sexta-feira, 26 de agosto de 2016

P-093 - O Inimigo Oculto - Kurt Mahr [Parte 3]

Untcher caminhou bem para frente. Lembrou-se de que os éfogos lhe haviam dito que, no meio das ruínas, havia moradias ainda inteiras e ele se perguntava como seria isto possível no meio de tanta destruição provocada pelos séculos. À boa altura, usando agora a lanterna de seu capacete, viu as ruínas do terraço da cidade, que protegia os éfogos contra a terrível pressão da coluna de água. As bordas do terraço estavam “cortadas”, dando a impressão de que esta camada protetora da cidade tinha sido parcialmente destruída à força.
Por um daqueles buracos no teto, o veículo anfíbio penetrara na casa. Thomea Untcher não se dera ao trabalho de procurar uma comporta, com seu funcionamento complicado e seu mecanismo de abertura tão pesado, quando havia meios mais simples. Parou diante da janela oval, completamente escura, olhando para a residência abandonada e cheia d’água. Procurou se livrar da angústia que se abatera sobre ele, desde o momento em que deixara o barco anfíbio e saíra sozinho. Não sabia explicar aquele sentimento. Talvez fosse a visão tétrica daquela cidade, ou mesmo um medo inconsciente de monstros marinhos, naquela profundeza.
Não sabia mesmo a causa de seu abatimento moral. O fato é que não conseguia livrar-se do medo.
De repente, assustadas pela súbita luz do farolete, duas ou três enguias, com seu corpo serpentiforme, se atiraram para fora da janela, passando rente ao seu rosto. Untcher quase desmaiou de pavor.
Depois, envergonhado, percebeu que havia feito papel de bobo, enquanto seu coração ainda batia muito forte. Mas, mesmo com esta confissão, sua situação não melhorava. A cada movimento que fazia, vinha-lhe a impressão de que teria de enfrentar um novo e inesperado adversário.
Apesar de tudo, continuou seu caminho. Achou, sem esperar, um lugar de onde saía uma viela, que dobrava para a direita, isto naturalmente lhe provocou a curiosidade. Não tinha mais de dois metros da largura e terminava quase ali mesmo. Mas a parede que a interrompia, indo de uma casa próxima até o outro lado, parecia muito estranha e não combinava com a construção em volta, dando impressão de ser bem mais recente do que as velhas e amareladas paredes dos éfogos.
Cauteloso, Thomea Untcher foi seguindo a ruela, enquanto a iluminação das ruas ficava mais para trás. Teve de usar o farolete do capacete com sua luz mais forte. Então descobriu um grande número de fendas regulares que percorriam a estranha parede formando um retângulo de dois metros e meio de altura por um de largura.
Mas uma coisa chamou a atenção de Untcher: o chão da ruazinha estava livre de qualquer planta marinha. Enquanto nas outras ruas, as plantas cresciam por toda parte, chegando mesmo a trincar e esfacelar a pedra com o correr dos séculos, aqui o piso da ruela estava liso e muito bem conservado.
Com as grossas luvas, à prova de pressão, Untcher apalpou a parede misteriosa. Desta vez, não se espantou tanto, quando o trecho retangular, formado pelas fendas, fez de repente um movimento de recuo, deixando livre uma espécie de entrada. Houve apenas uma pequena correnteza, quase imperceptível. Isto significava que o cômodo atrás daquela entrada ou estava cheio de água ou tornou-se cheio na hora em que Untcher, sem querer, tocou no mecanismo invisível.
Untcher se pôs em contato com o barco anfíbio:
Encontrei uma espécie de comporta. Acho que não é sensato andar sozinho por aqui. Estou precisando de alguns de vocês que queiram repartir o medo comigo.
Thomea Untcher era um dos poucos comandantes espaciais que podiam tomar a liberdade de falar abertamente de seu medo, sem perder o respeito de que gozava. Sabiam que ele devia estar sujeito ao medo, mas sabiam também que teria condições de enfrentar qualquer situação, realizando verdadeiras proezas, se necessário fosse.
Untcher se aproximou da pequena abertura, na esperança de bloquear o mecanismo de esvaziamento. Mas esperou até a chegada de seus companheiros. Colocou a cabeça de tal modo que o farolete do capacete penetrasse no aposento escuro, vendo então que o cômodo tinha uns nove metros quadrados, com uma altura de três metros. Na parede fronteiriça havia também um retângulo de fendas, o que fez com que Thomea Untcher chegasse à conclusão de que se tratava mesmo de uma comporta.
O compartimento da eclusa estava vazio e Untcher não pôde localizar o mecanismo que conseguia neutralizar a fantástica pressão da água, no fundo do oceano, a mais de quatro mil metros de profundidade. As paredes eram lisas e não lhe deixavam perceber nada.
Na esquina da ruela, já definiam-se os vultos dos homens que Untcher havia chamado. Envolvidos pelo halo de suas lanternas de capacete, pareciam verdadeiros fantasmas dentro d’água; os corpos muito inclinados para frente, numa posição em que, em condições normais, já teriam caído no chão. Assim é que eles tinham que caminhar para poder vencer a terrível pressão da água. Untcher os esperava ansioso. Eram três homens e juntos entrariam na câmara da eclusa. Era importante que assim fosse, pois não sabiam o que os esperava do outro lado da comporta.
Não preciso dizer a vocês que devem permanecer com as armas engatilhadas — disse Untcher, depois que todos penetraram na câmara da eclusa. — Atrás desta porta, é a terra de ninguém e pode ser que quem for mais rápido no tiro, tenha mais chance.
Depois deixou o lugar que ocupava sob a entrada e, como havia previsto, na mesma hora a comporta se fechou. O trecho da parede, que havia deslizado para o lado, movimentou-se, indo de encontro à abertura, fechando-a hermeticamente.
Thomea Untcher estava quebrando a cabeça para compreender como os éfogos chegaram a construir uma tecnologia tão avançada. Observara nas residências dos éfogos que para o fechamento das portas de suas casas, havia uma barra de ferro que puxavam para o lado, empurrando depois a porta para dentro. Portanto, na tecnologia dos homens-peixe, não havia possibilidade de fechos automáticos nas comportas.
Curioso e tenso ao mesmo tempo, aguardava o que estava para vir. Seu olhar estava em movimento contínuo, a fim de não perder o momento em que as águas começariam a fluir, sob a pressão das bombas invisíveis.
Quando notou o que estava de fato acontecendo, teve momentaneamente aceleradas as batidas do coração. Percebeu que uma parte da câmara ficou de repente vazia, sem que tivesse havido o menor movimento na massa líquida. Pensou a princípio que se tratava de um erro óptico, devido à pouca visibilidade. Mas o “fenômeno” continuou e, quando a outra parte da câmara também se esvaziou, sem que ninguém pudesse dizer para onde ia toda aquela água, tornou-se impossível negar a existência de alguma coisa terrivelmente misteriosa...
Podia-se ver como a água corria para a direita, para o portão de fora. Via-se a coluna de água que se levantava do chão, chegando até o teto da comporta, zombando de todas as leis da natureza. Esta coluna d’água se movia e era o único movimento que se podia ver. Movia-se para dentro da comporta, como se deslizasse sobre rodas e como se houvesse alguém encarregado de tocá-la para frente — este alguém naturalmente seria invisível! Sendo que em tudo isto não se ouvia o menor ruído. Tudo se fazia num silêncio tétrico, deixando Untcher e seus três comandados apavorados e boquiabertos.
Untcher ainda estava imóvel, estarrecido, quando a última gota já havia desaparecido da comporta. Mecanicamente, sem estar consciente do que fazia, levantou o braço esquerdo e consultou os instrumentos de medição que lhe estavam no local do relógio de pulso. O manômetro indicava uma pressão de uma atmosfera e meia. A comporta estava cheia de um gás e a uma pressão facilmente suportáveis para os terranos.
Thomea Untcher notou como seus pensamentos se tornavam cada vez mais independentes, e como, sob o impacto de coisas nunca vistas, também lhe escapava o controle do raciocínio frio e objetivo. Teve de repente uma idéia a qual lhe podia servir de chave para explicar os fenômenos presenciados.
Lembrou-se dos resultados da moderna teoria de campo, um ramo das ciências naturais, que muito tinha ajudado no descobrimento dos transmissores ferrônios de matéria. Não lhe parecia agora impossível que a água pudesse ser tocada para fora da comporta por intermédio de um campo transportador, como também a introdução de gás, pela mesma via. E quanto mais pensava a respeito, enquanto seus comandados pareciam petrificados, tanto mais lhe parecia ser esta a única explicação possível. Suas conseqüências, porém, não lhe agradavam muito.
Um campo de transporte era uma coisa, para cuja produção seria necessário conhecimento profundo da teoria energética pentadimensional.
Não havia dúvida de que os habitantes de Opghan podiam ser criaturas adoráveis, com dotes esquisitos, às vezes mesmo admiráveis. Mas, da teoria energética penta-dimensional, certamente não entendiam nada.
Aquela comporta fora construída pelos estrangeiros, cuja tecnologia era, pelo menos, equivalente à dos terranos.
Olhando para cima, Thomea Untcher constatou que a comporta interna se movia lentamente. Ainda não conseguia ver o que havia lá fora. Sacou a arma porque estava convencido de que nos próximos minutos tinha que resolver muita coisa séria.

