Autor
KURT
MAHR
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A
batalha espacial na zona de superposição —
Um
novo golpe da sagacidade terrana.
Depois
que Perry Rhodan voltou de sua prisão entre os druufs, a situação
política do sistema solar se estabilizou.
Por
motivos ponderáveis, porém, não seria de bom alvitre que os
terranos fizessem uma visita oficial aos druufs, que eram adversários
declarados do regente de Árcon, muito menos que celebrassem com eles
um tratado de aliança.
Os
responsáveis pela sobrevivência do Império Solar concebem então
um plano maravilhoso: enfraquecer substancialmente os dois grandes
pretendentes ao domínio das Galáxias, os arcônidas e os druufs.
O plano
vai necessitar novamente da “grande astúcia cósmica”. E o
“velho” Julian Tifflor, conservado jovem pela ducha celular do
planeta Peregrino, como outros grandes líderes do Império Solar,
não hesita um instante em colocar o Universo em xeque.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Coronel
Julian
Tifflor
— Comanda
a expedição dos 14 “desertores”.
Tenente
Lubkov
e sargento
Fryberg
— Intrépidos
militares terranos.
Door-Trabzon
— Tem
sob seu comando 20 mil naves arcônidas.
Gucky
— O
rato-castor mutante que “interpreta” as irradiações.
John
Marshall,
Ras
Tschubai
e André
Noir
— Mutantes
“desertores”.
1
Julian
Tifflor tinha certeza de que jamais vira estes dois homens antes.
Eram jovens, vestidos de maneira mais do que simples, cada um deles
com uma pistola de raios térmicos na mão, apontando-lhe para o
peito.
Num
relance de vista, Tifflor percebeu que, nestas circunstâncias, não
podia fazer outra coisa do que obedecer aos dois rapazes, por
absurdas que fossem suas pretensões. Não estava, porém, com medo.
Encontrava-se mais ou menos no centro da metrópole Terrânia.
É verdade
que a rua, onde se localizava o restaurante em que acabara de jantar,
não tinha mais movimento. Já era tarde demais para se ver gente
andando pelas ruas. Dois carros disparavam nas faixas de alta
velocidade, mas já iam longe, para seus ocupantes poderem notar o
que dois assaltantes faziam com um senhor uniformizado, à beira da
calçada.
Neste
sentido, a situação era mesmo muito desfavorável para Tifflor. O
restaurante, a esta hora, também estava quase vazio e certamente
ainda levaria muito tempo até que mais um freguês saísse.
A
princípio, julgou se tratar de simples raptores. Queriam apenas
dinheiro e acreditavam que nas imediações de um restaurante de
categoria podiam consegui-lo. No dia seguinte, pela manhã, quando se
espalhasse a notícia do desaparecimento do Coronel Julian Tifflor,
da Frota Espacial Terrana, o mecanismo gigantesco da polícia se
poria em movimento e os dois coitados, com medo das conseqüências,
o haveriam de soltar, caso ele mesmo, até lá, não arranjasse outra
solução para o caso.
Quando um
dos dois lhe perguntou se o belo carro cinza, estacionado ao longo do
meio-fio, lhe pertencia, respondeu bem-humorado:
— É
meu, sim. É um grande carro, não?
Mas o
outro assaltante parecia não gostar de conversa fiada:
—-
Abra-o e entre — disse o segundo rapaz, fazendo o gesto com a arma
na mão. — Sente-se atrás.
Tifflor
não se intimidou. De pé, diante da porta, olhou para os dois,
dizendo:
— Sou
coronel, talvez os senhores sejam mais do que isto, para me darem
ordens.
Não se
preocupou muito com o que os dois iriam fazer. Porém um deles deu
uns passos à frente e desferiu-lhe uma forte pancada na cabeça.
Cambaleou e quase caiu. No último instante, mãos fortes o pegaram
por baixo dos braços e o seguraram.
Ouviu
então uma voz, que lhe parecia vir de muito longe:
— Não
podemos perder tempo com piadas bobas. O senhor vai fazer o que lhe
mandarmos.
Tifflor
não teve mais dúvida. Como poderia ele se defender, se, de antemão,
eles já o deixaram quase desacordado com um soco? Liberou-se dos
braços que o apoiavam e foi para o carro. Com a chave-segredo
destravou as portas e o contato para a ignição. Entrou pela porta
de trás e se sentou no segundo banco. Sentiu-se melhor quando
sentou-se. O soco fora forte e exigia repouso.
Um deles
colocou-se a seu lado, enquanto o outro, ao volante, já tinha posto
o carro em marcha. Quando a pequena tela do interceptador de
microondas, que servia para rastrear as pistas de alta velocidade,
isto é, para indicar se estavam ou não livres, lhe indicou que a
pista estava vazia, o carro disparou numa delas, bem no centro da
estrada, ficando entregue a si mesmo. O fato de o assaltante ter
escolhido uma faixa interna convenceu Tifflor de que o objetivo de
seus algozes não ficava muito próximo.
Tentou
fazer perguntas ao homem a seu lado. Começou com perguntas diretas,
e quando notou que ele não respondia, passou a soltar indiretas
provocativas. Mas o seu companheiro de banco estava bem escolado, não
abria a boca. Não respondeu uma palavra, nem mostrou a menor reação.
Depois
disso, passou pela cabeça de Tifflor a idéia de, com muito jeito,
sem que o rapaz reparasse, pegar a arma num coldre sob seu uniforme.
Tentou
meter a mão no bolso do casaco, onde havia um furo no enchimento que
ia dar no coldre.
De
repente, o rapaz deu uma rápida virada, pôs o cano de sua pistola
bem rente ao rosto de Tifflor e disse com calma:
— Coloque
as mãos na posição normal, em cima das pernas. Mister,
sabemos muito bem como os uniformes da Frota Espacial são feitos.
Não perca tempo com bobagens.
Tifflor
acabou desistindo. Teve, então, tempo para pensar com mais calma em
outras coisas, principalmente nas primeiras impressões que os dois
rapazes lhe causaram.
Da maneira
como agiram, deixaram supor que sabiam muito bem o que queriam. O
posto hierárquico de Tifflor e suas ponderações de que, no mais
tardar, dentro de cinco horas toda a polícia secreta estaria em seu
encalço, nada disso os impressionou.
Tifflor já
não tinha muita certeza se eram assaltantes comuns. Lembrou-se da
inquietação que se apoderou de toda a Terra, quando, há poucas
semanas, correu o boato de que Perry Rhodan tinha morrido. Quando
Perry Rhodan apareceu de novo em público, demonstrando à Humanidade
que não havia nenhum motivo de preocupação, os boatos foram se
dissipando, até desaparecerem completamente.
Chamou a
atenção de todos para não darem ouvidos aos “pescadores
de águas turvas”,
que aproveitavam toda oportunidade para seus fins egoístas.
Será que
ele teria caído em mãos de gente assim?
O
pensamento lhe parecia absurdo. Ele era coronel, alta patente, é
verdade, mas nem por isso se podia esperar que Perry Rhodan e o
Conselho Supremo Solar haveriam de mudar suas determinações, só
pelo fato de os adversários políticos terem tomado como refém um
coronel da Frota Espacial.
A situação
não deixava de ser confusa e desagradável. Já era um pouco tarde
para isso, mas Tifflor chegou à conclusão de que, há minutos
atrás, quando ainda estava na rodovia de Goshun, devia ter provocado
algum “barulho”. Tinha impressão de que, daí para frente, não
teria mais oportunidade de dar sinais que avisassem alguém de seu
seqüestro.
*
* *
Julian
Tifflor tivera as aventuras mais emocionantes de sua vida nas
profundezas da imensidão galáctica. Ainda não havia enfrentado os
bandidos da Terra. Imaginava que a viagem que os seqüestradores
faziam no seu carro particular fosse terminar na solidão da estepe,
numa casa em ruínas, constantemente batida pelos ventos.
Mas a casa
que servia de esconderijo não correspondia muito à imaginação de
Tifflor. Parecia mais um abrigo, construído há quatro séculos,
para uso de bandos de nômades, geralmente assaltantes. Mas Tifflor
sabia muito bem que, há pouco menos de setenta anos, não existia
nenhuma casa nesta região. Porém tal fato não alterou esta
singular impressão.
Quando
entrou e se deparou com um moderno hospital, sua surpresa aumentou.
Os corredores reluziam de tanta limpeza, e a iluminação era
simplesmente exuberante. O salão para onde foi levado estava
equipado com os instrumentos mais sofisticados que a psicofísica
moderna podia oferecer.
A
finalidade de todos aqueles aparelhos não passou despercebida a
Julian Tifflor. Compreendeu que tinha de agir imediatamente, caso
quisesse recuperar a liberdade. Depois de ser submetido ao tratamento
em um daqueles aparelhos, seria tarde. Não teria mais o domínio de
sua vontade e passaria a fazer tudo que lhe fosse exigido, pois
estaria sob forte influência hipnótica.
O momento
tinha de ser este. E Tifflor mostrou que era um homem de coragem,
quando começou a agir, mesmo sabendo que os dois seqüestradores não
o perdiam de vista. Assim que entraram na casa, ladearam-no.
Enquanto
transpunham o andar térreo, pararam só uma vez, exatamente para
tirar a pistola de raios térmicos que Tifflor trazia sob o casaco.
Teve de permiti-lo, sem opor qualquer resistência.
Agora,
continuavam andando ao lado dele. Já estavam penetrando no salão
repleto de instrumentos psicofísicos. Um deles o apanhou pelo ombro
e continuou levando-o através do salão. O outro ficou uns metros
para trás, para trancar a porta.
Devia ser
o momento decisivo.
Não
interessava a Tifflor que o da frente o olhasse firme e desconfiado.
