terça-feira, 23 de agosto de 2016

P-087 - As Cavernas do Sono - William Voltz [Parte 2]

Você vê que já tenho um emprego.
Isso não é um trabalho para você — disse Kennof em tom penetrante. — Talvez, por algum tempo, consiga convencer a si mesma de que está gostando do serviço. Mas, mais tarde, ele a corroerá por dentro.
Tomou um gole.
A mulher respondeu em tom sarcástico:
Você quer proteger-me contra isso, Dick?
Kennof levantou ambas as mãos, num gesto negativo.
Sei que você é muito orgulhosa, Célia. O que lhe ofereço não representa nenhuma caridade. Peço seu auxílio.
Ao que parecia, Célia aguardava outras explicações, pois Kennof não obteve resposta. Ficou bebericando sua cerveja e piscou com os olhos.
Que sentimento lhe inspira a idéia de ser minha noiva, Célia?
Tendências suicidas — respondeu a mulher.
Kennof deu uma risadinha.
Isso me lisonjeia bastante — disse. — Mas você não demorará a gostar. Você não será uma noiva muito boa. Além de ser infiel, desperdiçará meu dinheiro e arruinará meu bom nome. Seu comportamento me fará ficar furioso. Tentarei matá-la, e só com grande dificuldade conseguirão impedir-me de realizar meu intento.
Para que tudo isso? — perguntou Célia, sem demonstrar maior interesse.
Para convencer a Companhia do Sono de Wyoming de que, face ao meu estado psíquico, não lhe restará outra alternativa senão aceitar-me como cliente para ser posto a dormir — disse Kennof em tom seco. — Além de uma noiva que me engana tenho muitas dívidas. Acho que isso deve bastar.
Célia parecia cada vez mais interessada.
Se você tiver dívidas, eles o recusarão. Não tenha a menor dúvida.
Acho que você subestima o Hartz. Depois que tiver sido posto a dormir, afirmará que eu o incumbi de vender meus bens. Com isso, minhas dívidas estarão liquidadas e a CIS não assumirá qualquer risco. Antes que Hartz inicie as vendas, saberei o que há atrás dessa Companhia, e voltarei arrependido. Anularei a ordem. Hartz se fará de ofendido, mas a CIS terá sido enganada. Nem sequer terei necessidade de pedir desculpas à Companhia do Sono. Mas se minha suposição de que há algo de errado com essa companhia for correta, Hartz e eu receberemos uma medalha. Hartz venderá sua medalha, e eu...
Célia fê-lo calar com um gesto.
Dick, existe alguma base legal para seu procedimento?
Os olhos de Kennof fitaram-na tristemente por cima do balcão.
Você ainda não aprendeu — disse ela.
É verdade — confessou o detetive.
E vai tentar, mesmo que eu não ajude — conjeturou a moça. — Você enfiou isso na sua cabeça dura.
Perfeitamente — respondeu Kennof.
Célia apresentou uma garrafinha.
É a melhor bebida que temos — disse com um sorriso. — Vamos brindar ao sucesso.
Muito animado, Kennof inclinou-se por cima do balcão.
Será como antes, quando ainda estávamos... — principiou.
Esqueça-se disso — respondeu Célia em tom áspero.
Kennof percebeu que ela nunca se conformaria com a perda do trabalho que tanto apreciava. Ao abrir seu escritório de detetive, ele mesmo criara certa compensação. Mas muitas vezes sentia vontade de enfrentar uma das tarefas às quais estava acostumado. Talvez fosse por causa do treinamento extraordinário que havia recebido. Em sua totalidade, os conhecimentos adquiridos estavam ociosos. E para Célia, seria ainda mais difícil conformar-se com a nova situação.
Kennof, que era um individualista empedernido, não conseguira conformar-se com a disciplina implacável. Não pertencia à classe de homens que gostam de receber ordens. Por causa disso tirara suas conclusões: pedira demissão e obtivera uma licença de detetive particular.
E agora estava reunido com sua antiga colega.
Richard Kennof há anos fora agente de um destacamento especial do Serviço de Segurança Solar!

* * *

Dali a vinte dias, julgou chegado o momento de entrar em contato com a CIS. Pediu que o pusessem a dormir por 150 anos. Disse que o pedido era motivado pela ruína financeira e pela tendência de matar a amiga infiel.
Gaston Hartz garantiu-lhe que não fora cometido nenhum erro, e que mesmo num exame rigoroso, feito por parte dos funcionários da CIS, não surgiria qualquer falha. Célia desempenhou seu papel com o brilhantismo que era de se esperar. E Jeanne Dunbee, que continuava em Dubose, recebeu a notícia sobre o progresso da tarefa de Kennof.
Depois de uma forte resistência, Célia encarregou-se de cuidar de Buster. De um dia para outro, o detetive esperava o convite da CIS para apresentar-se em Cheyenne a fim de submeter-se aos exames médicos de rotina.
Quando fez uma visita secreta ao Ministério do Interior, todos os homens que o cercaram acharam-no um ser digno de pena, pois, além de inúmeros credores, possuía uma noiva desprezível.

