sábado, 20 de agosto de 2016

P-082 - Xeque-Mate Universo - Kurt Mahr [Parte 1]

Autor
KURT MAHR




Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN



A batalha espacial na zona de superposição —
Um novo golpe da sagacidade terrana.



Depois que Perry Rhodan voltou de sua prisão entre os druufs, a situação política do sistema solar se estabilizou.
Por motivos ponderáveis, porém, não seria de bom alvitre que os terranos fizessem uma visita oficial aos druufs, que eram adversários declarados do regente de Árcon, muito menos que celebrassem com eles um tratado de aliança.
Os responsáveis pela sobrevivência do Império Solar concebem então um plano maravilhoso: enfraquecer substancialmente os dois grandes pretendentes ao domínio das Galáxias, os arcônidas e os druufs.
O plano vai necessitar novamente da “grande astúcia cósmica”. E o “velho” Julian Tifflor, conservado jovem pela ducha celular do planeta Peregrino, como outros grandes líderes do Império Solar, não hesita um instante em colocar o Universo em xeque.





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Coronel Julian TifflorComanda a expedição dos 14 “desertores”.

Tenente Lubkov e sargento FrybergIntrépidos militares terranos.

Door-TrabzonTem sob seu comando 20 mil naves arcônidas.

GuckyO rato-castor mutante que “interpreta” as irradiações.

John Marshall, Ras Tschubai e André NoirMutantes “desertores”.
1



Julian Tifflor tinha certeza de que jamais vira estes dois homens antes. Eram jovens, vestidos de maneira mais do que simples, cada um deles com uma pistola de raios térmicos na mão, apontando-lhe para o peito.
Num relance de vista, Tifflor percebeu que, nestas circunstâncias, não podia fazer outra coisa do que obedecer aos dois rapazes, por absurdas que fossem suas pretensões. Não estava, porém, com medo. Encontrava-se mais ou menos no centro da metrópole Terrânia.
É verdade que a rua, onde se localizava o restaurante em que acabara de jantar, não tinha mais movimento. Já era tarde demais para se ver gente andando pelas ruas. Dois carros disparavam nas faixas de alta velocidade, mas já iam longe, para seus ocupantes poderem notar o que dois assaltantes faziam com um senhor uniformizado, à beira da calçada.
Neste sentido, a situação era mesmo muito desfavorável para Tifflor. O restaurante, a esta hora, também estava quase vazio e certamente ainda levaria muito tempo até que mais um freguês saísse.
A princípio, julgou se tratar de simples raptores. Queriam apenas dinheiro e acreditavam que nas imediações de um restaurante de categoria podiam consegui-lo. No dia seguinte, pela manhã, quando se espalhasse a notícia do desaparecimento do Coronel Julian Tifflor, da Frota Espacial Terrana, o mecanismo gigantesco da polícia se poria em movimento e os dois coitados, com medo das conseqüências, o haveriam de soltar, caso ele mesmo, até lá, não arranjasse outra solução para o caso.
Quando um dos dois lhe perguntou se o belo carro cinza, estacionado ao longo do meio-fio, lhe pertencia, respondeu bem-humorado:
É meu, sim. É um grande carro, não?
Mas o outro assaltante parecia não gostar de conversa fiada:
- Abra-o e entre — disse o segundo rapaz, fazendo o gesto com a arma na mão. — Sente-se atrás.
Tifflor não se intimidou. De pé, diante da porta, olhou para os dois, dizendo:
Sou coronel, talvez os senhores sejam mais do que isto, para me darem ordens.
Não se preocupou muito com o que os dois iriam fazer. Porém um deles deu uns passos à frente e desferiu-lhe uma forte pancada na cabeça. Cambaleou e quase caiu. No último instante, mãos fortes o pegaram por baixo dos braços e o seguraram.
Ouviu então uma voz, que lhe parecia vir de muito longe:
Não podemos perder tempo com piadas bobas. O senhor vai fazer o que lhe mandarmos.
Tifflor não teve mais dúvida. Como poderia ele se defender, se, de antemão, eles já o deixaram quase desacordado com um soco? Liberou-se dos braços que o apoiavam e foi para o carro. Com a chave-segredo destravou as portas e o contato para a ignição. Entrou pela porta de trás e se sentou no segundo banco. Sentiu-se melhor quando sentou-se. O soco fora forte e exigia repouso.
Um deles colocou-se a seu lado, enquanto o outro, ao volante, já tinha posto o carro em marcha. Quando a pequena tela do interceptador de microondas, que servia para rastrear as pistas de alta velocidade, isto é, para indicar se estavam ou não livres, lhe indicou que a pista estava vazia, o carro disparou numa delas, bem no centro da estrada, ficando entregue a si mesmo. O fato de o assaltante ter escolhido uma faixa interna convenceu Tifflor de que o objetivo de seus algozes não ficava muito próximo.
Tentou fazer perguntas ao homem a seu lado. Começou com perguntas diretas, e quando notou que ele não respondia, passou a soltar indiretas provocativas. Mas o seu companheiro de banco estava bem escolado, não abria a boca. Não respondeu uma palavra, nem mostrou a menor reação.
Depois disso, passou pela cabeça de Tifflor a idéia de, com muito jeito, sem que o rapaz reparasse, pegar a arma num coldre sob seu uniforme.
Tentou meter a mão no bolso do casaco, onde havia um furo no enchimento que ia dar no coldre.
De repente, o rapaz deu uma rápida virada, pôs o cano de sua pistola bem rente ao rosto de Tifflor e disse com calma:
Coloque as mãos na posição normal, em cima das pernas. Mister, sabemos muito bem como os uniformes da Frota Espacial são feitos. Não perca tempo com bobagens.
Tifflor acabou desistindo. Teve, então, tempo para pensar com mais calma em outras coisas, principalmente nas primeiras impressões que os dois rapazes lhe causaram.
Da maneira como agiram, deixaram supor que sabiam muito bem o que queriam. O posto hierárquico de Tifflor e suas ponderações de que, no mais tardar, dentro de cinco horas toda a polícia secreta estaria em seu encalço, nada disso os impressionou.
Tifflor já não tinha muita certeza se eram assaltantes comuns. Lembrou-se da inquietação que se apoderou de toda a Terra, quando, há poucas semanas, correu o boato de que Perry Rhodan tinha morrido. Quando Perry Rhodan apareceu de novo em público, demonstrando à Humanidade que não havia nenhum motivo de preocupação, os boatos foram se dissipando, até desaparecerem completamente.
Chamou a atenção de todos para não darem ouvidos aos “pescadores de águas turvas”, que aproveitavam toda oportunidade para seus fins egoístas.
Será que ele teria caído em mãos de gente assim?
O pensamento lhe parecia absurdo. Ele era coronel, alta patente, é verdade, mas nem por isso se podia esperar que Perry Rhodan e o Conselho Supremo Solar haveriam de mudar suas determinações, só pelo fato de os adversários políticos terem tomado como refém um coronel da Frota Espacial.
A situação não deixava de ser confusa e desagradável. Já era um pouco tarde para isso, mas Tifflor chegou à conclusão de que, há minutos atrás, quando ainda estava na rodovia de Goshun, devia ter provocado algum “barulho”. Tinha impressão de que, daí para frente, não teria mais oportunidade de dar sinais que avisassem alguém de seu seqüestro.

