segunda-feira, 22 de agosto de 2016

P-086 - A Chave do Poder - K. H. Scheer [Parte 2]

Era possível que vez por outra os terranos fossem um tanto levianos. Mas não se podia negar que sabiam representar. O berreiro de Rhodan e Bell fez com que os soldados avançassem ainda mais furiosamente.
Fiquei satisfeito ao notar que alguns homens robustos seguraram oito ou dez zalitas genuínos. Aqueles homens desarmados serviriam de proteção contra o eco.
Assim que um grupo dos nossos homens tinha passado pelo aparelho de raios X, nitidamente perceptível, empurrava os zalitas para trás. Os nativos de Voga IV eram recebidos e utilizados imediatamente por outros terranos.
Rhodan, Bell e eu agimos no momento exato. Quando a passagem ficou quase livre, apenas nove zalitas que tinham ficado para trás encontravam-se à frente da barreira de raios X. Fiz um sinal para Bell. Esses zalitas teriam de proteger-nos.
A voz de Bell realmente me doeu nos ouvidos. Nunca o ouvira gritar dessa forma. Avançou que nem um louco para aquele grupo de coitados e lhes fez um sermão. Embora a situação fosse muito séria, tive de esforçar-me para não rir.
Parem! — esbravejou. — Quem mandou que passassem antes de nós? Quem foi, seus vermes? São ordens do imediato, entenderam? Não fiquem parados por aí. Entrem em forma! É claro que devem virar o rosto para mim! Isso é uma posição de sentido que se apresente? Atenção!
Quando passei majestosamente pela entrada, Bell entesou o corpo. Os nove zalitas ficaram parados que nem estátuas, exatamente entre o lugar pelo qual passávamos e o aparelho de raios X. Rhodan seguiu-me tão perto que deu algumas pisadelas dolorosas nos meus calcanhares.
Bell continuou a praguejar em zalita antes de virar-se e correr apressadamente atrás de nós. Só depois disso, entraram os maltratados nativos de Voga IV que, segundo parecia, não compreendiam o que estava acontecendo. Ainda não conheciam os terranos!
Nossos homens já estavam enfileirados no amplo hall de entrada. Vez por outra, um deles “desmaiava”. Um sargento caiu segundo os planos, enquanto quatro homens gemeram e viraram os olhos, arrancando os capacetes.
Água! Queremos água fresca! — gritei. — Maldito sol! Era só o que faltava. Major Sesete, cuide dos doentes. Ou será que eles só estão fingindo?
A posição de sentido de Rhodan era impecável. O suor corria-lhe por baixo da borda saliente do capacete.
Estes homens são das zonas montanhosas de Takotre, comandante — disse em voz alta. — Daqui a pouco estarão recuperados.
Lancei um olhar ligeiro para as teleobjetivas do regente. A cena era impressionante, e também era verdadeira...
Um cérebro mecânico que substituía a sensibilidade humana pela lógica era fácil de ser enganado por essa forma.
A mensagem esperada chegou a seguir, mas desta vez foi transmitida pelos grandes alto-falantes do sistema de intercomunicação. A voz metálica parecia sair diretamente da parede de aço.
As pessoas afetadas pelo calor precisam de algum tratamento, Capitão Ighur?
Se o regente demorasse mais um minuto, precisariam! — exclamei em tom furioso. — Mas acredito que agora não haja necessidade. Depois de chegarmos aos alojamentos, apresentarei um relatório sobre o estado de saúde dos homens. Para onde iremos?
Pavimento 14, Bloco C-436-8. Use o elevador — disse a voz retumbante saída dos alto-falantes.
A estação retransmissora A-3 desligou. Respirei profundamente. Ao que tudo indicava, não precisávamos contar com outro controle.
Lancei um olhar discreto para os nove zalitas que nossos homens haviam usado de forma tão hábil como proteção de eco. Ao que parecia, não compreendiam por que Bell gritara para eles. Talvez acreditassem se tratar de engano.
Marshall, o telepata, piscou para tranqüilizar-me. Recebera ordens terminantes para manter-se informado sobre o conteúdo da mente dos membros estranhos da nossa tripulação.
Mais atrás, abriram-se as portas largas de um grande elevador.
Entrar em grupos — ordenei. — Sesete, cuide disso. Roake, o senhor ficará aqui até que o último homem tenha entrado no elevador.
Rhodan e Bell logo reiniciaram suas atividades. Os outros oficiais da nave seguiram-me para dentro da grande gôndola, que, à direita e à esquerda da entrada, era flanqueada por armas de radiações controladas a distância. Qualquer pessoa que quisesse penetrar nas instalações subterrâneas de Árcon teria de comunicar-se com as estações automáticas competentes.
Não se via mais ninguém. Nem sequer haviam mandado robôs. As escotilhas de aço da comporta já se haviam fechado atrás de nós. Com isso, praticamente estávamos tão longe do campo aberto do espaçoporto como quem se encontra num outro mundo.
Enquanto descíamos em alta velocidade, não proferimos uma única palavra. Segundo os costumes arcônidas, não era de bom tom que os oficiais conversassem na presença do comandante. Seria ainda mais incabível dirigir a palavra ao mesmo. Havia muitos detalhes aos quais devíamos prestar atenção. Qualquer erro poderia trair-nos. Evidentemente para os terranos era muito difícil acostumar-se a essas regras. Durante as primeiras semanas de nossa atuação por várias vezes enfrentáramos situações bastante perigosas por desatenção.

* * *

Os algarismos luminosos nos diversos pavimentos foram passando por nós. Assim que chegou a indicação de que o décimo quarto pavimento estava próximo, a velocidade do elevador reduziu-se. A gôndola, sustentada por um campo magnético, parou com um forte solavanco. As portas abriram-se.
Fui o primeiro a sair para a profusa luminosidade. Senti-me ofuscado ao fitar o branco sol atômico. Suas fortes radiações ultravioletas eram tão intensas quanto as do astro natural. Por isso as inteligências estranhas, não acostumadas a essas radiações, arriscavam-se a sofrer queimaduras de sol. Até mesmo meus amigos terranos tiveram de familiarizar-se com a idéia de que, quando se encontrassem bem abaixo da superfície de Árcon III, teriam de cuidar para evitar uma exposição excessiva.
Mais à frente vi um arcônida de meia-idade que usava a capa violeta dos cientistas. Estava confortavelmente deitado numa poltrona e parecia sentir tédio.
