Tony
sobressaltou-se.
— Bem,
obrigado — gaguejou. — Sinto-me um pouco confuso.
Richard
fez um gesto animador. No banco situado atrás do de Tony, Ez Rykher
batia nos seus trajes, para remover uma poeira imaginária. Era um
gesto ridículo. Depois procurou verificar se Dynah estava passando
bem.
— Deixe-a
em paz! — gritou Trenton. — É bom que não tenha de assistir a
tudo.
Ez não
lhe deu atenção. Estendeu o braço e afastou Trenton. Este não
estava acostumado a tal tipo de tratamento e não reagiu, de tão
surpreso que ficou. Ez abriu o capacete de Dynah e atirou-o para
trás. Levantou a moça e deitou-a sobre o banco. Ajeitou habilmente
o capacete, transformando-o num travesseiro.
Dynah
abriu os olhos. Suas primeiras palavras davam uma impressão pouco
feminina.
— Arre!
Que fedor!
Ez soltou
uma risada de bode.
— Bem,
isto não é um salão muito nobre. Mas o lugar é seco.
Dynah
levantou-se. Ez ajudou.
— Onde
estamos? — perguntou. Ez virou a cabeça.
— Olá,
Dick! — gritou. — Dynah está perguntando onde estamos. Será que
estes nativos entendem o arcônida?
“Naturalmente
que entendem”,
pensou Richard. “Nem
sei como ainda não me lembrei disso.”
Dirigiu-se
para o ghamês que continuava encostado à parede e disse em
arcônida:
— Agradecemos
por nos ter salvo. Vocês realmente nos tiraram de um aperto.
O ghamês
sorriu.
— Eu
Gherek — respondeu. — Não agradecer. Vamos cidade. Descansar.
Depois veremos resto.
— Não
queremos ir à cidade — disse Lyn Trenton no mesmo instante, e isso
em tom um tanto áspero. — Levem-nos à base terrana.
Richard
virou-se. Tinha algumas palavras zangadas na ponta da língua. Mas
antes que pudesse pronunciá-las, Gherek respondeu:
— Não
ser possível. Precisamos ir cidade. Inimigos mandaram.
Logo
depois, deslizou junto à parede, em direção à porta. Richard
percebeu que a situação assumia um feitio desagradável. Num gesto
apressado voltou a virar a cabeça e gritou para Trenton:
— Cale a
boca, Trenton. Essa gente nos...
Trenton
levantou-se de um salto. Ao que parecia, os acontecimentos dos
últimos minutos o haviam privado do juízo. De repente já não era
o homem ponderado e tranqüilo que aparentava ser.
— Eu
lhes mostrarei — gritou em arcônida, interrompendo Richard em meio
à frase. — Vocês aprenderão a quem devem obedecer. Queremos ir à
nossa base, não à cidade suja de vocês. Vamos...
Pôs a mão
no cinto. Todo traje espacial vinha acompanhado de uma pequena arma
de radiações. Evidentemente Trenton queria usar a arma para
intimidar o ghamês e obrigá-lo a cumprir suas ordens.
Lyn
Trenton foi o primeiro a descobrir que já não possuíam armas.
*
* *
— Tiraram-nos
as armas — gaguejou Trenton, parecendo que ia desmaiar de susto.
Richard
levantou-se de um salto. Instintivamente compreendeu o perigo em que
se encontravam. Teria de apoderar-se de Gherek, pois já que os
ghameses lhes haviam tirado as armas, precisava de um refém.
Mas Gherek
compreendera a situação. Antes que Richard saltasse por cima do
banco que se encontrava à sua frente, a porta abriu-se. Por uma
fração de segundo, Richard viu um pequeno recinto repleto de
estranhos equipamentos. O recinto estava bem iluminado. Dois outros
ghameses levantaram os olhos, espantados, para ver o que estava
acontecendo atrás deles.
A porta
fechou-se ruidosamente e Gherek desapareceu. Richard atirou-se com
toda a força contra a porta de madeira. Mas esta era muito sólida.
A única coisa que conseguiu foi uma dor lancinante no ombro direito.
— Tony,
Ez, Trenton, venham cá! — chamou. — Precisamos arrombar isto
antes que eles...
Não
completou a frase. Todos sabiam o que estava em jogo. Uniram suas
forças e investiram contra a porta. Depois de cinco investidas
tiveram a impressão de que, com o tempo, poderiam conseguir alguma
coisa. Atrás da porta tudo continuava em silêncio.
Subitamente
Richard ouviu um chiado.
— Silêncio!
— ordenou.
Ficaram
parados e aguçaram o ouvido. O chiado vinha de todos os lados. Em
alguns pontos da parede era mais nítido. Richard encontrou um
minúsculo furo. Passou saliva sobre o tal furo e viu que surgiram
bolhas.
Richard
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas sentiu que suas pernas
começavam a ceder. De repente teve a impressão de observar o teto
do recinto bem de longe. Ouviu Tony soltar um grito, mas esse grito
parecia vir de uma distância enorme.
Richard
caiu pesadamente. Quase não o sentiu. Teve a impressão de que, de
repente, o barco empinava violentamente. Logo depois desmaiou.
*
* *
Larry
estava indeciso.
— Não
entendo nada de estratégia diplomática — confessou. — O senhor
acredita que agiu acertadamente ao dizer tudo para Alboolal?
Ron estava
parado junto à janela, com o copo na mão.
— O
senhor acredita que alguma vez já conseguimos iludir os saltadores?
— perguntou com uma risada. — Desde o momento em que eles
derrubaram nosso barco espacial, sentiam-se como gato sobre brasa. E
quando viram a nave de abastecimento chegar, cinco dias antes da data
prevista, compreenderam que sua hora havia soado. Alboolal só entrou
nesta sala para ver quem era o homem enviado pelo planeta Terra.
Afastou-se
da janela e descansou ruidosamente o copo.
— Bem,
meu caro, Alboolal sabe a quantas anda comigo. O que não sabe, e
espero que nunca saiba, é como pretendemos agir. As precauções
adotadas até aqui só dizem respeito aos ghameses. Os nativos não
devem desconfiar de que estamos prestes a esquentar as caldeiras do
inferno para os saltadores.
Larry
passou as mãos pelo cabelo.
— Santo
Deus! — exclamou em tom de desespero. — Bem que eu gostaria de
saber como ajudar os náufragos. O senhor acredita que ainda estão
vivos?
Ron
refletiu.
— Existem
três possibilidades — respondeu. — Podem ter morrido por ocasião
do impacto, ou talvez tenham ficado tão feridos que não puderam
fazer mais nada e desceram ao fundo do mar. Ainda podem ter resistido
ao impacto, mas ter sido devorados por um daqueles monstros
apavorantes.
Mostrava
os dentes alvos, num sorriso largo, quando Larry interrompeu-o um
tanto contrariado:
— Ria à
vontade, Ron. Um belo dia o senhor verá um lidioque, e então
perderá a vontade de rir.
Ron
assentiu com a cabeça, sempre rindo.
