quinta-feira, 25 de agosto de 2016

P-092 - Missão Secreta Moluque - William Voltz [Parte 3]

Everson sabia que, por enquanto, qualquer resistência seria inútil. Tirou seu traje protetor, e fez sinal para que seus companheiros o imitassem. Bellinger retirou o mutante inconsciente do traje e colocou-o numa poltrona. Napoleão esperou até que todos se tivessem acomodado.
Temos duas alternativas — principiou o ser misterioso. — Podemos chegar a um acordo, e nesse caso prometo-lhes que poderão passar tranqüilamente seus dias em Moluque, ou então os senhores resistem aos meus desejos, caso em que terei de recorrer à violência para executar meus planos.
Estas palavras poderiam ser proferidas por mim e dirigidas ao senhor — disse Everson em tom audacioso. — Nem preciso repeti-las.
Sua coragem não guarda a menor proporção com seus recursos — sentenciou Napoleão em tom suave. — Não quero roubar-lhes as esperanças infundadas que estão entretendo. Porém, dentro em breve, terão de reconhecer que não estão em condições de enfrentar-me. Permitam que antes de mais nada lhes explique por que estou nesta situação.
Goldstein foi recuperando os sentidos e movia-se nervosamente na poltrona. Everson inclinou-se sobre o telepata e sacudiu-o. O mutante abriu os olhos.
Napoleão! — cochichou. — O que aconteceu?
Este green é um deformador de moléculas — disse Everson em inglês. — Tenha cuidado, Samy.
Conheço o dom insignificante que seu amigo possui — observou Napoleão em tom indiferente. — Não há necessidade de preveni-lo, pois não poderá fazer nada contra mim.
Com um sorriso de contrariedade, Everson lembrou-se de Mataal. Este fora vencido por Goldstein, embora, de certa forma, o deformador de moléculas tivesse cometido um grande erro ao fornecer energias paramecânicas àquele mutante...
Encontro-me numa situação nada invejável: sou o último membro de meu povo — disse Napoleão, dando início à sua exposição. — Não falo isto para provocar qualquer sentimento de compaixão nos senhores. Tive tempo de sobra para dominar a tristeza. A gente aprende a suportar a solidão. A nave em que nos encontramos deveria ter deixado em Moluque cinco mil indivíduos da minha raça. Isso foi conseguido, mas o estado em que esses indivíduos se encontravam, com exceção de cinco oficiais, representava a consumação de tudo. Estavam mortos.
Nossa nave desceu à superfície do planeta com a velocidade de um meteoro. Neste ponto, cabe ressaltar que o sistema de propulsão de nossas naves representa uma combinação de recursos técnicos e forças paramecânicas, cuja atuação conjunta produz resultados incomparáveis. Quando atingimos as camadas superiores da atmosfera, os parapilotos constataram, de repente, que a comunicação, que vinham mantendo os propulsores, se interrompera. Uma pressão mental de intensidade inconcebível desabou sobre nós. Perdemos inteiramente o controle. Numa questão de segundos, nossos dons se extinguiram por completo. Qualquer tentativa de salvar a nave estaria condenada ao fracasso. Encontrávamo-nos na mesma situação de um alpinista que, de repente, perde a visão no meio de uma perigosa ravina e está irremediavelmente condenado a cair.
Ativei as forças que me restavam, a fim de preparar-me para o impacto. Talvez fosse minha salvação. Os outros quatro homens, que sobreviveram à queda sofreram ferimentos tão graves que morreram dentro de poucos dias. Com minhas faculdades paranormais mutiladas não consegui prestar um auxílio eficiente. Aos poucos, a pressão mental foi diminuindo. Nesse meio tempo, já havia descoberto sua origem, pois consegui identificar alguns modelos de atividade mental.
Porém, meu conhecimento foi adquirido muito tarde para que pudesse ser útil ao meu povo. Os nativos deste planeta irradiavam um tipo de paraondas que sufocava qualquer outra atividade da mesma espécie. É claro que os seres primitivos que habitam este planeta nem desconfiavam de tal fato. Aos poucos, consegui resistir à pressão. Isso era de importância vital para mim, pois precisava entrar em contato com os nativos de qualquer maneira, se quisesse continuar vivo.
Não vou narrar todas as dificuldades que tive de enfrentar para aproximar-me da aldeia. À medida que me aproximava dos greens, a influência que estes exerciam em minha mente voltava a aumentar. Apesar disso, consegui assumir o corpo do velho esquisitão que os senhores vêem à sua frente. Antes de minha chegada, já vivia nos arredores da aldeia e gozava da fama de ser imortal. E isso representava uma vantagem para mim. Os greens não atingem uma idade muito avançada, mas eu, Napoleão, podia continuar vivo sem provocar suspeitas.
O corpo do esquisitão poupou-me o trabalho de criar uma nova identidade a cada geração que passava. Dentro da aldeia, tinha de fazer um esforço tremendo para ativar meus dons. Por isso, vez por outra, costumava vir até aqui, para evitar que os nativos tivessem a idéia de andar pelo deserto e espionar nas proximidades da nave. Provoquei alguns acontecimentos que, aos seus olhos, deviam parecer milagres. Dali em diante, não se afastaram nunca mais da aldeia.”
Fez uma pausa. Seus olhos escuros brilharam. Quando viu que nenhum dos cinco homens que se encontravam presentes dizia nada, prosseguiu:
Sozinho, jamais poderia fazer a nave decolar. Até mesmo para uma equipe de paramecânicos experimentados, os trabalhos de reparo seriam um problema. Além disso, não fui treinado como parapiloto. Era possível que, a uma altura maior, a influência mental dos greens aumentasse novamente. No entanto, verifiquei que isso não passava de uma hipótese, que, mais tarde, revelou-se falsa. De qualquer maneira, não havia para mim a menor chance de sair de Moluque. Passei a vegetar, levando uma vida sem sentido ou finalidade.
Pouco depois da decolagem da nave que me trouxe, meu planeta explodiu. Nossos cientistas pretendiam torná-lo independente do sol. Construíram gigantescas abóbadas e aqueceram o núcleo do planeta por meio da fusão nuclear de diversos elementos. A combustão nuclear foi mantida sob controle por meios paramecânicos, ou melhor, deveria ter sido mantida. Acontece, porém, que havia restos de um material desconhecido e, por isso, estranho ao plano.
Não demorou que, sob a superfície do planeta se verificasse a fusão de dois núcleos diferentes. Foi o princípio do fim. A combustão atômica espalhou-se em inúmeras ramificações e carregou a incandescência para a superfície. O planeta levou menos de um dia para estourar. A última tentativa de uma raça moribunda, que queria continuar viva, antecipou sua destruição.”
Pela segunda vez Napoleão interrompeu a narrativa. Everson levantou-se, um pouco embaraçado. Engolia em seco. Estivera envolvido por tanto tempo no cenário cósmico que compreendia perfeitamente as proporções da terrível catástrofe. A compaixão não representaria qualquer ajuda para o deformador de moléculas. Era um ser solitário e perdido, amargurado pelo triste fim de sua raça.
Face à narração dessa catástrofe, o fato de a missão da México ter fracassado perdia toda importância. Seria impossível firmar uma aliança com os deformadores moleculares, pois estes não existiam mais. Napoleão era o último representante dessa raça.
Minha apatia aumentou tanto que passei dias seguidos em minha miserável cabana. Foi então que aconteceu o milagre — prosseguiu Napoleão. — Uma nave estranha penetrou na atmosfera de Moluque. Foi fácil descobrir que esta utilizava um campo antigravitacional para realizar o pouso. Desenvolvi uma atividade febril. Superei as irradiações dos greens e estabeleci contato parapsicológico com a nave. Em hipótese alguma, deveria permitir que aqueles seres desconhecidos escapassem. Consegui encontrar uma das chaves de controle do campo antigravitacional e manipulá-la. Esperei que o veículo espacial se encontrasse tão perto do solo que a queda não o destruísse, tornando necessários apenas alguns reparos para que eu pudesse voltar a aventurar-me pelo espaço. Quando chegou este momento, desativei o campo antigravitacional. O resto da história os senhores já conhecem.
Foi ele quem atacou a México — disse Bellinger em tom indignado e pôs a mão no paralisador. — Uma lição não lhe fará mal.
Antes que Everson pudesse fazer qualquer coisa, o tenente arrancara a arma e disparara. No mesmo instante, a poltrona em que Bellinger estava sentado desmaterializou-se e o pesado corpo caiu ruidosamente ao chão. Numa outra situação o quadro seria divertido. O tiro perdeu-se no ar. Bellinger voltou a levantar-se.
Assim não conseguiremos nada, tenente — advertiu Everson. — Faça o favor de controlar-se.
Um tanto envergonhado, Bellinger procurou outro lugar para sentar-se. Mas, ao que parecia, Napoleão não estava mais disposto a prestar-lhe gentilezas.
Everson olhou para o relógio. Uma hora já se havia passado. Assim, o prazo que combinara com Landis chegara ao fim. Esteve prestes a informar Napoleão sobre isso, mas o deformador de moléculas estava desaparecendo. Para isso, deixou-se cair pelo soalho. O quadro era tão horrendo que Sternal soltou um grito de pavor. Mal o estranho ser desapareceu, Bellinger correu para o lugar em que, pouco antes, o deformador estivera. Suas mãos apalparam matéria compacta.
Tenho a impressão de que, no momento, somos seus prisioneiros — disse Poul Weiss, esticando as palavras.
Na opinião de Everson, estas palavras ainda representavam uma apreciação muito lisonjeira da situação em que se encontravam. Estava convicto de que Napoleão pretendia alcançar um objetivo bem definido. Queria ficar com a México, deixando aos astronautas algo com que, em hipótese alguma, poderiam ficar satisfeitos: uma vida em meio aos greens.

