Fryberg
fez algumas experiências. Decifrou algumas das mensagens dos
arcônidas e achou que giravam em torno de coisas sem importância,
instruções que eram dadas de uma nave a outra para fins de
orientação e assuntos particulares.
Tudo
indicava que a Infant não tinha sido localizada. E parecia que
ninguém suspeitava da autoria da destruição da nave avariada. Com
novo ânimo, Tifflor voltou para seu trabalho. O destino parecia ter
abrandado sua severidade para com os terranos. Preparava-se para
prosseguir a viagem com a Infant, quando o sargento Fryberg se
apresentou:
— Há
alguma coisa perto de nós — disse ele desconfiado e com voz
trêmula. — Não consigo, porém, descobrir o que é.
— Sintonize
bem — ordenou Tifflor alarmado — e ligue para cá.
Logo
apareceu na tela do intercomunicador de Tifflor a imagem do
rastreador de Fryberg. Nos primeiros instantes, além do verde-escuro
da tela vazia, Tifflor não conseguiu ver nada.
— Do
lado direito, em cima, Sir — explicava o sargento. — Uma mancha
fraca, bem esmaecida.
Tifflor
apagou a lâmpada de sua escrivaninha e olhou de novo. Conseguiu ver
no canto superior direito o que Fryberg apontava. Não era
propriamente uma mancha, mal se aproximava de um halo pouco
perceptível, como se fosse um vidro embaciado de uma tela.
— Que
dizem os outros instrumentos? — perguntou ele.
— Nada,
senhor. O rastreador de matéria não diz nada, mas talvez seja
porque o objeto esteja longe demais. O espaço aqui em volta está
isento de resíduos de combustíveis. Somente as microondas é que
registram o fenômeno.
Tifflor
constatou que o objeto se movia e vinha na direção da Infant.
Segundo o rastreador, não estava a mais de dez mil quilômetros.
Ali, tão perto da zona de superposição, onde a luz das estrelas
penetrava apenas num diminuto ângulo, não se podia esperar que este
objeto fosse visto na tela a não ser quando já estivesse a poucos
quilômetros de distância.
O
comandante Tifflor quebrava a cabeça para descobrir alguma coisa.
Pensava numa nuvem de poeira cósmica, mas com seu tamanho restrito,
tinha que ser de uma densidade improvável para refletir, em
microondas, a mais de dez mil quilômetros, um halo reconhecível na
tela.
Tifflor se
negava a aceitar a hipótese de uma espaçonave. Não havia nenhum
sistema de proteção capaz de esconder uma espaçonave dos aparelhos
de rastreamento em distância tão reduzida. Se houvesse tal sistema,
então uma frota de espaçonaves que dispusesse dessa proteção
estaria de antemão infinitamente superior a seu adversário. Tifflor
reconheceu que tinha abandonado o caminho impessoal da lógica.
Assustou-se, de repente. O que lhe passava pela cabeça era tão
aterrador que não conseguia conservar-se calmo. Tinha de saber o que
estava acontecendo.
Ordenou
que os homens ficassem de prontidão nos pontos de defesa. Disse-lhes
que Fryberg tinha percebido um objeto estranho e a Infant haveria de
examiná-lo agora. Não havia perigo por enquanto, mas deviam estar
de olhos abertos.
Sabia que
tinha abandonado o caminho rigorosamente traçado, com todas as
prescrições e instruções. O que estava fazendo agora, inclusive,
podia ajudar os arcônidas a descobri-lo e assim fazer com que todo o
plano fracassasse.
Apesar de
tudo, tinha que averiguar os fatos e não lhe restava outra opção.
Os homens que lhe traçaram o plano e lhe deram as instruções não
contavam naturalmente com um incidente como este.
Com as
turbinas em ritmo reduzido, a Infant começou a descrever uma curva.
Tomando-se como ponto de referência a garganta afunilada, o estranho
objeto se encontrava agora atrás da nave terrana. A Infant descreveu
um ângulo de cento e sessenta graus e quando iniciou seu movimento,
bem reduzido no começo, para não ser percebida, fê-lo na direção
da frota de bloqueio dos arcônidas, ao invés de se afastar dela,
como era seu dever.
Tifflor
ainda estava preocupado com o halo da tela. Podia ser um truque dos
arcônidas. Então tentou imaginar o que um estrategista arcônida
pretendia com isto, que efeito esperava, quando nas imediações de
uma garganta afunilada, aparecia um objeto misterioso, que mal podia
ser visto pelos instrumentos da nave terrana.
Caso
houvesse qualquer espécie de efeito psicológico atrás de tudo
isto, estava muito acima da percepção de Tifflor.
Com
pequena aceleração, a Infant se encaminhou para a mancha esmaecida
da tela, que continuava seu movimento no mesmo sentido de antes. A
rota da Infant foi calculada para um encontro com o estranho objeto
dentro de trinta minutos.
Os homens
na sala de comando esquentavam a cabeça, imaginando o que iria
acontecer dentro em breve. Um silêncio pesado cobria todos os
semblantes. O leve ruído das turbinas, que ninguém mais estranhava,
era a única coisa que quebrava a monotonia.
Na tela de
rastreamento do sargento Fryberg, a mancha esmaecida se aproximava do
centro. Fryberg olhava fixo para ela e sua boca estava seca, como a
de um caminhante no deserto. Se o objeto misterioso fosse realmente
uma espaçonave, haveria de esperar calmamente até que a Infant se
aproximasse, para depois reduzir a pedaços seu envoltório
energético com uma salva de tiros bem certeiros.
“Não
teremos tempo nem de piscar o olho”,
pensava Fryberg.
Levantou a
cabeça para olhar melhor a tela panorâmica, cada vez mais
preocupado. A imagem ainda era a mesma. De um lado, o setor de um
vermelho-escuro da zona de superposição; do outro, o emaranhado
fulgurante das estrelas. Não se via em nenhum ponto um brilho
diferente. Em nenhum lugar se podia perceber o brilho fosco das
paredes de uma cosmonave.
“Talvez
não seja nenhuma nave”,
pensava Fryberg. “Tomara
que não seja mesmo. Gostaria de ficar livre de um encontro com uma
nave que se pode tornar tão invisível como um pedaço de carvão em
plena escuridão!”