— Está
certo — disse. — A terceira possibilidade é a seguinte: podem
ter resistido ao impacto e não terem sido devorados por qualquer
lidioque. Suponho que o barco espacial os tenha arrastado ao menos a
uns duzentos ou trezentos metros abaixo do nível do mar. Antes que
conseguissem voltar à superfície e começar a nadar, os ghameses,
talvez, os resgataram e, sem dúvida, irão entregá-los aos
saltadores, antes de pensar em entregá-los a nós.
— Quer
dizer que neste caso estarão presos.
— Exatamente.
Há duas horas a Empress of Arkon recebeu a mensagem “todas
as xícaras no armário”.
Isto significa que a frota está a postos e pronta para apoiar-nos
caso haja um conflito declarado. Hoje de noite faremos uma visita ao
acampamento dos saltadores para ver o que está acontecendo por lá.
Bem que gostaria de topar com o tal do Alboolal nessa oportunidade...
Voltou a virar a cabeça e olhou para a praia que se estendia junto à
pequena casa. As ondas quase atingiam os alicerces da casa.
— Quando
há uma tempestade por aqui, o que o senhor costuma fazer? —
perguntou.
— Nada —
respondeu Larry em tom indiferente. — Por aqui não há
tempestades. O clima é bastante equilibrado. Às condições
atmosféricas de Ghama são uma das coisas mais tediosas de toda a
Galáxia.
Ron soltou
uma risada.
— Tome
cuidado para que nenhuma agência de turismo terrana fique sabendo
disso. O mundo com a garantia total de tempo bom, ou coisa
semelhante... Já posso imaginar...
Interrompeu-se
e aguçou o ouvido.
Gritos!
Também
Larry teve sua atenção despertada para os mesmos. Som de pés
descalços pelo corredor! Um nativo avisou, com a voz aguda e
queixosa:
— Liiidioooque...
No mesmo
instante, Larry correu para a porta.
— Um
lidioque! — exclamou. — Um lidioque aproxima-se da ilha!
Ron deu um
salto gigantesco por sobre a mesa que se interpunha em seu caminho.
Larry já se encontrava no corredor. Ron correu atrás dele e gritou:
— Prepare
seu barco! Nossa oportunidade chegou!
*
* *
O mar
estava manso como sempre. O único sinal de perigo era o grupo de
nativos assustados, que se comprimiam junto a uma parede do depósito
que ficava um tanto afastada da água. Vez por outra a cabeça de
algum dos ghameses aparecia atrás da parede, a fim de dar uma olhada
em direção ao mar. Geralmente voltava ao abrigo, depois de dois ou
três segundos.
Larry e
Ron correram em direção ao barco.
— O
senhor tem um anzol bem resistente? — gritou Ron, enquanto corriam.
Larry
fitou-o com os olhos arregalados.
— Será
que o senhor não está bem da bola? Quer pegar um lidioque com um
anzol?
Ron
sorriu. Era um sorriso juvenil e petulante.
“Ele
nem imagina o que tem pela frente”,
pensou Larry.
— Com um
anzol, um pouco de habilidade e isto — disse Ron com uma risada, e
batendo ruidosamente na arma de radiações que trazia no cinto.
Atingiram
o barco e com um forte empurrão colocaram-no na água. Larry saltou
habilmente para dentro do mesmo. Mas Ron, que não era tão versado
nisso, perdeu a oportunidade. O barco já balançava a uns dois
metros da praia, e ele ainda se encontrava em terra firme.
Mas não
se importou com isso. Gritou para Larry:
— Abaixe-se!
Tomou
distância e saltou. O impulso fê-lo passar pouco acima da água.
Caiu no barco com tamanha violência, que Larry por pouco não foi
atirado à água. Conseguiu segurar-se no costado e lançou um olhar
recriminador para Ron.
— O
senhor sempre costuma entrar assim num barco? — perguntou.
— Só
quando o anfitrião não pode proporcionar-me o luxo de um passadiço
— respondeu Ron. — Onde está o anzol?
— Aqui —
disse Larry e retirou uma caixa de plástico, debaixo do banco de
popa.
Ron
abriu-a com um gesto impaciente e contemplou por algum tempo a grossa
linha de plástico com o anzol de cerca de quinze centímetros.
— Não é
nada mau — confessou. — O que costuma pescar com isto?
Espaçonaves caídas ao mar?
Larry não
respondeu. Seus olhos vagaram pelo mar, mas ainda não havia o menor
sinal do lidioque. O tal animal agia como costumam agir as criaturas
de sua espécie. Aparecia uma vez; depois desaparecia por algum
tempo. Quando voltava a aparecer, era para atacar. Parecia saber que
sua aparição metia tamanho susto nos ghameses que os transformava
em suas vítimas indefesas.
— Preciso
de uma espécie de arpão — disse Ron.
— Olhe
ali — respondeu Larry, apontando com a mão sem virar-se — que o
senhor achará. Acontece apenas que nunca encontrei ninguém que
quisesse pegar um lidioque com um anzol e um arpão.
— É
verdade; sou um exemplar único — disse Ron, com uma risada
travessa.
Pegou o
arpão e começou a prendê-lo na linha, no lugar do anzol.
— Quando
deverá aparecer esse “cara”?
— Dentro
de três ou quatro minutos — respondeu Larry. — A não ser que
tenha bolado uma tática diferente.
— Por
que é que os ghameses se escondem atrás da casa? Sempre pensei que
um lidioque fosse uma espécie de peixe. O que é que ele pode
fazer-lhes em terra firme?
— É
simples. Salta para a terra, agarra os que consegue agarrar e, no
mesmo instante, volta para a água.
— Ah!
Então é tão simples? Sempre acreditei que o lidioque tivesse o
tamanho de uma casa.
— Realmente
tem — esclareceu Larry.
— Como é
que...
Larry o
interrompeu em tom contrariado.
— Escute,
seu terrano ingênuo! Faz três meses que o último lidioque apareceu
por aqui. Saltou para a terra firme e, sem que eu pudesse fazer nada
para impedi-lo, devorou quatro dos meus ghameses. Eu me encontrava do
outro lado da ilha. Ali o senhor ainda vê o estrago causado pelo
monstro. E aqueles destroços foi tudo o que restou de um depósito.
Tal construção simplesmente ruiu com o impacto de seu peso. Será
que o senhor está com vontade de dizer mais alguma coisa?
Ficara de
costas para a água, enquanto dizia umas verdades a Ron. Este olhava
por cima de seu ombro.
— Está
bem, Larry, está bem — disse em tom apaziguador. — Não tive a
intenção de contrariá-lo. E agora, que vejo o bicho, já não
duvido de mais nada.
Larry
virou-se abruptamente. A cinqüenta metros do barco, aparecera a
barbatana principal do lidioque, que se levantava nada menos de cinco
metros acima do nível da água.
— Vá
mais para a direita! — gritou Ron.
Estava de
pé na proa do barco; sua mão esquerda segurava a pesada arma
automática, com o cano apontado para baixo.