* * *

Snyder lançou um olhar de espanto para Kennof.
O fato de o senhor ter conseguido chegar a mim já o faz merecedor de certo respeito — disse no tom afetado que lhe era peculiar. — É verdade que guardo recordações nada gloriosas do senhor. Mas, apesar disso, estou disposto a ouvi-lo por alguns minutos.
Kennof preferiu não informar Snyder sobre as características reais da luta que travara, juntamente com Shane, contra os negociantes inescrupulosos que contrabandearam drogas do setor de Vega para a Terra.
Limitou-se a dizer:
O senhor chefiou a equipe que pela última vez fiscalizou as cavernas da CIS. Permite que formule algumas perguntas a este respeito?
Poderei dar-lhe apenas informações oficiosas — ponderou Snyder. — Não espere dados oficiais.
Kennof preferiu não dizer que, como contribuinte, lhe cabiam certos direitos. Os funcionários do Ministério do Interior geralmente não eram dotados de muito senso de humor, e não havia a menor dúvida de que Snyder era o caso mais difícil.
Naturalmente — respondeu o detetive em tom delicado. — Gostaria de saber se o senhor chegou a ver alguma pessoa que estivesse dormindo dentro do bioplasma.
Snyder levantou as sobrancelhas até o ponto em que as mesmas formavam um ângulo bem estudado, a partir do qual o gesto poderia ser interpretado como manifestação de uma emoção.
Examinamos atentamente os recipientes, Mr. Kennof — disse. — Vimos perfeitamente as pessoas, pois as paredes externas das câmaras de dormir são transparentes.
Pigarreou.
Constatamos que na caverna se encontravam exatamente as pessoas cujos nomes constam das cópias dos contratos arquivados no Ministério. A CIS é obrigada a enviar-nos cópia de todos os contratos que celebra, a fim de que possamos verificar a qualquer momento se certos elementos não recorrem aos seus serviços para subtrair-se à ação punitiva do Estado.
O senhor notou qualquer coisa que pessoalmente lhe parecesse estranho ou incompreensível? — perguntou Kennof, prosseguindo no seu interrogatório.
Bem, todo o projeto da CIS não é coisa corriqueira — começou Snyder em tom comedido. — Não sou nenhum perito no setor, e por isso é apenas natural que para mim certas coisas sejam inexplicáveis. Acontece que nossos especialistas são de opinião que os serviços da Companhia do Sono são exemplares e que não existe motivo para qualquer tipo de interferência. Será que o senhor dispõe de dados que contrariem esta opinião, Mr. Kennof?
De forma alguma — asseverou o ex-agente. — Meu interesse pela CIS é de natureza exclusivamente particular.
Não me venha dizer que o senhor quer adquirir um lugar para dormir.
Será fácil descobrir, Sir — disse Kennof em tom tranqüilo. — Basta examinar as cópias dos contratos.
Ao sair do Ministério do Interior, teve uma sensação nada agradável. Será que seu trabalho se revelaria inútil? Ao que parecia, todos achavam que não havia nada de errado com a CIS, inclusive Snyder. Kennof não estava interessado em desperdiçar seu tempo. Ainda não havia recebido qualquer resposta de Cheyenne. Por enquanto o pedido ainda poderia ser retirado.
Se Edmond Cascane, um colaborador ao qual Kennof pedira que realizasse uma investigação minuciosa do passado da CIC, não obtivesse elementos concretos, o detetive abandonaria seu plano.
Kennof enxotou alguns meninos que cercavam seu carro estacionado. As crianças estavam fascinadas pela pintura futurista. Muito pensativo, deu partida no motor. Virou a cabeça e olhou para o Ministério do Interior. Tratava-se de um edifício imponente, feito de vidro, aço e concreto. Ao partir, nem desconfiava de que Cascane guardava uma grande surpresa para ele.
Edmond Cascane — um homem quase completamente calvo, de olhos ágeis — colocou um montão de papéis à frente de Kennof. Fungava e enxugou um suor imaginário do rosto. Kennof brindou-o com um olhar de compaixão e começou a remexer o monte de papéis.
A maior parte disso não oferece o menor interesse — observou Cascane no tom de quem reserva uma enorme sensação. Com um olhar atento mirou Kennof enquanto este afastava os documentos.
Fale logo, Ed — disse o ex-agente.
Cascane tirou uma folha solitária do bolso da jaqueta e agitou-a à frente do nariz do chefe. Kennof, que já estava novamente envolto em seu robe amarelo, conseguiu apossar-se do segredo de Cascane.
Este documento apenas diz que um certo Fedor Piotrowski foi reprovado vergonhosamente nos exames de doutor em medicina — disse Kennof em tom de decepção, depois de ter lido o documento.
Pois é este mesmo homem que se encontra no Parque Nacional de Yellowstone, alguns metros abaixo da terra, e cuida dos clientes da CIS, sob o nome de doutor Piotrowski — disse Cascane em tom enfático. — O que acha disso?
Num gesto pensativo, Kennof esfregou o queixo volumoso.
É possível que posteriormente tenha passado no exame.
O auxiliar do detetive sacudiu a cabeça.
Não fez nada disso, Dick. Eu vasculhei sua vida. Piotrowski deve ter conseguido documentos falsos para arranjar a colocação na CIS.
Ou então a CIS fabricou-os para ele — disse Kennof.
O falso doutor vem do Canadá — prosseguiu Cascane. — Quebrou todas as pontes atrás de si. Em sua terra ninguém sabe para onde foi.
Kennof deu uma forte pancada na mesa.
Isso decide a questão — disse. — Vou a Wyoming.
O resto são recortes de jornais — disse Cascane, numa tentativa débil de chamar a atenção do chefe para a pilha de papéis. — Além disso, você encontrará relatos de palestras travadas com pessoas que já tiveram relações com a CIS.
Mas naquele momento, Kennof já estava refletindo sobre como esconder seus preciosos aparelhos no interior das cavernas, quando chegasse lá.
Dois dias depois, quando a CIS entrou em contato com o detetive, a fim de pedir a este que se apresentasse em Cheyenne, o problema tornou-se agudo.
4



M'Artois estava parado junto à janela, de costas para Richard Kennof. O detetive não se sentia muito à vontade. O psicólogo conhecia todas as artimanhas ligadas à sua profissão. Atrás de sua benevolência escondia-se uma extraordinária compreensão, além da excelente capacidade de combinação. Só no último instante, Kennof reconhecia as perguntas-armadilha do colaborador da CIS. O detetive só conseguiu ludibriar o psicólogo porque havia recebido o treinamento psicológico especial na Segurança Solar.
Kennof foi-se convencendo de que não se tratava tanto de um esforço da sociedade para interessar as pessoas cansadas pelas belezas deste mundo, mas antes de um verdadeiro interrogatório. M'Artois penetrava em todas as áreas da vida privada inventada por Kennof. Nem mesmo diante das perguntas mais indiscretas, recuava. Por várias vezes Kennof chegara a transpirar, ou então acreditara que o outro tivesse descoberto seu jogo. Mas até então tudo dera certo.
M'Artois lançou um olhar atento para Kennof.
O senhor me falou num tal de Mr. Hartz — disse. — Como foi que um financista tão esperto pôde conformar-se em ver o senhor empatar seu dinheiro em ações sem valor?
Acontece que estava saturado de ver meus atos supervisionados por Hartz — disse Kennof. — Queria provar a esse sujeito convencido que sabia arranjar-me sem ele. Infelizmente não deu certo.
Esse procedimento corresponde ao seu caráter — admitiu M'Artois, e Kennof suspirou às escondidas. — Talvez fosse conveniente recorrer a Mr. Hartz a fim de trilhar novo caminho que o faça subir novamente na vida.
Kennof, que via suas chances se desvanecerem de novo, disse:
Não é tanto pelo dinheiro. O senhor já está informado sobre o problema que houve com minha noiva. Quando me lembro com que falta de escrúpulos ela me tem enganado, não consigo controlar-me.
Apesar de tudo o senhor ainda a ama?
Kennof acenou com a cabeça, como quem se sente muito envergonhado.
Tornei-me um perfeito ator”, pensou.
O psicólogo pregou-lhe um longo sermão para convencê-lo de que seria preferível manter-se fiel à vida. Kennof não teve a menor dúvida de que essas palavras só tinham por fim despertar o espírito de contradição das pessoas que a CIS considerava inofensivas.
Enquanto M'Artois exaltava as belezas do mundo, criava no subconsciente de seu interlocutor uma aversão pelo mesmo. Apesar de tudo, o procedimento de M'Artois não infringia a lei e também não permitia a Kennof tirar qualquer conclusão sobre o trabalho da companhia.
Ainda está disposto a celebrar um contrato com a companhia? — perguntou M'Artois depois de concluídas suas considerações.
Sem dúvida — confirmou o novo candidato.
O senhor será submetido a um exame por meio do qual verificaremos seu estado de saúde. Quero perguntar desde logo se o senhor sofreu alguma amputação.
Kennof respondeu que não. Já estava convencido de que havia algo de errado com a CIS. Mas, por mais que se esforçasse, não descobriu o que poderia ser.
Seriam apenas alguns membros corruptos da companhia que seguiam um plano bem definido, ou será que Cavanaugh e os outros também participavam do mesmo? Em caso afirmativo, qual seria a finalidade da empresa? Será que seus interesses eram puramente comerciais?
Naquele momento, o homem, que poderia ter esclarecido até certo ponto as dúvidas de Richard Kennof, encontrava-se submetido a um poder do qual o detetive nunca poderia suspeitar.
Maurice Dunbee já sabia tudo, mas seu saber não lhe adiantava nada, pois não se encontrava na Terra, nem em qualquer outro planeta desta Galáxia.
5