Percebeu
que seus nervos estavam para explodir. Encostou-se na poltrona e
respirou profundamente. O ar do assobio passava por entre os dentes,
fazendo um ruído de panela de pressão.
“Coragem,
homem”,
pensava Fryberg. “Não
é nenhuma espaçonave. Move-se em órbita, como um corpo inerte. Não
há nenhum indício de que seja tripulado ou dirigido por alguém. É
um meteorito de fibra de vidro ou algo semelhante.”
De
repente, um grito quase fez estremecer toda sala de comando:
— Ele se
move! Vem direto em nossa direção! — gritou Fryberg,
completamente fora de si.
*
* *
Tornava-se
uma sensação horrível ver o objeto vir a seu encontro e não saber
o que era.
Primeiramente,
era uma mancha esmaecida na tela e a ótica não mostrava outra
coisa, no local onde tinha que estar, a não ser sempre a mesma
imagem.
A
distância diminuía depressa. Fosse o que fosse a tal mancha
esmaecida, devia ter um bom mecanismo de propulsão.
Julian
Tifflor teve de sufocar o desejo de fazer uma curva com a Infant e
fugir o mais depressa possível. Quando determinou a rota de encontro
ao objeto, já devia prever uma espaçonave estrangeira. Agora que
não lhe restava mais dúvidas, seria um ato inconseqüente tentar
uma fuga e inconseqüente era uma palavra que não existia no
vocabulário de Tifflor.
Também
não deu aos homens das vigias nenhuma ordem de atirar, embora
estivessem esperando por isto, sentados nos seus abrigos, tentando
ocultar o medo e o nervosismo.
Tifflor
compreendeu o que eles queriam. Balançou-lhes a cabeça e todos
entenderam.
A mancha
se aproximava e finalmente chegou o momento em que o astronavegador
gritou:
— Alguma
coisa está errada com a nossa rota. Estamos nos desviando!
Julian
Tifflor reagiu pronta e instintivamente. Colocou o conjunto de
propulsão em ponto morto e ficou olhando como os ponteiros dos
mostradores pararam. A velocidade da Infant continuou a mesma. As
turbinas pareciam continuar funcionando!
Isto não
queria dizer nada, pelo menos nada a respeito da verdadeira
velocidade da nave. O astronavegador tinha melhores valores, isto é,
os oriundos dos desvios das paralaxes.
— Diga
alguma coisa mais exata, assim que você puder — ordenou Tifflor.
O
astronavegador se inclinou sobre seus instrumentos. Trabalhava
febrilmente. Tifflor continuou de olhos fixos na tela do rastreador e
averiguou que a mancha esmaecida tinha parado. Fryberg notou seu
olhar. Sabia qual a pergunta que então viria e respondeu com
antecipação:
— Distância:
mil trezentos e vinte quilômetros, Sir.
Tifflor
olhou para cima. A tela panorâmica ainda não mostrava nada de
concreto do objeto. No entanto a uma distância tão pequena, já
devia mostrá-lo bem nítido, caso tivesse as dimensões normais de
uma espaçonave.
Já havia
muito tempo que Tifflor não se sentia assim tão desesperado. Não
lhe passava mais nenhuma idéia nova pela cabeça. Era um fenômeno
estranho.
— Uma
coisa é certa — disse o astronavegador, de repente. — Nós nos
movemos tal qual o objeto para dentro da garganta afunilada.
Tifflor
ouviu com atenção e pensou: “Por
isso é que o objeto parece parado. A Infant se move na mesma direção
e com a mesma velocidade. Sem nenhuma manobra, manual ou automática,
alterou seu rumo. Ao invés de se afastar da garganta afunilada,
encaminha-se para ela... A explicação”,
concluiu mentalmente, “só
pode ser uma: o tal objeto a está arrastando como que rebocada. Deve
irradiar um campo magnético de atração que dá para rebocar a
Infant.”
Julian
Tifflor não tinha nada contra este tipo de “tratamento”,
pelo menos por enquanto o trajeto fosse idêntico ao que ele
planejara. Mas estava preocupado em saber que medidas o estranho
objeto iria tomar para conseguir seus objetivos.
Usou o
alarme chamado SA, usual em tais emergências. SA não queria dizer
outra coisa, a não ser “súbita
aceleração”.
O alarme SA significava para a tripulação que, a partir deste
momento até o final do alarme, tinham de estar prevenidos para os
choques de aceleração, que, em certas condições, podiam ser tão
violentos que mal poderiam ser absorvidos pelos dispositivos
antigravitacionais, chegando às vezes a danificar tais dispositivos.
Após dar
este alarme, Tifflor acionou novamente as turbinas de propulsão. Com
a energia ampliada, de uma hora para a outra, a Infant lutava para se
libertar do campo de atração que a arrastava. Num período de
poucos segundos, elevou ao máximo a potência do mecanismo de
propulsão. Via, pela oscilação dos ponteiros, como suas turbinas e
o campo de atração magnética travavam uma luta renhida entre si.
Viu também quando os ponteiros oscilaram mais forte e começaram a
movimentar-se. A Infant livrava-se do campo de atração e agora
continuava sua própria trajetória.
O
astronavegador soltou um grito de triunfo. Com a voz rouca, disse uma
seqüência de números que comprovavam que o golpe de surpresa dera
bom resultado. O objeto não tivera tempo de reagir rapidamente à
aceleração-relâmpago executada por Tifflor. Assim, a nave terrana
escapara do campo de atração.
Tifflor
não queria saber de outra coisa. Ordenou uma curva de cento e
oitenta graus e colocou a Infant novamente no encalço do estranho
objeto. Conduziu-a até ao local em que se encontraria, se não
tivesse escapado do campo de atração, e depois se entregou de novo,
espontaneamente, à mesma força.
Gostaria
de saber agora a cara que o desconhecido estaria fazendo. Ele teria
de compreender que a nave terrana escapara com seus próprios meios
e, agora, voltava espontaneamente para se entregar como prisioneira.
Julian
Tifflor, porém, duvidava de que o desconhecido fosse capaz de
compreender seu gesto.
