— Enquanto
vocês trabalhavam lá fora para os estrangeiros, nós, os velhos,
chegamos à conclusão de que ainda podemos fazer alguma coisa.
Cavamos um túnel que vai desta casa para a moradia de Chchaath. E
hoje de noite vamos dar uma chegada até lá, a fim de ver qualquer
coisa.
Nrrhooch
estava parado, perplexo e, repentinamente, disse:
— E se
Chchaath voltar de repente? — ponderou assustado.
Lchox fez
um gesto de irritado.
— De
novo, este negócio de “se”. É por este motivo que o levamos
conosco. Se Chchaath aparecer, você vai ser homem bastante para,
quando ele menos esperar, receber no pescoço uma cutilada magistral,
que o deixe descansando por muito tempo, sem nos incomodar.
Nrrhooch
já mais calmo, mantinha ainda a fisionomia séria.
— E
depois que voltar a si, haverá de investigar como conseguimos
penetrar em sua casa. Então irá achar o túnel que vocês cavaram,
que vai dar direto em nossa casa. Com os instrumentos de que os
estrangeiros dispõem, não é nenhuma obra de arte descobrir estas
coisas.
Grghaok,
que há muito tempo não dizia nada, deu um grande suspiro e virou-se
para Lchox.
— Temos
que ir sozinhos, meu amigo — disse triste. — Este jovem é muito
medroso.
Lchox, não
obstante sua pequena estatura, parecia um homem de ação. Virou-se
para trás e enfiou-se novamente no buraco da parede.
— Então,
vamos embora — disse, já no interior da abertura.
Grghaok o
seguiu. Parado e sem dizer uma palavra, o jovem Nrrhooch ficou
sozinho no quarto. Ouvia o ruído causado pelos dois velhos que se
arrastavam pelo túnel, pois suas escamas esfregavam nas paredes.
Depois percebeu que os ruídos iam diminuindo.
— Parem!
— gritou ele de repente. — Vou com vocês. Não posso deixá-los
sozinhos na desgraça.
— Está
certo, Nrrhooch — ecoou a voz abafada do velho Grghaok do fundo do
túnel. — Apague as luzes, para que pensem que não estamos em casa
e atarraxe bem a chapa que cobre o buraco na parede. Há dois ganchos
que correspondem aos ilhoses na parede.
Nrrhooch
fez como lhe disseram. Depois que a chapa encaixou no lugar certo, a
escuridão passou a ser total no túnel e ele ficou com medo.
Arrastando-se de marcha à ré, pois não havia espaço para se
virar, apressou-se em acompanhar Grghaok e Lchox, usando de todas as
suas forças.
O estreito
corredor era muito sinuoso, ora para cima ou para baixo, à esquerda
ou à direita. Nrrhooch começou a se perguntar onde é que os dois
velhos haviam atirado todo o material da grande escavação. Estava
para lhes fazer esta pergunta, quando seu pé se chocou contra
Grghaok e ouviu a voz de Lchox:
— Silêncio,
já chegamos. Nrrhooch prendeu a respiração. Provavelmente, havia
na outra extremidade do túnel um tipo de fechamento idêntico ao da
entrada.
A
escuridão, porém, ainda era a mesma. Na casa de Chchaath as trevas
residiam.
A pressão
que retinha os pés de Nrrhooch cedeu. Grghaok já estava mais para
frente e o jovem o seguiu. Chegou a um ponto em que seus pés não
encontraram apoio. Mas uma voz a seu lado disse-lhe:
— Atenção,
aqui há uma descida! Com todo cuidado, Nrrhooch esticou a perna,
atingiu o chão com a ponta do pé e abandonou o túnel. Na
escuridão, Lchox disse:
— Vamos
deixar o buraco aberto. Antes de mais nada devemos iluminar o local.
Nrrhooch
queria propor que acendessem uma lanterna portátil, ao invés de
ligarem toda a luxuosa instalação de luz da rica mansão de
Chchaath. Mas, neste momento, aconteceu uma coisa que fez gelar o
sangue nas veias de Nrrhooch e dos dois velhos. Os três perceberam
que tinham poucos instantes de vida.
No meio da
escuridão, surgiu de repente o vulto de Chchaath. Ninguém podia
saber como chegara até ali. Mas tinha chegado. Um tipo estranho de
claridade envolvia seu corpo. Levantou o braço e apontou diretamente
para Nrrhooch, gritando:
— Que
procuram aqui, malandros? Vou cuidar para que sejam expulsos da
cidade.
*
* *
— Dois
motivos — dizia Thomea Untcher, depois de num longo suspiro, como
se estivesse cansado de dizer todas as coisas duas ou três vezes. —
Dois motivos me levam a não interromper a “expedição”.
Primeiro existe uma convenção entre o Império Solar e Árcon pela
qual nós terranos, comprometemo-nos prestar auxílio a Árcon, com
naves e tripulação, sempre que formos solicitados para isto.
Seremos como patrulheiros espaciais. Ações policiais são
empreendimentos executados com menos de quatro espaçonaves, e nunca
a tripulação pode ultrapassar a dois mil homens. Nossa missão aqui
cai, sem dúvida alguma, nesta categoria.
“O
segundo motivo, meus senhores, é que eu não interrompo uma ação,
quando me restam ainda dezesseis homens sadios e valorosos.”
Com um
sorriso, ainda acrescentou: — No momento em que só restarem três
ou quatro, pedirei reforço à Terra. Até lá podemos fazer muita
coisa boa, isto é, um bom trabalho.
“Em
outras palavras: meu plano continua de pé. Se quisermos saber o que
se passa em Opghan, temos de procurá-lo debaixo d’água. Nas
minúsculas ilhas do continente, os éfogos não têm outra coisa a
não ser local de descanso provisório. Seu verdadeiro ambiente é o
mar. Vamos visitá-los e conversar com eles. Tenho certeza de que o
inimigo oculto espera por nós em qualquer lugar lá embaixo. Está
contando com que nós vamos descer, certamente já com a armadilha
pronta. Vamos dar uma olhada lá embaixo, ou não vamos? Este é o
risco que temos de correr.”
Virou-se
para trás e caminhou um pouco, pensativo. De repente, parou e disse
por sobre os ombros:
— Preparem-se,
meus amigos, partiremos em meia hora.
*
* *
Via-se
claramente que Nathael estava muito preocupado. Seu rosto estava
afogueado e gesticulava muito nervoso.
— Eu já
sabia que íamos ter muita dificuldade — resmungou cabisbaixo e
zangado. — Foi uma idéia errada, termos liquidado Pthal logo no
começo.
Echnatal
teve que engolir esta frase. Echnatal era o jovem de cuja barba
artificial Nathael já tinha feito muita caçoada.
— Idéia
errada? — repetiu o jovem. — Quando lhe propus isto, você não
teve nada contra.
— Sim, é
verdade, porque estava certo de que, apesar de toda pressa, você
iria usar de certas providências acauteladoras e não simplesmente
mandar para lá um homem que mata Pthal e, ao mesmo tempo, é morto
por ele.
Virou o
rosto para o outro lado, como se não pudesse suportar o olhar de
Echnatal. Olhava para a parede porque não tinha outro lugar melhor.
Ele odiava lugares sem janelas e só gostava de janelas amplas.
Estava habituado a olhar para longe, ter um amplo ângulo de visão,
como acontecia nas telas panorâmicas de suas espaçonaves.
Naturalmente, os éfogos não iriam compreender seus anseios de
amplos descortínios, criados e alimentados em muitos anos de
experiências e vivências. Em suas habitações, os éfogos tinham
apenas uma janela, isto é, na parede mais próxima da rua. Olhou
para a rua lá fora, pessimamente iluminada. Nathael suportava mais a
visão da via deserta do que a do edifício tipo galeria, com os
móveis redondos, esquisitos, em que o chefe da cidade dava suas
audiências rotineiras.