Pequenas gotas de suor apareceram na testa de Kennof. Clinkskate não poderia desconfiar de que o homem à sua frente transpirava de medo de ser descoberto. Achou que fosse um sinal do nervosismo, que costumava apossar-se de qualquer pessoa que entrava nas cavernas da CIS, a fim de ser colocada nos grandes recipientes de plástico.
Kennof foi levado de helicóptero juntamente com dois outros homens. Um deles era um tipo nervoso, de cabelos muito ruivos e uma cicatriz profunda do lado direito do rosto.
Naquele instante estava sentado à frente de Kennof. Seu nome era Jubilee. Não contou o motivo por que desejava ser posto para dormir. Kennof achou que se tratasse de um ébrio contumaz.
O terceiro homem estava sentado bem atrás de Kennof. Tratava-se de um antigo político, cuja vida se frustrara em falsos ideais. Apesar de tudo, Lester Duncan costumava escolher muito bem as palavras. Kennof sentiu uma débil simpatia por ele. Jubilee era-lhe totalmente indiferente.
No momento, Kennof não tinha muito tempo para interessar-se pelos companheiros de viagem. Teria de encontrar um lugar seguro para o rádio e o micro defletor. Mais tarde também teria de livrar-se do localizador embutido no anel. Mas este era tão discreto que seria fácil tirá-lo normalmente. Teria de encontrar uma maneira de colocar esses objetos num lugar em que pudesse encontrá-los assim que precisasse deles.
Em primeiro lugar entregarei Mr. Duncan aos cuidados do Dr. Le Boeuf — disse Clinkskate. — Depois será a vez dos senhores.
Kennof compreendeu imediatamente.
Poderia fazer o favor de mostrar-me onde fica o banheiro? Gostaria de lavar-me.
Faça o favor de acompanhar-me — disse Clinkskate.
Quando saíram da grande sala em que funcionava o escritório, Kennof sentiu-se aliviado. Acompanhou Jubilee e o colaborador da CIS, até que Clinkskate apontasse para duas portas. Kennof agradeceu. Só desejava que a toalete não estivesse ocupada.
Teve sorte. A porta podia ser trancada por dentro. Kennof não perdeu tempo. Acionou a fechadura. Tirou do bolso o micro defletor e ligou-o. O aparelho desviava os raios de luz e fazia com que seu portador se tornasse praticamente invisível.
A visibilidade resulta exclusivamente da reflexão dos raios luminosos. Como naquele momento Kennof não pudesse ser atingido pelos raios de luz, não poderia refleti-los.
No entanto, qualquer aparelho de localização, mesmo de potência reduzida, logo teria registrado sua presença. Além disso tinha que ter cuidado para não causar ruídos.
Que bom é o velho Shane”, pensou Kennof num assomo de gratidão e saiu do lavatório.
O corredor estava vazio e abandonado. Sem hesitar, Kennof seguiu na direção em que Clinkskate havia desaparecido juntamente com o ébrio. Logo encontrou uma porta aberta. Viu-se num gigantesco recinto abobadado, subdividido em vários pavimentos. Os olhos treinados de Kennof perceberam imediatamente que se tratava de instalações energéticas e equipamento médico.
Olhou em torno e pôs-se a refletir.
Naquele instante, Clinkskate saiu do elevador a quatro metros do lugar em que Kennof se encontrava. Este apressou-se para se colocar numa posição segura. Clinkskate passou por ele sem desconfiar de nada. O detetive acreditou que só disporia de alguns minutos para encontrar um esconderijo.
Seria muito arriscado pegar o elevador para descer um andar. O micro comunicador devia ser guardado aqui em cima. Pelos seus cálculos, naquele momento Clinkskate estaria chegando às toaletes. Kennof descobriu uma prateleira na qual, segundo parecia, havia peças gastas. Escondeu cuidadosamente o rádio atrás de alguns rolamentos. A seguir, desligou o defletor e também o guardou na prateleira. Se aparecesse alguém, poderia dizer que se perdera. O anel, que abrigava um minúsculo aparelho de localização, continuou no seu dedo. Tratava-se de uma obra de precisão dos micro técnicos, os swoons. Os seres em forma de pepino, que Perry Rhodan trouxera à Terra numa missão arriscadíssima, eram espetaculares.
Kennof olhou pelo corredor. Sentiu-se triste ao pensar no Serviço de Segurança Solar. Era este o tipo de trabalho de que precisava. E a Segurança Solar poderia ter-lhe dado este tipo de missão. Porém, atrás dela havia a cadeia de comando e a rígida ordem militar, que não correspondiam ao gosto de Kennof.
Voltou correndo e chegou ao setor administrativo quase no mesmo instante que Clinkskate.
Você ainda está em forma, velho Dick”, pensou, enquanto sorria para Clinkskate. “Poderá dar muito trabalho a essa gente.”
Naquele momento não poderia saber que seriam eles que lhe dariam muito trabalho. Se soubesse, não se sentiria tão otimista.