Quando a campainha do elevador soou pela segunda vez e os homens pertencentes ao primeiro grupo penetraram no hall da comporta, o arcônida virou lentamente a cabeça. Vi um par de olhos que piscavam preguiçosamente.
À frente do cientista, encontrava-se um receptor portátil de imagens simultâneas, em cuja tela surgia uma multidão profusa de figuras coloridas. Ao que tudo indicava, o homem estava absorto no jogo que, para mim, não tinha o menor sentido. Só agora pareceu notar nossa presença.
O segundo grupo, comandado por Reginald Bell, chegou ao lugar em que nos achávamos. As ordens do meu imediato, proferidas em voz alta, incomodaram o arcônida. Seu rosto contorceu-se numa expressão de repugnância. Finalmente lançou-nos um olhar cheio de recriminação. Até parecia que havíamos cometido um crime de lesa-majestade.
Cale-se! — gritei para Bell. — Não vê que Sua Alteza está descansando? Comporte-se!
Desta vez, seu olhar foi mais benevolente. Aproximei-me do arcônida, caminhando devagar e com um sorriso no rosto. Sem dizer uma palavra, coloquei a mão sobre o peito, a título de cumprimento.
O arcônida acenou lentamente com a cabeça.
Isso não poderia ser evitado, comandante? — indagou em tom dolente.
Alteza, sou o Capitão Ighur, comandante do couraçado Kon-Velete, da frota de Sua Regência. Peço desculpas pela descortesia que acaba de ser cometida. Recebi ordens para apresentar-me no pavimento quatorze, juntamente com meus homens.
Os robôs de guerra postados em todos os cantos permaneceram imóveis. Ao que tudo indicava, estavam submetidos ao velho cientista. Neste meio tempo, Rhodan também havia aparecido. A tripulação estava completa. Seu pigarro discreto revelava que a presença do arcônida o deixava espantado. Desde quando o regente dera para guarnecer posições-chave com criaturas vivas? Contara antes com a presença de um comando de robôs.
O rosto enrugado daquele homem magro demonstrou sinais de interesse.
Você teve uma boa educação, Ighur? — perguntou.
Inclinei ligeiramente a cabeça. Meu comportamento estava trazendo os primeiros frutos.
Atrevo-me a dizer que sim, Alteza.
Qual foi a escola?
A Academia Galatonáutica de Iprasa, Alteza — disse, embora fosse uma mentira.
Fazia votos de que a antiqüíssima escola superior ainda existisse.
Ah, Iprasa! Então é este o motivo do seu comportamento agradável. Oportunamente deveríamos conversar sobre as diretrizes filosóficas de Testro.
Sabia perfeitamente que essa oportunidade nunca chegaria. Além disso, não tinha a menor idéia de quem era esse Testro.
Será uma honra, Alteza. Permita que lhe solicite a indicação dos alojamentos. Meus homens estão sofrendo os efeitos do calor.
Calor? — repetiu o velho em tom de espanto. — Oh, esses bárbaros! Está falando em calor. Onde está o aparelho?
Sem olhar, tateou as largas braçadeiras da poltrona, onde estava embutida a programação. Enquanto fazia isso, já voltara a olhar com uma expressão de fascínio para a tela de imagens simultâneas, onde surgiam novas amostras.
Este jovem Oscer é admirável — disse num sopro de enlevo. — A idéia do desenho de figuras sem sombras, no interior de uma bola de gelo flutuante é sublime. Acho que o nome dele ainda ficará conhecido. Não acha também?
Acenei fortemente com a cabeça. O olhar do arcônida tornou-se mais brando.
Está bem. Leve seus homens para o conforto das salas refrigeradas. Como se pode falar em calor! Aqui faz um frio terrível.
Antes que ele pudesse perder-se novamente no enlevo artístico, a estação re-transmissora A-3 entrou em cena. De repente os robôs de vigilância começaram a movimentar-se. O arcônida nem percebeu que fora privado do comando.
Sigam-me — disse a voz metálica saída da fenda de uma pesada máquina de guerra.
Esse robô era mais perigoso que mil arcônidas do tipo do cientista.
Ao deixarem a comporta de segurança do 14o pavimento, nossos homens esforçaram-se para não fazer o menor ruído. Bell lançou um olhar ao meu companheiro de raça que me fez enrubescer de vergonha.
Numa disposição amarga decidi que faria tudo que estivesse ao meu alcance para modificar esse estado de coisas pouco dignificante.
Não houve outro controle. Diante da comporta surgiu a gigantesca abóbada de uma cidade subterrânea. Aqui os edifícios não haviam sido construídos no estilo afunilado peculiar dos arcônidas. A arquitetura era inteiramente finalista e por isso mesmo independente das contingências do tempo.
Havia ruas largas com fitas transportadoras e um número tão elevado de indicações luminosas que a visão das mesmas nos confundia. O teto abobadado do pavilhão imitava o céu natural tanto na cor como no formato. Um branco e ofuscante sol atômico fornecia luz, calor e os indispensáveis raios ultravioletas numa dosagem vigorosa.
Vi inteligências vindas de todas as partes dos setores da Via Láctea. No entanto, ao que tudo indicava, nesse setor residencial só haviam sido abrigados seres que respiravam oxigênio. Os grandes letreiros revelavam claramente que por aqui reinava uma gravitação artificial de 0,95G. Via-se que o regente fazia tudo que estava ao seu alcance para proporcionar aos povos auxiliares, abrigados no 14o pavimento, condições de vida que se aproximassem o mais possível àquelas a que estavam acostumados.
Sabia que cada pavimento fora especialmente instalado para atender às necessidades das pessoas que ali residissem. Evidentemente nós, os zalitas, pertencíamos ao grupo de inteligência de 0,95G e da mistura gasosa de oxigênio e hélio.
Senti tonturas ao pensar nas múltiplas tarefas que talvez teria de cumprir sem o auxílio do computador-regente. No momento, pareciam-me impossíveis...
Levei algum tempo para compreender o ruído uniforme, que sobrepujava todas as outras impressões. Era um rumorejar surdo, que parecia provir de todos os cantos da cidade subterrânea e enchia quase fisicamente o enorme espaço oco.
Parei por um instante para escutar melhor. Rhodan também inclinou a cabeça. Os homens começaram a inquietar-se.
Não consegui identificar a fonte do ruído monótono. Depois de prestar atenção por algum tempo, o rumorejar parecia confundir-se com os anúncios dos alto-falantes e o linguajar caótico dos numerosos povos não-arcônidas que, segundo tudo indicava, também estavam desfrutando uma licença.