“Quem
dera que ele me dissesse o que pretende fazer”,
pensou Larry.
Até
então, Ron só emitira ordens, e não havia como adivinhar suas
intenções. O lidioque tivera sua atenção despertada para o barco.
Parte do crânio, com seus olhos semi-esféricos de vinte centímetros
de diâmetro, surgiu acima da água. Ao que parecia, decidira não
atacar em terra firme, até descobrir o que pretendia aquele objeto
pequeno, que viera em sua direção e agora estava se desviando para
o lado.
Larry não
se sentia muito à vontade. Sabia que o lidioque e o barco
desenvolviam a mesma velocidade. Também sabia que uma pancada da
cauda robusta do lidioque bastaria para destroçar o barco e atirá-lo
para longe. Além disso, acreditava que Ron Landry não entendesse
muito da caça de lidioques, o que era o pior.
O lidioque
ficou um pouco para o lado. O barco encontrava-se na mesma altura que
ele. Se o monstro quisesse fitá-lo de frente, teria de girar o
corpo. Larry viu a uma distância de menos de trinta metros os olhos
traiçoeiros e aguados, a parte superior do crânio, larga e em forma
de testa, e a barbatana triangular, atingindo a altura de uma casa.
— Mais
rápido! — gritou Ron. — Senão acabará resolvendo outra coisa.
Larry
comprimiu a alavanca do acelerador. O lidioque girou mais um pouco.
Ao que parecia, seu interesse não era tão grande que o levasse a
acompanhar o barco. Larry sabia que dali a pouco voltaria a dirigir
sua atenção para a terra e desfecharia o ataque final.
— Faça
uma curva fechada! — gritou para Larry. — E aproxime-se por trás,
à velocidade máxima, de tal forma que passemos a um ou dois metros
da cabeça.
Larry fez
o que o capitão lhe dissera. Enquanto o barco descrevia a curva,
começou a imaginar o que Ron pretendia fazer. Também se sentiu
dominado pela febre do caçador. As dúvidas, que ainda há poucos
segundos atravessavam sua mente, já se haviam desvanecido. Imprimiu
a velocidade máxima ao barco. Este se ergueu na parte dianteira e
deu um solavanco, como se quisesse saltar sobre o monstro que se
mantinha à espreita.
Ron
dirigiu o cano da arma para cima. Os ghameses, que se encontravam em
terra firme, saíram de trás da casa. Compreenderam as intenções
dos dois “homens
brancos”.
A curiosidade superou o medo. Agachados em meio ao capim ralo que
cobria a praia, não tiravam os olhos da cena que se desenrolava
diante deles.
O lidioque
surpreendeu-se com a súbita curva que o barco descreveu. Ron
escolhera o momento exato. A distância entre o lugar onde o barco
descrevera a curva e o crânio do lidioque era suficientemente longa
para um bom impulso e suficientemente curta para que o monstro não
pudesse fazer muita coisa, antes que Ron se tivesse aproximado.
Larry
inclinou-se para a frente. Firmou os pés no chão do barco. Sabia
que, quando o lidioque começasse a enfurecer-se, precisaria de apoio
firme. Olhou Ron com admiração.
Ron estava
bem na frente, quase sobre a ponta da proa. Bastaria um pequeno
solavanco para que caísse n’água. E se isso acontecesse não
haveria ninguém que pudesse salvá-lo. Também levantou o arpão.
Fitava firmemente os olhos do lidioque, como se quisesse
hipnotizá-lo. Faltavam cinco metros! Ron soltou um grito, um grito
bárbaro e selvagem. No mesmo instante, ergueu um pouco a arma. E o
raio incandescente de energia indômita envolveu o crânio grande e
feio do monstro. A água iluminou-se, e vapores chiantes
levantaram-se da mesma.
Ron
inclinou-se para trás. Num gesto aparentemente descuidado deixou
cair a arma, indo esta parar exatamente na proa do barco. Colocou
todo o peso do corpo no arremesso do arpão. Em meio ao chiado dos
vapores, Larry ouviu um ploc
surdo. Ficou rijo de pavor ao ver que Ron estava prestes a ser
arrastado pelo impulso que ele mesmo dera ao arpão. Era ao menos o
que parecia. Mas Ron deixou-se cair tranqüilamente, até que suas
mãos fossem se aproximando do costado do barco. Apoiou-se fortemente
e atirou-se para trás. Recuperou o equilíbrio e ficou de pé.
Neste
momento, o lidioque compreendeu o que estava acontecendo. Já não
lhe restava muito tempo de vida. O disparo de Ron devia ter cavado um
profundo canal de matéria liquefeita no centro de seu crânio. Mas o
instinto, a reação inconsciente face ao ataque inesperado,
arrastou-o para a frente. Com uma última centelha de consciência,
percebera em que direção se deslocava o barco, que passara junto ao
seu crânio, e começou a segui-lo.
Larry
procurou calcar o acelerador mais um pouco, mas o motor já não
dispunha de nenhuma reserva. Viu que a nuvem de vapores, atrás da
qual se ocultava o crânio do lidioque, os seguia a dez metros. A
agonia da morte conferira tremendas energias à fera, e o barco
estaria perdido, a não ser que, dentro de alguns segundos, os
efeitos do disparo fizessem-se mortais.
Alguma
coisa roçou pela cabeça de Larry e, por pouco, não o faz perder o
equilíbrio. Era a grossa linha à qual estava preso o arpão.
Deslizando pelas mãos de Ron, ia saindo do barco. O lidioque
mantinha exatamente a mesma rota deste.
Larry
ajoelhou-se à frente do motor. Nem se lembrava de que a praia já
estava a poucos metros, e de que a atracação seria extremamente
violenta, a não ser que reduzisse a velocidade em tempo. Procurou
abrigar-se atrás do bloco do motor. O lidioque aproximava-se numa
velocidade inacreditável.
Ron gritou
alguma coisa, mas Larry não o compreendeu. Estava de olhos presos na
nuvem de vapor, que quase conseguia agarrar com as mãos. Viu o corpo
gigantesco da fera mover-se em meio ao vapor, como se fosse uma
sombra fantasmagórica.
De repente
a nuvem ficou para trás. Larry não acreditou no que seus olhos
viam. Pensou que o lidioque apenas estivesse tomando impulso. Mas a
nuvem imobilizou-se e flutuou preguiçosamente sobre a água,
enquanto o barco continuava a precipitar-se em direção à costa.
Larry
levantou-se de um salto. Pôs-se furiosamente a gritar e a
gesticular. Gritava de alegria e alívio. Mas o destino não lhe
concederia a graça de um triunfo total. Um terrível solavanco
sacudiu o barco. Larry perdeu o apoio e voou em direção a terra,
caindo quase aos pés dos nativos paralisados de susto.
O capim
reduziu a força do impacto. Larry levantou-se, meio tonto. Não
muito longe dele Ron também se levantou. Ainda segurava a linha.
