— Ah, é
o comandante! Ao que parece, nossa tática não ficou em segredo por
muito tempo. Tem alguma sugestão?
C-l fez
como se não tivesse percebido a ironia. Respondeu em tom sério:
— Receio
que tenhamos apenas mais dez dias para a nossa guerra. Estamo-nos
precipitando para o sol branco. Os propulsores falharam. Devem ter
sido danificados durante a transição, a mesma transição que
despertou vocês. Sugiro que façamos as pazes.
Um sorriso
frio surgiu no rosto de Ceshal.
— O
senhor fala em paz, comandante, e nos tranca bem no centro da nave.
Mal e mal conseguimos lugar para todos, e só metade das pessoas
despertou. Quando o restante sair da câmara fria, haverá uma
catástrofe. Abram todas as comportas que dão para as áreas
exteriores, ou faremos com que morram asfixiados.
C-l
sacudiu a cabeça. Levantou um pedaço de papel no qual estavam
escritos alguns números.
— O
senhor deve ter aí algum matemático que poderá conferir meus
cálculos, Ceshal. Se eu liberar a nave e se todas as pessoas
adormecidas despertarem, estaremos perdidos. Mesmo bem racionados, os
mantimentos só darão para uma semana. Acontece que dificilmente
atingiremos o planeta mais próximo em menos de três semanas, e isso
se conseguirmos reparar os propulsores. Portanto, faço-lhe a
seguinte proposta: mande fechar a câmara fria! Não deixe sair mais
ninguém. Temos de sacrificar as pessoas que ainda estão dormindo.
Só assim conseguiremos sobreviver.
Ceshal
lançou um olhar apavorado para C-l e sacudiu a cabeça.
— Rejeitamos
sua proposta, comandante. Preferimos deixar que vocês morram
asfixiados a sacrificar cinqüenta mil arcônidas. Reconheço que
ficaremos bastante apertados. Porém, nos pavilhões, depósitos,
hangares e corredores há lugar para todos. Os mantimentos serão
suficientes para alimentar-nos até o momento do pouso, desde que
sejam distribuídos adequadamente e todas as energias disponíveis
sejam conduzidas para os centros de produção de alimentos
sintéticos. Se cooperarmos, a salvação ainda é possível,
comandante. Mas apresento uma condição. O senhor me reintegrará
pessoalmente no posto que já ocupei e que me cabe de direito. Sou o
comodoro desta nave.
C-l quis
respirar profundamente, mas quase ficou sufocado com a tentativa. De
repente percebeu que o ar já estava muito viciado.
— Forneceremos
mantimentos em troca de ar...
Ceshal
sacudiu a cabeça. Um sorriso frio surgiu em seu rosto.
— Não
estabeleça condições, comandante. Se alguém pode estabelecê-las,
somos nós. O ar é mais importante que a comida. Agüentaremos por
mais tempo que os senhores. Quando tiverem morrido asfixiados,
arrombaremos as passagens. Além disso, dispomos do pessoal e dos
conhecimentos necessários para reparar os propulsores. Então?
C-l olhou
em torno. Só viu rostos perplexos. Até mesmo O-l, geralmente tão
inteligente e confiante, não parecia ter uma boa saída para o caso.
O
comandante voltou a dirigir-se à tela.
— Muito
bem, Ceshal. Mandarei abrir as comportas. Venha à sala de comando,
acompanhado por alguns técnicos. Poderemos conversar calmamente.
Tome suas providências para que seus homens se comportem e não
saqueiem os depósitos de mantimentos. Se isso acontecer, mandarei
atirar contra eles.
— Não
se esqueça de que também possuímos armas, comandante.
C-l se
admirava de que Ceshal ainda o tratava por comandante, mas como não
conhecia outro nome, naturalmente não poderia ser diferente.
— Porém
não se preocupe — anunciou o comodoro. — Disponho de oficiais
competentes da primeira geração. Eles tomarão todas as
providências para que haja ordem. E também para que haja um
vigoroso contra-ataque, caso isso se torne necessário.
— Que o
destino siga seu curso — declarou C-l, em tom de lamento, e fez um
sinal para o primeiro-oficial. — Mandarei abrir a comporta
principal. Providencie para que o equipamento de renovação de ar
seja ativado imediatamente. E apresse-se para chegar à sala de
comando. Não dispomos de muito tempo.
As câmaras
instaladas a bordo, as telas e os avisos transmitidos pelo
intercomunicador mantiveram C-l informado sobre o que estava
acontecendo no interior da nave. Os dez mil tripulantes ficaram
perplexos ao assistirem à pacífica invasão das pessoas nuas. Mas
quando notaram que a torrente não terminava, sentiram-se tomados de
desespero. Os “intrusos”
iam tomando assustadoramente os corredores infindáveis da nave!
Os
oficiais de ambos os lados mantinham a ordem. Alguns deles podiam ser
reconhecidos pelos macacões, outros pelos cobertores que os
envolviam.
O comodoro
Ceshal, o cientista Ekral, o técnico Tunuter e o cibernético Alos
foram levados à sala de comando por um oficial. No caminho
encontraram-se com grupos armados, encarregados do policiamento,
cujos rostos zangados não prenunciavam nada de bom.
De repente
voltou a soar o ruído de batalha.
— Já
está começando de novo — disse o oficial em tom preocupado. —
Tomara que ainda consigamos chegar à sala de comando. Não posso
fazer...
Não
ficaram sabendo o que ele não poderia fazer.
Mais um
grupo da milícia formada às pressas surgiu à frente deles. Quando
viu os quatro homens envoltos em cobertores, o chefe apontou sua
arma. Talvez pensasse que o oficial, que se encontrava no centro do
grupo, fosse prisioneiro dos antepassados.
— Pare!
O comodoro
Ceshal estendeu a mão em sua direção.
Os
soldados, que eram cinco, ficaram tão surpresos com o gesto, que só
um deles chegou a disparar. A pontaria não foi boa, e o tiro atingiu
o oficial que levaria Ceshal e seus homens à sala de comando.
Os guardas
ficaram apavorados, e tornaram-se um alvo fácil: foram mortos pelo
grupo de Ceshal.
Ligeiros,
os quatro despertos correram em direção ao elevador mais próximo.
Não seria conveniente alguém os encontrar por ali. Ninguém
acreditaria que haviam agido em legítima defesa. Seriam acusados até
mesmo da morte do oficial.
Conheciam
muito bem a nave, e por isso tinham a impressão de que poucos dias
se haviam passado desde o momento em que foram substituídos pelos
robôs e colocados em estado de hibernação. Na verdade, alguns
milênios se haviam passado e, durante estes, outras gerações
surgiram.
Quando já
se encontravam próximos à sala de comando, ouviram o ruído dos
ventiladores, que aspiravam o ar viciado. Estava mesmo na hora de
começarem a funcionar, pois mal se conseguia respirar. Os dutos
traziam ar puro e fresco. O mesmo infundia vida e confiança.
Antes de
chegarem à entrada da sala de comando, Ceshal e seus três
companheiros foram recebidos por dois oficiais. Pediram ao grupo do
comodoro que entregasse as armas.
O rosto de
Ekral assumiu uma expressão sombria. A mão que segurava a pistola
energética pendia molemente junto ao corpo. Ninguém poderia
imaginar com que rapidez Ekral seria capaz de usar a pistola. Ceshal
balançou a cabeça.
— Não
somos seus prisioneiros, tenente. Seu comandante nos garantiu ampla
liberdade. Além disso, dentro em breve, toda e qualquer resistência
às ordens do comandante será punida severamente, como nos velhos
tempos. Saia do caminho, tenente.
A voz de
Ceshal voltara a ter o costumeiro tom de comando dos velhos
arcônidas: era autoritária e arrogante. O tenente recuou
instintivamente um ou dois passos e baixou sua arma.
Alos
aproveitou a oportunidade. Aproximou-se rapidamente e colocou-se
entre os dois tenentes. Ceshal passou por eles, seguido por Tunuter.
Ekral apontou a pistola para os dois homens surpresos.
— Cavalheiros!
— disse em tom severo.
— Os
senhores serão acusados de resistência contra os superiores, se
tentarem deter-nos. Façam o favor de se acostumarem à nova
situação. E lembrem-se de que, sem nossa ajuda, a nave se
precipitará para dentro do sol.
Enquanto
isso, Ceshal já havia chegado à sala de comando. Abriu a porta e
entrou.
C-l estava
de pé junto aos controles e fitou-o.
— Viemos
para assumir o comando da nave — disse Ceshal, em tom compenetrado.