* * *

Nrrhooch sentia-se tão horrorizado, que no momento não pôde mover-se. O pequeno e velho barco estava no meio da rota do grande barco dos estrangeiros e, além disso, este último se movia tão rápido que por mais imediata que fosse a reação de Nrrhooch, não havia nenhuma possibilidade de se evitar o choque.
Mas aconteceu um quase milagre. Quando o barco dos estrangeiros surgiu à tona, rompendo a nuvem de lama, provocada pela queda do tronco de psimo, a proa pontiaguda irrompeu vertical, como se estivesse apenas esperando por esta abertura para escapar do emaranhado vermelho da floresta.
A quilha do barco dos estrangeiros passou raspando no pequeno bote dos homens-peixe. Nrrhooch até julgou ter ouvido o ruído leve do raspão.
Estupefato, ele viu como o veículo de proa pontiaguda deu uma guinada para o alto até desaparecer totalmente na penumbra leitosa das águas profundas. Nrrhooch não acreditou no que seus olhos viram. Os estrangeiros estiveram tão perto que poderia tocar no moderno barco. O mais esquisito é que foram eles mesmos que proibiram os éfogos de se utilizarem de qualquer tipo de embarcação. Se os tivessem visto, os teriam detido e apreendido o velho barco de Grghaok.
Certamente nem chegaram a ver a pequena embarcação dos éfogos e continuaram sua viagem.
Nrrhooch olhou para os dois velhos e soltou um grito de alegria. Era visível a felicidade estampada no semblante de Grghaok.
Para frente! — ordenou Nrrhooch. — Não podemos parar, o mar está sendo nosso amigo. Em pouco tempo estaremos em Pchchogh e nos encontraremos com os terranos.

* * *

Ran Loodey não tinha nada contra o fato de os estrangeiros quererem vir a bordo da Finmark. Eram de boa estatura, musculosos e espadaúdos; seis ao todo e, desde o começo, se comportaram de tal modo como se a nave lhes pertencesse. Ran Loodey parecia estar de acordo. Tinha pessoalmente a opinião de que os invasores barbudos eram os legítimos donos da Finmark e... estava tudo muito bem. Indiferente, nem quis saber quem eram aqueles estrangeiros, de onde vinham e o que pretendiam. Sentia-se até mais aliviado porque o comando da espaçonave havia passado às mãos dos invasores. Parece que todos os amigos do sargento pensavam do mesmo modo.
Nesta pronunciada apatia, ninguém reparou que os estrangeiros traziam pequenos cilindros metálicos, e os escondiam cuidadosamente por todos os cantos da Finmark, de tal maneira que não seriam encontrados facilmente. Porém, mesmo que Ran Loodey tivesse notado qualquer coisa, não ia fazer nenhuma objeção e concordaria com tudo.
Finalmente, um dos corpulentos estrangeiros penetrou na sala de comando e ordenou a Loodey que preparasse a espaçonave para partir imediatamente.
Vocês retornarão imediatamente à Terra, pelo caminho mais curto — ordenou o gigante barbudo.

* * *

O único que não estava satisfeito com sua situação era o Dr. Teodoro Dunyan.
Quando voltou a si, sentiu uma coisa fibrosa na boca, não conseguindo nem mover a língua. A cabeça lhe doía tremendamente por deficiência de respiração. Também não enxergava nada, pois em cima dele havia uma série de cobertores, roupas e coisas semelhantes que o isolavam do ambiente externo. Não podia nem mover os braços. O malandro do Loodey o havia amordaçado e amarrado com técnica de mestre.
Por falar em Ran Loodey... O Dr. Ted Dunyan descobrira finalmente a causa da estranha alteração no comportamento de Loodey e de alguns membros da tripulação. O resultado das pesquisas foi tão surpreendente e ao mesmo tempo incrível, que Dunyan a princípio julgou ter sido vítima de algum erro, e tal dúvida obrigou-o a repetir os exames.
Com a confirmação do primeiro resultado, Dunyan teve um grande choque emocional, ao perceber que havia descoberto uma coisa importantíssima para a Humanidade.
Loodey tinha voltado a si e agia com a naturalidade de quem é dono de todas as suas faculdades. Disse com toda autenticidade que lamentava tudo que fizera contra a disciplina e não queria outra coisa, a não ser dirigir-se diretamente ao comandante, para desculpar-se.
Dunyan tinha previsto esta fase no processo do misterioso mal. E o fato de ela ter se concretizado era mais uma prova da veracidade de suas descobertas. Fez tudo que pôde para que Loodey não percebesse que estava sendo observado e que ele, Dunyan, sabia do estado semi-hipnótico que perdurava em Loodey.
Mas, de alguma maneira Dunyan se traíra, ou então Loodey chegara à conclusão de que um adversário a menos era sempre melhor. O fato foi que, quando o médico estava ocupado com seus instrumentos, Loodey saltou de repente contra ele. O Dr. Dunyan ainda guardou a expressão fria do rosto de Loodey. E a partir deste momento, o médico não sabia de mais nada. Quando voltou a si, sentia uma enorme falta de ar e percebeu que estava amarrado e amordaçado.
Ted Dunyan era acima de tudo cientista. Ainda rapaz, com vinte e poucos anos, entrara para a Frota Solar por estar convencido de que nas viagens pelos confins das Galáxias teria oportunidade de ampliar seus conhecimentos.
Agora, somente a preocupação com sua vida não lhe teria dado forças para escapar das mordaças e dos laços bem dados. Mas a consciência de estar de posse de uma importantíssima descoberta e ficar ali preso, lutando para respirar, ao invés de voltar à Terra e expor a todos o que acabara de descobrir, o fez converter toda sua ira inteligente em força física, a fim de libertar-se das amarras.
Ficou mais esperançoso, quando ouviu vozes. Pensou que Loodey estivesse voltando para ver seu estado, mas notou que as pessoas falavam o arcônida.
Ficou naturalmente mais curioso. Não fez mais nenhum movimento para não fazer barulho e ser descoberto. Ouviu como um dos interlocutores desconhecidos ria bem alto e afirmava:
Até que a Terra tenha notado que o negócio se espalhou por toda a sua atmosfera, não estarão mais em condições de se protegerem.
E seu companheiro o acompanhou na estrondosa gargalhada.
Ted Dunyan sabia a respeito de que os dois arcônidas estavam falando. Era o único terrano que sabia o que os estrangeiros pretendiam dizer com a palavra “negócio”. Assim que as vozes emudeceram e os passos se afastaram, como um louco, começou a forçar suas amarras, usando uma força que não era sua, mas do conhecimento do perigo iminente que a Terra corria.

* * *

Atrás da comporta, a ruazinha continuava. E continuava igual ao trecho lá de fora, com a diferença apenas de que as casas, de ambos os lados eram agora bem conservadas e, ao invés da água turva e leitosa do mar, estavam cheias de um ar claro e puro.
Thomea Untcher não teve mais tempo de olhar para cima, a fim de constatar que o terraço, que protegia as casas contra a incrível pressão da água, estava inteiro, enquanto do outro lado, havia mais buracos do que espaços cobertos. Não teve tempo nem mesmo de sacar a arma, embora se esforçasse ao máximo para estar sempre preparado. Isto porque não via o inimigo. A ruela jazia tranqüila e vazia, sob os reflexos da luz amarelada. Convencido de que seu temor era exagerado, Untcher avançou uns passos sozinho.
Foi então que, de repente, uma pancada forte e atordoante o atingiu em cheio. Estava andando até então lentamente e com muita cautela, estudando os passos. Mas aquilo que o atingira de supetão tinha qualquer semelhança com uma muralha de aço.
Bamboleou e caiu. Recebeu mais uma pancada de algo ou de alguém invisível, perdendo então os sentidos.