Colocou o pé direito atrás do esquerdo e fez como se tivesse
tropeçado, levando o corpo arqueadamente para frente, de tal modo
que a mão do seqüestrador escapou de seu ombro. Ergueu-se de novo
e, aliás, com toda a força que a ira lhe podia fornecer. Não
precisou usar o punho. Só o choque violento de seu ombro atirou o
rapaz ao chão.
Tifflor
sabia do que precisava para sua garantia. Pulou para cima dele,
levantou-o e o colocou à sua frente, para cobrir-se do ataque do
outro, que estava trancando a porta.
O homem
usado como cobertura estava meio zonzo, mas não inconsciente. Ao
perceber o que acontecia, fez um esforço ingente para prejudicar
Tifflor. Tentou livrar-se da bem aplicada gravata que o prendia e
aplicou uma canelada em seu adversário.
Tifflor
foi mais ágil. Deu uma virada com ele e, com muita força, chocou
sua cabeça contra a base metálica do encefalógrafo. Ouviu-se o
estalo da pancada; e o rapaz, ainda preso ao braço de Tifflor,
desmaiou.
Tifflor
recuou um pouco. O braço que sustinha o rapaz inconsciente já lhe
estava doendo muito. Olhou para a porta e viu, surpreso, que o outro
homem, que devia estar ali, havia desaparecido. Olhou em volta,
deixou cair o corpo do inconsciente e se agachou entre dois grandes
aparelhos, a fim de cobrir-se. Começou então a se preocupar com o
paradeiro do outro rapaz.
A única
coisa que conseguia ouvir era sua respiração ofegante. Fez esforço
para se controlar, e passou a respirar pela boca, com a intenção de
não provocar ruído. Mas ainda lhe ficaram as fortes pulsações na
fonte e as dores do soco. Seu maior desejo era arranjar uma arma.
Qualquer uma. Não precisava ser sua pistola de raios térmicos. Uma
granada de mão, um fuzil, ou qualquer outra coisa.
Devagar,
para não fazer nenhum ruído, conseguiu se virar. O rapaz
inconsciente estava a dois metros dele e a mais dois metros se via a
arma que deixara cair. Quatro metros, portanto. Pôs-se em movimento.
Tinha que sair da proteção daqueles aparelhos, quase tão altos
como ele, e passar ao lado do rapaz desmaiado. Fez tudo isto com
cuidado, olhando sempre em volta.
Onde
estaria o segundo homem?
Julian
Tifflor não conseguiu saber, nem teve mais tempo para isto. Quando
já estava quase pegando a arma, bastando-lhe apenas esticar o braço,
sentiu um impacto violento, que fez seu corpo estremecer de dores
lancinantes. Ainda teve tempo de reconhecer que aquele tipo de dor só
podia provir de raios portadores de forte descarga elétrica. Logo
depois perdeu os sentidos.
Despencara
num abismo tenebroso e profundo.
*
* *
De
repente, em plenas trevas, surgiu uma luz clara, porém, sem
contornos visíveis. Não era real.
Tinha
dores terríveis nos olhos. Procurou mover as pálpebras,
constatando, no entanto, que os olhos estavam fechados. Não era,
pois, uma luz comum. Também não vinha de fora.
Ouviu
então uma voz. Porém, não se via o dono da tal voz.
— Julian
Tifflor — dizia — preste bem atenção!
Falava
ridiculamente baixo e vagaroso. Era enorme a vontade que Tifflor
sentia de rir. Mas antes que começasse a rir, a voz continuou a
falar. E quanto mais falava, mais fascinado ficava com a solene
lentidão e o tom cavernoso da voz. E não podia fazer outra coisa a
não ser ouvir, ouvir... Sugava as palavras como uma esponja absorve
a água e jamais se esqueceria de uma só delas. E além de tudo, o
que a voz dizia era extremamente desconcertante, para não dizer
sensacional...
*
* *
Com a
naturalidade costumeira, Reginald Bell entrou no salão, de onde
Perry Rhodan dirigia os destinos do Império Solar, desde sua volta à
Terra.
Da mesa à
qual Rhodan estava sentado, descortinava-se o belo panorama de
Terrânia. Seu gabinete estava no último andar do edifício da
administração. Rhodan fez questão de instalar aí seu local de
trabalho.
— Tudo
em ordem — explicou Reginald Bell, depois que a porta se fechou
atrás dele.
Estava
certo de que Rhodan sabia de que estava falando.
Rhodan
interrompeu o que estava fazendo.
— O que
ele disse?
Bell
sorriu malicioso:
— Um dos
rapazes ele já nocauteou, quando ainda não sabia de que se tratava.
Também o outro não teve melhor sorte. Ambos estão recebendo
tratamento. Creio, porém, que você compreende como Tifflor deve se
sentir, ou devia se sentir.
Perry
Rhodan concordou.
— Que
dizem os guardas de Mercant a tudo isto? Suspeitam de alguém?
A resposta
de Reginald Bell foi um tanto evasiva:
— Viram
alguns vultos suspeitos que seguiam o carro de Tifflor um pouco além
da periferia da cidade, não, porém, até o posto psicofísico.
Mercant anotou estes poucos em sua lista particular. Provavelmente se
trata de espiões galácticos. Não sabem o que está acontecendo.
Mas quando Tifflor entregar os pontos, haverão de compreender.
Parece assim que tudo está em ordem.
Bell
chegou mais perto e sentou-se numa cômoda poltrona que ali estava
para as visitas.
— Ainda
não sei... — disse pensativo. — O que se pode esperar deste
negócio?
Parece que
Rhodan não ouviu a pergunta. Seu olhar se perdia na amplidão do
panorama. O sol claro e pálido de inverno estava a quase dois palmos
do horizonte. Eram nove horas da manhã. Há meia hora, ainda havia
geada nos telhados. O ano estava chegando ao fim.
— Muita
coisa — respondeu finalmente Perry Rhodan. — Um sensível
enfraquecimento do potencial militar de nossos dois adversários: os
druufs e os arcônidas.
Reginald
Bell pigarreou:
— Lembro-me
de que ainda há dois meses tínhamos a intenção de atacar
diretamente Árcon. Tudo já estava pronto. Um mero incidente nos fez
desistir de levar a cabo nosso plano. Por que não o realizamos
agora?
Rhodan
fitou longamente seu amigo.
— O que
você chama de pequeno incidente — disse Rhodan bem-humorado —
por um triz não custou a vida de nós dois e de muitos outros. Você
esquece as coisas assim tão depressa? Você se recorda do quadro
horroroso quando todo o planeta Fera Cinzenta parecia explodir aos
nossos pés?
Bell
concordou.
— Bom,
para nós foi sério. Mas, tendo-se em mira o grande conjunto da
política galáctica, foi de fato um mero incidente. Conseguimos
sobreviver a esta aventura e podemos um dia retomar o plano, não é
verdade?
A resposta
de Rhodan não tardou — Não, não podemos não — fez uma pausa,
acendendo um cigarro. Ficou pensativo, olhando as volutas da fumaça.
— Temos que compreender que nossos pés ainda não têm o tamanho
suficiente para calçar as botas arcônidas.
Bell se
inclinou para frente.
— É uma
bela comparação, mas não creio que corresponda à realidade.
Rhodan
apontou para uma pilha de papel plastificado, que estava sobre sua
mesa, dizendo:
— Não
me admiro de seu ponto-de-vista, pois você ainda não leu os
resultados dos cálculos da positrônica de Vênus.
Bell se
levantou.
— Não,
realmente ainda não li. Não sabia que Atlan tinha trabalhado tão
depressa.
Rhodan
apenas sorriu para seu amigo.
— Foi
gente de sua raça que construiu a positrônica em Vênus, há mais
de dez mil anos, e não há ninguém que lide com ela melhor do que
ele.
Bell sabia
disso.
— Ah!
Foi por isso então que você o mandou para lá. E o que diz a
maravilhosa positrônica?
— Acabei
de lhe dizer há pouco: Nossos pés ainda não têm o tamanho
suficiente para calçar as botas arcônidas.
Sem dizer
uma palavra, Bell foi pegando nas folhas. Tinham o tamanho das folhas
de papel de carta, divididas em vinte colunas estreitas por linhas
verticais, formadas por pontinhos fracos. Estas colunas estavam
repletas de pontos, cruzes, traços alongados e pequenos círculos,
sinais estes que pertenciam ao código dos computadores arcônidas.
Era mister muita prática para ler diretamente estes sinais, sem uso
da transcrição positrônica. Bell leu apenas algumas páginas,
deixando o resto intacto sobre a mesa.
Durante
esta rápida leitura, seus traços fisionômicos foram se fechando.
Seus olhos se fixaram na visão panorâmica da cidade, como se um
pensamento muito sério o preocupasse.
— O
Império Arcônida está em pé de guerra — repetia ele mais para
si mesmo o que havia lido. — O regente robotizado acabara de
mobilizar suas últimas reservas para enfrentar o perigo iminente dos
druufs. Este robô que dirige o Grande Império não sabe, nem pode
saber, que o perigo dos druufs é uma coisa muito passageira. A zona
de superposição, em que o nosso Universo e o deles se encontram, se
dissolve e caminha para o interior da Via Láctea.
“Com o
desaparecimento desta zona de superposição, não haverá mais
nenhuma possibilidade natural de se passar do espaço de Einstein
para o plano espacial dos druufs, ou vice-versa. Isto quer dizer
então que, a partir daí, os druufs não representarão mais nenhum
perigo para nós.”
Olhou para
o lado e mediu a expressão fisionômica de Rhodan.
— Não
li mais do que isto, mas acho que as conclusões que daí podemos
tirar são mais do que cristalinas, não é verdade?
— Só
lhe posso dar uma resposta, depois de saber o que realmente você
pensa.
