sexta-feira, 26 de agosto de 2016

P-094 - O Sol Chamejante - Clark Darlton [Parte 3]

Ah, é o comandante! Ao que parece, nossa tática não ficou em segredo por muito tempo. Tem alguma sugestão?
C-l fez como se não tivesse percebido a ironia. Respondeu em tom sério:
Receio que tenhamos apenas mais dez dias para a nossa guerra. Estamo-nos precipitando para o sol branco. Os propulsores falharam. Devem ter sido danificados durante a transição, a mesma transição que despertou vocês. Sugiro que façamos as pazes.
Um sorriso frio surgiu no rosto de Ceshal.
O senhor fala em paz, comandante, e nos tranca bem no centro da nave. Mal e mal conseguimos lugar para todos, e só metade das pessoas despertou. Quando o restante sair da câmara fria, haverá uma catástrofe. Abram todas as comportas que dão para as áreas exteriores, ou faremos com que morram asfixiados.
C-l sacudiu a cabeça. Levantou um pedaço de papel no qual estavam escritos alguns números.
O senhor deve ter aí algum matemático que poderá conferir meus cálculos, Ceshal. Se eu liberar a nave e se todas as pessoas adormecidas despertarem, estaremos perdidos. Mesmo bem racionados, os mantimentos só darão para uma semana. Acontece que dificilmente atingiremos o planeta mais próximo em menos de três semanas, e isso se conseguirmos reparar os propulsores. Portanto, faço-lhe a seguinte proposta: mande fechar a câmara fria! Não deixe sair mais ninguém. Temos de sacrificar as pessoas que ainda estão dormindo. Só assim conseguiremos sobreviver.
Ceshal lançou um olhar apavorado para C-l e sacudiu a cabeça.
Rejeitamos sua proposta, comandante. Preferimos deixar que vocês morram asfixiados a sacrificar cinqüenta mil arcônidas. Reconheço que ficaremos bastante apertados. Porém, nos pavilhões, depósitos, hangares e corredores há lugar para todos. Os mantimentos serão suficientes para alimentar-nos até o momento do pouso, desde que sejam distribuídos adequadamente e todas as energias disponíveis sejam conduzidas para os centros de produção de alimentos sintéticos. Se cooperarmos, a salvação ainda é possível, comandante. Mas apresento uma condição. O senhor me reintegrará pessoalmente no posto que já ocupei e que me cabe de direito. Sou o comodoro desta nave.
C-l quis respirar profundamente, mas quase ficou sufocado com a tentativa. De repente percebeu que o ar já estava muito viciado.
Forneceremos mantimentos em troca de ar...
Ceshal sacudiu a cabeça. Um sorriso frio surgiu em seu rosto.
Não estabeleça condições, comandante. Se alguém pode estabelecê-las, somos nós. O ar é mais importante que a comida. Agüentaremos por mais tempo que os senhores. Quando tiverem morrido asfixiados, arrombaremos as passagens. Além disso, dispomos do pessoal e dos conhecimentos necessários para reparar os propulsores. Então?
C-l olhou em torno. Só viu rostos perplexos. Até mesmo O-l, geralmente tão inteligente e confiante, não parecia ter uma boa saída para o caso.
O comandante voltou a dirigir-se à tela.
Muito bem, Ceshal. Mandarei abrir as comportas. Venha à sala de comando, acompanhado por alguns técnicos. Poderemos conversar calmamente. Tome suas providências para que seus homens se comportem e não saqueiem os depósitos de mantimentos. Se isso acontecer, mandarei atirar contra eles.
Não se esqueça de que também possuímos armas, comandante.
C-l se admirava de que Ceshal ainda o tratava por comandante, mas como não conhecia outro nome, naturalmente não poderia ser diferente.
Porém não se preocupe — anunciou o comodoro. — Disponho de oficiais competentes da primeira geração. Eles tomarão todas as providências para que haja ordem. E também para que haja um vigoroso contra-ataque, caso isso se torne necessário.
Que o destino siga seu curso — declarou C-l, em tom de lamento, e fez um sinal para o primeiro-oficial. — Mandarei abrir a comporta principal. Providencie para que o equipamento de renovação de ar seja ativado imediatamente. E apresse-se para chegar à sala de comando. Não dispomos de muito tempo.
As câmaras instaladas a bordo, as telas e os avisos transmitidos pelo intercomunicador mantiveram C-l informado sobre o que estava acontecendo no interior da nave. Os dez mil tripulantes ficaram perplexos ao assistirem à pacífica invasão das pessoas nuas. Mas quando notaram que a torrente não terminava, sentiram-se tomados de desespero. Os “intrusos” iam tomando assustadoramente os corredores infindáveis da nave!
Os oficiais de ambos os lados mantinham a ordem. Alguns deles podiam ser reconhecidos pelos macacões, outros pelos cobertores que os envolviam.
O comodoro Ceshal, o cientista Ekral, o técnico Tunuter e o cibernético Alos foram levados à sala de comando por um oficial. No caminho encontraram-se com grupos armados, encarregados do policiamento, cujos rostos zangados não prenunciavam nada de bom.
De repente voltou a soar o ruído de batalha.
Já está começando de novo — disse o oficial em tom preocupado. — Tomara que ainda consigamos chegar à sala de comando. Não posso fazer...
Não ficaram sabendo o que ele não poderia fazer.
Mais um grupo da milícia formada às pressas surgiu à frente deles. Quando viu os quatro homens envoltos em cobertores, o chefe apontou sua arma. Talvez pensasse que o oficial, que se encontrava no centro do grupo, fosse prisioneiro dos antepassados.
Pare!
O comodoro Ceshal estendeu a mão em sua direção.
Os soldados, que eram cinco, ficaram tão surpresos com o gesto, que só um deles chegou a disparar. A pontaria não foi boa, e o tiro atingiu o oficial que levaria Ceshal e seus homens à sala de comando.
Os guardas ficaram apavorados, e tornaram-se um alvo fácil: foram mortos pelo grupo de Ceshal.
Ligeiros, os quatro despertos correram em direção ao elevador mais próximo. Não seria conveniente alguém os encontrar por ali. Ninguém acreditaria que haviam agido em legítima defesa. Seriam acusados até mesmo da morte do oficial.
Conheciam muito bem a nave, e por isso tinham a impressão de que poucos dias se haviam passado desde o momento em que foram substituídos pelos robôs e colocados em estado de hibernação. Na verdade, alguns milênios se haviam passado e, durante estes, outras gerações surgiram.
Quando já se encontravam próximos à sala de comando, ouviram o ruído dos ventiladores, que aspiravam o ar viciado. Estava mesmo na hora de começarem a funcionar, pois mal se conseguia respirar. Os dutos traziam ar puro e fresco. O mesmo infundia vida e confiança.
Antes de chegarem à entrada da sala de comando, Ceshal e seus três companheiros foram recebidos por dois oficiais. Pediram ao grupo do comodoro que entregasse as armas.
O rosto de Ekral assumiu uma expressão sombria. A mão que segurava a pistola energética pendia molemente junto ao corpo. Ninguém poderia imaginar com que rapidez Ekral seria capaz de usar a pistola. Ceshal balançou a cabeça.
Não somos seus prisioneiros, tenente. Seu comandante nos garantiu ampla liberdade. Além disso, dentro em breve, toda e qualquer resistência às ordens do comandante será punida severamente, como nos velhos tempos. Saia do caminho, tenente.
A voz de Ceshal voltara a ter o costumeiro tom de comando dos velhos arcônidas: era autoritária e arrogante. O tenente recuou instintivamente um ou dois passos e baixou sua arma.
Alos aproveitou a oportunidade. Aproximou-se rapidamente e colocou-se entre os dois tenentes. Ceshal passou por eles, seguido por Tunuter. Ekral apontou a pistola para os dois homens surpresos.
Cavalheiros! — disse em tom severo.
Os senhores serão acusados de resistência contra os superiores, se tentarem deter-nos. Façam o favor de se acostumarem à nova situação. E lembrem-se de que, sem nossa ajuda, a nave se precipitará para dentro do sol.
Enquanto isso, Ceshal já havia chegado à sala de comando. Abriu a porta e entrou.
C-l estava de pé junto aos controles e fitou-o.
Viemos para assumir o comando da nave — disse Ceshal, em tom compenetrado. — Espero que a tripulação tenha sido informada sobre a mudança, comandante.
C-l conseguiu dominar-se. Os três auxiliares do comodoro também entraram.
Ceshal, receio que uma mudança de comando já não conseguirá modificar a situação. Por mim pode voltar a considerar-se o comodoro. Não tenho a menor objeção.
Ceshal olhou em torno sem compreender nada. Só viu rostos indiferentes. A tela vazia do intercomunicador parecia uma nuvem de neblina.
Sentiu um calafrio.
O que aconteceu? — perguntou. — Por que de repente você desistiu de comandar a nave? Não me diga que pretende...
Perdemos o controle sobre a tripulação, Ceshal. Os oficiais estão amotinados. As comunicações pelo intercomunicador foram interrompidas. Alguns dos meus mensageiros foram assassinados. A guerra irrompeu entre as pessoas despertadas e a tripulação atual. Ninguém cumpre minhas ordens.
Um sorriso amargo surgiu no rosto de C-l, que esboçou um gesto de resignação.
Comodoro Ceshal, o senhor não acha que, nestas condições, qualquer um que comande a nave nada conseguirá?
Ceshal sacudiu lentamente a cabeça.
Não; não acho. Pelo contrário! Parece-me que é muito importante eu assumir o comando. Poremos fim à guerra que se trava no interior da nave. E isso o mais rápido possível. Ekral, o senhor é um cientista. Procure encontrar uma possibilidade de submeter a tripulação, sem incapacitá-los para o trabalho. Ou então recorra aos robôs. Isso talvez caberia a Alos. Antes de mais nada, temos de examinar o mecanismo propulsor.
C-l afastou-se, quando Ceshal iniciou suas atividades sem maiores intróitos. A diferença dos milênios tornou-se evidente. Ceshal era um homem jovem e enérgico da primeira geração da família governante da velha Árcon. A degenerescência não o atingira. E essa circunstância começou a produzir seus efeitos no interior da nave.
Os cinco mil homens e mulheres, que ainda chegaram a ver o sol de Árcon brilhar no céu, conseguiram impor-se. Em todos os lugares assumiam as posições mais importantes e as guarneciam com oficiais de confiança. Os depósitos de roupa foram esvaziados e seu conteúdo distribuído. As provisões de mantimentos tornaram-se suficientes para a primeira refeição quente. Enquanto esta era distribuída, a produção foi reiniciada. Os robôs passaram a obedecer aos novos senhores.
Em outras partes da nave, os membros da primeira e da última geração se encontravam e travavam batalhas encarniçadas. Ninguém estava disposto a ouvir sequer os argumentos da outra parte. Mas enquanto os homens de C-l se transformavam em anarquistas, os súditos de Ceshal continuavam a agir dentro da disciplina, conforme mandava a tradição.
Mas muitas vezes a fome falava mais alto que o sentimento de tradição.
As mulheres haviam ficado no convés central. Recebiam roupas e mantimentos através da comporta. Entretanto os víveres logo eram consumidos, pois os arcônidas, à medida que iam acordando e saíam da esfera de gelo, investiam contra os distribuidores. Não era possível esclarecer um por um, a respeito do que estava acontecendo. E assim surgiram divergências e atritos.
Dias depois, Alos conseguiu formar um grupo de sete robôs fortemente armados e programados de acordo com seus objetivos.
Teve de “capturá-los” e “iludi-los”, um por um, pois não lhe obedeciam. Mas agora, com os comandos eletrônicos e os reflexos programados, formavam um grupo de aliados de valor inestimável.
Protegidos por esta força de combate, Ekral, Tunuter e Alos avançaram até a sala dos propulsores, onde deveriam localizar o defeito mecânico. Se conseguissem descobri-lo em tempo, ainda poderia haver uma salvação.
Do contrário...
Por mais de uma vez tiveram de recorrer às armas.
Saído não se sabe de onde, um grupo de trabalhadores, soltando gritos histéricos, precipitou-se contra os robôs. Estavam armados com facas, machadinhas e raspadores metálicos. Ekral procurou preveni-los, mas seus esforços não deram o menor resultado. E os robôs reagiam automaticamente...
O segundo ataque foi desfechado por um grupo de homens nus. Nos olhos de todos eles chamejava um princípio de loucura. Não davam ouvido a qualquer advertência e nem se deixaram intimidar pelas armas ameaçadoras dos robôs. E outra vez, os robôs agiram...
Alos amaldiçoou a nave e sua missão e só teve um desejo: morrer o quanto antes, para não continuar a matar.
Mas se falhasse agora, muito mais gente morreria... Todos aqueles que se encontravam na nave.
Quando dobrou uma curva do corredor, ainda viu seis ou sete vultos envoltos em trapos que fugiam.
Deixaram alguma coisa para trás.
Alos viu que Ekral e Tunuter fitavam a “tal coisa”, com os olhos arregalados.
Era o corpo nu de um ser humano.
Ou melhor: aquilo que sobrara do mesmo.
5



