terça-feira, 30 de agosto de 2016

P-102 - A Divisão III Entra em Ação - Kurt Mahr [Parte 2]

Tony sobressaltou-se.
Bem, obrigado — gaguejou. — Sinto-me um pouco confuso.
Richard fez um gesto animador. No banco situado atrás do de Tony, Ez Rykher batia nos seus trajes, para remover uma poeira imaginária. Era um gesto ridículo. Depois procurou verificar se Dynah estava passando bem.
Deixe-a em paz! — gritou Trenton. — É bom que não tenha de assistir a tudo.
Ez não lhe deu atenção. Estendeu o braço e afastou Trenton. Este não estava acostumado a tal tipo de tratamento e não reagiu, de tão surpreso que ficou. Ez abriu o capacete de Dynah e atirou-o para trás. Levantou a moça e deitou-a sobre o banco. Ajeitou habilmente o capacete, transformando-o num travesseiro.
Dynah abriu os olhos. Suas primeiras palavras davam uma impressão pouco feminina.
Arre! Que fedor!
Ez soltou uma risada de bode.
Bem, isto não é um salão muito nobre. Mas o lugar é seco.
Dynah levantou-se. Ez ajudou.
Onde estamos? — perguntou. Ez virou a cabeça.
Olá, Dick! — gritou. — Dynah está perguntando onde estamos. Será que estes nativos entendem o arcônida?
Naturalmente que entendem”, pensou Richard. “Nem sei como ainda não me lembrei disso.
Dirigiu-se para o ghamês que continuava encostado à parede e disse em arcônida:
Agradecemos por nos ter salvo. Vocês realmente nos tiraram de um aperto.
O ghamês sorriu.
Eu Gherek — respondeu. — Não agradecer. Vamos cidade. Descansar. Depois veremos resto.
Não queremos ir à cidade — disse Lyn Trenton no mesmo instante, e isso em tom um tanto áspero. — Levem-nos à base terrana.
Richard virou-se. Tinha algumas palavras zangadas na ponta da língua. Mas antes que pudesse pronunciá-las, Gherek respondeu:
Não ser possível. Precisamos ir cidade. Inimigos mandaram.
Logo depois, deslizou junto à parede, em direção à porta. Richard percebeu que a situação assumia um feitio desagradável. Num gesto apressado voltou a virar a cabeça e gritou para Trenton:
Cale a boca, Trenton. Essa gente nos...
Trenton levantou-se de um salto. Ao que parecia, os acontecimentos dos últimos minutos o haviam privado do juízo. De repente já não era o homem ponderado e tranqüilo que aparentava ser.
Eu lhes mostrarei — gritou em arcônida, interrompendo Richard em meio à frase. — Vocês aprenderão a quem devem obedecer. Queremos ir à nossa base, não à cidade suja de vocês. Vamos...
Pôs a mão no cinto. Todo traje espacial vinha acompanhado de uma pequena arma de radiações. Evidentemente Trenton queria usar a arma para intimidar o ghamês e obrigá-lo a cumprir suas ordens.
Lyn Trenton foi o primeiro a descobrir que já não possuíam armas.

* * *

Tiraram-nos as armas — gaguejou Trenton, parecendo que ia desmaiar de susto.
Richard levantou-se de um salto. Instintivamente compreendeu o perigo em que se encontravam. Teria de apoderar-se de Gherek, pois já que os ghameses lhes haviam tirado as armas, precisava de um refém.
Mas Gherek compreendera a situação. Antes que Richard saltasse por cima do banco que se encontrava à sua frente, a porta abriu-se. Por uma fração de segundo, Richard viu um pequeno recinto repleto de estranhos equipamentos. O recinto estava bem iluminado. Dois outros ghameses levantaram os olhos, espantados, para ver o que estava acontecendo atrás deles.
A porta fechou-se ruidosamente e Gherek desapareceu. Richard atirou-se com toda a força contra a porta de madeira. Mas esta era muito sólida. A única coisa que conseguiu foi uma dor lancinante no ombro direito.
Tony, Ez, Trenton, venham cá! — chamou. — Precisamos arrombar isto antes que eles...
Não completou a frase. Todos sabiam o que estava em jogo. Uniram suas forças e investiram contra a porta. Depois de cinco investidas tiveram a impressão de que, com o tempo, poderiam conseguir alguma coisa. Atrás da porta tudo continuava em silêncio.
Subitamente Richard ouviu um chiado.
Silêncio! — ordenou.
Ficaram parados e aguçaram o ouvido. O chiado vinha de todos os lados. Em alguns pontos da parede era mais nítido. Richard encontrou um minúsculo furo. Passou saliva sobre o tal furo e viu que surgiram bolhas.
Richard esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas sentiu que suas pernas começavam a ceder. De repente teve a impressão de observar o teto do recinto bem de longe. Ouviu Tony soltar um grito, mas esse grito parecia vir de uma distância enorme.
Richard caiu pesadamente. Quase não o sentiu. Teve a impressão de que, de repente, o barco empinava violentamente. Logo depois desmaiou.

