Muito
estranha foi a expressão com que o médico fitou o administrador.
— Os
robôs? — repetiu. — O senhor acha que um robô, que afinal é
feito de metal, pode contrair uma doença infecciosa? Não senhor;
não sou capaz de imaginar uma coisa dessas. A Medicina não conhece
nada disso. Por que teve essa idéia?
— Trata-se
apenas de uma suspeita, doutor. Mais tarde conversaremos melhor a
este respeito. Providencie já o início de uma quarentena para a
Terra. Nenhuma nave deve decolar ou pousar. As naves, que tenham
decolado depois do pouso da Drusus, deverão regressar imediatamente.
Se alguma delas já tiver pousado em outro planeta, este fica
submetido às mesmas normas aplicáveis à Terra.
— Sir,
pelo amor de Deus, quais são seus receios? — perguntou o doutor
Haenning.
— Eu lhe
direi assim que tivermos os primeiros resultados dos exames —
respondeu Perry Rhodan com uma calma, que produziu um efeito
hipnótico.
Desligou o
telecomunicador e o intercomunicador. Lançou um olhar curioso para a
mão. Os pontos haviam crescido, transformando-se em pequenas
manchas. A velocidade com que cresciam era assustadora. O comichão
que acompanhou o fenômeno cessou no momento em que os pontos
começaram a modificar seu formato.
— Trouxemos
à Terra uma mensagem de morte dos acônidas. Sim, fomos nós mesmos.
Um presente de grego. Não foi por brincadeira que construíram uma
estação de transmissor no sétimo planeta.
— Mas o
que foi que eles nos mandaram por meio dessa coisa maldita? —
esbravejou Bell. — Não vimos nada, e os cinco robôs científicos
que fizemos sair da nave não constataram coisa alguma.
— Isso
não prova que realmente não saiu nada do transmissor. Bell, não se
esqueça da segunda onda de choque. Você não acha que a esta hora
já podemos compreender o que significa aquela superposição? Os
acônidas acham que somos capazes de captar e interpretar ondas de
choque, mas também nos julgam capazes de adotar uma conduta
irresponsável. E agora...
Mais uma
vez, o sistema de comunicação chamou. O Serviço de Saúde Solar
pedira uma ligação com Rhodan.
Uma hora e
meia depois do pouso da Drusus, já havia cinco grandes áreas de
infecção na Terra.
Rhodan
estremeceu em meio à palestra.
— Bell,
esquecemo-nos das estações de transmissores da Lua. Providencie
imediatamente...
— Sir —
interrompeu-o o interlocutor do Serviço de Saúde — as
providências chegariam tarde. Neste momento estamos recebendo uma
informação vinda da Lua, segundo a qual por lá irrompeu uma
misteriosa doença da pele, que provoca comichão.
Deringhouse
soltou um gemido.
*
* *
Com o
tempo até as notícias mais calamitosas deixam de produzir qualquer
efeito, se o conteúdo sempre for o mesmo.
Doze horas
após o pouso da Drusus, sabia-se que vinte e um milhões de seres
humanos, que se encontravam na Terra e na Lua, haviam contraído a
misteriosa doença. Até mesmo de lugares bem afastados, que não
tiveram o menor contato com qualquer portador da infecção, vieram
notícias de que ali a doença se havia manifestado.
Com isso e
com muitas outras coisas, o caso tornou-se cada vez mais misterioso.
Os resultados dos exames realizados nos robôs da Drusus foram
negativos, e o mesmo aconteceu com os exames de algumas centenas de
doentes. As tentativas realizadas com os recursos mais modernos da
Medicina davam em nada, enquanto os sintomas da doença se
modificavam constantemente.
O doutor
Koatu não sabia por que pegou seu projetor hipnótico e saiu à caça
de alguns pássaros cantores. E não se espantou ao notar que até
estes também foram atacados pela doença.
No
interior de Terrânia, uma cidade totalmente contaminada, não havia
qualquer restrição à liberdade de movimento. O doutor Koatu não
teve a menor dificuldade de chegar à Drusus.
Interessou-se
pelo envoltório externo da nave. A sala de comando foi informada
sobre sua atividade e transmitiu a informação ao chefe.
— Ligue-me
com o doutor Koatu! — pediu Rhodan.
— Sir,
ele não quer ser incomodado — respondeu Poul Naya, com a voz
tímida.
Apesar da
situação crítica, Rhodan ainda conseguiu rir.
— Bem,
meu caro, acho que fomos postos fora de ação. Quem manda no Império
Solar são os médicos. Reze para que eles descubram logo a causa da
infecção, Naya.
O doutor
Koatu estava enfiado num traje espacial e planava a trezentos metros
de altura, do lado de fora da Drusus. Dedicava sua atenção às
estranhas manchas de sujeira, que haviam atacado a carcaça. Koatu
ainda não conseguira raspar a menor partícula dessa sujeira.
Resolveu
subir mais um pouco, mas naquele instante viu à sua esquerda uma
mancha de aspecto diferente, que lembrava uma camada de gelatina.
Koatu, que
já estava contaminado, venceu seu estado de letargia mórbida e, com
o entusiasmo irresistível de pesquisador, precipitou-se sobre o
local em que aparecera a estranha mancha. Colocou a raspadeira, mas
logo estremeceu de susto.
Seu rosto
denotava pavor. Seus olhos arregalaram-se até adquirirem um tamanho
descomunal. Os lábios tremiam.
No momento
em que pretendia tocar a mancha com a raspadeira, a “gelatina”
começou a desprender-se da superfície esférica da Drusus e
modificou seu aspecto coloidal.
A matéria
adquiriu a transparência do vidro e parecia volatilizar-se, sem
demonstrar a menor reação diante da forte turbulência que se
verificava a mais de trezentos metros de altura.
Koatu não
acreditou no que seus olhos viam. A modificação daquela mancha de
um metro quadrado era um fenômeno pavoroso, que parecia contrariar
todas as leis da natureza. Mas o pior era que a massa vítrea
procurava fixar-se no traje espacial de Koatu. O cientista teve a
impressão de ter sido localizado pela “gelatina”.
No momento
em que voltou a olhar para a superfície de aço, soltou um grito.
Não havia
mais nenhuma mancha de sujeira nesse ponto da Drusus. Em compensação
esta aparecia em seu traje espacial, e voltara a assumir o aspecto de
uma camada de gelatina e de espessura variável.
— Isto
até parece plasma! — disse num gemido.
Sentiu o
pavor sacudir seu corpo debilitado pela doença. Uma terrível
suspeita surgiu em sua mente...
Plasma!
Aquilo era gosmento, disforme e de configuração variável; uma
mistura coloidal viscosa de complicados compostos de proteína e
substâncias inorgânicas.
Koatu
recapitulou os conhecimentos que há mais de dez anos se haviam
fixado em sua mente. Mas o plasma que aparecia na superfície de seu
traje espacial era diferente de todos os plasmóides que conhecera
até então.
Um
chamado, captado pelo receptor de capacete, arrancou-o do estado de
pavor.
— Alô,
doutor! Encontrou alguma coisa? Sua respiração é estranha! —
disse Gentkirk, um colega, que se encontrava na clínica.
— Venha
buscar-me. O bicho está em cima de meu traje espacial. Venha num
traje espacial fechado e traga um pedaço de pão.
— Pão?
— perguntou o outro interlocutor, em tom de espanto. — E que
bicho é esse? O senhor se sente muito fraco, Koatu?
— Venha
buscar-me logo, Gentkirk — disse Koatu, em tom insistente. — O
monstro está em todos os lugares... Não se esqueça do pão!
— Ficou
louco!
Koatu
ouviu seu colega dizer estas palavras a outra pessoa que se
encontrava na clínica. Depois a ligação foi interrompida.
Dali a
alguns minutos, o planador mais veloz do instituto de pesquisas
correu em direção à Drusus, a fim de buscar o Dr. Koatu. Os dois
ocupantes, que envergavam trajes espaciais, levavam um pedaço de
pão.
Koatu viu
o planador aproximar-se. Ainda pairava a trezentos metros de altura,
junto ao corpo esférico da Drusus. Ligou apressadamente o rádio de
capacete.
— Não
aterrissem. Venham até aqui. Embarcarei diretamente, senão o
monstro acabará fugindo. Aí embaixo há muita gente.
— Iremos!
— respondeu Gentkirk e lançou um olhar significativo para seu
colega.
Gentkirk
acreditava que Koatu tivesse enlouquecido. Provavelmente nele a
doença chegara a um estágio mais avançado que nos outros.
Koatu
entrou no planador.
— Onde
está o pão? — mais uma vez comunicou-se pelo rádio de capacete.
Gentkirk
apontou para a direita.
— Estão
vendo a mancha em meu traje? Observem-na atentamente. Daqui a pouco o
bicho... olhem, já começa a modificar-se. Localizou o pão. Estão
vendo o fluxo transparente que se dirige ao pão?
Koatu
falava com a voz rouca e entrecortada pela emoção. O médico
mantinha-se imóvel e viu que, dez segundos depois, a mancha
gelatinosa desapareceu do traje espacial.
Gentkirk
já não acreditava que Koatu estivesse louco. Ambos não riram da
afirmativa de que o plasma acabaria por localizar o pão.
— E
agora? — perguntou Gentkirk, perplexo.
— Vamos
lá! — disse Koatu. Pegou a raspadeira e empurrou o pão para
dentro de um pequeno recipiente, que se fechou e lacrou
automaticamente. — Agora este bicho não poderá mais fugir, quando
passarmos perto de alguma pessoa.
Não sabia
que no Sistema Azul o bicho tinha nome: costumava ser chamado de
Mal-Se.