* * *

No exato momento em que o Coronel Marcus Everson olhou para o relógio, Landis disse, em voz alta, cinqüenta metros abaixo, em meio às areias do deserto:
O prazo terminou.
Vinte e quatro pares de olhos fitaram com uma expressão de ameaça a nave que acolhera cinco astronautas e ainda não os libertara. Muito embora as ordens do comandante fossem muito precisas, qualquer um desses homens estava disposto a correr para a desgraça. Poucos comandantes da frota solar eram tão estimados como Everson. Seus homens o veneravam. Sabia dar o máximo de liberdade e exigir apenas um mínimo de disciplina, sem que isso afetasse sua autoridade.
Por isso, não seria de admirar que, naquele instante, alguns dos homens pusessem as mãos nas armas térmicas e...
Tenham calma, minha gente — gritou Landis, embora ele mesmo também teria o maior prazer em precipitar-se sobre o colosso oitavado que se erguia diante de seu grupamento, em direção ao céu verde-pálido. — Antes de mais nada, precisamos entrar em contato com Mr. Scoobey.
Passou a lidar com aquele amontoado que, dificilmente, poderia merecer a designação de aparelho de rádio. Os dedos ásperos do radiotelefonista correram leve e despreocupadamente sobre as teclas, como se o aparelho que tinha à sua frente fosse a coisa mais estável do Universo. Quando a voz do oficial da México saiu do alto-falante, todos seriam capazes de jurar que Landis era um verdadeiro gênio.
Já passou seis minutos da hora indicada, Sir — disse Landis. — O comandante e os homens que o acompanharam ainda não voltaram. Por aqui está tudo em paz. O que devemos fazer?
Landis, que já teve o desejo de ser oficial ou mesmo comandante, agradeceu ao destino por tê-lo obrigado a seguir outra carreira. Sabia perfeitamente que, se estivesse no lugar do oficial, estaria indeciso quanto às providências a serem tomadas. Não se lembrava de qualquer tipo de ação que pudesse ser ao menos medianamente razoável.
Ao que parecia, Walt Scoobey defrontava-se com o mesmo problema, pois demorou bastante tempo para responder.
Mande os dois robôs para a nave, a fim de que procurem os homens — ordenou.
Era uma boa idéia, mas havia um detalhe. Os robôs não existiam mais. Haviam desaparecido juntamente com muitos outros objetos na tormenta noturna, uma coisa que não deveria ter acontecido com os robôs de guerra. Landis informou o interlocutor invisível sobre essa circunstância.
Bolas! — disse Scoobey em tom de decepção. — Mande mais quatro homens para dentro da nave, Toni. Talvez isso baste para manter o inimigo invisível ocupado por mais algum tempo. Os outros devem retirar-se com o aparelho de rádio, a uma distância em que ainda possam avistar a espaçonave. Observe tudo que se passar. E mantenha o rádio sempre em funcionamento. Usaremos o goniômetro e, dessa forma, não teremos a menor dificuldade em encontrá-lo. Formarei um pequeno grupo de combatentes e irei até aí pelo caminho mais rápido. Estaremos aptos a enfrentar os acontecimentos. Talvez consigamos sair com uma das naves auxiliares.
Landis confirmou o recebimento da mensagem. Ligou o rádio de tal forma que, a cada dez segundos, emitia um ligeiro sinal de chamada, que poderia ser captado por qualquer goniômetro num raio de quinhentos quilômetros.
Quero quatro voluntários — disse. — Já apareceu um — apontou para si mesmo.
Se me permite que, como paisano, faça uma sugestão — disse o Dr. Morton — direi que o senhor deve ficar junto ao aparelho “doente”, a fim de salvá-lo novamente, caso volte a entrar em pane. Por outro lado, o estado de saúde do grupo pode ser considerado bom. Portanto, não vejo por que eu mesmo não poderia ir à nave.
Sem dúvida, esta foi a fala mais longa, gentil e racional que o Dr. Morton proferiu em sua vida.
De acordo — disse o operador de rádio, prontamente. — Delaney, Pentsteven e Okeda irão com o senhor. Desejo-lhe boa sorte, doutor.
O jovem Pentsteven provou mais uma vez que era um novato, pois, num gesto emocionado, apertou a mão de Landis. Antes que o astrônomo pudesse dramatizar ainda mais a situação, o médico empurrou-o em direção à nave.
Vamos andando! — exclamou. — O que está esperando, meu filho?
Quatro homens caminharam com dificuldade pela areia, em direção à “porta” que os separava do desconhecido. Foram desaparecendo um após outro. Pentsteven, que caminhava no fim da fila, virou-se e cumprimentou os outros com um aceno da mão.
Pode ser uma despedida por algum tempo ou para sempre”, refletia Landis muito preocupado. “E é provável que a última hipótese seja a correta.”

* * *

Desde que existem homens, também existem prisioneiros. Com a navegação espacial e o aparecimento de inteligências estranhas, esse fato adquirira novos contornos. Até então os homens sempre foram mantidos presos por outros seres de sua espécie. Mas agora tornou-se possível aparecer outra raça e colocar os seres humanos sob custódia. O encarceramento era um vício bastante disseminado pela Galáxia, praticado em todas as formas concebíveis. Ao ato tradicional de colocar o prisioneiro atrás das grades, acrescentaram-se inúmeras variantes. Com o tempo foram criadas prisões, onde o recluso nem percebia a situação lastimável em que se encontrava. Mas isso era bastante raro. Via de regra, o “dono” da prisão estava interessado em que a vítima soubesse o que lhe estava acontecendo.
Tão velha como a prática do aprisionamento de seres humanos é a idéia da fuga. O homem da Idade da Pedra já quebrava a cabeça para descobrir um meio de escapar da caverna do inimigo. À medida que as prisões se tornavam mais complicadas, os planos de fuga adquiriam uma sofisticação cada vez maior. Surgiram penitenciárias que podiam gabar-se de que jamais um prisioneiro passara por cima de seus muros. Nelas não havia a menor esperança de conseguir a liberdade tão ansiada, antes que as pessoas que tivessem o prisioneiro sob sua guarda julgassem chegado o momento. Mas bastou um prisioneiro passar por baixo do muro para essa penitenciária perder a fama conquistada.
Inventaram-se fechos com mecanismos de relógio, barreiras eletrônicas, campos de radiações, paredes impenetráveis, e tais equipamentos foram instalados nas prisões. Por espantoso que possa parecer, as fugas continuaram. Nenhum equipamento, por mais sofisticado que fosse, poderia quebrar a vontade de fugir que todo prisioneiro entretém. Mesmo na era da perfeição científica e da supertecnologia, houve pessoas que conseguiram pôr fim ao estado de isolamento em que se encontravam.
A sensação de estar preso é uma das piores de que a criatura humana pode ser acometida. Mas a esperança é uma sensação mais forte...

