sábado, 20 de agosto de 2016

P-082 - Xeque-Mate Universo - Kurt Mahr [Parte 2]

Fryberg fez algumas experiências. Decifrou algumas das mensagens dos arcônidas e achou que giravam em torno de coisas sem importância, instruções que eram dadas de uma nave a outra para fins de orientação e assuntos particulares.
Tudo indicava que a Infant não tinha sido localizada. E parecia que ninguém suspeitava da autoria da destruição da nave avariada. Com novo ânimo, Tifflor voltou para seu trabalho. O destino parecia ter abrandado sua severidade para com os terranos. Preparava-se para prosseguir a viagem com a Infant, quando o sargento Fryberg se apresentou:
Há alguma coisa perto de nós — disse ele desconfiado e com voz trêmula. — Não consigo, porém, descobrir o que é.
Sintonize bem — ordenou Tifflor alarmado — e ligue para cá.
Logo apareceu na tela do intercomunicador de Tifflor a imagem do rastreador de Fryberg. Nos primeiros instantes, além do verde-escuro da tela vazia, Tifflor não conseguiu ver nada.
Do lado direito, em cima, Sir — explicava o sargento. — Uma mancha fraca, bem esmaecida.
Tifflor apagou a lâmpada de sua escrivaninha e olhou de novo. Conseguiu ver no canto superior direito o que Fryberg apontava. Não era propriamente uma mancha, mal se aproximava de um halo pouco perceptível, como se fosse um vidro embaciado de uma tela.
Que dizem os outros instrumentos? — perguntou ele.
Nada, senhor. O rastreador de matéria não diz nada, mas talvez seja porque o objeto esteja longe demais. O espaço aqui em volta está isento de resíduos de combustíveis. Somente as microondas é que registram o fenômeno.
Tifflor constatou que o objeto se movia e vinha na direção da Infant. Segundo o rastreador, não estava a mais de dez mil quilômetros. Ali, tão perto da zona de superposição, onde a luz das estrelas penetrava apenas num diminuto ângulo, não se podia esperar que este objeto fosse visto na tela a não ser quando já estivesse a poucos quilômetros de distância.
O comandante Tifflor quebrava a cabeça para descobrir alguma coisa. Pensava numa nuvem de poeira cósmica, mas com seu tamanho restrito, tinha que ser de uma densidade improvável para refletir, em microondas, a mais de dez mil quilômetros, um halo reconhecível na tela.
Tifflor se negava a aceitar a hipótese de uma espaçonave. Não havia nenhum sistema de proteção capaz de esconder uma espaçonave dos aparelhos de rastreamento em distância tão reduzida. Se houvesse tal sistema, então uma frota de espaçonaves que dispusesse dessa proteção estaria de antemão infinitamente superior a seu adversário. Tifflor reconheceu que tinha abandonado o caminho impessoal da lógica. Assustou-se, de repente. O que lhe passava pela cabeça era tão aterrador que não conseguia conservar-se calmo. Tinha de saber o que estava acontecendo.
Ordenou que os homens ficassem de prontidão nos pontos de defesa. Disse-lhes que Fryberg tinha percebido um objeto estranho e a Infant haveria de examiná-lo agora. Não havia perigo por enquanto, mas deviam estar de olhos abertos.
Sabia que tinha abandonado o caminho rigorosamente traçado, com todas as prescrições e instruções. O que estava fazendo agora, inclusive, podia ajudar os arcônidas a descobri-lo e assim fazer com que todo o plano fracassasse.
Apesar de tudo, tinha que averiguar os fatos e não lhe restava outra opção. Os homens que lhe traçaram o plano e lhe deram as instruções não contavam naturalmente com um incidente como este.
Com as turbinas em ritmo reduzido, a Infant começou a descrever uma curva. Tomando-se como ponto de referência a garganta afunilada, o estranho objeto se encontrava agora atrás da nave terrana. A Infant descreveu um ângulo de cento e sessenta graus e quando iniciou seu movimento, bem reduzido no começo, para não ser percebida, fê-lo na direção da frota de bloqueio dos arcônidas, ao invés de se afastar dela, como era seu dever.
Tifflor ainda estava preocupado com o halo da tela. Podia ser um truque dos arcônidas. Então tentou imaginar o que um estrategista arcônida pretendia com isto, que efeito esperava, quando nas imediações de uma garganta afunilada, aparecia um objeto misterioso, que mal podia ser visto pelos instrumentos da nave terrana.
Caso houvesse qualquer espécie de efeito psicológico atrás de tudo isto, estava muito acima da percepção de Tifflor.
Com pequena aceleração, a Infant se encaminhou para a mancha esmaecida da tela, que continuava seu movimento no mesmo sentido de antes. A rota da Infant foi calculada para um encontro com o estranho objeto dentro de trinta minutos.
Os homens na sala de comando esquentavam a cabeça, imaginando o que iria acontecer dentro em breve. Um silêncio pesado cobria todos os semblantes. O leve ruído das turbinas, que ninguém mais estranhava, era a única coisa que quebrava a monotonia.
Na tela de rastreamento do sargento Fryberg, a mancha esmaecida se aproximava do centro. Fryberg olhava fixo para ela e sua boca estava seca, como a de um caminhante no deserto. Se o objeto misterioso fosse realmente uma espaçonave, haveria de esperar calmamente até que a Infant se aproximasse, para depois reduzir a pedaços seu envoltório energético com uma salva de tiros bem certeiros.
Não teremos tempo nem de piscar o olho”, pensava Fryberg.
Levantou a cabeça para olhar melhor a tela panorâmica, cada vez mais preocupado. A imagem ainda era a mesma. De um lado, o setor de um vermelho-escuro da zona de superposição; do outro, o emaranhado fulgurante das estrelas. Não se via em nenhum ponto um brilho diferente. Em nenhum lugar se podia perceber o brilho fosco das paredes de uma cosmonave.
Talvez não seja nenhuma nave”, pensava Fryberg. “Tomara que não seja mesmo. Gostaria de ficar livre de um encontro com uma nave que se pode tornar tão invisível como um pedaço de carvão em plena escuridão!
Percebeu que seus nervos estavam para explodir. Encostou-se na poltrona e respirou profundamente. O ar do assobio passava por entre os dentes, fazendo um ruído de panela de pressão.
Coragem, homem”, pensava Fryberg. “Não é nenhuma espaçonave. Move-se em órbita, como um corpo inerte. Não há nenhum indício de que seja tripulado ou dirigido por alguém. É um meteorito de fibra de vidro ou algo semelhante.”
De repente, um grito quase fez estremecer toda sala de comando:
Ele se move! Vem direto em nossa direção! — gritou Fryberg, completamente fora de si.