* * *

O clarão amarelado de todos os dias, surgia da escuridão leitosa da velha cidade. A respiração de Norrhooch estava acelerada, pois só pensava que, em alguns décimos de milésimos, haveria de encontrar-se com os terranos, os estrangeiros que protegiam os povos oprimidos, de quem Grghaok contava maravilhas. Depois, seus pensamentos se volveram para o episódio com a estranha viatura dos estrangeiros que quase os atropelara e matara. Que estariam eles fazendo por aqueles lados das plantações de psimo? Não era ainda tempo de colheita.
Depois de superar com galhardia o primeiro momento difícil, Nrrhooch estava sentindo o gosto pela aventura e, se não fosse o encontro marcado com os terranos, teria certamente continuado no encalço do estranho veículo anfíbio.
Fez uma curva acentuada, dirigindo-se à cidade. Ao norte havia uma comporta aberta e, além disso, do norte para o centro de Pchchogh, onde ainda havia casas aproveitáveis, o caminho tornava-se mais curto.
Com o máximo de cuidado, seguindo as constantes admoestações dos dois anciãos, Nrrhooch mergulhou para o fundo da primeira abertura que encontrou, ao invés de continuar na mesma altura em que estava. Depois que a proa varou aquela passagem e ele pôde ver alguma coisa, notou pela segunda vez o elegante barco dos estrangeiros. Fosse por mera questão de subconsciente, que, sem ele perceber, guiava seus movimentos ou fosse pela sensação excitante da proximidade do perigo, estava imbuído de uma coragem que o capacitava para executar coisas com que nunca sonhara. E, desta vez não havia nele a menor sombra de pânico. A gravidade do momento não bloqueou seus movimentos, muito menos seu sangue-frio. Mais depressa do que os velhos poderiam supor, antes mesmo que tivessem notado a presença do barco dos estrangeiros, Nrrhooch desligou o motor. Deixou que seu barco caísse lentamente na mesma abertura do chão, pela simples força da gravidade.
Nrrhooch estava de ouvidos atentos. Lá embaixo estava tão escuro que não dava para ver nada. Mas não tinha dúvidas de que ouviria o movimento da água, caso os estrangeiros se aproximassem.
Por enquanto, não ouvia nada. Deixou passar algum tempo, enquanto os dois velhos, muito nervosos cochichavam qualquer coisa, com o terror estampado nos olhos. Teve então a coragem de ligar de novo o motor e subir lentamente pela abertura.
Viu o halo luminoso da velha cidade abandonada, viu o fundo do mar, liso e aberto diante de si. A viatura dos estrangeiros desaparecera. Tinha, pois, escapado pela segunda vez das garras daqueles homens barbudos.
Não podia fazer a mínima idéia do que pretendiam eles em Pchchogh. Nrrhooch era um homem sensato e começou então a refletir se os phchauchol, dos quais Grghaok tinha tanto medo e em quem Lchox nem queria acreditar, não estavam mancomunados com os estrangeiros barbudos, que por um ou outro motivo tinham grande interesse em que Pchchogh continuasse abandonada e vazia.
Quem sabe estaria em Pchchogh o quartel-general dos estrangeiros! Ninguém em Opghan sabia realmente onde eles moravam. Estava ora aqui, ora ali... mas onde residiam? Será que seu domicílio era mesmo Pchchogh?
Em Pchchogh havia realmente casas intactas; muitos éfogos, apesar das histórias horripilantes dos sanguinários phchauchol, haviam penetrado na cidade e viram muita coisa. É claro que nenhum deles ficara tempo demais na cidade abandonada e tão pouco se arriscara a penetrar em qualquer casa. E se os estrangeiros realmente tinham a intenção de permanecer ocultos, podiam fazê-lo facilmente. Mas será que não passavam de simples vítimas todos aqueles que não regressavam de Pchchogh e cujo desaparecimento ou morte era atribuído aos phchauchol?
E como se estivesse tendo uma visão, Nrrhooch percebeu que os estrangeiros realmente residiam em Pchchogh e tal qual os chchrorl sanguinários, que viviam nas cavernas e com seus possantes tentáculos, pegavam sempre suas vítimas desprevenidas. De lá do fundo do mar, em Pchchogh, é que tramavam tudo para subjugar facilmente aquela gente sofredora e mantê-la em escravidão.
E mais uma coisa espantosa, estava ele vendo naquele momento: os novos estrangeiros, os terranos, como Grghaok os chamava, corriam perigo iminente, pois não sabiam dos mistérios que se escondiam em Pchchogh.

* * *

Ted Dunyan desmaiou diversas vezes, antes de conseguir qualquer resultado. A luta desesperada contra as amarras e a mordaça custava-lhe muito ar, e era exatamente isto que o Dr. Dunyan não tinha. Constantemente estava vendo estrelas girarem diante de seus olhos, ficando ali desacordado, antes de voltar a si para recomeçar seus ingentes esforços.
Mas, de repente, como se tivesse vencido a maior batalha de sua vida, conseguiu liberar um braço. Uma larga tira de pano estava ainda presa no pulso, mas isto não o impediu em nada. Removeu primeiro a mordaça, depois atirou para o lado os pesados cobertores e panos velhos, onde estava “sepultado”. A seguir, sorveu com satisfação o ar fresco, num verdadeiro exercício de respiração.
Por último, desatou os pés e levantou-se, abrindo as portas do armário, movendo-se um pouco de um lado para o outro, na antiga cabina de Loodey, evitando naturalmente qualquer ruído. Estava com isto reativando a circulação sangüínea. Achava-se consciente de que corria grande perigo. Do posto de comando, Loodey podia ligar qualquer aparelho do intercomunicador. Caso se lembrasse de ligar para esta cabina, Ted Dunyan estaria perdido, antes de começar a executar seus planos.
Assim que diminuiu um pouco a dor lancinante do reinicio do funcionamento normal da circulação do sangue, Ted Dunyan achou que seu organismo estava preparado para os esforços que iria enfrentar. Abriu com cuidado a porta da cabina e deu uma olhada no corredor.
Estava vazio. A uns dez metros à esquerda, dava para o corredor central do convés, servido por uma esteira transportadora, que proporcionava maior rapidez. Ted resolveu fazer uma tentativa, embora não soubesse se Loodey havia colocado guardas por ali. Chegou sem ser percebido até o início do corredor central. Ouvia apenas o inevitável zumbido de todo interior da espaçonave e a vibração surda da esteira transportadora. Em todo o corredor central não se via ninguém.
Ted Dunyan não podia desejar coisa melhor. Seu plano continuava firme. Depois de ter andado uns trinta metros no corredor central, sentia-se mais seguro. Nos caminhos tortuosos e escuros por onde teria de andar daí para frente, certamente não encontraria ninguém.
Nem uma só vez passou pela cabeça de Ted Dunyan que seria rematada loucura querer conquistar uma espaçonave totalmente tripulada, sozinho e desarmado.

