terça-feira, 23 de agosto de 2016

P-088 - O Caso Columbus - K. H. Scheer [Parte 3]

Agora a situação era outra. Atrás dos canhões das supernaves terranas estavam homens de alta qualificação técnica, que, além de tudo, sabiam por que estavam arriscando sua vida.
Somente o novo couraçado Wellington, no curto espaço de oito minutos, conseguiu fazer vinte e sete disparos, sem ser atingido seriamente. Seu poderoso envoltório de proteção resistia a tudo que os druufs podiam fazer.
Os outros supercouraçados também não tiveram muito trabalho com os invasores e puderam olhar a situação com mais calma. A ponta de lança do ataque druuf estava dominada. Porém, uma hora mais tarde, eles se reorganizaram novamente.
Mais ou menos nesta hora, o General Deringhouse chamou a nave capitânia. Seu rosto comprido, denotando grande cansaço, apareceu na grande tela da nave de Rhodan. Este se postou diante do vídeo.
Sir, conforme meus cálculos, dentro de trinta minutos Plutão vai cair nas mãos do inimigo. Não posso mais me arriscar em deixar as grandes espaçonaves na linha de frente. Os druufs estão começando a atacar todas as naves maiores com um fogo concentrado de mais de cinqüenta aparelhos. Nossa maior agilidade de manobra nos livrou até agora do pior. Sir, que pretende fazer?
Rhodan simplesmente deu ordem de retirada. Plutão seria evacuado e as instalações de defesa, entregues aos robôs. As esquadrilhas mais avançadas recuaram até a órbita de Saturno, onde se reuniram, formando novos grupos.
Rhodan esperou até que chegassem os boletins das últimas perdas. Quando os números foram conhecidos, olhando para os oficiais do estado-maior, sentenciou:
Meus senhores, o ponto crítico chegou. Se tivéssemos mais algumas naves, não precisaríamos pedir o auxílio de Atlan. Os senhores farão alguma objeção em chamarmos nosso amigo Atlan?
Eu já teria feito isto há mais de vinte e quatro horas — disse Reginald Bell, com calma. — Nossas perdas são horrorosas. O fato de já termos abatido mais de duas mil naves dos druufs, não nos vai ajudar muito, no balanço geral. Ninguém tem objeções a fazer.
Sem dizer uma palavra, Rhodan voltou para a central de comando. Foi o momento mais importante na história da raça humana. Perry Rhodan, primeiro administrador do Império Solar, resolvera abrir mão do segredo da localização da Terra, mantido até então com tanta firmeza e prudência.
A ligação por hipercomunicador, preparada já há muito tempo, se fez em menos de quatro minutos. Podia-se ver claramente o rosto de Atlan. A enorme distância de 34 mil anos-luz não representava nada para as freqüências do hiper-rádio.
Já chegou a este ponto? — perguntou o arcônida sério. — Estou acompanhando o ataque há algumas horas. Cinco cruzadores robotizados estão nas redondezas de Capela. Você quer meu auxílio? Em caso afirmativo, não se esqueça de que não poderei manter por muito tempo o que lhe prometi.
Peço o apoio do Grande Império — respondeu Rhodan, gaguejando um pouco. — Atlan, estamos sendo atacados por cerca de oito mil naves dos druufs. Acho que ainda consigo manter a resistência por mais vinte e quatro horas. Depois disso, atacarão a Terra e Vênus através de Marte.
Todas as ligações já estão preparadas. Tenho a impressão de que estes insetos monstruosos vão fazer tudo para deter as forças arcônidas na zona de descarga. Vou lhe mandar tudo que não me for indispensável. Daqui a dez ou doze horas, a frota chegará aí. Estão ainda em vigor as nossas velhas senhas de reconhecimento?
Sem exceção. Vou avisar os comandantes terranos. Os sinalizadores de impulso receberão logo a programação combinada.
Depois que o arcônida desligou, Rhodan ainda ficou longo tempo diante da tela. Acreditou que estava recebendo nas costas os olhares de todos os seus oficiais superiores.
Caso você nos pergunte se o consideramos um traidor, vou ficar realmente zangado — disse alguém.
Rhodan virou-se para trás. Reginald Bell o encarava. Os olhares dos dois homens se encontraram, até que Rhodan disse em voz baixa:
Não... não vou perguntar. Santo Deus, como tudo isto foi tão simples. Com um simples radiograma, a gente destrói tudo que se construiu em setenta anos. Daqui em diante, a Terra estará aberta, franqueada para amigos e inimigos. Vai começar uma nova época.
Eu me alegro com isto, Sir — disse o Marechal Freyt. — Nós não poderíamos nos esconder mais por muito tempo.
6