* * *

Julian Tifflor tivera as aventuras mais emocionantes de sua vida nas profundezas da imensidão galáctica. Ainda não havia enfrentado os bandidos da Terra. Imaginava que a viagem que os seqüestradores faziam no seu carro particular fosse terminar na solidão da estepe, numa casa em ruínas, constantemente batida pelos ventos.
Mas a casa que servia de esconderijo não correspondia muito à imaginação de Tifflor. Parecia mais um abrigo, construído há quatro séculos, para uso de bandos de nômades, geralmente assaltantes. Mas Tifflor sabia muito bem que, há pouco menos de setenta anos, não existia nenhuma casa nesta região. Porém tal fato não alterou esta singular impressão.
Quando entrou e se deparou com um moderno hospital, sua surpresa aumentou. Os corredores reluziam de tanta limpeza, e a iluminação era simplesmente exuberante. O salão para onde foi levado estava equipado com os instrumentos mais sofisticados que a psicofísica moderna podia oferecer.
A finalidade de todos aqueles aparelhos não passou despercebida a Julian Tifflor. Compreendeu que tinha de agir imediatamente, caso quisesse recuperar a liberdade. Depois de ser submetido ao tratamento em um daqueles aparelhos, seria tarde. Não teria mais o domínio de sua vontade e passaria a fazer tudo que lhe fosse exigido, pois estaria sob forte influência hipnótica.
O momento tinha de ser este. E Tifflor mostrou que era um homem de coragem, quando começou a agir, mesmo sabendo que os dois seqüestradores não o perdiam de vista. Assim que entraram na casa, ladearam-no.
Enquanto transpunham o andar térreo, pararam só uma vez, exatamente para tirar a pistola de raios térmicos que Tifflor trazia sob o casaco. Teve de permiti-lo, sem opor qualquer resistência.
Agora, continuavam andando ao lado dele. Já estavam penetrando no salão repleto de instrumentos psicofísicos. Um deles o apanhou pelo ombro e continuou levando-o através do salão. O outro ficou uns metros para trás, para trancar a porta.
Devia ser o momento decisivo.
Não interessava a Tifflor que o da frente o olhasse firme e desconfiado. Colocou o pé direito atrás do esquerdo e fez como se tivesse tropeçado, levando o corpo arqueadamente para frente, de tal modo que a mão do seqüestrador escapou de seu ombro. Ergueu-se de novo e, aliás, com toda a força que a ira lhe podia fornecer. Não precisou usar o punho. Só o choque violento de seu ombro atirou o rapaz ao chão.
Tifflor sabia do que precisava para sua garantia. Pulou para cima dele, levantou-o e o colocou à sua frente, para cobrir-se do ataque do outro, que estava trancando a porta.
O homem usado como cobertura estava meio zonzo, mas não inconsciente. Ao perceber o que acontecia, fez um esforço ingente para prejudicar Tifflor. Tentou livrar-se da bem aplicada gravata que o prendia e aplicou uma canelada em seu adversário.
Tifflor foi mais ágil. Deu uma virada com ele e, com muita força, chocou sua cabeça contra a base metálica do encefalógrafo. Ouviu-se o estalo da pancada; e o rapaz, ainda preso ao braço de Tifflor, desmaiou.
Tifflor recuou um pouco. O braço que sustinha o rapaz inconsciente já lhe estava doendo muito. Olhou para a porta e viu, surpreso, que o outro homem, que devia estar ali, havia desaparecido. Olhou em volta, deixou cair o corpo do inconsciente e se agachou entre dois grandes aparelhos, a fim de cobrir-se. Começou então a se preocupar com o paradeiro do outro rapaz.
A única coisa que conseguia ouvir era sua respiração ofegante. Fez esforço para se controlar, e passou a respirar pela boca, com a intenção de não provocar ruído. Mas ainda lhe ficaram as fortes pulsações na fonte e as dores do soco. Seu maior desejo era arranjar uma arma. Qualquer uma. Não precisava ser sua pistola de raios térmicos. Uma granada de mão, um fuzil, ou qualquer outra coisa.
Devagar, para não fazer nenhum ruído, conseguiu se virar. O rapaz inconsciente estava a dois metros dele e a mais dois metros se via a arma que deixara cair. Quatro metros, portanto. Pôs-se em movimento. Tinha que sair da proteção daqueles aparelhos, quase tão altos como ele, e passar ao lado do rapaz desmaiado. Fez tudo isto com cuidado, olhando sempre em volta.
Onde estaria o segundo homem?
Julian Tifflor não conseguiu saber, nem teve mais tempo para isto. Quando já estava quase pegando a arma, bastando-lhe apenas esticar o braço, sentiu um impacto violento, que fez seu corpo estremecer de dores lancinantes. Ainda teve tempo de reconhecer que aquele tipo de dor só podia provir de raios portadores de forte descarga elétrica. Logo depois perdeu os sentidos.
Despencara num abismo tenebroso e profundo.

* * *

De repente, em plenas trevas, surgiu uma luz clara, porém, sem contornos visíveis. Não era real.
Tinha dores terríveis nos olhos. Procurou mover as pálpebras, constatando, no entanto, que os olhos estavam fechados. Não era, pois, uma luz comum. Também não vinha de fora.
Ouviu então uma voz. Porém, não se via o dono da tal voz.
Julian Tifflor — dizia — preste bem atenção!
Falava ridiculamente baixo e vagaroso. Era enorme a vontade que Tifflor sentia de rir. Mas antes que começasse a rir, a voz continuou a falar. E quanto mais falava, mais fascinado ficava com a solene lentidão e o tom cavernoso da voz. E não podia fazer outra coisa a não ser ouvir, ouvir... Sugava as palavras como uma esponja absorve a água e jamais se esqueceria de uma só delas. E além de tudo, o que a voz dizia era extremamente desconcertante, para não dizer sensacional...

* * *

Com a naturalidade costumeira, Reginald Bell entrou no salão, de onde Perry Rhodan dirigia os destinos do Império Solar, desde sua volta à Terra.
Da mesa à qual Rhodan estava sentado, descortinava-se o belo panorama de Terrânia. Seu gabinete estava no último andar do edifício da administração. Rhodan fez questão de instalar aí seu local de trabalho.
Tudo em ordem — explicou Reginald Bell, depois que a porta se fechou atrás dele.
Estava certo de que Rhodan sabia de que estava falando.
Rhodan interrompeu o que estava fazendo.
O que ele disse?
Bell sorriu malicioso:
Um dos rapazes ele já nocauteou, quando ainda não sabia de que se tratava. Também o outro não teve melhor sorte. Ambos estão recebendo tratamento. Creio, porém, que você compreende como Tifflor deve se sentir, ou devia se sentir.
Perry Rhodan concordou.
Que dizem os guardas de Mercant a tudo isto? Suspeitam de alguém?
A resposta de Reginald Bell foi um tanto evasiva:
Viram alguns vultos suspeitos que seguiam o carro de Tifflor um pouco além da periferia da cidade, não, porém, até o posto psicofísico. Mercant anotou estes poucos em sua lista particular. Provavelmente se trata de espiões galácticos. Não sabem o que está acontecendo. Mas quando Tifflor entregar os pontos, haverão de compreender. Parece assim que tudo está em ordem.
Bell chegou mais perto e sentou-se numa cômoda poltrona que ali estava para as visitas.
Ainda não sei... — disse pensativo. — O que se pode esperar deste negócio?
Parece que Rhodan não ouviu a pergunta. Seu olhar se perdia na amplidão do panorama. O sol claro e pálido de inverno estava a quase dois palmos do horizonte. Eram nove horas da manhã. Há meia hora, ainda havia geada nos telhados. O ano estava chegando ao fim.
Muita coisa — respondeu finalmente Perry Rhodan. — Um sensível enfraquecimento do potencial militar de nossos dois adversários: os druufs e os arcônidas.
Reginald Bell pigarreou:
Lembro-me de que ainda há dois meses tínhamos a intenção de atacar diretamente Árcon. Tudo já estava pronto. Um mero incidente nos fez desistir de levar a cabo nosso plano. Por que não o realizamos agora?
Rhodan fitou longamente seu amigo.
O que você chama de pequeno incidente — disse Rhodan bem-humorado — por um triz não custou a vida de nós dois e de muitos outros. Você esquece as coisas assim tão depressa? Você se recorda do quadro horroroso quando todo o planeta Fera Cinzenta parecia explodir aos nossos pés?
Bell concordou.
Bom, para nós foi sério. Mas, tendo-se em mira o grande conjunto da política galáctica, foi de fato um mero incidente. Conseguimos sobreviver a esta aventura e podemos um dia retomar o plano, não é verdade?
A resposta de Rhodan não tardou — Não, não podemos não — fez uma pausa, acendendo um cigarro. Ficou pensativo, olhando as volutas da fumaça. — Temos que compreender que nossos pés ainda não têm o tamanho suficiente para calçar as botas arcônidas.
Bell se inclinou para frente.
É uma bela comparação, mas não creio que corresponda à realidade.
Rhodan apontou para uma pilha de papel plastificado, que estava sobre sua mesa, dizendo:
Não me admiro de seu ponto-de-vista, pois você ainda não leu os resultados dos cálculos da positrônica de Vênus.
Bell se levantou.
Não, realmente ainda não li. Não sabia que Atlan tinha trabalhado tão depressa.
Rhodan apenas sorriu para seu amigo.
Foi gente de sua raça que construiu a positrônica em Vênus, há mais de dez mil anos, e não há ninguém que lide com ela melhor do que ele.
Bell sabia disso.
Ah! Foi por isso então que você o mandou para lá. E o que diz a maravilhosa positrônica?
Acabei de lhe dizer há pouco: Nossos pés ainda não têm o tamanho suficiente para calçar as botas arcônidas.
Sem dizer uma palavra, Bell foi pegando nas folhas. Tinham o tamanho das folhas de papel de carta, divididas em vinte colunas estreitas por linhas verticais, formadas por pontinhos fracos. Estas colunas estavam repletas de pontos, cruzes, traços alongados e pequenos círculos, sinais estes que pertenciam ao código dos computadores arcônidas. Era mister muita prática para ler diretamente estes sinais, sem uso da transcrição positrônica. Bell leu apenas algumas páginas, deixando o resto intacto sobre a mesa.
Durante esta rápida leitura, seus traços fisionômicos foram se fechando. Seus olhos se fixaram na visão panorâmica da cidade, como se um pensamento muito sério o preocupasse.
O Império Arcônida está em pé de guerra — repetia ele mais para si mesmo o que havia lido. — O regente robotizado acabara de mobilizar suas últimas reservas para enfrentar o perigo iminente dos druufs. Este robô que dirige o Grande Império não sabe, nem pode saber, que o perigo dos druufs é uma coisa muito passageira. A zona de superposição, em que o nosso Universo e o deles se encontram, se dissolve e caminha para o interior da Via Láctea.
Com o desaparecimento desta zona de superposição, não haverá mais nenhuma possibilidade natural de se passar do espaço de Einstein para o plano espacial dos druufs, ou vice-versa. Isto quer dizer então que, a partir daí, os druufs não representarão mais nenhum perigo para nós.”
Olhou para o lado e mediu a expressão fisionômica de Rhodan.
Não li mais do que isto, mas acho que as conclusões que daí podemos tirar são mais do que cristalinas, não é verdade?
Só lhe posso dar uma resposta, depois de saber o que realmente você pensa.
O regente robotizado de Árcon — recomeçou Bell — mobilizou todo seu império. Isto significa primeiramente que ele reuniu oitenta mil belonaves. O robô não está em condições de compreender o fenômeno da existência dos diversos planos temporais. Ele se detém apenas no que vê de concreto, isto é, nas espaçonaves dos druufs que, de vez em quando, penetram em nosso Universo, e na zona de superposição, por onde sua frota chega até os druufs. Quando os druufs não derem mais sinal de si, pelo fato de haver desaparecido a zona de superposição, o regente robotizado vai pensar que isto é mais um truque e vai continuar na expectativa de um assalto a qualquer momento, crente no reaparecimento dos druufs.
Bell fez uma pausa, passando a mão nervosa por entre os cabelos. Parecia muito abatido. Depois continuou:
Quem quer que ataque Árcon, agora ou em futuro próximo, terá de enfrentar uma frota de oitenta mil cosmonaves. Não estão incluídas aí as novas construções que saem diariamente dos estaleiros. Quando se considera que a frota terrana não passa de poucos milhares de naves, então... sim, então a gente tem de chegar à conclusão de que não é hora ainda de mexermos nesta casa de marimbondos.
Rhodan não disse nada. Reginald Bell, esperando por uma resposta, perguntou pouco depois:
Era isto que você estava pensando, não é verdade, Perry?
Sim, foi isto mesmo. Estamos ainda muito fracos. Se calcularmos apenas pelo número das espaçonaves, sentimos que o regente robotizado mantém uma supremacia arrasadora, com uma proporção de vinte para um. Isto, porém, não diminui o moral de nossas forças e ninguém duvida de que o espírito de luta de nossa gente é muito superior ao de todas as raças arcônidas. É um fato indiscutível. Mas, apesar deste espírito de luta destemido, ficaríamos em pior situação do que Frederico, o Grande, na Guerra dos Sete Anos. E... não podemos contar com o milagre que outrora salvou o velho Frederico da ruína total.
Bell deu uma volta e parou diante da janela.
Você acha que Tifflor vai nos conseguir estas forças aliadas?
Tifflor não passa de uma pedrinha neste grande mosaico. Daqui para frente a Terra vai se limitar a pequenos golpes. Somente passo a passo é que conseguiremos chegar ao nosso objetivo. Como os ratos no queijo, temos que continuar beliscando o Império Arcônida. Até que um dia, os ratos roerão o queijo todo.
Não estou gostando desta comparação — disse Bell — mas sei que você está certo.
Voltou para a mesa de Rhodan e pegou as outras folhas que ainda não tinha lido.
2



