quarta-feira, 31 de agosto de 2016

P-103 - O Monstro de Plasma - Kurt Brand [Parte 3]

Muito estranha foi a expressão com que o médico fitou o administrador.
Os robôs? — repetiu. — O senhor acha que um robô, que afinal é feito de metal, pode contrair uma doença infecciosa? Não senhor; não sou capaz de imaginar uma coisa dessas. A Medicina não conhece nada disso. Por que teve essa idéia?
Trata-se apenas de uma suspeita, doutor. Mais tarde conversaremos melhor a este respeito. Providencie já o início de uma quarentena para a Terra. Nenhuma nave deve decolar ou pousar. As naves, que tenham decolado depois do pouso da Drusus, deverão regressar imediatamente. Se alguma delas já tiver pousado em outro planeta, este fica submetido às mesmas normas aplicáveis à Terra.
Sir, pelo amor de Deus, quais são seus receios? — perguntou o doutor Haenning.
Eu lhe direi assim que tivermos os primeiros resultados dos exames — respondeu Perry Rhodan com uma calma, que produziu um efeito hipnótico.
Desligou o telecomunicador e o intercomunicador. Lançou um olhar curioso para a mão. Os pontos haviam crescido, transformando-se em pequenas manchas. A velocidade com que cresciam era assustadora. O comichão que acompanhou o fenômeno cessou no momento em que os pontos começaram a modificar seu formato.
Trouxemos à Terra uma mensagem de morte dos acônidas. Sim, fomos nós mesmos. Um presente de grego. Não foi por brincadeira que construíram uma estação de transmissor no sétimo planeta.
Mas o que foi que eles nos mandaram por meio dessa coisa maldita? — esbravejou Bell. — Não vimos nada, e os cinco robôs científicos que fizemos sair da nave não constataram coisa alguma.
Isso não prova que realmente não saiu nada do transmissor. Bell, não se esqueça da segunda onda de choque. Você não acha que a esta hora já podemos compreender o que significa aquela superposição? Os acônidas acham que somos capazes de captar e interpretar ondas de choque, mas também nos julgam capazes de adotar uma conduta irresponsável. E agora...
Mais uma vez, o sistema de comunicação chamou. O Serviço de Saúde Solar pedira uma ligação com Rhodan.
Uma hora e meia depois do pouso da Drusus, já havia cinco grandes áreas de infecção na Terra.
Rhodan estremeceu em meio à palestra.
Bell, esquecemo-nos das estações de transmissores da Lua. Providencie imediatamente...
Sir — interrompeu-o o interlocutor do Serviço de Saúde — as providências chegariam tarde. Neste momento estamos recebendo uma informação vinda da Lua, segundo a qual por lá irrompeu uma misteriosa doença da pele, que provoca comichão.
Deringhouse soltou um gemido.

* * *

Com o tempo até as notícias mais calamitosas deixam de produzir qualquer efeito, se o conteúdo sempre for o mesmo.
Doze horas após o pouso da Drusus, sabia-se que vinte e um milhões de seres humanos, que se encontravam na Terra e na Lua, haviam contraído a misteriosa doença. Até mesmo de lugares bem afastados, que não tiveram o menor contato com qualquer portador da infecção, vieram notícias de que ali a doença se havia manifestado.
Com isso e com muitas outras coisas, o caso tornou-se cada vez mais misterioso. Os resultados dos exames realizados nos robôs da Drusus foram negativos, e o mesmo aconteceu com os exames de algumas centenas de doentes. As tentativas realizadas com os recursos mais modernos da Medicina davam em nada, enquanto os sintomas da doença se modificavam constantemente.
O doutor Koatu não sabia por que pegou seu projetor hipnótico e saiu à caça de alguns pássaros cantores. E não se espantou ao notar que até estes também foram atacados pela doença.
No interior de Terrânia, uma cidade totalmente contaminada, não havia qualquer restrição à liberdade de movimento. O doutor Koatu não teve a menor dificuldade de chegar à Drusus.
Interessou-se pelo envoltório externo da nave. A sala de comando foi informada sobre sua atividade e transmitiu a informação ao chefe.
Ligue-me com o doutor Koatu! — pediu Rhodan.
Sir, ele não quer ser incomodado — respondeu Poul Naya, com a voz tímida.
Apesar da situação crítica, Rhodan ainda conseguiu rir.
Bem, meu caro, acho que fomos postos fora de ação. Quem manda no Império Solar são os médicos. Reze para que eles descubram logo a causa da infecção, Naya.
O doutor Koatu estava enfiado num traje espacial e planava a trezentos metros de altura, do lado de fora da Drusus. Dedicava sua atenção às estranhas manchas de sujeira, que haviam atacado a carcaça. Koatu ainda não conseguira raspar a menor partícula dessa sujeira.
Resolveu subir mais um pouco, mas naquele instante viu à sua esquerda uma mancha de aspecto diferente, que lembrava uma camada de gelatina.
Koatu, que já estava contaminado, venceu seu estado de letargia mórbida e, com o entusiasmo irresistível de pesquisador, precipitou-se sobre o local em que aparecera a estranha mancha. Colocou a raspadeira, mas logo estremeceu de susto.
Seu rosto denotava pavor. Seus olhos arregalaram-se até adquirirem um tamanho descomunal. Os lábios tremiam.
No momento em que pretendia tocar a mancha com a raspadeira, a “gelatina” começou a desprender-se da superfície esférica da Drusus e modificou seu aspecto coloidal.
A matéria adquiriu a transparência do vidro e parecia volatilizar-se, sem demonstrar a menor reação diante da forte turbulência que se verificava a mais de trezentos metros de altura.
Koatu não acreditou no que seus olhos viam. A modificação daquela mancha de um metro quadrado era um fenômeno pavoroso, que parecia contrariar todas as leis da natureza. Mas o pior era que a massa vítrea procurava fixar-se no traje espacial de Koatu. O cientista teve a impressão de ter sido localizado pela “gelatina”.
No momento em que voltou a olhar para a superfície de aço, soltou um grito.
Não havia mais nenhuma mancha de sujeira nesse ponto da Drusus. Em compensação esta aparecia em seu traje espacial, e voltara a assumir o aspecto de uma camada de gelatina e de espessura variável.
Isto até parece plasma! — disse num gemido.
Sentiu o pavor sacudir seu corpo debilitado pela doença. Uma terrível suspeita surgiu em sua mente...
Plasma! Aquilo era gosmento, disforme e de configuração variável; uma mistura coloidal viscosa de complicados compostos de proteína e substâncias inorgânicas.
Koatu recapitulou os conhecimentos que há mais de dez anos se haviam fixado em sua mente. Mas o plasma que aparecia na superfície de seu traje espacial era diferente de todos os plasmóides que conhecera até então.
Um chamado, captado pelo receptor de capacete, arrancou-o do estado de pavor.
Alô, doutor! Encontrou alguma coisa? Sua respiração é estranha! — disse Gentkirk, um colega, que se encontrava na clínica.
Venha buscar-me. O bicho está em cima de meu traje espacial. Venha num traje espacial fechado e traga um pedaço de pão.
Pão? — perguntou o outro interlocutor, em tom de espanto. — E que bicho é esse? O senhor se sente muito fraco, Koatu?
Venha buscar-me logo, Gentkirk — disse Koatu, em tom insistente. — O monstro está em todos os lugares... Não se esqueça do pão!
Ficou louco!
Koatu ouviu seu colega dizer estas palavras a outra pessoa que se encontrava na clínica. Depois a ligação foi interrompida.
Dali a alguns minutos, o planador mais veloz do instituto de pesquisas correu em direção à Drusus, a fim de buscar o Dr. Koatu. Os dois ocupantes, que envergavam trajes espaciais, levavam um pedaço de pão.
Koatu viu o planador aproximar-se. Ainda pairava a trezentos metros de altura, junto ao corpo esférico da Drusus. Ligou apressadamente o rádio de capacete.
Não aterrissem. Venham até aqui. Embarcarei diretamente, senão o monstro acabará fugindo. Aí embaixo há muita gente.
Iremos! — respondeu Gentkirk e lançou um olhar significativo para seu colega.
Gentkirk acreditava que Koatu tivesse enlouquecido. Provavelmente nele a doença chegara a um estágio mais avançado que nos outros.
Koatu entrou no planador.
Onde está o pão? — mais uma vez comunicou-se pelo rádio de capacete.
Gentkirk apontou para a direita.
Estão vendo a mancha em meu traje? Observem-na atentamente. Daqui a pouco o bicho... olhem, já começa a modificar-se. Localizou o pão. Estão vendo o fluxo transparente que se dirige ao pão?
Koatu falava com a voz rouca e entrecortada pela emoção. O médico mantinha-se imóvel e viu que, dez segundos depois, a mancha gelatinosa desapareceu do traje espacial.
Gentkirk já não acreditava que Koatu estivesse louco. Ambos não riram da afirmativa de que o plasma acabaria por localizar o pão.
E agora? — perguntou Gentkirk, perplexo.
Vamos lá! — disse Koatu. Pegou a raspadeira e empurrou o pão para dentro de um pequeno recipiente, que se fechou e lacrou automaticamente. — Agora este bicho não poderá mais fugir, quando passarmos perto de alguma pessoa.
Não sabia que no Sistema Azul o bicho tinha nome: costumava ser chamado de Mal-Se.