— Espero que a tripulação tenha sido informada sobre a mudança,
comandante.
C-l
conseguiu dominar-se. Os três auxiliares do comodoro também
entraram.
— Ceshal,
receio que uma mudança de comando já não conseguirá modificar a
situação. Por mim pode voltar a considerar-se o comodoro. Não
tenho a menor objeção.
Ceshal
olhou em torno sem compreender nada. Só viu rostos indiferentes. A
tela vazia do intercomunicador parecia uma nuvem de neblina.
Sentiu um
calafrio.
— O que
aconteceu? — perguntou. — Por que de repente você desistiu de
comandar a nave? Não me diga que pretende...
— Perdemos
o controle sobre a tripulação, Ceshal. Os oficiais estão
amotinados. As comunicações pelo intercomunicador foram
interrompidas. Alguns dos meus mensageiros foram assassinados. A
guerra irrompeu entre as pessoas despertadas e a tripulação atual.
Ninguém cumpre minhas ordens.
Um sorriso
amargo surgiu no rosto de C-l, que esboçou um gesto de resignação.
— Comodoro
Ceshal, o senhor não acha que, nestas condições, qualquer um que
comande a nave nada conseguirá?
Ceshal
sacudiu lentamente a cabeça.
— Não;
não acho. Pelo contrário! Parece-me que é muito importante eu
assumir o comando. Poremos fim à guerra que se trava no interior da
nave. E isso o mais rápido possível. Ekral, o senhor é um
cientista. Procure encontrar uma possibilidade de submeter a
tripulação, sem incapacitá-los para o trabalho. Ou então recorra
aos robôs. Isso talvez caberia a Alos. Antes de mais nada, temos de
examinar o mecanismo propulsor.
C-l
afastou-se, quando Ceshal iniciou suas atividades sem maiores
intróitos. A diferença dos milênios tornou-se evidente. Ceshal era
um homem jovem e enérgico da primeira geração da família
governante da velha Árcon. A degenerescência não o atingira. E
essa circunstância começou a produzir seus efeitos no interior da
nave.
Os cinco
mil homens e mulheres, que ainda chegaram a ver o sol de Árcon
brilhar no céu, conseguiram impor-se. Em todos os lugares assumiam
as posições mais importantes e as guarneciam com oficiais de
confiança. Os depósitos de roupa foram esvaziados e seu conteúdo
distribuído. As provisões de mantimentos tornaram-se suficientes
para a primeira refeição quente. Enquanto esta era distribuída, a
produção foi reiniciada. Os robôs passaram a obedecer aos novos
senhores.
Em outras
partes da nave, os membros da primeira e da última geração se
encontravam e travavam batalhas encarniçadas. Ninguém estava
disposto a ouvir sequer os argumentos da outra parte. Mas enquanto os
homens de C-l se transformavam em anarquistas, os súditos de Ceshal
continuavam a agir dentro da disciplina, conforme mandava a tradição.
Mas muitas
vezes a fome falava mais alto que o sentimento de tradição.
As
mulheres haviam ficado no convés central. Recebiam roupas e
mantimentos através da comporta. Entretanto os víveres logo eram
consumidos, pois os arcônidas, à medida que iam acordando e saíam
da esfera de gelo, investiam contra os distribuidores. Não era
possível esclarecer um por um, a respeito do que estava acontecendo.
E assim surgiram divergências e atritos.
Dias
depois, Alos conseguiu formar um grupo de sete robôs fortemente
armados e programados de acordo com seus objetivos.
Teve de
“capturá-los”
e “iludi-los”,
um por um, pois não lhe obedeciam. Mas agora, com os comandos
eletrônicos e os reflexos programados, formavam um grupo de aliados
de valor inestimável.
Protegidos
por esta força de combate, Ekral, Tunuter e Alos avançaram até a
sala dos propulsores, onde deveriam localizar o defeito mecânico. Se
conseguissem descobri-lo em tempo, ainda poderia haver uma salvação.
Do
contrário...
Por mais
de uma vez tiveram de recorrer às armas.
Saído não
se sabe de onde, um grupo de trabalhadores, soltando gritos
histéricos, precipitou-se contra os robôs. Estavam armados com
facas, machadinhas e raspadores metálicos. Ekral procurou
preveni-los, mas seus esforços não deram o menor resultado. E os
robôs reagiam automaticamente...
O segundo
ataque foi desfechado por um grupo de homens nus. Nos olhos de todos
eles chamejava um princípio de loucura. Não davam ouvido a qualquer
advertência e nem se deixaram intimidar pelas armas ameaçadoras dos
robôs. E outra vez, os robôs agiram...
Alos
amaldiçoou a nave e sua missão e só teve um desejo: morrer o
quanto antes, para não continuar a matar.
Mas se
falhasse agora, muito mais gente morreria... Todos aqueles que se
encontravam na nave.
Quando
dobrou uma curva do corredor, ainda viu seis ou sete vultos envoltos
em trapos que fugiam.
Deixaram
alguma coisa para trás.
Alos viu
que Ekral e Tunuter fitavam a “tal
coisa”,
com os olhos arregalados.
Era o
corpo nu de um ser humano.
Ou melhor:
aquilo que sobrara do mesmo.
5
O
calendário de bordo indicava o dia 29-09-2.044 e 16 horas e 57
minutos, tempo de Terrânia.
O
comandante Kyser cerrou os olhos quando o instrumento automático de
escrita começou a tiquetaquear. O gravímetro iluminou-se, indicando
a existência de uma alteração do campo gravitacional. As telas
cintilavam nervosamente.
Na tela
frontal não houve nenhuma modificação. O sol anão branco
mantinha-se num esplendor frio no centro da lâmina e parecia
totalmente imóvel. Seu campo gravitacional era muito potente e
sacudia fortemente os campos de estabilização do cruzador ligeiro.
— Matéria
sólida em quantidade reduzida, à frente e à direita — disse o
Tenente Lunddorf, do setor de navegação. — É uma pequena lua, ou
a nave.
— Tomara
que seja a nave — disse Kyser.
Se
justamente ele encontrasse a nave arcônida dos antepassados, seria
um acaso incrível. Mas, em parte, o êxito poderia ser atribuído a
ele e seus tripulantes.
— Fazer
a localização goniométrica. Dali a dez minutos não restava mais a
menor dúvida.
Haviam
encontrado o gigantesco barco espacial arcônida.
A nave ia,
em queda livre e em velocidade crescente, direto ao sol branco, já
se encontrando sob a influência de seu campo gravitacional. Alguns
cálculos rápidos revelaram que, dentro de exatamente três dias e
quatorze horas, se evaporaria sob a incandescência do anão
escaldante.
Kyser
mandou armazenar os dados relativos à sua posição no computador
positrônico do setor de navegação e dirigiu-se à sala de rádio.
Dali a
meia hora, Terrânia respondeu. O Marechal Freyt encontrava-se do
outro lado da linha.
— Acabamos
de localizar a nave que está sendo procurada, sir. Quais são suas
ordens?
— Forneça
os dados exatos e aguarde.
Enquanto
Kyser transmitia a posição, Freyt entrou em contato com Rhodan.
Tudo corria conforme fora previsto. Não se perdeu nem um segundo.
Enquanto as últimas instruções eram transmitidas, a Drusus foi
preparada para a decolagem. Rhodan foi no turbocarro até o
espaçoporto.
Bell e
Gucky puseram fim às suas mini-férias. Não tiveram tempo para uma
viagem de automóvel. O rato-castor, conduzindo Bell, teleportou-se
para o interior da sala de comando da Drusus, onde o Coronel Baldur
Sikermann já estava sentado diante dos dispositivos de controle de
vôo e aguardava resultado dos cálculos positrônicos.
Rhodan só
chegou dali a cinco minutos. Ignorou o sorriso de triunfo de Gucky e
dirigiu-se a Sikermann:
— Todos
os mutantes que deverão acompanhar-nos já estão a bordo?
— Sim
senhor. Estamos prontos para a decolagem.
— Muito
bem. Decole. Outros dados ainda lhe serão fornecidos.
Foi só.
Os
propulsores rugiram e arrastaram a gigantesca nave para o alto. A
Terra mergulhou nas profundezas do espaço e logo se transformou numa
bola verde-azulada. Depois da primeira transição, Rhodan ofereceu
num relato.
— Pelo
que conseguimos apurar, a nave dos antepassados está desgovernada.