O calendário de bordo indicava o dia 29-09-2.044 e 16 horas e 57 minutos, tempo de Terrânia.
O comandante Kyser cerrou os olhos quando o instrumento automático de escrita começou a tiquetaquear. O gravímetro iluminou-se, indicando a existência de uma alteração do campo gravitacional. As telas cintilavam nervosamente.
Na tela frontal não houve nenhuma modificação. O sol anão branco mantinha-se num esplendor frio no centro da lâmina e parecia totalmente imóvel. Seu campo gravitacional era muito potente e sacudia fortemente os campos de estabilização do cruzador ligeiro.
Matéria sólida em quantidade reduzida, à frente e à direita — disse o Tenente Lunddorf, do setor de navegação. — É uma pequena lua, ou a nave.
Tomara que seja a nave — disse Kyser.
Se justamente ele encontrasse a nave arcônida dos antepassados, seria um acaso incrível. Mas, em parte, o êxito poderia ser atribuído a ele e seus tripulantes.
Fazer a localização goniométrica. Dali a dez minutos não restava mais a menor dúvida.
Haviam encontrado o gigantesco barco espacial arcônida.
A nave ia, em queda livre e em velocidade crescente, direto ao sol branco, já se encontrando sob a influência de seu campo gravitacional. Alguns cálculos rápidos revelaram que, dentro de exatamente três dias e quatorze horas, se evaporaria sob a incandescência do anão escaldante.
Kyser mandou armazenar os dados relativos à sua posição no computador positrônico do setor de navegação e dirigiu-se à sala de rádio.
Dali a meia hora, Terrânia respondeu. O Marechal Freyt encontrava-se do outro lado da linha.
Acabamos de localizar a nave que está sendo procurada, sir. Quais são suas ordens?
Forneça os dados exatos e aguarde.
Enquanto Kyser transmitia a posição, Freyt entrou em contato com Rhodan. Tudo corria conforme fora previsto. Não se perdeu nem um segundo. Enquanto as últimas instruções eram transmitidas, a Drusus foi preparada para a decolagem. Rhodan foi no turbocarro até o espaçoporto.
Bell e Gucky puseram fim às suas mini-férias. Não tiveram tempo para uma viagem de automóvel. O rato-castor, conduzindo Bell, teleportou-se para o interior da sala de comando da Drusus, onde o Coronel Baldur Sikermann já estava sentado diante dos dispositivos de controle de vôo e aguardava resultado dos cálculos positrônicos.
Rhodan só chegou dali a cinco minutos. Ignorou o sorriso de triunfo de Gucky e dirigiu-se a Sikermann:
Todos os mutantes que deverão acompanhar-nos já estão a bordo?
Sim senhor. Estamos prontos para a decolagem.
Muito bem. Decole. Outros dados ainda lhe serão fornecidos.
Foi só.
Os propulsores rugiram e arrastaram a gigantesca nave para o alto. A Terra mergulhou nas profundezas do espaço e logo se transformou numa bola verde-azulada. Depois da primeira transição, Rhodan ofereceu num relato.
Pelo que conseguimos apurar, a nave dos antepassados está desgovernada. Suponho que o hipersalto não tenha sido suportado muito bem pelos propulsores. Está caindo em direção de um sol anão que possui forte campo gravitacional. Devemos tentar captar a nave com os raios de tração e desviá-la. Resta saber se conseguiremos fazê-lo. Só dispomos de algumas horas.
Os relês do computador positrônico começaram a tiquetaquear.
Será que devo tentar estabelecer contato por meio de meu cruzador? — perguntou o comandante Lund em tom entusiasmado. — Dizem que posso conseguir, porque o formato de minha nave...
Não podemos perder tempo com experiências — disse Rhodan em tom mais áspero do que pretendera. — Temos de lançar mão imediatamente dos teleportadores. Não podemos desperdiçar um segundo que seja.
Nem desconfiava de como estava com a razão.
O segundo salto foi bastante exato.
Quando o espaço voltou a ficar ao alcance de suas vistas, à sua direita havia uma pequena esfera luminosa; era o cruzador ligeiro de Kyser. Exatamente na direção em que voavam, brilhava o sol branco, que estava registrado nos catálogos estelares dos arcônidas com um número, já que não possuía nome. À direita deste havia uma sombra gigantesca e redonda...
Tentei estabelecer contato pelo rádio — anunciou o comandante Kyser. — Não obtive resposta. Ou não querem nada, ou então seus aparelhos de rádio estão em pane.
A última hipótese é a mais provável — respondeu Rhodan. — Se os propulsores falharam, as instalações de rádio também devem ter sido danificadas. Mantenha sua posição atual, Kyser. Mandaremos Gucky e Ras Tschubai para junto dos arcônidas. Mais tarde poderá apoiar-nos com seu campo antigravitacional. Bem que precisaremos.
Ras Tschubai entrou na sala de comando. O teleportador africano era um dos membros mais antigos do Exército de Mutantes. Já vivera muitas aventuras perigosas em companhia do rato-castor. Já conhecia também a nave das gerações, através dos relatos de Gucky, e estava ansioso para conhecer o interior do engenho arcônida.
Se desconfiasse das surpresas que o aguardavam teria ficado menos entusiasmado com a missão que devia cumprir.
Saltem daqui — ordenou Rhodan. — Procurem descobrir se a falha dos propulsores é total, ou se algumas das unidades propulsoras da protuberância equatorial podem ser ativadas. Receio que no lugar, onde se encontra a nave, o campo gravitacional do sol seja muito forte. Precisaremos de apoio, pois do contrário não conseguiremos arrastá-la. Se houver complicações, voltem imediatamente e apresentem seu relatório. Entendido?
Os dois mutantes fizeram um gesto afirmativo. Seguraram-se pela mão, a fim de não se afastarem depois do salto.
Desapareceram num forte torvelinho. O lugar, em que há pouco se encontravam, estava vazio.
Rhodan voltou a fitar as telas e manteve-se à espera.