* * *

Mal-Se era um monstro feito de proteína, que se caracterizava por uma voracidade insaciável. Realmente era capaz de localizar substâncias protéicas estranhas ao seu corpo. E toda localização positiva provocava naquela figura de plasma, feita de bilhões de partes, uma reação instintiva; fazia com que abandonasse sua configuração gelatinosa disforme e se tornasse transparente, quase chegando a ser invisível. Uma vez atingido esse estado, utilizava seu impulso localizador para, com base nele, mover-se rapidamente e atacar as substâncias orgânicas ou compostos protéicos.
Sir — disse o doutor Koatu, prosseguindo no relatório fornecido a Rhodan. — Este ser é resistente ao vácuo, ao frio, aos gases e aos ácidos. Só é destruído por temperaturas superiores a treze mil graus centígrados. Seguindo seu hipotético raio localizador, cuja presença neste breve espaço de tempo ainda não conseguimos constatar de forma inequívoca, desloca-se à velocidade de setecentos quilômetros por hora. E o plasma localiza compostos protéicos a uma distância de vinte quilômetros.
Sir, não existe a menor dúvida de que esse plasma é o agente causador da doença que grassa na Terra e na Lua. Não temos a menor chance de deter a propagação da moléstia, pois o plasma se multiplica à razão de alguns bilhões de vezes por segundo. Pelos nossos cálculos, dentro de dezesseis meses, no máximo, a Terra estará coberta por uma camada de plasma de um metro de espessura e não haverá mais um homem vivo.”
Tal qual acontecia com todas as pessoas atacadas pela doença, Perry Rhodan fitou o rosto de Koatu, desfigurado por hematomas, e sabia que seu aspecto não era melhor.
As mãos, os braços, o corpo, todos os membros estavam cobertos por hematomas traiçoeiros. Eram pontos de fixação do plasma, que a cada segundo penetrava mais profundamente na pele, multiplicando-se sempre.
Ainda não fazia vinte e quatro horas que a doença grassava na Terra, mas já havia atacado a quinta parte dos terranos.
Os acônidas deram um verdadeiro presente de grego aos terranos!
Querem exterminar-nos como se fôssemos animais daninhos — disse Bell, assim que o doutor Koatu concluiu seu relato. — E conseguirão, a não ser que aconteça um milagre, Perry.
O milagre só poderá vir de Árcon, gordo. Agora, que já dispomos de alguns dados, posso entrar em contato com Atlan. Ele terá de consultar o grande centro de computação. Se este não conseguir nos ajudar, dentro de três meses, no máximo, tudo estará no fim, pois o tempo de vida dos que contraem a doença não é maior que este. Vou chamar Atlan.
A grande estação de hiper-rádio de Terrânia estabeleceu contato com o mundo de cristal, recorrendo a uma faixa de ondas, reservada exclusivamente às comunicações instantâneas entre Rhodan e Atlan.
Alô, bárbaro! — disse Atlan a título de cumprimento, e só depois disso viu o rosto do amigo, desfigurado pelos hematomas. — Perry, o que houve com você? Por que está com esse aspecto?
É justamente por isso que estou chamando, arcônida — respondeu Rhodan. — Todos os terranos estão precisando de seu auxílio. Fomos atacados por um insaciável ser de plasma. Meu rosto constitui um exemplo do aspecto que os doentes apresentam vinte e quatro horas depois de terem contraído a moléstia.
Quantas pessoas já adoeceram? — perguntou Atlan.
A quinta parte da população da Terra, amigo. As condições reinantes na Lua são semelhantes. A única proteção contra a doença é um traje espacial fechado.
Na tela viu-se que os olhos avermelhados do arcônida começaram a chamejar cada vez mais fortemente de emoção.
O que sabem a respeito da doença? Sabem de onde veio?
É um plasma, que se precipita com uma ferocidade tremenda sobre qualquer composto protéico ou substância orgânica. Ê capaz de localizar qualquer alvo que contenha proteína e atinge a velocidade de setecentos quilômetros por hora. A Drusus deve ter trazido a terrível doença do sistema Orion. Em virtude de um feliz acaso e graças ao trabalho de um médico, há uma hora sabemos do que se trata. Mas é tudo que sabemos. Compreende a razão do meu pedido, arcônida?
Perry Rhodan ainda não revelou ao imperador de Árcon quem fizera o presente mortífero à Terra, e como o ser de plasma havia entrado na Drusus.
Perry, você está irreconhecível, e esses sintomas surgem vinte e quatro horas após a contaminação?
Isso mesmo. A doença começa com pontinhos vermelhos na pele, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Nas primeiras duas horas, estes produzem uma comichão e espalham-se lentamente. Mas acho que é preferível dispensar estas explicações de leigo e transmitir-lhe o resultado das investigações por meio de uma mensagem condensada.
Envie o material imediatamente ao centro de computação de Árcon III, Perry. Mandarei que o mesmo verifique se por aqui se tem conhecimento de um caso semelhante. O que é que você acaba de dizer? Não falou num presente mortífero?
Perry Rhodan ocultou seu espanto. Sabia perfeitamente que só pensara nisso, mas não pronunciara essas palavras. Entretanto antes que a pergunta provocasse qualquer desconfiança em sua mente, lembrou-se do rosto desfigurado que mostrava ao amigo, e que devia ser a causa da observação que Atlan acabara de fazer.
Atlan, a pessoa atacada por este plasma não tem mais que três meses de vida.
O arcônida, que, no curso dos últimos dez mil anos, vivera todos os grandes lances da História da Terra e tivera de acompanhar o destino de inúmeras pessoas, deu mostras de um profundo abalo psíquico.
Três meses, Perry? Confie em mim, amigo. O que eu puder fazer será feito. Pelos deuses de Árcon, de onde veio essa doença infernal?
Do sétimo planeta de Beta, que é um mundo de metano, Atlan.
Rhodan exprimia-se cautelosamente. Evitou toda e qualquer mentira; preferiu que o amigo se contentasse com os dados escassos que acabavam de ser fornecidos.
O que estão fazendo seus mutantes, Perry?
Rhodan fez um sinal de desânimo.
Estão tão mal quanto eu, arcônida.

* * *

A Terra foi sacudida por quatro ondas de pânico, que lembravam a época sombria da Idade Média em que a peste inundou a Europa.
Tortos os meios de comunicação da massa pediam aos terranos que se conservassem calmos e cuidassem do seu trabalho.
Logo se constatou que uma explicação franca contribuiria muito mais para acalmar os homens que uma série de promessas vagas.
Ao que parecia, durante as primeiras vinte horas, o hemisfério sul não foi atacado pelo plasma. Mas mesmo de lá, acabaram chegando notícias de que a infecção se espalhava com uma rapidez vertiginosa.
Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, também não foi poupado pela doença, mas da mesma forma que Rhodan continuou a exercer suas funções.
O ser de plasma atacara a cultura de germes da doença de endurecimento intestinal, que para ele representava uma verdadeira guloseima, e a divisão dos respectivos biogenes proporcionou-lhe outra oportunidade de multiplicação.
O monstro de plasma era um meio que, segundo o provérbio, servia para expulsar o demônio com Belzebu.
Mercant pediu uma ligação com a estação de hiper-rádio. Falou com o médico-chefe da nave-hospital III. Essa nave, a Nil e a UG DVI permaneciam no mesmo lugar do espaço.
A tela mostrou a cabeça do professor Degen. Seu aspecto não era melhor que o de Mercant; também tinha o rosto desfigurado pela infecção de plasma.
Quero fazer-lhe uma pergunta, professor — principiou Mercant. — Como vai a doença de endurecimento intestinal a bordo da nave dos saltadores?
Por que faz essa pergunta, Marshall? — perguntou o professor Degen, que devia ter encostado o rosto junto à objetiva, pois este parecia querer sair da tela que Mercant contemplava.
Tenho à minha frente o relatório fornecido pela Divisão de Doenças Infecciosas de Terrânia, professor. Refere-se em tom de amargura ao desaparecimento das culturas do germe. O plasma devorou-o, a fim de multiplicar-se ou subdividir-se. O senhor sabe que não sou muito firme na Medicina. Já compreende o motivo de minha pergunta?
Compreendo.
Seguiu-se uma pausa. O professor balançou a cabeça, num gesto de resignação. Contemplou as mãos desfiguradas e prosseguiu:
A doença de endurecimento intestinal desapareceu subitamente a bordo da UG DVI. Já começo a compreender aquilo que, para mim e meus colegas, representava um mistério indecifrável.
A infecção de plasma modificou o germe causador da doença, conferindo-lhe sua estrutura protéica. Talvez seja por causa da infecção de plasma que no momento não consigo resolver a situação. Um acaso traiçoeiro fez com que descobríssemos um meio de curar a doença de endurecimento intestinal, mas em compensação a pessoa que contraiu a doença será transformada, dentro de três meses no máximo, num corpo protéico disforme.”
O Marechal Mercant sobressaltou-se. Seu rosto estava desfigurado.
O que será feito da pessoa que contrai a infecção do plasma, professor? Será que entendi bem o que o senhor acaba de dizer? Uma massa disforme de proteína?
Não é só isso, marechal. Seremos todos transformados em monstros de plasma. Seremos iguais ao plasma que hoje nos ataca.
E quando tivermos sido transformados, devoraremos os homens que ainda não tenham sido atacados, professor?
Será mais ou menos isso.
Allan D. Mercant, um homem que graças às duchas celulares do planeta Peregrino não envelhecera mais, soltou um muxoxo e desligou. Preferiu não contemplar as mãos desfiguradas pelos hematomas. Empurrou para o lado o relatório da Divisão de Doenças Infecciosas de Terrânia e bocejou.
Os médicos haviam previsto o cansaço exagerado. Este marcaria o segundo estágio da doença, que dentro de quinze ou vinte dias iria terminar com uma paralisia ligeira, para dar início ao terceiro e penúltimo estágio.
Não se sabia o que aconteceria ao doente nesse terceiro estágio.
Que belo presente nos deram os acônidas! Que povo maldito! — disse Mercant para si mesmo.
Mas o velho perito em matéria de segurança ainda dispunha de reservas de energia para espantar os pensamentos sombrios e voltar a dedicar-se ao trabalho.
Dali a pouco chamou e colocou seus especialistas em estado de alarma. Dos oito homens altamente qualificados apenas um ainda não contraíra a doença do plasma.
Boyd, cuide do assunto. E se não conseguirem qualquer resultado positivo, o plasma terá ganho a corrida contra os senhores. Acabo de saber que este monstro de proteína tem uma predileção toda especial pelas culturas da doença de endurecimento intestinal, por meio das quais consegue multiplicar-se. Apesar disso gostaria que os senhores conseguissem pôr as mãos nesse bando desumano que quis fazer seus negócios com a doença de endurecimento intestinal. Leve estes dados. Estes não deixam a menor dúvida de que os germes foram cultivados na Terra, e de que a ampola quebrada foi produzida na Terra. Trata-se de um caso raro. Façam tudo que estiver ao seu alcance, para que possamos pôr fora de ação esses maus terranos.
Dispensou-os e, assim que se retiraram, voltou a bocejar. Após isso informou Rhodan sobre a palestra que acabara de manter com o professor Degen.

