segunda-feira, 29 de agosto de 2016

P-099 - Um Amigo da Humanidade - William Voltz [Parte 1]

Autor
WILLIAM VOLTZ



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Os que foram desterrados chegam e o solitário do
planeta Ufgar não tem tempo nem para morrer.


Desde os dias gloriosos da Terceira Potência, Perry Rhodan e seus seguidores tiveram uma longa e dura caminhada. Com o inestimável auxílio da supertécnica dos arcônidas, assimilada em tempo recorde, os terranos abriram ainda mais os caminhos para o espaço — não obstante incompreensões e reveses internos e externos. Mesmo nas piores situações, os homens de Rhodan não conheceram as palavras “resignação” e “desistência”. Pelo contrário. A principal característica desta nova mentalidade era procurar novos caminhos para obtenção da vitória. E assim sendo, não apenas conseguiram criar e conservar, mas também ampliar o Império Solar.
Mas, não é um desdouro para os terranos repetir que a cooperação de estranhos lhes foi de suma valia.
Um dos cooperadores do espantoso progresso da Humanidade foi Crest, o arcônida que fez da Terra sua nova pátria. Nas muitas dezenas de anos em que se entregou de corpo e alma à luta pelos ideais da Humanidade, jamais quis que seu nome sobressaísse... Sua norma era trabalhar em silêncio e fazer com que sua grande experiência fosse útil aos homens.
Naquele momento, início do ano 2.045, Crest já se sentia cansado. Queria terminar seus derradeiros dias em paz, em meditação. E Perry Rhodan satisfez sua vontade. No entanto Crest não conseguiu a paz tão almejada, e assim não continuaria sendo “o amigo dos homens”, como prometera ser.




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

CrestUm verdadeiro amigo dos terranos.

Golath, Liszog, ZerftDegredados do planeta Unitro.

Perry RhodanQue perde mais um amigo.

Reginald BellVice-administrador do Império Solar.

Tenente Davis BowlerQue recebe a última mensagem de Crest.


PREFÁCIO


O homem chegou ao fim da Avenida Orion. Luxuosa artéria de muitos quilômetros, que desemboca numa verdejante campina, salpicada de arbustos e flores. Admirado, olhou para trás, pois ainda há poucos minutos, encontrava-se preso no denso trânsito da grande cidade, à sombra de seus supermodernos edifícios.
Terrânia, centro nevrálgico do Império Solar, é uma metrópole cheia de contrastes. A quem procura repouso, ela oferece também a tranqüilidade e o encanto de parques maravilhosos e instalações apropriadas para a descontração do espírito.
O homem caminha agora à beira do prado. Mais para frente, à sombra de três árvores, há um monumento inaugurado recentemente. Não é grande. Uma pessoa apressada passaria por ali sem percebê-lo. Mas o homem se detêm para olhá-lo. Sobre um pedestal talhado em pedra bruta, aparentemente granito comum, ergueu-se uma figura humana, esculpida pela mão abençoada de um artista. Um raio de sol, filtrado entre a folhagem da árvore, destaca o rosto da figura.
O homem, espontaneamente, dá um passo para trás. Tem-se mesmo a impressão de que a figura está viva. Representa um homem esbelto e de boa estatura, cujo corpo visivelmente envelhecido está envolto num grande manto. O braço direito está estendido, como num gesto de proteção.
O homem, de pé diante da estátua, esboça um sorriso, o sorriso triste da saudade. O semblante de pedra expressa a franqueza e a inteligência, ornadas por um suave sorriso nos seus traços rígidos.
No pedestal estão gravadas quatro palavras simples, nenhum nome nem data. O desconhecido as lê silabando e depois as repete baixinho:
UM AMIGO DOS HOMENS.
Apenas este modesto título. Nenhum relato dos feitos ou qualquer dado de fácil identificação.
Mas todos sabem o que aquele homem fez pela Terra e todos sabem em homenagem a quem é aquele monumento. O silencioso visitante, depois de muitos segundos de meditação, vira-se e segue caminhando através do prado. Um caminhão passa. Mas ele nem o olha. Seus pensamentos ainda estão presos na estátua. Pensamentos de gratidão. Seus lábios pronunciam o nome do homem esculturado, como que para deixá-lo indelével na memória.
Crest!




