Era
possível que vez por outra os terranos fossem um tanto levianos. Mas
não se podia negar que sabiam representar. O berreiro de Rhodan e
Bell fez com que os soldados avançassem ainda mais furiosamente.
Fiquei
satisfeito ao notar que alguns homens robustos seguraram oito ou dez
zalitas genuínos. Aqueles homens desarmados serviriam de proteção
contra o eco.
Assim que
um grupo dos nossos homens tinha passado pelo aparelho de raios X,
nitidamente perceptível, empurrava os zalitas para trás. Os nativos
de Voga IV eram recebidos e utilizados imediatamente por outros
terranos.
Rhodan,
Bell e eu agimos no momento exato. Quando a passagem ficou quase
livre, apenas nove zalitas que tinham ficado para trás
encontravam-se à frente da barreira de raios X. Fiz um sinal para
Bell. Esses zalitas teriam de proteger-nos.
A voz de
Bell realmente me doeu nos ouvidos. Nunca o ouvira gritar dessa
forma. Avançou que nem um louco para aquele grupo de coitados e lhes
fez um sermão. Embora a situação fosse muito séria, tive de
esforçar-me para não rir.
— Parem!
— esbravejou. — Quem mandou que passassem antes de nós? Quem
foi, seus vermes? São ordens do imediato, entenderam? Não fiquem
parados por aí. Entrem em forma! É claro que devem virar o rosto
para mim! Isso é uma posição de sentido que se apresente? Atenção!
Quando
passei majestosamente pela entrada, Bell entesou o corpo. Os nove
zalitas ficaram parados que nem estátuas, exatamente entre o lugar
pelo qual passávamos e o aparelho de raios X. Rhodan seguiu-me tão
perto que deu algumas pisadelas dolorosas nos meus calcanhares.
Bell
continuou a praguejar em zalita antes de virar-se e correr
apressadamente atrás de nós. Só depois disso, entraram os
maltratados nativos de Voga IV que, segundo parecia, não
compreendiam o que estava acontecendo. Ainda não conheciam os
terranos!
Nossos
homens já estavam enfileirados no amplo hall de entrada. Vez por
outra, um deles “desmaiava”.
Um sargento caiu segundo os planos, enquanto quatro homens gemeram e
viraram os olhos, arrancando os capacetes.
— Água!
Queremos água fresca! — gritei. — Maldito sol! Era só o que
faltava. Major Sesete, cuide dos doentes. Ou será que eles só estão
fingindo?
A posição
de sentido de Rhodan era impecável. O suor corria-lhe por baixo da
borda saliente do capacete.
— Estes
homens são das zonas montanhosas de Takotre, comandante — disse em
voz alta. — Daqui a pouco estarão recuperados.
Lancei um
olhar ligeiro para as teleobjetivas do regente. A cena era
impressionante, e também era verdadeira...
Um cérebro
mecânico que substituía a sensibilidade humana pela lógica era
fácil de ser enganado por essa forma.
A mensagem
esperada chegou a seguir, mas desta vez foi transmitida pelos grandes
alto-falantes do sistema de intercomunicação. A voz metálica
parecia sair diretamente da parede de aço.
— As
pessoas afetadas pelo calor precisam de algum tratamento, Capitão
Ighur?
— Se o
regente demorasse mais um minuto, precisariam! — exclamei em tom
furioso. — Mas acredito que agora não haja necessidade. Depois de
chegarmos aos alojamentos, apresentarei um relatório sobre o estado
de saúde dos homens. Para onde iremos?
— Pavimento
14, Bloco C-436-8. Use o elevador — disse a voz retumbante saída
dos alto-falantes.
A estação
retransmissora A-3 desligou. Respirei profundamente. Ao que tudo
indicava, não precisávamos contar com outro controle.
Lancei um
olhar discreto para os nove zalitas que nossos homens haviam usado de
forma tão hábil como proteção de eco. Ao que parecia, não
compreendiam por que Bell gritara para eles. Talvez acreditassem se
tratar de engano.
Marshall,
o telepata, piscou para tranqüilizar-me. Recebera ordens terminantes
para manter-se informado sobre o conteúdo da mente dos membros
estranhos da nossa tripulação.
Mais
atrás, abriram-se as portas largas de um grande elevador.
— Entrar
em grupos — ordenei. — Sesete, cuide disso. Roake, o senhor
ficará aqui até que o último homem tenha entrado no elevador.
Rhodan e
Bell logo reiniciaram suas atividades. Os outros oficiais da nave
seguiram-me para dentro da grande gôndola, que, à direita e à
esquerda da entrada, era flanqueada por armas de radiações
controladas a distância. Qualquer pessoa que quisesse penetrar nas
instalações subterrâneas de Árcon teria de comunicar-se com as
estações automáticas competentes.
Não se
via mais ninguém. Nem sequer haviam mandado robôs. As escotilhas de
aço da comporta já se haviam fechado atrás de nós. Com isso,
praticamente estávamos tão longe do campo aberto do espaçoporto
como quem se encontra num outro mundo.
Enquanto
descíamos em alta velocidade, não proferimos uma única palavra.
Segundo os costumes arcônidas, não era de bom tom que os oficiais
conversassem na presença do comandante. Seria ainda mais incabível
dirigir a palavra ao mesmo. Havia muitos detalhes aos quais devíamos
prestar atenção. Qualquer erro poderia trair-nos. Evidentemente
para os terranos era muito difícil acostumar-se a essas regras.
Durante as primeiras semanas de nossa atuação por várias vezes
enfrentáramos situações bastante perigosas por desatenção.
*
* *
Os
algarismos luminosos nos diversos pavimentos foram passando por nós.
Assim que chegou a indicação de que o décimo quarto pavimento
estava próximo, a velocidade do elevador reduziu-se. A gôndola,
sustentada por um campo magnético, parou com um forte solavanco. As
portas abriram-se.
Fui o
primeiro a sair para a profusa luminosidade. Senti-me ofuscado ao
fitar o branco sol atômico. Suas fortes radiações ultravioletas
eram tão intensas quanto as do astro natural. Por isso as
inteligências estranhas, não acostumadas a essas radiações,
arriscavam-se a sofrer queimaduras de sol. Até mesmo meus amigos
terranos tiveram de familiarizar-se com a idéia de que, quando se
encontrassem bem abaixo da superfície de Árcon III, teriam de
cuidar para evitar uma exposição excessiva.
Mais à
frente vi um arcônida de meia-idade que usava a capa violeta dos
cientistas. Estava confortavelmente deitado numa poltrona e parecia
sentir tédio.
Quando a
campainha do elevador soou pela segunda vez e os homens pertencentes
ao primeiro grupo penetraram no hall da comporta, o arcônida virou
lentamente a cabeça. Vi um par de olhos que piscavam
preguiçosamente.
