Autor
WILLIAM
VOLTZ
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Os que
foram desterrados chegam e o solitário do
planeta
Ufgar não tem tempo nem para morrer.
Desde
os dias gloriosos da Terceira Potência, Perry Rhodan e seus
seguidores tiveram uma longa e dura caminhada. Com o inestimável
auxílio da supertécnica dos arcônidas, assimilada em tempo
recorde, os terranos abriram ainda mais os caminhos para o espaço —
não obstante incompreensões e reveses internos e externos. Mesmo
nas piores situações, os homens de Rhodan não conheceram as
palavras “resignação” e “desistência”. Pelo contrário. A
principal característica desta nova mentalidade era procurar novos
caminhos para obtenção da vitória. E assim sendo, não apenas
conseguiram criar e conservar, mas também ampliar o Império Solar.
Mas,
não é um desdouro para os terranos repetir que a cooperação de
estranhos lhes foi de suma valia.
Um dos
cooperadores do espantoso progresso da Humanidade foi Crest, o
arcônida que fez da Terra sua nova pátria. Nas muitas dezenas de
anos em que se entregou de corpo e alma à luta pelos ideais da
Humanidade, jamais quis que seu nome sobressaísse... Sua norma era
trabalhar em silêncio e fazer com que sua grande experiência fosse
útil aos homens.
Naquele
momento, início do ano 2.045, Crest já se sentia cansado. Queria
terminar seus derradeiros dias em paz, em meditação. E Perry Rhodan
satisfez sua vontade. No entanto Crest não conseguiu a paz tão
almejada, e assim não continuaria sendo “o amigo dos homens”,
como prometera ser.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Crest
— Um
verdadeiro amigo dos terranos.
Golath,
Liszog,
Zerft
— Degredados
do planeta Unitro.
Perry
Rhodan
— Que
perde mais um amigo.
Reginald
Bell
— Vice-administrador
do Império Solar.
Tenente
Davis
Bowler
— Que
recebe a última mensagem de Crest.
PREFÁCIO
O homem
chegou ao fim da Avenida Orion. Luxuosa artéria de muitos
quilômetros, que desemboca numa verdejante campina, salpicada de
arbustos e flores. Admirado, olhou para trás, pois ainda há poucos
minutos, encontrava-se preso no denso trânsito da grande cidade, à
sombra de seus supermodernos edifícios.
Terrânia,
centro nevrálgico do Império Solar, é uma metrópole cheia de
contrastes. A quem procura repouso, ela oferece também a
tranqüilidade e o encanto de parques maravilhosos e instalações
apropriadas para a descontração do espírito.
O homem
caminha agora à beira do prado. Mais para frente, à sombra de três
árvores, há um monumento inaugurado recentemente. Não é grande.
Uma pessoa apressada passaria por ali sem percebê-lo. Mas o homem se
detêm para olhá-lo. Sobre um pedestal talhado em pedra bruta,
aparentemente granito comum, ergueu-se uma figura humana, esculpida
pela mão abençoada de um artista. Um raio de sol, filtrado entre a
folhagem da árvore, destaca o rosto da figura.
O homem,
espontaneamente, dá um passo para trás. Tem-se mesmo a impressão
de que a figura está viva. Representa um homem esbelto e de boa
estatura, cujo corpo visivelmente envelhecido está envolto num
grande manto. O braço direito está estendido, como num gesto de
proteção.
O homem,
de pé diante da estátua, esboça um sorriso, o sorriso triste da
saudade. O semblante de pedra expressa a franqueza e a inteligência,
ornadas por um suave sorriso nos seus traços rígidos.
No
pedestal estão gravadas quatro palavras simples, nenhum nome nem
data. O desconhecido as lê silabando e depois as repete baixinho:
— UM
AMIGO DOS HOMENS.
Apenas
este modesto título. Nenhum relato dos feitos ou qualquer dado de
fácil identificação.
Mas todos
sabem o que aquele homem fez pela Terra e todos sabem em homenagem a
quem é aquele monumento. O silencioso visitante, depois de muitos
segundos de meditação, vira-se e segue caminhando através do
prado. Um caminhão passa. Mas ele nem o olha. Seus pensamentos ainda
estão presos na estátua. Pensamentos de gratidão. Seus lábios
pronunciam o nome do homem esculturado, como que para deixá-lo
indelével na memória.
— Crest!
1
Os sapatos
de Rhodan deixaram fundas pegadas na areia úmida. Um vento brando
agitava a superfície do lago, formando espuma nas ondas miúdas.
Conchas e pedras de muitas cores davam vida à areia da praia.
Perpendicular
e acima de Perry Rhodan, no ponto mais alto de uma ladeira, repousava
a poderosa espaçonave Solar System, sustentada por seus apoios
telescópicos. O pesado cruzador da classe Terra tinha um diâmetro
de duzentos metros.
Mesmo para
o Administrador do Império Solar, acostumado com a visão diária
destas naves, o cruzador visto desta posição parecia um monstro da
pré-história, pairando ameaçador lá no alto. Rhodan ficou parado,
respirando profundamente o ar puro. A escotilha da grande nave
abrira-se naquele momento. Aos poucos foi surgindo um guindaste de
lança. Via-se nitidamente a figura rígida do Tenente Chad Tuncher,
que comandava a operação.
Pela
primeira vez, Rhodan olhou para o homem que estava bem próximo a
ele.
— Onde
quer que a casa seja construída, Crest? — perguntou Rhodan.
Devia
haver um tom especial em sua voz, pois o velho arcônida caminhou de
encontro ao administrador, para lhe colocar a mão sobre o ombro.
— É
contra sua convicção construir esta morada para eu terminar os
poucos dias de vida que me restam, não é verdade, Perry?
— É
contra minha convicção deixar um amigo sozinho — respondeu Rhodan
calmamente.
No seu
rosto não se notava nada do que lhe ia na alma. Mas um observador
mais atento do que Crest teria reparado que os punhos de Rhodan
estavam cerrados e bem comprimidos.
— Sei
muito bem o que a palavra amigo significa para você — disse Crest.
Sua voz
tinha um timbre claro, fazendo esquecer seu corpo alquebrado pela
velhice. Ninguém se iludia sobre os poucos dias de vida que restavam
ao grande arcônida. Crest e Thora, a falecida esposa de Rhodan, não
conseguiram o privilégio da ducha celular do planeta Peregrino,
ducha esta que mantinha por sessenta anos a disposição física e
mental de uma pessoa.
Apesar do
elevado grau de perfeição da Medicina arcônida, capaz de prolongar
a vida, não se podia esperar por um milagre no campo biológico.
Crest, suficientemente inteligente e sensato para compreender o
alcance das coisas, sentia que a morte estava próxima. Foi por isso
que procurou Rhodan, pedindo que o deixassem neste planeta. Havia se
afastado demais de Árcon, sua pátria verdadeira para poder sentir
agora qualquer saudade de lá. Por outro lado, não queria também
morrer na Terra.
Num cúmulo
de ironia, dissera mesmo a Perry Rhodan que não desejava morrer
deitado numa cama, rodeado pelas manifestações de pesar dos
“selvagens”
— nome com que os arcônidas se referiam aos habitantes da Terra.
O velho
arcônida fizera a Rhodan referência a um pequeno sistema solar, até
então desconhecido dos terranos, distante 6.381 anos-luz da Terra. O
sol amarelo tinha cinco planetas e fora descoberto já há muitos
milênios pelo arcônida Ufgar, de quem recebera o nome. O segundo
destes planetas era um mundo com boa camada de oxigênio, de água
cristalina, um pouco maior do que Marte. A gravitação nele chegava
a 0,84 gravos. Florestas virgens e mares cobriam todo o planeta. Não
possuía, porém, seres inteligentes.
Exatamente
este mundo fora escolhido por Crest, para encerrar sua longa vida.
Rhodan não tinha como impedir o pedido final do grande cientista
arcônida e partiu com ele da Terra, na espaçonave Solar System.
Estavam
agora no tal planeta, procurando um bom lugar para Crest.
— Cuidado
aí embaixo! — gritou o Tenente Tuncher.
Mas, no
mesmo instante, percebeu que quem estava lá embaixo, impedindo a
manobra de seu guindaste de descarga, era Rhodan.
— Desculpe,
sir! — disse o tenente, acabrunhado.
Depois a
lança do guindaste foi surgindo pela escotilha. Tuncher abanou com
os braços, quando a pequena casa começou a balançar no gancho.
— Vocês
querem chegar lá embaixo com uma casa ou com escombros de uma casa?
— gritou ele um pouco nervoso.
Assustados,
alguns homens apareceram à borda da escotilha para acompanharem o
resultado da manobra.
— É
neste lugar mesmo, sir?