1


Os sapatos de Rhodan deixaram fundas pegadas na areia úmida. Um vento brando agitava a superfície do lago, formando espuma nas ondas miúdas. Conchas e pedras de muitas cores davam vida à areia da praia.
Perpendicular e acima de Perry Rhodan, no ponto mais alto de uma ladeira, repousava a poderosa espaçonave Solar System, sustentada por seus apoios telescópicos. O pesado cruzador da classe Terra tinha um diâmetro de duzentos metros.
Mesmo para o Administrador do Império Solar, acostumado com a visão diária destas naves, o cruzador visto desta posição parecia um monstro da pré-história, pairando ameaçador lá no alto. Rhodan ficou parado, respirando profundamente o ar puro. A escotilha da grande nave abrira-se naquele momento. Aos poucos foi surgindo um guindaste de lança. Via-se nitidamente a figura rígida do Tenente Chad Tuncher, que comandava a operação.
Pela primeira vez, Rhodan olhou para o homem que estava bem próximo a ele.
Onde quer que a casa seja construída, Crest? — perguntou Rhodan.
Devia haver um tom especial em sua voz, pois o velho arcônida caminhou de encontro ao administrador, para lhe colocar a mão sobre o ombro.
É contra sua convicção construir esta morada para eu terminar os poucos dias de vida que me restam, não é verdade, Perry?
É contra minha convicção deixar um amigo sozinho — respondeu Rhodan calmamente.
No seu rosto não se notava nada do que lhe ia na alma. Mas um observador mais atento do que Crest teria reparado que os punhos de Rhodan estavam cerrados e bem comprimidos.
Sei muito bem o que a palavra amigo significa para você — disse Crest.
Sua voz tinha um timbre claro, fazendo esquecer seu corpo alquebrado pela velhice. Ninguém se iludia sobre os poucos dias de vida que restavam ao grande arcônida. Crest e Thora, a falecida esposa de Rhodan, não conseguiram o privilégio da ducha celular do planeta Peregrino, ducha esta que mantinha por sessenta anos a disposição física e mental de uma pessoa.
Apesar do elevado grau de perfeição da Medicina arcônida, capaz de prolongar a vida, não se podia esperar por um milagre no campo biológico. Crest, suficientemente inteligente e sensato para compreender o alcance das coisas, sentia que a morte estava próxima. Foi por isso que procurou Rhodan, pedindo que o deixassem neste planeta. Havia se afastado demais de Árcon, sua pátria verdadeira para poder sentir agora qualquer saudade de lá. Por outro lado, não queria também morrer na Terra.
Num cúmulo de ironia, dissera mesmo a Perry Rhodan que não desejava morrer deitado numa cama, rodeado pelas manifestações de pesar dos “selvagens” — nome com que os arcônidas se referiam aos habitantes da Terra.
O velho arcônida fizera a Rhodan referência a um pequeno sistema solar, até então desconhecido dos terranos, distante 6.381 anos-luz da Terra. O sol amarelo tinha cinco planetas e fora descoberto já há muitos milênios pelo arcônida Ufgar, de quem recebera o nome. O segundo destes planetas era um mundo com boa camada de oxigênio, de água cristalina, um pouco maior do que Marte. A gravitação nele chegava a 0,84 gravos. Florestas virgens e mares cobriam todo o planeta. Não possuía, porém, seres inteligentes.
Exatamente este mundo fora escolhido por Crest, para encerrar sua longa vida. Rhodan não tinha como impedir o pedido final do grande cientista arcônida e partiu com ele da Terra, na espaçonave Solar System.
Estavam agora no tal planeta, procurando um bom lugar para Crest.
Cuidado aí embaixo! — gritou o Tenente Tuncher.
Mas, no mesmo instante, percebeu que quem estava lá embaixo, impedindo a manobra de seu guindaste de descarga, era Rhodan.
Desculpe, sir! — disse o tenente, acabrunhado.
Depois a lança do guindaste foi surgindo pela escotilha. Tuncher abanou com os braços, quando a pequena casa começou a balançar no gancho.
Vocês querem chegar lá embaixo com uma casa ou com escombros de uma casa? — gritou ele um pouco nervoso.
Assustados, alguns homens apareceram à borda da escotilha para acompanharem o resultado da manobra.
É neste lugar mesmo, sir?
Sim — confirmou Rhodan. — Podem deixar descer devagar.
Pendendo livremente num cabo de aço, a casa — pré-fabricada e já montada — desceu lentamente para a margem do lago. Tuncher seguia os movimentos da casa com ameaças e imprecações. Entretanto não houve acidentes.
Qual é sua impressão? — perguntou Rhodan.
Talvez confortável demais — disse Crest sorrindo. — Acho que vocês capricharam em tudo.
Rhodan respondeu meio triste:
Uma casinhola desta não é nada em vista do que você fez pelo nosso povo.
Tudo que fiz, foi com prazer e espontaneamente.
Os olhos avermelhados de Crest pareciam ter um brilho diferente.
Foi-me um raro privilégio poder cooperar para o desenvolvimento de uma grande raça. Os homens sempre foram para mim como crianças, que a gente tem de proteger e orientar. Mas isto já passou. A Humanidade já ultrapassou a fase do jardim de infância e agora já discute de igual para igual com os mais velhos. Posso afirmar que esta raça tem diante de si um grande futuro, se continuar com as mesmas boas diretrizes. E meu maior desejo é que sempre haja homens como você, Perry.
Vamos agora dar uma olhada em seu novo lar — disse Rhodan se esquivando do elogio. — Já lhe disse que você vai ter aqui um moderno Space-Jet com supertração e com hiper-rádio. Terá sempre e a qualquer momento a possibilidade de voltar à Terra, ou chamar por auxílio. Por aqui não encontrará nenhum médico para ajudá-lo... De qualquer maneira, vou lhe deixar também dois robôs de combate. É muito remota a possibilidade de aparecerem neste planeta seres inteligentes estranhos, mas temos que estar prevenidos. Num caso destes, você deve impedir que o Space-Jet lhes caia nas mãos, pois neste pequeno aparelho estão montadas instalações eletrônicas e um novo tipo de motor de tração, cujo segredo é vital para o Império Solar. Portanto, não deve passar para as mãos de potências estranhas a nós.
Eu lhe prometo que vou tratar do disco voador como se fosse a menina dos meus olhos — disse Crest. — Não se preocupe quanto a isso.
Juntos, penetraram na nova moradia. Crest caminhava um pouco recurvado e respirava com dificuldade. O semblante estava todo vincado de rugas. Mesmo o alto da testa não fora poupado dos sinais da idade avançada. Os cabelos longos e brancos do arcônida caíam-lhe pelos ombros. Não obstante o peso da idade, era ainda uma figura impressionante.
A porta da entrada principal se abriu automaticamente, quando pisaram na soleira. Sorrindo, Rhodan fez um gesto para que Crest entrasse primeiro. Dentro da casa, a temperatura era agradável.
Aqui vou ficar sentado olhando para o grande lago — disse Crest, encaminhando-se para a janela. — Meus olhos ficarão por aqui, mas meus pensamentos estarão em outro lugar.
Será que existe algo que você ainda não tenha pensado, Crest?
O velho arcônida apoiou os braços no peitoril da janela. Embora os vidros das janelas fossem anti-reflexo, Rhodan teve a impressão de ver seu rosto no vidro.
Sou um homem velho — disse Crest. — A idade faz as coisas parecerem muito diferentes. A gente se afasta um pouco de tudo que nos cerca.
Você vai se sentir muito sozinho — tentou Rhodan novamente dissuadir seu amigo. — Os robôs vão ajudá-lo em tudo. Prepararão suas refeições e vigiarão a casa. Mas, quem sabe lhe virá a vontade de conversar um pouco com um outro homem.
Crest se virou e fitou Rhodan diretamente.
Vou ter prazer em ficar sozinho — disse pausadamente. — Você continua a ver em mim o cientista arcônida sempre em atividade.
Meneou a cabeça e seus longos cabelos formaram ondas sobre os ombros.
Mas agora, olhe para mim apenas como realmente sou: um homem velho e alquebrado.
Antes que Rhodan pudesse responder, o Tenente Tuncher surgiu. Seu rosto estava vermelho.
Perdão, sir! — disse o tenente, ofegante. — Estes rapazes incompetentes colocaram a casa fora do lugar. Está um pouco inclinada.
Inclinada? — repetiu Crest, admirado. — Sabe que não notei nada até agora?
Acabei de medir neste instante — avisou Tuncher prontamente. — O soalho em que estamos pisando apresenta a inclinação de um grau, em relação com o solo da praia.
Um grau? — Rhodan estava admirado. — Realmente, é muito, tenente.
Nervoso, Tuncher moveu os lábios e olhou incerto para Rhodan.
Qual é sua opinião, sir?
Descarregue o Space-Jet e os dois robôs — ordenou Rhodan.
Tuncher tomou posição de sentido e já ia sair, quando a voz do administrador fez-se ouvir.
Tuncher!
Pronto, sir.
Preste atenção para que o disco seja descarregado corretamente. Não gostaria que você depois descobrisse outro engano.
Perfeitamente, sir — disse Tuncher nervoso.
Crest riu à vontade. O tenente desapareceu.
Se, pelo cúmulo do azar, um besouro de chifre lhe cruzar o caminho, o pobre do Tuncher vai ficar mais confuso ainda.
Ao ouvir a referência ao besouro, a testa de Rhodan se franziu em duas rugas verticais.
Este tipo de inseto parece ser muito perigoso. Seja muito cauteloso, principalmente quando estiver passeando nas florestas.
Naturalmente — disse o arcônida. — Vou prestar atenção a isto. Ufgar, no relatório sobre o planeta por ele descoberto, descreve longamente as espécies de animais que aqui existem, destacando os mais perigosos.
O homem alto e esbelto, de rosto quase magro, olhou demoradamente para seu amigo.
Vamos registrar este planeta em nossos mapas siderais com o nome de planeta Crest.
E antes que o arcônida tivesse tempo de protestar, continuou falando:
O Space-Jet que lhe deixamos está protegido por um envoltório energético. Quando você quiser entrar na mini-espaçonave, terá de usar o código do transmissor, que desliga o envoltório de proteção.
Com a maior naturalidade, Crest afirmou:
Para um homem da minha idade, não se pode mais falar em risco, perigo e proteção.
Não é verdade — disse Rhodan. — Tuncher ainda vai descarregar um barco a motor, para você passear e pescar no lago. E se você tiver qualquer desejo, por favor, não tenha vergonha de expor.
Ambos deixaram a casa. Tuncher e seus auxiliares continuavam na operação de descer o jato, com toda garantia. A pequena nave, em forma de disco, estava entre as mais modernas da Frota Solar. No seu lado mais largo, media 35 metros. Uma cúpula interrompia os dois lados quase planos. Abrigava facilmente todo o precioso equipamento, como também oferecia bastante espaço para a tripulação. Sua construção era tão bem idealizada, que permitia a pilotagem por uma só pessoa.
O próprio Crest, que conhecia de perto as maravilhas aeronáuticas do Império Arcônida, não conseguiu ocultar sua admiração. Depois que a máquina pousou firme no chão do planeta, Crest sorriu feliz.
Mais uma prova evidente de que vocês não precisam mais de mim — disse ele. — Homens que são capazes de construir estas coisas, já estão em condições de total independência técnica. Perry, seu povo conseguiu muito, em tempo relativamente curto. Considere-me o símbolo de uma época que termina. Forças novas vão tomar meu lugar e não precisarão mais de auxílio de ninguém. Haverão de me esquecer em breve.
A Humanidade jamais haverá de esquecê-lo, Crest. O seu afastamento vai deixar uma lacuna que não se preencherá tão cedo. Neste sentido, você tem razão quando fala do fim de uma época.
Nas horas seguintes, enquanto a tripulação da Solar System arranjava tudo para fazer da residência de Crest uma moradia requintada, Rhodan passeava com o amigo na beira do lago. Tornaram a reviver coisas já esquecidas há muito tempo. Por fim, Rhodan tentou mais uma vez demover Crest de sua vida solitária naquele distante planeta. Mas a resolução do arcônida era inabalável.
Finalmente apareceu o Tenente Tuncher para avisar que todos os trabalhos já haviam sido concluídos. A Solar System estava pronta para retornar ao espaço.
A tripulação vai se despedir de você, Crest — disse ele.
Achavam-se todos a mais ou menos uns seiscentos metros da grande nave. Crest fez um leve movimento com a cabeça.
Cumprimente os homens em meu nome. Meus melhores votos para eles.
Rhodan estava em frente ao velho arcônida. Sua mão segurou o braço do arcônida. E Crest, conhecedor profundo da alma de Rhodan, sabia que o terrano não acharia palavras para se despedir.
Não diga nada, amigo!
Perry pegou a mão do velho companheiro de lutas. Olharam-se fixamente por alguns instantes. As mãos se apertavam cada vez mais.
Obrigado, amigo! — disse Rhodan, afastando-se no mesmo instante, caminhando atrás do Tenente Tuncher.
Crest continuou imóvel, olhando para eles. Rhodan e Tuncher subiram a rampa. Nenhum deles se virou para trás. Próximos da Solar System, os homens pareciam formigas. A seguir, todos desapareceram.
Minutos depois, ergueu-se no ar a grande nave esférica, impulsionada por gigantescas turbinas, movidas por energia atômica. O chão começou a tremer e os ouvidos de Crest sentiram uma dor aguda.
A dois mil metros de altura, houve uma última homenagem ao encanecido e devotado defensor da causa humana. Um raio luminoso saiu das torres de artilharia, dando ao céu uma coloração avermelhada. Foi a última saudação ao grande amigo dos homens.
Famal Gosner — sussurrou Crest.
Era uma saudação arcônida, mais ou menos equivalente a “adeus, amigos”.
Logo depois, a Solar System desapareceu.
Em passos vagarosos, Crest retornou à sua nova casa. Não tinha pressa. Para quê? Era apenas um ancião esperando pela morte.
Jamais poderia imaginar que sua solidão seria logo interrompida.
2