* * *

Larry estava indeciso.
Não entendo nada de estratégia diplomática — confessou. — O senhor acredita que agiu acertadamente ao dizer tudo para Alboolal?
Ron estava parado junto à janela, com o copo na mão.
O senhor acredita que alguma vez já conseguimos iludir os saltadores? — perguntou com uma risada. — Desde o momento em que eles derrubaram nosso barco espacial, sentiam-se como gato sobre brasa. E quando viram a nave de abastecimento chegar, cinco dias antes da data prevista, compreenderam que sua hora havia soado. Alboolal só entrou nesta sala para ver quem era o homem enviado pelo planeta Terra.
Afastou-se da janela e descansou ruidosamente o copo.
Bem, meu caro, Alboolal sabe a quantas anda comigo. O que não sabe, e espero que nunca saiba, é como pretendemos agir. As precauções adotadas até aqui só dizem respeito aos ghameses. Os nativos não devem desconfiar de que estamos prestes a esquentar as caldeiras do inferno para os saltadores.
Larry passou as mãos pelo cabelo.
Santo Deus! — exclamou em tom de desespero. — Bem que eu gostaria de saber como ajudar os náufragos. O senhor acredita que ainda estão vivos?
Ron refletiu.
Existem três possibilidades — respondeu. — Podem ter morrido por ocasião do impacto, ou talvez tenham ficado tão feridos que não puderam fazer mais nada e desceram ao fundo do mar. Ainda podem ter resistido ao impacto, mas ter sido devorados por um daqueles monstros apavorantes.
Mostrava os dentes alvos, num sorriso largo, quando Larry interrompeu-o um tanto contrariado:
Ria à vontade, Ron. Um belo dia o senhor verá um lidioque, e então perderá a vontade de rir.
Ron assentiu com a cabeça, sempre rindo.
Está certo — disse. — A terceira possibilidade é a seguinte: podem ter resistido ao impacto e não terem sido devorados por qualquer lidioque. Suponho que o barco espacial os tenha arrastado ao menos a uns duzentos ou trezentos metros abaixo do nível do mar. Antes que conseguissem voltar à superfície e começar a nadar, os ghameses, talvez, os resgataram e, sem dúvida, irão entregá-los aos saltadores, antes de pensar em entregá-los a nós.
Quer dizer que neste caso estarão presos.
Exatamente. Há duas horas a Empress of Arkon recebeu a mensagem “todas as xícaras no armário”. Isto significa que a frota está a postos e pronta para apoiar-nos caso haja um conflito declarado. Hoje de noite faremos uma visita ao acampamento dos saltadores para ver o que está acontecendo por lá. Bem que gostaria de topar com o tal do Alboolal nessa oportunidade... Voltou a virar a cabeça e olhou para a praia que se estendia junto à pequena casa. As ondas quase atingiam os alicerces da casa.
Quando há uma tempestade por aqui, o que o senhor costuma fazer? — perguntou.
Nada — respondeu Larry em tom indiferente. — Por aqui não há tempestades. O clima é bastante equilibrado. Às condições atmosféricas de Ghama são uma das coisas mais tediosas de toda a Galáxia.
Ron soltou uma risada.
Tome cuidado para que nenhuma agência de turismo terrana fique sabendo disso. O mundo com a garantia total de tempo bom, ou coisa semelhante... Já posso imaginar...
Interrompeu-se e aguçou o ouvido.
Gritos!
Também Larry teve sua atenção despertada para os mesmos. Som de pés descalços pelo corredor! Um nativo avisou, com a voz aguda e queixosa:
Liiidioooque...
No mesmo instante, Larry correu para a porta.
Um lidioque! — exclamou. — Um lidioque aproxima-se da ilha!
Ron deu um salto gigantesco por sobre a mesa que se interpunha em seu caminho. Larry já se encontrava no corredor. Ron correu atrás dele e gritou:
Prepare seu barco! Nossa oportunidade chegou!