Franklin Lubkov era tenente da Frota Espacial Terrana, tinha vinte e sete anos e estava com o queixo inchado, e agora, depois de ter executado a parte mais desagradável de sua missão, mostrava o maior respeito por seu superior.
Quando Tifflor lhe ordenou que tirasse a mão do queixo e exibisse um semblante mais alegre, obedeceu prontamente.
O senhor sabe, isto dói bastante. Nunca pensei que o senhor tivesse um soco tão firme assim.
Tifflor não deu maior importância a esta afirmação.
Diga-me o que você sabe sobre todo este negócio.
Lubkov fez um gesto afirmativo.
Não é tanta coisa assim. Deram a mim e ao sargento Fryberg a incumbência de apanhá-lo na noite do dia dez de dezembro, após seu jantar no Restaurante Tai Wang e de conduzi-lo para uma casa, cuja localização nos foi dada com todos os detalhes. Instruíram-nos ainda que isto tinha que ser feito à maneira dos assaltos comuns. Camuflaram-nos os traços fisionômicos e nos cederam roupas velhas, dizendo sempre que era muito importante que tudo desse a impressão de verdadeiro.
Sim — interrompeu Tifflor — mas quem foi que lhes deu estas ordens ou instruções?
Lubkov sorriu desajeitado:
Marechal Mercant, senhor, ele pessoalmente e com muitos detalhes.
Tifflor soprou por entre os dentes.
Quer dizer, então, que não lhes restou nada, a não ser obedecer, não? Bem, mas depois que vocês me trouxeram para cá, o que devia acontecer?
Isto não seria mais nossa missão, senhor — respondeu Lubkov. — Devíamos colocá-lo lá sobre a mesa, amarrá-lo bem e depois desaparecer. O Marechal Mercant nos dissera que viria outra pessoa para cuidar do senhor.
E nunca lhes passou pela cabeça a idéia de que o que vocês estavam fazendo era uma coisa ilegal e, sob certas circunstâncias, poderiam prejudicar o Império Solar?
Não, senhor. Para isto teríamos de supor que o Marechal Mercant estivesse superembriagado. Além disso, enquanto ele nos dava as instruções, estava presente o Marechal Freyt. Eu, pelo menos, estava certo do que fazia.
Tifflor se virou para o lado e começou a andar de um canto para o outro.
E como vai continuar o negócio? — perguntou ele depois de algum tempo de reflexão.
Não sei, senhor. Disseram-me que receberíamos novas instruções do senhor mesmo.
Onde estão os outros?
Lá embaixo, no porão, senhor, esperando pela ordem de partida.
Tifflor se virou para ele:
Vá lá para baixo e diga-lhes que dentro de uma hora e meia estará tudo pronto. Partimos às vinte e quarenta.
O Tenente Lubkov fez continência e foi embora. Agora, já de uniforme e sem as pinturas de camuflagem, da noite anterior, em frente ao Restaurante Tai Wang, junto com o sargento Fryberg, ele dava uma impressão muito mais simpática.
Julian Tifflor sentou-se na beira da cama, onde durante muitas horas recebera o tratamento psicofísico. Só olhar para a cama lhe despertava recordações desagradáveis, mas no quarto todo não havia uma cadeira.
Tenente Lubkov, sargento Fryberg e mais doze homens seriam a tripulação com a qual, dentro de hora e meia, obedecendo a ordens superiores, teria de partir para a aventura mais arriscada de sua longa e gloriosa carreira.
Sabia como devia agir. Estava a par de sua situação e da de sua gente. Por estas horas, em Terrânia, os jornais deviam estar circulando com notícias sensacionais sobre quatorze homens que, sob o comando de um alto oficial da Frota Espacial — homem este conhecido em toda a Terra — haviam se desgarrado da Humanidade e dos ideais políticos de Perry Rhodan, tornando-se traidores. Acreditava-se, ou melhor, os jornais acreditavam que os desertores já haviam se apossado de uma espaçonave para deixar a Terra. Apesar disso, estavam sendo procurados por todos os cantos da Terra.
O Coronel Tifflor, portanto, não ignorava que qualquer policial terrano tinha o direito de atirar nele, assim que o reconhecesse. Ele e os quatorze lá embaixo no porão já estavam automaticamente condenados ao exílio.
Tudo foi tramado com muita inteligência. Quando os arcônidas pusessem sua gente nas pegadas de Lubkov, chegariam certamente à seguinte conclusão: De início eram somente quatorze homens que pretendiam renunciar à cidadania terrana: Lubkov, Fryberg e doze outros. Precisavam de um líder e escolheram Tifflor. É claro que não passaria pela cabeça de Tifflor trair seu mundo, a Terra e o Império Solar. Para este fim, Lubkov e sua gente teriam de “condicioná-lo”. Seqüestraram-no e o arrastaram bem para fora da cidade e o “prepararam” de tal maneira, que não lhe restava outra coisa senão aderir às idéias de Lubkov.
Quando, alguns minutos após a partida, a casa fosse pelos ares, certamente haveriam de sobrar alguns fragmentos da instalação que seriam suficientes para convencer os melhores espiões de que Lubkov possuía um aparelhamento capaz de transformar o homem mais fiel num reles traidor.
E tudo estava caminhando conforme o previsto. Julian Tifflor estava realmente “condicionado”. Através de meios mecano-sugestivos, tinham-lhe inculcado todo o plano, que era a base do empreendimento. Isto levou muitas horas. Mas agora, cada detalhe do plano repousava tão firme na cabeça de Tifflor, como se desde sua infância não tivesse pensado em outra coisa. De acordo com a própria opinião de Tifflor, o plano era tão perfeito que nada nele podia dar errado.
Mesmo assim, nem tudo estava ao seu gosto, mas, o exemplar oficial terrano estava habituado a obedecer. Compreendia que as coisas tinham de ser feitas assim e não de outra maneira, para se atingir um grau de quase perfeição. Sentia falta apenas de algumas palavras amigas de algum dos responsáveis, que haviam colocado em seus ombros uma missão tão árdua.
Fazia mais de sessenta anos que Tifflor servia na Frota Espacial. Pertencia ao número dos privilegiados que haviam recebido, no planeta Peregrino, a ducha celular conservadora da juventude. Estava agora com oitenta anos, mas sua aparência, sua elasticidade corporal e sua agilidade mental eram as de um jovem de trinta anos. O processo de envelhecimento parou no ponto em que recebeu a primeira ducha celular. Com oitenta anos, era um homem de larga experiência. Mas apesar de toda sua vivência, gostaria que alguém lhe dissesse amigavelmente: “Não se preocupe, Tiff, nós estamos acompanhando você!
Deitou-se de costas e acendeu um cigarro. Pensativo, soprava a fumaça, olhando para o teto.
Ouviu de repente uma voz estranha. Aliás, não era tão estranha assim. Já a conhecia e sabia de quem era. Surpreso, levantou-se e olhou em volta, mas não havia ninguém no quarto e a voz também não vinha de nenhum alto-falante.
Era Perry Rhodan quem estava “falando” e suas palavras ressoavam dentro do cérebro de Tiff.
Deitou de novo e ficou prestando atenção.
Você necessita de uma explicação, Tifflor — “disse-lhe” Rhodan em tom amigável. — Sei disso e faço questão de transmiti-la. Não estranhe o meio de comunicação. Você agora passa por um proscrito e eu não posso procurá-lo diretamente. Esta mensagem foi gravada em fita e lhe está sendo transmitida por meio de mecano-sugestão. É inerente a este processo um comando pós-hipnótico, que provoca a recepção da mensagem só algum tempo depois. Suponho que, em volta de você, agora, reine plena calma, a calma que precede sempre à tempestade. Portanto, você tem tempo para me ouvir.
A Terra se encontra numa enrascada, num beco sem saída, para lhe falar bem claramente, Tifflor. Vivemos em paz internamente. Mas Árcon, de armas até nos dentes, está de prontidão, e quando o regente robotizado descobrir qual a posição da Terra, vai nos acontecer o mesmo que aconteceu com o planeta Fera Cinzenta. Com os druufs o perigo é mínimo: o caminho para nosso Universo logo lhes será fechado. A zona de superposição desaparece e muda para outro lugar. Aí, então, o robô vai recomeçar a se preocupar conosco. Temos que aproveitar toda oportunidade que nos possa fazer ganhar mais tempo e que nos possibilite prejudicar os interesses de Árcon.
Uma oportunidade destas, aliás magnífica, está agora diante de nós, enquanto os druufs não ficarem separados de nosso Universo.
Sobre o plano em si não lhe preciso explicar nada, Tifflor. Você o conhece nos mínimos detalhes. Pode confiar plenamente nos homens que estão com você. Pertencem à elite da Terra, mesmo que ainda não tenha visto a maior parte deles. Todos estão ‘condicionados’. Caso o plano fracasse e eles caiam nas mãos dos inimigos, não poderão fazer nada que prejudique a Terra, como você também, Tifflor. Tivemos que tomar todas estas providências, pois estamos diante de um Império superarmado. O ser coletivo do planeta Peregrino, o único que nos poderia ajudar, não se manifesta. Não podemos obrigá-lo a vir em nosso auxílio.
Portanto, Tifflor, não considere sua missão como qualquer patrulha de emergência. Do seu sucesso depende muito do futuro da Terra. Por isto, vamos acompanhá-lo constantemente. Dois encouraçados estarão sempre por perto. Você levará o sinalizador telepático que permitirá aos nossos mutantes localizá-lo prontamente até uma distância de dois anos-luz. Fique sabendo que você e os seus não se perderão.
Bem, é o que lhe queria dizer. Desejo-lhe boa viagem, meu jovem. Volte logo e com muita saúde.”
A voz silenciou. Julian Tifflor se levantou, dizendo, perdido em seus pensamentos:
Muito obrigado, Sir.
Esta frase foi supérflua. Perry Rhodan não estava por perto. Não poderia ouvi-lo.
Tifflor, de um momento para o outro, começou a se sentir melhor. Sorriu e se encaminhou para o porão, para conversar com os quatorze homens, que com ele rumariam em direção aos druufs.

