— Você
vê que já tenho um emprego.
— Isso
não é um trabalho para você — disse Kennof em tom penetrante. —
Talvez, por algum tempo, consiga convencer a si mesma de que está
gostando do serviço. Mas, mais tarde, ele a corroerá por dentro.
Tomou um
gole.
A mulher
respondeu em tom sarcástico:
— Você
quer proteger-me contra isso, Dick?
Kennof
levantou ambas as mãos, num gesto negativo.
— Sei
que você é muito orgulhosa, Célia. O que lhe ofereço não
representa nenhuma caridade. Peço seu auxílio.
Ao que
parecia, Célia aguardava outras explicações, pois Kennof não
obteve resposta. Ficou bebericando sua cerveja e piscou com os olhos.
— Que
sentimento lhe inspira a idéia de ser minha noiva, Célia?
— Tendências
suicidas — respondeu a mulher.
Kennof deu
uma risadinha.
— Isso
me lisonjeia bastante — disse. — Mas você não demorará a
gostar. Você não será uma noiva muito boa. Além de ser infiel,
desperdiçará meu dinheiro e arruinará meu bom nome. Seu
comportamento me fará ficar furioso. Tentarei matá-la, e só com
grande dificuldade conseguirão impedir-me de realizar meu intento.
— Para
que tudo isso? — perguntou Célia, sem demonstrar maior interesse.
— Para
convencer a Companhia do Sono de Wyoming de que, face ao meu estado
psíquico, não lhe restará outra alternativa senão aceitar-me como
cliente para ser posto a dormir — disse Kennof em tom seco. —
Além de uma noiva que me engana tenho muitas dívidas. Acho que isso
deve bastar.
Célia
parecia cada vez mais interessada.
— Se
você tiver dívidas, eles o recusarão. Não tenha a menor dúvida.
— Acho
que você subestima o Hartz. Depois que tiver sido posto a dormir,
afirmará que eu o incumbi de vender meus bens. Com isso, minhas
dívidas estarão liquidadas e a CIS não assumirá qualquer risco.
Antes que Hartz inicie as vendas, saberei o que há atrás dessa
Companhia, e voltarei arrependido. Anularei a ordem. Hartz se fará
de ofendido, mas a CIS terá sido enganada. Nem sequer terei
necessidade de pedir desculpas à Companhia do Sono. Mas se minha
suposição de que há algo de errado com essa companhia for correta,
Hartz e eu receberemos uma medalha. Hartz venderá sua medalha, e
eu...
Célia
fê-lo calar com um gesto.
— Dick,
existe alguma base legal para seu procedimento?
Os olhos
de Kennof fitaram-na tristemente por cima do balcão.
— Você
ainda não aprendeu — disse ela.
— É
verdade — confessou o detetive.
— E vai
tentar, mesmo que eu não ajude — conjeturou a moça. — Você
enfiou isso na sua cabeça dura.
— Perfeitamente
— respondeu Kennof.
Célia
apresentou uma garrafinha.
— É a
melhor bebida que temos — disse com um sorriso. — Vamos brindar
ao sucesso.
Muito
animado, Kennof inclinou-se por cima do balcão.
— Será
como antes, quando ainda estávamos... — principiou.
— Esqueça-se
disso — respondeu Célia em tom áspero.
Kennof
percebeu que ela nunca se conformaria com a perda do trabalho que
tanto apreciava. Ao abrir seu escritório de detetive, ele mesmo
criara certa compensação. Mas muitas vezes sentia vontade de
enfrentar uma das tarefas às quais estava acostumado. Talvez fosse
por causa do treinamento extraordinário que havia recebido. Em sua
totalidade, os conhecimentos adquiridos estavam ociosos. E para
Célia, seria ainda mais difícil conformar-se com a nova situação.
Kennof,
que era um individualista empedernido, não conseguira conformar-se
com a disciplina implacável. Não pertencia à classe de homens que
gostam de receber ordens. Por causa disso tirara suas conclusões:
pedira demissão e obtivera uma licença de detetive particular.
E agora
estava reunido com sua antiga colega.
Richard
Kennof há anos fora agente de um destacamento especial do Serviço
de Segurança Solar!
*
* *
Dali a
vinte dias, julgou chegado o momento de entrar em contato com a CIS.
Pediu que o pusessem a dormir por 150 anos. Disse que o pedido era
motivado pela ruína financeira e pela tendência de matar a amiga
infiel.
Gaston
Hartz garantiu-lhe que não fora cometido nenhum erro, e que mesmo
num exame rigoroso, feito por parte dos funcionários da CIS, não
surgiria qualquer falha. Célia desempenhou seu papel com o
brilhantismo que era de se esperar. E Jeanne Dunbee, que continuava
em Dubose, recebeu a notícia sobre o progresso da tarefa de Kennof.
Depois de
uma forte resistência, Célia encarregou-se de cuidar de Buster. De
um dia para outro, o detetive esperava o convite da CIS para
apresentar-se em Cheyenne a fim de submeter-se aos exames médicos de
rotina.
Quando fez
uma visita secreta ao Ministério do Interior, todos os homens que o
cercaram acharam-no um ser digno de pena, pois, além de inúmeros
credores, possuía uma noiva desprezível.
*
* *
Snyder
lançou um olhar de espanto para Kennof.
— O fato
de o senhor ter conseguido chegar a mim já o faz merecedor de certo
respeito — disse no tom afetado que lhe era peculiar. — É
verdade que guardo recordações nada gloriosas do senhor. Mas,
apesar disso, estou disposto a ouvi-lo por alguns minutos.
Kennof
preferiu não informar Snyder sobre as características reais da luta
que travara, juntamente com Shane, contra os negociantes
inescrupulosos que contrabandearam drogas do setor de Vega para a
Terra.
Limitou-se
a dizer:
— O
senhor chefiou a equipe que pela última vez fiscalizou as cavernas
da CIS. Permite que formule algumas perguntas a este respeito?
— Poderei
dar-lhe apenas informações oficiosas — ponderou Snyder. — Não
espere dados oficiais.
Kennof
preferiu não dizer que, como contribuinte, lhe cabiam certos
direitos. Os funcionários do Ministério do Interior geralmente não
eram dotados de muito senso de humor, e não havia a menor dúvida de
que Snyder era o caso mais difícil.
— Naturalmente
— respondeu o detetive em tom delicado. — Gostaria de saber se o
senhor chegou a ver alguma pessoa que estivesse dormindo dentro do
bioplasma.
Snyder
levantou as sobrancelhas até o ponto em que as mesmas formavam um
ângulo bem estudado, a partir do qual o gesto poderia ser
interpretado como manifestação de uma emoção.
— Examinamos
atentamente os recipientes, Mr. Kennof — disse. — Vimos
perfeitamente as pessoas, pois as paredes externas das câmaras de
dormir são transparentes.
Pigarreou.