À frente
do cientista, encontrava-se um receptor portátil de imagens
simultâneas, em cuja tela surgia uma multidão profusa de figuras
coloridas. Ao que tudo indicava, o homem estava absorto no jogo que,
para mim, não tinha o menor sentido. Só agora pareceu notar nossa
presença.
O segundo
grupo, comandado por Reginald Bell, chegou ao lugar em que nos
achávamos. As ordens do meu imediato, proferidas em voz alta,
incomodaram o arcônida. Seu rosto contorceu-se numa expressão de
repugnância. Finalmente lançou-nos um olhar cheio de recriminação.
Até parecia que havíamos cometido um crime de lesa-majestade.
— Cale-se!
— gritei para Bell. — Não vê que Sua Alteza está descansando?
Comporte-se!
Desta vez,
seu olhar foi mais benevolente. Aproximei-me do arcônida, caminhando
devagar e com um sorriso no rosto. Sem dizer uma palavra, coloquei a
mão sobre o peito, a título de cumprimento.
O arcônida
acenou lentamente com a cabeça.
— Isso
não poderia ser evitado, comandante? — indagou em tom dolente.
— Alteza,
sou o Capitão Ighur, comandante do couraçado Kon-Velete, da frota
de Sua Regência. Peço desculpas pela descortesia que acaba de ser
cometida. Recebi ordens para apresentar-me no pavimento quatorze,
juntamente com meus homens.
Os robôs
de guerra postados em todos os cantos permaneceram imóveis. Ao que
tudo indicava, estavam submetidos ao velho cientista. Neste meio
tempo, Rhodan também havia aparecido. A tripulação estava
completa. Seu pigarro discreto revelava que a presença do arcônida
o deixava espantado. Desde quando o regente dera para guarnecer
posições-chave com criaturas vivas? Contara antes com a presença
de um comando de robôs.
O rosto
enrugado daquele homem magro demonstrou sinais de interesse.
— Você
teve uma boa educação, Ighur? — perguntou.
Inclinei
ligeiramente a cabeça. Meu comportamento estava trazendo os
primeiros frutos.
— Atrevo-me
a dizer que sim, Alteza.
— Qual
foi a escola?
— A
Academia Galatonáutica de Iprasa, Alteza — disse, embora fosse uma
mentira.
Fazia
votos de que a antiqüíssima escola superior ainda existisse.
— Ah,
Iprasa! Então é este o motivo do seu comportamento agradável.
Oportunamente deveríamos conversar sobre as diretrizes filosóficas
de Testro.
Sabia
perfeitamente que essa oportunidade nunca chegaria. Além disso, não
tinha a menor idéia de quem era esse Testro.
— Será
uma honra, Alteza. Permita que lhe solicite a indicação dos
alojamentos. Meus homens estão sofrendo os efeitos do calor.
— Calor?
— repetiu o velho em tom de espanto. — Oh, esses bárbaros! Está
falando em calor. Onde está o aparelho?
Sem olhar,
tateou as largas braçadeiras da poltrona, onde estava embutida a
programação. Enquanto fazia isso, já voltara a olhar com uma
expressão de fascínio para a tela de imagens simultâneas, onde
surgiam novas amostras.
— Este
jovem Oscer é admirável — disse num sopro de enlevo. — A idéia
do desenho de figuras sem sombras, no interior de uma bola de gelo
flutuante é sublime. Acho que o nome dele ainda ficará conhecido.
Não acha também?
Acenei
fortemente com a cabeça. O olhar do arcônida tornou-se mais brando.
— Está
bem. Leve seus homens para o conforto das salas refrigeradas. Como se
pode falar em calor! Aqui faz um frio terrível.
Antes que
ele pudesse perder-se novamente no enlevo artístico, a estação
re-transmissora A-3 entrou em cena. De repente os robôs de
vigilância começaram a movimentar-se. O arcônida nem percebeu que
fora privado do comando.
— Sigam-me
— disse a voz metálica saída da fenda de uma pesada máquina de
guerra.
Esse robô
era mais perigoso que mil arcônidas do tipo do cientista.
Ao
deixarem a comporta de segurança do 14o
pavimento, nossos homens esforçaram-se para não fazer o menor
ruído. Bell lançou um olhar ao meu companheiro de raça que me fez
enrubescer de vergonha.
Numa
disposição amarga decidi que faria tudo que estivesse ao meu
alcance para modificar esse estado de coisas pouco dignificante.
Não houve
outro controle. Diante da comporta surgiu a gigantesca abóbada de
uma cidade subterrânea. Aqui os edifícios não haviam sido
construídos no estilo afunilado peculiar dos arcônidas. A
arquitetura era inteiramente finalista e por isso mesmo independente
das contingências do tempo.
Havia ruas
largas com fitas transportadoras e um número tão elevado de
indicações luminosas que a visão das mesmas nos confundia. O teto
abobadado do pavilhão imitava o céu natural tanto na cor como no
formato. Um branco e ofuscante sol atômico fornecia luz, calor e os
indispensáveis raios ultravioletas numa dosagem vigorosa.
Vi
inteligências vindas de todas as partes dos setores da Via Láctea.
No entanto, ao que tudo indicava, nesse setor residencial só haviam
sido abrigados seres que respiravam oxigênio. Os grandes letreiros
revelavam claramente que por aqui reinava uma gravitação artificial
de 0,95G. Via-se que o regente fazia tudo que estava ao seu alcance
para proporcionar aos povos auxiliares, abrigados no 14o
pavimento, condições de vida que se aproximassem o mais possível
àquelas a que estavam acostumados.
Sabia que
cada pavimento fora especialmente instalado para atender às
necessidades das pessoas que ali residissem. Evidentemente nós, os
zalitas, pertencíamos ao grupo de inteligência de 0,95G e da
mistura gasosa de oxigênio e hélio.
Senti
tonturas ao pensar nas múltiplas tarefas que talvez teria de cumprir
sem o auxílio do computador-regente. No momento, pareciam-me
impossíveis...
Levei
algum tempo para compreender o ruído uniforme, que sobrepujava todas
as outras impressões. Era um rumorejar surdo, que parecia provir de
todos os cantos da cidade subterrânea e enchia quase fisicamente o
enorme espaço oco.
Parei por
um instante para escutar melhor. Rhodan também inclinou a cabeça.
Os homens começaram a inquietar-se.
Não
consegui identificar a fonte do ruído monótono. Depois de prestar
atenção por algum tempo, o rumorejar parecia confundir-se com os
anúncios dos alto-falantes e o linguajar caótico dos numerosos
povos não-arcônidas que, segundo tudo indicava, também estavam
desfrutando uma licença.
O robô de
guerra enxotou um grupo de seres de três olhos, os naats. Eles
fitaram nossa formação em atitude agressiva. Gritaram pragas e
insultos. Fiquei satisfeito por não ter de entrar em contato com
estes seres constantemente irritáveis, vindos do planeta ciclópico
de Naat.