* * *

A primeira coisa avistada por Gucky foi um grupo de seis ou sete mulheres, precariamente vestidas, que batiam num homem uniformizado. Quando o judas não mais resistiu, precipitaram-se sobre ele e arrancaram-lhe as roupas, com exceção da cueca. Não se preocuparam mais com sua vítima: dividiram, entre si, as roupas do pobre coitado.
O que será que elas estão fazendo? — cochichou Ras muito abalado. — Você compreende o que está acontecendo?
Ainda não compreendi muito bem. Mas ao que tudo indica só estavam interessadas pelas roupas, não pelo homem. Não é de admirar, pois de cueca ele pode ser tudo, menos bonito.
Gucky soltou um som borbulhante, como se acabasse de contar uma boa piada. Nem desconfiava de que, dali a pouco, não teria mais vontade de rir.
Antes que Ras tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, foi descoberto por uma das mulheres.
Ali está mais um! — gritou uma delas, em tom de espanto. — É todo preto! Que animal é este que se encontra perto dele?
Isso dará um bom assado! — exclamou uma outra e precipitou-se com uma barra de ferro levantada sobre o rato-castor. — Fui eu quem o viu o primeiro...
Gucky não estava com muita vontade de ser comido.
Recorreu à sua capacidade telecinética e usou-a sobre a mulher apaixonada pela caça. A arcônida foi parar um pouco abaixo do teto, passando a gritar terrivelmente. Depois flutuou até a primeira curva do corredor e desapareceu. Quando Gucky a soltou, ouviu-se um baque surdo.
Enquanto isso, Ras tirava as barras de ferro das outras atacantes.
Que espetáculo estranho é este? — gritou Ras em tom furioso para as mulheres perplexas. — Vocês poderiam dizer o nome desse jogo?
Acontece que, nesse meio tempo, Gucky andara investigando os pensamentos das mulheres indecisas e descobrira certas coisas que quase o deixaram sem fôlego. Girou em torno do próprio eixo e segurou o braço do africano.
Os antepassados acordaram, Ras, e, na nave mal e mal há lugar para eles. Não existem roupas para todos. Nem mantimentos. Já houve casos de canibalismo. Alguns deles se entrincheiraram no setor de produção de alimentos e o defendem encarniçadamente. Outros andam pela nave, roubando e saqueando. Em que inferno fomos nos meter?
E a nave cairá no sol, se não mudar logo seu curso. Como pôde ocorrer isso?
Ao que tudo indica, a transição ativou os impulsos automáticos, que despertaram as pessoas em estado de hibernação. Vamos saltar para a sala de comando. Sei onde fica.
A nave era do mesmo tipo da Drusus. Gucky não teve a menor dificuldade em orientar-se. O primeiro salto levou-o ao setor de comando da esfera espacial. Ras materializou-se a seu lado.
O oficial, apavorado — era um tenente — teve uma reação muito lenta. Antes que pudesse atirar, Ras lhe tirara a arma. Só havia mais um homem no corredor que levava à sala de comando. Também estava armado, mas parecia indeciso sobre o que devia pensar a respeito dos dois fantasmas surgidos do nada.
Queremos falar com o comandante
disse Ras, brincando com a pistola energética de que se apoderara, sem apontá-la diretamente para o homem. — Leve-nos a ele.
O tenente já recuperara o autocontrole.
Quem são vocês? De onde vêm?
Deixemos isso para depois, baixinho
desconversou Gucky, dirigindo-se ao tenente, que tinha quase o dobro do seu tamanho. — Vai levar-nos ao comandante ou não?
Temos ordens para não deixar...
Deixa pra lá — disse Gucky em tom indignado. — Conheço o caminho.
Pediu a Ras que lhe desse cobertura e dirigiu-se com seu andar balouçante ao longo do corredor, em direção à porta da sala de comando. Enquanto isso, sondava os impulsos mentais dos arcônidas que se encontravam do outro lado da parede.
O comandante não estava só. Alguns dos antepassados achavam-se com ele. Dali se concluía que nem sempre as pessoas despertadas e os homens do presente se defrontavam como inimigos.
Gucky abriu a porta, soltando o fecho positrônico.
Entrou na sala de comando, acompanhado por Ras. De repente viu-se frente a frente com grande número de arcônidas que, quando o notaram, interromperam sua palestra e o fitaram como se fosse um fantasma.
Gucky já estava acostumado a isso. Afinal, não é todos os dias que a gente se encontra com um rato-castor. Usava o uniforme especialmente feito para ele, com o cinto estreito onde guardava as armas. Mas ao primeiro relance de olhos, percebia-se que não era um ser humano. Era muito pequeno para isso. A larga cauda de castor que geralmente lhe servia de apoio, arrastava-se pelo chão.
Olá, amigos — disse Gucky, fazendo uma mesura em direção ao único homem a quem conhecia. — Cá estamos. C-l, não lhe prometemos que oportunamente voltaríamos? Naturalmente não poderia imaginar que neste meio tempo você iria experimentar os hiperpropulsores...
C-l logo se recuperou da surpresa. Adiantou-se e inclinou-se sobre o rato-castor.
Você cumpriu sua promessa! Naquela época, você nos livrou dos robôs, mas receio que desta vez nem você poderá ajudar-nos. Os antepassados...
Os antepassados acordaram; já sei. Andam por todos os cantos da nave e tiram os uniformes dos tripulantes. Que situação! Mas o pior é que a nave está caindo em direção a um sol, C-l. Se não fizerem nada, daqui a três dias estarão todos mortos. O que houve com os propulsores?
Nossos técnicos estão trabalhando ininterruptamente nos mesmos, mas por enquanto não conseguiram nada. Além disso, nosso trabalho vem sendo perturbado. O inferno está às soltas na nave. Bandos de ladrões assaltam nossos homens e os saqueiam. Não existe mais nenhuma ordem. A única coisa que prevalece é a lei do mais forte.
Gucky deixou de olhar para C-l. Dedicou sua atenção a outro homem que se adiantara e estava acompanhando a palestra com um interesse visível.
Quem é você?
O comodoro Ceshal recuou como se tivesse sido picado por uma cobra.
Sou o comodoro Ceshal e pertenço à primeira geração. Assumi o comando da nave dos antepassados, que me cabe de direito. Quem é você? De onde veio? Onde se escondeu até agora? Como aprendeu a falar a minha língua?
Gucky fitou Ceshal, como se quisesse embalsamá-lo vivo.
Será que entrei num jogo de charadas? Nesse caso caberia a mim fazer as perguntas. Quer dizer que você pertence à primeira geração? É uma das pessoas que levantaram antes da hora?
Ceshal respirava com dificuldade. Gucky não o deixou falar.
Já sei o que quer dizer. Até parece que está escrito na ponta do seu nariz. Não se preocupe. Não contestarei seu direito ao cargo e me desmancharei de tanta veneração assim que tiver tempo para isso. Acontece que no momento não tenho tempo. Rebocaremos sua nave e a levaremos para fora do campo gravitacional deste sol. Meu senhor manda dizer que devem acionar os propulsores em sentido contrário ao do deslocamento da nave. Será que me fiz entendido?
Os propulsores ainda não estão em condições de funcionar — ponderou C-l.
Ceshal não parecia disposto a permitir sem mais nem menos que alguém o ajudasse.
Você vem de algum planeta do Império Arcônida? — perguntou em tom orgulhoso. — Vocês não sabem guardar a necessária discrição. Ou será que, enquanto dormíamos, as condições muito se modificaram?
Se mudaram! — confirmou Gucky em tom irônico. — Você se espantará. Mas posso tranqüilizá-lo, Ceshal. Somos da Terra, o planeta central de outro reino estelar, que no seu tempo ainda não existia. Árcon e a Terra são amigos.
A Terra?
Você ainda se acostumará a isso — profetizou Gucky. — E também se acostumará ao fato de que Ras e eu somos teleportadores. Então, como é? Estão dispostos a deixar que os ajudemos ou não?
Ceshal parecia ter tomado uma decisão.
Como podemos deixar? Meus melhores técnicos estão trancados na sala dos propulsores. Têm alguns robôs em sua companhia, mas estão sendo atacados constantemente e mal podem dedicar-se ao seu trabalho. Têm uma provisão de mantimentos, e por isso sofrem os ataques. Nesta nave reina a fome.
Já sei, mas acontece que no momento não podemos fazer nada para modificar isso. Se não houver nenhum imprevisto e tudo der certo, esta nave poderá pousar dentro de pouco tempo num planeta. Talvez possa mesmo pousar num planeta pertencente a Árcon. Mas preciso de apoio. Ao menos parte dos propulsores tem de funcionar, pois do contrário não conseguiremos arrastá-los para fora do campo gravitacional deste sol.
C-l lançou um olhar para Ceshal.
Por que está hesitando, Ceshal? É verdade que o senhor é o comandante desta nave, mas acontece que a pequena criatura, que o senhor vê à sua frente, ajudou-nos a vencer os robôs. É nosso amigo. Sua hesitação poderá ofendê-lo.
Não é isso — respondeu Ceshal, esticando as palavras. — Acontece que o senhor sabe tão bem quanto eu quem manda nesta nave. Não é o senhor nem eu, mas a anarquia, a fome, a guerra e a violência. Nem mesmo dispomos de uma intercomunicação regular com Ekral, Alos e Tunuter. Vez por outra, uma pessoa consegue abrir caminho para lá, e é só.
Isso basta — disse Gucky. — Sou um teleportador e saltarei para lá, desde que alguém me descreva a sala em que se encontram os técnicos. Enquanto isso, Ras continuará aqui.
Não seria preferível informar Rhodan sobre o que aconteceu aqui? — Ras Tschubai parecia preocupado. — Ele devia saber.
Gucky refletiu um instante.
Está bem, Ras. Salte para a Drusus e informe Rhodan. Enquanto isso cuidarei dos técnicos. Voltaremos a encontrar-nos aqui, na sala de comando. Nossos elementos de ligação serão C-l e Ceshal. Mande lembranças minhas a Bell, caso resolva contar-lhe a história das mulheres.
Ele ficará admirado — disse Ras com um sorriso e desmaterializou-se, depois de concentrar-se por alguns segundos.
Gucky ficou só.
Vejamos a sala dos propulsores, Ceshal. Mostre-me sua posição na planta da nave. Além disso, será conveniente alguém me acompanhar, para que possamos dispensar as explicações demoradas. Não temos um minuto a perder.
Nem desconfiava de que na realidade tudo seria uma questão de segundos.
6