* * *

Precisamos encontrar um meio de sair daqui — disse Werner Sternal. — De qualquer maneira, devemos tentar. É preferível fazer alguma coisa a ficarmos sentados por aqui, até que nosso amigo volte a interessar-se por nós.
Bellinger gostaria de dizer que ele estava cansado de ficar de pé, mas Everson cortou-lhe a palavra.
Se estivermos com azar, aqui não haverá sequer uma abertura — disse o coronel. — Napoleão pode deslocar-se à vontade através das paredes.
Dirigiu-se a Samy Goldstein.
O senhor consegue estabelecer algum tipo de contato mental com o deformador de moléculas? — perguntou. — Sente onde ele se encontra ou quando se aproxima?
O mutante fez um gesto vago. Era sensível como todos os mutantes.
Pouco importa o que eu diga — começou, falando devagar. — O senhor nunca sabe se não o estou dizendo por estar submetido a uma influência estranha. Minhas informações não lhe servirão de nada, pois o senhor tem certa desconfiança de mim. Sempre se lembrará de que Mataal me dominou. E é perfeitamente possível que o mesmo venha repetir-se agora. Se eu lhe contar uma coisa, isso poderá induzi-lo em erro. Portanto, qualquer informação que eu lhe der só trará mais confusão.
Everson reconheceu que o mutante estava com a razão. Na situação em que se encontravam, não adiantaria contar com suas faculdades. Só quando tivesse certeza absoluta, Goldstein falaria. E mesmo quando isso acontecesse, Everson poderia não acreditar nele.
Weiss e Sternal levantaram-se e, juntamente com Bellinger, passaram a examinar as paredes. Apalparam-nas centímetro por centímetro, embora suas mãos não alcançassem o teto. Depois de algum tempo, Poul Weiss chegou a um lugar que resolveu submeter a um controle minucioso.
Foi por aqui que entramos — disse. — Deve haver uma porta ou coisa que o valha.
É bem possível que Napoleão tenha criado a abertura apenas para permitir nossa entrada — disse Everson. — Não sabemos se ela ainda existe.
Não comece com isso, Sir — gritou Bellinger em tom estridente. — Daqui a algumas horas, o senhor começará a duvidar até da existência da sala em que nos encontramos. Quem toma essa atitude, acaba negando até a existência do mundo.
Everson sentiu-se apavorado ao notar o pânico do tenente. Colocou-se ao lado de Weiss. O biólogo não se deixara perturbar no seu trabalho.
Mesmo que contra todas as expectativas conseguissem escapar dali”, pensou Everson, “o que fariam depois?
Atrás dessa sala havia um corredor, e depois, outra sala. Se fugissem, não modificariam sua situação, mas apenas sua posição no espaço. Era como se um prisioneiro da penitenciária de Sing Sing cavasse um túnel que o levasse de sua cela à sala dos guardas.
Consegui! — exclamou Weiss em tom exultante.
Everson piscou os olhos. Parecia perplexo. Para ele, a parede continuava a ser uma superfície impenetrável e contínua.
O que estamos esperando? — perguntou Weiss.
Bellinger fungava. Sternal lançou um olhar bastante expressivo para Everson. O jovem mutante sacudiu a cabeça. Ninguém, a não ser Weiss, parecia enxergar qualquer coisa que pudesse possibilitar sua fuga.
Vamos com cuidado, Poul — disse Everson em tom cauteloso. — Como conseguiu encontrar a passagem?
Weiss sorriu.
Pode parecer ridículo — disse. — O fato é que desejei fortemente que houvesse uma abertura — e, no mesmo instante, esta surgiu à minha frente.
Interessante — constatou Everson.
O coronel perguntou-se por que justamente o biólogo fora atingido por aquilo, pois, ao que tudo indicava, Weiss tinha um “couro” mais grosso que os outros.
Vou dar uma olhada lá fora — anunciou o biólogo.
Coitado”, pensou Everson. “Você terá uma bela surpresa, quando sua cabeça esbarrar na matéria sólida.
Mas quem teve uma surpresa foi Everson.
Weiss atravessou a parede como se esta não existisse.

* * *

O Dr. Morton ligou a lanterna e olhou em torno. Pentsteven colocou-se ao lado do médico. Morton agitava a lanterna, como se fosse uma raquete de pingue-pongue, e virava a cabeça para ver os objetos no momento em que eram atingidos pela luz. O sargento Delaney, um homem baixo e robusto, mirava o chão. Eiji Okeda, o astronauta, enfiou os polegares no cinto do traje protetor e ficou à espera.
Ao lado deles havia um grande buraco; era talvez o poço do elevador... Em seu interior reinava a escuridão. Várias barras metálicas levavam para cima. Nas paredes laterais, havia saliências e reentrâncias dos mais variados tamanhos. Não se podia imaginar sequer qual era sua finalidade.
Subiremos pelas barras — disse o Dr. Morton.
Com a agilidade de um macaco segurou uma dessas barras e começou a puxar-se para cima. Pentsteven seguiu-o. O astrônomo não era treinado e viu-se obrigado a fazer uma pausa. O sargento Delaney procurou animá-lo com alguns gritos. Finalmente conseguiu subir ao lugar em que se encontrava o médico. Okeda e o sargento não tiveram a menor dificuldade em superar o obstáculo.
Por onde vamos? — perguntou Pentsteven.
Só se atrevia a falar aos cochichos.
Antes que alguém tivesse tempo de responder, ouviu-se um débil pedido de socorro em todos os receptores dos capacetes. Quatro feixes de luz procuraram vencer a escuridão.
Isso pode ser uma armadilha — advertiu o Dr. Morton.
Os feixes de luz atingiram um vulto que se contorcia no solo, perto do lugar onde se encontravam.
É o green! — gritou Pentsteven. — Olhe, doutor!
Correram para junto de Napoleão, que choramingava. O rosto enrugado do nativo estava desfigurado pelas dores. Ao que tudo indicava, alguém o golpeara brutalmente. O Dr. Morton abaixou-se sobre ele.
Calma — disse. — Nós o ajudaremos, amigo.
Napoleão levantou os braços delgados, num gesto de recusa. Sob a ação da luz ofuscante, seus olhos pareciam lagos profundos cercados por altas montanhas. Sua respiração parecia ranger.
Ajudem seus amigos — grasnou com dificuldade.
Girou o corpo, a fim de indicar a direção ao médico.
Estão lá embaixo, com os demônios. Andem depressa!
O Dr. Morton levantou-se de um salto. Esbarrou no astrônomo, que se inclinara sobre seu ombro. O sargento Delaney tirou a arma térmica e olhava furiosamente em torno.
Para trás — ordenou o Dr. Morton. — Precisamos descer por onde subimos.
Passou a mão pela horrível cabeça de Napoleão.
Aguarde aqui — pediu.
Voltaram correndo pelo mesmo caminho. Os raios de luz de suas lanternas iluminavam as paredes.
Não viram que o green se levantou e mergulhou na escuridão.