A preocupação de Golath era mais do que justificada. A instalação de purificação do ar estava em péssimo estado. Embora houvesse a bordo da Kaszill alguns tanques de oxigênio, nem Golath, nem Liszog, nem Zerft sabiam onde se localizavam.
A Kaszill já era um montão de escombros, quando a pegaram e a mandaram para o espaço. Para Golath era algo muito difícil de se compreender por que razão aquele “baú velho”, caindo aos pedaços, rangendo o tempo todo, carregando injustamente o pomposo nome de espaçonave, ainda não havia rebentado de todo. O pobre do Zerft não parava de calafetar os buracos que surgiam a todo momento.
A única coisa que funcionava a contento a bordo daquela nave era a máquina automática de lavar as trombas. Assim, os três unitros podiam lavar suas trombas em espaços de tempo normais. Depois de tal ação, mesmo o ar estragado parecia mais suportável para Golath.
Liszog, sentado diante dos instrumentos de rastreamento, até então pensativo, esticou sua tromba e sussurrou alguma coisa para Golath:
Está na hora do revezamento.
Golath, que se sentia como o comandante, não gostou muito da idéia. Além de tudo, estava convencido de que teriam de ficar ainda centenas de anos sentados diante dos instrumentos, olhando inutilmente. Aliás, seria mesmo impossível que até lá ainda estivessem vivos. Sem falar na velha Kaszill, cujo “tempo de vida” já devia ter acabado há muito.
Os três unitros eram mais ou menos do tamanho de um ser humano. De corpos brutos e pesadões. Além dos braços e das pernas, dispunham também de uma tromba, pouco mais longa que um braço, servindo-lhes tanto de instrumento de defesa como para lhes facilitar a alimentação. As cabeças eram semi-esféricas, com dois grandes olhos. Tinham bastante dificuldade em se locomover. Seus corpos eram recobertos por uma pele lisa e dura, de um marrom-claro.
Depois que Golath tomou o lugar de Liszog, este último sentou-se ao lado do aparelho de lavar as trombas. Zerft, que depois de vedar o último rombo na fuselagem do “escombro flutuante”, não se mexia mais, levantou-se pesadamente. Veio para trás de Golath e ficou olhando os instrumentos por cima dos ombros do amigo.
Você acha que vê mais do que eu? — perguntou Golath.
Zerft não respondeu no momento. Depois disse tranqüilamente:
Acho que vejo a mesma coisa que você, isto é, nada!
Liszog, cuja tromba estava ocupada por uma das mãos, no contínuo afã de conservá-la limpa, tinha por isso dificuldade em ser compreendido quando disse:
Temos de nos acostumar com a idéia de que não podemos mais voltar para Unitro, nossa terra. É-nos totalmente impossível realizar uma ação heróica, para nos reabilitarmos, dispondo apenas desta nave que pode cair a qualquer momento. Temos que arranjar um plano melhor. Acho que é melhor a gente se aproximar de um planeta e procurar um lugar para aterrissagem. Ainda é tempo para isto.
Liszog tem razão — concordou Zerft. — Em toda a nossa história não há nenhum caso de um expatriado que tenha cumprido as condições, para poder ser admitido de volta. Mesmo que encontremos uma espaçonave de alguma raça desconhecida, como haveremos de tomá-la?
Golath estirou o braço por cima da tela panorâmica.
Então vocês querem desistir? — perguntou ele.
Sim — disse Zerft com firmeza. — Imediatamente.
Liszog acudiu também com o seu “sim” mudo.
Golath apontou para uma outra tela, onde se podiam ver vários pontos luminosos.
Este é o próximo sistema solar — disse ele. — Lá poderemos tentar alguma coisa.
Tomara que encontremos um mundo onde haja oxigênio — interveio Zerft — pois a maioria são planetas onde não podemos viver.
Golath virou sua poltrona para o lado. Era o maior dos três unitros, sendo, porém, Zerft o mais “amplo”. Liszog era o mais moço e estava ainda na fase de crescimento.
Que tipo de vida será esta? — perguntou Golath com o semblante carregado.
Vamos vegetar por aí, passando fome e frio. Os juízes que nos condenaram sabem perfeitamente que todo unitro sente uma necessidade congênita de vida em sociedade e de ampla comunicação. Somos membros de uma grande comunidade. Este isolamento é pior do que a morte.
Liszog terminara a limpeza. Levantou-se e se aproximou dos dois colegas.
Isso você devia ter ponderado antes, Golath. Agora é tarde. Foi você quem nos arrastou para esta loucura. Eu sabia desde o início que seria uma temeridade tentar um roubo daquele...
Golath atirou sua tromba contra o peito de Liszog. O jovem cambaleou.
O plano estava perfeito, ouviu? Mas como é que eu poderia suspeitar que atrás do depósito havia um alarme eletrônico, para nos denunciar? — disse Golath.
O tom de voz de Liszog aumentou com sua irritação:
Colocaram-nos neste cacareco e nos expulsaram. Agora, só poderemos voltar para nossa terra se, durante nosso degredo, executarmos uma ação que seja útil a todo o nosso povo. Sua idéia de seqüestrarmos uma espaçonave é tão doida como seu plano de assalto ao depósito.
A velha Kaszill tentou também fazer uma das suas. Um estremeção muito forte percorreu toda a nave, interrompendo a discussão. Golath rolou da poltrona, enquanto Zerft teve que se apoiar firme na moldura do aparelho de rastreamento.
Depois que tudo terminou, ouviu-se a voz de Zerft:
Foi o último sinal de alarme. Golath deu um galeio com a poltrona e voltou para seu lugar em frente aos aparelhos de rastreamento, evitando olhar diretamente para Liszog.
Está certo — resolveu ele — vamos sobrevoar este planeta, ou melhor, todo o sistema, e ver o que podemos fazer. Quem sabe descobrimos alguma coisa que nos seja útil.
Como que para confirmar suas palavras, tremulou um risco vermelho no vidro fosco da tela. Liszog, que estava para fazer um comentário irônico, emudeceu. Zerft bateu com os pés no chão, fazendo grande barulho. Em algum lugar da velha nave, soou um estrondo metálico que fez os unitros suarem por todos os poros.
Com voz sumida, como que com medo de que a nave se partisse ao meio se falasse mais alto, Golath explicou:
Acabamos de receber uma descarga energética superdimensional.
Nervoso, Liszog enrolou sua tromba. Zerft passou a mão ao longo da tela, como que para evitar a repetição do estrondo.
Que será que foi isto? — perguntou curioso.
Num caso destes, todos dependiam de Golath. Era o único dos degredados que possuía certos conhecimentos técnicos, para conseguir alguma coisa com os instrumentos de bordo.
Uma instabilidade no contínuo espaço-tempo? — indagou Liszog.
Golath deu uma gargalhada. Levantou-se, dirigindo-se para a máquina de calcular. Não era muito diferente dos cérebros eletrônicos terranos, destas mesmas dimensões.
O unitro programou o computador com diversos dados. Depois, ficou esperando o resultado, que não demorou. Uma estreita tira metálica, com muitas perfurações, caiu-lhe na mão. Mais uma gargalhada estrondosa.
O que quer dizer isso? — perguntou Liszog impaciente.
Num ar de displicente superioridade, Golath jogou fora a tira do computador. Estava gozando aqueles momentos. Os dois trouxas deviam entender o que ele valia. Estava mais do que convencido de que, sem ele, os pobres coitados não poderiam fazer nada. Esperou até ver a tromba de Zerft se levantar, denotando medo.
Foi uma espaçonave — acentuou ele.
E onde está ela agora? — perguntou Liszog assustado.
E qual é seu tamanho? — indagou
Zerft, tentando esconder o medo que o devorava.
Por um momento, havia em Golath uma luta contra a sua vaidade, depois decidiu dizer a verdade:
Não sei mesmo. Localizamos a nave estranha durante uma transição. Temos a sorte de possuirmos nesta velha carcaça, que se chama Kaszill, instrumentos que nos permitem notar qualquer alteração no espaço. Em outras palavras, nós não localizamos diretamente a nave estranha, mas tão-somente uma alteração estrutural no espaço. Mas não podemos de forma alguma determinar o destino ou o tamanho da citada espaçonave.
Quer dizer então que não precisamos nos preocupar — disse Liszog decepcionado. — E também não podemos fazer nada com nossa descoberta, não é?
Não é assim não — disse Golath. — Sei exatamente em que ponto do espaço essa nave fez uma transição.
Zerft, apontando para o vidro fosco da tela, com os vários pontos luminosos, disse:
Foi exatamente aqui.
Irritado por lhe terem roubado o efeito da explicação, Golath acrescentou asperamente:
Isso mesmo, a tal nave se encontrava, no momento do hipersalto, nas proximidades do sistema que nós tencionamos atingir.
Provavelmente era uma nave arcônida — disse Liszog irônico.
Pertencendo a uma de suas colônias, em plena insurreição, é claro que os arcônidas não nos podem receber de braços abertos.
É uma coisa que ainda não podemos saber.
Arcônidas! — murmurou Zerft.
Na sua voz vibrava o ódio. Seus olhos tinham um brilho diferente e os músculos dorsais estavam retesados.
Nenhum dos três unitros podia supor que o que haviam registrado era uma nave terrana, a Solar System.