O robô de guerra enxotou um grupo de seres de três olhos, os naats. Eles fitaram nossa formação em atitude agressiva. Gritaram pragas e insultos. Fiquei satisfeito por não ter de entrar em contato com estes seres constantemente irritáveis, vindos do planeta ciclópico de Naat.
Mais uma vez esforcei-me para descobrir a causa do ruído monótono. Foi então que, depois de um longo período de inatividade, o setor lógico de meu segundo cérebro, ativado há milhares de anos, voltou a chamar.
São unidades energéticas. Trata-se do ruído típico dos conversores termais. O espaçoporto A-3 é um dos seis campos de pouso que cercam a cúpula energética do cérebro positrônico em forma de raio.”
Encolhi-me instintivamente. Só agora me dei conta de que a cada passo que dávamos, chegávamos mais perto das áreas vitais do regente. O 14o pavimento, em que nos encontrávamos, ficava cerca de 1.800 metros abaixo da superfície. Se os boatos que corriam correspondiam à verdade, os elementos de controle mais importantes do cérebro positrônico atingiam camadas ainda mais profundas.
Concluí que provavelmente ficaríamos nas proximidades das instalações energéticas. Rhodan parecia ter a mesma idéia. Alcançou-me com alguns passos largos e colocou-se a meu lado. Por aqui praticamente não havia nenhum perigo. Era a primeira oportunidade que tínhamos para falarmos à vontade. O robô de guerra continuava a caminhar à nossa frente. Aproximamo-nos de um anteparo energético que reluzia numa tonalidade azulada. Atrás deste, reinavam condições de vida diferentes das que prevaleciam na parte da cidade em que nos encontrávamos.
Sabe que as áreas residenciais subterrâneas cercam o “coração” do regente?
Estas palavras foram proferidas antes em tom de constatação que de pergunta. Fiz que sim. O rosto de Rhodan continuava inexpressivo. Ao que parecia, depois da morte de Thora, ele já não sabia rir.
O.K. Só quis mencionar o fato. Posteriormente falaremos a este respeito. Sugiro um encontro para discutirmos a situação.
Tenho certeza de que os alojamentos são vigiados.
Meus especialistas encontrarão um meio de pôr fora de ação os aparelhos de escuta. É claro que isso terá de ser feito discretamente. Concederam-nos cinqüenta horas de licença. Duas horas já se passaram. Começaremos a agir imediatamente.
Olhei rapidamente em torno. Os rostos de nossos homens exprimiam uma grande dose de resolução. Bell fez um ligeiro sinal para mim. Depois de nosso pouso em Árcon III, suas faces carnudas pareciam mais firmes. Tive a impressão de que estava disposto a assumir qualquer risco.
É um caso típico de precipitação terrana — respondi em tom áspero. — A paciência não é característica de vocês.
Temos apenas cinqüenta horas de licença — disse Rhodan, insistindo em sua opinião. — Se até lá não conseguirmos, seremos embarcados e enviados à frente de combate dos druufs. Se isso acontecer, estaremos novamente no lugar em que começamos. Tenho certeza de que a permanência de cinqüenta horas da Kon-Velete em Árcon III será aproveitada para pôr em ordem o mecanismo hiperpropulsor. É o prazo de que podemos dispor. Estamos perto do regente. Será agora ou nunca.
O bárbaro tinha razão, mas eu não estava disposto a reconhecer o fato. Sentia pavor diante do que estava para acontecer, não pelo perigo ligado a isso, mas pelas conseqüências catastróficas que provavelmente resultariam da destruição do cérebro positrônico.
Não mencionei meus temores. Não adiantava desgastar ainda mais os nervos de Rhodan. Era um terrano, que não sabia conservar o retraimento ponderado dos homens da minha espécie.
Uma faixa abriu-se no anteparo energético que havíamos avistado. Atravessamos a mesma e, de repente, a temperatura tornou-se mais baixa. Os primeiros zalitas foram aparecendo. Com o tempo fomos descobrindo um número cada vez maior de homens uniformizados, todos vindos de Voga IV. Ao que parecia estávamos no distrito reservado às tripulações zalitas.
O sol atômico, que se deslocava no céu artificial, já não era tão intenso. Atravessamos um túnel largo e, atrás dele, surgiu um segundo pavilhão, também gigantesco.
Os tripulantes e oficiais faziam continências rígidas e respeitosas. O robô que nos conduzia parecia receber novas instruções de sua estação programadora. De repente parou, colocou-se à minha frente e anunciou:
O senhor poderá tomar a estrada rolante cinco para chegar ao bloco C-436, comandante. Solicita-se que se dirija ao seu alojamento e elabore um relatório sobre o estado de saúde de seus homens.
Dei minha ordem em voz alta e clara:
Major Sesete, providencie tudo que se torna necessário. Robô, onde fica a cantina dos oficiais?
A mesma forma um anexo do bloco C-436, comandante. Os controles automáticos dos alojamentos já foram devidamente programados. O senhor tem direito de licenciar seus tripulantes segundo seu critério. Documentos especiais lhes serão fornecidos. Pede-se que forneça a toda pessoa licenciada um comprovante do qual conste o nome, nave a que pertence, o respectivo número de código e o prazo da licença, indicado segundo o tempo-padrão de Árcon.
Era só o que eu queria saber. De repente os olhos de um soldado que se encontrava próximo de mim pareciam chamejar. Por espantoso que fosse, tive a impressão de que de repente esse homem adquirira a capacidade de refletir a luz. Preparou os lábios para um dos seus assobios típicos, mas absteve-se do mesmo porque um zalita não assobia.
A máquina de guerra afastou-se. Todos saíam de seu caminho a contragosto, já que a mesma inspirava medo. Um comandante zalita cumprimentou-nos de longe. Sorri, inclinei a cabeça e levantei a mão direita a título de cumprimento. Torcia para que não pretendesse arrastar-me para alguma iniciativa de caráter social. Entre os oficiais da frota zalita reinava uma estranha sociabilidade, que ultimamente já estava se tornando um exagerado sentimento de classe. Foi só por isso que pude atrever-me a usar palavras tão grosseiras para com a estação retransmissora A-3. Sem dúvida, o regente sabia que os oficiais da frota espacial zalita eram os seres que mais se aproximavam dos arcônidas.
Rhodan deu as instruções que se tornavam necessárias.
Enquanto isso, passei por uma rua que nesse trecho estava flanqueada por uma fileira de lojas automáticas. Aqui podia-se comprar qualquer coisa.