*
* *
Mal-Se era
um monstro feito de proteína, que se caracterizava por uma
voracidade insaciável. Realmente era capaz de localizar substâncias
protéicas estranhas ao seu corpo. E toda localização positiva
provocava naquela figura de plasma, feita de bilhões de partes, uma
reação instintiva; fazia com que abandonasse sua configuração
gelatinosa disforme e se tornasse transparente, quase chegando a ser
invisível. Uma vez atingido esse estado, utilizava seu impulso
localizador para, com base nele, mover-se rapidamente e atacar as
substâncias orgânicas ou compostos protéicos.
— Sir —
disse o doutor Koatu, prosseguindo no relatório fornecido a Rhodan.
— Este ser é resistente ao vácuo, ao frio, aos gases e aos
ácidos. Só é destruído por temperaturas superiores a treze mil
graus centígrados. Seguindo seu hipotético raio localizador, cuja
presença neste breve espaço de tempo ainda não conseguimos
constatar de forma inequívoca, desloca-se à velocidade de
setecentos quilômetros por hora. E o plasma localiza compostos
protéicos a uma distância de vinte quilômetros.
“Sir,
não existe a menor dúvida de que esse plasma é o agente causador
da doença que grassa na Terra e na Lua. Não temos a menor chance de
deter a propagação da moléstia, pois o plasma se multiplica à
razão de alguns bilhões de vezes por segundo. Pelos nossos
cálculos, dentro de dezesseis meses, no máximo, a Terra estará
coberta por uma camada de plasma de um metro de espessura e não
haverá mais um homem vivo.”
Tal qual
acontecia com todas as pessoas atacadas pela doença, Perry Rhodan
fitou o rosto de Koatu, desfigurado por hematomas, e sabia que seu
aspecto não era melhor.
As mãos,
os braços, o corpo, todos os membros estavam cobertos por hematomas
traiçoeiros. Eram pontos de fixação do plasma, que a cada segundo
penetrava mais profundamente na pele, multiplicando-se sempre.
Ainda não
fazia vinte e quatro horas que a doença grassava na Terra, mas já
havia atacado a quinta parte dos terranos.
Os
acônidas deram um verdadeiro presente de grego aos terranos!
— Querem
exterminar-nos como se fôssemos animais daninhos — disse Bell,
assim que o doutor Koatu concluiu seu relato. — E conseguirão, a
não ser que aconteça um milagre, Perry.
— O
milagre só poderá vir de Árcon, gordo. Agora, que já dispomos de
alguns dados, posso entrar em contato com Atlan. Ele terá de
consultar o grande centro de computação. Se este não conseguir nos
ajudar, dentro de três meses, no máximo, tudo estará no fim, pois
o tempo de vida dos que contraem a doença não é maior que este.
Vou chamar Atlan.
A grande
estação de hiper-rádio de Terrânia estabeleceu contato com o
mundo de cristal, recorrendo a uma faixa de ondas, reservada
exclusivamente às comunicações instantâneas entre Rhodan e Atlan.
— Alô,
bárbaro! — disse Atlan a título de cumprimento, e só depois
disso viu o rosto do amigo, desfigurado pelos hematomas. — Perry, o
que houve com você? Por que está com esse aspecto?
— É
justamente por isso que estou chamando, arcônida — respondeu
Rhodan. — Todos os terranos estão precisando de seu auxílio.
Fomos atacados por um insaciável ser de plasma. Meu rosto constitui
um exemplo do aspecto que os doentes apresentam vinte e quatro horas
depois de terem contraído a moléstia.
— Quantas
pessoas já adoeceram? — perguntou Atlan.
— A
quinta parte da população da Terra, amigo. As condições reinantes
na Lua são semelhantes. A única proteção contra a doença é um
traje espacial fechado.
Na tela
viu-se que os olhos avermelhados do arcônida começaram a chamejar
cada vez mais fortemente de emoção.
— O que
sabem a respeito da doença? Sabem de onde veio?
— É um
plasma, que se precipita com uma ferocidade tremenda sobre qualquer
composto protéico ou substância orgânica. Ê capaz de localizar
qualquer alvo que contenha proteína e atinge a velocidade de
setecentos quilômetros por hora. A Drusus deve ter trazido a
terrível doença do sistema Orion. Em virtude de um feliz acaso e
graças ao trabalho de um médico, há uma hora sabemos do que se
trata. Mas é tudo que sabemos. Compreende a razão do meu pedido,
arcônida?
Perry
Rhodan ainda não revelou ao imperador de Árcon quem fizera o
presente mortífero à Terra, e como o ser de plasma havia entrado na
Drusus.
— Perry,
você está irreconhecível, e esses sintomas surgem vinte e quatro
horas após a contaminação?
— Isso
mesmo. A doença começa com pontinhos vermelhos na pele, do tamanho
de uma cabeça de alfinete. Nas primeiras duas horas, estes produzem
uma comichão e espalham-se lentamente. Mas acho que é preferível
dispensar estas explicações de leigo e transmitir-lhe o resultado
das investigações por meio de uma mensagem condensada.
— Envie
o material imediatamente ao centro de computação de Árcon III,
Perry. Mandarei que o mesmo verifique se por aqui se tem conhecimento
de um caso semelhante. O que é que você acaba de dizer? Não falou
num presente mortífero?
Perry
Rhodan ocultou seu espanto. Sabia perfeitamente que só pensara
nisso, mas não pronunciara essas palavras. Entretanto antes que a
pergunta provocasse qualquer desconfiança em sua mente, lembrou-se
do rosto desfigurado que mostrava ao amigo, e que devia ser a causa
da observação que Atlan acabara de fazer.
— Atlan,
a pessoa atacada por este plasma não tem mais que três meses de
vida.
O
arcônida, que, no curso dos últimos dez mil anos, vivera todos os
grandes lances da História da Terra e tivera de acompanhar o destino
de inúmeras pessoas, deu mostras de um profundo abalo psíquico.
— Três
meses, Perry? Confie em mim, amigo. O que eu puder fazer será feito.
Pelos deuses de Árcon, de onde veio essa doença infernal?
— Do
sétimo planeta de Beta, que é um mundo de metano, Atlan.
Rhodan
exprimia-se cautelosamente. Evitou toda e qualquer mentira; preferiu
que o amigo se contentasse com os dados escassos que acabavam de ser
fornecidos.
— O que
estão fazendo seus mutantes, Perry?
Rhodan fez
um sinal de desânimo.
— Estão
tão mal quanto eu, arcônida.
*
* *
A Terra
foi sacudida por quatro ondas de pânico, que lembravam a época
sombria da Idade Média em que a peste inundou a Europa.
Tortos os
meios de comunicação da massa pediam aos terranos que se
conservassem calmos e cuidassem do seu trabalho.
Logo se
constatou que uma explicação franca contribuiria muito mais para
acalmar os homens que uma série de promessas vagas.
Ao que
parecia, durante as primeiras vinte horas, o hemisfério sul não foi
atacado pelo plasma. Mas mesmo de lá, acabaram chegando notícias de
que a infecção se espalhava com uma rapidez vertiginosa.
Allan D.
Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, também não foi
poupado pela doença, mas da mesma forma que Rhodan continuou a
exercer suas funções.
O ser de
plasma atacara a cultura de germes da doença de endurecimento
intestinal, que para ele representava uma verdadeira guloseima, e a
divisão dos respectivos biogenes proporcionou-lhe outra oportunidade
de multiplicação.
O monstro
de plasma era um meio que, segundo o provérbio, servia para expulsar
o demônio com Belzebu.
Mercant
pediu uma ligação com a estação de hiper-rádio. Falou com o
médico-chefe da nave-hospital III. Essa nave, a Nil e a UG DVI
permaneciam no mesmo lugar do espaço.
A tela
mostrou a cabeça do professor Degen. Seu aspecto não era melhor que
o de Mercant; também tinha o rosto desfigurado pela infecção de
plasma.
— Quero
fazer-lhe uma pergunta, professor — principiou Mercant. — Como
vai a doença de endurecimento intestinal a bordo da nave dos
saltadores?
— Por
que faz essa pergunta, Marshall? — perguntou o professor Degen, que
devia ter encostado o rosto junto à objetiva, pois este parecia
querer sair da tela que Mercant contemplava.
— Tenho
à minha frente o relatório fornecido pela Divisão de Doenças
Infecciosas de Terrânia, professor. Refere-se em tom de amargura ao
desaparecimento das culturas do germe. O plasma devorou-o, a fim de
multiplicar-se ou subdividir-se. O senhor sabe que não sou muito
firme na Medicina. Já compreende o motivo de minha pergunta?
— Compreendo.
Seguiu-se
uma pausa. O professor balançou a cabeça, num gesto de resignação.
Contemplou as mãos desfiguradas e prosseguiu:
— A
doença de endurecimento intestinal desapareceu subitamente a bordo
da UG DVI. Já começo a compreender aquilo que, para mim e meus
colegas, representava um mistério indecifrável.
“A
infecção de plasma modificou o germe causador da doença,
conferindo-lhe sua estrutura protéica. Talvez seja por causa da
infecção de plasma que no momento não consigo resolver a situação.
Um acaso traiçoeiro fez com que descobríssemos um meio de curar a
doença de endurecimento intestinal, mas em compensação a pessoa
que contraiu a doença será transformada, dentro de três meses no
máximo, num corpo protéico disforme.”
O Marechal
Mercant sobressaltou-se. Seu rosto estava desfigurado.
— O que
será feito da pessoa que contrai a infecção do plasma, professor?
Será que entendi bem o que o senhor acaba de dizer? Uma massa
disforme de proteína?
— Não é
só isso, marechal. Seremos todos transformados em monstros de
plasma. Seremos iguais ao plasma que hoje nos ataca.
— E
quando tivermos sido transformados, devoraremos os homens que ainda
não tenham sido atacados, professor?
— Será
mais ou menos isso.
Allan D.
Mercant, um homem que graças às duchas celulares do planeta
Peregrino não envelhecera mais, soltou um muxoxo e desligou.
Preferiu não contemplar as mãos desfiguradas pelos hematomas.