* * *

O mar estava manso como sempre. O único sinal de perigo era o grupo de nativos assustados, que se comprimiam junto a uma parede do depósito que ficava um tanto afastada da água. Vez por outra a cabeça de algum dos ghameses aparecia atrás da parede, a fim de dar uma olhada em direção ao mar. Geralmente voltava ao abrigo, depois de dois ou três segundos.
Larry e Ron correram em direção ao barco.
O senhor tem um anzol bem resistente? — gritou Ron, enquanto corriam.
Larry fitou-o com os olhos arregalados.
Será que o senhor não está bem da bola? Quer pegar um lidioque com um anzol?
Ron sorriu. Era um sorriso juvenil e petulante.
Ele nem imagina o que tem pela frente”, pensou Larry.
Com um anzol, um pouco de habilidade e isto — disse Ron com uma risada, e batendo ruidosamente na arma de radiações que trazia no cinto.
Atingiram o barco e com um forte empurrão colocaram-no na água. Larry saltou habilmente para dentro do mesmo. Mas Ron, que não era tão versado nisso, perdeu a oportunidade. O barco já balançava a uns dois metros da praia, e ele ainda se encontrava em terra firme.
Mas não se importou com isso. Gritou para Larry:
Abaixe-se!
Tomou distância e saltou. O impulso fê-lo passar pouco acima da água. Caiu no barco com tamanha violência, que Larry por pouco não foi atirado à água. Conseguiu segurar-se no costado e lançou um olhar recriminador para Ron.
O senhor sempre costuma entrar assim num barco? — perguntou.
Só quando o anfitrião não pode proporcionar-me o luxo de um passadiço — respondeu Ron. — Onde está o anzol?
Aqui — disse Larry e retirou uma caixa de plástico, debaixo do banco de popa.
Ron abriu-a com um gesto impaciente e contemplou por algum tempo a grossa linha de plástico com o anzol de cerca de quinze centímetros.
Não é nada mau — confessou. — O que costuma pescar com isto? Espaçonaves caídas ao mar?
Larry não respondeu. Seus olhos vagaram pelo mar, mas ainda não havia o menor sinal do lidioque. O tal animal agia como costumam agir as criaturas de sua espécie. Aparecia uma vez; depois desaparecia por algum tempo. Quando voltava a aparecer, era para atacar. Parecia saber que sua aparição metia tamanho susto nos ghameses que os transformava em suas vítimas indefesas.
Preciso de uma espécie de arpão — disse Ron.
Olhe ali — respondeu Larry, apontando com a mão sem virar-se — que o senhor achará. Acontece apenas que nunca encontrei ninguém que quisesse pegar um lidioque com um anzol e um arpão.
É verdade; sou um exemplar único — disse Ron, com uma risada travessa.
Pegou o arpão e começou a prendê-lo na linha, no lugar do anzol.
Quando deverá aparecer esse “cara”?
Dentro de três ou quatro minutos — respondeu Larry. — A não ser que tenha bolado uma tática diferente.
Por que é que os ghameses se escondem atrás da casa? Sempre pensei que um lidioque fosse uma espécie de peixe. O que é que ele pode fazer-lhes em terra firme?
É simples. Salta para a terra, agarra os que consegue agarrar e, no mesmo instante, volta para a água.
Ah! Então é tão simples? Sempre acreditei que o lidioque tivesse o tamanho de uma casa.
Realmente tem — esclareceu Larry.
Como é que...
Larry o interrompeu em tom contrariado.
Escute, seu terrano ingênuo! Faz três meses que o último lidioque apareceu por aqui. Saltou para a terra firme e, sem que eu pudesse fazer nada para impedi-lo, devorou quatro dos meus ghameses. Eu me encontrava do outro lado da ilha. Ali o senhor ainda vê o estrago causado pelo monstro. E aqueles destroços foi tudo o que restou de um depósito. Tal construção simplesmente ruiu com o impacto de seu peso. Será que o senhor está com vontade de dizer mais alguma coisa?
Ficara de costas para a água, enquanto dizia umas verdades a Ron. Este olhava por cima de seu ombro.
Está bem, Larry, está bem — disse em tom apaziguador. — Não tive a intenção de contrariá-lo. E agora, que vejo o bicho, já não duvido de mais nada.
Larry virou-se abruptamente. A cinqüenta metros do barco, aparecera a barbatana principal do lidioque, que se levantava nada menos de cinco metros acima do nível da água.
Vá mais para a direita! — gritou Ron.
Estava de pé na proa do barco; sua mão esquerda segurava a pesada arma automática, com o cano apontado para baixo.
Quem dera que ele me dissesse o que pretende fazer”, pensou Larry.
Até então, Ron só emitira ordens, e não havia como adivinhar suas intenções. O lidioque tivera sua atenção despertada para o barco. Parte do crânio, com seus olhos semi-esféricos de vinte centímetros de diâmetro, surgiu acima da água. Ao que parecia, decidira não atacar em terra firme, até descobrir o que pretendia aquele objeto pequeno, que viera em sua direção e agora estava se desviando para o lado.
Larry não se sentia muito à vontade. Sabia que o lidioque e o barco desenvolviam a mesma velocidade. Também sabia que uma pancada da cauda robusta do lidioque bastaria para destroçar o barco e atirá-lo para longe. Além disso, acreditava que Ron Landry não entendesse muito da caça de lidioques, o que era o pior.
O lidioque ficou um pouco para o lado. O barco encontrava-se na mesma altura que ele. Se o monstro quisesse fitá-lo de frente, teria de girar o corpo. Larry viu a uma distância de menos de trinta metros os olhos traiçoeiros e aguados, a parte superior do crânio, larga e em forma de testa, e a barbatana triangular, atingindo a altura de uma casa.
Mais rápido! — gritou Ron. — Senão acabará resolvendo outra coisa.
Larry comprimiu a alavanca do acelerador. O lidioque girou mais um pouco. Ao que parecia, seu interesse não era tão grande que o levasse a acompanhar o barco. Larry sabia que dali a pouco voltaria a dirigir sua atenção para a terra e desfecharia o ataque final.
Faça uma curva fechada! — gritou para Larry. — E aproxime-se por trás, à velocidade máxima, de tal forma que passemos a um ou dois metros da cabeça.
Larry fez o que o capitão lhe dissera. Enquanto o barco descrevia a curva, começou a imaginar o que Ron pretendia fazer. Também se sentiu dominado pela febre do caçador. As dúvidas, que ainda há poucos segundos atravessavam sua mente, já se haviam desvanecido. Imprimiu a velocidade máxima ao barco. Este se ergueu na parte dianteira e deu um solavanco, como se quisesse saltar sobre o monstro que se mantinha à espreita.
Ron dirigiu o cano da arma para cima. Os ghameses, que se encontravam em terra firme, saíram de trás da casa. Compreenderam as intenções dos dois “homens brancos”. A curiosidade superou o medo. Agachados em meio ao capim ralo que cobria a praia, não tiravam os olhos da cena que se desenrolava diante deles.
O lidioque surpreendeu-se com a súbita curva que o barco descreveu. Ron escolhera o momento exato. A distância entre o lugar onde o barco descrevera a curva e o crânio do lidioque era suficientemente longa para um bom impulso e suficientemente curta para que o monstro não pudesse fazer muita coisa, antes que Ron se tivesse aproximado.