*
* *
Duas
coisas diferentes deixaram Tifflor pensativo, enquanto a nave terrana
deslizava mansamente pela garganta afunilada, aproximando-se de seu
ponto mais estreito.
Primeiro,
o objeto desconhecido reagira muito lentamente à sua tentativa de
fuga, portanto não era algo comandado por robôs, pois, do
contrário, em milésimos de segundo, o robô teria reagido para se
adaptar à nova situação de reforçar a potência do campo de
atração. Não era, portanto, uma nave robotizada e por isso não
seria também nenhuma nave arcônida.
Mesmo que
se aceitasse a hipótese de haver um ser orgânico no comando do
objeto estranho, a reação de tal indivíduo estaria classificada
como extremamente lenta, como se estivesse muito distraído ou mesmo
dormindo. Tifflor estava admirado que só agora, depois de passados
quinze minutos, é que esta idéia lhe vinha à cabeça e não muito
antes. Pois eram bons indícios sobre as qualidades de quem estava no
comando do estranho objeto. Uma pessoa normal, nestas circunstâncias,
não ficaria distraída ou dormindo, mas reagiria com grande atenção.
Reações muito lentas podiam significar também a impossibilidade de
tomar resoluções próprias e no momento.
Talvez
pelo simples motivo de que seu tempo próprio fosse diferente do
terrano. Uma coisa que um terrano faria em um segundo, ele precisaria
de dois. Pois ele provinha de um outro Universo, de um outro plano
temporal, e o fator através do qual seu tempo próprio se
diferenciava do tempo do espaço de Einstein, era exatamente dois.
Isto,
porém, era uma acepção que valia para todos os druufs.
Julian
Tifflor, a esta altura, não tinha mais nenhuma dúvida de que este
objeto desconhecido devia ser uma nave dos druufs. Apenas não sabia
como é que a nave conseguia permanecer invisível a todos os
instrumentos de rastreamento, com exceção do aparelho de
microondas. Mas estava crente que também isto ele descobriria.
“No
momento”,
refletiu ele, “o
essencial é que a Infant está na rota certa.”
*
* *
Reinava
muita agitação sob o céu marrom de Druufon. Um gigantesco sol
avermelhado e um outro esverdeado, menor mas de intensa luminosidade,
brilhavam sobre um povo que olhava para o futuro com muita apreensão.
Ainda há
alguns dias atrás — naturalmente dias do tempo de Druufon — os
druufs acreditavam que lhes estava aberto o caminho fácil para um
novo mundo, como que preparado para ser ocupado por eles. Penetraram
num Universo diferente, através de uma brecha no espaço. Tudo
aquilo que havia de inteligência orgânica caíra-lhes, sem
dificuldade, nas mãos sedentas de conquistas.
Mas chegou
o dia em que, ao invés de uma brecha, abrira-se um gigantesco rombo,
e aí começou a fatalidade. Cada vez que os druufs tentavam
atravessar o paredão para invadir o outro espaço, uma frota de
naves desconhecidas se abatia sobre eles e os expulsava prontamente.
Paravam prontamente. Paravam por algum tempo, mas logo depois
voltavam à carga, sempre com o mesmo resultado. O inimigo, que
espreitava do outro lado do paredão, era poderoso demais. E pior
ainda, era muito mais rápido do que os druufs podiam imaginar.
Os druufs
conheciam, naturalmente, o fenômeno. A velocidade muito superior do
adversário não era outra coisa do que a conseqüência dos
diferentes planos temporais. Caso os druufs não tivessem feito
esforços ingentes para dominar este fenômeno, teriam sucumbido
completamente. Pois, originariamente, seu tempo corria 72 mil vezes
mais lento que o do inimigo. O tempo de que precisavam, por exemplo,
para uma respiração, era suficiente para os adversários reunirem
uma grande frota e destruírem todas as naves dos druufs, tão logo
botassem o nariz para fora da zona de descarga.
Com grande
esforço, conseguiram os druufs dominar o problema até um certo
ponto. Seus cientistas criaram um campo temporal que lhes modificava
o tempo próprio. Podiam então, conforme as condições, apressar ou
retardar a passagem do tempo. Naturalmente, para eles, o mais
importante era apressar. Chegaram até a proporção de dois para um.
Mais não lhes era possível obter com o campo temporal. Tinham,
pois, que deixar nas mãos dos adversários a vantagem de uma
velocidade duas vezes maior.
Não se
atreviam mais a penetrar no Universo estranho com grandes frotas. Não
podiam mais se arriscar a grandes prejuízos. Enviavam naves avulsas,
que, dependendo da experiência da tripulação, conseguiam furar o
bloqueio do adversário e executar longos vôos de patrulha pelo
outro espaço. Depois das grandes baixas sofridas com frotas
numerosas, restringiam-se a estas saídas e estavam felizes pelo fato
de o adversário ainda não haver feito “pesadas”
incursões em seu Universo.
Mas parece
que a situação estava mudando. A última nave que viera de fora
falava de enorme aglomeração e movimentação de frotas em torno da
zona de superposição. A frota de bloqueio adversária tinha sido
reforçada. Tudo fazia supor um ataque iminente. Entre os druufs
havia uns poucos otimistas, entusiasmados com os primeiros resultados
da vanguarda de robôs, que acreditavam que este ataque redundaria em
total fracasso. Entretanto, já pela simples comparação numérica,
se podia ver a uma grande inferioridade dos druufs, acrescida da dura
realidade de seu tempo próprio, duas vezes mais lento.
Não havia
dúvida de que os druufs tinham de temer por sua própria
sobrevivência.
Nos
últimos momentos, porém, chegou inesperadamente à capital do
planeta Druufon uma nova mensagem. Depois de examiná-la com cuidado
e muita reserva, os técnicos chegaram à conclusão de que o que a
última nave de patrulhamento havia conseguido em seu regresso era um
ponto de apoio estratégico importante, para uma guinada definitiva à
vitória.
Pois, em
última análise, se tratava apenas de se obter um grupo de pessoas
que estivesse em condições de reagir a um ataque inimigo com a
mesma presteza que os adversários.
Este
punhado de pessoas parecia estar agora à disposição dos druufs.