O barco
estava tombado, meio de lado, cinco metros terra adentro. Não
sofrerá nada, mas cavara um rego profundo, que se enchia lentamente
de água.
Do
lidioque não se via mais nada. A poucos metros da praia, a linha
desaparecia na água. Ron contemplou-a e disse em tom decepcionado:
— Achei
que pudéssemos trazê-lo para mais perto.
Larry
sacudiu a cabeça.
— Diga
com toda sinceridade: o senhor realmente não entende nada de
lidioques? — perguntou.
Ron riu.
— Entendo
pouco — respondeu. — O pessoal na Terra pensava que talvez
pudesse encontrar-me com um lidioque, motivo por que me ensinaram
algo a seu respeito num curso hipnótico.
Esforçou-se
para puxar a linha. Saiu um pouco da água, mas logo se entesou. O
capitão não tinha forças para puxá-la.
— Está
bem — disse Ron. — Amarraremos três ou quatro barcos. Acho que
dessa forma conseguiremos.
— Pretende
trazê-lo para a terra? Ron fez um gesto afirmativo.
— Foi
para isso que tive todo esse trabalho. Sabia que nós o perderíamos,
se o matássemos muito longe da costa. Teríamos de cortar a linha ou
então seríamos arrastados para o fundo por ele. Procurei segui-lo,
e consegui. Aliás, o senhor é um ótimo barqueiro.
— Obrigado
— respondeu Larry em tom seco. — Gostaria de saber...
Foi
interrompido pelos ghameses, que haviam despertado de seu torpor e
começavam a cantar e pular de alegria. Formaram um círculo em torno
dos dois terranos e executaram uma espécie de dança eufórica. Seus
cantos não eram muito belos, mas percebia-se que veneravam os homens
brancos por seu ato de bravura.
Ron
Landry, que parecia querer estourar de impaciência, suportou
tranqüilamente o cerimonial. Agachou-se no capim e, vez por outra,
fazia um gesto amável para os ghameses que dançavam em torno dele.
Sabia que não havia nada pior para um desses homens-peixe de pele
lisa do que ser interrompido numa atividade dessas.
Antes que
os ghameses chegassem à conclusão de que haviam dado suficiente
vazão ao seu entusiasmo, mais de uma hora se passou. O círculo
dissolveu-se, homens e mulheres de pele marrom voltaram ao trabalho,
e Ron disse, enquanto se levantava:
— Acho
que um gole de bebida me faria muito bem.
Foram ao
gabinete de Larry. Este encheu o copo que Ron deixara no peitoril da
janela, quando do aparecimento do lidioque. Fizeram um brinde. Ron
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas nesse instante Zatok surgiu
à porta.
— Olá,
amigo! — disse Ron na língua dos nativos. — Fico muito
satisfeito em vê-lo. O que é que o traz à nossa presença?
Zatok
assumiu um comportamento diferente daquele que Larry estava
acostumado a ver. Conhecia-o há mais de um ano. Fora um dos
primeiros ghameses que se mostrara disposto a viver com os terranos
em Killanak e ajudá-los na construção do posto. Larry acreditava
que conhecia todos os traços da personalidade de Zatok. Sendo assim,
teve certeza de que jamais se comportara da forma que agora estava se
comportando.
Parecia
envergonhado. Estava de olhos baixos e, apesar das palavras amáveis
de Ron, não disse nada. Depois de algum tempo aproximou-se um passo.
Dali a mais um minuto levantou a cabeça e fitou primeiro Larry e
depois Ron.
— Meus
amigos — principiou em voz baixa. — Vocês nos prestaram um
grande serviço. Ficamos-lhes muito gratos por terem matado o
lidioque malvado, e queremos demonstrar nossa gratidão. Sabemos uma
coisa que, segundo acreditamos, vocês também gostariam de saber.
Vou contar.
“Trata-se
de cinco pessoas de sua raça...”
6
Cargueiro
Empress of Arkon para retransmissora XIV:
Amostra
recuperada. Novas informações. Desligo.
Retransmissora
XIV para cargueiro Empress of Arkon:
Decolem
imediatamente. Desligo.
*
* *
A primeira
coisa que Richard Silligan sentiu ao despertar foi a consciência do
tremendo fedor que o cercava. Abriu os olhos. Bem acima de sua cabeça
havia uma luz amarela fumegante.
A memória
foi retornando lentamente. De início lembrou-se do barco espacial.
Tentaram pousar em Ghama. Haviam sido derrubados. Caíram ao mar e...
“Ah,
sim, fomos recolhidos pelo submarino”,
recordava-se Silligan. “Lyn
Trenton disse certas tolices. Os ghameses soltaram um gás no
interior do barco, e nos deixaram inconscientes... E depois?”
Richard
Silligan não tinha a menor idéia de onde se encontrava. À sua
direita e à sua esquerda as paredes de pedra subiam verticalmente, e
a lâmpada estava pendurada pelo menos a sete metros de altura.
Richard
ergueu-se lentamente. À pequena distância do lugar em que se
encontrava viu quatro corpos imóveis no chão.
“Fomos
trazidos para cá, e estou sendo o primeiro a despertar do estado de
inconsciência”,
concluiu mentalmente.
Richard
pôs-se de pé. Já se sentia melhor e, o que era o principal, estava
curioso. Lembrava-se de que o ghamês com o qual se haviam encontrado
no barco — seu nome era Gherek — dissera que os levaria “à
cidade”.
Os ghameses eram homens aquáticos. Parte dos seus núcleos
populacionais — quase sua totalidade — ficava embaixo da água,
geralmente perto da costa de uma ilha, o que lhes permitia o
abastecimento de ar por meio de um poço que saía de terra firme.
Richard
perguntou a si mesmo se o recinto em que se encontrava pertencia a
uma cidade submarina desse tipo. Descobriu que seu formato era quase
perfeitamente circular, tinha um diâmetro de cerca de seis metros e
não tinha porta.
“Se
houver qualquer saída, deve ser por cima”,
pensou.
Richard
inclinou a cabeça para trás e fitou a lâmpada.
Sentiu-se
tomado pelo desânimo. Como poderiam subir ali? Se dispusessem de
armas, talvez pudessem abrir uma saída. Mas do jeito como estavam as
coisas...
Algo
mexeu-se com um leve ruído. Richard virou-se abruptamente. Um dos
corpos começara a mover-se. Alguém gemeu, e Richard reconheceu a
voz de Ez Rykher. Ajoelhou-se a seu lado, para ajudá-lo a
levantar-se.
Rykher
levantou-se com uma espantosa rapidez.
— Caramba,
como me sinto mal! — exclamou com um gemido. — O que fizeram
conosco?
Richard
segurou-o por baixo dos braços, pois começou a cambalear.
— Deixaram-nos
inconscientes — respondeu. — Usaram algum gás. O efeito cessa
depois de alguns minutos.
Agüentava-se
valentemente. Era o mais velho do grupo, mas até então fora o que
tivera as melhores idéias.
“Se
Lyn Trenton seguisse seu exemplo, os outros teriam mais respeito por
ele”,
pensou Richard.
