Everson
sabia que, por enquanto, qualquer resistência seria inútil. Tirou
seu traje protetor, e fez sinal para que seus companheiros o
imitassem. Bellinger retirou o mutante inconsciente do traje e
colocou-o numa poltrona. Napoleão esperou até que todos se tivessem
acomodado.
— Temos
duas alternativas — principiou o ser misterioso. — Podemos chegar
a um acordo, e nesse caso prometo-lhes que poderão passar
tranqüilamente seus dias em Moluque, ou então os senhores resistem
aos meus desejos, caso em que terei de recorrer à violência para
executar meus planos.
— Estas
palavras poderiam ser proferidas por mim e dirigidas ao senhor —
disse Everson em tom audacioso. — Nem preciso repeti-las.
— Sua
coragem não guarda a menor proporção com seus recursos —
sentenciou Napoleão em tom suave. — Não quero roubar-lhes as
esperanças infundadas que estão entretendo. Porém, dentro em
breve, terão de reconhecer que não estão em condições de
enfrentar-me. Permitam que antes de mais nada lhes explique por que
estou nesta situação.
Goldstein
foi recuperando os sentidos e movia-se nervosamente na poltrona.
Everson inclinou-se sobre o telepata e sacudiu-o. O mutante abriu os
olhos.
— Napoleão!
— cochichou. — O que aconteceu?
— Este
green é um deformador de moléculas — disse Everson em inglês. —
Tenha cuidado, Samy.
— Conheço
o dom insignificante que seu amigo possui — observou Napoleão em
tom indiferente. — Não há necessidade de preveni-lo, pois não
poderá fazer nada contra mim.
Com um
sorriso de contrariedade, Everson lembrou-se de Mataal. Este fora
vencido por Goldstein, embora, de certa forma, o deformador de
moléculas tivesse cometido um grande erro ao fornecer energias
paramecânicas àquele mutante...
— Encontro-me
numa situação nada invejável: sou o último membro de meu povo —
disse Napoleão, dando início à sua exposição. — Não falo isto
para provocar qualquer sentimento de compaixão nos senhores. Tive
tempo de sobra para dominar a tristeza. A gente aprende a suportar a
solidão. A nave em que nos encontramos deveria ter deixado em
Moluque cinco mil indivíduos da minha raça. Isso foi conseguido,
mas o estado em que esses indivíduos se encontravam, com exceção
de cinco oficiais, representava a consumação de tudo. Estavam
mortos.
“Nossa
nave desceu à superfície do planeta com a velocidade de um meteoro.
Neste ponto, cabe ressaltar que o sistema de propulsão de nossas
naves representa uma combinação de recursos técnicos e forças
paramecânicas, cuja atuação conjunta produz resultados
incomparáveis. Quando atingimos as camadas superiores da atmosfera,
os parapilotos constataram, de repente, que a comunicação, que
vinham mantendo os propulsores, se interrompera. Uma pressão mental
de intensidade inconcebível desabou sobre nós. Perdemos
inteiramente o controle. Numa questão de segundos, nossos dons se
extinguiram por completo. Qualquer tentativa de salvar a nave estaria
condenada ao fracasso. Encontrávamo-nos na mesma situação de um
alpinista que, de repente, perde a visão no meio de uma perigosa
ravina e está irremediavelmente condenado a cair.
“Ativei
as forças que me restavam, a fim de preparar-me para o impacto.
Talvez fosse minha salvação. Os outros quatro homens, que
sobreviveram à queda sofreram ferimentos tão graves que morreram
dentro de poucos dias. Com minhas faculdades paranormais mutiladas
não consegui prestar um auxílio eficiente. Aos poucos, a pressão
mental foi diminuindo. Nesse meio tempo, já havia descoberto sua
origem, pois consegui identificar alguns modelos de atividade mental.
“Porém,
meu conhecimento foi adquirido muito tarde para que pudesse ser útil
ao meu povo. Os nativos deste planeta irradiavam um tipo de paraondas
que sufocava qualquer outra atividade da mesma espécie. É claro que
os seres primitivos que habitam este planeta nem desconfiavam de tal
fato. Aos poucos, consegui resistir à pressão. Isso era de
importância vital para mim, pois precisava entrar em contato com os
nativos de qualquer maneira, se quisesse continuar vivo.
“Não
vou narrar todas as dificuldades que tive de enfrentar para
aproximar-me da aldeia. À medida que me aproximava dos greens, a
influência que estes exerciam em minha mente voltava a aumentar.
Apesar disso, consegui assumir o corpo do velho esquisitão que os
senhores vêem à sua frente. Antes de minha chegada, já vivia nos
arredores da aldeia e gozava da fama de ser imortal. E isso
representava uma vantagem para mim. Os greens não atingem uma idade
muito avançada, mas eu, Napoleão, podia continuar vivo sem provocar
suspeitas.
“O corpo
do esquisitão poupou-me o trabalho de criar uma nova identidade a
cada geração que passava. Dentro da aldeia, tinha de fazer um
esforço tremendo para ativar meus dons. Por isso, vez por outra,
costumava vir até aqui, para evitar que os nativos tivessem a idéia
de andar pelo deserto e espionar nas proximidades da nave. Provoquei
alguns acontecimentos que, aos seus olhos, deviam parecer milagres.
Dali em diante, não se afastaram nunca mais da aldeia.”
Fez uma
pausa. Seus olhos escuros brilharam. Quando viu que nenhum dos cinco
homens que se encontravam presentes dizia nada, prosseguiu:
— Sozinho,
jamais poderia fazer a nave decolar. Até mesmo para uma equipe de
paramecânicos experimentados, os trabalhos de reparo seriam um
problema. Além disso, não fui treinado como parapiloto. Era
possível que, a uma altura maior, a influência mental dos greens
aumentasse novamente. No entanto, verifiquei que isso não passava de
uma hipótese, que, mais tarde, revelou-se falsa. De qualquer
maneira, não havia para mim a menor chance de sair de Moluque.
Passei a vegetar, levando uma vida sem sentido ou finalidade.
“Pouco
depois da decolagem da nave que me trouxe, meu planeta explodiu.
Nossos cientistas pretendiam torná-lo independente do sol.
Construíram gigantescas abóbadas e aqueceram o núcleo do planeta
por meio da fusão nuclear de diversos elementos. A combustão
nuclear foi mantida sob controle por meios paramecânicos, ou melhor,
deveria ter sido mantida. Acontece, porém, que havia restos de um
material desconhecido e, por isso, estranho ao plano.
“Não
demorou que, sob a superfície do planeta se verificasse a fusão de
dois núcleos diferentes. Foi o princípio do fim. A combustão
atômica espalhou-se em inúmeras ramificações e carregou a
incandescência para a superfície. O planeta levou menos de um dia
para estourar. A última tentativa de uma raça moribunda, que queria
continuar viva, antecipou sua destruição.”
Pela
segunda vez Napoleão interrompeu a narrativa. Everson levantou-se,
um pouco embaraçado. Engolia em seco. Estivera envolvido por tanto
tempo no cenário cósmico que compreendia perfeitamente as
proporções da terrível catástrofe. A compaixão não
representaria qualquer ajuda para o deformador de moléculas. Era um
ser solitário e perdido, amargurado pelo triste fim de sua raça.
Face à
narração dessa catástrofe, o fato de a missão da México ter
fracassado perdia toda importância. Seria impossível firmar uma
aliança com os deformadores moleculares, pois estes não existiam
mais. Napoleão era o último representante dessa raça.
— Minha
apatia aumentou tanto que passei dias seguidos em minha miserável
cabana. Foi então que aconteceu o milagre — prosseguiu Napoleão.
— Uma nave estranha penetrou na atmosfera de Moluque. Foi fácil
descobrir que esta utilizava um campo antigravitacional para realizar
o pouso. Desenvolvi uma atividade febril. Superei as irradiações
dos greens e estabeleci contato parapsicológico com a nave. Em
hipótese alguma, deveria permitir que aqueles seres desconhecidos
escapassem. Consegui encontrar uma das chaves de controle do campo
antigravitacional e manipulá-la. Esperei que o veículo espacial se
encontrasse tão perto do solo que a queda não o destruísse,
tornando necessários apenas alguns reparos para que eu pudesse
voltar a aventurar-me pelo espaço. Quando chegou este momento,
desativei o campo antigravitacional. O resto da história os senhores
já conhecem.
— Foi
ele quem atacou a México — disse Bellinger em tom indignado e pôs
a mão no paralisador. — Uma lição não lhe fará mal.
Antes que
Everson pudesse fazer qualquer coisa, o tenente arrancara a arma e
disparara. No mesmo instante, a poltrona em que Bellinger estava
sentado desmaterializou-se e o pesado corpo caiu ruidosamente ao
chão. Numa outra situação o quadro seria divertido. O tiro
perdeu-se no ar. Bellinger voltou a levantar-se.