* * *

Thomea Untcher abriu os olhos e viu diante de si três seres estranhos, postados como estátuas, numa posição de curiosidade Ma e científica.
Como se um véu lhe saísse de repente dos olhos, quando notou melhor os estranhos percebeu imediatamente de onde vinha o complô, que se encenava em Opghan, e compreendeu o alcance do que estava se passando naquele momento.
Dois dos homens eram espadaúdos e de boa estatura, ambos de barba completa, embora a barba do mais moço parecesse postiça. O terceiro era um modelo de feiúra. Maior que os outros dois e terrivelmente magro, seco. Sua cabeça estreita, abobadada e sem cabelo era dominada por dois olhos inteligentes e cruéis. Lábios estreitos e austeramente unidos. O pescoço sobressaía dos ombros estreitos.
Os aras tinham a mesma origem dos saltadores e dos arcônidas. Partindo da crença de que uma força invisível criara o Universo com o único fim de que os aras viajassem por ele para desvendar seus mistérios, acabaram se transformando numa raça de cientistas. Cientistas estes que buscavam a ciência pela ciência e não tinham a menor consideração diante dos direitos de outra gente.
As maiores conquistas científicas dos aras eram no domínio de medicina e da biofísica. Não havia médicos iguais em toda a Galáxia, embora muitos de seus pacientes, independentes de suas vontades, tivessem sido retalhados em pedaços, somente para que eles, os aras, estudassem o mistério da vida humana. Subjugaram muitos planetas por meio de seus medicamentos e os psicotrópicos e narcóticos de sua fabricação eram disputados a bom preço em toda a Galáxia. Agora já produziam até monstros artificiais em suas retortas, e estes terríveis produtos humanos de laboratório começavam a inquietar a Segurança Terrana.
Os aras tinham se enquistado em Opghan. Thomea Untcher, neste momento, não podia fazer outra coisa, senão sentir compaixão dos éfogos. Esta pobre raça estava já condenada à estagnação, pelo simples interesse dos aras por eles.
Os outros dois homens eram saltadores, descendentes daquela raça nômade, que se consideravam agrupamentos de comerciantes. Acreditavam que Deus criara, em especial para eles, o monopólio comercial. Alguns comandantes saltadores de maior prestígio foram às vezes aliados de Perry Rhodan, nunca, porém, seus verdadeiros amigos. Em suas relações com os povos das Galáxias, a Terra tivera, mais de uma vez, sérias encrencas com os chamados comerciantes das Galáxias. Era bem recente a história do patriarca Cokaze, cuja pretensão era ocupar definitivamente a Terra, já que não conseguira dela o tratado de monopólio comercial no sistema solar.
De qualquer maneira, não era a primeira vez que aras e saltadores se uniam para uma ação em conjunto contra a Terra, como também contra o Império Arcônida.
Depois de selecionar seus pensamentos, Untcher começou a interessar-se mais por sua própria situação. Não estava amarrado, apenas sentado numa cadeira. Porém, sem poder fazer nenhum movimento. Os únicos músculos que obedeciam ao seu comando eram os das pálpebras, da boca e os que facultavam o processo de respiração. Estava se recordando agora dos dois terríveis impactos que recebera, sabendo que fora atingido por arma de descarga elétrica. A paralisia era conseqüência do choque nervoso e haveria de desaparecer com o tempo.
Seus dois companheiros não estavam mais à vista. O aposento parecia-lhe muito espaçoso e equipado apenas com instrumentos medicinais. Era um gabinete como se esperaria numa cidade dos aras. Estava, pois, mais do que claro que os aras tinham também uma colônia, ou melhor, um ponto de apoio em Pchchogh. Foram eles que construíram a eclusa que tornava uma parte da cidade habitável. E Thomea Untcher foi um marinheiro de primeira viagem que caiu como um patinho na armadilha. Era o que mais irritava o velho comandante.
Os três estrangeiros em torno dele notaram que voltara a si. Um deles, o saltador com a barba verdadeira, deu um passo à frente e declarou em arcônida:
Sou Nathael, patriarca da minha estirpe. Quem quer que o senhor seja, poderia ter feito coisa melhor do que meter o nariz em coisas que não são de sua conta.
Não se trata de coisas que não me dizem respeito — respondeu Thomea Untcher calmo, num tom de voz ponderado, como se estivesse sentado numa sala de conferência e conversasse com pessoas de alto nível intelectual. — O Império Arcônida nos solicitou a cooperação numa ação policial em Opghan e, a partir deste momento, isto é um assunto de nossa competência. A Terra mantém com Árcon um tratado de cooperação mútua que nos obriga a prestar auxílio em casos como este. E os senhores sabem que nós cumprimos nossos tratados.
Parece que Nathael não deu muita importância à indireta sobre a falta de responsabilidade de seu povo. Pelo contrário, passou para o tom banal de conversa e respondeu:
Aqui se trata de um negócio, meu amigo.
Meu nome é Untcher, Thomea Untcher, só para que você não esteja obrigado a me chamar de “meu amigo”.
Nathael ficou um pouco embaraçado. Depois continuou:
Trata-se, como já disse, de um negócio. E estes negócios são assuntos exclusivamente nossos. Não podemos tolerar nenhuma interferência de fora e, em virtude de o senhor não ter respeitado este nosso direito, vai pagar com a vida, ou no mínimo com sua vontade...
Thomea Untcher viu nestas palavras uma possível alusão aos estranhos fatos ocorridos com a tripulação da Finmark.
Ah! É isto? E como é que conseguirão destruir nossa vontade?
Nathael deu um sorriso malicioso e fez um gesto para o ara.
Muito simples. Nosso amigo Plougal trabalha já há muito tempo no desenvolvimento de um novo hormônio, cujos componentes básicos se encontram no embrião de uma planta nativa de Opghan, chamada de psimo. Conseguiu há pouco produzir este hormônio na sua fórmula mais eficaz... e o resultado disso o senhor já viu a bordo de sua própria nave.
Untcher concordou.
Você acha que os homens continuarão para sempre neste estado em que se encontram? O hormônio não perde o efeito com o passar do tempo?
Não automaticamente — respondeu Nathael. — O hormônio contém neo-amino-disprosionato. Este componente pode ser neutralizado através de irradiações com nêutrons térmicos, fazendo com que os efeitos desapareçam e o neoamino seja aos poucos eliminado do organismo. Acho, pois, que somente a irradiação com nêutrons térmicos será capaz de afastar os efeitos do hormônio.
E você me descreve isto assim tão abertamente? — perguntou Untcher.
Nathael respondeu com um gesto displicente:
Você não terá oportunidade de fazer proveito destes conhecimentos.
Quer apostar? — disse Untcher. Nathael franziu a testa.
Como? Ah, sim! — e começou a gargalhar estrondosamente. — Você não teria mais nem tempo para pagar a aposta perdida.
É lamentável, mas isto não tem maior importância. Agora, diga-me só uma coisa. Como é que vocês descobriram Opghan e quais são seus planos daqui para frente?
Nathael estava sentindo gosto no seu papel de superioridade e quis bancar o soberano condescendente, respondendo todo bonachão:
Já há muitos milênios que Opghan é um campo de pesquisa de nossos amigos da estirpe de Plougal. Começaram estudando os seus habitantes, os éfogos. Você já deve ter notado que eles têm uma série de características, segundo as quais temos que classificá-los como descendentes de emigrados arcônidas. Por outro lado, nenhum tipo de arcônida, mesmo vivendo num mundo quase só de água, como este, desenvolveu nadadeiras e tubos de respiração. Os fatos são contraditórios. O enigma se resolve, quando se sabe que a estirpe de Plougal, logo depois da chegada dos arcônidas a Opghan, fundou aqui uma colônia.
Naturalmente, de início vieram apenas duas naves de Plougal, pois mais gente não iria caber nas três mil e tantas ilhotas. Esta gente pesquisadora de Plougal logo percebeu que era um contra-senso um punhado de homens viverem encurralados em ilhas-miniatura, quando Opghan oferecia lugar folgadamente para milhões e milhões de emigrantes, caso estes emigrantes soubessem adaptar-se ao meio ambiente, ou seja, aos fatores ecológicos.
E os aras levaram avante este plano, parte com a cooperação dos próprios emigrantes. E assim, no correr de muitos séculos e muitas gerações, criaram uma nova raça, a raça dos éfogos, dos homens-peixe. Você sabe como é esta gente dos Plougal. Fazem qualquer sacrifício pela ciência. A experiência durou praticamente mil anos, mas seu esforço foi coroado de êxito. Haviam criado uma raça para as condições do planeta.”
Thomea Untcher fez qualquer movimento na cadeira. Constatou que seus músculos e nervos já lhe estavam obedecendo.
Para os primeiros emigrantes devia ter sido um grande choque — afirmou ele — presenciarem que seus filhos passavam a ter nadadeiras e trombas para respiração.
É claro que no princípio não foi muito agradável — respondeu Nathael sorrindo — mas os aras, em benefício da ciência, sacrificam a felicidade e até a vida se necessário for.
Untcher já podia mover a cabeça. Concentrou os olhos no rosto de Plougal, procurando descobrir seu pensamento. Mas Plougal não movia um só músculo. A descrição dos atos desumanos de seus irmãos de raça não o alterava em nada.
Com Nathael já não era assim. Parece que ele se empolgava com o som de suas palavras. E, neste tom, continuou falando:
Durante séculos e séculos os aras tinham aqui apenas um pequeno núcleo de colonização. Você compreende, as conseqüências de uma tal experiência devem ser acompanhadas com cuidado e escrúpulo. Em todo este tempo do longo trabalho científico, não podiam esperar que Opghan lhes trouxesse qualquer vantagem material. Descobriram então o hormônio do psimo e a partir daí, surgiu, de um momento para o outro, um grande interesse em Opghan.
Fizeram algumas experiências que acabaram dando excelentes resultados. Os aras pensaram então em explorar a plantação espontânea das florestas de psimo no fundo do mar. Mas, para isto, precisavam do trabalho dos éfogos e já que eles, por sua vontade, jamais trabalhariam com compromisso de horário, tinham de ser obrigados a fazê-lo. Você conhece o modo de pensar dos homens da estirpe de Plougal.”
Esticou os braços para um gesto bem largo, como se falasse a um amigo sobre outro amigo, cujo erro procurava justificar.
São incapazes de cometer violências e, por outro lado, não possuíam ainda a quantidade de hormônio necessária para dominar completamente os éfogos. Ofereceram-nos interesse comercial e nós aceitamos e executamos este trabalho para eles. Em poucos dias, não se esqueça de que um dia neste maravilhoso planeta dura quase nove dos seus dias da Terra, será produzido tanto hormônio que transformaremos estes éfogos em simples máquinas de trabalho, quase gratuitas. Então começará um comércio maravilhoso para nós, com um lucro tremendo...
Thomea Untcher não quis mais responder. Estava literalmente saturado, pois há um limite para tudo. Apesar de ser um espírito liberal, tolerante, sem preconceito de espécie alguma, não suportava mais a nojenta frivolidade e o cinismo de seu interlocutor. Já sabia bastante da história lamentável dos pobres éfogos. Eram descendentes dos velhos arcônidas, mas com as experiências degradantes dos aras sofreram grandes alterações biológicas, regredindo para uma fase de primitivismo da qual os arcônidas se haviam liberado já há muitos milênios. Sabia também que uma parte dos conhecimentos técnicos e científicos continuava preservada entre os mais bem dotados, de maneira que os éfogos estariam em condições de, dentro de alguns séculos, erguerem uma nova civilização, de valor apreciável. Assim se explicava também uma certa contradição neste povo singular: possuíam, por exemplo, submarinos para qualquer profundidade oceânica, melhores que os da Terra de antes da Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, não sabiam o que era um rádio e ainda praticavam a pesca submarina com arpões de ar comprimido, ao invés de usarem armas de fogo.
Untcher compreendia tudo agora. Viu como seus homens, na Finmark, entraram em total dependência mental, sob os efeitos da droga contida nos cilindros metálicos. Sabia muito bem que, com uma arma deste tipo nas mãos, os saltadores seriam uma desgraça para todo o Universo. Certamente, sua primeira vítima seria naturalmente a Terra. Os saltadores eram tão inescrupulosos como os aras. A única diferença: o objetivo dos aras era científico, enquanto que os comerciantes das Galáxias visavam exclusivamente aos lucros materiais.
Há apenas uma coisa que me interessa saber — disse Untcher. — Que aconteceu com meus homens?
Oh! Não se preocupe com eles — respondeu o cínico Nathael. — Estão conosco, vieram à sua procura, quando você demorou a aparecer. Caíram na mesma cilada que você. Estão bem guardados. Há muitos séculos, os aras expulsaram os éfogos desta cidade no fundo do mar, inventando para isto histórias macabras de assombração e simulando ataques de monstros submarinos. Tudo isto para convertê-la em sua base de operação. Dispõem aqui de mais de duzentas habitações intactas e luxuosas, servindo de residências particulares a cada um de seus homens.
Untcher ouvia silencioso. Sabia que, ao menos no momento, não lhe restava nenhuma esperança. Se conseguisse sair de Pchchogh, haveria de fazer muita coisa.
Uma parcela de seu desânimo parecia se refletir em seu rosto e Nathael que considerava o abatimento moral do prisioneiro muito importante para seus intuitos, continuou desfilando o rosário de coisas desagradáveis:
Não é apenas isso, Untcher. Estamos também de posse de sua nave. Nossos homens estiveram a bordo da Finmark e deram ordem ao sargento Loodey de regressar imediatamente à Terra. É claro que Loodey obedecerá. Em poucas horas, a nave estará a caminho da Terra, com uma carga perigosíssima a bordo, como lembrança de Opghan.
Untcher não tinha a menor dúvida da veracidade das palavras de Nathael. Procurou esconder a grande aflição que lhe ia no íntimo, mas não foi de todo possível. Não queria, de maneira alguma, dar esta alegria ao saltador, de vê-lo abatido e conturbado. Ficou, pois, mais alegre, quando percebeu qualquer movimento atrás dele e Nathael, o outro saltador e Plougal se entreolharam estupefatos.
Que que há, Aktar? — ouviu ele a pergunta de Nathael.
Três éfogos abateram um guarda na comporta de Bchacheeth e deixaram a cidade — falou numa voz muito excitada. — Chchaath já enviou todos os homens disponíveis em seu encalço. Veio para cá o mais depressa possível. Persiste a possibilidade de os fugitivos estarem a caminho de Pchchogh.
Nathael ainda estava confuso e, para despistar, perguntou:
Vocês ainda se preocupam com estes miseráveis éfogos?
Eu não me preocuparia tanto — respondeu Aktar, como se estivesse se desculpando. — Mas Chchaath afirma que um deles, um tal de Grghaok conhece todos os cantos e recantos de Opghan. Chchaath acha que este éfogo é capaz mesmo de penetrar nesta cidade submarina, sem ser percebido.
6