* * *

Além do Tenente Lubkov e do sargento Fryberg, que Tiff já conhecia, encontravam-se, entre os quatorze, mais quatro homens conhecidos: John Marshall, o telepata; Ras Tschubai, o teleportador; André Noir, o hipno e Tama Yokida, o telecineta. Julian Tifflor estava admirado. Perry Rhodan havia privado o Exército de Mutantes, durante o período da missão secreta, dos seus elementos mais competentes. Marshall, Tschubai, Noir e Yokida representavam uma força tal que podia enfrentar um regimento inteiro.
Foi um grande motivo de tranqüilidade para Tifflor. Mutantes eram auxiliares extremamente valiosos, mormente para esta situação, pois tanto os arcônidas como os druufs não estavam muito “avançados” neste importante setor dos poderes para-mecânicos e parapsicológicos.
Das dezenove e trinta até quase vinte horas, Tifflor revisou com os homens todo o plano. Fez muita questão de frisar que tudo tinha sido minuciosamente preparado e que não havia motivo de temor, enquanto não estivessem ainda na zona de superposição, que distava da Terra mais de seis mil anos-luz. Esta explicação tinha que ser prestada, pois o primeiro ponto do plano não tratava de outra coisa, a não ser do seqüestro de uma espaçonave dos estaleiros de reparo da Frota Espacial.

* * *

Às vinte horas, o sargento Cooper revezou o sentinela que montava guarda diante do portão de entrada para os estaleiros onde estava o cruzador espacial Infant. Geralmente havia só um vigia para todo o estaleiro. Não era mesmo necessário ficar vigiando espaçonaves que se achavam em reparo. Já o fato de necessitarem de conserto, impedia que fossem roubadas.
O caso da espaçonave Infant era diferente. Os consertos ficaram prontos hoje à tarde, mas não deu mais tempo de levá-la para o espaçoporto. Foi por isto que recebeu mais um vigia, além do vigia-geral dos estaleiros.
O sargento Cooper não estava muito conformado com o fato de ter sido ele o sorteado para passar duas horas de uma noite tremendamente fria de pré-inverno, ao lado de uma nave, andando de um canto para o outro.
Além disso, a Infant era uma nave velha, esférica, com um diâmetro de dezenove metros. Naves de dimensões tão reduzidas não existiam mais, só por aí se podia ver como era antiquada. Seu mecanismo de propulsão era fraco, produzindo uma aceleração de apenas 17 mil unidades, enquanto as modernas apresentavam uma aceleração normal de 50 mil. A Infant necessitava de meia hora para elevar sua velocidade até a diferença habitual de 0,2% da velocidade da luz. E, conforme a opinião do sargento Cooper, nada disso justificava colocar um guarda especial só para a Infant.
Os vinte passos que dava de um lado para outro, constantemente, para não sentir o frio, pareciam ter a cadência do protesto. Depois de muito tempo, chegou à conclusão de que dava os vinte passos exatamente em quinze segundos. Portanto, cada dois movimentos de ida e volta faziam exatamente um minuto. E assim começou a contar os minutos. De agora até o final de sua vigília, faltavam-lhe ainda setenta e três minutos. Duncan viria então rendê-lo.
Coitado do pobre Duncan! É um rapaz da Flórida e vai estranhar muito o frio”, pensou o sargento.
De repente, Cooper interrompeu suas passadas. Ouvira um ruído como se fosse um carro pesado que se aproximava. Este estranho ruído vinha da entrada principal, estranho porque a gente devia notar os faróis do carro. Mas não se via nada.
Cooper saiu da sombra da Infant e aguardou. Fosse qual fosse o carro, o oficial de sentinela o teria deixado passar e Cooper não precisava se preocupar com isto.
Finalmente, surgiu da escuridão o tal carro, parando a alguns metros de Cooper. A carroceria estava encoberta por uma lona e Cooper não pôde ver o quê ou quem se encontrava lá dentro. Alguém saltou da cabina do motorista e veio na direção de Cooper, que conseguiu ver os galões da hierarquia militar. Não deu para distinguir direito qual a patente, mas não havia dúvida de que era alguém do estado-maior.
Cooper fez a continência. Para isso, tirou a mão da cintura onde estava o revólver e a apoiou na aba do capacete. Nesse meio tempo, o oficial chegara mais perto, de modo que Cooper pôde ver nitidamente sua patente. Era um coronel, e Cooper sentiu mais respeito ainda. Por fim, reconheceu Julian Tifflor, e num estalo de sua memória se lembrou de ter ouvido, de manhã, qualquer coisa absurda sobre Tifflor. O que seria mesmo?
Cooper precisava de alguns segundos para se recordar.
Mas Tifflor não lhe deixou este tempo todo. Cooper não representava nenhum perigo para ele, enquanto mantivesse a mão na posição de continência. Sem que ele percebesse, aplicou-lhe um tremendo soco no queixo, com tanta força, que não precisou repetir. Cambaleando, Cooper rolou no chão. O fuzil lhe escapou dos ombros, caindo a seu lado.
De repente o Tenente Lubkov se aproximou. Tifflor viu seus dentes reluzirem no escuro.
Peço-lhe desculpas, senhor. Só queria ver de perto como se dá um soco destes. Vejo agora que é melhor assistir do que receber.
Tifflor apenas sorriu.
É, houve muita pancadaria nas últimas horas e infelizmente sempre contra os inocentes. Este pobre homem não se lembrará de mim com muito amor, quando voltar a si.
É este o objetivo do empreendimento — disse Lubkov.
Voltou ao carro, batendo palmas perto da lona que o cobria.
Desçam todos — disse. — Já chegamos ao nosso destino.
Depois disso, Tifflor não ficou mais parado ao lado de Lubkov. Já havia aberto uma pequena escotilha para a tripulação e ligado uma lâmpada de emergência, para mostrar o caminho a Lubkov e aos outros.
Para Lubkov e para os outros”, pensava Tifflor, “mas aposto que Tschubai já está há muito na sala de comando.
O embarque não demorou mais do que dez minutos. Julian Tifflor foi o último a entrar. Antes, ergueu o sargento desmaiado e o levou nos ombros, colocando-o na cabina do carro, descendo depois um pouco mais com o carro, até ao portão de entrada. Voltou a pé. Pensativo, passou pela escotilha, travando-a por dentro. Entrou num velho elevador antigravitacional que o levou para o convés do meio.
A segunda parte do plano se encerrava aí com êxito. Os “amotinados” estavam de posse da espaçonave.
Iniciava-se o caminho para os druufs!