— Por
onde se sai daqui? — perguntou Ez.
— Por
lugar nenhum — respondeu Richard. — Só se for lá em cima.
Ez olhou
para cima.
— É
alto — constatou num tom de decepção e resignação. — Muito
alto.
Os outros
foram acordando, primeiro Tony Laughlin, depois Dynah Langmuir e por
fim Lyn Trenton. Este último teve de vomitar, de tão mal que se
sentiu. Momentos depois aproximou-se de Richard e disse:
— Andei
refletindo, Dick. Acho que fiz papel de bobo. Esqueça-se disso e
permita que continue a colaborar.
Richard
disfarçou a surpresa com um sorriso.
— Está
bem — respondeu. — Comece logo. Tente saltar lá para cima, Lyn.
Trenton
olhou para o teto. Até então todos haviam fitado a lâmpada, mas
ninguém teve qualquer idéia sobre a maneira de aproveitá-la para
encontrar uma saída.
Lyn
Trenton fitou-a prolongadamente e, quando baixou os olhos, parecia
que tivera uma idéia.
— Qual é
o material de que são feitos nossos trajes? — perguntou.
— Qual é
exatamente a informação que quer receber? — perguntou Richard por
sua vez. — Está interessado na composição química? Não a
conheço. Só posso dizer que os trajes são de plástico.
— O
plástico pode ser rasgado?
— Nunca.
O material só pode ser rompido com uma boa faca.
— Será
que o senhor tem uma?
— Devo
ter... — disse Richard.
Pôs-se a
revirar os bolsos e finalmente tirou um pequeno canivete. A grande
faca dobrável, pertencente ao equipamento dos trajes, fora tirada
pelos ghameses, mas estes provavelmente acharam que o canivete não
teria grande importância.
Lyn
Trenton apontou para cima.
— Essa
lâmpada está presa por alguma coisa — disse. — Uma corda ou
coisa que o valha. Se também tivéssemos uma corda, poderíamos
amarrar-lhe um objeto pesado e atirá-la para cima. Se tivermos
sorte, a corda ficará presa em alguma coisa, e se tivermos mais
sorte ainda, a corda em que está pendurada a lâmpada será bastante
forte para que possamos subir até o teto.
Richard
meneou a cabeça. Não tinha a impressão de que o projeto tivesse
muita possibilidade de sucesso. De qualquer maneira, porém, uma
chance mínima sempre era melhor que nenhuma.
— Vamos
tentar — decidiu. Todos haviam compreendido o plano de Lyn Trenton.
Puseram-se a trabalhar com o maior zelo. Acontece que havia um único
canivete, e cada um tinha que identificar em seu traje aquilo que
poderia ser mais útil para a fabricação de uma corda.
Antes
tiraram algumas peças de suas roupas de passeio. Ez Rykher, uma
suéter tricotada e uma camisa. Tony Laughlin, apenas uma camisa.
Dynah Langmuir não podia oferecer muita coisa, a não ser que
quisesse desnudar-se, mas em compensação, para surpresa geral,
sabia fazer nós de marinheiro — uma raridade! — que exigiam
pouco material e agüentavam muito peso. As peças reunidas foram
transformadas numa corda, que já tinha quatro metros de comprimento.
O resto teria de ser feito com o tecido dos trajes espaciais. Se não
conseguissem, todo o trabalho seria em vão.
Richard
Silligan já se havia livrado do seu traje espacial e começou a
trabalhá-lo nos lugares onde esperava obter êxito, ou seja, nos
bolsos soldados na face externa, que não pertenciam ao envoltório e
se destinavam à guarda de objetos. Tais bolsos podiam enfrentar, sem
riscos, as condições reinantes no espaço. Por algum tempo Richard
esforçou-se em vão. Momentos depois descobriu como poderia abrir a
solda. Bastaria mover a lâmina do canivete rapidamente de um lado
para outro, a fim de produzir calor.
Levou meia
hora para retirar o bolso, e este não tinha mais de vinte
centímetros de comprimento, o que não chegava a representar nem a
vigésima parte daquilo que ainda precisavam.
Mas não
desanimaram. Richard passou o canivete para Ez Rykher, e o velho Ez
provou que sabia lidar com um instrumento tão primitivo.
Passada
uma hora e meia, o comprimento da corda fora aumentado em mais
oitenta centímetros.
Conseguiam
adiantar o serviço, e isso os estimulava.
Depois de
algumas longas horas de trabalho estafante, a corda ficou pronta.
Para dar peso à mesma, Ez Rykher entregou uma das suas botas. Não
permitiu que o privassem desse privilégio. Usou o seguinte
argumento:
— Alguém
de vocês já andou descalço, seus novatos? Ninguém! Pois saibam
que eu ando durante alguns meses, todo verão. Então...
Experimentaram
a corda. Richard e Lyn Trenton puxaram de um lado e Tony e Ez do
outro. Os nós feitos por Dynah agüentaram. Se a corda que prendia a
lâmpada fosse tão firme quanto esta, nada lhes poderia acontecer
durante a subida. Começaram a arremessar a corda. Se acreditavam que
o pior do serviço tinha ficado para trás, logo tiveram de retificar
seu julgamento. Levaram algum tempo para descobrir a força exata
para o arremesso. Às vezes, a bota batia fortemente contra a
lâmpada, cuja parte inferior parecia ser de metal, e a chama
começava a bruxulear. Quando isso acontecia, retinham a respiração,
pois se a lâmpada se apagasse poderiam desistir dos seus esforços.
Seus
braços já estavam doendo, quando pela primeira vez a bota bateu num
obstáculo situado acima da lâmpada. Viram a bota dar uma volta,
depois que a corda chocara-se contra alguma coisa. Ez começou a
gritar de alegria. Mas a bota, instantes depois, caiu. Ez calou-se e
Dynah começou a chorar.
Apesar
disso, aquilo representara um grande progresso. Já sabiam que em
cima da lâmpada havia alguma coisa, e que lhes bastava desenvolver
uma técnica de arremesso apropriada para que a corda, em cuja ponta
estava presa a bota, se enrolasse duas ou três vezes em torno da
outra que sustentava a lâmpada.
— Vamos
fazer uma pausa — decidiu
Richard. —
Acho que todos estão precisando.
— Está
bem — disse Ez Rykher, em tom zangado. — Mas antes disso vou
fazer mais uma experiência. Quero que o diabo carregue essa lâmpada,
se...
Ainda
possuído pela fúria, pegou a corda segurando-a cerca de um metro
atrás da bota, esticou o braço direito para cima e passou a girá-la
algumas vezes, até que desenvolvesse a velocidade adequada. Depois,
levantou a cabeça, soltou a corda e deixou que a bota se dirigisse
ao objetivo.
Richard
viu-a passar pela lâmpada e desaparecer na escuridão. Teve a
impressão de que ouvira um ligeiro arranhão, mas não deu maior
atenção ao fato. Continuou a olhar para o alto e procurou descobrir
o lugar em que a bota voltaria a cair.