Sim — disse Grghaok com segurança — eu sei um caminho.
Nrrhooch e Lchox olharam-no com admiração e com muito respeito.
Você sabe...! — sussurrou Nrrhooch.
Grghaok fez um simples gesto de confirmação.
Quando era ainda rapaz — explicou o velho — interessava-me muito pelas coisas mais misteriosas. Pchchogh era uma delas. Conheço esta cidade melhor do que ninguém.
Mas os phchauchol? — interrompeu Nrrhooch. — Você não tem medo deles? Você não confessou isso uma vez?
Claro que tenho medo. Já me defrontei uma vez com um deles e não foi brincadeira.
Como foi isto? — perguntaram Nrrhooch e Lchox a uma só voz.
Grghaok esticou as palmas da mão para cima.
Tão exatamente, não posso me lembrar assim. Já faz tanto tempo. Lembro-me de ter levado um tremendo choque por trás. Foi como se o phchauchol tivesse avançado contra mim. Depois não me recordo de mais nada, até o momento em que recuperei os sentidos e reparei que estava deitado no meio da rua.
Na água? — perguntou Nrrhooch espantado.
Claro que não. Estava na parte intacta e boa da cidade. Do contrário teria me afogado. Ninguém tem reserva de ar para tanto tempo, para agüentar um longo período desacordado dentro d’água.
Grghaok, se eu entendi bem, você nem chegou a ver o phchauchol direito, não é? — perguntou Lchox.
Não, não cheguei a vê-lo mesmo não. Apenas senti.
Então — continuou o mesmo Lchox — pode ser que quem lhe deu o choque foram os estrangeiros que vivem em Pchchogh, como acredita Nrrhooch.
Pode ser mesmo — concedeu Grghaok. — Talvez consigamos botar isso em pratos limpos, dentro de pouco tempo.
Levantou-se e abriu a pequena escotilha do barco.
Vamos sair, minha gente — propôs ele. — Quem sabe os terranos estão de fato em perigo.
O mais moço, Nrrhooch, desceu na frente. O pequeno barco estava perto das ruínas da velha carcaça de pedra artificial que circundava toda a cidade, resguardando-a da pressão d’água. Esta carcaça grossa e muito forte tinha sido arrebentada de propósito em vários lugares e podia-se penetrar na cidade, sem se fazer uso de comportas. E mesmo, muitas das comportas já estavam há muito fora de uso e não passavam de meros buracos, como por exemplo a eclusa do norte, que não estava longe.
Grghaok foi conduzindo os dois éfogos para a parte inundada de Pchchogh. O velho era muito cauteloso em seus movimentos, nadando com muita agilidade. Seus amigos o seguiam com as mesmas precauções.
Nrrhooch não deixou de ficar apreensivo, quando o viu penetrando por uma janela numa casa completamente escura. Mas seguiu seu guia, porém, já com a arma que tirara do guarda na mão, esperando nervosamente que ela funcionasse mesmo dentro da água.
De repente, no meio das trevas, ouviu-se a voz de Grghaok.
Por algum motivo que desconheço, esta casa tem uma comporta especial. Quem sabe seu dono era um homem muito precavido que já antevia que a carcaça de proteção seria um dia rompida. Queria ter uma saída garantida para tal emergência. De qualquer maneira, aquela escotilha da comporta leva para a parte seca de Pchchogh. Quando estive aqui pela última vez, isto foi há uns quinhentos dias, os estrangeiros ainda não haviam descoberto esta comporta. Constatei tal fato por uns sinais que fiz nela e não foram apagados.
Uma luz amarelada, muito fraca, entrava pela janela vazia. Os olhos de Nrrhooch tinham que se adaptar primeiro à escuridão. Depois foi vendo como Grghaok fazia alguma coisa na parede dos fundos do aposento. Nadou até lá para ajudá-lo e juntos começaram a mover uma trave que fechava a escotilha, trave esta conservada perfeita, apesar dos muitos séculos de mergulhada na água.
O compartimento atrás dela era muito pequeno. Foi-lhes um pouco difícil caberem os três ali dentro. Trancaram a porta, esperando que as bombas começassem a funcionar. No primeiro instante nada aconteceu. Enquanto isto, Grghaok estava de novo mexendo na porta externa e examinando os sinais que fizera há muitos dias atrás.
Ainda não a descobriram! — exclamou contente.
Isto não nos vai adiantar muita coisa”, pensava triste Nrrhooch, “se as bombas não funcionarem...
Mas no mesmo momento, as águas começaram a mover-se em remoinho e a espumar. Uma possante sucção as puxava para os fundos da comporta, fazendo-as desaparecer no funil das bombas. Após dois décimos de milésimo, a comporta estava sem água e limpa, cheia de ar respirável.
Abriram a porta externa. Estava tão dura que foi necessário o esforço dos três. Uma luz mais clara e mais amarela penetrou pela abertura, lá fora havia uma rua bem conservada e seca da velha cidade. As casas ao longo desta rua davam a impressão de que os habitantes de Pchchogh ainda estivessem vivos.
Nrrhooch foi o primeiro a dar um passeio na rua. Sentiu-se, porém, um pouco tolhido no silêncio sepulcral que inundava a cidade. A mão direita, com as nadadeiras transparentes entre os dedos, apertava a arma de fogo do guarda abatido.
Os dois velhos vinham conversando atrás. Parecia que roncavam mais do que falavam. Nrrhooch queria aconselhá-los a manterem mais silêncio, mas antes que o pudesse fazer, viu uma coisa que lhe prendeu a atenção.
A porta de uma das residências mais para baixo começara a se mover. Fazia-o lentamente, centímetro por centímetro, como se não quisesse mostrar os segredos que havia por detrás dela. Nrrhooch viu o brilho de uma luz azul-clara, através da fenda da porta. Aproximou-se dos dois velhos e lhes deu uma cotovelada para lhes chamar a atenção. Com dois ou três passos silenciosos, se retiraram para a parede da habitação mais próxima e procuraram se esconder do melhor modo possível nos nichos da construção.
A porta da casa mais abaixo se abriu de todo e, por alguns momentos, Nrrhooch não via outra coisa a não ser uma abertura retangular cheia de uma claridade quase ofuscante. Depois surgiram no fundo duas figuras: uma de estatura normal, a outra muito alta e magra. Nrrhooch acreditou a princípio que a distância e a luz amarelada tivessem lhe causando uma ilusão óptica, pois uma figura assim não podia existir. Mas os dois indivíduos eram reais e saíram para a rua e um deles continuava tremendamente alto e magro.
Nrrhooch teve um calafrio ao reconhecer o outro homem. Sua pele tinha um brilho esverdeado e estava coberta de escamas. Sua cabeça redonda e sem cabelos brilhava como se estivesse molhada. Chchaath e seu companheiro muito alto vinham pela rua, exatamente na direção dos três éfogos, dos nichos na parede da casa, onde estavam escondidos.
Nrrhooch reparou como Grghaok, que estava encostado nele, começou a tremer. Ouviu gemidos de medo por parte de Lchox. Sabia que tinha de fazer alguma coisa, caso não quisesse que todos caíssem nas mãos assassinas de Chchaath e do outro estrangeiro. Por um instante, Nrrhooch julgou que o homem alto tinha de ser o terrano, pois, fora dos barbudos, não havia outros estrangeiros em Opghan. Mas depois, acudiram-lhe as dúvidas, pois Grghaok fizera tantos elogios aos terranos que seria impossível que estes se aliassem a um tipo como Chchaath.
O jovem Nrrhooch levantou a arma. Fê-lo com tanto cuidado que o cano continuou escondido no nicho da parede e ninguém o podia ver. O coitado do rapaz não tinha a menor idéia de como a arma funcionava. Felizmente tinha só um botão e ele esperava que desse resultado, quando o apertasse.
Chchaath e o horrendo gigante seco estavam já a poucos passos, quando Nrrhooch comprimiu o botão. O resultado ultrapassou de muito sua expectativa.
Num forte e seco estampido, saiu um raio ofuscante do cano da arma. Nrrhooch viu um caudal incandescente que varreu a rua e atingiu as paredes das casas do outro lado. Estupefato, ficou olhando para o rombo aberto na parede e para a pedra derretida que rolava pelo chão, enquanto se elevava uma fumaça de cheiro horrível.
Chchaath e seu companheiro ficaram parados, olhando a parede que ardia. Nrrhooch percebeu que não os atingira e corrigiu a pontaria de sua pistola de raios energéticos. Chchaath e seu colega queriam correr. Gritando loucamente, iam se esgueirando pela parede. Logo depois correram rua abaixo. Mas a terrível arma de Nrrhooch foi mais rápida que eles. O caudal ofuscante de raios interrompeu sua desabalada carreira.
Nrrhooch, admirado, depois de alguns instantes de susto, reparou que acabaria destruindo toda a cidade se continuasse atirando. De Chchaath e de seu colega, não restava mais nada. O fogo consumira tudo.
Nrrhooch olhou em volta. A extensão dos estragos que causara pareceu-lhe incrível. Desejava não ser mais necessário fazer uso de uma arma tão poderosa.
Por enquanto ainda necessitava dela. Ninguém poderia saber quantos inimigos abrigavam as belas casas daquele trecho de Pchchogh.