Allan D. Mercant havia iniciado a reunião às 13:30, hora padrão, no grande salão da tripulação do cruzador Califórnia. Estavam presentes todos os membros da tripulação da nave e os especialistas do exército de mutantes. Perry Rhodan não se achava ali. Tinha outros assuntos importantes para resolver. Os preparativos para a ação dos mutantes era um assunto exclusivo do setor geral da defesa.
No sistema solar, estrugia a mais dura das batalhas. A Humanidade fora obrigada a pegar em armas. Além do sistema solar, reinava calma na imensidão do espaço.
Mercant foi sucinto:
Os acontecimentos provam que os senhores e as senhoras, apesar de seus dons sobrenaturais, não têm o poder de se opor aos invasores. Isto é uma guerra, ou melhor, uma batalha aberta, que, realmente, não tem nada a ver com as suas atividades de agentes de forças paranormais. Entre os senhores, apenas os três teleportadores teriam uma possibilidade limitada de destruir naves inimigas, transportando explosivos nucleares. Gucky já experimentou atacar desta maneira. Foi bem-sucedido em dois casos. Na sua terceira teleportação, errou o alvo móvel e quase foi morto.
O druuf decolou, exatamente quando eu estava me concentrando — ouviu-se alguém dizer, em tom de voz fina, nos fundos da sala.
Podia-se ver a figura pequena do rato-castor.
Eu pulei para fora, exatamente para fora, coisa que nunca me aconteceu.
E isto vai acontecer muitas vezes. Numa aglomeração de tantos milhares de espaçonaves assim, de todos os tipos, a intervenção dos mutantes se torna irracional, pelo menos desta forma. Permaneçam, portanto, no campo de ação que lhes é peculiar e deixem a batalha apenas para as espaçonaves.
Mercant interrompeu seu discurso e cumprimentou o administrador do Império Solar, que estava entrando naquele momento. Rhodan agradeceu rapidamente. Sobre sua cabeça, pairou Harno, o singular ente esférico.
Já está pronto, Marshall, confia no nosso plano?
A figura imponente de Marshall se destacou dos corpos que estavam agrupados rente à parede.
Tudo em ordem, Sir. Estamos experimentando. Sei que telepatas e pessoas de meu tipo não podem fazer muita coisa numa batalha aberta.
Isto já foi dito, há anos, por um homem sábio e experimentado — disse Rhodan. — Seu nome é Atlan. Para sua informação: pedi o auxílio dele. Vai nos enviar todas as naves de que não estiver precisando no momento. Apesar disso, temos que tentar tudo. A Drusus vai partir daqui a alguns minutos para fora da frente de batalha e o Major Tifflor a acompanhará com a Califórnia. Vou mandar instalar para você um dispositivo de lentes, através do qual possa enxergar, perfeitamente, o Universo dos druufs. Aproveite o grande poder de aceleração do cruzador. Entre em contato com a base de Hades. Gucky pode tentar encontrar Ernst Ellert. Parece que ele está em dificuldades. Penetre no sistema de Siamed e passe a averiguar se realmente existe a estação espacial anunciada por Rous. Se esta instalação corresponde de lato a uma usina voadora para construção dos funis de descarga artificiais. A seguir, faça o que achar melhor.
Tifflor e você, Marshall, trabalharão juntos. Tifflor controlará a nave Califórnia e Marshall colocará os mutantes preparados para atuarem. Mas, de qualquer maneira, você deverá tentar destruir esta estação espacial. Terá muitas oportunidades, pois um empreendimento deste tipo é um ótimo campo de ação para suas forças mentais. Agora, uma coisa: de mim vocês não podem esperar socorro. Ficarei demasiadamente ocupado por aqui. Estejam bem compenetrados de que vão estar entregues às suas próprias forças. Também não lhes posso prometer auxílio por intermédio dos transmissores fictícios. Todos os instrumentos existentes nos supercouraçados estão sendo usados para salvamento urgente dos feridos e acidentados. Os tripulantes das naves atingidas estão sendo levados para outras unidades com o auxílio dos transmissores fictícios.
Vocês estão vendo como nossa situação é difícil. Não quero ainda usar a expressão ‘desesperadora’, mas pode ser que, em futuro próximo, tenhamos que usá-la.”
Depois de pequena pausa, Rhodan continuou:
Nós todos somos homens, temos uma pátria comum, a nossa Terra. Gucky e Harno pertencem ao nosso meio. Não consideramos como monstros outras inteligências que existam no espaço, se forem justas e honestas. Ninguém é responsável por seus aspectos exteriores.
Muito obrigado, pelo que me toca — disse Gucky lá dos fundos.
Seu dente roedor estava à vista.
Não estava me referindo a você — disse Rhodan sorrindo.
E este sorriso quebrou um pouco a tensão expressa no rosto dos homens que o ouviam. Era como se Rhodan tivesse rompido uma barreira.
Os senhores precisam saber que a empreitada é dura. Se tudo correr bem, os senhores irão separar a base de suprimento dos druufs de sua frota que está em combate. Isto será meia vitória. Naturalmente ainda continuaria o problema de liquidarmos com o restante dos aparelhos inimigos. Este problema não diz respeito aos senhores, mas sim a nós, aqui no nosso Universo. Procurem a todo custo destruir esta estação espacial. Guerra é guerra. Se forem obrigados a atacar com armas atômicas, lembrem-se de que estamos defendendo a Humanidade. Não deixará de ser uma legítima defesa. Bem... é tudo que pretendia dizer. Resta ainda alguma dúvida?
Rhodan olhou para o relógio. Marshall ainda se informou sobre a extensão da missão de Harno, televisor vivo.
Harno fica aqui — resolveu Rhodan. — Vou precisar de seus dons com urgência, para poder regular corretamente o transmissor fictício da Drusus. Quero atacar com ele as naves mais importantes dos druufs.
Logo em seguida, o chefe do Império Solar voltou para a nave capitânia, em cujo flanco estava ancorada a Califórnia, que media apenas 100 metros de comprimento.
O cruzador se desprendeu de suas travas magnéticas, decolou e pouco depois entrou em transição. Era a única nave do Império Solar que ainda dispunha de uma estação especial a bordo para instalação do campo óptico.
Atrás dela, desapareceu também no hiperespaço a Califórnia. Ambas se rematerializaram, depois de um longo salto, nas proximidades da frente de bloqueio, que distava mais ou menos 6.300 dias-luz da Terra.
A duas horas-luz da tal frente, estavam lutando as grandes esquadrilhas da frota arcônida com os druufs que irrompiam do funil de descarga. Era evidente que os seres estranhos faziam de tudo para se aproximar das unidades arcônidas. Além disso, se notava facilmente que esquadrilhas inteiras estavam se afastando da frente de combate. Assim, Rhodan se convenceu de que Atlan estava cumprindo sua palavra, isto é, dando ordens de que estas esquadrilhas voassem para o sistema solar.
Mas ninguém sabia que ele, Atlan, estava atrás do cérebro robotizado. Suas ordens eram transmitidas na freqüência conhecida do grande cérebro, motivo pelo qual eram obedecidas imediatamente.
A Califórnia estava apenas a cem quilômetros atrás da Drusus que freava com toda força. Tifflor iniciou também as manobras de frenagem. Quando a nave capitânia parou, ele desviou cauteloso a Califórnia. Rhodan apareceu na tela do vídeo de telecomunicação.
Bom trabalho. Chegamos bem. Se você penetrar por este lado, deverá sair perto do sistema Siamed. Em todas as suas operações, não se esqueça de que os pontos de referência do espaço de cinco dimensões não são idênticos aos do de quarto. Não se admire, portanto, quando você descobrir a mencionada estação espacial do planeta Druufon, embora o funil de descarga produzido por ela esteja a cerca de seis mil e trezentos anos-luz de distância, bem rente da Terra. Trata-se de um processo de ligação, para o qual a separação espacial nada representa. Aqui estão as últimas instruções:
Se vocês forem bem-sucedidos, nós o saberemos pelo desaparecimento repentino do funil. Neste caso, virei com a Drusus até este setor do espaço, instalo aí um campo refletor e os apanho. Se o ataque de vocês fracassar, ou se a suposta existência desta estação energética voadora se baseia num erro, vocês voarão para Hades e lá aguardarão novas instruções. Tentarei, neste caso, tirá-los de Hades através de uma nave com transmissor fictício. Está tudo claro? Então, mãos à obra.