Suponho que o hipersalto não tenha sido suportado muito bem pelos
propulsores. Está caindo em direção de um sol anão que possui
forte campo gravitacional. Devemos tentar captar a nave com os raios
de tração e desviá-la. Resta saber se conseguiremos fazê-lo. Só
dispomos de algumas horas.
Os relês
do computador positrônico começaram a tiquetaquear.
— Será
que devo tentar estabelecer contato por meio de meu cruzador? —
perguntou o comandante Lund em tom entusiasmado. — Dizem que posso
conseguir, porque o formato de minha nave...
— Não
podemos perder tempo com experiências — disse Rhodan em tom mais
áspero do que pretendera. — Temos de lançar mão imediatamente
dos teleportadores. Não podemos desperdiçar um segundo que seja.
Nem
desconfiava de como estava com a razão.
O segundo
salto foi bastante exato.
Quando o
espaço voltou a ficar ao alcance de suas vistas, à sua direita
havia uma pequena esfera luminosa; era o cruzador ligeiro de Kyser.
Exatamente na direção em que voavam, brilhava o sol branco, que
estava registrado nos catálogos estelares dos arcônidas com um
número, já que não possuía nome. À direita deste havia uma
sombra gigantesca e redonda...
— Tentei
estabelecer contato pelo rádio — anunciou o comandante Kyser. —
Não obtive resposta. Ou não querem nada, ou então seus aparelhos
de rádio estão em pane.
— A
última hipótese é a mais provável — respondeu Rhodan. — Se os
propulsores falharam, as instalações de rádio também devem ter
sido danificadas. Mantenha sua posição atual, Kyser. Mandaremos
Gucky e Ras Tschubai para junto dos arcônidas. Mais tarde poderá
apoiar-nos com seu campo antigravitacional. Bem que precisaremos.
Ras
Tschubai entrou na sala de comando. O teleportador africano era um
dos membros mais antigos do Exército de Mutantes. Já vivera muitas
aventuras perigosas em companhia do rato-castor. Já conhecia também
a nave das gerações, através dos relatos de Gucky, e estava
ansioso para conhecer o interior do engenho arcônida.
Se
desconfiasse das surpresas que o aguardavam teria ficado menos
entusiasmado com a missão que devia cumprir.
— Saltem
daqui — ordenou Rhodan. — Procurem descobrir se a falha dos
propulsores é total, ou se algumas das unidades propulsoras da
protuberância equatorial podem ser ativadas. Receio que no lugar,
onde se encontra a nave, o campo gravitacional do sol seja muito
forte. Precisaremos de apoio, pois do contrário não conseguiremos
arrastá-la. Se houver complicações, voltem imediatamente e
apresentem seu relatório. Entendido?
Os dois
mutantes fizeram um gesto afirmativo. Seguraram-se pela mão, a fim
de não se afastarem depois do salto.
Desapareceram
num forte torvelinho. O lugar, em que há pouco se encontravam,
estava vazio.
Rhodan
voltou a fitar as telas e manteve-se à espera.
*
* *
A primeira
coisa avistada por Gucky foi um grupo de seis ou sete mulheres,
precariamente vestidas, que batiam num homem uniformizado. Quando o
judas
não mais resistiu, precipitaram-se sobre ele e arrancaram-lhe as
roupas, com exceção da cueca. Não se preocuparam mais com sua
vítima: dividiram, entre si, as roupas do pobre coitado.
— O que
será que elas estão fazendo? — cochichou Ras muito abalado. —
Você compreende o que está acontecendo?
— Ainda
não compreendi muito bem. Mas ao que tudo indica só estavam
interessadas pelas roupas, não pelo homem. Não é de admirar, pois
de cueca ele pode ser tudo, menos bonito.
Gucky
soltou um som borbulhante, como se acabasse de contar uma boa piada.
Nem desconfiava de que, dali a pouco, não teria mais vontade de rir.
Antes que
Ras tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, foi descoberto por uma
das mulheres.
— Ali
está mais um! — gritou uma delas, em tom de espanto. — É todo
preto! Que animal é este que se encontra perto dele?
— Isso
dará um bom assado! — exclamou uma outra e precipitou-se com uma
barra de ferro levantada sobre o rato-castor. — Fui eu quem o viu o
primeiro...
Gucky não
estava com muita vontade de ser comido.
Recorreu à
sua capacidade telecinética e usou-a sobre a mulher apaixonada pela
caça. A arcônida foi parar um pouco abaixo do teto, passando a
gritar terrivelmente. Depois flutuou até a primeira curva do
corredor e desapareceu. Quando Gucky a soltou, ouviu-se um baque
surdo.
Enquanto
isso, Ras tirava as barras de ferro das outras atacantes.
— Que
espetáculo estranho é este? — gritou Ras em tom furioso para as
mulheres perplexas. — Vocês poderiam dizer o nome desse jogo?
Acontece
que, nesse meio tempo, Gucky andara investigando os pensamentos das
mulheres indecisas e descobrira certas coisas que quase o deixaram
sem fôlego. Girou em torno do próprio eixo e segurou o braço do
africano.
— Os
antepassados acordaram, Ras, e, na nave mal e mal há lugar para
eles. Não existem roupas para todos. Nem mantimentos. Já houve
casos de canibalismo. Alguns deles se entrincheiraram no setor de
produção de alimentos e o defendem encarniçadamente. Outros andam
pela nave, roubando e saqueando. Em que inferno fomos nos meter?
— E a
nave cairá no sol, se não mudar logo seu curso. Como pôde ocorrer
isso?
— Ao que
tudo indica, a transição ativou os impulsos automáticos, que
despertaram as pessoas em estado de hibernação. Vamos saltar para a
sala de comando. Sei onde fica.
A nave era
do mesmo tipo da Drusus. Gucky não teve a menor dificuldade em
orientar-se. O primeiro salto levou-o ao setor de comando da esfera
espacial. Ras materializou-se a seu lado.
O oficial,
apavorado — era um tenente — teve uma reação muito lenta. Antes
que pudesse atirar, Ras lhe tirara a arma. Só havia mais um homem no
corredor que levava à sala de comando. Também estava armado, mas
parecia indeciso sobre o que devia pensar a respeito dos dois
fantasmas surgidos do nada.
— Queremos
falar com o comandante
— disse
Ras, brincando com a pistola energética de que se apoderara, sem
apontá-la diretamente para o homem. — Leve-nos a ele.
O tenente
já recuperara o autocontrole.
— Quem
são vocês? De onde vêm?
— Deixemos
isso para depois, baixinho
— desconversou
Gucky, dirigindo-se ao tenente, que tinha quase o dobro do seu
tamanho. — Vai levar-nos ao comandante ou não?
— Temos
ordens para não deixar...
— Deixa
pra lá — disse Gucky em tom indignado. — Conheço o caminho.
Pediu a
Ras que lhe desse cobertura e dirigiu-se com seu andar balouçante ao
longo do corredor, em direção à porta da sala de comando. Enquanto
isso, sondava os impulsos mentais dos arcônidas que se encontravam
do outro lado da parede.
O
comandante não estava só. Alguns dos antepassados achavam-se com
ele. Dali se concluía que nem sempre as pessoas despertadas e os
homens do presente se defrontavam como inimigos.
Gucky
abriu a porta, soltando o fecho positrônico.
Entrou na
sala de comando, acompanhado por Ras. De repente viu-se frente a
frente com grande número de arcônidas que, quando o notaram,
interromperam sua palestra e o fitaram como se fosse um fantasma.
Gucky já
estava acostumado a isso. Afinal, não é todos os dias que a gente
se encontra com um rato-castor. Usava o uniforme especialmente feito
para ele, com o cinto estreito onde guardava as armas. Mas ao
primeiro relance de olhos, percebia-se que não era um ser humano.
Era muito pequeno para isso. A larga cauda de castor que geralmente
lhe servia de apoio, arrastava-se pelo chão.
— Olá,
amigos — disse Gucky, fazendo uma mesura em direção ao único
homem a quem conhecia. — Cá estamos. C-l, não lhe prometemos que
oportunamente voltaríamos? Naturalmente não poderia imaginar que
neste meio tempo você iria experimentar os hiperpropulsores...
C-l logo
se recuperou da surpresa. Adiantou-se e inclinou-se sobre o
rato-castor.
— Você
cumpriu sua promessa! Naquela época, você nos livrou dos robôs,
mas receio que desta vez nem você poderá ajudar-nos. Os
antepassados...
— Os
antepassados acordaram; já sei. Andam por todos os cantos da nave e
tiram os uniformes dos tripulantes. Que situação! Mas o pior é que
a nave está caindo em direção a um sol, C-l. Se não fizerem nada,
daqui a três dias estarão todos mortos. O que houve com os
propulsores?