— Sim —
confirmou Rhodan. — Podem deixar descer devagar.
Pendendo
livremente num cabo de aço, a casa — pré-fabricada e já montada
— desceu lentamente para a margem do lago. Tuncher seguia os
movimentos da casa com ameaças e imprecações. Entretanto não
houve acidentes.
— Qual é
sua impressão? — perguntou Rhodan.
— Talvez
confortável demais — disse Crest sorrindo. — Acho que vocês
capricharam em tudo.
Rhodan
respondeu meio triste:
— Uma
casinhola desta não é nada em vista do que você fez pelo nosso
povo.
— Tudo
que fiz, foi com prazer e espontaneamente.
Os olhos
avermelhados de Crest pareciam ter um brilho diferente.
— Foi-me
um raro privilégio poder cooperar para o desenvolvimento de uma
grande raça. Os homens sempre foram para mim como crianças, que a
gente tem de proteger e orientar. Mas isto já passou. A Humanidade
já ultrapassou a fase do jardim de infância e agora já discute de
igual para igual com os mais velhos. Posso afirmar que esta raça tem
diante de si um grande futuro, se continuar com as mesmas boas
diretrizes. E meu maior desejo é que sempre haja homens como você,
Perry.
— Vamos
agora dar uma olhada em seu novo lar — disse Rhodan se esquivando
do elogio. — Já lhe disse que você vai ter aqui um moderno
Space-Jet com supertração e com hiper-rádio. Terá sempre e a
qualquer momento a possibilidade de voltar à Terra, ou chamar por
auxílio. Por aqui não encontrará nenhum médico para ajudá-lo...
De qualquer maneira, vou lhe deixar também dois robôs de combate. É
muito remota a possibilidade de aparecerem neste planeta seres
inteligentes estranhos, mas temos que estar prevenidos. Num caso
destes, você deve impedir que o Space-Jet lhes caia nas mãos, pois
neste pequeno aparelho estão montadas instalações eletrônicas e
um novo tipo de motor de tração, cujo segredo é vital para o
Império Solar. Portanto, não deve passar para as mãos de potências
estranhas a nós.
— Eu lhe
prometo que vou tratar do disco voador como se fosse a menina dos
meus olhos — disse Crest. — Não se preocupe quanto a isso.
Juntos,
penetraram na nova moradia. Crest caminhava um pouco recurvado e
respirava com dificuldade. O semblante estava todo vincado de rugas.
Mesmo o alto da testa não fora poupado dos sinais da idade avançada.
Os cabelos longos e brancos do arcônida caíam-lhe pelos ombros. Não
obstante o peso da idade, era ainda uma figura impressionante.
A porta da
entrada principal se abriu automaticamente, quando pisaram na
soleira. Sorrindo, Rhodan fez um gesto para que Crest entrasse
primeiro. Dentro da casa, a temperatura era agradável.
— Aqui
vou ficar sentado olhando para o grande lago — disse Crest,
encaminhando-se para a janela. — Meus olhos ficarão por aqui, mas
meus pensamentos estarão em outro lugar.
— Será
que existe algo que você ainda não tenha pensado, Crest?
O velho
arcônida apoiou os braços no peitoril da janela. Embora os vidros
das janelas fossem anti-reflexo, Rhodan teve a impressão de ver seu
rosto no vidro.
— Sou um
homem velho — disse Crest. — A idade faz as coisas parecerem
muito diferentes. A gente se afasta um pouco de tudo que nos cerca.
— Você
vai se sentir muito sozinho — tentou Rhodan novamente dissuadir seu
amigo. — Os robôs vão ajudá-lo em tudo. Prepararão suas
refeições e vigiarão a casa. Mas, quem sabe lhe virá a vontade de
conversar um pouco com um outro homem.
Crest se
virou e fitou Rhodan diretamente.
— Vou
ter prazer em ficar sozinho — disse pausadamente. — Você
continua a ver em mim o cientista arcônida sempre em atividade.
Meneou a
cabeça e seus longos cabelos formaram ondas sobre os ombros.
— Mas
agora, olhe para mim apenas como realmente sou: um homem velho e
alquebrado.
Antes que
Rhodan pudesse responder, o Tenente Tuncher surgiu. Seu rosto estava
vermelho.
— Perdão,
sir! — disse o tenente, ofegante. — Estes rapazes incompetentes
colocaram a casa fora do lugar. Está um pouco inclinada.
— Inclinada?
— repetiu Crest, admirado. — Sabe que não notei nada até agora?
— Acabei
de medir neste instante — avisou Tuncher prontamente. — O soalho
em que estamos pisando apresenta a inclinação de um grau, em
relação com o solo da praia.
— Um
grau? — Rhodan estava admirado. — Realmente, é muito, tenente.
Nervoso,
Tuncher moveu os lábios e olhou incerto para Rhodan.
— Qual é
sua opinião, sir?
— Descarregue
o Space-Jet e os dois robôs — ordenou Rhodan.
Tuncher
tomou posição de sentido e já ia sair, quando a voz do
administrador fez-se ouvir.
— Tuncher!
— Pronto,
sir.
— Preste
atenção para que o disco seja descarregado corretamente. Não
gostaria que você depois descobrisse outro engano.
— Perfeitamente,
sir — disse Tuncher nervoso.
Crest riu
à vontade. O tenente desapareceu.
— Se,
pelo cúmulo do azar, um besouro de chifre lhe cruzar o caminho, o
pobre do Tuncher vai ficar mais confuso ainda.
Ao ouvir a
referência ao besouro, a testa de Rhodan se franziu em duas rugas
verticais.
— Este
tipo de inseto parece ser muito perigoso. Seja muito cauteloso,
principalmente quando estiver passeando nas florestas.
— Naturalmente
— disse o arcônida. — Vou prestar atenção a isto. Ufgar, no
relatório sobre o planeta por ele descoberto, descreve longamente as
espécies de animais que aqui existem, destacando os mais perigosos.
O homem
alto e esbelto, de rosto quase magro, olhou demoradamente para seu
amigo.
— Vamos
registrar este planeta em nossos mapas siderais com o nome de planeta
Crest.
E antes
que o arcônida tivesse tempo de protestar, continuou falando:
— O
Space-Jet que lhe deixamos está protegido por um envoltório
energético. Quando você quiser entrar na mini-espaçonave, terá de
usar o código do transmissor, que desliga o envoltório de proteção.
Com a
maior naturalidade, Crest afirmou:
— Para
um homem da minha idade, não se pode mais falar em risco, perigo e
proteção.
— Não é
verdade — disse Rhodan. — Tuncher ainda vai descarregar um barco
a motor, para você passear e pescar no lago. E se você tiver
qualquer desejo, por favor, não tenha vergonha de expor.
Ambos
deixaram a casa. Tuncher e seus auxiliares continuavam na operação
de descer o jato, com toda garantia. A pequena nave, em forma de
disco, estava entre as mais modernas da Frota Solar. No seu lado mais
largo, media 35 metros. Uma cúpula interrompia os dois lados quase
planos. Abrigava facilmente todo o precioso equipamento, como também
oferecia bastante espaço para a tripulação. Sua construção era
tão bem idealizada, que permitia a pilotagem por uma só pessoa.
O próprio
Crest, que conhecia de perto as maravilhas aeronáuticas do Império
Arcônida, não conseguiu ocultar sua admiração. Depois que a
máquina pousou firme no chão do planeta, Crest sorriu feliz.
— Mais
uma prova evidente de que vocês não precisam mais de mim — disse
ele. — Homens que são capazes de construir estas coisas, já estão
em condições de total independência técnica. Perry, seu povo
conseguiu muito, em tempo relativamente curto. Considere-me o símbolo
de uma época que termina. Forças novas vão tomar meu lugar e não
precisarão mais de auxílio de ninguém. Haverão de me esquecer em
breve.
— A
Humanidade jamais haverá de esquecê-lo, Crest. O seu afastamento
vai deixar uma lacuna que não se preencherá tão cedo. Neste
sentido, você tem razão quando fala do fim de uma época.
Nas horas
seguintes, enquanto a tripulação da Solar System arranjava tudo
para fazer da residência de Crest uma moradia requintada, Rhodan
passeava com o amigo na beira do lago. Tornaram a reviver coisas já
esquecidas há muito tempo. Por fim, Rhodan tentou mais uma vez
demover Crest de sua vida solitária naquele distante planeta. Mas a
resolução do arcônida era inabalável.
Finalmente
apareceu o Tenente Tuncher para avisar que todos os trabalhos já
haviam sido concluídos. A Solar System estava pronta para retornar
ao espaço.
— A
tripulação vai se despedir de você, Crest — disse ele.