* * *

Tornava-se uma sensação horrível ver o objeto vir a seu encontro e não saber o que era.
Primeiramente, era uma mancha esmaecida na tela e a ótica não mostrava outra coisa, no local onde tinha que estar, a não ser sempre a mesma imagem.
A distância diminuía depressa. Fosse o que fosse a tal mancha esmaecida, devia ter um bom mecanismo de propulsão.
Julian Tifflor teve de sufocar o desejo de fazer uma curva com a Infant e fugir o mais depressa possível. Quando determinou a rota de encontro ao objeto, já devia prever uma espaçonave estrangeira. Agora que não lhe restava mais dúvidas, seria um ato inconseqüente tentar uma fuga e inconseqüente era uma palavra que não existia no vocabulário de Tifflor.
Também não deu aos homens das vigias nenhuma ordem de atirar, embora estivessem esperando por isto, sentados nos seus abrigos, tentando ocultar o medo e o nervosismo.
Tifflor compreendeu o que eles queriam. Balançou-lhes a cabeça e todos entenderam.
A mancha se aproximava e finalmente chegou o momento em que o astronavegador gritou:
Alguma coisa está errada com a nossa rota. Estamos nos desviando!
Julian Tifflor reagiu pronta e instintivamente. Colocou o conjunto de propulsão em ponto morto e ficou olhando como os ponteiros dos mostradores pararam. A velocidade da Infant continuou a mesma. As turbinas pareciam continuar funcionando!
Isto não queria dizer nada, pelo menos nada a respeito da verdadeira velocidade da nave. O astronavegador tinha melhores valores, isto é, os oriundos dos desvios das paralaxes.
Diga alguma coisa mais exata, assim que você puder — ordenou Tifflor.
O astronavegador se inclinou sobre seus instrumentos. Trabalhava febrilmente. Tifflor continuou de olhos fixos na tela do rastreador e averiguou que a mancha esmaecida tinha parado. Fryberg notou seu olhar. Sabia qual a pergunta que então viria e respondeu com antecipação:
Distância: mil trezentos e vinte quilômetros, Sir.
Tifflor olhou para cima. A tela panorâmica ainda não mostrava nada de concreto do objeto. No entanto a uma distância tão pequena, já devia mostrá-lo bem nítido, caso tivesse as dimensões normais de uma espaçonave.
Já havia muito tempo que Tifflor não se sentia assim tão desesperado. Não lhe passava mais nenhuma idéia nova pela cabeça. Era um fenômeno estranho.
Uma coisa é certa — disse o astronavegador, de repente. — Nós nos movemos tal qual o objeto para dentro da garganta afunilada.
Tifflor ouviu com atenção e pensou: “Por isso é que o objeto parece parado. A Infant se move na mesma direção e com a mesma velocidade. Sem nenhuma manobra, manual ou automática, alterou seu rumo. Ao invés de se afastar da garganta afunilada, encaminha-se para ela... A explicação”, concluiu mentalmente, “só pode ser uma: o tal objeto a está arrastando como que rebocada. Deve irradiar um campo magnético de atração que dá para rebocar a Infant.
Julian Tifflor não tinha nada contra este tipo de “tratamento”, pelo menos por enquanto o trajeto fosse idêntico ao que ele planejara. Mas estava preocupado em saber que medidas o estranho objeto iria tomar para conseguir seus objetivos.
Usou o alarme chamado SA, usual em tais emergências. SA não queria dizer outra coisa, a não ser “súbita aceleração”. O alarme SA significava para a tripulação que, a partir deste momento até o final do alarme, tinham de estar prevenidos para os choques de aceleração, que, em certas condições, podiam ser tão violentos que mal poderiam ser absorvidos pelos dispositivos antigravitacionais, chegando às vezes a danificar tais dispositivos.
Após dar este alarme, Tifflor acionou novamente as turbinas de propulsão. Com a energia ampliada, de uma hora para a outra, a Infant lutava para se libertar do campo de atração que a arrastava. Num período de poucos segundos, elevou ao máximo a potência do mecanismo de propulsão. Via, pela oscilação dos ponteiros, como suas turbinas e o campo de atração magnética travavam uma luta renhida entre si. Viu também quando os ponteiros oscilaram mais forte e começaram a movimentar-se. A Infant livrava-se do campo de atração e agora continuava sua própria trajetória.
O astronavegador soltou um grito de triunfo. Com a voz rouca, disse uma seqüência de números que comprovavam que o golpe de surpresa dera bom resultado. O objeto não tivera tempo de reagir rapidamente à aceleração-relâmpago executada por Tifflor. Assim, a nave terrana escapara do campo de atração.
Tifflor não queria saber de outra coisa. Ordenou uma curva de cento e oitenta graus e colocou a Infant novamente no encalço do estranho objeto. Conduziu-a até ao local em que se encontraria, se não tivesse escapado do campo de atração, e depois se entregou de novo, espontaneamente, à mesma força.
Gostaria de saber agora a cara que o desconhecido estaria fazendo. Ele teria de compreender que a nave terrana escapara com seus próprios meios e, agora, voltava espontaneamente para se entregar como prisioneira.
Julian Tifflor, porém, duvidava de que o desconhecido fosse capaz de compreender seu gesto.