* * *

Julian Tifflor sentiu umas agulhadas dolorosas na região dos rins, quando, bem rente de seu cruzador, se desenhou aquele fenômeno luminoso, causado pela aproximação da Drusus.
Lembrou-se, neste momento, de sua primeira missão, realizada em obediência a uma ordem de Rhodan. Tratava-se, naquela época, de enganar os comerciantes das Galáxias. Julian Tifflor estava se recordando. Naquele tempo, ele era ainda bem jovem. Um rapaz que, para perplexidade de seus colegas, foi arrancado dos bancos da Academia, em plena época de provas finais. Um cirurgião terrano lhe implantara no corpo um pequeno aparelho. Tratava-se de um sinalizador orgânico, que servia para localizá-lo onde quer que estivesse. Este micro aparelho estava implantado em sua cavidade renal...
No momento, a situação era esta: bem próximo da Califórnia, formou-se um campo de transição, de onde partiam os diferentes influxos energéticos dos dois tipos de espaço. Um círculo luminoso de apenas trezentos metros de diâmetro surgiu no meio do espaço sombrio. O que havia por trás dele, não se podia explicar com poucas palavras.
O rosto de Tifflor, que se mantinha admiravelmente jovem, mostrava traços de preocupação. Acabaram-se os sonhos e recordações da juventude. Só um pensamento podia haver em sua cabeça neste instante: a sobrevivência da Terra.
John Marshall, um dos primeiros elementos do Exército de Mutantes, estava de pé, atrás dele. Tifflor fitou aqueles olhos, cuja expressão não permitia nenhuma conclusão sobre os sentimentos de Marshall. Quase a contragosto, disse o comandante:
John, temos de nos desejar boa sorte. Estava há pouco pensando nos bons velhos tempos.
Eu também, Tiff — respondeu Marshall em voz baixa. — Você sabe que nós já devíamos estar mortos há muito tempo? Recebemos a ducha celular renovadora do planeta Peregrino e nosso processo natural de envelhecimento foi suspenso temporariamente. Tiff, em certo sentido, esta poderá ser nossa última missão.
Autorização para decolar — soou a voz de Rhodan nos alto-falantes. — Vamos, o que estão esperando? Não percam tempo.
Julian Tifflor deu as ordens necessárias. Com os motores de propulsão funcionando com pouco ruído, o mais moderno cruzador da Terra deslizou em direção ao círculo luminoso. Pequenas correções o colocaram exatamente no centro do campo. Trinta mil metros antes, Tifflor passou para velocidade mais elevada. O fogo-fátuo ficou mais visível e depois desapareceu. Uma dor breve, mas penetrante se fez sentir em toda a tripulação. A comunicação de rádio com a Drusus cessou repentinamente. As últimas palavras de Rhodan não foram mais ouvidas.
Manobra terminada, Sir — soou a voz do segundo-oficial. — Já atravessamos.
Tifflor se dirigiu para as telas. O que elas mostravam não era outra coisa que o monótono e sombrio Universo dos druufs, onde todas as colorações se fundiam num avermelhado forte. Era o quadro de sempre. Quantas vezes Tifflor já havia visto isto!
Os instrumentos de rastreamento da Califórnia começaram a trabalhar. A uma distância de pouco mais de dois anos-luz, constatou-se intenso movimento de espaçonaves. Simultaneamente, veio a comunicação de que o duplo sol captado pelo rastreador de matéria era idêntico ao do sistema Siamed.
O gigantesco sol tinha um companheiro de brilho esverdeado. Já que não era coisa rara encontrar-se um sol duplo rodeado de planetas, ninguém se mostrou preocupado.
Mas a situação se alterou, quando se constatou a multiplicidade de órbitas dos 62 planetas. Uns giravam apenas em torno do sol maior, outros davam volta em torno dos dois sóis e um terceiro grupo serpenteava em órbitas aparentemente contraditórias, por entre os fortes campos de gravitação dos dois sóis.
O sistema Siamed foi sempre um pesadelo para Julian Tifflor. Nada aqui parecia normal, era tudo imprevisível. Acrescia a tudo isto a grande variação de tempo do sistema, de cujas dimensões não se sabia muita coisa. A cosmonáutica dos terranos se contentara em estudar mais seriamente apenas o sistema pátrio dos druufs. O que se passava nos planetas dos diversos sóis estava além dos conhecimentos de Tifflor. Para ele parecia suficiente saber de que maneira se entrava neste quase inferno.
A Califórnia estava parada no espaço.
Desapareceu o campo de refração — disse o “goniômetro” Tanaka Seiko, através do rádio.
Tifflor passou a mão pelos cabelos. Seu rosto jovem, de barba feita, parecia indeciso. Olhou em volta, meio desajeitado.
Mas é isto mesmo. Tínhamos que contar com isto. Certamente a presença da Drusus se tornou necessária na frente de combate. Marshall, o que você propõe agora? Infelizmente não nos foi possível receber instruções mais detalhadas.
Marshall se aproximou mais das telas do vídeo. A galeria das diversas telas, de ordinário repletas do argênteo cintilar de grandes estrelas, tinha agora um aspecto sombrio, deprimente.
Os rastreadores estruturais do cruzador mantinham o ruído de sempre. A uma distância de apenas dois anos-luz, havia grandes levas de espaçonaves que tentavam penetrar num funil de descarga formado pela própria natureza ou imergir na estreita garganta energética.
O número tão grande de naves desenvolvia um volume tal de energia que as freqüências próprias, já existentes no funil de descarga, recebiam uma sobrecarga grande demais. Marshall se dirigiu mais vezes à central de rastreamento, mas ninguém lhe conseguiu dar maiores explicações.
Uma coisa, porém, estava certa: o cálculo de Rhodan fora exato. Estavam bem próximos do sistema pátrio dos druufs, onde devia estar localizada a misteriosa estação espacial.
Não se conseguia ainda encontrá-la. As distâncias eram demasiadamente grandes, o número fantástico de planetas os confundia muito e os motores de propulsão das inúmeras naves, que funcionavam a todo vapor, ainda contribuíam para fazer desaparecer os poucos vestígios do mundo druuf.
John Marshall surpreendeu-se pronunciando uma terrível imprecação que deixou a mutante Betty Toufry horrorizada.
John!... — disse ela com ar de repreensão.
O rato-castor caiu numa risada estridente. Parecia ser o único completamente calmo a bordo.
Aparentemente enfastiado da longa espera, o pequeno animal começou a andar pela central. Depois esticou as patas dianteiras e se apoiou na larga cauda de castor, com todo conforto.
Ah!... se eu não existisse... — declarou cheio de si.
Medroso — disse o mutante de duas cabeças Goratchim. Ivan, o mais velho, sorriu feliz.
O focinho pontiagudo de Gucky se contraiu numa expressão de desprezo. Suas orelhas viraram para a direção do gigante de dois metros e meio.
Ninguém está falando com vocês. E tem mais: cheguei à conclusão de que...
Como? — interrompeu Marshall. — Você chegou à conclusão de que nós não temos outra opção a não ser pular para o interior do sistema, não é?
Exatamente — confirmou Gucky. — O que vocês pretendem fazer? Estamos aqui completamente isolados. Em Hades não há nenhum telepata, e eu não acho conveniente usar um hiper-rádio. Ernst Ellert é um bom telepata, mas me parece que está demasiadamente ocupado com este cientista druuf. Venho observando há tempo como Onot tenta escapar da influência mental de Ellert. Assim sendo, não há outro jeito, a não ser...
A não ser o quê? — acudiu novamente Marshall.
Não gosto muito de ser interrompido a cada instante. Isto é falta de respeito. Posso falar ou não?
Marshall resignado fez um sinal afirmativo. Tifflor sentou-se pacientemente na primeira cadeira.
Então vamos lá — disse Gucky mais tranqüilo. — Sugiro penetrarmos pelo menos dez horas-luz. Desta distância poderei entrar em contato com Ellert, com toda certeza. Se for necessário, John, Betty, Ishy Matsu e eu teremos que formar um bloco ou uma corrente mental para atingirmos de fato Ellert. Ele haverá de saber onde devemos procurar esta estação espacial. Talvez não precisemos enviar um radiograma ao Capitão Rous. Ele se encontra agora no décimo terceiro planeta. Quando a usina voadora explodir, ele logo saberá que fomos nós os autores da façanha. O que os senhores dizem do meu plano?
Marshall, muito pensativo, continuou limpando as unhas.
Hum...! — pigarreou evasivamente a mutante telepata Ishy Matsu.
John Marshall enfiou as mãos nos bolsos da calça. Seu olhar procurou o comandante da Califórnia.
Tiff, que diz você de tudo isto? Tem o nosso amigo de fato uma boa idéia, ou você possui outros planos?
Não vejo caminho melhor do que este. Haveria outras possibilidades, mas muito complicadas e perigosas. Vamos arriscar. Tenho que encontrar o início do funil de descarga, independente do fato de ele se achar num planeta ou numa estação espacial. Só desejo uma coisa, é que nossos agentes não tenham se enganado. E se a garganta de transição for de origem natural, podemos voltar satisfeitos.
O semblante de Marshall se anuviou. Tifflor não gostou quando percebeu o olhar sério do telepata.
Não, não podemos... — opôs-se o chefe dos mutantes. — Pelo que Atlan contava sobre a submersão da Atlântida, sabemos que ele conseguiu, naquela época, fazer desmoronar semelhantes formações energéticas por meio de fogo cerrado de mecanismos de impulsos reativados. Possivelmente, vamos nos orientar por estes dados e aproveitar a experiência dos velhos arcônidas, ou melhor, fazer o que seus cosmonautas fizeram já há milênios. Está certo? Vamos embora?
Tifflor se levantou. Tinha compreendido tudo muito bem. John Marshall estava firme na sua resolução de terminar com o estranho fenômeno, de um modo ou de outro. Os mutantes voltaram à sala, pois não tinham nada a ver com o comando da nave.
Meia hora mais tarde, já estavam prontos os cálculos para a transição. Tifflor os conferiu três vezes, para que houvesse absoluta segurança nos dados mais complicados. Conforme os cálculos, a Califórnia haveria de chegar ao ponto do hiperespaço, que equivalia para os druufs ao que é para nós o espaço de Einstein. Já este fato bastaria para provar, logo que penetrassem no segundo plano temporal, que a nave estava no local certo.
Transição cerca de seis minutos após a partida — comunicou Tifflor através dos alto-falantes. — Colocar os trajes espaciais. Os mutantes, que sairão em missão, devem usar os uniformes arcônidas de combate. Pode ser que os teleportadores tenham de saltar antes do tempo combinado. Não gostaria de perder uma excelente oportunidade por mero descuido. Marshall, por favor, apanhe com o oficial do almoxarife as microbombas já preparadas, distribuindo-as com seu pessoal. O negócio tem de ser bem feito.
Havia um novo surto de vida dentro do pequeno cruzador. Com os motores funcionando em plena carga, foi dada a partida. Os cento e cinqüenta tripulantes já estavam familiarizados com o grande abalo nervoso, que então se iniciava. Fazia-se até o impossível para que todas as mensagens fossem rápidas e claras.
Os dispositivos de absorção de pressão amorteciam as alucinantes forças da inércia, provenientes da súbita aceleração.
Ninguém a bordo notou que a Califórnia varava o estranho universo druuf a mil quilômetros por segundo. Para Julian Tifflor, as qualidades daquela pequena nave eram excelentes. Embora, do ponto de vista de armamentos, a Terra fosse inferior a Druufon, os descendentes de inseto não podiam apresentar um aparelho que se comparasse à Califórnia, principalmente no tocante aos grandes valores de aceleração. Além disso, os aparelhos dos druufs, exatamente devido à grande diversidade de planos de tempo, conseguiam no máximo atingir a metade da velocidade da luz.
A situação, porém, se alterava assim que passavam para a transição linear. Aí, novamente, eram superiores às construções terranas.
Depois de alguns minutos, a carcaça do cruzador começou a vibrar intensamente. Os motores de propulsão já estavam funcionando com injeção extra de combustível, para que a velocidade fosse mantida nos valores previstos. Dez segundos antes da transição, Tifflor ligou as telas da instalação do intercomunicador.
Vamos saltar. Está tudo em ordem com você, John?
Certo, está tudo bem. Boa sorte! Veio então a dor da desmaterialização, penetrando até na medula dos ossos. Já deviam estar acostumados, no entanto cada salto parecia ser o primeiro, uma verdadeira tortura...
A nave Califórnia desapareceu do plano normal dos druufs. Não houve a onda de abalos, devido ao fato de estarem ligados os aparelhos de absorção estrutural.
Surgia assim a possibilidade de emergirem inesperadamente diante do sistema de Siamed.