— O
regente robotizado de Árcon — recomeçou Bell — mobilizou todo
seu império. Isto significa primeiramente que ele reuniu oitenta mil
belonaves. O robô não está em condições de compreender o
fenômeno da existência dos diversos planos temporais. Ele se detém
apenas no que vê de concreto, isto é, nas espaçonaves dos druufs
que, de vez em quando, penetram em nosso Universo, e na zona de
superposição, por onde sua frota chega até os druufs. Quando os
druufs não derem mais sinal de si, pelo fato de haver desaparecido a
zona de superposição, o regente robotizado vai pensar que isto é
mais um truque e vai continuar na expectativa de um assalto a
qualquer momento, crente no reaparecimento dos druufs.
Bell fez
uma pausa, passando a mão nervosa por entre os cabelos. Parecia
muito abatido. Depois continuou:
— Quem
quer que ataque Árcon, agora ou em futuro próximo, terá de
enfrentar uma frota de oitenta mil cosmonaves. Não estão incluídas
aí as novas construções que saem diariamente dos estaleiros.
Quando se considera que a frota terrana não passa de poucos milhares
de naves, então... sim, então a gente tem de chegar à conclusão
de que não é hora ainda de mexermos nesta casa de marimbondos.
Rhodan não
disse nada. Reginald Bell, esperando por uma resposta, perguntou
pouco depois:
— Era
isto que você estava pensando, não é verdade, Perry?
— Sim,
foi isto mesmo. Estamos ainda muito fracos. Se calcularmos apenas
pelo número das espaçonaves, sentimos que o regente robotizado
mantém uma supremacia arrasadora, com uma proporção de vinte para
um. Isto, porém, não diminui o moral de nossas forças e ninguém
duvida de que o espírito de luta de nossa gente é muito superior ao
de todas as raças arcônidas. É um fato indiscutível. Mas, apesar
deste espírito de luta destemido, ficaríamos em pior situação do
que Frederico, o Grande, na Guerra dos Sete Anos. E... não podemos
contar com o milagre que outrora salvou o velho Frederico da ruína
total.
Bell deu
uma volta e parou diante da janela.
— Você
acha que Tifflor vai nos conseguir estas forças aliadas?
— Tifflor
não passa de uma pedrinha neste grande mosaico. Daqui para frente a
Terra vai se limitar a pequenos golpes. Somente passo a passo é que
conseguiremos chegar ao nosso objetivo. Como os ratos no queijo,
temos que continuar beliscando o Império Arcônida. Até que um dia,
os ratos roerão o queijo todo.
— Não
estou gostando desta comparação — disse Bell — mas sei que você
está certo.
Voltou
para a mesa de Rhodan e pegou as outras folhas que ainda não tinha
lido.
2
Franklin
Lubkov era tenente da Frota Espacial Terrana, tinha vinte e sete anos
e estava com o queixo inchado, e agora, depois de ter executado a
parte mais desagradável de sua missão, mostrava o maior respeito
por seu superior.
Quando
Tifflor lhe ordenou que tirasse a mão do queixo e exibisse um
semblante mais alegre, obedeceu prontamente.
— O
senhor sabe, isto dói bastante. Nunca pensei que o senhor tivesse um
soco tão firme assim.
Tifflor
não deu maior importância a esta afirmação.
— Diga-me
o que você sabe sobre todo este negócio.
Lubkov fez
um gesto afirmativo.
— Não é
tanta coisa assim. Deram a mim e ao sargento Fryberg a incumbência
de apanhá-lo na noite do dia dez de dezembro, após seu jantar no
Restaurante Tai Wang e de conduzi-lo para uma casa, cuja localização
nos foi dada com todos os detalhes. Instruíram-nos ainda que isto
tinha que ser feito à maneira dos assaltos comuns. Camuflaram-nos os
traços fisionômicos e nos cederam roupas velhas, dizendo sempre que
era muito importante que tudo desse a impressão de verdadeiro.
— Sim —
interrompeu Tifflor — mas quem foi que lhes deu estas ordens ou
instruções?
Lubkov
sorriu desajeitado:
— Marechal
Mercant, senhor, ele pessoalmente e com muitos detalhes.
Tifflor
soprou por entre os dentes.
— Quer
dizer, então, que não lhes restou nada, a não ser obedecer, não?
Bem, mas depois que vocês me trouxeram para cá, o que devia
acontecer?
— Isto
não seria mais nossa missão, senhor — respondeu Lubkov. —
Devíamos colocá-lo lá sobre a mesa, amarrá-lo bem e depois
desaparecer. O Marechal Mercant nos dissera que viria outra pessoa
para cuidar do senhor.
— E
nunca lhes passou pela cabeça a idéia de que o que vocês estavam
fazendo era uma coisa ilegal e, sob certas circunstâncias, poderiam
prejudicar o Império Solar?
— Não,
senhor. Para isto teríamos de supor que o Marechal Mercant estivesse
superembriagado. Além disso, enquanto ele nos dava as instruções,
estava presente o Marechal Freyt. Eu, pelo menos, estava certo do que
fazia.
Tifflor se
virou para o lado e começou a andar de um canto para o outro.
— E como
vai continuar o negócio? — perguntou ele depois de algum tempo de
reflexão.
— Não
sei, senhor. Disseram-me que receberíamos novas instruções do
senhor mesmo.
— Onde
estão os outros?
— Lá
embaixo, no porão, senhor, esperando pela ordem de partida.
Tifflor se
virou para ele:
— Vá lá
para baixo e diga-lhes que dentro de uma hora e meia estará tudo
pronto. Partimos às vinte e quarenta.
O Tenente
Lubkov fez continência e foi embora. Agora, já de uniforme e sem as
pinturas de camuflagem, da noite anterior, em frente ao Restaurante
Tai Wang, junto com o sargento Fryberg, ele dava uma impressão muito
mais simpática.
Julian
Tifflor sentou-se na beira da cama, onde durante muitas horas
recebera o tratamento psicofísico. Só olhar para a cama lhe
despertava recordações desagradáveis, mas no quarto todo não
havia uma cadeira.
Tenente
Lubkov, sargento Fryberg e mais doze homens seriam a tripulação com
a qual, dentro de hora e meia, obedecendo a ordens superiores, teria
de partir para a aventura mais arriscada de sua longa e gloriosa
carreira.
Sabia como
devia agir. Estava a par de sua situação e da de sua gente. Por
estas horas, em Terrânia, os jornais deviam estar circulando com
notícias sensacionais sobre quatorze homens que, sob o comando de um
alto oficial da Frota Espacial — homem este conhecido em toda a
Terra — haviam se desgarrado da Humanidade e dos ideais políticos
de Perry Rhodan, tornando-se traidores. Acreditava-se, ou melhor, os
jornais acreditavam que os desertores já haviam se apossado de uma
espaçonave para deixar a Terra. Apesar disso, estavam sendo
procurados por todos os cantos da Terra.
O Coronel
Tifflor, portanto, não ignorava que qualquer policial terrano tinha
o direito de atirar nele, assim que o reconhecesse. Ele e os quatorze
lá embaixo no porão já estavam automaticamente condenados ao
exílio.
Tudo foi
tramado com muita inteligência. Quando os arcônidas pusessem sua
gente nas pegadas de Lubkov, chegariam certamente à seguinte
conclusão: De início eram somente quatorze homens que pretendiam
renunciar à cidadania terrana: Lubkov, Fryberg e doze outros.
Precisavam de um líder e escolheram Tifflor. É claro que não
passaria pela cabeça de Tifflor trair seu mundo, a Terra e o Império
Solar. Para este fim, Lubkov e sua gente teriam de “condicioná-lo”.
Seqüestraram-no e o arrastaram bem para fora da cidade e o
“prepararam”
de tal maneira, que não lhe restava outra coisa senão aderir às
idéias de Lubkov.
Quando,
alguns minutos após a partida, a casa fosse pelos ares, certamente
haveriam de sobrar alguns fragmentos da instalação que seriam
suficientes para convencer os melhores espiões de que Lubkov possuía
um aparelhamento capaz de transformar o homem mais fiel num reles
traidor.
E tudo
estava caminhando conforme o previsto. Julian Tifflor estava
realmente “condicionado”.
Através de meios mecano-sugestivos, tinham-lhe inculcado todo o
plano, que era a base do empreendimento. Isto levou muitas horas. Mas
agora, cada detalhe do plano repousava tão firme na cabeça de
Tifflor, como se desde sua infância não tivesse pensado em outra
coisa. De acordo com a própria opinião de Tifflor, o plano era tão
perfeito que nada nele podia dar errado.
Mesmo
assim, nem tudo estava ao seu gosto, mas, o exemplar oficial terrano
estava habituado a obedecer. Compreendia que as coisas tinham de ser
feitas assim e não de outra maneira, para se atingir um grau de
quase perfeição. Sentia falta apenas de algumas palavras amigas de
algum dos responsáveis, que haviam colocado em seus ombros uma
missão tão árdua.
Fazia mais
de sessenta anos que Tifflor servia na Frota Espacial. Pertencia ao
número dos privilegiados que haviam recebido, no planeta Peregrino,
a ducha celular conservadora da juventude. Estava agora com oitenta
anos, mas sua aparência, sua elasticidade corporal e sua agilidade
mental eram as de um jovem de trinta anos. O processo de
envelhecimento parou no ponto em que recebeu a primeira ducha
celular. Com oitenta anos, era um homem de larga experiência. Mas
apesar de toda sua vivência, gostaria que alguém lhe dissesse
amigavelmente: “Não
se preocupe, Tiff, nós estamos acompanhando você!”
Deitou-se
de costas e acendeu um cigarro. Pensativo, soprava a fumaça, olhando
para o teto.
Ouviu de
repente uma voz estranha. Aliás, não era tão estranha assim. Já a
conhecia e sabia de quem era. Surpreso, levantou-se e olhou em volta,
mas não havia ninguém no quarto e a voz também não vinha de
nenhum alto-falante.