Achavam-se
todos a mais ou menos uns seiscentos metros da grande nave. Crest fez
um leve movimento com a cabeça.
— Cumprimente
os homens em meu nome. Meus melhores votos para eles.
Rhodan
estava em frente ao velho arcônida. Sua mão segurou o braço do
arcônida. E Crest, conhecedor profundo da alma de Rhodan, sabia que
o terrano não acharia palavras para se despedir.
— Não
diga nada, amigo!
Perry
pegou a mão do velho companheiro de lutas. Olharam-se fixamente por
alguns instantes. As mãos se apertavam cada vez mais.
— Obrigado,
amigo! — disse Rhodan, afastando-se no mesmo instante, caminhando
atrás do Tenente Tuncher.
Crest
continuou imóvel, olhando para eles. Rhodan e Tuncher subiram a
rampa. Nenhum deles se virou para trás. Próximos da Solar System,
os homens pareciam formigas. A seguir, todos desapareceram.
Minutos
depois, ergueu-se no ar a grande nave esférica, impulsionada por
gigantescas turbinas, movidas por energia atômica. O chão começou
a tremer e os ouvidos de Crest sentiram uma dor aguda.
A dois mil
metros de altura, houve uma última homenagem ao encanecido e
devotado defensor da causa humana. Um raio luminoso saiu das torres
de artilharia, dando ao céu uma coloração avermelhada. Foi a
última saudação ao grande amigo dos homens.
— Famal
Gosner
— sussurrou Crest.
Era uma
saudação arcônida, mais ou menos equivalente a “adeus,
amigos”.
Logo
depois, a Solar System desapareceu.
Em passos
vagarosos, Crest retornou à sua nova casa. Não tinha pressa. Para
quê? Era apenas um ancião esperando pela morte.
Jamais
poderia imaginar que sua solidão seria logo interrompida.
2
A
preocupação de Golath era mais do que justificada. A instalação
de purificação do ar estava em péssimo estado. Embora houvesse a
bordo da Kaszill alguns tanques de oxigênio, nem Golath, nem Liszog,
nem Zerft sabiam onde se localizavam.
A Kaszill
já era um montão de escombros, quando a pegaram e a mandaram para o
espaço. Para Golath era algo muito difícil de se compreender por
que razão aquele “baú
velho”,
caindo aos pedaços, rangendo o tempo todo, carregando injustamente o
pomposo nome de espaçonave, ainda não havia rebentado de todo. O
pobre do Zerft não parava de calafetar os buracos que surgiam a todo
momento.
A única
coisa que funcionava a contento a bordo daquela nave era a máquina
automática de lavar as trombas. Assim, os três unitros podiam lavar
suas trombas em espaços de tempo normais. Depois de tal ação,
mesmo o ar estragado parecia mais suportável para Golath.
Liszog,
sentado diante dos instrumentos de rastreamento, até então
pensativo, esticou sua tromba e sussurrou alguma coisa para Golath:
— Está
na hora do revezamento.
Golath,
que se sentia como o comandante, não gostou muito da idéia. Além
de tudo, estava convencido de que teriam de ficar ainda centenas de
anos sentados diante dos instrumentos, olhando inutilmente. Aliás,
seria mesmo impossível que até lá ainda estivessem vivos. Sem
falar na velha Kaszill, cujo “tempo
de vida”
já devia ter acabado há muito.
Os três
unitros eram mais ou menos do tamanho de um ser humano. De corpos
brutos e pesadões. Além dos braços e das pernas, dispunham também
de uma tromba, pouco mais longa que um braço, servindo-lhes tanto de
instrumento de defesa como para lhes facilitar a alimentação. As
cabeças eram semi-esféricas, com dois grandes olhos. Tinham
bastante dificuldade em se locomover. Seus corpos eram recobertos por
uma pele lisa e dura, de um marrom-claro.
Depois que
Golath tomou o lugar de Liszog, este último sentou-se ao lado do
aparelho de lavar as trombas. Zerft, que depois de vedar o último
rombo na fuselagem do “escombro
flutuante”,
não se mexia mais, levantou-se pesadamente. Veio para trás de
Golath e ficou olhando os instrumentos por cima dos ombros do amigo.
— Você
acha que vê mais do que eu? — perguntou Golath.
Zerft não
respondeu no momento. Depois disse tranqüilamente:
— Acho
que vejo a mesma coisa que você, isto é, nada!
Liszog,
cuja tromba estava ocupada por uma das mãos, no contínuo afã de
conservá-la limpa, tinha por isso dificuldade em ser compreendido
quando disse:
— Temos
de nos acostumar com a idéia de que não podemos mais voltar para
Unitro, nossa terra. É-nos totalmente impossível realizar uma ação
heróica, para nos reabilitarmos, dispondo apenas desta nave que pode
cair a qualquer momento. Temos que arranjar um plano melhor. Acho que
é melhor a gente se aproximar de um planeta e procurar um lugar para
aterrissagem. Ainda é tempo para isto.
— Liszog
tem razão — concordou Zerft. — Em toda a nossa história não há
nenhum caso de um expatriado que tenha cumprido as condições, para
poder ser admitido de volta. Mesmo que encontremos uma espaçonave de
alguma raça desconhecida, como haveremos de tomá-la?
Golath
estirou o braço por cima da tela panorâmica.
— Então
vocês querem desistir? — perguntou ele.
— Sim —
disse Zerft com firmeza. — Imediatamente.
Liszog
acudiu também com o seu “sim”
mudo.
Golath
apontou para uma outra tela, onde se podiam ver vários pontos
luminosos.
— Este é
o próximo sistema solar — disse ele. — Lá poderemos tentar
alguma coisa.
— Tomara
que encontremos um mundo onde haja oxigênio — interveio Zerft —
pois a maioria são planetas onde não podemos viver.
Golath
virou sua poltrona para o lado. Era o maior dos três unitros, sendo,
porém, Zerft o mais “amplo”.
Liszog era o mais moço e estava ainda na fase de crescimento.
— Que
tipo de vida será esta? — perguntou Golath com o semblante
carregado.
— Vamos
vegetar por aí, passando fome e frio. Os juízes que nos condenaram
sabem perfeitamente que todo unitro sente uma necessidade congênita
de vida em sociedade e de ampla comunicação. Somos membros de uma
grande comunidade. Este isolamento é pior do que a morte.
Liszog
terminara a limpeza. Levantou-se e se aproximou dos dois colegas.
— Isso
você devia ter ponderado antes, Golath. Agora é tarde. Foi você
quem nos arrastou para esta loucura. Eu sabia desde o início que
seria uma temeridade tentar um roubo daquele...
Golath
atirou sua tromba contra o peito de Liszog. O jovem cambaleou.
— O
plano estava perfeito, ouviu? Mas como é que eu poderia suspeitar
que atrás do depósito havia um alarme eletrônico, para nos
denunciar? — disse Golath.
O tom de
voz de Liszog aumentou com sua irritação:
— Colocaram-nos
neste cacareco e nos expulsaram. Agora, só poderemos voltar para
nossa terra se, durante nosso degredo, executarmos uma ação que
seja útil a todo o nosso povo. Sua idéia de seqüestrarmos uma
espaçonave é tão doida como seu plano de assalto ao depósito.
A velha
Kaszill tentou também fazer uma das suas. Um estremeção muito
forte percorreu toda a nave, interrompendo a discussão. Golath rolou
da poltrona, enquanto Zerft teve que se apoiar firme na moldura do
aparelho de rastreamento.
Depois que
tudo terminou, ouviu-se a voz de Zerft:
— Foi o
último sinal de alarme. Golath deu um galeio com a poltrona e voltou
para seu lugar em frente aos aparelhos de rastreamento, evitando
olhar diretamente para Liszog.
— Está
certo — resolveu ele — vamos sobrevoar este planeta, ou melhor,
todo o sistema, e ver o que podemos fazer. Quem sabe descobrimos
alguma coisa que nos seja útil.
Como que
para confirmar suas palavras, tremulou um risco vermelho no vidro
fosco da tela. Liszog, que estava para fazer um comentário irônico,
emudeceu. Zerft bateu com os pés no chão, fazendo grande barulho.
Em algum lugar da velha nave, soou um estrondo metálico que fez os
unitros suarem por todos os poros.
Com voz
sumida, como que com medo de que a nave se partisse ao meio se
falasse mais alto, Golath explicou:
— Acabamos
de receber uma descarga energética superdimensional.
Nervoso,
Liszog enrolou sua tromba. Zerft passou a mão ao longo da tela, como
que para evitar a repetição do estrondo.
— Que
será que foi isto? — perguntou curioso.
Num caso
destes, todos dependiam de Golath. Era o único dos degredados que
possuía certos conhecimentos técnicos, para conseguir alguma coisa
com os instrumentos de bordo.