* * *

As linhas confusas, que surgiram na tela do receptor de hipercomunicação de Perry Rhodan, anunciavam uma comunicação do gigantesco centro de computação de Árcon III. Antes que a voz metálica se fizesse ouvir, Rhodan transmitiu a ligação para o centro de pesquisas da clínica de Terrânia. Queria que os pesquisadores fossem informados imediatamente sobre os dados que seriam fornecidos pelo grande centro de computação.
Santo Deus, tomara que o computador não nos decepcione... — disse Reginald Bell, antes que a voz do gigantesco cérebro se fizesse ouvir.
Resposta à consulta 973/3. De Sua Majestade, o Imperador Gonozal VIII, a Perry Rhodan, Administrador do Império Solar:
Durante o segundo ano de governo de Sua Majestade Fufulgon IX, os habitantes de três planetas colonizados por Ácon foram dizimados por uma infecção de plasma. Para evitar a propagação da moléstia, o imperador mandou que esses planetas fossem destruídos. Os mesmos não existem mais.
A destruição dos três planetas aconteceu porque não havia remédio contra a infecção de plasma. As pesquisas realizadas na época limitaram-se à análise do plasma. Não se descobriu se a infecção foi produzida propositalmente ou se surgiu casualmente.
Resultados da análise:...
Ansiosos, Perry Rhodan, Reginald Bell e John Marshall ouviram as informações do gigantesco centro de computação de Árcon III. Embora não entendessem nenhum dos termos técnicos usados pelo computador, a quantidade de dados fez com que tivessem esperança de que estes servissem de base aos cientistas de Terrânia, para realizarem um trabalho rápido e eficiente.
Já faz oito minutos... — cochichou Rhodan para Bell, cujo rosto estava mais desfigurado pela infecção de plasma.
Depois de oito minutos e onze segundos, a transmissão dos resultados da análise, realizada pelo centro de computação de Árcon III, chegou ao fim. O conjunto confuso de linhas marcou o encerramento. A ligação foi interrompida.
Mas a ligação com o centro de pesquisa continuava de pé.
Porém esse centro não formulou qualquer comentário sobre o volume enorme de dados vindos de Árcon III; e Rhodan não formulou nenhuma pergunta pelo intercomunicador.
Não permitia que alguém o interrompesse em meio às suas reflexões, e agora achava que os homens, em cujas mãos repousava o destino de todos os terranos, tinham o mesmo direito.
Com um olhar, obrigou Bell a não pronunciar a observação que o amigo exaltado esteve a ponto de formular. Controlado como sempre, Marshall olhou fascinado para a tela que reproduzia a imagem da junta médica. O alto-falante transmitiu vozes confusas e ininteligíveis.
Viram o doutor Koatu levantar-se. Esse médico, que nunca se destacara entre seus colegas, parecia ter sua grande hora.
Sir — disse em tom exaltado — devo ressalvar a possibilidade de um engano, mas creio poder adiantar que a análise de Árcon representa um excelente ponto de partida. Segundo essa análise, trata-se de proteína desnaturada, ou seja, um tipo de proteína formado da substância natural, sob a ação do calor, dos ácidos, dos álcalis e dos fermentos. Mas há uma novidade, que ainda não conseguimos compreender: trata-se de uma proteína oticamente neutra, que não é dextrogira nem levogira. É só o que posso dizer no momento, sir.

* * *

Milhões de seres humanos da Terra bocejavam, bocejavam e bocejavam.
Todos os indivíduos atacados por essa estranha doença do sono estavam desfigurados. Não havia nenhum remédio que removesse os hematomas esponjosos que cobriam a pele. As partes do corpo atingidas pela doença não se tornavam supersensíveis, mas a tensão que surgia nas zonas não atingidas causava uma sensação de dor ininterrupta.
Três dias haviam passado desde os momentos iniciais da doença. E há três dias todas as emissoras de televisão procuravam convencer os homens da Terra e da Lua a não perderem a calma. Não procuravam enchê-los de promessas vazias. Com toda franqueza disseram que Rhodan e seus colaboradores mais chegados foram atacados da infecção da mesma forma que milhões de outros indivíduos.
No momento em que a noticia foi transmitida, o jornalista Walt Ballin encontrava-se no gabinete de Rhodan.
Ballin — disse Rhodan. — Está na hora de o senhor falar aos terranos. E deve falar da forma que exigiu em seu artigo. Peça que lhe concedam um horário de televisão que lhe seja conveniente. Não se esqueça de pedir dez minutos para mim. Quero falar ao mundo, depois que o senhor tiver falado.
Assim que o jornalista se retirou, Bell disse em tom contrariado:
Por que não exigiu que ele lhe apresentasse antecipadamente a exposição que pretende fazer? O que acontecerá se provocar nova onda de pânico? Ouviu os últimos relatórios da polícia de Terrânia, meu caro? Em nossa bela capital a ralé está saindo da toca, e o perigo ronda todos os lugares. Isso até parece uma revolução; parece até o fim do mundo. E nestas condições você ainda se arrisca a permitir que Ballin diga o que quiser...
Sim, Bell. Eu...
Não conseguiu falar mais nada. O tele-comunicador fez soar o alarma. Muito nervoso, o chefe de transmissões da emissora de televisão de Terrânia anunciou.
Sir, um certo Walt Ballin acaba de interromper a transmissão em seu nome e está falando por intermédio de mais vinte e oito estações que entraram em cadeia e cobrem todo o hemisfério norte...
Passe a transmissão para cá! Já! — interrompeu-o Rhodan.
Um brilho estranho surgiu em seus olhos cinzentos.
Santo Deus! — disse Bell, num gemido. — Este jornalista está falando de improviso. Vai ser uma coisa!
Foi uma coisa formidável.
O discurso que Walt Ballin dirigiu aos terranos foi formidável devido à simplicidade e à convicção sincera. Ninguém poderia deixar de acreditar no que dizia. Naquele momento, sua voz saía do alto-falante:
Sou jovem. Tenho apenas vinte e sete anos. Ainda tenho muito para viver. A tela lhes mostra como estou neste momento...
Se não houver salvação, terei três meses de vida, no máximo. Mas espero que nestes três meses venha a salvação e nem penso em pegar uma corda para enforcar-me.
Qualquer pessoa que se deixa dominar pelo desespero e põe fim à própria vida jamais teve fibra para ser um cidadão do Universo. E eu quero sê-lo; mesmo agora. Acredito que serei. E, neste momento, sei por que acredito nisso.
Acredito porque sou um terrano, e o futuro abre-se diante de nós, mesmo que no momento pretendam barrar nossos passos para o futuro por meio de uma infecção de plasma...”
Reginald Bell sentiu o olhar indagador de Rhodan pousado sobre si. Walt Ballin continuava a dirigir-se aos homens do hemisfério norte.
Meus respeitos, Perry! O que será que este Ballin tem que consegue falar de forma tão simples e tão convincente? Até mesmo eu sinto-me atingido por suas palavras. Até tenho a impressão de que se dirige especificamente a mim.
Isso acontece porque acredita no que está dizendo. Preciso ir ao estúdio...
A vontade de bocejar obrigou-o a interromper-se. No mesmo instante viu-se que Walt Ballin também bocejava. Esse fato fez com que tecesse novas considerações.
A infecção de plasma deixa-nos cansados, mas ainda não se pode dizer se os nossos médicos conseguirão um antídoto. Não quero infundir esperanças vazias nos senhores, mas tenho todos os motivos para acreditar que os médicos também saberão dominar esta repugnante moléstia.
Dali a alguns minutos, Rhodan falou pela televisão.
A transmissão ao vivo também foi captada no centro de pesquisa. Por três vezes todas as palestras cessaram e os médicos, que na sua grande maioria também tinham adoecido, balançavam a cabeça.
Todos viam a morte pela frente. Mas todos queriam viver um pouco mais, inclusive o doutor Koatu, que só tinha vinte e três anos e estava casado há um ano.
6