* * *

Todos vimos a mesma coisa; logo, aconteceu realmente — disse Marcus Everson e fitou os companheiros com uma expressão séria. — Devemos conformar-nos com o fato de que Poul atravessou esta parede como se ela não existisse.
Ninguém respondeu. Cada um seguia a trilha das próprias reflexões.
Já que não poderia conquistar nenhum aliado para Rhodan, ao menos vou levar-lhe de volta o precioso cruzador”, decidiu Everson.
Isso parecia ser fácil, mas, na realidade, era dificílimo de ser feito. Os obstáculos pareciam invencíveis. Não havia a menor dúvida de que Napoleão pretendia apoderar-se da México. Nem mesmo um deformador de moléculas seria capaz de pilotar a nave sozinho. Precisaria de alguém que o ajudasse.
Everson imaginava mais ou menos quais eram as intenções do falso nativo.
Tentaria colocar fora de ação os membros da expedição e voltaria à México, dizendo que era o único sobrevivente. Uma vez no espaço, controlaria a tripulação e a faria trabalhar de acordo com seus desejos. De qualquer maneira, parecia ter a intenção de deixar em Moluque os elementos mais importantes. Dali se concluía que via um certo perigo ao menos no mutante.
Mas não adiantava pensar sobre isso. Precisavam descobrir um meio de livrar-se da situação em que se encontravam. Poul Weiss não dispunha de dotes sobrenaturais. Devia haver uma explicação racional para aquilo.
No momento em que Everson começou a refletir intensamente sobre isso, o biólogo voltou. Ele o fez da mesma forma pela qual saíra.
Então; vamos andando, Sir — disse em tom animado. — O corredor está completamente vazio. Não se vê o menor sinal de Napoleão.
Não acontece todos os dias um terrano normal atravessar as paredes de espaçonaves estranhas como se estas não existissem. Até que o coronel resolvesse formular uma pergunta, passaram-se alguns segundos.
Como foi que o senhor conseguiu, Poul? Como fez para sair desta sala?
No rosto de Weiss, o sentimento de culpa e um sorriso incontrolado misturaram-se numa careta.
Desculpe, Sir — disse. — Pensei que o senhor soubesse.
O senhor não perde por esperar — disse o Tenente Bellinger em tom sarcástico.
No lugar em que entramos não existe nenhuma parede — explicou Weiss. — Ela só existe em nosso pobres cérebros iludidos. O deformador de moléculas recorreu a um truque psicológico para sugestionar-nos. Ficamos tão convencidos que até chegamos a sentir o material, ou melhor, acreditávamos que o sentíamos.
Sorriu, recuou alguns passos e estendeu o braço através da matéria aparentemente firme.
Olhe — disse. — Aqui está a prova. Basta acreditar que aqui existe a abertura pela qual viemos.
Não custa experimentar — disse Bellinger.
Num gesto que demonstrava desconfiança, estendeu as mãos para a frente, correu em direção ao obstáculo e... desapareceu. Depois sua cabeça voltou a surgir. Parecia um crânio de Buda sorridente que, contrário a todas as tradições, achava-se envolto por cabelos louros ondulados. Fez um gesto animador.
Agora, todos já estavam no corredor.
Foi dali que viemos — disse Weiss. — Parece que há uma barreira... — apontou para uma mancha escura, cujo centro quase chegara a ser negro, enquanto as bordas eram franzidas como uma flor. — O radiador térmico não servirá de nada.
Everson apontou para a tal mancha.
Parece que o senhor já tentou.
Weiss confirmou com um gesto. Ao que parecia, não temia as conseqüências dos seus disparos. Movia-se com a despreocupação de quem passeia pela Rua Goshun, em Terrânia. O biólogo era um homem de boa estatura, rosto liso e bem cuidado. Seu aspecto era simpático. Os astronautas jovens e inexperientes costumavam recorrer a ele para pedir conselhos. O biólogo fazia parte de um grupo esotérico. Pertencia a um círculo de estudos astrológicos, que, antes de qualquer viagem espacial, lhe fornecia um horóscopo. Tal fato deixaria muitos de seus amigos espantados, caso o soubessem.
Mas, naquele momento, Weiss pensava menos no seu horóscopo que nas possibilidades de levar avante a fuga.
Daqui não vemos a outra extremidade do corredor; está muito escuro — disse. — Mas podemos andar até lá e dar uma olhada.
Está certo — concordou Everson. Colocou-se na ponta do pequeno grupo e foram caminhando em direção ao destino. Numa atitude instintiva, evitaram qualquer ruído. O corredor foi-se estreitando, mas um homem podia passar confortavelmente.
Gostaria de saber uma coisa — disse Sternal. — Será que nos deslocamos na vertical ou na horizontal em relação à superfície do deserto?
Procure encontrar uma janela — sugeriu Bellinger com um sorriso.
Goldstein foi o único que se manteve em silêncio. Até parecia que não dava maior importância à fuga. Seu olhar mostrava-o introvertido. O mutante nunca fora muito loquaz, mas até então jamais pareceu desinteressar-se pelos acontecimentos.
Podemos prosseguir — disse Everson. — Do lado de cá, a abertura não foi fechada.
Mas parece que teremos de andar no escuro — disse Sternal, que parecia bastante preocupado. — Depois desta parede não há mais nenhuma luz.
Liguem as lanternas — ordenou Everson. Constatou-se que, com exceção do coronel, todos haviam deixado suas lanternas nos trajes protetores.
Ninguém vai voltar — decidiu o comandante da México. — Temos de arranjar-nos com apenas uma lanterna.
Ligou-a. O feixe de luz tremeu no chão, tateou as paredes e passou ligeiramente embaixo do teto. O lugar não sofrerá qualquer modificação. Avançaram devagar. Everson segurava a arma de choque. A ação era um tanto confusa, mas sempre seria preferível a uma atitude de resignação.
De repente, o coronel despencou. Deu um passo no vazio, embora sua lanterna tivesse iluminado chão firme, pouco antes. Agora, a luz passou a tatear por todos os lados, descrevendo trajetórias de fogo e rodopiando no nada pelo qual caía. Alguém soltou um grito.
Dali a pouco, ouviu-se o ruído produzido pelo impacto do corpo de Everson.
Um rosto demoníaco surgiu nitidamente diante dos olhos da mente de Everson. Procurou recuar, mas o rosto continuava a aproximar-se. Em desespero, teve a idéia de que talvez nem estivesse caindo, mas flutuando sem peso. Os lábios duros, em formato de bico abriram-se. Everson esforçou-se para respirar. Quis lutar, mas não encontrou nenhum ponto de referência contra o qual pudesse investir. Rolou, cambaleou, deu uma cambalhota. O corpo era incapaz de adaptar-se ao estado em que se encontrava.
Depois de algum tempo, uma voz falou em meio à infinita escuridão. Era uma voz que perdera totalmente a tonalidade juvenil:
Isso não passa de um truque, Sir! Procure resistir; conseguiremos.
Goldstein!”, pensou Everson, mas de sua boca só saiu um gemido martirizado.
Sentiu que em torno iria ter início uma coisa que se revestiria de importância decisiva.
Não poderia saber que aquilo era o começo de uma luta que seria travada com armas invisíveis. E tal embate poderia estender-se por várias horas, pois, durante seu prolongado silêncio, Samy Goldstein concebera um plano.
E acabara de passar à execução do seu intento.
7



Com o rosto contrariado, Scoobey observava os quatro robôs que arrastavam o canhão de radiações pela areia. As máquinas estariam em condições de deslocar-se mais depressa, mas, se isso ocorresse, os homens não seriam capazes de acompanhá-los. Um tanto triste, o oficial lembrou-se de que a tentativa de retirar um dos barcos auxiliares do interior da nave fracassara. Meio perplexo olhava para Murgut, que caminhava à frente do grupo.
As longas pernas do nativo venciam sem a menor dificuldade todos os acidentes do terreno. Scoobey tinha certeza de que o green era capaz de desenvolver uma velocidade considerável, caso isso se tornasse necessário.
Murgut vencera quase totalmente o pavor que lhe inspirava o deserto. A bordo da México travara conhecimento com as armas dos astronautas terranos. Sentiu-se profundamente impressionado, e afirmara que com tais armas seriam capazes de vencer até mesmo o mal em sua própria essência. Scoobey respirou profundamente.
O pequeno grupo estava fortemente armado. Um goniômetro captava ininterruptamente o chamado, emitido pelo rádio de Landis. Já haviam calculado a posição desse rádio, mas preferiram manter contato ininterrupto com o aparelho. Era possível que os homens de Landis tivessem de fugir.
Murgut andou mais devagar e esperou que Scoobey se colocasse a seu lado. O green amarrara ao pescoço, com um barbante, a lâmpada que lhe fora dada de presente. Dissera aos astronautas que pretendia cedê-la aos seus companheiros de raça, em troca dos auxílios prestados.
Estou com dor de cabeça — queixou-se. — E a dor aumenta constantemente.
Sinto muito — disse o oficial. — Com este calor, isso não é de admirar. O doutor lhe dará um remédio.
Murgut comprimiu as mãos contra as têmporas. Seus olhos escuros estavam arregalados de medo. Scoobey fez um sinal para que o Dr. Lewellyn se aproximasse. Antes que o médico chegasse ao lugar em que se encontravam, o green começou a gemer. Sua cabeça de abóbora balançava de um lado para outro.
Depressa, doutor! — gritou Scoobey. O oficial sabia com toda certeza que seria relativamente difícil estabelecer um diagnóstico num ser estranho, e que um remédio capaz de curar um ser humano pode ser totalmente ineficaz numa criatura extraterrena.
O medo é mais forte que as dores — disse Lewellyn.
Murgut, que usava um equipamento de comunicação igual ao que fora fornecido a Napoleão, agarrou-se ao médico com uma das mãos, enquanto passava a outra pela testa.
É um demônio, doutor! — grasnou em tom de pavor.
Tolice — disse Lewellyn. — Estamos a caminho há várias horas, e até agora não vimos nenhum fantasma neste deserto legendário. Os fantasmas não existem.
De repente, o nativo caiu na areia. Scoobey lançou um olhar de súplica para o médico. Lewellyn segurou os ombros de Murgut e procurou levantá-lo. O green tremia.
Deixe-me — gritou. — O mal em sua própria essência me matará.
Num gesto de desespero desvencilhou-se. Comprimiu o corpo contra o solo, como se este lhe pudesse proporcionar proteção e auxílio. Sua voz tremia de pânico.
Está dentro da minha cabeça — uivou Murgut. — Vai me matar...