— Constatamos
que na caverna se encontravam exatamente as pessoas cujos nomes
constam das cópias dos contratos arquivados no Ministério. A CIS é
obrigada a enviar-nos cópia de todos os contratos que celebra, a fim
de que possamos verificar a qualquer momento se certos elementos não
recorrem aos seus serviços para subtrair-se à ação punitiva do
Estado.
— O
senhor notou qualquer coisa que pessoalmente lhe parecesse estranho
ou incompreensível? — perguntou Kennof, prosseguindo no seu
interrogatório.
— Bem,
todo o projeto da CIS não é coisa corriqueira — começou Snyder
em tom comedido. — Não sou nenhum perito no setor, e por isso é
apenas natural que para mim certas coisas sejam inexplicáveis.
Acontece que nossos especialistas são de opinião que os serviços
da Companhia do Sono são exemplares e que não existe motivo para
qualquer tipo de interferência. Será que o senhor dispõe de dados
que contrariem esta opinião, Mr. Kennof?
— De
forma alguma — asseverou o ex-agente. — Meu interesse pela CIS é
de natureza exclusivamente particular.
— Não
me venha dizer que o senhor quer adquirir um lugar para dormir.
— Será
fácil descobrir, Sir — disse Kennof em tom tranqüilo. — Basta
examinar as cópias dos contratos.
Ao sair do
Ministério do Interior, teve uma sensação nada agradável. Será
que seu trabalho se revelaria inútil? Ao que parecia, todos achavam
que não havia nada de errado com a CIS, inclusive Snyder. Kennof não
estava interessado em desperdiçar seu tempo. Ainda não havia
recebido qualquer resposta de Cheyenne. Por enquanto o pedido ainda
poderia ser retirado.
Se Edmond
Cascane, um colaborador ao qual Kennof pedira que realizasse uma
investigação minuciosa do passado da CIC, não obtivesse elementos
concretos, o detetive abandonaria seu plano.
Kennof
enxotou alguns meninos que cercavam seu carro estacionado. As
crianças estavam fascinadas pela pintura futurista. Muito pensativo,
deu partida no motor. Virou a cabeça e olhou para o Ministério do
Interior. Tratava-se de um edifício imponente, feito de vidro, aço
e concreto. Ao partir, nem desconfiava de que Cascane guardava uma
grande surpresa para ele.
Edmond
Cascane — um homem quase completamente calvo, de olhos ágeis —
colocou um montão de papéis à frente de Kennof. Fungava e enxugou
um suor imaginário do rosto. Kennof brindou-o com um olhar de
compaixão e começou a remexer o monte de papéis.
— A
maior parte disso não oferece o menor interesse — observou Cascane
no tom de quem reserva uma enorme sensação. Com um olhar atento
mirou Kennof enquanto este afastava os documentos.
— Fale
logo, Ed — disse o ex-agente.
Cascane
tirou uma folha solitária do bolso da jaqueta e agitou-a à frente
do nariz do chefe. Kennof, que já estava novamente envolto em seu
robe amarelo, conseguiu apossar-se do segredo de Cascane.
— Este
documento apenas diz que um certo Fedor Piotrowski foi reprovado
vergonhosamente nos exames de doutor em medicina — disse Kennof em
tom de decepção, depois de ter lido o documento.
— Pois é
este mesmo homem que se encontra no Parque Nacional de Yellowstone,
alguns metros abaixo da terra, e cuida dos clientes da CIS, sob o
nome de doutor Piotrowski — disse Cascane em tom enfático. — O
que acha disso?
Num gesto
pensativo, Kennof esfregou o queixo volumoso.
— É
possível que posteriormente tenha passado no exame.
O auxiliar
do detetive sacudiu a cabeça.
— Não
fez nada disso, Dick. Eu vasculhei sua vida. Piotrowski deve ter
conseguido documentos falsos para arranjar a colocação na CIS.
— Ou
então a CIS fabricou-os para ele — disse Kennof.
— O
falso doutor vem do Canadá — prosseguiu Cascane. — Quebrou todas
as pontes atrás de si. Em sua terra ninguém sabe para onde foi.
Kennof deu
uma forte pancada na mesa.
— Isso
decide a questão — disse. — Vou a Wyoming.
— O
resto são recortes de jornais — disse Cascane, numa tentativa
débil de chamar a atenção do chefe para a pilha de papéis. —
Além disso, você encontrará relatos de palestras travadas com
pessoas que já tiveram relações com a CIS.
Mas
naquele momento, Kennof já estava refletindo sobre como esconder
seus preciosos aparelhos no interior das cavernas, quando chegasse
lá.
Dois dias
depois, quando a CIS entrou em contato com o detetive, a fim de pedir
a este que se apresentasse em Cheyenne, o problema tornou-se agudo.
4
M'Artois
estava parado junto à janela, de costas para Richard Kennof. O
detetive não se sentia muito à vontade. O psicólogo conhecia todas
as artimanhas ligadas à sua profissão. Atrás de sua benevolência
escondia-se uma extraordinária compreensão, além da excelente
capacidade de combinação. Só no último instante, Kennof
reconhecia as perguntas-armadilha do colaborador da CIS. O detetive
só conseguiu ludibriar o psicólogo porque havia recebido o
treinamento psicológico especial na Segurança Solar.
Kennof
foi-se convencendo de que não se tratava tanto de um esforço da
sociedade para interessar as pessoas cansadas pelas belezas deste
mundo, mas antes de um verdadeiro interrogatório. M'Artois penetrava
em todas as áreas da vida privada inventada por Kennof. Nem mesmo
diante das perguntas mais indiscretas, recuava. Por várias vezes
Kennof chegara a transpirar, ou então acreditara que o outro tivesse
descoberto seu jogo. Mas até então tudo dera certo.
M'Artois
lançou um olhar atento para Kennof.
— O
senhor me falou num tal de Mr. Hartz — disse. — Como foi que um
financista tão esperto pôde conformar-se em ver o senhor empatar
seu dinheiro em ações sem valor?
— Acontece
que estava saturado de ver meus atos supervisionados por Hartz —
disse Kennof. — Queria provar a esse sujeito convencido que sabia
arranjar-me sem ele. Infelizmente não deu certo.
— Esse
procedimento corresponde ao seu caráter — admitiu M'Artois, e
Kennof suspirou às escondidas. — Talvez fosse conveniente recorrer
a Mr. Hartz a fim de trilhar novo caminho que o faça subir novamente
na vida.
Kennof,
que via suas chances se desvanecerem de novo, disse:
— Não é
tanto pelo dinheiro. O senhor já está informado sobre o problema
que houve com minha noiva. Quando me lembro com que falta de
escrúpulos ela me tem enganado, não consigo controlar-me.
— Apesar
de tudo o senhor ainda a ama?
Kennof
acenou com a cabeça, como quem se sente muito envergonhado.
“Tornei-me
um perfeito ator”,
pensou.
O
psicólogo pregou-lhe um longo sermão para convencê-lo de que seria
preferível manter-se fiel à vida. Kennof não teve a menor dúvida
de que essas palavras só tinham por fim despertar o espírito de
contradição das pessoas que a CIS considerava inofensivas.