* * *

Thomea Untcher ouviu os dois tremendos estampidos. Sentiu o ar quente que entrou em lufada por alguma parede rebentada na vizinhança... e tratou de agir.
O saltador Nathael ficara sozinho com ele naquele compartimento, pois o homem de barba postiça, a quem chamavam de Echnatal, saíra já antes. Para onde, Untcher não sabia. Depois disso, o ara e o éfogo traidor também deixaram a casa e finalmente, o velho saltador Aktar também se despedira.
O que quer que estivesse acontecendo lá fora, não estava nas previsões de Nathael. Com um grito de horror, o saltador virou para trás e ficou olhando para a porta... e Thomea Untcher não perdeu a oportunidade!
Desprezando as grandes dores que sentia em todo o corpo maltratado, saltou de sua cadeira. Nathael ouviu o ruído atrás de si e ia se virando com a mão sacando a pistola. Mas Untcher foi bem mais rápido e, ligeiro, saltou nas costas do corpulento e barrigudo saltador, antes que este percebesse o que estava se passando. Untcher era mestre neste tipo de ataque. E com duas pancadas bem seguras, dadas com o canto da mão espalmada, na nuca do adversário, deixou-o estendido no chão, sem sentidos. Apanhou a arma, ainda quando o corpo estava caindo e saiu porta afora.
Aquela porta dava para um outro compartimento e lá estava o pobre Phil Lenzer, sentado também numa cadeira. Seu estado parecia bem mais grave, devia ter sofrido muito com os choques e exatamente por este motivo não havia guarda para vigiá-lo. Untcher gastou uns dois minutos para fazer com que Lenzer conseguisse ficar de pé. Fazendo-lhe massagens e, com palavras de estímulo, conseguiu colocar seu comandado em condições de reagir.
Enquanto isso, lá fora, em qualquer lugar da vizinhança, o barulho continuava, sem que Untcher pudesse saber de onde vinha.
Já acompanhado de Lenzer penetrou no próximo cômodo. Lá encontraram mais dois dos seus, sob a guarda do saltador com barba postiça. Echnatal também estava a caminho da porta, também assustado com o ruído. Ao abri-la, os dois terranos deram de cara com o saltador. Thomea Untcher, enfurecido, avançou contra ele, atirando-o inconsciente no chão.
Os terranos eram agora quatro e empunhavam duas boas armas. Podiam se atrever a penetrar mais na cidade desconhecida, a fim de libertar seus outros colegas.
Acharam-nos na próxima casa, vigiados por dois aras, que infelizmente estavam bem longe da porta de entrada, de maneira que os terranos não tinham possibilidade de travar uma luta corporal com eles. Assim que compreendeu a situação, Thomea Untcher começou a atirar, liquidando os dois guardas.
Imediatamente se dirigiu ao grupo de terranos.
Temos de voltar imediatamente para a Finmark — ordenou ele. — Cada um de nós quatro está agora com uma arma. Caso alguém queira barrar nosso caminho, temos de atirar. Vamos embora.
Não sabiam por qual das muitas portas se chegava à rua. Tentaram três vezes, na quarta deram com a rua, saindo daquela claridade exuberante da base submarina dos aras para a iluminação fraca e amarelada das velhas e abandonadas vielas.
A rua parecia ter sofrido há pouco um grande terremoto. Na parede de uma das casas havia um grande rombo e massa de pedra derretida se espalhava pelo chão. Fumaça de cheiro penetrante ainda estava no ar e, através dela, Untcher percebeu os vultos dos três éfogos.
Parou e começou a chamá-los. Os éfogos se viraram e vieram vagarosos em seu encontro. Untcher não sabia bem por que estava desperdiçando seu tempo. Mas acreditava que aqueles três fossem os homens-peixe com os quais falara da Finmark e aos quais havia prometido auxílio. Não, não podia deixá-los na mão, embora isto lhe custasse um tempo precioso.
Quando distavam ainda alguns metros, Untcher lhes gritou em arcônida:
Vocês são os homens de Bchacheeth? Nrrhooch, Grghaok e Lchox?
Palavras de confirmação vieram através da fumaça e os éfogos começaram a correr.
Somos os terranos. Os estrangeiros nos prenderam, mas nós nos libertamos. Como poderemos sair depressa da cidade?
Há uma comporta velha e abandonada — começou um dos homens-peixe a explicar em sua linguagem molhada, como se falassem com a boca cheia d’água — nós entramos por ela.
Untcher se dirigiu aos seus:
Atarraxem os capacetes, rapazes, temos que passar por uma comporta ali na frente.
Sem dizer uma palavra, os éfogos os acompanharam. A comporta era muito pequena para todos passarem ao mesmo tempo. Foram abandonando a velha cidade de quatro em quatro. Thomea Untcher e Nrrhooch ficaram entre os últimos.
Dos saltadores e dos aras não se via nem sinal. Para se compreender sua reação, tinha-se que conhecer a mentalidade dos aras. Certamente ouviram os tiros e o barulho todo e sabiam que alguma coisa não estava dando certo. Mas, se nesse momento estivessem ocupados com algum estudo sério, com alguma experiência, era para eles mais do que natural não se deixarem perturbar. Continuariam sentados diante de seus microscópios ou de outros instrumentos de medição, e não se incomodariam nem mesmo se o exército inimigo invadisse a cidade.
Quanto aos saltadores, o fato de não se manifestarem, Untcher explicava isto como conseqüência de que ali em Pchchogh só estavam os três: Nathael, Echnatal e Aktar. Os dois primeiros achavam-se desacordados e Aktar certamente já tinha deixado a cidade.
Untcher reparou na pistola térmica no cinturão de Nrrhooch e começou a entender como se originou toda aquela confusão em Pchchogh; os tremendos estampidos, o rombo na parede e o chão da rua todo estourado e derretido. Tudo isto porque um rapaz inexperiente apertou um botão de disparo de uma arma, cuja reserva energética ele desconhecia por completo. Thomea Untcher passou a ter grande respeito aos éfogos. Aquela gente era simples, mas destemida.
Após o tempo determinado, dando ainda uma pequena pausa de segurança, Nrrhooch abriu a portinhola da comporta e encontrou a câmara completamente vazia. Untcher, Nrrhooch e dois dos homens de Untcher foram os últimos a deixarem a cidade. Esperavam impacientes até que a câmara se enchesse e a pressão fosse a mesma do fundo do mar. Depois abriram a escotilha interna e saíram nadando pelo cômodo escuro da casa, passando pela rua iluminada, onde se encontraram com Grghaok, Lchox e os homens do grupo de Untcher, que já os esperavam.
Somente fazendo com que Grghaok encostasse a cabeça no seu capacete, Untcher conseguiu comunicar-se com o velho para lhe explicar como era o local onde havia deixado seu veículo anfíbio. O chefe dos éfogos se mostrou pronto para conduzi-los até lá. Untcher não estava certo se os aras não haviam danificado seu barco anfíbio, mas tinham pelo menos que procurá-lo e, com o auxílio do éfogo, vencerem aquele paredão de quatro mil metros de água.
Grghaok teve de reduzir seu ritmo de natação, pois os terranos, com pouca experiência do fundo do mar, moviam-se lentamente. Isto deixava Grghaok um tanto preocupado. Ele estava nadando rente ao teto de proteção da cidade e mostrava aos terranos como se utilizar das raízes das canáceas para se apoiar e dar bons impulsos para frente.
Apesar disso, levaram meia hora até chegar ao barco anfíbio. Estava onde o haviam deixado e não se notava indício de que alguém houvera penetrado nele.
O embarque foi rápido e sem dificuldade. Com os três éfogos como tripulação extra, não sobrava mais espaço no seu interior. Mas os homens de Thomea Untcher estavam acostumados a não medir sacrifícios para obterem sucesso. Queriam escapar dos aras e chegar salvos à superfície da água.
O próprio Untcher tomou o lugar do piloto. Numa ampla curva fez com que o barco iniciasse a subida, passando por uma grande fenda da pedra artificial que protegia a cidade de Pchchogh. A seguir, acelerou ao máximo. Estava preocupado com a frase de Nathael de que a Finmark já estava nas mãos dos saltadores, pois sabia que o patriarca não precisava mentir.