* * *

Durante sua vida agitada, Kennof nunca adquirira uma idéia precisa de como o corpo humano é preparado para um prolongado sono, que se assemelha à morte. E aquilo que o Dr. Le Boeuf e seu auxiliar Piotrowski haviam feito com ele em nada contribuiu para tornar mais compreensível o estado de hibernação bioquímica.
Se sua noção de tempo não tivesse sido prejudicada pelas repetidas anestesias, o detetive calculava que devia estar no fim da tarde. O Dr. Le Boeuf encontrava-se ao lado da mesa dos exames e, num gesto de cansaço, passou a mão pelo rosto.
Esse idiota do Jubilee nos tomou muito tempo — disse, dirigindo-se a Piotrowski. — Sugiro que ainda tiremos a freqüência das vibrações cerebrais de Kennof e deixemos o resto para amanhã.
Está certo — concordou seu auxiliar.
Kennof suspirou aliviado. Já receara não ter oportunidade para uma inspeção discreta. Tudo dependia de que fosse deixado só. Ergueu-se ligeiramente e olhou para os médicos. Atendendo à ordem de Piotrowski, as duas enfermeiras trouxeram um aparelho grande e oval para perto de Kennof.
O que é isso, doutor? — perguntou Kennof, em cuja mente surgiu uma suspeita vaga.
Le Boeuf mexeu nervosamente em alguns cabos.
Um aparelho destinado a medir a freqüência de suas vibrações cerebrais — informou. — Não tenha medo.
Kennof esforçou-se para sorrir.
Infelizmente, para o Dr. Le Boeuf, Kennof sabia perfeitamente como era um medidor de freqüências cerebrais fabricado na Terra. Enquanto o sorriso de Kennof se desfazia e as batidas de seu coração se aceleravam, o médico iniciou os preparativos.
Um novo olhar bastou para que Kennof não tivesse mais a menor dúvida: o aparelho não era de fabricação terrana. O ex-agente não conseguiu impedir que um sopro de pavor lhe tocasse a mente.
Como foi que a CIS arranjou um aparelho que, sem a menor dúvida, não era conhecido sequer ao Serviço de Segurança Solar? Seria pura coincidência? Em hipótese alguma!
Incline-se ligeiramente para a frente — resmungou o Dr. Le Boeuf em tom contrariado.
Passou uma faixa bem apertada em torno da cabeça de Kennof. Inúmeros fios saíam da tal faixa.
Piotrowski, que se encontrava atrás do aparelho e, segundo parecia, estava lendo os resultados, disse em tom de espanto:
O senhor deve ter muitos problemas na cabeça.
Não deixe o homem confuso — gritou Le Boeuf. — Anote os resultados.
Piotrowski lançou um olhar zangado para o colega. Nos fundos da sala, as enfermeiras mantinham-se em atitude de expectativa. Kennof esforçou-se para reprimir as idéias exaltadas. Não deveria cometer qualquer tolice que pudesse traí-lo.
Pronto! — resmungou Piotrowski, depois de algum tempo.
A faixa foi tirada da cabeça de Kennof. As enfermeiras afastaram o misterioso aparelho.
Tente dormir até amanhã — disse o Dr. Le Boeuf. — Acho que não será difícil, pois nos próximos anos sua ocupação principal será esta.
Soltou uma estrondosa gargalhada. Piotrowski também riu.
A irmã Marion ficará com o senhor — prosseguiu o médico. — Se desejar, ela lhe dará um calmante.
A enfermeira... Deveria ter desconfiado de que não o deixariam só. Apesar disso fez uma tentativa ligeira de modificar as idéias do médico:
A irmã Marion pode dormir, doutor. Saberei arranjar-me.
Ela ficará com o senhor — disse Le Boeuf em tom decidido.
Kennof calou-se. Deixou que o levassem à cama. Cobriu-se cuidadosamente. Dali a meia hora, os dois médicos e uma das enfermeiras saíram da sala.
A mulher, que deveria velar pelo descanso de Kennof, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. Manteve-se em silêncio. Era alta e esbelta e seu rosto era muito bem formado.
Não é possível que fique sentada aí toda a noite”, pensou Kennof desesperado. “Acabará saindo ou adormecendo.”
Dali a duas horas, a situação continuava a mesma. A enfermeira mantinha-se imóvel a seu lado. Finalmente Kennof teve uma idéia.
Irmã Marion — pediu. — Será que poderia arranjar alguma coisa para beber?
Naturalmente — respondeu a enfermeira em tom amável.
Kennof sentia-se exultante. Mas logo viu-se diante de uma dolorosa decepção. A enfermeira abriu um armário, tirou uma garrafa e encheu um copo.
Chá”, pensou Kennof amargurado. “Logo chá!
Sorveu o líquido com um agrado fingido. Provavelmente também havia comida guardada por perto. Seria inútil pedir-lhe que fosse buscá-la. Dessa forma, nunca se livraria dela.
Quando Kennof teve a impressão de que mais duas horas se haviam passado, brincou com a idéia de fingir-se de doido. Passou a observar mais atentamente a mulher. Até então, ela não fechara os olhos uma única vez. A sala estava debilmente iluminada.
Será possível que essa mulher não dorme?”, pensou. “Nem sequer pisca os olhos!
Kennof sentiu um calafrio.
Era isso!
Fitou-a intensamente. As pupilas olhavam para a frente sem que as pálpebras se movessem.
A irmã Marion não era nenhuma enfermeira!
Nem sequer era uma mulher!
Era um robô!
Num gesto instintivo, Kennof enfiou-se mais profundamente embaixo das cobertas. Como antigo agente, sabia muita coisa a respeito de robôs.
De robôs terranos!
Acontece que talvez a máquina, que corporificava a irmã Marion, não fosse um robô terrano, tal qual o medidor de freqüências, que não fora construído na Terra.
Kennof sabia perfeitamente que sem arma nunca poderia arriscar uma luta. Havia uma única possibilidade. Teria de provocar um curto-circuito no cérebro positrônico do robô. Com a lógica dos homens-máquina terranos, isso não seria difícil. Mas se aquela máquina tivesse sido construída por outra raça, seria perfeitamente possível que se guiasse por uma lógica estranha. As possibilidades eram tantas que Kennof nem se atreveu a pensar nelas.
Mãos à obra, velho Dick”, pensou Kennof. “O que está esperando?