De repente
Ez Rykher soltou um grito furioso, que não combinava com sua idade
nem com seu gênio:
— Ficou
presa por lá! Conseguimos!
*
* *
Já não
havia tempo para fazer uma pausa. Richard afastou aqueles que se
mostravam ansiosos para pegar na corda. Já que se prendera em algum
lugar, devia-se procurar entesá-la cautelosamente.
Richard
começou a puxar com uma das mãos, assegurando-se de que a corda
encontrava-se presa em seu suporte. Parecia estar firme, pois não
cedeu, nem mesmo quando Richard puxou-a com toda força, usando as
duas mãos. Finalmente Richard saltou, segurou a corda, dois metros e
meio acima do solo, e balançou-se por algum tempo. Não aconteceu
nada.
A corda
estava, de fato, bem firme.
Richard
fez questão de ser o primeiro a subir. Resolveu que o próximo seria
Tony Laughlin. Havia um motivo para isso. Se lá em cima fossem
surpreendidos pelos ghameses, precisariam de punhos firmes e bem
treinados para defender-se. E os punhos mais bem treinados eram
justamente os seus e os de Tony Laughlin.
Ele achava
que os primeiros três metros seriam uma brincadeira, pois os nós
feitos por Dynah agüentavam muito bem. Depois de algum tempo, os
braços começaram a doer bastante. A fim de descansá-los por uns
instantes, buscou apoiar-se com os pés num dos nós. Depois,
prosseguiu na escalada.
Finalmente
viu-se a pouca distância da lâmpada. Notou que acima dela as
paredes do calabouço se fechavam de repente, deixando uma abertura
de cerca de um metro. A abertura estava escura. Richard não
conseguiu ver o que havia atrás da mesma.
Não
haveria maiores dificuldades em passar pela lâmpada. Esta consistia
numa roda metálica de um metro de diâmetro. Quatro travessas
corriam da periferia para o centro, onde ficava a chama. Richard viu
um pavio que saía de uma massa gordurenta.
Conseguiu
subir à borda da roda e agarrar a corrente que segurava a lâmpada.
Descansou um pouco, enquanto a lâmpada balançava violentamente sob
o peso de seu corpo. Finalmente segurou os grossos elos da corrente e
foi-se puxando para cima.
Quando
atingiu o lugar em que a corda, arrastada pela bota, prendera-se em
torno da corrente, quase se sentiu abandonado pelas forças. A bota
só dera três quartos de volta na corrente, e o que havia sustentado
Richard fora apenas a pressão da corda, que sob o peso de seu corpo
se comprimira contra o bico do calçado. Richard sentiu tonturas ao
pensar o que poderia ter acontecido se a corda tivesse passado por
cima do bico da bota. A queda teria sido muito perigosa.
Soltou a
corda, passou-a algumas vezes em torno do pescoço, juntamente com a
bota, e subiu o pedaço que o separava da abertura superior. Não
teve a menor dificuldade em atirar-se para cima da borda da abertura.
Mas quando sentiu a pedra firme embaixo de si, as forças
abandonaram-no por algum tempo. Deitou e esperou que o corpo se
libertasse da rigidez provocada pela tensão dos músculos.
Depois
voltou a prender a corda, de tal forma que Tony Laughlin poderia
subir sem receio. Tony galgou-a rapidamente, seguido por Ez.
Finalmente Lyn e Dynah foram içados sem dificuldades.
O recinto
que ficava acima da abertura possuía o mesmo diâmetro do calabouço
em que até então tinham estado presos, mas era muito mais baixo.
Antes que
Dynah desamarrasse a corda, Richard Silligan pôs-se a revistar as
paredes. Não precisou esforçar-se muito para descobrir uma porta.
Não se haviam dado ao trabalho de camuflá-la. Sem dúvida, os
ghameses pensavam que o calabouço era absolutamente seguro.
A porta
estava presa a três gonzos de madeira de tamanho grotesco. Possuía
um trinco simples, que decerto funcionava por fora da mesma forma que
por dentro. Richard levantou cautelosamente o trinco e procurou
movê-lo. A porta girou nos gonzos. Fechou-a apressadamente e colocou
o trinco. Resolveu esperar até que os outros estivessem prontos para
iniciar a marcha.
Por um
instante Richard sentiu-se tomado de profundo desânimo. A cidade
ficava sob a água, muito abaixo do nível do mar. Havia comportas
pelas quais se podia sair dali, e para um ghamês não haveria a
menor dificuldade em nadar até a superfície, sem precisar de
qualquer auxílio. Também poderia utilizar um barco, se o preferisse
por uma questão de comodidade. Acontece que os terranos só poderiam
utilizar este último meio, pois não estavam em condições de
vencer a nado uma camada de algumas centenas de metros de água. Isso
significava que teriam de furtar um barco dos ghameses, e aprender a
manejá-lo, antes que estes iniciassem a perseguição. Teve a
impressão de que nunca seriam capazes disso.
Havia uma
terceira possibilidade. Poderiam usar as galerias de ar, que ligavam
a cidade com a superfície. Os ghameses respiravam tanto pelos
pulmões como pelas guelras, mas preferiam viver num ambiente gasoso.
Mas Richard teve suas dúvidas de que esse caminho fosse utilizável.
Provavelmente as galerias de ar subiam verticalmente e não deviam
ter qualquer dispositivo que permitisse galgá-las.
Quando
todos estavam reunidos atrás dele, abriu cautelosamente a porta, que
rangeu terrivelmente. Richard aguardou um instante, pois receava que
lá fora alguém tivesse ouvido o ranger.
Mas logo
viu o que havia do lado de fora, e o quadro que se lhe ofereceu fez
com que abandonasse todas as cautelas.
Viu uma
rua inundada por uma penumbra esverdeada, que subia suavemente da
esquerda para a direita. A poucos metros do lugar em que se
encontrava, bem à sua frente, notou o crânio horrível de um
gigantesco monstro marinho, que o fitava com uma expressão curiosa
e, como se a visão de um ser humano tivesse aguçado seu apetite,
abriu uma tremenda bocarra.
Richard
passou pela porta, seguiu para a direita e num gesto instintivo
atirou-se ao chão. O monstro iniciou o ataque e aproximou-se
velozmente.
*
* *
Dynah
soltou um grito estridente e, no mesmo instante, um forte estrondo
encheu a rua estreita. Richard rolou para o lado e viu que o peixe
horrível se afastava, desaparecendo tranqüilamente mar adentro.
Richard
levantou-se.
“Não
sei... O mar! Que diabo!”,
pensava assustado. “Como
é que a rua estava seca, se do outro lado nadava um peixe?”
De repente
Rykher começou a rir à sua maneira peculiar.
— Isso é
uma brincadeira, Dick! — exclamou. — O peixe brincou conosco.
Sabia que ali existe uma parede de vidro, mas nós não sabíamos.
Richard
atravessou a rua lentamente, como se estivesse num transe. Estendeu
os braços, e só percebeu a presença do vidro, quando tocou-o.