— Nossos
técnicos estão trabalhando ininterruptamente nos mesmos, mas por
enquanto não conseguiram nada. Além disso, nosso trabalho vem sendo
perturbado. O inferno está às soltas na nave. Bandos de ladrões
assaltam nossos homens e os saqueiam. Não existe mais nenhuma ordem.
A única coisa que prevalece é a lei do mais forte.
Gucky
deixou de olhar para C-l. Dedicou sua atenção a outro homem que se
adiantara e estava acompanhando a palestra com um interesse visível.
— Quem é
você?
O comodoro
Ceshal recuou como se tivesse sido picado por uma cobra.
— Sou o
comodoro Ceshal e pertenço à primeira geração. Assumi o comando
da nave dos antepassados, que me cabe de direito. Quem é você? De
onde veio? Onde se escondeu até agora? Como aprendeu a falar a minha
língua?
Gucky
fitou Ceshal, como se quisesse embalsamá-lo vivo.
— Será
que entrei num jogo de charadas? Nesse caso caberia a mim fazer as
perguntas. Quer dizer que você pertence à primeira geração? É
uma das pessoas que levantaram antes da hora?
Ceshal
respirava com dificuldade. Gucky não o deixou falar.
— Já
sei o que quer dizer. Até parece que está escrito na ponta do seu
nariz. Não se preocupe. Não contestarei seu direito ao cargo e me
desmancharei de tanta veneração assim que tiver tempo para isso.
Acontece que no momento não tenho tempo. Rebocaremos sua nave e a
levaremos para fora do campo gravitacional deste sol. Meu senhor
manda dizer que devem acionar os propulsores em sentido contrário ao
do deslocamento da nave. Será que me fiz entendido?
— Os
propulsores ainda não estão em condições de funcionar —
ponderou C-l.
Ceshal não
parecia disposto a permitir sem mais nem menos que alguém o
ajudasse.
— Você
vem de algum planeta do Império Arcônida? — perguntou em tom
orgulhoso. — Vocês não sabem guardar a necessária discrição.
Ou será que, enquanto dormíamos, as condições muito se
modificaram?
— Se
mudaram! — confirmou Gucky em tom irônico. — Você se espantará.
Mas posso tranqüilizá-lo, Ceshal. Somos da Terra, o planeta central
de outro reino estelar, que no seu tempo ainda não existia. Árcon e
a Terra são amigos.
— A
Terra?
— Você
ainda se acostumará a isso — profetizou Gucky. — E também se
acostumará ao fato de que Ras e eu somos teleportadores. Então,
como é? Estão dispostos a deixar que os ajudemos ou não?
Ceshal
parecia ter tomado uma decisão.
— Como
podemos deixar? Meus melhores técnicos estão trancados na sala dos
propulsores. Têm alguns robôs em sua companhia, mas estão sendo
atacados constantemente e mal podem dedicar-se ao seu trabalho. Têm
uma provisão de mantimentos, e por isso sofrem os ataques. Nesta
nave reina a fome.
— Já
sei, mas acontece que no momento não podemos fazer nada para
modificar isso. Se não houver nenhum imprevisto e tudo der certo,
esta nave poderá pousar dentro de pouco tempo num planeta. Talvez
possa mesmo pousar num planeta pertencente a Árcon. Mas preciso de
apoio. Ao menos parte dos propulsores tem de funcionar, pois do
contrário não conseguiremos arrastá-los para fora do campo
gravitacional deste sol.
C-l lançou
um olhar para Ceshal.
— Por
que está hesitando, Ceshal? É verdade que o senhor é o comandante
desta nave, mas acontece que a pequena criatura, que o senhor vê à
sua frente, ajudou-nos a vencer os robôs. É nosso amigo. Sua
hesitação poderá ofendê-lo.
— Não é
isso — respondeu Ceshal, esticando as palavras. — Acontece que o
senhor sabe tão bem quanto eu quem manda nesta nave. Não é o
senhor nem eu, mas a anarquia, a fome, a guerra e a violência. Nem
mesmo dispomos de uma intercomunicação regular com Ekral, Alos e
Tunuter. Vez por outra, uma pessoa consegue abrir caminho para lá, e
é só.
— Isso
basta — disse Gucky. — Sou um teleportador e saltarei para lá,
desde que alguém me descreva a sala em que se encontram os técnicos.
Enquanto isso, Ras continuará aqui.
— Não
seria preferível informar Rhodan sobre o que aconteceu aqui? — Ras
Tschubai parecia preocupado. — Ele devia saber.
Gucky
refletiu um instante.
— Está
bem, Ras. Salte para a Drusus e informe Rhodan. Enquanto isso
cuidarei dos técnicos. Voltaremos a encontrar-nos aqui, na sala de
comando. Nossos elementos de ligação serão C-l e Ceshal. Mande
lembranças minhas a Bell, caso resolva contar-lhe a história das
mulheres.
— Ele
ficará admirado — disse Ras com um sorriso e desmaterializou-se,
depois de concentrar-se por alguns segundos.
Gucky
ficou só.
— Vejamos
a sala dos propulsores, Ceshal. Mostre-me sua posição na planta da
nave. Além disso, será conveniente alguém me acompanhar, para que
possamos dispensar as explicações demoradas. Não temos um minuto a
perder.
Nem
desconfiava de que na realidade tudo seria uma questão de segundos.
6
Ninguém
tinha uma visão de conjunto, ninguém sabia exatamente o que estava
acontecendo na nave. Cada um lutava contra os demais. Era uma guerra
de todos contra todos. E uma guerra por tudo.
De início
haviam lutado por peças de roupa e cobertores. Depois surgiu a fome.
Por fim passaram a lutar pelos lugares em que pudessem deitar e
descansar.
Na sala de
máquinas da gigantesca nave esférica, a resistência fora
organizada por Alos, que providenciara para que todas as entradas
fossem fechadas hermeticamente. A sala de propulsores propriamente
dita era um recinto redondo, com inúmeros aparelhos e quadros de
controle. Os pesados conversores formavam corredores e compartimentos
distintos — além de uma imensidão de excelentes esconderijos.
Duas ou
três dezenas de pessoas despertadas e alguns membros da tripulação
primitiva conseguiram refugiar-se na sala de máquinas.
Entrincheiraram-se em três ou quatro lugares com os mantimentos e as
armas de que se haviam apoderado e não permitiam que ninguém
ultrapassasse uma linha de segurança, arbitrariamente traçada.
Enquanto
não o perturbavam no trabalho, Alos não se incomodou. Sentia-se
responsável pela segurança dos cientistas Ekral e Tunuter, e tinha
de fazer tudo para que estes reparassem os propulsores, a fim de
evitar que a nave se precipitasse para dentro do sol.
Os sete
robôs formaram um semicírculo em torno do pequeno grupo de
técnicos-assistentes escolhidos por Ekral. Todos os robôs estavam
armados e obedeciam exclusivamente às ordens de Alos.
— Só
posso garantir que pelo menos três dos propulsores da protuberância
equatorial voltarão a funcionar — dizia Ekral, dirigindo-se ao seu
colega Tunuter. — Infelizmente isso não deverá ser suficiente
para modificar a rota o bastante, a fim de evitar-se o desastre.
Devemos pôr a funcionar pelo menos mais três propulsores. Com isso,
talvez conseguiríamos passar rente ao sol e precipitar-nos para o
espaço. Quando voltarmos a cair, já teremos consertado os outros
propulsores.
— Não
sei se nossos esforços valerão a pena — disse Tunuter, em tom de
desânimo. — No interior desta nave, uma civilização se esfacela.
Uma cultura milenar está literalmente sendo atropelada pelo
primitivismo. O que estaremos salvando se conseguirmos evitar a
destruição da nave?
— Antes
de mais nada, estaremos salvando a nós mesmos — constatou Ekral em
tom frio. Estava retirando o revestimento de um conversor. — Só
depois saberemos o que irá acontecer. De qualquer maneira não seria
capaz de permanecer inativo, à espera do fim.
Tunuter
esteve a ponto de responder, mas viu-se interrompido por uma tremenda
explosão. Os fragmentos atravessavam o recinto com um zumbido e
ricochetearam perigosamente. Por milagre ninguém saiu ferido.
No
primeiro instante, Alos supôs que um dos aparelhos tivesse
explodido, mas o uivo triunfante de um bando de arcônidas
semi-selvagens fez com que visse a realidade. Os atacantes
atravessaram a abertura que se formara e brandiram suas armas,
consistentes principalmente em pedaços de móveis quebrados e barras
de ferro.
