avançou uns passos sozinho.
Foi então
que, de repente, uma pancada forte e atordoante o atingiu em cheio.
Estava andando até então lentamente e com muita cautela, estudando
os passos. Mas aquilo que o atingira de supetão tinha qualquer
semelhança com uma muralha de aço.
Bamboleou
e caiu. Recebeu mais uma pancada de algo ou de alguém invisível,
perdendo então os sentidos.
*
* *
O clarão
amarelado de todos os dias, surgia da escuridão leitosa da velha
cidade. A respiração de Norrhooch estava acelerada, pois só
pensava que, em alguns décimos de milésimos, haveria de
encontrar-se com os terranos, os estrangeiros que protegiam os povos
oprimidos, de quem Grghaok contava maravilhas. Depois, seus
pensamentos se volveram para o episódio com a estranha viatura dos
estrangeiros que quase os atropelara e matara. Que estariam eles
fazendo por aqueles lados das plantações de psimo? Não era ainda
tempo de colheita.
Depois de
superar com galhardia o primeiro momento difícil, Nrrhooch estava
sentindo o gosto pela aventura e, se não fosse o encontro marcado
com os terranos, teria certamente continuado no encalço do estranho
veículo anfíbio.
Fez uma
curva acentuada, dirigindo-se à cidade. Ao norte havia uma comporta
aberta e, além disso, do norte para o centro de Pchchogh, onde ainda
havia casas aproveitáveis, o caminho tornava-se mais curto.
Com o
máximo de cuidado, seguindo as constantes admoestações dos dois
anciãos, Nrrhooch mergulhou para o fundo da primeira abertura que
encontrou, ao invés de continuar na mesma altura em que estava.
Depois que a proa varou aquela passagem e ele pôde ver alguma coisa,
notou pela segunda vez o elegante barco dos estrangeiros. Fosse por
mera questão de subconsciente, que, sem ele perceber, guiava seus
movimentos ou fosse pela sensação excitante da proximidade do
perigo, estava imbuído de uma coragem que o capacitava para executar
coisas com que nunca sonhara. E, desta vez não havia nele a menor
sombra de pânico. A gravidade do momento não bloqueou seus
movimentos, muito menos seu sangue-frio. Mais depressa do que os
velhos poderiam supor, antes mesmo que tivessem notado a presença do
barco dos estrangeiros, Nrrhooch desligou o motor. Deixou que seu
barco caísse lentamente na mesma abertura do chão, pela simples
força da gravidade.
Nrrhooch
estava de ouvidos atentos. Lá embaixo estava tão escuro que não
dava para ver nada. Mas não tinha dúvidas de que ouviria o
movimento da água, caso os estrangeiros se aproximassem.
Por
enquanto, não ouvia nada. Deixou passar algum tempo, enquanto os
dois velhos, muito nervosos cochichavam qualquer coisa, com o terror
estampado nos olhos. Teve então a coragem de ligar de novo o motor e
subir lentamente pela abertura.
Viu o halo
luminoso da velha cidade abandonada, viu o fundo do mar, liso e
aberto diante de si. A viatura dos estrangeiros desaparecera. Tinha,
pois, escapado pela segunda vez das garras daqueles homens barbudos.
Não podia
fazer a mínima idéia do que pretendiam eles em Pchchogh. Nrrhooch
era um homem sensato e começou então a refletir se os phchauchol,
dos quais Grghaok tinha tanto medo e em quem Lchox nem queria
acreditar, não estavam mancomunados com os estrangeiros barbudos,
que por um ou outro motivo tinham grande interesse em que Pchchogh
continuasse abandonada e vazia.
Quem sabe
estaria em Pchchogh o quartel-general dos estrangeiros! Ninguém em
Opghan sabia realmente onde eles moravam. Estava ora aqui, ora ali...
mas onde residiam? Será que seu domicílio era mesmo Pchchogh?
Em
Pchchogh havia realmente casas intactas; muitos éfogos, apesar das
histórias horripilantes dos sanguinários phchauchol, haviam
penetrado na cidade e viram muita coisa. É claro que nenhum deles
ficara tempo demais na cidade abandonada e tão pouco se arriscara a
penetrar em qualquer casa. E se os estrangeiros realmente tinham a
intenção de permanecer ocultos, podiam fazê-lo facilmente. Mas
será que não passavam de simples vítimas todos aqueles que não
regressavam de Pchchogh e cujo desaparecimento ou morte era atribuído
aos phchauchol?
E como se
estivesse tendo uma visão, Nrrhooch percebeu que os estrangeiros
realmente residiam em Pchchogh e tal qual os chchrorl sanguinários,
que viviam nas cavernas e com seus possantes tentáculos, pegavam
sempre suas vítimas desprevenidas. De lá do fundo do mar, em
Pchchogh, é que tramavam tudo para subjugar facilmente aquela gente
sofredora e mantê-la em escravidão.
E mais uma
coisa espantosa, estava ele vendo naquele momento: os novos
estrangeiros, os terranos, como Grghaok os chamava, corriam perigo
iminente, pois não sabiam dos mistérios que se escondiam em
Pchchogh.
*
* *
Ted Dunyan
desmaiou diversas vezes, antes de conseguir qualquer resultado. A
luta desesperada contra as amarras e a mordaça custava-lhe muito ar,
e era exatamente isto que o Dr. Dunyan não tinha. Constantemente
estava vendo estrelas girarem diante de seus olhos, ficando ali
desacordado, antes de voltar a si para recomeçar seus ingentes
esforços.
Mas, de
repente, como se tivesse vencido a maior batalha de sua vida,
conseguiu liberar um braço. Uma larga tira de pano estava ainda
presa no pulso, mas isto não o impediu em nada. Removeu primeiro a
mordaça, depois atirou para o lado os pesados cobertores e panos
velhos, onde estava “sepultado”.
A seguir, sorveu com satisfação o ar fresco, num verdadeiro
exercício de respiração.
Por
último, desatou os pés e levantou-se, abrindo as portas do armário,
movendo-se um pouco de um lado para o outro, na antiga cabina de
Loodey, evitando naturalmente qualquer ruído. Estava com isto
reativando a circulação sangüínea. Achava-se consciente de que
corria grande perigo. Do posto de comando, Loodey podia ligar
qualquer aparelho do intercomunicador. Caso se lembrasse de ligar
para esta cabina, Ted Dunyan estaria perdido, antes de começar a
executar seus planos.
Assim que
diminuiu um pouco a dor lancinante do reinicio do funcionamento
normal da circulação do sangue, Ted Dunyan achou que seu organismo
estava preparado para os esforços que iria enfrentar. Abriu com
cuidado a porta da cabina e deu uma olhada no corredor.
Estava
vazio. A uns dez metros à esquerda, dava para o corredor central do
convés, servido por uma esteira transportadora, que proporcionava
maior rapidez. Ted resolveu fazer uma tentativa, embora não soubesse
se Loodey havia colocado guardas por ali. Chegou sem ser percebido
até o início do corredor central. Ouvia apenas o inevitável
zumbido de todo interior da espaçonave e a vibração surda da
esteira transportadora. Em todo o corredor central não se via
ninguém.