— Assim
não conseguiremos nada, tenente — advertiu Everson. — Faça o
favor de controlar-se.
Um tanto
envergonhado, Bellinger procurou outro lugar para sentar-se. Mas, ao
que parecia, Napoleão não estava mais disposto a prestar-lhe
gentilezas.
Everson
olhou para o relógio. Uma hora já se havia passado. Assim, o prazo
que combinara com Landis chegara ao fim. Esteve prestes a informar
Napoleão sobre isso, mas o deformador de moléculas estava
desaparecendo. Para isso, deixou-se cair pelo soalho. O quadro era
tão horrendo que Sternal soltou um grito de pavor. Mal o estranho
ser desapareceu, Bellinger correu para o lugar em que, pouco antes, o
deformador estivera. Suas mãos apalparam matéria compacta.
— Tenho
a impressão de que, no momento, somos seus prisioneiros — disse
Poul Weiss, esticando as palavras.
Na opinião
de Everson, estas palavras ainda representavam uma apreciação muito
lisonjeira da situação em que se encontravam. Estava convicto de
que Napoleão pretendia alcançar um objetivo bem definido. Queria
ficar com a México, deixando aos astronautas algo com que, em
hipótese alguma, poderiam ficar satisfeitos: uma vida em meio aos
greens.
*
* *
No exato
momento em que o Coronel Marcus Everson olhou para o relógio, Landis
disse, em voz alta, cinqüenta metros abaixo, em meio às areias do
deserto:
— O
prazo terminou.
Vinte e
quatro pares de olhos fitaram com uma expressão de ameaça a nave
que acolhera cinco astronautas e ainda não os libertara. Muito
embora as ordens do comandante fossem muito precisas, qualquer um
desses homens estava disposto a correr para a desgraça. Poucos
comandantes da frota solar eram tão estimados como Everson. Seus
homens o veneravam. Sabia dar o máximo de liberdade e exigir apenas
um mínimo de disciplina, sem que isso afetasse sua autoridade.
Por isso,
não seria de admirar que, naquele instante, alguns dos homens
pusessem as mãos nas armas térmicas e...
— Tenham
calma, minha gente — gritou Landis, embora ele mesmo também teria
o maior prazer em precipitar-se sobre o colosso oitavado que se
erguia diante de seu grupamento, em direção ao céu verde-pálido.
— Antes de mais nada, precisamos entrar em contato com Mr. Scoobey.
Passou a
lidar com aquele amontoado que, dificilmente, poderia merecer a
designação de aparelho de rádio. Os dedos ásperos do
radiotelefonista correram leve e despreocupadamente sobre as teclas,
como se o aparelho que tinha à sua frente fosse a coisa mais estável
do Universo. Quando a voz do oficial da México saiu do alto-falante,
todos seriam capazes de jurar que Landis era um verdadeiro gênio.
— Já
passou seis minutos da hora indicada, Sir — disse Landis. — O
comandante e os homens que o acompanharam ainda não voltaram. Por
aqui está tudo em paz. O que devemos fazer?
Landis,
que já teve o desejo de ser oficial ou mesmo comandante, agradeceu
ao destino por tê-lo obrigado a seguir outra carreira. Sabia
perfeitamente que, se estivesse no lugar do oficial, estaria indeciso
quanto às providências a serem tomadas. Não se lembrava de
qualquer tipo de ação que pudesse ser ao menos medianamente
razoável.
Ao que
parecia, Walt Scoobey defrontava-se com o mesmo problema, pois
demorou bastante tempo para responder.
— Mande
os dois robôs para a nave, a fim de que procurem os homens —
ordenou.
Era uma
boa idéia, mas havia um detalhe. Os robôs não existiam mais.
Haviam desaparecido juntamente com muitos outros objetos na tormenta
noturna, uma coisa que não deveria ter acontecido com os robôs de
guerra. Landis informou o interlocutor invisível sobre essa
circunstância.
— Bolas!
— disse Scoobey em tom de decepção. — Mande mais quatro homens
para dentro da nave, Toni. Talvez isso baste para manter o inimigo
invisível ocupado por mais algum tempo. Os outros devem retirar-se
com o aparelho de rádio, a uma distância em que ainda possam
avistar a espaçonave. Observe tudo que se passar. E mantenha o rádio
sempre em funcionamento. Usaremos o goniômetro e, dessa forma, não
teremos a menor dificuldade em encontrá-lo. Formarei um pequeno
grupo de combatentes e irei até aí pelo caminho mais rápido.
Estaremos aptos a enfrentar os acontecimentos. Talvez consigamos sair
com uma das naves auxiliares.
Landis
confirmou o recebimento da mensagem. Ligou o rádio de tal forma que,
a cada dez segundos, emitia um ligeiro sinal de chamada, que poderia
ser captado por qualquer goniômetro num raio de quinhentos
quilômetros.
— Quero
quatro voluntários — disse. — Já apareceu um — apontou para
si mesmo.
— Se me
permite que, como paisano, faça uma sugestão — disse o Dr. Morton
— direi que o senhor deve ficar junto ao aparelho “doente”,
a fim de salvá-lo novamente, caso volte a entrar em pane. Por outro
lado, o estado de saúde do grupo pode ser considerado bom. Portanto,
não vejo por que eu mesmo não poderia ir à nave.
Sem
dúvida, esta foi a fala mais longa, gentil e racional que o Dr.
Morton proferiu em sua vida.
— De
acordo — disse o operador de rádio, prontamente. — Delaney,
Pentsteven e Okeda irão com o senhor. Desejo-lhe boa sorte, doutor.
O jovem
Pentsteven provou mais uma vez que era um novato, pois, num gesto
emocionado, apertou a mão de Landis. Antes que o astrônomo pudesse
dramatizar ainda mais a situação, o médico empurrou-o em direção
à nave.
— Vamos
andando! — exclamou. — O que está esperando, meu filho?
Quatro
homens caminharam com dificuldade pela areia, em direção à “porta”
que os separava do desconhecido. Foram desaparecendo um após outro.
Pentsteven, que caminhava no fim da fila, virou-se e cumprimentou os
outros com um aceno da mão.
“Pode
ser uma despedida por algum tempo ou para sempre”,
refletia Landis muito preocupado. “E
é provável que a última hipótese seja a correta.”
*
* *
Desde que
existem homens, também existem prisioneiros. Com a navegação
espacial e o aparecimento de inteligências estranhas, esse fato
adquirira novos contornos. Até então os homens sempre foram
mantidos presos por outros seres de sua espécie. Mas agora tornou-se
possível aparecer outra raça e colocar os seres humanos sob
custódia. O encarceramento era um vício bastante disseminado pela
Galáxia, praticado em todas as formas concebíveis. Ao ato
tradicional de colocar o prisioneiro atrás das grades,
acrescentaram-se inúmeras variantes. Com o tempo foram criadas
prisões, onde o recluso nem percebia a situação lastimável em que
se encontrava. Mas isso era bastante raro. Via de regra, o “dono”
da prisão estava interessado em que a vítima soubesse o que lhe
estava acontecendo.
Tão velha
como a prática do aprisionamento de seres humanos é a idéia da
fuga. O homem da Idade da Pedra já quebrava a cabeça para descobrir
um meio de escapar da caverna do inimigo. À medida que as prisões
se tornavam mais complicadas, os planos de fuga adquiriam uma
sofisticação cada vez maior. Surgiram penitenciárias que podiam
gabar-se de que jamais um prisioneiro passara por cima de seus muros.
Nelas não havia a menor esperança de conseguir a liberdade tão
ansiada, antes que as pessoas que tivessem o prisioneiro sob sua
guarda julgassem chegado o momento. Mas bastou um prisioneiro passar
por baixo do muro para essa penitenciária perder a fama conquistada.
Inventaram-se
fechos com mecanismos de relógio, barreiras eletrônicas, campos de
radiações, paredes impenetráveis, e tais equipamentos foram
instalados nas prisões. Por espantoso que possa parecer, as fugas
continuaram. Nenhum equipamento, por mais sofisticado que fosse,
poderia quebrar a vontade de fugir que todo prisioneiro entretém.
Mesmo na era da perfeição científica e da supertecnologia, houve
pessoas que conseguiram pôr fim ao estado de isolamento em que se
encontravam.
A sensação
de estar preso é uma das piores de que a criatura humana pode ser
acometida. Mas a esperança é uma sensação mais forte...
*
* *
— Precisamos
encontrar um meio de sair daqui — disse Werner Sternal. — De
qualquer maneira, devemos tentar. É preferível fazer alguma coisa a
ficarmos sentados por aqui, até que nosso amigo volte a
interessar-se por nós.