5
Era um
Universo totalmente diferente. Podia-se percebê-lo pela cor do céu,
onde o mar de estrelas refulgia num brilho insólito. Para Julian
Tifflor, que realizara pela primeira vez na vida a transição do
espaço de Einstein para o dos druufs, a visão era qualquer coisa de
descomunal, para não dizer assustadora.
O espaço
teria de ser preto, pois não era outra coisa a não ser o próprio
vácuo que se plasmara numa determinada forma. Mas não era preto,
era de um vermelho-escuro.
Brilhava
incandescente, como se alguém ou alguma coisa o fizesse arder por
fora.
Julian
Tifflor dominou a perplexidade que causava nele e em todos os seus
tripulantes, que aqui estavam pela primeira vez, o espetáculo
daquele Universo singular, e começou a reparar no estranho aparelho.
Não era mais a mancha esmaecida da tela do aparelho de microondas.
Tinha se transformado num ponto luminoso que a ótica agora mostrava
como uma estrela pequena, de coloração avermelhada, porém, bem
diferente das estrelas reais.
Os druufs
haviam acabado de retirar o véu de camuflagem.
A nave
terrana não tomou nenhuma iniciativa. Os druufs tinham de saber que
haviam sido descobertos pela Infant. Tinham arrastado o cruzador
terrano; portanto, a eles cabia iniciar o diálogo.
O campo de
sucção, ou melhor, de atração, ainda funcionava, mas a nave dos
druufs estava em operação de frenagem e, uma hora depois de
transpor a garganta afunilada, parou completamente. Os rastreadores
da Infant assinalaram todos os dados referentes à velocidade,
conjugados com o sistema dos dois sóis de Druufon.
Mais uma
meia hora se passou sem novidade alguma. Tifflor tinha resolvido que
chamaria a nave dos druufs, se dentro de dez minutos não se
manifestassem. Não precisou, porém, esperar tanto. Dos dez minutos,
havia passado apenas um, quando da escuridão avermelhada surgiu uma
numerosa frota de unidades alongadas e cilíndricas, fechando um
círculo estreito em torno da Infant. Tifflor havia dado severas
instruções aos pontos de defesa para que não atirassem, a não ser
em caso de extrema necessidade.
Pouco
depois deste “abraço”
pouco fraterno, o telecomunicador começou a funcionar. Tifflor ligou
para a escuta, declarando em inglês que estava disposto a ouvir
qualquer um que desejasse falar com ele. A tela do vídeo continuava
apagada. Ou os druufs não davam nenhuma importância ao videofone ou
seu transmissor não estava acoplado com a projeção da imagem.
Apreensivo,
Tifflor via como o tempo passava, depois de ter declarado estar à
disposição de quem quisesse falar. Enquanto isto, imaginava como lá
do outro lado, a bordo de uma daquelas estranhas naves, agrupadas em
volta deles, um druuf falava num aparelho, esperando depois que o
referido aparelho traduzisse suas palavras para o inglês,
diretamente no microfone que estava sobre a mesa. Tifflor ainda
estava pensando se os druufs já sabiam se a nave por eles arrastada
era arcônida ou não. Só pelo formato, não podiam deduzir com
certeza. Com raríssimas exceções, todas as naves no espaço de
Einstein eram esféricas. Seria, pois uma conclusão lógica se os
druufs considerassem a nave atraída por eles como oriunda de Árcon.
Mas parece que não estavam muito certos disso, do contrário não
perderiam tanto tempo, depois de transpor a garganta afunilada.
Seus
devaneios foram interrompidos. O receptor parou de chiar e uma voz,
quase que de além-túmulo, disse:
— Os
senhores são uma nave terrana. Que desejam aqui?
Tifflor já
estava com a resposta engatilhada:
— Avisá-los
de uma coisa importante — disse ele, depois de uma pequena pausa,
para não confundir os druufs no seu lento sentido de tempo.
— Qual é
o aviso? — foi a contra pergunta.
Entrementes,
Tifflor notou com surpresa que o instrumento de tradução que os
druufs estavam usando funcionava com toda perfeição, pelo menos no
tocante ao inglês. As frases eram fluentes e corretas. Somente a voz
é que podia provocar calafrios ou visões de além-túmulo.
— De um
ataque maciço dos arcônidas — respondeu Tifflor. — Este ataque
está iminente e eu acho que os senhores ficariam gratos se alguém
os advertisse a respeito.
Desta vez,
levou alguns minutos, até que os druufs respondessem. Mais uma vez,
aquela voz fria e imóvel. Mas do contexto se percebia nitidamente a
desconfiança:
— Os
senhores esperam um determinado tipo de gratidão?
Também
para uma frase desta, Tifflor tinha a resposta conveniente.
— Caso
os senhores pensem que nós pretendemos ganhar dinheiro através da
denúncia, não. Além disso, para que tanta desconfiança? Os
senhores pretendem manter todo este diálogo através do
intercomunicador?
Novamente
uma grande pausa.
— Venha
o senhor, acompanhado de dois homens, todos desarmados, para bordo de
nossa nave. Os senhores possuem uma nave auxiliar ou devo mandá-los
buscar?
Tifflor
não se conteve:
— Primeiramente
— começou um tanto brusco — irei assim como estou, ou não irei
de maneira alguma. Ando sempre com minha arma na cintura. Ou os
senhores vão supor que com uma simples pistola vou lhes tomar toda a
frota espacial? Segundo, tenho minhas naves auxiliares. Também não
se preocupem em me querer mostrar, entre as naves todas que me
cercam, qual é a sua.
Parece que
o druuf desistiu de fazer novas exigências.
— Eu o
espero. Sua nave auxiliar receberá um sinal para me encontrar.
Julian
Tifflor interrompeu a ligação. Voltou-se para seus homens e disse:
— Começa
a ficar sério. Tschubai e Marshall preparem-se para ir comigo.
*
* *
Comunicaram
a Door-Trabzon que num setor do espaço, não muito distante da
Wa-Kelan, que vagarosamente estava sobrevoando a zona de
superposição, foram localizadas duas naves estranhas. Door-Trabzon
sentia-se tremendamente confuso. Estas duas naves deviam pertencer ao
mesmo povo, por voarem assim sempre juntas. Mas até agora
Door-Trabzon não sabia de outra coisa a não ser que deveria
encontrar, mais cedo ou mais tarde, uma nave dos terranos.