— Uma
instabilidade no contínuo espaço-tempo? — indagou Liszog.
Golath deu
uma gargalhada. Levantou-se, dirigindo-se para a máquina de
calcular. Não era muito diferente dos cérebros eletrônicos
terranos, destas mesmas dimensões.
O unitro
programou o computador com diversos dados. Depois, ficou esperando o
resultado, que não demorou. Uma estreita tira metálica, com muitas
perfurações, caiu-lhe na mão. Mais uma gargalhada estrondosa.
— O que
quer dizer isso? — perguntou Liszog impaciente.
Num ar de
displicente superioridade, Golath jogou fora a tira do computador.
Estava gozando aqueles momentos. Os dois trouxas deviam entender o
que ele valia. Estava mais do que convencido de que, sem ele, os
pobres coitados não poderiam fazer nada. Esperou até ver a tromba
de Zerft se levantar, denotando medo.
— Foi
uma espaçonave — acentuou ele.
— E onde
está ela agora? — perguntou Liszog assustado.
— E qual
é seu tamanho? — indagou
Zerft,
tentando esconder o medo que o devorava.
Por um
momento, havia em Golath uma luta contra a sua vaidade, depois
decidiu dizer a verdade:
— Não
sei mesmo. Localizamos a nave estranha durante uma transição. Temos
a sorte de possuirmos nesta velha carcaça, que se chama Kaszill,
instrumentos que nos permitem notar qualquer alteração no espaço.
Em outras palavras, nós não localizamos diretamente a nave
estranha, mas tão-somente uma alteração estrutural no espaço. Mas
não podemos de forma alguma determinar o destino ou o tamanho da
citada espaçonave.
— Quer
dizer então que não precisamos nos preocupar — disse Liszog
decepcionado. — E também não podemos fazer nada com nossa
descoberta, não é?
— Não é
assim não — disse Golath. — Sei exatamente em que ponto do
espaço essa nave fez uma transição.
Zerft,
apontando para o vidro fosco da tela, com os vários pontos
luminosos, disse:
— Foi
exatamente aqui.
Irritado
por lhe terem roubado o efeito da explicação, Golath acrescentou
asperamente:
— Isso
mesmo, a tal nave se encontrava, no momento do hipersalto, nas
proximidades do sistema que nós tencionamos atingir.
— Provavelmente
era uma nave arcônida — disse Liszog irônico.
— Pertencendo
a uma de suas colônias, em plena insurreição, é claro que os
arcônidas não nos podem receber de braços abertos.
— É uma
coisa que ainda não podemos saber.
— Arcônidas!
— murmurou Zerft.
Na sua voz
vibrava o ódio. Seus olhos tinham um brilho diferente e os músculos
dorsais estavam retesados.
Nenhum dos
três unitros podia supor que o que haviam registrado era uma nave
terrana, a Solar System.
*
* *
Após 72
horas, tempo da Terra, a Kaszill penetrava no pequeno sistema de
Ufgar. O vôo não deixou de ser um verdadeiro pesadelo de medo e
horror para os três unitros. Quando estavam a meio do caminho, a
desgraça se abateu sobre eles com toda violência. A velha e
alquebrada nave começou a largar pedaços de sua carcaça em pleno
vôo. Na parte posterior das turbinas já havia um enorme rombo.
Zerft, o tapador de buracos, não tinha mais meios de calafetá-lo.
Na última hora, Liszog ainda conseguiu isolar a parte afetada pelo
rombo. A vida dos degredados estava literalmente por um fio, e este
fio estava representado por uma espaçonave, que, com exceção de
alguns instrumentos de bordo ainda em bom funcionamento, era pouco
mais do que um aglomerado de ferro velho.
Mas o
destino ainda quis permitir que os três unitros expulsos de sua
terra atingissem seu objetivo. Liszog estava crente que a qualquer
momento o aparelho fosse se desintegrar no espaço. Porém a euforia
de Golath, que se sentia um grande piloto, levou-lhe o pessimismo.
— O
segundo planeta é um mundo com oxigênio — explicava Golath, após
amplas investigações. — Vamos aterrissar nele.
Reparou no
olhar incerto de Liszog.
— Vamos
aterrissar — repetiu — mesmo que esta seja a última operação
que eu faça com este cacareco flutuante.
Estava bem
certo do alcance de suas palavras, pois sabia muito bem que a palavra
“aterrissar”
podia ser sinônimo de suicídio. Não tinha, porém, coragem de
dizer claramente o que pensava. Tinha receio de que Zerft e Liszog
não lhe dessem consentimento para descer.
O unitro
também não tinha, nem podia ter, uma visão clara do que pretendia
fazer. Após uma aterrissagem mais ou menos bem-sucedida, poderiam
sobrevir coisas com que ainda não contavam. Além disso, Golath
achava que não podia confiar muito no jovem Liszog. Num momento de
emergência teria que apelar mais para Zerft, embora este último não
lhe fosse muito simpático. Seria, porém, bem mais útil que o
rapazola.
— Temos
que apertar bastante os cinturões — ordenou ele. — Não posso me
confiar no piloto-robô. Assim que alcançarmos o chão firme,
abandonaremos imediatamente a Kaszill, pois não está excluído o
perigo de uma explosão.
Nas horas
que se seguiram, Golath dirigia com extremo cuidado. Poupava a
decrépita nave o mais que podia. Zerft estava diante dos aparelhos
de rastreamento, enquanto Liszog corria sem parar de um lado para
outro.
— De que
lado vamos descer? — perguntou Zerft. — Eu sugiro o lado da
noite.
— Vamos
fazer um barulhão tão grande na aterrissagem que é completamente
indiferente e lugar de nossa descida — explicou Golath. — Se este
planeta estiver ocupado por arcônidas, seremos localizados logo,
logo. Quanto a isto, nada podemos fazer...
O sensor
energético da Kaszill resolveu o problema. Depois que entrou em ação
o campo gravitacional do planeta, o sensível instrumento declinou
para o lado. Zerft, que registrou o tremular do ponteiro, não
sabendo o que isto significava, chamou por Golath.
— Há
alguma coisa aqui embaixo — comentou o alto unitro.
— O quê?
— queria saber logo Liszog, cujo nervosismo crescia sempre mais.
Golath
agitava a tromba, sem saber o que dizer, mas não tirava os olhos do
instrumento.
— O
desvio do ponteiro não é tão forte assim — disse ele. — É
possível que neste planeta haja uma estação energética. Pode ser
até um transmissor direcional. Vamos constatar de onde vêm os
impulsos.
— Por
quê? — veio logo a pergunta de Liszog.
— Muito
simples — respondeu Golath — porque é lá que queremos descer.
Liszog
olhou para ele desencantado. Pigarreou e se virou para Zerft, como
que pedindo socorro:
— Quer
dizer que vamos cair diretamente nas mãos dos donos desta estação
energética? Eles vão nos destruir, antes de atingirmos o solo.
Via-se no
rosto de Golath que as contínuas choramingas do jovem desterrado
Liszog lhe eram muito incômodas. Sua voz tinha um tom leve, mas
perceptível, de escárnio, quando respondeu:
— É o
risco que temos de enfrentar. Se lá embaixo houver arcônidas, eles
acabarão nos descobrindo, seja onde for que descermos. Não podemos,
pois, perder a vantagem da surpresa. Caso se trate de uma estação
controlada por robôs, então será uma loucura nos arriscarmos a uma
caminhada penosa através da mata virgem, geralmente muito perigosa.
Zerft
decidiu a discussão de um modo mais simples. Por cima de seus
ombros, seus dois colegas viram como sua tromba apontava para o
ponteiro oscilante.
— Lá —
disse ele.
— Segurem-se
— gritou Golath.
Sua voz
estava perpassada de medo e sua tromba, agora toda enrolada, parecia
doer muito. Seu corpo pesado estava bem amarrado pelos cinturões
presos na poltrona estofada. Liszog, ao lado dele, tremia todo.
Estava de olhos fechados e as mãos agarradas no cinturão. Somente
Zerft era quem se achava mais calmo. Dava a impressão de estar
ocupado na rotina de limpar a tromba.
Golath
acionou os freios. Sob grandes solavancos, a Kaszill penetrou nas
camadas superiores da atmosfera do planeta. A fuselagem da nave
trepidava sob a forte pressão. Soldas se desfaziam, arrebites
saltavam dos orifícios, tiras metálicas caíam no chão.
Mas a
Kaszill ainda estava agüentando!
Os três
unitros permaneciam entocados nas poltronas, meramente passivos. Só
as mãos firmes de Golath mantinham a direção. Às vezes, tinha a
impressão de que a nave não reagia mais. Num ângulo plano, quase
tangencial com a superfície do planeta, Golath conduzia a Kaszill.