Era Perry
Rhodan quem estava “falando”
e suas palavras ressoavam dentro do cérebro de Tiff.
Deitou de
novo e ficou prestando atenção.
— Você
necessita de uma explicação, Tifflor
— “disse-lhe” Rhodan em tom amigável. — Sei
disso e faço questão de transmiti-la. Não estranhe o meio de
comunicação. Você agora passa por um proscrito e eu não posso
procurá-lo diretamente. Esta mensagem foi gravada em fita e lhe está
sendo transmitida por meio de mecano-sugestão. É inerente a este
processo um comando pós-hipnótico, que provoca a recepção da
mensagem só algum tempo depois. Suponho que, em volta de você,
agora, reine plena calma, a calma que precede sempre à tempestade.
Portanto, você tem tempo para me ouvir.
“A
Terra se encontra numa enrascada, num beco sem saída, para lhe falar
bem claramente, Tifflor. Vivemos em paz internamente. Mas Árcon, de
armas até nos dentes, está de prontidão, e quando o regente
robotizado descobrir qual a posição da Terra, vai nos acontecer o
mesmo que aconteceu com o planeta Fera Cinzenta. Com os druufs o
perigo é mínimo: o caminho para nosso Universo logo lhes será
fechado. A zona de superposição desaparece e muda para outro lugar.
Aí, então, o robô vai recomeçar a se preocupar conosco. Temos que
aproveitar toda oportunidade que nos possa fazer ganhar mais tempo e
que nos possibilite prejudicar os interesses de Árcon.
“Uma
oportunidade destas, aliás magnífica, está agora diante de nós,
enquanto os druufs não ficarem separados de nosso Universo.
“Sobre
o plano em si não lhe preciso explicar nada, Tifflor. Você o
conhece nos mínimos detalhes. Pode confiar plenamente nos homens que
estão com você. Pertencem à elite da Terra, mesmo que ainda não
tenha visto a maior parte deles. Todos estão ‘condicionados’.
Caso o plano fracasse e eles caiam nas mãos dos inimigos, não
poderão fazer nada que prejudique a Terra, como você também,
Tifflor. Tivemos que tomar todas estas providências, pois estamos
diante de um Império superarmado. O ser coletivo do planeta
Peregrino, o único que nos poderia ajudar, não se manifesta. Não
podemos obrigá-lo a vir em nosso auxílio.
“Portanto,
Tifflor, não considere sua missão como qualquer patrulha de
emergência. Do seu sucesso depende muito do futuro da Terra. Por
isto, vamos acompanhá-lo constantemente. Dois encouraçados estarão
sempre por perto. Você levará o sinalizador telepático que
permitirá aos nossos mutantes localizá-lo prontamente até uma
distância de dois anos-luz. Fique sabendo que você e os seus não
se perderão.
“Bem,
é o que lhe queria dizer. Desejo-lhe boa viagem, meu jovem. Volte
logo e com muita saúde.”
A voz
silenciou. Julian Tifflor se levantou, dizendo, perdido em seus
pensamentos:
— Muito
obrigado, Sir.
Esta frase
foi supérflua. Perry Rhodan não estava por perto. Não poderia
ouvi-lo.
Tifflor,
de um momento para o outro, começou a se sentir melhor. Sorriu e se
encaminhou para o porão, para conversar com os quatorze homens, que
com ele rumariam em direção aos druufs.
*
* *
Além do
Tenente Lubkov e do sargento Fryberg, que Tiff já conhecia,
encontravam-se, entre os quatorze, mais quatro homens conhecidos:
John Marshall, o telepata; Ras Tschubai, o teleportador; André Noir,
o hipno e Tama Yokida, o telecineta. Julian Tifflor estava admirado.
Perry Rhodan havia privado o Exército de Mutantes, durante o período
da missão secreta, dos seus elementos mais competentes. Marshall,
Tschubai, Noir e Yokida representavam uma força tal que podia
enfrentar um regimento inteiro.
Foi um
grande motivo de tranqüilidade para Tifflor. Mutantes eram
auxiliares extremamente valiosos, mormente para esta situação, pois
tanto os arcônidas como os druufs não estavam muito “avançados”
neste importante setor dos poderes para-mecânicos e
parapsicológicos.
Das
dezenove e trinta até quase vinte horas, Tifflor revisou com os
homens todo o plano. Fez muita questão de frisar que tudo tinha sido
minuciosamente preparado e que não havia motivo de temor, enquanto
não estivessem ainda na zona de superposição, que distava da Terra
mais de seis mil anos-luz. Esta explicação tinha que ser prestada,
pois o primeiro ponto do plano não tratava de outra coisa, a não
ser do seqüestro de uma espaçonave dos estaleiros de reparo da
Frota Espacial.
*
* *
Às vinte
horas, o sargento Cooper revezou o sentinela que montava guarda
diante do portão de entrada para os estaleiros onde estava o
cruzador espacial Infant. Geralmente havia só um vigia para todo o
estaleiro. Não era mesmo necessário ficar vigiando espaçonaves que
se achavam em reparo. Já o fato de necessitarem de conserto, impedia
que fossem roubadas.
O caso da
espaçonave Infant era diferente. Os consertos ficaram prontos hoje à
tarde, mas não deu mais tempo de levá-la para o espaçoporto. Foi
por isto que recebeu mais um vigia, além do vigia-geral dos
estaleiros.
O sargento
Cooper não estava muito conformado com o fato de ter sido ele o
sorteado para passar duas horas de uma noite tremendamente fria de
pré-inverno, ao lado de uma nave, andando de um canto para o outro.
Além
disso, a Infant era uma nave velha, esférica, com um diâmetro de
dezenove metros. Naves de dimensões tão reduzidas não existiam
mais, só por aí se podia ver como era antiquada. Seu mecanismo de
propulsão era fraco, produzindo uma aceleração de apenas 17 mil
unidades, enquanto as modernas apresentavam uma aceleração normal
de 50 mil. A Infant necessitava de meia hora para elevar sua
velocidade até a diferença habitual de 0,2% da velocidade da luz.
E, conforme a opinião do sargento Cooper, nada disso justificava
colocar um guarda especial só para a Infant.
Os vinte
passos que dava de um lado para outro, constantemente, para não
sentir o frio, pareciam ter a cadência do protesto. Depois de muito
tempo, chegou à conclusão de que dava os vinte passos exatamente em
quinze segundos. Portanto, cada dois movimentos de ida e volta faziam
exatamente um minuto. E assim começou a contar os minutos. De agora
até o final de sua vigília, faltavam-lhe ainda setenta e três
minutos. Duncan viria então rendê-lo.
“Coitado
do pobre Duncan! É um rapaz da Flórida e vai estranhar muito o
frio”,
pensou o sargento.
De
repente, Cooper interrompeu suas passadas. Ouvira um ruído como se
fosse um carro pesado que se aproximava. Este estranho ruído vinha
da entrada principal, estranho porque a gente devia notar os faróis
do carro. Mas não se via nada.
Cooper
saiu da sombra da Infant e aguardou. Fosse qual fosse o carro, o
oficial de sentinela o teria deixado passar e Cooper não precisava
se preocupar com isto.
Finalmente,
surgiu da escuridão o tal carro, parando a alguns metros de Cooper.
A carroceria estava encoberta por uma lona e Cooper não pôde ver o
quê ou quem se encontrava lá dentro. Alguém saltou da cabina do
motorista e veio na direção de Cooper, que conseguiu ver os galões
da hierarquia militar. Não deu para distinguir direito qual a
patente, mas não havia dúvida de que era alguém do estado-maior.
Cooper fez
a continência. Para isso, tirou a mão da cintura onde estava o
revólver e a apoiou na aba do capacete. Nesse meio tempo, o oficial
chegara mais perto, de modo que Cooper pôde ver nitidamente sua
patente. Era um coronel, e Cooper sentiu mais respeito ainda. Por
fim, reconheceu Julian Tifflor, e num estalo de sua memória se
lembrou de ter ouvido, de manhã, qualquer coisa absurda sobre
Tifflor. O que seria mesmo?
Cooper
precisava de alguns segundos para se recordar.
Mas
Tifflor não lhe deixou este tempo todo. Cooper não representava
nenhum perigo para ele, enquanto mantivesse a mão na posição de
continência. Sem que ele percebesse, aplicou-lhe um tremendo soco no
queixo, com tanta força, que não precisou repetir. Cambaleando,
Cooper rolou no chão. O fuzil lhe escapou dos ombros, caindo a seu
lado.
De repente
o Tenente Lubkov se aproximou. Tifflor viu seus dentes reluzirem no
escuro.
— Peço-lhe
desculpas, senhor. Só queria ver de perto como se dá um soco
destes. Vejo agora que é melhor assistir do que receber.
Tifflor
apenas sorriu.
— É,
houve muita pancadaria nas últimas horas e infelizmente sempre
contra os inocentes. Este pobre homem não se lembrará de mim com
muito amor, quando voltar a si.
— É
este o objetivo do empreendimento — disse Lubkov.
Voltou ao
carro, batendo palmas perto da lona que o cobria.
— Desçam
todos — disse. — Já chegamos ao nosso destino.
Depois
disso, Tifflor não ficou mais parado ao lado de Lubkov. Já havia
aberto uma pequena escotilha para a tripulação e ligado uma lâmpada
de emergência, para mostrar o caminho a Lubkov e aos outros.
“Para
Lubkov e para os outros”,
pensava Tifflor, “mas
aposto que Tschubai já está há muito na sala de comando.”
O embarque
não demorou mais do que dez minutos. Julian Tifflor foi o último a
entrar. Antes, ergueu o sargento desmaiado e o levou nos ombros,
colocando-o na cabina do carro, descendo depois um pouco mais com o
carro, até ao portão de entrada. Voltou a pé. Pensativo, passou
pela escotilha, travando-a por dentro. Entrou num velho elevador
antigravitacional que o levou para o convés do meio.