O vidro
era de um tipo que Richard nunca vira. Totalmente transparente, e não
produzia qualquer reflexo. Não havia a menor possibilidade de vê-lo.
Era o material ideal para a construção de janelas, e os ghameses já
haviam percebido isso. A janela pela qual Richard Silligan e seus
companheiros contemplavam as profundezas do mar tinha o comprimento
da rua, ou ao menos do trecho que podiam abranger com a vista.
Pouco
acima de suas cabeças havia um teto de pedra, que chegava até a
parede de vidro. A rua, uma ladeira, descrevia uma curva para a
direita fechando-se à vista pouco adiante. A parede junto à qual
ficava era de pedra e apresentava a intervalos irregulares uma série
de portas.
Era uma
visão estranha e... medonha!
Nenhum
deles jamais havia visto nada semelhante. De repente deram-se conta
de uma coisa que, até então, ainda não lhes tocara a consciência.
Encontravam-se num lugar em que jamais homem algum havia posto os
pés, algumas centenas de metros abaixo da superfície de um mar
desconhecido, numa rua de uma cidade também desconhecida, onde
viviam estranhos seres.
Richard
teve a impressão de que uma ameaça silenciosa saía daquelas
paredes de pedra. Esperava que, a qualquer momento, uma das portas se
abrisse e dela surgisse uma horda de ghameses hostis. Mas não
aconteceu nada. A rua continuava silenciosa.
Teve a
idéia de que isso talvez tivesse algo a ver com o gigantesco peixe
que conseguira enganá-lo. Sabia que nos mares de Ghama existiam
monstros que infundiam pânico aos habitantes do planeta. Na opinião
de Richard, era possível que os ghameses tivessem fugido assim que
apareceu o peixe. Por isso, esse trecho de rua estava vazio.
“Precisamos
prosseguir”,
pensou Richard. “Não
podemos ficar parados por aqui.”
Sentiu-se
nervoso e os outros também deviam estar.
— Vamos
andando — disse Richard, fazendo um tremendo esforço para parecer
ativo e arrojado. — Temos que continuar. Em algum lugar haveremos
de encontrar uma comporta e um barco.
Caminhava
à frente dos outros. Esperava que, uma vez atingida a curva, teria
uma visão melhor da rua, mas essa esperança não se concretizou.
Não havia uma única curva. A estrada era sinuosa em toda sua
extensão. O ponto a partir do qual não se via mais nada ficava a
quinze ou vinte metros de distância.
Caminharam
durante quinze minutos, quando sentiram pela primeira vez que não
estavam acostumados ao ar que respiravam depois de terem abandonado
sua prisão. Já não se importavam com o cheiro de peixe e óleo de
peixe. Mas o ar continha pouco oxigênio. O suor porejava por todo o
corpo e, vez por outra, tinham que descansar até que a tontura
passasse.
Às vezes,
Richard tinha a impressão de ouvir ruídos, vindos de cima. Parava e
aguçava o ouvido. Mas por fim concluía que ele se enganara.
Continuava tudo em silêncio; o único ruído eram seus passos
arrastados.
Do lado
esquerdo da rua, as janelas compridas enfileiravam-se uma ao lado da
outra. Seus vidros deviam ser bem espessos, pois só assim
resistiriam à terrível pressão da água. Mas apesar disso não
deformavam a visão das coisas. Eram interrompidas apenas por alguns
trechos de rocha maciça. A rua prosseguia numa série de curvas. Nas
massas de rocha que acompanhavam os fugitivos, continuavam a surgir,
do lado direito, pesadas portas. Richard teve vontade de abrir uma
delas para ver o que havia atrás da mesma. Mas sentiu que seria mais
importante prosseguir na marcha, a fim de encontrar um caminho que os
levasse para fora da cidade.
Depois de
meia hora de marcha tiveram a impressão de que a rua já devia ter
descrito um círculo completo, talvez mais.
Aquela
cidade de construção tão estranha parecia ter o formato de uma
torre de Babel! A rua corria em espiral na parede externa da torre!
Dali a
alguns minutos, a parede junto à qual corria a rua modificou seu
aspecto. Da direita surgiram, de repente, outras janelas, menores que
as que separavam a cidade do mar e sem o brilho maravilhoso daquelas,
mas ainda com suficiente transparência para mostrar algumas salas.
Em todos
esses compartimentos havia uma confusão tremenda de coisas que
Richard e seus companheiros não conheciam e que já pareciam estar
guardadas ali há bastante tempo.
Finalmente
a rua alargou-se e o teto tornou-se mais alto. Richard passou a
caminhar mais devagar. Quando viu à sua frente haver uma espécie de
praça que bem à direita penetrava na estrutura propriamente dita da
cidade, uma sensação de perigo próximo apossou-se dele. A tal
praça estava completamente vazia. Vinda do mar, uma luz mortiça
iluminava-a o bastante para que Richard pudesse enxergar até a
extremidade oposta, onde a praça voltava a estreitar-se e tomar a
mesma largura da rua.
Richard
encostou-se à parede do lado direito. A mesma dava-lhe uma sensação
de segurança. Por nada deste mundo teria atravessado o centro da
praça, embora com isso pudesse poupar bastante tempo. Seus
companheiros tiveram idêntica sensação. Lyn Trenton observou:
— Não
sei por que, mas isto não me cheira muito bem. Aposto que esses
caras estão por perto, observando-nos.
Richard
teria preferido que ele não tivesse dito isso. Era quase exatamente
a mesma coisa que ele receava; mas, por causa de Dynah, Trenton
deveria ter calado a boca. Richard virará a cabeça várias vezes
para olhar a moça. Estava quase totalmente exausta, tanto física
como psiquicamente.
Richard
ficou parado, deixou que Ez e Tony passassem por ele e caminhou ao
lado de Dynah.
— Se
quiser, podemos fazer uma pausa — sugeriu.
A moça
balançou a cabeça, com uma violência excessiva, segundo lhe
parecia.
— Por
minha causa não — respondeu em tom obstinado. — Ainda agüento
um bom pedaço.
Ez, que
caminhava na ponta, andou mais depressa que Richard. Aquele lugar
infundia pavor e queria deixá-lo para trás o mais cedo possível.
Dali a cinco minutos atingiram o centro da praça.
— Falta
pouco! — disse Ez em tom consolador. — Ficarei satisfeito
quando...
Não pôde
prosseguir.
Naquele
instante aconteceu...
Portas
abriram-se. Os gonzos gemeram. Os pés descalços bateram
ruidosamente no solo. Bandos de pequenos ghameses saíram da parede!
Não disseram uma palavra. Trabalhavam de acordo com um esquema
minucioso. Os que surgiram da parede à frente dos terranos ocuparam
a entrada da rua que ficava à frente dos terranos, enquanto os
outros guarneceram a que ficara para trás.
Richard e
seus companheiros estavam cercados.
Subitamente
o gigante surgiu em cena. Foi o último a sair de uma das portas.