Ted Dunyan
não podia desejar coisa melhor. Seu plano continuava firme. Depois
de ter andado uns trinta metros no corredor central, sentia-se mais
seguro. Nos caminhos tortuosos e escuros por onde teria de andar daí
para frente, certamente não encontraria ninguém.
Nem uma só
vez passou pela cabeça de Ted Dunyan que seria rematada loucura
querer conquistar uma espaçonave totalmente tripulada, sozinho e
desarmado.
*
* *
Thomea
Untcher abriu os olhos e viu diante de si três seres estranhos,
postados como estátuas, numa posição de curiosidade Ma e
científica.
Como se um
véu lhe saísse de repente dos olhos, quando notou melhor os
estranhos percebeu imediatamente de onde vinha o complô, que se
encenava em Opghan, e compreendeu o alcance do que estava se passando
naquele momento.
Dois dos
homens eram espadaúdos e de boa estatura, ambos de barba completa,
embora a barba do mais moço parecesse postiça. O terceiro era um
modelo de feiúra. Maior que os outros dois e terrivelmente magro,
seco. Sua cabeça estreita, abobadada e sem cabelo era dominada por
dois olhos inteligentes e cruéis. Lábios estreitos e austeramente
unidos. O pescoço sobressaía dos ombros estreitos.
Os aras
tinham a mesma origem dos saltadores e dos arcônidas. Partindo da
crença de que uma força invisível criara o Universo com o único
fim de que os aras viajassem por ele para desvendar seus mistérios,
acabaram se transformando numa raça de cientistas. Cientistas estes
que buscavam a ciência pela ciência e não tinham a menor
consideração diante dos direitos de outra gente.
As maiores
conquistas científicas dos aras eram no domínio de medicina e da
biofísica. Não havia médicos iguais em toda a Galáxia, embora
muitos de seus pacientes, independentes de suas vontades, tivessem
sido retalhados em pedaços, somente para que eles, os aras,
estudassem o mistério da vida humana. Subjugaram muitos planetas por
meio de seus medicamentos e os psicotrópicos e narcóticos de sua
fabricação eram disputados a bom preço em toda a Galáxia. Agora
já produziam até monstros artificiais em suas retortas, e estes
terríveis produtos humanos de laboratório começavam a inquietar a
Segurança Terrana.
Os aras
tinham se enquistado em Opghan. Thomea Untcher, neste momento, não
podia fazer outra coisa, senão sentir compaixão dos éfogos. Esta
pobre raça estava já condenada à estagnação, pelo simples
interesse dos aras por eles.
Os outros
dois homens eram saltadores, descendentes daquela raça nômade, que
se consideravam agrupamentos de comerciantes. Acreditavam que Deus
criara, em especial para eles, o monopólio comercial. Alguns
comandantes saltadores de maior prestígio foram às vezes aliados de
Perry Rhodan, nunca, porém, seus verdadeiros amigos. Em suas
relações com os povos das Galáxias, a Terra tivera, mais de uma
vez, sérias encrencas com os chamados comerciantes das Galáxias.
Era bem recente a história do patriarca Cokaze, cuja pretensão era
ocupar definitivamente a Terra, já que não conseguira dela o
tratado de monopólio comercial no sistema solar.
De
qualquer maneira, não era a primeira vez que aras e saltadores se
uniam para uma ação em conjunto contra a Terra, como também contra
o Império Arcônida.
Depois de
selecionar seus pensamentos, Untcher começou a interessar-se mais
por sua própria situação. Não estava amarrado, apenas sentado
numa cadeira. Porém, sem poder fazer nenhum movimento. Os únicos
músculos que obedeciam ao seu comando eram os das pálpebras, da
boca e os que facultavam o processo de respiração. Estava se
recordando agora dos dois terríveis impactos que recebera, sabendo
que fora atingido por arma de descarga elétrica. A paralisia era
conseqüência do choque nervoso e haveria de desaparecer com o
tempo.
Seus dois
companheiros não estavam mais à vista. O aposento parecia-lhe muito
espaçoso e equipado apenas com instrumentos medicinais. Era um
gabinete como se esperaria numa cidade dos aras. Estava, pois, mais
do que claro que os aras tinham também uma colônia, ou melhor, um
ponto de apoio em Pchchogh. Foram eles que construíram a eclusa que
tornava uma parte da cidade habitável. E Thomea Untcher foi um
marinheiro de primeira viagem que caiu como um patinho na armadilha.
Era o que mais irritava o velho comandante.
Os três
estrangeiros em torno dele notaram que voltara a si. Um deles, o
saltador com a barba verdadeira, deu um passo à frente e declarou em
arcônida:
— Sou
Nathael, patriarca da minha estirpe. Quem quer que o senhor seja,
poderia ter feito coisa melhor do que meter o nariz em coisas que não
são de sua conta.
— Não
se trata de coisas que não me dizem respeito — respondeu Thomea
Untcher calmo, num tom de voz ponderado, como se estivesse sentado
numa sala de conferência e conversasse com pessoas de alto nível
intelectual. — O Império Arcônida nos solicitou a cooperação
numa ação policial em Opghan e, a partir deste momento, isto é um
assunto de nossa competência. A Terra mantém com Árcon um tratado
de cooperação mútua que nos obriga a prestar auxílio em casos
como este. E os senhores sabem que nós cumprimos nossos tratados.
Parece que
Nathael não deu muita importância à indireta sobre a falta de
responsabilidade de seu povo. Pelo contrário, passou para o tom
banal de conversa e respondeu:
— Aqui
se trata de um negócio, meu amigo.
— Meu
nome é Untcher, Thomea Untcher, só para que você não esteja
obrigado a me chamar de “meu
amigo”.
Nathael
ficou um pouco embaraçado. Depois continuou:
— Trata-se,
como já disse, de um negócio. E estes negócios são assuntos
exclusivamente nossos. Não podemos tolerar nenhuma interferência de
fora e, em virtude de o senhor não ter respeitado este nosso
direito, vai pagar com a vida, ou no mínimo com sua vontade...
Thomea
Untcher viu nestas palavras uma possível alusão aos estranhos fatos
ocorridos com a tripulação da Finmark.
— Ah! É
isto? E como é que conseguirão destruir nossa vontade?
Nathael
deu um sorriso malicioso e fez um gesto para o ara.
— Muito
simples. Nosso amigo Plougal trabalha já há muito tempo no
desenvolvimento de um novo hormônio, cujos componentes básicos se
encontram no embrião de uma planta nativa de Opghan, chamada de
psimo. Conseguiu há pouco produzir este hormônio na sua fórmula
mais eficaz... e o resultado disso o senhor já viu a bordo de sua
própria nave.
Untcher
concordou.
— Você
acha que os homens continuarão para sempre neste estado em que se
encontram? O hormônio não perde o efeito com o passar do tempo?
— Não
automaticamente — respondeu Nathael. — O hormônio contém
neo-amino-disprosionato. Este componente pode ser neutralizado
através de irradiações com nêutrons térmicos, fazendo com que os
efeitos desapareçam e o neoamino seja aos poucos eliminado do
organismo. Acho, pois, que somente a irradiação com nêutrons
térmicos será capaz de afastar os efeitos do hormônio.
— E você
me descreve isto assim tão abertamente? — perguntou Untcher.
Nathael
respondeu com um gesto displicente:
— Você
não terá oportunidade de fazer proveito destes conhecimentos.