Mais uma
vez esforcei-me para descobrir a causa do ruído monótono. Foi então
que, depois de um longo período de inatividade, o setor lógico de
meu segundo cérebro, ativado há milhares de anos, voltou a chamar.
“São
unidades energéticas. Trata-se do ruído típico dos conversores
termais. O espaçoporto A-3 é um dos seis campos de pouso que cercam
a cúpula energética do cérebro positrônico em forma de raio.”
Encolhi-me
instintivamente. Só agora me dei conta de que a cada passo que
dávamos, chegávamos mais perto das áreas vitais do regente. O 14o
pavimento, em que nos encontrávamos, ficava cerca de 1.800 metros
abaixo da superfície. Se os boatos que corriam correspondiam à
verdade, os elementos de controle mais importantes do cérebro
positrônico atingiam camadas ainda mais profundas.
Concluí
que provavelmente ficaríamos nas proximidades das instalações
energéticas. Rhodan parecia ter a mesma idéia. Alcançou-me com
alguns passos largos e colocou-se a meu lado. Por aqui praticamente
não havia nenhum perigo. Era a primeira oportunidade que tínhamos
para falarmos à vontade. O robô de guerra continuava a caminhar à
nossa frente. Aproximamo-nos de um anteparo energético que reluzia
numa tonalidade azulada. Atrás deste, reinavam condições de vida
diferentes das que prevaleciam na parte da cidade em que nos
encontrávamos.
— Sabe
que as áreas residenciais subterrâneas cercam o “coração”
do regente?
Estas
palavras foram proferidas antes em tom de constatação que de
pergunta. Fiz que sim. O rosto de Rhodan continuava inexpressivo. Ao
que parecia, depois da morte de Thora, ele já não sabia rir.
— O.K.
Só quis mencionar o fato. Posteriormente falaremos a este respeito.
Sugiro um encontro para discutirmos a situação.
— Tenho
certeza de que os alojamentos são vigiados.
— Meus
especialistas encontrarão um meio de pôr fora de ação os
aparelhos de escuta. É claro que isso terá de ser feito
discretamente. Concederam-nos cinqüenta horas de licença. Duas
horas já se passaram. Começaremos a agir imediatamente.
Olhei
rapidamente em torno. Os rostos de nossos homens exprimiam uma grande
dose de resolução. Bell fez um ligeiro sinal para mim. Depois de
nosso pouso em Árcon III, suas faces carnudas pareciam mais firmes.
Tive a impressão de que estava disposto a assumir qualquer risco.
— É um
caso típico de precipitação terrana — respondi em tom áspero. —
A paciência não é característica de vocês.
— Temos
apenas cinqüenta horas de licença — disse Rhodan, insistindo em
sua opinião. — Se até lá não conseguirmos, seremos embarcados e
enviados à frente de combate dos druufs. Se isso acontecer,
estaremos novamente no lugar em que começamos. Tenho certeza de que
a permanência de cinqüenta horas da Kon-Velete em Árcon III será
aproveitada para pôr em ordem o mecanismo hiperpropulsor. É o prazo
de que podemos dispor. Estamos perto do regente. Será agora ou
nunca.
O bárbaro
tinha razão, mas eu não estava disposto a reconhecer o fato. Sentia
pavor diante do que estava para acontecer, não pelo perigo ligado a
isso, mas pelas conseqüências catastróficas que provavelmente
resultariam da destruição do cérebro positrônico.
Não
mencionei meus temores. Não adiantava desgastar ainda mais os nervos
de Rhodan. Era um terrano, que não sabia conservar o retraimento
ponderado dos homens da minha espécie.
Uma faixa
abriu-se no anteparo energético que havíamos avistado. Atravessamos
a mesma e, de repente, a temperatura tornou-se mais baixa. Os
primeiros zalitas foram aparecendo. Com o tempo fomos descobrindo um
número cada vez maior de homens uniformizados, todos vindos de Voga
IV. Ao que parecia estávamos no distrito reservado às tripulações
zalitas.
O sol
atômico, que se deslocava no céu artificial, já não era tão
intenso. Atravessamos um túnel largo e, atrás dele, surgiu um
segundo pavilhão, também gigantesco.
Os
tripulantes e oficiais faziam continências rígidas e respeitosas. O
robô que nos conduzia parecia receber novas instruções de sua
estação programadora. De repente parou, colocou-se à minha frente
e anunciou:
— O
senhor poderá tomar a estrada rolante cinco para chegar ao bloco
C-436, comandante. Solicita-se que se dirija ao seu alojamento e
elabore um relatório sobre o estado de saúde de seus homens.
Dei minha
ordem em voz alta e clara:
— Major
Sesete, providencie tudo que se torna necessário. Robô, onde fica a
cantina dos oficiais?
— A
mesma forma um anexo do bloco C-436, comandante. Os controles
automáticos dos alojamentos já foram devidamente programados. O
senhor tem direito de licenciar seus tripulantes segundo seu
critério. Documentos especiais lhes serão fornecidos. Pede-se que
forneça a toda pessoa licenciada um comprovante do qual conste o
nome, nave a que pertence, o respectivo número de código e o prazo
da licença, indicado segundo o tempo-padrão de Árcon.
Era só o
que eu queria saber. De repente os olhos de um soldado que se
encontrava próximo de mim pareciam chamejar. Por espantoso que
fosse, tive a impressão de que de repente esse homem adquirira a
capacidade de refletir a luz. Preparou os lábios para um dos seus
assobios típicos, mas absteve-se do mesmo porque um zalita não
assobia.
A máquina
de guerra afastou-se. Todos saíam de seu caminho a contragosto, já
que a mesma inspirava medo. Um comandante zalita cumprimentou-nos de
longe. Sorri, inclinei a cabeça e levantei a mão direita a título
de cumprimento. Torcia para que não pretendesse arrastar-me para
alguma iniciativa de caráter social. Entre os oficiais da frota
zalita reinava uma estranha sociabilidade, que ultimamente já estava
se tornando um exagerado sentimento de classe. Foi só por isso que
pude atrever-me a usar palavras tão grosseiras para com a estação
retransmissora A-3. Sem dúvida, o regente sabia que os oficiais da
frota espacial zalita eram os seres que mais se aproximavam dos
arcônidas.
Rhodan deu
as instruções que se tornavam necessárias.
Enquanto
isso, passei por uma rua que nesse trecho estava flanqueada por uma
fileira de lojas automáticas. Aqui podia-se comprar qualquer coisa.
A grande
placa de uma casa de armas divertiu-me bastante. Podiam-se adquirir
os produtos mais belos e sofisticados da tecnologia arcônida.
Apenas, tais artefatos só eram entregues ao freguês quando este se
encontrasse novamente na superfície.
