sexta-feira, 26 de agosto de 2016

P-093 - O Inimigo Oculto - Kurt Mahr [Parte 2]

Enquanto vocês trabalhavam lá fora para os estrangeiros, nós, os velhos, chegamos à conclusão de que ainda podemos fazer alguma coisa. Cavamos um túnel que vai desta casa para a moradia de Chchaath. E hoje de noite vamos dar uma chegada até lá, a fim de ver qualquer coisa.
Nrrhooch estava parado, perplexo e, repentinamente, disse:
E se Chchaath voltar de repente? — ponderou assustado.
Lchox fez um gesto de irritado.
De novo, este negócio de “se”. É por este motivo que o levamos conosco. Se Chchaath aparecer, você vai ser homem bastante para, quando ele menos esperar, receber no pescoço uma cutilada magistral, que o deixe descansando por muito tempo, sem nos incomodar.
Nrrhooch já mais calmo, mantinha ainda a fisionomia séria.
E depois que voltar a si, haverá de investigar como conseguimos penetrar em sua casa. Então irá achar o túnel que vocês cavaram, que vai dar direto em nossa casa. Com os instrumentos de que os estrangeiros dispõem, não é nenhuma obra de arte descobrir estas coisas.
Grghaok, que há muito tempo não dizia nada, deu um grande suspiro e virou-se para Lchox.
Temos que ir sozinhos, meu amigo — disse triste. — Este jovem é muito medroso.
Lchox, não obstante sua pequena estatura, parecia um homem de ação. Virou-se para trás e enfiou-se novamente no buraco da parede.
Então, vamos embora — disse, já no interior da abertura.
Grghaok o seguiu. Parado e sem dizer uma palavra, o jovem Nrrhooch ficou sozinho no quarto. Ouvia o ruído causado pelos dois velhos que se arrastavam pelo túnel, pois suas escamas esfregavam nas paredes. Depois percebeu que os ruídos iam diminuindo.
Parem! — gritou ele de repente. — Vou com vocês. Não posso deixá-los sozinhos na desgraça.
Está certo, Nrrhooch — ecoou a voz abafada do velho Grghaok do fundo do túnel. — Apague as luzes, para que pensem que não estamos em casa e atarraxe bem a chapa que cobre o buraco na parede. Há dois ganchos que correspondem aos ilhoses na parede.
Nrrhooch fez como lhe disseram. Depois que a chapa encaixou no lugar certo, a escuridão passou a ser total no túnel e ele ficou com medo. Arrastando-se de marcha à ré, pois não havia espaço para se virar, apressou-se em acompanhar Grghaok e Lchox, usando de todas as suas forças.
O estreito corredor era muito sinuoso, ora para cima ou para baixo, à esquerda ou à direita. Nrrhooch começou a se perguntar onde é que os dois velhos haviam atirado todo o material da grande escavação. Estava para lhes fazer esta pergunta, quando seu pé se chocou contra Grghaok e ouviu a voz de Lchox:
Silêncio, já chegamos. Nrrhooch prendeu a respiração. Provavelmente, havia na outra extremidade do túnel um tipo de fechamento idêntico ao da entrada.
A escuridão, porém, ainda era a mesma. Na casa de Chchaath as trevas residiam.
A pressão que retinha os pés de Nrrhooch cedeu. Grghaok já estava mais para frente e o jovem o seguiu. Chegou a um ponto em que seus pés não encontraram apoio. Mas uma voz a seu lado disse-lhe:
Atenção, aqui há uma descida! Com todo cuidado, Nrrhooch esticou a perna, atingiu o chão com a ponta do pé e abandonou o túnel. Na escuridão, Lchox disse:
Vamos deixar o buraco aberto. Antes de mais nada devemos iluminar o local.
Nrrhooch queria propor que acendessem uma lanterna portátil, ao invés de ligarem toda a luxuosa instalação de luz da rica mansão de Chchaath. Mas, neste momento, aconteceu uma coisa que fez gelar o sangue nas veias de Nrrhooch e dos dois velhos. Os três perceberam que tinham poucos instantes de vida.
No meio da escuridão, surgiu de repente o vulto de Chchaath. Ninguém podia saber como chegara até ali. Mas tinha chegado. Um tipo estranho de claridade envolvia seu corpo. Levantou o braço e apontou diretamente para Nrrhooch, gritando:
Que procuram aqui, malandros? Vou cuidar para que sejam expulsos da cidade.

* * *

Dois motivos — dizia Thomea Untcher, depois de num longo suspiro, como se estivesse cansado de dizer todas as coisas duas ou três vezes. — Dois motivos me levam a não interromper a “expedição”. Primeiro existe uma convenção entre o Império Solar e Árcon pela qual nós terranos, comprometemo-nos prestar auxílio a Árcon, com naves e tripulação, sempre que formos solicitados para isto. Seremos como patrulheiros espaciais. Ações policiais são empreendimentos executados com menos de quatro espaçonaves, e nunca a tripulação pode ultrapassar a dois mil homens. Nossa missão aqui cai, sem dúvida alguma, nesta categoria.
O segundo motivo, meus senhores, é que eu não interrompo uma ação, quando me restam ainda dezesseis homens sadios e valorosos.”
Com um sorriso, ainda acrescentou: — No momento em que só restarem três ou quatro, pedirei reforço à Terra. Até lá podemos fazer muita coisa boa, isto é, um bom trabalho.
Em outras palavras: meu plano continua de pé. Se quisermos saber o que se passa em Opghan, temos de procurá-lo debaixo d’água. Nas minúsculas ilhas do continente, os éfogos não têm outra coisa a não ser local de descanso provisório. Seu verdadeiro ambiente é o mar. Vamos visitá-los e conversar com eles. Tenho certeza de que o inimigo oculto espera por nós em qualquer lugar lá embaixo. Está contando com que nós vamos descer, certamente já com a armadilha pronta. Vamos dar uma olhada lá embaixo, ou não vamos? Este é o risco que temos de correr.”
Virou-se para trás e caminhou um pouco, pensativo. De repente, parou e disse por sobre os ombros:
Preparem-se, meus amigos, partiremos em meia hora.