Ninguém tinha uma visão de conjunto, ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo na nave. Cada um lutava contra os demais. Era uma guerra de todos contra todos. E uma guerra por tudo.
De início haviam lutado por peças de roupa e cobertores. Depois surgiu a fome. Por fim passaram a lutar pelos lugares em que pudessem deitar e descansar.
Na sala de máquinas da gigantesca nave esférica, a resistência fora organizada por Alos, que providenciara para que todas as entradas fossem fechadas hermeticamente. A sala de propulsores propriamente dita era um recinto redondo, com inúmeros aparelhos e quadros de controle. Os pesados conversores formavam corredores e compartimentos distintos — além de uma imensidão de excelentes esconderijos.
Duas ou três dezenas de pessoas despertadas e alguns membros da tripulação primitiva conseguiram refugiar-se na sala de máquinas. Entrincheiraram-se em três ou quatro lugares com os mantimentos e as armas de que se haviam apoderado e não permitiam que ninguém ultrapassasse uma linha de segurança, arbitrariamente traçada.
Enquanto não o perturbavam no trabalho, Alos não se incomodou. Sentia-se responsável pela segurança dos cientistas Ekral e Tunuter, e tinha de fazer tudo para que estes reparassem os propulsores, a fim de evitar que a nave se precipitasse para dentro do sol.
Os sete robôs formaram um semicírculo em torno do pequeno grupo de técnicos-assistentes escolhidos por Ekral. Todos os robôs estavam armados e obedeciam exclusivamente às ordens de Alos.
Só posso garantir que pelo menos três dos propulsores da protuberância equatorial voltarão a funcionar — dizia Ekral, dirigindo-se ao seu colega Tunuter. — Infelizmente isso não deverá ser suficiente para modificar a rota o bastante, a fim de evitar-se o desastre. Devemos pôr a funcionar pelo menos mais três propulsores. Com isso, talvez conseguiríamos passar rente ao sol e precipitar-nos para o espaço. Quando voltarmos a cair, já teremos consertado os outros propulsores.
Não sei se nossos esforços valerão a pena — disse Tunuter, em tom de desânimo. — No interior desta nave, uma civilização se esfacela. Uma cultura milenar está literalmente sendo atropelada pelo primitivismo. O que estaremos salvando se conseguirmos evitar a destruição da nave?
Antes de mais nada, estaremos salvando a nós mesmos — constatou Ekral em tom frio. Estava retirando o revestimento de um conversor. — Só depois saberemos o que irá acontecer. De qualquer maneira não seria capaz de permanecer inativo, à espera do fim.
Tunuter esteve a ponto de responder, mas viu-se interrompido por uma tremenda explosão. Os fragmentos atravessavam o recinto com um zumbido e ricochetearam perigosamente. Por milagre ninguém saiu ferido.
No primeiro instante, Alos supôs que um dos aparelhos tivesse explodido, mas o uivo triunfante de um bando de arcônidas semi-selvagens fez com que visse a realidade. Os atacantes atravessaram a abertura que se formara e brandiram suas armas, consistentes principalmente em pedaços de móveis quebrados e barras de ferro.
Com um salto, Alos colocou-se ao lado dos robôs e deu-lhes ordem para que defendessem o recinto. Ekral e sua equipe procuraram abrigar-se atrás de alguns conjuntos de máquinas. Não estavam armados, motivo por que tinham de confiar exclusivamente em Alos.
Os arcônidas, que já se encontravam no interior da sala, tomaram automaticamente o partido dos cientistas e começaram a atirar contra os invasores de todas as direções. Face à insegurança reinante, cada homem trazia sempre seus próprios mantimentos, desde que os possuísse. Quando alguém era morto, os sobreviventes precipitavam-se sobre este alguém e começavam a lutar pelos pertences do defunto. Nessa oportunidade, até mesmo os aliados se transformavam em inimigos ferozes.
Só os robôs não conheciam a preocupação com os alimentos e seguiam estritamente as ordens recebidas. Atiravam contra os intrusos e não poupavam os saqueadores.
Gucky irrompeu em meio à luta.
Materializou-se subitamente com O-l, atrás dos robôs. Reconheceu Alos pelos impulsos mentais. Antes que o cibernético pudesse apontar a arma para o estranho ser, que surgira tão misteriosamente do nada, Gucky disse:
Você é Alos. Foi Ceshal, quem me mandou. Não atire.
Alos ficou tão perplexo ao ouvir o animal falar, que baixou a pistola. Só depois deu-se conta do que Gucky lhe dissera.
Foi Ceshal, o comodoro?
Perfeitamente. Ele quer que eu os ajude.
Alos viu que os invasores que ainda estavam vivos tinham fugido e os robôs suspenderam o fogo. Mandou que dois deles se dirigissem à parede danificada e ordenou-lhes que não deixassem entrar ninguém. Só depois teve tempo para voltar a dedicar sua atenção ao rato-castor.
Quem é você? Não me lembro de o ter visto.
Venho de outra nave, enviada por Árcon. Vamos arrastá-los para fora do campo gravitacional do sol, mas nossos aparelhos não conseguirão fazê-lo sem apoio. Quantos dos propulsores desta nave estão funcionando?
Ekral acabara de entrar. Seu espírito vivo e penetrante logo percebeu a chance de salvação. Não perguntou sobre o onde e o porquê, mas foi logo explicando.
São três propulsores. Será que isso bastará? Em sentido contrário.
Gucky fez um gesto afirmativo.
Isso basta. Quando é que você pode ligá-los?
Quando você quiser.
Alos interveio na conversa. Sua curiosidade era maior que o medo.
Como foi que você veio parar aqui? Existe alguma comunicação com a outra nave? Lá fora, no corredor, você será detido e talvez o matarão. Não sei...
Sou um teleportador — disse Gucky, em tom lacônico. — Será que os propulsores poderiam ser ligados daqui a cinco minutos?
Naturalmente — respondeu Ekral. — Infelizmente seremos obrigados a trabalhar às cegas, pois não temos qualquer ligação direta com a sala de comando. O intercomunicador foi interrompido. Ceshal já está informado?
Gucky gostou das falas lacônicas do cientista. Tratava-se de um homem que não fazia muitas perguntas, pois preferia agir.
Tudo entendido. Então será daqui a cinco minutos. Mais tarde voltaremos a encontrar-nos.
Antes que alguém pudesse responder, Gucky desapareceu. O-l permaneceu na sala de máquinas.
Alos ainda fitava o lugar vazio, enquanto Ekral já se dirigia aos quadros de controle. Examinou-os e preparou os três propulsores que funcionariam em sentido contrário ao do deslocamento da nave. Olhou para o relógio.
Faltam três minutos, Alos. Se a outra nave tiver bastante potência, conseguiremos. Mas pelos dados que leio nos instrumentos, o campo magnético deste pequeno sol é enorme. Se a distância ainda se tornar menor, estaremos perdidos.
Esperaram em silêncio.
Em algum lugar, entre os blocos de metal, um ferido gemia. No momento, ninguém tinha tempo para cuidar dele.