* * *

Duas coisas diferentes deixaram Tifflor pensativo, enquanto a nave terrana deslizava mansamente pela garganta afunilada, aproximando-se de seu ponto mais estreito.
Primeiro, o objeto desconhecido reagira muito lentamente à sua tentativa de fuga, portanto não era algo comandado por robôs, pois, do contrário, em milésimos de segundo, o robô teria reagido para se adaptar à nova situação de reforçar a potência do campo de atração. Não era, portanto, uma nave robotizada e por isso não seria também nenhuma nave arcônida.
Mesmo que se aceitasse a hipótese de haver um ser orgânico no comando do objeto estranho, a reação de tal indivíduo estaria classificada como extremamente lenta, como se estivesse muito distraído ou mesmo dormindo. Tifflor estava admirado que só agora, depois de passados quinze minutos, é que esta idéia lhe vinha à cabeça e não muito antes. Pois eram bons indícios sobre as qualidades de quem estava no comando do estranho objeto. Uma pessoa normal, nestas circunstâncias, não ficaria distraída ou dormindo, mas reagiria com grande atenção. Reações muito lentas podiam significar também a impossibilidade de tomar resoluções próprias e no momento.
Talvez pelo simples motivo de que seu tempo próprio fosse diferente do terrano. Uma coisa que um terrano faria em um segundo, ele precisaria de dois. Pois ele provinha de um outro Universo, de um outro plano temporal, e o fator através do qual seu tempo próprio se diferenciava do tempo do espaço de Einstein, era exatamente dois.
Isto, porém, era uma acepção que valia para todos os druufs.
Julian Tifflor, a esta altura, não tinha mais nenhuma dúvida de que este objeto desconhecido devia ser uma nave dos druufs. Apenas não sabia como é que a nave conseguia permanecer invisível a todos os instrumentos de rastreamento, com exceção do aparelho de microondas. Mas estava crente que também isto ele descobriria.
No momento”, refletiu ele, “o essencial é que a Infant está na rota certa.”

* * *

Reinava muita agitação sob o céu marrom de Druufon. Um gigantesco sol avermelhado e um outro esverdeado, menor mas de intensa luminosidade, brilhavam sobre um povo que olhava para o futuro com muita apreensão.
Ainda há alguns dias atrás — naturalmente dias do tempo de Druufon — os druufs acreditavam que lhes estava aberto o caminho fácil para um novo mundo, como que preparado para ser ocupado por eles. Penetraram num Universo diferente, através de uma brecha no espaço. Tudo aquilo que havia de inteligência orgânica caíra-lhes, sem dificuldade, nas mãos sedentas de conquistas.
Mas chegou o dia em que, ao invés de uma brecha, abrira-se um gigantesco rombo, e aí começou a fatalidade. Cada vez que os druufs tentavam atravessar o paredão para invadir o outro espaço, uma frota de naves desconhecidas se abatia sobre eles e os expulsava prontamente. Paravam prontamente. Paravam por algum tempo, mas logo depois voltavam à carga, sempre com o mesmo resultado. O inimigo, que espreitava do outro lado do paredão, era poderoso demais. E pior ainda, era muito mais rápido do que os druufs podiam imaginar.
Os druufs conheciam, naturalmente, o fenômeno. A velocidade muito superior do adversário não era outra coisa do que a conseqüência dos diferentes planos temporais. Caso os druufs não tivessem feito esforços ingentes para dominar este fenômeno, teriam sucumbido completamente. Pois, originariamente, seu tempo corria 72 mil vezes mais lento que o do inimigo. O tempo de que precisavam, por exemplo, para uma respiração, era suficiente para os adversários reunirem uma grande frota e destruírem todas as naves dos druufs, tão logo botassem o nariz para fora da zona de descarga.
Com grande esforço, conseguiram os druufs dominar o problema até um certo ponto. Seus cientistas criaram um campo temporal que lhes modificava o tempo próprio. Podiam então, conforme as condições, apressar ou retardar a passagem do tempo. Naturalmente, para eles, o mais importante era apressar. Chegaram até a proporção de dois para um. Mais não lhes era possível obter com o campo temporal. Tinham, pois, que deixar nas mãos dos adversários a vantagem de uma velocidade duas vezes maior.
Não se atreviam mais a penetrar no Universo estranho com grandes frotas. Não podiam mais se arriscar a grandes prejuízos. Enviavam naves avulsas, que, dependendo da experiência da tripulação, conseguiam furar o bloqueio do adversário e executar longos vôos de patrulha pelo outro espaço. Depois das grandes baixas sofridas com frotas numerosas, restringiam-se a estas saídas e estavam felizes pelo fato de o adversário ainda não haver feito “pesadas” incursões em seu Universo.
Mas parece que a situação estava mudando. A última nave que viera de fora falava de enorme aglomeração e movimentação de frotas em torno da zona de superposição. A frota de bloqueio adversária tinha sido reforçada. Tudo fazia supor um ataque iminente. Entre os druufs havia uns poucos otimistas, entusiasmados com os primeiros resultados da vanguarda de robôs, que acreditavam que este ataque redundaria em total fracasso. Entretanto, já pela simples comparação numérica, se podia ver a uma grande inferioridade dos druufs, acrescida da dura realidade de seu tempo próprio, duas vezes mais lento.
Não havia dúvida de que os druufs tinham de temer por sua própria sobrevivência.
Nos últimos momentos, porém, chegou inesperadamente à capital do planeta Druufon uma nova mensagem. Depois de examiná-la com cuidado e muita reserva, os técnicos chegaram à conclusão de que o que a última nave de patrulhamento havia conseguido em seu regresso era um ponto de apoio estratégico importante, para uma guinada definitiva à vitória.
Pois, em última análise, se tratava apenas de se obter um grupo de pessoas que estivesse em condições de reagir a um ataque inimigo com a mesma presteza que os adversários.
Este punhado de pessoas parecia estar agora à disposição dos druufs.
5