Se o robô tivesse sido construído segundo os princípios terranos, praticamente não havia qualquer dúvida de que a ação seria bem sucedida. Mas se agisse de acordo com alguma lógica desconhecida, muitas coisas imprevisíveis poderiam acontecer.
Irmã Marion — principiou Richard Kennof, em tom suave. — Acabo de descobrir que a senhora é um robô.
A enfermeira fitou Kennof. Este abaixou-se.
Avisarei o Dr. Le Boeuf — disse a máquina.
Devagar, “meu caro” — gritou Kennof apressadamente. — O Dr. Le Boeuf não mandou que você me vigiasse ininterruptamente?
O robô manteve-se calado por algum tempo.
A ordem é esta — disse finalmente.
Kennof levantou a mão direita.
De qualquer maneira, é indispensável que o médico seja avisado imediatamente sobre a minha descoberta, pois esta poderá causar conseqüências sérias — advertiu.
É o que devo fazer — confirmou a máquina e pôs-se a andar.
Pare! — berrou Kennof. — Você vai desobedecer a uma ordem, deixando-me sem vigilância?
Em hipótese alguma — disse o robô.
Kennof disse em tom grosseiro:
Vá logo e traga o doutor antes que aconteça alguma coisa. Não se esqueça de cuidar de mim. Você não poderá deixar-me só; compreendeu? Foi a ordem que lhe deram. O que está esperando? Vá! Cuide! Fique aqui! Vá! Fique! Vá! Fique!
Quando o dispositivo de segurança do cérebro positrônico entrou em ação e provocou um curto-circuito, o detetive ainda estava repetindo as ordens. O robô não conseguiu coordenar as instruções contraditórias. O êxito da pretensão de Kennof só se deu porque o Dr. Le Boeuf realmente havia dado ordem para que a irmã Marion permanecesse constantemente em companhia do detetive.
Kennof saltou da cama. Nenhuma memória positrônica pode ser alimentada com duas ordens de igual urgência. Nesse caso, o único recurso que restava à máquina era a fuga para uma espécie de “esquizofrenia mecânica”.
Num ligeiro exame, Kennof certificou-se de que realmente se tratava de um robô terrano. Nesse ponto não havia mais nenhum perigo. Na manhã seguinte, os dois médicos poderiam quebrar a cabeça para descobrir como sua enfermeira fora colocada nesse estado.
O que importava a Kennof era apoderar-se do micro defletor e do micro comunicador, e inspecionar as cavernas. O lugar em que escondera os aparelhos ficava um andar acima. Preferiu não usar o elevador, pois receava que o ruído dos motores pudesse atrair a atenção dos homens da CIS. Não havia escada. O elevador corria num poço aberto. Kennof resolveu subir pelos cabos. Subiu à cobertura da pequena cabina. Se alguém tivesse a idéia de usar o elevador enquanto se encontrasse ali, estaria morto. Kennof arrastou seu pesado corpo para cima com a agilidade de um macaco. Em certos lugares, o cabo estava danificado. As pontinhas de metal feriram as mãos de Kennof.
Finalmente chegou ao destino e voltou a pôr os pés no chão. Rastejou para junto da prateleira em que guardara os aparelhos.
Kennof agiu depressa. Dali a alguns segundos, estava voltando. Limpou as mãos numa toalha e atirou-a na lixeira.
As idéias de Kennof sobre os passos seguintes eram mais que vagas. Teria que sair ao sabor da sorte ou do azar, pois não possuía a menor indicação.
Faltava pouco para a meia-noite. Passou pela mesma porta através da qual, poucas semanas antes, Dunbee iniciara a fuga. Ligou o micro defletor, a fim de estar protegido se houvesse um encontro imprevisto. Kennof chegou ao poço no qual Dunbee caíra e parou. O corredor prosseguia, mas a intuição de Kennof decidiu-se pelo buraco. O detetive entrou e deixou-se escorregar lentamente.
Kennof certificou-se de que os preciosos aparelhos que Shane lhe dera não haviam sido danificados. Olhou em redor e seus olhos defrontaram-se com um cenário impressionante. Uma luz pálida iluminava o grande recinto abobadado. As sombras grotescas de rochas gigantescas estavam desenhadas no chão. E três grandes recipientes de plástico pareciam monstros adormecidos num esconderijo.
Kennof aproximou-se.
Finalmente, ele os viu: os adormecidos!
Boiavam que nem peixes no interior das câmaras. Nus e de olhos fechados, descansavam no líquido amarelento. Eram inúmeros corpos, um ao lado do outro. Rostos para cima e rostos para baixo. Dedos entrelaçados, dedos abertos. Mãos de trabalhadores e de sábios, de mulheres e de homens.
Kennof estremeceu. Esses homens haviam fugido do sofrimento do mundo em que viviam, a fim de procurar a felicidade num futuro distante. E aqui estavam eles, depois de terem adormecido, esperançosos e confiantes. Havia neles algo de deprimente e algo de vergonhoso. Kennof pensou na tentativa mil vezes repetida de enganar o destino. Não conseguiriam seu intento. Quando despertassem, descobririam que tinham transportado para o futuro as mesmas personalidades que os martirizavam no passado.
Nada mudaria!
Kennof fez um esforço e chegou ainda mais perto de um dos recipientes.
As pessoas adormecidas repousavam sobre apoios pneumáticos. As câmaras estavam separadas por grades. Junto ao lugar em que dormia cada pessoa, terminavam numerosas mangueiras e contatos. O plasma celular mantinha-se em movimento constante, o que provava que estava sendo renovado ou tratado ininterruptamente. As pessoas adormecidas só poderiam ser alcançadas pela parte de cima dos recipientes. E ali Kennof viu tubos, cabos e outros contatos.
O antigo agente do Serviço de Segurança Solar suspirou aliviado. Confessou a si mesmo que esperara encontrar neste lugar algo de extraordinário. Não quisera acreditar que a única coisa existente ali eram homens e mulheres adormecidos.
Era possível que, sob outros pontos de vista, a ação da CIS fosse incorreta e violasse a lei. Porém os homens que recorriam a ela estavam bem guardados.
Nem desconfiava de que, dali a algumas horas, mudaria de opinião.