Enquanto
M'Artois exaltava as belezas do mundo, criava no subconsciente de seu
interlocutor uma aversão pelo mesmo. Apesar de tudo, o procedimento
de M'Artois não infringia a lei e também não permitia a Kennof
tirar qualquer conclusão sobre o trabalho da companhia.
— Ainda
está disposto a celebrar um contrato com a companhia? — perguntou
M'Artois depois de concluídas suas considerações.
— Sem
dúvida — confirmou o novo candidato.
— O
senhor será submetido a um exame por meio do qual verificaremos seu
estado de saúde. Quero perguntar desde logo se o senhor sofreu
alguma amputação.
Kennof
respondeu que não. Já estava convencido de que havia algo de errado
com a CIS. Mas, por mais que se esforçasse, não descobriu o que
poderia ser.
Seriam
apenas alguns membros corruptos da companhia que seguiam um plano bem
definido, ou será que Cavanaugh e os outros também participavam do
mesmo? Em caso afirmativo, qual seria a finalidade da empresa? Será
que seus interesses eram puramente comerciais?
Naquele
momento, o homem, que poderia ter esclarecido até certo ponto as
dúvidas de Richard Kennof, encontrava-se submetido a um poder do
qual o detetive nunca poderia suspeitar.
Maurice
Dunbee já sabia tudo, mas seu saber não lhe adiantava nada, pois
não se encontrava na Terra, nem em qualquer outro planeta desta
Galáxia.
5
Pequenas
gotas de suor apareceram na testa de Kennof. Clinkskate não poderia
desconfiar de que o homem à sua frente transpirava de medo de ser
descoberto. Achou que fosse um sinal do nervosismo, que costumava
apossar-se de qualquer pessoa que entrava nas cavernas da CIS, a fim
de ser colocada nos grandes recipientes de plástico.
Kennof foi
levado de helicóptero juntamente com dois outros homens. Um deles
era um tipo nervoso, de cabelos muito ruivos e uma cicatriz profunda
do lado direito do rosto.
Naquele
instante estava sentado à frente de Kennof. Seu nome era Jubilee.
Não contou o motivo por que desejava ser posto para dormir. Kennof
achou que se tratasse de um ébrio contumaz.
O terceiro
homem estava sentado bem atrás de Kennof. Tratava-se de um antigo
político, cuja vida se frustrara em falsos ideais. Apesar de tudo,
Lester Duncan costumava escolher muito bem as palavras. Kennof sentiu
uma débil simpatia por ele. Jubilee era-lhe totalmente indiferente.
No
momento, Kennof não tinha muito tempo para interessar-se pelos
companheiros de viagem. Teria de encontrar um lugar seguro para o
rádio e o micro defletor. Mais tarde também teria de livrar-se do
localizador embutido no anel. Mas este era tão discreto que seria
fácil tirá-lo normalmente. Teria de encontrar uma maneira de
colocar esses objetos num lugar em que pudesse encontrá-los assim
que precisasse deles.
— Em
primeiro lugar entregarei Mr. Duncan aos cuidados do Dr. Le Boeuf —
disse Clinkskate. — Depois será a vez dos senhores.
Kennof
compreendeu imediatamente.
— Poderia
fazer o favor de mostrar-me onde fica o banheiro? Gostaria de
lavar-me.
— Faça
o favor de acompanhar-me — disse Clinkskate.
Quando
saíram da grande sala em que funcionava o escritório, Kennof
sentiu-se aliviado. Acompanhou Jubilee e o colaborador da CIS, até
que Clinkskate apontasse para duas portas. Kennof agradeceu. Só
desejava que a toalete não estivesse ocupada.
Teve
sorte. A porta podia ser trancada por dentro. Kennof não perdeu
tempo. Acionou a fechadura. Tirou do bolso o micro defletor e
ligou-o. O aparelho desviava os raios de luz e fazia com que seu
portador se tornasse praticamente invisível.
A
visibilidade resulta exclusivamente da reflexão dos raios luminosos.
Como naquele momento Kennof não pudesse ser atingido pelos raios de
luz, não poderia refleti-los.
No
entanto, qualquer aparelho de localização, mesmo de potência
reduzida, logo teria registrado sua presença. Além disso tinha que
ter cuidado para não causar ruídos.
“Que
bom é o velho Shane”,
pensou Kennof num assomo de gratidão e saiu do lavatório.
O corredor
estava vazio e abandonado. Sem hesitar, Kennof seguiu na direção em
que Clinkskate havia desaparecido juntamente com o ébrio. Logo
encontrou uma porta aberta. Viu-se num gigantesco recinto abobadado,
subdividido em vários pavimentos. Os olhos treinados de Kennof
perceberam imediatamente que se tratava de instalações energéticas
e equipamento médico.
Olhou em
torno e pôs-se a refletir.
Naquele
instante, Clinkskate saiu do elevador a quatro metros do lugar em que
Kennof se encontrava. Este apressou-se para se colocar numa posição
segura. Clinkskate passou por ele sem desconfiar de nada. O detetive
acreditou que só disporia de alguns minutos para encontrar um
esconderijo.
Seria
muito arriscado pegar o elevador para descer um andar. O micro
comunicador devia ser guardado aqui em cima. Pelos seus cálculos,
naquele momento Clinkskate estaria chegando às toaletes. Kennof
descobriu uma prateleira na qual, segundo parecia, havia peças
gastas. Escondeu cuidadosamente o rádio atrás de alguns rolamentos.
A seguir, desligou o defletor e também o guardou na prateleira. Se
aparecesse alguém, poderia dizer que se perdera. O anel, que
abrigava um minúsculo aparelho de localização, continuou no seu
dedo. Tratava-se de uma obra de precisão dos micro técnicos, os
swoons. Os seres em forma de pepino, que Perry Rhodan trouxera à
Terra numa missão arriscadíssima, eram espetaculares.
Kennof
olhou pelo corredor. Sentiu-se triste ao pensar no Serviço de
Segurança Solar. Era este o tipo de trabalho de que precisava. E a
Segurança Solar poderia ter-lhe dado este tipo de missão. Porém,
atrás dela havia a cadeia de comando e a rígida ordem militar, que
não correspondiam ao gosto de Kennof.
Voltou
correndo e chegou ao setor administrativo quase no mesmo instante que
Clinkskate.
“Você
ainda está em forma, velho Dick”,
pensou, enquanto sorria para Clinkskate. “Poderá
dar muito trabalho a essa gente.”
Naquele
momento não poderia saber que seriam eles que lhe dariam muito
trabalho. Se soubesse, não se sentiria tão otimista.
*
* *
Durante
sua vida agitada, Kennof nunca adquirira uma idéia precisa de como o
corpo humano é preparado para um prolongado sono, que se assemelha à
morte. E aquilo que o Dr. Le Boeuf e seu auxiliar Piotrowski haviam
feito com ele em nada contribuiu para tornar mais compreensível o
estado de hibernação bioquímica.