Jeff Garibaldi, um homem baixo, gordo e calvo, esvaziou o cachimbo, enquanto olhava pela janela e contemplava o Arco do Triunfo.
Desde que a infecção do plasma se manifestara na Terra, há dez dias, ele e seus homens do setor francês quase não tinham trabalho.
Ainda não estava doente. Mas, face ao monstro de plasma, isso significava muito pouco. Poderia ser localizado a qualquer momento. Algum alimento que ingerisse poderia estar contaminado pelo plasma...
O monstro transformara-se numa presença universal, e a mensagem codificada que Garibaldi recebera de Terrânia na manhã daquele dia era desencorajadora. Por lá ainda se tateava no escuro. O plasma resistia a todos os meios empregados contra ele e, a cada dia, parecia multiplicar-se com uma rapidez ainda maior, pois precipitava-se sobre toda e qualquer substância orgânica.
Frigoríficos nos quais estavam armazenados milhões de toneladas de alimentos, enormes áreas de terra cobertas de plantações prontas para a colheita, gigantescos rebanhos de gado — tudo isso fora destruído ou estava na iminência de sê-lo.
A ameaça de fome andava de mãos dadas com a infecção. Tratava-se de um perigo do qual os homens ainda não se davam conta, mas que causava preocupações cada vez mais intensas em Terrânia.
Hum... — Jeff Garibaldi, bisneto de um conhecido batalhador da liberdade, endireitou-se repentinamente na poltrona. — Hum... — repetiu.
No dia anterior estivera em Soisy sur Seine, uma cidadezinha situada a cinqüenta quilômetros de Paris, a fim de encontrar-se com o homem V, mas este não viera. Garibaldi esperara até o anoitecer no pequeno café da Rue de Ia Republique, gozando as delícias de um belo dia de verão.
Hum... — disse pela terceira vez. — Será que em Soisy sur Seine eu vi alguma pessoa que sofria da doença do plasma ou não?
Garibaldi procurou lembrar-se, mas não conseguiu. Quanto mais se esforçava, mais nervoso ficava, sem compreender por quê.
Será que a coisa já está começando comigo? — perguntou de si para si e examinou as mãos.
Mas as mesmas não apresentavam os pontinhos vermelhos.
Que diabo! O que será que eu deixei de notar nesse lugarejo?
Podia dar-se ao luxo de refletir em voz alta, pois não havia mais ninguém da Segurança Solar no escritório de Paris, isto é, na seção da área de língua francesa.
Jeff Garibaldi encheu o cachimbo e acendeu-o. Depois da terceira tragada fez uma careta.
Que gosto horrível tem este tabaco! É uma erva miserável. Preciso respirar um pouco de ar puro.
Sabia que estaria violando normas se abandonasse o escritório.
Lá fora o Sol brilhava no céu límpido. Era mais um dos célebres dias de verão de Paris.
É o último verão... para todos — disse Garibaldi ao entrar no carro. — Depois não haverá mais nada; apenas o monstro de plasma.
Geralmente levava pelo menos uma hora para sair de Paris, mas hoje conseguiu atingir a periferia da cidade em doze minutos. Havia uma placa que dizia: Soisy sur Seine, 42 quilômetros.
Jeff Garibaldi precisava saber o que deixara de notar naquela cidadezinha, durante a visita que lhe fizera na véspera.
Há dez dias a via expressa ainda estava coberta por uma fileira de carros. Mas hoje, ao chegar a Soisy sur Seine, Jeff Garibaldi ultrapassou quatro veículos e apenas cruzou com um único.
A Terra aguardava a morte!
Garibaldi lembrou-se disso e usou uma terrível praga francesa para livrar-se do pavor que ameaçava dominá-lo.
Estacionou à direita do Café Nicole e desceu do carro.
Havia duas mesas ocupadas e onze vazias.
Un café au lait — disse, fazendo seu pedido à moça magra de cabelos castanho-escuros, que fitou seu rosto com uma expressão assustada e suspirou aliviada ao ver que nele não havia o hematoma esponjoso.
Naquele momento, um véu parecia cair dos olhos de Garibaldi.
Lembrou-se do fato que sua memória guardara por ocasião da visita àquela cidadezinha.
Não vira uma única pessoa que sofresse da doença do plasma... Nem uma única pessoa! E Soisy sur Seine tinha 45 mil habitantes!
O café com leite foi servido.
A moça fitou Garibaldi, perplexa. O segurança pagou o café, mas não tocou no mesmo. Atravessou a rua, em direção ao antiquado edifício da Prefeitura.
Já que era um elemento da Segurança Solar, obteve com a maior facilidade as informações que desejava.
Não, mister Garibaldi, por enquanto não há em Soisy sur Seine uma única pessoa que tenha contraído a doença do plasma.
Tem certeza?
Garibaldi era incapaz de acreditar no que acabara de ouvir. Em todo o hemisfério norte não havia uma única localidade, mesmo que possuísse apenas duas casas, que tivesse ficado livre do monstro de plasma, enquanto aqui, numa cidade de 45 mil habitantes, a doença ainda não havia grassado.
Obrigado! — disse Jeff Garibaldi, perplexo, e foi-se.
Os dois funcionários, que lhe haviam fornecido a informação, seguiram-no com os olhos e balançaram a cabeça.