* * *

O Capitão Unista e um grupo de homens e mulheres foram empurrados, pela classe dominante, que cercava Ceshal, para um local recôndito da nave. Também pertencia à primeira geração e estava firmemente decidido a provar isso assim que se oferecesse uma oportunidade. Antes de mais nada providenciou uma pistola. Depois assumiu a chefia do pequeno grupo, assaltou um depósito de mantimentos e retirou-se para a sala de armas da nave.
Dali poderiam controlar a artilharia de bordo.
O Capitão Talasi, que estava em sua companhia, pouco entendia de técnica de rádio. Não conseguiu reparar o intercomunicador para estabelecer contato com a sala de comando. Porém pôs a funcionar algumas das telas externas.
Assustaram-se ao verem nelas a gigantesca nave esférica, que se aproximava lentamente. Era do mesmo tipo da nave em que se encontravam, embora fosse de construção mais recente. E o letreiro não era arcônida.
O Capitão Unista quase chegou a morder a ponta da língua. Seria esta a oportunidade de demonstrar seu arrojo e visão?
Querem abordar-nos — disse em voz tão baixa que só o Capitão Talasi, que se encontrava a seu lado, podia ouvi-lo. — Estamos indefesos, e por isso querem apresar nossa nave.
Temos meios de impedir isso — disse Talasi. — Temos as armas.
Estas palavras foram proferidas em voz tão alta que todos o ouviram. Ouviram-se gritos de aplauso. As últimas dúvidas de Unista desfizeram-se em meio ao entusiasmo geral. Não era nenhum especialista em armamento, mas o currículo de qualquer oficial arcônida incluía o estudo de armamentos.
Outra tela mostrou um grande sol branco. Já devia encontrar-se bem próximo e, ao que parecia, o curso atual da nave dirigia-se exatamente para este sol. A nave desconhecida aproximara-se mais. Parecia uma parede abaulada, ameaçadora.
Subitamente, o chão metálico da sala de armas sofreu um abalo.
Algumas mulheres caíram. Os homens cambalearam e apoiaram-se uns nos outros. O solavanco não se repetiu, mas a força da gravidade sofreu um deslocamento. Parecia que a nave estava descrevendo uma curva para estibordo, sem ter ligado o compensador gravitacional.
O Capitão Unista procurou controlar-se.
Um raio de tração! Os desconhecidos nos capturaram. Está na hora de lhes mostrarmos nossas armas. Guarneçam os canhões, minha gente! Abriremos fogo, todos ao mesmo tempo, pois assim a surpresa será maior.
Demorou dois ou três minutos até que todos ocupassem seus postos.
Depois disso, o Capitão Unista ordenou:
Fogo! Dentro de dez segundos.