Se sua
noção de tempo não tivesse sido prejudicada pelas repetidas
anestesias, o detetive calculava que devia estar no fim da tarde. O
Dr. Le Boeuf encontrava-se ao lado da mesa dos exames e, num gesto de
cansaço, passou a mão pelo rosto.
— Esse
idiota do Jubilee nos tomou muito tempo — disse, dirigindo-se a
Piotrowski. — Sugiro que ainda tiremos a freqüência das vibrações
cerebrais de Kennof e deixemos o resto para amanhã.
— Está
certo — concordou seu auxiliar.
Kennof
suspirou aliviado. Já receara não ter oportunidade para uma
inspeção discreta. Tudo dependia de que fosse deixado só.
Ergueu-se ligeiramente e olhou para os médicos. Atendendo à ordem
de Piotrowski, as duas enfermeiras trouxeram um aparelho grande e
oval para perto de Kennof.
— O que
é isso, doutor? — perguntou Kennof, em cuja mente surgiu uma
suspeita vaga.
Le Boeuf
mexeu nervosamente em alguns cabos.
— Um
aparelho destinado a medir a freqüência de suas vibrações
cerebrais — informou. — Não tenha medo.
Kennof
esforçou-se para sorrir.
Infelizmente,
para o Dr. Le Boeuf, Kennof sabia perfeitamente como era um medidor
de freqüências cerebrais fabricado na Terra. Enquanto o sorriso de
Kennof se desfazia e as batidas de seu coração se aceleravam, o
médico iniciou os preparativos.
Um novo
olhar bastou para que Kennof não tivesse mais a menor dúvida: o
aparelho não era de fabricação terrana. O ex-agente não conseguiu
impedir que um sopro de pavor lhe tocasse a mente.
Como foi
que a CIS arranjou um aparelho que, sem a menor dúvida, não era
conhecido sequer ao Serviço de Segurança Solar? Seria pura
coincidência? Em hipótese alguma!
— Incline-se
ligeiramente para a frente — resmungou o Dr. Le Boeuf em tom
contrariado.
Passou uma
faixa bem apertada em torno da cabeça de Kennof. Inúmeros fios
saíam da tal faixa.
Piotrowski,
que se encontrava atrás do aparelho e, segundo parecia, estava lendo
os resultados, disse em tom de espanto:
— O
senhor deve ter muitos problemas na cabeça.
— Não
deixe o homem confuso — gritou Le Boeuf. — Anote os resultados.
Piotrowski
lançou um olhar zangado para o colega. Nos fundos da sala, as
enfermeiras mantinham-se em atitude de expectativa. Kennof
esforçou-se para reprimir as idéias exaltadas. Não deveria cometer
qualquer tolice que pudesse traí-lo.
— Pronto!
— resmungou Piotrowski, depois de algum tempo.
A faixa
foi tirada da cabeça de Kennof. As enfermeiras afastaram o
misterioso aparelho.
— Tente
dormir até amanhã — disse o Dr. Le Boeuf. — Acho que não será
difícil, pois nos próximos anos sua ocupação principal será
esta.
Soltou uma
estrondosa gargalhada. Piotrowski também riu.
— A irmã
Marion ficará com o senhor — prosseguiu o médico. — Se desejar,
ela lhe dará um calmante.
A
enfermeira... Deveria ter desconfiado de que não o deixariam só.
Apesar disso fez uma tentativa ligeira de modificar as idéias do
médico:
— A irmã
Marion pode dormir, doutor. Saberei arranjar-me.
— Ela
ficará com o senhor — disse Le Boeuf em tom decidido.
Kennof
calou-se. Deixou que o levassem à cama. Cobriu-se cuidadosamente.
Dali a meia hora, os dois médicos e uma das enfermeiras saíram da
sala.
A mulher,
que deveria velar pelo descanso de Kennof, puxou uma cadeira e sentou
ao lado da cama. Manteve-se em silêncio. Era alta e esbelta e seu
rosto era muito bem formado.
“Não
é possível que fique sentada aí toda a noite”,
pensou Kennof desesperado. “Acabará
saindo ou adormecendo.”
Dali a
duas horas, a situação continuava a mesma. A enfermeira mantinha-se
imóvel a seu lado. Finalmente Kennof teve uma idéia.
— Irmã
Marion — pediu. — Será que poderia arranjar alguma coisa para
beber?
— Naturalmente
— respondeu a enfermeira em tom amável.
Kennof
sentia-se exultante. Mas logo viu-se diante de uma dolorosa decepção.
A enfermeira abriu um armário, tirou uma garrafa e encheu um copo.
“Chá”,
pensou Kennof amargurado. “Logo
chá!”
Sorveu o
líquido com um agrado fingido. Provavelmente também havia comida
guardada por perto. Seria inútil pedir-lhe que fosse buscá-la.
Dessa forma, nunca se livraria dela.
Quando
Kennof teve a impressão de que mais duas horas se haviam passado,
brincou com a idéia de fingir-se de doido. Passou a observar mais
atentamente a mulher. Até então, ela não fechara os olhos uma
única vez. A sala estava debilmente iluminada.
“Será
possível que essa mulher não dorme?”,
pensou. “Nem
sequer pisca os olhos!”
Kennof
sentiu um calafrio.
Era isso!
Fitou-a
intensamente. As pupilas olhavam para a frente sem que as pálpebras
se movessem.
A irmã
Marion não era nenhuma enfermeira!
Nem sequer
era uma mulher!
Era um
robô!
Num gesto
instintivo, Kennof enfiou-se mais profundamente embaixo das cobertas.
Como antigo agente, sabia muita coisa a respeito de robôs.
De robôs
terranos!
Acontece
que talvez a máquina, que corporificava a irmã Marion, não fosse
um robô terrano, tal qual o medidor de freqüências, que não fora
construído na Terra.
Kennof
sabia perfeitamente que sem arma nunca poderia arriscar uma luta.
Havia uma única possibilidade. Teria de provocar um curto-circuito
no cérebro positrônico do robô. Com a lógica dos homens-máquina
terranos, isso não seria difícil. Mas se aquela máquina tivesse
sido construída por outra raça, seria perfeitamente possível que
se guiasse por uma lógica estranha. As possibilidades eram tantas
que Kennof nem se atreveu a pensar nelas.
“Mãos
à obra, velho Dick”,
pensou Kennof. “O
que está esperando?”
Se o robô
tivesse sido construído segundo os princípios terranos,
praticamente não havia qualquer dúvida de que a ação seria bem
sucedida. Mas se agisse de acordo com alguma lógica desconhecida,
muitas coisas imprevisíveis poderiam acontecer.
— Irmã
Marion — principiou Richard Kennof, em tom suave. — Acabo de
descobrir que a senhora é um robô.
A
enfermeira fitou Kennof. Este abaixou-se.
— Avisarei
o Dr. Le Boeuf — disse a máquina.
— Devagar,
“meu
caro”
— gritou Kennof apressadamente. — O Dr. Le Boeuf não mandou que
você me vigiasse ininterruptamente?