* * *

Via-se claramente que Nathael estava muito preocupado. Seu rosto estava afogueado e gesticulava muito nervoso.
Eu já sabia que íamos ter muita dificuldade — resmungou cabisbaixo e zangado. — Foi uma idéia errada, termos liquidado Pthal logo no começo.
Echnatal teve que engolir esta frase. Echnatal era o jovem de cuja barba artificial Nathael já tinha feito muita caçoada.
Idéia errada? — repetiu o jovem. — Quando lhe propus isto, você não teve nada contra.
Sim, é verdade, porque estava certo de que, apesar de toda pressa, você iria usar de certas providências acauteladoras e não simplesmente mandar para lá um homem que mata Pthal e, ao mesmo tempo, é morto por ele.
Virou o rosto para o outro lado, como se não pudesse suportar o olhar de Echnatal. Olhava para a parede porque não tinha outro lugar melhor. Ele odiava lugares sem janelas e só gostava de janelas amplas. Estava habituado a olhar para longe, ter um amplo ângulo de visão, como acontecia nas telas panorâmicas de suas espaçonaves. Naturalmente, os éfogos não iriam compreender seus anseios de amplos descortínios, criados e alimentados em muitos anos de experiências e vivências. Em suas habitações, os éfogos tinham apenas uma janela, isto é, na parede mais próxima da rua. Olhou para a rua lá fora, pessimamente iluminada. Nathael suportava mais a visão da via deserta do que a do edifício tipo galeria, com os móveis redondos, esquisitos, em que o chefe da cidade dava suas audiências rotineiras.
Esforcei-me ao máximo para fazer tudo que podia — continuou Echnatal ainda irritado. — O senhor me disse que não tinha um minuto para perder. Deveria pois, agir depressa.
O terceiro homem fez um gesto de quem não queria mais ouvir discussão:
Parem com este bate-boca estéril. Estava sentado a uma escrivaninha, numa poltrona bem confortável. Em contraste com Nathael e Echnatal, parecia muito tranqüilo e desinteressado da discussão.
Não compreendo por que vocês dois estão quebrando a cabeça — disse tão calmamente, que Nathael e Echnatal tiveram de fazer esforço para entendê-lo. — O nosso primeiro golpe parece ter dado resultado, pelo menos parcial e assim que os terranos se atreverem a descer, vamos cobrar nossas dívidas.
Com uma expressão de ironia no rosto, Nathael soltou o ar pelos dentes, produzindo um longo chiado.
Cobrar nossas dívidas, como? Simplesmente como? Parece tão fácil, não é? Você já tratou diretamente com terranos, Aktar?
Aktar olhou surpreso. Na luz fraca do aposento, sua barba castanha tinha um brilho estranho.
Não, naturalmente não. Você sabe disso.
Sim — respondeu Nathael — e se não soubesse, teria notado agora. Vingar-se dos terranos... Você acha que eles estão esperando por isto, que venha alguém para os deter e prender?
Aktar esqueceu seu conforto. Descolou-se do cômodo encosto e comprimindo os olhos falou:
Você tem um alto conceito dos terranos, Nathael, não é verdade?
Nathael abanou a cabeça confirmando:
E como o tenho! Você segura um terrano na mão, assim, por exemplo — ele apertou a mão como se quisesse esmagar alguma coisa. — Você está certo de que ele nunca mais escapará. Mas, de repente sua mão está vazia e o terrano já está atrás de você. Antes de ter tempo de virar-se, já leva uma tremenda pancada na cabeça que o deixará desacordado por muito tempo. Assim são os terranos, Aktar.
Este ia responder, mas antes que começasse a despejar seu ódio contra os terranos, a porta dos fundos se abriu e surgiu a figura de Chchaath. Todos os olhares convergiram para ele. Chchaath era o homem que trazia sempre as novidades.
Os terranos estão a caminho — disse com sua voz molhada. — Deixaram treze cinqüenta e oito numa espécie de barco e vão para o fundo do mar.
Sem dizer uma palavra, Nathael se virou, olhando para Aktar. Levantou as sobrancelhas, e Aktar sabia muito bem o que ele teria dito, se abrisse a boca.
Chchaath esperou pela reação de suas palavras.
Continue — exigiu Nathael. — Como é que você soube disso?
O homem-peixe mudou a expressão preocupada para um sorriso.
Meus barcos estão por toda parte — disse com orgulho.
Seus barcos!... Diga-me uma coisa, você mandou barcos ao encontro dos terranos?
Visivelmente assustado, Chchaath chegou a gaguejar:
Nã... não. Mandei que se dispersassem e dei ordem para que não se aproximassem do inimigo.
Nathael chegou rente a ele:
Mas tão perto que podiam ver o inimigo — disse gritando. — Com a pouca visibilidade, devia ser uma distância de cem metros. E os instrumentos de rastreamento dos terranos alcançam pelo menos cem vezes isto.
Chchaath recuou uns passos e não respondeu nada. Conhecia Nathael já há alguns dias e sabia que sua cólera aumentava com a discussão.
Pela segunda vez, Nathael se dirigiu a Aktar.
Já lhe disse que tudo está saindo errado. Colocamos nas mãos deste pele-escamada ignorante todos os tipos de instrumentos, e ensinamos-lhe a manejá-los. Tais instrumentos nos serviriam, e a ele também, para avisar com alguma certeza a aproximação dos terranos. E agora, além de não usarem os aparelhos, ainda mandaram seus barcos embora! Aposto todas as naves da minha estirpe contra um fio de sua barba, que os terranos estão morrendo de rir da nossa estupidez.
Aktar levantou a mão, para falar:
Nem tudo está tão ruim como você pensa, Nathael. Depois do ataque à sua nave, os terranos já deviam ter pensado em nos visitar aqui no fundo do mar.
É, mas agora não se trata mais de pensar em visitar, eles vêm mesmo e isto é certo.
Com os olhos dirigidos para o chão, andava de um lado para o outro. Tremendo de cólera, seus passos eram tão fortes que faziam estremecer as paredes, enquanto que o talo roxo da canácea, a planta semi-inteligente, que entrava pelo teto da casa, de tanto medo, começava a emitir um leve zumbido. De cabeça caída, dava voltas em torno de Chchaath. De repente, estacou e perguntou em voz alta:
Você tem em sua casa, em Bchacheeth, alguns instrumentos importantes e de grande valor. Sabe como o povo anda falando de você. Já tomou providências para que ninguém entre em sua casa, enquanto você está aqui, e os roube?
Chchaath sentiu-se mais aliviado com esta pergunta. Já que tinha errado muito na outra questão, aqui não havia perigo. Estava por dentro do assunto.
Sobre isto, você não precisa se preocupar — disse apressado. — O gravador e o projetor que vocês me deram estão ligados constantemente. Uma vez em cada quatro décimos de milésimo, eles passam a funcionar automaticamente.
Deu uma gargalhada boba.
Gostaria de conhecer algum éfogo que agüente uma descarga com esta voltagem, sem sair correndo feito um louco e passar um dia inteiro, sem poder abrir os olhos.