* * *

E o ataque pegou Rhodan de surpresa!
O Coronel Sikermann teve de vencer grandes dificuldades para capturar a nave dos antepassados com o raio de tração. Quase no mesmo instante, Gucky materializou-se no interior da Drusus e comunicou que três propulsores da nave dos arcônidas entrariam em funcionamento dali a um minuto.
Apoiariam a ação da Drusus e contribuiriam para o êxito da mesma.
Lentamente, muito lentamente, a rota desastrosa da nave dos antepassados e da Drusus foi mudando. As duas naves já não cairiam exatamente em direção ao sol branco chamejante. Passariam velozmente a pequena distância deste. Para isso, a velocidade da queda, provocada pela gravitação, se revelaria muito útil.
Todas as reservas energéticas da Drusus foram conduzidas para o raio de tração. O que sobrava foi distribuído para os propulsores que funcionavam a ré.
Rhodan observou a grande tela de visão frontal. Viu as paredes da nave dos antepassados bem à sua frente e reconhecia todos os detalhes. Algumas “cicatrizes” revelavam que por muito tempo a nave se deslocara pelo espaço a uma velocidade inferior à da luz. Só assim poderia ter sido atingida pelos meteoros.
Reconheceu as linhas finas das escotilhas.
As escotilhas...
Quando Rhodan percebeu, já era quase tarde.
Subitamente pequenas aberturas redondas surgiram acima da protuberância equatorial da nave. Pareciam as bocas de canhões.
Canhões!
O campo defensivo! — gritou Rhodan para Sikermann, que ficou perplexo.
Porém, depois de um momento de susto, espantosamente pequeno, Sikermann manipulou os controles. A mão direita voou para o painel e moveu uma alavanca. Quase no mesmo instante, os propulsores pararam de uivar. Mas o raio de tração foi mantido. Instintivamente Sikermann fizera o que estava certo, desligando os propulsores.
O campo defensivo foi ativado, e nem um segundo antes da hora.
Os primeiros impactos energéticos atingiram a extremidade exterior do campo e foram escorrendo para o lado. As bolhas energéticas rolavam que nem lágrimas coloridas e foram atiradas ao espaço em virtude da força da inércia da massa. Depois disso só se notava a ação dos três propulsores da nave dos antepassados, que imprimiam uma aceleração negativa a ambas as naves.
Os tiros disparados pelos arcônidas atingiram o campo em cheio, concentraram-se num ponto e procuraram rompê-lo.
Mas já era tarde.
Malditos! — disse Sikermann em tom furioso e passou a mão pela testa úmida. — Por pouco não nos pegam. Por que esses patifes estão fazendo uma coisa dessas? Será que fazem questão de ser assados no sol?
Rhodan não respondeu. Em seus olhos havia uma indagação. De repente virou-se para Gucky.
Então, o que acha? Qual dos seus “amigos” poderia ter feito isso?
Não demorarei em saber — retrucou o rato-castor. — Vou estragar a sopa deles! Acho que, nessa nave, ninguém sabe o que faz!
Ponha ordem nisso — respondeu Rhodan, laconicamente.
Gucky fez um gesto afirmativo, concentrou-se e saltou.
Alos e os cientistas, que estavam muito satisfeitos com o resultado dos seus esforços, quase morreram de susto quando Gucky os informou sobre o ataque de artilharia. Enquanto os campos defensivos da Drusus tivessem de permanecer ativos, os propulsores não poderiam ser ligados. Nem se poderia cogitar de um hipersalto em dupla.
Devem ser alguns loucos que conseguiram apoderar-se da sala de armas — disse Ekral, em tom seco. — Aí está uma tarefa para o senhor e seus robôs.
Onde fica a sala de armas? — perguntou Gucky, ao lembrar-se de outra possibilidade. — Preste atenção, Ekral. Tenho uma idéia. Por que iríamos arriscar a vida apenas para obrigar alguns loucos a agirem com bom senso? Deixemos que fiquem na sala de armas e comprimam calmamente os botões das peças de artilharia. Seria possível cortarmos o suprimento de energia a partir daqui? Ou será que daqui não se controla os geradores e conversores?
Isso mesmo! — Ekral compreendeu imediatamente o que Gucky queria dizer. — Cortaremos o suprimento de munições deles.
Perfeitamente — disse Gucky, em tom de satisfação, e fez um sinal para Alos. — Você ficará com Ekral e cuidará para que ele possa trabalhar tranqüilamente. Assim que o bombardeio for suspenso, os propulsores da Drusus voltarão a funcionar. Enquanto isso, vocês poderão tentar reparar os outros propulsores de sua nave. Até logo mais.
Saltou de volta para a Drusus. Rhodan ficou espantado ao rever o rato-castor.
O que houve? Continuam a atirar contra nós e...
Não continuarão por muito tempo, Perry. Ekral cortará a energia deles.
Rhodan olhou para a tela. A energia mortífera continuava a bater no campo defensivo, fazendo com que os propulsores da Drusus permanecessem paralisados. A rota das duas naves voltou a aproximar-se perigosamente do sol branco.
Eu o batizei com o nome de Magnus — disse Rhodan de repente, apontando para a estrela. — Magnus, o grande. Veremos se não somos mais fortes que ele.
O Coronel Sikermann anunciou com a voz nervosa:
Suspenderam o fogo, sir!
Foi o que eu disse — observou Gucky. — Podemos confiar em Ekral. Pode ligar os propulsores, Baldur.
Baldur Sikermann lançou um olhar indagador para Rhodan. Estremecera com o tratamento que Gucky acabara de dispensar-lhe. Rhodan fez um gesto de assentimento. Depois disso desativou o campo defensivo e conduziu a energia liberada para os propulsores. A Drusus uivou e voltou a oferecer resistência à força da gravidade de Magnus.
Com uma lentidão infinita, o sol branco começou a caminhar em direção à extremidade esquerda da tela.
Deveríamos impor a ordem nessa nave — disse Rhodan, em meio ao silêncio tenso. — Ras já me contou o que está acontecendo. Se esperarmos demais, todos se matarão uns aos outros. Mesmo que realizemos algumas transições ligeiras em direção a Árcon, a demora poderá ser de vários dias.
Sikermann falou sem virar a cabeça:
O transmissor fictício!
Rhodan fez um gesto de assentimento.
Já pensei nisso. Quem devemos mandar, Gucky?
O transmissor fictício permitia a teleportação da matéria através do espaço de cinco dimensões, em direção a qualquer lugar... Inclusive de um ser humano.
Quem está dormindo não faz mal a ninguém — piou Gucky com a voz sonhadora.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Acho que já nos entendemos. Suponho que o equipamento de renovação de oxigênio da nave dos antepassados seja idêntico ao da Drusus, pois vamos usar o transmissor para levar um gás anestésico ao sistema de distribuição de ar da nave dos antepassados — levantou-se e colocou a mão sobre o ombro de Sikermann. — Mantenha a rota, coronel. Vamos afastar-nos de Magnus, haja o que houver. Vamos andando, Gucky, para o arsenal.
Vamos pôr as criancinhas para dormir — disse Gucky com a voz fanhosa e ingênua, arrastando-se atrás de Rhodan, que já se encontrava na porta. — Mas será conveniente levar uma máscara contra gases para Ekral. Sentir-me-ei melhor, se souber que não dormirá durante o espetáculo.
Dali a cinco minutos, Ras Tschubai apareceu na sala de comando da nave dos antepassados e Gucky, na sala onde se encontravam Ekral e seus auxiliares. Traziam um bom suprimento de máscaras contra gases e contaram aos homens o que estava para acontecer.
Os antepassados acordaram antes da hora; logo, devem ser postos para dormir de novo — disse Gucky em tom categórico. — Quem dorme não come. E não pode fazer tolices. Coloquem as máscaras e não se deixem perturbar no seu trabalho. Exatamente daqui a dez minutos, o gás anestésico passará pelos dutos de ventilação e penetrará em todos os recintos da nave. Dentro de vinte e quatro horas, segundo espera meu chefe, deveremos pousar no mundo principal de Árcon. Teremos de realizar cerca de dez transições. Procurem reparar os outros propulsores. Talvez ainda venhamos a precisar deles para dar-nos apoio.
Não aguardou resposta: desmaterializou-se.
Enquanto isso, Rhodan já se encontrava no pavilhão em que estava instalado o transmissor fictício da Drusus. Os recipientes de gás foram trazidos e preparados de tal forma que começariam a espalhar seu conteúdo cinco segundos após a rematerialização. Depois disso, as coordenadas foram reguladas.
Assim que Rhodan moveu a alavanca, os recipientes desapareceram.
No mesmo instante, apareceriam na nave dos antepassados.
Com uma máscara contra gases no rosto, Gucky foi andando pelas salas, pavilhões e corredores superlotados da nave esférica e certificou-se de que a operação fora bem sucedida. Em toda parte, os arcônidas estavam empilhados no chão, por vezes empilhados uns por cima dos outros, e dormiam. Já não sentiam frio nem fome. Dormiriam durante dois dias. Mas quando despertassem...
Seria preferível nem pensar nisso. Dois dias eram um tempo bem longo e deviam ser suficientes para fazer com que o despertar representasse uma surpresa agradável para os arcônidas.
Rhodan deixou que Gucky lhe relatasse o que vira e esteve a ponto de soltar um suspiro de alívio, quando o som estridente do intercomunicador se fez ouvir.
Aqui fala Bell! Rhodan deve comparecer á sala de comando! Aqui fala Bell. Atenção! Rhodan deve comparecer à sala de comando...
Leve-me para lá — disse Rhodan.
Gucky segurou-o pelo braço e saltou.
Bell continuava junto ao microfone do intercomunicador, transmitindo seu chamado. Sikermann olhava para os controles. Seu rosto parecia muito sério.
Está bem, Bell. Já cheguei.
Bell virou-se abruptamente e fitou Rhodan como se fosse um fantasma.
Quando viu Gucky, seu espírito iluminou-se. Desligou o intercomunicador. Sikermann disse:
O cérebro positrônico acaba de concluir seus cálculos, sir. Sinto muito, mas não poderemos arriscar um hipersalto. A massa total das duas naves é muito elevada. Ficaríamos presos no espaço de cinco dimensões. Não preciso explicar o que significaria isso.
Realmente, Sikermann não precisaria explicar.
O espaço de cinco dimensões era chamado hiperespaço. Não haveria nenhum caminho de volta para quem ficasse preso nele. Talvez a pessoa perdesse o sentido da própria existência, já que naquele espaço não haveria a consciência do ser. Simplesmente se permanecia por lá.
Muito bem; nesse caso tente com os meios de deslocamento comuns, coronel. Dentro em breve os técnicos da nave dos antepassados colocarão em funcionamento outros propulsores para ajudar-nos. E Kyser também nos ajudará com seu cruzador. Dessa forma conseguiremos escapar ao campo de gravitação de Magnus. Quanto ao mais...
Ficou calado. Gucky fez um gesto.
Acho que é o melhor que podemos fazer, Perry.
Mais uma vez lera os pensamentos de Rhodan, o que deixou Bell bastante contrariado.