Empurrou para o lado o relatório da Divisão de Doenças Infecciosas
de Terrânia e bocejou.
Os médicos
haviam previsto o cansaço exagerado. Este marcaria o segundo estágio
da doença, que dentro de quinze ou vinte dias iria terminar com uma
paralisia ligeira, para dar início ao terceiro e penúltimo estágio.
Não se
sabia o que aconteceria ao doente nesse terceiro estágio.
— Que
belo presente nos deram os acônidas! Que povo maldito! — disse
Mercant para si mesmo.
Mas o
velho perito em matéria de segurança ainda dispunha de reservas de
energia para espantar os pensamentos sombrios e voltar a dedicar-se
ao trabalho.
Dali a
pouco chamou e colocou seus especialistas em estado de alarma. Dos
oito homens altamente qualificados apenas um ainda não contraíra a
doença do plasma.
— Boyd,
cuide do assunto. E se não conseguirem qualquer resultado positivo,
o plasma terá ganho a corrida contra os senhores. Acabo de saber que
este monstro de proteína tem uma predileção toda especial pelas
culturas da doença de endurecimento intestinal, por meio das quais
consegue multiplicar-se. Apesar disso gostaria que os senhores
conseguissem pôr as mãos nesse bando desumano que quis fazer seus
negócios com a doença de endurecimento intestinal. Leve estes
dados. Estes não deixam a menor dúvida de que os germes foram
cultivados na Terra, e de que a ampola quebrada foi produzida na
Terra. Trata-se de um caso raro. Façam tudo que estiver ao seu
alcance, para que possamos pôr fora de ação esses maus terranos.
Dispensou-os
e, assim que se retiraram, voltou a bocejar. Após isso informou
Rhodan sobre a palestra que acabara de manter com o professor Degen.
*
* *
As linhas
confusas, que surgiram na tela do receptor de hipercomunicação de
Perry Rhodan, anunciavam uma comunicação do gigantesco centro de
computação de Árcon III. Antes que a voz metálica se fizesse
ouvir, Rhodan transmitiu a ligação para o centro de pesquisas da
clínica de Terrânia. Queria que os pesquisadores fossem informados
imediatamente sobre os dados que seriam fornecidos pelo grande centro
de computação.
— Santo
Deus, tomara que o computador não nos decepcione... — disse
Reginald Bell, antes que a voz do gigantesco cérebro se fizesse
ouvir.
— Resposta
à consulta 973/3. De Sua Majestade, o Imperador Gonozal VIII, a
Perry Rhodan, Administrador do Império Solar:
“Durante
o segundo ano de governo de Sua Majestade Fufulgon IX, os habitantes
de três planetas colonizados por Ácon foram dizimados por uma
infecção de plasma. Para evitar a propagação da moléstia, o
imperador mandou que esses planetas fossem destruídos. Os mesmos não
existem mais.
“A
destruição dos três planetas aconteceu porque não havia remédio
contra a infecção de plasma. As pesquisas realizadas na época
limitaram-se à análise do plasma. Não se descobriu se a infecção
foi produzida propositalmente ou se surgiu casualmente.
“Resultados
da análise:...
Ansiosos,
Perry Rhodan, Reginald Bell e John Marshall ouviram as informações
do gigantesco centro de computação de Árcon III. Embora não
entendessem nenhum dos termos técnicos usados pelo computador, a
quantidade de dados fez com que tivessem esperança de que estes
servissem de base aos cientistas de Terrânia, para realizarem um
trabalho rápido e eficiente.
— Já
faz oito minutos... — cochichou Rhodan para Bell, cujo rosto estava
mais desfigurado pela infecção de plasma.
Depois de
oito minutos e onze segundos, a transmissão dos resultados da
análise, realizada pelo centro de computação de Árcon III, chegou
ao fim. O conjunto confuso de linhas marcou o encerramento. A ligação
foi interrompida.
Mas a
ligação com o centro de pesquisa continuava de pé.
Porém
esse centro não formulou qualquer comentário sobre o volume enorme
de dados vindos de Árcon III; e Rhodan não formulou nenhuma
pergunta pelo intercomunicador.
Não
permitia que alguém o interrompesse em meio às suas reflexões, e
agora achava que os homens, em cujas mãos repousava o destino de
todos os terranos, tinham o mesmo direito.
Com um
olhar, obrigou Bell a não pronunciar a observação que o amigo
exaltado esteve a ponto de formular. Controlado como sempre, Marshall
olhou fascinado para a tela que reproduzia a imagem da junta médica.
O alto-falante transmitiu vozes confusas e ininteligíveis.
Viram o
doutor Koatu levantar-se. Esse médico, que nunca se destacara entre
seus colegas, parecia ter sua grande hora.
— Sir —
disse em tom exaltado — devo ressalvar a possibilidade de um
engano, mas creio poder adiantar que a análise de Árcon representa
um excelente ponto de partida. Segundo essa análise, trata-se de
proteína desnaturada, ou seja, um tipo de proteína formado da
substância natural, sob a ação do calor, dos ácidos, dos álcalis
e dos fermentos. Mas há uma novidade, que ainda não conseguimos
compreender: trata-se de uma proteína oticamente neutra, que não é
dextrogira
nem levogira.
É só o que posso dizer no momento, sir.
*
* *
Milhões
de seres humanos da Terra bocejavam, bocejavam e bocejavam.
Todos os
indivíduos atacados por essa estranha doença do sono estavam
desfigurados. Não havia nenhum remédio que removesse os hematomas
esponjosos que cobriam a pele. As partes do corpo atingidas pela
doença não se tornavam supersensíveis, mas a tensão que surgia
nas zonas não atingidas causava uma sensação de dor ininterrupta.
Três dias
haviam passado desde os momentos iniciais da doença. E há três
dias todas as emissoras de televisão procuravam convencer os homens
da Terra e da Lua a não perderem a calma. Não procuravam enchê-los
de promessas vazias. Com toda franqueza disseram que Rhodan e seus
colaboradores mais chegados foram atacados da infecção da mesma
forma que milhões de outros indivíduos.
No momento
em que a noticia foi transmitida, o jornalista Walt Ballin
encontrava-se no gabinete de Rhodan.
— Ballin
— disse Rhodan. — Está na hora de o senhor falar aos terranos. E
deve falar da forma que exigiu em seu artigo. Peça que lhe concedam
um horário de televisão que lhe seja conveniente. Não se esqueça
de pedir dez minutos para mim. Quero falar ao mundo, depois que o
senhor tiver falado.
Assim que
o jornalista se retirou, Bell disse em tom contrariado:
— Por
que não exigiu que ele lhe apresentasse antecipadamente a exposição
que pretende fazer? O que acontecerá se provocar nova onda de
pânico? Ouviu os últimos relatórios da polícia de Terrânia, meu
caro? Em nossa bela capital a ralé está saindo da toca, e o perigo
ronda todos os lugares. Isso até parece uma revolução; parece até
o fim do mundo. E nestas condições você ainda se arrisca a
permitir que Ballin diga o que quiser...
— Sim,
Bell. Eu...
Não
conseguiu falar mais nada. O tele-comunicador fez soar o alarma.
Muito nervoso, o chefe de transmissões da emissora de televisão de
Terrânia anunciou.
— Sir,
um certo Walt Ballin acaba de interromper a transmissão em seu nome
e está falando por intermédio de mais vinte e oito estações que
entraram em cadeia e cobrem todo o hemisfério norte...
— Passe
a transmissão para cá! Já! — interrompeu-o Rhodan.
Um brilho
estranho surgiu em seus olhos cinzentos.
— Santo
Deus! — disse Bell, num gemido. — Este jornalista está falando
de improviso. Vai ser uma coisa!
Foi uma
coisa formidável.
O discurso
que Walt Ballin dirigiu aos terranos foi formidável devido à
simplicidade e à convicção sincera. Ninguém poderia deixar de
acreditar no que dizia. Naquele momento, sua voz saía do
alto-falante:
— Sou
jovem. Tenho apenas vinte e sete anos. Ainda tenho muito para viver.
A tela lhes mostra como estou neste momento...
“Se não
houver salvação, terei três meses de vida, no máximo. Mas espero
que nestes três meses venha a salvação e nem penso em pegar uma
corda para enforcar-me.
“Qualquer
pessoa que se deixa dominar pelo desespero e põe fim à própria
vida jamais teve fibra para ser um cidadão do Universo. E eu quero
sê-lo; mesmo agora. Acredito que serei. E, neste momento, sei por
que acredito nisso.
“Acredito
porque sou um terrano, e o futuro abre-se diante de nós, mesmo que
no momento pretendam barrar nossos passos para o futuro por meio de
uma infecção de plasma...”
Reginald
Bell sentiu o olhar indagador de Rhodan pousado sobre si. Walt Ballin
continuava a dirigir-se aos homens do hemisfério norte.
— Meus
respeitos, Perry! O que será que este Ballin tem que consegue falar
de forma tão simples e tão convincente? Até mesmo eu sinto-me
atingido por suas palavras. Até tenho a impressão de que se dirige
especificamente a mim.
— Isso
acontece porque acredita no que está dizendo. Preciso ir ao
estúdio...
A vontade
de bocejar obrigou-o a interromper-se. No mesmo instante viu-se que
Walt Ballin também bocejava. Esse fato fez com que tecesse novas
considerações.
— A
infecção de plasma deixa-nos cansados, mas ainda não se pode dizer
se os nossos médicos conseguirão um antídoto. Não quero infundir
esperanças vazias nos senhores, mas tenho todos os motivos para
acreditar que os médicos também saberão dominar esta repugnante
moléstia.
Dali a
alguns minutos, Rhodan falou pela televisão.
A
transmissão ao vivo também foi captada no centro de pesquisa. Por
três vezes todas as palestras cessaram e os médicos, que na sua
grande maioria também tinham adoecido, balançavam a cabeça.