O robô
manteve-se calado por algum tempo.
— A
ordem é esta — disse finalmente.
Kennof
levantou a mão direita.
— De
qualquer maneira, é indispensável que o médico seja avisado
imediatamente sobre a minha descoberta, pois esta poderá causar
conseqüências sérias — advertiu.
— É o
que devo fazer — confirmou a máquina e pôs-se a andar.
— Pare!
— berrou Kennof. — Você vai desobedecer a uma ordem, deixando-me
sem vigilância?
— Em
hipótese alguma — disse o robô.
Kennof
disse em tom grosseiro:
— Vá
logo e traga o doutor antes que aconteça alguma coisa. Não se
esqueça de cuidar de mim. Você não poderá deixar-me só;
compreendeu? Foi a ordem que lhe deram. O que está esperando? Vá!
Cuide! Fique aqui! Vá! Fique! Vá! Fique!
Quando o
dispositivo de segurança do cérebro positrônico entrou em ação e
provocou um curto-circuito, o detetive ainda estava repetindo as
ordens. O robô não conseguiu coordenar as instruções
contraditórias. O êxito da pretensão de Kennof só se deu porque o
Dr. Le Boeuf realmente havia dado ordem para que a irmã Marion
permanecesse constantemente em companhia do detetive.
Kennof
saltou da cama. Nenhuma memória positrônica pode ser alimentada com
duas ordens de igual urgência. Nesse caso, o único recurso que
restava à máquina era a fuga para uma espécie de “esquizofrenia
mecânica”.
Num
ligeiro exame, Kennof certificou-se de que realmente se tratava de um
robô terrano. Nesse ponto não havia mais nenhum perigo. Na manhã
seguinte, os dois médicos poderiam quebrar a cabeça para descobrir
como sua enfermeira fora colocada nesse estado.
O que
importava a Kennof era apoderar-se do micro defletor e do micro
comunicador, e inspecionar as cavernas. O lugar em que escondera os
aparelhos ficava um andar acima. Preferiu não usar o elevador, pois
receava que o ruído dos motores pudesse atrair a atenção dos
homens da CIS. Não havia escada. O elevador corria num poço aberto.
Kennof resolveu subir pelos cabos. Subiu à cobertura da pequena
cabina. Se alguém tivesse a idéia de usar o elevador enquanto se
encontrasse ali, estaria morto. Kennof arrastou seu pesado corpo para
cima com a agilidade de um macaco. Em certos lugares, o cabo estava
danificado. As pontinhas de metal feriram as mãos de Kennof.
Finalmente
chegou ao destino e voltou a pôr os pés no chão. Rastejou para
junto da prateleira em que guardara os aparelhos.
Kennof
agiu depressa. Dali a alguns segundos, estava voltando. Limpou as
mãos numa toalha e atirou-a na lixeira.
As idéias
de Kennof sobre os passos seguintes eram mais que vagas. Teria que
sair ao sabor da sorte ou do azar, pois não possuía a menor
indicação.
Faltava
pouco para a meia-noite. Passou pela mesma porta através da qual,
poucas semanas antes, Dunbee iniciara a fuga. Ligou o micro defletor,
a fim de estar protegido se houvesse um encontro imprevisto. Kennof
chegou ao poço no qual Dunbee caíra e parou. O corredor prosseguia,
mas a intuição de Kennof decidiu-se pelo buraco. O detetive entrou
e deixou-se escorregar lentamente.
Kennof
certificou-se de que os preciosos aparelhos que Shane lhe dera não
haviam sido danificados. Olhou em redor e seus olhos defrontaram-se
com um cenário impressionante. Uma luz pálida iluminava o grande
recinto abobadado. As sombras grotescas de rochas gigantescas estavam
desenhadas no chão. E três grandes recipientes de plástico
pareciam monstros adormecidos num esconderijo.
Kennof
aproximou-se.
Finalmente,
ele os viu: os adormecidos!
Boiavam
que nem peixes no interior das câmaras. Nus e de olhos fechados,
descansavam no líquido amarelento. Eram inúmeros corpos, um ao lado
do outro. Rostos para cima e rostos para baixo. Dedos entrelaçados,
dedos abertos. Mãos de trabalhadores e de sábios, de mulheres e de
homens.
Kennof
estremeceu. Esses homens haviam fugido do sofrimento do mundo em que
viviam, a fim de procurar a felicidade num futuro distante. E aqui
estavam eles, depois de terem adormecido, esperançosos e confiantes.
Havia neles algo de deprimente e algo de vergonhoso. Kennof pensou na
tentativa mil vezes repetida de enganar o destino. Não conseguiriam
seu intento. Quando despertassem, descobririam que tinham
transportado para o futuro as mesmas personalidades que os
martirizavam no passado.
Nada
mudaria!
Kennof fez
um esforço e chegou ainda mais perto de um dos recipientes.
As pessoas
adormecidas repousavam sobre apoios pneumáticos. As câmaras estavam
separadas por grades. Junto ao lugar em que dormia cada pessoa,
terminavam numerosas mangueiras e contatos. O plasma celular
mantinha-se em movimento constante, o que provava que estava sendo
renovado ou tratado ininterruptamente. As pessoas adormecidas só
poderiam ser alcançadas pela parte de cima dos recipientes. E ali
Kennof viu tubos, cabos e outros contatos.
O antigo
agente do Serviço de Segurança Solar suspirou aliviado. Confessou a
si mesmo que esperara encontrar neste lugar algo de extraordinário.
Não quisera acreditar que a única coisa existente ali eram homens e
mulheres adormecidos.
Era
possível que, sob outros pontos de vista, a ação da CIS fosse
incorreta e violasse a lei. Porém os homens que recorriam a ela
estavam bem guardados.
Nem
desconfiava de que, dali a algumas horas, mudaria de opinião.
*
* *
Richard
Kennof estava ofegante ao sair do poço. Não teria outra alternativa
senão voltar ao santuário do Dr. Le Boeuf e explicar ao médico,
assim que este aparecesse, que mudara de opinião e estava disposto a
enfrentar a vida.
Quando o
instrumento de localização, embutido no anel, deu um sinal, Kennof
estava fazendo uma limpeza provisória das vestes. Surpreso, o
detetive parou em meio ao trabalho.
Pela
intensidade da reação do aparelho concluiu que, nas imediações do
lugar em que se encontrava, acabara de ocorrer uma descarga
energética de grandes proporções. Kennof examinou o anel.
— Este
aparelho aponta as formas de energia convencionais, e também as da
quinta dimensão — explicara Shane. — O pequenino indicador está
dividido em dois setores. O setor vermelho revela a existência de
uma descarga sobreposta, ou seja, de uma descarga da quinta dimensão.
Ao
rememorar estas palavras, Kennof despertou de vez. Voltou a
certificar-se.
Não se
enganara. Em algum lugar, acabara de ocorrer uma descarga energética
da quinta dimensão.
Kennof
trincou os dentes. Sua desconfiança, que fora abafada, voltou a
fortalecer-se.