* * *

Após 72 horas, tempo da Terra, a Kaszill penetrava no pequeno sistema de Ufgar. O vôo não deixou de ser um verdadeiro pesadelo de medo e horror para os três unitros. Quando estavam a meio do caminho, a desgraça se abateu sobre eles com toda violência. A velha e alquebrada nave começou a largar pedaços de sua carcaça em pleno vôo. Na parte posterior das turbinas já havia um enorme rombo. Zerft, o tapador de buracos, não tinha mais meios de calafetá-lo. Na última hora, Liszog ainda conseguiu isolar a parte afetada pelo rombo. A vida dos degredados estava literalmente por um fio, e este fio estava representado por uma espaçonave, que, com exceção de alguns instrumentos de bordo ainda em bom funcionamento, era pouco mais do que um aglomerado de ferro velho.
Mas o destino ainda quis permitir que os três unitros expulsos de sua terra atingissem seu objetivo. Liszog estava crente que a qualquer momento o aparelho fosse se desintegrar no espaço. Porém a euforia de Golath, que se sentia um grande piloto, levou-lhe o pessimismo.
O segundo planeta é um mundo com oxigênio — explicava Golath, após amplas investigações. — Vamos aterrissar nele.
Reparou no olhar incerto de Liszog.
Vamos aterrissar — repetiu — mesmo que esta seja a última operação que eu faça com este cacareco flutuante.
Estava bem certo do alcance de suas palavras, pois sabia muito bem que a palavra “aterrissar” podia ser sinônimo de suicídio. Não tinha, porém, coragem de dizer claramente o que pensava. Tinha receio de que Zerft e Liszog não lhe dessem consentimento para descer.
O unitro também não tinha, nem podia ter, uma visão clara do que pretendia fazer. Após uma aterrissagem mais ou menos bem-sucedida, poderiam sobrevir coisas com que ainda não contavam. Além disso, Golath achava que não podia confiar muito no jovem Liszog. Num momento de emergência teria que apelar mais para Zerft, embora este último não lhe fosse muito simpático. Seria, porém, bem mais útil que o rapazola.
Temos que apertar bastante os cinturões — ordenou ele. — Não posso me confiar no piloto-robô. Assim que alcançarmos o chão firme, abandonaremos imediatamente a Kaszill, pois não está excluído o perigo de uma explosão.
Nas horas que se seguiram, Golath dirigia com extremo cuidado. Poupava a decrépita nave o mais que podia. Zerft estava diante dos aparelhos de rastreamento, enquanto Liszog corria sem parar de um lado para outro.
De que lado vamos descer? — perguntou Zerft. — Eu sugiro o lado da noite.
Vamos fazer um barulhão tão grande na aterrissagem que é completamente indiferente e lugar de nossa descida — explicou Golath. — Se este planeta estiver ocupado por arcônidas, seremos localizados logo, logo. Quanto a isto, nada podemos fazer...
O sensor energético da Kaszill resolveu o problema. Depois que entrou em ação o campo gravitacional do planeta, o sensível instrumento declinou para o lado. Zerft, que registrou o tremular do ponteiro, não sabendo o que isto significava, chamou por Golath.
Há alguma coisa aqui embaixo — comentou o alto unitro.
O quê? — queria saber logo Liszog, cujo nervosismo crescia sempre mais.
Golath agitava a tromba, sem saber o que dizer, mas não tirava os olhos do instrumento.
O desvio do ponteiro não é tão forte assim — disse ele. — É possível que neste planeta haja uma estação energética. Pode ser até um transmissor direcional. Vamos constatar de onde vêm os impulsos.
Por quê? — veio logo a pergunta de Liszog.
Muito simples — respondeu Golath — porque é lá que queremos descer.
Liszog olhou para ele desencantado. Pigarreou e se virou para Zerft, como que pedindo socorro:
Quer dizer que vamos cair diretamente nas mãos dos donos desta estação energética? Eles vão nos destruir, antes de atingirmos o solo.
Via-se no rosto de Golath que as contínuas choramingas do jovem desterrado Liszog lhe eram muito incômodas. Sua voz tinha um tom leve, mas perceptível, de escárnio, quando respondeu:
É o risco que temos de enfrentar. Se lá embaixo houver arcônidas, eles acabarão nos descobrindo, seja onde for que descermos. Não podemos, pois, perder a vantagem da surpresa. Caso se trate de uma estação controlada por robôs, então será uma loucura nos arriscarmos a uma caminhada penosa através da mata virgem, geralmente muito perigosa.
Zerft decidiu a discussão de um modo mais simples. Por cima de seus ombros, seus dois colegas viram como sua tromba apontava para o ponteiro oscilante.
Lá — disse ele.
Segurem-se — gritou Golath.
Sua voz estava perpassada de medo e sua tromba, agora toda enrolada, parecia doer muito. Seu corpo pesado estava bem amarrado pelos cinturões presos na poltrona estofada. Liszog, ao lado dele, tremia todo. Estava de olhos fechados e as mãos agarradas no cinturão. Somente Zerft era quem se achava mais calmo. Dava a impressão de estar ocupado na rotina de limpar a tromba.
Golath acionou os freios. Sob grandes solavancos, a Kaszill penetrou nas camadas superiores da atmosfera do planeta. A fuselagem da nave trepidava sob a forte pressão. Soldas se desfaziam, arrebites saltavam dos orifícios, tiras metálicas caíam no chão.
Mas a Kaszill ainda estava agüentando!
Os três unitros permaneciam entocados nas poltronas, meramente passivos. Só as mãos firmes de Golath mantinham a direção. Às vezes, tinha a impressão de que a nave não reagia mais. Num ângulo plano, quase tangencial com a superfície do planeta, Golath conduzia a Kaszill. Quando pensou que podia respirar um pouco, falhou um dos conjuntos de propulsão. A nave era levada de um lado para outro e, zunindo, descrevia um parafuso quase horizontal. Gemendo com a pressão que, de repente, aumentara muito, Golath tentou fazer a nave voltar ao equilíbrio. Zerft saiu um pouco de seu estado de letargia e olhou preocupado para o piloto. Na tela panorâmica, bem acima das cabeças dos unitros, desfilavam nuvens claras. Liszog gemia baixinho.
Golath se decidiu por uma manobra um tanto perigosa. Durante alguns segundos desligou todos os motores de propulsão. A Kaszill ainda continuou deslizando. Quando começou a trepidar, Golath ligou os três motores traseiros ainda intactos. Com a brusca aceleração, a nave disparou rumo ao solo, ainda distante. Depois tentou movimentar os freios. A Kaszill empinou a parte dianteira.
É agora que ela vai rebentar”, pensava Golath desesperado.
Fechou os olhos. Quando os abriu, segundos depois, a Kaszill ainda existia. Porém já era um pedaço de metal incandescente em louca disparada.
Golath soltou um grito estridente, ao olhar para o altímetro. O que viu, lhe fez brotar suor no rosto. A apenas quatro mil metros acima do solo, a Kaszill mantinha uma velocidade tal que invariavelmente iria despedaçar-se no ar. Restava uma única alternativa a Golath: tentar ganhar altura. Não tinha mais meios de controlar se já estavam no local planejado para descer ou não. A nave se contorcia com ruídos de pôr medo. Golath não se sentia bem. Suas mãos tremiam nos movimentos que fazia. A contragosto, a velha nave começou a obedecer. O unitro conseguiu levá-la até cinco mil metros.
Quanto tempo vai demorar ainda? — perguntou Zerft, com uma calma, como se estivesse no Kallasto Hotel de Unitro esperando por um drinque.
Golath não respondeu. Aos poucos, a velocidade da nave foi declinando. O piloto sabia que iria conseguir mantê-la naquela altura. Tinha que cuidar da aterrissagem. Com uma única chave, ligou as três outras telas. Apenas nuvens apareceram.
Depois de algum tempo, surgiram pontos mais escuros, provavelmente grandes florestas. Um risco azulado, que logo desapareceu, dava a impressão de um lago. Tentou voar em espiral. As nuvens desapareceram da tela, como se a mão de um gigante as tivesse removido. O chão lá embaixo era uma massa marrom-escura. De repente, tudo virou silêncio.
É agora! — disse simplesmente.
Então tudo desapareceu num raio de fumaça, poeira, chamas e terra revolvida.