Quando os
rastreadores lhe deram as dimensões exatas destas duas naves, sua
confusão chegou ao clímax. Não eram em nada inferiores às
poderosas unidades de Door-Trabzon. Eram verdadeiros gigantes do
espaço com uma potência de fogo que poderia obscurecer, por algum
tempo, um sol de grandeza média.
Um tanto
precipitado, Door-Trabzon ordenou que os dois aparelhos estrangeiros
fossem cercados e atacados. Para agir com maior segurança, colocou à
disposição do ataque duzentos encouraçados. Mal, porém, iniciaram
a perseguição, uma das duas naves entrou em contato com
Door-Trabzon, afirmando que ali se achavam em missão de paz e, no
tocante a seus planos, estavam de comum acordo com o regente de
Árcon.
Isso
esfriou o ânimo de Door-Trabzon. Cancelou suas ordens e deu
instruções para que os duzentos encouraçados se mantivessem a uma
distância maior, aguardando o desenrolar dos acontecimentos. E, logo
em seguida, se dirigiu pessoalmente para o local, para ver de perto
as coisas.
Mas antes
que lá chegasse, recebeu uma mensagem sucinta de Árcon, dizendo que
o comandante supremo da Terra tinha resolvido tomar parte
pessoalmente na caça à nave desertora e que esta resolução de
Perry Rhodan parecia muito plausível e mesmo desejável ao regente
robotizado.
Esta
notícia deixou Door-Trabzon boquiaberto. Primeiro, porque Perry
Rhodan era um nome que já havia penetrado nas Galáxias já há
muitos decênios e segundo, porque Door-Trabzon sabia das relações
entre a Terra e Árcon, ou melhor, entre Perry Rhodan e o regente,
para compreender como Rhodan podia andar livremente entre as unidades
arcônidas da frota de reconhecimento e da frota de bloqueio.
Door-Trabzon
sabia, porém, que os avisos de Árcon valiam por ordens. Tinha que
se sujeitar incondicionalmente a eles. Sua opinião, porém, era de
que Perry Rhodan não faria uma viagem tão longa só por causa de
uma nave de desertores, se não houvesse atrás de tudo isto uma
vantagem muito substancial. Mas sua opinião particular não valia
nada, se não conseguisse convencer o regente da veracidade de seus
argumentos.
Tentou
fazer isto, mas o momento lhe era muito inoportuno.
O regente
estava ocupado demais para atendê-lo.
*
* *
Door-Trabzon
não podia imaginar com o que o regente estava tão ocupado no
momento.
O regente
se recordou da suspeita externada pela teoria das combinações,
quando se soube pela primeira vez da comunicação de Perry Rhodan
sobre a nave desertora. Uma certa taxa de possibilidade, que de
maneira alguma podia ser desprezada, falava que o negócio dos
desertores era simplesmente um blefe. Até agora, porém, a teoria
das combinações não podia se pronunciar sobre quais os objetivos
deste blefe, isto é, se este seria de tal importância, podendo, a
partir dele, ser montado um plano de grande envergadura. Neste
sentido é que eram dadas as instruções do regente. Todos tinham de
estar muito atentos, agora, para descobrir a rota das duas naves
terranas. Tinham que se comunicar imediatamente com o regente, sobre
qualquer manobra das duas naves de Perry Rhodan.
Entretanto,
o regente esperava impaciente que os trabalhos com a teoria das
combinações, devido às mais recentes informações, pudessem
adiantar maiores possibilidades, a fim de que houvesse tempo
suficiente para formular um plano de emergência.
É claro
que o regente não ignorava que a Terra sobreviveria ou desapareceria
com Perry Rhodan, isto é, o destino de Perry Rhodan se identificava
com o da Terra. Ainda há poucos meses, quase que Rhodan caiu
prisioneiro em suas mãos. Aqui estava uma segunda oportunidade.
Talvez com esta viagem, estaria selado o fim da carreira gloriosa de
Rhodan.
O regente
era um robô. Como tal só podia agir segundo o princípio da maior
vantagem. Assim, não conhecia a palavra escrúpulo.
*
* *
Por sua
vez, Perry Rhodan seria um louco ou bobo se não soubesse de tudo
isto. Os dois gigantes do espaço, Drusus e Kublai Khan estavam de
prontidão permanente. Em qualquer fase dos acontecimentos, sua
velocidade era suficiente para uma transição imediata. Uma grande
quantidade de postos de rastreamento controlava os movimentos das
naves arcônidas e dariam logo o alarme, assim que se aglomerassem ou
se aproximassem demais, pondo em risco a garantia da Drusus ou da
Kublai Khan.
Mas não
era ainda este o caso. Rhodan calculara bem: o regente não tomaria
nenhuma iniciativa, enquanto não soubesse o que os terranos
pretendiam.
Quando
soubesse, haveria de atacar, com a rapidez de um raio e com muita
ganância. Isto é, um ataque-relâmpago, feito por milhares de naves
e de tal forma que os envoltórios de proteção dos dois gigantes
terranos seriam ultrapassados e, sob a violência do fogo
concentrado, tais gigantes seriam destruídos.
Perry
Rhodan sabia que sua vida não valeria um vintém, se fosse confiar
nas promessas do regente. Falavam de união para a cooperação, de
boa vontade, etc. Mas, melhor do que ninguém, Rhodan sabia que se
podia programar um grande computador para uma mentira perfeita.
A presença
das duas espaçonaves terranas tinha dupla finalidade. Primeiro, era
dar assistência a Julian Tifflor e à Infant, tão logo eles
precisassem. Segundo, era necessário manter ligação com a base
Hades, situada no Universo dos druufs. Ninguém podia prever os
acontecimentos que se desencadeariam com a penetração da Infant no
espaço dos druufs. De um momento para o outro, podia surgir um
ambiente que forçasse Hades a intervir nos acontecimentos. E já que
Hades quase não tinha possibilidade de informar sobre a situação,
a Drusus e a Kublai Khan ficariam de prontidão.