Como é
que nas instalações da CIS havia fontes de energia
superdimensionais? Segundo todos os cálculos humanos, isso seria
impossível. Tinha certeza de que o instrumento de localização
estava em perfeitas condições. Antes de entregá-lo, Shane mandara
revisá-lo cuidadosamente.
Não podia
pensar mais em descansar. Avançou pelo corredor que seguia atrás da
entrada do poço, penetrando terra adentro. O anel não indicou
outras descargas.
Uma tensão
quase insuportável apoderou-se de Kennof. Será que afinal havia
algo de errado com a Companhia do Sono? Como ninguém pudesse vê-lo,
não agiu com muita cautela.
O corredor
terminou no platô metálico, situado dentro de outra caverna. Kennof
entrou imediatamente. Bem ao lado da abertura havia outra, que
voltava a penetrar na rocha. Fora construída com tamanha habilidade
que Kennof logo imaginou que seria fácil de ser camuflada por
ocasião de uma inspeção. Algumas rochas grandes, que se
encontravam junto à entrada, reforçavam essa suposição.
Qualquer
fiscal deixaria de notar essa entrada natural, ainda mais que teria
sua atenção desviada pelo platô metálico. Mas agora, que a CIS
não esperava qualquer fiscalização, a entrada permanecia aberta.
Kennof
soltou um assobio. Fosse o que fosse que a Companhia Intertemporal do
Sono tinha a esconder, ele poderia encontrá-lo se seguisse por esse
caminho.
Kennof
enfiou-se pela entrada secreta. Também estava iluminada, o que
levava à conclusão de que era usada com certa freqüência. Mais ao
longe, o detetive percebe ruídos indefiníveis. Apressou-se. A
galeria foi ficando cada vez mais clara. Ouviu vozes humanas. Seu
coração começou a bater mais depressa. Kennof reprimiu o
nervosismo.
O caminho
descreveu um ângulo reto. Procurando evitar todo e qualquer ruído,
Kennof percorreu os últimos metros e entrou num recinto de grandes
dimensões.
A caverna
na qual penetrou era pouco menor que as outras. Avistou de pronto
seis homens que envergavam as vestes da CIS. Logo viu um outro, que
já conhecia. Era Jubilee.
Kennof
reprimiu um grito. Jubilee estava nu e deitado no chão; ao que
parecia, estava inconsciente. Atrás do beberrão, que viera a
Wyoming com Kennof, alguns bastões metálicos saíam verticalmente
da rocha. Formavam um semicírculo de cerca de dez metros de
diâmetro. Kennof teve a impressão de que lembravam o picadeiro de
um circo. Bem em cima dos bastões metálicos, junto ao teto, uma
esfera metálica vermelha e brilhante flutuava no ar, desafiando a
lei da gravitação.
Kennof
quase se esqueceu de respirar. Tudo parecia estranho e ameaçador.
Nunca vira nada semelhante e não podia imaginar do que se tratava.
Dois
homens levantaram Jubilee. Sem a menor contemplação arrastaram-no
para o interior do picadeiro. Depois retiraram-se apressadamente.
Só e
abandonado, Jubilee estava deitado a quinze metros de Kennof.
“Você
não pode fazer nada por ele, velho Dick”,
pensou Kennof, a fim de tranqüilizar-se.
De
repente, Jubilee desapareceu!
Num tempo
zero, seu grande rosto vermelho dissolveu-se diante dos olhos de
Kennof. Até parecia que jamais um ser vivo estivera deitado entre os
bastões metálicos.
Só agora
percebeu que, no momento em que Jubilee desapareceu, seu instrumento
de localização voltou a reagir.
Já sabia
o que vinha a ser aquele estranho aparelho. Tratava-se de um
transmissor de matéria. E era de um tipo não utilizado pelo Império
Solar.
Os
pensamentos de Kennof atropelaram-se. Não se atreveu a fazer o menor
movimento.
Os seis
homens foram caminhando em silêncio em direção à saída.
Até
parecia que o terrível acontecimento lhe suspendera os pensamentos.
Apavorado, Kennof deu-se conta do significado da primeira reação do
aparelho de localização. O transmissor de matéria acabara de levar
Lester Duncan, o político, a um lugar desconhecido.
Se a CIS
procedia assim com todas as pessoas postas a dormir, de quem eram os
corpos que se encontravam nas câmaras?
Kennof,
que poderia ser tudo, menos sensível, não conseguiu livrar-se do
sentimento de pavor.
Não teria
oportunidade para refletir sobre isso.
No momento
em que o último dos seis homens se encontrava ao lado do detetive, o
micro defletor entrou em pane. Kennof tornou-se visível. O
transmissor devia ter afetado o funcionamento do aparelho.
Kennof não
esperou até que o descobrissem. Deu um enorme salto e atirou-se
sobre o homem mais próximo. O treinamento recebido no Serviço de
Segurança Solar ensinara-lhe os métodos mais modernos de luta corpo
a corpo. Com dois golpes bem dirigidos, colocou o adversário fora de
combate.
Os outros
homens já haviam desaparecido no corredor. Kennof devia sair o
quanto antes da caverna em que se encontrava. Esta possuía um único
acesso, e por isso era uma armadilha muito perigosa. Os cinco homens
da CIS voltariam dentro de poucos minutos para verificar o que havia
acontecido com o colega. Kennof examinou o homem estendido no chão
para ver se trazia uma arma. Não teve sorte.
Saiu
correndo da estação do transmissor. Já não se tratava de
investigar a Companhia, a fim de averiguar se a mesma exercia
atividades ilegais. Naquele momento, a vida de Kennof estava em
perigo. Não acreditava que a CIS o deixaria sair depois que sabia
tanta coisa.
Chegou são
e salvo ao poço que levava à caverna onde estavam as criaturas
adormecidas. Foi quando ouviu a voz dos cinco homens. Provavelmente
já estavam voltando. Não perdeu tempo. Voltou a enfiar-se no buraco
e foi descendo pelo poço. Por enquanto estava em segurança.
Podia
imaginar perfeitamente o que aconteceria a seguir. Assim que
encontrassem o homem inconsciente, avisariam Clinkskate e os médicos.
Uma rápida investigação revelaria que ele, Kennof, saíra do lugar
e desativara o robô. Não havia necessidade de uma elevada dose de
fantasia para estabelecer uma ligação entre o robô e o homem
inconsciente, estendido perto do transmissor. E o elemento de ligação
seria Richard Kennof, que desaparecera sem deixar qualquer vestígio.
Passaria a ser o inimigo número um da CIS. Lançariam mão de todos
os recursos para encontrá-lo. Kennof não esperava nenhuma
compaixão.
Haveria
uma luta, e esta significaria seu fim. Quando o encontrassem, o resto
seria apenas uma questão de tempo. Apesar disso, hesitou em
transmitir o sinal de emergência para Shane. Queria uma prova
irrefutável, que pudesse levar a tropa de Shane a agir, logo que
chegasse ao local.
Kennof
examinou as portas que havia por lá. Estavam todas fechadas.