Larry inclinou-se para a frente. Firmou os pés no chão do barco. Sabia que, quando o lidioque começasse a enfurecer-se, precisaria de apoio firme. Olhou Ron com admiração.
Ron estava bem na frente, quase sobre a ponta da proa. Bastaria um pequeno solavanco para que caísse n’água. E se isso acontecesse não haveria ninguém que pudesse salvá-lo. Também levantou o arpão. Fitava firmemente os olhos do lidioque, como se quisesse hipnotizá-lo. Faltavam cinco metros! Ron soltou um grito, um grito bárbaro e selvagem. No mesmo instante, ergueu um pouco a arma. E o raio incandescente de energia indômita envolveu o crânio grande e feio do monstro. A água iluminou-se, e vapores chiantes levantaram-se da mesma.
Ron inclinou-se para trás. Num gesto aparentemente descuidado deixou cair a arma, indo esta parar exatamente na proa do barco. Colocou todo o peso do corpo no arremesso do arpão. Em meio ao chiado dos vapores, Larry ouviu um ploc surdo. Ficou rijo de pavor ao ver que Ron estava prestes a ser arrastado pelo impulso que ele mesmo dera ao arpão. Era ao menos o que parecia. Mas Ron deixou-se cair tranqüilamente, até que suas mãos fossem se aproximando do costado do barco. Apoiou-se fortemente e atirou-se para trás. Recuperou o equilíbrio e ficou de pé.
Neste momento, o lidioque compreendeu o que estava acontecendo. Já não lhe restava muito tempo de vida. O disparo de Ron devia ter cavado um profundo canal de matéria liquefeita no centro de seu crânio. Mas o instinto, a reação inconsciente face ao ataque inesperado, arrastou-o para a frente. Com uma última centelha de consciência, percebera em que direção se deslocava o barco, que passara junto ao seu crânio, e começou a segui-lo.
Larry procurou calcar o acelerador mais um pouco, mas o motor já não dispunha de nenhuma reserva. Viu que a nuvem de vapores, atrás da qual se ocultava o crânio do lidioque, os seguia a dez metros. A agonia da morte conferira tremendas energias à fera, e o barco estaria perdido, a não ser que, dentro de alguns segundos, os efeitos do disparo fizessem-se mortais.
Alguma coisa roçou pela cabeça de Larry e, por pouco, não o faz perder o equilíbrio. Era a grossa linha à qual estava preso o arpão. Deslizando pelas mãos de Ron, ia saindo do barco. O lidioque mantinha exatamente a mesma rota deste.
Larry ajoelhou-se à frente do motor. Nem se lembrava de que a praia já estava a poucos metros, e de que a atracação seria extremamente violenta, a não ser que reduzisse a velocidade em tempo. Procurou abrigar-se atrás do bloco do motor. O lidioque aproximava-se numa velocidade inacreditável.
Ron gritou alguma coisa, mas Larry não o compreendeu. Estava de olhos presos na nuvem de vapor, que quase conseguia agarrar com as mãos. Viu o corpo gigantesco da fera mover-se em meio ao vapor, como se fosse uma sombra fantasmagórica.
De repente a nuvem ficou para trás. Larry não acreditou no que seus olhos viam. Pensou que o lidioque apenas estivesse tomando impulso. Mas a nuvem imobilizou-se e flutuou preguiçosamente sobre a água, enquanto o barco continuava a precipitar-se em direção à costa.
Larry levantou-se de um salto. Pôs-se furiosamente a gritar e a gesticular. Gritava de alegria e alívio. Mas o destino não lhe concederia a graça de um triunfo total. Um terrível solavanco sacudiu o barco. Larry perdeu o apoio e voou em direção a terra, caindo quase aos pés dos nativos paralisados de susto.
O capim reduziu a força do impacto. Larry levantou-se, meio tonto. Não muito longe dele Ron também se levantou. Ainda segurava a linha.
O barco estava tombado, meio de lado, cinco metros terra adentro. Não sofrerá nada, mas cavara um rego profundo, que se enchia lentamente de água.
Do lidioque não se via mais nada. A poucos metros da praia, a linha desaparecia na água. Ron contemplou-a e disse em tom decepcionado:
Achei que pudéssemos trazê-lo para mais perto.
Larry sacudiu a cabeça.
Diga com toda sinceridade: o senhor realmente não entende nada de lidioques? — perguntou.
Ron riu.
Entendo pouco — respondeu. — O pessoal na Terra pensava que talvez pudesse encontrar-me com um lidioque, motivo por que me ensinaram algo a seu respeito num curso hipnótico.
Esforçou-se para puxar a linha. Saiu um pouco da água, mas logo se entesou. O capitão não tinha forças para puxá-la.
Está bem — disse Ron. — Amarraremos três ou quatro barcos. Acho que dessa forma conseguiremos.
Pretende trazê-lo para a terra? Ron fez um gesto afirmativo.
Foi para isso que tive todo esse trabalho. Sabia que nós o perderíamos, se o matássemos muito longe da costa. Teríamos de cortar a linha ou então seríamos arrastados para o fundo por ele. Procurei segui-lo, e consegui. Aliás, o senhor é um ótimo barqueiro.
Obrigado — respondeu Larry em tom seco. — Gostaria de saber...
Foi interrompido pelos ghameses, que haviam despertado de seu torpor e começavam a cantar e pular de alegria. Formaram um círculo em torno dos dois terranos e executaram uma espécie de dança eufórica. Seus cantos não eram muito belos, mas percebia-se que veneravam os homens brancos por seu ato de bravura.
Ron Landry, que parecia querer estourar de impaciência, suportou tranqüilamente o cerimonial. Agachou-se no capim e, vez por outra, fazia um gesto amável para os ghameses que dançavam em torno dele. Sabia que não havia nada pior para um desses homens-peixe de pele lisa do que ser interrompido numa atividade dessas.
Antes que os ghameses chegassem à conclusão de que haviam dado suficiente vazão ao seu entusiasmo, mais de uma hora se passou. O círculo dissolveu-se, homens e mulheres de pele marrom voltaram ao trabalho, e Ron disse, enquanto se levantava:
Acho que um gole de bebida me faria muito bem.
Foram ao gabinete de Larry. Este encheu o copo que Ron deixara no peitoril da janela, quando do aparecimento do lidioque. Fizeram um brinde. Ron esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas nesse instante Zatok surgiu à porta.
Olá, amigo! — disse Ron na língua dos nativos. — Fico muito satisfeito em vê-lo. O que é que o traz à nossa presença?
Zatok assumiu um comportamento diferente daquele que Larry estava acostumado a ver. Conhecia-o há mais de um ano. Fora um dos primeiros ghameses que se mostrara disposto a viver com os terranos em Killanak e ajudá-los na construção do posto. Larry acreditava que conhecia todos os traços da personalidade de Zatok. Sendo assim, teve certeza de que jamais se comportara da forma que agora estava se comportando.
Parecia envergonhado. Estava de olhos baixos e, apesar das palavras amáveis de Ron, não disse nada. Depois de algum tempo aproximou-se um passo. Dali a mais um minuto levantou a cabeça e fitou primeiro Larry e depois Ron.
Meus amigos — principiou em voz baixa. — Vocês nos prestaram um grande serviço. Ficamos-lhes muito gratos por terem matado o lidioque malvado, e queremos demonstrar nossa gratidão. Sabemos uma coisa que, segundo acreditamos, vocês também gostariam de saber. Vou contar.
Trata-se de cinco pessoas de sua raça...”
6