7



As oscilações do décimo terceiro planeta inspiraram cuidados. Não havia mais dúvida de que, numa órbita aparentemente impossível, estavam se aproximando cada vez mais do gigantesco sol vermelho.
De acordo com as medições da astronomia, este sol não era muito quente, mas para os habitantes da base de Hades ele se assemelhava a um forno atômico, cujas labaredas, chamejantes de hidrogênio, podiam a qualquer momento cobrir toda a superfície do planeta.
Hades mantinha virada para o sol sempre a mesma face. Na parte ensolarada a temperatura média era de 168 graus. A outra metade, de eterna noite, já havia há muito perdido os últimos restinhos de calor. A temperatura ali reinante era de zero absoluto.
A base estava construída na zona do lusco-fusco. Tinha a extensão de apenas oitenta quilômetros de largura, no entanto achava-se sujeita a variações de suas dimensões, e seus limites não eram constantes.
O Capitão Rous estava olhando para seu relógio. Na parte traseira do grande capacete pressurizado, o motor do condicionador de ar abafava os pequenos ruídos que vinham de fora. Hades havia girado novamente pela fração de um grau. Provavelmente, este planeta, mais ou menos das dimensões de Marte, estava sujeito de tal modo às influências gravitacionais do gigantesco sol vizinho, que uma parte considerável da zona de meia-luz entraria agora na parte iluminada.
Em crescente desassossego, Rous olhava agora para as colinas da esperança do outro lado. No primeiro ataque, haviam incendiado nos seus flancos uma estação camuflada nas cavernas, que foi reconstruída e ampliada nos meses subseqüentes.
Jatos de luz de um vermelho intenso se acumulavam na crista íngreme dos morros, em direção ao céu escuro. Não iria demorar muito até que a região sombria se convertesse num cadinho de fundição.
Rous se retirou para a proteção de um rochedo bem alto. Já estava na hora de deixar aquele ambiente desagradável, a fim de procurar abrigo nas instalações bem refrigeradas da base.
Mais para trás, a um quilômetro, começavam a evaporar os gases antes congelados. O calor aumentava sensivelmente. Dentro de poucas horas, se daria uma tempestade de gás de grande violência.
Capitão Rous resolveu deixar seu posto de observação. Antes de o fazer, porém, virou a parte superior do corpo para trás, para assim ampliar seu campo visual. Respirando profundamente, olhou para o espaço cintilante de estrelas. Os poucos resíduos de gás não podiam ser tomados como atmosfera.
De repente, Rous viu o que os homens da Califórnia não tinham ainda presenciado: o clarão vermelho-escuro da técnica dos druufs. Tal clarão começava como uma formação tubular, fina, partindo das proximidades do décimo sexto planeta, para dali em diante se perder no espaço infinito.
Caso Rous se inclinasse mais para trás, veria bem nitidamente o surgimento do terrível funil.
Gemendo, com as mãos procurando um apoio, o capitão se levantou. Seu uniforme, muito pesado, dificultava-lhe cada movimento, apesar da gravitação relativamente reduzida de apenas 0,35 Gravos.
Rous estava pensando que já fazia muito tempo que não conseguia um contato via rádio com os cruzadores terranos, os pontos de ligação com a Terra. Aliás, estava prevista a chegada de uma nave com transmissor fictício, que viria para a região do funil de descarga, não muito longe da base.
Rous sentia-se um pouco perdido no seu posto avançado. As últimas informações sobre os acontecimentos na Terra, ele as recebera do Major Matsuro, comandante da Nippon.
Matsuro falara de um ataque dos druufs e, logo após, desaparecera com seu cruzador.
Rous podia imaginar o que estava se passando no sistema solar. Amaldiçoou o destino que o prendia aqui neste planeta do inferno. Desanimado, olhou de novo para a formação luminosa na sua frente. O vento provocado pelo movimento dos gases estava cada vez mais forte e os raios do sol mais intensos.
Se dependesse de mim, já teria abandonado este recanto perdido do espaço”, refletiu.
Preocupado com estes pensamentos, assustou-se com o ruído no alto-falante do capacete. Era o Tenente Kagus que se apresentava.
Alô, Marcel Rous, você ainda está vivo?
Obrigado pela bela saudação — respondeu Rous mal-humorado. — Se eu pudesse, destruiria esta toca aqui na rocha. A vibração aumenta. Dentro de três ou quatro horas teremos duzentos graus Celsius aqui na entrada da caverna.
Oh! Que coisa “gostosa”! Por este motivo é que você deve vir correndo para cá. Creio que acabamos de registrar a transição de uma nave terrana. De qualquer maneira não houve as habituais ondas de choques e nem o estremecimento próprio das naves druufs. Pode bem ser possível que alguém, protegido pelo dispositivo de absorção de freqüências, tenha penetrado no hiperespaço.
Só agora é que você vem dizer isto!? — exclamou Rous, interrogativo.
Como assim só agora? Mal comecei a falar!
O capitão se pôs a caminho. Depois de dez minutos, chegou ao tabique onde achavam-se os homens. Era tão bem camuflado que ninguém o descobriria.
Impaciente, Rous olhava para o movimento lento da enorme porta blindada, atrás da qual começava a estreita comporta do ar pressurizado. Quando conseguiu ouvir o chiar do ar que entrava, Rous bateu com a palma da mão no botão do interruptor do comando magnético. O ar comprimido escapou de uma só vez.
Sem dar atenção ao sentinela que o saudou, Rous ganhou o corredor. A central de rastreamento e de rádio estava repleta de terranos.
À esquerda da central, começavam os aposentos onde se localizavam os transmissores fictícios. Com o uso destes aparelhos, se conseguia contato direto com as rápidas naves do Império Solar, sem se expor ao perigo de a mensagem ser captada pelos adversários.
Os transmissores fictícios trabalhavam em planos superpostos. Quando dois aparelhos estavam bem sintonizados entre si, não havia perigo de erro, independente das muitas influências do meio ambiente. Ocorreu certa vez um erro, mas descobriu-se a causa posteriormente, e tudo foi sanado.
Alguém puxou a porta corrediça. Rous entrou no posto de rádio e completamente cansado procurou uma cadeira.
O Tenente Kagus estava concentrado diante dos instrumentos de medição. Sem tirar os olhos dos aparelhos, falou:
Já estão emergindo novamente no espaço normal. Aposto qualquer coisa: trata-se de uma nave terrana. A curva branda já é uma característica de nossas naves. Alguém deu um salto espacial, protegido pelo aparelho de absorção de freqüências. Olha isto aqui, por favor.
O diagrama da medição era de fato interessante. Não se constatou realmente nenhum abalo estrutural. Apenas um resto insignificante de irradiação de um compensador foi registrado pelos sensibilíssimos instrumentos especializados.
Quem será? — perguntou Rous. — O que você acha? Antes de mais nada, como é que esta nave conseguiu penetrar no espaço dos druufs? Se tivesse irrompido pela garganta de descarga, teríamos percebido o imenso clarão no espaço. Já há muitos dias, os druufs não permitem a passagem de ninguém. Mantêm várias esquadrilhas postadas bem na entrada da garganta.
Rous continuou examinando as escalas do rastreador de freqüências. Mas não houve mais nenhum registro.
Kagus tirou o fone do ouvido.
Se não estou enganado, alguém lá na Terra se lembrou dos velhos geradores de campos visuais. Por meio deles se pode também penetrar no segundo plano. Temos de nos preparar para uma sobreposição de campo a qualquer momento.
Rous olhou para seu colega, com a fisionomia carregada.
Sobreposição de campo? Quer dizer então que você está acreditando numa destruição do funil de descarga?
Exatamente. Se o chefe mandou um grupo de pessoas por intermédio do campo óptico para o espaço dos druufs, então não podem ser homens comuns. Estou crendo numa missão especial dos mutantes. Afinal de contas, não comunicamos ao comandante da Nippon nossos cuidados com a estranha formação aqui perto de nós? Não posso imaginar de que maneira um funil de descarga, instalado nesta distância, aqui em Druufon, possa servir para um ataque à Terra, mas de qualquer maneira, este funil aqui está. Por outro lado, também, não se pode imaginar que o Major Matsuro não tenha comunicado aos seus superiores na Terra o que viu aqui. Assim, me parece muito lógico que Perry Rhodan não perdeu a oportunidade de tentar alguma coisa.
Kagus tamborilava com os dedos na fita plástica com os dados do rastreador, enquanto Marcel Rous continuava pensativo.
Só podemos é esperar pelo que vai acontecer. É claro que se eles estiverem por aqui, não cometerão a imprudência de fazer uso do rádio. O perigo de serem localizados pelo rádio é muito grande. De qualquer modo, temos de nos preparar para coisas desagradáveis. Talvez sejam obrigados a aterrissar em Hades. Sargento Eicksen, você assume com seu grupo, a partir de agora, uma severa vigilância aqui no posto do transmissor. Quando as máquinas derem o sinal verde, quero ser avisado imediatamente.
Assim já estavam cientes do mais importante. A pequena tripulação de Hades sabia da gravidade dos acontecimentos que estavam para se desenrolar.
Ignoravam, porém, a extensão da invasão dos druufs. Para os seus conceitos, o funil, surgido nas proximidades da zona de descarga, tinha de destruir o espaço de Einstein. No entanto, ele se aproximava bastante da Terra e esta era a grande diferença.
Rous e Kagus deixaram o posto de observação. Depois de fechar a porta, o capitão ainda perguntou:
Você crê mesmo na teoria de que falou? Na ação dos mutantes?
Kagus sorriu.
Você deveria conhecer os especialistas do Comando Supremo melhor do que eu. Acha que eles teriam ficado parados, depois de nossa comunicação? Além do mais, há poucos minutos uma nave terrana entrou em transição. Deve ter sido aqui no espaço dos druufs, do contrário nossos instrumentos não a teriam registrado. Se nossa gente encontrar o funil, temos que estar preparados para tudo.
Se antes disso não forem derrubados pelos milhares de aparelhos druufs — disse Rous sério. — O sistema de Siamed está coalhado de belonaves de todos os tipos.