— Quer
apostar? — disse Untcher. Nathael franziu a testa.
— Como?
Ah, sim! — e começou a gargalhar estrondosamente. — Você não
teria mais nem tempo para pagar a aposta perdida.
— É
lamentável, mas isto não tem maior importância. Agora, diga-me só
uma coisa. Como é que vocês descobriram Opghan e quais são seus
planos daqui para frente?
Nathael
estava sentindo gosto no seu papel de superioridade e quis bancar o
soberano condescendente, respondendo todo bonachão:
— Já há
muitos milênios que Opghan é um campo de pesquisa de nossos amigos
da estirpe de Plougal. Começaram estudando os seus habitantes, os
éfogos. Você já deve ter notado que eles têm uma série de
características, segundo as quais temos que classificá-los como
descendentes de emigrados arcônidas. Por outro lado, nenhum tipo de
arcônida, mesmo vivendo num mundo quase só de água, como este,
desenvolveu nadadeiras e tubos de respiração. Os fatos são
contraditórios. O enigma se resolve, quando se sabe que a estirpe de
Plougal, logo depois da chegada dos arcônidas a Opghan, fundou aqui
uma colônia.
“Naturalmente,
de início vieram apenas duas naves de Plougal, pois mais gente não
iria caber nas três mil e tantas ilhotas. Esta gente pesquisadora de
Plougal logo percebeu que era um contra-senso um punhado de homens
viverem encurralados em ilhas-miniatura, quando Opghan oferecia lugar
folgadamente para milhões e milhões de emigrantes, caso estes
emigrantes soubessem adaptar-se ao meio ambiente, ou seja, aos
fatores ecológicos.
“E os
aras levaram avante este plano, parte com a cooperação dos próprios
emigrantes. E assim, no correr de muitos séculos e muitas gerações,
criaram uma nova raça, a raça dos éfogos, dos homens-peixe. Você
sabe como é esta gente dos Plougal. Fazem qualquer sacrifício pela
ciência. A experiência durou praticamente mil anos, mas seu esforço
foi coroado de êxito. Haviam criado uma raça para as condições do
planeta.”
Thomea
Untcher fez qualquer movimento na cadeira. Constatou que seus
músculos e nervos já lhe estavam obedecendo.
— Para
os primeiros emigrantes devia ter sido um grande choque — afirmou
ele — presenciarem que seus filhos passavam a ter nadadeiras e
trombas para respiração.
— É
claro que no princípio não foi muito agradável — respondeu
Nathael sorrindo — mas os aras, em benefício da ciência,
sacrificam a felicidade e até a vida se necessário for.
Untcher já
podia mover a cabeça. Concentrou os olhos no rosto de Plougal,
procurando descobrir seu pensamento. Mas Plougal não movia um só
músculo. A descrição dos atos desumanos de seus irmãos de raça
não o alterava em nada.
Com
Nathael já não era assim. Parece que ele se empolgava com o som de
suas palavras. E, neste tom, continuou falando:
— Durante
séculos e séculos os aras tinham aqui apenas um pequeno núcleo de
colonização. Você compreende, as conseqüências de uma tal
experiência devem ser acompanhadas com cuidado e escrúpulo. Em todo
este tempo do longo trabalho científico, não podiam esperar que
Opghan lhes trouxesse qualquer vantagem material. Descobriram então
o hormônio do psimo e a partir daí, surgiu, de um momento para o
outro, um grande interesse em Opghan.
“Fizeram
algumas experiências que acabaram dando excelentes resultados. Os
aras pensaram então em explorar a plantação espontânea das
florestas de psimo no fundo do mar. Mas, para isto, precisavam do
trabalho dos éfogos e já que eles, por sua vontade, jamais
trabalhariam com compromisso de horário, tinham de ser obrigados a
fazê-lo. Você conhece o modo de pensar dos homens da estirpe de
Plougal.”
Esticou os
braços para um gesto bem largo, como se falasse a um amigo sobre
outro amigo, cujo erro procurava justificar.
— São
incapazes de cometer violências e, por outro lado, não possuíam
ainda a quantidade de hormônio necessária para dominar
completamente os éfogos. Ofereceram-nos interesse comercial e nós
aceitamos e executamos este trabalho para eles. Em poucos dias, não
se esqueça de que um dia neste maravilhoso planeta dura quase nove
dos seus dias da Terra, será produzido tanto hormônio que
transformaremos estes éfogos em simples máquinas de trabalho, quase
gratuitas. Então começará um comércio maravilhoso para nós, com
um lucro tremendo...
Thomea
Untcher não quis mais responder. Estava literalmente saturado, pois
há um limite para tudo. Apesar de ser um espírito liberal,
tolerante, sem preconceito de espécie alguma, não suportava mais a
nojenta frivolidade e o cinismo de seu interlocutor. Já sabia
bastante da história lamentável dos pobres éfogos. Eram
descendentes dos velhos arcônidas, mas com as experiências
degradantes dos aras sofreram grandes alterações biológicas,
regredindo para uma fase de primitivismo da qual os arcônidas se
haviam liberado já há muitos milênios. Sabia também que uma parte
dos conhecimentos técnicos e científicos continuava preservada
entre os mais bem dotados, de maneira que os éfogos estariam em
condições de, dentro de alguns séculos, erguerem uma nova
civilização, de valor apreciável. Assim se explicava também uma
certa contradição neste povo singular: possuíam, por exemplo,
submarinos para qualquer profundidade oceânica, melhores que os da
Terra de antes da Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, não
sabiam o que era um rádio e ainda praticavam a pesca submarina com
arpões de ar comprimido, ao invés de usarem armas de fogo.
Untcher
compreendia tudo agora. Viu como seus homens, na Finmark, entraram em
total dependência mental, sob os efeitos da droga contida nos
cilindros metálicos. Sabia muito bem que, com uma arma deste tipo
nas mãos, os saltadores seriam uma desgraça para todo o Universo.
Certamente, sua primeira vítima seria naturalmente a Terra. Os
saltadores eram tão inescrupulosos como os aras. A única diferença:
o objetivo dos aras era científico, enquanto que os comerciantes das
Galáxias visavam exclusivamente aos lucros materiais.
— Há
apenas uma coisa que me interessa saber — disse Untcher. — Que
aconteceu com meus homens?
— Oh!
Não se preocupe com eles — respondeu o cínico Nathael. — Estão
conosco, vieram à sua procura, quando você demorou a aparecer.
Caíram na mesma cilada que você. Estão bem guardados. Há muitos
séculos, os aras expulsaram os éfogos desta cidade no fundo do mar,
inventando para isto histórias macabras de assombração e simulando
ataques de monstros submarinos. Tudo isto para convertê-la em sua
base de operação. Dispõem aqui de mais de duzentas habitações
intactas e luxuosas, servindo de residências particulares a cada um
de seus homens.
Untcher
ouvia silencioso. Sabia que, ao menos no momento, não lhe restava
nenhuma esperança. Se conseguisse sair de Pchchogh, haveria de fazer
muita coisa.
Uma
parcela de seu desânimo parecia se refletir em seu rosto e Nathael
que considerava o abatimento moral do prisioneiro muito importante
para seus intuitos, continuou desfilando o rosário de coisas
desagradáveis:
— Não é
apenas isso, Untcher. Estamos também de posse de sua nave. Nossos
homens estiveram a bordo da Finmark e deram ordem ao sargento Loodey
de regressar imediatamente à Terra. É claro que Loodey obedecerá.