Bellinger
gostaria de dizer que ele estava cansado de ficar de pé, mas Everson
cortou-lhe a palavra.
— Se
estivermos com azar, aqui não haverá sequer uma abertura — disse
o coronel. — Napoleão pode deslocar-se à vontade através das
paredes.
Dirigiu-se
a Samy Goldstein.
— O
senhor consegue estabelecer algum tipo de contato mental com o
deformador de moléculas? — perguntou. — Sente onde ele se
encontra ou quando se aproxima?
O mutante
fez um gesto vago. Era sensível como todos os mutantes.
— Pouco
importa o que eu diga — começou, falando devagar. — O senhor
nunca sabe se não o estou dizendo por estar submetido a uma
influência estranha. Minhas informações não lhe servirão de
nada, pois o senhor tem certa desconfiança de mim. Sempre se
lembrará de que Mataal me dominou. E é perfeitamente possível que
o mesmo venha repetir-se agora. Se eu lhe contar uma coisa, isso
poderá induzi-lo em erro. Portanto, qualquer informação que eu lhe
der só trará mais confusão.
Everson
reconheceu que o mutante estava com a razão. Na situação em que se
encontravam, não adiantaria contar com suas faculdades. Só quando
tivesse certeza absoluta, Goldstein falaria. E mesmo quando isso
acontecesse, Everson poderia não acreditar nele.
Weiss e
Sternal levantaram-se e, juntamente com Bellinger, passaram a
examinar as paredes. Apalparam-nas centímetro por centímetro,
embora suas mãos não alcançassem o teto. Depois de algum tempo,
Poul Weiss chegou a um lugar que resolveu submeter a um controle
minucioso.
— Foi
por aqui que entramos — disse. — Deve haver uma porta ou coisa
que o valha.
— É bem
possível que Napoleão tenha criado a abertura apenas para permitir
nossa entrada — disse Everson. — Não sabemos se ela ainda
existe.
— Não
comece com isso, Sir — gritou Bellinger em tom estridente. —
Daqui a algumas horas, o senhor começará a duvidar até da
existência da sala em que nos encontramos. Quem toma essa atitude,
acaba negando até a existência do mundo.
Everson
sentiu-se apavorado ao notar o pânico do tenente. Colocou-se ao lado
de Weiss. O biólogo não se deixara perturbar no seu trabalho.
“Mesmo
que contra todas as expectativas conseguissem escapar dali”,
pensou Everson, “o
que fariam depois?”
Atrás
dessa sala havia um corredor, e depois, outra sala. Se fugissem, não
modificariam sua situação, mas apenas sua posição no espaço. Era
como se um prisioneiro da penitenciária de Sing Sing cavasse um
túnel que o levasse de sua cela à sala dos guardas.
— Consegui!
— exclamou Weiss em tom exultante.
Everson
piscou os olhos. Parecia perplexo. Para ele, a parede continuava a
ser uma superfície impenetrável e contínua.
— O que
estamos esperando? — perguntou Weiss.
Bellinger
fungava. Sternal lançou um olhar bastante expressivo para Everson. O
jovem mutante sacudiu a cabeça. Ninguém, a não ser Weiss, parecia
enxergar qualquer coisa que pudesse possibilitar sua fuga.
— Vamos
com cuidado, Poul — disse Everson em tom cauteloso. — Como
conseguiu encontrar a passagem?
Weiss
sorriu.
— Pode
parecer ridículo — disse. — O fato é que desejei fortemente que
houvesse uma abertura — e, no mesmo instante, esta surgiu à minha
frente.
— Interessante
— constatou Everson.
O coronel
perguntou-se por que justamente o biólogo fora atingido por aquilo,
pois, ao que tudo indicava, Weiss tinha um “couro”
mais grosso que os outros.
— Vou
dar uma olhada lá fora — anunciou o biólogo.
“Coitado”,
pensou Everson. “Você
terá uma bela surpresa, quando sua cabeça esbarrar na matéria
sólida.”
Mas quem
teve uma surpresa foi Everson.
Weiss
atravessou a parede como se esta não existisse.
*
* *
O Dr.
Morton ligou a lanterna e olhou em torno. Pentsteven colocou-se ao
lado do médico. Morton agitava a lanterna, como se fosse uma raquete
de pingue-pongue, e virava a cabeça para ver os objetos no momento
em que eram atingidos pela luz. O sargento Delaney, um homem baixo e
robusto, mirava o chão. Eiji Okeda, o astronauta, enfiou os
polegares no cinto do traje protetor e ficou à espera.
Ao lado
deles havia um grande buraco; era talvez o poço do elevador... Em
seu interior reinava a escuridão. Várias barras metálicas levavam
para cima. Nas paredes laterais, havia saliências e reentrâncias
dos mais variados tamanhos. Não se podia imaginar sequer qual era
sua finalidade.
— Subiremos
pelas barras — disse o Dr. Morton.
Com a
agilidade de um macaco segurou uma dessas barras e começou a
puxar-se para cima. Pentsteven seguiu-o. O astrônomo não era
treinado e viu-se obrigado a fazer uma pausa. O sargento Delaney
procurou animá-lo com alguns gritos. Finalmente conseguiu subir ao
lugar em que se encontrava o médico. Okeda e o sargento não tiveram
a menor dificuldade em superar o obstáculo.
— Por
onde vamos? — perguntou Pentsteven.
Só se
atrevia a falar aos cochichos.
Antes que
alguém tivesse tempo de responder, ouviu-se um débil pedido de
socorro em todos os receptores dos capacetes. Quatro feixes de luz
procuraram vencer a escuridão.
— Isso
pode ser uma armadilha — advertiu o Dr. Morton.
Os feixes
de luz atingiram um vulto que se contorcia no solo, perto do lugar
onde se encontravam.
— É o
green! — gritou Pentsteven. — Olhe, doutor!
Correram
para junto de Napoleão, que choramingava. O rosto enrugado do nativo
estava desfigurado pelas dores. Ao que tudo indicava, alguém o
golpeara brutalmente. O Dr. Morton abaixou-se sobre ele.
— Calma
— disse. — Nós o ajudaremos, amigo.
Napoleão
levantou os braços delgados, num gesto de recusa. Sob a ação da
luz ofuscante, seus olhos pareciam lagos profundos cercados por altas
montanhas. Sua respiração parecia ranger.
— Ajudem
seus amigos — grasnou com dificuldade.
Girou o
corpo, a fim de indicar a direção ao médico.
— Estão
lá embaixo, com os demônios. Andem depressa!
O Dr.
Morton levantou-se de um salto. Esbarrou no astrônomo, que se
inclinara sobre seu ombro. O sargento Delaney tirou a arma térmica e
olhava furiosamente em torno.
— Para
trás — ordenou o Dr. Morton. — Precisamos descer por onde
subimos.
Passou a
mão pela horrível cabeça de Napoleão.
— Aguarde
aqui — pediu.
Voltaram
correndo pelo mesmo caminho. Os raios de luz de suas lanternas
iluminavam as paredes.
Não viram
que o green se levantou e mergulhou na escuridão.
*
* *
— Todos
vimos a mesma coisa; logo, aconteceu realmente — disse Marcus
Everson e fitou os companheiros com uma expressão séria. —
Devemos conformar-nos com o fato de que Poul atravessou esta parede
como se ela não existisse.
Ninguém
respondeu. Cada um seguia a trilha das próprias reflexões.
“Já
que não poderia conquistar nenhum aliado para Rhodan, ao menos vou
levar-lhe de volta o precioso cruzador”,
decidiu Everson.
Isso
parecia ser fácil, mas, na realidade, era dificílimo de ser feito.
Os obstáculos pareciam invencíveis. Não havia a menor dúvida de
que Napoleão pretendia apoderar-se da México. Nem mesmo um
deformador de moléculas seria capaz de pilotar a nave sozinho.
Precisaria de alguém que o ajudasse.
Everson
imaginava mais ou menos quais eram as intenções do falso nativo.
Tentaria
colocar fora de ação os membros da expedição e voltaria à
México, dizendo que era o único sobrevivente. Uma vez no espaço,
controlaria a tripulação e a faria trabalhar de acordo com seus
desejos. De qualquer maneira, parecia ter a intenção de deixar em
Moluque os elementos mais importantes. Dali se concluía que via um
certo perigo ao menos no mutante.
Mas não
adiantava pensar sobre isso. Precisavam descobrir um meio de
livrar-se da situação em que se encontravam. Poul Weiss não
dispunha de dotes sobrenaturais. Devia haver uma explicação
racional para aquilo.
No momento
em que Everson começou a refletir intensamente sobre isso, o biólogo
voltou. Ele o fez da mesma forma pela qual saíra.