Parei por
um instante diante da vitrine de plástico e examinei as mercadorias
expostas. Fiquei surpreso ao notar que, naquele momento, estava
recuperando a calma e o equilíbrio.
Permaneci
em atitude rígida. Depois de algum tempo, esforcei-me para vasculhar
minha vida psíquica. Ainda desta vez, o setor de memória de meu
cérebro não me abandonou. Tive a impressão de cair num abismo do
passado que media dez mil anos da contagem de tempo terrana.
Era isso
mesmo. Pouco antes da minha partida com a esquadrilha arcônida de
elite, quando ainda era um jovem almirante, eu me encontrara à
frente da mesma loja. Porém, naquela época, não havia qualquer
restrição de vendas.
Éramos
atendidos e orientados por especialistas que dispunham de treinamento
científico. Agora só havia diante da vitrine dois robôs revestidos
de plástico, que exibiam um sorriso estereotipado.
Ao
fitá-los atentamente, notei que uma modificação se realizava no
meu interior. Tive a impressão de libertar-me subitamente de uma
camisa-de-força que me cingira por milênios. Tratava-se de uma
camisa-de-força feita de angústia, decepção, humilhação e de
uma saudade ardente do mundo natal.
Dei mais
um olhar para a peça mais bela exposta na vitrine. Tratava-se de um
radiador térmico — muito caro — de cabo muito fino e com um
dispositivo de mira infravermelha.
Antes de
minha partida, adquirira uma arma igual a esta. Hoje a mesma jazia no
fundo de um oceano do planeta Terra, onde eu a perdera quando fugia
para a cúpula de aço submarina.
Afastei-me
com o coração triste. Fui seguindo lentamente os homens que de
repente — certamente por ordem de Rhodan — pareciam muito alegres
e expansivos. Estavam de pé sobre uma fita transportadora em
movimento e gritavam para os zalitas, que retornavam, observações
que me fizeram sorrir.
Eram
homens rudes, mas honestos. Conhecera seus remotos antepassados, que
não eram diferentes. Apenas sabiam menos.
Se
conseguíssemos destruir o computador-regente, decidi firmemente que
seria um bom e honesto amigo dos terranos, pois ainda precisavam de
auxílio. Árcon e Terra formariam uma dupla praticamente invencível.
“Ele
desconfiará!”,
anunciou de repente o setor lógico de meu cérebro.
Senti os
olhos umedecerem de nervosismo. Naturalmente o setor lógico de meu
segundo cérebro formulara uma avaliação que podia não soar bem,
mas encerrava uma lógica incontestável.
Suponhamos
que eu me colocasse no lugar do regente. O que será que Rhodan
acharia disso?
Eu
conhecia a posição da Terra, e sabia das qualidades e das fraquezas
humanas.
Não
pensaria fatalmente que eu pudesse estar empenhado em subjugá-lo, e
com ele todo o Império Solar? Ou que, antecipadamente, eu tomasse
certas providências para os terranos não se tornarem muito
arrogantes?
Com uma
estranha clarividência constatei que fatalmente haveria de chegar o
dia em que surgiria uma crise entre mim e Rhodan. Afastei o problema,
por considerá-lo de importância secundária. Se não conseguíssemos
colocar fora de ação o computador-regente, as reflexões deste tipo
forçosamente seriam estéreis.
Quando
saltei para a fita transportadora, lancei mais um olhar saudoso para
a casa de armas. Quando entrei pela primeira vez na loja, fui
atendido por uma jovem arcônida.
Sorri de
mim para mim, pois lembrei-me de que procurara descobrir um pretexto
para encontrar-me com ela, antes de minha partida.
O que
teria sido feito dela? Onde estariam seus restos mortais? Era pouco
mais jovem que eu. Seu rosto marcante surgiu com toda nitidez diante
dos olhos do meu espírito. Prendera a respiração ao ver-me entrar
na loja, pois o distintivo que trazia no peito identificara-me como
príncipe de cristal e futuro soberano do império cósmico.
Alguém
esbarrou em mim. Um tenente zalita desculpou-se com a voz assustada.
Caíra na fita.
Acenei com
a cabeça, em atitude distraída, e o tenente afastou-se
apressadamente e um tanto temeroso.
Era a
primeira vez que sentia com tamanha intensidade como tinha ficado
velho, terrivelmente velho. Vi grandes povos e culturas aparecerem e
desaparecerem. Vi o berço e o túmulo de um império romano e
procurei desesperadamente salvar a vida de mártires cristãos, até
descobrir que estes não precisavam mais de mim.
Ao
regressar, sentira-me cansado e desgastado, mas agora o afluxo de
recordações parecia provocar uma completa modificação dos meus
sentimentos.
Com um
desejo de gula e com o pavor da velhice que receia perder as últimas
coisas belas que se lhe oferecem, agarrei a vida que, para mim, se
identificava com Árcon. Estava disposto a lançar mão de todos os
recursos ao meu alcance e fazer cessar a indignidade de um governo
exercido por um computador.
Perry
Rhodan, aquele homem jovem, incansável e carregado de energia do
planeta Terra me apontara o caminho correto. Não devia desistir.
Olhei para
o relógio. Três horas de nossa preciosa licença já se haviam
passado. Estava na hora de agir. O misterioso ativador celular
pulsava sobre meu peito. Ele me conferiu força e resolução, tal
qual fizera nos milênios antecedentes.
Um jovem
tenente zalita recuou diante de mim. Fitou-me com uma expressão de
pavor. Percebi que meu rosto retratava meus sentimentos.
Provavelmente, eu o fitara com uma expressão cruel.
3
Os
alojamentos eram essencialmente práticos e por isso não tinham
nenhuma beleza. Percebia-se que o 14o
pavimento servia exclusivamente à permanência transitória das
tripulações cujas naves estavam nos estaleiros para serem
preparadas para o hipervôo.
Fui o
único que recebeu um quarto individual. Os tripulantes dormiam em
salões e os oficiais em quartos de quatro pessoas.
Para nós
isso não tinha qualquer inconveniente. Fora surpreendentemente fácil
separar os zalitas genuínos dos membros de nosso comando. Uma hora
após nossa chegada, os cinqüenta nativos de Zalit obtiveram os
atestados de licença e foram dispensados. Saíram exultantes, e,
depois de tanto tempo, finalmente tínhamos nosso sossego.
Na sala
18-B havia sessenta camas pneumáticas. O aparelho de ar condicionado
fazia tamanho barulho que mal se conseguia entender o que o vizinho
dizia.
Não
descobrimos qualquer aparelho de teleobservação. Apesar disso,
continuamos a cuidar-nos. Toda vez que tratávamos palestras
confidenciais, fazíamos um sinal para o “comando
do barulho”,
formado às pressas. Quando isso acontecia, o sargento Huster, um
gigante ruivo de potentes órgãos vocais entoava um canto de guerra
zalita que fazia doer os ouvidos.