Com um
salto, Alos colocou-se ao lado dos robôs e deu-lhes ordem para que
defendessem o recinto. Ekral e sua equipe procuraram abrigar-se atrás
de alguns conjuntos de máquinas. Não estavam armados, motivo por
que tinham de confiar exclusivamente em Alos.
Os
arcônidas, que já se encontravam no interior da sala, tomaram
automaticamente o partido dos cientistas e começaram a atirar contra
os invasores de todas as direções. Face à insegurança reinante,
cada homem trazia sempre seus próprios mantimentos, desde que os
possuísse. Quando alguém era morto, os sobreviventes
precipitavam-se sobre este alguém e começavam a lutar pelos
pertences do defunto. Nessa oportunidade, até mesmo os aliados se
transformavam em inimigos ferozes.
Só os
robôs não conheciam a preocupação com os alimentos e seguiam
estritamente as ordens recebidas. Atiravam contra os intrusos e não
poupavam os saqueadores.
Gucky
irrompeu em meio à luta.
Materializou-se
subitamente com O-l, atrás dos robôs. Reconheceu Alos pelos
impulsos mentais. Antes que o cibernético pudesse apontar a arma
para o estranho ser, que surgira tão misteriosamente do nada, Gucky
disse:
— Você
é Alos. Foi Ceshal, quem me mandou. Não atire.
Alos ficou
tão perplexo ao ouvir o animal falar, que baixou a pistola. Só
depois deu-se conta do que Gucky lhe dissera.
— Foi
Ceshal, o comodoro?
— Perfeitamente.
Ele quer que eu os ajude.
Alos viu
que os invasores que ainda estavam vivos tinham fugido e os robôs
suspenderam o fogo. Mandou que dois deles se dirigissem à parede
danificada e ordenou-lhes que não deixassem entrar ninguém. Só
depois teve tempo para voltar a dedicar sua atenção ao rato-castor.
— Quem é
você? Não me lembro de o ter visto.
— Venho
de outra nave, enviada por Árcon. Vamos arrastá-los para fora do
campo gravitacional do sol, mas nossos aparelhos não conseguirão
fazê-lo sem apoio. Quantos dos propulsores desta nave estão
funcionando?
Ekral
acabara de entrar. Seu espírito vivo e penetrante logo percebeu a
chance de salvação. Não perguntou sobre o onde e o porquê, mas
foi logo explicando.
— São
três propulsores. Será que isso bastará? Em sentido contrário.
Gucky fez
um gesto afirmativo.
— Isso
basta. Quando é que você pode ligá-los?
— Quando
você quiser.
Alos
interveio na conversa. Sua curiosidade era maior que o medo.
— Como
foi que você veio parar aqui? Existe alguma comunicação com a
outra nave? Lá fora, no corredor, você será detido e talvez o
matarão. Não sei...
— Sou um
teleportador — disse Gucky, em tom lacônico. — Será que os
propulsores poderiam ser ligados daqui a cinco minutos?
— Naturalmente
— respondeu Ekral. — Infelizmente seremos obrigados a trabalhar
às cegas, pois não temos qualquer ligação direta com a sala de
comando. O intercomunicador foi interrompido. Ceshal já está
informado?
Gucky
gostou das falas lacônicas do cientista. Tratava-se de um homem que
não fazia muitas perguntas, pois preferia agir.
— Tudo
entendido. Então será daqui a cinco minutos. Mais tarde voltaremos
a encontrar-nos.
Antes que
alguém pudesse responder, Gucky desapareceu. O-l permaneceu na sala
de máquinas.
Alos ainda
fitava o lugar vazio, enquanto Ekral já se dirigia aos quadros de
controle. Examinou-os e preparou os três propulsores que
funcionariam em sentido contrário ao do deslocamento da nave. Olhou
para o relógio.
— Faltam
três minutos, Alos. Se a outra nave tiver bastante potência,
conseguiremos. Mas pelos dados que leio nos instrumentos, o campo
magnético deste pequeno sol é enorme. Se a distância ainda se
tornar menor, estaremos perdidos.
Esperaram
em silêncio.
Em algum
lugar, entre os blocos de metal, um ferido gemia. No momento, ninguém
tinha tempo para cuidar dele.
*
* *
O Capitão
Unista e um grupo de homens e mulheres foram empurrados, pela classe
dominante, que cercava Ceshal, para um local recôndito da nave.
Também pertencia à primeira geração e estava firmemente decidido
a provar isso assim que se oferecesse uma oportunidade. Antes de mais
nada providenciou uma pistola. Depois assumiu a chefia do pequeno
grupo, assaltou um depósito de mantimentos e retirou-se para a sala
de armas da nave.
Dali
poderiam controlar a artilharia de bordo.
O Capitão
Talasi, que estava em sua companhia, pouco entendia de técnica de
rádio. Não conseguiu reparar o intercomunicador para estabelecer
contato com a sala de comando. Porém pôs a funcionar algumas das
telas externas.
Assustaram-se
ao verem nelas a gigantesca nave esférica, que se aproximava
lentamente. Era do mesmo tipo da nave em que se encontravam, embora
fosse de construção mais recente. E o letreiro não era arcônida.
O Capitão
Unista quase chegou a morder a ponta da língua. Seria esta a
oportunidade de demonstrar seu arrojo e visão?
— Querem
abordar-nos — disse em voz tão baixa que só o Capitão Talasi,
que se encontrava a seu lado, podia ouvi-lo. — Estamos indefesos, e
por isso querem apresar nossa nave.
— Temos
meios de impedir isso — disse Talasi. — Temos as armas.
Estas
palavras foram proferidas em voz tão alta que todos o ouviram.
Ouviram-se gritos de aplauso. As últimas dúvidas de Unista
desfizeram-se em meio ao entusiasmo geral. Não era nenhum
especialista em armamento, mas o currículo de qualquer oficial
arcônida incluía o estudo de armamentos.
Outra tela
mostrou um grande sol branco. Já devia encontrar-se bem próximo e,
ao que parecia, o curso atual da nave dirigia-se exatamente para este
sol. A nave desconhecida aproximara-se mais. Parecia uma parede
abaulada, ameaçadora.
Subitamente,
o chão metálico da sala de armas sofreu um abalo.
Algumas
mulheres caíram. Os homens cambalearam e apoiaram-se uns nos outros.
O solavanco não se repetiu, mas a força da gravidade sofreu um
deslocamento. Parecia que a nave estava descrevendo uma curva para
estibordo, sem ter ligado o compensador gravitacional.
O Capitão
Unista procurou controlar-se.
— Um
raio de tração! Os desconhecidos nos capturaram. Está na hora de
lhes mostrarmos nossas armas. Guarneçam os canhões, minha gente!
Abriremos fogo, todos ao mesmo tempo, pois assim a surpresa será
maior.
Demorou
dois ou três minutos até que todos ocupassem seus postos.
Depois
disso, o Capitão Unista ordenou:
— Fogo!
Dentro de dez segundos.
*
* *
E o ataque
pegou Rhodan de surpresa!
O Coronel
Sikermann teve de vencer grandes dificuldades para capturar a nave
dos antepassados com o raio de tração. Quase no mesmo instante,
Gucky materializou-se no interior da Drusus e comunicou que três
propulsores da nave dos arcônidas entrariam em funcionamento dali a
um minuto.
Apoiariam
a ação da Drusus e contribuiriam para o êxito da mesma.
Lentamente,
muito lentamente, a rota desastrosa da nave dos antepassados e da
Drusus foi mudando. As duas naves já não cairiam exatamente em
direção ao sol branco chamejante. Passariam velozmente a pequena
distância deste. Para isso, a velocidade da queda, provocada pela
gravitação, se revelaria muito útil.
Todas as
reservas energéticas da Drusus foram conduzidas para o raio de
tração. O que sobrava foi distribuído para os propulsores que
funcionavam a ré.
Rhodan
observou a grande tela de visão frontal. Viu as paredes da nave dos
antepassados bem à sua frente e reconhecia todos os detalhes.
Algumas “cicatrizes”
revelavam que por muito tempo a nave se deslocara pelo espaço a uma
velocidade inferior à da luz. Só assim poderia ter sido atingida
pelos meteoros.
Reconheceu
as linhas finas das escotilhas.
As
escotilhas...
Quando
Rhodan percebeu, já era quase tarde.
Subitamente
pequenas aberturas redondas surgiram acima da protuberância
equatorial da nave. Pareciam as bocas de canhões.