* * *

A permanência num local situado a dez horas-luz fora do sistema de Siamed foi muito curta. O Coronel Tifflor já estava preparando a próxima transição, depois de ter constatado que não tinham sido localizados pelos druufs.
Enquanto isto, o intenso movimento de naves, que reinava no espaço dos 62 planetas, veio favorecer à Califórnia. Devia ser praticamente impossível para as bases localizadas nos planetas distinguirem o relativamente pequeno cruzador terrano, entre a multidão de seus próprios aparelhos.
Ainda não tinham encontrado o funil. Mas depois de uma procura febril, um dos cientistas da equipe chegou ao pensamento certo.
Estava mais do que evidente: uma sondagem por via energética era totalmente desaconselhada, devido aos efeitos de sobreposição. Um reconhecimento por via óptica também seria falho, devido às enormes dimensões de um tal funil. Quando se estava perguntando se já estavam no local certo, um dos físicos disse, depois de uma tremenda imprecação:
Há quanto tempo existe este funil? Só há poucos dias? E qual é a velocidade da luz no espaço dos druufs? Mais ou menos cento e cinqüenta mil quilômetros por segundo? Então não se admirem se ainda não pudemos ver o fenômeno. A luz não chegou aqui ainda, meus senhores. Voemos um pouco mais, e ela aparecerá.
Foi este o motivo que levou Tifflor a fazer uma segunda transição.
Agora, depois do segundo salto, estava tudo claro. As grandes telas panorâmicas não conseguiam captar o fenômeno luminoso em toda sua grandeza. Tifflor calculou sua altura em dez bilhões de quilômetros. A boca do funil poderia ter, na parte de transição onde se torna quase invisível, aproximadamente vinte milhões de quilômetros em diâmetro.
Eram espaços enormes, que, no entanto, para os parâmetros astronômicos, eram pequenos e de pouca significação. De qualquer maneira, o diâmetro era suficiente para permitir a uma frota inteira a livre entrada no espaço de Einstein.
Os instrumentos de rastreamento da Califórnia trabalhavam sem cessar. Tinha-se chegado ao décimo quinto planeta, vindo do plano superior. O décimo sexto planeta, a pátria dos druufs, distava ainda duzentos e cinqüenta milhões de quilômetros. Nas telas de ampliação de rastreamento, mais veloz que a luz, já brilhava o número dezesseis — chamado de Druufon — do tamanho de um punho cerrado.
Bem perto de Druufon, começava, em forma de um tubo enorme, a extremidade do funil de descarga, que estava sendo a causa da desgraça do sistema solar.
Tifflor supunha naturalmente que este conjunto artificial repousasse também numa base artificial. Da anunciada estação espacial, não se sabia nada ainda. Tifflor estava pensando em chamar a base de Hades e pedir informações.
Isto era, porém, muito perigoso. Portanto, acabou desistindo. Um radiograma podia ser uma verdadeira traição, mais comprometedor do que o aparecimento do próprio cruzador terrano.
Um rugido tonitruante das turbinas superpotentes fez estremecer todo o bojo do cruzador. Ainda estavam nas manobras de frenagem. A seguir, tentariam, com a nave parada, colher melhores dados sobre a localização do fenômeno luminoso.
Além disso, era fato notório de que um corpo parado tinha muito mais peso de um objeto a grande velocidade. Temia não poder levantar vôo mais uma vez. Três minutos depois, a Califórnia parou completamente.
Com a nave pairando no espaço, os técnicos rastreadores começaram de novo a procurar a estação espacial. Os ecos registrados, porém, provinham de naves dos druufs que decolavam ou aterrissavam. Parecia mesmo que o décimo sexto planeta era a grande base da frota. Quanto mais se aproximavam da fonte de interferência, mais confusas se tornavam as medições.
Continue tentando — disse Tifflor. — Enquanto permanecermos incógnitos, o tempo perdido não tem importância. Agora, como anda a situação na Terra, nem é bom pensar.
O comandante queria logo depois chamar John Marshall. Deixou de fazê-lo porque Goratchim lhe disse que Marshall estava ocupado. O comandante se contentou então em observar a cena tão singular através das telas do vídeo.
Os membros do corpo de mutantes, com poderes telepáticos, estavam todos de pé de mãos dadas. Eram Gucky, John Marshall, Betty Toufry e Ishy Matsu. Seus rostos pareciam vazios e os olhos arregalados não tinham nenhuma expressão.
Fora deles, não havia ninguém por perto. Uma corrente de vontades, formada por telepatas tão competentes, não podia ser perturbada por nenhum ruído.
A única coisa a mover-se eram as tele-câmaras de captação óptica, que aliás não faziam o menor ruído.
Marshall fazia o papel de porta-voz do conjunto de vontades. Os outros três mutantes simplesmente lhe colocavam à disposição suas forças individuais através do contato manual. Forças estas que Marshall podia aplicar tanto para sua própria irradiação, como também para ampliação dos impulsos recebidos.
Somente depois de dez minutos da mais intensa concentração, conseguiram o contato desejado.
A distância não lhes causou propriamente nenhuma dificuldade. Mas pelo fato de que Ellert, que por uma rara fatalidade, tinha se apossado da personalidade do cientista Onot, tivesse levado tanto tempo para responder aos insistentes apelos dos mutantes, já se podia perceber que ele se achava em grandes dificuldades. Marshall teve que transmitir muitas e muitas vezes os impulsos combinados, até conseguir se comunicar.
O subconsciente de John Marshall captou uma voz fraca:
Quem chama? É John?
Você está em apuros, nós o sentimos. Formamos uma corrente. Podemos ajudá-lo?
Não. Consegui a muito custo dominar o espírito de Onot que se revoltou. Vocês vieram por causa do funil?
Marshall confirmou. Ele e os outros mutantes tiveram que fazer o maior esforço para ampliar os impulsos de Ellert, debilitados por sua extrema fraqueza.
Estamos à procura da estação espacial, Ellert.
Ela gira em torno de Druufon a uma distância de três milhões de quilômetros. Vocês devem destruí-la. Os maiores cientistas de Druufon estão dentro dela. Tudo de importante se encontra nessa estação. Essa estação é a responsável pelo funil. O aparelhamento necessário para criar o tal funil foi construído de acordo com as descobertas do cientista Onot no seu novo compactador do tempo. Essa estação foi a primeira feita pelos druufs. Se for destruída, e com ela também os responsáveis pela sua montagem, não haverá mais possibilidade de os druufs reconstruírem uma outra plataforma espacial. Onot está praticamente numa prisão preventiva. Ele e eu estamos no planeta. Ataquem o quanto antes, do contrário será tarde.