Era um Universo totalmente diferente. Podia-se percebê-lo pela cor do céu, onde o mar de estrelas refulgia num brilho insólito. Para Julian Tifflor, que realizara pela primeira vez na vida a transição do espaço de Einstein para o dos druufs, a visão era qualquer coisa de descomunal, para não dizer assustadora.
O espaço teria de ser preto, pois não era outra coisa a não ser o próprio vácuo que se plasmara numa determinada forma. Mas não era preto, era de um vermelho-escuro.
Brilhava incandescente, como se alguém ou alguma coisa o fizesse arder por fora.
Julian Tifflor dominou a perplexidade que causava nele e em todos os seus tripulantes, que aqui estavam pela primeira vez, o espetáculo daquele Universo singular, e começou a reparar no estranho aparelho. Não era mais a mancha esmaecida da tela do aparelho de microondas. Tinha se transformado num ponto luminoso que a ótica agora mostrava como uma estrela pequena, de coloração avermelhada, porém, bem diferente das estrelas reais.
Os druufs haviam acabado de retirar o véu de camuflagem.
A nave terrana não tomou nenhuma iniciativa. Os druufs tinham de saber que haviam sido descobertos pela Infant. Tinham arrastado o cruzador terrano; portanto, a eles cabia iniciar o diálogo.
O campo de sucção, ou melhor, de atração, ainda funcionava, mas a nave dos druufs estava em operação de frenagem e, uma hora depois de transpor a garganta afunilada, parou completamente. Os rastreadores da Infant assinalaram todos os dados referentes à velocidade, conjugados com o sistema dos dois sóis de Druufon.
Mais uma meia hora se passou sem novidade alguma. Tifflor tinha resolvido que chamaria a nave dos druufs, se dentro de dez minutos não se manifestassem. Não precisou, porém, esperar tanto. Dos dez minutos, havia passado apenas um, quando da escuridão avermelhada surgiu uma numerosa frota de unidades alongadas e cilíndricas, fechando um círculo estreito em torno da Infant. Tifflor havia dado severas instruções aos pontos de defesa para que não atirassem, a não ser em caso de extrema necessidade.
Pouco depois deste “abraço” pouco fraterno, o telecomunicador começou a funcionar. Tifflor ligou para a escuta, declarando em inglês que estava disposto a ouvir qualquer um que desejasse falar com ele. A tela do vídeo continuava apagada. Ou os druufs não davam nenhuma importância ao videofone ou seu transmissor não estava acoplado com a projeção da imagem.
Apreensivo, Tifflor via como o tempo passava, depois de ter declarado estar à disposição de quem quisesse falar. Enquanto isto, imaginava como lá do outro lado, a bordo de uma daquelas estranhas naves, agrupadas em volta deles, um druuf falava num aparelho, esperando depois que o referido aparelho traduzisse suas palavras para o inglês, diretamente no microfone que estava sobre a mesa. Tifflor ainda estava pensando se os druufs já sabiam se a nave por eles arrastada era arcônida ou não. Só pelo formato, não podiam deduzir com certeza. Com raríssimas exceções, todas as naves no espaço de Einstein eram esféricas. Seria, pois uma conclusão lógica se os druufs considerassem a nave atraída por eles como oriunda de Árcon. Mas parece que não estavam muito certos disso, do contrário não perderiam tanto tempo, depois de transpor a garganta afunilada.
Seus devaneios foram interrompidos. O receptor parou de chiar e uma voz, quase que de além-túmulo, disse:
Os senhores são uma nave terrana. Que desejam aqui?
Tifflor já estava com a resposta engatilhada:
Avisá-los de uma coisa importante — disse ele, depois de uma pequena pausa, para não confundir os druufs no seu lento sentido de tempo.
Qual é o aviso? — foi a contra pergunta.
Entrementes, Tifflor notou com surpresa que o instrumento de tradução que os druufs estavam usando funcionava com toda perfeição, pelo menos no tocante ao inglês. As frases eram fluentes e corretas. Somente a voz é que podia provocar calafrios ou visões de além-túmulo.
De um ataque maciço dos arcônidas — respondeu Tifflor. — Este ataque está iminente e eu acho que os senhores ficariam gratos se alguém os advertisse a respeito.
Desta vez, levou alguns minutos, até que os druufs respondessem. Mais uma vez, aquela voz fria e imóvel. Mas do contexto se percebia nitidamente a desconfiança:
Os senhores esperam um determinado tipo de gratidão?
Também para uma frase desta, Tifflor tinha a resposta conveniente.
Caso os senhores pensem que nós pretendemos ganhar dinheiro através da denúncia, não. Além disso, para que tanta desconfiança? Os senhores pretendem manter todo este diálogo através do intercomunicador?
Novamente uma grande pausa.
Venha o senhor, acompanhado de dois homens, todos desarmados, para bordo de nossa nave. Os senhores possuem uma nave auxiliar ou devo mandá-los buscar?
Tifflor não se conteve:
Primeiramente — começou um tanto brusco — irei assim como estou, ou não irei de maneira alguma. Ando sempre com minha arma na cintura. Ou os senhores vão supor que com uma simples pistola vou lhes tomar toda a frota espacial? Segundo, tenho minhas naves auxiliares. Também não se preocupem em me querer mostrar, entre as naves todas que me cercam, qual é a sua.
Parece que o druuf desistiu de fazer novas exigências.
Eu o espero. Sua nave auxiliar receberá um sinal para me encontrar.
Julian Tifflor interrompeu a ligação. Voltou-se para seus homens e disse:
Começa a ficar sério. Tschubai e Marshall preparem-se para ir comigo.