Quando pensou que podia respirar um pouco, falhou um dos conjuntos de
propulsão. A nave era levada de um lado para outro e, zunindo,
descrevia um parafuso quase horizontal. Gemendo com a pressão que,
de repente, aumentara muito, Golath tentou fazer a nave voltar ao
equilíbrio. Zerft saiu um pouco de seu estado de letargia e olhou
preocupado para o piloto. Na tela panorâmica, bem acima das cabeças
dos unitros, desfilavam nuvens claras. Liszog gemia baixinho.
Golath se
decidiu por uma manobra um tanto perigosa. Durante alguns segundos
desligou todos os motores de propulsão. A Kaszill ainda continuou
deslizando. Quando começou a trepidar, Golath ligou os três motores
traseiros ainda intactos. Com a brusca aceleração, a nave disparou
rumo ao solo, ainda distante. Depois tentou movimentar os freios. A
Kaszill empinou a parte dianteira.
“É
agora que ela vai rebentar”,
pensava Golath desesperado.
Fechou os
olhos. Quando os abriu, segundos depois, a Kaszill ainda existia.
Porém já era um pedaço de metal incandescente em louca disparada.
Golath
soltou um grito estridente, ao olhar para o altímetro. O que viu,
lhe fez brotar suor no rosto. A apenas quatro mil metros acima do
solo, a Kaszill mantinha uma velocidade tal que invariavelmente iria
despedaçar-se no ar. Restava uma única alternativa a Golath: tentar
ganhar altura. Não tinha mais meios de controlar se já estavam no
local planejado para descer ou não. A nave se contorcia com ruídos
de pôr medo. Golath não se sentia bem. Suas mãos tremiam nos
movimentos que fazia. A contragosto, a velha nave começou a
obedecer. O unitro conseguiu levá-la até cinco mil metros.
— Quanto
tempo vai demorar ainda? — perguntou Zerft, com uma calma, como se
estivesse no Kallasto Hotel de Unitro esperando por um drinque.
Golath não
respondeu. Aos poucos, a velocidade da nave foi declinando. O piloto
sabia que iria conseguir mantê-la naquela altura. Tinha que cuidar
da aterrissagem. Com uma única chave, ligou as três outras telas.
Apenas nuvens apareceram.
Depois de
algum tempo, surgiram pontos mais escuros, provavelmente grandes
florestas. Um risco azulado, que logo desapareceu, dava a impressão
de um lago. Tentou voar em espiral. As nuvens desapareceram da tela,
como se a mão de um gigante as tivesse removido. O chão lá embaixo
era uma massa marrom-escura. De repente, tudo virou silêncio.
— É
agora! — disse simplesmente.
Então
tudo desapareceu num raio de fumaça, poeira, chamas e terra
revolvida.
*
* *
A primeira
coisa foi a perplexidade sobre o fato de estar ainda vivo. A segunda
foi uma sensação desagradável de ter muita sujeira na tromba.
Depois,
Golath abriu os olhos.
Sobre seu
peito estavam pedaços de tela. Poeira e sujeira. Só então
lembrou-se dos colegas. Zerft estava de pernas abertas diante dos
instrumentos de rastreamento, aparentemente tentando saber quais
deles ainda funcionavam. Aborrecido com o fato de que ninguém se
preocupava com ele, Golath desatou os cinturões que o prendiam à
poltrona. Foi então que viu Liszog. O jovem estava sob a máquina de
lavar trombas, aparentemente intacta.
— Você
está aí? — disse Zerft indiferente, quando Golath apareceu a seu
lado, também examinando os aparelhos. Olhou para ele zangado.
Seu ombro
direito estava doendo muito e sentia na tromba uma dor penetrante.
Impaciente, olhou mais uma vez para Liszog, mas não disse nada, pois
a limpeza da tromba era uma espécie de ritual, que não podia ser
interrompido. Não havia nenhum unitro capaz de quebrar este tabu.
Só depois
é que lhe dirigiu a palavra:
— As
coisas não parecem tão ruins assim. A maioria dos aparelhos estão
funcionando. No entanto, temos que abandonar a Kaszill. Ainda
persiste o perigo de uma explosão.
Zerft deu
uma gargalhada. Tinha os braços cruzados no peito, e a tromba
pendente entre eles.
— Você
pode sair quando quiser — disse ele.
Golath,
meio confuso, deu um passo para trás e perguntou:
— O que
quer dizer isto?
Com a
mesma calma de sempre, Zerft explicou:
— Significa
que a partir deste momento, eu assumi a direção deste grupo. A
Kaszill está parcialmente destruída. Não precisamos mais de você,
Golath. Já combinei tudo com Liszog, enquanto você estava
inconsciente. Ele está de pleno acordo com que eu dirija nossos
passos daqui para frente.
Os olhos
de Golath cintilaram. Sentia irromper em seu interior a cólera.
Somente a grande musculatura do avantajado Zerft o impediu de atacar
o colega. Aos poucos, foi se dominando e voltou a pensar de modo
frio.
— Está
certo — disse com aparente indiferença. — O que você tenciona
fazer?
Zerft,
meio descontrolado pela vitória repentina, continuou mexendo nos
aparelhos, antes de responder.
— Vamos
transformar a Kaszill em nossa base de operação. Partindo daqui,
começaremos nosso trabalho. Primeiro examinaremos a redondeza,
caminhando no sentido de onde deve estar a estação energética.
Infelizmente, o rastreador está quebrado, portanto, nossa sorte
depende de uma busca intensa. Temos que nos armar, para termos o
mínimo de garantia. Neste meio tempo, já dei uma olhada em volta.
Não longe daqui há um grande lago. Acho que é melhor caminharmos
um pouco ao longo dele.
Para
Zerft, isto foi um longo discurso. Liszog já terminara a limpeza da
tromba. Golath, que queria tomar o lugar do mais jovem, foi afastado
por Zerft.
— Acho
que agora é a minha vez — disse Zerft com toda fleuma.
— E por
que não? — respondeu Golath. — Vamos obedecer a esta ordem,
também para morrer.
Eram
estas, exatamente, as palavras que os unitros usavam nos momentos
decisivos de uma declaração de guerra.
*
* *
Antes de
parar à beira de uma extensa floresta, a Kaszill deixou no chão um
rastro profundo de uns cem metros de comprimento. A nave se dividiu,
sendo que a parte traseira com as turbinas ficou totalmente
calcinada.
Para os
três desterrados, isto não significava no momento outra coisa do
que um exílio definitivo naquele planeta. Podiam se dar por felizes
por ser um planeta com oxigênio, mais ou menos de acordo com o que
desejavam.
A Kaszill,
isto é, o que dela sobrou, estava mais ou menos entre a floresta e o
lago, cuja margem oposta só se percebia no horizonte como um traço
escuro.
Pela
posição do sol, Golath calculou que devia ser pouco antes do
meio-dia.
Ao saírem
da Kaszill bateu-lhes na face uma brisa agradável. Golath esticou
seu corpo, de frente para o sol, e respirou profundamente. Enquanto
repetia seu exercício de respiração, lembrava-se com horror do ar
viciado a bordo. Agora, com a fuselagem partida, este ar fresco
penetraria na nave, para onde haveriam de voltar. Pelo menos deste
ponto de vista, as providências tomadas até então por Zerft não
eram nada ruins. Assim, em intervalos regulares, o lavador de trombas
estava-lhes sempre à disposição.
Golath
estava até contente porque não se veriam obrigados a voltarem aos
primitivos costumes de seus antepassados, que limpavam as trombas
usando varas com folhas enroladas na ponta. Este modo de se proceder
a higiene da tromba não tinha mais boa aceitação na nova geração
e era mesmo considerado pejorativo.
— Vamos
descer para a margem do lago — a voz de Zerft interrompeu os
pensamentos de Golath. — É muito importante voltarmos antes de o
dia findar.
Ajeitou a
pistola de raios energéticos e fez um sinal aos dois outros. Liszog
ergueu a tromba em sinal de anuência. Golath apenas resmungou alguma
coisa. E o esquisito grupo se pôs a caminho.
Golath foi
o primeiro a vencer o trecho de declive que os separava do lago. Já
ia continuando sua marcha, quando Liszog deu um grito. O jovem unitro
apontava para frente.
— Ali na
frente o chão está calcinado — disse excitado.
Golath viu
também a mancha escura no chão. Zerft concordou e todos começaram
a correr na direção da estranha marca.
Num
círculo bem delimitado, capim, folhagem e arbustos estavam queimados
e parcialmente afundados no solo. Interessante foi o fato de que,
dentro do círculo, havia locais não atingidos pelo fogo.