* * *

A tela estava ligada, havia o clarão branco, mas não se via ninguém, pois quem estava falando não era nenhum ser que precisasse ser visto. A voz mecânica era de um timbre profundo, forte e com as mais refinadas modulações. Ninguém, que de antemão não soubesse que a voz pertencia ao regente robotizado de Árcon, chegaria a idéia de que estava falando com um interlocutor não orgânico.
Era um dos traços característicos da política galáctica o fato de o regente robotizado de Árcon estar sempre disposto a receber uma mensagem de Perry Rhodan, embora Árcon e a Terra estivessem em franca hostilidade e se digladiassem, quando havia oportunidade para isto. Mesmo esta hostilidade era sui generis. Não excluía, por exemplo, que, em algum ponto da Galáxia, naves terranas e arcônidas se aliassem contra um inimigo comum, enquanto que, simultaneamente, a alguns milhares de anos-luz, uma frota robotizada dos arcônidas bombardeasse uma base terrana.
Quanto à troca de mensagens, porém, Perry Rhodan sabia muito bem a verdadeira causa da solicitude do regente: mensagens eram irradiadas pelo telecomunicador. Acontece, porém, que as conversas pelo “telecom” proporcionavam a oportunidade de se determinar a localização do transmissor, e a coisa que o regente robotizado mais desejava no momento era determinar a posição galáctica da Terra.
É claro que Rhodan já havia tomado suas providências para que, ao menos por este veículo, Árcon nada conseguisse. Os diálogos, que mantinha com o regente, passavam por várias estações de relê, antes de serem transmitidos para Árcon.
Partindo da Terra, a mensagem era transmitida por raios direcionais para uma estação a dois mil anos-luz de distância. O feixe de ondas do “telecom” tinha um diâmetro de pouco menos de quarenta metros. A cobertura do feixe de ondas atingia cerca de três décimos milionésimos de segundo. Isto queria dizer que, numa distância de dois mil anos-luz, o feixe de quarenta metros abria-se para trinta mil quilômetros e passava a possuir um diâmetro por poucos porcentos maior que o feixe do planeta onde se encontrava a estação do relê repetidor.
O ponto capital em tudo isto, era que um observador inimigo, que estivesse captando uma mensagem assim transmitida, e, aliás, neste caso com muita facilidade, somente poderia localizar o transmissor se ele mesmo, casualmente, estivesse dentro deste raio direcional. A possibilidade de isto acontecer era tão reduzida que nem precisava ser levada em consideração.
A Terra estava, pois, tranqüila. A transmissão do diálogo de uma estação de relê para outra, seguia o mesmo princípio. Além disso, para cada nova irradiação, mudava-se a ordem destas estações de relê.
O regente robotizado não tinha, portanto, nenhuma chance de descobrir, por esta via, a localização da Terra.
O próprio regente emitia suas mensagens por um transmissor comum multidirecional, pois não poderia saber em que direção usar os raios.
A conversa, que Perry Rhodan tivera esta tarde do dia 11 de dezembro com o regente robotizado, fora curta, mas de conteúdo importante. Rhodan dizia:
Encontro-me numa situação bem desagradável. Um oficial de alta patente da minha frota revelou-se, de repente, um traidor e mancomunado com um punhado de descontentes deixou a Terra numa nave seqüestrada. Não sabemos até agora para onde foram. Eu lhe seria grato se me avisasse tão logo ele se aproxime de uma de suas naves. Não que estes homens tenham muita importância para nós, pois não possuem nenhuma informação que nos possa prejudicar. Trata-se apenas de um princípio básico de nossa disciplina terrana: um desertor tem que ser punido.
Reconhecendo as circunstâncias, o regente prometeu auxílio. Já que sua voz, apesar de toda sua variada modulação, não deixava perceber nenhum sentimento, que realmente não possuía, não se poderia saber suas impressões sobre as alegações de Rhodan.
Não se podia dizer que um oficial de alta patente era um homem sem importância. O regente de Árcon sabia muito bem que este desertor, se caísse em suas mãos, lhe seria um elemento muito útil, lhe prestaria enormes serviços. Por este motivo, pediu a Rhodan que lhe desse maiores informações sobre os quinze desertores. Depois de lhe satisfazer este pedido, Rhodan acrescentou:
Acho que lhe posso dar outra informação para lhe facilitar a compreensão de toda a situação. Há poucas semanas, tive uma longa conversa com o desertor. Este oficial graduado da Frota Terrana era de opinião de que a melhor coisa que a Terra poderia fazer era se aliar aos druufs. Parecia estar obcecado por esta aliança. Presumo, pois, que ele procurará penetrar no Universo dos druufs.
Todo este diálogo foi feito em arcônida. O regente agradeceu as informações e se despediu com a fórmula de sempre.
Naturalmente, logo após este diálogo, o regente deve ter ativado o setor de lógica, para analisar profundamente as notícias que recebera. Como supunha, constatou-se a possibilidade de que a mensagem de Perry Rhodan não passasse de um truque. Mas, de qualquer maneira, tinha que aceitar também a hipótese da veracidade daquelas palavras. Poderia acontecer mesmo que um oficial superior chegasse a esta conclusão e desertasse.
As duas alternativas se equilibravam. O melhor que podia e devia fazer era mandar aprisionar a espaçonave dos desertores. Assim não incorreria em nenhum erro.
A frota arcônida de bloqueio estava nas proximidades da zona de superposição que os terranos tinham de atravessar para chegar até os druufs. Estavam lá reunidas trinta mil espaçonaves de Árcon. Podia-se mandar para o local mais dez mil unidades e destacar vinte mil delas para procurar a nave dos desertores.

* * *

Quando Franklin Lubkov chegou com os outros “desertores” ao posto de comando, Ras Tschubai já lá estava realmente. Tinha o dom de transportar a si mesmo ou outros, que se firmassem bem nele, a qualquer distância, com as forças de sua mente. Esta força surpreendente, que possibilitava este transporte miraculoso, residia numa parte especial de seu cérebro de mutante e estava permanentemente à sua disposição. A única coisa indispensável para este “pulo”, como dizia Tschubai, considerando seu dom maravilhoso, eram um certo grau de concentração e uma idéia aproximada do objetivo a ser atingido.
Aliás, este incompreensível dom da natureza estava aliado a uma segurança fantástica. Se o salto de Ras Tschubai encontrasse pela frente uma matéria impenetrável, entrava então em ação uma velha lei da física de que, onde está um corpo, outro não pode ficar simultaneamente. Neste caso, Tschubai se materializava de novo no mesmo local de onde havia saltado.
Fora disso, Ras Tschubai era um cosmonauta muito experimentado. Quando, alguns minutos depois, o Coronel Tifflor chegou ao posto de comando, as turbinas de propulsão já estavam pré-aquecidas e prontas para partir.
Quando notassem a partida de uma espaçonave diretamente dos estaleiros de reparo, Tifflor sabia que haveria uma grande confusão no espaçoporto. O piso do estaleiro não fora construído para decolagem de espaçonaves. O revestimento plástico haveria de rebentar sob a forte pressão das turbinas e mesmo derreter completamente. Já do outro lado do espaçoporto, haveriam de presenciar uma enorme fogueira.
Julian Tifflor estava informado de que nos serviços de rotina do espaçoporto, esta noite, haviam sido tomadas certas providências, que na hora da decolagem da Infant, impediriam os caças espaciais de, como seria seu dever, sair imediatamente no encalço dos desertores. Portanto, a Infant sairia com uma boa vantagem de tempo, que naturalmente não poderia ser grande demais, para não dar na vista. Era importante aproveitar esta pequena dianteira para se obter um máximo de segurança.
O coronel distribuiu o pessoal em seus locais de trabalho. Todos estavam preparados para sua função. O Tenente Lubkov fazia o papel de primeiro-oficial e co-piloto. O sargento Fryberg controlava com mais dois outros as instalações de rádio, rastreamento e orientação. Não deixariam de perceber qualquer caça espacial que a Terra lhes mandasse no encalço. Os mutantes se mantinham calmos, afastados. Em caso de extrema urgência, Ras Tschubai se teleportaria para a nave que os estivesse perseguindo, causando nela tanta confusão até que a Infant ficasse em plena segurança.
Seria tudo questão de quinze minutos. Após este tempo, a Infant atingiria a velocidade para entrar em transição, isto é, para penetrar no hiperespaço.
Se conseguisse superar estes quinze minutos críticos, tudo estaria salvo.
Enquanto sua mão repousava na alavanca principal, percebeu que tudo aquilo não passava de um sofisma. De agora até sua volta à Terra, não teriam realmente um segundo de garantia. A perseguição por parte dos caças espaciais terranos não passaria de uma simples brincadeira de pique, em comparação com o que os arcônidas lhes estavam preparando, quando a Infant fosse aprisionada.
Julian Tifflor consultou o cronômetro.
Que importância teria se ater rigorosamente a um horário? Podia muito bem decolar às vinte e duas e quatorze ou às vinte e duas e quinze, dava na mesma. Para o cálculo da rota propriamente dita, teria muito tempo no espaço lá fora.
Comprimiu o pequeno botão que encimava a alavanca-geral e ouviu a sirene que indicava a partida. Fechaduras rangiam durante o controle e quando as sirenes silenciaram, parecia que todos tinham a respiração presa.
Pela última vez, Tifflor examinou as luzes de controle do painel. Tudo em ordem.
De que lhe interessava saber se tudo estava em ordem, se um míssil atômico de um caça espacial o atingisse ou um raio de desintegração de uma belonave arcônida viesse lhes dar as boas-vindas? A Infant datava dos primórdios da Frota Espacial Terrana e seu envoltório de proteção não era dos mais modernos.
Puxou então a alavanca central. Não lhe interessava o que iria acontecer com o revestimento plástico do chão do estaleiro. Que rebentasse e voasse pelos ares em milhares de pedaços.
Nas telas tremulava toda sorte de faíscas. As turbinas de propulsão cumpriam seu dever. Mas na cabina de comando não se percebia nada, pois os absorventes antigravitacionais funcionavam a contento.
A Infant estava a caminho.
3