Em poucas horas, a nave estará a caminho da Terra, com uma carga
perigosíssima a bordo, como lembrança de Opghan.
Untcher
não tinha a menor dúvida da veracidade das palavras de Nathael.
Procurou esconder a grande aflição que lhe ia no íntimo, mas não
foi de todo possível. Não queria, de maneira alguma, dar esta
alegria ao saltador, de vê-lo abatido e conturbado. Ficou, pois,
mais alegre, quando percebeu qualquer movimento atrás dele e
Nathael, o outro saltador e Plougal se entreolharam estupefatos.
— Que
que há, Aktar? — ouviu ele a pergunta de Nathael.
— Três
éfogos abateram um guarda na comporta de Bchacheeth e deixaram a
cidade — falou numa voz muito excitada. — Chchaath já enviou
todos os homens disponíveis em seu encalço. Veio para cá o mais
depressa possível. Persiste a possibilidade de os fugitivos estarem
a caminho de Pchchogh.
Nathael
ainda estava confuso e, para despistar, perguntou:
— Vocês
ainda se preocupam com estes miseráveis éfogos?
— Eu não
me preocuparia tanto — respondeu Aktar, como se estivesse se
desculpando. — Mas Chchaath afirma que um deles, um tal de Grghaok
conhece todos os cantos e recantos de Opghan. Chchaath acha que este
éfogo é capaz mesmo de penetrar nesta cidade submarina, sem ser
percebido.
6
— Sim —
disse Grghaok com segurança — eu sei um caminho.
Nrrhooch e
Lchox olharam-no com admiração e com muito respeito.
— Você
sabe...! — sussurrou Nrrhooch.
Grghaok
fez um simples gesto de confirmação.
— Quando
era ainda rapaz — explicou o velho — interessava-me muito pelas
coisas mais misteriosas. Pchchogh era uma delas. Conheço esta cidade
melhor do que ninguém.
— Mas os
phchauchol? — interrompeu Nrrhooch. — Você não tem medo deles?
Você não confessou isso uma vez?
— Claro
que tenho medo. Já me defrontei uma vez com um deles e não foi
brincadeira.
— Como
foi isto? — perguntaram Nrrhooch e Lchox a uma só voz.
Grghaok
esticou as palmas da mão para cima.
— Tão
exatamente, não posso me lembrar assim. Já faz tanto tempo.
Lembro-me de ter levado um tremendo choque por trás. Foi como se o
phchauchol tivesse avançado contra mim. Depois não me recordo de
mais nada, até o momento em que recuperei os sentidos e reparei que
estava deitado no meio da rua.
— Na
água? — perguntou Nrrhooch espantado.
— Claro
que não. Estava na parte intacta e boa da cidade. Do contrário
teria me afogado. Ninguém tem reserva de ar para tanto tempo, para
agüentar um longo período desacordado dentro d’água.
— Grghaok,
se eu entendi bem, você nem chegou a ver o phchauchol direito, não
é? — perguntou Lchox.
— Não,
não cheguei a vê-lo mesmo não. Apenas senti.
— Então
— continuou o mesmo Lchox — pode ser que quem lhe deu o choque
foram os estrangeiros que vivem em Pchchogh, como acredita Nrrhooch.
— Pode
ser mesmo — concedeu Grghaok. — Talvez consigamos botar isso em
pratos limpos, dentro de pouco tempo.
Levantou-se
e abriu a pequena escotilha do barco.
— Vamos
sair, minha gente — propôs ele. — Quem sabe os terranos estão
de fato em perigo.
O mais
moço, Nrrhooch, desceu na frente. O pequeno barco estava perto das
ruínas da velha carcaça de pedra artificial que circundava toda a
cidade, resguardando-a da pressão d’água. Esta carcaça grossa e
muito forte tinha sido arrebentada de propósito em vários lugares e
podia-se penetrar na cidade, sem se fazer uso de comportas. E mesmo,
muitas das comportas já estavam há muito fora de uso e não
passavam de meros buracos, como por exemplo a eclusa do norte, que
não estava longe.
Grghaok
foi conduzindo os dois éfogos para a parte inundada de Pchchogh. O
velho era muito cauteloso em seus movimentos, nadando com muita
agilidade. Seus amigos o seguiam com as mesmas precauções.
Nrrhooch
não deixou de ficar apreensivo, quando o viu penetrando por uma
janela numa casa completamente escura. Mas seguiu seu guia, porém,
já com a arma que tirara do guarda na mão, esperando nervosamente
que ela funcionasse mesmo dentro da água.
De
repente, no meio das trevas, ouviu-se a voz de Grghaok.
— Por
algum motivo que desconheço, esta casa tem uma comporta especial.
Quem sabe seu dono era um homem muito precavido que já antevia que a
carcaça de proteção seria um dia rompida. Queria ter uma saída
garantida para tal emergência. De qualquer maneira, aquela escotilha
da comporta leva para a parte seca de Pchchogh. Quando estive aqui
pela última vez, isto foi há uns quinhentos dias, os estrangeiros
ainda não haviam descoberto esta comporta. Constatei tal fato por
uns sinais que fiz nela e não foram apagados.
Uma luz
amarelada, muito fraca, entrava pela janela vazia. Os olhos de
Nrrhooch tinham que se adaptar primeiro à escuridão. Depois foi
vendo como Grghaok fazia alguma coisa na parede dos fundos do
aposento. Nadou até lá para ajudá-lo e juntos começaram a mover
uma trave que fechava a escotilha, trave esta conservada perfeita,
apesar dos muitos séculos de mergulhada na água.
O
compartimento atrás dela era muito pequeno. Foi-lhes um pouco
difícil caberem os três ali dentro. Trancaram a porta, esperando
que as bombas começassem a funcionar. No primeiro instante nada
aconteceu. Enquanto isto, Grghaok estava de novo mexendo na porta
externa e examinando os sinais que fizera há muitos dias atrás.
— Ainda
não a descobriram! — exclamou contente.
“Isto
não nos vai adiantar muita coisa”,
pensava triste Nrrhooch, “se
as bombas não funcionarem...”
Mas no
mesmo momento, as águas começaram a mover-se em remoinho e a
espumar. Uma possante sucção as puxava para os fundos da comporta,
fazendo-as desaparecer no funil das bombas. Após dois décimos de
milésimo, a comporta estava sem água e limpa, cheia de ar
respirável.
Abriram a
porta externa. Estava tão dura que foi necessário o esforço dos
três. Uma luz mais clara e mais amarela penetrou pela abertura, lá
fora havia uma rua bem conservada e seca da velha cidade. As casas ao
longo desta rua davam a impressão de que os habitantes de Pchchogh
ainda estivessem vivos.
Nrrhooch
foi o primeiro a dar um passeio na rua. Sentiu-se, porém, um pouco
tolhido no silêncio sepulcral que inundava a cidade. A mão direita,
com as nadadeiras transparentes entre os dedos, apertava a arma de
fogo do guarda abatido.