A seguir, a comunicação foi interrompida. Por mais que Marshall chamasse, Ellert não respondia.
Tifflor estava numa grande excitação. Ao desaparecer a rigidez da expressão dos mutantes, o coronel perguntou afobado:
Que aconteceu? Que foi que ele disse? Por favor, digam alguma coisa, podemos ser descobertos a qualquer momento.
A estação espacial está girando em volta de Druufon, a uma distância de três milhões de quilômetros. Por isto é que ela não pode ser localizada. O gigantesco planeta encobre tudo. Ellert parou de falar de repente. Receio que ele não esteja bem. Deveríamos tentar auxiliá-lo...
Não!
Marshall estranhou o tom duro do “não” de Tifflor. Quando olhou para cima e examinou a tela, sua fisionomia se transformara. Era um Coronel Tifflor diferente, aquele homem de aço, pronto para qualquer sacrifício.
O salvamento de Ellert será uma incumbência para outra expedição. Não estamos nem preparados para isto, nem temos o tempo necessário. John, vamos fazer mais uma transição. Preparem-se. Acho que não temos mais um minuto a perder. Venha com os três telepatas para a central de comando.
Julian Tifflor tentou abrandar suas duras palavras. Notou que tinha sido um pouco ríspido. Aquele “não” ainda lhe estava queimando na boca. Levado pelo remorso, olhou calmo em volta. Mas ninguém demonstrava qualquer sinal de reação.
Enquanto se faziam os cálculos para a curta transição, apareceram Marshall, o rato-castor Gucky, Tako Kakuta e o negro Ras Tschubai. Com exceção de Marshall, todos eram teleportadores. Todos vestiam trajes espaciais de combate de fabricação arcônida, cujo envoltório de proteção individual dispensava a pesada couraça. Traziam a tiracolo um objeto preto brilhante, do tamanho de uma bola de futebol. Ali estava uma terrível arma de destruição.
Três minutos antes da preparada transição, a Califórnia foi descoberta, apesar do envoltório protetor. Do posto de radiotelegrafia, o sentinela chamou:
Tenente Instedt, Sir. Acabamos de registrar hiperimpulsos, com volume sete. São três reflexos diferentes, agora já cinco. Acho que nos descobriram.
Ecos de ondas de choque, em amplitude rasa — comunicou a central de rastreamento. — Algumas naves penetram no meio-espaço, estamos perdendo o contato. O eco das ondas indica motores de propulsão linear. Fim.
Tifflor era a calma em pessoa. Para não perder tempo, se absteve de conferir, como sempre fazia, os cálculos para a transição.
Enquanto ainda estavam entrando os últimos dados para o salto, as turbinas da Califórnia já estrugiam, e, em poucos segundos, deslocou-se para o espaço.
A brusca aceleração a atirou para longe.
Quando o posto de rastreamento anunciou a presença de cinco naves dos druufs, a Califórnia já tinha percorrido alguns milhões de quilômetros.
Os valores para o salto ainda não estavam completos. A programação automática do campo estrutural levava sempre algum tempo.
Nas telas que correspondiam ao campo óptico instalado fora da nave, as estrelas, até então bem claras, começaram a se ofuscar. Estava-se aproximando da velocidade da luz. Quando o zumbido dos motores de propulsão indicou que a injeção adicional de combustível havia entrado em ação, Tifflor sabia que, voando normalmente, não seria mais alcançado. As naves druufs não conseguiam nem a rápida aceleração, nem a velocidade final das naves terranas.
Tifflor calculou que ainda dispunha de cinco minutos. Com toda calma, virou-se para os três teleportadores do grupo:
Eis o meu plano, que vocês devem seguir rigorosamente: é impossível para a Califórnia atacar com tiros de canhão a estação espacial, pois poderiam nos abater. Vamos nos rematerializar a uma distância de três milhões de quilômetros, antes do planeta principal do sistema. Depois, terei o espaço de um minuto para localizar a estação e atacá-la numa ação fulminante.
Assim que ela aparecer nas telas e vocês conseguirem se orientar, saltem com as bombas. Quando desaparecerem, eu entro numa curta transição. Assim, desapareço do teatro de operações. Depois da manobra de reaparecer no espaço, vou levar cinco minutos para as operações de frenagem. Depois, mais cinco minutos para calcular a transição de volta. Vou me abster de, antes da volta ao hiperespaço, fazer outra transição. Em compensação, vou me arriscar a uma perigosa transição de nível para chegar exatamente diante da estação espacial.
Assim que acontecer tudo isto, vocês receberão de mim um curto impulso em hiperonda. Concentrem-se de novo e pulem de volta para bordo. Ao todo, terão de agüentar dentro da estação dez ou doze minutos. Antes disso, certamente não poderei estar de volta. Agora, quando receberem meu impulso, terão apenas trinta segundos para atingirem a nave. Está tudo claro? Há alguma pergunta a fazer?”
Gucky se apresentou:
Por que você não espera um instante, até que atiremos as bombas? Isto não dura mais que um minuto.
Um minuto eu já vou levar para procurar a estação. Outro minuto seria exatamente o tempo que os canhoneiros druufs levariam para transformar a Califórnia numa tocha viva. Temos que ficar com o meu plano. Vocês saltam, eu desapareço no hiperespaço, detenho a Califórnia, volto e lhes envio o curto impulso. Prestem atenção nos trinta segundos que lhes restam depois do impulso recebido. Não posso esperar um segundo mais, para reiniciar o vôo. Vocês vão conseguir isto?
Tako Kakuta sorriu.
É a isto que eu chamo de um plano de emergência perfeitamente estudado! Daremos conta do recado.
Logo depois, constatou-se a aproximação de nove espaçonaves druufs. Estavam perseguindo a Califórnia, que se mantinha no espaço normal por meio de aparelhos com propulsão linear.
Agora — disse Tifflor — toda a frota de emergência será avisada. Atenção, transição. Quero deixar para longe de nós esta barreira de fogo dos druufs.
Quando os perseguidores surgiram de repente no espaço normal do Universo dos druufs, a Califórnia já havia desaparecido na dimensão superior. Os projéteis de raios energéticos disparados contra ela se desfizeram inutilmente no espaço.
Simultaneamente, o posto de rastreamento de Hades registrava novos dados. O Capitão Rous deu alarme geral, o mesmo acontecendo com as naves de reconhecimento em torno da estação espacial. Demorou poucos instantes, até que o cruzador desaparecido terminasse sua reduzida transição a duzentos e cinqüenta milhões de quilômetros para frente.
Quando se tornou novamente visível, apareceu também nas telas das naves dos druufs.