— Então;
vamos andando, Sir — disse em tom animado. — O corredor está
completamente vazio. Não se vê o menor sinal de Napoleão.
Não
acontece todos os dias um terrano normal atravessar as paredes de
espaçonaves estranhas como se estas não existissem. Até que o
coronel resolvesse formular uma pergunta, passaram-se alguns
segundos.
— Como
foi que o senhor conseguiu, Poul? Como fez para sair desta sala?
No rosto
de Weiss, o sentimento de culpa e um sorriso incontrolado
misturaram-se numa careta.
— Desculpe,
Sir — disse. — Pensei que o senhor soubesse.
— O
senhor não perde por esperar — disse o Tenente Bellinger em tom
sarcástico.
— No
lugar em que entramos não existe nenhuma parede — explicou Weiss.
— Ela só existe em nosso pobres cérebros iludidos. O deformador
de moléculas recorreu a um truque psicológico para sugestionar-nos.
Ficamos tão convencidos que até chegamos a sentir o material, ou
melhor, acreditávamos que o sentíamos.
Sorriu,
recuou alguns passos e estendeu o braço através da matéria
aparentemente firme.
— Olhe —
disse. — Aqui está a prova. Basta acreditar que aqui existe a
abertura pela qual viemos.
— Não
custa experimentar — disse Bellinger.
Num gesto
que demonstrava desconfiança, estendeu as mãos para a frente,
correu em direção ao obstáculo e... desapareceu. Depois sua cabeça
voltou a surgir. Parecia um crânio de Buda sorridente que, contrário
a todas as tradições, achava-se envolto por cabelos louros
ondulados. Fez um gesto animador.
Agora,
todos já estavam no corredor.
— Foi
dali que viemos — disse Weiss. — Parece que há uma barreira... —
apontou para uma mancha escura, cujo centro quase chegara a ser
negro, enquanto as bordas eram franzidas como uma flor. — O
radiador térmico não servirá de nada.
Everson
apontou para a tal mancha.
— Parece
que o senhor já tentou.
Weiss
confirmou com um gesto. Ao que parecia, não temia as conseqüências
dos seus disparos. Movia-se com a despreocupação de quem passeia
pela Rua Goshun, em Terrânia. O biólogo era um homem de boa
estatura, rosto liso e bem cuidado. Seu aspecto era simpático. Os
astronautas jovens e inexperientes costumavam recorrer a ele para
pedir conselhos. O biólogo fazia parte de um grupo esotérico.
Pertencia a um círculo de estudos astrológicos, que, antes de
qualquer viagem espacial, lhe fornecia um horóscopo. Tal fato
deixaria muitos de seus amigos espantados, caso o soubessem.
Mas,
naquele momento, Weiss pensava menos no seu horóscopo que nas
possibilidades de levar avante a fuga.
— Daqui
não vemos a outra extremidade do corredor; está muito escuro —
disse. — Mas podemos andar até lá e dar uma olhada.
— Está
certo — concordou Everson. Colocou-se na ponta do pequeno grupo e
foram caminhando em direção ao destino. Numa atitude instintiva,
evitaram qualquer ruído. O corredor foi-se estreitando, mas um homem
podia passar confortavelmente.
— Gostaria
de saber uma coisa — disse Sternal. — Será que nos deslocamos na
vertical ou na horizontal em relação à superfície do deserto?
— Procure
encontrar uma janela — sugeriu Bellinger com um sorriso.
Goldstein
foi o único que se manteve em silêncio. Até parecia que não dava
maior importância à fuga. Seu olhar mostrava-o introvertido. O
mutante nunca fora muito loquaz, mas até então jamais pareceu
desinteressar-se pelos acontecimentos.
— Podemos
prosseguir — disse Everson. — Do lado de cá, a abertura não foi
fechada.
— Mas
parece que teremos de andar no escuro — disse Sternal, que parecia
bastante preocupado. — Depois desta parede não há mais nenhuma
luz.
— Liguem
as lanternas — ordenou Everson. Constatou-se que, com exceção do
coronel, todos haviam deixado suas lanternas nos trajes protetores.
— Ninguém
vai voltar — decidiu o comandante da México. — Temos de
arranjar-nos com apenas uma lanterna.
Ligou-a. O
feixe de luz tremeu no chão, tateou as paredes e passou ligeiramente
embaixo do teto. O lugar não sofrerá qualquer modificação.
Avançaram devagar. Everson segurava a arma de choque. A ação era
um tanto confusa, mas sempre seria preferível a uma atitude de
resignação.
De
repente, o coronel despencou. Deu um passo no vazio, embora sua
lanterna tivesse iluminado chão firme, pouco antes. Agora, a luz
passou a tatear por todos os lados, descrevendo trajetórias de fogo
e rodopiando no nada pelo qual caía. Alguém soltou um grito.
Dali a
pouco, ouviu-se o ruído produzido pelo impacto do corpo de Everson.
Um rosto
demoníaco surgiu nitidamente diante dos olhos da mente de Everson.
Procurou recuar, mas o rosto continuava a aproximar-se. Em desespero,
teve a idéia de que talvez nem estivesse caindo, mas flutuando sem
peso. Os lábios duros, em formato de bico abriram-se. Everson
esforçou-se para respirar. Quis lutar, mas não encontrou nenhum
ponto de referência contra o qual pudesse investir. Rolou,
cambaleou, deu uma cambalhota. O corpo era incapaz de adaptar-se ao
estado em que se encontrava.
Depois de
algum tempo, uma voz falou em meio à infinita escuridão. Era uma
voz que perdera totalmente a tonalidade juvenil:
— Isso
não passa de um truque, Sir! Procure resistir; conseguiremos.
“Goldstein!”,
pensou Everson, mas de sua boca só saiu um gemido martirizado.
Sentiu que
em torno iria ter início uma coisa que se revestiria de importância
decisiva.
Não
poderia saber que aquilo era o começo de uma luta que seria travada
com armas invisíveis. E tal embate poderia estender-se por várias
horas, pois, durante seu prolongado silêncio, Samy Goldstein
concebera um plano.
E acabara
de passar à execução do seu intento.
7
Com o
rosto contrariado, Scoobey observava os quatro robôs que arrastavam
o canhão de radiações pela areia. As máquinas estariam em
condições de deslocar-se mais depressa, mas, se isso ocorresse, os
homens não seriam capazes de acompanhá-los. Um tanto triste, o
oficial lembrou-se de que a tentativa de retirar um dos barcos
auxiliares do interior da nave fracassara. Meio perplexo olhava para
Murgut, que caminhava à frente do grupo.
As longas
pernas do nativo venciam sem a menor dificuldade todos os acidentes
do terreno. Scoobey tinha certeza de que o green era capaz de
desenvolver uma velocidade considerável, caso isso se tornasse
necessário.
Murgut
vencera quase totalmente o pavor que lhe inspirava o deserto. A bordo
da México travara conhecimento com as armas dos astronautas
terranos. Sentiu-se profundamente impressionado, e afirmara que com
tais armas seriam capazes de vencer até mesmo o mal em sua própria
essência. Scoobey respirou profundamente.
O pequeno
grupo estava fortemente armado. Um goniômetro captava
ininterruptamente o chamado, emitido pelo rádio de Landis. Já
haviam calculado a posição desse rádio, mas preferiram manter
contato ininterrupto com o aparelho. Era possível que os homens de
Landis tivessem de fugir.
Murgut
andou mais devagar e esperou que Scoobey se colocasse a seu lado. O
green amarrara ao pescoço, com um barbante, a lâmpada que lhe fora
dada de presente. Dissera aos astronautas que pretendia cedê-la aos
seus companheiros de raça, em troca dos auxílios prestados.
— Estou
com dor de cabeça — queixou-se. — E a dor aumenta
constantemente.
— Sinto
muito — disse o oficial. — Com este calor, isso não é de
admirar. O doutor lhe dará um remédio.
Murgut
comprimiu as mãos contra as têmporas. Seus olhos escuros estavam
arregalados de medo. Scoobey fez um sinal para que o Dr. Lewellyn se
aproximasse. Antes que o médico chegasse ao lugar em que se
encontravam, o green começou a gemer. Sua cabeça de abóbora
balançava de um lado para outro.
— Depressa,
doutor! — gritou Scoobey. O oficial sabia com toda certeza que
seria relativamente difícil estabelecer um diagnóstico num ser
estranho, e que um remédio capaz de curar um ser humano pode ser
totalmente ineficaz numa criatura extraterrena.
— O medo
é mais forte que as dores — disse Lewellyn.
Murgut,
que usava um equipamento de comunicação igual ao que fora fornecido
a Napoleão, agarrou-se ao médico com uma das mãos, enquanto
passava a outra pela testa.
— É um
demônio, doutor! — grasnou em tom de pavor.