* * *

O Dr. Morton colocou a mão sobre o peito de Delaney. O sargento parou. Pentsteven girava a lanterna para um lado e outro.
Por que não prosseguimos? — perguntou Okeda com a maior tranqüilidade.
Se alguém já me enganou, foi o tal do Napoleão — observou o Dr. Morton com a voz gelada. — Por algum motivo que só ele conhece, afastou-nos de lá de cima.
É uma aranha venenosa! — exclamou Delaney.
Dali a pouco, viram-se novamente no lugar em que haviam encontrado Napoleão. O green havia desaparecido. O Dr. Morton praguejou e interceptou Pentsteven, que iria iniciar uma explicação prolixa sobre suas idéias relativas à situação.
Vamos andando — ordenou. — Daqui em diante teremos o maior...
Um tremor sacudiu a nave e fê-lo calar-se.
O que foi isso? — a voz de Pentsteven parecia atropelar-se de medo.
O segundo abalo foi mais forte. As vibrações foram violentas. Pentsteven afastou os braços do corpo, a fim de não perder o equilíbrio. O sargento Delaney apoiou-se à parede com uma das mãos. O Dr. Morton abriu o capacete, a fim de ouvir melhor os ruídos.
Acho que devemos dar o fora — sugeriu Okeda.
Falou com a calma de quem convida alguém para um aniversário. Pentsteven concordou com a voz trêmula.
E Everson? — objetou o médico. — Será que devemos abandoná-los? Acho que seremos capazes de suportar estas sacudidelas.
Para reforçar suas palavras, continuou a caminhar sobre o solo agitado. O Dr. Morton balançava, cambaleava e avançava que nem um bêbedo. Continuou a iluminar automaticamente o caminho. Não olhou para trás, a fim de ver se os outros o seguiam. Não sentiu medo, nem sequer insegurança. A onda de abalos foi diminuindo aos poucos. Ruídos fantasmagóricos encheram as salas e os corredores. Não descobriram o menor sinal dos homens que haviam desaparecido com Everson. Três feixes de luz surgiram ao lado dos raios projetados por sua lanterna. A voz de Delaney zumbiu no receptor do capacete como se fosse o ruído de um inseto enfurecido.
Seguiu-se o terceiro abalo. Houve um solavanco tão forte que os homens pisaram em falso e caíram ao chão.
De início, Morton pensou que alguém lhe tivesse dado um pontapé. Porém, quando tocou asperamente no chão, viu que os outros também tinham caído. Fez um esforço para levantar-se, mas houve mais três abalos que sacudiram a nave tão fortemente que o médico se admirou de que esta não se espedaçasse. Sentia uma dor cruciante do lado esquerdo do peito, sobre o qual tombara.
O Dr. Morton chegou à conclusão de que seria preferível ficar deitado e esperar os abalos cessarem. Nem quis pensar no que poderia acontecer, caso o estranho tremor se tornasse ainda mais intenso.

* * *

Samy Goldstein estava de costas para a parede. À sua frente, Everson, Bellinger, Weiss e Sternal cambaleavam como se estivessem bêbedos. O mutante sentiu a energia mental do deformador de moléculas. Era uma série ininterrupta de investidas no terreno mental. Napoleão fez de tudo para subjugá-lo. Acontece que Goldstein estava preparado para esse tipo de confronto, até onde fosse possível. Suas medidas de segurança se baseavam em duvidosas teoria. Até então resistira continuadamente ao campo de irradiação dos greens; lutara e o afastara de suas capacidades extra-sensoriais.
Mas, no momento em que descobriu a verdadeira identidade do velho green, Goldstein passou a absorver sistematicamente os fluxos paranormais irradiados pelos cérebros dos nativos. Napoleão confessara que também era atingido por tais fluxos. O telepata concentrou-se ao máximo para sugar os modelos mentais. Seu cérebro martirizado ameaçou estourar, quando a descontrolada força paranormal penetrou-lhe livremente.
De início, Goldstein receara que, em virtude da distância que o separava da aldeia, não pudesse alcançar mentalmente os nativos. Mas seus sentidos paranormais saíram à procura e encontraram entre a nave e a aldeia um tipo de estação retransmissora, por meio da qual conseguiu estabelecer contato.
Goldstein não poderia imaginar que apenas estava utilizando Murgut na execução de seus planos!
Quando o deformador de moléculas lançou o primeiro ataque contra o mutante, Goldstein deixou-o penetrar imediatamente, sem oferecer a menor resistência. Sabia que, se suas suposições fossem incorretas, estaria perdido. Ficou desmaiado por alguns segundos, em virtude da interferência mental de Napoleão. Depois de voltar a si, sentiu apenas a pressão vinda da aldeia. Preferiu não entreter qualquer sensação de triunfo, pois não sabia se o falso green aceitaria a derrota. Animado pelo êxito, perseguiu-o, mas Napoleão bloqueara seu espírito. Dali se concluía que não estava em condições de vencer Goldstein no estado em que o mutante se encontrava. Porém o telepata não se entregou a ilusões. Logo Napoleão iria procurar surpreendê-lo numa segunda tentativa. A única proteção era representada pelas irradiações dos greens.
Quando Napoleão voltou a avançar, o fez de tal maneira que Goldstein só o percebeu quase tarde demais. Edward Bellinger voltara a colocar-se firmemente sobre os pés. Antes que Goldstein pudesse admirar-se com isso, o tenente tirou a arma térmica e fez pontaria para o mutante.
Edward! — gritou Goldstein. — Não faça isso!
Bellinger riu como se se sentisse desamparado. Ergueu ligeiramente a arma. Goldstein viu o dedo do oficial curvar-se vagarosamente sobre o gatilho. Atirou-se para a frente. Um raio quente passou pelas suas costas. Virou-se em desespero. Foi então que Napoleão investiu contra ele usando a violência paranormal.
Raios começaram a surgir diante de seus olhos. Em seu subconsciente, ouviu Bellinger soltar um grito de pavor. Seguiu-se o ruído de uma arma. Goldstein teve a impressão de que sua cabeça se dilatava como uma bolha de sabão. Devia fazer alguma coisa. Reunindo as últimas forças, voltou a entrar em contato com a paraonda dos greens. Alguém soluçava. Era ele mesmo. Teria de sair dali antes que Napoleão fizesse com que todos disparassem contra ele. Levantou-se de um salto e quis correr. Um abalo terrível atirou-o ao chão. A nave balançava. Goldstein não lamentou o fato, pois agora os homens dificilmente conseguiriam atingi-lo caso o último sobrevivente de uma raça estranha os obrigasse a atirar.
Uma ligeira sensação de mal-estar apossou-se dele. Tentou tossir, mas os pulmões, que queriam aspirar o ar comprimiram-se. Pequenos círculos dançavam diante de Goldstein. Sentiu dores atrozes no peito.
Falta de oxigênio”, pensou no subconsciente. “Ele está retirando o ar do corredor.”
Voltou a lutar contra os abalos. Só conseguia aspirar o ar em pequenas golfadas.
O que teria acontecido com os outros? Devia haver uma saída. Alguém caiu a seu lado. Goldstein fungou e conseguiu desvencilhar-se. Sentia um cansaço infinito.
Ansiava pela paz e pelo sono. As pálpebras fecharam-se.
Foi então que Napoleão se dispôs a desferir o golpe decisivo.