Não havia duvida de que o destino tinha conjurado contra Julian Tifflor e sua gente. A Infant necessitou de três transições para vencer o espaço de seis mil anos-luz, até a zona de superposição nas proximidades do sistema Mirta.
E quando a nave terrana emergia pela terceira vez do hiperespaço, a menos de vinte mil quilômetros dela havia uma enorme espaçonave, provavelmente de origem arcônida. A Infant mantinha pequena velocidade. A nave arcônida determinou em poucos segundos sua posição, disparou um tiro de advertência, exigindo que parasse. Um pelotão de apresamento viria a bordo.
Tifflor protestou energicamente contra este tipo de tratamento, sem resultado, porém. A nave arcônida repetiu a advertência, com o mesmo tom de indiferença. E como a velha Infant não tinha a menor chance para enfrentar a moderna nave de oitocentos metros de diâmetro, Julian acabou cedendo e parou sua nave, isto é, adaptou sua velocidade à da nave arcônida.
Com isto, estavam entrando numa situação que, para a missão ter sucesso, devia ser evitada a todo custo. Os arcônidas deviam saber que uma nave terrana com desertores estava a caminho dos druufs. Mas não podiam de maneira alguma aprisioná-la.
Tifflor manobrou a Infant até uma distância de cinco mil quilômetros para junto da nave arcônida. A voz com que esta nave transmitia suas mensagens era nitidamente mecânica. Falava na língua arcônida e julgava que o comandante terrano tinha obrigação de compreendê-lo.
Com toda certeza, pois, devia se tratar de uma espaçonave robotizada. Teria, no máximo, cinqüenta tripulantes a bordo e estes cinqüenta arcônidas teriam funções bem secundárias. A pilotagem da nave e distribuição de ordens deviam ser assunto exclusivo dos robôs programados. O pelotão de combate devia também ser constituído de robôs móveis. Quanto ao comandante da nave, seria um sonolento arcônida ou outra pessoa das raças irmãs de Árcon. Mas, de qualquer forma, este comandante não teria voz ativa em nada.
Assim era a situação a bordo da nave arcônida. Tifflor sabia de tudo isto. O que ele não sabia era como aproveitar estes conhecimentos para salvar a Infant daquela situação. A casualidade de uma espaçonave, emergindo do hiperespaço, ir parar exatamente diante de uma outra nave já no espaço de Einstein, era uma coisa tão rara que Tifflor não estava preparado para isto. Perderam-se minutos preciosos, até que se preparasse um outro plano, naturalmente um plano de desespero, o único que cabia nesta situação.
Do pelotão de aprisionamento, provavelmente feito de robôs arcônidas, não se via nenhum sinal. A nave arcônida agia com segurança e não tinha necessidade de ter pressa.
Tifflor dirigiu-se ao sargento Fryberg:
Já houve algum sinal?
Fryberg entendeu de que ele estava falando. Meneou a cabeça e sorriu contente.
Não, nem uma palavra.
Bem, continue atento.
O arcônida podia estar convencido de que sozinho resolveria a questão. Sendo uma nave robotizada, parecia razão suficiente para ele considerar completamente supérfluo chamar outra nave em auxílio ou simplesmente comunicar o que estava ocorrendo. Os robôs com sua lógica ajudariam em tudo. E somente quando terminasse a ação e toda a tripulação da Infant já estivesse presa, o comandante apresentaria seu relatório ao computador-regente. Supondo isto foi que Tifflor formulou seu plano.

* * *

Panjel Dreeb era um homem de Iriam. Pelos padrões da Terra, teria um metro e meio de altura, cabeleira densa e cabeça ovalada. Já pelo seu aspecto, Panjel Dreeb não acreditava na balela de que os habitantes de Iriam eram descendentes de colonizadores arcônidas. Não podia, porém, negar que estava a bordo de espaçonave arcônida, e aí trabalhando como qualquer outro. Não sabia nada do que se passava em torno dele. A nave possuía absorvedores antigravitacionais, mas Panjel Dreeb nem ao menos conhecia o aparelho. Também não poderia dizer se a nave estava parada ou em movimento. Os serviços que Panjel executava eram muito humildes — tinha de apanhar o lixo miúdo e jogá-lo no conversor. Era um trabalho para cuja execução seria antieconômico o uso de um robô. E um homem como Panjel Dreeb parecia nascido para esta função.
Estava mesmo contente com seu novo emprego. Fazia poucos dias que pertencia à tripulação da nave arcônida, achando o ambiente muito interessante. Tinha medo apenas dos homens-máquina, mas felizmente era raro se encontrar com eles.
Panjel Dreeb deslizava por uma esteira transportadora num corredor onde não se via ninguém. Na mão direita segurava uma pinça automática e ia apanhando tudo que havia de sujeira dos dois lados da esteira. Não era muita coisa. Aqui e ali um pedaço de plástico, um parafuso, ou coisas semelhantes. Quase não fazia esforço para isso.
Mas, por distração, acabou deixando passar o local onde devia saltar da esteira. Ficou indeciso. Não sabia se saltava à esquerda ou à direita, ou mesmo se continuava no mesmo corredor. Ainda não tinha chegado a uma decisão, quando lhe surge um homem estranho à sua frente.
Sim, estava realmente na sua frente. Não tinha vindo nem de cima, nem de baixo, mas estava ali. Panjel tremeu e seu rosto mudou de cor.
O susto foi tão grande que, por uns instantes, não conseguiu ver nada. Depois notou que o estranho parecia com um arcônida, nos traços gerais. Era bem mais alto que ele, de ombros muito largos. Usava também um uniforme, que Panjel Dreeb já conhecia. Só uma coisa que parecia muito estranha: sua pele era preta.
Não tenha medo — disse o tal sujeito em arcônida. — Não lhe vou fazer nenhum mal. Diga-me apenas onde é que estou.
Panjel Dreeb começou gaguejando. Só depois de algumas tentativas foi que sua língua voltou ao normal e conseguiu dizer algumas palavras claras. Disse que estava numa nave dos arcônidas, mas isto não interessou muito àquela aparição, pois este o interrompeu.
Sei disso. Quero saber agora onde é a cabina de comando.
A pequena cabeça de Panjel Dreeb começou a funcionar. Quem seria este preto? Por que se interessava pela cabina de comando? Será que queria fazer alguma coisa contra a nave?
Vamos, diga logo — insistiu o estranho.
Panjel Dreeb estendeu o braço para indicar a direção.
Ali — disse hesitante.
Para cima ou para baixo? — perguntou o preto.
Panjel Dreeb respondeu prontamente, pois seu medo aumentava. Depois de pouco tempo, o preto já estava certo quanto ao caminho.
Não tem importância”, pensava Panjel Dreeb, “enquanto ele estiver caminhando para lá, eu aperto o sinal de alarme, e num instante ele será preso.”
Muito obrigado — disse o preto — você me prestou um grande favor. Infelizmente sou obrigado a lhe causar um pequeno sofrimento. Estou com receio de que você me traia. Não tenha medo, não vai acontecer nada com você. Vai apenas dormir uns minutos.
Panjel queria gritar, mas não houve tempo. O preto apontou-lhe um negócio luzidio. Panjel Dreeb levou um choque, sentiu uma forte dor em todo o corpo.
Depois foi tudo escuridão. Seus sentidos deixaram de funcionar.

* * *

Grande tensão nervosa imperava na cabina de comando da Infant. O pelotão de aprisionamento não havia aparecido ainda. Tranqüila e ameaçadora lá estava a grande nave arcônida — um ponto minúsculo de brilho fosco, em comparação com o mar de estrelas fulgurantes.
O novo plano de Julian Tifflor estava entrando em ação. Só poderia dar certo se o arcônida continuasse calado. O sargento Fryberg, a pedido do comandante, tentava medir, através da captação de toda a radiotelefonia, a potência dos transmissores e descobriu que a energia de irradiação era muito restrita e condicionada a pequenas distâncias. A mais de cem mil quilômetros, não era possível ouvi-los. A frota de bloqueio, portanto, não sabia nada do que uma de suas naves havia feito a um cruzador terrano.
Não foi fácil para Tifflor dominar a tensão. Seu olhar atento não perdia aquele ponto de luminosidade fosca no meio das estrelas brilhantes, passando dali para a mancha pardacenta da zona de superposição, que, apesar dos rigorosos cálculos para as transposições, ainda estava a dois anos-luz da Infant.
Os arcônidas levariam dez minutos para fazer chegar até ali o pelotão de aprisionamento. Será que este tempo daria para Ras Tschubai realizar seu intento?