A segunda
parte do plano se encerrava aí com êxito. Os “amotinados”
estavam de posse da espaçonave.
Iniciava-se
o caminho para os druufs!
*
* *
A tela
estava ligada, havia o clarão branco, mas não se via ninguém, pois
quem estava falando não era nenhum ser que precisasse ser visto. A
voz mecânica era de um timbre profundo, forte e com as mais
refinadas modulações. Ninguém, que de antemão não soubesse que a
voz pertencia ao regente robotizado de Árcon, chegaria a idéia de
que estava falando com um interlocutor não orgânico.
Era um dos
traços característicos da política galáctica o fato de o regente
robotizado de Árcon estar sempre disposto a receber uma mensagem de
Perry Rhodan, embora Árcon e a Terra estivessem em franca
hostilidade e se digladiassem, quando havia oportunidade para isto.
Mesmo esta hostilidade era sui
generis.
Não excluía, por exemplo, que, em algum ponto da Galáxia, naves
terranas e arcônidas se aliassem contra um inimigo comum, enquanto
que, simultaneamente, a alguns milhares de anos-luz, uma frota
robotizada dos arcônidas bombardeasse uma base terrana.
Quanto à
troca de mensagens, porém, Perry Rhodan sabia muito bem a verdadeira
causa da solicitude do regente: mensagens eram irradiadas pelo
telecomunicador. Acontece, porém, que as conversas pelo “telecom”
proporcionavam a oportunidade de se determinar a localização do
transmissor, e a coisa que o regente robotizado mais desejava no
momento era determinar a posição galáctica da Terra.
É claro
que Rhodan já havia tomado suas providências para que, ao menos por
este veículo, Árcon nada conseguisse. Os diálogos, que mantinha
com o regente, passavam por várias estações de relê, antes de
serem transmitidos para Árcon.
Partindo
da Terra, a mensagem era transmitida por raios direcionais para uma
estação a dois mil anos-luz de distância. O feixe de ondas do
“telecom”
tinha um diâmetro de pouco menos de quarenta metros. A cobertura do
feixe de ondas atingia cerca de três décimos milionésimos de
segundo. Isto queria dizer que, numa distância de dois mil anos-luz,
o feixe de quarenta metros abria-se para trinta mil quilômetros e
passava a possuir um diâmetro por poucos porcentos maior que o feixe
do planeta onde se encontrava a estação do relê repetidor.
O ponto
capital em tudo isto, era que um observador inimigo, que estivesse
captando uma mensagem assim transmitida, e, aliás, neste caso com
muita facilidade, somente poderia localizar o transmissor se ele
mesmo, casualmente, estivesse dentro deste raio direcional. A
possibilidade de isto acontecer era tão reduzida que nem precisava
ser levada em consideração.
A Terra
estava, pois, tranqüila. A transmissão do diálogo de uma estação
de relê para outra, seguia o mesmo princípio. Além disso, para
cada nova irradiação, mudava-se a ordem destas estações de relê.
O regente
robotizado não tinha, portanto, nenhuma chance de descobrir, por
esta via, a localização da Terra.
O próprio
regente emitia suas mensagens por um transmissor comum
multidirecional, pois não poderia saber em que direção usar os
raios.
A
conversa, que Perry Rhodan tivera esta tarde do dia 11 de dezembro
com o regente robotizado, fora curta, mas de conteúdo importante.
Rhodan dizia:
— Encontro-me
numa situação bem desagradável. Um oficial de alta patente da
minha frota revelou-se, de repente, um traidor e mancomunado com um
punhado de descontentes deixou a Terra numa nave seqüestrada. Não
sabemos até agora para onde foram. Eu lhe seria grato se me avisasse
tão logo ele se aproxime de uma de suas naves. Não que estes homens
tenham muita importância para nós, pois não possuem nenhuma
informação que nos possa prejudicar. Trata-se apenas de um
princípio básico de nossa disciplina terrana: um desertor tem que
ser punido.
Reconhecendo
as circunstâncias, o regente prometeu auxílio. Já que sua voz,
apesar de toda sua variada modulação, não deixava perceber nenhum
sentimento, que realmente não possuía, não se poderia saber suas
impressões sobre as alegações de Rhodan.
Não se
podia dizer que um oficial de alta patente era um homem sem
importância. O regente de Árcon sabia muito bem que este desertor,
se caísse em suas mãos, lhe seria um elemento muito útil, lhe
prestaria enormes serviços. Por este motivo, pediu a Rhodan que lhe
desse maiores informações sobre os quinze desertores. Depois de lhe
satisfazer este pedido, Rhodan acrescentou:
— Acho
que lhe posso dar outra informação para lhe facilitar a compreensão
de toda a situação. Há poucas semanas, tive uma longa conversa com
o desertor. Este oficial graduado da Frota Terrana era de opinião de
que a melhor coisa que a Terra poderia fazer era se aliar aos druufs.
Parecia estar obcecado por esta aliança. Presumo, pois, que ele
procurará penetrar no Universo dos druufs.
Todo este
diálogo foi feito em arcônida. O regente agradeceu as informações
e se despediu com a fórmula de sempre.
Naturalmente,
logo após este diálogo, o regente deve ter ativado o setor de
lógica, para analisar profundamente as notícias que recebera. Como
supunha, constatou-se a possibilidade de que a mensagem de Perry
Rhodan não passasse de um truque. Mas, de qualquer maneira, tinha
que aceitar também a hipótese da veracidade daquelas palavras.
Poderia acontecer mesmo que um oficial superior chegasse a esta
conclusão e desertasse.
As duas
alternativas se equilibravam. O melhor que podia e devia fazer era
mandar aprisionar a espaçonave dos desertores. Assim não incorreria
em nenhum erro.
A frota
arcônida de bloqueio estava nas proximidades da zona de superposição
que os terranos tinham de atravessar para chegar até os druufs.
Estavam lá reunidas trinta mil espaçonaves de Árcon. Podia-se
mandar para o local mais dez mil unidades e destacar vinte mil delas
para procurar a nave dos desertores.
*
* *
Quando
Franklin Lubkov chegou com os outros “desertores”
ao posto de comando, Ras Tschubai já lá estava realmente. Tinha o
dom de transportar a si mesmo ou outros, que se firmassem bem nele, a
qualquer distância, com as forças de sua mente. Esta força
surpreendente, que possibilitava este transporte miraculoso, residia
numa parte especial de seu cérebro de mutante e estava
permanentemente à sua disposição. A única coisa indispensável
para este “pulo”,
como dizia Tschubai, considerando seu dom maravilhoso, eram um certo
grau de concentração e uma idéia aproximada do objetivo a ser
atingido.
Aliás,
este incompreensível dom da natureza estava aliado a uma segurança
fantástica. Se o salto de Ras Tschubai encontrasse pela frente uma
matéria impenetrável, entrava então em ação uma velha lei da
física de que, onde está um corpo, outro não pode ficar
simultaneamente. Neste caso, Tschubai se materializava de novo no
mesmo local de onde havia saltado.
Fora
disso, Ras Tschubai era um cosmonauta muito experimentado. Quando,
alguns minutos depois, o Coronel Tifflor chegou ao posto de comando,
as turbinas de propulsão já estavam pré-aquecidas e prontas para
partir.
Quando
notassem a partida de uma espaçonave diretamente dos estaleiros de
reparo, Tifflor sabia que haveria uma grande confusão no
espaçoporto. O piso do estaleiro não fora construído para
decolagem de espaçonaves. O revestimento plástico haveria de
rebentar sob a forte pressão das turbinas e mesmo derreter
completamente. Já do outro lado do espaçoporto, haveriam de
presenciar uma enorme fogueira.
Julian
Tifflor estava informado de que nos serviços de rotina do
espaçoporto, esta noite, haviam sido tomadas certas providências,
que na hora da decolagem da Infant, impediriam os caças espaciais
de, como seria seu dever, sair imediatamente no encalço dos
desertores. Portanto, a Infant sairia com uma boa vantagem de tempo,
que naturalmente não poderia ser grande demais, para não dar na
vista. Era importante aproveitar esta pequena dianteira para se obter
um máximo de segurança.
O coronel
distribuiu o pessoal em seus locais de trabalho. Todos estavam
preparados para sua função. O Tenente Lubkov fazia o papel de
primeiro-oficial e co-piloto. O sargento Fryberg controlava com mais
dois outros as instalações de rádio, rastreamento e orientação.
Não deixariam de perceber qualquer caça espacial que a Terra lhes
mandasse no encalço. Os mutantes se mantinham calmos, afastados. Em
caso de extrema urgência, Ras Tschubai se teleportaria para a nave
que os estivesse perseguindo, causando nela tanta confusão até que
a Infant ficasse em plena segurança.
Seria tudo
questão de quinze minutos. Após este tempo, a Infant atingiria a
velocidade para entrar em transição, isto é, para penetrar no
hiperespaço.
Se
conseguisse superar estes quinze minutos críticos, tudo estaria
salvo.
Enquanto
sua mão repousava na alavanca principal, percebeu que tudo aquilo
não passava de um sofisma. De agora até sua volta à Terra, não
teriam realmente um segundo de garantia. A perseguição por parte
dos caças espaciais terranos não passaria de uma simples
brincadeira de pique, em comparação com o que os arcônidas lhes
estavam preparando, quando a Infant fosse aprisionada.
Julian
Tifflor consultou o cronômetro.
Que
importância teria se ater rigorosamente a um horário? Podia muito
bem decolar às vinte e duas e quatorze ou às vinte e duas e quinze,
dava na mesma. Para o cálculo da rota propriamente dita, teria muito
tempo no espaço lá fora.