* * *

Eram três horas e vinte minutos, tempo padrão. O dia começava a raiar em Terrânia. Naquele momento, Perry Rhodan foi acordado por um sinal de alarma.
Despertou num instante.
Aqui, Rhodan. O que houve? — perguntou, falando para dentro do microfone do telecomunicador que ficava ao lado de sua cama.
Os contornos ainda não se haviam fixado na tela, quando ouviu a voz de Allan D. Mercant.
Sir, acabo de receber um chamado da França. É do mesmo homem que pediu a Walt Ballin que o procurasse em Terrânia. Seu nome é Jeff Garibaldi. Esse Garibaldi constatou um fato totalmente incompreensível: em seu setor...
O que houve com o senhor, Mercant? Nunca o vi desse jeito. Procure ser breve! — disse Rhodan, interrompendo o chefe do Serviço de Segurança.
Perdão, sir, mas esta notícia... A cinqüenta quilômetros de Paris existe uma cidade chamada Soisy sur Seine, com quarenta e cinco mil habitantes, na qual não houve um único caso de infecção de plasma.
Nem um...?
Rhodan não completou a frase, e Mercant também não disse nada.
Esse Garibaldi é um elemento de confiança, Mercant?
É de confiança, exceto quanto ao regulamento, que ele não leva muito a sério. Hoje mesmo...
Sim, está bem! Quer dizer que a cidade tem quarenta e cinco mil habitantes, e não há um único caso de plasma. O senhor ainda está na cama?
Estou.
Saia imediatamente, Mercant! Encontramo-nos daqui a meia hora no espaçoporto, na área sessenta e sete; é onde está estacionada a Burma, com a qual decolaremos.
Sir, não podemos...
Podemos, sim senhor...
Rhodan não disse o que podiam fazer. Acordou Reginald Bell, John Marshall, Gucky, Ras Tschubai e Walt Ballin.
Decolaremos em pouco menos de meia hora com a Burma, que se encontra na área sessenta e sete da espaçoporto.
Não os informou sobre o lugar para onde decolariam.
No momento em que dois planadores com sete pessoas atacadas pelo plasma se aproximavam da Burma, os propulsores da nave da classe Estado já estavam esquentando.
O interior da comporta polar estava iluminado, mas só a escotilha externa achava-se aberta. Na escotilha viam-se sete trajes espaciais.
Coloquem isto! — ordenou Rhodan. — Fechem os capacetes. Controlem as provisões de ar.
Enquanto envergavam os pesados trajes, a escotilha externa fechou-se. Dali a trinta segundos, os propulsores rugiram e a Burma levantou-se do solo. As máquinas superpotentes da nave permitiam-lhe atingir a velocidade da luz dentro de poucos minutos.
Rhodan era o único que conhecia o destino do vôo. Mercant desconfiava de alguma coisa, mas não tinha certeza. Como sempre, Bell foi o primeiro a perder a paciência.
Você não vai nos dar algumas informações, Perry? — resmungou, terminando a pergunta num bocejo.
Voamos ao encontro da Condor, para a qual nos transferiremos. Ali também permaneceremos na comporta polar e pousaremos em Soisy sur Seine.
O que vem a ser isso, Perry? Um médico?
Bell não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, e, com exceção de Mercant e Walt Ballin, a mesma coisa acontecia com os outros.
Gucky penetrou nos pensamentos de Mercant e descobriu que se tratava de uma cidade que ficava nas proximidades de Paris.
Piou para dentro do rádio de capacete:
Acho que em Geografia você sempre tirou nota de deficiente na escola, não é, gorducho? Soisy sur Seine é uma pequena cidade que fica nas proximidades de Paris. Não é o nome de qualquer médico. É bem verdade que eu também preferiria voar para junto de algum médico que me restituísse o aspecto normal. O atual é horrível, e o seu não é muito melhor, gordo.
O que é que vamos fazer em Soisy sur Seine, Perry? — perguntou Reginald Bell, que aceitou sem comentários a observação sobre sua ignorância geográfica. — Por que não vamos para dentro da nave? Por que temos de enfrentar o desconforto da comporta polar?
Acho que o motivo é evidente, Bell — respondeu Perry Rhodan, em tom um tanto áspero. — O monstro de plasma ainda não atacou nenhum dos tripulantes da Burma, isso porque não teve oportunidade de penetrar na mesma. Não podemos cometer a irresponsabilidade de levar o monstro aos homens que se encontram a bordo. Na Condor também não surgiu um único caso da doença. Seria inútil passarmos para a Condor se o comandante, Tenente Brisby, tivesse experiência de combate.
O quê? — berrou Bell para dentro do rádio de capacete. — O que está acontecendo mesmo?
Rhodan respondeu com a maior tranqüilidade:
Trata-se apenas de uma vaga suspeita, Bell. De uma esperança brilhante como uma bolha de sabão e frágil como a mesma. A tal de Soisy sur Seine, uma cidade de quarenta e cinco mil habitantes, não tem um único doente da infecção de plasma. Você compreende uma coisa dessas? Pois eu não compreendo.
Sim, e daí?
É justamente para podermos responder a essa pergunta que estamos a caminho para lá?
E temos de ir com duas espaçonaves da classe Estado?
É possível que seu poder de fogo não seja suficiente. Talvez teria sido preferível se tivéssemos recorrido aos couraçados.
Santo Deus, o que está acontecendo? — perguntou Gucky, que também se sentia espantado.
A tentativa de ler os pensamentos de Rhodan fracassou em virtude do bloqueio erigido pelo mesmo.
Trata-se de uma suspeita; de uma esperança. Por isso não pousaremos junto à cidadezinha, mas saltaremos sobre a mesma.
Dali a pouco transferiram-se para a Condor, que saíra de sua órbita para ir ao encontro da Burma. Mais uma vez, o grupo de sete indivíduos permaneceu entre as escotilhas da comporta polar e comunicavam-se exclusivamente pelo rádio de capacete.
Só agora Rhodan esclareceu-os sobre a natureza de suas suspeitas. Concluiu com esta observação:
Quem me deu essa idéia foi o professor Degen, médico-chefe da nave-hospital III.
Pois ele sabia que nessa cidadezinha francesa só há pessoas sadias, Perry?
Bell, que costumava ser otimista, mostrava-se sob outro aspecto.
Não. Nós mesmos só sabemos disso há pouco tempo — respondeu Rhodan e voltou a bocejar.
Era impossível vencer a tendência de bocejar. Esta superava tudo, e qualquer ato para reprimi-la apenas representava um desperdício de energia.
Por que não consultou os médicos antes de decolar, Perry? Seu plano está sobre um alicerce inseguro. Afinal, você não entende muito de Medicina.
Não quero contestar isso, meu caro. Acontece que nem sempre o saber é o fator decisivo. O que importa é fazer o que está certo, e tenho a impressão de que em Soisy sur Seine descobriremos alguma coisa que se reveste da maior importância para toda a Humanidade. Por que não há casos de doença de plasma nessa cidade? Por que será? Deve haver um motivo para isso.
Onde é que vamos procurar uma coisa que nem sabemos o que é? — perguntou Bell, que ainda não concordava com o plano de Rhodan.
Esta parte ficará a cargo de John Marshall e de Gucky! — respondeu Rhodan em tom tão penetrante que Bell compreendeu ser suas perguntas supérfluas.
Quando saltaram a dez mil metros de altura e caíram para dentro da noite que cobria Soisy sur Seine, formaram uma fileira. Dentro de seu traje espacial, cada pessoa formava uma pequenina espaçonave, dotada de campo protetor-propulsor e capacidade de aceleração. Os minúsculos geradores forneceram o máximo de energia para os campos de repulsão. Os campos antigravitacionais estavam funcionando com metade de sua potência.
Quando o altímetro baixou para a marca dos trezentos metros, os geradores antigravitacionais foram regulados para a potência máxima. Os membros do grupo pousaram suavemente, como se fossem penas.
Ligar o defletor! — ordenou Rhodan pelo rádio.
Era mais uma cautela em meio à escuridão da noite: os sete indivíduos se tornariam invisíveis por meio dos defletores.
Conformaram-se com a desvantagem que isso representava; não podiam ver seus companheiros, nem mesmo se ligassem os holofotes.
A cidade de Soisy sur Seine ficava a três quilômetros.
O telepata John Marshall e Gucky começaram a trabalhar. Tentaram detectar fluxos mentais estranhos, que lhes pudessem servir de indicação.
Nada! — disse Marshall depois de quinze minutos.
Gucky, que geralmente gostava de salientar-se, manteve-se calado.
Um veículo passou pela via expressa; estava com os faróis altos. O feixe de luz penetrou profundamente na noite. O carro ia em alta velocidade. O motorista devia conhecer a estrada. Passou a um quilômetro dos homens, que estavam em campo aberto e esperavam para ver se Gucky descobria alguma coisa.
Chefe, nesse carro vai um ara! — disse Gucky, tremendamente excitado. — Vou dar o fora! Marshall, mantenha contato comigo!
Mal acabou de pronunciar a última palavra, teleportou-se. Dali a pouco, John Marshall disse:
Gucky está louco. Está sentado em cima da coberta do carro. Vai em direção ao centro da cidade... Está passando pela praça... Dá a volta... a terceira rua da direita. Gucky diz que é uma rua que sai da cidade... O carro está acelerando... Ora, como o pequeno está praguejando! Mal consegue segurar-se... Pensa em teleportar-se... Não, resolveu ficar. O veículo parou; está entrando numa estrada particular. Controles robotizados... Um momento, já não entendo o pequeno. Está pensando cada tolice! O que um confeito poderia ter que ver com seus pensamentos? É um pequeno castelo que parece estar confeitado... São quatro aras! Três deles estão esperando o carro. Um está saindo da casa. São aras com máscara de terranos...
John Marshall reproduzira trechos dos pensamentos de Gucky.
Ras Tschubai — disse Rhodan, dirigindo-se ao teleportador africano. — Dê cobertura a Gucky. E cuide para que o pequeno não se arrisque demais. Em hipótese alguma os aras devem desconfiar de que estamos em sua pista.
OK, Sir!
Ras Tschubai também desapareceu. Marshall também manteve contato mental com ele, embora não pudesse estabelecer uma comunicação telepática tão eficiente como a que mantinha com Gucky.
Vamos decolar, minha gente. Marshall, vá à frente! — ordenou Rhodan.
Ergueram-se do solo, formaram uma fileira e, voando a cem metros de altura, dirigiram-se à cidadezinha.
As luzes das ruas estavam acesas. A praça era perfeitamente visível. Em poucas casas havia luzes acesas. Soisy sur Seine estava dormindo.
John Marshall levou-os pelo caminho mais curto em direção ao lugar onde se encontravam os dois teleportadores e os aras. Pousaram em meio a flores e arbustos perfumados, dentro do parque que cercava o pequeno castelo. Os homens continuavam envoltos nos campos de deflexão.
Marshall, o que os dois estão fazendo? — perguntou Rhodan.
E antes que o telepata tivesse tempo para responder, acrescentou:
Vamos abrir os capacetes espaciais e desligar os campos de deflexão.
Sentiram-se atingidos pelo frescor da noite e pelo ar supersaturado de umidade. A uns duzentos metros do lugar em que se encontravam, notaram a entrada iluminada do castelo. À frente da construção estava parado um veículo. Provavelmente era o mesmo que viram correr pela via expressa.
Sir, os dois teleportadores estão no interior da casa. Lá dentro há uma quantidade enorme de médicos galácticos. Pelo que informa Gucky, estão conversando sobre a infecção de plasma... Divertem-se com isso, sir...