De uma
hora para cá, Rhodan aprendera a sorrir de novo. Lia-se em seu rosto
o alívio que sentia por estarmos prestes a atingir o objetivo. Os
mutantes acabavam de anunciar que estavam prontos para entrar em
ação.
Tanaka
Seiko, um japonês esbelto, que agora era ruivo, utilizara sua
capacidade de localizador para examinar todas as freqüências.
Chegou à conclusão de que os robôs postados no bloco C-436 não
haviam recebido instruções especiais. Não suspeitavam de nós, e o
exame de raios X na comporta de entrada não trouxera maiores
conseqüências...
Limitei-me
a entregar o relatório, elaborado às pressas, sobre o estado de
saúde do pessoal. Depois disso, a estação retransmissora voltou a
chamar para ordenar em termos lacônicos que não permitisse a saída
dos indivíduos afetados pelo calor.
O sargento
Huster, que exibira um desmaio tão pitoresco no interior da
comporta, praguejou em voz alta. Era o chefe da terceira equipe e
especialista na montagem de bombas-relógio. Portanto, não
poderíamos deixar de levá-lo.
Há dez
minutos os teleportadores Ras Tschubai e Tako Kakuta haviam retornado
da primeira missão especial executada em Árcon III. Face à
ausência de Gucky, eram os únicos teleportadores de que poderíamos
dispor.
Estávamos
reunidos na sala 18-B. Em meu quarto achava-se sentado um homem que
há algum tempo fora escolhido como meu sósia. Usava meu uniforme,
enquanto eu envergara o uniforme dele. Rhodan, Reginald Bell e mais
alguns dos oficiais pertencentes ao comando também haviam trocado de
identidade. Passamos a ser simples tripulantes, cuja presença no
alojamento 18-B não provocaria nenhuma estranheza, mesmo que fosse
realizada uma teleobservação.
Dessa
forma fizéramos tudo para podermos iniciar a execução do plano.
Reunidos em torno de uma das mesas hexagonais, fazíamos o papel de
pessoas aborrecidas, que, em virtude da teimosia do comandante, não
obtiveram licença para sair. Há vários dias era esta a primeira
oportunidade de discutirmos seriamente a ação a ser realizada.
No rosto
de Rhodan havia uma estranha expressão pensativa. Não constatei
nada do nervosismo, que, segundo a lógica, deveria surgir antes de
uma ação dessa envergadura.
Meu
segundo cérebro recordou-me o sorriso que Rhodan exibira antes do
pouso...
Num ponto
mais afastado, os homens do “comando
do barulho”
cantavam uma canção que falava na amplidão do espaço e num pouso
forçado, realizado num mundo estranho. A voz potente de Huster
sobrepujava nossa palestra. Assim, passamos a conversar
tranqüilamente.
Rhodan
olhou cautelosamente para trás e disse:
— Sua
teoria é correta, Atlan!
Minha
atenção foi aguçada por estas palavras. Qual teria sido a
descoberta de Rhodan?
— Que
teoria? — perguntei.
— A que
diz respeito ao dispositivo de segurança. Quando o autômato A-R-145
nos deu ordem para pousar, a atitude indolente do Comodoro Gailos só
provocou no regente uma observação no sentido de que Sua Alteza
estava descansando. Depois disso, você obteve o comando sobre o
grupo. Isso prova a modificação da atitude do regente perante os
verdadeiros arcônidas
— Que
modificação? — perguntei.
— Você
não estava presente há cerca de setenta anos, quando cheguei pela
primeira vez a Árcon. Naquela época, até mesmo os arcônidas, que
ocupavam posições elevadas, recebiam um tratamento muito grosseiro.
O Imperador que residia no mundo de cristal era comandado que nem um
recruta. E, naquele tempo, não havia nenhum arcônida que ocupasse
um posto-chave como o de Gailos. Uma observação tão suave e
discreta diante do comportamento de um oficial, que põe em risco a
segurança da nave, teria sido impossível. Em hipótese alguma, o
regente se teria limitado a dizer que Sua Alteza está descansando.
Compreendeu a diferença?
Lancei um
olhar rápido para Bell. O mesmo parecia um tanto pensativo e disse
era voz baixa:
— Eu me
lembro. Perry tem razão. O regente tratava os arcônidas como se
fossem escravos. Crest e Thora receberam um péssimo tratamento.
Ao ouvir o
nome de sua falecida esposa, Rhodan estremeceu de forma quase
imperceptível. Huster entoou outra canção. Refleti com extrema
rapidez.
— Quer
dizer que, desses fatos, você conclui que o regente recebeu novas
instruções sobre o tratamento a ser dispensado aos arcônidas
cultos?
— Exatamente.
— De
quem?
Rhodan
fitou-me com uma expressão irônica. O olhar que lançou para o
relógio não poderia deixar de ser notado.
— Foi do
célebre dispositivo de segurança embutido no “coração”
do regente. Sem dúvida passou a vigorar uma programação especial,
que obriga o computador a adotar atitudes discretas e corteses.
Percebi a
lógica de Rhodan. A mesma que lhe ajudara a construir o Império
Solar. E nada me impedia de adotar sua teoria, nem que fosse apenas
para tranqüilizar-me. Mas tive a impressão de haver um fator que
Rhodan deixara de considerar.
— Ainda
temos quinze minutos — constatei. — Minha alusão dizia respeito
antes a uma lógica puramente mecânica do regente que a uma
programação especial. Ele deve ter constatado que nada conseguirá
se recorrer exclusivamente ao arbítrio brutal. Ainda acontece que,
atualmente, ele se defronta com o perigo representado pelos druufs, e
muitos povos auxiliares passaram a guarnecer as naves do Império.
Tais povos submetem-se a contragosto aos robôs que costumam exercer
o comando. Por isso, o cérebro chegou à conclusão de que não
poderia dispensar a colaboração dos verdadeiros arcônidas.
— Mesmo
conhecendo o estado de decadência dos mesmos?
— Perfeitamente.
O regente agarra-se a uma palha. Foi por isso que assumiu uma atitude
tão discreta diante do comportamento de Gailos.
— Isso é
discutível — ponderou John Marshall em tom pensativo. — Uma ou
outra das duas hipóteses pode ser correta. Procurei investigar a
mente dos arcônidas que se encontram por aqui. Também não sabem
por que de repente passaram a ocupar posições importantes. E não
estão nada satisfeitos com isso.
O Tenente
David Stern, que, no momento, exercia as funções de oficial de dia,
entrou na sala. Levantamo-nos abruptamente e fizemos continência.
Stern fez um gesto indiferente. Huster prosseguiu no seu canto de
guerra.