Todos viam
a morte pela frente. Mas todos queriam viver um pouco mais, inclusive
o doutor Koatu, que só tinha vinte e três anos e estava casado há
um ano.
6
Jeff
Garibaldi, um homem baixo, gordo e calvo, esvaziou o cachimbo,
enquanto olhava pela janela e contemplava o Arco do Triunfo.
Desde que
a infecção do plasma se manifestara na Terra, há dez dias, ele e
seus homens do setor francês quase não tinham trabalho.
Ainda não
estava doente. Mas, face ao monstro de plasma, isso significava muito
pouco. Poderia ser localizado a qualquer momento. Algum alimento que
ingerisse poderia estar contaminado pelo plasma...
O monstro
transformara-se numa presença universal, e a mensagem codificada que
Garibaldi recebera de Terrânia na manhã daquele dia era
desencorajadora. Por lá ainda se tateava no escuro. O plasma
resistia a todos os meios empregados contra ele e, a cada dia,
parecia multiplicar-se com uma rapidez ainda maior, pois
precipitava-se sobre toda e qualquer substância orgânica.
Frigoríficos
nos quais estavam armazenados milhões de toneladas de alimentos,
enormes áreas de terra cobertas de plantações prontas para a
colheita, gigantescos rebanhos de gado — tudo isso fora destruído
ou estava na iminência de sê-lo.
A ameaça
de fome andava de mãos dadas com a infecção. Tratava-se de um
perigo do qual os homens ainda não se davam conta, mas que causava
preocupações cada vez mais intensas em Terrânia.
— Hum...
— Jeff Garibaldi, bisneto de um conhecido batalhador da liberdade,
endireitou-se repentinamente na poltrona. — Hum... — repetiu.
No dia
anterior estivera em Soisy
sur Seine,
uma cidadezinha situada a cinqüenta quilômetros de Paris, a fim de
encontrar-se com o homem V, mas este não viera. Garibaldi esperara
até o anoitecer no pequeno café da Rue
de Ia Republique,
gozando as delícias de um belo dia de verão.
— Hum...
— disse pela terceira vez. — Será que em Soisy
sur Seine eu
vi alguma pessoa que sofria da doença do plasma ou não?
Garibaldi
procurou lembrar-se, mas não conseguiu. Quanto mais se esforçava,
mais nervoso ficava, sem compreender por quê.
— Será
que a coisa já está começando comigo? — perguntou de si para si
e examinou as mãos.
Mas as
mesmas não apresentavam os pontinhos vermelhos.
— Que
diabo! O que será que eu deixei de notar nesse lugarejo?
Podia
dar-se ao luxo de refletir em voz alta, pois não havia mais ninguém
da Segurança Solar no escritório de Paris, isto é, na seção da
área de língua francesa.
Jeff
Garibaldi encheu o cachimbo e acendeu-o. Depois da terceira tragada
fez uma careta.
— Que
gosto horrível tem este tabaco! É uma erva miserável. Preciso
respirar um pouco de ar puro.
Sabia que
estaria violando normas se abandonasse o escritório.
Lá fora o
Sol brilhava no céu límpido. Era mais um dos célebres dias de
verão de Paris.
— É o
último verão... para todos — disse Garibaldi ao entrar no carro.
— Depois não haverá mais nada; apenas o monstro de plasma.
Geralmente
levava pelo menos uma hora para sair de Paris, mas hoje conseguiu
atingir a periferia da cidade em doze minutos. Havia uma placa que
dizia: Soisy
sur Seine,
42 quilômetros.
Jeff
Garibaldi precisava saber o que deixara de notar naquela cidadezinha,
durante a visita que lhe fizera na véspera.
Há dez
dias a via expressa ainda estava coberta por uma fileira de carros.
Mas hoje, ao chegar a Soisy
sur Seine,
Jeff Garibaldi ultrapassou quatro veículos e apenas cruzou com um
único.
A Terra
aguardava a morte!
Garibaldi
lembrou-se disso e usou uma terrível praga francesa para livrar-se
do pavor que ameaçava dominá-lo.
Estacionou
à direita do Café Nicole e desceu do carro.
Havia duas
mesas ocupadas e onze vazias.
— Un
café au lait
— disse, fazendo seu pedido à moça magra de cabelos
castanho-escuros, que fitou seu rosto com uma expressão assustada e
suspirou aliviada ao ver que nele não havia o hematoma esponjoso.
Naquele
momento, um véu parecia cair dos olhos de Garibaldi.
Lembrou-se
do fato que sua memória guardara por ocasião da visita àquela
cidadezinha.
Não vira
uma única pessoa que sofresse da doença do plasma... Nem uma única
pessoa! E Soisy
sur Seine
tinha 45 mil habitantes!
O café
com leite foi servido.
A moça
fitou Garibaldi, perplexa. O segurança pagou o café, mas não tocou
no mesmo. Atravessou a rua, em direção ao antiquado edifício da
Prefeitura.
Já que
era um elemento da Segurança Solar, obteve com a maior facilidade as
informações que desejava.
— Não,
mister Garibaldi, por enquanto não há em Soisy
sur Seine
uma única pessoa que tenha contraído a doença do plasma.
— Tem
certeza?
Garibaldi
era incapaz de acreditar no que acabara de ouvir. Em todo o
hemisfério norte não havia uma única localidade, mesmo que
possuísse apenas duas casas, que tivesse ficado livre do monstro de
plasma, enquanto aqui, numa cidade de 45 mil habitantes, a doença
ainda não havia grassado.
— Obrigado!
— disse Jeff Garibaldi, perplexo, e foi-se.
Os dois
funcionários, que lhe haviam fornecido a informação, seguiram-no
com os olhos e balançaram a cabeça.
*
* *
Eram três
horas e vinte minutos, tempo padrão. O dia começava a raiar em
Terrânia. Naquele momento, Perry Rhodan foi acordado por um sinal de
alarma.
Despertou
num instante.
— Aqui,
Rhodan. O que houve? — perguntou, falando para dentro do microfone
do telecomunicador que ficava ao lado de sua cama.
Os
contornos ainda não se haviam fixado na tela, quando ouviu a voz de
Allan D. Mercant.
— Sir,
acabo de receber um chamado da França. É do mesmo homem que pediu a
Walt Ballin que o procurasse em Terrânia. Seu nome é Jeff
Garibaldi. Esse Garibaldi constatou um fato totalmente
incompreensível: em seu setor...
— O que
houve com o senhor, Mercant? Nunca o vi desse jeito. Procure ser
breve! — disse Rhodan, interrompendo o chefe do Serviço de
Segurança.
— Perdão,
sir, mas esta notícia... A cinqüenta quilômetros de Paris existe
uma cidade chamada Soisy
sur Seine,
com quarenta e cinco mil habitantes, na qual não houve um único
caso de infecção de plasma.
— Nem
um...?
Rhodan não
completou a frase, e Mercant também não disse nada.
— Esse
Garibaldi é um elemento de confiança, Mercant?
— É de
confiança, exceto quanto ao regulamento, que ele não leva muito a
sério. Hoje mesmo...
— Sim,
está bem! Quer dizer que a cidade tem quarenta e cinco mil
habitantes, e não há um único caso de plasma. O senhor ainda está
na cama?
— Estou.
— Saia
imediatamente, Mercant! Encontramo-nos daqui a meia hora no
espaçoporto, na área sessenta e sete; é onde está estacionada a
Burma, com a qual decolaremos.
— Sir,
não podemos...
— Podemos,
sim senhor...
Rhodan não
disse o que podiam fazer. Acordou
Reginald Bell, John Marshall, Gucky, Ras Tschubai e Walt Ballin.
— Decolaremos
em pouco menos de meia hora com a Burma, que se encontra na área
sessenta e sete da espaçoporto.
Não os
informou sobre o lugar para onde decolariam.
No momento
em que dois planadores com sete pessoas atacadas pelo plasma se
aproximavam da Burma, os propulsores da nave da classe Estado já
estavam esquentando.
O interior
da comporta polar estava iluminado, mas só a escotilha externa
achava-se aberta. Na escotilha viam-se sete trajes espaciais.
— Coloquem
isto! — ordenou Rhodan. — Fechem os capacetes. Controlem as
provisões de ar.
Enquanto
envergavam os pesados trajes, a escotilha externa fechou-se. Dali a
trinta segundos, os propulsores rugiram e a Burma levantou-se do
solo. As máquinas superpotentes da nave permitiam-lhe atingir a
velocidade da luz dentro de poucos minutos.
Rhodan era
o único que conhecia o destino do vôo. Mercant desconfiava de
alguma coisa, mas não tinha certeza. Como sempre, Bell foi o
primeiro a perder a paciência.
— Você
não vai nos dar algumas informações, Perry? — resmungou,
terminando a pergunta num bocejo.
— Voamos
ao encontro da Condor, para a qual nos transferiremos. Ali também
permaneceremos na comporta polar e pousaremos em Soisy
sur Seine.
— O que
vem a ser isso, Perry? Um médico?
Bell não
tinha a menor idéia do que estava acontecendo, e, com exceção de
Mercant e Walt Ballin, a mesma coisa acontecia com os outros.
Gucky
penetrou nos pensamentos de Mercant e descobriu que se tratava de uma
cidade que ficava nas proximidades de Paris.
Piou para
dentro do rádio de capacete:
— Acho
que em Geografia você sempre tirou nota de deficiente na escola, não
é, gorducho? Soisy
sur Seine
é uma pequena cidade que fica nas proximidades de Paris. Não é o
nome de qualquer médico. É bem verdade que eu também preferiria
voar para junto de algum médico que me restituísse o aspecto
normal. O atual é horrível, e o seu não é muito melhor, gordo.
— O que
é que vamos fazer em Soisy
sur Seine,
Perry? — perguntou Reginald Bell, que aceitou sem comentários a
observação sobre sua ignorância geográfica. — Por que não
vamos para dentro da nave? Por que temos de enfrentar o desconforto
da comporta polar?