Canhões!
— O
campo defensivo! — gritou Rhodan para Sikermann, que ficou
perplexo.
Porém,
depois de um momento de susto, espantosamente pequeno, Sikermann
manipulou os controles. A mão direita voou para o painel e moveu uma
alavanca. Quase no mesmo instante, os propulsores pararam de uivar.
Mas o raio de tração foi mantido. Instintivamente Sikermann fizera
o que estava certo, desligando os propulsores.
O campo
defensivo foi ativado, e nem um segundo antes da hora.
Os
primeiros impactos energéticos atingiram a extremidade exterior do
campo e foram escorrendo para o lado. As bolhas energéticas rolavam
que nem lágrimas coloridas e foram atiradas ao espaço em virtude da
força da inércia da massa. Depois disso só se notava a ação dos
três propulsores da nave dos antepassados, que imprimiam uma
aceleração negativa a ambas as naves.
Os tiros
disparados pelos arcônidas atingiram o campo em cheio,
concentraram-se num ponto e procuraram rompê-lo.
Mas já
era tarde.
— Malditos!
— disse Sikermann em tom furioso e passou a mão pela testa úmida.
— Por pouco não nos pegam. Por que esses patifes estão fazendo
uma coisa dessas? Será que fazem questão de ser assados no sol?
Rhodan não
respondeu. Em seus olhos havia uma indagação. De repente virou-se
para Gucky.
— Então,
o que acha? Qual dos seus “amigos”
poderia ter feito isso?
— Não
demorarei em saber — retrucou o rato-castor. — Vou estragar a
sopa deles! Acho que, nessa nave, ninguém sabe o que faz!
— Ponha
ordem nisso — respondeu Rhodan, laconicamente.
Gucky fez
um gesto afirmativo, concentrou-se e saltou.
Alos e os
cientistas, que estavam muito satisfeitos com o resultado dos seus
esforços, quase morreram de susto quando Gucky os informou sobre o
ataque de artilharia. Enquanto os campos defensivos da Drusus
tivessem de permanecer ativos, os propulsores não poderiam ser
ligados. Nem se poderia cogitar de um hipersalto em dupla.
— Devem
ser alguns loucos que conseguiram apoderar-se da sala de armas —
disse Ekral, em tom seco. — Aí está uma tarefa para o senhor e
seus robôs.
— Onde
fica a sala de armas? — perguntou Gucky, ao lembrar-se de outra
possibilidade. — Preste atenção, Ekral. Tenho uma idéia. Por que
iríamos arriscar a vida apenas para obrigar alguns loucos a agirem
com bom senso? Deixemos que fiquem na sala de armas e comprimam
calmamente os botões das peças de artilharia. Seria possível
cortarmos o suprimento de energia a partir daqui? Ou será que daqui
não se controla os geradores e conversores?
— Isso
mesmo! — Ekral compreendeu imediatamente o que Gucky queria dizer.
— Cortaremos o suprimento de munições deles.
— Perfeitamente
— disse Gucky, em tom de satisfação, e fez um sinal para Alos. —
Você ficará com Ekral e cuidará para que ele possa trabalhar
tranqüilamente. Assim que o bombardeio for suspenso, os propulsores
da Drusus voltarão a funcionar. Enquanto isso, vocês poderão
tentar reparar os outros propulsores de sua nave. Até logo mais.
Saltou de
volta para a Drusus. Rhodan ficou espantado ao rever o rato-castor.
— O que
houve? Continuam a atirar contra nós e...
— Não
continuarão por muito tempo, Perry. Ekral cortará a energia deles.
Rhodan
olhou para a tela. A energia mortífera continuava a bater no campo
defensivo, fazendo com que os propulsores da Drusus permanecessem
paralisados. A rota das duas naves voltou a aproximar-se
perigosamente do sol branco.
— Eu o
batizei com o nome de Magnus — disse Rhodan de repente, apontando
para a estrela. — Magnus, o grande. Veremos se não somos mais
fortes que ele.
O Coronel
Sikermann anunciou com a voz nervosa:
— Suspenderam
o fogo, sir!
— Foi o
que eu disse — observou Gucky. — Podemos confiar em Ekral. Pode
ligar os propulsores, Baldur.
Baldur
Sikermann lançou um olhar indagador para Rhodan. Estremecera com o
tratamento que Gucky acabara de dispensar-lhe. Rhodan fez um gesto de
assentimento. Depois disso desativou o campo defensivo e conduziu a
energia liberada para os propulsores. A Drusus uivou e voltou a
oferecer resistência à força da gravidade de Magnus.
Com uma
lentidão infinita, o sol branco começou a caminhar em direção à
extremidade esquerda da tela.
— Deveríamos
impor a ordem nessa nave — disse Rhodan, em meio ao silêncio
tenso. — Ras já me contou o que está acontecendo. Se esperarmos
demais, todos se matarão uns aos outros. Mesmo que realizemos
algumas transições ligeiras em direção a Árcon, a demora poderá
ser de vários dias.
Sikermann
falou sem virar a cabeça:
— O
transmissor fictício!
Rhodan fez
um gesto de assentimento.
— Já
pensei nisso. Quem devemos mandar, Gucky?
O
transmissor fictício permitia a teleportação da matéria através
do espaço de cinco dimensões, em direção a qualquer lugar...
Inclusive de um ser humano.
— Quem
está dormindo não faz mal a ninguém — piou Gucky com a voz
sonhadora.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Acho
que já nos entendemos. Suponho que o equipamento de renovação de
oxigênio da nave dos antepassados seja idêntico ao da Drusus, pois
vamos usar o transmissor para levar um gás anestésico ao sistema de
distribuição de ar da nave dos antepassados — levantou-se e
colocou a mão sobre o ombro de Sikermann. — Mantenha a rota,
coronel. Vamos afastar-nos de Magnus, haja o que houver. Vamos
andando, Gucky, para o arsenal.
— Vamos
pôr as criancinhas para dormir — disse Gucky com a voz fanhosa e
ingênua, arrastando-se atrás de Rhodan, que já se encontrava na
porta. — Mas será conveniente levar uma máscara contra gases para
Ekral. Sentir-me-ei melhor, se souber que não dormirá durante o
espetáculo.
Dali a
cinco minutos, Ras Tschubai apareceu na sala de comando da nave dos
antepassados e Gucky, na sala onde se encontravam Ekral e seus
auxiliares. Traziam um bom suprimento de máscaras contra gases e
contaram aos homens o que estava para acontecer.
— Os
antepassados acordaram antes da hora; logo, devem ser postos para
dormir de novo — disse Gucky em tom categórico. — Quem dorme não
come. E não pode fazer tolices. Coloquem as máscaras e não se
deixem perturbar no seu trabalho. Exatamente daqui a dez minutos, o
gás anestésico passará pelos dutos de ventilação e penetrará em
todos os recintos da nave. Dentro de vinte e quatro horas, segundo
espera meu chefe, deveremos pousar no mundo principal de Árcon.
Teremos de realizar cerca de dez transições. Procurem reparar os
outros propulsores. Talvez ainda venhamos a precisar deles para
dar-nos apoio.
Não
aguardou resposta: desmaterializou-se.
Enquanto
isso, Rhodan já se encontrava no pavilhão em que estava instalado o
transmissor fictício da Drusus. Os recipientes de gás foram
trazidos e preparados de tal forma que começariam a espalhar seu
conteúdo cinco segundos após a rematerialização. Depois disso, as
coordenadas foram reguladas.
Assim que
Rhodan moveu a alavanca, os recipientes desapareceram.
No mesmo
instante, apareceriam na nave dos antepassados.
Com uma
máscara contra gases no rosto, Gucky foi andando pelas salas,
pavilhões e corredores superlotados da nave esférica e
certificou-se de que a operação fora bem sucedida. Em toda parte,
os arcônidas estavam empilhados no chão, por vezes empilhados uns
por cima dos outros, e dormiam. Já não sentiam frio nem fome.
Dormiriam durante dois dias. Mas quando despertassem...
Seria
preferível nem pensar nisso. Dois dias eram um tempo bem longo e
deviam ser suficientes para fazer com que o despertar representasse
uma surpresa agradável para os arcônidas.
Rhodan
deixou que Gucky lhe relatasse o que vira e esteve a ponto de soltar
um suspiro de alívio, quando o som estridente do intercomunicador se
fez ouvir.
— Aqui
fala Bell! Rhodan deve comparecer á sala de comando! Aqui fala Bell.
Atenção! Rhodan deve comparecer à sala de comando...