A grande placa de uma casa de armas divertiu-me bastante. Podiam-se adquirir os produtos mais belos e sofisticados da tecnologia arcônida. Apenas, tais artefatos só eram entregues ao freguês quando este se encontrasse novamente na superfície.
Parei por um instante diante da vitrine de plástico e examinei as mercadorias expostas. Fiquei surpreso ao notar que, naquele momento, estava recuperando a calma e o equilíbrio.
Permaneci em atitude rígida. Depois de algum tempo, esforcei-me para vasculhar minha vida psíquica. Ainda desta vez, o setor de memória de meu cérebro não me abandonou. Tive a impressão de cair num abismo do passado que media dez mil anos da contagem de tempo terrana.
Era isso mesmo. Pouco antes da minha partida com a esquadrilha arcônida de elite, quando ainda era um jovem almirante, eu me encontrara à frente da mesma loja. Porém, naquela época, não havia qualquer restrição de vendas.
Éramos atendidos e orientados por especialistas que dispunham de treinamento científico. Agora só havia diante da vitrine dois robôs revestidos de plástico, que exibiam um sorriso estereotipado.
Ao fitá-los atentamente, notei que uma modificação se realizava no meu interior. Tive a impressão de libertar-me subitamente de uma camisa-de-força que me cingira por milênios. Tratava-se de uma camisa-de-força feita de angústia, decepção, humilhação e de uma saudade ardente do mundo natal.
Dei mais um olhar para a peça mais bela exposta na vitrine. Tratava-se de um radiador térmico — muito caro — de cabo muito fino e com um dispositivo de mira infravermelha.
Antes de minha partida, adquirira uma arma igual a esta. Hoje a mesma jazia no fundo de um oceano do planeta Terra, onde eu a perdera quando fugia para a cúpula de aço submarina.
Afastei-me com o coração triste. Fui seguindo lentamente os homens que de repente — certamente por ordem de Rhodan — pareciam muito alegres e expansivos. Estavam de pé sobre uma fita transportadora em movimento e gritavam para os zalitas, que retornavam, observações que me fizeram sorrir.
Eram homens rudes, mas honestos. Conhecera seus remotos antepassados, que não eram diferentes. Apenas sabiam menos.
Se conseguíssemos destruir o computador-regente, decidi firmemente que seria um bom e honesto amigo dos terranos, pois ainda precisavam de auxílio. Árcon e Terra formariam uma dupla praticamente invencível.
Ele desconfiará!”, anunciou de repente o setor lógico de meu cérebro.
Senti os olhos umedecerem de nervosismo. Naturalmente o setor lógico de meu segundo cérebro formulara uma avaliação que podia não soar bem, mas encerrava uma lógica incontestável.
Suponhamos que eu me colocasse no lugar do regente. O que será que Rhodan acharia disso?
Eu conhecia a posição da Terra, e sabia das qualidades e das fraquezas humanas.
Não pensaria fatalmente que eu pudesse estar empenhado em subjugá-lo, e com ele todo o Império Solar? Ou que, antecipadamente, eu tomasse certas providências para os terranos não se tornarem muito arrogantes?
Com uma estranha clarividência constatei que fatalmente haveria de chegar o dia em que surgiria uma crise entre mim e Rhodan. Afastei o problema, por considerá-lo de importância secundária. Se não conseguíssemos colocar fora de ação o computador-regente, as reflexões deste tipo forçosamente seriam estéreis.
Quando saltei para a fita transportadora, lancei mais um olhar saudoso para a casa de armas. Quando entrei pela primeira vez na loja, fui atendido por uma jovem arcônida.
Sorri de mim para mim, pois lembrei-me de que procurara descobrir um pretexto para encontrar-me com ela, antes de minha partida.
O que teria sido feito dela? Onde estariam seus restos mortais? Era pouco mais jovem que eu. Seu rosto marcante surgiu com toda nitidez diante dos olhos do meu espírito. Prendera a respiração ao ver-me entrar na loja, pois o distintivo que trazia no peito identificara-me como príncipe de cristal e futuro soberano do império cósmico.
Alguém esbarrou em mim. Um tenente zalita desculpou-se com a voz assustada. Caíra na fita.
Acenei com a cabeça, em atitude distraída, e o tenente afastou-se apressadamente e um tanto temeroso.
Era a primeira vez que sentia com tamanha intensidade como tinha ficado velho, terrivelmente velho. Vi grandes povos e culturas aparecerem e desaparecerem. Vi o berço e o túmulo de um império romano e procurei desesperadamente salvar a vida de mártires cristãos, até descobrir que estes não precisavam mais de mim.
Ao regressar, sentira-me cansado e desgastado, mas agora o afluxo de recordações parecia provocar uma completa modificação dos meus sentimentos.
Com um desejo de gula e com o pavor da velhice que receia perder as últimas coisas belas que se lhe oferecem, agarrei a vida que, para mim, se identificava com Árcon. Estava disposto a lançar mão de todos os recursos ao meu alcance e fazer cessar a indignidade de um governo exercido por um computador.
Perry Rhodan, aquele homem jovem, incansável e carregado de energia do planeta Terra me apontara o caminho correto. Não devia desistir.
Olhei para o relógio. Três horas de nossa preciosa licença já se haviam passado. Estava na hora de agir. O misterioso ativador celular pulsava sobre meu peito. Ele me conferiu força e resolução, tal qual fizera nos milênios antecedentes.
Um jovem tenente zalita recuou diante de mim. Fitou-me com uma expressão de pavor. Percebi que meu rosto retratava meus sentimentos. Provavelmente, eu o fitara com uma expressão cruel.
3


Os alojamentos eram essencialmente práticos e por isso não tinham nenhuma beleza. Percebia-se que o 14o pavimento servia exclusivamente à permanência transitória das tripulações cujas naves estavam nos estaleiros para serem preparadas para o hipervôo.
Fui o único que recebeu um quarto individual. Os tripulantes dormiam em salões e os oficiais em quartos de quatro pessoas.
Para nós isso não tinha qualquer inconveniente. Fora surpreendentemente fácil separar os zalitas genuínos dos membros de nosso comando. Uma hora após nossa chegada, os cinqüenta nativos de Zalit obtiveram os atestados de licença e foram dispensados. Saíram exultantes, e, depois de tanto tempo, finalmente tínhamos nosso sossego.
Na sala 18-B havia sessenta camas pneumáticas. O aparelho de ar condicionado fazia tamanho barulho que mal se conseguia entender o que o vizinho dizia.