— Tolice
— disse Lewellyn. — Estamos a caminho há várias horas, e até
agora não vimos nenhum fantasma neste deserto legendário. Os
fantasmas não existem.
De
repente, o nativo caiu na areia. Scoobey lançou um olhar de súplica
para o médico. Lewellyn segurou os ombros de Murgut e procurou
levantá-lo. O green tremia.
— Deixe-me
— gritou. — O mal em sua própria essência me matará.
Num gesto
de desespero desvencilhou-se. Comprimiu o corpo contra o solo, como
se este lhe pudesse proporcionar proteção e auxílio. Sua voz
tremia de pânico.
— Está
dentro da minha cabeça — uivou Murgut. — Vai me matar...
*
* *
O Dr.
Morton colocou a mão sobre o peito de Delaney. O sargento parou.
Pentsteven girava a lanterna para um lado e outro.
— Por
que não prosseguimos? — perguntou Okeda com a maior tranqüilidade.
— Se
alguém já me enganou, foi o tal do Napoleão — observou o Dr.
Morton com a voz gelada. — Por algum motivo que só ele conhece,
afastou-nos de lá de cima.
— É uma
aranha venenosa! — exclamou Delaney.
Dali a
pouco, viram-se novamente no lugar em que haviam encontrado Napoleão.
O green havia desaparecido. O Dr. Morton praguejou e interceptou
Pentsteven, que iria iniciar uma explicação prolixa sobre suas
idéias relativas à situação.
— Vamos
andando — ordenou. — Daqui em diante teremos o maior...
Um tremor
sacudiu a nave e fê-lo calar-se.
— O que
foi isso? — a voz de Pentsteven parecia atropelar-se de medo.
O segundo
abalo foi mais forte. As vibrações foram violentas. Pentsteven
afastou os braços do corpo, a fim de não perder o equilíbrio. O
sargento Delaney apoiou-se à parede com uma das mãos. O Dr. Morton
abriu o capacete, a fim de ouvir melhor os ruídos.
— Acho
que devemos dar o fora — sugeriu Okeda.
Falou com
a calma de quem convida alguém para um aniversário. Pentsteven
concordou com a voz trêmula.
— E
Everson? — objetou o médico. — Será que devemos abandoná-los?
Acho que seremos capazes de suportar estas sacudidelas.
Para
reforçar suas palavras, continuou a caminhar sobre o solo agitado. O
Dr. Morton balançava, cambaleava e avançava que nem um bêbedo.
Continuou a iluminar automaticamente o caminho. Não olhou para trás,
a fim de ver se os outros o seguiam. Não sentiu medo, nem sequer
insegurança. A onda de abalos foi diminuindo aos poucos. Ruídos
fantasmagóricos encheram as salas e os corredores. Não descobriram
o menor sinal dos homens que haviam desaparecido com Everson. Três
feixes de luz surgiram ao lado dos raios projetados por sua lanterna.
A voz de Delaney zumbiu no receptor do capacete como se fosse o ruído
de um inseto enfurecido.
Seguiu-se
o terceiro abalo. Houve um solavanco tão forte que os homens pisaram
em falso e caíram ao chão.
De início,
Morton pensou que alguém lhe tivesse dado um pontapé. Porém,
quando tocou asperamente no chão, viu que os outros também tinham
caído. Fez um esforço para levantar-se, mas houve mais três abalos
que sacudiram a nave tão fortemente que o médico se admirou de que
esta não se espedaçasse. Sentia uma dor cruciante do lado esquerdo
do peito, sobre o qual tombara.
O Dr.
Morton chegou à conclusão de que seria preferível ficar deitado e
esperar os abalos cessarem. Nem quis pensar no que poderia acontecer,
caso o estranho tremor se tornasse ainda mais intenso.
*
* *
Samy
Goldstein estava de costas para a parede. À sua frente, Everson,
Bellinger, Weiss e Sternal cambaleavam como se estivessem bêbedos. O
mutante sentiu a energia mental do deformador de moléculas. Era uma
série ininterrupta de investidas no terreno mental. Napoleão fez de
tudo para subjugá-lo. Acontece que Goldstein estava preparado para
esse tipo de confronto, até onde fosse possível. Suas medidas de
segurança se baseavam em duvidosas teoria. Até então resistira
continuadamente ao campo de irradiação dos greens; lutara e o
afastara de suas capacidades extra-sensoriais.
Mas, no
momento em que descobriu a verdadeira identidade do velho green,
Goldstein passou a absorver sistematicamente os fluxos paranormais
irradiados pelos cérebros dos nativos. Napoleão confessara que
também era atingido por tais fluxos. O telepata concentrou-se ao
máximo para sugar os modelos mentais. Seu cérebro martirizado
ameaçou estourar, quando a descontrolada força paranormal
penetrou-lhe livremente.
De início,
Goldstein receara que, em virtude da distância que o separava da
aldeia, não pudesse alcançar mentalmente os nativos. Mas seus
sentidos paranormais saíram à procura e encontraram entre a nave e
a aldeia um tipo de estação retransmissora, por meio da qual
conseguiu estabelecer contato.
Goldstein
não poderia imaginar que apenas estava utilizando Murgut na execução
de seus planos!
Quando o
deformador de moléculas lançou o primeiro ataque contra o mutante,
Goldstein deixou-o penetrar imediatamente, sem oferecer a menor
resistência. Sabia que, se suas suposições fossem incorretas,
estaria perdido. Ficou desmaiado por alguns segundos, em virtude da
interferência mental de Napoleão. Depois de voltar a si, sentiu
apenas a pressão vinda da aldeia. Preferiu não entreter qualquer
sensação de triunfo, pois não sabia se o falso green aceitaria a
derrota. Animado pelo êxito, perseguiu-o, mas Napoleão bloqueara
seu espírito. Dali se concluía que não estava em condições de
vencer Goldstein no estado em que o mutante se encontrava. Porém o
telepata não se entregou a ilusões. Logo Napoleão iria procurar
surpreendê-lo numa segunda tentativa. A única proteção era
representada pelas irradiações dos greens.
Quando
Napoleão voltou a avançar, o fez de tal maneira que Goldstein só o
percebeu quase tarde demais. Edward Bellinger voltara a colocar-se
firmemente sobre os pés. Antes que Goldstein pudesse admirar-se com
isso, o tenente tirou a arma térmica e fez pontaria para o mutante.
— Edward!
— gritou Goldstein. — Não faça isso!
Bellinger
riu como se se sentisse desamparado. Ergueu ligeiramente a arma.
Goldstein viu o dedo do oficial curvar-se vagarosamente sobre o
gatilho. Atirou-se para a frente. Um raio quente passou pelas suas
costas. Virou-se em desespero. Foi então que Napoleão investiu
contra ele usando a violência paranormal.
Raios
começaram a surgir diante de seus olhos. Em seu subconsciente, ouviu
Bellinger soltar um grito de pavor. Seguiu-se o ruído de uma arma.
Goldstein teve a impressão de que sua cabeça se dilatava como uma
bolha de sabão. Devia fazer alguma coisa. Reunindo as últimas
forças, voltou a entrar em contato com a paraonda dos greens. Alguém
soluçava. Era ele mesmo. Teria de sair dali antes que Napoleão
fizesse com que todos disparassem contra ele. Levantou-se de um salto
e quis correr. Um abalo terrível atirou-o ao chão. A nave
balançava. Goldstein não lamentou o fato, pois agora os homens
dificilmente conseguiriam atingi-lo caso o último sobrevivente de
uma raça estranha os obrigasse a atirar.
Uma
ligeira sensação de mal-estar apossou-se dele. Tentou tossir, mas
os pulmões, que queriam aspirar o ar comprimiram-se. Pequenos
círculos dançavam diante de Goldstein. Sentiu dores atrozes no
peito.
“Falta
de oxigênio”,
pensou no subconsciente. “Ele
está retirando o ar do corredor.”
Voltou a
lutar contra os abalos. Só conseguia aspirar o ar em pequenas
golfadas.
O que
teria acontecido com os outros? Devia haver uma saída. Alguém caiu
a seu lado. Goldstein fungou e conseguiu desvencilhar-se. Sentia um
cansaço infinito.
Ansiava
pela paz e pelo sono. As pálpebras fecharam-se.
Foi então
que Napoleão se dispôs a desferir o golpe decisivo.
*
* *
De início
tiveram a impressão de que havia uma camada de ar tremeluzente entre
a nave espacial e o lugar em que se encontravam. Esse ar desmanchava
os contornos de tudo que estava em seu caminho. Landis passou as mãos
pelos olhos.
— Chancey
— disse. — O que está vendo ali?
O homem,
ao qual foram dirigidas estas palavras, levantou-se em atitude um
pouco fleumática. Finalmente olhou na direção que lhe fora
indicada.