Observei o
jovem tenente, que passava lentamente pelos corredores, observando
atentamente os homens. Estava acompanhado por duas sentinelas.
Representava
muito bem. Vez por outra, parava e repreendia os homens. Foi-se
aproximando do nosso grupo. Ao chegar perto de nós, disse em voz
baixa:
— Estamos
preparados, Sir.
— Emita
os certificados de licença — respondeu Rhodan sem mexer-se. —
Falou com Ras Tschubai?
— Sim,
Sir. Tudo preparado. Estamos informados.
— Sairemos
dentro de cinco minutos. Faça um breve discurso no hall. O senhor
assumirá o comando aqui. Siga as indicações de Marshall; manterei
contato telepático com ele. Se alguma coisa sair errada, proceda em
conformidade com o plano.
Stern
prosseguiu até sair pela segunda porta. Sabia que não haveria como
voltar atrás. Os dois teleportadores tinham verificado de onde vinha
aquele ruído monótono.
Alguns
quilômetros ao norte do nosso bloco residencial, os pavilhões
terminavam em paredes de rocha nua. Havia duas portas blindadas que
constituíam o único acesso aos recintos os quais nos últimos
milênios provavelmente só foram visitados por robôs
especializados.
E naqueles
pavilhões, que pelos nossos cálculos deviam ficar bem embaixo da
extremidade da abóbada energética, funcionavam gigantescos
conjuntos geradores.
O fato não
bastaria para convencer-me de que se tratava das unidades energéticas
que abasteciam o cérebro positrônico. Acontece que as cavernas
proibidas dispunham de uma proteção adicional, fornecida pelos
campos defensivos. Sabia perfeitamente que esse procedimento não era
usual. O suprimento de força, destinado aos inúmeros estaleiros
espaciais e às fitas transportadoras das ruas e estradas, provinha
de uma usina estelar central. E nessas usinas nunca vira portas
blindadas fechadas, quanto mais campos defensivos. Por isso a usina
descoberta por Kakuta e Tschubai devia revestir-se de uma importância
toda especial.
Como não
tivéssemos descoberto nenhuma possibilidade de destruir o
computador-regente, só nos restava atingir sua “artéria
vital”.
Dali a
três minutos, o Tenente Stern voltou a entrar na sala. Um soldado
mandou que se fizesse silêncio. Levantamo-nos e ficamos em posição
de sentido. Stern disse em voz alta:
— Concedo
licença a parte da tripulação. Os que forem chamados deverão
apresentar-se para receber suas identidades.
Rhodan,
Bell e eu fomos chamados em primeiro lugar. Adiantamo-nos, pegamos as
placas luminosas que eu antes assinara e, em obediência às
instruções, penduramo-las ao pescoço por um barbante muito fino.
Os inúmeros guardas-robôs, espalhados pelo setor residencial,
costumavam verificar os impulsos dessas plaquetas. Quem usasse esse
signo de identificação não seria molestado, desde que os dados
codificados e inseridos em tais plaquetas estivessem corretos. No
momento em que entramos em nossos alojamentos, o aparelho que
registrava os dados fora-me entregue por um robô. Neste ponto, tudo
parecia estar em ordem.
Depois de
algum tempo havia dez homens à frente do tenente. Entre eles,
encontravam-se os mutantes Tschubai, Kakuta, Seiko e Okura. O comando
do sargento Huster juntou-se ao grupo.
Seria
absurdo tentarmos realizar a tarefa com mais de dez homens. Afinal,
teríamos de entrar nas usinas energéticas.
Stern
examinou-nos com um olhar crítico. Finalmente disse em tom de
ameaça:
— Peço
que se comportem decentemente lá fora. Nada de brigas! Quero vê-los
de volta dentro de oito horas. Sigam-me!
Virou-se
abruptamente e saiu.
— Por
que é que vocês têm direito de licença e nós não temos? —
resmungou um dos tripulantes. — Tragam alguma coisa para nós.
Preferi
não responder. Bell e Huster cuidariam disso. Chegamos ao grande
hall e descemos no elevador, onde tivemos de passar por um posto de
sentinelas robotizadas. Stern já nos esperava.
Mandou que
entrássemos em forma e transmitiu suas instruções.
— Não
quero ouvir queixas — concluiu.
— Dêem
o fora!
Passamos
pela comporta robotizada sem que ninguém nos detivesse. Apenas notei
que os tateadores de identificação da máquina se dirigiam para as
plaquetas bem visíveis, que trazíamos penduradas ao pescoço.
Lá fora
fomos recebidos pelo barulho da cidade subterrânea. Outras
tripulações zalitas surgiam dos blocos residenciais vizinhos. As
conversas começaram. Todos procuravam orientar-se.
Entramos
discretamente em meio aos grupos que enxameavam por ali. O rosto
rígido de Rhodan revelava que mantinha contato com o mutante John
Marshall, que ficara para trás. Ao que parecia, o contato estava
sendo bem sucedido, embora a capacidade telepática de Rhodan não
fosse muito pronunciada. Em compensação a faculdade de Marshall era
muito forte.
— O.K.,
tudo perfeito — disse Rhodan.
— Vamos
começar. Ras, vá à frente.
O africano
robusto, cuja pele estava vermelha como a nossa, olhou ligeiramente
para trás. Por aqui dificilmente haveria veículos. Apenas os
arcônidas tinham permissão para usar planadores. Nós dependíamos
das numerosas fitas transportadoras que, de qualquer maneira, também
serviam para levar-nos até perto do local desejado. Eu as preferia
aos veículos, pois permitiam que nos deslocássemos sem chamar a
atenção.
Ras fez um
sinal.
A marcha
para o desconhecido iria começar...
4
O sentido
das grandes placas indicadoras era inconfundível. Não traziam
nenhum letreiro, mas qualquer criatura medianamente inteligente
compreenderia imediatamente o significado dos símbolos pintados nas
mesmas. Eram relâmpagos vermelhos e reluzentes, iguais aos que
costumam ser usados na Terra a título de advertência.
Aqui
terminava a cidade subterrânea. O último edifício ficava a cem
metros do lugar em que nos encontrávamos. Nossa posição era
perigosa. Se alguém tivesse a idéia de perguntar o que estávamos
procurando tão perto da parede de rocha compacta, não saberíamos o
que responder.
Rhodan e
Bell desapareceram juntamente com os dois mutantes. Ao longo dos anos
Ras Tschubai e Tako Kakuta haviam aprendido, por meio de um
treinamento rigoroso, a transportar cargas pesadas. Suas energias
mentais deviam ser muito desenvolvidas.
Encostamo-nos
fortemente ao nicho formado por uma tubulação das instalações de
ar condicionado, que saía da parede em ângulo reto.
Huster
tirou a arma de radiações. Estava encostado à coluna de apoio
juntamente com os dois especialistas em armamentos e observava o
trecho de caminho que tínhamos deixado para trás.