— Acho
que o motivo é evidente, Bell — respondeu Perry Rhodan, em tom um
tanto áspero. — O monstro de plasma ainda não atacou nenhum dos
tripulantes da Burma, isso porque não teve oportunidade de penetrar
na mesma. Não podemos cometer a irresponsabilidade de levar o
monstro aos homens que se encontram a bordo. Na Condor também não
surgiu um único caso da doença. Seria inútil passarmos para a
Condor se o comandante, Tenente Brisby, tivesse experiência de
combate.
— O quê?
— berrou Bell para dentro do rádio de capacete. — O que está
acontecendo mesmo?
Rhodan
respondeu com a maior tranqüilidade:
— Trata-se
apenas de uma vaga suspeita, Bell. De uma esperança brilhante como
uma bolha de sabão e frágil como a mesma. A tal de Soisy
sur Seine,
uma cidade de quarenta e cinco mil habitantes, não tem um único
doente da infecção de plasma. Você compreende uma coisa dessas?
Pois eu não compreendo.
— Sim, e
daí?
— É
justamente para podermos responder a essa pergunta que estamos a
caminho para lá?
— E
temos de ir com duas espaçonaves da classe Estado?
— É
possível que seu poder de fogo não seja suficiente. Talvez teria
sido preferível se tivéssemos recorrido aos couraçados.
— Santo
Deus, o que está acontecendo? — perguntou Gucky, que também se
sentia espantado.
A
tentativa de ler os pensamentos de Rhodan fracassou em virtude do
bloqueio erigido pelo mesmo.
— Trata-se
de uma suspeita; de uma esperança. Por isso não pousaremos junto à
cidadezinha, mas saltaremos sobre a mesma.
Dali a
pouco transferiram-se para a Condor, que saíra de sua órbita para
ir ao encontro da Burma. Mais uma vez, o grupo de sete indivíduos
permaneceu entre as escotilhas da comporta polar e comunicavam-se
exclusivamente pelo rádio de capacete.
Só agora
Rhodan esclareceu-os sobre a natureza de suas suspeitas. Concluiu com
esta observação:
— Quem
me deu essa idéia foi o professor Degen, médico-chefe da
nave-hospital III.
— Pois
ele sabia que nessa cidadezinha francesa só há pessoas sadias,
Perry?
Bell, que
costumava ser otimista, mostrava-se sob outro aspecto.
— Não.
Nós mesmos só sabemos disso há pouco tempo — respondeu Rhodan e
voltou a bocejar.
Era
impossível vencer a tendência de bocejar. Esta superava tudo, e
qualquer ato para reprimi-la apenas representava um desperdício de
energia.
— Por
que não consultou os médicos antes de decolar, Perry? Seu plano
está sobre um alicerce inseguro. Afinal, você não entende muito de
Medicina.
— Não
quero contestar isso, meu caro. Acontece que nem sempre o saber é o
fator decisivo. O que importa é fazer o que está certo, e tenho a
impressão de que em Soisy
sur Seine
descobriremos alguma coisa que se reveste da maior importância para
toda a Humanidade. Por que não há casos de doença de plasma nessa
cidade? Por que será? Deve haver um motivo para isso.
— Onde é
que vamos procurar uma coisa que nem sabemos o que é? — perguntou
Bell, que ainda não concordava com o plano de Rhodan.
— Esta
parte ficará a cargo de John Marshall e de Gucky! — respondeu
Rhodan em tom tão penetrante que Bell compreendeu ser suas perguntas
supérfluas.
Quando
saltaram a dez mil metros de altura e caíram para dentro da noite
que cobria Soisy sur Seine, formaram uma fileira. Dentro de seu traje
espacial, cada pessoa formava uma pequenina espaçonave, dotada de
campo protetor-propulsor e capacidade de aceleração. Os minúsculos
geradores forneceram o máximo de energia para os campos de repulsão.
Os campos antigravitacionais estavam funcionando com metade de sua
potência.
Quando o
altímetro baixou para a marca dos trezentos metros, os geradores
antigravitacionais foram regulados para a potência máxima. Os
membros do grupo pousaram suavemente, como se fossem penas.
— Ligar
o defletor! — ordenou Rhodan pelo rádio.
Era mais
uma cautela em meio à escuridão da noite: os sete indivíduos se
tornariam invisíveis por meio dos defletores.
Conformaram-se
com a desvantagem que isso representava; não podiam ver seus
companheiros, nem mesmo se ligassem os holofotes.
A cidade
de Soisy
sur Seine
ficava a três quilômetros.
O telepata
John Marshall e Gucky começaram a trabalhar. Tentaram detectar
fluxos mentais estranhos, que lhes pudessem servir de indicação.
— Nada!
— disse Marshall depois de quinze minutos.
Gucky, que
geralmente gostava de salientar-se, manteve-se calado.
Um veículo
passou pela via expressa; estava com os faróis altos. O feixe de luz
penetrou profundamente na noite. O carro ia em alta velocidade. O
motorista devia conhecer a estrada. Passou a um quilômetro dos
homens, que estavam em campo aberto e esperavam para ver se Gucky
descobria alguma coisa.
— Chefe,
nesse carro vai um ara! — disse Gucky, tremendamente excitado. —
Vou dar o fora! Marshall, mantenha contato comigo!
Mal acabou
de pronunciar a última palavra, teleportou-se. Dali a pouco, John
Marshall disse:
— Gucky
está louco. Está sentado em cima da coberta do carro. Vai em
direção ao centro da cidade... Está passando pela praça... Dá a
volta... a terceira rua da direita. Gucky diz que é uma rua que sai
da cidade... O carro está acelerando... Ora, como o pequeno está
praguejando! Mal consegue segurar-se... Pensa em teleportar-se...
Não, resolveu ficar. O veículo parou; está entrando numa estrada
particular. Controles robotizados... Um momento, já não entendo o
pequeno. Está pensando cada tolice! O que um confeito poderia ter
que ver com seus pensamentos? É um pequeno castelo que parece estar
confeitado... São quatro aras! Três deles estão esperando o carro.
Um está saindo da casa. São aras com máscara de terranos...
John
Marshall reproduzira trechos dos pensamentos de Gucky.
— Ras
Tschubai — disse Rhodan, dirigindo-se ao teleportador africano. —
Dê cobertura a Gucky. E cuide para que o pequeno não se arrisque
demais. Em hipótese alguma os aras devem desconfiar de que estamos
em sua pista.
— OK,
Sir!
Ras
Tschubai também desapareceu. Marshall também manteve contato mental
com ele, embora não pudesse estabelecer uma comunicação telepática
tão eficiente como a que mantinha com Gucky.
— Vamos
decolar, minha gente. Marshall, vá à frente! — ordenou Rhodan.
Ergueram-se
do solo, formaram uma fileira e, voando a cem metros de altura,
dirigiram-se à cidadezinha.
As luzes
das ruas estavam acesas. A praça era perfeitamente visível. Em
poucas casas havia luzes acesas. Soisy
sur Seine
estava dormindo.
John
Marshall levou-os pelo caminho mais curto em direção ao lugar onde
se encontravam os dois teleportadores e os aras. Pousaram em meio a
flores e arbustos perfumados, dentro do parque que cercava o pequeno
castelo. Os homens continuavam envoltos nos campos de deflexão.
— Marshall,
o que os dois estão fazendo? — perguntou Rhodan.
E antes
que o telepata tivesse tempo para responder, acrescentou:
— Vamos
abrir os capacetes espaciais e desligar os campos de deflexão.
Sentiram-se
atingidos pelo frescor da noite e pelo ar supersaturado de umidade. A
uns duzentos metros do lugar em que se encontravam, notaram a entrada
iluminada do castelo. À frente da construção estava parado um
veículo. Provavelmente era o mesmo que viram correr pela via
expressa.
— Sir,
os dois teleportadores estão no interior da casa. Lá dentro há uma
quantidade enorme de médicos galácticos. Pelo que informa Gucky,
estão conversando sobre a infecção de plasma... Divertem-se com
isso, sir...
— Não
se divertirão por muito tempo! — resmungou Bell, em tom de ameaça.
— Cale a
boca! — gritou Perry para o amigo. — Marshall, chame Gucky e
Tschubai!
Em um
segundo, os dois apareceram entre eles.
— Abram
os capacetes e desliguem o defletor e o rádio. Não queremos ser
localizados pelo goniômetro.
Os aras já
os haviam localizados. Marshall interrompeu o chefe em tom apressado:
— Sir,
os aras estão lançando um ataque de robôs contra nós. Temos que
dar o fora. Determinaram nossa posição exata pelo goniômetro.
Ao ouvir a
advertência, Rhodan ligou o potente minicomunicador e gritou:
— Pombo!
Pombo! Duas vezes gavião! Os aras jamais descobririam o sentido
destas palavras codificadas. Antes que o compreendessem, a Burma e a
Condor apareceriam sobre o castelo.
No mesmo
instante teve início o ataque.
Os robôs
de guerra arcônidas dispararam as armas de radiações contra eles,
mas os raios energéticos de grande alcance apenas devastaram parte
do parque, pois antes que fosse disparado o primeiro tiro, Gucky e os
seis terranos subiram verticalmente ao céu.
Subitamente
Gucky desapareceu!
Allan D.
Mercant, que era o penúltimo membro da fileira, notou sua falta. Mas
no mesmo instante percebeu-se para onde o rato-castor havia
desaparecido.
Cinco
máquinas de guerra arcônidas de uma tonelada subiram ao céu como
se fossem aviões a jato. Os monstros positrônicos, que não
compreendiam o que estava acontecendo, dispararam em todas as
direções. Os raios, que nos primeiros instantes cintilaram em todas
as cores, empalideceram e tornaram-se cada vez mais finos.