Não descobrimos qualquer aparelho de teleobservação. Apesar disso, continuamos a cuidar-nos. Toda vez que tratávamos palestras confidenciais, fazíamos um sinal para o “comando do barulho”, formado às pressas. Quando isso acontecia, o sargento Huster, um gigante ruivo de potentes órgãos vocais entoava um canto de guerra zalita que fazia doer os ouvidos.
De uma hora para cá, Rhodan aprendera a sorrir de novo. Lia-se em seu rosto o alívio que sentia por estarmos prestes a atingir o objetivo. Os mutantes acabavam de anunciar que estavam prontos para entrar em ação.
Tanaka Seiko, um japonês esbelto, que agora era ruivo, utilizara sua capacidade de localizador para examinar todas as freqüências. Chegou à conclusão de que os robôs postados no bloco C-436 não haviam recebido instruções especiais. Não suspeitavam de nós, e o exame de raios X na comporta de entrada não trouxera maiores conseqüências...
Limitei-me a entregar o relatório, elaborado às pressas, sobre o estado de saúde do pessoal. Depois disso, a estação retransmissora voltou a chamar para ordenar em termos lacônicos que não permitisse a saída dos indivíduos afetados pelo calor.
O sargento Huster, que exibira um desmaio tão pitoresco no interior da comporta, praguejou em voz alta. Era o chefe da terceira equipe e especialista na montagem de bombas-relógio. Portanto, não poderíamos deixar de levá-lo.
Há dez minutos os teleportadores Ras Tschubai e Tako Kakuta haviam retornado da primeira missão especial executada em Árcon III. Face à ausência de Gucky, eram os únicos teleportadores de que poderíamos dispor.
Estávamos reunidos na sala 18-B. Em meu quarto achava-se sentado um homem que há algum tempo fora escolhido como meu sósia. Usava meu uniforme, enquanto eu envergara o uniforme dele. Rhodan, Reginald Bell e mais alguns dos oficiais pertencentes ao comando também haviam trocado de identidade. Passamos a ser simples tripulantes, cuja presença no alojamento 18-B não provocaria nenhuma estranheza, mesmo que fosse realizada uma teleobservação.
Dessa forma fizéramos tudo para podermos iniciar a execução do plano. Reunidos em torno de uma das mesas hexagonais, fazíamos o papel de pessoas aborrecidas, que, em virtude da teimosia do comandante, não obtiveram licença para sair. Há vários dias era esta a primeira oportunidade de discutirmos seriamente a ação a ser realizada.
No rosto de Rhodan havia uma estranha expressão pensativa. Não constatei nada do nervosismo, que, segundo a lógica, deveria surgir antes de uma ação dessa envergadura.
Meu segundo cérebro recordou-me o sorriso que Rhodan exibira antes do pouso...
Num ponto mais afastado, os homens do “comando do barulho” cantavam uma canção que falava na amplidão do espaço e num pouso forçado, realizado num mundo estranho. A voz potente de Huster sobrepujava nossa palestra. Assim, passamos a conversar tranqüilamente.
Rhodan olhou cautelosamente para trás e disse:
Sua teoria é correta, Atlan!
Minha atenção foi aguçada por estas palavras. Qual teria sido a descoberta de Rhodan?
Que teoria? — perguntei.
A que diz respeito ao dispositivo de segurança. Quando o autômato A-R-145 nos deu ordem para pousar, a atitude indolente do Comodoro Gailos só provocou no regente uma observação no sentido de que Sua Alteza estava descansando. Depois disso, você obteve o comando sobre o grupo. Isso prova a modificação da atitude do regente perante os verdadeiros arcônidas
Que modificação? — perguntei.
Você não estava presente há cerca de setenta anos, quando cheguei pela primeira vez a Árcon. Naquela época, até mesmo os arcônidas, que ocupavam posições elevadas, recebiam um tratamento muito grosseiro. O Imperador que residia no mundo de cristal era comandado que nem um recruta. E, naquele tempo, não havia nenhum arcônida que ocupasse um posto-chave como o de Gailos. Uma observação tão suave e discreta diante do comportamento de um oficial, que põe em risco a segurança da nave, teria sido impossível. Em hipótese alguma, o regente se teria limitado a dizer que Sua Alteza está descansando. Compreendeu a diferença?
Lancei um olhar rápido para Bell. O mesmo parecia um tanto pensativo e disse era voz baixa:
Eu me lembro. Perry tem razão. O regente tratava os arcônidas como se fossem escravos. Crest e Thora receberam um péssimo tratamento.
Ao ouvir o nome de sua falecida esposa, Rhodan estremeceu de forma quase imperceptível. Huster entoou outra canção. Refleti com extrema rapidez.
Quer dizer que, desses fatos, você conclui que o regente recebeu novas instruções sobre o tratamento a ser dispensado aos arcônidas cultos?
Exatamente.
De quem?
Rhodan fitou-me com uma expressão irônica. O olhar que lançou para o relógio não poderia deixar de ser notado.
Foi do célebre dispositivo de segurança embutido no “coração” do regente. Sem dúvida passou a vigorar uma programação especial, que obriga o computador a adotar atitudes discretas e corteses.
Percebi a lógica de Rhodan. A mesma que lhe ajudara a construir o Império Solar. E nada me impedia de adotar sua teoria, nem que fosse apenas para tranqüilizar-me. Mas tive a impressão de haver um fator que Rhodan deixara de considerar.
Ainda temos quinze minutos — constatei. — Minha alusão dizia respeito antes a uma lógica puramente mecânica do regente que a uma programação especial. Ele deve ter constatado que nada conseguirá se recorrer exclusivamente ao arbítrio brutal. Ainda acontece que, atualmente, ele se defronta com o perigo representado pelos druufs, e muitos povos auxiliares passaram a guarnecer as naves do Império. Tais povos submetem-se a contragosto aos robôs que costumam exercer o comando. Por isso, o cérebro chegou à conclusão de que não poderia dispensar a colaboração dos verdadeiros arcônidas.
Mesmo conhecendo o estado de decadência dos mesmos?
Perfeitamente. O regente agarra-se a uma palha. Foi por isso que assumiu uma atitude tão discreta diante do comportamento de Gailos.
Isso é discutível — ponderou John Marshall em tom pensativo. — Uma ou outra das duas hipóteses pode ser correta. Procurei investigar a mente dos arcônidas que se encontram por aqui. Também não sabem por que de repente passaram a ocupar posições importantes. E não estão nada satisfeitos com isso.
O Tenente David Stern, que, no momento, exercia as funções de oficial de dia, entrou na sala. Levantamo-nos abruptamente e fizemos continência. Stern fez um gesto indiferente. Huster prosseguiu no seu canto de guerra.