* * *

Ras Tschubai não pensava em fazer o trajeto para a cabina de comando a pé. Sabia qual era a direção. Depois de esconder o homem de Iriam num local onde tão cedo ninguém o acharia, concentrou-se uns segundos, procurando mentalizar seu objetivo e saltou. Foi parar exatamente onde queria, mas a situação que encontrou não era bem a que imaginara.
Materializou-se bem no centro da sala de comando e esbarrou num objeto rígido e bem grande. Cambaleando, abriu os olhos e viu que tinha “atropelado” um robô arcônida. O homem-máquina voltou-se imediatamente contra ele, apontando-lhe a arma. Ras Tschubai retesou os músculos!
Porém não aconteceu nada do que esperava. A arma continuou apontada para ele; parecia, no entanto, que o robô não tinha ordem para atirar.
A sala de comando estava repleta de robôs. Mas depois que um deles já ocupara-se com o invasor, os demais não se preocuparam com o incidente e cada um continuou tranqüilo seu trabalho. Mas havia ali mais um ser orgânico, além de Ras Tschubai. De boa estatura, sentado numa poltrona baixa e confortável, este homem de cabelos brancos fazia como se nada do que estava acontecendo lhe dissesse respeito.
Era indiscutivelmente um arcônida, talvez até o comandante nominal da espaçonave. Ras Tschubai o examinou atentamente, apesar da arma do robô apontada para ele. Mas, mesmo que o arcônida tivesse notado seu aparecimento na sala de comando, isto não lhe interessava agora. Seu rosto inteligente dava mostras de indiferença, parecendo até aborrecido.
Notando que do robô não podia advir nenhum perigo imediato, Ras Tschubai começou a raciocinar mais calmamente. Passou a pensar por que os robôs estavam todos na sala de comando, se a presença deles ali tornava-se desnecessária, pois ali era o local de onde a positrônica governava a nave.
Descobriu logo. Viu uma chapa de metal plastificado, que estava desparafusada, e notou que dois robôs desciam por um enorme poço para cabos de comando. A situação era bem cômica para ele: alguma coisa não funcionava bem no possante encouraçado arcônida e os robôs estavam preocupados em consertar o defeito.
Em conseqüência da intensa movimentação dos robôs, o barulho era muito grande. Teve de gritar para que o arcônida de cabelos brancos o pudesse ouvir:
Você não pode ordenar a seu robô que me deixe em paz? — perguntou ele em arcônida.
Vagarosamente, o arcônida virou a cabeça e fitou Ras, com olhar de indiferença.
Pelo que estou vendo, ele não o está incomodando.
Ras deduziu as palavras mais pelos movimentos labiais, do que pelo que ouviu, pois o arcônida não fez o menor esforço para aumentar um pouco a voz.
Quero dizer, será que o senhor não pode mandá-lo embora?
Não, isso eu não posso fazer, meu filho. Não sei por que os robôs não me obedecem.
Ras desistiu. Este arcônida não lhe podia ser útil. Ras tinha de contar com suas próprias forças, se quisesse ter sucesso. E isto parecia difícil. O robô, com o braço levantado e a arma pronta, não o perdia de vista. E Ras Tschubai sabia que não havia a menor possibilidade de distraí-lo, muito menos de dominá-lo.
Nem por isso, porém, tinha a intenção de desistir de sua missão. Sabia de sua responsabilidade, do que estava em jogo. Custasse o que custasse, tinha que sair vitorioso.
Olhando em volta, veio-lhe uma idéia à cabeça. O negócio não era nada seguro, mas para a situação em que estava, bastava uma chance, por menor que fosse. Não podia mudar o quadro que ali estava.
O plano do Coronel Tifflor supunha que Ras encontraria a cabina de comando vazia e era só desligar o robô central e ligar o comando manual. Aí, então, ele executaria uma transição que o levaria para fora das fronteiras das Galáxias, de onde a nave arcônida não conseguiria mais voltar, nem dar sinais de si. O suprimento energético de cada nave tinha um determinado limite. Se esta reserva fosse consumida numa longa transição, a nave chegaria a um ponto de onde não podia mais sair por força própria. Este era o plano de Tifflor. Mas bastava que Ras Tschubai desse um passo na direção do comando manual para que o vigilante robotizado o matasse com uma descarga energética.
Só lhe restava uma única possibilidade. Ras fechou os olhos, não sabendo se o robô ia estranhar este procedimento. Esperou ansioso uns segundos, e quando percebeu que nada acontecia, começou a se concentrar. Conhecia as naves deste tipo e sabia onde se localizava o conjunto de propulsão...

* * *

O sargento Fryberg deu um pulo.
Um rádio, senhor! Tifflor virou para trás.
Em código?
Não, senhor. Normal e bem legível.
O mecanógrafo acoplado ao rádio mostrava também uns sinais gráficos da escrita dos arcônidas. Fryberg nada entendia desta língua. Sabia, porém, que o aparelho não funcionaria se o rádio fosse cifrado. Foi com grande admiração que Tifflor leu:

Avaria positrônica. Enguiço no canal principal. Pedimos ajuda técnica.

Tifflor estava perplexo.
Seria isto obra de Ras Tschubai? Se o fosse, por que razão não fez o que lhe fora ordenado? E mais, por que motivo uma nave robotizada iria se utilizar da língua arcônida a fim de chamar a atenção de outras naves também robotizadas para sua situação de emergência? Os robôs se comunicavam por intermédio de simples impulsos eletrônicos. Para que então esta mensagem tão explícita?
Captou ainda qualquer outra coisa, Fryberg? — perguntou-lhe Tifflor.
Sim. Havia ainda uma série de pequenos impulsos.
Que naturalmente devem significar a mesma coisa”, completou mentalmente Tifflor.
Quer dizer então que enviaram a mensagem em dois canais: primeiro para as antenas dos robôs e depois para os ouvidos dos arcônidas. E por quê? Qual é o arcônida que exerce um cargo tão importante que tem de estar informado de tudo que se passa nas milhares de naves?
Esta questão de avaria podia explicar o motivo do atraso do pelotão de aprisiona-mento, embora já fossem decorridos vinte minutos depois da primeira advertência dos arcônidas ou de seus robôs. Se o canal central estava enguiçado, poder-se-ia deduzir que não lhes era possível abrir nenhuma escotilha.
Ou seria tudo isto um truque? Estariam tentando forçar a Infant a empreender a fuga, para então terem um pretexto para destruí-la? Um defeito positrônico deixaria fora de uso alguns postos de canhões e baterias, mas não todos. Talvez esperassem que a Infant fosse tentar a fuga.
Tifflor tinha no rosto um sorriso zombeteiro. Não iria de maneira alguma dar-lhes esta oportunidade.

* * *

Trabalhando com rapidez, Ras Tschubai foi “abrindo” seu caminho para o conjunto de propulsão. Ao perceber que o corredor que dava para lá estava vazio, ainda deteve-se por cinco minutos, refletindo, cheio de escrúpulos, se estava certo fazer o que planejava. Teve que se conscientizar de que se tratava do destino da Humanidade. Lembrou-se de que o regente robotizado, conforme as coisas iam se encaminhando, haveria de descobrir, através da confissão forçada de um ou outro membro da tripulação da Infant, a verdadeira posição da Terra. Procurou imaginar o que aconteceria quando uma frota de cinqüenta mil naves arcônidas atacasse o sistema solar terrano e fosse destruindo um planeta após o outro.
Depois disso, não teve mais escrúpulos. Estava resolvido a fazer o que se propusera.
Para um homem experimentado, profundo conhecedor da técnica galatonáutica, não era difícil fazer com que os reatores nucleares funcionassem com sua capacidade máxima e vedassem de tal modo todos os escapamentos. Pelas suas dimensões, isto levaria uns quinze minutos até a plena saturação e até que a fusão controlada se tornasse incontrolável e, sob a pressão de um acúmulo exagerado de energia, viesse a explodir, destruindo a nave arcônida com a violência de cem bombas de hidrogênio.
Provavelmente, aquele robô, de cujas lentes eletrônicas ele conseguira escapar, já teria ligado o alarme no posto de comando lá em cima. Certamente, todos os robôs estavam agora à sua procura, tentando descobrir o que ele tencionava fazer.
Haveriam então agora de procurá-lo por toda parte, e até que os robôs chegassem ao recinto dos propulsores, a nave já teria explodido. Já que a positrônica não estava funcionando, ninguém poderia descobrir lá em cima que os reatores estavam funcionando de tal modo que, em pouco tempo, haveriam de explodir.
Com a calma de sempre, Ras reexaminou detalhadamente tudo que fizera ali no mecanismo de propulsão. O africano de boa estatura parecia um anão ali, aos pés daquelas máquinas monstruosas. Outra vez foi assaltado pela dúvida se tinha agido honestamente. Na realidade, estas dúvidas agora não adiantavam mais nada. A esta altura, o destino da nave arcônida já estava selado. Ras não podia fazer mais nada. A energia nuclear ali gerada seguia seu curso. Ras só tinha uma opção: sair dali o mais cedo possível.
Cerrou os olhos e se concentrou para o f pulo. Mas ao invés da Infant, surgiu diante de seus olhos mentais aquele homenzinho, que encontrara no convés de baixo e que lhe indicara o caminho para a central de comando. Havia-lhe prometido que nada lhe aconteceria, quando o imobilizou com a pistola energética!
Tentou banir esta visão. Dos quinze minutos, pelo menos dez já haviam passado. Ainda mais, se tomasse em consideração que não marcara bem o tempo exato, já poderia estar correndo perigo...
Conseguiu fazer desaparecer a imagem do homenzinho da pinça automática de recolher lixo, voltando-lhe novamente a figura da Infant. Deixou o quadro crescer, até poder ver nitidamente através da parede da cabina de comando.
Foi então que pulou.