Cargueiro Empress of Arkon para retransmissora XIV:

Amostra recuperada. Novas informações. Desligo.

Retransmissora XIV para cargueiro Empress of Arkon:

Decolem imediatamente. Desligo.

* * *

A primeira coisa que Richard Silligan sentiu ao despertar foi a consciência do tremendo fedor que o cercava. Abriu os olhos. Bem acima de sua cabeça havia uma luz amarela fumegante.
A memória foi retornando lentamente. De início lembrou-se do barco espacial. Tentaram pousar em Ghama. Haviam sido derrubados. Caíram ao mar e...
Ah, sim, fomos recolhidos pelo submarino”, recordava-se Silligan. “Lyn Trenton disse certas tolices. Os ghameses soltaram um gás no interior do barco, e nos deixaram inconscientes... E depois?
Richard Silligan não tinha a menor idéia de onde se encontrava. À sua direita e à sua esquerda as paredes de pedra subiam verticalmente, e a lâmpada estava pendurada pelo menos a sete metros de altura.
Richard ergueu-se lentamente. À pequena distância do lugar em que se encontrava viu quatro corpos imóveis no chão.
Fomos trazidos para cá, e estou sendo o primeiro a despertar do estado de inconsciência”, concluiu mentalmente.
Richard pôs-se de pé. Já se sentia melhor e, o que era o principal, estava curioso. Lembrava-se de que o ghamês com o qual se haviam encontrado no barco — seu nome era Gherek — dissera que os levaria “à cidade”. Os ghameses eram homens aquáticos. Parte dos seus núcleos populacionais — quase sua totalidade — ficava embaixo da água, geralmente perto da costa de uma ilha, o que lhes permitia o abastecimento de ar por meio de um poço que saía de terra firme.
Richard perguntou a si mesmo se o recinto em que se encontrava pertencia a uma cidade submarina desse tipo. Descobriu que seu formato era quase perfeitamente circular, tinha um diâmetro de cerca de seis metros e não tinha porta.
Se houver qualquer saída, deve ser por cima”, pensou.
Richard inclinou a cabeça para trás e fitou a lâmpada.
Sentiu-se tomado pelo desânimo. Como poderiam subir ali? Se dispusessem de armas, talvez pudessem abrir uma saída. Mas do jeito como estavam as coisas...
Algo mexeu-se com um leve ruído. Richard virou-se abruptamente. Um dos corpos começara a mover-se. Alguém gemeu, e Richard reconheceu a voz de Ez Rykher. Ajoelhou-se a seu lado, para ajudá-lo a levantar-se.
Rykher levantou-se com uma espantosa rapidez.
Caramba, como me sinto mal! — exclamou com um gemido. — O que fizeram conosco?
Richard segurou-o por baixo dos braços, pois começou a cambalear.
Deixaram-nos inconscientes — respondeu. — Usaram algum gás. O efeito cessa depois de alguns minutos.
Agüentava-se valentemente. Era o mais velho do grupo, mas até então fora o que tivera as melhores idéias.
Se Lyn Trenton seguisse seu exemplo, os outros teriam mais respeito por ele”, pensou Richard.
Por onde se sai daqui? — perguntou Ez.
Por lugar nenhum — respondeu Richard. — Só se for lá em cima.
Ez olhou para cima.
É alto — constatou num tom de decepção e resignação. — Muito alto.
Os outros foram acordando, primeiro Tony Laughlin, depois Dynah Langmuir e por fim Lyn Trenton. Este último teve de vomitar, de tão mal que se sentiu. Momentos depois aproximou-se de Richard e disse:
Andei refletindo, Dick. Acho que fiz papel de bobo. Esqueça-se disso e permita que continue a colaborar.
Richard disfarçou a surpresa com um sorriso.
Está bem — respondeu. — Comece logo. Tente saltar lá para cima, Lyn.
Trenton olhou para o teto. Até então todos haviam fitado a lâmpada, mas ninguém teve qualquer idéia sobre a maneira de aproveitá-la para encontrar uma saída.
Lyn Trenton fitou-a prolongadamente e, quando baixou os olhos, parecia que tivera uma idéia.
Qual é o material de que são feitos nossos trajes? — perguntou.
Qual é exatamente a informação que quer receber? — perguntou Richard por sua vez. — Está interessado na composição química? Não a conheço. Só posso dizer que os trajes são de plástico.
O plástico pode ser rasgado?
Nunca. O material só pode ser rompido com uma boa faca.
Será que o senhor tem uma?
Devo ter... — disse Richard.
Pôs-se a revirar os bolsos e finalmente tirou um pequeno canivete. A grande faca dobrável, pertencente ao equipamento dos trajes, fora tirada pelos ghameses, mas estes provavelmente acharam que o canivete não teria grande importância.
Lyn Trenton apontou para cima.
Essa lâmpada está presa por alguma coisa — disse. — Uma corda ou coisa que o valha. Se também tivéssemos uma corda, poderíamos amarrar-lhe um objeto pesado e atirá-la para cima. Se tivermos sorte, a corda ficará presa em alguma coisa, e se tivermos mais sorte ainda, a corda em que está pendurada a lâmpada será bastante forte para que possamos subir até o teto.
Richard meneou a cabeça. Não tinha a impressão de que o projeto tivesse muita possibilidade de sucesso. De qualquer maneira, porém, uma chance mínima sempre era melhor que nenhuma.
Vamos tentar — decidiu. Todos haviam compreendido o plano de Lyn Trenton. Puseram-se a trabalhar com o maior zelo. Acontece que havia um único canivete, e cada um tinha que identificar em seu traje aquilo que poderia ser mais útil para a fabricação de uma corda.
Antes tiraram algumas peças de suas roupas de passeio. Ez Rykher, uma suéter tricotada e uma camisa. Tony Laughlin, apenas uma camisa. Dynah Langmuir não podia oferecer muita coisa, a não ser que quisesse desnudar-se, mas em compensação, para surpresa geral, sabia fazer nós de marinheiro — uma raridade! — que exigiam pouco material e agüentavam muito peso. As peças reunidas foram transformadas numa corda, que já tinha quatro metros de comprimento. O resto teria de ser feito com o tecido dos trajes espaciais. Se não conseguissem, todo o trabalho seria em vão.
Richard Silligan já se havia livrado do seu traje espacial e começou a trabalhá-lo nos lugares onde esperava obter êxito, ou seja, nos bolsos soldados na face externa, que não pertenciam ao envoltório e se destinavam à guarda de objetos. Tais bolsos podiam enfrentar, sem riscos, as condições reinantes no espaço. Por algum tempo Richard esforçou-se em vão. Momentos depois descobriu como poderia abrir a solda. Bastaria mover a lâmina do canivete rapidamente de um lado para outro, a fim de produzir calor.
Levou meia hora para retirar o bolso, e este não tinha mais de vinte centímetros de comprimento, o que não chegava a representar nem a vigésima parte daquilo que ainda precisavam.
Mas não desanimaram. Richard passou o canivete para Ez Rykher, e o velho Ez provou que sabia lidar com um instrumento tão primitivo.
Passada uma hora e meia, o comprimento da corda fora aumentado em mais oitenta centímetros.
Conseguiam adiantar o serviço, e isso os estimulava.
Depois de algumas longas horas de trabalho estafante, a corda ficou pronta. Para dar peso à mesma, Ez Rykher entregou uma das suas botas. Não permitiu que o privassem desse privilégio. Usou o seguinte argumento:
Alguém de vocês já andou descalço, seus novatos? Ninguém! Pois saibam que eu ando durante alguns meses, todo verão. Então...
Experimentaram a corda. Richard e Lyn Trenton puxaram de um lado e Tony e Ez do outro. Os nós feitos por Dynah agüentaram. Se a corda que prendia a lâmpada fosse tão firme quanto esta, nada lhes poderia acontecer durante a subida. Começaram a arremessar a corda. Se acreditavam que o pior do serviço tinha ficado para trás, logo tiveram de retificar seu julgamento. Levaram algum tempo para descobrir a força exata para o arremesso. Às vezes, a bota batia fortemente contra a lâmpada, cuja parte inferior parecia ser de metal, e a chama começava a bruxulear. Quando isso acontecia, retinham a respiração, pois se a lâmpada se apagasse poderiam desistir dos seus esforços.
Seus braços já estavam doendo, quando pela primeira vez a bota bateu num obstáculo situado acima da lâmpada. Viram a bota dar uma volta, depois que a corda chocara-se contra alguma coisa. Ez começou a gritar de alegria. Mas a bota, instantes depois, caiu. Ez calou-se e Dynah começou a chorar.
Apesar disso, aquilo representara um grande progresso. Já sabiam que em cima da lâmpada havia alguma coisa, e que lhes bastava desenvolver uma técnica de arremesso apropriada para que a corda, em cuja ponta estava presa a bota, se enrolasse duas ou três vezes em torno da outra que sustentava a lâmpada.
Vamos fazer uma pausa — decidiu
Richard. — Acho que todos estão precisando.
Está bem — disse Ez Rykher, em tom zangado. — Mas antes disso vou fazer mais uma experiência. Quero que o diabo carregue essa lâmpada, se...
Ainda possuído pela fúria, pegou a corda segurando-a cerca de um metro atrás da bota, esticou o braço direito para cima e passou a girá-la algumas vezes, até que desenvolvesse a velocidade adequada. Depois, levantou a cabeça, soltou a corda e deixou que a bota se dirigisse ao objetivo.
Richard viu-a passar pela lâmpada e desaparecer na escuridão. Teve a impressão de que ouvira um ligeiro arranhão, mas não deu maior atenção ao fato. Continuou a olhar para o alto e procurou descobrir o lugar em que a bota voltaria a cair.
De repente Ez Rykher soltou um grito furioso, que não combinava com sua idade nem com seu gênio:
Ficou presa por lá! Conseguimos!