Observei o jovem tenente, que passava lentamente pelos corredores, observando atentamente os homens. Estava acompanhado por duas sentinelas.
Representava muito bem. Vez por outra, parava e repreendia os homens. Foi-se aproximando do nosso grupo. Ao chegar perto de nós, disse em voz baixa:
Estamos preparados, Sir.
Emita os certificados de licença — respondeu Rhodan sem mexer-se. — Falou com Ras Tschubai?
Sim, Sir. Tudo preparado. Estamos informados.
Sairemos dentro de cinco minutos. Faça um breve discurso no hall. O senhor assumirá o comando aqui. Siga as indicações de Marshall; manterei contato telepático com ele. Se alguma coisa sair errada, proceda em conformidade com o plano.
Stern prosseguiu até sair pela segunda porta. Sabia que não haveria como voltar atrás. Os dois teleportadores tinham verificado de onde vinha aquele ruído monótono.
Alguns quilômetros ao norte do nosso bloco residencial, os pavilhões terminavam em paredes de rocha nua. Havia duas portas blindadas que constituíam o único acesso aos recintos os quais nos últimos milênios provavelmente só foram visitados por robôs especializados.
E naqueles pavilhões, que pelos nossos cálculos deviam ficar bem embaixo da extremidade da abóbada energética, funcionavam gigantescos conjuntos geradores.
O fato não bastaria para convencer-me de que se tratava das unidades energéticas que abasteciam o cérebro positrônico. Acontece que as cavernas proibidas dispunham de uma proteção adicional, fornecida pelos campos defensivos. Sabia perfeitamente que esse procedimento não era usual. O suprimento de força, destinado aos inúmeros estaleiros espaciais e às fitas transportadoras das ruas e estradas, provinha de uma usina estelar central. E nessas usinas nunca vira portas blindadas fechadas, quanto mais campos defensivos. Por isso a usina descoberta por Kakuta e Tschubai devia revestir-se de uma importância toda especial.
Como não tivéssemos descoberto nenhuma possibilidade de destruir o computador-regente, só nos restava atingir sua “artéria vital”.
Dali a três minutos, o Tenente Stern voltou a entrar na sala. Um soldado mandou que se fizesse silêncio. Levantamo-nos e ficamos em posição de sentido. Stern disse em voz alta:
Concedo licença a parte da tripulação. Os que forem chamados deverão apresentar-se para receber suas identidades.
Rhodan, Bell e eu fomos chamados em primeiro lugar. Adiantamo-nos, pegamos as placas luminosas que eu antes assinara e, em obediência às instruções, penduramo-las ao pescoço por um barbante muito fino. Os inúmeros guardas-robôs, espalhados pelo setor residencial, costumavam verificar os impulsos dessas plaquetas. Quem usasse esse signo de identificação não seria molestado, desde que os dados codificados e inseridos em tais plaquetas estivessem corretos. No momento em que entramos em nossos alojamentos, o aparelho que registrava os dados fora-me entregue por um robô. Neste ponto, tudo parecia estar em ordem.
Depois de algum tempo havia dez homens à frente do tenente. Entre eles, encontravam-se os mutantes Tschubai, Kakuta, Seiko e Okura. O comando do sargento Huster juntou-se ao grupo.
Seria absurdo tentarmos realizar a tarefa com mais de dez homens. Afinal, teríamos de entrar nas usinas energéticas.
Stern examinou-nos com um olhar crítico. Finalmente disse em tom de ameaça:
Peço que se comportem decentemente lá fora. Nada de brigas! Quero vê-los de volta dentro de oito horas. Sigam-me!
Virou-se abruptamente e saiu.
Por que é que vocês têm direito de licença e nós não temos? — resmungou um dos tripulantes. — Tragam alguma coisa para nós.
Preferi não responder. Bell e Huster cuidariam disso. Chegamos ao grande hall e descemos no elevador, onde tivemos de passar por um posto de sentinelas robotizadas. Stern já nos esperava.
Mandou que entrássemos em forma e transmitiu suas instruções.
Não quero ouvir queixas — concluiu.
Dêem o fora!
Passamos pela comporta robotizada sem que ninguém nos detivesse. Apenas notei que os tateadores de identificação da máquina se dirigiam para as plaquetas bem visíveis, que trazíamos penduradas ao pescoço.
Lá fora fomos recebidos pelo barulho da cidade subterrânea. Outras tripulações zalitas surgiam dos blocos residenciais vizinhos. As conversas começaram. Todos procuravam orientar-se.
Entramos discretamente em meio aos grupos que enxameavam por ali. O rosto rígido de Rhodan revelava que mantinha contato com o mutante John Marshall, que ficara para trás. Ao que parecia, o contato estava sendo bem sucedido, embora a capacidade telepática de Rhodan não fosse muito pronunciada. Em compensação a faculdade de Marshall era muito forte.
O.K., tudo perfeito — disse Rhodan.
Vamos começar. Ras, vá à frente.
O africano robusto, cuja pele estava vermelha como a nossa, olhou ligeiramente para trás. Por aqui dificilmente haveria veículos. Apenas os arcônidas tinham permissão para usar planadores. Nós dependíamos das numerosas fitas transportadoras que, de qualquer maneira, também serviam para levar-nos até perto do local desejado. Eu as preferia aos veículos, pois permitiam que nos deslocássemos sem chamar a atenção.
Ras fez um sinal.
A marcha para o desconhecido iria começar...
4



O sentido das grandes placas indicadoras era inconfundível. Não traziam nenhum letreiro, mas qualquer criatura medianamente inteligente compreenderia imediatamente o significado dos símbolos pintados nas mesmas. Eram relâmpagos vermelhos e reluzentes, iguais aos que costumam ser usados na Terra a título de advertência.
Aqui terminava a cidade subterrânea. O último edifício ficava a cem metros do lugar em que nos encontrávamos. Nossa posição era perigosa. Se alguém tivesse a idéia de perguntar o que estávamos procurando tão perto da parede de rocha compacta, não saberíamos o que responder.
Rhodan e Bell desapareceram juntamente com os dois mutantes. Ao longo dos anos Ras Tschubai e Tako Kakuta haviam aprendido, por meio de um treinamento rigoroso, a transportar cargas pesadas. Suas energias mentais deviam ser muito desenvolvidas.
Encostamo-nos fortemente ao nicho formado por uma tubulação das instalações de ar condicionado, que saía da parede em ângulo reto.
Huster tirou a arma de radiações. Estava encostado à coluna de apoio juntamente com os dois especialistas em armamentos e observava o trecho de caminho que tínhamos deixado para trás.