* * *

Nrrhooch viu-se atropelado. Alguma coisa macia, mas pesada atingiu-o com a impetuosidade de um hchour, quando este ataca. Cambaleou e só não caiu porque a parede o amparou. Algo se chocara contra suas pernas e parecia debater-se. Talvez estivesse tentando atingir o túnel secreto.
Nrrhooch teria mentido a si mesmo, caso dissesse que não ficou com medo na hora da aparição de Chchaath, com sua voz de trovão. Mas quando notou que aquilo que se debatia próximo de suas pernas não era outro senão Grghaok e que Lchox o seguia desvairado, começou a dar gargalhada. Pegou Grghaok pelas pernas e o puxou para fora. Lchox tremia feito vara verde e Grghaok começou a gritar e com tanta força que Nrrhooch teve de usar de energia com ele:
Cale a boca, você vai acordar os guardas. Tudo não passou de um truque.
Grghaok se acalmou num instante.
Um truque? — perguntou admirado. — Que tipo de truque?
Os estrangeiros possuem aparelhos onde podem armazenar a voz de um homem e depois reproduzi-la à vontade. Têm também dispositivos com os quais produzem imagens que se movem. O que vocês ouviram, foi a voz armazenada de Chchaath e o que viram era um pedaço de filme fotográfico.
Os dois estavam quase de respiração presa, devido à emoção. Mas... Grghaok não estava acreditando muito.
Esperem, vou mostrar para vocês — interrompeu-o Nrrhooch. — Onde está mesmo o interruptor da luz?
Ali na parede — disse Lchox, empurrando o rapaz na direção certa.
Nrrhooch achou o interruptor e o ligou. Uma luz amarelada, suave, iluminou o ambiente. Apesar de tudo que falavam contra Chchaath, ele não havia aceitado a luz branca e azulada dos estrangeiros, aquela luz que causava dor nos olhos.
Olhem ali! — exclamou Nrrhooch. — Aquela coisa que parece uma tela, recebeu a imagem de Chchaath — virou-se para o outro lado. — E ali está o instrumento que produz a imagem e ao lado o aparelho que guarda a voz de Chchaath — virou-se de novo para o projetor. — Ali, ao lado da tela, está dependurado o alto-falante, de onde sai a voz de Chchaath. Vocês estão vendo que...
Foi interrompido. De repente, em conseqüência da luz acesa, apareceu de novo a imagem de Chchaath e seu vozeirão gritou outra vez as mesmas palavras:
Que procuram aqui, malandros? Vou cuidar para que sejam expulsos da cidade.
Os dois velhos começaram a rir, apertando a boca para não fazerem muito ruído.
É um truque formidável — concordou Grghaok, reconhecendo o papelão que haviam feito na primeira investida.
Levantou-se e limpou sua roupa empoeirada.
Vamos começar então, agora — continuou ele — você, Nrrhooch, que entende tanto destas coisas estrangeiras, pode nos explicar alguma coisa. Ali ainda existem mais instrumentos. Fale-me deles.
Estava apontando para uma mesa maior, ao lado da tela semitransparente de projeção. A mesa — fora do armário que estava no canto — era o único móvel no grande aposento. Grghaok chegou à conclusão de que Chchaath já havia assimilado muita coisa dos costumes estrangeiros, pois os éfogos tinham o hábito de entupir seus cômodos de tantos móveis, que mal se podiam locomover.
Nrrhooch estava feliz. Encaminhou-se para a mesa e deu uma olhada nos muitos aparelhos ali reunidos.
Este aqui — disse apontando para uma caixa, não muito grande, tendo no centro uma chapa de vidro fosco — é um aparelho para falar e ver a pessoa ao mesmo tempo.
Ah!... é? — acudiu Lchox prontamente. — Quer dizer então que, se eu estiver em minha casa e você ficar aqui, podemos nos falar e ver nossa imagem ao mesmo tempo? Coisa formidável.
Sim, com a condição de que você tenha também um aparelho igual ao meu, do contrário não posso me ligar com você.
É verdade, já vi os estrangeiros fazendo isto. Um deles tinha um aparelho deste no carro.
Está bem, mas então ligue agora este aparelho.
Está louco? — respondeu Nrrhooch. — No outro lado, em qualquer parte do planeta, está sentado outro estrangeiro e, quando nos perceber aqui, compreenderá o que estamos fazendo.
Chiii... — fez Grghaok com o dedo indicador fechando a boca — isto é verdade. Mas eu não saio daqui, sem ver este negócio funcionar.
Nrrhooch ficou pensativo. Fez um grande esforço mental, pois não era muito inteligente e, além do mais, não entendia quase nada daqueles aparelhos. Apenas vira uma vez como o estrangeiro apertava um botão aqui ou ali, aparecendo primeiro uns riscos confusos no vidro leitoso.
Quem sabe... espere um pouco... vou experimentar.
Sentou-se na única cadeira que havia na frente da mesa, e ficou olhando longamente para o videofone. Tentou se lembrar do modo como procedera o estrangeiro, há um dia de Opghan. Titubeante, Nrrhooch apertou um botão. O aparelho respondeu com um fraco zumbido, que o deixou mais animado, pois já o conhecia. Apertou outro botão e, no mesmo instante, a tela se iluminou. Viu os mesmos rabiscos e cintilações, como na outra vez, com o estrangeiro. Suspirou mais aliviado. Podia até ser que, de repente, surgisse ali o rosto barbudo de um estrangeiro.
Assim é que o negócio funciona — explicou aos dois velhos curiosos. — Se continuar girando este botão, surgirá um estrangeiro na tela e me perguntará o que quero. E se eu fosse Chchaath, poderia lhe responder.
Lchox e Grghaok olhavam fascinados para o quadro de vidro fosco. Grghaok deu um passo para frente, postando-se bem rente do aparelho. Nrrhooch ficou olhando para ele, esperando que dissesse alguma coisa. Com isto, não reparou na mão do velho nem notou que ele estava girando o botão. Nrrhooch apenas reparou o que estava se passando, quando a tela aumentou sensivelmente a luminosidade e uma voz estranha começou a falar numa língua estrangeira.
Nrrhooch levou um susto. No vidro fosco surgiu o rosto de um homem desconhecido. Estava mesmo certo de que nunca vira uma criatura deste tipo. O estrangeiro não usava barba. Tinha acabado de falar e olhava atento para Nrrhooch.
Tomado de pânico, este queria desligar o aparelho ou pelo menos girar para trás o botão traiçoeiro. Mas desta vez foi o próprio Grghaok quem manteve o sangue-frio. Segurou Nrrhooch pelos braços e lhe cochichou no ouvido:
Espere, este não é nenhum dos estrangeiros que nos oprimem!
No mesmo instante, o homem da tela começou a falar. Desta vez, porém, usando a mesma língua dos estrangeiros, que era muito semelhante à dos éfogos, de tal maneira que os homens-peixe a entendiam sem dificuldades.
Rapazes, não tenham medo de nós, quem são vocês? — falou o homem sem barba.
Grghaok puxou Nrrhooch de lado e sentou-se na cadeira em frente ao aparelho.
Somos Nrrhooch, Lchox e Grghaok de Bchacheeth, estrangeiro. E você quem é?
O estrangeiro arregalou os olhos:
Santo Deus! Que tipo de língua é esta? Você não pode tirar um pouco da água que tem na boca?
Grghaok estava quase querendo se irritar com a observação, mas o estrangeiro continuou:
Não me leve a mal, amigo, terei de me acostumar com a sua linguagem. Onde fica Bchacheeth?
Entre Xchaghacht e Pchchogh — respondeu Grghaok. — Uma viagem de um décimo de Xchaghacht e de um décimo e meio de Pchchogh.
O estrangeiro, pela expressão do rosto, deve ter ficado na mesma.
Não tem maior importância — continuou ele — procuraremos depois no mapa. Mas diga-me uma coisa: assassinaram seu funcionário mais importante, não é verdade?
Grghaok levantou os braços para confirmar.
Sim, isto foi há quatro dias e, desde então, os estrangeiros estão aqui nos oprimindo.
De quem você está falando?
Dos nossos opressores. Vieram para cá há quatro dias, afastaram nossos funcionários e tomaram o governo. Estão nos obrigando a trabalhar nas plantações e...
Devagar — interrompeu-o o homem sem barba — não estou compreendendo tudo de uma só vez, mas percebo que vocês estão em dificuldade. Precisam de auxílio?
Sim, naturalmente — disse Grghaok com sua voz molhada. — O mais depressa possível. Odiamos os estrangeiros e...
Então é necessário que eu saiba mais alguma coisa. É muito perigoso falarmos pelo telecom. É bom que eu chegue até vocês. Será que a gente pode penetrar na cidade, sem que os estrangeiros percebam?
Não, pelo amor das santas águas — disse Grghaok assustado. — Impossível para quem não conhece as comportas clandestinas e, além disso, só com um barco muito pequeno.
Sei. E vocês podem sair da cidade?
Sim e não. Eu e talvez Lchox podemos. Mas Nrrhooch daria muito na vista a sua ausência nos trabalhos da plantação.
Se vocês conseguirem encontrar-se comigo, ele não precisa mais se preocupar com os trabalhos na plantação. Depressa, diga-me um lugar onde eu possa encontrá-los com segurança.
Grghaok hesitou por uma fração de segundo.
Em Pchchogh — disse um tanto excitado. — É uma velha cidade abandonada, onde apenas algumas casas ainda estão inteiras. Existem por lá algumas canáceas que nem mesmo os hchour querem mais.
O homem sem barba franziu a testa de uma hora para a outra.
Canáceas? — repetiu ele — hchour... onde fica mesmo esta Pchchogh?
Um décimo e meio de viagem daqui, já disse — respondeu o velho.
Em que direção?
Na direção do sol poente.
E não há nada entre Bchacheeth e Pchchogh?
Apenas umas duas ou três colinas de bem pouca altura.
Está bem. Haveremos de estar em Pchchogh e aguardá-los.
Sim, espere um pouco, quem são vocês?
O estrangeiro sem barba sorriu.
Terranos — respondeu com firmeza.
Desligou depois seu aparelho e, no vidro fosco do receptor de Chchaath, não havia mais nada a não ser rabiscos e cintilações. Grghaok levantou-se solenemente, olhou triunfante para Lchox e para Nrrhooch.
Vocês ouviram? São os terranos.
4