* * *

Comunicaram a Door-Trabzon que num setor do espaço, não muito distante da Wa-Kelan, que vagarosamente estava sobrevoando a zona de superposição, foram localizadas duas naves estranhas. Door-Trabzon sentia-se tremendamente confuso. Estas duas naves deviam pertencer ao mesmo povo, por voarem assim sempre juntas. Mas até agora Door-Trabzon não sabia de outra coisa a não ser que deveria encontrar, mais cedo ou mais tarde, uma nave dos terranos.
Quando os rastreadores lhe deram as dimensões exatas destas duas naves, sua confusão chegou ao clímax. Não eram em nada inferiores às poderosas unidades de Door-Trabzon. Eram verdadeiros gigantes do espaço com uma potência de fogo que poderia obscurecer, por algum tempo, um sol de grandeza média.
Um tanto precipitado, Door-Trabzon ordenou que os dois aparelhos estrangeiros fossem cercados e atacados. Para agir com maior segurança, colocou à disposição do ataque duzentos encouraçados. Mal, porém, iniciaram a perseguição, uma das duas naves entrou em contato com Door-Trabzon, afirmando que ali se achavam em missão de paz e, no tocante a seus planos, estavam de comum acordo com o regente de Árcon.
Isso esfriou o ânimo de Door-Trabzon. Cancelou suas ordens e deu instruções para que os duzentos encouraçados se mantivessem a uma distância maior, aguardando o desenrolar dos acontecimentos. E, logo em seguida, se dirigiu pessoalmente para o local, para ver de perto as coisas.
Mas antes que lá chegasse, recebeu uma mensagem sucinta de Árcon, dizendo que o comandante supremo da Terra tinha resolvido tomar parte pessoalmente na caça à nave desertora e que esta resolução de Perry Rhodan parecia muito plausível e mesmo desejável ao regente robotizado.
Esta notícia deixou Door-Trabzon boquiaberto. Primeiro, porque Perry Rhodan era um nome que já havia penetrado nas Galáxias já há muitos decênios e segundo, porque Door-Trabzon sabia das relações entre a Terra e Árcon, ou melhor, entre Perry Rhodan e o regente, para compreender como Rhodan podia andar livremente entre as unidades arcônidas da frota de reconhecimento e da frota de bloqueio.
Door-Trabzon sabia, porém, que os avisos de Árcon valiam por ordens. Tinha que se sujeitar incondicionalmente a eles. Sua opinião, porém, era de que Perry Rhodan não faria uma viagem tão longa só por causa de uma nave de desertores, se não houvesse atrás de tudo isto uma vantagem muito substancial. Mas sua opinião particular não valia nada, se não conseguisse convencer o regente da veracidade de seus argumentos.
Tentou fazer isto, mas o momento lhe era muito inoportuno.
O regente estava ocupado demais para atendê-lo.

* * *

Door-Trabzon não podia imaginar com o que o regente estava tão ocupado no momento.
O regente se recordou da suspeita externada pela teoria das combinações, quando se soube pela primeira vez da comunicação de Perry Rhodan sobre a nave desertora. Uma certa taxa de possibilidade, que de maneira alguma podia ser desprezada, falava que o negócio dos desertores era simplesmente um blefe. Até agora, porém, a teoria das combinações não podia se pronunciar sobre quais os objetivos deste blefe, isto é, se este seria de tal importância, podendo, a partir dele, ser montado um plano de grande envergadura. Neste sentido é que eram dadas as instruções do regente. Todos tinham de estar muito atentos, agora, para descobrir a rota das duas naves terranas. Tinham que se comunicar imediatamente com o regente, sobre qualquer manobra das duas naves de Perry Rhodan.
Entretanto, o regente esperava impaciente que os trabalhos com a teoria das combinações, devido às mais recentes informações, pudessem adiantar maiores possibilidades, a fim de que houvesse tempo suficiente para formular um plano de emergência.
É claro que o regente não ignorava que a Terra sobreviveria ou desapareceria com Perry Rhodan, isto é, o destino de Perry Rhodan se identificava com o da Terra. Ainda há poucos meses, quase que Rhodan caiu prisioneiro em suas mãos. Aqui estava uma segunda oportunidade. Talvez com esta viagem, estaria selado o fim da carreira gloriosa de Rhodan.
O regente era um robô. Como tal só podia agir segundo o princípio da maior vantagem. Assim, não conhecia a palavra escrúpulo.

* * *

Por sua vez, Perry Rhodan seria um louco ou bobo se não soubesse de tudo isto. Os dois gigantes do espaço, Drusus e Kublai Khan estavam de prontidão permanente. Em qualquer fase dos acontecimentos, sua velocidade era suficiente para uma transição imediata. Uma grande quantidade de postos de rastreamento controlava os movimentos das naves arcônidas e dariam logo o alarme, assim que se aglomerassem ou se aproximassem demais, pondo em risco a garantia da Drusus ou da Kublai Khan.
Mas não era ainda este o caso. Rhodan calculara bem: o regente não tomaria nenhuma iniciativa, enquanto não soubesse o que os terranos pretendiam.
Quando soubesse, haveria de atacar, com a rapidez de um raio e com muita ganância. Isto é, um ataque-relâmpago, feito por milhares de naves e de tal forma que os envoltórios de proteção dos dois gigantes terranos seriam ultrapassados e, sob a violência do fogo concentrado, tais gigantes seriam destruídos.
Perry Rhodan sabia que sua vida não valeria um vintém, se fosse confiar nas promessas do regente. Falavam de união para a cooperação, de boa vontade, etc. Mas, melhor do que ninguém, Rhodan sabia que se podia programar um grande computador para uma mentira perfeita.
A presença das duas espaçonaves terranas tinha dupla finalidade. Primeiro, era dar assistência a Julian Tifflor e à Infant, tão logo eles precisassem. Segundo, era necessário manter ligação com a base Hades, situada no Universo dos druufs. Ninguém podia prever os acontecimentos que se desencadeariam com a penetração da Infant no espaço dos druufs. De um momento para o outro, podia surgir um ambiente que forçasse Hades a intervir nos acontecimentos. E já que Hades quase não tinha possibilidade de informar sobre a situação, a Drusus e a Kublai Khan ficariam de prontidão.
Rhodan estava consciente dos riscos que assumia neste empreendimento. Estava certo de não se ter descuidado de nada.
Mas não sabia que chegaria o momento em que todas as precauções se tornariam inúteis...