Quando
estavam reduzidos a um traço, Gucky libertou as máquinas de sua
energia telecinética. Acompanhadas de massas de ar uivantes, as
mesmas precipitaram-se ao solo. Penetraram profundamente no chão do
parque, como se fossem bombas não detonadas.
— Sir,
os aras farão explodir o castelo!
A
advertência de John Marshall chegou com alguns segundos de atraso.
A terra
abriu-se. Um furacão de fogo esfacelou um castelo que se encontrara
há mais de quatrocentos anos junto à cidade de Soisy
sur Seine.
A fúria atômica tangeu uma chama para o céu noturno.
Graças ao
dispositivo automático de seus capacetes, os seis terranos não
morreram imediatamente sob os efeitos da radiatividade. Porém os
débeis reatores antigravitacionais foram impotentes face às
energias atômicas liberadas.
Assim que
foram atingidos pela primeira onda de compressão, sentiram-se
tangidos por cima da cidade como se fossem folhas secas. A fileira
que formavam, de mãos unidas, rompeu-se.
Walt
Ballin, que só conhecia espetáculos desse tipo das transmissões de
televisão, pensou que sua hora tivesse soado. Não recebera qualquer
treinamento na Academia Espacial, e por isso esqueceu-se das funções
dos diversos botões que havia em seu traje espacial. Por engano
ligou o gerador do campo defensivo para a potência máxima e
desligou o campo antigravitacional.
Só no
último instante percebeu que já não voava em meio às massas de ar
revoltas, mas caía que nem uma pedra. Uma nova onda de pressão
evitou que fosse esmagado de encontro ao solo. A queda vertical
transformou-se numa queda oblíqua. O campo defensivo fê-lo deslizar
por cima da cumeeira de um telhado. A chaminé da lareira não
representou um obstáculo mortal, mas desviou sua trajetória e
reduziu a velocidade da queda. Ao cair de cima do telhado, foi parar
na copa de uma árvore frutífera. O campo defensivo protegeu-o dos
galhos, mas foi sacudido com tamanha violência que perdeu os
sentidos.
Gucky só
ouvira o rugido da explosão atômica, mas não vira nada. Um segundo
antes da catástrofe teleportara-se, seguindo um impulso mental,
vindo do subsolo.
Seus
inteligentes olhos de camundongo piscaram. Sua mão direita segurava
um desintegrador e a mão esquerda uma arma de impulsos. As armas
estavam apontadas para três aras. Estes médicos galácticos tinham
o aspecto de verdadeiros aras; não usavam qualquer disfarce que os
transformasse em terranos.
— É
Gucky! — gritou um ara e sua mão procurou atingir a arma que
trazia no cinto.
Em vão.
Perdeu o apoio dos pés e voou em direção ao teto como se fosse uma
bola.
Gucky
lançou mão de suas forças telecinéticas.
O ara, que
o reconhecera, já estava estirado no chão, inconsciente. As forças
telecinéticas de Gucky comprimiam os outros dois contra o solo com
tamanha força que não podiam fazer o menor movimento.
Gucky
farejou perigo. Captou impulsos ininteligíveis. Desde o momento em
que tivera seu primeiro contato com robôs, aprendera a diferençá-los
dos de um homem. E se havia no Império Solar uma única criatura
inteligente que não suportava os robôs, essa criatura era Gucky, o
rato-castor.
No mesmo
instante trocou a arma de impulsos por um projetor hipnótico e
despejou toda a carga sobre os três aras. A seguir, o rato-castor
dissolveu-se no ar.
Sabia que
se encontrava numa reserva subterrânea dos aras, que, devido a uma
forma por enquanto inexplicável, conseguiram vir à Terra sem serem
notados e estabelecer-se na periferia da cidade de Soisy
sur Seine,
disfarçados em terranos.
Mas quando
rematerializou-se perdeu a fala e... por pouco não perdeu também a
vida.
Fora parar
num gigantesco laboratório!
E esse
laboratório estava cheio de robôs. Nem todos eram robôs médicos,
cuja programação os incumbia de vigiar o processo de fabricação.
Dois deles, que se encontravam a apenas quatro metros de Gucky, eram
máquinas de guerra. Mas felizmente estas haviam sido reguladas para
arcônidas, saltadores e terranos, mas não para uma criatura que
tinha apenas um metro de altura e se parecia com um gigantesco
camundongo.
— Ui...
— piou Gucky, apavorado, quando compreendeu o que vinha a ser a
construção metálica que se encontrava à sua frente.
Saltou.
O raio
expelido pelo robô, que acabara de “despertar”,
derreteu o concreto plastificado no lugar em que Gucky se encontrara
um instante atrás.
O robô
não teve tempo de disparar pela segunda vez. Ele e seu colega
metálico derreteram sob o fogo do desintegrador de Gucky, que se
materializara um metro atrás dos dois.
— O que
está acontecendo aí atrás, pegador? — gritou uma voz exaltada em
arcônida.
Vinha da
outra extremidade do gigantesco laboratório e sala de fabricação.
Gucky
concentrou-se sobre o próximo salto, que o levaria para junto do ara
que acabara de proferir essas palavras. Mas nesse instante, Ras
Tschubai surgiu à sua frente.
— Ajude-me
a procurar o chefe e os outros, Gucky! — disse Tschubai,
dirigindo-se ao rato-castor.
O pequeno
ser nem perguntou como o africano o encontrara.
— Fora!
— limitou-se a dizer, e saltaram em direção à superfície.
O
dispositivo automático dos trajes espaciais reagiu imediatamente à
elevada dose de radiações da atmosfera e fez com que os capacetes
se fechassem.
Uma
gigantesca cratera abriu-se no lugar em que durante quatrocentos anos
houvera um pequeno castelo. O parque também desaparecera. A área
periférica esquerda de Soisy
sur Seine
estava em chamas. A onda de calor provocada pelo vulcão atômico
incendiara as casas.
Aquela
cidadezinha, que fora poupada pelo monstro de plasma, corria perigo
de transformar-se numa gigantesca fogueira.
— Estabeleci
contato com o chefe, com o gordo e com Mercant, Ras, Mas não consigo
localizar John nem o jornalista. Segure minha mão e vamos embora!
Saltaram
outra vez.
Rhodan,
Bell e Mercant estavam parados junto ao muro de uma fábrica de
máquinas.
— Ras e
eu estamos aqui! — disse Gucky, ao ouvir a voz de Bell em seu
alto-falante de capacete.
— Não
sabemos onde estão Marshall e Ballin, Gucky!
— Deixemos
isso para mais tarde, Perry! — interrompeu-o Gucky, apressadamente.
— Os aras instalaram uma gigantesca fábrica de medicamentos a
quinhentos metros de profundidade. Está funcionando a toda força.
Temos de ir para lá, antes que os médicos galácticos a façam
explodir. Se o fizerem, todos os habitantes desta cidade morrerão.
— Quer
dizer que é isso mesmo! — limitou-se Rhodan a dizer.
Em
compensação Mercant, que se mantivera em silêncio, falou:
— Sir,
já começo a adivinhar do que se trata, e também imagino por que a
observação do professor Degen fez nascer essa suspeita em sua
mente.
Rhodan e
Bell seguraram o traje espacial de Gucky; Allan D. Mercant colocou os
braços em torno dos ombros de Ras Tschubai.
— Saltar!
— comandou o pequeno, e os dois teleportadores levaram os três
companheiros para as instalações subterrâneas dos médicos
galácticos.
Foram
parar num verdadeiro inferno.
Oito
máquinas de guerra arcônidas correram em sua direção; onze aras
seguiram-nos, abrigando-se atrás dos colossos metálicos.
— Grandes
moleques! — piou Gucky. Seus olhos de camundongo faiscaram em
direção aos robôs quando disse:
— Ras,
vamos ficar lá em cima e liquidar os robôs! Agora!
Os dois
teleportadores saltaram, sem aguardar as ordens de Perry Rhodan.
Desapareceram
atrás do aparelho de refrigeração que também servia de abrigo a
Rhodan e seus companheiros. Pousaram sob o teto, em meio a uma
confusão de tubos, alguns finos e outros com até vinte centímetros
de diâmetro.
O
rato-castor foi mais rápido que o africano. Segurando a arma de
choque na mão esquerda, regulou-a para o desempenho máximo e
apontou para os onze aras, que não desconfiavam de sua presença
naquele lugar situado quatro metros acima deles.
Os médicos
galácticos caíram sob os efeitos do choque como se tivessem sido
atingidos por um raio. Um deles, que não tinha levado a dose
integral, procurou fazer pontaria com a arma de impulsos para atingir
o aparelho de refrigeração. Mas Gucky foi mais rápido!
As
máquinas dirigidas por um dispositivo de comando positrônico não
haviam notado o ataque desfechado às suas costas. Dois raios de
desintegração e os fluxos energéticos das armas de impulsos
atingiram-nos. Na primeira investida foram destruídos cinco robôs.
Depois disso, os outros três perceberam de onde vinha o ataque.
Pararam,
giraram as cabeças metálicas e não notaram que Perry Rhodan saiu
de trás de seu abrigo. De pé, segurava uma arma de desintegração
em cada mão e começou a disparar contra os robôs. Numa fração de
segundo, Bell também começou a disparar e destruiu as pernas do
colosso metálico que tinha Gucky como alvo.
Subitamente
o cheiro dos metais derretidos, dos isoladores queimados e dos
transformadores fumarentos encheu o gigantesco pavilhão. Oito robôs
haviam virado sucata. Poucos metros atrás eles, onze aras
inconscientes estavam deitados no chão.
Os robôs
de trabalho do pavilhão não tomaram conhecimento dos
acontecimentos. Continuaram a vigiar o processo de fabricação, como
se nada tivesse acontecido.
Gucky e
Ras voltaram a aparecer na frente dos companheiros.
— O que
é isto, chefe? — perguntou o rato-castor curioso.
— Bem,
Gucky, para saber o que é isso precisamos trazer o doutor Koatu e
mais dois ou três especialistas. Você poderia cuidar disso, Gucky?