— Com
toda certeza, isto aqui não foi um fogo natural — ponderou Zerft.
Inclinou-se
para frente e pegou do chão, com a tromba, pedaços de plantas
semicalcinadas.
— Qual é
sua opinião, Golath?
Golath,
cujos olhos penetrantes já haviam descoberto algo mais, respondeu
secamente:
— Foi
uma nave espacial. Ainda se podem ver os sinais dos apoios
telescópicos. Provavelmente foi uma nave arcônida.
— Como é
que você sabe disso? — perguntou Liszog inquieto.
— Pela
disposição dos apoios telescópicos e pelo modo como as plantas
foram queimadas — explicou ele.
Queria
provar ao jovem que era mais competente que Zerft para dirigir os
destinos dos três.
Zerft, de
repente, gritou alguma coisa para eles. Sua voz parecia excitada, o
que era coisa rara com ele. Golath olhou para baixo e ouviu também o
grito de Liszog.
— Uma
casa — gritou Golath triunfante. — E também uma pequena
espaçonave!
Todos
olharam ao mesmo tempo para baixo.
— Parece
que não há ninguém dentro — disse Liszog.
— Não é
verdade! — atalhou Zerft. — Do outro lado da casa há dois robôs
de combate. Venha!
Caminharam
um bom pedaço para frente.
— Daqui
vocês podem ver melhor. Para Golath bastou só um olhar. Liszog
ficou olhando mais tempo, mas acabou ficando branco como giz.
— Se nos
encontrarem, estaremos perdidos — choramingou ele.
— Isto é
verdade — disse Golath. — Contra estas máquinas, nada podemos
fazer. Aparentemente, estes robôs estão aí como vigias. Talvez
seja a moradia de um rico caçador arcônida que vem para cá
regularmente, a fim de controlar suas armadilhas.
Zerft
atirou para longe o pedaço de graveto queimado que ainda apertava na
mão.
— Lá
embaixo está uma excelente oportunidade para nós. Não apenas pelo
fato de ganharmos uma espaçonave, não, teremos oportunidade de
voltar com ela para Unitro. Está fora de dúvida de que se trata de
uma construção nova, cuja tecnologia não chegou ainda ao nosso
povo. Seríamos cumulados de honrarias se conseguíssemos raptar este
aparelho.
— Como é
que você está tão certo assim de que se trata de uma espaçonave?
— perguntou Liszog. — Pode ser também uma espécie de barco que
os arcônidas usam para pescar.
Zerft não
deu a menor importância à pergunta, e Golath indagou-se
mentalmente:
“Por
que eu escolhi para meu grupo um pateta como Liszog?”
Lá
embaixo estava o que eles precisavam urgentemente. Bastava apenas
descer e apanhar o aparelho. Infelizmente os dois robôs não iam
permitir uma coisa desta.
— Temos
que destruir os dois robôs — concluiu Zerft.
Mas, da
simples formulação da proposta até sua concretização, havia uma
grande distância. Zerft reconheceu mais uma vez o quanto dependiam
de Golath. Sem seus conhecimentos, não teria coragem de empreender
nada neste domínio.
— Provavelmente,
os robôs dispõem de um envoltório de proteção — aventou
Golath. — Ligam-no, porém, somente na hora de maior perigo, para
economizar energia. Se conseguirmos surpreender os dois robôs antes
que alguém ligue o envoltório magnético, não há dúvida de que
os dominaremos.
— Tudo
que fizemos até agora foi mais ou menos decorrência do fator sorte
— disse Zerft, sem olhar para Golath.
— Na
vida de um unitro existem sempre estes dois fatores: ter ou não ter
sorte — disse Golath em tom filosófico. — Se concentrarmos
nossos jatos energéticos e térmicos nos dois robôs e mantivermos
um fogo intenso, poderemos destruí-los.
— E o
que acontecerá se eles resistirem ao nosso ataque? — a voz de
Liszog estava insegura, chegou até gaguejar.
— Você
é capaz de correr mais do que nós — disse Golath com visível
ironia. — O resto, nós deixamos por conta da sua fantasia.
Em
flagrante contraste com outros dons seus, a fantasia de Liszog
parecia ser muito desenvolvida, pois sua tromba se enrolou em sinal
de um terror que não conseguia ocultar. Mas Zerft não deu muita
importância a seu companheiro mais moço.
— Vamos
resolver isto agora — e, dizendo isto, sacou de sua arma.
Golath e
Liszog seguiram seu exemplo. Três braços escuros e disformes se
levantaram. Três traves de segurança passaram para a posição de
fogo automático.
— Fogo!
— soou a voz clara de Zerft, na manhã de sol.
Da
espessura de um lápis, os raios térmicos, que se abriam levemente
em leque à medida que aumentava a distância, sibilaram de encontro
aos robôs. As máquinas não tiveram tempo para reação. Na densa
camada de fogo concentrado, os dois conjuntos eletrônicos foram
destruídos em poucos segundos.
— Basta!
— ordenou Zerft.
Liszog
olhou para o metal derretido no chão e suspirou baixinho. Seus
nervos quase não agüentaram aquele esforço todo. Zerft o tocou de
leve no ombro, para o tranqüilizar.
— Não
existem mais! — exclamou Golath. — Agora, nada mais nos pode
impedir.
— A não
ser que o dono destas lindas coisas aparecesse aqui inesperadamente —
interveio Zerft.
Golath
tocou com os dedos na coronha da arma.
— Isto
aqui e a nossa determinação haverão de nos proteger.
Ainda
antes do escurecer, Golath teve de constatar que existia neste
planeta um velho arcônida, que, quanto ao espírito de determinação,
em nada ficava devendo aos três unitros.
3
De início,
Crest julgou que fosse a Solar System que, por qualquer motivo,
estivesse regressando. Estava com seu barco mais ou menos no meio do
lago, quando o silêncio quase total em torno dele se quebrou. Um
silvo agudo, que logo se converteu num ronco ensurdecedor, encheu o
ar ao longo do lago. Crest retirou o remo da água e ficou olhando.
Era as primeiras horas da manhã. O céu ainda estava meio encoberto.
Naquele planeta de água em abundância, não era comum um dia de céu
aberto.
Crest
percebeu uma sombra escura, do formato de um charuto, passar a toda
velocidade por cima do lago. A espaçonave — Crest não tinha
dúvida de que só podia ser uma espaçonave — descreveu uma curva
de aterrissagem mais do que suicida, fazendo com que o velho arcônida
mentalmente chamasse seu piloto de doido. Umas centenas de metros
além da margem do lago, o objeto voador se chocou com o solo. Dali
surgiu uma enorme nuvem de fumaça, estendendo-se para bem longe.
O primeiro
pensamento de Crest foi prestar socorro imediato aos acidentados.
Maldisse o momento em que teve de ordenar aos robôs que desmontassem
de seu barco o possante motor. Não tinha nenhum prazer em fazer
corridas pelo lago, em altas velocidades. Assim, diariamente, logo
que o dia clareava, saía remando calmamente. O silêncio lhe fazia
bem, e seu maior prazer era apreciar a quantidade de peixes coloridos
brincando nas águas límpidas do lago.
Mas o
segundo pensamento de Crest foi mais realista e lhe salvou a vida.
Começou a refletir que o tipo de construção daquela espaçonave
levava a concluir não se tratar de um aparelho nem terrano e nem
arcônida. Deviam ser estrangeiros. Na mesma hora tomou vulto em
Crest uma grande preocupação, não por ele mesmo, mas pelo
Space-Jet que Rhodan lhe deixou. O cientista era um homem
experimentado. Pelas normas da probabilidade, seria grande leviandade
tomar como simples acaso o fato de eles terem descido exatamente ali.
Mais do que isto, Crest supunha acertadamente que o que atraíra os
estrangeiros fora certamente a estação energética que abastecia
sua casa.
Crest
sabia que era necessário cautela. Sua constituição física não
lhe permitia mais se atrever em aventuras perigosas. Calculou a
distância até sua casa. Mesmo que remasse com toda força, levaria
muito tempo até chegar à margem. Enquanto isto, os estranhos já
teriam chegado à sua residência. Olhou desanimado para a pequena
pistola de raios energéticos. Numa situação mais séria, não
seria suficiente. Felizmente, o Space-Jet estava garantido por um
envoltório magnético que só podia ser desfeito por um transmissor
codificado que Crest carregava sempre no pulso.
Depois de
muito refletir, o velho arcônida resolveu não se aproximar
diretamente de sua casa. Seria arriscado demais, se expor diretamente
ao alcance dos “visitantes”.
Devia caminhar por dentro da mata e ficar a algumas centenas de
metros de sua casa, em cautelosa observação. Pegou nos remos e deu
uma volta olhando para todos os lados. Estava procurando por um lugar
adequado.