— Esforcei-me
ao máximo para fazer tudo que podia — continuou Echnatal ainda
irritado. — O senhor me disse que não tinha um minuto para perder.
Deveria pois, agir depressa.
O terceiro
homem fez um gesto de quem não queria mais ouvir discussão:
— Parem
com este bate-boca estéril. Estava sentado a uma escrivaninha, numa
poltrona bem confortável. Em contraste com Nathael e Echnatal,
parecia muito tranqüilo e desinteressado da discussão.
— Não
compreendo por que vocês dois estão quebrando a cabeça — disse
tão calmamente, que Nathael e Echnatal tiveram de fazer esforço
para entendê-lo. — O nosso primeiro golpe parece ter dado
resultado, pelo menos parcial e assim que os terranos se atreverem a
descer, vamos cobrar nossas dívidas.
Com uma
expressão de ironia no rosto, Nathael soltou o ar pelos dentes,
produzindo um longo chiado.
— Cobrar
nossas dívidas, como? Simplesmente como? Parece tão fácil, não é?
Você já tratou diretamente com terranos, Aktar?
Aktar
olhou surpreso. Na luz fraca do aposento, sua barba castanha tinha um
brilho estranho.
— Não,
naturalmente não. Você sabe disso.
— Sim —
respondeu Nathael — e se não soubesse, teria notado agora.
Vingar-se dos terranos... Você acha que eles estão esperando por
isto, que venha alguém para os deter e prender?
Aktar
esqueceu seu conforto. Descolou-se do cômodo encosto e comprimindo
os olhos falou:
— Você
tem um alto conceito dos terranos, Nathael, não é verdade?
Nathael
abanou a cabeça confirmando:
— E como
o tenho! Você segura um terrano na mão, assim, por exemplo — ele
apertou a mão como se quisesse esmagar alguma coisa. — Você está
certo de que ele nunca mais escapará. Mas, de repente sua mão está
vazia e o terrano já está atrás de você. Antes de ter tempo de
virar-se, já leva uma tremenda pancada na cabeça que o deixará
desacordado por muito tempo. Assim são os terranos, Aktar.
Este ia
responder, mas antes que começasse a despejar seu ódio contra os
terranos, a porta dos fundos se abriu e surgiu a figura de Chchaath.
Todos os olhares convergiram para ele. Chchaath era o homem que
trazia sempre as novidades.
— Os
terranos estão a caminho — disse com sua voz molhada. — Deixaram
treze cinqüenta e oito numa espécie de barco e vão para o fundo do
mar.
Sem dizer
uma palavra, Nathael se virou, olhando para Aktar. Levantou as
sobrancelhas, e Aktar sabia muito bem o que ele teria dito, se
abrisse a boca.
Chchaath
esperou pela reação de suas palavras.
— Continue
— exigiu Nathael. — Como é que você soube disso?
O
homem-peixe mudou a expressão preocupada para um sorriso.
— Meus
barcos estão por toda parte — disse com orgulho.
— Seus
barcos!... Diga-me uma coisa, você mandou barcos ao encontro dos
terranos?
Visivelmente
assustado, Chchaath chegou a gaguejar:
— Nã...
não. Mandei que se dispersassem e dei ordem para que não se
aproximassem do inimigo.
Nathael
chegou rente a ele:
— Mas
tão perto que podiam ver o inimigo — disse gritando. — Com a
pouca visibilidade, devia ser uma distância de cem metros. E os
instrumentos de rastreamento dos terranos alcançam pelo menos cem
vezes isto.
Chchaath
recuou uns passos e não respondeu nada. Conhecia Nathael já há
alguns dias e sabia que sua cólera aumentava com a discussão.
Pela
segunda vez, Nathael se dirigiu a Aktar.
— Já
lhe disse que tudo está saindo errado. Colocamos nas mãos deste
pele-escamada ignorante todos os tipos de instrumentos, e
ensinamos-lhe a manejá-los. Tais instrumentos nos serviriam, e a ele
também, para avisar com alguma certeza a aproximação dos terranos.
E agora, além de não usarem os aparelhos, ainda mandaram seus
barcos embora! Aposto todas as naves da minha estirpe contra um fio
de sua barba, que os terranos estão morrendo de rir da nossa
estupidez.
Aktar
levantou a mão, para falar:
— Nem
tudo está tão ruim como você pensa, Nathael. Depois do ataque à
sua nave, os terranos já deviam ter pensado em nos visitar aqui no
fundo do mar.
— É,
mas agora não se trata mais de pensar em visitar, eles vêm mesmo e
isto é certo.
Com os
olhos dirigidos para o chão, andava de um lado para o outro.
Tremendo de cólera, seus passos eram tão fortes que faziam
estremecer as paredes, enquanto que o talo roxo da canácea, a planta
semi-inteligente, que entrava pelo teto da casa, de tanto medo,
começava a emitir um leve zumbido. De cabeça caída, dava voltas em
torno de Chchaath. De repente, estacou e perguntou em voz alta:
— Você
tem em sua casa, em Bchacheeth, alguns instrumentos importantes e de
grande valor. Sabe como o povo anda falando de você. Já tomou
providências para que ninguém entre em sua casa, enquanto você
está aqui, e os roube?
Chchaath
sentiu-se mais aliviado com esta pergunta. Já que tinha errado muito
na outra questão, aqui não havia perigo. Estava por dentro do
assunto.
— Sobre
isto, você não precisa se preocupar — disse apressado. — O
gravador e o projetor que vocês me deram estão ligados
constantemente. Uma vez em cada quatro décimos de milésimo, eles
passam a funcionar automaticamente.
Deu uma
gargalhada boba.
— Gostaria
de conhecer algum éfogo que agüente uma descarga com esta voltagem,
sem sair correndo feito um louco e passar um dia inteiro, sem poder
abrir os olhos.
*
* *
Nrrhooch
viu-se atropelado. Alguma coisa macia, mas pesada atingiu-o com a
impetuosidade de um hchour, quando este ataca. Cambaleou e só não
caiu porque a parede o amparou. Algo se chocara contra suas pernas e
parecia debater-se. Talvez estivesse tentando atingir o túnel
secreto.
Nrrhooch
teria mentido a si mesmo, caso dissesse que não ficou com medo na
hora da aparição de Chchaath, com sua voz de trovão. Mas quando
notou que aquilo que se debatia próximo de suas pernas não era
outro senão Grghaok e que Lchox o seguia desvairado, começou a dar
gargalhada. Pegou Grghaok pelas pernas e o puxou para fora. Lchox
tremia feito vara verde e Grghaok começou a gritar e com tanta força
que Nrrhooch teve de usar de energia com ele:
— Cale a
boca, você vai acordar os guardas. Tudo não passou de um truque.
Grghaok se
acalmou num instante.
— Um
truque? — perguntou admirado. — Que tipo de truque?
— Os
estrangeiros possuem aparelhos onde podem armazenar a voz de um homem
e depois reproduzi-la à vontade. Têm também dispositivos com os
quais produzem imagens que se movem. O que vocês ouviram, foi a voz
armazenada de Chchaath e o que viram era um pedaço de filme
fotográfico.
Os dois
estavam quase de respiração presa, devido à emoção. Mas...
Grghaok não estava acreditando muito.
— Esperem,
vou mostrar para vocês — interrompeu-o Nrrhooch. — Onde está
mesmo o interruptor da luz?
— Ali na
parede — disse Lchox, empurrando o rapaz na direção certa.