Comprimiu
o pequeno botão que encimava a alavanca-geral e ouviu a sirene que
indicava a partida. Fechaduras rangiam durante o controle e quando as
sirenes silenciaram, parecia que todos tinham a respiração presa.
Pela
última vez, Tifflor examinou as luzes de controle do painel. Tudo em
ordem.
De que lhe
interessava saber se tudo estava em ordem, se um míssil atômico de
um caça espacial o atingisse ou um raio de desintegração de uma
belonave arcônida viesse lhes dar as boas-vindas? A Infant datava
dos primórdios da Frota Espacial Terrana e seu envoltório de
proteção não era dos mais modernos.
Puxou
então a alavanca central. Não lhe interessava o que iria acontecer
com o revestimento plástico do chão do estaleiro. Que rebentasse e
voasse pelos ares em milhares de pedaços.
Nas telas
tremulava toda sorte de faíscas. As turbinas de propulsão cumpriam
seu dever. Mas na cabina de comando não se percebia nada, pois os
absorventes antigravitacionais funcionavam a contento.
A Infant
estava a caminho.
3
Não havia
duvida de que o destino tinha conjurado contra Julian Tifflor e sua
gente. A Infant necessitou de três transições para vencer o espaço
de seis mil anos-luz, até a zona de superposição nas proximidades
do sistema Mirta.
E quando a
nave terrana emergia pela terceira vez do hiperespaço, a menos de
vinte mil quilômetros dela havia uma enorme espaçonave,
provavelmente de origem arcônida. A Infant mantinha pequena
velocidade. A nave arcônida determinou em poucos segundos sua
posição, disparou um tiro de advertência, exigindo que parasse. Um
pelotão de apresamento viria a bordo.
Tifflor
protestou energicamente contra este tipo de tratamento, sem
resultado, porém. A nave arcônida repetiu a advertência, com o
mesmo tom de indiferença. E como a velha Infant não tinha a menor
chance para enfrentar a moderna nave de oitocentos metros de
diâmetro, Julian acabou cedendo e parou sua nave, isto é, adaptou
sua velocidade à da nave arcônida.
Com isto,
estavam entrando numa situação que, para a missão ter sucesso,
devia ser evitada a todo custo. Os arcônidas deviam saber que uma
nave terrana com desertores estava a caminho dos druufs. Mas não
podiam de maneira alguma aprisioná-la.
Tifflor
manobrou a Infant até uma distância de cinco mil quilômetros para
junto da nave arcônida. A voz com que esta nave transmitia suas
mensagens era nitidamente mecânica. Falava na língua arcônida e
julgava que o comandante terrano tinha obrigação de compreendê-lo.
Com toda
certeza, pois, devia se tratar de uma espaçonave robotizada. Teria,
no máximo, cinqüenta tripulantes a bordo e estes cinqüenta
arcônidas teriam funções bem secundárias. A pilotagem da nave e
distribuição de ordens deviam ser assunto exclusivo dos robôs
programados. O pelotão de combate devia também ser constituído de
robôs móveis. Quanto ao comandante da nave, seria um sonolento
arcônida ou outra pessoa das raças irmãs de Árcon. Mas, de
qualquer forma, este comandante não teria voz ativa em nada.
Assim era
a situação a bordo da nave arcônida. Tifflor sabia de tudo isto. O
que ele não sabia era como aproveitar estes conhecimentos para
salvar a Infant daquela situação. A casualidade de uma espaçonave,
emergindo do hiperespaço, ir parar exatamente diante de uma outra
nave já no espaço de Einstein, era uma coisa tão rara que Tifflor
não estava preparado para isto. Perderam-se minutos preciosos, até
que se preparasse um outro plano, naturalmente um plano de desespero,
o único que cabia nesta situação.
Do pelotão
de aprisionamento, provavelmente feito de robôs arcônidas, não se
via nenhum sinal. A nave arcônida agia com segurança e não tinha
necessidade de ter pressa.
Tifflor
dirigiu-se ao sargento Fryberg:
— Já
houve algum sinal?
Fryberg
entendeu de que ele estava falando. Meneou a cabeça e sorriu
contente.
— Não,
nem uma palavra.
— Bem,
continue atento.
O arcônida
podia estar convencido de que sozinho resolveria a questão. Sendo
uma nave robotizada, parecia razão suficiente para ele considerar
completamente supérfluo chamar outra nave em auxílio ou
simplesmente comunicar o que estava ocorrendo. Os robôs com sua
lógica ajudariam em tudo. E somente quando terminasse a ação e
toda a tripulação da Infant já estivesse presa, o comandante
apresentaria seu relatório ao computador-regente. Supondo isto foi
que Tifflor formulou seu plano.
*
* *
Panjel
Dreeb era um homem de Iriam. Pelos padrões da Terra, teria um metro
e meio de altura, cabeleira densa e cabeça ovalada. Já pelo seu
aspecto, Panjel Dreeb não acreditava na balela de que os habitantes
de Iriam eram descendentes de colonizadores arcônidas. Não podia,
porém, negar que estava a bordo de espaçonave arcônida, e aí
trabalhando como qualquer outro. Não sabia nada do que se passava em
torno dele. A nave possuía absorvedores antigravitacionais, mas
Panjel Dreeb nem ao menos conhecia o aparelho. Também não poderia
dizer se a nave estava parada ou em movimento. Os serviços que
Panjel executava eram muito humildes — tinha de apanhar o lixo
miúdo e jogá-lo no conversor. Era um trabalho para cuja execução
seria antieconômico o uso de um robô. E um homem como Panjel Dreeb
parecia nascido para esta função.
Estava
mesmo contente com seu novo emprego. Fazia poucos dias que pertencia
à tripulação da nave arcônida, achando o ambiente muito
interessante. Tinha medo apenas dos homens-máquina, mas felizmente
era raro se encontrar com eles.
Panjel
Dreeb deslizava por uma esteira transportadora num corredor onde não
se via ninguém. Na mão direita segurava uma pinça automática e ia
apanhando tudo que havia de sujeira dos dois lados da esteira. Não
era muita coisa. Aqui e ali um pedaço de plástico, um parafuso, ou
coisas semelhantes. Quase não fazia esforço para isso.
Mas, por
distração, acabou deixando passar o local onde devia saltar da
esteira. Ficou indeciso. Não sabia se saltava à esquerda ou à
direita, ou mesmo se continuava no mesmo corredor. Ainda não tinha
chegado a uma decisão, quando lhe surge um homem estranho à sua
frente.
Sim,
estava realmente na sua frente. Não tinha vindo nem de cima, nem de
baixo, mas estava ali. Panjel tremeu e seu rosto mudou de cor.
O susto
foi tão grande que, por uns instantes, não conseguiu ver nada.
Depois notou que o estranho parecia com um arcônida, nos traços
gerais. Era bem mais alto que ele, de ombros muito largos. Usava
também um uniforme, que Panjel Dreeb já conhecia. Só uma coisa que
parecia muito estranha: sua pele era preta.
— Não
tenha medo — disse o tal sujeito em arcônida. — Não lhe vou
fazer nenhum mal. Diga-me apenas onde é que estou.
Panjel
Dreeb começou gaguejando. Só depois de algumas tentativas foi que
sua língua voltou ao normal e conseguiu dizer algumas palavras
claras. Disse que estava numa nave dos arcônidas, mas isto não
interessou muito àquela aparição, pois este o interrompeu.
— Sei
disso. Quero saber agora onde é a cabina de comando.
A pequena
cabeça de Panjel Dreeb começou a funcionar. Quem seria este preto?
Por que se interessava pela cabina de comando? Será que queria fazer
alguma coisa contra a nave?
— Vamos,
diga logo — insistiu o estranho.
Panjel
Dreeb estendeu o braço para indicar a direção.
— Ali —
disse hesitante.
— Para
cima ou para baixo? — perguntou o preto.
Panjel
Dreeb respondeu prontamente, pois seu medo aumentava. Depois de pouco
tempo, o preto já estava certo quanto ao caminho.
“Não
tem importância”,
pensava Panjel Dreeb,
“enquanto
ele estiver caminhando para lá, eu aperto o sinal de alarme, e num
instante ele será preso.”
— Muito
obrigado — disse o preto — você me prestou um grande favor.
Infelizmente sou obrigado a lhe causar um pequeno sofrimento. Estou
com receio de que você me traia. Não tenha medo, não vai acontecer
nada com você. Vai apenas dormir uns minutos.
Panjel
queria gritar, mas não houve tempo. O preto apontou-lhe um negócio
luzidio. Panjel Dreeb levou um choque, sentiu uma forte dor em todo o
corpo.
Depois foi
tudo escuridão. Seus sentidos deixaram de funcionar.
*
* *
Grande
tensão nervosa imperava na cabina de comando da Infant. O pelotão
de aprisionamento não havia aparecido ainda. Tranqüila e ameaçadora
lá estava a grande nave arcônida — um ponto minúsculo de brilho
fosco, em comparação com o mar de estrelas fulgurantes.
O novo
plano de Julian Tifflor estava entrando em ação. Só poderia dar
certo se o arcônida continuasse calado. O sargento Fryberg, a pedido
do comandante, tentava medir, através da captação de toda a
radiotelefonia, a potência dos transmissores e descobriu que a
energia de irradiação era muito restrita e condicionada a pequenas
distâncias. A mais de cem mil quilômetros, não era possível
ouvi-los. A frota de bloqueio, portanto, não sabia nada do que uma
de suas naves havia feito a um cruzador terrano.
Não foi
fácil para Tifflor dominar a tensão. Seu olhar atento não perdia
aquele ponto de luminosidade fosca no meio das estrelas brilhantes,
passando dali para a mancha pardacenta da zona de superposição,
que, apesar dos rigorosos cálculos para as transposições, ainda
estava a dois anos-luz da Infant.