* * *

Já não havia tempo para fazer uma pausa. Richard afastou aqueles que se mostravam ansiosos para pegar na corda. Já que se prendera em algum lugar, devia-se procurar entesá-la cautelosamente.
Richard começou a puxar com uma das mãos, assegurando-se de que a corda encontrava-se presa em seu suporte. Parecia estar firme, pois não cedeu, nem mesmo quando Richard puxou-a com toda força, usando as duas mãos. Finalmente Richard saltou, segurou a corda, dois metros e meio acima do solo, e balançou-se por algum tempo. Não aconteceu nada.
A corda estava, de fato, bem firme.
Richard fez questão de ser o primeiro a subir. Resolveu que o próximo seria Tony Laughlin. Havia um motivo para isso. Se lá em cima fossem surpreendidos pelos ghameses, precisariam de punhos firmes e bem treinados para defender-se. E os punhos mais bem treinados eram justamente os seus e os de Tony Laughlin.
Ele achava que os primeiros três metros seriam uma brincadeira, pois os nós feitos por Dynah agüentavam muito bem. Depois de algum tempo, os braços começaram a doer bastante. A fim de descansá-los por uns instantes, buscou apoiar-se com os pés num dos nós. Depois, prosseguiu na escalada.
Finalmente viu-se a pouca distância da lâmpada. Notou que acima dela as paredes do calabouço se fechavam de repente, deixando uma abertura de cerca de um metro. A abertura estava escura. Richard não conseguiu ver o que havia atrás da mesma.
Não haveria maiores dificuldades em passar pela lâmpada. Esta consistia numa roda metálica de um metro de diâmetro. Quatro travessas corriam da periferia para o centro, onde ficava a chama. Richard viu um pavio que saía de uma massa gordurenta.
Conseguiu subir à borda da roda e agarrar a corrente que segurava a lâmpada. Descansou um pouco, enquanto a lâmpada balançava violentamente sob o peso de seu corpo. Finalmente segurou os grossos elos da corrente e foi-se puxando para cima.
Quando atingiu o lugar em que a corda, arrastada pela bota, prendera-se em torno da corrente, quase se sentiu abandonado pelas forças. A bota só dera três quartos de volta na corrente, e o que havia sustentado Richard fora apenas a pressão da corda, que sob o peso de seu corpo se comprimira contra o bico do calçado. Richard sentiu tonturas ao pensar o que poderia ter acontecido se a corda tivesse passado por cima do bico da bota. A queda teria sido muito perigosa.
Soltou a corda, passou-a algumas vezes em torno do pescoço, juntamente com a bota, e subiu o pedaço que o separava da abertura superior. Não teve a menor dificuldade em atirar-se para cima da borda da abertura. Mas quando sentiu a pedra firme embaixo de si, as forças abandonaram-no por algum tempo. Deitou e esperou que o corpo se libertasse da rigidez provocada pela tensão dos músculos.
Depois voltou a prender a corda, de tal forma que Tony Laughlin poderia subir sem receio. Tony galgou-a rapidamente, seguido por Ez. Finalmente Lyn e Dynah foram içados sem dificuldades.
O recinto que ficava acima da abertura possuía o mesmo diâmetro do calabouço em que até então tinham estado presos, mas era muito mais baixo.
Antes que Dynah desamarrasse a corda, Richard Silligan pôs-se a revistar as paredes. Não precisou esforçar-se muito para descobrir uma porta. Não se haviam dado ao trabalho de camuflá-la. Sem dúvida, os ghameses pensavam que o calabouço era absolutamente seguro.
A porta estava presa a três gonzos de madeira de tamanho grotesco. Possuía um trinco simples, que decerto funcionava por fora da mesma forma que por dentro. Richard levantou cautelosamente o trinco e procurou movê-lo. A porta girou nos gonzos. Fechou-a apressadamente e colocou o trinco. Resolveu esperar até que os outros estivessem prontos para iniciar a marcha.
Por um instante Richard sentiu-se tomado de profundo desânimo. A cidade ficava sob a água, muito abaixo do nível do mar. Havia comportas pelas quais se podia sair dali, e para um ghamês não haveria a menor dificuldade em nadar até a superfície, sem precisar de qualquer auxílio. Também poderia utilizar um barco, se o preferisse por uma questão de comodidade. Acontece que os terranos só poderiam utilizar este último meio, pois não estavam em condições de vencer a nado uma camada de algumas centenas de metros de água. Isso significava que teriam de furtar um barco dos ghameses, e aprender a manejá-lo, antes que estes iniciassem a perseguição. Teve a impressão de que nunca seriam capazes disso.
Havia uma terceira possibilidade. Poderiam usar as galerias de ar, que ligavam a cidade com a superfície. Os ghameses respiravam tanto pelos pulmões como pelas guelras, mas preferiam viver num ambiente gasoso. Mas Richard teve suas dúvidas de que esse caminho fosse utilizável. Provavelmente as galerias de ar subiam verticalmente e não deviam ter qualquer dispositivo que permitisse galgá-las.
Quando todos estavam reunidos atrás dele, abriu cautelosamente a porta, que rangeu terrivelmente. Richard aguardou um instante, pois receava que lá fora alguém tivesse ouvido o ranger.
Mas logo viu o que havia do lado de fora, e o quadro que se lhe ofereceu fez com que abandonasse todas as cautelas.
Viu uma rua inundada por uma penumbra esverdeada, que subia suavemente da esquerda para a direita. A poucos metros do lugar em que se encontrava, bem à sua frente, notou o crânio horrível de um gigantesco monstro marinho, que o fitava com uma expressão curiosa e, como se a visão de um ser humano tivesse aguçado seu apetite, abriu uma tremenda bocarra.
Richard passou pela porta, seguiu para a direita e num gesto instintivo atirou-se ao chão. O monstro iniciou o ataque e aproximou-se velozmente.