— Tudo
quieto, Sir — disse em voz baixa. — Na verdade, está quieto
demais. Não estou gostando.
Não
consegui reprimir um riso nervoso. Huster acertara em cheio ao
proferir essa observação. Por que a parede com as duas portas
perfeitamente visíveis não era vigiada? Por que resolveram
contentar-se com as placas indicadoras, que realmente eram bastante
claras?
Não
encontrei explicação satisfatória. Em compensação, a sensação
de perigo tornava-se cada vez mais intensa.
O ar
começou a tremeluzir bem à minha frente. O corpo esguio de Kakuta
foi adquirindo forma em meio à luminosidade, até surgir nitidamente
diante de mim. Ainda não conseguia formar uma idéia exata das
faculdades espantosas dessas pessoas, que conseguiam exclusivamente
por meio da energia de seus cérebros, funcionar como transmissores
de matéria.
Dali a
alguns segundos, chegou Ras Tschubai. Os dois se haviam transformado
nos elementos mais importantes da operação.
Voltei a
guardar a arma e perguntei em tom apressado:
— Como
estão as coisas por lá? Tudo em ordem?
— Continua
tudo como era por ocasião do primeiro salto de reconhecimento. Não
vimos nenhuma pessoa, e também não há robôs.
Tschubai
notou o brilho de desconfiança dos meus olhos. Já um tanto
inseguro, asseverou:
— É
isso mesmo, Sir. O chefe está esperando. Vamos embora?
Coloquei-me
atrás de Tschubai e enlacei-lhe firmemente os ombros. Antes que
pudesse preparar-me para o acontecimento improvável, senti uma dor
de desmaterialização perfeitamente suportável. Aquele homem sabia
criar um campo de dissolução da quinta dimensão, que funcionava
como um conversor estrutural.
Não tive
tempo para dar atenção à dor. A luz voltou a surgir à frente dos
meus olhos. Até parecia que nada tinha acontecido.
— O.K.,
logo estarei de volta — disse alguém.
Um tanto
confuso, passei as mãos pelo rosto e olhei em torno. Meu primeiro
movimento foi em direção à arma. Logo ouvi o rumorejar surdo, que
aqui, para além da barreira, era muito mais forte.
Atrás de
uma gigantesca base de conversor de alta-tensão, feita de plástico
blindado, Bell observava os arredores. Bem atrás de nós,
percebia-se o uivo da turbina do equipamento de refrigeração. Mais
adiante viam-se os primeiros reatores de fusão dispostos em fila.
Tratava-se de tipos muito modernos, aos quais estavam diretamente
acoplados os conversores termais, que transformavam a energia térmica
liberada pelo processo em eletricidade.
Estava
perfeitamente familiarizado com a luminosidade branco-azulada dos
condutores, que doía nos olhos.
Bem acima
de nós, havia um sol artificial. No entanto, neste pavilhão, o
mesmo apoiava-se em mais de vinte colunas gigantescas, de alguns
metros de diâmetro, feitas de aço de Árcon.
— Fantástico,
não é? — gritou Rhodan. — É a usina energética mais perfeita
que já vi. Produz cerca de dois milhões de quilowatts por reator.
Tudo muito bem montado, e provido com excelentes dispositivos de
segurança. Para onde vai toda essa energia?
Bell
avançou até o primeiro reator, com a arma levantada. Mas não se
via nenhuma pessoa estranha.
Voltou a
olhar para o teto onde, segundo tudo indicava, estavam montados os
projetores do campo energético. O campo vermelho reluzente
estendia-se junto às paredes e terminava próximo dos pólos
invisíveis existentes no soalho. Atrás desse campo viam-se as
portas blindadas que fechavam as duas entradas. A parede de rocha,
que separava a usina do setor residencial, devia ter uns cem metros
de espessura. Sem o auxílio dos teleportadores nunca teríamos
entrado ali. Transformados em impulso hiperenergético, atravessamos
sem dificuldades a matéria sólida.
Antes que
pudesse prestar esclarecimentos a Rhodan, os mutantes voltaram. Desta
vez trouxeram o sargento Huster e Tanaka Seiko.
— Está
na hora, Sir — disse Huster. — Lá fora as coisas estão ficando
perigosas. Um comando de robôs está se aproximando. Ao que parece
trata-se de uma inspeção de rotina.
Mantivemo-nos
calados até que os últimos homens pertencentes ao nosso grupo
estivessem perto de nós. Também eles conseguiram vencer o percurso
sem maiores dificuldades.
— O que
está esperando?
Estremeci
involuntariamente. A voz de Rhodan parecia fria como gelo. Huster
acenou com a cabeça.
A
microbomba, que deveria destruir a usina, estava dividida em seis
peças. Os homens tiraram essas peças dos bolsos dos uniformes.
Huster não
se interessou mais por nós. Com uma calma incrível pôs-se a montar
a bomba ultratérmica, cuja energia seria liberada exclusivamente sob
a forma de calor. Funcionava com base num processo de catalise do
carbono de elevada potência, que faria surgir um sol artificial no
pavilhão em que estavam instaladas as máquinas.
Mais uma
vez lembrei-me do caos que poderia surgir depois da destruição do
computador-regente. Os mutantes Seiko e Okura esforçaram seus
estranhos sentidos para captar coisas que, para nós, sempre seriam
imperceptíveis. Já eu via-me diante da indagação se realmente
deveríamos arriscar a detonação da bomba.
Rhodan
lançou-me um olhar pensativo. Falou quase sem mover os lábios.
— Não
podemos evitar isso, amigo.
Será que
você está disposto a tolerar o domínio do regente por mais tempo?
Esbocei um
sorriso triste. Era claro que Rhodan pensava principalmente na Terra.
Respondi em voz baixa:
— Vamos
desencadear o inferno, não só nestes pavilhões, mas em toda a Via
Láctea. Não gostaria de bancar o pacificador depois que o regente
tiver sido colocado fora de ação.
Percebi
que Rhodan já identificara meus temores. Seria mesmo de admirar que
um homem inteligente como ele não tivesse extraído suas conclusões.
— Um dia
isso terá de acontecer de qualquer maneira. Você deve ser bastante
inteligente para compreender que é preferível enfrentarmos o
tumulto agora que daqui a alguns anos. Por enquanto ainda poderei
usar o poder da Terra para ajudá-lo. Se esperarmos muito, você
ficará só.
Senti um
hálito quente no rosto.
— Poder?
Você está falando em poder? Você pode ser imortal, terrano
insignificante, mas você nunca possuiu um poder de verdade. Para
isso, ainda lhe faltam alguns séculos de evolução ininterrupta.
Será que você já se esqueceu dos golpes que sofreu nos últimos
meses? Como pretende vencer o caos que deverá surgir? Com uns poucos
couraçados de grande porte?