Os dois
velhos vinham conversando atrás. Parecia que roncavam mais do que
falavam. Nrrhooch queria aconselhá-los a manterem mais silêncio,
mas antes que o pudesse fazer, viu uma coisa que lhe prendeu a
atenção.
A porta de
uma das residências mais para baixo começara a se mover. Fazia-o
lentamente, centímetro por centímetro, como se não quisesse
mostrar os segredos que havia por detrás dela. Nrrhooch viu o brilho
de uma luz azul-clara, através da fenda da porta. Aproximou-se dos
dois velhos e lhes deu uma cotovelada para lhes chamar a atenção.
Com dois ou três passos silenciosos, se retiraram para a parede da
habitação mais próxima e procuraram se esconder do melhor modo
possível nos nichos da construção.
A porta da
casa mais abaixo se abriu de todo e, por alguns momentos, Nrrhooch
não via outra coisa a não ser uma abertura retangular cheia de uma
claridade quase ofuscante. Depois surgiram no fundo duas figuras: uma
de estatura normal, a outra muito alta e magra. Nrrhooch acreditou a
princípio que a distância e a luz amarelada tivessem lhe causando
uma ilusão óptica, pois uma figura assim não podia existir. Mas os
dois indivíduos eram reais e saíram para a rua e um deles
continuava tremendamente alto e magro.
Nrrhooch
teve um calafrio ao reconhecer o outro homem. Sua pele tinha um
brilho esverdeado e estava coberta de escamas. Sua cabeça redonda e
sem cabelos brilhava como se estivesse molhada. Chchaath e seu
companheiro muito alto vinham pela rua, exatamente na direção dos
três éfogos, dos nichos na parede da casa, onde estavam escondidos.
Nrrhooch
reparou como Grghaok, que estava encostado nele, começou a tremer.
Ouviu gemidos de medo por parte de Lchox. Sabia que tinha de fazer
alguma coisa, caso não quisesse que todos caíssem nas mãos
assassinas de Chchaath e do outro estrangeiro. Por um instante,
Nrrhooch julgou que o homem alto tinha de ser o terrano, pois, fora
dos barbudos, não havia outros estrangeiros em Opghan. Mas depois,
acudiram-lhe as dúvidas, pois Grghaok fizera tantos elogios aos
terranos que seria impossível que estes se aliassem a um tipo como
Chchaath.
O jovem
Nrrhooch levantou a arma. Fê-lo com tanto cuidado que o cano
continuou escondido no nicho da parede e ninguém o podia ver. O
coitado do rapaz não tinha a menor idéia de como a arma funcionava.
Felizmente tinha só um botão e ele esperava que desse resultado,
quando o apertasse.
Chchaath e
o horrendo gigante seco estavam já a poucos passos, quando Nrrhooch
comprimiu o botão. O resultado ultrapassou de muito sua expectativa.
Num forte
e seco estampido, saiu um raio ofuscante do cano da arma. Nrrhooch
viu um caudal incandescente que varreu a rua e atingiu as paredes das
casas do outro lado. Estupefato, ficou olhando para o rombo aberto na
parede e para a pedra derretida que rolava pelo chão, enquanto se
elevava uma fumaça de cheiro horrível.
Chchaath e
seu companheiro ficaram parados, olhando a parede que ardia. Nrrhooch
percebeu que não os atingira e corrigiu a pontaria de sua pistola de
raios energéticos. Chchaath e seu colega queriam correr. Gritando
loucamente, iam se esgueirando pela parede. Logo depois correram rua
abaixo. Mas a terrível arma de Nrrhooch foi mais rápida que eles. O
caudal ofuscante de raios interrompeu sua desabalada carreira.
Nrrhooch,
admirado, depois de alguns instantes de susto, reparou que acabaria
destruindo toda a cidade se continuasse atirando. De Chchaath e de
seu colega, não restava mais nada. O fogo consumira tudo.
Nrrhooch
olhou em volta. A extensão dos estragos que causara pareceu-lhe
incrível. Desejava não ser mais necessário fazer uso de uma arma
tão poderosa.
Por
enquanto ainda necessitava dela. Ninguém poderia saber quantos
inimigos abrigavam as belas casas daquele trecho de Pchchogh.
*
* *
Thomea
Untcher ouviu os dois tremendos estampidos. Sentiu o ar quente que
entrou em lufada por alguma parede rebentada na vizinhança... e
tratou de agir.
O saltador
Nathael ficara sozinho com ele naquele compartimento, pois o homem de
barba postiça, a quem chamavam de Echnatal, saíra já antes. Para
onde, Untcher não sabia. Depois disso, o ara e o éfogo traidor
também deixaram a casa e finalmente, o velho saltador Aktar também
se despedira.
O que quer
que estivesse acontecendo lá fora, não estava nas previsões de
Nathael. Com um grito de horror, o saltador virou para trás e ficou
olhando para a porta... e Thomea Untcher não perdeu a oportunidade!
Desprezando
as grandes dores que sentia em todo o corpo maltratado, saltou de sua
cadeira. Nathael ouviu o ruído atrás de si e ia se virando com a
mão sacando a pistola. Mas Untcher foi bem mais rápido e, ligeiro,
saltou nas costas do corpulento e barrigudo saltador, antes que este
percebesse o que estava se passando. Untcher era mestre neste tipo de
ataque. E com duas pancadas bem seguras, dadas com o canto da mão
espalmada, na nuca do adversário, deixou-o estendido no chão, sem
sentidos. Apanhou a arma, ainda quando o corpo estava caindo e saiu
porta afora.
Aquela
porta dava para um outro compartimento e lá estava o pobre Phil
Lenzer, sentado também numa cadeira. Seu estado parecia bem mais
grave, devia ter sofrido muito com os choques e exatamente por este
motivo não havia guarda para vigiá-lo. Untcher gastou uns dois
minutos para fazer com que Lenzer conseguisse ficar de pé.
Fazendo-lhe massagens e, com palavras de estímulo, conseguiu colocar
seu comandado em condições de reagir.
Enquanto
isso, lá fora, em qualquer lugar da vizinhança, o barulho
continuava, sem que Untcher pudesse saber de onde vinha.
Já
acompanhado de Lenzer penetrou no próximo cômodo. Lá encontraram
mais dois dos seus, sob a guarda do saltador com barba postiça.
Echnatal também estava a caminho da porta, também assustado com o
ruído. Ao abri-la, os dois terranos deram de cara com o saltador.
Thomea Untcher, enfurecido, avançou contra ele, atirando-o
inconsciente no chão.
Os
terranos eram agora quatro e empunhavam duas boas armas. Podiam se
atrever a penetrar mais na cidade desconhecida, a fim de libertar
seus outros colegas.
Acharam-nos
na próxima casa, vigiados por dois aras, que infelizmente estavam
bem longe da porta de entrada, de maneira que os terranos não tinham
possibilidade de travar uma luta corporal com eles. Assim que
compreendeu a situação, Thomea Untcher começou a atirar,
liquidando os dois guardas.
Imediatamente
se dirigiu ao grupo de terranos.
— Temos
de voltar imediatamente para a Finmark — ordenou ele. — Cada um
de nós quatro está agora com uma arma. Caso alguém queira barrar
nosso caminho, temos de atirar. Vamos embora.