* * *

Dynah soltou um grito estridente e, no mesmo instante, um forte estrondo encheu a rua estreita. Richard rolou para o lado e viu que o peixe horrível se afastava, desaparecendo tranqüilamente mar adentro.
Richard levantou-se.
Não sei... O mar! Que diabo!”, pensava assustado. “Como é que a rua estava seca, se do outro lado nadava um peixe?
De repente Rykher começou a rir à sua maneira peculiar.
Isso é uma brincadeira, Dick! — exclamou. — O peixe brincou conosco. Sabia que ali existe uma parede de vidro, mas nós não sabíamos.
Richard atravessou a rua lentamente, como se estivesse num transe. Estendeu os braços, e só percebeu a presença do vidro, quando tocou-o.
O vidro era de um tipo que Richard nunca vira. Totalmente transparente, e não produzia qualquer reflexo. Não havia a menor possibilidade de vê-lo. Era o material ideal para a construção de janelas, e os ghameses já haviam percebido isso. A janela pela qual Richard Silligan e seus companheiros contemplavam as profundezas do mar tinha o comprimento da rua, ou ao menos do trecho que podiam abranger com a vista.
Pouco acima de suas cabeças havia um teto de pedra, que chegava até a parede de vidro. A rua, uma ladeira, descrevia uma curva para a direita fechando-se à vista pouco adiante. A parede junto à qual ficava era de pedra e apresentava a intervalos irregulares uma série de portas.
Era uma visão estranha e... medonha!
Nenhum deles jamais havia visto nada semelhante. De repente deram-se conta de uma coisa que, até então, ainda não lhes tocara a consciência. Encontravam-se num lugar em que jamais homem algum havia posto os pés, algumas centenas de metros abaixo da superfície de um mar desconhecido, numa rua de uma cidade também desconhecida, onde viviam estranhos seres.
Richard teve a impressão de que uma ameaça silenciosa saía daquelas paredes de pedra. Esperava que, a qualquer momento, uma das portas se abrisse e dela surgisse uma horda de ghameses hostis. Mas não aconteceu nada. A rua continuava silenciosa.
Teve a idéia de que isso talvez tivesse algo a ver com o gigantesco peixe que conseguira enganá-lo. Sabia que nos mares de Ghama existiam monstros que infundiam pânico aos habitantes do planeta. Na opinião de Richard, era possível que os ghameses tivessem fugido assim que apareceu o peixe. Por isso, esse trecho de rua estava vazio.
Precisamos prosseguir”, pensou Richard. “Não podemos ficar parados por aqui.”
Sentiu-se nervoso e os outros também deviam estar.
Vamos andando — disse Richard, fazendo um tremendo esforço para parecer ativo e arrojado. — Temos que continuar. Em algum lugar haveremos de encontrar uma comporta e um barco.
Caminhava à frente dos outros. Esperava que, uma vez atingida a curva, teria uma visão melhor da rua, mas essa esperança não se concretizou. Não havia uma única curva. A estrada era sinuosa em toda sua extensão. O ponto a partir do qual não se via mais nada ficava a quinze ou vinte metros de distância.
Caminharam durante quinze minutos, quando sentiram pela primeira vez que não estavam acostumados ao ar que respiravam depois de terem abandonado sua prisão. Já não se importavam com o cheiro de peixe e óleo de peixe. Mas o ar continha pouco oxigênio. O suor porejava por todo o corpo e, vez por outra, tinham que descansar até que a tontura passasse.
Às vezes, Richard tinha a impressão de ouvir ruídos, vindos de cima. Parava e aguçava o ouvido. Mas por fim concluía que ele se enganara. Continuava tudo em silêncio; o único ruído eram seus passos arrastados.
Do lado esquerdo da rua, as janelas compridas enfileiravam-se uma ao lado da outra. Seus vidros deviam ser bem espessos, pois só assim resistiriam à terrível pressão da água. Mas apesar disso não deformavam a visão das coisas. Eram interrompidas apenas por alguns trechos de rocha maciça. A rua prosseguia numa série de curvas. Nas massas de rocha que acompanhavam os fugitivos, continuavam a surgir, do lado direito, pesadas portas. Richard teve vontade de abrir uma delas para ver o que havia atrás da mesma. Mas sentiu que seria mais importante prosseguir na marcha, a fim de encontrar um caminho que os levasse para fora da cidade.
Depois de meia hora de marcha tiveram a impressão de que a rua já devia ter descrito um círculo completo, talvez mais.
Aquela cidade de construção tão estranha parecia ter o formato de uma torre de Babel! A rua corria em espiral na parede externa da torre!
Dali a alguns minutos, a parede junto à qual corria a rua modificou seu aspecto. Da direita surgiram, de repente, outras janelas, menores que as que separavam a cidade do mar e sem o brilho maravilhoso daquelas, mas ainda com suficiente transparência para mostrar algumas salas.
Em todos esses compartimentos havia uma confusão tremenda de coisas que Richard e seus companheiros não conheciam e que já pareciam estar guardadas ali há bastante tempo.
Finalmente a rua alargou-se e o teto tornou-se mais alto. Richard passou a caminhar mais devagar. Quando viu à sua frente haver uma espécie de praça que bem à direita penetrava na estrutura propriamente dita da cidade, uma sensação de perigo próximo apossou-se dele. A tal praça estava completamente vazia. Vinda do mar, uma luz mortiça iluminava-a o bastante para que Richard pudesse enxergar até a extremidade oposta, onde a praça voltava a estreitar-se e tomar a mesma largura da rua.
Richard encostou-se à parede do lado direito. A mesma dava-lhe uma sensação de segurança. Por nada deste mundo teria atravessado o centro da praça, embora com isso pudesse poupar bastante tempo. Seus companheiros tiveram idêntica sensação. Lyn Trenton observou:
Não sei por que, mas isto não me cheira muito bem. Aposto que esses caras estão por perto, observando-nos.
Richard teria preferido que ele não tivesse dito isso. Era quase exatamente a mesma coisa que ele receava; mas, por causa de Dynah, Trenton deveria ter calado a boca. Richard virará a cabeça várias vezes para olhar a moça. Estava quase totalmente exausta, tanto física como psiquicamente.
Richard ficou parado, deixou que Ez e Tony passassem por ele e caminhou ao lado de Dynah.
Se quiser, podemos fazer uma pausa — sugeriu.
A moça balançou a cabeça, com uma violência excessiva, segundo lhe parecia.
Por minha causa não — respondeu em tom obstinado. — Ainda agüento um bom pedaço.
Ez, que caminhava na ponta, andou mais depressa que Richard. Aquele lugar infundia pavor e queria deixá-lo para trás o mais cedo possível. Dali a cinco minutos atingiram o centro da praça.
Falta pouco! — disse Ez em tom consolador. — Ficarei satisfeito quando...
Não pôde prosseguir.
Naquele instante aconteceu...
Portas abriram-se. Os gonzos gemeram. Os pés descalços bateram ruidosamente no solo. Bandos de pequenos ghameses saíram da parede! Não disseram uma palavra. Trabalhavam de acordo com um esquema minucioso. Os que surgiram da parede à frente dos terranos ocuparam a entrada da rua que ficava à frente dos terranos, enquanto os outros guarneceram a que ficara para trás.
Richard e seus companheiros estavam cercados.
Subitamente o gigante surgiu em cena. Foi o último a sair de uma das portas. Usava um traje de plástico apertado. Sua mão segurava uma imponente arma de radiações. Uma enorme barba negra emoldurava seu rosto. Quando começou a falar, sua voz parecia trovejar por cima da grande praça:
Sejam bem-vindos, terranos! Vejo que não recuaram diante do trabalho de subir sozinhos. Vocês nos pouparam um bom trabalho, pois, se não tivessem vindo, teríamos de tirá-los do buraco em que estavam.
Falava em arcônida. A maneira de divertir-se à custa de suas vítimas era típica de um saltador. Não haveria necessidade da barba e da estatura gigantesca para identificá-lo como tal.
Não tinham saída. Estavam presos na praça.
Venham; vocês serão meus convidados! — disse o gigante barbudo, em tom de deboche. — Quero que se sintam muito bem nesta cidade maravilhosa. Façam de conta que estão em casa.
Richard rangeu os dentes. Notou que Ez lhe lançava um olhar indagador, e Tony, e Lyn Trenton...
Obedeçam — disse. — Procurem não criar dificuldade. Tentarei obter auxílio.
Mas de que forma poderia cumprir a promessa? Havia uma série de portas nas proximidades. Mas não sabia se conseguiria atingir uma delas antes que o saltador atirasse, e muito menos se atrás da porta encontraria um caminho por onde pudesse fugir.
De qualquer maneira, tentaria.
Ez o compreendera. Fingiu-se de indeciso e saiu caminhando, numa atitude aparentemente resignada, em direção ao saltador que os esperava. Depois de hesitar um pouco, Tony seguiu-o e finalmente Lyn.
Era o momento em que o saltador percebia o êxito que acabara de alcançar e devia reduzir sua vigilância.
E, nesse instante, Richard Silligan deu um enorme salto para o lado e começou a correr em direção à porta mais próxima.
7