Não se divertirão por muito tempo! — resmungou Bell, em tom de ameaça.
Cale a boca! — gritou Perry para o amigo. — Marshall, chame Gucky e Tschubai!
Em um segundo, os dois apareceram entre eles.
Abram os capacetes e desliguem o defletor e o rádio. Não queremos ser localizados pelo goniômetro.
Os aras já os haviam localizados. Marshall interrompeu o chefe em tom apressado:
Sir, os aras estão lançando um ataque de robôs contra nós. Temos que dar o fora. Determinaram nossa posição exata pelo goniômetro.
Ao ouvir a advertência, Rhodan ligou o potente minicomunicador e gritou:
Pombo! Pombo! Duas vezes gavião! Os aras jamais descobririam o sentido destas palavras codificadas. Antes que o compreendessem, a Burma e a Condor apareceriam sobre o castelo.
No mesmo instante teve início o ataque.
Os robôs de guerra arcônidas dispararam as armas de radiações contra eles, mas os raios energéticos de grande alcance apenas devastaram parte do parque, pois antes que fosse disparado o primeiro tiro, Gucky e os seis terranos subiram verticalmente ao céu.
Subitamente Gucky desapareceu!
Allan D. Mercant, que era o penúltimo membro da fileira, notou sua falta. Mas no mesmo instante percebeu-se para onde o rato-castor havia desaparecido.
Cinco máquinas de guerra arcônidas de uma tonelada subiram ao céu como se fossem aviões a jato. Os monstros positrônicos, que não compreendiam o que estava acontecendo, dispararam em todas as direções. Os raios, que nos primeiros instantes cintilaram em todas as cores, empalideceram e tornaram-se cada vez mais finos.
Quando estavam reduzidos a um traço, Gucky libertou as máquinas de sua energia telecinética. Acompanhadas de massas de ar uivantes, as mesmas precipitaram-se ao solo. Penetraram profundamente no chão do parque, como se fossem bombas não detonadas.
Sir, os aras farão explodir o castelo!
A advertência de John Marshall chegou com alguns segundos de atraso.
A terra abriu-se. Um furacão de fogo esfacelou um castelo que se encontrara há mais de quatrocentos anos junto à cidade de Soisy sur Seine. A fúria atômica tangeu uma chama para o céu noturno.
Graças ao dispositivo automático de seus capacetes, os seis terranos não morreram imediatamente sob os efeitos da radiatividade. Porém os débeis reatores antigravitacionais foram impotentes face às energias atômicas liberadas.
Assim que foram atingidos pela primeira onda de compressão, sentiram-se tangidos por cima da cidade como se fossem folhas secas. A fileira que formavam, de mãos unidas, rompeu-se.
Walt Ballin, que só conhecia espetáculos desse tipo das transmissões de televisão, pensou que sua hora tivesse soado. Não recebera qualquer treinamento na Academia Espacial, e por isso esqueceu-se das funções dos diversos botões que havia em seu traje espacial. Por engano ligou o gerador do campo defensivo para a potência máxima e desligou o campo antigravitacional.
Só no último instante percebeu que já não voava em meio às massas de ar revoltas, mas caía que nem uma pedra. Uma nova onda de pressão evitou que fosse esmagado de encontro ao solo. A queda vertical transformou-se numa queda oblíqua. O campo defensivo fê-lo deslizar por cima da cumeeira de um telhado. A chaminé da lareira não representou um obstáculo mortal, mas desviou sua trajetória e reduziu a velocidade da queda. Ao cair de cima do telhado, foi parar na copa de uma árvore frutífera. O campo defensivo protegeu-o dos galhos, mas foi sacudido com tamanha violência que perdeu os sentidos.
Gucky só ouvira o rugido da explosão atômica, mas não vira nada. Um segundo antes da catástrofe teleportara-se, seguindo um impulso mental, vindo do subsolo.
Seus inteligentes olhos de camundongo piscaram. Sua mão direita segurava um desintegrador e a mão esquerda uma arma de impulsos. As armas estavam apontadas para três aras. Estes médicos galácticos tinham o aspecto de verdadeiros aras; não usavam qualquer disfarce que os transformasse em terranos.
É Gucky! — gritou um ara e sua mão procurou atingir a arma que trazia no cinto.
Em vão. Perdeu o apoio dos pés e voou em direção ao teto como se fosse uma bola.
Gucky lançou mão de suas forças telecinéticas.
O ara, que o reconhecera, já estava estirado no chão, inconsciente. As forças telecinéticas de Gucky comprimiam os outros dois contra o solo com tamanha força que não podiam fazer o menor movimento.
Gucky farejou perigo. Captou impulsos ininteligíveis. Desde o momento em que tivera seu primeiro contato com robôs, aprendera a diferençá-los dos de um homem. E se havia no Império Solar uma única criatura inteligente que não suportava os robôs, essa criatura era Gucky, o rato-castor.
No mesmo instante trocou a arma de impulsos por um projetor hipnótico e despejou toda a carga sobre os três aras. A seguir, o rato-castor dissolveu-se no ar.
Sabia que se encontrava numa reserva subterrânea dos aras, que, devido a uma forma por enquanto inexplicável, conseguiram vir à Terra sem serem notados e estabelecer-se na periferia da cidade de Soisy sur Seine, disfarçados em terranos.
Mas quando rematerializou-se perdeu a fala e... por pouco não perdeu também a vida.
Fora parar num gigantesco laboratório!
E esse laboratório estava cheio de robôs. Nem todos eram robôs médicos, cuja programação os incumbia de vigiar o processo de fabricação. Dois deles, que se encontravam a apenas quatro metros de Gucky, eram máquinas de guerra. Mas felizmente estas haviam sido reguladas para arcônidas, saltadores e terranos, mas não para uma criatura que tinha apenas um metro de altura e se parecia com um gigantesco camundongo.
Ui... — piou Gucky, apavorado, quando compreendeu o que vinha a ser a construção metálica que se encontrava à sua frente.
Saltou.
O raio expelido pelo robô, que acabara de “despertar”, derreteu o concreto plastificado no lugar em que Gucky se encontrara um instante atrás.
O robô não teve tempo de disparar pela segunda vez. Ele e seu colega metálico derreteram sob o fogo do desintegrador de Gucky, que se materializara um metro atrás dos dois.
O que está acontecendo aí atrás, pegador? — gritou uma voz exaltada em arcônida.
Vinha da outra extremidade do gigantesco laboratório e sala de fabricação.
Gucky concentrou-se sobre o próximo salto, que o levaria para junto do ara que acabara de proferir essas palavras. Mas nesse instante, Ras Tschubai surgiu à sua frente.
Ajude-me a procurar o chefe e os outros, Gucky! — disse Tschubai, dirigindo-se ao rato-castor.
O pequeno ser nem perguntou como o africano o encontrara.
Fora! — limitou-se a dizer, e saltaram em direção à superfície.
O dispositivo automático dos trajes espaciais reagiu imediatamente à elevada dose de radiações da atmosfera e fez com que os capacetes se fechassem.
Uma gigantesca cratera abriu-se no lugar em que durante quatrocentos anos houvera um pequeno castelo. O parque também desaparecera. A área periférica esquerda de Soisy sur Seine estava em chamas. A onda de calor provocada pelo vulcão atômico incendiara as casas.
Aquela cidadezinha, que fora poupada pelo monstro de plasma, corria perigo de transformar-se numa gigantesca fogueira.
Estabeleci contato com o chefe, com o gordo e com Mercant, Ras, Mas não consigo localizar John nem o jornalista. Segure minha mão e vamos embora!
Saltaram outra vez.
Rhodan, Bell e Mercant estavam parados junto ao muro de uma fábrica de máquinas.
Ras e eu estamos aqui! — disse Gucky, ao ouvir a voz de Bell em seu alto-falante de capacete.
Não sabemos onde estão Marshall e Ballin, Gucky!
Deixemos isso para mais tarde, Perry! — interrompeu-o Gucky, apressadamente. — Os aras instalaram uma gigantesca fábrica de medicamentos a quinhentos metros de profundidade. Está funcionando a toda força. Temos de ir para lá, antes que os médicos galácticos a façam explodir. Se o fizerem, todos os habitantes desta cidade morrerão.
Quer dizer que é isso mesmo! — limitou-se Rhodan a dizer.
Em compensação Mercant, que se mantivera em silêncio, falou:
Sir, já começo a adivinhar do que se trata, e também imagino por que a observação do professor Degen fez nascer essa suspeita em sua mente.
Rhodan e Bell seguraram o traje espacial de Gucky; Allan D. Mercant colocou os braços em torno dos ombros de Ras Tschubai.
Saltar! — comandou o pequeno, e os dois teleportadores levaram os três companheiros para as instalações subterrâneas dos médicos galácticos.
Foram parar num verdadeiro inferno.
Oito máquinas de guerra arcônidas correram em sua direção; onze aras seguiram-nos, abrigando-se atrás dos colossos metálicos.
Grandes moleques! — piou Gucky. Seus olhos de camundongo faiscaram em direção aos robôs quando disse:
Ras, vamos ficar lá em cima e liquidar os robôs! Agora!
Os dois teleportadores saltaram, sem aguardar as ordens de Perry Rhodan.
Desapareceram atrás do aparelho de refrigeração que também servia de abrigo a Rhodan e seus companheiros. Pousaram sob o teto, em meio a uma confusão de tubos, alguns finos e outros com até vinte centímetros de diâmetro.
O rato-castor foi mais rápido que o africano. Segurando a arma de choque na mão esquerda, regulou-a para o desempenho máximo e apontou para os onze aras, que não desconfiavam de sua presença naquele lugar situado quatro metros acima deles.
Os médicos galácticos caíram sob os efeitos do choque como se tivessem sido atingidos por um raio. Um deles, que não tinha levado a dose integral, procurou fazer pontaria com a arma de impulsos para atingir o aparelho de refrigeração. Mas Gucky foi mais rápido!
As máquinas dirigidas por um dispositivo de comando positrônico não haviam notado o ataque desfechado às suas costas. Dois raios de desintegração e os fluxos energéticos das armas de impulsos atingiram-nos. Na primeira investida foram destruídos cinco robôs. Depois disso, os outros três perceberam de onde vinha o ataque.
Pararam, giraram as cabeças metálicas e não notaram que Perry Rhodan saiu de trás de seu abrigo. De pé, segurava uma arma de desintegração em cada mão e começou a disparar contra os robôs. Numa fração de segundo, Bell também começou a disparar e destruiu as pernas do colosso metálico que tinha Gucky como alvo.
Subitamente o cheiro dos metais derretidos, dos isoladores queimados e dos transformadores fumarentos encheu o gigantesco pavilhão. Oito robôs haviam virado sucata. Poucos metros atrás eles, onze aras inconscientes estavam deitados no chão.
Os robôs de trabalho do pavilhão não tomaram conhecimento dos acontecimentos. Continuaram a vigiar o processo de fabricação, como se nada tivesse acontecido.
Gucky e Ras voltaram a aparecer na frente dos companheiros.
O que é isto, chefe? — perguntou o rato-castor curioso.
Bem, Gucky, para saber o que é isso precisamos trazer o doutor Koatu e mais dois ou três especialistas. Você poderia cuidar disso, Gucky?
O pequeno empertigou-se e lançou um olhar de recriminação para Rhodan.
O quê? Será que você desconfia de que não sou capaz de dar um pulo de gato que só representa metade da volta em torno da Terra? Daqui a cinco minutos estarei de volta com esses homens de branco!