* * *

Uma coisa extraordinária foi a visão dos projéteis de raios energéticos disparados pelos druufs. Uma coisa impossível no espaço de Einstein, em decorrência da absoluta ausência da matéria, se tornava aqui uma fantástica realidade.
Os feixes de impulsos, em consonância com as leis do tempo ali reinante, alcançavam somente a metade da velocidade da luz. Foi assim que o Comandante Tifflor achou muito simples poder escapar dos raios mortíferos e continuar tranqüilo em sua rota.
Mas, por quanto tempo ainda teriam tanta sorte assim? Tifflor sabia que a situação daqui para frente pioraria. Estava comandando a Califórnia com controle manual. Conseguia, assim, manobras incríveis, com as quais escapava dos inúmeros projéteis do inimigo.
O espaço entre os planetas, de um brilho vermelho-sombrio, foi percorrido por uma tempestade de cintilações das mais pesadas descargas térmicas.
Provavelmente devia haver, bem próximo aos dois sóis, uma espécie de micro-matéria cósmica, que era atraída e mantida presa por poderosos campos de gravitação. Quando Tifflor mandou abrir fogo, formaram-se, nas bocas dos canhões da nave terrana, flamejantes bolas de fogo. Os dois disparos, feitos no correr de cinco segundos, atingiram em cheio seu alvo. Os sóis atômicos coruscantes tragaram as duas naves druufs que estavam no encalço da Califórnia.
Foi fácil localizar a estação espacial, mais fácil do que se esperava. Bastou que se orientasse pela delgada extremidade tubular do grande funil. Divisava-se com nitidez a estranha figura luminosa no espaço. Ali, onde a garganta começava, devia estar instalada a usina flutuante. Não podia ser de modo diferente.
Tifflor não se deteve. Os motores de propulsão da Califórnia trabalhavam com toda a potência. Há dois segundos atrás, os campos magnéticos de proteção antichoque foram ligados automaticamente, em virtude da estranha e surpreendentemente grossa camada de micromatéria no meio do sistema, causando desagradáveis atritos nos flancos da nave.
O bojo esférico do cruzador já estava atingindo a coloração de metal incandescente, quando os projetores entraram automaticamente em ação. Ionizavam as diminutas partículas, expulsando-as para longe do trajeto da nave.
Do minuto que Tifflor tinha dado, como tempo suficiente para o vôo, quarenta segundos já se haviam passado. Na grande tela da frente, viu-se claramente uma figura em forma de disco, com cerca de oito quilômetros de diâmetro por um e meio de altura.
Antes de esgotar o prazo estabelecido de um minuto, parecia que os postos de defesa automática da frota de vigilância estavam atirando. Os ângulos de correção foram bem calculados, pois o primeiro projétil atingiu o envoltório de proteção.
Isto aconteceu um minuto antes da planejada ação. Vencido o minuto, Tifflor sabia que o tempo urgia. Um segundo projétil veio de encontro à barragem magnética e, no centro da nave, houve um ruído como de um grande sino rachado. A estação espacial distava ainda cinqüenta mil quilômetros.
Saltem! — gritou o comandante, já com um atraso de uma fração de segundo.
Os três teleportadores sabiam que venceriam aquela distância, apesar das perigosas bombas.
No local onde os três estavam em grande concentração, surgiram pontos luminosos de várias colorações, que logo se dissolveram.
No mesmo instante, Tifflor puxou a alavanca de transição. A Califórnia desapareceu no hiperespaço, quando quatorze projéteis de raios térmicos cruzaram o local onde devia estar, se continuasse em seu vôo normal.
Dentro da estação espacial, onde já reinava o estado de alerta, os cientistas druufs se parabenizavam eufóricos. Estavam convencidos de terem repelido um desesperado ataque de um comando suicida, ainda mais que se havia percebido claramente como o estranho inimigo tentara atingir seriamente a grande estação flutuante. Não tinha acertado nenhum tiro, a estação estava intacta, o funil funcionando como antes.
Exatamente esta crença é que Tifflor queria provocar neles. Tudo dependia agora de que os mutantes pudessem agir sem serem vistos. Pelos cálculos humanos, tudo devia dar certo. Ninguém podia contar com o fato de que três seres dotados de forças sobrenaturais pudessem sair de uma nave em velocidade quase idêntica à da luz, sem uma nave auxiliar, ou qualquer outro meio mecânico.
Quando a Califórnia se rematerializou, e seus oficiais navegadores começaram logo os cálculos para um salto de regresso, chegaram também ao seu objetivo os três mutantes.

* * *

Ras Tschubai teve o azar de saltar exatamente num local desprotegido, onde estavam instalados transformadores de alta tensão. Ofuscado por incessantes descargas de curto-circuito dos cabos de alta voltagem, gemendo de dores cambaleou para trás. Seu corpo ainda estava ressentindo-se da terrível compressão da desmaterialização. Só no último instante notou-se que toda a superfície da enorme estação estava envolta numa barragem energética em forma de uma campânula de proteção.
Aparentemente, a estação possuía uma estranha energia. Tschubai já tinha sentido isto, pois quando tentou andar mais para frente, viu-se preso...
Sentou-se num canto mais protegido, prestando muita atenção para não encostar nos cabos condutores desprotegidos.
Do outro lado da parede metálica, roncavam as possantes máquinas de propulsão. A julgar pelo ruído, deviam ser fornos de grande potência, acoplados a conversores. Neste sentido, o modo de agir dos druufs não era essencialmente diferente do dos terranos. Apenas usavam para estabilização de sua energia nuclear um outro processo catalítico.
Sem perda de tempo, Ras começou a agir. Com todo cuidado, desatarraxou a bomba de seu cinturão, olhou para o relógio, e regulou o detonador, descontando os segundos já decorridos, para um prazo de quinze minutos.
A ação tinha sido planejada para três homens, a fim de se poder atingir um alto grau de segurança. Mesmo que duas bombas fossem descobertas a tempo, sempre sobraria uma, que bastaria para destruir toda a estação flutuante.
A partir daí, Ras Tschubai ficou esperando pelos impulsos combinados. Seu receptor de pulso estava ligado. Os trinta segundos depois dos impulsos tinham que ser aproveitados, ou não haveria mais um regresso.
Gucky e Tako Kakuta tiveram a sorte de aterrissar nos grandes corredores, onde havia muitos cantos para se esconder. Depois de chegarem à estação, o resto do trabalho foi muito simples. Como se esperava, as grandes instalações técnicas eram quase todas de controle remoto. Gucky conseguiu ver apenas um druuf, que naturalmente estava de ronda.
Exatamente aos 12:03 minutos, os microcomunicadores se fizeram ouvir. Ao mesmo tempo, escutaram as tonitruantes descargas dos canhões energéticos, com as quais a estação espacial devia estar bem equipada para se defender.
Pularam ao mesmo tempo. Quando se materializaram, estavam a bordo da nave terrana, cujo comandante tentava, com manobras desesperadas, fugir ao fogo cerrado dos druufs, que atiravam sem parar. Depois de ter recebido dois projéteis, arruinando o envoltório de proteção, Tifflor resolveu entrar em transição, embora não tivesse ainda a necessária velocidade prescrita.
As dores da desmaterialização foram terríveis, muito mais fortes do que todas as vezes anteriores, isto porque não se atingira a necessária velocidade para abrandar o choque, como nos saltos normais.
A Califórnia desapareceu na quinta dimensão. Quando voltou ao espaço normal, o gigantesco funil de descarga havia sumido. Estavam nos confins do sistema Siamed. Mas, no lugar onde o rastreador ainda há pouco mostrava o grande funil, o campo óptico apenas apresentava uma eclosão energética.
E, no entanto, ainda se podia ver o funil em sua forma primitiva. Era naturalmente uma ilusão ótica, já que no espaço dos druufs os raios luminosos tinham a metade da velocidade, produzindo uma imagem que já não existia mais.
Do mesmo modo, não se podia ainda ver a gigantesca bola de fogo. Sua luz ainda não havia chegado até ao sexagésimo segundo planeta. Somente um rastreamento espontâneo, trabalhando à base de maior velocidade que a luz, podia provar que o sol artificial não se identificava com o funil de descarga.
Ras Tschubai e Tako Kakuta sofriam terrivelmente com um grande mal-estar. Gucky jazia sem sentidos. O salto superapressado e as dificuldades com o singular envoltório de proteção da estação já destruída haviam causado um profundo esgotamento nos três teleportadores.
Tifflor, porém, estava de excelente humor. Podia anunciar seu sucesso. Mas lhe faltava ainda sair são e salvo do Universo dos druufs.
A Califórnia continuou seu trajeto, possivelmente se preparando para a transição. Tifflor parou o cruzador exatamente no local onde Rhodan pretendia aparecer com a Drusus e montar o campo óptico. Todas as máquinas que pudessem traí-los por suas irradiações estavam paradas. O ágil cruzador terrano parecia uma nave-fantasma.
A única coisa a funcionar era um reator de alimentação independente, cuidadosamente blindado, que fornecia a energia para os sensibilíssimos rastreadores. Por meio deles se constatava se a Califórnia tinha sido atingida por impulsos sonoros e desta maneira localizada pelos druufs.