Retransmissora XIV para estação Ghama:

Fornecimento chegará em trinta e quatro horas. Desligo.

Estação Ghama para retransmissora XIV:

Estava mesmo na hora. Desligo.

* * *

Não quer dizer por que “despachou” o lidioque? — perguntou Larry.
Devia ser a décima vez que fazia a pergunta nos últimos quatro dias.
Ron continuou sério; balançou a cabeça.
Não — disse em tom seco.
Por quê?
Meu Deus — disse Ron com um suspiro. — Eu já lhe expliquei cem vezes. Se uma pessoa sabe, isso é melhor e menos perigoso que quando duas pessoas sabem. Será que isso ainda não passou pela sua cabeça?
Não — respondeu Larry com o mesmo laconismo.
Depois de algum tempo acrescentou:
Espero que tenha um motivo bastante sério.
Ron acenou com a cabeça. Foi sua única reação. Ao que parecia, estava pensando em outra coisa.
Larry foi até a janela, olhou para fora e perguntou-se quanto tempo ainda teria de esperar até que acontecesse alguma coisa. Fazia cinco dias que tinham abatido o lidioque, cinco longos dias de Ghama com suas cinqüenta e duas horas terranas. Há cinco dias Zatok confessara que gente de sua raça recolhera os cinco terranos caídos na nave auxiliar num submarino e, por ordem dos saltadores, os levara para uma de suas cidades, submarinas. Fazia cinco dias que sabiam que esta pobre gente era mantida prisioneira na cidade de Guluch, situada junto à ilha de Tarik, a uns quinhentos quilômetros de Killanak. E nada fora feito nesses cinco dias, nada que pudesse levar à libertação dos prisioneiros.
Na manhã do dia da caça ao lidioque, o gigantesco cadáver desapareceu, e com ele o vulto metálico brilhante da Empress of Arkon. Ron Landry declarou com um sorriso matreiro que enviara o cadáver à Terra, para servir de modelo zoológico. Larry não acreditou em nada do que ouviu. E, depois de algum tempo, Ron não fez mais questão de afirmar que estava dizendo a verdade. É claro que também não gastou palavras para esclarecer sua maneira de agir.
Larry suspirou. Lembrou-se do que lhe fora ensinado, quando se candidatou a um cargo no Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento. Na época era cadete da Academia Espacial, e o comandante da academia lhe dera a entender que se precisava de gente do seu tipo para “ajudar o desenvolvimento”. Também gastara algumas palavras para explicar que a organização não servia apenas ao desenvolvimento. Larry sentiu-se um tanto perplexo, especialmente ao recordar-se de que a lembrança dessa palestra seria apagada em sua memória por meio de um bloqueio hipnótico, caso resolvesse não seguir a sugestão do comandante. Acontece que aceitou a sugestão, não porque tivesse medo do choque hipnótico, mas porque a ajuda para o desenvolvimento, que na verdade não era nada disso, exercia um encanto misterioso sobre ele. Fora aceito, e passara por um duro treinamento.
Uma vez concluído o treinamento, foi transferido para a Divisão III, que era exatamente o lugar em que se faziam os negócios que nada tinham a ver com o auxílio para o desenvolvimento, quer fosse social ou intercósmico.
Larry Randall não demorou a compreender que fora parar no serviço secreto mais duro e eficiente. Perry Rhodan em pessoa, Administrador do Império Solar, um homem solitário nos píncaros da fama, servira de padrinho por ocasião do batismo da Divisão III. Esta constituía seu instrumento pessoal, e por certo não era menos eficaz que o legendário Exército de Mutantes, embora fosse muito menos conhecida do público.
A divisa, que Larry rememorou naquele instante, fora tirada de um velho provérbio: “Não deixe que a mão esquerda saiba o que a direita está fazendo.”
Que diabo!”, pensou. “Parece que neste momento eu sou a mão esquerda!”

* * *

Haviam dormido mais uma noite. Enquanto estavam tomando café, Ron deu uma olhada para o relógio e disse:
Acabe de comer o ovo; depois iremos embora.
A comida ficou atravessada na garganta de Larry.
Embora? Para onde? — perguntou. Ron riu.
Ora esta! Ele quer saber para onde... Será que o senhor ainda não sabe que cinco terranos caíram sobre o planeta Ghama e são mantidos prisioneiros pelos ghameses, por ordem dos saltadores e contra todas as normas do direito galáctico?
Larry engoliu o que tinha na boca.
O senhor realmente se lembrava disso? — perguntou com uma ironia mordaz.
Ron não se importou. Ficou olhando Larry, enquanto este comia o ovo quente. Depois de algum tempo, Larry não agüentou mais a incerteza.
Afinal, aonde vamos? — perguntou.
Vamos dar um passeio de barco — respondeu Ron.
Iremos longe?
Hum... Mais ou menos.
Por quê?
Ora essa! Não faça tantas perguntas. Coma!

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