— Leve-me
para lá — disse Rhodan.
Gucky
segurou-o pelo braço e saltou.
Bell
continuava junto ao microfone do intercomunicador, transmitindo seu
chamado. Sikermann olhava para os controles. Seu rosto parecia muito
sério.
— Está
bem, Bell. Já cheguei.
Bell
virou-se abruptamente e fitou Rhodan como se fosse um fantasma.
Quando viu
Gucky, seu espírito iluminou-se. Desligou o intercomunicador.
Sikermann disse:
— O
cérebro positrônico acaba de concluir seus cálculos, sir. Sinto
muito, mas não poderemos arriscar um hipersalto. A massa total das
duas naves é muito elevada. Ficaríamos presos no espaço de cinco
dimensões. Não preciso explicar o que significaria isso.
Realmente,
Sikermann não precisaria explicar.
O espaço
de cinco dimensões era chamado hiperespaço. Não haveria nenhum
caminho de volta para quem ficasse preso nele. Talvez a pessoa
perdesse o sentido da própria existência, já que naquele espaço
não haveria a consciência do ser. Simplesmente se permanecia por
lá.
— Muito
bem; nesse caso tente com os meios de deslocamento comuns, coronel.
Dentro em breve os técnicos da nave dos antepassados colocarão em
funcionamento outros propulsores para ajudar-nos. E Kyser também nos
ajudará com seu cruzador. Dessa forma conseguiremos escapar ao campo
de gravitação de Magnus. Quanto ao mais...
Ficou
calado. Gucky fez um gesto.
— Acho
que é o melhor que podemos fazer, Perry.
Mais uma
vez lera os pensamentos de Rhodan, o que deixou Bell bastante
contrariado.
— O que
será melhor? — indagou o gorducho.
— Avisar
Atlan — disse Rhodan. — Cuidarei disso.
Dirigiu-se
à sala de rádio e mandou estabelecer uma comunicação de
hiper-rádio com Árcon. A ligação demorou quase uma hora.
Nesse meio
tempo, Magnus tinha saído do campo de visão abrangido pela tela.
Três propulsores de popa da nave dos antepassados haviam entrado em
funcionamento para apoiar a Drusus. Os propulsores frontais, que
realizavam a frenagem, estavam desligados. A essa hora só
representariam um empecilho ao vôo.
No momento
em que Gucky retornava de um salto de inspeção e informava que, na
grande nave dos emigrantes tudo corria segundo era programado, o
Tenente Stern anunciou que a ligação com Árcon acabara de ser
estabelecida.
Atlan
fitou Rhodan de dentro da tela.
— Espero
que você apenas tenha que relatar coisas boas, Perry. Quase chego a
ter medo da primeira palavra que você irá proferir.
— Encontramos
a nave, Atlan — disse Rhodan para tranqüilizá-lo. — Acontece
que as pessoas adormecidas acordaram.
Conseguimos
restabelecer a calma por melo de gás deletério. Estão dormindo de
novo. Alguns técnicos receberam máscaras, para que seu trabalho não
fosse interrompido. Infelizmente o hiperpropulsor da nave está com
defeito. Alguns propulsores estão funcionando. Conseguimos arrastar
a nave para fora do campo gravitacional de um pequeno sol. A situação
atual é esta.
Notava-se
a sensação de alívio que se apossou de Atlan.
— A nave
está salva. Fico-lhe muito grato por isso. Será que pode trazê-la
para Árcon?
— Isso é
impossível.
— O que
posso fazer? Não poderia levar as pessoas adormecidas para bordo da
Drusus?
— São
mais de cem mil arcônidas. Também é impossível, Atlan. Você terá
de enviar algumas naves transportadoras. Fornecerei a posição do
anão branco. Logo que suas naves chegarem, faremos o transbordo.
Quando os antepassados acordarem, já poderão estar em Árcon.
Atlan
refletiu por um instante. Depois fez um gesto de assentimento.
— Está
bem. Enviarei cinco naves. Acho que isso basta.
— A
equipe dirigente dos antepassados está equipada com máscaras.
Recolherei o comodoro Ceshal e seus oficiais a bordo da Drusus.
Estas
palavras pareciam deixar Atlan bastante pensativo.
— Ceshal?
Gostaria de saber onde já ouvi esse nome. Deve ter sido na
oportunidade em que defendíamos a Atlântida contra os invasores. Ou
foi durante uma expedição? Não me lembro...
— Você
terá uma palestra muito interessante com Ceshal — profetizou
Rhodan com um sorriso. — Ele deve ser, aproximadamente, da sua
idade. Quer dizer que os velhos senhores de Árcon recuperarão o
poder. Será que tudo isso realmente é uma simples coincidência?
— Provavelmente.
Se a situação tivesse sido planejada, o autor do plano seria um
verdadeiro gênio. Seu nome já deve ter caído no esquecimento.
— Uma
máquina nunca se esquece de nada, Atlan. Talvez o grande computador
lhe possa dar algumas informações. Seja como for, você disporá de
dezenas de milhares de arcônidas cheios de vida e ávidos de entrar
em ação. É o velho sangue, Atlan, como o seu.
Rhodan
transmitiu a posição de Magnus.
Depois de
algum tempo Rhodan, Bell, Ras Tschubai e Gucky dirigiram-se à nave
dos antepassados. O gás já desaparecera; não precisaram mais de
máscaras. Em toda parte as pessoas adormecidas estavam espalhadas
tal qual o súbito cansaço as surpreendera. Era inacreditável ver
quanto espaço passou a sobrar de repente.
Quando a
porta da sala de comando se abriu e o comodoro Ceshal se viu diante
de Rhodan, o espanto espalhou-se pelo rosto do “velho”
novo arcônida. Ceshal reprimiu a curiosidade e estendeu a mão para
o terrano, que a apertou fortemente.
A
semelhança com as atitudes de Atlan era inconfundível. Na verdade,
os arcônidas daquele tempo deviam ter sido um povo formidável —
cheios de nobreza e bravura, mas também um pouco arrogantes.
— Acho
que devemos a vida aos senhores — disse Ceshal, depois de
cumprimentar Bell. — Se não fosse o auxílio de vocês, estaríamos
perdidos.
— Fizemos
isso por nosso amigo Gonozal VIII, imperador de Árcon — respondeu
Rhodan. — Ele já enviou algumas naves de transporte para
recolhê-los. Sua nave precisa de uma reforma geral. Não está em
condições de voar para Árcon. Posso pedir-lhes que venham comigo?
O imperador deseja que voem em minha nave. Também levaremos Ekral e
seus companheiros.
Ceshal fez
uma ligeira mesura em direção a Rhodan.
— Para
mim, seus desejos são ordens — disse em tom cortês. —
Especialmente quando correspondem aos desejos do imperador —
subitamente uma ruga vertical surgiu em sua testa. — Como é mesmo
o nome dele?
— Gonozal
VIII.
O comodoro
Ceshal lançou um olhar para seus oficiais e disse:
— Os
Gonozals são uma das famílias mais célebres de Árcon. Vejo que
não se extinguiram no curso dos milênios, mas se conservaram. Isto
é espantoso, face ao que fiquei sabendo neste meio tempo. Estivemos
em viagem durante dez mil anos...
Rhodan
preferiu não falar mais em Atlan e seus ascendentes. O futuro
esclareceria tudo, se é que havia algo a esclarecer. Era
perfeitamente possível que, por ocasião da partida de Ceshal, há
dez mil anos, tivesse havido a participação decisiva de um Gonozal.
Talvez fosse um dos numerosos parentes de Atlan.
Foram
buscar Ekral, Tunuter e Alos.
— Acho
que, se tivéssemos tempo, conseguiríamos reparar a nave — afirmou
o cientista com certo orgulho. — Poderíamos reparar inclusive o
hiperpropulsor, mas receio que para isso nos faltem certas peças
essenciais.
— O
futuro lhe reserva tarefas grandiosas — disse Rhodan com um
sorriso, para consolá-lo. — Árcon precisa de cientistas e
técnicos como o senhor. Precisa de líderes ativos e arrojados.
Árcon está atravessando uma crise perigosa, mas voltou a ter uma
cabeça pensante. Gonozal VIII aguarda a chegada de arcônidas que
possam ajudá-lo a defender o Império contra seus inimigos.
Ekral fez
um mesura para Rhodan, que não pôde evitar uma sensação
esquisita. Os orgulhosos arcônidas, que já se encontravam no auge
do poder quando o homem ainda vivia em cavernas, demonstravam sua
reverência a ele, que era um terrano. Esta demonstração de
humildade revelava a grandeza de sua alma.