* * *

Richard Kennof estava ofegante ao sair do poço. Não teria outra alternativa senão voltar ao santuário do Dr. Le Boeuf e explicar ao médico, assim que este aparecesse, que mudara de opinião e estava disposto a enfrentar a vida.
Quando o instrumento de localização, embutido no anel, deu um sinal, Kennof estava fazendo uma limpeza provisória das vestes. Surpreso, o detetive parou em meio ao trabalho.
Pela intensidade da reação do aparelho concluiu que, nas imediações do lugar em que se encontrava, acabara de ocorrer uma descarga energética de grandes proporções. Kennof examinou o anel.
Este aparelho aponta as formas de energia convencionais, e também as da quinta dimensão — explicara Shane. — O pequenino indicador está dividido em dois setores. O setor vermelho revela a existência de uma descarga sobreposta, ou seja, de uma descarga da quinta dimensão.
Ao rememorar estas palavras, Kennof despertou de vez. Voltou a certificar-se.
Não se enganara. Em algum lugar, acabara de ocorrer uma descarga energética da quinta dimensão.
Kennof trincou os dentes. Sua desconfiança, que fora abafada, voltou a fortalecer-se.
Como é que nas instalações da CIS havia fontes de energia superdimensionais? Segundo todos os cálculos humanos, isso seria impossível. Tinha certeza de que o instrumento de localização estava em perfeitas condições. Antes de entregá-lo, Shane mandara revisá-lo cuidadosamente.
Não podia pensar mais em descansar. Avançou pelo corredor que seguia atrás da entrada do poço, penetrando terra adentro. O anel não indicou outras descargas.
Uma tensão quase insuportável apoderou-se de Kennof. Será que afinal havia algo de errado com a Companhia do Sono? Como ninguém pudesse vê-lo, não agiu com muita cautela.
O corredor terminou no platô metálico, situado dentro de outra caverna. Kennof entrou imediatamente. Bem ao lado da abertura havia outra, que voltava a penetrar na rocha. Fora construída com tamanha habilidade que Kennof logo imaginou que seria fácil de ser camuflada por ocasião de uma inspeção. Algumas rochas grandes, que se encontravam junto à entrada, reforçavam essa suposição.
Qualquer fiscal deixaria de notar essa entrada natural, ainda mais que teria sua atenção desviada pelo platô metálico. Mas agora, que a CIS não esperava qualquer fiscalização, a entrada permanecia aberta.
Kennof soltou um assobio. Fosse o que fosse que a Companhia Intertemporal do Sono tinha a esconder, ele poderia encontrá-lo se seguisse por esse caminho.
Kennof enfiou-se pela entrada secreta. Também estava iluminada, o que levava à conclusão de que era usada com certa freqüência. Mais ao longe, o detetive percebe ruídos indefiníveis. Apressou-se. A galeria foi ficando cada vez mais clara. Ouviu vozes humanas. Seu coração começou a bater mais depressa. Kennof reprimiu o nervosismo.
O caminho descreveu um ângulo reto. Procurando evitar todo e qualquer ruído, Kennof percorreu os últimos metros e entrou num recinto de grandes dimensões.
A caverna na qual penetrou era pouco menor que as outras. Avistou de pronto seis homens que envergavam as vestes da CIS. Logo viu um outro, que já conhecia. Era Jubilee.
Kennof reprimiu um grito. Jubilee estava nu e deitado no chão; ao que parecia, estava inconsciente. Atrás do beberrão, que viera a Wyoming com Kennof, alguns bastões metálicos saíam verticalmente da rocha. Formavam um semicírculo de cerca de dez metros de diâmetro. Kennof teve a impressão de que lembravam o picadeiro de um circo. Bem em cima dos bastões metálicos, junto ao teto, uma esfera metálica vermelha e brilhante flutuava no ar, desafiando a lei da gravitação.
Kennof quase se esqueceu de respirar. Tudo parecia estranho e ameaçador. Nunca vira nada semelhante e não podia imaginar do que se tratava.
Dois homens levantaram Jubilee. Sem a menor contemplação arrastaram-no para o interior do picadeiro. Depois retiraram-se apressadamente.
Só e abandonado, Jubilee estava deitado a quinze metros de Kennof.
Você não pode fazer nada por ele, velho Dick”, pensou Kennof, a fim de tranqüilizar-se.
De repente, Jubilee desapareceu!
Num tempo zero, seu grande rosto vermelho dissolveu-se diante dos olhos de Kennof. Até parecia que jamais um ser vivo estivera deitado entre os bastões metálicos.
Só agora percebeu que, no momento em que Jubilee desapareceu, seu instrumento de localização voltou a reagir.
Já sabia o que vinha a ser aquele estranho aparelho. Tratava-se de um transmissor de matéria. E era de um tipo não utilizado pelo Império Solar.
Os pensamentos de Kennof atropelaram-se. Não se atreveu a fazer o menor movimento.
Os seis homens foram caminhando em silêncio em direção à saída.
Até parecia que o terrível acontecimento lhe suspendera os pensamentos. Apavorado, Kennof deu-se conta do significado da primeira reação do aparelho de localização. O transmissor de matéria acabara de levar Lester Duncan, o político, a um lugar desconhecido.
Se a CIS procedia assim com todas as pessoas postas a dormir, de quem eram os corpos que se encontravam nas câmaras?
Kennof, que poderia ser tudo, menos sensível, não conseguiu livrar-se do sentimento de pavor.
Não teria oportunidade para refletir sobre isso.
No momento em que o último dos seis homens se encontrava ao lado do detetive, o micro defletor entrou em pane. Kennof tornou-se visível. O transmissor devia ter afetado o funcionamento do aparelho.
Kennof não esperou até que o descobrissem. Deu um enorme salto e atirou-se sobre o homem mais próximo. O treinamento recebido no Serviço de Segurança Solar ensinara-lhe os métodos mais modernos de luta corpo a corpo. Com dois golpes bem dirigidos, colocou o adversário fora de combate.
Os outros homens já haviam desaparecido no corredor. Kennof devia sair o quanto antes da caverna em que se encontrava. Esta possuía um único acesso, e por isso era uma armadilha muito perigosa. Os cinco homens da CIS voltariam dentro de poucos minutos para verificar o que havia acontecido com o colega. Kennof examinou o homem estendido no chão para ver se trazia uma arma. Não teve sorte.
Saiu correndo da estação do transmissor. Já não se tratava de investigar a Companhia, a fim de averiguar se a mesma exercia atividades ilegais. Naquele momento, a vida de Kennof estava em perigo. Não acreditava que a CIS o deixaria sair depois que sabia tanta coisa.
Chegou são e salvo ao poço que levava à caverna onde estavam as criaturas adormecidas. Foi quando ouviu a voz dos cinco homens. Provavelmente já estavam voltando. Não perdeu tempo. Voltou a enfiar-se no buraco e foi descendo pelo poço. Por enquanto estava em segurança.
Podia imaginar perfeitamente o que aconteceria a seguir. Assim que encontrassem o homem inconsciente, avisariam Clinkskate e os médicos. Uma rápida investigação revelaria que ele, Kennof, saíra do lugar e desativara o robô. Não havia necessidade de uma elevada dose de fantasia para estabelecer uma ligação entre o robô e o homem inconsciente, estendido perto do transmissor. E o elemento de ligação seria Richard Kennof, que desaparecera sem deixar qualquer vestígio. Passaria a ser o inimigo número um da CIS. Lançariam mão de todos os recursos para encontrá-lo. Kennof não esperava nenhuma compaixão.
Haveria uma luta, e esta significaria seu fim. Quando o encontrassem, o resto seria apenas uma questão de tempo. Apesar disso, hesitou em transmitir o sinal de emergência para Shane. Queria uma prova irrefutável, que pudesse levar a tropa de Shane a agir, logo que chegasse ao local.
Kennof examinou as portas que havia por lá. Estavam todas fechadas. Praguejou. Olhou em torno, à procura de um esconderijo.
Richard Kennof! — disse uma voz.
O detetive estremeceu e virou-se abruptamente.
Devagar, velho Dick”, pensou. “É apenas um alto-falante instalado por aqui.”
Haviam dado por sua falta e esperavam que fosse revelar o lugar em que se encontrava. Não lhes faria este favor. Correu e subiu pela escada, que ficava junto a um recipiente. Lá em cima podia ficar de olho sobre toda a caverna. Rastejou até a borda e enfiou o corpo embaixo de uma tubulação.
Kennof! — o detetive reconheceu a voz de Clinkskate. — O senhor é um homem inteligente. Sabe que acabará sendo encontrado. Apresente-se voluntariamente, pois assim evitará medidas mais rigorosas. Concedo-lhe três minutos para que informe onde fica seu esconderijo. Se não aparecer até o fim deste prazo, começaremos a procurá-lo.
Kennof esperou. O radiotransmissor estava ao alcance de sua mão. Não era maior que uma caixa de cigarros.
Depois de algum tempo, voltou a ouvir a voz de Clinkskate.
O prazo terminou, Kennof.
A dança vai começar, velho Dick”, pensou Kennof.
A noite devia estar quase no fim. Ali, embaixo da terra, não havia possibilidade de saber. Por enquanto não sentia-se cansado.
Subitamente dois homens entraram por uma das portas. Os dois traziam pistolas de gás. Kennof observou-os tranqüilamente. Começaram a revirar os cantos.
Todas as portas estavam fechadas, St. Cloud — disse um deles. — Não pode estar aqui..
St. Cloud respondeu em tom contrariado:
Talvez tenha entrado pelo poço.
Como Dunbee?
St. Cloud fez que sim.
Kennof ouvia atentamente. Ao que parecia, Dunbee também desconfiara de alguma coisa e fugira. Mas pelas palavras do colaborador da CIS era de supor que voltara a ser preso.
Quando o encontramos, lutou que nem um doido. Vamos dar uma olhada embaixo dos recipientes.
Kennof ouviu-os rastejarem por lá.
Depois de algum tempo, voltou a ver St. Cloud. O outro homem também apareceu. Acendeu um cigarro. St. Cloud soltou uma exclamação zangada.
Kennof desejou ardentemente também poder fumar.
Já que não está embaixo dos caixões, talvez esteja em cima — disse St. Cloud.
Acho que sua loucura não chega a tanto — objetou o outro. — Vamos procurar em outro lugar.
Está bem — concordou St. Cloud a contragosto. — Vamos embora.
Assim que se retiraram, Kennof desceu cautelosamente pela escada. Deixou de usar os últimos degraus e saltou ao chão.
Viu-se bem à frente do Dr. Le Boeuf, que mantinha uma pistola apontada para ele.
Olá, Kennof. — disse o pequeno médico.
6