Nrrhooch
achou o interruptor e o ligou. Uma luz amarelada, suave, iluminou o
ambiente. Apesar de tudo que falavam contra Chchaath, ele não havia
aceitado a luz branca e azulada dos estrangeiros, aquela luz que
causava dor nos olhos.
— Olhem
ali! — exclamou Nrrhooch. — Aquela coisa que parece uma tela,
recebeu a imagem de Chchaath — virou-se para o outro lado. — E
ali está o instrumento que produz a imagem e ao lado o aparelho que
guarda a voz de Chchaath — virou-se de novo para o projetor. —
Ali, ao lado da tela, está dependurado o alto-falante, de onde sai a
voz de Chchaath. Vocês estão vendo que...
Foi
interrompido. De repente, em conseqüência da luz acesa, apareceu de
novo a imagem de Chchaath e seu vozeirão gritou outra vez as mesmas
palavras:
— Que
procuram aqui, malandros? Vou cuidar para que sejam expulsos da
cidade.
Os dois
velhos começaram a rir, apertando a boca para não fazerem muito
ruído.
— É um
truque formidável — concordou Grghaok, reconhecendo o papelão que
haviam feito na primeira investida.
Levantou-se
e limpou sua roupa empoeirada.
— Vamos
começar então, agora — continuou ele — você, Nrrhooch, que
entende tanto destas coisas estrangeiras, pode nos explicar alguma
coisa. Ali ainda existem mais instrumentos. Fale-me deles.
Estava
apontando para uma mesa maior, ao lado da tela semitransparente de
projeção. A mesa — fora do armário que estava no canto — era o
único móvel no grande aposento. Grghaok chegou à conclusão de que
Chchaath já havia assimilado muita coisa dos costumes estrangeiros,
pois os éfogos tinham o hábito de entupir seus cômodos de tantos
móveis, que mal se podiam locomover.
Nrrhooch
estava feliz. Encaminhou-se para a mesa e deu uma olhada nos muitos
aparelhos ali reunidos.
— Este
aqui — disse apontando para uma caixa, não muito grande, tendo no
centro uma chapa de vidro fosco — é um aparelho para falar e ver a
pessoa ao mesmo tempo.
— Ah!...
é? — acudiu Lchox prontamente. — Quer dizer então que, se eu
estiver em minha casa e você ficar aqui, podemos nos falar e ver
nossa imagem ao mesmo tempo? Coisa formidável.
— Sim,
com a condição de que você tenha também um aparelho igual ao meu,
do contrário não posso me ligar com você.
— É
verdade, já vi os estrangeiros fazendo isto. Um deles tinha um
aparelho deste no carro.
— Está
bem, mas então ligue agora este aparelho.
— Está
louco? — respondeu Nrrhooch. — No outro lado, em qualquer parte
do planeta, está sentado outro estrangeiro e, quando nos perceber
aqui, compreenderá o que estamos fazendo.
— Chiii...
— fez Grghaok com o dedo indicador fechando a boca — isto é
verdade. Mas eu não saio daqui, sem ver este negócio funcionar.
Nrrhooch
ficou pensativo. Fez um grande esforço mental, pois não era muito
inteligente e, além do mais, não entendia quase nada daqueles
aparelhos. Apenas vira uma vez como o estrangeiro apertava um botão
aqui ou ali, aparecendo primeiro uns riscos confusos no vidro
leitoso.
— Quem
sabe... espere um pouco... vou experimentar.
Sentou-se
na única cadeira que havia na frente da mesa, e ficou olhando
longamente para o videofone. Tentou se lembrar do modo como procedera
o estrangeiro, há um dia de Opghan. Titubeante, Nrrhooch apertou um
botão. O aparelho respondeu com um fraco zumbido, que o deixou mais
animado, pois já o conhecia. Apertou outro botão e, no mesmo
instante, a tela se iluminou. Viu os mesmos rabiscos e cintilações,
como na outra vez, com o estrangeiro. Suspirou mais aliviado. Podia
até ser que, de repente, surgisse ali o rosto barbudo de um
estrangeiro.
— Assim
é que o negócio funciona — explicou aos dois velhos curiosos. —
Se continuar girando este botão, surgirá um estrangeiro na tela e
me perguntará o que quero. E se eu fosse Chchaath, poderia lhe
responder.
Lchox e
Grghaok olhavam fascinados para o quadro de vidro fosco. Grghaok deu
um passo para frente, postando-se bem rente do aparelho. Nrrhooch
ficou olhando para ele, esperando que dissesse alguma coisa. Com
isto, não reparou na mão do velho nem notou que ele estava girando
o botão. Nrrhooch apenas reparou o que estava se passando, quando a
tela aumentou sensivelmente a luminosidade e uma voz estranha começou
a falar numa língua estrangeira.
Nrrhooch
levou um susto. No vidro fosco surgiu o rosto de um homem
desconhecido. Estava mesmo certo de que nunca vira uma criatura deste
tipo. O estrangeiro não usava barba. Tinha acabado de falar e olhava
atento para Nrrhooch.
Tomado de
pânico, este queria desligar o aparelho ou pelo menos girar para
trás o botão traiçoeiro. Mas desta vez foi o próprio Grghaok quem
manteve o sangue-frio. Segurou Nrrhooch pelos braços e lhe cochichou
no ouvido:
— Espere,
este não é nenhum dos estrangeiros que nos oprimem!
No mesmo
instante, o homem da tela começou a falar. Desta vez, porém, usando
a mesma língua dos estrangeiros, que era muito semelhante à dos
éfogos, de tal maneira que os homens-peixe a entendiam sem
dificuldades.
— Rapazes,
não tenham medo de nós, quem são vocês? — falou o homem sem
barba.
Grghaok
puxou Nrrhooch de lado e sentou-se na cadeira em frente ao aparelho.
— Somos
Nrrhooch, Lchox e Grghaok de Bchacheeth, estrangeiro. E você quem é?
O
estrangeiro arregalou os olhos:
— Santo
Deus! Que tipo de língua é esta? Você não pode tirar um pouco da
água que tem na boca?
Grghaok
estava quase querendo se irritar com a observação, mas o
estrangeiro continuou:
— Não
me leve a mal, amigo, terei de me acostumar com a sua linguagem. Onde
fica Bchacheeth?
— Entre
Xchaghacht e Pchchogh — respondeu Grghaok. — Uma viagem de um
décimo de Xchaghacht e de um décimo e meio de Pchchogh.
O
estrangeiro, pela expressão do rosto, deve ter ficado na mesma.
— Não
tem maior importância — continuou ele — procuraremos depois no
mapa. Mas diga-me uma coisa: assassinaram seu funcionário mais
importante, não é verdade?
Grghaok
levantou os braços para confirmar.
— Sim,
isto foi há quatro dias e, desde então, os estrangeiros estão aqui
nos oprimindo.
— De
quem você está falando?
— Dos
nossos opressores. Vieram para cá há quatro dias, afastaram nossos
funcionários e tomaram o governo. Estão nos obrigando a trabalhar
nas plantações e...
— Devagar
— interrompeu-o o homem sem barba — não estou compreendendo tudo
de uma só vez, mas percebo que vocês estão em dificuldade.
Precisam de auxílio?
— Sim,
naturalmente — disse Grghaok com sua voz molhada. — O mais
depressa possível. Odiamos os estrangeiros e...
— Então
é necessário que eu saiba mais alguma coisa. É muito perigoso
falarmos pelo telecom. É bom que eu chegue até vocês. Será que a
gente pode penetrar na cidade, sem que os estrangeiros percebam?
— Não,
pelo amor das santas águas — disse Grghaok assustado. —
Impossível para quem não conhece as comportas clandestinas e, além
disso, só com um barco muito pequeno.
— Sei. E
vocês podem sair da cidade?