* * *

A primeira coisa foi a perplexidade sobre o fato de estar ainda vivo. A segunda foi uma sensação desagradável de ter muita sujeira na tromba.
Depois, Golath abriu os olhos.
Sobre seu peito estavam pedaços de tela. Poeira e sujeira. Só então lembrou-se dos colegas. Zerft estava de pernas abertas diante dos instrumentos de rastreamento, aparentemente tentando saber quais deles ainda funcionavam. Aborrecido com o fato de que ninguém se preocupava com ele, Golath desatou os cinturões que o prendiam à poltrona. Foi então que viu Liszog. O jovem estava sob a máquina de lavar trombas, aparentemente intacta.
Você está aí? — disse Zerft indiferente, quando Golath apareceu a seu lado, também examinando os aparelhos. Olhou para ele zangado.
Seu ombro direito estava doendo muito e sentia na tromba uma dor penetrante. Impaciente, olhou mais uma vez para Liszog, mas não disse nada, pois a limpeza da tromba era uma espécie de ritual, que não podia ser interrompido. Não havia nenhum unitro capaz de quebrar este tabu.
Só depois é que lhe dirigiu a palavra:
As coisas não parecem tão ruins assim. A maioria dos aparelhos estão funcionando. No entanto, temos que abandonar a Kaszill. Ainda persiste o perigo de uma explosão.
Zerft deu uma gargalhada. Tinha os braços cruzados no peito, e a tromba pendente entre eles.
Você pode sair quando quiser — disse ele.
Golath, meio confuso, deu um passo para trás e perguntou:
O que quer dizer isto?
Com a mesma calma de sempre, Zerft explicou:
Significa que a partir deste momento, eu assumi a direção deste grupo. A Kaszill está parcialmente destruída. Não precisamos mais de você, Golath. Já combinei tudo com Liszog, enquanto você estava inconsciente. Ele está de pleno acordo com que eu dirija nossos passos daqui para frente.
Os olhos de Golath cintilaram. Sentia irromper em seu interior a cólera. Somente a grande musculatura do avantajado Zerft o impediu de atacar o colega. Aos poucos, foi se dominando e voltou a pensar de modo frio.
Está certo — disse com aparente indiferença. — O que você tenciona fazer?
Zerft, meio descontrolado pela vitória repentina, continuou mexendo nos aparelhos, antes de responder.
Vamos transformar a Kaszill em nossa base de operação. Partindo daqui, começaremos nosso trabalho. Primeiro examinaremos a redondeza, caminhando no sentido de onde deve estar a estação energética. Infelizmente, o rastreador está quebrado, portanto, nossa sorte depende de uma busca intensa. Temos que nos armar, para termos o mínimo de garantia. Neste meio tempo, já dei uma olhada em volta. Não longe daqui há um grande lago. Acho que é melhor caminharmos um pouco ao longo dele.
Para Zerft, isto foi um longo discurso. Liszog já terminara a limpeza da tromba. Golath, que queria tomar o lugar do mais jovem, foi afastado por Zerft.
Acho que agora é a minha vez — disse Zerft com toda fleuma.
E por que não? — respondeu Golath. — Vamos obedecer a esta ordem, também para morrer.
Eram estas, exatamente, as palavras que os unitros usavam nos momentos decisivos de uma declaração de guerra.