* * *

Já o tinham avisado de que o druuf era como um personagem de pesadelos. Mas, apesar de tudo, quando um deles lhe apareceu diante dos olhos, teve que fazer força para disfarçar o choque.
Aquele que estava ali na sua frente devia ter mais de três metros de altura!
Mas logo lembrou-se do tamanho das construções desses seres, e sentiu-se menos chocado.
O druuf estava de pé, sobre suas pernas-colunas. Somente elas já passavam da cabeça de Tifflor. As pernas sustentavam um corpo quase cúbico, em cima do qual achava-se uma cabeça redonda, um pouco maior que uma bola oficial de futebol. A cabeça, completamente sem cabelo, tinha quatro cavidades oculares e uma boca triangular. No restante do corpo também não havia pêlo. Da forma cúbica do tronco, pendiam dois longos braços, que, como Tifflor sabia, terminavam em dedos muito finos. Não se podia notar agora a tal finura dos dedos, devido à luva do uniforme espacial.
Como Tifflor já esperava, o oficial druuf trazia o pequeno transdutor idiomático. Parecia que já tinha gravado alguma coisa, pois quando os terranos entraram, ainda ouviram um ruído qualquer, depois o aparelho falou:
Estou sozinho, mas pode perder as esperanças, pois meus homens estão a postos.
Tifflor fingiu não ter ouvido esta advertência. Precisava de algum tempo para contemplar o druuf e reprimir o choque inicial. Fez depois um aceno com a mão e respondeu à altura:
Não tenha receio. Não viemos para cá com a finalidade de prejudicá-los.
Olhou em volta. O aspecto do ambiente dava uma impressão estranha, quase grotesca, para os parâmetros terranos. Bem no meio do recinto havia uma construção, do tamanho aproximado de uma pequena casa de campo, que devia ser o posto de comando, devido aos dispositivos de alavancas, interruptores e medidores. As alavancas eram mais compridas que uma barra de ginástica. A maior parte dos aparelhos, do ponto-de-vista dos terranos, só poderia ser manobrada com as duas mãos.
Ao longo de toda a parede, corria uma enorme tela panorâmica, mostrando o fundo vermelho-escuro do espaço, com uma infinidade de estrelas. Dos muitos instrumentos que se viam abaixo da tela panorâmica, Tifflor não conseguiu identificar nenhum. A tecnologia dos druufs era muito diferente da dos terranos.
No posto de comando não havia nenhuma poltrona. Para os druufs, com um peso médio de quatrocentos quilos, só mesmo um grande esgotamento podia levá-los a procurar uma cadeira para sentar. E, geralmente, quando se sentavam para descansar, o esforço para se levantar era tão grande, que ficavam mais cansados ainda. A gravitação em Druufon era de 1,95 do normal, portanto, quase o dobro da gravitação terrana.
Provavelmente, dentro das naves dos druufs, a gravitação era a mesma do planeta. No entanto os terranos nada sentiram, isto porque usavam uniformes com absorvedores automáticos antigravitacionais, que lhes garantiam a mesma gravitação habitual da Terra, onde quer que estivessem.
O senhor possui, portanto, informações de que os arcônidas, como os senhores os chamam, pretendem nos atacar.
Julian Tifflor olhou para o druuf. Era difícil saber em que direção ele estava olhando. Os druufs eram descendentes de insetos. Seu campo de visão era dividido em centenas de pequenas facetas. Isto deixava Tifflor um tanto constrangido.
Sim — foi sua resposta seca.
Qual é sua fonte de informações?
As palavras que o druuf pronunciava no transdutor não podiam ser ouvidas pelos terranos. Os órgãos fonadores dos druufs produziam ruídos em ultra-som. A língua dos druufs era uma confusão de fonemas em ultra-som de alta freqüência.
Participei de algumas conversações que se realizaram por meio de intercomunicação, entre a Terra e Árcon — explicou Tifflor.
Qual foi o assunto tratado nestas conversações?
Tifflor não podia saber o quanto os druufs entenderiam da mímica dos terranos. Mas de qualquer maneira, tentou dar a impressão de estar impaciente e aborrecido.
Preste atenção — disse ao druuf. — O perigo é iminente. O ataque dos arcônidas virá de repente, e o senhor fica aí fazendo perguntas supérfluas como se ainda dispusesse de meio ano para estudar o assunto. O senhor tem credenciais para receber minhas informações? Desejo que me leve para seu país, para que lá eu possa expor a seu governo o que me traz até aqui.
Não se podia perceber se o druuf estava ou não impressionado. Mas Tifflor respirou mais tranqüilo. Tinha acabado de executar a parte mais importante de sua incumbência. E estava certo de tê-la feito com perfeição. Nenhum psicólogo da Terra teria percebido que todo aquele seu rompante de cólera era fruto de um frio raciocínio, bem calculado, cuja finalidade era apenas convencer o druuf de que sua fuga da Terra tinha realmente algo que interessasse aos objetivos de Druufon.
Após curta hesitação, veio a resposta do druuf:
Como posso saber se você não é de fato um falso amigo?
Tifflor estava exultante de alegria. A resistência estava quebrada.
Ele teria de entrar em contato com Ernst Ellert, que era um cientista de Druufon, e por intermédio dele fazer chegar sua mensagem ao governo de Druufon. Só aí sua missão poderia ter sucesso, isto é, conseguir convencer as altas autoridades do perigo iminente dos arcônidas, iniciando imediatamente um contragolpe fulminante.
Isto o senhor não conseguirá saber — respondeu Tifflor, evasivo. — Mas o senhor pode se informar a respeito. Além disso, devo lhe dizer que esperava mais consideração por sua parte. Expus-me a uma série de perigos para vir preveni-los da iminência do ataque arcônida.
Parece que isto interessou muito ao druuf.
Perigos? O senhor não teve escolta de proteção?
Santo Deus”, pensou Tifflor, “será que o homem que nos arrastou para cá não observou o que aconteceu?
Claro que não tínhamos nenhuma escolta. Saímos da Terra como fugitivos, como desertores, se é que o senhor vai compreender isto.
O senhor fugiu? Por quê?
Porque de outra maneira não podíamos preveni-los do perigo. A Terra está em negociações com Árcon, não que ela vá auxiliar os arcônidas, mas espera deles apenas um armistício. É claro que estaria fora da linha de conduta da Terra avisá-los do ataque iminente de Árcon. O senhor compreende isto?
Não muito. Dizem que na sua terra há liberdade de expressão. Cada um pode manifestar seu pensamento. Por que então os senhores não poderiam ter também uma opinião diferente de seu governo?
Pela primeira vez Tifflor teve a impressão de que o druuf estava querendo brincar de gato e rato.
Julian Tifflor olhou para John Marshall, que era telepata. Mas Marshall lamentou nada poder fazer.
Sou oficial da Frota Terrana — respondeu Tifflor, medindo bem as palavras. — Somente a frota dispõe de espaçonaves com que se pode penetrar no Universo. Mas todo elemento da frota depende das ordens do comandante. E estas ordens dizem claramente que todas as negociações entre a Terra e Árcon sobre o ataque iminente são extremamente sigilosas. Quem obedece às ordens, não pode, pois alertá-los do perigo, e quem não obedece será julgado e condenado. Nós tivemos que seqüestrar uma espaçonave e, aproveitando uma noite de muita neblina, fugimos. Assim estão as coisas para nós. E agora, vem o senhor e nos trata como bandidos ou assaltantes de rua. Quero ser levado para Druufon para falar com as autoridades responsáveis e não perder tempo aqui no espaço com um simples capitão.
Esta última frase foi dita de propósito para fazer o druuf perder a calma, obrigando-o a “destampar” seus pensamentos mais secretos. Mas isto só daria resultado se os druufs fossem tão vaidosos como os homens.
E certamente não o eram. O druuf continuou completamente calmo e descontraído:
Sou pessoa mais importante do que o senhor pensa e, dentro em pouco, o senhor se convencerá disso.
Julian Tifflor ouviu uma série de ruídos diferentes. Olhou em torno e percebeu que as portas da sala de comando se abriam. Entravam mais druufs, verdadeiros gigantes de pele parda, ao todo quinze. Fecharam um círculo em volta dos três terranos.
Tifflor pressentiu que algo não estava saindo certo, mas não sabia o que era.
Os quinze druufs não davam impressão de hostilidade. Estavam ali e ninguém podia saber em que direção estavam olhando.
Responda-me ainda, por favor, só mais uma pergunta — disse o comandante.
Tifflor observou que estava usando pela primeira vez a palavra “por favor”.
Por que razão o senhor fez tanto sacrifício para nos alertar do perigo do ataque arcônida? Por pura amizade?
Tifflor comprimiu os olhos. Esta pergunta tinha que vir, e ele não se atrapalhou:
Não! — disse numa excitação simulada. — É porque odeio os arcônidas.
Houve algum movimento, de repente, entre os druufs em volta. Cabeças se levantaram e os olhos facetados brilharam. Tifflor tinha certeza de estarem confabulando entre si. Seus sons, porém, não penetravam nos ouvidos humanos.
Somente depois de alguns instantes foi que o comandante se virou para Tifflor. Do transdutor idiomático veio a voz mecânica:
Somos de opinião de que o senhor está falando a verdade. Tínhamos também quase a certeza de que sabíamos do ataque, mesmo antes de sua chegada aqui. Todos os preparativos já foram tomados para nos defendermos do ataque arcônida. O senhor não precisa mais convencer nossas autoridades, já estão convencidas.
Em vista disso, não lhe será mais necessário o penoso caminho para nossa pátria. Nós lhe somos muito gratos e estamos certos de que os senhores nos vão auxiliar. Por isso lhe fazemos um pedido: fique aqui conosco e assuma o comando de uma parte da frota. O senhor está a par de nossa inferioridade em relação aos arcônidas, no tocante à presteza de reação e, conseqüentemente, no que diz respeito à velocidade de nossas naves. Fique conosco e nos ajude, para que pelo menos uma parte da frota reaja com presteza às manobras dos arcônidas e possa ter mais sucesso. É o que lhe pedimos.”
Tifflor sabia agora que todo seu plano estava se diluindo. E não havia como escapar. Causaria enorme suspeita se recusasse o pedido. Além disso, o pedido era justo e ele deveria ter pensado nisto, antes que os druufs chegassem a esta idéia. Não podia voltar atrás, tinha que dizer sim. Uma recusa não iria adiantar nada para os objetivos do plano. Os druufs teriam razão para suspeitar e o haveriam de levar à força para Druufon.
Estaria então tudo perdido. Sem a participação de Ernst Ellert não haveria sucesso, nem mesmo parcial.
Tifflor fez um grande esforço para esconder seu desânimo.
Naturalmente e com todo prazer, haveremos de ajudá-los a derrotar os arcônidas — disse num grande esforço para simular sinceridade.
6