Thomea Untcher, por alguns instantes, ficou com os olhos presos na tela panorâmica que acabara de desligar. Depois, virando-se para Phil Lenzer que estava a seu lado, na poltrona do piloto, disse ainda mergulhado em seus pensamentos:
Coincidência das coincidências! Que coisa misteriosa! Parece que estavam brincando com as freqüências e foram parar casualmente na nossa.
Lenzer não respondeu nada no momento. Estava prestando atenção na grande tela, que lhe fazia as vezes de janela, tentando penetrar na penumbra cinzenta, que invadia o mar a uma profundidade de quase dois mil metros. Phil Lenzer era o responsável pela vida e pela segurança de seis homens, sem contar com a sua própria, de seis homens que confiaram plenamente numa embarcação anfíbia e em sua competência, para chegarem até as profundezas do oceano. Tentariam caçar o inimigo oculto.
O veículo anfíbio voara da ilhota, onde estava a Finmark, na direção do poente até alcançar o sol, ou seja a face iluminada do planeta. E depois de ultrapassar a faixa divisória do gelo, imergiu no oceano. Já havia uma hora que o veículo anfíbio perseguia uma rota em linha reta, num ângulo de trinta graus em relação à superfície do mar.
O que eu acho esquisito é que recebemos este apelo, somente no momento em que o rastreador não podia mais localizar nenhum destes minibarcos que nos perseguiam até então — disse Lenzer.
Thomea Untcher cocou a cabeça.
Você tem razão, Phil. Eu também estaria inclinado a tomar tudo como uma cilada, se não tivesse visto as caras assustadas destes três rapazes, que surgiram na tela de repente. E mesmo que não tivesse visto... Não, Phil, eles estão mesmo em apuros. Não é uma cilada, não.
Phil continuava cético. Estava concentrado na tela panorâmica. A penumbra cinzenta não era absolutamente conseqüência da falta da luz do sol. Esta luz solar não chegava de maneira alguma às profundezas de dois mil metros. Não só Lenzer, como o próprio Untcher eram unânimes em explicar a parca luz difusa naquela profundidade, como conseqüência de peixes fosforescentes que fugiam ante a aproximação do veículo anfíbio, formando um grande círculo em torno do misto de avião com submarino.
Os homens atrás de Untcher e de Lenzer estavam calados. Além de um ou outro suspiro ou de algum bocejo ruidoso, provenientes mais da tensão nervosa do que da monotonia reinante, nenhum deles, com exceção do rastreador, tinha dito uma só palavra desde o momento em que imergiram no oceano.
Este mundo submarino não fora feito para eles. Estavam acostumados com a amplidão e a claridade do espaço e com a imensidão de terras áridas em outros mundos, mas não com os abismos do mar. Viagens submarinas a grandes profundidades faziam parte do programa de sua formação na Academia Espacial de Terrânia; mas esta parte do programa nunca tivera valor objetivo para eles, convencidos que estavam de que, daí para frente, só teriam sob os pés as placas plásticas das poderosas espaçonaves.
Desde a hora em que mergulharam, o rastreador percebeu pequenos objetos semimetálicos, que se moviam nas proximidades do veículo anfíbio. Moviam-se de tal forma que não podiam ser outra coisa a não ser veículos teleguiados. Com toda a energia concentrada no intercom, Thomea Untcher tentou entrar em contato com um ou outro, não recebendo, porém, resposta.
De repente, estes miniveículos desapareceram, como se alguém tivesse ordenado sua retirada. Isto foi pela profundidade de mil e quinhentos metros. Depois disso, o veículo anfíbio se deslocara mais quinhentos metros para frente e tudo voltara à calma... até que veio o singular diálogo com os três homens-peixe de nomes impronunciáveis.
Thomea Untcher virou-se para trás e perguntou:
Rastreador, já tem algum resultado novo?
O homem sentado rente às paredes laterais da nave anfíbia, tendo à frente os complicados aparelhos, nem mexeu a cabeça ao responder:
Num instante, Sir! O cálculo não está terminado.
Untcher olhou para a grande tela. A monotonia da penumbra cor de cinza o levou a soltar as rédeas de sua fantasia. Começou por repetir o diálogo mantido com os três homens-peixe de Bchacheeth. Phil Lenzer tinha razão. Qualquer um, em sua posição, haveria de considerar o apelo de auxílio como uma cilada, e das bem palpáveis. Teria por finalidade atrair os terranos para um certo local, onde o inimigo oculto pudesse concentrar com antecedência suas forças de ataque e assim, sem dificuldade, se ver livre do indesejável intruso.
Afinal de contas, ele mesmo, Thomea Untcher, usara há quinze minutos atrás o argumento de que os éfogos não possuíam nenhum tipo de telecomunicador. Como é que os três estavam se utilizando de um aparelho assim? Tinha que ser mesmo uma cilada, bem primitiva aliás.
E apesar de tudo...! Thomea Untcher mesmo não sabia o que o levava a confiar tanto naqueles três homens. Mas confiava. Sem nenhuma hesitação. Estava resolvido a ir para Pchchogh para encontrar-se com eles. Naturalmente, observando certas normas de segurança, inerentes a um homem de responsabilidade.
Foi então que o rastreador se apresentou:
Treze quilômetros o vetor radial, Sir. Fi, cento e sessenta e oito e Teta, cento e três.
Thomea Untcher fez então o que costumava fazer sempre em tais situações, tal maneira de proceder tornava-se ridícula num comandante espacial do gabarito de um Untcher. Esticou as duas mãos no sentido indicado pelos dados do rastreamento, procurando assim traduzir concretamente os resultados da orientação.
Baixo — disse ele — muito baixo. Qual é a profundidade da água abaixo de nós?
Cerca de dois mil metros — respondeu Phil Lenzer. — Estamos, mais ou menos, no meio do oceano.
Bem, você sabe a direção. Pchchogh, conforme os dados dos éfogos, está exatamente a oeste deste ponto. Não se aproxime demais da cidade. Receio que por lá estão nadando certas pessoas, que não nos são muito simpáticas. Não há perigo nenhum para nós, entrarmos em contato com os desconhecidos, antes de falarmos com os éfogos.
Se é que chegaremos mesmo a falar com eles... — respondeu Lenzer.