Rhodan
estava consciente dos riscos que assumia neste empreendimento. Estava
certo de não se ter descuidado de nada.
Mas não
sabia que chegaria o momento em que todas as precauções se
tornariam inúteis...
*
* *
Já o
tinham avisado de que o druuf era como um personagem de pesadelos.
Mas, apesar de tudo, quando um deles lhe apareceu diante dos olhos,
teve que fazer força para disfarçar o choque.
Aquele que
estava ali na sua frente devia ter mais de três metros de altura!
Mas logo
lembrou-se do tamanho das construções desses seres, e sentiu-se
menos chocado.
O druuf
estava de pé, sobre suas pernas-colunas. Somente elas já passavam
da cabeça de Tifflor. As pernas sustentavam um corpo quase cúbico,
em cima do qual achava-se uma cabeça redonda, um pouco maior que uma
bola oficial de futebol. A cabeça, completamente sem cabelo, tinha
quatro cavidades oculares e uma boca triangular. No restante do corpo
também não havia pêlo. Da forma cúbica do tronco, pendiam dois
longos braços, que, como Tifflor sabia, terminavam em dedos muito
finos. Não se podia notar agora a tal finura dos dedos, devido à
luva do uniforme espacial.
Como
Tifflor já esperava, o oficial druuf trazia o pequeno transdutor
idiomático. Parecia que já tinha gravado alguma coisa, pois quando
os terranos entraram, ainda ouviram um ruído qualquer, depois o
aparelho falou:
— Estou
sozinho, mas pode perder as esperanças, pois meus homens estão a
postos.
Tifflor
fingiu não ter ouvido esta advertência. Precisava de algum tempo
para contemplar o druuf e reprimir o choque inicial. Fez depois um
aceno com a mão e respondeu à altura:
— Não
tenha receio. Não viemos para cá com a finalidade de prejudicá-los.
Olhou em
volta. O aspecto do ambiente dava uma impressão estranha, quase
grotesca, para os parâmetros terranos. Bem no meio do recinto havia
uma construção, do tamanho aproximado de uma pequena casa de campo,
que devia ser o posto de comando, devido aos dispositivos de
alavancas, interruptores e medidores. As alavancas eram mais
compridas que uma barra de ginástica. A maior parte dos aparelhos,
do ponto-de-vista dos terranos, só poderia ser manobrada com as duas
mãos.
Ao longo
de toda a parede, corria uma enorme tela panorâmica, mostrando o
fundo vermelho-escuro do espaço, com uma infinidade de estrelas. Dos
muitos instrumentos que se viam abaixo da tela panorâmica, Tifflor
não conseguiu identificar nenhum. A tecnologia dos druufs era muito
diferente da dos terranos.
No posto
de comando não havia nenhuma poltrona. Para os druufs, com um peso
médio de quatrocentos quilos, só mesmo um grande esgotamento podia
levá-los a procurar uma cadeira para sentar. E, geralmente, quando
se sentavam para descansar, o esforço para se levantar era tão
grande, que ficavam mais cansados ainda. A gravitação em Druufon
era de 1,95 do normal, portanto, quase o dobro da gravitação
terrana.
Provavelmente,
dentro das naves dos druufs, a gravitação era a mesma do planeta.
No entanto os terranos nada sentiram, isto porque usavam uniformes
com absorvedores automáticos antigravitacionais, que lhes garantiam
a mesma gravitação habitual da Terra, onde quer que estivessem.
— O
senhor possui, portanto, informações de que os arcônidas, como os
senhores os chamam, pretendem nos atacar.
Julian
Tifflor olhou para o druuf. Era difícil saber em que direção ele
estava olhando. Os druufs eram descendentes de insetos. Seu campo de
visão era dividido em centenas de pequenas facetas. Isto deixava
Tifflor um tanto constrangido.
— Sim —
foi sua resposta seca.
— Qual é
sua fonte de informações?
As
palavras que o druuf pronunciava no transdutor não podiam ser
ouvidas pelos terranos. Os órgãos fonadores dos druufs produziam
ruídos em ultra-som. A língua dos druufs era uma confusão de
fonemas em ultra-som de alta freqüência.
— Participei
de algumas conversações que se realizaram por meio de
intercomunicação, entre a Terra e Árcon — explicou Tifflor.
— Qual
foi o assunto tratado nestas conversações?
Tifflor
não podia saber o quanto os druufs entenderiam da mímica dos
terranos. Mas de qualquer maneira, tentou dar a impressão de estar
impaciente e aborrecido.
— Preste
atenção — disse ao druuf. — O perigo é iminente. O ataque dos
arcônidas virá de repente, e o senhor fica aí fazendo perguntas
supérfluas como se ainda dispusesse de meio ano para estudar o
assunto. O senhor tem credenciais para receber minhas informações?
Desejo que me leve para seu país, para que lá eu possa expor a seu
governo o que me traz até aqui.
Não se
podia perceber se o druuf estava ou não impressionado. Mas Tifflor
respirou mais tranqüilo. Tinha acabado de executar a parte mais
importante de sua incumbência. E estava certo de tê-la feito com
perfeição. Nenhum psicólogo da Terra teria percebido que todo
aquele seu rompante de cólera era fruto de um frio raciocínio, bem
calculado, cuja finalidade era apenas convencer o druuf de que sua
fuga da Terra tinha realmente algo que interessasse aos objetivos de
Druufon.
Após
curta hesitação, veio a resposta do druuf:
— Como
posso saber se você não é de fato um falso amigo?
Tifflor
estava exultante de alegria. A resistência estava quebrada.
Ele teria
de entrar em contato com Ernst Ellert, que era um cientista de
Druufon, e por intermédio dele fazer chegar sua mensagem ao governo
de Druufon. Só aí sua missão poderia ter sucesso, isto é,
conseguir convencer as altas autoridades do perigo iminente dos
arcônidas, iniciando imediatamente um contragolpe fulminante.
— Isto o
senhor não conseguirá saber — respondeu Tifflor, evasivo. — Mas
o senhor pode se informar a respeito. Além disso, devo lhe dizer que
esperava mais consideração por sua parte. Expus-me a uma série de
perigos para vir preveni-los da iminência do ataque arcônida.