Tudo quieto, Sir — disse em voz baixa. — Na verdade, está quieto demais. Não estou gostando.
Não consegui reprimir um riso nervoso. Huster acertara em cheio ao proferir essa observação. Por que a parede com as duas portas perfeitamente visíveis não era vigiada? Por que resolveram contentar-se com as placas indicadoras, que realmente eram bastante claras?
Não encontrei explicação satisfatória. Em compensação, a sensação de perigo tornava-se cada vez mais intensa.
O ar começou a tremeluzir bem à minha frente. O corpo esguio de Kakuta foi adquirindo forma em meio à luminosidade, até surgir nitidamente diante de mim. Ainda não conseguia formar uma idéia exata das faculdades espantosas dessas pessoas, que conseguiam exclusivamente por meio da energia de seus cérebros, funcionar como transmissores de matéria.
Dali a alguns segundos, chegou Ras Tschubai. Os dois se haviam transformado nos elementos mais importantes da operação.
Voltei a guardar a arma e perguntei em tom apressado:
Como estão as coisas por lá? Tudo em ordem?
Continua tudo como era por ocasião do primeiro salto de reconhecimento. Não vimos nenhuma pessoa, e também não há robôs.
Tschubai notou o brilho de desconfiança dos meus olhos. Já um tanto inseguro, asseverou:
É isso mesmo, Sir. O chefe está esperando. Vamos embora?
Coloquei-me atrás de Tschubai e enlacei-lhe firmemente os ombros. Antes que pudesse preparar-me para o acontecimento improvável, senti uma dor de desmaterialização perfeitamente suportável. Aquele homem sabia criar um campo de dissolução da quinta dimensão, que funcionava como um conversor estrutural.
Não tive tempo para dar atenção à dor. A luz voltou a surgir à frente dos meus olhos. Até parecia que nada tinha acontecido.
O.K., logo estarei de volta — disse alguém.
Um tanto confuso, passei as mãos pelo rosto e olhei em torno. Meu primeiro movimento foi em direção à arma. Logo ouvi o rumorejar surdo, que aqui, para além da barreira, era muito mais forte.
Atrás de uma gigantesca base de conversor de alta-tensão, feita de plástico blindado, Bell observava os arredores. Bem atrás de nós, percebia-se o uivo da turbina do equipamento de refrigeração. Mais adiante viam-se os primeiros reatores de fusão dispostos em fila. Tratava-se de tipos muito modernos, aos quais estavam diretamente acoplados os conversores termais, que transformavam a energia térmica liberada pelo processo em eletricidade.
Estava perfeitamente familiarizado com a luminosidade branco-azulada dos condutores, que doía nos olhos.
Bem acima de nós, havia um sol artificial. No entanto, neste pavilhão, o mesmo apoiava-se em mais de vinte colunas gigantescas, de alguns metros de diâmetro, feitas de aço de Árcon.
Fantástico, não é? — gritou Rhodan. — É a usina energética mais perfeita que já vi. Produz cerca de dois milhões de quilowatts por reator. Tudo muito bem montado, e provido com excelentes dispositivos de segurança. Para onde vai toda essa energia?
Bell avançou até o primeiro reator, com a arma levantada. Mas não se via nenhuma pessoa estranha.
Voltou a olhar para o teto onde, segundo tudo indicava, estavam montados os projetores do campo energético. O campo vermelho reluzente estendia-se junto às paredes e terminava próximo dos pólos invisíveis existentes no soalho. Atrás desse campo viam-se as portas blindadas que fechavam as duas entradas. A parede de rocha, que separava a usina do setor residencial, devia ter uns cem metros de espessura. Sem o auxílio dos teleportadores nunca teríamos entrado ali. Transformados em impulso hiperenergético, atravessamos sem dificuldades a matéria sólida.
Antes que pudesse prestar esclarecimentos a Rhodan, os mutantes voltaram. Desta vez trouxeram o sargento Huster e Tanaka Seiko.
Está na hora, Sir — disse Huster. — Lá fora as coisas estão ficando perigosas. Um comando de robôs está se aproximando. Ao que parece trata-se de uma inspeção de rotina.
Mantivemo-nos calados até que os últimos homens pertencentes ao nosso grupo estivessem perto de nós. Também eles conseguiram vencer o percurso sem maiores dificuldades.
O que está esperando?
Estremeci involuntariamente. A voz de Rhodan parecia fria como gelo. Huster acenou com a cabeça.
A microbomba, que deveria destruir a usina, estava dividida em seis peças. Os homens tiraram essas peças dos bolsos dos uniformes.
Huster não se interessou mais por nós. Com uma calma incrível pôs-se a montar a bomba ultratérmica, cuja energia seria liberada exclusivamente sob a forma de calor. Funcionava com base num processo de catalise do carbono de elevada potência, que faria surgir um sol artificial no pavilhão em que estavam instaladas as máquinas.
Mais uma vez lembrei-me do caos que poderia surgir depois da destruição do computador-regente. Os mutantes Seiko e Okura esforçaram seus estranhos sentidos para captar coisas que, para nós, sempre seriam imperceptíveis. Já eu via-me diante da indagação se realmente deveríamos arriscar a detonação da bomba.
Rhodan lançou-me um olhar pensativo. Falou quase sem mover os lábios.
Não podemos evitar isso, amigo.
Será que você está disposto a tolerar o domínio do regente por mais tempo?
Esbocei um sorriso triste. Era claro que Rhodan pensava principalmente na Terra. Respondi em voz baixa:
Vamos desencadear o inferno, não só nestes pavilhões, mas em toda a Via Láctea. Não gostaria de bancar o pacificador depois que o regente tiver sido colocado fora de ação.
Percebi que Rhodan já identificara meus temores. Seria mesmo de admirar que um homem inteligente como ele não tivesse extraído suas conclusões.
Um dia isso terá de acontecer de qualquer maneira. Você deve ser bastante inteligente para compreender que é preferível enfrentarmos o tumulto agora que daqui a alguns anos. Por enquanto ainda poderei usar o poder da Terra para ajudá-lo. Se esperarmos muito, você ficará só.
Senti um hálito quente no rosto.
Poder? Você está falando em poder? Você pode ser imortal, terrano insignificante, mas você nunca possuiu um poder de verdade. Para isso, ainda lhe faltam alguns séculos de evolução ininterrupta. Será que você já se esqueceu dos golpes que sofreu nos últimos meses? Como pretende vencer o caos que deverá surgir? Com uns poucos couraçados de grande porte?