* * *

De início tiveram a impressão de que havia uma camada de ar tremeluzente entre a nave espacial e o lugar em que se encontravam. Esse ar desmanchava os contornos de tudo que estava em seu caminho. Landis passou as mãos pelos olhos.
Chancey — disse. — O que está vendo ali?
O homem, ao qual foram dirigidas estas palavras, levantou-se em atitude um pouco fleumática. Finalmente olhou na direção que lhe fora indicada.
A nave está balançando — disse em tom exaltado.
Os astronautas tiveram sua atenção despertada pelo estranho acontecimento.
O que estamos esperando, Toni? — exclamou Ogieva, um negro atlético. — Temos que tirar nossos companheiros de lá antes que seja tarde.
Scoobey ainda não pode ter chegado — disse outro. — Não adianta esperar por ele. É possível que o coronel esteja envolvido numa luta e precise de auxílio.
Nada disso — decidiu Landis.
Não se incomodou com os protestos e insultos que se fizeram ouvir. O Dr. Morton e seus acompanhantes também não haviam voltado, e era provável que um terceiro grupo que se dirigisse à nave teria o mesmo destino dos outros. Antônio Landis era um homem impetuoso, mas seu senso de responsabilidade era mais forte. Chegou à conclusão de que seria preferível esperar.
Entre em contato com Mr. Scoobey
sugeriu Ogieva. — Pergunte o que devemos fazer.
O operador de rádio não fez qualquer objeção. Mas duvidava de que o primeiro-oficial da México tivesse alguma idéia aproveitável. Na Terra sabia-se que esta missão envolvia certos riscos. Mas Landis começou a ter suas dúvidas de que Rhodan, ao ter autorizado a operação de busca de um aliado pudesse imaginar o que iria acontecer...
Manipulou o rádio e fez votos de que este fosse capaz de resistir a mais esta provação.
Aqui fala Landis — disse o operador.
Até agora nenhum dos homens voltou. Não conseguimos estabelecer contato por meio dos rádios de capacete. Há alguns minutos, a nave começou a sacudir-se como se tivesse um calafrio. Por aqui acham que deveríamos dar uma olhada para verificar o que aconteceu com o comandante.
Scoobey indagou com a voz rouca e exaltada:
Tem alguma idéia do que pode ter acontecido?
Sinto muito, Sir. A nave balança ininterruptamente de um lado para outro. Imagino perfeitamente que os homens no interior dela, não se encontrem numa situação muito agradável.
Acha que existe perigo de vida? — perguntou Scoobey.
Landis teve a idéia de que no planeta em que se encontrava tudo representava um perigo para a vida. Em voz alta respondeu:
Não acredito que haja um perigo direto, Sir.
Fique onde está — ordenou o oficial. — Não faça nada antes que eu chegue com meu grupo. Se surgir alguma situação que justifique o receio de que a vida dos nove homens esteja em perigo, o senhor poderá fazer o que achar mais acertado. Aqui também estamos lutando com dificuldades. Murgut, o nativo que nos acompanha, está se fazendo de doido. Até agora o Dr. Lewellyn não pôde fazer nada por ele. Desligo.
Landis voltou a regular o aparelho, para o sinal automático de chamada pelo qual o grupo de Scoobey podia orientar-se. Agora, dependia exclusivamente do operador de rádio a escolha do momento em que sairiam atrás de Everson. Esse poder de decisão não o deixou muito feliz.
Landis lançou um olhar para o lugar que corporificava todas as preocupações. O tremor se tornara mais fraco. Em compensação, viu outra coisa. Pouco acima do solo havia nuvens finas de pó, que se moviam na sua direção. Se não estava muito enganado, estas tornavam-se cada vez mais densas e subiam para o ar.
Parece que vamos ter outra tempestade de areia — disse Dealcour. — O vento já sopra com mais força.
O furacão nos soprará até o inferno — disse Landis, dando vazão ao seu pessimismo. — Perderemos a nave de vista.
Landis pretendia fazer alguma coisa antes que isso acontecesse. Olhou para Ogieva. O negro estava firmemente de pé, com as pernas afastadas. Era um vulto impressionante, que não parecia incomodar-se com as tempestades do Universo. A primeira idéia sempre é a melhor.
Vamos andando — disse laconicamente.
Não teve necessidade de mencionar o destino, pois todos o conheciam.

* * *

Quando o Dr. Morton obrigou o corpo estropiado a levantar-se, pensou que não teria tempo para cuidar de doenças. Os solavancos haviam diminuído bastante. Já se podia andar, sem correr o perigo de ser atirado ao chão.
Estou com o corpo cheio de hematomas — disse o sargento Delaney. — Um bife batido está menos amassado que eu.
Dr. Morton certificou-se de que Okeda e Pentsteven também haviam resistido à tortura. Depois dirigiu o feixe de luz da lanterna para a frente. Ouviu Pentsteven soltar um gemido.
Deixe a arrumação do corpo para mais tarde — disse, dirigindo-se ao astrônomo. — Vamos andando.
Era esta a única idéia que o Dr. Morton tinha sobre a maneira de prosseguir em sua ação. Não podia deixar de confessar que era simplória e pouco imaginosa. Mas teve suas dúvidas de que seria capaz de conceber outra melhor, por mais que refletisse.
Caminharam pelo corredor. Eram quatro vultos que se contorciam de dor, segurando as lanternas com uma das mãos, enquanto a outra apalpava cuidadosamente o corpo.
Enquanto o Dr. Morton refletia sobre se convinha chamar o Coronel Everson pelo rádio de capacete, um homem cambaleava em meio ao feixe de luz, a alguns metros de distância. O homem não usava traje protetor.
Era Bellinger. Tinha os cabelos desgrenhados e a camisa do uniforme estava rasgada. Cambaleou na direção em que se encontravam, apoiando-se ora numa, ora noutra parede do corredor.
Quando Bellinger pretendia passar por ele, o médico segurou-o. Ao que parecia, o tenente não o via, pois seus olhos pareciam ver para além do Dr. Morton. Fez um movimento débil, a fim de afastar o médico. Delaney aproximou-se de um salto e ajudou o médico a apoiar aquele homem, que não era nada leve.
Você me compreende, Ed? — perguntou o Dr. Morton em tom insistente. — Queremos ajudá-lo. O senhor tem de levar-nos ao lugar em que estão os outros.
Num movimento infinitamente lento, o Tenente Bellinger levantou o braço direito. Fechou um dos olhos, como se estivesse fazendo pontaria para um alvo, e curvou o dedo indicador. Estava disparando uma arma imaginária. Num relance de olhos, o Dr. Morton viu que o astronauta estava sem a arma térmica.
Deve ter havido uma luta, Ed — disse em tom insistente. — Conte o que aconteceu.
Pela primeira vez, Bellinger fitou-o. Seus olhos abriram-se um pouco. Tremia fortemente.
Matei o rapaz! — exclamou.
Seu corpo amoleceu, e os dois homens tiveram de fazer um esforço tremendo para mantê-lo de pé. O Dr. Morton não era um homem muito corajoso, mas também não era nenhum covarde. Apesar disso, as palavras do tenente lhe provocaram um calafrio.
Está se referindo a Goldstein? — perguntou.
O choque sofrido por Bellinger fora tão violento, que o tenente não era capaz de dizer qualquer coisa sensata.
Numa atitude inconsciente, o Dr. Morton entesou o corpo.
Tente levá-lo para fora — ordenou, dirigindo-se a Pentsteven. — Não preste atenção a qualquer tipo de conversa.
O astrônomo, que estava com o rosto pálido, fez um gesto afirmativo. Devia sentir-se satisfeito por poder sair dali.
Esta retirada não deve ser nada agradável para o coitado do Bellinger”, pensou o médico.
Continuaremos a procurar — disse. — Everson não pode estar muito longe. Vamos ficar com as armas preparadas. Se houver uma luta, deveremos estar atentos para agirmos rapidamente.
Tirou a pistola de choque. Por um instante, o cano da arma foi atingido pelo feixe de luz da lanterna de Okeda e cintilou.
Se por aqui houver um único deformador de moléculas”, pensou o homem barbudo, “esta arma não será mais eficiente que uma bombinha de São João.”