Não agüento mais esta espera — disse Célia Mortimer, dirigindo-se a Shane, que se encontrava de pé à sua frente. — Por que não chama?
Shane Hardiston era um homem alto e musculoso com olhos azuis e delicados. Um observador superficial seria levado a acreditar que era um homem bondoso e tranqüilo. Mas seus inimigos conheciam a selvageria que se ocultava sob toda aquela tranqüilidade.
Talvez já esteja dormindo — disse Shane em tom indiferente.
Devemos fazer alguma coisa — exigiu Célia.
Isso mesmo — concordou Hardiston. — Devemos esperar.
Célia lançou-lhe um olhar furioso, mas não disse nada. Encontravam-se no gabinete de Kennof, que se transformara numa espécie de quartel-general.
Hartz entrou e atirou um maço de papéis sobre a mesa. Havia uma expressão matreira em seus olhos.
Acho que já nos livramos do pessoal da CIS. Cascane informa que desapareceram da cidade — esfregou as mãos. — Está funcionando tudo às mil maravilhas.
Seu rosto assumiu uma expressão séria.
Coitado do Dick. Tem uma porção de dívidas e, além de tudo, a senhora, Miss Célia... — disse em tom queixoso.
Pois bem — prosseguiu quando viu que ninguém ria. — O estado de ânimo aproxima-se do zero absoluto. Que importa? Não será fácil derrotar o velho Cavanaugh. Cascane constatou que ele, o presidente da CIS, tem uma alta soma depositada nos bancos.
Se o interrogarmos a respeito, saberá apresentar uma explicação convincente para sua fortuna — disse Shane.
Naturalmente — admitiu Hartz. — Aliás, o tal do Cascane, que agora está na recepção, assume uma atitude cada vez mais insistente. Só a muito custo conseguimos convencê-lo a não ir a Wyoming para ajudar Kennof.
Pelo menos tem mais espírito de iniciativa que certos outros homens — observou Célia em tom irônico.
Isso é comigo — disse Shane, dirigindo-se ao financista. — Esta jovem também é de opinião que já está na hora de intervirmos nos acontecimentos.
Ora, Miss Célia — disse o francês em tom indignado. — Logo agora, que tudo corre tão bem? Se Dick precisar de auxílio, ele chamará. Não tenha a menor dúvida. Não é nenhum menino inexperiente que não saiba o que fazer.
Eu o conheço melhor que o senhor — disse a antiga agente. — Se existe um homem que costuma tropeçar de um perigo para outro, este homem é Dick. E geralmente ele gosta disso.
Ela está exagerando — disse Shane com um sorriso.