* * *

Antes de parar à beira de uma extensa floresta, a Kaszill deixou no chão um rastro profundo de uns cem metros de comprimento. A nave se dividiu, sendo que a parte traseira com as turbinas ficou totalmente calcinada.
Para os três desterrados, isto não significava no momento outra coisa do que um exílio definitivo naquele planeta. Podiam se dar por felizes por ser um planeta com oxigênio, mais ou menos de acordo com o que desejavam.
A Kaszill, isto é, o que dela sobrou, estava mais ou menos entre a floresta e o lago, cuja margem oposta só se percebia no horizonte como um traço escuro.
Pela posição do sol, Golath calculou que devia ser pouco antes do meio-dia.
Ao saírem da Kaszill bateu-lhes na face uma brisa agradável. Golath esticou seu corpo, de frente para o sol, e respirou profundamente. Enquanto repetia seu exercício de respiração, lembrava-se com horror do ar viciado a bordo. Agora, com a fuselagem partida, este ar fresco penetraria na nave, para onde haveriam de voltar. Pelo menos deste ponto de vista, as providências tomadas até então por Zerft não eram nada ruins. Assim, em intervalos regulares, o lavador de trombas estava-lhes sempre à disposição.
Golath estava até contente porque não se veriam obrigados a voltarem aos primitivos costumes de seus antepassados, que limpavam as trombas usando varas com folhas enroladas na ponta. Este modo de se proceder a higiene da tromba não tinha mais boa aceitação na nova geração e era mesmo considerado pejorativo.
Vamos descer para a margem do lago — a voz de Zerft interrompeu os pensamentos de Golath. — É muito importante voltarmos antes de o dia findar.
Ajeitou a pistola de raios energéticos e fez um sinal aos dois outros. Liszog ergueu a tromba em sinal de anuência. Golath apenas resmungou alguma coisa. E o esquisito grupo se pôs a caminho.
Golath foi o primeiro a vencer o trecho de declive que os separava do lago. Já ia continuando sua marcha, quando Liszog deu um grito. O jovem unitro apontava para frente.
Ali na frente o chão está calcinado — disse excitado.
Golath viu também a mancha escura no chão. Zerft concordou e todos começaram a correr na direção da estranha marca.
Num círculo bem delimitado, capim, folhagem e arbustos estavam queimados e parcialmente afundados no solo. Interessante foi o fato de que, dentro do círculo, havia locais não atingidos pelo fogo.
Com toda certeza, isto aqui não foi um fogo natural — ponderou Zerft.
Inclinou-se para frente e pegou do chão, com a tromba, pedaços de plantas semicalcinadas.
Qual é sua opinião, Golath?
Golath, cujos olhos penetrantes já haviam descoberto algo mais, respondeu secamente:
Foi uma nave espacial. Ainda se podem ver os sinais dos apoios telescópicos. Provavelmente foi uma nave arcônida.
Como é que você sabe disso? — perguntou Liszog inquieto.
Pela disposição dos apoios telescópicos e pelo modo como as plantas foram queimadas — explicou ele.
Queria provar ao jovem que era mais competente que Zerft para dirigir os destinos dos três.
Zerft, de repente, gritou alguma coisa para eles. Sua voz parecia excitada, o que era coisa rara com ele. Golath olhou para baixo e ouviu também o grito de Liszog.
Uma casa — gritou Golath triunfante. — E também uma pequena espaçonave!
Todos olharam ao mesmo tempo para baixo.
Parece que não há ninguém dentro — disse Liszog.
Não é verdade! — atalhou Zerft. — Do outro lado da casa há dois robôs de combate. Venha!
Caminharam um bom pedaço para frente.
Daqui vocês podem ver melhor. Para Golath bastou só um olhar. Liszog ficou olhando mais tempo, mas acabou ficando branco como giz.
Se nos encontrarem, estaremos perdidos — choramingou ele.
Isto é verdade — disse Golath. — Contra estas máquinas, nada podemos fazer. Aparentemente, estes robôs estão aí como vigias. Talvez seja a moradia de um rico caçador arcônida que vem para cá regularmente, a fim de controlar suas armadilhas.
Zerft atirou para longe o pedaço de graveto queimado que ainda apertava na mão.
Lá embaixo está uma excelente oportunidade para nós. Não apenas pelo fato de ganharmos uma espaçonave, não, teremos oportunidade de voltar com ela para Unitro. Está fora de dúvida de que se trata de uma construção nova, cuja tecnologia não chegou ainda ao nosso povo. Seríamos cumulados de honrarias se conseguíssemos raptar este aparelho.
Como é que você está tão certo assim de que se trata de uma espaçonave? — perguntou Liszog. — Pode ser também uma espécie de barco que os arcônidas usam para pescar.
Zerft não deu a menor importância à pergunta, e Golath indagou-se mentalmente:
Por que eu escolhi para meu grupo um pateta como Liszog?
Lá embaixo estava o que eles precisavam urgentemente. Bastava apenas descer e apanhar o aparelho. Infelizmente os dois robôs não iam permitir uma coisa desta.
Temos que destruir os dois robôs — concluiu Zerft.
Mas, da simples formulação da proposta até sua concretização, havia uma grande distância. Zerft reconheceu mais uma vez o quanto dependiam de Golath. Sem seus conhecimentos, não teria coragem de empreender nada neste domínio.
Provavelmente, os robôs dispõem de um envoltório de proteção — aventou Golath. — Ligam-no, porém, somente na hora de maior perigo, para economizar energia. Se conseguirmos surpreender os dois robôs antes que alguém ligue o envoltório magnético, não há dúvida de que os dominaremos.
Tudo que fizemos até agora foi mais ou menos decorrência do fator sorte — disse Zerft, sem olhar para Golath.
Na vida de um unitro existem sempre estes dois fatores: ter ou não ter sorte — disse Golath em tom filosófico. — Se concentrarmos nossos jatos energéticos e térmicos nos dois robôs e mantivermos um fogo intenso, poderemos destruí-los.
E o que acontecerá se eles resistirem ao nosso ataque? — a voz de Liszog estava insegura, chegou até gaguejar.
Você é capaz de correr mais do que nós — disse Golath com visível ironia. — O resto, nós deixamos por conta da sua fantasia.
Em flagrante contraste com outros dons seus, a fantasia de Liszog parecia ser muito desenvolvida, pois sua tromba se enrolou em sinal de um terror que não conseguia ocultar. Mas Zerft não deu muita importância a seu companheiro mais moço.
Vamos resolver isto agora — e, dizendo isto, sacou de sua arma.
Golath e Liszog seguiram seu exemplo. Três braços escuros e disformes se levantaram. Três traves de segurança passaram para a posição de fogo automático.
Fogo! — soou a voz clara de Zerft, na manhã de sol.
Da espessura de um lápis, os raios térmicos, que se abriam levemente em leque à medida que aumentava a distância, sibilaram de encontro aos robôs. As máquinas não tiveram tempo para reação. Na densa camada de fogo concentrado, os dois conjuntos eletrônicos foram destruídos em poucos segundos.
Basta! — ordenou Zerft.
Liszog olhou para o metal derretido no chão e suspirou baixinho. Seus nervos quase não agüentaram aquele esforço todo. Zerft o tocou de leve no ombro, para o tranqüilizar.
Não existem mais! — exclamou Golath. — Agora, nada mais nos pode impedir.
A não ser que o dono destas lindas coisas aparecesse aqui inesperadamente — interveio Zerft.
Golath tocou com os dedos na coronha da arma.
Isto aqui e a nossa determinação haverão de nos proteger.
Ainda antes do escurecer, Golath teve de constatar que existia neste planeta um velho arcônida, que, quanto ao espírito de determinação, em nada ficava devendo aos três unitros.
3