* * *

Ao voltar, Aktar explicou que havia feito todos os preparativos possíveis.
Fizemos o que foi possível — garantiu ele. — Infelizmente não somos tantos e não podemos contar muito com o pessoal de Chchaath.
Nathael concordou, com expressão de seriedade no rosto.
Faz muito bem, meu amigo. Mas o que que há com a gente de Plougal?
Aktar franziu a testa.
Você sabe como se comporta Plougal e sua gente. São apenas cientistas. Vivem e morrem só para a ciência. Não servem para o combate.
Sorriu um pouco.
Realmente não poderia imaginá-los em combate. São tão bem dispostos que qualquer vento fraco pode atirá-los no chão.
Nathael não concordou:
Não se engane! Já vi muitas vezes os homens de Plougal lutando. São adversários perigosos.
Sim... quando conseguem empregar seus métodos traiçoeiros e outras coisinhas mais. Fora disso, não são de nada.
Você não tem o direito de caçoar de seus métodos. Você mesmo se utilizou de um de “seus meios traiçoeiros”, para desativar a grande nave terrana.
Naturalmente — disse Nathael impaciente — pois não me restava outro meio. E você viu então o que aconteceu. Fizemos com que os terranos ficassem cada vez mais prevenidos.
Felizmente eles não são numerosos. Do contrário não teriam vindo só com um veículo anfíbio.
Fazendo um gesto afirmativo, Nathael levantou os braços, como se quisesse falar.
Você tem razão — respondeu ele. — Apesar de tudo isto, o negócio não me agrada. Até que ponto podemos confiar, por exemplo, nos dados de Chchaath? Está assim tão certo de que os terranos vão atingir o fundo do mar, entre esta cidade e Bchacheeth. Podemos acreditar cegamente que vão manter a rota? Nossos instrumentos foram construídos somente para o espaço. Perceberemos o veículo dos terranos, somente quando estiver a pouco quilômetros de nós. E agora, eu lhes pergunto: estamos seguros ou não?
Aktar estava hesitante. — Somos apenas duzentos homens, a tripulação de uma nave. Poderemos controlar apenas um pequeno setor do fundo do mar. Por outro lado, temos uma flagrante superioridade numérica em relação aos terranos. A questão toda se resume em descobrirmos seu paradeiro. Se o conseguirmos, o resto é uma brincadeira. Nós os capturaremos, antes que...
Não diria isto — interrompeu Nathael, sorrindo. — Já falei a vocês dos terranos. Eu daria graças aos deuses do espaço se os pegarmos. Agora falar que isto é uma brincadeira, não sei não.
Está bem — respondeu Aktar. — Vamos de qualquer maneira...
Interrompeu sua frase, porque a porta se abriu. Era Echnatal que estava entrando, visivelmente excitado.
Chchaath localizou o barco dos inimigos. Os instrumentos o registraram por uns segundos a noroeste daqui, até que sumiu novamente.
Nathael e Aktar estavam igualmente desconcertados.
Noroeste... quer dizer então que alteraram sua rota?
Echnatal ergueu a mão para confirmar:
Aparentemente.
Em que direção se dirigem?
Para o oeste.
Nathael apoiou o queixo com a mão esquerda e ficou pensativo, resmungando qualquer coisa ininteligível. Depois ergueu o rosto e fitou Aktar:
Eu sei que vai parecer cômico. Mas por que estão indo para Pchchogh?

* * *

Kayne Stowes despertou de seus pensamentos, quando acendeu a luz do intercom.
Atenção, Sir — disse uma voz forte — o sargento Loodey acaba de voltar a si e deseja falar com o senhor.
Kayne Stowes ficou perplexo.
Para me dizer de novo as mesmas grosserias de antes? Faça-o saber que pode ir para os quintos dos infernos. Não falarei com ele a não ser que passe umas três semanas num bom hospício da Terra.
O homem da tela tentou ocultar um leve sorriso.
Perdoe-me, Sir, mas Loodey está melhor. Disse que lamenta o que aconteceu. Faz questão de se desculpar com o senhor, embora não queira com isso abrandar seu relatório disciplinar ao Serviço de Pessoal da Frota Espacial.
Relatório disciplinar... o quê? Não tive nem tempo de pensar nisso. Loodey tem uma ligação com o intercom em seu camarote, não é? Diga-lhe que ligue para mim.
O sentinela interrompeu a conversa. Stowes aguardava com grande curiosidade. Trinta segundos depois o intercom chamou. Quando Stowes atendeu, desta vez, viu o rosto largo de Ran Loodey. Parecia estar consciente de seu erro.
Sir — começou Loodey. — Estou envergonhado de tudo que fiz. Não posso compreender como cheguei a...
Esqueça isto, sargento — interrompeu-o Stowes — como se sente agora?
Muito bem, obrigado, Sir. Quando recuperei os sentidos, o Dr. Dunyan estava perto de mim e, com alguns remédios, me pôs de pé. Estou rouco, como o senhor está notando e minha garganta dói um pouco. Fora disso, não sinto nada. Quis falar-lhe porque, devido à falta de técnicos e combatentes, o senhor pode precisar de mim e...
Fez uma pausa... como se não encontrasse a palavra certa, para descrever a situação da maioria da tripulação. Tinha tocado diretamente no assunto, sobre o qual Stowes refletia já há mais tempo. A Finmark encontrava-se com tripulação mais que desfalcada. Ele mesmo não se atrevera a dar uma garantia de que a nave estava em condições de resistir a um ataque maciço. E um ataque podia surgir a qualquer momento.
Se você já está em condições, Loodey — respondeu Stowes sem hesitar — venha então para a sala de comando. Você me será muito útil. Aliás, onde está o Dr. Dunyan no momento? Está aí perto de você?
Não, Sir — foi a resposta imediata de Loodey. — Saiu daqui há uns vinte minutos, disse que tinha coisa importante a resolver no laboratório.
Stowes olhou para o relógio. Se Dunyan Unha alguma coisa a fazer no laboratório, não devia tirá-lo de lá. Mais tarde perguntaria o que havia constatado em Ran Loodey.
Então pode vir logo — disse ao sargento.
Estou indo, Sir.
Stowes interrompeu a ligação, apertando um botão. Recostou-se na poltrona e começou a refletir:
Agora que Loodey melhorou e está de volta, a situação da Finmark pode melhorar...”
Na outra extremidade da ligação, na cabina onde o haviam detido, Ran Loodey se aprontava para sair. Vestiu o uniforme que o Dr. Dunyan lhe tirara. Postou-se diante do espelho e tentou ajeitar os cabelos.
Contente consigo mesmo, já estava para bater na porta da cabina, a fim de que o guarda a abrisse, mas resolveu fazer qualquer coisa antes. Puxou a porta do armário da parede, onde há pouco se contemplara no espelho. Com cuidado, afastou as peças de roupa que cobriam o fundo do armário.
O que se viu então foi o corpo inerte do Dr. Dunyan. Loodey o examinou e achou muito bom o modo como o havia amarrado e amordaçado.