* * *

Três horas após a erupção da quinta onda de assalto, detonaram nas luas de Júpiter as primeiras bombas de telecomando. Um cruzador, acidentalmente atingido, rolou sobre um grupo de caças e destróieres, já prontos para decolar.
No setor central, rugia a mais incrível das batalhas. As perdas do Império Solar eram tremendas, no entanto, os druufs já haviam perdido cinco vezes mais em espaçonaves do que os terranos.
Os supercouraçados formavam a espinha dorsal da defesa. Principalmente a Drusus causou tantos prejuízos ao inimigo com seu transmissor fictício, que, em todo lugar onde aparecia a nave gigante, abriam-se enormes lacunas na linha de ataque dos druufs.
Nove horas após o regresso da nave capitania, aconteceram duas coisas importantes. Um radiograma anunciava que o funil de descarga perto do sistema Capela tinha sido destruído repentinamente. Os gritos de alegria a bordo das naves terranas, Rhodan não conseguiu ouvir, mas notou bem que suas forças, de moral irremediavelmente deprimido, se lançaram com novo entusiasmo ao ataque.
A esquadra druuf sediada em Marte foi aniquilada em pouco tempo. Mas ainda havia muita nave dos druufs pelo sistema solar, para se poder proclamar uma vitória da Terra.
Rhodan ordenou então, por hiper-rádio, a retirada para a terceira e última linha de defesa do Império Solar. Unidades danificadas de todos os tipos lá estavam reunidas.
Foi então que se deu o segundo grande acontecimento, decisivo para o resultado das operações.
Instantes depois da destruição do couraçado Osage, sob o comando do Coronel Poskanow, os rastreadores estruturais das espaçonaves terranas ameaçavam rebentar.
Num movimento surpreendentemente rápido, surgiram do hiperespaço numerosas belonaves. Atlan agira mais rápido do que se esperava. Apenas nove horas depois do pedido de socorro, chegaram dez mil belonaves pesadas e pesadíssimas, da frota robotizada dos arcônidas.
Estavam sob o comando do almirante arcônida Senekho, que após a troca radiofônica das senhas combinadas, entrou imediatamente em ação, para expulsar os invasores.
Cinco minutos mais tarde, chegaram outras quatro mil naves, cuja forma externa demonstrava serem construções dos saltadores.
Foi a primeira vez que os comerciantes das Galáxias penetraram livremente no sistema solar, naquele sistema que eles há tanto tempo procuravam sem sucesso.
Venho por ordem do regente, administrador — reboou a voz de um velho patriarca de barba branca, através dos alto-falantes. — Cokaze é meu nome. Sou o chefe de minha estirpe. Onde é que se torna mais importante nossa intervenção?
Rhodan parecia paralisado diante da tela. A expressão sombria do velho despertou em Rhodan toda a antipatia que nutrira durante longos anos contra os saltadores.
Com muita reserva, deu algumas informações. Ao mesmo tempo retirou suas unidades menores da frente de combate. Somente os couraçados e supercouraçados, como também os cruzadores não danificados, ficaram na linha de frente. Os extenuados pilotos dos caças e dos destróieres de três homens voaram a toda, de volta para suas bases.
A partir deste momento, os oficiais do estado-maior, a bordo da Drusus, não tiveram mais nada que fazer, a não ser observar de longe a sistemática destruição das restantes oito mil naves dos druufs.
Depois de quinze minutos, o comandante dos inimigos, que não era um ser humano, reconheceu a situação. Vendo que suas naves iam explodindo uma após a outra, sem poder mais contar com reforço, em virtude do súbito desaparecimento do funil de descarga, deu ordem de reunião de suas unidades. Com apenas três mil naves — melancólico fim da gigantesca frota de invasão — desapareceu no segundo plano.
De um minuto para o outro, o sistema solar se libertou de seu ferrenho adversário. Mas agora, ficavam outros aqui, não muito desejáveis.
Rhodan pediu uma ligação para falar com o Almirante Senekho. O ancião pertencia aos poucos arcônidas ativos a quem se podia ainda confiar o comando de uma esquadra. Quando o rosto cansado e enrugado apareceu na tela da Drusus, Rhodan teve que rir, sem querer. Senekho era o mesmo oficial que examinava os navegadores espaciais na grande lua do ciclópico planeta Naat. Eram navegadores de Zalit a quem Senekho também instruía sobre as naves do Império de Árcon.
Isto tudo fora há apenas algumas semanas e, no entanto, parecia a Rhodan um fato de muitos e muitos anos atrás.
Foi uma viagem enorme, terrano — começou Senekho. — Tenho impressão de que você mantém boas relações com o regente, não é? Seus inimigos fugiram. E não se podia esperar outra coisa. Fui instruído para executar todas as suas ordens. Que resta ainda a fazer?
Foi uma pergunta clara e objetiva. Em oposição à grande maioria dos homens de sua raça, Senekho tinha grandes qualidades.
Nada, muito obrigado. Se precisar de água fresca, mantimentos ou qualquer outra coisa, nossas bases no Império Solar estão à sua disposição.
Império? — repetiu Senekho admirado. E começou a sorrir. — Império? Gostei de ouvir, terrano. Você chama de império sua miserável estrelazinha com planetas em miniatura?
Ao ouvir isto, Reginald Bell ficou vermelho de ira, olhando furioso para a tela. Rhodan não perdeu a calma devido a esta arrogância, que era típica dos arcônidas. Respondeu muito à vontade:
Realmente, Império, almirante. O senhor já deve ter ouvido falar muito de nós, para saber que a grandeza territorial de um sistema solar não é decisiva para as qualidades de seus habitantes. Mas não é sobre isto que gostaria de falar.
Sobre o que, então?
Senekho se inclinou interessado. Seu rosto parecia maior e mais expressivo.
Quando propus aliança com o regente de Árcon, foi-me prometida a proteção do Império. Como pode acontecer então que de repente aparecem no meu sistema quatro mil naves dos saltadores?
Senekho sorria.
Não sabia nada desta aliança, mas não duvido de sua existência, pois se não fosse assim, não me tirariam da frente de bloqueio. O regente mandou também as naves dos saltadores por recear que as minhas dez mil unidades sozinhas não seriam suficientes. Nós não podíamos saber que os monstros do outro Universo já haviam sofrido tão grandes perdas. Fora disso, você tem algum desejo especial, terrano?
Rhodan refletiu um pouco. Sabia que Cokaze, o patriarca dos saltadores, estava ouvindo tudo.
Gostaria de lhe pedir para explicar a Cokaze que a Terra não deseja ser anexada ao domínio dos saltadores. Somos um sistema independente e queremos continuar assim.
Compreendi — disse o almirante pensativo. — Está bem claro.
Com isto, interrompeu a ligação. Enquanto a frota arcônida se reunia nas proximidades da órbita de Marte, para daí partir direto para sua frente de bloqueio, os quatro mil aparelhos dos saltadores voavam na direção da Terra.
Rhodan chamou o chefe do clã e lhe disse com toda firmeza:
Você vai mudar de direção em três minutos, Cokaze, do contrário vai levar uma boa lição. Não pedi seu auxílio, portanto não exija nenhuma recompensa.
Somos comerciantes e não fazemos nada de graça.
Não os chamei. Se vocês abaixam a crista para o regente, cumpram suas ordens, isto não tem nada a ver comigo. Ainda estou bem forte para lhes dar um banho de sangue. Caso não mude de rumo, minha frota partirá imediatamente.
Como Cokaze recebeu tudo isto, Rhodan não podia saber. No mesmo momento, porém, suas naves entraram na operação de frenagem e logo depois se ajuntaram à frota dos robôs arcônidas.
Somente sessenta unidades danificadas em combate obtiveram permissão de Rhodan para aterrissar. Assim aconteceu que, pela primeira vez, alguns comerciantes das Galáxias pisaram o chão do nosso planeta, onde foram recebidos por uma multidão de homens calados, de expressão pouco amistosa.
Rhodan passou para o supercouraçado Wellington, a fim de observar melhor os que vieram de tão longe para ajudá-lo. Os comandantes das esquadrilhas terranas receberam instruções secretas.
Concluindo, Rhodan disse o seguinte:
É claro que nem o Almirante Senekho, nem os saltadores estão informados sobre a mudança que houve em Árcon III. Por amor de Deus, sejam prudentes, não digam nada a respeito, pois do contrário a situação de Atlan ficará muito séria. O que nos interessa agora é vermos os saltadores longe de nós. A frota robotizada voltará em um ou dois dias, conforme garantiu Atlan. Somente estes saltadores é que nos podem incomodar. Abram fogo imediatamente assim que um deles tente descer em Vênus, em Marte ou na Terra, sem minha expressa autorização.
Meus senhores, está na hora de despertarmos. O jogo de esconder já acabou. A partir de agora, todo mundo sabe onde moramos. Temos, pois, que reformular nossa política galáctica. Tenho plena certeza de que encontraremos o caminho certo. Permaneçam de olhos abertos. Muito obrigado.”
Enquanto a Drusus disparava pelo hiperespaço para apanhar o cruzador Califórnia, Rhodan voltou para seu camarote.
Esperar”, pensava ele, “esperar, mais uma vez. Até hoje a Terra não dormiu, e também amanhã ou depois de amanhã, ela não vai dormir. Vocês, de outros mundos, ainda haverão de nos conhecer!




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A Terra venceu a grande batalha, sendo que o avanço desesperado de Tifflor para o interior do Universo druuf foi o que decidiu, na hora mais séria da História da Humanidade, a sorte do nosso planeta.
No entanto, apesar do resultado positivo da luta, surge um novo fator: acabou o mistério da localização da Terra. Começa então agora, para Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, a fase mais perigosa de sua longa carreira...
Irrompe a hora gloriosa de Gucky, exatamente quando o destino traça os momentos mais trágicos de Perry Rhodan!
A Grande Hora de Gucky, este é o nome do próximo livro da série.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html