— Sim e
não. Eu e talvez Lchox podemos. Mas Nrrhooch daria muito na vista a
sua ausência nos trabalhos da plantação.
— Se
vocês conseguirem encontrar-se comigo, ele não precisa mais se
preocupar com os trabalhos na plantação. Depressa, diga-me um lugar
onde eu possa encontrá-los com segurança.
Grghaok
hesitou por uma fração de segundo.
— Em
Pchchogh — disse um tanto excitado. — É uma velha cidade
abandonada, onde apenas algumas casas ainda estão inteiras. Existem
por lá algumas canáceas que nem mesmo os hchour querem mais.
O homem
sem barba franziu a testa de uma hora para a outra.
— Canáceas?
— repetiu ele — hchour... onde fica mesmo esta Pchchogh?
— Um
décimo e meio de viagem daqui, já disse — respondeu o velho.
— Em que
direção?
— Na
direção do sol poente.
— E não
há nada entre Bchacheeth e Pchchogh?
— Apenas
umas duas ou três colinas de bem pouca altura.
— Está
bem. Haveremos de estar em Pchchogh e aguardá-los.
— Sim,
espere um pouco, quem são vocês?
O
estrangeiro sem barba sorriu.
— Terranos
— respondeu com firmeza.
Desligou
depois seu aparelho e, no vidro fosco do receptor de Chchaath, não
havia mais nada a não ser rabiscos e cintilações. Grghaok
levantou-se solenemente, olhou triunfante para Lchox e para Nrrhooch.
— Vocês
ouviram? São os terranos.
4
Thomea
Untcher, por alguns instantes, ficou com os olhos presos na tela
panorâmica que acabara de desligar. Depois, virando-se para Phil
Lenzer que estava a seu lado, na poltrona do piloto, disse ainda
mergulhado em seus pensamentos:
— Coincidência
das coincidências! Que coisa misteriosa! Parece que estavam
brincando com as freqüências e foram parar casualmente na nossa.
Lenzer não
respondeu nada no momento. Estava prestando atenção na grande tela,
que lhe fazia as vezes de janela, tentando penetrar na penumbra
cinzenta, que invadia o mar a uma profundidade de quase dois mil
metros. Phil Lenzer era o responsável pela vida e pela segurança de
seis homens, sem contar com a sua própria, de seis homens que
confiaram plenamente numa embarcação anfíbia e em sua competência,
para chegarem até as profundezas do oceano. Tentariam caçar o
inimigo oculto.
O veículo
anfíbio voara da ilhota, onde estava a Finmark, na direção do
poente até alcançar o sol, ou seja a face iluminada do planeta. E
depois de ultrapassar a faixa divisória do gelo, imergiu no oceano.
Já havia uma hora que o veículo anfíbio perseguia uma rota em
linha reta, num ângulo de trinta graus em relação à superfície
do mar.
— O que
eu acho esquisito é que recebemos este apelo, somente no momento em
que o rastreador não podia mais localizar nenhum destes minibarcos
que nos perseguiam até então — disse Lenzer.
Thomea
Untcher cocou a cabeça.
— Você
tem razão, Phil. Eu também estaria inclinado a tomar tudo como uma
cilada, se não tivesse visto as caras assustadas destes três
rapazes, que surgiram na tela de repente. E mesmo que não tivesse
visto... Não, Phil, eles estão mesmo em apuros. Não é uma cilada,
não.
Phil
continuava cético. Estava concentrado na tela panorâmica. A
penumbra cinzenta não era absolutamente conseqüência da falta da
luz do sol. Esta luz solar não chegava de maneira alguma às
profundezas de dois mil metros. Não só Lenzer, como o próprio
Untcher eram unânimes em explicar a parca luz difusa naquela
profundidade, como conseqüência de peixes fosforescentes que fugiam
ante a aproximação do veículo anfíbio, formando um grande círculo
em torno do misto de avião com submarino.
Os homens
atrás de Untcher e de Lenzer estavam calados. Além de um ou outro
suspiro ou de algum bocejo ruidoso, provenientes mais da tensão
nervosa do que da monotonia reinante, nenhum deles, com exceção do
rastreador, tinha dito uma só palavra desde o momento em que
imergiram no oceano.
Este mundo
submarino não fora feito para eles. Estavam acostumados com a
amplidão e a claridade do espaço e com a imensidão de terras
áridas em outros mundos, mas não com os abismos do mar. Viagens
submarinas a grandes profundidades faziam parte do programa de sua
formação na Academia Espacial de Terrânia; mas esta parte do
programa nunca tivera valor objetivo para eles, convencidos que
estavam de que, daí para frente, só teriam sob os pés as placas
plásticas das poderosas espaçonaves.
Desde a
hora em que mergulharam, o rastreador percebeu pequenos objetos
semimetálicos, que se moviam nas proximidades do veículo anfíbio.
Moviam-se de tal forma que não podiam ser outra coisa a não ser
veículos teleguiados. Com toda a energia concentrada no intercom,
Thomea Untcher tentou entrar em contato com um ou outro, não
recebendo, porém, resposta.
De
repente, estes miniveículos desapareceram, como se alguém tivesse
ordenado sua retirada. Isto foi pela profundidade de mil e quinhentos
metros. Depois disso, o veículo anfíbio se deslocara mais
quinhentos metros para frente e tudo voltara à calma... até que
veio o singular diálogo com os três homens-peixe de nomes
impronunciáveis.
Thomea
Untcher virou-se para trás e perguntou:
— Rastreador,
já tem algum resultado novo?
O homem
sentado rente às paredes laterais da nave anfíbia, tendo à frente
os complicados aparelhos, nem mexeu a cabeça ao responder:
— Num
instante, Sir! O cálculo não está terminado.
Untcher
olhou para a grande tela. A monotonia da penumbra cor de cinza o
levou a soltar as rédeas de sua fantasia. Começou por repetir o
diálogo mantido com os três homens-peixe de Bchacheeth. Phil Lenzer
tinha razão. Qualquer um, em sua posição, haveria de considerar o
apelo de auxílio como uma cilada, e das bem palpáveis. Teria por
finalidade atrair os terranos para um certo local, onde o inimigo
oculto pudesse concentrar com antecedência suas forças de ataque e
assim, sem dificuldade, se ver livre do indesejável intruso.
Afinal de
contas, ele mesmo, Thomea Untcher, usara há quinze minutos atrás o
argumento de que os éfogos não possuíam nenhum tipo de
telecomunicador. Como é que os três estavam se utilizando de um
aparelho assim? Tinha que ser mesmo uma cilada, bem primitiva aliás.
E apesar
de tudo...! Thomea Untcher mesmo não sabia o que o levava a confiar
tanto naqueles três homens. Mas confiava. Sem nenhuma hesitação.
Estava resolvido a ir para Pchchogh para encontrar-se com eles.
Naturalmente, observando certas normas de segurança, inerentes a um
homem de responsabilidade.
Foi então
que o rastreador se apresentou:
— Treze
quilômetros o vetor radial, Sir. Fi,
cento e sessenta e oito e Teta,
cento e três.
Thomea
Untcher fez então o que costumava fazer sempre em tais situações,
tal maneira de proceder tornava-se ridícula num comandante espacial
do gabarito de um Untcher. Esticou as duas mãos no sentido indicado
pelos dados do rastreamento, procurando assim traduzir concretamente
os resultados da orientação.
— Baixo
— disse ele — muito baixo. Qual é a profundidade da água abaixo
de nós?
— Cerca
de dois mil metros — respondeu Phil Lenzer. — Estamos, mais ou
menos, no meio do oceano.
— Bem,
você sabe a direção. Pchchogh, conforme os dados dos éfogos, está
exatamente a oeste deste ponto. Não se aproxime demais da cidade.