Após
haver percorrido a metade do trecho, fez uma pausa para descansar.
Sua consciência continuava atormentada pelo pensamento de que talvez
não fossem assaltantes, mas pobres acidentados, que precisavam dele.
Havia em seu interior uma luta pelo desejo de chegar o quanto antes
ao local do acidente, a fim de cuidar das vítimas. Por mais que este
sentimento tivesse justificativa, tinha de ser adiado por algumas
horas. No momento, estava pensando com tristeza na desconfiança
reinante entre as raças das galáxias. Quando se encontravam, agiam
como se quisessem se prejudicar mutuamente. As controvérsias pela
hegemonia eram uma lei da natureza, sabia ele. Raças novas, em plena
expansão e progresso, como era o caso da humanidade terrana, não
podiam ser cerceadas em seu impulso sadio de crescimento. Devia-se
também compreender por que os povos mais antigos se defendiam,
tentando conservar alguma coisa de sua hegemonia. Em geral, eram
rivalidades comerciais que faziam com que duas frotas espaciais se
digladiassem. Mas até o desejo de exercer uma influência política
ou militar, provocava um aumento colossal das despesas de uma nação,
principalmente com armamentos. Quem não entrasse no círculo vicioso
da proliferação das armas, corria o risco de ver seu planeta ser um
dia invadido por uma frota estrangeira e ser declarado território
colonial.
Com estes
pensamentos, Crest reiniciou sua viagem. Estava novamente com os
remos nas mãos e seus velhos braços ainda davam boas remadas.
“Não
tenho relógio, um velho solitário não precisa de relógio”,
pensava ele.
Quando
sentiu que a quilha do barco tocou na areia da praia, já haviam
passado muitas horas.
Crest
saltou na areia e ancorou o barco, para mais tarde vir apanhá-lo. A
escarpa ali não era tão grande. Assim mesmo, o arcônida quase
perdeu o fôlego, até chegar no topo. Caminhar ao longo da praia
seria perigoso, não havia muita possibilidade para se esconder, em
caso de um ataque por cima. Crest apanhou seu capote e começou a
caminhada. Por um momento, o sol apareceu entre as nuvens, banhando
tudo numa luz amarelada e quente. Olhou mais uma vez para trás. De
onde estava agora, o barco parecia muito pequeno. Balançava
docemente nas pequenas ondas. Examinou sua arma. Há quantos decênios
já se vira obrigado a portar uma arma, com a intenção de só
usá-la em caso de extrema necessidade?
O velho
arcônida viajara por inúmeros planetas, sua vida toda estava cheia
de sofrimento e morte. Porém sentia-se espiritualmente maduro para
ver na arma apenas um mal necessário. A luta sempre existiu; desde o
surgimento da vida, que se luta e se destrói mutuamente. No correr
da longa evolução, veio a vida inteligente. Mas, mesmo assim, a
luta e o extermínio mútuo não cessaram. Os meios se aperfeiçoaram,
chegando-se mesmo à sofisticação. E a destruição continuou...
Crest
concentrou toda a sua atenção no ambiente que o cercava. Caminhava
de tal maneira que a qualquer momento poderia pular para dentro de
uma depressão do terreno. Não se iludia pensando que pudesse chegar
até ao jato sem ser visto, para depois ligar seu transmissor de
hiper-rádio. A escarpa formava uma pequena curva, de maneira que
Crest perdeu de vista o barco lá embaixo. Mas a casa devia surgir
logo diante dele. Andou mais depressa.
Atingiu o
local onde estivera a Solar System. Com muita hesitação, chegou até
a beira da pequena elevação. Dois metros depois, abaixou-se e foi
se arrastando pelo chão. Cinqüenta metros para baixo estava a
estação. Havia no ar um cheiro de algo queimado.
O coração
do velho começou a pulsar mais rápido. Lentamente foi avançando,
cuidando sempre de não permitir que alguma pedra ou coisa semelhante
rolasse morro abaixo. Finalmente chegou a uma boa distância.
Levantou a cabeça para espiar. A cena avistada deixou-o
completamente horrorizado.
Os dois
robôs de combate estavam destruídos ao lado da casa. Toda a parte
eletrônica e o metal da cabeça havia derretido. Mas isto não era o
pior.
O pior
mesmo eram os três vultos assustadores, monstros providos de
trombas, tentando chegar até o Space-Jet.
Crest
cerrou os olhos por uns instantes. Suas previsões mais sombrias
ficaram muito aquém dos fatos. Os três seres, tão esquisitos,
corriam em volta do disco voador, em visível excitação.
Naturalmente procuravam um meio de desfazer o envoltório de proteção
que cercava a mini-espaçonave. Uma das tentativas foi cavar com os
raios energéticos de suas pistolas um buraco no chão, para chegar
ao aparelho através um túnel. É claro que esta manobra não deu
certo. Apesar de tudo, os portadores de tromba não se arrefeceram
com a primeira desilusão. Com verdadeira obsessão, atacaram o
envoltório de todos os meios e fizeram todas as experiências
possíveis.
Por algum
tempo, Crest os observou completamente impassível. Depois sacou da
arma.
Foi um
movimento meramente automático, provocado pelo desejo subconsciente
de salvar o Space-Jet a todo custo. Acabou repondo a arma no
cinturão.
“Seu
maluco, você quer perder o jato e a sua vida também?”,
pensou, usando a razão.
Sua tensão
nervosa diminuiu um pouco. Mais do que depressa, abandonou seu posto
de observação.
Na melhor
das hipóteses, conseguiria eliminar um dos três monstros trombudos.
Depois ficaria infalivelmente entregue ao fogo de armas mais
potentes.
“Você
precisa de uma arma melhor”,
pensou, usando a parte mais sensata de sua mente. “Uma
daquelas que todos os membros da elite técnico-científica de Árcon
possuem. Você sabe onde pode encontrá-la.”
Era isto!
Aqueles
monstros esquisitos traziam armas pesadas. O estado em que ficaram os
dois robôs comprovava isto. Por sua vez, isto significava apenas que
nos destroços da nave dos “visitantes”
ainda existiriam mais armas.
Tinha que
chegar até a espaçonave acidentada o mais depressa possível.
Mais uma
vez, o arcônida hesitou.
E se os
indivíduos de tromba tivessem deixado algum vigia dentro de sua
nave?
Crest
olhou em volta. O lugar de descida da espaçonave dos estranhos devia
ficar mais ou menos na borda da floresta. Tentou divisar o tal local,
mas não conseguiu ver nada. E ele teria de resolver tudo em pouco
tempo... Não podia tomar em consideração seu estado de saúde.
Prometera a Rhodan que o Space-Jet jamais cairia nas mãos de
estranhos. Jamais lhe passara pela cabeça que ele mesmo é quem
teria que lutar por isso.
Enquanto
corria, olhava sempre em volta. Os seres de tromba poderiam aparecer
a cada momento no alto da colina, a fim de apanharem ferramentas para
seu trabalho de seqüestrar o Space-Jet. Mais de uma vez teve o
angustioso pressentimento de que uma mortífera pistola térmica
estivesse apontada para suas costas. Não tomou em consideração o
cansaço de suas pernas, pois não tinha tempo de dar atenção ao
velho trôpego que era. Era um velho alquebrado, mas tinha que agir
como um jovem.
Viu a
espaçonave dos estrangeiros, agora simplesmente seus agressores.
Olhou mais uma vez para trás. A planície às suas costas não
apresentava nada de anormal. Ao constatar que a espaçonave dos
estrangeiros tornara-se um montão de escombros, seus cuidados pelo
Space-Jet aumentaram. Seus adversários achavam-se obrigados a raptar
o Space-Jet se não quisessem radicar-se naquele planeta. O cientista
podia imaginar que os três monstros tentariam tudo para destruir o
envoltório de proteção.
Crest
dedicou sua atenção mais para a parte menos danificada do aparelho.
Poderia entrar por vários lugares. Pela escotilha aberta e pelo lado
onde havia um enorme rombo. Além disso, havia na frente uma fenda
regular, suficientemente larga para um homem entrar.
Crest
preferiu a entrada pela escotilha. Constantemente apalpava sua
pistola energética. Mas não apareceu ninguém para detê-lo. Subiu
os degraus da escotilha. Havia relativa claridade dentro, facilitando
seu trabalho. O olhar inteligente e experimentado de Crest reconheceu
logo que se tratava de um aparelho por demais antiquado.