Sacudi a
cabeça. Sentia-me desanimado. De repente achei que seria uma
insensatez destruir o regente. Rhodan conservou a calma.
— Tudo
dependerá de você, arcônida! Se souber guardar o segredo da
posição galáctica da Terra, seremos seu corpo de bombeiros. Posso
oferecer-lhe uma coisa que você não possui: tripulações bem
treinadas e altamente capacitadas. Será que isso não representa
nada?
— Isso
representa muito, mas não é o bastante — respondi. — Além
disso, estamos discutindo sobre a divisão de uma presa que ainda não
capturamos.
— Terminarei
dentro de quinze minutos, Sir — interrompeu o sargento Huster em
tom indiferente. Para ele o caso já estava resolvido. — Poderia
informar em que lugar deverá ser detonada a bomba?
Examinou-me
prolongadamente. Não conseguiu reprimir um sorriso muito ligeiro.
Bell fez um sinal para mim. Estava de pé, com as pernas bem abertas,
no corredor largo que separava as fileiras de reatores.
— Então?
— perguntou Rhodan. Assustei-me diante de tamanha força de
decisão. Fitei prolongadamente seus olhos frios e virei-me. Com um
gesto lento peguei minha arma térmica e fui caminhando na direção
de Bell. Rhodan seguiu-me. Subitamente Tanaka Seiko disse:
— Estou
captando vibrações estranhas, Sir. Não sei de que se trata.
Parei.
Rhodan virou-se apressadamente. Bem à minha frente o conversor do
primeiro reator rumorejava. Huster não se deixou perturbar pelo
ruído. Aos poucos, a microbomba — construída na Terra e testada
num planeta desabitado — foi adquirindo forma.
— De que
tipo são as vibrações, Tanaka? — perguntou Rhodan.
O mutante,
que possuía a capacidade de identificar radiações energéticas de
qualquer tipo, como se fosse um receptor mecânico, abanou as mãos
finas num gesto de insegurança.
— São
vibrações de ondas extremamente curtas, quase imperceptíveis.
Trata-se de um efeito que se mantém constante. Não são sinais de
rádio, embora a freqüência seja semelhante à de um
hipertransmissor.
Lançou um
olhar para Son Okura, nosso visor de freqüência, mas o mutante
parecia indeciso. A atitude de Rhodan demonstrava um nervosismo
repentino.
Bell
aproximou-se. Segurava a arma de radiações.
— O que
houve? O que estão esperando? Este pavilhão é muito grande, e
atrás dele deve haver outros. Na minha opinião, aqui praticamente
não corremos o menor perigo. Vamos dar uma olhada por aí?
Tratava-se
da pergunta típica de um homem que pensava em termos pragmáticos.
Quando viu o rosto de Rhodan, seus olhos estreitaram-se.
— Algum
problema?
— Tanaka
informa a presença de uma radiação energética não identificada.
— E daí?
Bem em cima de nossas cabeças ficam os primeiros quadros de controle
do cérebro positrônico. Quem sabe que tipo de energia é utilizado
por lá?
— Acho
que as coisas não são tão simples assim — ponderei. — Esta
operação, que parecia tão difícil, está se tornando um
verdadeiro passeio. Não pensem que meus antepassados foram uns
tolos. Os homens que construíram o cérebro positrônico devem ter
tomado suas providências para resguardar a segurança do computador.
Há por aqui alguma coisa que não tem a menor lógica.
— Afinal,
tivemos de romper um campo defensivo situado atrás de uma grossa
parede de rocha — disse Bell.
— É
verdade. Mas no meu entender, esse dispositivo de segurança não é
suficiente. O campo energético é relativamente fraco. Bastaria um
canhão de radiações de tamanho médio para neutralizá-lo.
— Para
isso, teria de colocar o canhão aqui embaixo — disse Rhodan,
refletindo em voz alta. — Lembro-me perfeitamente de que nem sequer
tivemos permissão para levar nossas armas de serviço.
— Antigamente
não era assim, embora o cérebro já existisse, ou ao menos parte
dele. Sargento Huster, espere um momento. Vamos examinar a área.
Venha comigo.
Fiz um
sinal para o mutante e voltei a tirar a arma. Imaginei que Rhodan
deveria trazer na ponta da língua a indagação sobre quem dava
ordens por ali. Huster lançou um olhar para Rhodan. Este limitou-se
a acenar com a cabeça. Com o rosto indiferente, o sargento colocou
de lado a bomba ultratérmica. Mas não conseguiu reprimir estas
palavras:
— Tudo
preparado para colocar em funcionamento o dispositivo de detonação
retardada. Basta desparafusar o mecanismo.
Dali a
alguns segundos estávamos desenvolvendo uma atividade febril, que
contrastava fortemente com a atitude que até então vínhamos
mantendo. Alguma coisa fora descoberta; alguma coisa que não
conseguíamos explicar.
Andamos
pelos corredores. O pavilhão, de formato ligeiramente elíptico,
tinha pelo menos dois mil metros de comprimento. Isso explicava a
presença das gigantescas colunas de apoio. A capacidade geradora
total da usina seria suficiente para abastecer um planeta industrial
do tamanho da Terra.
A
manutenção dos condutos energéticos isolados exigia cerca de cinco
por cento da potência total. Tratava-se de um dado experimental
fixado através de um compromisso entre os engenheiros especializados
em alta potência.
No meu
tempo já costumávamos aceitar consideráveis perdas de energia,
apenas para podermos dispensar os antiquados condutos de cabos.
À medida
que avançávamos, o rugido tornava-se mais forte. Aproximamo-nos de
uma estação conversora cujas grades energéticas, muito próximas
umas das outras, achavam-se separadas por finos campos energéticos
de isolamento.
Quando
paramos, estávamos ofegantes por causa da corrida prolongada. O
sargento Huster e os dois especialistas em armamentos foram os únicos
que não nos acompanharam. Atrás do setor em que ficava o monstruoso
conversor, o pavilhão estreitava-se num túnel muito alto, que
provavelmente levava a outra abóbada de pedra. A passagem não
estava fechada por portas de aço ou grades energéticas.
Só
podíamos comunicar-nos aos gritos. Naquele momento, quase todos os
conversores transferiam as sobras de energia para gigantescas
baterias de acumuladores. Era um sinal de que o consumo estava sendo
reduzido progressivamente. Seria uma coincidência?
Comecei a
refletir intensamente. Bell também estava nervoso. Se durante a
execução da tarefa que nos impuséramos, ele se defrontasse com um
contingente de robôs que oferecesse uma resistência encarniçada,
isso provavelmente não o preocuparia muito. Acontece que não via um
único vigia orgânico ou robotizado. Não consegui livrar-me da
impressão de que já havíamos sido descobertos. Por que a
gigantesca usina estava sendo desativada progressivamente?

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