Receio que por lá estão nadando certas pessoas, que não nos são
muito simpáticas. Não há perigo nenhum para nós, entrarmos em
contato com os desconhecidos, antes de falarmos com os éfogos.
— Se é
que chegaremos mesmo a falar com eles... — respondeu Lenzer.
*
* *
Ao voltar,
Aktar explicou que havia feito todos os preparativos possíveis.
— Fizemos
o que foi possível — garantiu ele. — Infelizmente não somos
tantos e não podemos contar muito com o pessoal de Chchaath.
Nathael
concordou, com expressão de seriedade no rosto.
— Faz
muito bem, meu amigo. Mas o que que há com a gente de Plougal?
Aktar
franziu a testa.
— Você
sabe como se comporta Plougal e sua gente. São apenas cientistas.
Vivem e morrem só para a ciência. Não servem para o combate.
Sorriu um
pouco.
— Realmente
não poderia imaginá-los em combate. São tão bem dispostos que
qualquer vento fraco pode atirá-los no chão.
Nathael
não concordou:
— Não
se engane! Já vi muitas vezes os homens de Plougal lutando. São
adversários perigosos.
— Sim...
quando conseguem empregar seus métodos traiçoeiros e outras
coisinhas mais. Fora disso, não são de nada.
— Você
não tem o direito de caçoar de seus métodos. Você mesmo se
utilizou de um de “seus
meios traiçoeiros”,
para desativar a grande nave terrana.
— Naturalmente
— disse Nathael impaciente — pois não me restava outro meio. E
você viu então o que aconteceu. Fizemos com que os terranos
ficassem cada vez mais prevenidos.
— Felizmente
eles não são numerosos. Do contrário não teriam vindo só com um
veículo anfíbio.
Fazendo um
gesto afirmativo, Nathael levantou os braços, como se quisesse
falar.
— Você
tem razão — respondeu ele. — Apesar de tudo isto, o negócio não
me agrada. Até que ponto podemos confiar, por exemplo, nos dados de
Chchaath? Está assim tão certo de que os terranos vão atingir o
fundo do mar, entre esta cidade e Bchacheeth. Podemos acreditar
cegamente que vão manter a rota? Nossos instrumentos foram
construídos somente para o espaço. Perceberemos o veículo dos
terranos, somente quando estiver a pouco quilômetros de nós. E
agora, eu lhes pergunto: estamos seguros ou não?
Aktar
estava hesitante. — Somos apenas duzentos homens, a tripulação de
uma nave. Poderemos controlar apenas um pequeno setor do fundo do
mar. Por outro lado, temos uma flagrante superioridade numérica em
relação aos terranos. A questão toda se resume em descobrirmos seu
paradeiro. Se o conseguirmos, o resto é uma brincadeira. Nós os
capturaremos, antes que...
— Não
diria isto — interrompeu Nathael, sorrindo. — Já falei a vocês
dos terranos. Eu daria graças aos deuses do espaço se os pegarmos.
Agora falar que isto é uma brincadeira, não sei não.
— Está
bem — respondeu Aktar. — Vamos de qualquer maneira...
Interrompeu
sua frase, porque a porta se abriu. Era Echnatal que estava entrando,
visivelmente excitado.
— Chchaath
localizou o barco dos inimigos. Os instrumentos o registraram por uns
segundos a noroeste daqui, até que sumiu novamente.
Nathael e
Aktar estavam igualmente desconcertados.
— Noroeste...
quer dizer então que alteraram sua rota?
Echnatal
ergueu a mão para confirmar:
— Aparentemente.
— Em que
direção se dirigem?
— Para o
oeste.
Nathael
apoiou o queixo com a mão esquerda e ficou pensativo, resmungando
qualquer coisa ininteligível. Depois ergueu o rosto e fitou Aktar:
— Eu sei
que vai parecer cômico. Mas por que estão indo para Pchchogh?
*
* *
Kayne
Stowes despertou de seus pensamentos, quando acendeu a luz do
intercom.
— Atenção,
Sir — disse uma voz forte — o sargento Loodey acaba de voltar a
si e deseja falar com o senhor.
Kayne
Stowes ficou perplexo.
— Para
me dizer de novo as mesmas grosserias de antes? Faça-o saber que
pode ir para os quintos dos infernos. Não falarei com ele a não ser
que passe umas três semanas num bom hospício da Terra.
O homem da
tela tentou ocultar um leve sorriso.
— Perdoe-me,
Sir, mas Loodey está melhor. Disse que lamenta o que aconteceu. Faz
questão de se desculpar com o senhor, embora não queira com isso
abrandar seu relatório disciplinar ao Serviço de Pessoal da Frota
Espacial.
— Relatório
disciplinar... o quê? Não tive nem tempo de pensar nisso. Loodey
tem uma ligação com o intercom em seu camarote, não é? Diga-lhe
que ligue para mim.
O
sentinela interrompeu a conversa. Stowes aguardava com grande
curiosidade. Trinta segundos depois o intercom chamou. Quando Stowes
atendeu, desta vez, viu o rosto largo de Ran Loodey. Parecia estar
consciente de seu erro.
— Sir —
começou Loodey. — Estou envergonhado de tudo que fiz. Não posso
compreender como cheguei a...
— Esqueça
isto, sargento — interrompeu-o Stowes — como se sente agora?
— Muito
bem, obrigado, Sir. Quando recuperei os sentidos, o Dr. Dunyan estava
perto de mim e, com alguns remédios, me pôs de pé. Estou rouco,
como o senhor está notando e minha garganta dói um pouco. Fora
disso, não sinto nada. Quis falar-lhe porque, devido à falta de
técnicos e combatentes, o senhor pode precisar de mim e...
Fez uma
pausa... como se não encontrasse a palavra certa, para descrever a
situação da maioria da tripulação. Tinha tocado diretamente no
assunto, sobre o qual Stowes refletia já há mais tempo. A Finmark
encontrava-se com tripulação mais que desfalcada. Ele mesmo não se
atrevera a dar uma garantia de que a nave estava em condições de
resistir a um ataque maciço. E um ataque podia surgir a qualquer
momento.
— Se
você já está em condições, Loodey — respondeu Stowes sem
hesitar — venha então para a sala de comando. Você me será muito
útil. Aliás, onde está o Dr. Dunyan no momento? Está aí perto de
você?
— Não,
Sir — foi a resposta imediata de Loodey. — Saiu daqui há uns
vinte minutos, disse que tinha coisa importante a resolver no
laboratório.
Stowes
olhou para o relógio. Se Dunyan Unha alguma coisa a fazer no
laboratório, não devia tirá-lo de lá. Mais tarde perguntaria o
que havia constatado em Ran Loodey.
— Então
pode vir logo — disse ao sargento.
— Estou
indo, Sir.
Stowes
interrompeu a ligação, apertando um botão. Recostou-se na poltrona
e começou a refletir:
“Agora
que Loodey melhorou e está de volta, a situação da Finmark pode
melhorar...”
Na outra
extremidade da ligação, na cabina onde o haviam detido, Ran Loodey
se aprontava para sair. Vestiu o uniforme que o Dr. Dunyan lhe
tirara. Postou-se diante do espelho e tentou ajeitar os cabelos.
Contente
consigo mesmo, já estava para bater na porta da cabina, a fim de que
o guarda a abrisse, mas resolveu fazer qualquer coisa antes. Puxou a
porta do armário da parede, onde há pouco se contemplara no
espelho. Com cuidado, afastou as peças de roupa que cobriam o fundo
do armário.
O que se
viu então foi o corpo inerte do Dr. Dunyan. Loodey o examinou e
achou muito bom o modo como o havia amarrado e amordaçado.