O plano era deixar os druufs desesperados.
Não havia dúvida alguma de que Ernst Ellert, isto é, o cientista druuf Onot, conseguiria tal ação com o auxílio dos supostos desertores. Os druufs deveriam ser induzidos a realizar uma incursão no espaço de Einstein: uma coisa naturalmente com que os arcônidas não contavam. Os terranos haveriam de instruí-los como prejudicar os interesses dos arcônidas, por exemplo, atacando separadamente suas bases mais afastadas e destruindo seus pontos de grande comércio.
É claro que os arcônidas pagariam na mesma moeda, mas também isto estava dentro dos planos, pois toda a estratégia das idéias terranas tinha a intenção de fazer druufs e arcônidas se digladiarem alucinadamente, causando mutuamente pesados danos. Assim, a Terra, fora da briga, seria realmente a vencedora, a maior beneficiária.
Mas este plano já estava caducando!
Os arcônidas, naturalmente, não pensavam em atacar os druufs no Universo que era seu habitat. Pelo menos não em futuro próximo. Toda a movimentação da enorme frota arcônida, que tanto tinha impressionado os druufs, possuía como único fim, para o regente robotizado, prender a espaçonave terrana, tripulada pelos “desertores”.
Assim sendo, não se chegaria a nenhum combate, a não ser de um ou outro posto avançado. O enfraquecimento substancial do poderio arcônida e das forças dos druufs, realmente não se daria, pois, sem os documentos falsificados, que o cientista Onot forneceria ao governo de Druufon, apontando o calcanhar de Aquiles do Império Arcônida, os druufs jamais teriam coragem de sair para o espaço de Einstein e atacar seu grande adversário. Conheciam de sobra suas limitações e não duvidavam de sua inferioridade.
Julian Tifflor estava, pois, de mãos atadas. Poderia tentar fazer com que os comandantes druufs fizessem uma ou outra investida contra os arcônidas e os pegassem de surpresa. Mas mesmo nestes casos avulsos, os comandantes não podiam agir sem instruções do governo.
A aprovação dos projetos de Tifflor era uma coisa que levava muito tempo, e exatamente tempo era a mercadoria que não sobrava para a Terra...
Dentro de poucos meses estaria fechada a brecha na região de superposição. Não haveria então mais ligação entre os dois Universos e nenhuma possibilidade para que os dois adversários se desgastassem em ataques mútuos.
Visivelmente abatido, Julian Tifflor se preparava para sua nova função de comandante de uma frota dos druufs. Estava certo de que nesta nova posição não poderia fazer nada. Não conseguiria tramar nenhum combate de vulto. Os druufs ficariam de um lado e os arcônidas de outro, e até que a brecha na zona de superposição se fechasse, o máximo que podia ocorrer eram simples escaramuças, sem maiores conseqüências.
Mas a linha básica do plano era a destruição de quarenta ou cinqüenta mil naves!