De início, Crest julgou que fosse a Solar System que, por qualquer motivo, estivesse regressando. Estava com seu barco mais ou menos no meio do lago, quando o silêncio quase total em torno dele se quebrou. Um silvo agudo, que logo se converteu num ronco ensurdecedor, encheu o ar ao longo do lago. Crest retirou o remo da água e ficou olhando. Era as primeiras horas da manhã. O céu ainda estava meio encoberto. Naquele planeta de água em abundância, não era comum um dia de céu aberto.
Crest percebeu uma sombra escura, do formato de um charuto, passar a toda velocidade por cima do lago. A espaçonave — Crest não tinha dúvida de que só podia ser uma espaçonave — descreveu uma curva de aterrissagem mais do que suicida, fazendo com que o velho arcônida mentalmente chamasse seu piloto de doido. Umas centenas de metros além da margem do lago, o objeto voador se chocou com o solo. Dali surgiu uma enorme nuvem de fumaça, estendendo-se para bem longe.
O primeiro pensamento de Crest foi prestar socorro imediato aos acidentados. Maldisse o momento em que teve de ordenar aos robôs que desmontassem de seu barco o possante motor. Não tinha nenhum prazer em fazer corridas pelo lago, em altas velocidades. Assim, diariamente, logo que o dia clareava, saía remando calmamente. O silêncio lhe fazia bem, e seu maior prazer era apreciar a quantidade de peixes coloridos brincando nas águas límpidas do lago.
Mas o segundo pensamento de Crest foi mais realista e lhe salvou a vida. Começou a refletir que o tipo de construção daquela espaçonave levava a concluir não se tratar de um aparelho nem terrano e nem arcônida. Deviam ser estrangeiros. Na mesma hora tomou vulto em Crest uma grande preocupação, não por ele mesmo, mas pelo Space-Jet que Rhodan lhe deixou. O cientista era um homem experimentado. Pelas normas da probabilidade, seria grande leviandade tomar como simples acaso o fato de eles terem descido exatamente ali. Mais do que isto, Crest supunha acertadamente que o que atraíra os estrangeiros fora certamente a estação energética que abastecia sua casa.
Crest sabia que era necessário cautela. Sua constituição física não lhe permitia mais se atrever em aventuras perigosas. Calculou a distância até sua casa. Mesmo que remasse com toda força, levaria muito tempo até chegar à margem. Enquanto isto, os estranhos já teriam chegado à sua residência. Olhou desanimado para a pequena pistola de raios energéticos. Numa situação mais séria, não seria suficiente. Felizmente, o Space-Jet estava garantido por um envoltório magnético que só podia ser desfeito por um transmissor codificado que Crest carregava sempre no pulso.
Depois de muito refletir, o velho arcônida resolveu não se aproximar diretamente de sua casa. Seria arriscado demais, se expor diretamente ao alcance dos “visitantes”. Devia caminhar por dentro da mata e ficar a algumas centenas de metros de sua casa, em cautelosa observação. Pegou nos remos e deu uma volta olhando para todos os lados. Estava procurando por um lugar adequado.
Após haver percorrido a metade do trecho, fez uma pausa para descansar. Sua consciência continuava atormentada pelo pensamento de que talvez não fossem assaltantes, mas pobres acidentados, que precisavam dele. Havia em seu interior uma luta pelo desejo de chegar o quanto antes ao local do acidente, a fim de cuidar das vítimas. Por mais que este sentimento tivesse justificativa, tinha de ser adiado por algumas horas. No momento, estava pensando com tristeza na desconfiança reinante entre as raças das galáxias. Quando se encontravam, agiam como se quisessem se prejudicar mutuamente. As controvérsias pela hegemonia eram uma lei da natureza, sabia ele. Raças novas, em plena expansão e progresso, como era o caso da humanidade terrana, não podiam ser cerceadas em seu impulso sadio de crescimento. Devia-se também compreender por que os povos mais antigos se defendiam, tentando conservar alguma coisa de sua hegemonia. Em geral, eram rivalidades comerciais que faziam com que duas frotas espaciais se digladiassem. Mas até o desejo de exercer uma influência política ou militar, provocava um aumento colossal das despesas de uma nação, principalmente com armamentos. Quem não entrasse no círculo vicioso da proliferação das armas, corria o risco de ver seu planeta ser um dia invadido por uma frota estrangeira e ser declarado território colonial.
Com estes pensamentos, Crest reiniciou sua viagem. Estava novamente com os remos nas mãos e seus velhos braços ainda davam boas remadas.
Não tenho relógio, um velho solitário não precisa de relógio”, pensava ele.
Quando sentiu que a quilha do barco tocou na areia da praia, já haviam passado muitas horas.
Crest saltou na areia e ancorou o barco, para mais tarde vir apanhá-lo. A escarpa ali não era tão grande. Assim mesmo, o arcônida quase perdeu o fôlego, até chegar no topo. Caminhar ao longo da praia seria perigoso, não havia muita possibilidade para se esconder, em caso de um ataque por cima. Crest apanhou seu capote e começou a caminhada. Por um momento, o sol apareceu entre as nuvens, banhando tudo numa luz amarelada e quente. Olhou mais uma vez para trás. De onde estava agora, o barco parecia muito pequeno. Balançava docemente nas pequenas ondas. Examinou sua arma. Há quantos decênios já se vira obrigado a portar uma arma, com a intenção de só usá-la em caso de extrema necessidade?
O velho arcônida viajara por inúmeros planetas, sua vida toda estava cheia de sofrimento e morte. Porém sentia-se espiritualmente maduro para ver na arma apenas um mal necessário. A luta sempre existiu; desde o surgimento da vida, que se luta e se destrói mutuamente. No correr da longa evolução, veio a vida inteligente. Mas, mesmo assim, a luta e o extermínio mútuo não cessaram. Os meios se aperfeiçoaram, chegando-se mesmo à sofisticação. E a destruição continuou...
Crest concentrou toda a sua atenção no ambiente que o cercava. Caminhava de tal maneira que a qualquer momento poderia pular para dentro de uma depressão do terreno. Não se iludia pensando que pudesse chegar até ao jato sem ser visto, para depois ligar seu transmissor de hiper-rádio. A escarpa formava uma pequena curva, de maneira que Crest perdeu de vista o barco lá embaixo. Mas a casa devia surgir logo diante dele. Andou mais depressa.
Atingiu o local onde estivera a Solar System. Com muita hesitação, chegou até a beira da pequena elevação. Dois metros depois, abaixou-se e foi se arrastando pelo chão. Cinqüenta metros para baixo estava a estação. Havia no ar um cheiro de algo queimado.
O coração do velho começou a pulsar mais rápido. Lentamente foi avançando, cuidando sempre de não permitir que alguma pedra ou coisa semelhante rolasse morro abaixo. Finalmente chegou a uma boa distância. Levantou a cabeça para espiar. A cena avistada deixou-o completamente horrorizado.
Os dois robôs de combate estavam destruídos ao lado da casa. Toda a parte eletrônica e o metal da cabeça havia derretido. Mas isto não era o pior.
O pior mesmo eram os três vultos assustadores, monstros providos de trombas, tentando chegar até o Space-Jet.
Crest cerrou os olhos por uns instantes. Suas previsões mais sombrias ficaram muito aquém dos fatos. Os três seres, tão esquisitos, corriam em volta do disco voador, em visível excitação. Naturalmente procuravam um meio de desfazer o envoltório de proteção que cercava a mini-espaçonave. Uma das tentativas foi cavar com os raios energéticos de suas pistolas um buraco no chão, para chegar ao aparelho através um túnel. É claro que esta manobra não deu certo. Apesar de tudo, os portadores de tromba não se arrefeceram com a primeira desilusão. Com verdadeira obsessão, atacaram o envoltório de todos os meios e fizeram todas as experiências possíveis.
Por algum tempo, Crest os observou completamente impassível. Depois sacou da arma.
Foi um movimento meramente automático, provocado pelo desejo subconsciente de salvar o Space-Jet a todo custo. Acabou repondo a arma no cinturão.
Seu maluco, você quer perder o jato e a sua vida também?”, pensou, usando a razão.
Sua tensão nervosa diminuiu um pouco. Mais do que depressa, abandonou seu posto de observação.
Na melhor das hipóteses, conseguiria eliminar um dos três monstros trombudos. Depois ficaria infalivelmente entregue ao fogo de armas mais potentes.
Você precisa de uma arma melhor”, pensou, usando a parte mais sensata de sua mente. “Uma daquelas que todos os membros da elite técnico-científica de Árcon possuem. Você sabe onde pode encontrá-la.”
Era isto!
Aqueles monstros esquisitos traziam armas pesadas. O estado em que ficaram os dois robôs comprovava isto. Por sua vez, isto significava apenas que nos destroços da nave dos “visitantes” ainda existiriam mais armas.
Tinha que chegar até a espaçonave acidentada o mais depressa possível.
Mais uma vez, o arcônida hesitou.
E se os indivíduos de tromba tivessem deixado algum vigia dentro de sua nave?
Crest olhou em volta. O lugar de descida da espaçonave dos estranhos devia ficar mais ou menos na borda da floresta. Tentou divisar o tal local, mas não conseguiu ver nada. E ele teria de resolver tudo em pouco tempo... Não podia tomar em consideração seu estado de saúde. Prometera a Rhodan que o Space-Jet jamais cairia nas mãos de estranhos. Jamais lhe passara pela cabeça que ele mesmo é quem teria que lutar por isso.
Enquanto corria, olhava sempre em volta. Os seres de tromba poderiam aparecer a cada momento no alto da colina, a fim de apanharem ferramentas para seu trabalho de seqüestrar o Space-Jet. Mais de uma vez teve o angustioso pressentimento de que uma mortífera pistola térmica estivesse apontada para suas costas. Não tomou em consideração o cansaço de suas pernas, pois não tinha tempo de dar atenção ao velho trôpego que era. Era um velho alquebrado, mas tinha que agir como um jovem.
Viu a espaçonave dos estrangeiros, agora simplesmente seus agressores. Olhou mais uma vez para trás. A planície às suas costas não apresentava nada de anormal. Ao constatar que a espaçonave dos estrangeiros tornara-se um montão de escombros, seus cuidados pelo Space-Jet aumentaram. Seus adversários achavam-se obrigados a raptar o Space-Jet se não quisessem radicar-se naquele planeta. O cientista podia imaginar que os três monstros tentariam tudo para destruir o envoltório de proteção.
Crest dedicou sua atenção mais para a parte menos danificada do aparelho. Poderia entrar por vários lugares. Pela escotilha aberta e pelo lado onde havia um enorme rombo. Além disso, havia na frente uma fenda regular, suficientemente larga para um homem entrar.
Crest preferiu a entrada pela escotilha. Constantemente apalpava sua pistola energética. Mas não apareceu ninguém para detê-lo. Subiu os degraus da escotilha. Havia relativa claridade dentro, facilitando seu trabalho. O olhar inteligente e experimentado de Crest reconheceu logo que se tratava de um aparelho por demais antiquado.
Acima da escotilha havia uma inscrição, cujo significado não pôde entender. Continuou caminhando para frente. Uma parte dos corredores estava interrompida e destruída. No chão, muitos pedaços de metal e de plástico. Passou por cima deles. Chegou a um recinto cheio de instrumentos de todos os tipos. Não teve tempo de se preocupar para que serviam. Seu único pensamento era encontrar armas. Subiu numa espécie de cavalete, atrás do qual pendiam da parede cabos flexíveis em espiral.
Não pôde ir além!
Percebeu que fora seguro por trás e enlaçado no pescoço. Sua pistola energética rolou pelo chão. Crest soltou um grito de quem está sendo sufocado e olhou para seu inimigo. Seu agressor era de natureza mecânica.
Dois daqueles cabos espirais, de um formato singular, saíram da parede e enlaçaram Crest como uma cobra gigante.
Uma armadilha!”, pensou desesperado, “colocaram uma armadilha aqui.
Usando de toda sua força, tentou se desvencilhar, mas teve de convir que era inútil. A armadilha automática o segurava com laços acima de qualquer força humana. Foi impelido de encontro ao chão, ali no meio do depósito, desistindo então de qualquer reação. Dos dois lados da misteriosa armadilha, apareceram grossas tiras que passavam por sobre o corpo de Crest, enfaixando-o todo, podendo agora só mover a cabeça.
Desesperado, Crest viu que uma espécie de grande almofada de carimbo se abaixava sobre ele, empurrando sua testa para baixo. Maldisse sua falta de cautela. Mas já era tarde para tais ponderações. Enrolado por aquelas faixas, estava totalmente entregue à maluca máquina.
Antes de poder pensar em como livrar-se, surgiu uma espiral diante de seu rosto. Na sua extremidade sobressaía uma haste envolvida por um material aparentemente poroso e macio. Dali gotejava um líquido claro. Crest tinha impressão de estar sonhando. O material gotejante girava em torno de seu nariz e o velho arcônida reparou que a haste tinha um lento movimento de rotação. Além do mais, aquele mecanismo exótico produzia um estranho ruído, como de um leve ronco de pessoa que dorme: bizz... bizz...