Os
arcônidas levariam dez minutos para fazer chegar até ali o pelotão
de aprisionamento. Será que este tempo daria para Ras Tschubai
realizar seu intento?
*
* *
Ras
Tschubai não pensava em fazer o trajeto para a cabina de comando a
pé. Sabia qual era a direção. Depois de esconder o homem de Iriam
num local onde tão cedo ninguém o acharia, concentrou-se uns
segundos, procurando mentalizar seu objetivo e saltou. Foi parar
exatamente onde queria, mas a situação que encontrou não era bem a
que imaginara.
Materializou-se
bem no centro da sala de comando e esbarrou num objeto rígido e bem
grande. Cambaleando, abriu os olhos e viu que tinha “atropelado”
um robô arcônida. O homem-máquina voltou-se imediatamente contra
ele, apontando-lhe a arma. Ras Tschubai retesou os músculos!
Porém não
aconteceu nada do que esperava. A arma continuou apontada para ele;
parecia, no entanto, que o robô não tinha ordem para atirar.
A sala de
comando estava repleta de robôs. Mas depois que um deles já
ocupara-se com o invasor, os demais não se preocuparam com o
incidente e cada um continuou tranqüilo seu trabalho. Mas havia ali
mais um ser orgânico, além de Ras Tschubai. De boa estatura,
sentado numa poltrona baixa e confortável, este homem de cabelos
brancos fazia como se nada do que estava acontecendo lhe dissesse
respeito.
Era
indiscutivelmente um arcônida, talvez até o comandante nominal da
espaçonave. Ras Tschubai o examinou atentamente, apesar da arma do
robô apontada para ele. Mas, mesmo que o arcônida tivesse notado
seu aparecimento na sala de comando, isto não lhe interessava agora.
Seu rosto inteligente dava mostras de indiferença, parecendo até
aborrecido.
Notando
que do robô não podia advir nenhum perigo imediato, Ras Tschubai
começou a raciocinar mais calmamente. Passou a pensar por que os
robôs estavam todos na sala de comando, se a presença deles ali
tornava-se desnecessária, pois ali era o local de onde a positrônica
governava a nave.
Descobriu
logo. Viu uma chapa de metal plastificado, que estava desparafusada,
e notou que dois robôs desciam por um enorme poço para cabos de
comando. A situação era bem cômica para ele: alguma coisa não
funcionava bem no possante encouraçado arcônida e os robôs estavam
preocupados em consertar o defeito.
Em
conseqüência da intensa movimentação dos robôs, o barulho era
muito grande. Teve de gritar para que o arcônida de cabelos brancos
o pudesse ouvir:
— Você
não pode ordenar a seu robô que me deixe em paz? — perguntou ele
em arcônida.
Vagarosamente,
o arcônida virou a cabeça e fitou Ras, com olhar de indiferença.
— Pelo
que estou vendo, ele não o está incomodando.
Ras
deduziu as palavras mais pelos movimentos labiais, do que pelo que
ouviu, pois o arcônida não fez o menor esforço para aumentar um
pouco a voz.
— Quero
dizer, será que o senhor não pode mandá-lo embora?
— Não,
isso eu não posso fazer, meu filho. Não sei por que os robôs não
me obedecem.
Ras
desistiu. Este arcônida não lhe podia ser útil. Ras tinha de
contar com suas próprias forças, se quisesse ter sucesso. E isto
parecia difícil. O robô, com o braço levantado e a arma pronta,
não o perdia de vista. E Ras Tschubai sabia que não havia a menor
possibilidade de distraí-lo, muito menos de dominá-lo.
Nem por
isso, porém, tinha a intenção de desistir de sua missão. Sabia de
sua responsabilidade, do que estava em jogo. Custasse o que custasse,
tinha que sair vitorioso.
Olhando em
volta, veio-lhe uma idéia à cabeça. O negócio não era nada
seguro, mas para a situação em que estava, bastava uma chance, por
menor que fosse. Não podia mudar o quadro que ali estava.
O plano do
Coronel Tifflor supunha que Ras encontraria a cabina de comando vazia
e era só desligar o robô central e ligar o comando manual. Aí,
então, ele executaria uma transição que o levaria para fora das
fronteiras das Galáxias, de onde a nave arcônida não conseguiria
mais voltar, nem dar sinais de si. O suprimento energético de cada
nave tinha um determinado limite. Se esta reserva fosse consumida
numa longa transição, a nave chegaria a um ponto de onde não podia
mais sair por força própria. Este era o plano de Tifflor. Mas
bastava que Ras Tschubai desse um passo na direção do comando
manual para que o vigilante robotizado o matasse com uma descarga
energética.
Só lhe
restava uma única possibilidade. Ras fechou os olhos, não sabendo
se o robô ia estranhar este procedimento. Esperou ansioso uns
segundos, e quando percebeu que nada acontecia, começou a se
concentrar. Conhecia as naves deste tipo e sabia onde se localizava o
conjunto de propulsão...
*
* *
O sargento
Fryberg deu um pulo.
— Um
rádio, senhor! Tifflor virou para trás.
— Em
código?
— Não,
senhor. Normal e bem legível.
O
mecanógrafo acoplado ao rádio mostrava também uns sinais gráficos
da escrita dos arcônidas. Fryberg nada entendia desta língua.
Sabia, porém, que o aparelho não funcionaria se o rádio fosse
cifrado. Foi com grande admiração que Tifflor leu:
Avaria
positrônica. Enguiço no canal principal. Pedimos ajuda técnica.
Tifflor
estava perplexo.
Seria isto
obra de Ras Tschubai? Se o fosse, por que razão não fez o que lhe
fora ordenado? E mais, por que motivo uma nave robotizada iria se
utilizar da língua arcônida a fim de chamar a atenção de outras
naves também robotizadas para sua situação de emergência? Os
robôs se comunicavam por intermédio de simples impulsos
eletrônicos. Para que então esta mensagem tão explícita?
— Captou
ainda qualquer outra coisa, Fryberg? — perguntou-lhe Tifflor.
— Sim.
Havia ainda uma série de pequenos impulsos.
“Que
naturalmente
devem significar a mesma coisa”,
completou mentalmente Tifflor.
— Quer
dizer então que enviaram a mensagem em dois canais: primeiro para as
antenas dos robôs e depois para os ouvidos dos arcônidas. E por
quê? Qual é o arcônida que exerce um cargo tão importante que tem
de estar informado de tudo que se passa nas milhares de naves?
Esta
questão de avaria podia explicar o motivo do atraso do pelotão de
aprisiona-mento, embora já fossem decorridos vinte minutos depois da
primeira advertência dos arcônidas ou de seus robôs. Se o canal
central estava enguiçado, poder-se-ia deduzir que não lhes era
possível abrir nenhuma escotilha.
Ou seria
tudo isto um truque? Estariam tentando forçar a Infant a empreender
a fuga, para então terem um pretexto para destruí-la? Um defeito
positrônico deixaria fora de uso alguns postos de canhões e
baterias, mas não todos. Talvez esperassem que a Infant fosse tentar
a fuga.
Tifflor
tinha no rosto um sorriso zombeteiro. Não iria de maneira alguma
dar-lhes esta oportunidade.
*
* *
Trabalhando
com rapidez, Ras Tschubai foi “abrindo” seu caminho para o
conjunto de propulsão. Ao perceber que o corredor que dava para lá
estava vazio, ainda deteve-se por cinco minutos, refletindo, cheio de
escrúpulos, se estava certo fazer o que planejava. Teve que se
conscientizar de que se tratava do destino da Humanidade. Lembrou-se
de que o regente robotizado, conforme as coisas iam se encaminhando,
haveria de descobrir, através da confissão forçada de um ou outro
membro da tripulação da Infant, a verdadeira posição da Terra.
Procurou imaginar o que aconteceria quando uma frota de cinqüenta
mil naves arcônidas atacasse o sistema solar terrano e fosse
destruindo um planeta após o outro.
Depois
disso, não teve mais escrúpulos. Estava resolvido a fazer o que se
propusera.
Para um
homem experimentado, profundo conhecedor da técnica galatonáutica,
não era difícil fazer com que os reatores nucleares funcionassem
com sua capacidade máxima e vedassem de tal modo todos os
escapamentos. Pelas suas dimensões, isto levaria uns quinze minutos
até a plena saturação e até que a fusão controlada se tornasse
incontrolável e, sob a pressão de um acúmulo exagerado de energia,
viesse a explodir, destruindo a nave arcônida com a violência de
cem bombas de hidrogênio.
Provavelmente,
aquele robô, de cujas lentes eletrônicas ele conseguira escapar, já
teria ligado o alarme no posto de comando lá em cima. Certamente,
todos os robôs estavam agora à sua procura, tentando descobrir o
que ele tencionava fazer.
Haveriam
então agora de procurá-lo por toda parte, e até que os robôs
chegassem ao recinto dos propulsores, a nave já teria explodido. Já
que a positrônica não estava funcionando, ninguém poderia
descobrir lá em cima que os reatores estavam funcionando de tal modo
que, em pouco tempo, haveriam de explodir.
Com a
calma de sempre, Ras reexaminou detalhadamente tudo que fizera ali no
mecanismo de propulsão. O africano de boa estatura parecia um anão
ali, aos pés daquelas máquinas monstruosas. Outra vez foi assaltado
pela dúvida se tinha agido honestamente. Na realidade, estas dúvidas
agora não adiantavam mais nada. A esta altura, o destino da nave
arcônida já estava selado. Ras não podia fazer mais nada. A
energia nuclear ali gerada seguia seu curso. Ras só tinha uma opção:
sair dali o mais cedo possível.