* * *

De onde veio? — perguntou Kennof, em tom de surpresa.
Levantou as mãos, para dar a entender que nem pensava em esboçar qualquer defesa.
O Dr. Le Boeuf encostou o dedo indicador da mão livre aos lábios.
Quando o senhor apareceu, eu já estava aqui — disse em voz baixa. — Não fale tão alto. Por aqui existem vários micro fones.
Para enorme espanto de Kennof, o médico guardou a arma. O detetive deixou cair os braços.
Farei o que puder para ajudar o senhor — disse Le Boeuf. — A CIS é uma grande fraude. Já está na hora de o público tomar conhecimento disso. Infelizmente liguei-me a Cavanaugh e seus comparsas porque precisava de dinheiro. A esta hora, já reconheço que foi um erro gravíssimo. Quase todos os colaboradores da CIS foram subornados com quantias elevadas. Os guardas são criminosos procurados pela polícia, que se sentem satisfeitos por terem encontrado um esconderijo. Seus documentos são falsos. Clinkskate é o elemento mais perigoso. Provavelmente é o indivíduo mais baixo que já encontrei.
Kennof esforçou-se para digerir as impressões que desabavam sobre ele. Não tinha a menor dúvida de que o médico estava sendo sincero.
Qual é o jogo da Companhia? — perguntou Kennof.
É a Terra — respondeu Le Boeuf laconicamente.
Kennof sentiu uma leve tontura. Será que já estava dormindo num dos recipientes?
Não! O chão duro e frio e o rosto colérico de seu interlocutor pertenciam ao mundo real.
Suba ao “caixão” comigo — pediu o médico. — Mostrar-lhe-ei uma coisa de que o senhor nunca se esquecerá, mesmo que viva cem anos.
Fossem quais fossem as intenções do Dr. Le Boeuf, ele não teve oportunidade de levá-las avante. Três homens saíram do poço e vieram correndo em sua direção. Kennof virou-se, disposto a defender-se. Uma expressão triste surgiu no rosto do médico.
Tome — disse, entregando a pistola a Kennof.
Este sentiu o cabo frio e liso da arma em sua mão.
Doutor! O que está fazendo? — gritou um dos homens que se aproximavam.
Outro homem disparou um tiro da pistola de gás. Kennof procurou prender a respiração e respondeu ao fogo.
Afaste-se do nosso caminho, doutor — gritou um dos homens.
O Dr. Le Boeuf atirou-se à sua frente. Kennof não se atreveu a atirar, pois receava acertar no médico. Acontece que os empregados da CIS não conheciam esse tipo de escrúpulo.
Kennof abrigou-se atrás do recipiente de plástico.
Está aqui — gritou uma voz. — Na grande caverna, Clinkskate; nós o encontramos.
Agarrem-no! — disse a voz saída dos alto-falantes.
O cheiro de gás começou a tornar-se insuportável. Os olhos de Kennof começaram a lacrimejar. Teve um forte acesso de tosse e retirou-se apressadamente. Outros tiros foram disparados em sua direção.
Clinkskate! — gritou Kennof em tom de desespero. — Tenho uma arma. Retire seus homens, senão atiro nos recipientes.
É verdade — disse um dos atacantes. — Ele tem uma arma, Clinkskate.
Sombras escuras desfilaram diante dos olhos de Kennof. A partir do estômago, um terrível mal-estar espalhou-se por todo o corpo. Teve de agarrar-se a um tubo para não cair.
Dois homens acreditaram que tivesse chegado a hora de aproximar-se. O detetive viu seus contornos confusos surgirem na neblina leitosa. Disparou. Não pôde concentrar-se o suficiente para acertar. Mas os atacantes afastaram-se.
A mão tateante de Kennof encontrou uma das escadas. Subiu pela mesma. Mal conseguia respirar.
Tomem cuidado para que não danifique as câmaras de dormir — advertiu Clinkskate.
Os homens mantiveram-se afastados, em atitude indecisa. Kennof conseguiu puxar-se para cima do caixão. Respirava com dificuldade e teve a impressão de que iria morrer sufocado. Conseguiu arrastar-se para o outro lado, onde o ar ainda não estava tão saturado de gás.
Arriscou uma olhadela para baixo. Aproximadamente uma dezena de homens estava reunida na sala. Todos usavam máscaras contra gases.
O Dr. Le Boeuf estava deitado entre eles. O rosto de Kennof assumiu uma expressão zangada. O aperto na garganta diminuíra. Os olhos voltaram a enxergar direito.
Kennof resolveu arriscar tudo numa única carta.
Introduzi uma carga explosiva nesta caverna — gritou de cima do caixão. — Olhem!
Exibiu cautelosamente o micro defletor defeituoso.
Posso demolir toda a caverna — afirmou em tom enfático. — Sou policial. Ofereço o perdão a qualquer pessoa que me apóie na ação.
Esperava que o aspecto estranho do defletor infundisse certa insegurança nos homens.
Está blefando! — gritou Clinkskate com a voz rouca. Os alto-falantes retumbavam. — Como é que ele poderia conservar um objeto destes depois de ter sido revistado?
Alguns homens viram que o Dr. Le Boeuf me apoiou — lembrou Kennof. — O doutor me ajudou a ficar com as armas.
Não é nenhum policial — berrou Clinkskate fora de si. — Não se deixem enganar. Prendam-no!
Se o senhor tem tanta certeza de que ele não tem nenhuma carga explosiva, por que não vem até aqui e nos ajuda a prendê-lo, Clinkskate? — perguntou um dos homens em tom irônico.
Kennof ouviu Clinkskate praguejar.
Desliguei o robô — gritou para os homens. — Como poderia ter feito isso se não dispusesse de um treinamento de policial?
Isso parece bem plausível — confessou o homem que assumira as funções de porta-voz do grupo. — Prometemos que nada lhe acontecerá se o senhor se entregar.
Os alto-falantes transmitiram as pragas proferidas por Clinkskate.
Kennof soltou uma risada amarga.
Não sou criança — disse em tom penetrante. — Sei perfeitamente que a CIS não me soltará em hipótese alguma. Já sei demais a respeito de suas patifarias. Minha situação é desesperadora. Não tenho nada a perder. Passarei a formular minhas condições.
Agarrem-no logo — ordenou Clinkskate, que apareceu na porta. Seu rosto estava transformado numa terrível careta. Em seus olhos brilhava o ódio. — Ele não pode impor condições.
Kennof fez pontaria e atirou. O projétil penetrou no ombro de Clinkskate e atirou-o ao chão. Não foi um impacto mortal. Kennof nem pretendia que fosse. Não queria enfurecer ainda mais os homens. Dois deles levaram o ferido, que gemia fortemente.
Fale logo! — gritou alguém para o detetive.
Retire-se com seus homens por doze horas. Prometo-lhe que, depois disso, lhe entregarei minhas armas.
Kennof subestimara o homem com quem estava falando.
Isso não tem lógica. Daqui a doze horas, sua situação será exatamente a mesma. O senhor não ganharia nada; apenas retardaria nossa ação.
Naturalmente Kennof não poderia dizer-lhe que, dentro desse prazo, Shane e seus homens apareceriam por ali.
Levem o Dr. Le Boeuf como refém — disse. — Se daqui a doze horas eu não aparecer com minhas armas para entregar-me, utilizem-no para exercer pressão contra mim.
O porta-voz do grupo lançou um olhar preocupado para Kennof.
Não vai danificar os recipientes?
Garanto-lhe que não!
O colaborador da CIS fez um gesto afirmativo.
Vamos aceitar — disse, fazendo um sinal para os outros e abandonou a área.

* * *

Kennof pegou o rádio. Agora tudo dependia de que Shane estivesse prestando atenção.
Perdera algum tempo para descobrir aquilo que o médico pretendia mostrar-lhe.

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