* * *

Julian Tifflor não percebeu o que se passava atrás dele. Ouviu um barulho qualquer e sentiu que alguém dera dois passos às suas costas. Mas seu olhar e sua atenção estavam concentrados na tela panorâmica onde se via o ponto de luz fosca da nave arcônida. O que até agora se distinguia tanto das estrelas, por seu tipo de claridade opaca — uma poeirazinha no infinito — se estufou de repente, centuplicou sua luminosidade, transformando-se num sol radiante. Um disco de luz intensa, duas vezes maior que a lua cheia da Terra, surgiu subitamente das trevas e Tifflor foi obrigado a cerrar os olhos, pois a claridade era de ofuscar.
Não se ouviu o menor ruído.
O homem acostumado às maiores explosões, não estava compreendendo o que se passava lá ao longe. Uma espaçonave explodia. Silenciosa, fulgurante como um sol, ia pelos ares num inferno atômico de proporções nunca vistas.
Esgotado e muito tenso, Julian Tifflor se virou para trás. A dois passos dele, estava imóvel Ras Tschubai. Foram seus passos que ouvira antes. O africano correspondeu a seu olhar, com sentimento de culpa, e explicou:
Não foi possível fazer de outra maneira. A sala de comando estava repleta de robôs, que consertavam alguma coisa. Não podia nem mexer um dedo, sem que algum deles o percebesse.
Tifflor compreendeu a situação.
É difícil para a gente — disse ele pensativo — poder julgar se você agiu corretamente. Mas não tenho nenhuma dúvida de que você fez o melhor possível.
Ras Tschubai respirou aliviado.
Santo Deus!”, pensava Tifflor zangado consigo mesmo. “Que está acontecendo comigo? Os arcônidas mandam pelos ares planetas inteiros, destruindo tudo, sem pestanejar, e eu aqui cheio de escrúpulo só porque uma de suas naves robotizadas foi espatifada?
Tifflor procurou tirar estes pensamentos da cabeça. A nave arcônida, pouco antes de explodir, havia enviado mensagem pedindo socorro. Este socorro chegaria a qualquer momento e seria muito conveniente para a Infant não ficar na proximidade do “acidente”.
Aliás, o próprio pedido de socorro devia servir de explicação suficiente às naves que viessem em auxílio de sua irmã acidentada. A grande nave esférica estava com uma avaria positrônica, conforme o rádio enviado. Num caso destes, podia acontecer de tudo, inclusive uma super expansão dos reatores nucleares. Não poderiam nunca culpar a Infant.
Assim, mais uma parte do plano tinha sido bem sucedida. Restava-lhe ainda outra fase, a mais espinhosa. Tinha de penetrar na zona de superposição e cumprir sua missão junto dos druufs.
Julian Tifflor tocou sua nave para frente. Acelerou rumo à indecisa neblina avermelhada, provocando a transição, ao atingir a velocidade necessária. Até aí, não havia nenhum indício de que alguma nave arcônida houvesse localizado os “desertores” da Terra.
E o grupo desejava que tudo continuasse assim.
4



Para os conceitos arcônidas, Door-Trabzon era um homem esquisito, embora parecesse muito com um arcônida. A expectativa geral era de que ele apenas assumiria o comando da frota de reconhecimento, composta de vinte mil unidades, e, no mais, deixasse todo o trabalho entregue aos robôs, ficando ele comodamente sentado, observando o desenrolar da interessante programação do projetor fictício.
Door-Trabzon realmente aceitou o comando, mas não fez nada daquilo que se esperava dele. Era um ekhônida. Os ekhônidas, descendentes de emigrantes arcônidas, conservaram a estatura e a língua de seus antepassados. Porém, em suas ações, eram muito diferentes de seus “primos”, os arcônidas legítimos. Estes últimos, devido a muitos milênios de paz, de bem-estar e de total poder sobre a Galáxia, tornaram-se uma raça decadente, preguiçosa e apática.
Já os ekhônidas eram homens de ação. Principalmente Door-Trabzon, um alto oficial da frota, composta de pelo menos trezentas naves, a quem não se podia oferecer coisa melhor do que o comando da armada arcônida de vinte mil unidades. Ele, homem de iniciativa, tinha a intenção de se mostrar digno do cargo. Fazia questão de estar a par de tudo que acontecesse na frota de reconhecimento e queria que pelo menos a metade das decisões dependesse dele. A outra metade — e aí não podia fazer nada, estava fora de sua alçada — pertencia à positrônica central.
Desde que Door-Trabzon havia assumido o comando, as naves arcônidas não se comunicavam mais com simples impulsos de hiperrádio, mas transmitiam suas mensagens diretamente em arcônida, de maneira que ele mesmo as pudesse entender.
A nave capitania de Door-Trabzon era uma espaçonave esférica do tipo mais possante. Ao tomar posse dela, seu nome era simplesmente KK XVII. Chamava-se agora Wa-Kelan, nome do maior guerreiro da história ekhônida. Door-Trabzon, sentindo-se orgulhoso da nave e de seu nome, mantinha sua tripulação, entre a qual se contava um batalhão de robôs, em constante movimento.
Soube do defeito positrônico que acontecera com uma de suas naves, a três anos-luz da Wa-Kelan. Não lhe foi nada agradável deslocar uma nave de reconhecimento só para realizar o conserto positrônico. Mas, não havia outra solução. Mandou um transporte bem armado.
Depois de alguns minutos, a nave enviada comunicou que não encontrara mais o grande couraçado de oitocentos metros de diâmetro. Avisou que, no local onde tal nave estava, uma nuvem fina espalhava-se rapidamente. Os tripulantes analisaram esta nuvem e chegaram à conclusão de que, com pequenas variações, era a mesma composição da nave de oitocentos metros. Ocorrera, pois, uma explosão.
Door-Trabzon soltou impropérios quilométricos, sem com isto perder a calma. Era senhor de mais de vinte mil aparelhos e mesmo se um ou outro desaparecesse, ainda seriam vinte mil.
Foi um bom castigo para a tripulação. Mesmo com falha positrônica, pode-se fazer com que os reatores sejam reduzidos ao mínimo, para não acumular excesso de energia — balbuciou.
Para Door-Trabzon havia coisas muito mais importantes do que a perda de um aparelho. Estava no encalço de um terrano. Não sabia bem por que se mandava vinte mil naves atrás de um único aparelho terrano, mas já que a vantagem era toda para ele, estava tudo bem. Porém, o regente lhe havia garantido que não se tratava propriamente de vida e morte para Árcon. Contudo, era muito importante que se pegasse a nave terrana.
Door-Trabzon não tinha a menor dúvida de que o inimigo não lhe escaparia. A frota de reconhecimento não estava dormindo. Movia-se de um canto para o outro, esquadrinhando cada quilômetro cúbico do espaço.
Se o terrano, aparecer”, pensou, “vou lhe preparar uma recepção honrosa.”

* * *

Fora bem sucedida a transição. Ali estava a muralha vermelho-escura do trecho de superposição, na tela panorâmica da Infant. A poucos milhares de quilômetros, abria-se o abismo em forma de uma garganta afunilada; mostrando o caminho que levava para o Universo dos druufs.
Era a primeira vez que Julian Tifflor ia percorrer este caminho. Já tinha formado a mentalidade para considerar este fenômeno como um problema físico-matemático. Mas, agora, ao ver diante de si a boca escancarada do abismo, não se sentiu muito bem. Aquela garganta de um vermelho estranho, pulsando lentamente, parecia mais com a entrada do inferno.
Antes disso, porém, a Infant ainda tinha outra tarefa. Teria de averiguar se seu salto fora captado pelos arcônidas. Com este objetivo, movia-se agora com o mínimo possível de velocidade, na direção da garganta incandescente. O sargento Fryberg, com seus dois soldados, estava ocupado em captar qualquer mensagem pelo telecomunicador.
Esta tarefa era antes de tudo uma questão de estatística. A frota terrana já conhecia a “densidade de comunicação” neste setor do espaço. O número de telecomunicações que se realizavam por segundo entre as naves da frota arcônida era quase constante. A bordo da Infant, logo após o encontro com o aparelho avariado dos arcônidas, constatara-se que tal número aumentara, a partir da última medição feita por naves de patrulhamento da Terra, pelo fator 1,333. Mas isto não tinha nada a ver com o aparecimento da Infant, pois o valor não aumentara depois do aparecimento da Infant, mas permanecera igual ao que era desde o começo.
Também não havia diminuído a partir de então. Tudo isto apenas queria dizer que o número dos aparelhos arcônidas também havia aumentado pelo fator 1,333. Era um bom sinal, pois provava que o regente de Árcon tinha caído na armadilha dos terranos e fazia um esforço ingente para capturar a nave dos “desertores”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html