Parece que
isto interessou muito ao druuf.
— Perigos?
O senhor não teve escolta de proteção?
“Santo
Deus”,
pensou Tifflor, “será
que o homem que nos arrastou para cá não observou o que aconteceu?”
— Claro
que não tínhamos nenhuma escolta. Saímos da Terra como fugitivos,
como desertores, se é que o senhor vai compreender isto.
— O
senhor fugiu? Por quê?
— Porque
de outra maneira não podíamos preveni-los do perigo. A Terra está
em negociações com Árcon, não que ela vá auxiliar os arcônidas,
mas espera deles apenas um armistício. É claro que estaria fora da
linha de conduta da Terra avisá-los do ataque iminente de Árcon. O
senhor compreende isto?
— Não
muito. Dizem que na sua terra há liberdade de expressão. Cada um
pode manifestar seu pensamento. Por que então os senhores não
poderiam ter também uma opinião diferente de seu governo?
Pela
primeira vez Tifflor teve a impressão de que o druuf estava querendo
brincar de gato e rato.
Julian
Tifflor olhou para John Marshall, que era telepata. Mas Marshall
lamentou nada poder fazer.
— Sou
oficial da Frota Terrana — respondeu Tifflor, medindo bem as
palavras. — Somente a frota dispõe de espaçonaves com que se pode
penetrar no Universo. Mas todo elemento da frota depende das ordens
do comandante. E estas ordens dizem claramente que todas as
negociações entre a Terra e Árcon sobre o ataque iminente são
extremamente sigilosas. Quem obedece às ordens, não pode, pois
alertá-los do perigo, e quem não obedece será julgado e condenado.
Nós tivemos que seqüestrar uma espaçonave e, aproveitando uma
noite de muita neblina, fugimos. Assim estão as coisas para nós. E
agora, vem o senhor e nos trata como bandidos ou assaltantes de rua.
Quero ser levado para Druufon para falar com as autoridades
responsáveis e não perder tempo aqui no espaço com um simples
capitão.
Esta
última frase foi dita de propósito para fazer o druuf perder a
calma, obrigando-o a “destampar”
seus pensamentos mais secretos. Mas isto só daria resultado se os
druufs fossem tão vaidosos como os homens.
E
certamente não o eram. O druuf continuou completamente calmo e
descontraído:
— Sou
pessoa mais importante do que o senhor pensa e, dentro em pouco, o
senhor se convencerá disso.
Julian
Tifflor ouviu uma série de ruídos diferentes. Olhou em torno e
percebeu que as portas da sala de comando se abriam. Entravam mais
druufs, verdadeiros gigantes de pele parda, ao todo quinze. Fecharam
um círculo em volta dos três terranos.
Tifflor
pressentiu que algo não estava saindo certo, mas não sabia o que
era.
Os quinze
druufs não davam impressão de hostilidade. Estavam ali e ninguém
podia saber em que direção estavam olhando.
— Responda-me
ainda, por favor, só mais uma pergunta — disse o comandante.
Tifflor
observou que estava usando pela primeira vez a palavra “por
favor”.
— Por
que razão o senhor fez tanto sacrifício para nos alertar do perigo
do ataque arcônida? Por pura amizade?
Tifflor
comprimiu os olhos. Esta pergunta tinha que vir, e ele não se
atrapalhou:
— Não!
— disse numa excitação simulada. — É porque odeio os
arcônidas.
Houve
algum movimento, de repente, entre os druufs em volta. Cabeças se
levantaram e os olhos facetados brilharam. Tifflor tinha certeza de
estarem confabulando entre si. Seus sons, porém, não penetravam nos
ouvidos humanos.
Somente
depois de alguns instantes foi que o comandante se virou para
Tifflor. Do transdutor idiomático veio a voz mecânica:
— Somos
de opinião de que o senhor está falando a verdade. Tínhamos também
quase a certeza de que sabíamos do ataque, mesmo antes de sua
chegada aqui. Todos os preparativos já foram tomados para nos
defendermos do ataque arcônida. O senhor não precisa mais convencer
nossas autoridades, já estão convencidas.
“Em
vista disso, não lhe será mais necessário o penoso caminho para
nossa pátria. Nós lhe somos muito gratos e estamos certos de que os
senhores nos vão auxiliar. Por isso lhe fazemos um pedido: fique
aqui conosco e assuma o comando de uma parte da frota. O senhor está
a par de nossa inferioridade em relação aos arcônidas, no tocante
à presteza de reação e, conseqüentemente, no que diz respeito à
velocidade de nossas naves. Fique conosco e nos ajude, para que pelo
menos uma parte da frota reaja com presteza às manobras dos
arcônidas e possa ter mais sucesso. É o que lhe pedimos.”
Tifflor
sabia agora que todo seu plano estava se diluindo. E não havia como
escapar. Causaria enorme suspeita se recusasse o pedido. Além disso,
o pedido era justo e ele deveria ter pensado nisto, antes que os
druufs chegassem a esta idéia. Não podia voltar atrás, tinha que
dizer sim. Uma recusa não iria adiantar nada para os objetivos do
plano. Os druufs teriam razão para suspeitar e o haveriam de levar à
força para Druufon.
Estaria
então tudo perdido. Sem a participação de Ernst Ellert não
haveria sucesso, nem mesmo parcial.
Tifflor
fez um grande esforço para esconder seu desânimo.
— Naturalmente
e com todo prazer, haveremos de ajudá-los a derrotar os arcônidas —
disse num grande esforço para simular sinceridade.
6
O plano
era deixar os druufs desesperados.
Não havia
dúvida alguma de que Ernst Ellert, isto é, o cientista druuf Onot,
conseguiria tal ação com o auxílio dos supostos desertores. Os
druufs deveriam ser induzidos a realizar uma incursão no espaço de
Einstein: uma coisa naturalmente com que os arcônidas não contavam.
Os terranos haveriam de instruí-los como prejudicar os interesses
dos arcônidas, por exemplo, atacando separadamente suas bases mais
afastadas e destruindo seus pontos de grande comércio.