Praguejou. Olhou em torno, à procura de um esconderijo.
— Richard
Kennof! — disse uma voz.
O detetive
estremeceu e virou-se abruptamente.
“Devagar,
velho Dick”,
pensou. “É
apenas um alto-falante instalado por aqui.”
Haviam
dado por sua falta e esperavam que fosse revelar o lugar em que se
encontrava. Não lhes faria este favor. Correu e subiu pela escada,
que ficava junto a um recipiente. Lá em cima podia ficar de olho
sobre toda a caverna. Rastejou até a borda e enfiou o corpo embaixo
de uma tubulação.
— Kennof!
— o detetive reconheceu a voz de Clinkskate. — O senhor é um
homem inteligente. Sabe que acabará sendo encontrado. Apresente-se
voluntariamente, pois assim evitará medidas mais rigorosas.
Concedo-lhe três minutos para que informe onde fica seu esconderijo.
Se não aparecer até o fim deste prazo, começaremos a procurá-lo.
Kennof
esperou. O radiotransmissor estava ao alcance de sua mão. Não era
maior que uma caixa de cigarros.
Depois de
algum tempo, voltou a ouvir a voz de Clinkskate.
— O
prazo terminou, Kennof.
“A
dança vai começar, velho Dick”,
pensou Kennof.
A noite
devia estar quase no fim. Ali, embaixo da terra, não havia
possibilidade de saber. Por enquanto não sentia-se cansado.
Subitamente
dois homens entraram por uma das portas. Os dois traziam pistolas de
gás. Kennof observou-os tranqüilamente. Começaram a revirar os
cantos.
— Todas
as portas estavam fechadas, St. Cloud — disse um deles. — Não
pode estar aqui..
St. Cloud
respondeu em tom contrariado:
— Talvez
tenha entrado pelo poço.
— Como
Dunbee?
St. Cloud
fez que sim.
Kennof
ouvia atentamente. Ao que parecia, Dunbee também desconfiara de
alguma coisa e fugira. Mas pelas palavras do colaborador da CIS era
de supor que voltara a ser preso.
— Quando
o encontramos, lutou que nem um doido. Vamos dar uma olhada embaixo
dos recipientes.
Kennof
ouviu-os rastejarem por lá.
Depois de
algum tempo, voltou a ver St. Cloud. O outro homem também apareceu.
Acendeu um cigarro. St. Cloud soltou uma exclamação zangada.
Kennof
desejou ardentemente também poder fumar.
— Já
que não está embaixo dos caixões, talvez esteja em cima — disse
St. Cloud.
— Acho
que sua loucura não chega a tanto — objetou o outro. — Vamos
procurar em outro lugar.
— Está
bem — concordou St. Cloud a contragosto. — Vamos embora.
Assim que
se retiraram, Kennof desceu cautelosamente pela escada. Deixou de
usar os últimos degraus e saltou ao chão.
Viu-se bem
à frente do Dr. Le Boeuf, que mantinha uma pistola apontada para
ele.
— Olá,
Kennof. — disse o pequeno médico.
6
— Não
agüento mais esta espera — disse Célia Mortimer, dirigindo-se a
Shane, que se encontrava de pé à sua frente. — Por que não
chama?
Shane
Hardiston era um homem alto e musculoso com olhos azuis e delicados.
Um observador superficial seria levado a acreditar que era um homem
bondoso e tranqüilo. Mas seus inimigos conheciam a selvageria que se
ocultava sob toda aquela tranqüilidade.
— Talvez
já esteja dormindo — disse Shane em tom indiferente.
— Devemos
fazer alguma coisa — exigiu Célia.
— Isso
mesmo — concordou Hardiston. — Devemos esperar.
Célia
lançou-lhe um olhar furioso, mas não disse nada. Encontravam-se no
gabinete de Kennof, que se transformara numa espécie de
quartel-general.
Hartz
entrou e atirou um maço de papéis sobre a mesa. Havia uma expressão
matreira em seus olhos.
— Acho
que já nos livramos do pessoal da CIS. Cascane informa que
desapareceram da cidade — esfregou as mãos. — Está funcionando
tudo às mil maravilhas.
Seu rosto
assumiu uma expressão séria.
— Coitado
do Dick. Tem uma porção de dívidas e, além de tudo, a senhora,
Miss Célia... — disse em tom queixoso.
— Pois
bem — prosseguiu quando viu que ninguém ria. — O estado de ânimo
aproxima-se do zero absoluto. Que importa? Não será fácil derrotar
o velho Cavanaugh. Cascane constatou que ele, o presidente da CIS,
tem uma alta soma depositada nos bancos.
— Se o
interrogarmos a respeito, saberá apresentar uma explicação
convincente para sua fortuna — disse Shane.
— Naturalmente
— admitiu Hartz. — Aliás, o tal do Cascane, que agora está na
recepção, assume uma atitude cada vez mais insistente. Só a muito
custo conseguimos convencê-lo a não ir a Wyoming para ajudar
Kennof.
— Pelo
menos tem mais espírito de iniciativa que certos outros homens —
observou Célia em tom irônico.
— Isso é
comigo — disse Shane, dirigindo-se ao financista. — Esta jovem
também é de opinião que já está na hora de intervirmos nos
acontecimentos.
— Ora,
Miss Célia — disse o francês em tom indignado. — Logo agora,
que tudo corre tão bem? Se Dick precisar de auxílio, ele chamará.
Não tenha a menor dúvida. Não é nenhum menino inexperiente que
não saiba o que fazer.
— Eu o
conheço melhor que o senhor — disse a antiga agente. — Se existe
um homem que costuma tropeçar de um perigo para outro, este homem é
Dick. E geralmente ele gosta disso.
— Ela
está exagerando — disse Shane com um sorriso.
*
* *
— De
onde veio? — perguntou Kennof, em tom de surpresa.
Levantou
as mãos, para dar a entender que nem pensava em esboçar qualquer
defesa.
O Dr. Le
Boeuf encostou o dedo indicador da mão livre aos lábios.
— Quando
o senhor apareceu, eu já estava aqui — disse em voz baixa. — Não
fale tão alto. Por aqui existem vários micro fones.
Para
enorme espanto de Kennof, o médico guardou a arma. O detetive deixou
cair os braços.
— Farei
o que puder para ajudar o senhor — disse Le Boeuf. — A CIS é uma
grande fraude. Já está na hora de o público tomar conhecimento
disso. Infelizmente liguei-me a Cavanaugh e seus comparsas porque
precisava de dinheiro. A esta hora, já reconheço que foi um erro
gravíssimo. Quase todos os colaboradores da CIS foram subornados com
quantias elevadas. Os guardas são criminosos procurados pela
polícia, que se sentem satisfeitos por terem encontrado um
esconderijo. Seus documentos são falsos. Clinkskate é o elemento
mais perigoso. Provavelmente é o indivíduo mais baixo que já
encontrei.
Kennof
esforçou-se para digerir as impressões que desabavam sobre ele. Não
tinha a menor dúvida de que o médico estava sendo sincero.