O pequeno
empertigou-se e lançou um olhar de recriminação para Rhodan.
— O quê?
Será que você desconfia de que não sou capaz de dar um pulo de
gato que só representa metade da volta em torno da Terra? Daqui a
cinco minutos estarei de volta com esses homens de branco!
*
* *
Dali a
poucos segundos, Ras Tschubai saltou atrás de Gucky, em direção a
Terrânia.
— Tschubai
— dissera Rhodan em virtude de uma idéia repentina. — Salte para
Terrânia e traga Ulland, Kokstroem e Church, o quanto antes. Hoje
não importa que venham de pijama ou de fraque.
Ras
Tschubai limitou-se a confirmar com um aceno de cabeça e
desapareceu.
— Você
pediu a presença de Ulland, Perry? — perguntou Bell, com um olhar
pensativo.
Esta
pergunta nunca obteve resposta. O débil dom telepático de Rhodan
captou os impulsos mentais de alguns aras. Imediatamente informou
Bell e Mercant sobre o que acabara de perceber.
— As
irradiações vêm da esquerda. Suponha que estejam no setor do
laboratório que fica atrás dessa porta.
— Quantos
são, Perry? — perguntou Bell.
— Três
ou quatro — limitou-se Rhodan a responder.
O Marechal
Mercant acenou com a cabeça. Contornaram o montão de destroços e
passaram por quatro faixas rolantes, diante das quais os robôs de
trabalho continuavam a desempenhar suas tarefas. Não demonstraram o
menor interesse pela luta. Sua programação lhes ordenava que
cuidassem do preparo dos produtos farmacêuticos.
Junto à
porta do outro setor do laboratório, Rhodan constatou, graças à
sua débil capacidade telepática, que por lá havia quatro aras.
— Ligar
os defletores! — comandou.
— Desse
jeito não nos veremos uns aos outros! — ponderou Bell.
— É um
risco que temos de assumir. Você ficará à minha direita; Marshall,
fique à minha esquerda. Liguem!
No mesmo
instante tornaram-se invisíveis. Essa forma de proteção tinha a
desvantagem já assinalada por Bell: não se viam uns aos outros.
Dali a
dois minutos, dois dos quatro aras que ainda transitavam por aí
estavam inconscientes, enquanto os outros dois foram muito bem
amarrados por Bell.
Não se
conseguia arrancar uma única palavra dos aras. Seus pensamentos
consistiam exclusivamente em ódio, raiva e medo.
— Olá,
chefe! — piou uma voz no gigantesco pavilhão do laboratório. —
Acabo de chegar com quatro doutores. Ora veja! Ras também esteve em
Terrânia, e trouxe três pessoas. Será que temos trabalho para
tanta gente?
Assim que
ouviu a voz fina de Gucky, Rhodan voltou ao grande pavilhão.
Lembrou-se das instruções que dera a Ras Tschubai, quando viu que
Ulland, Church e Kokstroem estavam impecavelmente vestidos.
Dirigiu-se
aos médicos.
— Senhores,
na Medicina não passo de um leigo. Por isso não posso
apresentar-lhes uma tarefa perfeitamente definida. Peço-lhes que, o
mais cedo possível, procurem descobrir no interior destas
instalações subterrâneas o preparado que impediu que até agora
surgissem casos de infecção de plasma na cidade de Soisy
sur Seine.
Outra tarefa consistirá em localizar as culturas do germe causador
da doença de endurecimento intestinal. Não existe a menor dúvida
de que a ampola encontrada na nave dos saltadores foi de fabricação
terrana. Os senhores já conhecem as conclusões que extraí com base
nesse fato. Queiram começar, cavalheiros.
Rhodan
esforçou-se para não bocejar, mas a tendência produzida pela
infecção foi mais forte que sua vontade. Sentiu os tremendos
progressos que a doença fazia em seu organismo. Teve de esforçar-se
mais que nunca para poder concentrar-se. E quando passou a dirigir a
palavra a Ulland, Church e Kokstroem, sua voz parecia perfeitamente
normal.
— Os
médicos de Terrânia manifestaram a suspeita de que o monstro de
plasma tem um senso de localização. Por enquanto não ofereceram
provas dessa hipótese. Mais uma vez, parto do fato de que em Soisy
sur Seine não houve um único caso de infecção originado pelo
plasma. Procurem descobrir se os aras dispõem de alguma instalação
especial capaz de perturbar o sentido de localização do monstro. A
tarefa é quase insolúvel, pois funda-se numa hipótese. Mas, na
situação em que nos encontramos, não podemos desprezar qualquer
alternativa, por mais vaga que seja. Façam o favor de começar,
cavalheiros.
Mercant e
Bell fitaram-no, perplexos. O marechal solar manteve-se em silêncio,
mas Bell pôde tomar a liberdade de dizer ao amigo:
— Fantasia
é o que não lhe falta, Perry! Pela grande Via Láctea, hoje sua
fantasia até me mete medo.
— Ah, é?
— respondeu Rhodan, sem se impressionar. — Pois a mim não. No
fundo devo agradecer ao nosso marechal pelas especulações que acabo
de fazer.
— O quê?
Muito
espantado, Mercant esqueceu-se do rosto desfigurado pelo plasma e fez
menção de dar expressão normal às suas emoções. A dor
avivou-lhe o estado em que se encontrava, mas mesmo assim prosseguiu:
— Sir,
há pouco, junto ao muro da fábrica, o senhor fez uma observação
que se assemelha a esta. Acontece que não me lembro de lhe ter
fornecido uma pista, por mais aleatória que seja.
— Forneceu,
sim, Mercant. O senhor me contou a palestra que manteve com o
professor Degen. Perguntou como está a doença de endurecimento
intestinal a bordo da nave dos saltadores. Em Terrânia, as culturas
do bacilo foram devoradas pelo monstro e, na nave dos mercadores, a
doença desapareceu de uma hora para outra. Queira acompanhar meu
raciocínio.
“Não
segui pela trilha comum. Parti do pressuposto de que a ampola foi
fabricada na Terra e do fato de que nos arredores de Soisy sur Seine
não há um único caso de infecção de plasma, e isso encaixou com
a simplicidade de dois mais dois são quatro. Em última análise,
concluí que por aqui devia encontrar-se o meio de manter afastado o
monstro de plasma. Contrariando as indicações do centro de
computação de Árcon, os aras mais uma vez conseguiram criar, às
escondidas e com base nos acontecimentos remotos verificados no
Império de Árcon, um antídoto ou um meio de defesa.
— Tomara
que sua conta esteja certa — disse Bell, com a voz pausada.
Depois, ao
ver o doutor Koatu parado entre duas fitas rolantes, gritou:
— Doutor,
faça o favor de vir até aqui! Koatu aproximou-se bocejando.
— Quero
fazer-lhe uma pergunta — principiou Bell. — Dizem que este
monstro maldito se precipita sobre os compostos de proteína. Ele me
fez compreender que eu também sou feito de proteína. Mas como foi
que o monstro caiu em cima dos robôs e se fixou na superfície da
Drusus? Esse fato não se harmoniza com a tese de que sempre anda à
caça de proteína.
— Não —
respondeu Koatu, em tom delicado. — O senhor não considerou o
sentido de localização hipotético do plasma. Todo robô contém
três ou quatro elementos protéicos de ligação. E o plasma
localizou estes compostos de proteína. Na sua tentativa de encontrar
a substância, encontrou um obstáculo no envoltório metálico dos
robôs. Não devemos partir do pressuposto de que o monstro seja
dotado de inteligência. Seu sentido de localização não passa de
um instinto. Por isso não saiu de cima dos robôs. Verificou-se que
aquilo que no início supúnhamos ser ferrugem era um monstro cujo
sentido de localização funcionava com um máximo de intensidade.
— Tem
alguma prova do que está dizendo, doutor Koatu?
O
cientista balançou a cabeça.
— Tudo
não passa de hipótese, de suposição, sir.
O
rato-castor piou em tom exaltado, em meio à conversa.
— Perry,
você está com a razão. Acabo de captar os pensamentos de um ara. O
sujeito está com medo de que encontremos a coisa... Aliás o que vem
a ser um pulsador Oska?
— Nunca
ouvi falar nisso. O que poderia ser, Gucky? — perguntou Rhodan, com
certo nervosismo.
Os outros
fitavam o rato-castor com uma expressão de curiosidade.
— O
pulsador Oska é a coisa que não devemos encontrar, chefe. Caramba!
Já chegou ao fim de novo. O ara está com um medo terrível. E este
medo supera qualquer outra manifestação de sua mente. O outro não
demorará a morrer se voltar a mergulhar no medo. É uma pena que
você esteja na minha frente, Perry, pois do contrário eu
praguejaria para desabafar.
— Mais
tarde você terá tempo para isso. Informe logo Ulland, Church e
Kokstroem sobre o pulsador Oska. É possível que esta indicação
lhes facilite a busca.
Gucky
desapareceu sem o menor comentário. O doutor Koatu seguiu-o. Os dois
amigos, Mercant e Ras Tschubai permaneceram no mesmo lugar.
— Olá,
sir! — Rhodan captou a mensagem telepática de John Marshall. O
chefe do Exército de Mutantes, que havia desaparecido, voltava a dar
sinal de vida. — Estou com o jornalista. Procuramos contornar as
áreas em que lavra o incêndio para chegarmos ao parque. Não é
mais necessário, chefe! Gucky acompanhou nossa conversa e acaba de
chegar. Saltaremos com ele.
No momento
em que John Marshall emitiu o último impulso mental, Gucky apareceu
com os dois companheiros.
— Já
informei os três especialistas, Perry. Também não sabem o que vem
a ser um pulsador Oska — nem mencionou o fato de, numa ação
instantânea, ter trazido Marshall e Ballin. Achava que não valia a
pena perder uma única palavra por isso.