* * *

Ted Dunyan atingira seu objetivo. Estava sentado num reduzido compartimento onde se concentravam todas as válvulas das instalações de aeração da Finmark. Desta maneira, poderia controlar a nave e quando dessem por sua ausência, ninguém o viria procurar neste recanto esquecido.
Havia, porém, um grande ponto de interrogação no empreendimento técnico-científico do Dr. Dunyan: através do controle dos tubos de aeração da espaçonave, podia injetar qualquer quantidade de gás entorpecente para toda a nave. Mas não sabia quantos do grupo de Ran Loodey estavam de uniforme completo e assim não seriam atingidos pelo gás sonífero. E o pior ainda era que o próprio Dr. Dunyan também estava sem o uniforme e o capacete, arrancados por Loodey, antes de seu “sepultamento” no armário. Assim o médico seria a primeira vítima de seu plano para neutralizar os amotinados de Loodey.
Sua iniciativa só teria êxito se soubesse a hora exata em que Thomea Untcher voltaria de sua expedição. Se soubesse isso, Untcher, ao penetrar na Finmark, encontraria apenas um grande número de pessoas inconscientes a bordo, sem que houvesse perigosa resistência física. Supondo-se, naturalmente, que ninguém do grupo de Loodey estivesse com o capacete atarraxado.
O Dr. Dunyan necessitava, pois, de uma tela de rastreador para ver o que se passava em torno da Finmark. Sabia que lá fora continuava a grande noite, nove vezes mais longa que a noite da Terra. Mas esperava que as estrelas no céu claro e sem nuvens de Opghan dessem uma claridade suficiente para se ver alguma coisa lá embaixo. No pequeno compartimento das válvulas de aeração, não havia nenhuma tela de rastreador. Mas no posto de comando havia duas, e o compartimento das válvulas era uma dependência do posto de comando. Existia o perigo de ser visto pela tripulação, o que estragaria os planos de Dunyan. Mas tinha de ser assim mesmo, e ficou ali olhando para a tela, esperando a chegada de Untcher.
Passaram-se algumas horas, até que viu na tela a sombra do barco anfíbio, irrompendo da camada de gelo que cobria o mar. Voltou para o compartimento das válvulas e começou a injetar na espaçonave uma substância inodora, oraldin, e um entorpecente sem maior perigo, que, conforme o Dr. Dunyan esperava, agiria tão rapidamente, que não daria tempo para ninguém notar. No tocante a si mesmo, estava muito contente com o efeito do entorpecente, que ele seria o primeiro a experimentar. De fato, assim que acionou os registros, os contornos do pequeno compartimento se lhe desapareceram dos olhos e o doutor perdeu os sentidos. Merecia bem um repouso, depois de tantas horas de horrível tensão nervosa.

* * *

Thomea Untcher chegara na hora certa. Aproximou-se cautelosamente da nave, com seus homens, tendo o cuidado de deixar lá fora, no barco anfíbio, os três éfogos que tremiam de frio. Abriu uma das escotilhas laterais e foi entrando. Estranhou não encontrar nenhuma recepção, até que um de seus homens desatarraxou o capacete. E, no mesmo instante, cambaleou e caiu. Em menos de três segundos ficou inconsciente.
O mistério estava decifrado. Untcher constatou que o estado de inconsciência era geral em toda a nave, e localizou Ted Dunyan sem sentidos no compartimento de aeração. Antes de mais nada, mandou recolher a bordo o barco anfíbio e depois ordenou aos seus homens que levassem para a sala de oficiais todos os inconscientes afetados com o extrato de psimo, isto é, os “companheiros” de Ran Loodey.
Thomea Untcher sabia que, para a segurança da Finmark e de todos os seus comandados, não podia fazer coisa melhor do que sair de Opghan. Pois os saltadores, a estas horas, deviam ter voltado a si e, devido aos altos lucros que esperavam do narcótico extraído da planta maravilhosa, não iam permitir que os terranos espalhassem seu segredo pelas Galáxias.
Ran Loodey já havia deixado a Finmark em condições de partir, quando, manipulado pelos saltadores, dera esta ordem. Thomea Untcher estava se arriscando a uma catástrofe, pois só havia dezessete homens aptos a bordo. Mesmo assim deu a ordem de partida. Previa que os saltadores haviam pedido reforço para atacá-los e destruí-los. Com os dezessete homens, que mal bastavam para os serviços de comando da nave, não podia usar suas salas de artilharia, caso quisesse defender-se de um ataque.
Prevendo todas estas dificuldades, transmitiu um hiper-rádio para a Terra, pedindo socorro. Não sabia nada da singular mensagem que muitas horas antes, Loodey enviara e da confusão causada por esta. Deixou passar meia hora, enquanto Ted Dunyan, com o auxílio dos inexperientes éfogos que insistiam em ser úteis injetou uma grande quantidade de ar fresco para dentro da nave. O grande interesse dos três éfogos em injetar ar para dentro da Finmark tinha sua explicação pelo fato de estarem com os pesados uniforme terranos, que lhes era muito incômodo.
Além de tudo que já fizera, o Dr. Dunyan estava preparando uma experiência muito importante. Não tivera tempo ainda de comunicar sua descoberta ao comandante Untcher, embora soubesse que Untcher, até certo ponto, estava informado sobre as propriedades psicotrópicas da misteriosa psimo, pois fora o próprio comandante que lhe dissera que os efeitos da droga podiam ser combatidos com irradiações de nêutrons térmicos. Ted Dunyan preparou uma mistura de rádio gaseificado com berilo hexafluorídrico, injetou-a também na tubulação de ar que penetrava na sala dos oficiais.
O rádio em composição com o berilo formava uma ótima fonte de nêutrons. Dunyan estava crente de que os móveis e as guarnições da sala dos oficiais, feitos de hidrocarbonetos, haveriam de termalizar os nêutrons produzidos tão rapidamente e, com isso, apressar o êxito da operação. De uma coisa estava certo: no máximo, dentro de dez horas ou teria alcançado pleno êxito ou interromperia a experiência. Pois, ao fim deste período, os homens já teriam recebido a dose total que podiam suportar. Uma irradiação mais prolongada lhes poderia prejudicar a saúde.
Depois de Ted Dunyan ter iniciado sua terapia de irradiação de nêutrons, com os homens de Ran Loodey na sala dos oficiais, e quando o interior da Finmark já estava livre do gás entorpecente oraldin, Thomea Untcher deu a partida. Os aparelhos de rastreamento não indicavam nada. Mas, depois que a nave ultrapassou os horizontes do planeta Opghan, já em pleno espaço, o oficial rastreador anunciou a presença de cinco objetos desconhecidos a uma distância de oito minutos-luz.
Eram os saltadores que se preocupavam com o que iria acontecer com o novo e promissor mercado de tóxicos.