— Qual é
o jogo da Companhia? — perguntou Kennof.
— É a
Terra — respondeu Le Boeuf laconicamente.
Kennof
sentiu uma leve tontura. Será que já estava dormindo num dos
recipientes?
Não! O
chão duro e frio e o rosto colérico de seu interlocutor pertenciam
ao mundo real.
— Suba
ao “caixão”
comigo — pediu o médico. — Mostrar-lhe-ei uma coisa de que o
senhor nunca se esquecerá, mesmo que viva cem anos.
Fossem
quais fossem as intenções do Dr. Le Boeuf, ele não teve
oportunidade de levá-las avante. Três homens saíram do poço e
vieram correndo em sua direção. Kennof virou-se, disposto a
defender-se. Uma expressão triste surgiu no rosto do médico.
— Tome —
disse, entregando a pistola a Kennof.
Este
sentiu o cabo frio e liso da arma em sua mão.
— Doutor!
O que está fazendo? — gritou um dos homens que se aproximavam.
Outro
homem disparou um tiro da pistola de gás. Kennof procurou prender a
respiração e respondeu ao fogo.
— Afaste-se
do nosso caminho, doutor — gritou um dos homens.
O Dr. Le
Boeuf atirou-se à sua frente. Kennof não se atreveu a atirar, pois
receava acertar no médico. Acontece que os empregados da CIS não
conheciam esse tipo de escrúpulo.
Kennof
abrigou-se atrás do recipiente de plástico.
— Está
aqui — gritou uma voz. — Na grande caverna, Clinkskate; nós o
encontramos.
— Agarrem-no!
— disse a voz saída dos alto-falantes.
O cheiro
de gás começou a tornar-se insuportável. Os olhos de Kennof
começaram a lacrimejar. Teve um forte acesso de tosse e retirou-se
apressadamente. Outros tiros foram disparados em sua direção.
— Clinkskate!
— gritou Kennof em tom de desespero. — Tenho uma arma. Retire
seus homens, senão atiro nos recipientes.
— É
verdade — disse um dos atacantes. — Ele tem uma arma, Clinkskate.
Sombras
escuras desfilaram diante dos olhos de Kennof. A partir do estômago,
um terrível mal-estar espalhou-se por todo o corpo. Teve de
agarrar-se a um tubo para não cair.
Dois
homens acreditaram que tivesse chegado a hora de aproximar-se. O
detetive viu seus contornos confusos surgirem na neblina leitosa.
Disparou. Não pôde concentrar-se o suficiente para acertar. Mas os
atacantes afastaram-se.
A mão
tateante de Kennof encontrou uma das escadas. Subiu pela mesma. Mal
conseguia respirar.
— Tomem
cuidado para que não danifique as câmaras de dormir — advertiu
Clinkskate.
Os homens
mantiveram-se afastados, em atitude indecisa. Kennof conseguiu
puxar-se para cima do caixão. Respirava com dificuldade e teve a
impressão de que iria morrer sufocado. Conseguiu arrastar-se para o
outro lado, onde o ar ainda não estava tão saturado de gás.
Arriscou
uma olhadela para baixo. Aproximadamente uma dezena de homens estava
reunida na sala. Todos usavam máscaras contra gases.
O Dr. Le
Boeuf estava deitado entre eles. O rosto de Kennof assumiu uma
expressão zangada. O aperto na garganta diminuíra. Os olhos
voltaram a enxergar direito.
Kennof
resolveu arriscar tudo numa única carta.
— Introduzi
uma carga explosiva nesta caverna — gritou de cima do caixão. —
Olhem!
Exibiu
cautelosamente o micro defletor defeituoso.
— Posso
demolir toda a caverna — afirmou em tom enfático. — Sou
policial. Ofereço o perdão a qualquer pessoa que me apóie na ação.
Esperava
que o aspecto estranho do defletor infundisse certa insegurança nos
homens.
— Está
blefando! — gritou Clinkskate com a voz rouca. Os alto-falantes
retumbavam. — Como é que ele poderia conservar um objeto destes
depois de ter sido revistado?
— Alguns
homens viram que o Dr. Le Boeuf me apoiou — lembrou Kennof. — O
doutor me ajudou a ficar com as armas.
— Não é
nenhum policial — berrou Clinkskate fora de si. — Não se deixem
enganar. Prendam-no!
— Se o
senhor tem tanta certeza de que ele não tem nenhuma carga explosiva,
por que não vem até aqui e nos ajuda a prendê-lo, Clinkskate? —
perguntou um dos homens em tom irônico.
Kennof
ouviu Clinkskate praguejar.
— Desliguei
o robô — gritou para os homens. — Como poderia ter feito isso se
não dispusesse de um treinamento de policial?
— Isso
parece bem plausível — confessou o homem que assumira as funções
de porta-voz do grupo. — Prometemos que nada lhe acontecerá se o
senhor se entregar.
Os
alto-falantes transmitiram as pragas proferidas por Clinkskate.
Kennof
soltou uma risada amarga.
— Não
sou criança — disse em tom penetrante. — Sei perfeitamente que a
CIS não me soltará em hipótese alguma. Já sei demais a respeito
de suas patifarias. Minha situação é desesperadora. Não tenho
nada a perder. Passarei a formular minhas condições.
— Agarrem-no
logo — ordenou Clinkskate, que apareceu na porta. Seu rosto estava
transformado numa terrível careta. Em seus olhos brilhava o ódio. —
Ele não pode impor condições.
Kennof fez
pontaria e atirou. O projétil penetrou no ombro de Clinkskate e
atirou-o ao chão. Não foi um impacto mortal. Kennof nem pretendia
que fosse. Não queria enfurecer ainda mais os homens. Dois deles
levaram o ferido, que gemia fortemente.
— Fale
logo! — gritou alguém para o detetive.
— Retire-se
com seus homens por doze horas. Prometo-lhe que, depois disso, lhe
entregarei minhas armas.
Kennof
subestimara o homem com quem estava falando.
— Isso
não tem lógica. Daqui a doze horas, sua situação será exatamente
a mesma. O senhor não ganharia nada; apenas retardaria nossa ação.
Naturalmente
Kennof não poderia dizer-lhe que, dentro desse prazo, Shane e seus
homens apareceriam por ali.
— Levem
o Dr. Le Boeuf como refém — disse. — Se daqui a doze horas eu
não aparecer com minhas armas para entregar-me, utilizem-no para
exercer pressão contra mim.
O
porta-voz do grupo lançou um olhar preocupado para Kennof.
— Não
vai danificar os recipientes?
— Garanto-lhe
que não!
O
colaborador da CIS fez um gesto afirmativo.
— Vamos
aceitar — disse, fazendo um sinal para os outros e abandonou a
área.
*
* *
Kennof
pegou o rádio. Agora tudo dependia de que Shane estivesse prestando
atenção.
Perdera
algum tempo para descobrir aquilo que o médico pretendia
mostrar-lhe.

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