— A nave
está balançando — disse em tom exaltado.
Os
astronautas tiveram sua atenção despertada pelo estranho
acontecimento.
— O que
estamos esperando, Toni? — exclamou Ogieva, um negro atlético. —
Temos que tirar nossos companheiros de lá antes que seja tarde.
— Scoobey
ainda não pode ter chegado — disse outro. — Não adianta esperar
por ele. É possível que o coronel esteja envolvido numa luta e
precise de auxílio.
— Nada
disso — decidiu Landis.
Não se
incomodou com os protestos e insultos que se fizeram ouvir. O Dr.
Morton e seus acompanhantes também não haviam voltado, e era
provável que um terceiro grupo que se dirigisse à nave teria o
mesmo destino dos outros. Antônio Landis era um homem impetuoso, mas
seu senso de responsabilidade era mais forte. Chegou à conclusão de
que seria preferível esperar.
— Entre
em contato com Mr. Scoobey
— sugeriu
Ogieva. — Pergunte o que devemos fazer.
O operador
de rádio não fez qualquer objeção. Mas duvidava de que o
primeiro-oficial da México tivesse alguma idéia aproveitável. Na
Terra sabia-se que esta missão envolvia certos riscos. Mas Landis
começou a ter suas dúvidas de que Rhodan, ao ter autorizado a
operação de busca de um aliado pudesse imaginar o que iria
acontecer...
Manipulou
o rádio e fez votos de que este fosse capaz de resistir a mais esta
provação.
— Aqui
fala Landis — disse o operador.
— Até
agora nenhum dos homens voltou. Não conseguimos estabelecer contato
por meio dos rádios de capacete. Há alguns minutos, a nave começou
a sacudir-se como se tivesse um calafrio. Por aqui acham que
deveríamos dar uma olhada para verificar o que aconteceu com o
comandante.
Scoobey
indagou com a voz rouca e exaltada:
— Tem
alguma idéia do que pode ter acontecido?
— Sinto
muito, Sir. A nave balança ininterruptamente de um lado para outro.
Imagino perfeitamente que os homens no interior dela, não se
encontrem numa situação muito agradável.
— Acha
que existe perigo de vida? — perguntou Scoobey.
Landis
teve a idéia de que no planeta em que se encontrava tudo
representava um perigo para a vida. Em voz alta respondeu:
— Não
acredito que haja um perigo direto, Sir.
— Fique
onde está — ordenou o oficial. — Não faça nada antes que eu
chegue com meu grupo. Se surgir alguma situação que justifique o
receio de que a vida dos nove homens esteja em perigo, o senhor
poderá fazer o que achar mais acertado. Aqui também estamos lutando
com dificuldades. Murgut, o nativo que nos acompanha, está se
fazendo de doido. Até agora o Dr. Lewellyn não pôde fazer nada por
ele. Desligo.
Landis
voltou a regular o aparelho, para o sinal automático de chamada pelo
qual o grupo de Scoobey podia orientar-se. Agora, dependia
exclusivamente do operador de rádio a escolha do momento em que
sairiam atrás de Everson. Esse poder de decisão não o deixou muito
feliz.
Landis
lançou um olhar para o lugar que corporificava todas as
preocupações. O tremor se tornara mais fraco. Em compensação, viu
outra coisa. Pouco acima do solo havia nuvens finas de pó, que se
moviam na sua direção. Se não estava muito enganado, estas
tornavam-se cada vez mais densas e subiam para o ar.
— Parece
que vamos ter outra tempestade de areia — disse Dealcour. — O
vento já sopra com mais força.
— O
furacão nos soprará até o inferno — disse Landis, dando vazão
ao seu pessimismo. — Perderemos a nave de vista.
Landis
pretendia fazer alguma coisa antes que isso acontecesse. Olhou para
Ogieva. O negro estava firmemente de pé, com as pernas afastadas.
Era um vulto impressionante, que não parecia incomodar-se com as
tempestades do Universo. A primeira idéia sempre é a melhor.
— Vamos
andando — disse laconicamente.
Não teve
necessidade de mencionar o destino, pois todos o conheciam.
*
* *
Quando o
Dr. Morton obrigou o corpo estropiado a levantar-se, pensou que não
teria tempo para cuidar de doenças. Os solavancos haviam diminuído
bastante. Já se podia andar, sem correr o perigo de ser atirado ao
chão.
— Estou
com o corpo cheio de hematomas — disse o sargento Delaney. — Um
bife batido está menos amassado que eu.
Dr. Morton
certificou-se de que Okeda e Pentsteven também haviam resistido à
tortura. Depois dirigiu o feixe de luz da lanterna para a frente.
Ouviu Pentsteven soltar um gemido.
— Deixe
a arrumação do corpo para mais tarde — disse, dirigindo-se ao
astrônomo. — Vamos andando.
Era esta a
única idéia que o Dr. Morton tinha sobre a maneira de prosseguir em
sua ação. Não podia deixar de confessar que era simplória e pouco
imaginosa. Mas teve suas dúvidas de que seria capaz de conceber
outra melhor, por mais que refletisse.
Caminharam
pelo corredor. Eram quatro vultos que se contorciam de dor, segurando
as lanternas com uma das mãos, enquanto a outra apalpava
cuidadosamente o corpo.
Enquanto o
Dr. Morton refletia sobre se convinha chamar o Coronel Everson pelo
rádio de capacete, um homem cambaleava em meio ao feixe de luz, a
alguns metros de distância. O homem não usava traje protetor.
Era
Bellinger. Tinha os cabelos desgrenhados e a camisa do uniforme
estava rasgada. Cambaleou na direção em que se encontravam,
apoiando-se ora numa, ora noutra parede do corredor.
Quando
Bellinger pretendia passar por ele, o médico segurou-o. Ao que
parecia, o tenente não o via, pois seus olhos pareciam ver para além
do Dr. Morton. Fez um movimento débil, a fim de afastar o médico.
Delaney aproximou-se de um salto e ajudou o médico a apoiar aquele
homem, que não era nada leve.
— Você
me compreende, Ed? — perguntou o Dr. Morton em tom insistente. —
Queremos ajudá-lo. O senhor tem de levar-nos ao lugar em que estão
os outros.
Num
movimento infinitamente lento, o Tenente Bellinger levantou o braço
direito. Fechou um dos olhos, como se estivesse fazendo pontaria para
um alvo, e curvou o dedo indicador. Estava disparando uma arma
imaginária. Num relance de olhos, o Dr. Morton viu que o astronauta
estava sem a arma térmica.
— Deve
ter havido uma luta, Ed — disse em tom insistente. — Conte o que
aconteceu.
Pela
primeira vez, Bellinger fitou-o. Seus olhos abriram-se um pouco.
Tremia fortemente.
— Matei
o rapaz! — exclamou.
Seu corpo
amoleceu, e os dois homens tiveram de fazer um esforço tremendo para
mantê-lo de pé. O Dr. Morton não era um homem muito corajoso, mas
também não era nenhum covarde. Apesar disso, as palavras do tenente
lhe provocaram um calafrio.
— Está
se referindo a Goldstein? — perguntou.
O choque
sofrido por Bellinger fora tão violento, que o tenente não era
capaz de dizer qualquer coisa sensata.
Numa
atitude inconsciente, o Dr. Morton entesou o corpo.
— Tente
levá-lo para fora — ordenou, dirigindo-se a Pentsteven. — Não
preste atenção a qualquer tipo de conversa.
O
astrônomo, que estava com o rosto pálido, fez um gesto afirmativo.
Devia sentir-se satisfeito por poder sair dali.
“Esta
retirada não deve ser nada agradável para o coitado do Bellinger”,
pensou o médico.
— Continuaremos
a procurar — disse. — Everson não pode estar muito longe. Vamos
ficar com as armas preparadas. Se houver uma luta, deveremos estar
atentos para agirmos rapidamente.
Tirou a
pistola de choque. Por um instante, o cano da arma foi atingido pelo
feixe de luz da lanterna de Okeda e cintilou.
“Se
por aqui houver um único deformador de moléculas”,
pensou o homem barbudo, “esta
arma não será mais eficiente que uma bombinha de São João.”
*
* *
Nenhum
homem, nem mesmo um mutante, é capaz de, ao mesmo tempo, lutar para
respirar, manter o equilíbrio sob uma série ininterrupta de abalos
e defender-se contra uma supercriatura, cujas energias paranormais
são quase inesgotáveis. A paraonda dos nativos já não era
suficiente para deter Napoleão. Agachado no chão, Goldstein
percebeu que o controle de suas faculdades mentais lhe escapava.
O rosto de
Napoleão surgiu em sua mente. O green sorriu. Sua cabeça balouçava
ligeiramente. Parecia um velho que balança tranqüilamente a cabeça,
para exprimir sua contrariedade com as artes de uma criança
travessa.