*
* *
Nrrhooch
esgueirou-se através da penumbra. Não estava vendo o sentinela, mas
ouvia seus passos no cimento. Sabia que estaria perdido, caso o
guarda não se virasse e se afastasse no mesmo instante, mas sabia
também que era loucura esperar por uma coisa desta.
Os éfogos,
que se baldeavam para o lado dos estrangeiros, eram piores que os
próprios estrangeiros. Mostravam-se maus para com seus irmãos de
raça, e, nos últimos tempos, era muito difícil acontecer que um
deles se descuidasse de seus deveres. Nrrhooch estava tremendo,
embora sentisse calor e as escamas estivessem recobertas de suor. O
esconderijo não o abrigava muito bem.
Se o
sentinela tivesse chegado só um décimo de milésimo mais tarde, já
teria desaparecido há tempo na comporta menor e ninguém mais o
pegaria.
Censurava
a si mesmo por ter sido tão bobo, a ponto de ter aceito os planos de
Grghaok e de Lchox. Mas agora, era impossível voltar atrás. Lá
estava o sentinela. A última lâmpada da rua fazia-lhe a sombra
crescer grotescamente no chão. Haveria de pegar Nrrhooch, prendê-lo
e os estrangeiros o obrigariam a trabalhar o dia inteiro nas
plantações
Soltou, de
repente, todo o ar acumulado no pulmão, produzindo um chiado forte
pela boca, a fim de executar seu plano e se entregar voluntariamente
ao guarda, antes que este tivesse a idéia de puxar a poderosa arma
para matá-lo.
Mas a ação
tomou um rumo bem diferente.
O
sentinela ouviu o forte chiado, mas devido ao eco, não sabia de onde
vinha.
Confuso,
ficou olhando para todos os lados. De repente virou-se e passou a
observar a rua deserta.
Nrrhooch o
podia ver agora. Notou que lhe virará as costas. Por um instante
ficou petrificado, esquecido do que planejara antes. Mas, então,
compreendeu a chance que se lhe oferecia.
Com a
força e a agilidade que conquistara no árduo trabalho do campo da
plantação, saltou do esconderijo e, com um salto elástico
atravessou a calçada e foi parar nos ombros do sentinela. Agiu
movido pelo instinto e não houve raciocínio. Com força imensa,
comprimiu a palma da mão direita contra a nuca do traidor, enquanto
com o braço esquerdo o pegava por debaixo do braço, puxando-o
contra si, de modo que o guarda estava impossibilitado de mover-se.
O
sentinela foi preso tão de surpresa, que não pôde esboçar a menor
reação. O pobre do guarda soltou apenas um longo gemido, não
agüentando o peso de Nrrhooch. Enquanto isto, com a mão direita
tentava estrangular o tubo de respiração, um órgão esquisito que
os éfogos possuíam nas costas. Tal órgão ajudava-os a respirar,
quando submersos. Este tubo de respiração era o ponto mais sensível
dos éfogos e Nrrhooch sabia o que estava fazendo, no momento em que
pulou nos ombros do guarda.
A estranha
luta não durou muito. O sentinela perdeu logo os sentidos e caiu
inerte na calçada. O éfogo idealista o deixou, sem lhe fazer mal
maior, apenas o puxando para o esconderijo onde o próprio Nrrhooch
estivera antes. Perplexo, ofegante, contemplou por uns segundos o
pobre guarda e compreendeu o que havia feito por instinto. Dominara à
força física um sentinela de serviço. Quando os estrangeiros
soubessem disso, haveriam de prendê-lo e matá-lo.
Mas não
teve medo. A alegria de seu sucesso foi grande demais. Tinha agora
uma nova arma, poderosa, como só os estrangeiros e traidores a
possuíam. E Grghaok e Lchox não precisavam mais esperar no
esconderijo, até que o ar estivesse limpo, mas podiam vir
imediatamente com ele, para se dirigirem a Pchchogh, onde se
encontrariam com os outros amigos que lhes prometeram auxílio.
Grghaok tinha uma boa impressão destes homens, só porque eram
terranos.
Ainda
fascinado por sua façanha, Nrrhooch abriu a portinhola da comporta.
Olhou em volta e puxou para dentro o guarda inconsciente.
É claro
que acabariam achando o sentinela, na hora do revezamento. Iriam
procurar primeiro no seu local de trabalho, na pequena e deserta rua.
Depois, não o encontrando, iriam dar uma olhada na comporta e
achá-lo, caso ele não voltasse a si antes disso. Haveriam então de
pôr toda a cidade em polvorosa acabando por descobrir que Grghaok,
Lchox e Nrrhooch, durante o período reservado ao descanso noturno,
tinham desaparecido da cidade. Portanto, seriam os culpados. Logo
seriam perseguidos. Mas até lá, já estariam a caminho de Pchchogh
e ninguém conhecia os abismos e cavernas ocultas do fundo do mar tão
bem como o velho Grghaok.
Nrrhooch
fez questão de constatar que a arma tomada do sentinela estava de
fato na sua cintura e saiu correndo pela rua. Depois de ter corrido
umas duas quadras, percebeu que haveria de dar muito na vista andar
daquele jeito e moderou os passos, como um homem cansado que vai
dormir.
Lchox
morava um pouco acima da comporta, portanto bem perto. Mas para
Nrrhooch, aquela distância parecia muito grande. Mal bateu a porta
atrás de si, gritou nervoso:
— Venham
depressa, deixei o guarda inconsciente. Temos agora uma arma e a
comporta está livre.
Do fundo
da casa se ouviram passos apressados. Abriu-se a porta e os dois
anciãos surgiram.
— O que
você andou fazendo? — perguntou Grghaok ofegante.
— Dominei
um guarda e o deixei sem sentidos.
— Dominou
um guarda? — repetiu Lchox atônito.
— Deixem
de perguntas, por enquanto. O caminho está livre, mas não por muito
tempo. Já estão prontos? Vamos embora.
Saíram. A
rua ainda estava vazia. A iluminação fraca da longa noite espalhava
uma luz amarelada e toda a cidade parecia dormir. Nrrhooch olhou
rapidamente para a fila de janelas ovais que corria ao longo da
viela. Todas as residências estavam de luz apagada, mas isto não
queria dizer que um curioso qualquer não estivesse postado atrás de
uma janela. Isto, porém, não preocupava muito Nrrhooch, pois os
habitantes de Bchacheeth tinham todos o mesmo ódio contra os
estrangeiros. Se houvesse alguém que não pensasse assim, já
estaria trabalhando para eles. Portanto, se alguém, através das
janelas apagadas os estivesse vendo não haveria de denunciá-los às
autoridades estrangeiras.
— Venha,
Nrrhooch, não perca tempo.
Mesmo os
dois velhos desciam a rua a passos rápidos, rumo ao portão da
pequena comporta que, desde a chegada dos estrangeiros a Bchacheeth,
não estava sendo usada.
Nrrhooch
abriu-o e logo verificou que o guarda inconsciente ainda estava no
mesmo local. Depois que os velhos entraram, ainda olhou para a viela,
antes de fechar o portão. Continuava sem nenhum sinal de vida.
Desapareceram então todos no interior escuro da comporta.
— Grghaok,
você tem certeza de que achará ainda seu velho barco?
— Claro
que sim — respondeu o velho. — É verdade que já faz muito tempo
que o escondi lá atrás. Mas não me esqueci do lugar, não. Um
barco ninguém esquece...
— Então
vamos embora. O tempo é pouco e passa depressa.