O que será melhor? — indagou o gorducho.
Avisar Atlan — disse Rhodan. — Cuidarei disso.
Dirigiu-se à sala de rádio e mandou estabelecer uma comunicação de hiper-rádio com Árcon. A ligação demorou quase uma hora.
Nesse meio tempo, Magnus tinha saído do campo de visão abrangido pela tela. Três propulsores de popa da nave dos antepassados haviam entrado em funcionamento para apoiar a Drusus. Os propulsores frontais, que realizavam a frenagem, estavam desligados. A essa hora só representariam um empecilho ao vôo.
No momento em que Gucky retornava de um salto de inspeção e informava que, na grande nave dos emigrantes tudo corria segundo era programado, o Tenente Stern anunciou que a ligação com Árcon acabara de ser estabelecida.
Atlan fitou Rhodan de dentro da tela.
Espero que você apenas tenha que relatar coisas boas, Perry. Quase chego a ter medo da primeira palavra que você irá proferir.
Encontramos a nave, Atlan — disse Rhodan para tranqüilizá-lo. — Acontece que as pessoas adormecidas acordaram.
Conseguimos restabelecer a calma por melo de gás deletério. Estão dormindo de novo. Alguns técnicos receberam máscaras, para que seu trabalho não fosse interrompido. Infelizmente o hiperpropulsor da nave está com defeito. Alguns propulsores estão funcionando. Conseguimos arrastar a nave para fora do campo gravitacional de um pequeno sol. A situação atual é esta.
Notava-se a sensação de alívio que se apossou de Atlan.
A nave está salva. Fico-lhe muito grato por isso. Será que pode trazê-la para Árcon?
Isso é impossível.
O que posso fazer? Não poderia levar as pessoas adormecidas para bordo da Drusus?
São mais de cem mil arcônidas. Também é impossível, Atlan. Você terá de enviar algumas naves transportadoras. Fornecerei a posição do anão branco. Logo que suas naves chegarem, faremos o transbordo. Quando os antepassados acordarem, já poderão estar em Árcon.
Atlan refletiu por um instante. Depois fez um gesto de assentimento.
Está bem. Enviarei cinco naves. Acho que isso basta.
A equipe dirigente dos antepassados está equipada com máscaras. Recolherei o comodoro Ceshal e seus oficiais a bordo da Drusus.
Estas palavras pareciam deixar Atlan bastante pensativo.
Ceshal? Gostaria de saber onde já ouvi esse nome. Deve ter sido na oportunidade em que defendíamos a Atlântida contra os invasores. Ou foi durante uma expedição? Não me lembro...
Você terá uma palestra muito interessante com Ceshal — profetizou Rhodan com um sorriso. — Ele deve ser, aproximadamente, da sua idade. Quer dizer que os velhos senhores de Árcon recuperarão o poder. Será que tudo isso realmente é uma simples coincidência?
Provavelmente. Se a situação tivesse sido planejada, o autor do plano seria um verdadeiro gênio. Seu nome já deve ter caído no esquecimento.
Uma máquina nunca se esquece de nada, Atlan. Talvez o grande computador lhe possa dar algumas informações. Seja como for, você disporá de dezenas de milhares de arcônidas cheios de vida e ávidos de entrar em ação. É o velho sangue, Atlan, como o seu.
Rhodan transmitiu a posição de Magnus.
Depois de algum tempo Rhodan, Bell, Ras Tschubai e Gucky dirigiram-se à nave dos antepassados. O gás já desaparecera; não precisaram mais de máscaras. Em toda parte as pessoas adormecidas estavam espalhadas tal qual o súbito cansaço as surpreendera. Era inacreditável ver quanto espaço passou a sobrar de repente.
Quando a porta da sala de comando se abriu e o comodoro Ceshal se viu diante de Rhodan, o espanto espalhou-se pelo rosto do “velho” novo arcônida. Ceshal reprimiu a curiosidade e estendeu a mão para o terrano, que a apertou fortemente.
A semelhança com as atitudes de Atlan era inconfundível. Na verdade, os arcônidas daquele tempo deviam ter sido um povo formidável — cheios de nobreza e bravura, mas também um pouco arrogantes.
Acho que devemos a vida aos senhores — disse Ceshal, depois de cumprimentar Bell. — Se não fosse o auxílio de vocês, estaríamos perdidos.
Fizemos isso por nosso amigo Gonozal VIII, imperador de Árcon — respondeu Rhodan. — Ele já enviou algumas naves de transporte para recolhê-los. Sua nave precisa de uma reforma geral. Não está em condições de voar para Árcon. Posso pedir-lhes que venham comigo? O imperador deseja que voem em minha nave. Também levaremos Ekral e seus companheiros.
Ceshal fez uma ligeira mesura em direção a Rhodan.
Para mim, seus desejos são ordens — disse em tom cortês. — Especialmente quando correspondem aos desejos do imperador — subitamente uma ruga vertical surgiu em sua testa. — Como é mesmo o nome dele?
Gonozal VIII.
O comodoro Ceshal lançou um olhar para seus oficiais e disse:
Os Gonozals são uma das famílias mais célebres de Árcon. Vejo que não se extinguiram no curso dos milênios, mas se conservaram. Isto é espantoso, face ao que fiquei sabendo neste meio tempo. Estivemos em viagem durante dez mil anos...
Rhodan preferiu não falar mais em Atlan e seus ascendentes. O futuro esclareceria tudo, se é que havia algo a esclarecer. Era perfeitamente possível que, por ocasião da partida de Ceshal, há dez mil anos, tivesse havido a participação decisiva de um Gonozal. Talvez fosse um dos numerosos parentes de Atlan.
Foram buscar Ekral, Tunuter e Alos.
Acho que, se tivéssemos tempo, conseguiríamos reparar a nave — afirmou o cientista com certo orgulho. — Poderíamos reparar inclusive o hiperpropulsor, mas receio que para isso nos faltem certas peças essenciais.
O futuro lhe reserva tarefas grandiosas — disse Rhodan com um sorriso, para consolá-lo. — Árcon precisa de cientistas e técnicos como o senhor. Precisa de líderes ativos e arrojados. Árcon está atravessando uma crise perigosa, mas voltou a ter uma cabeça pensante. Gonozal VIII aguarda a chegada de arcônidas que possam ajudá-lo a defender o Império contra seus inimigos.
Ekral fez um mesura para Rhodan, que não pôde evitar uma sensação esquisita. Os orgulhosos arcônidas, que já se encontravam no auge do poder quando o homem ainda vivia em cavernas, demonstravam sua reverência a ele, que era um terrano. Esta demonstração de humildade revelava a grandeza de sua alma.
No pulso de Rhodan ouviu-se um zumbido estridente.
Era Sikermann!
Rhodan ligou o rádio de pulso.
O que houve, coronel?
Conseguimos sair, sir. Estamos rebocando a nave dos antepassados a meia potência. Será que deveríamos estabelecer a comunicação direta entre as comportas principais?
Ficar-lhe-ei muito grato se fizer isso. Quando tudo estiver pronto, avise.
Os arcônidas não haviam entendido uma única palavra, já que Rhodan e Sikermann se comunicaram em inglês. Ceshal disse com um ligeiro embaraço:
Daquela vez os robôs nos tiraram os intercomunicadores de pulso. Isso foi a hora da humilhação máxima. Felizmente não modificaram nosso plano primitivo, apenas lhe imprimiram uma finalidade diferente.
Sim; já conhecemos essa finalidade. Pretendiam levar a nave a um planeta habitado e criar uma civilização de robôs. Para isso, precisariam de cientistas e trabalhadores. Acho que teriam conseguido. Os homens se teriam transformado em escravos de robôs e, passadas algumas gerações, não conheceriam outro estado. Ainda bem que seu plano fracassou.
Atravessaram vários corredores e, depois de algum tempo, atingiram a entrada da comporta. Enquanto aguardavam, reunidos em grupos, Gucky revistou os compartimentos contíguos. Teve a impressão de que captara um impulso mental conhecido. Era verdade que estava um tanto “apagado”. Provavelmente provinha de uma pessoa adormecida que despertaria dentro em breve. Mas de certa forma...
Parece-me”, pensou Gucky, “que já vi este sujeito.”
Voltou a estabelecer a localização e saltou. Materializou-se a uma distância de trinta ou quarenta metros, no interior de uma câmara pressurizada. Não sabia qual era a finalidade da mesma, mas logo imaginou por que motivo a pessoa que se encontrava no seu interior não dormia tão profundamente como as outras.
O arcônida estava nu. O cobertor com que envolvera o corpo escorregara para o chão. No recinto havia vários recipientes pressurizados, cheios de ar. Gucky olhou para cima. Evidentemente este recinto também tinha um poço de ventilação, mas o arcônida deveria ter desconfiado antes que fosse tarde. Ainda tivera força e presença de espírito para abrir um dos recipientes de ar. Com isso, o gás deletério foi diluído.
O homem adormecido virou-se nervosamente para o outro lado.
Gucky viu um rosto estranho. Não; nunca vira este homem. Mas seus impulsos mentais lhe eram familiares. Só mesmo um telepata muito bem treinado conseguiria catalogar os impulsos mentais. Os pensamentos de qualquer homem seguiam um modelo bem definido, que poderia ser reconhecido. Gucky comparou o modelo de vibrações psíquicas com as impressões digitais, muito embora a comparação fosse um tanto ingênua.
O arcônida acordou e seus pensamentos começaram a tornar-se mais claros.
No mesmo instante, o espírito de Gucky iluminou-se.
Já sabia de onde conhecia aquele modelo de pensamentos. Ele o tateara uma vez em sua vida, num momento em que a vida do arcônida parecia estar em perigo. Foi na oportunidade em que T-39 acreditava que os robôs o estavam atirando para dentro do conversor atômico.
O técnico T-39 ergueu-se e viu Gucky. A primeira idéia que lhe veio à mente foi a de defender-se, mas logo percebeu que aquela criatura não pretendia atacá-lo. Mas o estranho ser continuava a seu lado; não se tratava de uma alucinação.
Quem é você? — perguntou com um gemido.
Estava com dor de cabeça.
Gucky inclinou-se e ajudou T-39 a levantar-se.
Explicarei tudo, T-39. Venha comigo. Seu comandante está ansioso por conhecê-lo. Afinal, todos os membros da expedição devem agradecer a você por ainda estarem vivos. Se não tivesse captado seu pedido de socorro, nunca teria descoberto a nave dos antepassados. E se não a tivesse descoberto... bem, isto é uma história longa e complicada. De qualquer maneira, tudo começou a partir de você.
Não compreendo uma palavra do que está dizendo — falou T-39 e saiu cambaleando.
Ficou perplexo ao ver as pessoas adormecidas estendidas nos corredores. Começou a desconfiar de que mais uma vez tivera sorte. A morte passara perto dele.
Que expedição?
Tenha mais um pouco de paciência — pediu Gucky. — Logo saberá de tudo.
T-39 foi informado, mas o que soube foi mais do que um homem normal pode digerir. O técnico acenava constantemente e fazia de conta que compreendia, mas Gucky percebeu que na cabeça do coitado zumbia um verdadeiro enxame de abelhas...