Sacudi a cabeça. Sentia-me desanimado. De repente achei que seria uma insensatez destruir o regente. Rhodan conservou a calma.
Tudo dependerá de você, arcônida! Se souber guardar o segredo da posição galáctica da Terra, seremos seu corpo de bombeiros. Posso oferecer-lhe uma coisa que você não possui: tripulações bem treinadas e altamente capacitadas. Será que isso não representa nada?
Isso representa muito, mas não é o bastante — respondi. — Além disso, estamos discutindo sobre a divisão de uma presa que ainda não capturamos.
Terminarei dentro de quinze minutos, Sir — interrompeu o sargento Huster em tom indiferente. Para ele o caso já estava resolvido. — Poderia informar em que lugar deverá ser detonada a bomba?
Examinou-me prolongadamente. Não conseguiu reprimir um sorriso muito ligeiro. Bell fez um sinal para mim. Estava de pé, com as pernas bem abertas, no corredor largo que separava as fileiras de reatores.
Então? — perguntou Rhodan. Assustei-me diante de tamanha força de decisão. Fitei prolongadamente seus olhos frios e virei-me. Com um gesto lento peguei minha arma térmica e fui caminhando na direção de Bell. Rhodan seguiu-me. Subitamente Tanaka Seiko disse:
Estou captando vibrações estranhas, Sir. Não sei de que se trata.
Parei. Rhodan virou-se apressadamente. Bem à minha frente o conversor do primeiro reator rumorejava. Huster não se deixou perturbar pelo ruído. Aos poucos, a microbomba — construída na Terra e testada num planeta desabitado — foi adquirindo forma.
De que tipo são as vibrações, Tanaka? — perguntou Rhodan.
O mutante, que possuía a capacidade de identificar radiações energéticas de qualquer tipo, como se fosse um receptor mecânico, abanou as mãos finas num gesto de insegurança.
São vibrações de ondas extremamente curtas, quase imperceptíveis. Trata-se de um efeito que se mantém constante. Não são sinais de rádio, embora a freqüência seja semelhante à de um hipertransmissor.
Lançou um olhar para Son Okura, nosso visor de freqüência, mas o mutante parecia indeciso. A atitude de Rhodan demonstrava um nervosismo repentino.
Bell aproximou-se. Segurava a arma de radiações.
O que houve? O que estão esperando? Este pavilhão é muito grande, e atrás dele deve haver outros. Na minha opinião, aqui praticamente não corremos o menor perigo. Vamos dar uma olhada por aí?
Tratava-se da pergunta típica de um homem que pensava em termos pragmáticos. Quando viu o rosto de Rhodan, seus olhos estreitaram-se.
Algum problema?
Tanaka informa a presença de uma radiação energética não identificada.
E daí? Bem em cima de nossas cabeças ficam os primeiros quadros de controle do cérebro positrônico. Quem sabe que tipo de energia é utilizado por lá?
Acho que as coisas não são tão simples assim — ponderei. — Esta operação, que parecia tão difícil, está se tornando um verdadeiro passeio. Não pensem que meus antepassados foram uns tolos. Os homens que construíram o cérebro positrônico devem ter tomado suas providências para resguardar a segurança do computador. Há por aqui alguma coisa que não tem a menor lógica.
Afinal, tivemos de romper um campo defensivo situado atrás de uma grossa parede de rocha — disse Bell.
É verdade. Mas no meu entender, esse dispositivo de segurança não é suficiente. O campo energético é relativamente fraco. Bastaria um canhão de radiações de tamanho médio para neutralizá-lo.
Para isso, teria de colocar o canhão aqui embaixo — disse Rhodan, refletindo em voz alta. — Lembro-me perfeitamente de que nem sequer tivemos permissão para levar nossas armas de serviço.
Antigamente não era assim, embora o cérebro já existisse, ou ao menos parte dele. Sargento Huster, espere um momento. Vamos examinar a área. Venha comigo.
Fiz um sinal para o mutante e voltei a tirar a arma. Imaginei que Rhodan deveria trazer na ponta da língua a indagação sobre quem dava ordens por ali. Huster lançou um olhar para Rhodan. Este limitou-se a acenar com a cabeça. Com o rosto indiferente, o sargento colocou de lado a bomba ultratérmica. Mas não conseguiu reprimir estas palavras:
Tudo preparado para colocar em funcionamento o dispositivo de detonação retardada. Basta desparafusar o mecanismo.
Dali a alguns segundos estávamos desenvolvendo uma atividade febril, que contrastava fortemente com a atitude que até então vínhamos mantendo. Alguma coisa fora descoberta; alguma coisa que não conseguíamos explicar.
Andamos pelos corredores. O pavilhão, de formato ligeiramente elíptico, tinha pelo menos dois mil metros de comprimento. Isso explicava a presença das gigantescas colunas de apoio. A capacidade geradora total da usina seria suficiente para abastecer um planeta industrial do tamanho da Terra.
A manutenção dos condutos energéticos isolados exigia cerca de cinco por cento da potência total. Tratava-se de um dado experimental fixado através de um compromisso entre os engenheiros especializados em alta potência.
No meu tempo já costumávamos aceitar consideráveis perdas de energia, apenas para podermos dispensar os antiquados condutos de cabos.
À medida que avançávamos, o rugido tornava-se mais forte. Aproximamo-nos de uma estação conversora cujas grades energéticas, muito próximas umas das outras, achavam-se separadas por finos campos energéticos de isolamento.
Quando paramos, estávamos ofegantes por causa da corrida prolongada. O sargento Huster e os dois especialistas em armamentos foram os únicos que não nos acompanharam. Atrás do setor em que ficava o monstruoso conversor, o pavilhão estreitava-se num túnel muito alto, que provavelmente levava a outra abóbada de pedra. A passagem não estava fechada por portas de aço ou grades energéticas.
Só podíamos comunicar-nos aos gritos. Naquele momento, quase todos os conversores transferiam as sobras de energia para gigantescas baterias de acumuladores. Era um sinal de que o consumo estava sendo reduzido progressivamente. Seria uma coincidência?
Comecei a refletir intensamente. Bell também estava nervoso. Se durante a execução da tarefa que nos impuséramos, ele se defrontasse com um contingente de robôs que oferecesse uma resistência encarniçada, isso provavelmente não o preocuparia muito. Acontece que não via um único vigia orgânico ou robotizado. Não consegui livrar-me da impressão de que já havíamos sido descobertos. Por que a gigantesca usina estava sendo desativada progressivamente?

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