Não
sabiam por qual das muitas portas se chegava à rua. Tentaram três
vezes, na quarta deram com a rua, saindo daquela claridade exuberante
da base submarina dos aras para a iluminação fraca e amarelada das
velhas e abandonadas vielas.
A rua
parecia ter sofrido há pouco um grande terremoto. Na parede de uma
das casas havia um grande rombo e massa de pedra derretida se
espalhava pelo chão. Fumaça de cheiro penetrante ainda estava no ar
e, através dela, Untcher percebeu os vultos dos três éfogos.
Parou e
começou a chamá-los. Os éfogos se viraram e vieram vagarosos em
seu encontro. Untcher não sabia bem por que estava desperdiçando
seu tempo. Mas acreditava que aqueles três fossem os homens-peixe
com os quais falara da Finmark e aos quais havia prometido auxílio.
Não, não podia deixá-los na mão, embora isto lhe custasse um
tempo precioso.
Quando
distavam ainda alguns metros, Untcher lhes gritou em arcônida:
— Vocês
são os homens de Bchacheeth? Nrrhooch, Grghaok e Lchox?
Palavras
de confirmação vieram através da fumaça e os éfogos começaram a
correr.
— Somos
os terranos. Os estrangeiros nos prenderam, mas nós nos libertamos.
Como poderemos sair depressa da cidade?
— Há
uma comporta velha e abandonada — começou um dos homens-peixe a
explicar em sua linguagem molhada, como se falassem com a boca cheia
d’água — nós entramos por ela.
Untcher se
dirigiu aos seus:
— Atarraxem
os capacetes, rapazes, temos que passar por uma comporta ali na
frente.
Sem dizer
uma palavra, os éfogos os acompanharam. A comporta era muito pequena
para todos passarem ao mesmo tempo. Foram abandonando a velha cidade
de quatro em quatro. Thomea Untcher e Nrrhooch ficaram entre os
últimos.
Dos
saltadores e dos aras não se via nem sinal. Para se compreender sua
reação, tinha-se que conhecer a mentalidade dos aras. Certamente
ouviram os tiros e o barulho todo e sabiam que alguma coisa não
estava dando certo. Mas, se nesse momento estivessem ocupados com
algum estudo sério, com alguma experiência, era para eles mais do
que natural não se deixarem perturbar. Continuariam sentados diante
de seus microscópios ou de outros instrumentos de medição, e não
se incomodariam nem mesmo se o exército inimigo invadisse a cidade.
Quanto aos
saltadores, o fato de não se manifestarem, Untcher explicava isto
como conseqüência de que ali em Pchchogh só estavam os três:
Nathael, Echnatal e Aktar. Os dois primeiros achavam-se desacordados
e Aktar certamente já tinha deixado a cidade.
Untcher
reparou na pistola térmica no cinturão de Nrrhooch e começou a
entender como se originou toda aquela confusão em Pchchogh; os
tremendos estampidos, o rombo na parede e o chão da rua todo
estourado e derretido. Tudo isto porque um rapaz inexperiente apertou
um botão de disparo de uma arma, cuja reserva energética ele
desconhecia por completo. Thomea Untcher passou a ter grande respeito
aos éfogos. Aquela gente era simples, mas destemida.
Após o
tempo determinado, dando ainda uma pequena pausa de segurança,
Nrrhooch abriu a portinhola da comporta e encontrou a câmara
completamente vazia. Untcher, Nrrhooch e dois dos homens de Untcher
foram os últimos a deixarem a cidade. Esperavam impacientes até que
a câmara se enchesse e a pressão fosse a mesma do fundo do mar.
Depois abriram a escotilha interna e saíram nadando pelo cômodo
escuro da casa, passando pela rua iluminada, onde se encontraram com
Grghaok, Lchox e os homens do grupo de Untcher, que já os esperavam.
Somente
fazendo com que Grghaok encostasse a cabeça no seu capacete, Untcher
conseguiu comunicar-se com o velho para lhe explicar como era o local
onde havia deixado seu veículo anfíbio. O chefe dos éfogos se
mostrou pronto para conduzi-los até lá. Untcher não estava certo
se os aras não haviam danificado seu barco anfíbio, mas tinham pelo
menos que procurá-lo e, com o auxílio do éfogo, vencerem aquele
paredão de quatro mil metros de água.
Grghaok
teve de reduzir seu ritmo de natação, pois os terranos, com pouca
experiência do fundo do mar, moviam-se lentamente. Isto deixava
Grghaok um tanto preocupado. Ele estava nadando rente ao teto de
proteção da cidade e mostrava aos terranos como se utilizar das
raízes das canáceas para se apoiar e dar bons impulsos para frente.
Apesar
disso, levaram meia hora até chegar ao barco anfíbio. Estava onde o
haviam deixado e não se notava indício de que alguém houvera
penetrado nele.
O embarque
foi rápido e sem dificuldade. Com os três éfogos como tripulação
extra, não sobrava mais espaço no seu interior. Mas os homens de
Thomea Untcher estavam acostumados a não medir sacrifícios para
obterem sucesso. Queriam escapar dos aras e chegar salvos à
superfície da água.
O próprio
Untcher tomou o lugar do piloto. Numa ampla curva fez com que o barco
iniciasse a subida, passando por uma grande fenda da pedra artificial
que protegia a cidade de Pchchogh. A seguir, acelerou ao máximo.
Estava preocupado com a frase de Nathael de que a Finmark já estava
nas mãos dos saltadores, pois sabia que o patriarca não precisava
mentir.
*
* *
Ted Dunyan
atingira seu objetivo. Estava sentado num reduzido compartimento onde
se concentravam todas as válvulas das instalações de aeração da
Finmark. Desta maneira, poderia controlar a nave e quando dessem por
sua ausência, ninguém o viria procurar neste recanto esquecido.
Havia,
porém, um grande ponto de interrogação no empreendimento
técnico-científico do Dr. Dunyan: através do controle dos tubos de
aeração da espaçonave, podia injetar qualquer quantidade de gás
entorpecente para toda a nave. Mas não sabia quantos do grupo de Ran
Loodey estavam de uniforme completo e assim não seriam atingidos
pelo gás sonífero. E o pior ainda era que o próprio Dr. Dunyan
também estava sem o uniforme e o capacete, arrancados por Loodey,
antes de seu “sepultamento”
no armário. Assim o médico seria a primeira vítima de seu plano
para neutralizar os amotinados de Loodey.
Sua
iniciativa só teria êxito se soubesse a hora exata em que Thomea
Untcher voltaria de sua expedição. Se soubesse isso, Untcher, ao
penetrar na Finmark, encontraria apenas um grande número de pessoas
inconscientes a bordo, sem que houvesse perigosa resistência física.
Supondo-se, naturalmente, que ninguém do grupo de Loodey estivesse
com o capacete atarraxado.
O Dr.
Dunyan necessitava, pois, de uma tela de rastreador para ver o que se
passava em torno da Finmark. Sabia que lá fora continuava a grande
noite, nove vezes mais longa que a noite da Terra. Mas esperava que
as estrelas no céu claro e sem nuvens de Opghan dessem uma claridade
suficiente para se ver alguma coisa lá embaixo. No pequeno
compartimento das válvulas de aeração, não havia nenhuma tela de
rastreador. Mas no posto de comando havia duas, e o compartimento das
válvulas era uma dependência do posto de comando. Existia o perigo
de ser visto pela tripulação, o que estragaria os planos de Dunyan.