É claro
que os arcônidas pagariam na mesma moeda, mas também isto estava
dentro dos planos, pois toda a estratégia das idéias terranas tinha
a intenção de fazer druufs e arcônidas se digladiarem
alucinadamente, causando mutuamente pesados danos. Assim, a Terra,
fora da briga, seria realmente a vencedora, a maior beneficiária.
Mas este
plano já estava caducando!
Os
arcônidas, naturalmente, não pensavam em atacar os druufs no
Universo que era seu habitat. Pelo menos não em futuro próximo.
Toda a movimentação da enorme frota arcônida, que tanto tinha
impressionado os druufs, possuía como único fim, para o regente
robotizado, prender a espaçonave terrana, tripulada pelos
“desertores”.
Assim
sendo, não se chegaria a nenhum combate, a não ser de um ou outro
posto avançado. O enfraquecimento substancial do poderio arcônida e
das forças dos druufs, realmente não se daria, pois, sem os
documentos falsificados, que o cientista Onot forneceria ao governo
de Druufon, apontando o calcanhar de Aquiles do Império Arcônida,
os druufs jamais teriam coragem de sair para o espaço de Einstein e
atacar seu grande adversário. Conheciam de sobra suas limitações e
não duvidavam de sua inferioridade.
Julian
Tifflor estava, pois, de mãos atadas. Poderia tentar fazer com que
os comandantes druufs fizessem uma ou outra investida contra os
arcônidas e os pegassem de surpresa. Mas mesmo nestes casos avulsos,
os comandantes não podiam agir sem instruções do governo.
A
aprovação dos projetos de Tifflor era uma coisa que levava muito
tempo, e exatamente tempo era a mercadoria que não sobrava para a
Terra...
Dentro de
poucos meses estaria fechada a brecha na região de superposição.
Não haveria então mais ligação entre os dois Universos e nenhuma
possibilidade para que os dois adversários se desgastassem em
ataques mútuos.
Visivelmente
abatido, Julian Tifflor se preparava para sua nova função de
comandante de uma frota dos druufs. Estava certo de que nesta nova
posição não poderia fazer nada. Não conseguiria tramar nenhum
combate de vulto. Os druufs ficariam de um lado e os arcônidas de
outro, e até que a brecha na zona de superposição se fechasse, o
máximo que podia ocorrer eram simples escaramuças, sem maiores
conseqüências.
Mas a
linha básica do plano era a destruição de quarenta ou cinqüenta
mil naves!
*
* *
Gucky, o
rato-castor, deu uma olhada para dentro da sala de comando, através
do gradil dos aparelhos de transmissão. Depois fechou os olhos e
comprimiu o botão que já estava há tempo sob a sua pata. Não
sentiu nada. Mas quando abriu de novo os olhos, estava num recinto de
grandes blocos de pedra, onde havia uma série de aparelhos, iguais
àquele onde ele se encontrava, há pouco, a bordo da Drusus.
Viu alguns
homens de pé diante da grade do transmissor. Mas não se demorou com
eles.
Queria
“ouvir”.
Concentrou-se em seus sensores telepáticos, tentando captar os
sinais que o homem irradiava.
E
conseguiu captá-los. Era um zunido muito baixo, mas nítido. Vinham
dos fundos do recinto, e Gucky não teve dificuldade em perceber, por
estes sinais, que o homem que os irradiava ainda gozava de saúde
perfeita. O sinalizador que ele trazia no próprio corpo era um
aparelho semi-orgânico, cujo funcionamento dependia totalmente da
capacidade física de seu portador.
Gucky
sentiu-se feliz. Julian Tifflor encontrava-se nas imediações, pelos
cálculos de Gucky, a alguns bilhões de quilômetros, e o
sinalizador telepático, que Tifflor carregava como uma espécie de
radiofarol parapsicológico, funcionava com a capacidade normal.
Neste meio
tempo, os homens lá fora abriram a porta do transmissor. Gucky saiu
equilibrando elegantemente sua volumosa cauda, para a qual havia um
abrigo especial no seu uniforme espacial. É claro que os homens
começaram a rir. Gucky percebeu e respondeu com um olhar de
indiferença.
Estava, há
muito, acostumado com o fato de os homens o acharem engraçado e
rirem de sua aparência. Era uma mistura de rato com castor, que, por
um descuido da natureza, crescera demais. É verdade que os homens
tinham uma infinidade de lendas nas quais apareciam animais
inteligentes que falavam e agiam racionalmente. Mas, quando davam de
cara com um rato-castor que falava e pensava igual ou melhor do que
eles, não sabiam o que fazer de estupefação, a não ser... rir.
Gucky
sentou-se sobre as patas traseiras, apoiando-se com a longa e
volumosa cauda. Fez um grande esforço para emprestar ao seu focinho
de rato, com olhos arregalados, um ar de grave seriedade e explicou
com sua voz chiada:
— Deram-me
a incumbência de entrar imediatamente em contato com o Capitão
Rous. Peço comunicar isto ao capitão.
Os homens
começaram a rir, mas antes que Gucky pudesse responder, à sua
maneira, a esta risada, os homens pararam de repente. O Capitão Rous
vinha atravessando o corredor dos transmissores.
— Já
estou informado — disse ele. — Nossos transmissores captam muito
raramente sinais verdes. Deve ter acontecido algo de estranho lá
fora, não é?
O capitão
sabia como Gucky gostava de ser tratado como ser humano e lhe
estendeu a mão para cumprimentá-lo. O rato-castor correspondeu à
saudação com um gesto quase gracioso.
— Se há
alguma coisa por lá? — repetiu com gravidade. — Há, e muito. O
Coronel Tifflor e mais quatorze homens penetraram no Universo dos
druufs com um velho couraçado. Deve estar falando aos druufs do
ataque iminente dos arcônidas.
Dizendo
isto, piscou um olho, como havia aprendido com os homens. O Capitão
Rous não pôde deixar de rir.
— Não
estou compreendendo bem o conjunto das coisas. Mas você me haverá
de explicar tudo, não é verdade?
— Naturalmente
— confirmou Gucky. — Assim que receber alguma coisa para comer.
Marcel
Rous contraiu o semblante:
— Que
pena — disse com voz sincera — não temos cenoura.

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