Usava um traje de plástico apertado. Sua mão segurava uma imponente
arma de radiações. Uma enorme barba negra emoldurava seu rosto.
Quando começou a falar, sua voz parecia trovejar por cima da grande
praça:
— Sejam
bem-vindos, terranos! Vejo que não recuaram diante do trabalho de
subir sozinhos. Vocês nos pouparam um bom trabalho, pois, se não
tivessem vindo, teríamos de tirá-los do buraco em que estavam.
Falava em
arcônida. A maneira de divertir-se à custa de suas vítimas era
típica de um saltador. Não haveria necessidade da barba e da
estatura gigantesca para identificá-lo como tal.
Não
tinham saída. Estavam presos na praça.
— Venham;
vocês serão meus convidados! — disse o gigante barbudo, em tom de
deboche. — Quero que se sintam muito bem nesta cidade maravilhosa.
Façam de conta que estão em casa.
Richard
rangeu os dentes. Notou que Ez lhe lançava um olhar indagador, e
Tony, e Lyn Trenton...
— Obedeçam
— disse. — Procurem não criar dificuldade. Tentarei obter
auxílio.
Mas de que
forma poderia cumprir a promessa? Havia uma série de portas nas
proximidades. Mas não sabia se conseguiria atingir uma delas antes
que o saltador atirasse, e muito menos se atrás da porta encontraria
um caminho por onde pudesse fugir.
De
qualquer maneira, tentaria.
Ez o
compreendera. Fingiu-se de indeciso e saiu caminhando, numa atitude
aparentemente resignada, em direção ao saltador que os esperava.
Depois de hesitar um pouco, Tony seguiu-o e finalmente Lyn.
Era o
momento em que o saltador percebia o êxito que acabara de alcançar
e devia reduzir sua vigilância.
E, nesse
instante, Richard Silligan deu um enorme salto para o lado e começou
a correr em direção à porta mais próxima.
7
Retransmissora
XIV para estação Ghama:
Fornecimento
chegará em trinta e quatro horas. Desligo.
Estação
Ghama para retransmissora XIV:
Estava
mesmo na hora. Desligo.
*
* *
— Não
quer dizer por que “despachou”
o lidioque? — perguntou Larry.
Devia ser
a décima vez que fazia a pergunta nos últimos quatro dias.
Ron
continuou sério; balançou a cabeça.
— Não —
disse em tom seco.
— Por
quê?
— Meu
Deus — disse Ron com um suspiro. — Eu já lhe expliquei cem
vezes. Se uma pessoa sabe, isso é melhor e menos perigoso que quando
duas pessoas sabem. Será que isso ainda não passou pela sua cabeça?
— Não —
respondeu Larry com o mesmo laconismo.
Depois de
algum tempo acrescentou:
— Espero
que tenha um motivo bastante sério.
Ron acenou
com a cabeça. Foi sua única reação. Ao que parecia, estava
pensando em outra coisa.
Larry foi
até a janela, olhou para fora e perguntou-se quanto tempo ainda
teria de esperar até que acontecesse alguma coisa. Fazia cinco dias
que tinham abatido o lidioque, cinco longos dias de Ghama com suas
cinqüenta e duas horas terranas. Há cinco dias Zatok confessara que
gente de sua raça recolhera os cinco terranos caídos na nave
auxiliar num submarino e, por ordem dos saltadores, os levara para
uma de suas cidades, submarinas. Fazia cinco dias que sabiam que esta
pobre gente era mantida prisioneira na cidade de Guluch, situada
junto à ilha de Tarik, a uns quinhentos quilômetros de Killanak. E
nada fora feito nesses cinco dias, nada que pudesse levar à
libertação dos prisioneiros.
Na manhã
do dia da caça ao lidioque, o gigantesco cadáver desapareceu, e com
ele o vulto metálico brilhante da Empress of Arkon. Ron Landry
declarou com um sorriso matreiro que enviara o cadáver à Terra,
para servir de modelo zoológico. Larry não acreditou em nada do que
ouviu. E, depois de algum tempo, Ron não fez mais questão de
afirmar que estava dizendo a verdade. É claro que também não
gastou palavras para esclarecer sua maneira de agir.
Larry
suspirou. Lembrou-se do que lhe fora ensinado, quando se candidatou a
um cargo no Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento. Na época
era cadete da Academia Espacial, e o comandante da academia lhe dera
a entender que se precisava de gente do seu tipo para “ajudar
o desenvolvimento”.
Também gastara algumas palavras para explicar que a organização
não servia apenas ao desenvolvimento. Larry sentiu-se um tanto
perplexo, especialmente ao recordar-se de que a lembrança dessa
palestra seria apagada em sua memória por meio de um bloqueio
hipnótico, caso resolvesse não seguir a sugestão do comandante.
Acontece que aceitou a sugestão, não porque tivesse medo do choque
hipnótico, mas porque a ajuda para o desenvolvimento, que na verdade
não era nada disso, exercia um encanto misterioso sobre ele. Fora
aceito, e passara por um duro treinamento.
Uma vez
concluído o treinamento, foi transferido para a Divisão III, que
era exatamente o lugar em que se faziam os negócios que nada tinham
a ver com o auxílio para o desenvolvimento, quer fosse social ou
intercósmico.
Larry
Randall não demorou a compreender que fora parar no serviço secreto
mais duro e eficiente. Perry Rhodan em pessoa, Administrador do
Império Solar, um homem solitário nos píncaros da fama, servira de
padrinho por ocasião do batismo da Divisão III. Esta constituía
seu instrumento pessoal, e por certo não era menos eficaz que o
legendário Exército de Mutantes, embora fosse muito menos conhecida
do público.
A divisa,
que Larry rememorou naquele instante, fora tirada de um velho
provérbio: “Não
deixe que a mão esquerda saiba o que a direita está fazendo.”
“Que
diabo!”,
pensou. “Parece
que neste momento eu sou a mão esquerda!”
*
* *
Haviam
dormido mais uma noite. Enquanto estavam tomando café, Ron deu uma
olhada para o relógio e disse:
— Acabe
de comer o ovo; depois iremos embora.
A comida
ficou atravessada na garganta de Larry.
— Embora?
Para onde? — perguntou. Ron riu.
— Ora
esta! Ele quer saber para onde... Será que o senhor ainda não sabe
que cinco terranos caíram sobre o planeta Ghama e são mantidos
prisioneiros pelos ghameses, por ordem dos saltadores e contra todas
as normas do direito galáctico?
Larry
engoliu o que tinha na boca.
— O
senhor realmente se lembrava disso? — perguntou com uma ironia
mordaz.
Ron não
se importou. Ficou olhando Larry, enquanto este comia o ovo quente.
Depois de algum tempo, Larry não agüentou mais a incerteza.
— Afinal,
aonde vamos? — perguntou.
— Vamos
dar um passeio de barco — respondeu Ron.
— Iremos
longe?
— Hum...
Mais ou menos.
— Por
quê?
— Ora
essa! Não faça tantas perguntas. Coma!

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