* * *

Nrrhooch esgueirou-se através da penumbra. Não estava vendo o sentinela, mas ouvia seus passos no cimento. Sabia que estaria perdido, caso o guarda não se virasse e se afastasse no mesmo instante, mas sabia também que era loucura esperar por uma coisa desta.
Os éfogos, que se baldeavam para o lado dos estrangeiros, eram piores que os próprios estrangeiros. Mostravam-se maus para com seus irmãos de raça, e, nos últimos tempos, era muito difícil acontecer que um deles se descuidasse de seus deveres. Nrrhooch estava tremendo, embora sentisse calor e as escamas estivessem recobertas de suor. O esconderijo não o abrigava muito bem.
Se o sentinela tivesse chegado só um décimo de milésimo mais tarde, já teria desaparecido há tempo na comporta menor e ninguém mais o pegaria.
Censurava a si mesmo por ter sido tão bobo, a ponto de ter aceito os planos de Grghaok e de Lchox. Mas agora, era impossível voltar atrás. Lá estava o sentinela. A última lâmpada da rua fazia-lhe a sombra crescer grotescamente no chão. Haveria de pegar Nrrhooch, prendê-lo e os estrangeiros o obrigariam a trabalhar o dia inteiro nas plantações
Soltou, de repente, todo o ar acumulado no pulmão, produzindo um chiado forte pela boca, a fim de executar seu plano e se entregar voluntariamente ao guarda, antes que este tivesse a idéia de puxar a poderosa arma para matá-lo.
Mas a ação tomou um rumo bem diferente.
O sentinela ouviu o forte chiado, mas devido ao eco, não sabia de onde vinha.
Confuso, ficou olhando para todos os lados. De repente virou-se e passou a observar a rua deserta.
Nrrhooch o podia ver agora. Notou que lhe virará as costas. Por um instante ficou petrificado, esquecido do que planejara antes. Mas, então, compreendeu a chance que se lhe oferecia.
Com a força e a agilidade que conquistara no árduo trabalho do campo da plantação, saltou do esconderijo e, com um salto elástico atravessou a calçada e foi parar nos ombros do sentinela. Agiu movido pelo instinto e não houve raciocínio. Com força imensa, comprimiu a palma da mão direita contra a nuca do traidor, enquanto com o braço esquerdo o pegava por debaixo do braço, puxando-o contra si, de modo que o guarda estava impossibilitado de mover-se.
O sentinela foi preso tão de surpresa, que não pôde esboçar a menor reação. O pobre do guarda soltou apenas um longo gemido, não agüentando o peso de Nrrhooch. Enquanto isto, com a mão direita tentava estrangular o tubo de respiração, um órgão esquisito que os éfogos possuíam nas costas. Tal órgão ajudava-os a respirar, quando submersos. Este tubo de respiração era o ponto mais sensível dos éfogos e Nrrhooch sabia o que estava fazendo, no momento em que pulou nos ombros do guarda.
A estranha luta não durou muito. O sentinela perdeu logo os sentidos e caiu inerte na calçada. O éfogo idealista o deixou, sem lhe fazer mal maior, apenas o puxando para o esconderijo onde o próprio Nrrhooch estivera antes. Perplexo, ofegante, contemplou por uns segundos o pobre guarda e compreendeu o que havia feito por instinto. Dominara à força física um sentinela de serviço. Quando os estrangeiros soubessem disso, haveriam de prendê-lo e matá-lo.
Mas não teve medo. A alegria de seu sucesso foi grande demais. Tinha agora uma nova arma, poderosa, como só os estrangeiros e traidores a possuíam. E Grghaok e Lchox não precisavam mais esperar no esconderijo, até que o ar estivesse limpo, mas podiam vir imediatamente com ele, para se dirigirem a Pchchogh, onde se encontrariam com os outros amigos que lhes prometeram auxílio. Grghaok tinha uma boa impressão destes homens, só porque eram terranos.
Ainda fascinado por sua façanha, Nrrhooch abriu a portinhola da comporta. Olhou em volta e puxou para dentro o guarda inconsciente.
É claro que acabariam achando o sentinela, na hora do revezamento. Iriam procurar primeiro no seu local de trabalho, na pequena e deserta rua. Depois, não o encontrando, iriam dar uma olhada na comporta e achá-lo, caso ele não voltasse a si antes disso. Haveriam então de pôr toda a cidade em polvorosa acabando por descobrir que Grghaok, Lchox e Nrrhooch, durante o período reservado ao descanso noturno, tinham desaparecido da cidade. Portanto, seriam os culpados. Logo seriam perseguidos. Mas até lá, já estariam a caminho de Pchchogh e ninguém conhecia os abismos e cavernas ocultas do fundo do mar tão bem como o velho Grghaok.
Nrrhooch fez questão de constatar que a arma tomada do sentinela estava de fato na sua cintura e saiu correndo pela rua. Depois de ter corrido umas duas quadras, percebeu que haveria de dar muito na vista andar daquele jeito e moderou os passos, como um homem cansado que vai dormir.
Lchox morava um pouco acima da comporta, portanto bem perto. Mas para Nrrhooch, aquela distância parecia muito grande. Mal bateu a porta atrás de si, gritou nervoso:
Venham depressa, deixei o guarda inconsciente. Temos agora uma arma e a comporta está livre.
Do fundo da casa se ouviram passos apressados. Abriu-se a porta e os dois anciãos surgiram.
O que você andou fazendo? — perguntou Grghaok ofegante.
Dominei um guarda e o deixei sem sentidos.
Dominou um guarda? — repetiu Lchox atônito.
Deixem de perguntas, por enquanto. O caminho está livre, mas não por muito tempo. Já estão prontos? Vamos embora.
Saíram. A rua ainda estava vazia. A iluminação fraca da longa noite espalhava uma luz amarelada e toda a cidade parecia dormir. Nrrhooch olhou rapidamente para a fila de janelas ovais que corria ao longo da viela. Todas as residências estavam de luz apagada, mas isto não queria dizer que um curioso qualquer não estivesse postado atrás de uma janela. Isto, porém, não preocupava muito Nrrhooch, pois os habitantes de Bchacheeth tinham todos o mesmo ódio contra os estrangeiros. Se houvesse alguém que não pensasse assim, já estaria trabalhando para eles. Portanto, se alguém, através das janelas apagadas os estivesse vendo não haveria de denunciá-los às autoridades estrangeiras.
Venha, Nrrhooch, não perca tempo.
Mesmo os dois velhos desciam a rua a passos rápidos, rumo ao portão da pequena comporta que, desde a chegada dos estrangeiros a Bchacheeth, não estava sendo usada.
Nrrhooch abriu-o e logo verificou que o guarda inconsciente ainda estava no mesmo local. Depois que os velhos entraram, ainda olhou para a viela, antes de fechar o portão. Continuava sem nenhum sinal de vida. Desapareceram então todos no interior escuro da comporta.
Grghaok, você tem certeza de que achará ainda seu velho barco?
Claro que sim — respondeu o velho. — É verdade que já faz muito tempo que o escondi lá atrás. Mas não me esqueci do lugar, não. Um barco ninguém esquece...
Então vamos embora. O tempo é pouco e passa depressa.
Na comporta havia um único cais. Lchox desceu depressa a escada escorregadia, acionando o dispositivo que controlava a abertura do portão. Nrrhooch ouviu o marulhar e tomou uma posição quase de sentido. Desde criança conhecia a estranha sensação de presenciar a abertura de uma comporta. O ar ficava mais pesado; tão pesado que mal se podia fazer um movimento. Os ouvidos começariam a zumbir e, por um certo tempo, não se ouviria outra coisa, a não ser o zumbido. O tubo de respiração, órgão característico dos homens-peixe, haveria de doer por uns instantes, até se adaptar às novas condições. Uma sensação de cansaço o invadiria. Depois diminuiria paulatinamente — sinal de que seu corpo já estava preparado para entrar na água e mover-se com mais agilidade do que um hchour, o terrível peixe selvagem daqueles mares.
Através do ruído das águas, ouviu-se a voz de Lchox:
Vamos, o reservatório está cheio.
Nrrhooch se moveu, a princípio um tanto pesadamente, mas cada vez mais firme. Seu tubo de ar deixou de doer e cessou também o zumbido nos ouvidos. Estava quase preparado para nadar.
A água estava com uma claridade fraca e opaca, diminuindo assim a escuridão da comporta. Nrrhooch sabia desde criança, como todo éfogo, aliás, que a água do mar tinha brilho próprio e nunca estranhara isto. Tinha, porém, ouvido dizer que os estrangeiros não compreendiam isto e afirmavam que as águas eram habitadas por animais minúsculos, produtores desta claridade.
Cauteloso Nrrhooch desceu os degraus, sentindo prazer em penetrar na água até os joelhos. Depois deu um mergulho e afundou. Tentava assim experimentar o tubo de respiração. Quando emergiu de novo, estava ao lado de Grghaok e de Lchox. Começaram a nadar. Comprido e estreito, o cais dos barcos se estendia abaixo dos paredões da comporta. Chegou o lugar mais fundo do cais e Nrrhooch, mergulhando totalmente desenvolveu toda sua agilidade de moço. Ouviu, porém, o apelo de Grghaok:
Mais devagar, meu jovem! Permita que nós o acompanhemos.
E sua voz tinha o som típico de quem fala dentro d’água.
Em pouco tempo chegaram ao fundo do cais. A grande comporta estava aberta, atravessaram-na nadando e já estavam agora no mundo maravilhoso, quase que lendário, do fundo do mar.
Por um triz que um lkhregh não dá de encontro com Nrrhooch. O peixe, lindo e elegante, que devia estar descansando no fundo do cais, ao ver os três homens se assustara, e não tivera mais espaço para fazer uma curva maior. Numa graciosa manobra, afastou-se e, de longe, se virou para olhar mais uma vez os invasores de seu habitai. Nrrhooch riu e o esbelto peixe continuou seu caminho.
Grghaok tomou a dianteira. Passou agilmente por cima de uma pequena elevação e mergulhou de novo no fundo do vale, nadando bem no fundo. Um dos lados do vale era bem íngreme. Nrrhooch começou então a pensar que o velho Grghaok guardara o barco em uma caverna por ali. Apreensivo, procurou por sua arma. Estava no lugar de sempre. Mas Nrrhooch se lembrou então que aquela arma dos estrangeiros certamente não funcionaria debaixo d’água. Os estrangeiros não viviam dentro d’água como eles. Queria alertar Grghaok do perigo de haver, naquelas cavernas escuras da colina, insidiosos e terríveis chchrorl e mesmo os hchour, que eram realmente perigosos. Porém, neste momento, Grghaok dobrou para o lado e, depois de uma saliência no paredão, notou um vão largo e escuro do lado direito.
Seguindo seus velhos costumes, Grghaok se deteve na entrada da caverna, soltando uns gritos e roncos atroadores, para assustar os animais que, por acaso, poderiam estar lá dentro e mandá-los para fora. Mas o que apareceu mesmo foi uma meia dúzia de nchchrachl, uma espécie de peixe-espada, de brilho prateado nas escamas.
A caverna era bem profunda e lá no fundo estava o velho barco de Grghaok. Ele abriu a escotilha e mandou Lchox entrar.
Depressa — murmurou — meu ar está acabando!
Lchox fechou a escotilha atrás de si. Agora, pelo borbulhar da água e pela lama que se levantava, notava-se que a escotilha estava sendo aberta por Lchox, sem perda de tempo.
Quando a escotilha se reabriu, Lchox já tinha desaparecido. Agora era a vez de Grghaok. Nrrhooch lhe disse que não se afobasse, pois sua reserva de ar dava para mais tempo.
O último a entrar foi Nrrhooch. Depois de esvaziar o espaço diante da escotilha, botou na boca o tubo de ar e soprou o resto de ar, que não lhe ia mais servir. Só depois é que penetrou no interior do barco. Os dois velhos lhe tinham reservado o lugar do piloto. Sentou-se e deu partida no motor. Agiu com muita cautela para retirar o barco da caverna e pediu que Grghaok lhe fosse indicando o caminho.
O melhor é mantermos sempre a direita — disse o velho.
Mas então passaremos muito perto das plantações — ponderou Lchox.
Isto não tem importância. O setor oeste das plantações ainda não está maduro para a colheita. Lá, no meio dos ramos de psimo estamos mais seguros do que em qualquer outro lugar. Os estrangeiros só irão para lá, quando chegar o tempo da colheita.
O barco deixou o vale e tomou mais uma vez a direção do lado direito. Nrrhooch imprimia toda força no motor. Tinha pressa de chegar a Pchchogh e ver de novo os estrangeiros amigos.
Quem são propriamente estes terranos? Você já ouviu alguma coisa sobre eles, Grghaok?
Claro — disse o velho. — Falei com Pthal a respeito deles. O espaço inteiro está cheio de histórias sobre eles. Ah! Deuses do espaço, que pena que Pthal tenha desaparecido tão depressa. Era um bom...
Você ia me contar alguma coisa sobre os terranos — lembrou-lhe Nrrhooch.
Ah! É verdade! Os terranos, ainda há pouco tempo, eram um povo pequeno e de nenhuma importância, morando lá longe num mundo desconhecido. Mas começaram a construir espaçonaves que lhes permitiam penetrar pelo espaço afora e, em pouco tempo, todo o universo começou a tecer-lhes comentários respeitosos. Penetraram no grande Império dos arcônidas e dominaram a situação por lá. Os arcônidas quiseram expulsá-los ou destruí-los, mas não o conseguiram. São uma raça de lutadores e, já por muitas vezes, vieram em socorro de povos oprimidos. Estou certo de que nos vão ajudar.
Os deuses o ouçam — disse Nrrhooch cético. — Se eles não nos ajudarem, estamos perdidos, principalmente nós três. Não podemos mais voltar para Bchacheeth o mesmo em qualquer outro lugar seremos presos.
Podemos ficar em Pchchogh — disse Lchox. — Algumas casas ainda estão inteiras.
Em Pchchogh! — disse Grghaok temeroso. — Jamais iria a Pchchogh, caso não soubesse que os estrangeiros lá estão à nossa espera.
Por que não? Por causa dos phchauchol?
Naturalmente que é por causa dos phchauchol. Não acredita neles? São invisíveis enquanto andam em volta da gente e só os sentimos depois, quando já estão agarrados na gente, sugando nosso sangue. Claro que é por causa dos phchauchol. Acha que haveria outro motivo para os próprios habitantes abandonarem uma cidade tão agradável?
Não sei, não. Só acreditarei num phchauchol, quando o vir de fato diante de mim.
Então será tarde demais — continuou Grghaok com convicção. — Já estará grudado nas suas costas, sugando seu sangue.
Ou o seu — caçoou Lchox. — Quando estiver grudado em suas costas, eu também o verei.
Nrrhooch interrompeu os dois:
Não percam tempo com discussão boba. Aí estão as plantações diante de nós, vamos passar através delas. É melhor assim. Aqui está a extremidade oeste, onde ninguém nos verá.
Os dois velhos inclinaram-se para frente e através da clarabóia de plástico transparente olhavam para fora. Poucos metros na frente do barco, ainda bem visível apesar da penumbra, começava a floresta de psimo. Eram plantas exóticas, nem árvores nem arbustos, de um vermelho-claro, que subiam do chão, com seus inúmeros galhos e hastes, porém sem folhagem e tão altas que do barco não se via sua extremidade superior. Nas pontas dos galhos e hastes crescia uma pequena touceira de fios amarelados e longos, que se balançavam preguiçosamente na água. Um dia, resplandeceriam com todas as cores e encheriam as profundidades do mar com sua luz mágica. Seria então o tempo da colheita. Estes fios dourados das extremidades seriam colhidos e armazenados em grandes recipientes à margem da plantação, e de lá, os estrangeiros os levariam para qualquer lugar.
Até então, os éfogos não haviam se interessado pela floresta de psimo, a não ser para se deliciarem com a exuberância de suas cores na época da maturação. Não sabiam o que os estrangeiros faziam com estas plantas esquisitas. Sabiam apenas que os invasores estavam em Opghan somente por causa desta planta, que sua flor era a origem da escravização do povo.
Nrrhooch aproveitou a primeira abertura no emaranhado das plantas e penetrou com o barco. Manobrava com muito cuidado entre as hastes. Seria de todo desaconselhável ir de encontro a um tronco de psimo. Eram extremamente duros e um choque mais ou menos forte podia abalar perigosamente a estrutura do barco.
Os velhos olhavam curiosos para as plantas avermelhadas, procurando descobrir por que exatamente estas plantas eram a causa de tanta desgraça para Opghan. Nrrhooch, porém, não pensava em nada disso, atento que estava na pilotagem do barco. Aliás, não precisava mesmo ficar olhando para estas plantas, pois as via durante todo seu árduo trabalho de escravo. Refletia nestas plantas o mesmo grande ódio que tinha contra os estrangeiros, pois, se não existissem estas plantas de psimo, os estrangeiros não estariam em sua terra.
De uma hora para a outra, os arbustos começaram a rarear, formando uma grande clareira no meio da floresta. Nrrhooch olhava para frente, procurando no outro lado uma abertura para prosseguirem a viagem. Mas antes de conseguir localizar uma passagem adequada, uma das grandes árvores à sua esquerda deu um estalo e caiu lentamente, produzindo um remoinho de lama.
Nrrhooch quedou estarrecido. Que monstro seria este, capaz de derrubar um pé de psimo?
Perplexo, ficou com os olhos presos no remoinho da lama do fundo da água, esperando surgir de repente um monstruoso hchour ou outro peixe ainda mais monstruoso.
Mas não surgiu nenhum monstro. O que Nrrhooch viu, foi tão somente uma ponta metálica esguia, de muito brilho, que rapidamente tomou a forma de um grande barco.
O sangue lhe gelou nas veias. Tais embarcações, os éfogos não possuíam.
Era um barco dos estrangeiros!
5