No pulso
de Rhodan ouviu-se um zumbido estridente.
Era
Sikermann!
Rhodan
ligou o rádio de pulso.
— O que
houve, coronel?
— Conseguimos
sair, sir. Estamos rebocando a nave dos antepassados a meia potência.
Será que deveríamos estabelecer a comunicação direta entre as
comportas principais?
— Ficar-lhe-ei
muito grato se fizer isso. Quando tudo estiver pronto, avise.
Os
arcônidas não haviam entendido uma única palavra, já que Rhodan e
Sikermann se comunicaram em inglês. Ceshal disse com um ligeiro
embaraço:
— Daquela
vez os robôs nos tiraram os intercomunicadores de pulso. Isso foi a
hora da humilhação máxima. Felizmente não modificaram nosso plano
primitivo, apenas lhe imprimiram uma finalidade diferente.
— Sim;
já conhecemos essa finalidade. Pretendiam levar a nave a um planeta
habitado e criar uma civilização de robôs. Para isso, precisariam
de cientistas e trabalhadores. Acho que teriam conseguido. Os homens
se teriam transformado em escravos de robôs e, passadas algumas
gerações, não conheceriam outro estado. Ainda bem que seu plano
fracassou.
Atravessaram
vários corredores e, depois de algum tempo, atingiram a entrada da
comporta. Enquanto aguardavam, reunidos em grupos, Gucky revistou os
compartimentos contíguos. Teve a impressão de que captara um
impulso mental conhecido. Era verdade que estava um tanto “apagado”.
Provavelmente provinha de uma pessoa adormecida que despertaria
dentro em breve. Mas de certa forma...
“Parece-me”,
pensou Gucky, “que
já vi este sujeito.”
Voltou a
estabelecer a localização e saltou. Materializou-se a uma distância
de trinta ou quarenta metros, no interior de uma câmara
pressurizada. Não sabia qual era a finalidade da mesma, mas logo
imaginou por que motivo a pessoa que se encontrava no seu interior
não dormia tão profundamente como as outras.
O arcônida
estava nu. O cobertor com que envolvera o corpo escorregara para o
chão. No recinto havia vários recipientes pressurizados, cheios de
ar. Gucky olhou para cima. Evidentemente este recinto também tinha
um poço de ventilação, mas o arcônida deveria ter desconfiado
antes que fosse tarde. Ainda tivera força e presença de espírito
para abrir um dos recipientes de ar. Com isso, o gás deletério foi
diluído.
O homem
adormecido virou-se nervosamente para o outro lado.
Gucky viu
um rosto estranho. Não; nunca vira este homem. Mas seus impulsos
mentais lhe eram familiares. Só mesmo um telepata muito bem treinado
conseguiria catalogar os impulsos mentais. Os pensamentos de qualquer
homem seguiam um modelo bem definido, que poderia ser reconhecido.
Gucky comparou o modelo de vibrações psíquicas com as impressões
digitais, muito embora a comparação fosse um tanto ingênua.
O arcônida
acordou e seus pensamentos começaram a tornar-se mais claros.
No mesmo
instante, o espírito de Gucky iluminou-se.
Já sabia
de onde conhecia aquele modelo de pensamentos. Ele o tateara uma vez
em sua vida, num momento em que a vida do arcônida parecia estar em
perigo. Foi na oportunidade em que T-39 acreditava que os robôs o
estavam atirando para dentro do conversor atômico.
O técnico
T-39 ergueu-se e viu Gucky. A primeira idéia que lhe veio à mente
foi a de defender-se, mas logo percebeu que aquela criatura não
pretendia atacá-lo. Mas o estranho ser continuava a seu lado; não
se tratava de uma alucinação.
— Quem é
você? — perguntou com um gemido.
Estava com
dor de cabeça.
Gucky
inclinou-se e ajudou T-39 a levantar-se.
— Explicarei
tudo, T-39. Venha comigo. Seu comandante está ansioso por
conhecê-lo. Afinal, todos os membros da expedição devem agradecer
a você por ainda estarem vivos. Se não tivesse captado seu pedido
de socorro, nunca teria descoberto a nave dos antepassados. E se não
a tivesse descoberto... bem, isto é uma história longa e
complicada. De qualquer maneira, tudo começou a partir de você.
— Não
compreendo uma palavra do que está dizendo — falou T-39 e saiu
cambaleando.
Ficou
perplexo ao ver as pessoas adormecidas estendidas nos corredores.
Começou a desconfiar de que mais uma vez tivera sorte. A morte
passara perto dele.
— Que
expedição?
— Tenha
mais um pouco de paciência — pediu Gucky. — Logo saberá de
tudo.
T-39 foi
informado, mas o que soube foi mais do que um homem normal pode
digerir. O técnico acenava constantemente e fazia de conta que
compreendia, mas Gucky percebeu que na cabeça do coitado zumbia um
verdadeiro enxame de abelhas...
*
* *
O
telecomunicador de Rhodan deu sinal.
— O
contato foi estabelecido, sir — anunciou Sikermann. — Pode abrir
a comporta.
Os
técnicos dos arcônidas puseram-se a trabalhar. Normalmente a
comporta era aberta mecanicamente a partir da sala de comando, mas em
caso de emergência devia-se recorrer aos controles manuais.
Os
arcônidas entraram na Drusus, nave capitania de Rhodan.
Com um
único passo superaram uma evolução de dez mil anos.
Mais
tarde, quando se viu acompanhado por Bell, Gucky e alguns amigos em
seu camarote, enquanto a Drusus se preparava para a primeira
transição em direção a Árcon, Rhodan exprimiu isso da seguinte
forma:
— Esse
Ceshal deve ter uns cinqüenta anos de idade. Logo, é relativamente
jovem. Enquanto seu Império passava pelo apogeu e pela decadência,
ele dormia. E agora chega na hora exata da reconstrução. Logo, não
perdeu nada. E as gerações nascidas depois dele e colocadas em
estado de hibernação não degeneraram. Mantiveram-se vigorosas e
ativas. Podemos confiar em Atlan; é nosso amigo. Aliás, acho que
teremos de confiar nele. Entregando-lhe os antepassados, colocamos em
suas mãos um poder que nunca deverá ser subestimado. Árcon voltará
a ser aquilo que já foi.
— E tudo
isso aconteceu — disse Gucky em tom pensativo — porque naquela
oportunidade captei o pedido de socorro de T-39. O que teria
acontecido se naquele momento eu estivesse dormindo?
Rhodan
sorriu e acariciou o pêlo de Gucky.
— Ora,
meu baixotinho, o que poderia ter acontecido? É fácil calcular.
Existiam duas possibilidades... aliás, estas sempre existem. Naquele
tempo, a revolta já estava latente. Talvez tivesse sido bem
sucedida, talvez não. A estrela Magnus sempre existiu. E ficava na
trajetória da nave. No mínimo, a nave seria captada por seu campo
gravitacional, dentro de trinta ou quarenta anos. Acontece que Magnus
não tem planetas. As pessoas adormecidas despertariam e...
Mantiveram-se
calados. Não havia mais nada a dizer.
Gucky
suspirou.
— Digam
o que quiserem — constatou. — Se às vezes andamos espionando um
pouco, isso tem seu lado bom. Se daquela vez, na nave de Lund, aquele
cadete esquisito, o Bruggs, não me tivesse dado as cenouras
murchas...
Rhodan
continuava a acariciar o pêlo de Gucky.
— Acho —
disse — que falar em duas possibilidades representa uma forte
subestimação do jogo de probabilidades. Qualquer situação
representa o ponto de partida de milhões de possibilidades. Mas só
uma delas se transforma em realidade. Se raciocinarmos bem sobre
isso, o acaso adquirirá um novo significado, se é que o mesmo
significa alguma coisa.
— Se! —
piou Gucky e enrolou-se sobre o colo de Rhodan. — Proponho que a
palavra “se”
seja eliminada do vocabulário de todas as raças inteligentes, pois
ela dá margem para muitos “abusos”!
Se considerarmos por exemplo...
— Ora
veja! — exclamou Bell em tom de triunfo. — Se...!
Mas Gucky
já estava dormindo. Ou ao menos fazia de conta que estava.
*
* *
*
*
*
Os
“adormecidos” foram conduzidos em segurança a Árcon e serão
recebidos festivamente por Atlan. Mas Perry já tem outro problema
para resolver, quando recebe uma ordem telepática...
Em Céu
sem Estrelas,
próximo livro da série, novos lances de emoção...

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