— Não
tive a intenção de agir com tamanha violência contra vocês —
comunicou o deformador de moléculas. — Mas seu comportamento
obrigou-me a isso. Seu raciocínio lhes poderia ter dito que qualquer
resistência seria inútil.
As antenas
telepáticas de Goldstein não conseguiram captar as emissões
mentais dos greens. Estava inteiramente nas mãos do inimigo. Com um
pavor crescente, o mutante percebeu que, dentro em breve, seria um
instrumento passivo, que executaria quaisquer ordens e faria
exatamente aquilo que Napoleão desejasse.
E assim
jazia no chão, vencido pelo cansaço e pelo desespero. Levantou a
cabeça. Everson, Weiss e Sternal estavam inconscientes. Bastaria
estender o braço para tocar o comandante.
— É
preferível que saiamos juntos da nave — voltou a falar Napoleão,
que, neste momento, materializara-se. — Seu estado não é bom.
Tive de ativar alguns aparelhos que podem causar uma catástrofe. A
obstinação demonstrada por vocês obrigou-me a isso. Precisei de
algum tempo, para adaptar-me à pressão mental que se concentrava em
seu cérebro e fluía para mim. A idéia não foi nada má, mas você
não poderia resistir por muito tempo. Como não conseguisse
atingi-lo no plano mental, comecei por derrotá-lo no plano físico.
Quando sairmos, lá fora rugirá uma tormenta que evitará que seus
amigos se deixem levar a um ato irrefletido. Vai ser-lhes difícil
até manterem-se de pé. Assim que os tenha colocado, um por um, sob
o meu controle, o vento amainará, e poderemos regressar à sua nave.
Durante os reparos que ainda faltam, terei tempo para escolher os
homens mais submissos entre a tripulação. Os outros ficarão em
Moluque. Poderão cuidar destes nativos primitivos e de seu
progresso.
Goldstein
preferiu não perguntar a que grupo pertenceria. A possibilidade de
passar o resto da vida entre os greens não era nada agradável. Mas
achou-a ainda melhor do que ficar escravizado mentalmente a bordo da
México.
Nem se
atrevia a pensar no que o deformador de moléculas faria com o
cruzador terrano. Pelas leis do Império Solar, o procedimento de
Napoleão era um ato de pirataria. Mas não havia ninguém que
pudesse puni-lo por isso.
Mais uma
vez, o telepata procurou concentrar-se na paraonda dos greens. Mas
assim que pensava nos fluxos mentais dos nativos, seu cérebro
começava a doer tanto que se sentia incapaz de lançar mão de suas
forças paranormais. Napoleão paralisara o respectivo setor de seu
cérebro por meio de um bloqueio psicológico. A força de vontade do
jovem mutante não bastava para poder fazer algo contra isso. Seus
sentidos paranormais estavam transformados em dons mentais mutilados,
que se recusavam a desempenhar qualquer função.
— Espero
que isto o tenha convencido da inutilidade das suas tentativas —
disse Napoleão em voz alta. — Nesse caso, evitará medidas
rigorosas de minha parte. Não tenho o menor interesse em deixar uma
ruína espiritual em Moluque.
Everson
recuperou os sentidos, evitando que Goldstein fizesse uma observação
irônica. O coronel ergueu-se lentamente. Ainda estava um tanto
inseguro sobre as pernas. Goldstein levantou os olhos para ele e
sorriu.
— As
coisas não estão nada boas, não é mesmo? — perguntou Everson.
— Não
senhor — disse Goldstein, olhando para Napoleão. — Ele nos
levará para fora. Só nos fez andar por aqui para submeter-me a seu
controle. E agora conseguiu.
Num
movimento ligeiro, o coronel tirou a arma térmica e atirou.
No
entanto, o raio fulgurante, que o mutante esperava ver, não saiu.
— Deixe
de ser idiota — advertiu Napoleão. — A hora para isso já
passou.
Everson
desistiu. Guardou a arma e olhou para Goldstein.
— De
qualquer maneira, resolvi tentar — disse.
Tocou
Weiss e Sternal com a bota. O biólogo resmungou alguma coisa. Dali a
dez minutos, todos estavam de pé. Bellinger desaparecera. Goldstein
preferiu não mencionar os tiros infelizes disparados pelo tenente.
Sem dúvida o mesmo estivera sob a influência de Napoleão.
— Podem
vestir os trajes protetores — disse Napoleão em tom amável. —
Eu os acompanharei. Não adianta usarem as armas. Estão
inutilizadas.
Naquele
instante, um homem baixo apareceu na outra extremidade do corredor.
Envergava um traje espacial. Um rosto barbudo aparecia sob o capacete
aberto. Segurava uma pistola.
— Olá,
doutor — disse Everson.
O Dr.
Morton esticou o corpo para ver Napoleão, atrás do comandante.
Guardou a lanterna no respectivo estojo, pois o lugar estava bem
iluminado. Delaney e Eiji Okeda apareceram logo depois. Quando viram
Everson e os outros homens do grupo, uma expressão de alívio surgiu
em seu rosto.
O médico
passou por Everson e apontou a arma térmica para Napoleão. Suas
faces estavam afogueadas de cólera.
— Doutor,
acho que preciso explicar-lhe alguma coisa, antes que nos cause
maiores dificuldades — disse Everson.
*
* *
Antônio
Landis nunca acreditaria que pudesse levar mais que alguns minutos
para vencer a distância de cem metros. Quando haviam percorrido a
terça parte do caminho, a nave já havia desaparecido em meio às
nuvens de pó e areia. Tiveram de marchar contra o vento. O operador
de rádio teve a impressão de que, para cada passo que avançavam,
eram tangidos para trás três passos. Sabia que os outros homens se
esforçavam com a mesma estúpida obstinação, mas não conseguiam
melhor resultado que ele. Landis transformara-se num autômato que
movia as pernas numa resignação muda, embora soubesse que não saía
do lugar. O pó e a areia batiam ruidosamente contra seu corpo,
banhavam seu traje. Resistiu ao vento, tal qual uma sólida muralha.
Empurrava-se para a frente com toda a força, os pés impeliam-no e o
braço livre balançava descontroladamente.
De
repente, alguma coisa se aproximou, saída da semi-escuridão.
Estreitou os olhos para enxergar melhor.
Era um
jovem, envergando traje protetor. Landis fez um sinal. Depois de
algum tempo, conseguiram imobilizar seus corpos. Um terceiro homem
surgiu à sua frente. Aproximou-se rastejando.
— Tudo
bem? — perguntou o homem que se encontrava ao lado de Landis.
A voz
grave fez com que Landis reconhecesse imediatamente o homem que via
diante de si.
— Sir —
balbuciou. — Como veio parar aqui?
— De
certa forma foi o vento — disse o coronel. — Os outros logo vêm
atrás de mim.
Como que
para confirmar estas palavras, alguns vultos confusos desenharam-se
em meio ao véus de areia. Landis teve vontade de gritar de tão
aliviado que se sentia.
— O que
houve? — perguntou. — Deu tudo certo, Sir?
Teve de
esperar algum tempo, até que o comandante respondesse.
— Napoleão
é um deformador de moléculas. Estamos nas mãos dele. Seu objetivo
é a México.
Landis,
que também se encontrara a bordo da nave girino cuja tripulação
ficou sujeita à influência de Mataal, percebeu que sua alegria
transformou-se de repente em preocupação.
— O que
vamos fazer? — perguntou em voz baixa.
Antes que
o coronel a pronunciasse, ficou conhecendo a resposta. Não tinham a
menor chance face àquela criatura. Quando da luta contra Mataal, a
sorte e o acaso vieram em seu auxílio. A sorte é muito rara e
dificilmente se repete. O operador de rádio bem que gostaria de
acreditar que conseguiriam vencer todos os perigos. Mas a realidade
mostrava-lhe outra coisa: haviam chegado ao fim.
Em meio à
fúria dos elementos, o astronauta deu-se conta de que qualquer
esperança era mera quimera.
8
Os sinais
de chamada cessaram. Há três horas ainda haviam soado ligeiramente
por algumas vezes, mas acabaram silenciando de vez. Walt Scoobey
gostaria de saber se as nuvens que apareciam no horizonte tinham
alguma coisa a ver com o incidente. Sem dúvida, tratava-se de véus
de pó tangidos para o alto por uma tempestade. Ao que parecia a
tormenta se descarregava no lugar em que ficava o destino do seu
grupo. O primeiro-oficial tentou em vão convencer-se de que nada
acontecera com a expedição.
Esperava
que, dentro de duas horas, conseguissem chegar ao lugar onde estava
Landis. Restava saber se ainda conseguiriam encontrar os homens. Walt
Scoobey não se atreveria a responder a esta pergunta.