Na
comporta havia um único cais. Lchox desceu depressa a escada
escorregadia, acionando o dispositivo que controlava a abertura do
portão. Nrrhooch ouviu o marulhar e tomou uma posição quase de
sentido. Desde criança conhecia a estranha sensação de presenciar
a abertura de uma comporta. O ar ficava mais pesado; tão pesado que
mal se podia fazer um movimento. Os ouvidos começariam a zumbir e,
por um certo tempo, não se ouviria outra coisa, a não ser o
zumbido. O tubo de respiração, órgão característico dos
homens-peixe, haveria de doer por uns instantes, até se adaptar às
novas condições. Uma sensação de cansaço o invadiria. Depois
diminuiria paulatinamente — sinal de que seu corpo já estava
preparado para entrar na água e mover-se com mais agilidade do que
um hchour, o terrível peixe selvagem daqueles mares.
Através
do ruído das águas, ouviu-se a voz de Lchox:
— Vamos,
o reservatório está cheio.
Nrrhooch
se moveu, a princípio um tanto pesadamente, mas cada vez mais firme.
Seu tubo de ar deixou de doer e cessou também o zumbido nos ouvidos.
Estava quase preparado para nadar.
A água
estava com uma claridade fraca e opaca, diminuindo assim a escuridão
da comporta. Nrrhooch sabia desde criança, como todo éfogo, aliás,
que a água do mar tinha brilho próprio e nunca estranhara isto.
Tinha, porém, ouvido dizer que os estrangeiros não compreendiam
isto e afirmavam que as águas eram habitadas por animais minúsculos,
produtores desta claridade.
Cauteloso
Nrrhooch desceu os degraus, sentindo prazer em penetrar na água até
os joelhos. Depois deu um mergulho e afundou. Tentava assim
experimentar o tubo de respiração. Quando emergiu de novo, estava
ao lado de Grghaok e de Lchox. Começaram a nadar. Comprido e
estreito, o cais dos barcos se estendia abaixo dos paredões da
comporta. Chegou o lugar mais fundo do cais e Nrrhooch, mergulhando
totalmente desenvolveu toda sua agilidade de moço. Ouviu, porém, o
apelo de Grghaok:
— Mais
devagar, meu jovem! Permita que nós o acompanhemos.
E sua voz
tinha o som típico de quem fala dentro d’água.
Em pouco
tempo chegaram ao fundo do cais. A grande comporta estava aberta,
atravessaram-na nadando e já estavam agora no mundo maravilhoso,
quase que lendário, do fundo do mar.
Por um
triz que um lkhregh não dá de encontro com Nrrhooch. O peixe, lindo
e elegante, que devia estar descansando no fundo do cais, ao ver os
três homens se assustara, e não tivera mais espaço para fazer uma
curva maior. Numa graciosa manobra, afastou-se e, de longe, se virou
para olhar mais uma vez os invasores de seu habitai. Nrrhooch riu e o
esbelto peixe continuou seu caminho.
Grghaok
tomou a dianteira. Passou agilmente por cima de uma pequena elevação
e mergulhou de novo no fundo do vale, nadando bem no fundo. Um dos
lados do vale era bem íngreme. Nrrhooch começou então a pensar que
o velho Grghaok guardara o barco em uma caverna por ali. Apreensivo,
procurou por sua arma. Estava no lugar de sempre. Mas Nrrhooch se
lembrou então que aquela arma dos estrangeiros certamente não
funcionaria debaixo d’água. Os estrangeiros não viviam dentro
d’água como eles. Queria alertar Grghaok do perigo de haver,
naquelas cavernas escuras da colina, insidiosos e terríveis chchrorl
e mesmo os hchour, que eram realmente perigosos. Porém, neste
momento, Grghaok dobrou para o lado e, depois de uma saliência no
paredão, notou um vão largo e escuro do lado direito.
Seguindo
seus velhos costumes, Grghaok se deteve na entrada da caverna,
soltando uns gritos e roncos atroadores, para assustar os animais
que, por acaso, poderiam estar lá dentro e mandá-los para fora. Mas
o que apareceu mesmo foi uma meia dúzia de nchchrachl,
uma espécie de peixe-espada, de brilho prateado nas escamas.
A caverna
era bem profunda e lá no fundo estava o velho barco de Grghaok. Ele
abriu a escotilha e mandou Lchox entrar.
— Depressa
— murmurou — meu ar está acabando!
Lchox
fechou a escotilha atrás de si. Agora, pelo borbulhar da água e
pela lama que se levantava, notava-se que a escotilha estava sendo
aberta por Lchox, sem perda de tempo.
Quando a
escotilha se reabriu, Lchox já tinha desaparecido. Agora era a vez
de Grghaok. Nrrhooch lhe disse que não se afobasse, pois sua reserva
de ar dava para mais tempo.
O último
a entrar foi Nrrhooch. Depois de esvaziar o espaço diante da
escotilha, botou na boca o tubo de ar e soprou o resto de ar, que não
lhe ia mais servir. Só depois é que penetrou no interior do barco.
Os dois velhos lhe tinham reservado o lugar do piloto. Sentou-se e
deu partida no motor. Agiu com muita cautela para retirar o barco da
caverna e pediu que Grghaok lhe fosse indicando o caminho.
— O
melhor é mantermos sempre a direita — disse o velho.
— Mas
então passaremos muito perto das plantações — ponderou Lchox.
— Isto
não tem importância. O setor oeste das plantações ainda não está
maduro para a colheita. Lá, no meio dos ramos de psimo estamos mais
seguros do que em qualquer outro lugar. Os estrangeiros só irão
para lá, quando chegar o tempo da colheita.
O barco
deixou o vale e tomou mais uma vez a direção do lado direito.
Nrrhooch imprimia toda força no motor. Tinha pressa de chegar a
Pchchogh e ver de novo os estrangeiros amigos.
— Quem
são propriamente estes terranos? Você já ouviu alguma coisa sobre
eles, Grghaok?
— Claro
— disse o velho. — Falei com Pthal a respeito deles. O espaço
inteiro está cheio de histórias sobre eles. Ah! Deuses do espaço,
que pena que Pthal tenha desaparecido tão depressa. Era um bom...
— Você
ia me contar alguma coisa sobre os terranos — lembrou-lhe Nrrhooch.
— Ah! É
verdade! Os terranos, ainda há pouco tempo, eram um povo pequeno e
de nenhuma importância, morando lá longe num mundo desconhecido.
Mas começaram a construir espaçonaves que lhes permitiam penetrar
pelo espaço afora e, em pouco tempo, todo o universo começou a
tecer-lhes comentários respeitosos. Penetraram no grande Império
dos arcônidas e dominaram a situação por lá. Os arcônidas
quiseram expulsá-los ou destruí-los, mas não o conseguiram. São
uma raça de lutadores e, já por muitas vezes, vieram em socorro de
povos oprimidos. Estou certo de que nos vão ajudar.
— Os
deuses o ouçam — disse Nrrhooch cético. — Se eles não nos
ajudarem, estamos perdidos, principalmente nós três. Não podemos
mais voltar para Bchacheeth o mesmo em qualquer outro lugar seremos
presos.
— Podemos
ficar em Pchchogh — disse Lchox. — Algumas casas ainda estão
inteiras.
— Em
Pchchogh! — disse Grghaok temeroso. — Jamais iria a Pchchogh,
caso não soubesse que os estrangeiros lá estão à nossa espera.
— Por
que não? Por causa dos phchauchol?
— Naturalmente
que é por causa dos phchauchol. Não acredita neles? São invisíveis
enquanto andam em volta da gente e só os sentimos depois, quando já
estão agarrados na gente, sugando nosso sangue. Claro que é por
causa dos phchauchol. Acha que haveria outro motivo para os próprios
habitantes abandonarem uma cidade tão agradável?
— Não
sei, não. Só acreditarei num phchauchol, quando o vir de fato
diante de mim.