* * *

Nenhum homem, nem mesmo um mutante, é capaz de, ao mesmo tempo, lutar para respirar, manter o equilíbrio sob uma série ininterrupta de abalos e defender-se contra uma supercriatura, cujas energias paranormais são quase inesgotáveis. A paraonda dos nativos já não era suficiente para deter Napoleão. Agachado no chão, Goldstein percebeu que o controle de suas faculdades mentais lhe escapava.
O rosto de Napoleão surgiu em sua mente. O green sorriu. Sua cabeça balouçava ligeiramente. Parecia um velho que balança tranqüilamente a cabeça, para exprimir sua contrariedade com as artes de uma criança travessa.
Não tive a intenção de agir com tamanha violência contra vocês — comunicou o deformador de moléculas. — Mas seu comportamento obrigou-me a isso. Seu raciocínio lhes poderia ter dito que qualquer resistência seria inútil.
As antenas telepáticas de Goldstein não conseguiram captar as emissões mentais dos greens. Estava inteiramente nas mãos do inimigo. Com um pavor crescente, o mutante percebeu que, dentro em breve, seria um instrumento passivo, que executaria quaisquer ordens e faria exatamente aquilo que Napoleão desejasse.
E assim jazia no chão, vencido pelo cansaço e pelo desespero. Levantou a cabeça. Everson, Weiss e Sternal estavam inconscientes. Bastaria estender o braço para tocar o comandante.
É preferível que saiamos juntos da nave — voltou a falar Napoleão, que, neste momento, materializara-se. — Seu estado não é bom. Tive de ativar alguns aparelhos que podem causar uma catástrofe. A obstinação demonstrada por vocês obrigou-me a isso. Precisei de algum tempo, para adaptar-me à pressão mental que se concentrava em seu cérebro e fluía para mim. A idéia não foi nada má, mas você não poderia resistir por muito tempo. Como não conseguisse atingi-lo no plano mental, comecei por derrotá-lo no plano físico. Quando sairmos, lá fora rugirá uma tormenta que evitará que seus amigos se deixem levar a um ato irrefletido. Vai ser-lhes difícil até manterem-se de pé. Assim que os tenha colocado, um por um, sob o meu controle, o vento amainará, e poderemos regressar à sua nave. Durante os reparos que ainda faltam, terei tempo para escolher os homens mais submissos entre a tripulação. Os outros ficarão em Moluque. Poderão cuidar destes nativos primitivos e de seu progresso.
Goldstein preferiu não perguntar a que grupo pertenceria. A possibilidade de passar o resto da vida entre os greens não era nada agradável. Mas achou-a ainda melhor do que ficar escravizado mentalmente a bordo da México.
Nem se atrevia a pensar no que o deformador de moléculas faria com o cruzador terrano. Pelas leis do Império Solar, o procedimento de Napoleão era um ato de pirataria. Mas não havia ninguém que pudesse puni-lo por isso.
Mais uma vez, o telepata procurou concentrar-se na paraonda dos greens. Mas assim que pensava nos fluxos mentais dos nativos, seu cérebro começava a doer tanto que se sentia incapaz de lançar mão de suas forças paranormais. Napoleão paralisara o respectivo setor de seu cérebro por meio de um bloqueio psicológico. A força de vontade do jovem mutante não bastava para poder fazer algo contra isso. Seus sentidos paranormais estavam transformados em dons mentais mutilados, que se recusavam a desempenhar qualquer função.
Espero que isto o tenha convencido da inutilidade das suas tentativas — disse Napoleão em voz alta. — Nesse caso, evitará medidas rigorosas de minha parte. Não tenho o menor interesse em deixar uma ruína espiritual em Moluque.
Everson recuperou os sentidos, evitando que Goldstein fizesse uma observação irônica. O coronel ergueu-se lentamente. Ainda estava um tanto inseguro sobre as pernas. Goldstein levantou os olhos para ele e sorriu.
As coisas não estão nada boas, não é mesmo? — perguntou Everson.
Não senhor — disse Goldstein, olhando para Napoleão. — Ele nos levará para fora. Só nos fez andar por aqui para submeter-me a seu controle. E agora conseguiu.
Num movimento ligeiro, o coronel tirou a arma térmica e atirou.
No entanto, o raio fulgurante, que o mutante esperava ver, não saiu.
Deixe de ser idiota — advertiu Napoleão. — A hora para isso já passou.
Everson desistiu. Guardou a arma e olhou para Goldstein.
De qualquer maneira, resolvi tentar — disse.
Tocou Weiss e Sternal com a bota. O biólogo resmungou alguma coisa. Dali a dez minutos, todos estavam de pé. Bellinger desaparecera. Goldstein preferiu não mencionar os tiros infelizes disparados pelo tenente. Sem dúvida o mesmo estivera sob a influência de Napoleão.
Podem vestir os trajes protetores — disse Napoleão em tom amável. — Eu os acompanharei. Não adianta usarem as armas. Estão inutilizadas.
Naquele instante, um homem baixo apareceu na outra extremidade do corredor. Envergava um traje espacial. Um rosto barbudo aparecia sob o capacete aberto. Segurava uma pistola.
Olá, doutor — disse Everson.
O Dr. Morton esticou o corpo para ver Napoleão, atrás do comandante. Guardou a lanterna no respectivo estojo, pois o lugar estava bem iluminado. Delaney e Eiji Okeda apareceram logo depois. Quando viram Everson e os outros homens do grupo, uma expressão de alívio surgiu em seu rosto.
O médico passou por Everson e apontou a arma térmica para Napoleão. Suas faces estavam afogueadas de cólera.
Doutor, acho que preciso explicar-lhe alguma coisa, antes que nos cause maiores dificuldades — disse Everson.

* * *

Antônio Landis nunca acreditaria que pudesse levar mais que alguns minutos para vencer a distância de cem metros. Quando haviam percorrido a terça parte do caminho, a nave já havia desaparecido em meio às nuvens de pó e areia. Tiveram de marchar contra o vento. O operador de rádio teve a impressão de que, para cada passo que avançavam, eram tangidos para trás três passos. Sabia que os outros homens se esforçavam com a mesma estúpida obstinação, mas não conseguiam melhor resultado que ele. Landis transformara-se num autômato que movia as pernas numa resignação muda, embora soubesse que não saía do lugar. O pó e a areia batiam ruidosamente contra seu corpo, banhavam seu traje. Resistiu ao vento, tal qual uma sólida muralha. Empurrava-se para a frente com toda a força, os pés impeliam-no e o braço livre balançava descontroladamente.
De repente, alguma coisa se aproximou, saída da semi-escuridão. Estreitou os olhos para enxergar melhor.
Era um jovem, envergando traje protetor. Landis fez um sinal. Depois de algum tempo, conseguiram imobilizar seus corpos. Um terceiro homem surgiu à sua frente. Aproximou-se rastejando.
Tudo bem? — perguntou o homem que se encontrava ao lado de Landis.
A voz grave fez com que Landis reconhecesse imediatamente o homem que via diante de si.
Sir — balbuciou. — Como veio parar aqui?
De certa forma foi o vento — disse o coronel. — Os outros logo vêm atrás de mim.
Como que para confirmar estas palavras, alguns vultos confusos desenharam-se em meio ao véus de areia. Landis teve vontade de gritar de tão aliviado que se sentia.
O que houve? — perguntou. — Deu tudo certo, Sir?
Teve de esperar algum tempo, até que o comandante respondesse.
Napoleão é um deformador de moléculas. Estamos nas mãos dele. Seu objetivo é a México.
Landis, que também se encontrara a bordo da nave girino cuja tripulação ficou sujeita à influência de Mataal, percebeu que sua alegria transformou-se de repente em preocupação.
O que vamos fazer? — perguntou em voz baixa.
Antes que o coronel a pronunciasse, ficou conhecendo a resposta. Não tinham a menor chance face àquela criatura. Quando da luta contra Mataal, a sorte e o acaso vieram em seu auxílio. A sorte é muito rara e dificilmente se repete. O operador de rádio bem que gostaria de acreditar que conseguiriam vencer todos os perigos. Mas a realidade mostrava-lhe outra coisa: haviam chegado ao fim.
Em meio à fúria dos elementos, o astronauta deu-se conta de que qualquer esperança era mera quimera.
8



Os sinais de chamada cessaram. Há três horas ainda haviam soado ligeiramente por algumas vezes, mas acabaram silenciando de vez. Walt Scoobey gostaria de saber se as nuvens que apareciam no horizonte tinham alguma coisa a ver com o incidente. Sem dúvida, tratava-se de véus de pó tangidos para o alto por uma tempestade. Ao que parecia a tormenta se descarregava no lugar em que ficava o destino do seu grupo. O primeiro-oficial tentou em vão convencer-se de que nada acontecera com a expedição.
Esperava que, dentro de duas horas, conseguissem chegar ao lugar onde estava Landis. Restava saber se ainda conseguiriam encontrar os homens. Walt Scoobey não se atreveria a responder a esta pergunta.
Avançavam rapidamente. O estranho ataque sofrido por Murgut havia cessado. O nativo acreditou que isso tivesse acontecido por causa de uma injeção aplicada pelo Dr. Lewellyn. A essa hora estava totalmente convencido de que as armas de seus amigos eram mais poderosas que todos os espíritos do deserto. Vivia a lançar olhares de veneração para o canhão de radiações, que estava sendo transportado pelos robôs.
Nenhum envoltório de nave espacial que não fosse protegido por campos energéticos seria capaz de resistir a esse canhão. Scoobey perguntou a si mesmo se nos espíritos e nos demônios seus efeitos seriam tão fulminantes como costumavam ser na matéria sólida.