— Marshall
— disse Rhodan, fazendo de conta que não notava que o telepata
ainda estava muito debilitado. — Cuide dos dois aras amarrados, que
se encontram na sala ao lado. Tire tudo que está na cabeça deles.
Cada minuto a menos que levarmos para descobrir o que estamos
procurando aqui talvez possa salvar muitos homens da doença do
plasma.
— OK,
sir! Minha presença será um prazer para os aras.
Estas
últimas palavras representavam uma ameaça que não previa a
violência física.
Os médicos
galácticos não corriam perigo de levar pancadas para confessar.
Marshall não tocaria um fio de seus cabelos, mas arrancar-lhes-ia
por via telepática os pensamentos mais recônditos.
Walt
Ballin olhou em torno, espantado. Viu o grupo de robôs de guerra
destruídos. E viu os robôs de trabalho que se encontravam junto às
faixas rolantes e prosseguiam na execução de sua atividade
programada.
— Sir —
perguntou, dirigindo-se a Rhodan. — Está aguardando algo de
específico?
— Espero
um milagre, Ballin — respondeu Rhodan, com a voz embargada.
— Ora! —
piou Gucky e desapareceu.
Rhodan
procurou estabelecer contato telepático com o rato-castor, mas este
colocou um bloqueio em torno de seus pensamentos.
— Seu
atrevido! — disse Rhodan a meia voz, quando viu Gucky voltar só.
— Perry,
dei uma beliscada nos pensamentos de Ulland. Sabe onde ele está?
Junto ao pulsador Oska. Encontrou a geringonça e no momento está
rouco de tanto chamar seus colegas Church e Kokstroem.
— Será
que já posso saber o que vem a ser o pulsador Oska? — gritou
Rhodan, em tom impaciente.
Gucky teve
o atrevimento de mostrar o dente roedor solitário.
— Perry
— disse em tom condescendente. — É a coisa, e a coisa é aquilo
que mantém o monstro afastado de Soisy
sur Seine.
O
rato-castor falara com um atrevimento descarado, mas naquele momento
Rhodan lhe teria perdoado falhas muito mais graves.
— Como é
que isso funciona, Gucky? — perguntou Rhodan, em tom delicado.
Mas Bell,
que se encontrava a seu lado, falou em tom ameaçador:
— Se
você nos deixar no ar por mais tempo, eu lhe torço o pescoço, seu
rato Jerry!
— Seu
gorducho convencido! — com isso, Gucky liquidou a ameaça que
acabara de ser pronunciada. — Perry, se interpretei corretamente os
pensamentos de Ulland, o pulsador Oska é um transmissor que emite
complicados impulsos de interferência, que impedem ao monstro fazer
a localização.
— Ah! —
exclamou Bell, atônito.
— Perry
— disse o rato-castor, com certo temor. — Será que vamos ficar
curados?
Rhodan
fitou seu pequeno amigo por alguns segundos e depois balançou a
cabeça.
— Não
acredito, Gucky. Afinal, já fomos localizados. Acho que o pulsador
Oska não poderá fazer mais nada por nós. Certo, Marshall!
Pronunciou
estas palavras, embora Marshall tivesse apenas entrado em contato com
ele por via telepática.
— Onde?
O quê? No silo dezoito? Que remédio é este? Uma substância
perfumada que também constitui uma isca para o monstro? Marshall,
não estou compreendendo nada. Faça o favor de repetir.
Os outros
prenderam a respiração e fitaram Rhodan. Este converteu os impulsos
telepáticos de Marshall em palavras, a fim de que os companheiros
logo fossem informados.
— A
substância perfumada forma um composto com o monstro de plasma e o
inativa, provocando a cristalização de seu líquido celular.
A pequena
instalação de telecomunicação, embutida nos trajes espaciais,
emitiu um sinal. O centro de pesquisas médicas de Terrânia queria
falar imediatamente com Perry Rhodan. O interlocutor identificou-se.
— Sir —
rejubilou-se uma voz masculina, saída do alto-falante. — Com base
nos dados das análises vindas de Árcon, conseguimos criar um
antídoto. Trata-se de uma substância perfumada, que transforma o
monstro de plasma em inofensivos cristais de proteína. Conseguimos,
sir! Meu Deus, que dia maravilhoso!
John
Marshall voltou. Apesar de tudo, seu rosto parecia amargurado.
— O que
houve, John? — perguntou Rhodan.
O chefe
dos mutantes respirou profundamente.
— Chefe,
o que os aras pretendiam fazer conosco é inacreditável. Suas
suspeitas se confirmaram. Nestes laboratórios eles produziam
culturas do germe da doença de endurecimento intestinal. Pretendiam
usá-las, para dizimar a população da Terra e apoderar-se do
planeta. Os casos de doença que se verificaram na nave cilíndrica
seria o último teste. Dentro de três dias desencadeariam a ação
na Terra. O fato de termos sido atacados pelo plasma deixou-os
bastante satisfeitos. Não tinham motivo para receá-lo. Mantinham-no
afastado por meio do pulsador Oska, e, além disso, dispunham de um
medicamento que lhes permitia curar qualquer pessoa que contraísse a
doença. Quem encontra continuamente criminosos desse tipo, acaba
perdendo a crença em tudo que é bom.
— Não
diga isso, John Marshall — interrompeu-o Rhodan. — Nem todos os
aras são criminosos, assim como nem todos os homens são maus. Mas
sempre haverá os maus. Não se pode aplicar a mesma medida a todos.
Venha comigo; quero que esteja presente, quando eu falar com os aras.
A palestra
foi breve.
— Aras,
a Terra já aboliu a pena de morte. As vítimas resultantes de seus
atos não foram terranos, mas mercadores galácticos, ekhônidas,
arcônidas e outras raças do Grande Império. Farei com que todos
sejam submetidos aos impérios do Império de Árcon. Neste momento,
o Imperador Gonozal VIII será informado sobre os acontecimentos e
providenciará para que sejam levados a Árcon.
Um dos
aras fez uma oferta, numa tentativa de evitar a extradição.
— Rhodan,
poderíamos ajudar o Império Solar a combater a doença do plasma.
Rhodan
interrompeu o médico galáctico com a voz fria:
— Com o
pulsador Oska e a substância perfumada que se encontra no silo
dezoito, ara? Será que você ainda não compreendeu que nunca
negociei e nunca negociarei com criminosos?
Retirou-se.
As pragas, que os aras rogaram contra ele, deixaram-no indiferente.
*
* *
Perry
Rhodan dispunha de trinta minutos para conversar com Walt Ballin. Sua
agenda não permitia mais que isso, e Walt Ballin não queria
demorar-se, pois a nave em que viajaria para Paris partiria às 13:45
h. Às vinte horas teria um encontro com Yvonne Berclais, no Trois
Poulardes. Mandara reservar a mesa de Terrânia.
— Quando
aparecerá sua reportagem sobre o monstro de plasma, Ballin? Por
enquanto a administração não trouxe ao conhecimento do público os
motivos por que a Terra e o gênero humano escaparam mais uma vez.
Cuide disso. Inclua na reportagem todas as informações, inclusive o
erro cometido por mim.
— Sir —
interrompeu-o Ballin em tom exaltado. — Quem poderia acusar o
senhor? De qualquer maneira os acônidas teriam enviado o monstro à
Terra. Da maneira como as coisas correram, todos devem agradecer ao
senhor, pois foi o único que, no auge da catástrofe, conseguiu
perceber a ligação entre os fatos.
— Não é
bem assim, Ballin. Se não fosse Jeff Garibaldi, nunca teria ouvido
falar numa pequena cidade chamada Soisy
sur Seine.
Quero que este exemplo lhe ensine que o indivíduo não vale nada, a
não ser que possa contar com bons colaboradores. O trabalho de
equipe é tudo, e o Império Solar repousa sobre este. O artigo em
que o senhor esclarecerá a Humanidade a respeito do monstro fará
parte desse trabalho de equipe.
— Sir,
hoje que já se passaram quatro meses desde a primeira infecção e
vinte dias desde a notícia do último caso, ninguém mais está
interessado em falar no monstro. E, o que é mais importante: seria
uma irresponsabilidade da minha parte revelar todos os detalhes.
Nesse caso teria de mencionar que, de um dia para outro, devemos
esperar outro ataque dos acônidas.
Os rostos
dos dois homens não apresentavam a menor deformação. O hematoma
esponjoso não deixara marcas.
Rhodan
sorriu.
— Lembro-me
perfeitamente de que, em certo artigo, o senhor manifestou uma
opinião diametralmente oposta à que acaba de externar. Nesse artigo
quase exigiu que a administração informasse os homens sobre tudo o
que acontecesse, já que do contrário estes jamais seriam
verdadeiros cidadãos do Universo.
— Sir,
naquele tempo ainda não sabia o que sei hoje. Agora compreendo a
tremenda responsabilidade que o senhor assumiu por nós. Antes de
retirar-me, quero formular mais um pedido. Será que oportunamente
poderei vir para Terrânia?
— Eu o
espero, Ballin — respondeu Rhodan, estendendo-lhe a mão.
Walt
Ballin hesitou em pegá-la.
— Mais
uma pergunta, sir. O que predomina no Universo? O monstruoso ou o
admirável?
— Ballin,
ajude-me a transformar os homens em cidadãos do Universo. Enquanto o
homem sente medo, este medo se revela sob a forma do monstruoso;
entretanto, assim que perde este medo, começa a enxergar as
maravilhas do Universo. Temos um longo caminho a percorrer, antes de
chegarmos a este ponto. Mas, no fim deste caminho, estará o homem
que será o dono do Universo.
*
* *
*
*
*
Rhodan
e seus estupendos colaboradores venceram a terrível moléstia, que
poderia dizimar aos poucos todo o Império Solar.
Os
Traficantes de Alaze,
título do próximo volume, é sinônimo de mais uma eletrizante
aventura.

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