— Então
será tarde demais — continuou Grghaok com convicção. — Já
estará grudado nas suas costas, sugando seu sangue.
— Ou o
seu — caçoou Lchox. — Quando estiver grudado em suas costas, eu
também o verei.
Nrrhooch
interrompeu os dois:
— Não
percam tempo com discussão boba. Aí estão as plantações diante
de nós, vamos passar através delas. É melhor assim. Aqui está a
extremidade oeste, onde ninguém nos verá.
Os dois
velhos inclinaram-se para frente e através da clarabóia de plástico
transparente olhavam para fora. Poucos metros na frente do barco,
ainda bem visível apesar da penumbra, começava a floresta de psimo.
Eram plantas exóticas, nem árvores nem arbustos, de um
vermelho-claro, que subiam do chão, com seus inúmeros galhos e
hastes, porém sem folhagem e tão altas que do barco não se via sua
extremidade superior. Nas pontas dos galhos e hastes crescia uma
pequena touceira de fios amarelados e longos, que se balançavam
preguiçosamente na água. Um dia, resplandeceriam com todas as cores
e encheriam as profundidades do mar com sua luz mágica. Seria então
o tempo da colheita. Estes fios dourados das extremidades seriam
colhidos e armazenados em grandes recipientes à margem da plantação,
e de lá, os estrangeiros os levariam para qualquer lugar.
Até
então, os éfogos não haviam se interessado pela floresta de psimo,
a não ser para se deliciarem com a exuberância de suas cores na
época da maturação. Não sabiam o que os estrangeiros faziam com
estas plantas esquisitas. Sabiam apenas que os invasores estavam em
Opghan somente por causa desta planta, que sua flor era a origem da
escravização do povo.
Nrrhooch
aproveitou a primeira abertura no emaranhado das plantas e penetrou
com o barco. Manobrava com muito cuidado entre as hastes. Seria de
todo desaconselhável ir de encontro a um tronco de psimo. Eram
extremamente duros e um choque mais ou menos forte podia abalar
perigosamente a estrutura do barco.
Os velhos
olhavam curiosos para as plantas avermelhadas, procurando descobrir
por que exatamente estas plantas eram a causa de tanta desgraça para
Opghan. Nrrhooch, porém, não pensava em nada disso, atento que
estava na pilotagem do barco. Aliás, não precisava mesmo ficar
olhando para estas plantas, pois as via durante todo seu árduo
trabalho de escravo. Refletia nestas plantas o mesmo grande ódio que
tinha contra os estrangeiros, pois, se não existissem estas plantas
de psimo, os estrangeiros não estariam em sua terra.
De uma
hora para a outra, os arbustos começaram a rarear, formando uma
grande clareira no meio da floresta. Nrrhooch olhava para frente,
procurando no outro lado uma abertura para prosseguirem a viagem. Mas
antes de conseguir localizar uma passagem adequada, uma das grandes
árvores à sua esquerda deu um estalo e caiu lentamente, produzindo
um remoinho de lama.
Nrrhooch
quedou estarrecido. Que monstro seria este, capaz de derrubar um pé
de psimo?
Perplexo,
ficou com os olhos presos no remoinho da lama do fundo da água,
esperando surgir de repente um monstruoso hchour ou outro peixe ainda
mais monstruoso.
Mas não
surgiu nenhum monstro. O que Nrrhooch viu, foi tão somente uma ponta
metálica esguia, de muito brilho, que rapidamente tomou a forma de
um grande barco.
O sangue
lhe gelou nas veias. Tais embarcações, os éfogos não possuíam.
Era um
barco dos estrangeiros!
5
Kayne
Stowes aguardava a chegada de Ran Loodey com grande ansiedade. Mas
quando o sargento penetrou na sala de comando, foi uma surpresa
decepcionante e horrível, totalmente ao contrário do que esperava.
E a
desgraça de Stowes foi que estava sozinho no posto de comando.
Loodey estava com a pistola térmica, que havia tirado do Dr. Dunyan,
engatilhada na mão direita, não deixando a menor chance para o
piloto. Desarmou o primeiro-oficial e, com uma coronhada, o deixou
sem sentidos.
Rápido e
com determinação, começou seu trabalho. Do posto de comando,
destravou a escotilha central do salão dos oficiais e ficou
observando no intercom, cheio de satisfação, como a leva dos
trancafiados, que aos poucos recuperava os sentidos, se abatia sobre
os poucos guardas, desarmando-os e os trancafiando.
O resto
foi muito fácil. Todos os postos na nave estavam ocupados apenas por
um homem. Havia quatro deles, três nos importantes ninhos de
artilharia. Ran Loodey deus as primeiras instruções aos homens
recém-liberados, através do intercom, muito alegre por saber que
estava com o comando absoluto da Finmark em mãos.
Não
confiou a ninguém o que pretendia. Supunha, naturalmente, que todos
já soubessem, pois estava convencido de que pensavam como ele.
Mandou-os para seus postos, recomendando-lhes que ficassem atentos.
Após algumas horas de plena calma, parecia que tudo na Finmark havia
voltado ao ponto de partida, isto é, o momento da aterrissagem. A
nave estava em estado de alarme total... só que o inimigo agora era
outro.
Ran Loodey
dava mostras de que o comando da Finmark não iria mais escapar-lhe
das mãos, embora entre seus comandados, houvesse dois tenentes e
cinco membros do Corpo de Mutantes, também oficiais. Ninguém fez
objeção quanto a isto. Loodey deu ordem para que dois mutantes e um
tenente viessem ter com ele no posto de comando. E, enquanto estes
homens estavam a caminho, enviou para a Terra o radiograma mais
memorável de toda história da Galáxia. O rádio tinha o seguinte
teor:
Finmark
em Opghan. Em Opghan tudo tranqüilo. Nenhum sinal de rebelião. Os
éfogos felizes. Tudo em paz. Não podem compreender a razão do
estado de sítio decretado por Árcon. Quem sabe se trata de um rádio
extraviado? Voltaremos daqui a cinco dias, para novas observações.
Fim.
*
* *
Ouvia-se
nitidamente a voz de Thomea Untcher nos mini-receptores do capacete
de sua gente.
— Estou
aqui — explicava Untcher em seu tom filosófico — eu, velha
raposa do espaço, depois de ter viajado milhares de anos-luz pelas
Galáxias, tenho de confessar que nunca vi coisa tão sensacional
como esta cidade.
O baixote
Thomea Untcher, apesar de metido dentro de um uniforme espacial à
prova de pressão, não melhorava em nada sua aparência franzina. E
lá estava ele, no meio das ruínas de uma cidade já há muito
abandonada, de pé na calçada de uma velha rua, por entre cujas
fendas penetravam as grotescas plantas-animais das profundezas do
mar. A sonolenta luz amarela de uma lanterna, que há muitos séculos
ninguém mais esperava encontrar e apesar de tudo continuava sendo
útil, iluminava o local.
Era um
quadro para inspirar a fantasia de um pintor surrealista. Não era
necessário o recurso aos peixes coloridos e fosforescentes, que
assustados, descreviam grandes voltas em torno de Untcher, para dar o
toque de irrealidade. Muros e paredes destruídos dos dois lados da
rua. Através das aberturas ovais das janelas, o olhar penetrava na
penumbra cinzenta do interior das casas. Às vezes surgiam os
contornos indecisos de objetos estranhos, recobertos de musgo, talvez
restos de móveis antigos.
A fila de
lâmpadas continuava ao longo da rua. Os intervalos entre os postes
eram grandes, como se antigamente os éfogos não precisassem de
muita luz. Nenhuma delas, porém, estava queimada.
“É
inexplicável!”,
pensou o comandante admirado.

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