* * *

Esgotado, Golath saiu daquela depressão do terreno e se deixou cair no chão. Estava tão enfurecido que nem quis olhar para a cara de Zerft. Sabia desde o início que o método estava completamente errado. Não se podia romper um envoltório magnético daquele jeito primitivo. E, apesar de tudo, Zerft exigia que se prosseguisse no trabalho estúpido.
O que há? — perguntou Zerft zangado.
Estou muito cansado — explicou Golath. — Deste jeito não chegaremos a nenhum resultado. Talvez daremos um jeito com as ferramentas que temos na Kaszill.
Nada disso! O negócio vai ser muito mais simples — continuou o cabeçudo do Zerft. — O próprio dono deste aparelho também não poderá romper o envoltório. Terá antes que desligá-lo, para entrar na pequena nave. E isto deve acontecer logo, portanto tem que haver um meio seguro de romper esta barreira.
Não há dúvida — concordou Golath. — Para ele é muito fácil mesmo.
Zerft parecia querer dominar o pequeno aparelho com a força de seus olhos. Não parava de fitá-lo intensamente.
Quais são nossas possibilidades? Golath estava refletindo.
Vamos tentar desmontar alguns geradores da Kaszill. Quem sabe conseguimos absorver a energia do envoltório, ou desviá-la de tal modo que surja uma brecha em outro ponto.
Isto é claríssimo como água — disse o pouco entendido Zerft. — Vamos esperar um pouco pelo Liszog, para ver se ele descobre na casa alguma possibilidade de entrarmos no aparelho.
A expressão de enfado de Golath era tanto para a ignorância técnica de Zerft, como para as surpreendentes qualidades de pesquisador de Liszog. Golath sentia a necessidade urgente de proceder a uma limpeza em sua tromba. Sabia também que, mais cedo ou mais tarde, teria de ocorrer uma briga mais séria com Zerft. Já estava saturado de receber ordens bobas do unitro espadaúdo. Zerft não era nem mais inteligente do que Liszog. Para falar francamente: não passava de um ladrão primitivo, incompetente até para roubar.
Resolveram ir até a solitária casa. Uma fumaça azulada saía lá de dentro. Golath já estava tossindo e seus olhos perceberam a figura de Liszog, que vinha pulando com movimentos desesperados, acompanhados de gritos de dor. Numa das mãos tinha a pistola de raios térmicos, a outra estava escondida sob a tromba. Golath percebeu que ele estava sangrando.
Zerft foi ao encontro de Liszog. A tromba de Golath estava enrolada devido à irritação da forte fumaça do interior da casa.
Contra o que você atirou? — perguntou Zerft, preocupado.
Contra uma máquina — disse ele, em prantos.
Golath fez um gesto de surpresa.
Atirou num robô?
Não — respondeu Liszog, já mais calmo. — Atirei mesmo numa máquina.
Por que motivo? — queria saber Zerft.
Porque ela me machucou. Havia vários interruptores e eu pensei que tivessem alguma coisa com a pequena espaçonave lá fora. Então apertei um destes botões.
E o que aconteceu?
Um negócio quadrado, cheio de buracos, começou a roncar — disse Liszog em voz mais baixa. — Vi que alguma coisa se mexia nestes buracos. Botei a mão lá dentro e ela foi puxada. Quando a consegui retirar, já estava toda ferida.
Mas por que que você atirou? — perguntou Golath.
Liszog olhou para ele. Os olhos do jovem expressavam medo e Golath começou de repente a ter dó do pobre coitado.
Não sei por que usei da arma.
Naturalmente ele se descontrolou e perdeu a cabeça — disse Zerft aborrecido. — Ele é mais medroso do que uma mulher velha. Com esse negócio de atirar sem mais nem menos, vai acabar nos causando muitos aborrecimentos.
Vou dar uma olhada lá dentro para ver em que ele atirou — disse Golath.
Zerft concordou. Ele mesmo não agüentava mais entrar devido à fumaça. Saiu caminhando com Liszog para fora da casa. Sentaram-se no chão e ficaram esperando.
Segundos depois, voltou Golath.
Então? — perguntou Zerft, se levantando.
Golath olhou para ele pensativo:
Foi de fato numa máquina — disse bem devagar. — Numa máquina até bem especial...
Liszog ergueu a cabeça, mais feliz. Quem sabe teria conseguido com seu gesto prestar um grande serviço aos seus colegas!
Zerft olhou para Golath com impaciência.
Uma máquina especial para quê?
Para moer alimentos mais duros.
Liszog quase teve um desmaio e Zerft o olhou com desprezo.
Temos que regressar à Kaszill — continuou Golath com toda calma. — Precisamos apanhar as ferramentas, e Liszog fazer um curativo na mão.
Agora, Zerft não teve nada para se opor. Sem dizer uma palavra, saiu na frente. Cabisbaixo, Liszog caminhava atrás de seus dois companheiros.

* * *

Crest encontrava-se na situação nada invejável de um homem que vê desenrolar diante de seus olhos um grandioso espetáculo no qual ele ocupa o papel principal, mas não pode intervir em nenhuma fase dos acontecimentos. O arcônida já havia compreendido que aquela máquina não era propriamente uma armadilha intencional. Fora sua imprevidência que desencadeara todo aquele processo automático, que tinha naturalmente um determinado fim. Inutilmente, o velho arcônida quebrava a cabeça, querendo saber para que serviam as várias espirais e cabos de aço que, em constante alternância, apareciam diante de seu rosto, procurando alguma coisa de que o velho cientista não dispunha. Quando terminasse sua função, o robô haveria de desligar-se sozinho. E Crest acabaria não sabendo que função era esta.
Havia uma outra possibilidade para terminar a função da máquina, que infelizmente equivalia à morte de Crest: a chegada dos indivíduos de tromba.
Crest esperava para qualquer momento o aparecimento de um daqueles estranhos seres com a pistola de raios térmicos na mão.
Com força física, o cientista não ia se livrar daquela situação. Suas forças debilitadas não seriam suficientes para rebentar as tiras metálicas que o prendiam àquele estrado. Uma salvação só seria possível se o robô reconhecesse que havia cometido um engano. Num desespero mudo, Crest procurou ouvir alguma voz interna, mas seu lado lógico também emudecera.
Bizz... bizz... — era o que Crest ouvia continuamente, abalando ainda mais seu sistema nervoso.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html