* * *

Dali a poucos segundos, Ras Tschubai saltou atrás de Gucky, em direção a Terrânia.
Tschubai — dissera Rhodan em virtude de uma idéia repentina. — Salte para Terrânia e traga Ulland, Kokstroem e Church, o quanto antes. Hoje não importa que venham de pijama ou de fraque.
Ras Tschubai limitou-se a confirmar com um aceno de cabeça e desapareceu.
Você pediu a presença de Ulland, Perry? — perguntou Bell, com um olhar pensativo.
Esta pergunta nunca obteve resposta. O débil dom telepático de Rhodan captou os impulsos mentais de alguns aras. Imediatamente informou Bell e Mercant sobre o que acabara de perceber.
As irradiações vêm da esquerda. Suponha que estejam no setor do laboratório que fica atrás dessa porta.
Quantos são, Perry? — perguntou Bell.
Três ou quatro — limitou-se Rhodan a responder.
O Marechal Mercant acenou com a cabeça. Contornaram o montão de destroços e passaram por quatro faixas rolantes, diante das quais os robôs de trabalho continuavam a desempenhar suas tarefas. Não demonstraram o menor interesse pela luta. Sua programação lhes ordenava que cuidassem do preparo dos produtos farmacêuticos.
Junto à porta do outro setor do laboratório, Rhodan constatou, graças à sua débil capacidade telepática, que por lá havia quatro aras.
Ligar os defletores! — comandou.
Desse jeito não nos veremos uns aos outros! — ponderou Bell.
É um risco que temos de assumir. Você ficará à minha direita; Marshall, fique à minha esquerda. Liguem!
No mesmo instante tornaram-se invisíveis. Essa forma de proteção tinha a desvantagem já assinalada por Bell: não se viam uns aos outros.
Dali a dois minutos, dois dos quatro aras que ainda transitavam por aí estavam inconscientes, enquanto os outros dois foram muito bem amarrados por Bell.
Não se conseguia arrancar uma única palavra dos aras. Seus pensamentos consistiam exclusivamente em ódio, raiva e medo.
Olá, chefe! — piou uma voz no gigantesco pavilhão do laboratório. — Acabo de chegar com quatro doutores. Ora veja! Ras também esteve em Terrânia, e trouxe três pessoas. Será que temos trabalho para tanta gente?
Assim que ouviu a voz fina de Gucky, Rhodan voltou ao grande pavilhão. Lembrou-se das instruções que dera a Ras Tschubai, quando viu que Ulland, Church e Kokstroem estavam impecavelmente vestidos.
Dirigiu-se aos médicos.
Senhores, na Medicina não passo de um leigo. Por isso não posso apresentar-lhes uma tarefa perfeitamente definida. Peço-lhes que, o mais cedo possível, procurem descobrir no interior destas instalações subterrâneas o preparado que impediu que até agora surgissem casos de infecção de plasma na cidade de Soisy sur Seine. Outra tarefa consistirá em localizar as culturas do germe causador da doença de endurecimento intestinal. Não existe a menor dúvida de que a ampola encontrada na nave dos saltadores foi de fabricação terrana. Os senhores já conhecem as conclusões que extraí com base nesse fato. Queiram começar, cavalheiros.
Rhodan esforçou-se para não bocejar, mas a tendência produzida pela infecção foi mais forte que sua vontade. Sentiu os tremendos progressos que a doença fazia em seu organismo. Teve de esforçar-se mais que nunca para poder concentrar-se. E quando passou a dirigir a palavra a Ulland, Church e Kokstroem, sua voz parecia perfeitamente normal.
Os médicos de Terrânia manifestaram a suspeita de que o monstro de plasma tem um senso de localização. Por enquanto não ofereceram provas dessa hipótese. Mais uma vez, parto do fato de que em Soisy sur Seine não houve um único caso de infecção originado pelo plasma. Procurem descobrir se os aras dispõem de alguma instalação especial capaz de perturbar o sentido de localização do monstro. A tarefa é quase insolúvel, pois funda-se numa hipótese. Mas, na situação em que nos encontramos, não podemos desprezar qualquer alternativa, por mais vaga que seja. Façam o favor de começar, cavalheiros.
Mercant e Bell fitaram-no, perplexos. O marechal solar manteve-se em silêncio, mas Bell pôde tomar a liberdade de dizer ao amigo:
Fantasia é o que não lhe falta, Perry! Pela grande Via Láctea, hoje sua fantasia até me mete medo.
Ah, é? — respondeu Rhodan, sem se impressionar. — Pois a mim não. No fundo devo agradecer ao nosso marechal pelas especulações que acabo de fazer.
O quê?
Muito espantado, Mercant esqueceu-se do rosto desfigurado pelo plasma e fez menção de dar expressão normal às suas emoções. A dor avivou-lhe o estado em que se encontrava, mas mesmo assim prosseguiu:
Sir, há pouco, junto ao muro da fábrica, o senhor fez uma observação que se assemelha a esta. Acontece que não me lembro de lhe ter fornecido uma pista, por mais aleatória que seja.
Forneceu, sim, Mercant. O senhor me contou a palestra que manteve com o professor Degen. Perguntou como está a doença de endurecimento intestinal a bordo da nave dos saltadores. Em Terrânia, as culturas do bacilo foram devoradas pelo monstro e, na nave dos mercadores, a doença desapareceu de uma hora para outra. Queira acompanhar meu raciocínio.
Não segui pela trilha comum. Parti do pressuposto de que a ampola foi fabricada na Terra e do fato de que nos arredores de Soisy sur Seine não há um único caso de infecção de plasma, e isso encaixou com a simplicidade de dois mais dois são quatro. Em última análise, concluí que por aqui devia encontrar-se o meio de manter afastado o monstro de plasma. Contrariando as indicações do centro de computação de Árcon, os aras mais uma vez conseguiram criar, às escondidas e com base nos acontecimentos remotos verificados no Império de Árcon, um antídoto ou um meio de defesa.
Tomara que sua conta esteja certa — disse Bell, com a voz pausada.
Depois, ao ver o doutor Koatu parado entre duas fitas rolantes, gritou:
Doutor, faça o favor de vir até aqui! Koatu aproximou-se bocejando.
Quero fazer-lhe uma pergunta — principiou Bell. — Dizem que este monstro maldito se precipita sobre os compostos de proteína. Ele me fez compreender que eu também sou feito de proteína. Mas como foi que o monstro caiu em cima dos robôs e se fixou na superfície da Drusus? Esse fato não se harmoniza com a tese de que sempre anda à caça de proteína.
Não — respondeu Koatu, em tom delicado. — O senhor não considerou o sentido de localização hipotético do plasma. Todo robô contém três ou quatro elementos protéicos de ligação. E o plasma localizou estes compostos de proteína. Na sua tentativa de encontrar a substância, encontrou um obstáculo no envoltório metálico dos robôs. Não devemos partir do pressuposto de que o monstro seja dotado de inteligência. Seu sentido de localização não passa de um instinto. Por isso não saiu de cima dos robôs. Verificou-se que aquilo que no início supúnhamos ser ferrugem era um monstro cujo sentido de localização funcionava com um máximo de intensidade.
Tem alguma prova do que está dizendo, doutor Koatu?
O cientista balançou a cabeça.
Tudo não passa de hipótese, de suposição, sir.
O rato-castor piou em tom exaltado, em meio à conversa.
Perry, você está com a razão. Acabo de captar os pensamentos de um ara. O sujeito está com medo de que encontremos a coisa... Aliás o que vem a ser um pulsador Oska?
Nunca ouvi falar nisso. O que poderia ser, Gucky? — perguntou Rhodan, com certo nervosismo.
Os outros fitavam o rato-castor com uma expressão de curiosidade.
O pulsador Oska é a coisa que não devemos encontrar, chefe. Caramba! Já chegou ao fim de novo. O ara está com um medo terrível. E este medo supera qualquer outra manifestação de sua mente. O outro não demorará a morrer se voltar a mergulhar no medo. É uma pena que você esteja na minha frente, Perry, pois do contrário eu praguejaria para desabafar.
Mais tarde você terá tempo para isso. Informe logo Ulland, Church e Kokstroem sobre o pulsador Oska. É possível que esta indicação lhes facilite a busca.
Gucky desapareceu sem o menor comentário. O doutor Koatu seguiu-o. Os dois amigos, Mercant e Ras Tschubai permaneceram no mesmo lugar.
Olá, sir! — Rhodan captou a mensagem telepática de John Marshall. O chefe do Exército de Mutantes, que havia desaparecido, voltava a dar sinal de vida. — Estou com o jornalista. Procuramos contornar as áreas em que lavra o incêndio para chegarmos ao parque. Não é mais necessário, chefe! Gucky acompanhou nossa conversa e acaba de chegar. Saltaremos com ele.
No momento em que John Marshall emitiu o último impulso mental, Gucky apareceu com os dois companheiros.
Já informei os três especialistas, Perry. Também não sabem o que vem a ser um pulsador Oska — nem mencionou o fato de, numa ação instantânea, ter trazido Marshall e Ballin. Achava que não valia a pena perder uma única palavra por isso.
Marshall — disse Rhodan, fazendo de conta que não notava que o telepata ainda estava muito debilitado. — Cuide dos dois aras amarrados, que se encontram na sala ao lado. Tire tudo que está na cabeça deles. Cada minuto a menos que levarmos para descobrir o que estamos procurando aqui talvez possa salvar muitos homens da doença do plasma.
OK, sir! Minha presença será um prazer para os aras.
Estas últimas palavras representavam uma ameaça que não previa a violência física.
Os médicos galácticos não corriam perigo de levar pancadas para confessar. Marshall não tocaria um fio de seus cabelos, mas arrancar-lhes-ia por via telepática os pensamentos mais recônditos.
Walt Ballin olhou em torno, espantado. Viu o grupo de robôs de guerra destruídos. E viu os robôs de trabalho que se encontravam junto às faixas rolantes e prosseguiam na execução de sua atividade programada.
Sir — perguntou, dirigindo-se a Rhodan. — Está aguardando algo de específico?
Espero um milagre, Ballin — respondeu Rhodan, com a voz embargada.
Ora! — piou Gucky e desapareceu.
Rhodan procurou estabelecer contato telepático com o rato-castor, mas este colocou um bloqueio em torno de seus pensamentos.
Seu atrevido! — disse Rhodan a meia voz, quando viu Gucky voltar só.
Perry, dei uma beliscada nos pensamentos de Ulland. Sabe onde ele está? Junto ao pulsador Oska. Encontrou a geringonça e no momento está rouco de tanto chamar seus colegas Church e Kokstroem.
Será que já posso saber o que vem a ser o pulsador Oska? — gritou Rhodan, em tom impaciente.
Gucky teve o atrevimento de mostrar o dente roedor solitário.
Perry — disse em tom condescendente. — É a coisa, e a coisa é aquilo que mantém o monstro afastado de Soisy sur Seine.
O rato-castor falara com um atrevimento descarado, mas naquele momento Rhodan lhe teria perdoado falhas muito mais graves.
Como é que isso funciona, Gucky? — perguntou Rhodan, em tom delicado.
Mas Bell, que se encontrava a seu lado, falou em tom ameaçador:
Se você nos deixar no ar por mais tempo, eu lhe torço o pescoço, seu rato Jerry!
Seu gorducho convencido! — com isso, Gucky liquidou a ameaça que acabara de ser pronunciada. — Perry, se interpretei corretamente os pensamentos de Ulland, o pulsador Oska é um transmissor que emite complicados impulsos de interferência, que impedem ao monstro fazer a localização.
Ah! — exclamou Bell, atônito.
Perry — disse o rato-castor, com certo temor. — Será que vamos ficar curados?
Rhodan fitou seu pequeno amigo por alguns segundos e depois balançou a cabeça.
Não acredito, Gucky. Afinal, já fomos localizados. Acho que o pulsador Oska não poderá fazer mais nada por nós. Certo, Marshall!
Pronunciou estas palavras, embora Marshall tivesse apenas entrado em contato com ele por via telepática.
Onde? O quê? No silo dezoito? Que remédio é este? Uma substância perfumada que também constitui uma isca para o monstro? Marshall, não estou compreendendo nada. Faça o favor de repetir.
Os outros prenderam a respiração e fitaram Rhodan. Este converteu os impulsos telepáticos de Marshall em palavras, a fim de que os companheiros logo fossem informados.
A substância perfumada forma um composto com o monstro de plasma e o inativa, provocando a cristalização de seu líquido celular.
A pequena instalação de telecomunicação, embutida nos trajes espaciais, emitiu um sinal. O centro de pesquisas médicas de Terrânia queria falar imediatamente com Perry Rhodan. O interlocutor identificou-se.
Sir — rejubilou-se uma voz masculina, saída do alto-falante. — Com base nos dados das análises vindas de Árcon, conseguimos criar um antídoto. Trata-se de uma substância perfumada, que transforma o monstro de plasma em inofensivos cristais de proteína. Conseguimos, sir! Meu Deus, que dia maravilhoso!
John Marshall voltou. Apesar de tudo, seu rosto parecia amargurado.
O que houve, John? — perguntou Rhodan.
O chefe dos mutantes respirou profundamente.
Chefe, o que os aras pretendiam fazer conosco é inacreditável. Suas suspeitas se confirmaram. Nestes laboratórios eles produziam culturas do germe da doença de endurecimento intestinal. Pretendiam usá-las, para dizimar a população da Terra e apoderar-se do planeta. Os casos de doença que se verificaram na nave cilíndrica seria o último teste. Dentro de três dias desencadeariam a ação na Terra. O fato de termos sido atacados pelo plasma deixou-os bastante satisfeitos. Não tinham motivo para receá-lo. Mantinham-no afastado por meio do pulsador Oska, e, além disso, dispunham de um medicamento que lhes permitia curar qualquer pessoa que contraísse a doença. Quem encontra continuamente criminosos desse tipo, acaba perdendo a crença em tudo que é bom.
Não diga isso, John Marshall — interrompeu-o Rhodan. — Nem todos os aras são criminosos, assim como nem todos os homens são maus. Mas sempre haverá os maus. Não se pode aplicar a mesma medida a todos. Venha comigo; quero que esteja presente, quando eu falar com os aras.
A palestra foi breve.
Aras, a Terra já aboliu a pena de morte. As vítimas resultantes de seus atos não foram terranos, mas mercadores galácticos, ekhônidas, arcônidas e outras raças do Grande Império. Farei com que todos sejam submetidos aos impérios do Império de Árcon. Neste momento, o Imperador Gonozal VIII será informado sobre os acontecimentos e providenciará para que sejam levados a Árcon.
Um dos aras fez uma oferta, numa tentativa de evitar a extradição.
Rhodan, poderíamos ajudar o Império Solar a combater a doença do plasma.
Rhodan interrompeu o médico galáctico com a voz fria:
Com o pulsador Oska e a substância perfumada que se encontra no silo dezoito, ara? Será que você ainda não compreendeu que nunca negociei e nunca negociarei com criminosos?
Retirou-se. As pragas, que os aras rogaram contra ele, deixaram-no indiferente.