Acima da
escotilha havia uma inscrição, cujo significado não pôde
entender. Continuou caminhando para frente. Uma parte dos corredores
estava interrompida e destruída. No chão, muitos pedaços de metal
e de plástico. Passou por cima deles. Chegou a um recinto cheio de
instrumentos de todos os tipos. Não teve tempo de se preocupar para
que serviam. Seu único pensamento era encontrar armas. Subiu numa
espécie de cavalete, atrás do qual pendiam da parede cabos
flexíveis em espiral.
Não pôde
ir além!
Percebeu
que fora seguro por trás e enlaçado no pescoço. Sua pistola
energética rolou pelo chão. Crest soltou um grito de quem está
sendo sufocado e olhou para seu inimigo. Seu agressor era de natureza
mecânica.
Dois
daqueles cabos espirais, de um formato singular, saíram da parede e
enlaçaram Crest como uma cobra gigante.
“Uma
armadilha!”,
pensou desesperado, “colocaram
uma armadilha aqui.”
Usando de
toda sua força, tentou se desvencilhar, mas teve de convir que era
inútil. A armadilha automática o segurava com laços acima de
qualquer força humana. Foi impelido de encontro ao chão, ali no
meio do depósito, desistindo então de qualquer reação. Dos dois
lados da misteriosa armadilha, apareceram grossas tiras que passavam
por sobre o corpo de Crest, enfaixando-o todo, podendo agora só
mover a cabeça.
Desesperado,
Crest viu que uma espécie de grande almofada de carimbo se abaixava
sobre ele, empurrando sua testa para baixo. Maldisse sua falta de
cautela. Mas já era tarde para tais ponderações. Enrolado por
aquelas faixas, estava totalmente entregue à maluca máquina.
Antes de
poder pensar em como livrar-se, surgiu uma espiral diante de seu
rosto. Na sua extremidade sobressaía uma haste envolvida por um
material aparentemente poroso e macio. Dali gotejava um líquido
claro. Crest tinha impressão de estar sonhando. O material gotejante
girava em torno de seu nariz e o velho arcônida reparou que a haste
tinha um lento movimento de rotação. Além do mais, aquele
mecanismo exótico produzia um estranho ruído, como de um leve ronco
de pessoa que dorme: bizz... bizz...
*
* *
Esgotado,
Golath saiu daquela depressão do terreno e se deixou cair no chão.
Estava tão enfurecido que nem quis olhar para a cara de Zerft. Sabia
desde o início que o método estava completamente errado. Não se
podia romper um envoltório magnético daquele jeito primitivo. E,
apesar de tudo, Zerft exigia que se prosseguisse no trabalho
estúpido.
— O que
há? — perguntou Zerft zangado.
— Estou
muito cansado — explicou Golath. — Deste jeito não chegaremos a
nenhum resultado. Talvez daremos um jeito com as ferramentas que
temos na Kaszill.
— Nada
disso! O negócio vai ser muito mais simples — continuou o cabeçudo
do Zerft. — O próprio dono deste aparelho também não poderá
romper o envoltório. Terá antes que desligá-lo, para entrar na
pequena nave. E isto deve acontecer logo, portanto tem que haver um
meio seguro de romper esta barreira.
— Não
há dúvida — concordou Golath. — Para ele é muito fácil mesmo.
Zerft
parecia querer dominar o pequeno aparelho com a força de seus olhos.
Não parava de fitá-lo intensamente.
— Quais
são nossas possibilidades? Golath estava refletindo.
— Vamos
tentar desmontar alguns geradores da Kaszill. Quem sabe conseguimos
absorver a energia do envoltório, ou desviá-la de tal modo que
surja uma brecha em outro ponto.
— Isto é
claríssimo como água — disse o pouco entendido Zerft. — Vamos
esperar um pouco pelo Liszog, para ver se ele descobre na casa alguma
possibilidade de entrarmos no aparelho.
A
expressão de enfado de Golath era tanto para a ignorância técnica
de Zerft, como para as surpreendentes qualidades de pesquisador de
Liszog. Golath sentia a necessidade urgente de proceder a uma limpeza
em sua tromba. Sabia também que, mais cedo ou mais tarde, teria de
ocorrer uma briga mais séria com Zerft. Já estava saturado de
receber ordens bobas do unitro espadaúdo. Zerft não era nem mais
inteligente do que Liszog. Para falar francamente: não passava de um
ladrão primitivo, incompetente até para roubar.
Resolveram
ir até a solitária casa. Uma fumaça azulada saía lá de dentro.
Golath já estava tossindo e seus olhos perceberam a figura de
Liszog, que vinha pulando com movimentos desesperados, acompanhados
de gritos de dor. Numa das mãos tinha a pistola de raios térmicos,
a outra estava escondida sob a tromba. Golath percebeu que ele estava
sangrando.
Zerft foi
ao encontro de Liszog. A tromba de Golath estava enrolada devido à
irritação da forte fumaça do interior da casa.
— Contra
o que você atirou? — perguntou Zerft, preocupado.
— Contra
uma máquina — disse ele, em prantos.
Golath fez
um gesto de surpresa.
— Atirou
num robô?
— Não —
respondeu Liszog, já mais calmo. — Atirei mesmo numa máquina.
— Por
que motivo? — queria saber Zerft.
— Porque
ela me machucou. Havia vários interruptores e eu pensei que tivessem
alguma coisa com a pequena espaçonave lá fora. Então apertei um
destes botões.
— E o
que aconteceu?
— Um
negócio quadrado, cheio de buracos, começou a roncar — disse
Liszog em voz mais baixa. — Vi que alguma coisa se mexia nestes
buracos. Botei a mão lá dentro e ela foi puxada. Quando a consegui
retirar, já estava toda ferida.
— Mas
por que que você atirou? — perguntou Golath.
Liszog
olhou para ele. Os olhos do jovem expressavam medo e Golath começou
de repente a ter dó do pobre coitado.
— Não
sei por que usei da arma.
— Naturalmente
ele se descontrolou e perdeu a cabeça — disse Zerft aborrecido. —
Ele é mais medroso do que uma mulher velha. Com esse negócio de
atirar sem mais nem menos, vai acabar nos causando muitos
aborrecimentos.
— Vou
dar uma olhada lá dentro para ver em que ele atirou — disse
Golath.
Zerft
concordou. Ele mesmo não agüentava mais entrar devido à fumaça.
Saiu caminhando com Liszog para fora da casa. Sentaram-se no chão e
ficaram esperando.
Segundos
depois, voltou Golath.
— Então?
— perguntou Zerft, se levantando.
Golath
olhou para ele pensativo:
— Foi de
fato numa máquina — disse bem devagar. — Numa máquina até bem
especial...
Liszog
ergueu a cabeça, mais feliz. Quem sabe teria conseguido com seu
gesto prestar um grande serviço aos seus colegas!
Zerft
olhou para Golath com impaciência.
— Uma
máquina especial para quê?
— Para
moer alimentos mais duros.
Liszog
quase teve um desmaio e Zerft o olhou com desprezo.
— Temos
que regressar à Kaszill — continuou Golath com toda calma. —
Precisamos apanhar as ferramentas, e Liszog fazer um curativo na mão.
Agora,
Zerft não teve nada para se opor. Sem dizer uma palavra, saiu na
frente. Cabisbaixo, Liszog caminhava atrás de seus dois
companheiros.
*
* *
Crest
encontrava-se na situação nada invejável de um homem que vê
desenrolar diante de seus olhos um grandioso espetáculo no qual ele
ocupa o papel principal, mas não pode intervir em nenhuma fase dos
acontecimentos. O arcônida já havia compreendido que aquela máquina
não era propriamente uma armadilha intencional. Fora sua
imprevidência que desencadeara todo aquele processo automático, que
tinha naturalmente um determinado fim. Inutilmente, o velho arcônida
quebrava a cabeça, querendo saber para que serviam as várias
espirais e cabos de aço que, em constante alternância, apareciam
diante de seu rosto, procurando alguma coisa de que o velho cientista
não dispunha. Quando terminasse sua função, o robô haveria de
desligar-se sozinho. E Crest acabaria não sabendo que função era
esta.
Havia uma
outra possibilidade para terminar a função da máquina, que
infelizmente equivalia à morte de Crest: a chegada dos indivíduos
de tromba.
Crest
esperava para qualquer momento o aparecimento de um daqueles
estranhos seres com a pistola de raios térmicos na mão.
Com força
física, o cientista não ia se livrar daquela situação. Suas
forças debilitadas não seriam suficientes para rebentar as tiras
metálicas que o prendiam àquele estrado. Uma salvação só seria
possível se o robô reconhecesse que havia cometido um engano. Num
desespero mudo, Crest procurou ouvir alguma voz interna, mas seu lado
lógico também emudecera.
— Bizz...
bizz... — era o que Crest ouvia continuamente, abalando ainda mais
seu sistema nervoso.

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