Avançavam
rapidamente. O estranho ataque sofrido por Murgut havia cessado. O
nativo acreditou que isso tivesse acontecido por causa de uma injeção
aplicada pelo Dr. Lewellyn. A essa hora estava totalmente convencido
de que as armas de seus amigos eram mais poderosas que todos os
espíritos do deserto. Vivia a lançar olhares de veneração para o
canhão de radiações, que estava sendo transportado pelos robôs.
Nenhum
envoltório de nave espacial que não fosse protegido por campos
energéticos seria capaz de resistir a esse canhão. Scoobey
perguntou a si mesmo se nos espíritos e nos demônios seus efeitos
seriam tão fulminantes como costumavam ser na matéria sólida.
*
* *
A
tempestade amainara o bastante para que os astronautas pudessem
manter-se de pé. O terreno foi-se iluminando. Napoleão mantinha-se
afastado do grupo. Transmitia suas ordens por via telepática para
Goldstein, que devia retransmiti-las aos outros. Dois ataques contra
o deforma-dor de moléculas haviam fracassado vergonhosamente.
Napoleão dera a entender de forma inequívoca que, se houvesse um
terceiro, os homens seriam castigados. Goldstein imaginava que,
naquela altura, o falso green estava empenhado em submeter os
terranos, um por um, ao seu domínio mental. Se conseguisse, estariam
irremediavelmente perdidos. Ogieva, Bellinger, Delacour e alguns
outros pareciam tão apáticos que o mutante teve a impressão de que
já se encontravam sob o domínio de Napoleão. Goldstein já
desistira de resistir às ordens telepáticas. O último dos
deformadores de moléculas sabia superar qualquer ação do mutante.
Locomoviam-se devagar em meio ao vento cada vez mais fraco. Eram
trinta terranos abatidos e um ser de pernas longas, cujo aspecto real
poucos homens seriam capazes de imaginar.
Goldstein
não se preocupava com o tempo que se passava. Não se importava nem
um pouco quando do momento de entrarem na México.
O sol pôde
ser visto de novo. Já se encontrava próximo à linha do horizonte.
O deserto
jazia em silêncio. Não havia o menor sinal do furacão que rugira
poucas horas atrás. O corpo de Goldstein doía em diversos lugares.
No braço, que machucara durante a queda da México, espalhou-se uma
sensação paralisante. Com um ligeiro olhar aos astronautas, o
telepata verificou que nem um único destes se encontrava em boas
condições. Bellinger teve de apoiar-se em dois homens. Pentsteven,
o jovem astrônomo, arrastava a perna direita.
O mutante
observou Everson. Mesmo que quisesse, não seria capaz de captar os
pensamentos do comandante.
No momento
em que Goldstein pretendia olhar para o chão, viu um ponto escuro
sobre uma duna afastada. Antes que Goldstein tivesse tempo de dizer
qualquer coisa, havia um grupo.
Era
Scoobey e seus homens!
— Já os
vi — observou Napoleão em seu cérebro. — Não poderão fazer
nada por vocês.
Aproximavam-se
ininterruptamente. Goldstein reconheceu um canhão de radiações que
estava sendo arrastado por robôs. Sua coragem foi diminuindo. O
tamanho da arma não importava nem um pouco. Scoobey teria uma
surpresa.
De
repente, Goldstein avistou o green, que vinha atrás dos homens de
Scoobey. Suas pernas moviam-se por cima da areia pela forma
inimitável que era peculiar dos seres de sua raça. Provavelmente
era Murgut. Aos poucos, o mutante percebeu quem, realmente, lhe havia
servido de estação retransmissora mental.
Naquele
instante, teve uma idéia. Será que a energia paranormal de Napoleão
não podia ser afetada pela proximidade do nativo? Goldstein fez um
esforço desesperado para captar o modelo mental do nativo. Não
aconteceu nada. O deformador de moléculas fizera um trabalho
cauteloso, não deixando a menor chance para Goldstein.
Quando se
encontravam a cinqüenta metros, a voz de Scoobey soou em seus
receptores.
— Parece
que nossos esforços foram em vão, Sir — disse em tom alegre. —
Espero que sua excursão tenha sido bem sucedida.
Everson
explicou que tipo de êxito puderam registrar. Teve de usar todo o
poder de persuasão para convencer o oficial de que qualquer ataque
seria condenado ao fracasso.
Depois de
algum tempo, Murgut dispôs-se a cumprimentar o ser que acreditava
ser seu companheiro de raça.
— Mantenha-o
afastado de mim! — ordenou Napoleão por via telepática.
Todo o ser
de Goldstein se rebelava contra essa ordem, mas não houve meio de
resistir a ela. Seus nervos se revoltavam contra a pressão mental do
deformador de moléculas. Sua cabeça parecia uma caixa de
ressonância. Mas suas pernas carregavam-no em direção a Murgut, a
fim de interpor-se entre ele e Napoleão.
— Mais
rápido — foi a ordem que recebeu por via telepática.
Goldstein
sabia que estava cometendo um erro, mas começou a correr.
Precipitava-se sobre a areia, a fim de alcançar Murgut. Um estranho
fenômeno começou a desenrolar-se em seu cérebro. À medida que o
green se aproximava de seu falso amigo, a pressão que Napoleão
exercia sobre a vontade do mutante ia diminuindo. Em compensação a
estranha paraonda do green ia aumentando.
Goldstein
passou a correr por sua livre e espontânea vontade. Enquanto corria,
puxou a arma. Mas teve de constatar que subestimara Napoleão. Agora,
que esse ser começava a perder o controle sobre ele, passou a lançar
mão de outros meios. Bem à frente do mutante subiu um esguicho de
areia cuja força seria suficiente para arrancar a cabeça de um
touro. Com um salto, Goldstein colocou-se em segurança. Não teve
tempo para verificar se os outros intervinham na luta. Murgut
caminhava na direção de Napoleão sem desconfiar de nada.
O
deformador de moléculas pôs-se a fugir. Os olhos de Goldstein
estavam grudados de suor. Atirava sem fazer pontaria.
— Ele é
um demônio — gritou para Murgut. Usara a língua inglesa, de tão
nervoso que estava. Apressou-se em repetir suas palavras, para que o
nativo pudesse compreendê-lo.
O
deformador de moléculas tropeçou e caiu. Murgut foi o primeiro que
chegou ao lugar em que ele se encontrava. O mutante não se arriscou
a atirar, pois seria bem possível que acertasse no green. Ficou
apavorado ao notar que o green ajudava o inimigo a pôr-se de pé.
O que
poderia fazer para avisá-lo?
Goldstein
recorreu às últimas forças que lhe restavam. Um gigantesco buraco
surgiu à sua frente. Tropeçou e por pouco não escorrega para seu
interior. Graças à pouca concentração do ataque traiçoeiro, fora
salvo. Contornou a cratera. Seus olhos apavorados viram uma parede de
areia erguer-se entre ele e o deformador de moléculas. Esta rolou em
sua direção que nem uma gigantesca onda. Apesar da grande
proximidade do green, o deformador de moléculas ainda conseguia
influenciar a matéria à vontade.
— Abaixe-se,
Samy! — ordenou uma voz saída de seu alto-falante de capacete.
Abaixou-se,
esperando ser soterrado de um instante para outro pela gigantesca
parede. Alguma coisa quente e malévola chiou acima dele.
Cautelosamente levantou a cabeça. A parede artificial fora
imobilizada. Com grande esforço, Goldstein ultrapassou-a.
Murgut
ajoelhou-se diante do corpo enrijecido do último representante da
estranha raça. O disparo de uma arma térmica produzira modificações
profundas em Napoleão.
Já não
parecia fino e quebradiço; as rugas de seu rosto haviam
desaparecido. Estava meio coberto pela areia, mas aquilo que o
mutante pôde ver não tinha mais nenhuma semelhança com um green.
A morte
restituíra a Napoleão seu verdadeiro corpo.
Alguém
foi-se aproximando de Goldstein. Era o Coronel Everson.
— Quem
foi que atirou? — perguntou o mutante em voz baixa.
— Um
robô — respondeu Everson com a voz tranqüila.
Os dois
juntos afastaram Murgut do cadáver. Agora, que a luta cessara,
Goldstein não teve nenhuma sensação de triunfo. Nem mesmo a idéia
de que, dali a poucos dias, poderiam decolar com a México e voltar à
Terra arrancou-o da depressão...
*
* *
*
*
*
A
missão em Moluque fracassou... Os seres que Perry Rhodan pretendia
transformar em aliados não mais existem.
Em
virtude do pacto de assistência mútua, celebrado com Atlan,
realiza-se a ação policial de uma espaçonave terrana contra O
Inimigo Oculto,
que é o título do próximo livro.

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