* * *

Gucky, o rato-castor, deu uma olhada para dentro da sala de comando, através do gradil dos aparelhos de transmissão. Depois fechou os olhos e comprimiu o botão que já estava há tempo sob a sua pata. Não sentiu nada. Mas quando abriu de novo os olhos, estava num recinto de grandes blocos de pedra, onde havia uma série de aparelhos, iguais àquele onde ele se encontrava, há pouco, a bordo da Drusus.
Viu alguns homens de pé diante da grade do transmissor. Mas não se demorou com eles.
Queria “ouvir”. Concentrou-se em seus sensores telepáticos, tentando captar os sinais que o homem irradiava.
E conseguiu captá-los. Era um zunido muito baixo, mas nítido. Vinham dos fundos do recinto, e Gucky não teve dificuldade em perceber, por estes sinais, que o homem que os irradiava ainda gozava de saúde perfeita. O sinalizador que ele trazia no próprio corpo era um aparelho semi-orgânico, cujo funcionamento dependia totalmente da capacidade física de seu portador.
Gucky sentiu-se feliz. Julian Tifflor encontrava-se nas imediações, pelos cálculos de Gucky, a alguns bilhões de quilômetros, e o sinalizador telepático, que Tifflor carregava como uma espécie de radiofarol parapsicológico, funcionava com a capacidade normal.
Neste meio tempo, os homens lá fora abriram a porta do transmissor. Gucky saiu equilibrando elegantemente sua volumosa cauda, para a qual havia um abrigo especial no seu uniforme espacial. É claro que os homens começaram a rir. Gucky percebeu e respondeu com um olhar de indiferença.
Estava, há muito, acostumado com o fato de os homens o acharem engraçado e rirem de sua aparência. Era uma mistura de rato com castor, que, por um descuido da natureza, crescera demais. É verdade que os homens tinham uma infinidade de lendas nas quais apareciam animais inteligentes que falavam e agiam racionalmente. Mas, quando davam de cara com um rato-castor que falava e pensava igual ou melhor do que eles, não sabiam o que fazer de estupefação, a não ser... rir.
Gucky sentou-se sobre as patas traseiras, apoiando-se com a longa e volumosa cauda. Fez um grande esforço para emprestar ao seu focinho de rato, com olhos arregalados, um ar de grave seriedade e explicou com sua voz chiada:
Deram-me a incumbência de entrar imediatamente em contato com o Capitão Rous. Peço comunicar isto ao capitão.
Os homens começaram a rir, mas antes que Gucky pudesse responder, à sua maneira, a esta risada, os homens pararam de repente. O Capitão Rous vinha atravessando o corredor dos transmissores.
Já estou informado — disse ele. — Nossos transmissores captam muito raramente sinais verdes. Deve ter acontecido algo de estranho lá fora, não é?
O capitão sabia como Gucky gostava de ser tratado como ser humano e lhe estendeu a mão para cumprimentá-lo. O rato-castor correspondeu à saudação com um gesto quase gracioso.
Se há alguma coisa por lá? — repetiu com gravidade. — Há, e muito. O Coronel Tifflor e mais quatorze homens penetraram no Universo dos druufs com um velho couraçado. Deve estar falando aos druufs do ataque iminente dos arcônidas.
Dizendo isto, piscou um olho, como havia aprendido com os homens. O Capitão Rous não pôde deixar de rir.
Não estou compreendendo bem o conjunto das coisas. Mas você me haverá de explicar tudo, não é verdade?
Naturalmente — confirmou Gucky. — Assim que receber alguma coisa para comer.
Marcel Rous contraiu o semblante:
Que pena — disse com voz sincera — não temos cenoura.

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