Mas tinha de ser assim mesmo, e ficou ali olhando para a tela,
esperando a chegada de Untcher.
Passaram-se
algumas horas, até que viu na tela a sombra do barco anfíbio,
irrompendo da camada de gelo que cobria o mar. Voltou para o
compartimento das válvulas e começou a injetar na espaçonave uma
substância inodora, oraldin,
e um entorpecente sem maior perigo, que, conforme o Dr. Dunyan
esperava, agiria tão rapidamente, que não daria tempo para ninguém
notar. No tocante a si mesmo, estava muito contente com o efeito do
entorpecente, que ele seria o primeiro a experimentar. De fato, assim
que acionou os registros, os contornos do pequeno compartimento se
lhe desapareceram dos olhos e o doutor perdeu os sentidos. Merecia
bem um repouso, depois de tantas horas de horrível tensão nervosa.
*
* *
Thomea
Untcher chegara na hora certa. Aproximou-se cautelosamente da nave,
com seus homens, tendo o cuidado de deixar lá fora, no barco
anfíbio, os três éfogos que tremiam de frio. Abriu uma das
escotilhas laterais e foi entrando. Estranhou não encontrar nenhuma
recepção, até que um de seus homens desatarraxou o capacete. E, no
mesmo instante, cambaleou e caiu. Em menos de três segundos ficou
inconsciente.
O mistério
estava decifrado. Untcher constatou que o estado de inconsciência
era geral em toda a nave, e localizou Ted Dunyan sem sentidos no
compartimento de aeração. Antes de mais nada, mandou recolher a
bordo o barco anfíbio e depois ordenou aos seus homens que levassem
para a sala de oficiais todos os inconscientes afetados com o extrato
de psimo, isto é, os “companheiros”
de Ran Loodey.
Thomea
Untcher sabia que, para a segurança da Finmark e de todos os seus
comandados, não podia fazer coisa melhor do que sair de Opghan. Pois
os saltadores, a estas horas, deviam ter voltado a si e, devido aos
altos lucros que esperavam do narcótico extraído da planta
maravilhosa, não iam permitir que os terranos espalhassem seu
segredo pelas Galáxias.
Ran Loodey
já havia deixado a Finmark em condições de partir, quando,
manipulado pelos saltadores, dera esta ordem. Thomea Untcher estava
se arriscando a uma catástrofe, pois só havia dezessete homens
aptos a bordo. Mesmo assim deu a ordem de partida. Previa que os
saltadores haviam pedido reforço para atacá-los e destruí-los. Com
os dezessete homens, que mal bastavam para os serviços de comando da
nave, não podia usar suas salas de artilharia, caso quisesse
defender-se de um ataque.
Prevendo
todas estas dificuldades, transmitiu um hiper-rádio para a Terra,
pedindo socorro. Não sabia nada da singular mensagem que muitas
horas antes, Loodey enviara e da confusão causada por esta. Deixou
passar meia hora, enquanto Ted Dunyan, com o auxílio dos
inexperientes éfogos que insistiam em ser úteis injetou uma grande
quantidade de ar fresco para dentro da nave. O grande interesse dos
três éfogos em injetar ar para dentro da Finmark tinha sua
explicação pelo fato de estarem com os pesados uniforme terranos,
que lhes era muito incômodo.
Além de
tudo que já fizera, o Dr. Dunyan estava preparando uma experiência
muito importante. Não tivera tempo ainda de comunicar sua descoberta
ao comandante Untcher, embora soubesse que Untcher, até certo ponto,
estava informado sobre as propriedades psicotrópicas da misteriosa
psimo, pois fora o próprio comandante que lhe dissera que os efeitos
da droga podiam ser combatidos com irradiações de nêutrons
térmicos. Ted Dunyan preparou uma mistura de rádio gaseificado com
berilo hexafluorídrico, injetou-a também na tubulação de ar que
penetrava na sala dos oficiais.
O rádio
em composição com o berilo formava uma ótima fonte de nêutrons.
Dunyan estava crente de que os móveis e as guarnições da sala dos
oficiais, feitos de hidrocarbonetos, haveriam de termalizar os
nêutrons produzidos tão rapidamente e, com isso, apressar o êxito
da operação. De uma coisa estava certo: no máximo, dentro de dez
horas ou teria alcançado pleno êxito ou interromperia a
experiência. Pois, ao fim deste período, os homens já teriam
recebido a dose total que podiam suportar. Uma irradiação mais
prolongada lhes poderia prejudicar a saúde.
Depois de
Ted Dunyan ter iniciado sua terapia de irradiação de nêutrons, com
os homens de Ran Loodey na sala dos oficiais, e quando o interior da
Finmark já estava livre do gás entorpecente oraldin, Thomea Untcher
deu a partida. Os aparelhos de rastreamento não indicavam nada. Mas,
depois que a nave ultrapassou os horizontes do planeta Opghan, já em
pleno espaço, o oficial rastreador anunciou a presença de cinco
objetos desconhecidos a uma distância de oito minutos-luz.
Eram os
saltadores que se preocupavam com o que iria acontecer com o novo e
promissor mercado de tóxicos.
*
* *
A confusão
na Terra durou somente até que Perry Rhodan pessoalmente tomou a
iniciativa de apurar os fatos. Não podia saber o que estava se
passando em Opghan, a 10.383 anos-luz da Terra. Mas estava mais que
evidente: a primeira mensagem não era verdadeira e somente a
segunda, de Thomea Untcher, podia ser tomada a sério.
Desde este
momento, até a partida do supercouraçado Barbarossa, com o próprio
Perry Rhodan a bordo, não se passaram mais do que trinta minutos.
Numa única
transição, Rhodan chegou até o ponto combinado com Thomea Untcher.
Este ponto não distava mais de um ano-luz do sistema Ep-Hog e Rhodan
supunha que a intenção do Major Untcher era atacar diretamente o
planeta Opghan.
A Finmark
já estava a postos e, em redor dela, as cinco naves cilíndricas dos
saltadores prontas para destruí-la. Foi-lhes uma surpresa
desagradável o aparecimento da gigantesca e poderosa Barbarossa.
Três das naves cilíndricas inimigas foram abatidas, as outras duas
preferiram a fuga desabalada a uma inútil demonstração de coragem.
A estação de rastreamento da Barbarossa assinalou que as duas
naves, ao invés de retornarem para Opghan, fizeram uma curva de
noventa graus. Dava a impressão de que os saltadores iriam fazer uma
revisão nos seus planos a respeito de Opghan, pois a pressão de
fora era muito forte.
Perry
pediu ao Major Untcher que comparecesse a bordo da Barbarossa. O
comandante levou o Dr. Dunyan, que lhe havia dito mais de uma vez,
ter uma comunicação muito importante a fazer.
— Tive
oportunidade de observar, por muitas horas seguidas — explicava Ted
Dunyan — uma das vítimas dos gases inoculados na Finmark, isto é,
o sargento Ran Loodey. Encontrei o agente patológico em seu sistema
nervoso. Sua composição era relativamente simples, de maneira que a
análise de início não ofereceu dificuldade. O quadro foi
totalmente diverso, quando repeti o exame para confirmar meu
julgamento. A composição tinha se alterado substancialmente, de
maneira que este agente patológico passou a provocar uma nova
reação...