Kayne Stowes aguardava a chegada de Ran Loodey com grande ansiedade. Mas quando o sargento penetrou na sala de comando, foi uma surpresa decepcionante e horrível, totalmente ao contrário do que esperava.
E a desgraça de Stowes foi que estava sozinho no posto de comando. Loodey estava com a pistola térmica, que havia tirado do Dr. Dunyan, engatilhada na mão direita, não deixando a menor chance para o piloto. Desarmou o primeiro-oficial e, com uma coronhada, o deixou sem sentidos.
Rápido e com determinação, começou seu trabalho. Do posto de comando, destravou a escotilha central do salão dos oficiais e ficou observando no intercom, cheio de satisfação, como a leva dos trancafiados, que aos poucos recuperava os sentidos, se abatia sobre os poucos guardas, desarmando-os e os trancafiando.
O resto foi muito fácil. Todos os postos na nave estavam ocupados apenas por um homem. Havia quatro deles, três nos importantes ninhos de artilharia. Ran Loodey deus as primeiras instruções aos homens recém-liberados, através do intercom, muito alegre por saber que estava com o comando absoluto da Finmark em mãos.
Não confiou a ninguém o que pretendia. Supunha, naturalmente, que todos já soubessem, pois estava convencido de que pensavam como ele. Mandou-os para seus postos, recomendando-lhes que ficassem atentos. Após algumas horas de plena calma, parecia que tudo na Finmark havia voltado ao ponto de partida, isto é, o momento da aterrissagem. A nave estava em estado de alarme total... só que o inimigo agora era outro.
Ran Loodey dava mostras de que o comando da Finmark não iria mais escapar-lhe das mãos, embora entre seus comandados, houvesse dois tenentes e cinco membros do Corpo de Mutantes, também oficiais. Ninguém fez objeção quanto a isto. Loodey deu ordem para que dois mutantes e um tenente viessem ter com ele no posto de comando. E, enquanto estes homens estavam a caminho, enviou para a Terra o radiograma mais memorável de toda história da Galáxia. O rádio tinha o seguinte teor:

Finmark em Opghan. Em Opghan tudo tranqüilo. Nenhum sinal de rebelião. Os éfogos felizes. Tudo em paz. Não podem compreender a razão do estado de sítio decretado por Árcon. Quem sabe se trata de um rádio extraviado? Voltaremos daqui a cinco dias, para novas observações. Fim.

* * *

Ouvia-se nitidamente a voz de Thomea Untcher nos mini-receptores do capacete de sua gente.
Estou aqui — explicava Untcher em seu tom filosófico — eu, velha raposa do espaço, depois de ter viajado milhares de anos-luz pelas Galáxias, tenho de confessar que nunca vi coisa tão sensacional como esta cidade.
O baixote Thomea Untcher, apesar de metido dentro de um uniforme espacial à prova de pressão, não melhorava em nada sua aparência franzina. E lá estava ele, no meio das ruínas de uma cidade já há muito abandonada, de pé na calçada de uma velha rua, por entre cujas fendas penetravam as grotescas plantas-animais das profundezas do mar. A sonolenta luz amarela de uma lanterna, que há muitos séculos ninguém mais esperava encontrar e apesar de tudo continuava sendo útil, iluminava o local.
Era um quadro para inspirar a fantasia de um pintor surrealista. Não era necessário o recurso aos peixes coloridos e fosforescentes, que assustados, descreviam grandes voltas em torno de Untcher, para dar o toque de irrealidade. Muros e paredes destruídos dos dois lados da rua. Através das aberturas ovais das janelas, o olhar penetrava na penumbra cinzenta do interior das casas. Às vezes surgiam os contornos indecisos de objetos estranhos, recobertos de musgo, talvez restos de móveis antigos.
A fila de lâmpadas continuava ao longo da rua. Os intervalos entre os postes eram grandes, como se antigamente os éfogos não precisassem de muita luz. Nenhuma delas, porém, estava queimada.
É inexplicável!”, pensou o comandante admirado.

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