* * *

A tempestade amainara o bastante para que os astronautas pudessem manter-se de pé. O terreno foi-se iluminando. Napoleão mantinha-se afastado do grupo. Transmitia suas ordens por via telepática para Goldstein, que devia retransmiti-las aos outros. Dois ataques contra o deforma-dor de moléculas haviam fracassado vergonhosamente. Napoleão dera a entender de forma inequívoca que, se houvesse um terceiro, os homens seriam castigados. Goldstein imaginava que, naquela altura, o falso green estava empenhado em submeter os terranos, um por um, ao seu domínio mental. Se conseguisse, estariam irremediavelmente perdidos. Ogieva, Bellinger, Delacour e alguns outros pareciam tão apáticos que o mutante teve a impressão de que já se encontravam sob o domínio de Napoleão. Goldstein já desistira de resistir às ordens telepáticas. O último dos deformadores de moléculas sabia superar qualquer ação do mutante. Locomoviam-se devagar em meio ao vento cada vez mais fraco. Eram trinta terranos abatidos e um ser de pernas longas, cujo aspecto real poucos homens seriam capazes de imaginar.
Goldstein não se preocupava com o tempo que se passava. Não se importava nem um pouco quando do momento de entrarem na México.
O sol pôde ser visto de novo. Já se encontrava próximo à linha do horizonte.
O deserto jazia em silêncio. Não havia o menor sinal do furacão que rugira poucas horas atrás. O corpo de Goldstein doía em diversos lugares. No braço, que machucara durante a queda da México, espalhou-se uma sensação paralisante. Com um ligeiro olhar aos astronautas, o telepata verificou que nem um único destes se encontrava em boas condições. Bellinger teve de apoiar-se em dois homens. Pentsteven, o jovem astrônomo, arrastava a perna direita.
O mutante observou Everson. Mesmo que quisesse, não seria capaz de captar os pensamentos do comandante.
No momento em que Goldstein pretendia olhar para o chão, viu um ponto escuro sobre uma duna afastada. Antes que Goldstein tivesse tempo de dizer qualquer coisa, havia um grupo.
Era Scoobey e seus homens!
Já os vi — observou Napoleão em seu cérebro. — Não poderão fazer nada por vocês.
Aproximavam-se ininterruptamente. Goldstein reconheceu um canhão de radiações que estava sendo arrastado por robôs. Sua coragem foi diminuindo. O tamanho da arma não importava nem um pouco. Scoobey teria uma surpresa.
De repente, Goldstein avistou o green, que vinha atrás dos homens de Scoobey. Suas pernas moviam-se por cima da areia pela forma inimitável que era peculiar dos seres de sua raça. Provavelmente era Murgut. Aos poucos, o mutante percebeu quem, realmente, lhe havia servido de estação retransmissora mental.
Naquele instante, teve uma idéia. Será que a energia paranormal de Napoleão não podia ser afetada pela proximidade do nativo? Goldstein fez um esforço desesperado para captar o modelo mental do nativo. Não aconteceu nada. O deformador de moléculas fizera um trabalho cauteloso, não deixando a menor chance para Goldstein.
Quando se encontravam a cinqüenta metros, a voz de Scoobey soou em seus receptores.
Parece que nossos esforços foram em vão, Sir — disse em tom alegre. — Espero que sua excursão tenha sido bem sucedida.
Everson explicou que tipo de êxito puderam registrar. Teve de usar todo o poder de persuasão para convencer o oficial de que qualquer ataque seria condenado ao fracasso.
Depois de algum tempo, Murgut dispôs-se a cumprimentar o ser que acreditava ser seu companheiro de raça.
Mantenha-o afastado de mim! — ordenou Napoleão por via telepática.
Todo o ser de Goldstein se rebelava contra essa ordem, mas não houve meio de resistir a ela. Seus nervos se revoltavam contra a pressão mental do deformador de moléculas. Sua cabeça parecia uma caixa de ressonância. Mas suas pernas carregavam-no em direção a Murgut, a fim de interpor-se entre ele e Napoleão.
Mais rápido — foi a ordem que recebeu por via telepática.
Goldstein sabia que estava cometendo um erro, mas começou a correr. Precipitava-se sobre a areia, a fim de alcançar Murgut. Um estranho fenômeno começou a desenrolar-se em seu cérebro. À medida que o green se aproximava de seu falso amigo, a pressão que Napoleão exercia sobre a vontade do mutante ia diminuindo. Em compensação a estranha paraonda do green ia aumentando.
Goldstein passou a correr por sua livre e espontânea vontade. Enquanto corria, puxou a arma. Mas teve de constatar que subestimara Napoleão. Agora, que esse ser começava a perder o controle sobre ele, passou a lançar mão de outros meios. Bem à frente do mutante subiu um esguicho de areia cuja força seria suficiente para arrancar a cabeça de um touro. Com um salto, Goldstein colocou-se em segurança. Não teve tempo para verificar se os outros intervinham na luta. Murgut caminhava na direção de Napoleão sem desconfiar de nada.
O deformador de moléculas pôs-se a fugir. Os olhos de Goldstein estavam grudados de suor. Atirava sem fazer pontaria.
Ele é um demônio — gritou para Murgut. Usara a língua inglesa, de tão nervoso que estava. Apressou-se em repetir suas palavras, para que o nativo pudesse compreendê-lo.
O deformador de moléculas tropeçou e caiu. Murgut foi o primeiro que chegou ao lugar em que ele se encontrava. O mutante não se arriscou a atirar, pois seria bem possível que acertasse no green. Ficou apavorado ao notar que o green ajudava o inimigo a pôr-se de pé.
O que poderia fazer para avisá-lo?
Goldstein recorreu às últimas forças que lhe restavam. Um gigantesco buraco surgiu à sua frente. Tropeçou e por pouco não escorrega para seu interior. Graças à pouca concentração do ataque traiçoeiro, fora salvo. Contornou a cratera. Seus olhos apavorados viram uma parede de areia erguer-se entre ele e o deformador de moléculas. Esta rolou em sua direção que nem uma gigantesca onda. Apesar da grande proximidade do green, o deformador de moléculas ainda conseguia influenciar a matéria à vontade.
Abaixe-se, Samy! — ordenou uma voz saída de seu alto-falante de capacete.
Abaixou-se, esperando ser soterrado de um instante para outro pela gigantesca parede. Alguma coisa quente e malévola chiou acima dele. Cautelosamente levantou a cabeça. A parede artificial fora imobilizada. Com grande esforço, Goldstein ultrapassou-a.
Murgut ajoelhou-se diante do corpo enrijecido do último representante da estranha raça. O disparo de uma arma térmica produzira modificações profundas em Napoleão.
Já não parecia fino e quebradiço; as rugas de seu rosto haviam desaparecido. Estava meio coberto pela areia, mas aquilo que o mutante pôde ver não tinha mais nenhuma semelhança com um green.
A morte restituíra a Napoleão seu verdadeiro corpo.
Alguém foi-se aproximando de Goldstein. Era o Coronel Everson.
Quem foi que atirou? — perguntou o mutante em voz baixa.
Um robô — respondeu Everson com a voz tranqüila.
Os dois juntos afastaram Murgut do cadáver. Agora, que a luta cessara, Goldstein não teve nenhuma sensação de triunfo. Nem mesmo a idéia de que, dali a poucos dias, poderiam decolar com a México e voltar à Terra arrancou-o da depressão...


* * *
* *
*

A missão em Moluque fracassou... Os seres que Perry Rhodan pretendia transformar em aliados não mais existem.
Em virtude do pacto de assistência mútua, celebrado com Atlan, realiza-se a ação policial de uma espaçonave terrana contra O Inimigo Oculto, que é o título do próximo livro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html