* * *

Perry Rhodan dispunha de trinta minutos para conversar com Walt Ballin. Sua agenda não permitia mais que isso, e Walt Ballin não queria demorar-se, pois a nave em que viajaria para Paris partiria às 13:45 h. Às vinte horas teria um encontro com Yvonne Berclais, no Trois Poulardes. Mandara reservar a mesa de Terrânia.
Quando aparecerá sua reportagem sobre o monstro de plasma, Ballin? Por enquanto a administração não trouxe ao conhecimento do público os motivos por que a Terra e o gênero humano escaparam mais uma vez. Cuide disso. Inclua na reportagem todas as informações, inclusive o erro cometido por mim.
Sir — interrompeu-o Ballin em tom exaltado. — Quem poderia acusar o senhor? De qualquer maneira os acônidas teriam enviado o monstro à Terra. Da maneira como as coisas correram, todos devem agradecer ao senhor, pois foi o único que, no auge da catástrofe, conseguiu perceber a ligação entre os fatos.
Não é bem assim, Ballin. Se não fosse Jeff Garibaldi, nunca teria ouvido falar numa pequena cidade chamada Soisy sur Seine. Quero que este exemplo lhe ensine que o indivíduo não vale nada, a não ser que possa contar com bons colaboradores. O trabalho de equipe é tudo, e o Império Solar repousa sobre este. O artigo em que o senhor esclarecerá a Humanidade a respeito do monstro fará parte desse trabalho de equipe.
Sir, hoje que já se passaram quatro meses desde a primeira infecção e vinte dias desde a notícia do último caso, ninguém mais está interessado em falar no monstro. E, o que é mais importante: seria uma irresponsabilidade da minha parte revelar todos os detalhes. Nesse caso teria de mencionar que, de um dia para outro, devemos esperar outro ataque dos acônidas.
Os rostos dos dois homens não apresentavam a menor deformação. O hematoma esponjoso não deixara marcas.
Rhodan sorriu.
Lembro-me perfeitamente de que, em certo artigo, o senhor manifestou uma opinião diametralmente oposta à que acaba de externar. Nesse artigo quase exigiu que a administração informasse os homens sobre tudo o que acontecesse, já que do contrário estes jamais seriam verdadeiros cidadãos do Universo.
Sir, naquele tempo ainda não sabia o que sei hoje. Agora compreendo a tremenda responsabilidade que o senhor assumiu por nós. Antes de retirar-me, quero formular mais um pedido. Será que oportunamente poderei vir para Terrânia?
Eu o espero, Ballin — respondeu Rhodan, estendendo-lhe a mão.
Walt Ballin hesitou em pegá-la.
Mais uma pergunta, sir. O que predomina no Universo? O monstruoso ou o admirável?
Ballin, ajude-me a transformar os homens em cidadãos do Universo. Enquanto o homem sente medo, este medo se revela sob a forma do monstruoso; entretanto, assim que perde este medo, começa a enxergar as maravilhas do Universo. Temos um longo caminho a percorrer, antes de chegarmos a este ponto. Mas, no fim deste caminho, estará o homem que será o dono do Universo.





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* *
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Rhodan e seus estupendos colaboradores venceram a terrível moléstia, que poderia dizimar aos poucos todo o Império Solar.
Os Traficantes de Alaze, título do próximo volume, é sinônimo de mais uma eletrizante aventura.

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