* * *

A confusão na Terra durou somente até que Perry Rhodan pessoalmente tomou a iniciativa de apurar os fatos. Não podia saber o que estava se passando em Opghan, a 10.383 anos-luz da Terra. Mas estava mais que evidente: a primeira mensagem não era verdadeira e somente a segunda, de Thomea Untcher, podia ser tomada a sério.
Desde este momento, até a partida do supercouraçado Barbarossa, com o próprio Perry Rhodan a bordo, não se passaram mais do que trinta minutos.
Numa única transição, Rhodan chegou até o ponto combinado com Thomea Untcher. Este ponto não distava mais de um ano-luz do sistema Ep-Hog e Rhodan supunha que a intenção do Major Untcher era atacar diretamente o planeta Opghan.
A Finmark já estava a postos e, em redor dela, as cinco naves cilíndricas dos saltadores prontas para destruí-la. Foi-lhes uma surpresa desagradável o aparecimento da gigantesca e poderosa Barbarossa. Três das naves cilíndricas inimigas foram abatidas, as outras duas preferiram a fuga desabalada a uma inútil demonstração de coragem. A estação de rastreamento da Barbarossa assinalou que as duas naves, ao invés de retornarem para Opghan, fizeram uma curva de noventa graus. Dava a impressão de que os saltadores iriam fazer uma revisão nos seus planos a respeito de Opghan, pois a pressão de fora era muito forte.
Perry pediu ao Major Untcher que comparecesse a bordo da Barbarossa. O comandante levou o Dr. Dunyan, que lhe havia dito mais de uma vez, ter uma comunicação muito importante a fazer.
Tive oportunidade de observar, por muitas horas seguidas — explicava Ted Dunyan — uma das vítimas dos gases inoculados na Finmark, isto é, o sargento Ran Loodey. Encontrei o agente patológico em seu sistema nervoso. Sua composição era relativamente simples, de maneira que a análise de início não ofereceu dificuldade. O quadro foi totalmente diverso, quando repeti o exame para confirmar meu julgamento. A composição tinha se alterado substancialmente, de maneira que este agente patológico passou a provocar uma nova reação...
Isto me levou a suspeitar de outra coisa. Nesta droga não havia apenas um agente que produz um determinado efeito e com isso encerra seu ciclo de ação, e sim um que conserva esta ação indefinidamente. Normalmente, Loodey e os demais atingidos pelo agente, se amotinariam e não passaria disso. Poderiam se rebelar contra as ordens de seus superiores, mas nunca tomar iniciativas por conta própria. Mas exatamente isto é que eles fizeram. Ran Loodey é um exemplo vivo disso.
Um outro fato esclarece mais ainda. Quando examinamos o ar de respiração na Finmark, logo depois que Loodey e os rapazes apontaram os sintomas do envenenamento, não havia mais nenhum sinal do agente patológico. Tínhamos, pois, a certeza de que o tóxico entrara a bordo através de um gás.
As micro partículas do gás se difundiram com incrível mobilidade, inclusive através das paredes externas da nave. Desta feita os pobres éfogos, manipulados pelos saltadores, não precisavam fazer outra coisa do que desatarraxar um pouco o cilindro metálico que traziam sob o braço, para o gás penetrar na Finmark. Se fosse um gás pesado, mesmo dias após o ataque, sobrariam vestígios dele a bordo. Este não era o caso. O fato de que este gás tinha muita afinidade com o corpo humano e era por ele assimilado integralmente é a prova objetiva. E assim que atingia uma pessoa, começava seu efeito.”
Ted Dunyan encostou-se no espaldar da cadeira e enxugou o suor da testa. Agora, que estava começando a dizer o que sabia, o suor lhe vinha ao rosto. Suor do medo, talvez se tivesse enganado, talvez houvesse outra explicação para os fatos, ou uma outra maneira de combater os efeitos da droga do psimo.
Compreendo muito bem como se deve sentir, doutor — disse-lhe Rhodan amigavelmente. — Fale sem receio nenhum. A Galáxia certamente já viu coisas tão admiráveis como este gás inteligente.
Dunyan perguntou, quase gaguejando:
Como é que o senhor sabe disso?
É a conclusão lógica de tudo que o senhor expôs, doutor. O senhor disse que o agente patológico, por si mesmo tinha a capacidade de se adaptar às situações, não é verdade?
Ted Dunyan admirado fez um gesto afirmativo.
Lamento — continuou Perry Rhodan — que nenhuma de nossas línguas evoluiu ao ponto de arranjar uma outra palavra em lugar de inteligente, neste caso. Claro que é um erro considerar cada molécula do agente intoxicante como um ser inteligente. A faculdade de adaptar-se às diferentes circunstâncias, persistindo sempre no objetivo central, que deve ter parecido aos produtores do gás, os aras, como o mais importante no tóxico, é certamente uma obra-prima da química orgânica. Mas a molécula não pensa. Possui apenas uma faculdade, uma faculdade estatística, porque não são todas as moléculas, mas algumas, talvez até a maioria, que reagem corretamente na hora certa, podendo alterar-se de acordo com o fim, sem que haja uma ação externa para isto.
Olhou para Ted Dunyan, que concordou sorrindo.
Por mais que falemos a respeito — concluiu Rhodan — para tomar o mistério mais compreensível, é e continuará sendo uma descoberta maravilhosa dos aras, de sua dedicação à ciência. Devia servir para objetivos mais nobres e não cair nas mãos mercenárias dos saltadores, que vão utilizá-la para fins condenáveis.
Isto queria dizer que Perry Rhodan resolvera terminar de uma vez por todas com a operação Opghan.

* * *

Poucas horas depois, as duas naves, a gigantesca e poderosa Barbarossa e a pequena Finmark voltavam para Opghan. As experiências do Dr. Dunyan tiveram sucesso total. Depois de permanecerem quase cinco horas inconscientes no salão dos oficiais, as vítimas da ação entorpecente do psimo voltaram a si, normais, sem sentir mais nada.
Não sem constrangimento, estes homens que se lembravam com toda lucidez do período de insubordinação, voltaram para seus lugares. Thomea Untcher dera ordem de que, até o término da operação Opghan, não se tocasse no assunto da droga do psimo e de seus efeitos.
No período de um dia de Opghan, Perry Rhodan executou com sucesso o que pretendia naquele planeta. Os saltadores, certamente temendo o poderio bélico terrano, abandonaram Opghan e jamais pensariam em voltar a seus negócios escusos.
A base dos aras em Pchchog também foi abandonada. Os aras acabaram confessando que possuíam em Opghan apenas o pequeno grupo de experiência em Pchchogh. Rhodan lhes deu oportunidade de entrar em contato com sua pátria e pedir uma nave para vir buscá-los.
Perry embargou e requisitou a cidade submarina de Pchchogh. Foi o único favor que ele solicitou aos éfogos recém-liberados. Tal pedido foi aceito sem a mínima oposição. O velho Grghaok viu confirmadas suas palavras de estima e de alto elogio que fizera aos terranos, mesmo antes de conhecê-los e passou a gozar de grande prestígio entre seu povo. Ao lado de Nrrhooch e de Lchox, foi celebrado como o homem que iniciara a luta pela libertação dos éfogos.
Perry Rhodan não perdeu nenhuma palavra sobre o fato de que a descoberta do entorpecente contido no psimo representava um avanço fantástico na defesa do Império Solar.

* * *

A bordo de uma espaçonave cilíndrica, neste momento já a mil anos-luz de Opghan, um barbudo corpulento cocava o pescoço, dizendo para um outro, cuja barba, porém, devia ser postiça, embora fosse muito bonita:
Sabia que o negócio ia acabar mal. Quando os terranos metem o nariz em nossos interesses comerciais, saímos sempre levando na cabeça.
E o de barba postiça respondeu, ura tanto abatido:
Temos de fazer um pouco de higiene mental pára nos livrarmos do complexo de inferioridade com relação aos terranos. ;
E você acha que venceremos este complexo?

* * *

Todo perfilado, o sargento Ran Loodey fez a continência para o Major Thomea Untcher, que à paisana entrava no posto de comando. Olhou para Loodey, desconfiado, e disse:
Como é? Desta vez você não faz nenhuma referência ao “asilo dos desabrigados”?
Não, major! Durante muitas horas, eu é quem merecia ir para uma clínica de neurologia.







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O Inimigo Oculto necessitava mesmo de levar uma boa lição... No entanto, Atlan não ignora que o grande Império Arcônida, cujo governo está em suas mãos, mais cedo ou mais tarde entrará em decadência, se ele não conseguir agrupar em torno de si os homens mais capacitados e de maior determinação de seu povo.
Será que os “adormecidos”, encontrados por Gucky nas imensidões da Galáxia, poderão se tornar os auxiliares de Atlan?
Em O Sol Chamejante, próximo livro da série, outra surpreendente aventura será narrada.

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