Cerrou os
olhos e se concentrou para o f pulo. Mas ao invés da Infant, surgiu
diante de seus olhos mentais aquele homenzinho, que encontrara no
convés de baixo e que lhe indicara o caminho para a central de
comando. Havia-lhe prometido que nada lhe aconteceria, quando o
imobilizou com a pistola energética!
Tentou
banir esta visão. Dos quinze minutos, pelo menos dez já haviam
passado. Ainda mais, se tomasse em consideração que não marcara
bem o tempo exato, já poderia estar correndo perigo...
Conseguiu
fazer desaparecer a imagem do homenzinho da pinça automática de
recolher lixo, voltando-lhe novamente a figura da Infant. Deixou o
quadro crescer, até poder ver nitidamente através da parede da
cabina de comando.
Foi então
que pulou.
*
* *
Julian
Tifflor não percebeu o que se passava atrás dele. Ouviu um barulho
qualquer e sentiu que alguém dera dois passos às suas costas. Mas
seu olhar e sua atenção estavam concentrados na tela panorâmica
onde se via o ponto de luz fosca da nave arcônida. O que até agora
se distinguia tanto das estrelas, por seu tipo de claridade opaca —
uma poeirazinha no infinito — se estufou de repente, centuplicou
sua luminosidade, transformando-se num sol radiante. Um disco de luz
intensa, duas vezes maior que a lua cheia da Terra, surgiu
subitamente das trevas e Tifflor foi obrigado a cerrar os olhos, pois
a claridade era de ofuscar.
Não se
ouviu o menor ruído.
O homem
acostumado às maiores explosões, não estava compreendendo o que se
passava lá ao longe. Uma espaçonave explodia. Silenciosa,
fulgurante como um sol, ia pelos ares num inferno atômico de
proporções nunca vistas.
Esgotado e
muito tenso, Julian Tifflor se virou para trás. A dois passos dele,
estava imóvel Ras Tschubai. Foram seus passos que ouvira antes. O
africano correspondeu a seu olhar, com sentimento de culpa, e
explicou:
— Não
foi possível fazer de outra maneira. A sala de comando estava
repleta de robôs, que consertavam alguma coisa. Não podia nem mexer
um dedo, sem que algum deles o percebesse.
Tifflor
compreendeu a situação.
— É
difícil para a gente — disse ele pensativo — poder julgar se
você agiu corretamente. Mas não tenho nenhuma dúvida de que você
fez o melhor possível.
Ras
Tschubai respirou aliviado.
“Santo
Deus!”,
pensava Tifflor zangado consigo mesmo. “Que
está acontecendo comigo? Os arcônidas mandam pelos ares planetas
inteiros, destruindo tudo, sem pestanejar, e eu aqui cheio de
escrúpulo só porque uma de suas naves robotizadas foi espatifada?”
Tifflor
procurou tirar estes pensamentos da cabeça. A nave arcônida, pouco
antes de explodir, havia enviado mensagem pedindo socorro. Este
socorro chegaria a qualquer momento e seria muito conveniente para a
Infant não ficar na proximidade do “acidente”.
Aliás, o
próprio pedido de socorro devia servir de explicação suficiente às
naves que viessem em auxílio de sua irmã acidentada. A grande nave
esférica estava com uma avaria positrônica, conforme o rádio
enviado. Num caso destes, podia acontecer de tudo, inclusive uma
super expansão dos reatores nucleares. Não poderiam nunca culpar a
Infant.
Assim,
mais uma parte do plano tinha sido bem sucedida. Restava-lhe ainda
outra fase, a mais espinhosa. Tinha de penetrar na zona de
superposição e cumprir sua missão junto dos druufs.
Julian
Tifflor tocou sua nave para frente. Acelerou rumo à indecisa neblina
avermelhada, provocando a transição, ao atingir a velocidade
necessária. Até aí, não havia nenhum indício de que alguma nave
arcônida houvesse localizado os “desertores”
da Terra.
E o grupo
desejava que tudo continuasse assim.
4
Para os
conceitos arcônidas, Door-Trabzon era um homem esquisito, embora
parecesse muito com um arcônida. A expectativa geral era de que ele
apenas assumiria o comando da frota de reconhecimento, composta de
vinte mil unidades, e, no mais, deixasse todo o trabalho entregue aos
robôs, ficando ele comodamente sentado, observando o desenrolar da
interessante programação do projetor fictício.
Door-Trabzon
realmente aceitou o comando, mas não fez nada daquilo que se
esperava dele. Era um ekhônida. Os ekhônidas, descendentes de
emigrantes arcônidas, conservaram a estatura e a língua de seus
antepassados. Porém, em suas ações, eram muito diferentes de seus
“primos”,
os arcônidas legítimos. Estes últimos, devido a muitos milênios
de paz, de bem-estar e de total poder sobre a Galáxia, tornaram-se
uma raça decadente, preguiçosa e apática.
Já os
ekhônidas eram homens de ação. Principalmente Door-Trabzon, um
alto oficial da frota, composta de pelo menos trezentas naves, a quem
não se podia oferecer coisa melhor do que o comando da armada
arcônida de vinte mil unidades. Ele, homem de iniciativa, tinha a
intenção de se mostrar digno do cargo. Fazia questão de estar a
par de tudo que acontecesse na frota de reconhecimento e queria que
pelo menos a metade das decisões dependesse dele. A outra metade —
e aí não podia fazer nada, estava fora de sua alçada — pertencia
à positrônica central.
Desde que
Door-Trabzon havia assumido o comando, as naves arcônidas não se
comunicavam mais com simples impulsos de hiperrádio, mas transmitiam
suas mensagens diretamente em arcônida, de maneira que ele mesmo as
pudesse entender.
A nave
capitania de Door-Trabzon era uma espaçonave esférica do tipo mais
possante. Ao tomar posse dela, seu nome era simplesmente KK XVII.
Chamava-se agora Wa-Kelan, nome do maior guerreiro da história
ekhônida. Door-Trabzon, sentindo-se orgulhoso da nave e de seu nome,
mantinha sua tripulação, entre a qual se contava um batalhão de
robôs, em constante movimento.
Soube do
defeito positrônico que acontecera com uma de suas naves, a três
anos-luz da Wa-Kelan. Não lhe foi nada agradável deslocar uma nave
de reconhecimento só para realizar o conserto positrônico. Mas, não
havia outra solução. Mandou um transporte bem armado.
Depois de
alguns minutos, a nave enviada comunicou que não encontrara mais o
grande couraçado de oitocentos metros de diâmetro. Avisou que, no
local onde tal nave estava, uma nuvem fina espalhava-se rapidamente.
Os tripulantes analisaram esta nuvem e chegaram à conclusão de que,
com pequenas variações, era a mesma composição da nave de
oitocentos metros. Ocorrera, pois, uma explosão.
Door-Trabzon
soltou impropérios quilométricos, sem com isto perder a calma. Era
senhor de mais de vinte mil aparelhos e mesmo se um ou outro
desaparecesse, ainda seriam vinte mil.
— Foi um
bom castigo para a tripulação. Mesmo com falha positrônica,
pode-se fazer com que os reatores sejam reduzidos ao mínimo, para
não acumular excesso de energia — balbuciou.
Para
Door-Trabzon havia coisas muito mais importantes do que a perda de um
aparelho. Estava no encalço de um terrano. Não sabia bem por que se
mandava vinte mil naves atrás de um único aparelho terrano, mas já
que a vantagem era toda para ele, estava tudo bem. Porém, o regente
lhe havia garantido que não se tratava propriamente de vida e morte
para Árcon. Contudo, era muito importante que se pegasse a nave
terrana.
Door-Trabzon
não tinha a menor dúvida de que o inimigo não lhe escaparia. A
frota de reconhecimento não estava dormindo. Movia-se de um canto
para o outro, esquadrinhando cada quilômetro cúbico do espaço.
“Se
o terrano, aparecer”,
pensou, “vou
lhe
preparar uma recepção honrosa.”
*
* *
Fora bem
sucedida a transição. Ali estava a muralha vermelho-escura do
trecho de superposição, na tela panorâmica da Infant. A poucos
milhares de quilômetros, abria-se o abismo em forma de uma garganta
afunilada; mostrando o caminho que levava para o Universo dos druufs.
Era a
primeira vez que Julian Tifflor ia percorrer este caminho. Já tinha
formado a mentalidade para considerar este fenômeno como um problema
físico-matemático. Mas, agora, ao ver diante de si a boca
escancarada do abismo, não se sentiu muito bem. Aquela garganta de
um vermelho estranho, pulsando lentamente, parecia mais com a entrada
do inferno.
Antes
disso, porém, a Infant ainda tinha outra tarefa. Teria de averiguar
se seu salto fora captado pelos arcônidas. Com este objetivo,
movia-se agora com o mínimo possível de velocidade, na direção da
garganta incandescente. O sargento Fryberg, com seus dois soldados,
estava ocupado em captar qualquer mensagem pelo telecomunicador.
Esta
tarefa era antes de tudo uma questão de estatística. A frota
terrana já conhecia a “densidade
de comunicação”
neste setor do espaço. O número de telecomunicações que se
realizavam por segundo entre as naves da frota arcônida era quase
constante. A bordo da Infant, logo após o encontro com o aparelho
avariado dos arcônidas, constatara-se que tal número aumentara, a
partir da última medição feita por naves de patrulhamento da
Terra, pelo fator 1,333. Mas isto não tinha nada a ver com o
aparecimento da Infant, pois o valor não aumentara depois do
aparecimento da Infant, mas permanecera igual ao que era desde o
começo.
Também
não havia diminuído a partir de então. Tudo isto apenas queria
dizer que o número dos aparelhos arcônidas também havia aumentado
pelo fator 1,333. Era um bom sinal, pois provava que o regente de
Árcon tinha caído na armadilha dos terranos e fazia um esforço
ingente para capturar a nave dos “desertores”.

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