* * *

O telecomunicador de Rhodan deu sinal.
O contato foi estabelecido, sir — anunciou Sikermann. — Pode abrir a comporta.
Os técnicos dos arcônidas puseram-se a trabalhar. Normalmente a comporta era aberta mecanicamente a partir da sala de comando, mas em caso de emergência devia-se recorrer aos controles manuais.
Os arcônidas entraram na Drusus, nave capitania de Rhodan.
Com um único passo superaram uma evolução de dez mil anos.
Mais tarde, quando se viu acompanhado por Bell, Gucky e alguns amigos em seu camarote, enquanto a Drusus se preparava para a primeira transição em direção a Árcon, Rhodan exprimiu isso da seguinte forma:
Esse Ceshal deve ter uns cinqüenta anos de idade. Logo, é relativamente jovem. Enquanto seu Império passava pelo apogeu e pela decadência, ele dormia. E agora chega na hora exata da reconstrução. Logo, não perdeu nada. E as gerações nascidas depois dele e colocadas em estado de hibernação não degeneraram. Mantiveram-se vigorosas e ativas. Podemos confiar em Atlan; é nosso amigo. Aliás, acho que teremos de confiar nele. Entregando-lhe os antepassados, colocamos em suas mãos um poder que nunca deverá ser subestimado. Árcon voltará a ser aquilo que já foi.
E tudo isso aconteceu — disse Gucky em tom pensativo — porque naquela oportunidade captei o pedido de socorro de T-39. O que teria acontecido se naquele momento eu estivesse dormindo?
Rhodan sorriu e acariciou o pêlo de Gucky.
Ora, meu baixotinho, o que poderia ter acontecido? É fácil calcular. Existiam duas possibilidades... aliás, estas sempre existem. Naquele tempo, a revolta já estava latente. Talvez tivesse sido bem sucedida, talvez não. A estrela Magnus sempre existiu. E ficava na trajetória da nave. No mínimo, a nave seria captada por seu campo gravitacional, dentro de trinta ou quarenta anos. Acontece que Magnus não tem planetas. As pessoas adormecidas despertariam e...
Mantiveram-se calados. Não havia mais nada a dizer.
Gucky suspirou.
Digam o que quiserem — constatou. — Se às vezes andamos espionando um pouco, isso tem seu lado bom. Se daquela vez, na nave de Lund, aquele cadete esquisito, o Bruggs, não me tivesse dado as cenouras murchas...
Rhodan continuava a acariciar o pêlo de Gucky.
Acho — disse — que falar em duas possibilidades representa uma forte subestimação do jogo de probabilidades. Qualquer situação representa o ponto de partida de milhões de possibilidades. Mas só uma delas se transforma em realidade. Se raciocinarmos bem sobre isso, o acaso adquirirá um novo significado, se é que o mesmo significa alguma coisa.
Se! — piou Gucky e enrolou-se sobre o colo de Rhodan. — Proponho que a palavra “se” seja eliminada do vocabulário de todas as raças inteligentes, pois ela dá margem para muitos “abusos”! Se considerarmos por exemplo...
Ora veja! — exclamou Bell em tom de triunfo. — Se...!
Mas Gucky já estava dormindo. Ou ao menos fazia de conta que estava.





* * *
* *
*




Os “adormecidos” foram conduzidos em segurança a Árcon e serão recebidos festivamente por Atlan. Mas Perry já tem outro problema para resolver, quando recebe uma ordem telepática...
Em Céu sem Estrelas, próximo livro da série, novos lances de emoção...

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