“Isto me
levou a suspeitar de outra coisa. Nesta droga não havia apenas um
agente que produz um determinado efeito e com isso encerra seu ciclo
de ação, e sim um que conserva esta ação indefinidamente.
Normalmente, Loodey e os demais atingidos pelo agente, se amotinariam
e não passaria disso. Poderiam se rebelar contra as ordens de seus
superiores, mas nunca tomar iniciativas por conta própria. Mas
exatamente isto é que eles fizeram. Ran Loodey é um exemplo vivo
disso.
“Um
outro fato esclarece mais ainda. Quando examinamos o ar de respiração
na Finmark, logo depois que Loodey e os rapazes apontaram os sintomas
do envenenamento, não havia mais nenhum sinal do agente patológico.
Tínhamos, pois, a certeza de que o tóxico entrara a bordo através
de um gás.
“As
micro partículas do gás se difundiram com incrível mobilidade,
inclusive através das paredes externas da nave. Desta feita os
pobres éfogos, manipulados pelos saltadores, não precisavam fazer
outra coisa do que desatarraxar um pouco o cilindro metálico que
traziam sob o braço, para o gás penetrar na Finmark. Se fosse um
gás pesado, mesmo dias após o ataque, sobrariam vestígios dele a
bordo. Este não era o caso. O fato de que este gás tinha muita
afinidade com o corpo humano e era por ele assimilado integralmente é
a prova objetiva. E assim que atingia uma pessoa, começava seu
efeito.”
Ted Dunyan
encostou-se no espaldar da cadeira e enxugou o suor da testa. Agora,
que estava começando a dizer o que sabia, o suor lhe vinha ao rosto.
Suor do medo, talvez se tivesse enganado, talvez houvesse outra
explicação para os fatos, ou uma outra maneira de combater os
efeitos da droga do psimo.
— Compreendo
muito bem como se deve sentir, doutor — disse-lhe Rhodan
amigavelmente. — Fale sem receio nenhum. A Galáxia certamente já
viu coisas tão admiráveis como este gás inteligente.
Dunyan
perguntou, quase gaguejando:
— Como é
que o senhor sabe disso?
— É a
conclusão lógica de tudo que o senhor expôs, doutor. O senhor
disse que o agente patológico, por si mesmo tinha a capacidade de se
adaptar às situações, não é verdade?
Ted Dunyan
admirado fez um gesto afirmativo.
— Lamento
— continuou Perry Rhodan — que nenhuma de nossas línguas evoluiu
ao ponto de arranjar uma outra palavra em lugar de inteligente, neste
caso. Claro que é um erro considerar cada molécula do agente
intoxicante como um ser inteligente. A faculdade de adaptar-se às
diferentes circunstâncias, persistindo sempre no objetivo central,
que deve ter parecido aos produtores do gás, os aras, como o mais
importante no tóxico, é certamente uma obra-prima da química
orgânica. Mas a molécula não pensa. Possui apenas uma faculdade,
uma faculdade estatística, porque não são todas as moléculas, mas
algumas, talvez até a maioria, que reagem corretamente na hora
certa, podendo alterar-se de acordo com o fim, sem que haja uma ação
externa para isto.
Olhou para
Ted Dunyan, que concordou sorrindo.
— Por
mais que falemos a respeito — concluiu Rhodan — para tomar o
mistério mais compreensível, é e continuará sendo uma descoberta
maravilhosa dos aras, de sua dedicação à ciência. Devia servir
para objetivos mais nobres e não cair nas mãos mercenárias dos
saltadores, que vão utilizá-la para fins condenáveis.
Isto
queria dizer que Perry Rhodan resolvera terminar de uma vez por todas
com a operação Opghan.
*
* *
Poucas
horas depois, as duas naves, a gigantesca e poderosa Barbarossa e a
pequena Finmark voltavam para Opghan. As experiências do Dr. Dunyan
tiveram sucesso total. Depois de permanecerem quase cinco horas
inconscientes no salão dos oficiais, as vítimas da ação
entorpecente do psimo voltaram a si, normais, sem sentir mais nada.
Não sem
constrangimento, estes homens que se lembravam com toda lucidez do
período de insubordinação, voltaram para seus lugares. Thomea
Untcher dera ordem de que, até o término da operação Opghan, não
se tocasse no assunto da droga do psimo e de seus efeitos.
No período
de um dia de Opghan, Perry Rhodan executou com sucesso o que
pretendia naquele planeta. Os saltadores, certamente temendo o
poderio bélico terrano, abandonaram Opghan e jamais pensariam em
voltar a seus negócios escusos.
A base dos
aras em Pchchog também foi abandonada. Os aras acabaram confessando
que possuíam em Opghan apenas o pequeno grupo de experiência em
Pchchogh. Rhodan lhes deu oportunidade de entrar em contato com sua
pátria e pedir uma nave para vir buscá-los.
Perry
embargou e requisitou a cidade submarina de Pchchogh. Foi o único
favor que ele solicitou aos éfogos recém-liberados. Tal pedido foi
aceito sem a mínima oposição. O velho Grghaok viu confirmadas suas
palavras de estima e de alto elogio que fizera aos terranos, mesmo
antes de conhecê-los e passou a gozar de grande prestígio entre seu
povo. Ao lado de Nrrhooch e de Lchox, foi celebrado como o homem que
iniciara a luta pela libertação dos éfogos.
Perry
Rhodan não perdeu nenhuma palavra sobre o fato de que a descoberta
do entorpecente contido no psimo representava um avanço fantástico
na defesa do Império Solar.
*
* *
A bordo de
uma espaçonave cilíndrica, neste momento já a mil anos-luz de
Opghan, um barbudo corpulento cocava o pescoço, dizendo para um
outro, cuja barba, porém, devia ser postiça, embora fosse muito
bonita:
— Sabia
que o negócio ia acabar mal. Quando os terranos metem o nariz em
nossos interesses comerciais, saímos sempre levando na cabeça.
E o de
barba postiça respondeu, ura tanto abatido:
— Temos
de fazer um pouco de higiene mental pára nos livrarmos do complexo
de inferioridade com relação aos terranos. ;
— E você
acha que venceremos este complexo?
*
* *
Todo
perfilado, o sargento Ran Loodey fez a continência para o Major
Thomea Untcher, que à paisana entrava no posto de comando. Olhou
para Loodey, desconfiado, e disse:
— Como
é? Desta vez você não faz nenhuma referência ao “asilo
dos desabrigados”?
— Não,
major! Durante muitas horas, eu é quem merecia ir para uma clínica
de neurologia.
*
* *
*
*
*
O
Inimigo Oculto necessitava
mesmo de levar uma boa lição... No entanto, Atlan não ignora que o
grande Império Arcônida, cujo governo está em suas mãos, mais
cedo ou mais tarde entrará em decadência, se ele não conseguir
agrupar em torno de si os homens mais capacitados e de maior
determinação de seu povo.
Será
que os “adormecidos”, encontrados por Gucky nas imensidões da
Galáxia, poderão se tornar os auxiliares de Atlan?
Em O
Sol Chamejante, próximo livro da série, outra surpreendente
aventura será narrada.

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