Agora a
situação era outra. Atrás dos canhões das supernaves terranas
estavam homens de alta qualificação técnica, que, além de tudo,
sabiam por que estavam arriscando sua vida.
Somente o
novo couraçado Wellington, no curto espaço de oito minutos,
conseguiu fazer vinte e sete disparos, sem ser atingido seriamente.
Seu poderoso envoltório de proteção resistia a tudo que os druufs
podiam fazer.
Os outros
supercouraçados também não tiveram muito trabalho com os invasores
e puderam olhar a situação com mais calma. A ponta de lança do
ataque druuf estava dominada. Porém, uma hora mais tarde, eles se
reorganizaram novamente.
Mais ou
menos nesta hora, o General Deringhouse chamou a nave capitânia. Seu
rosto comprido, denotando grande cansaço, apareceu na grande tela da
nave de Rhodan. Este se postou diante do vídeo.
— Sir,
conforme meus cálculos, dentro de trinta minutos Plutão vai cair
nas mãos do inimigo. Não posso mais me arriscar em deixar as
grandes espaçonaves na linha de frente. Os druufs estão começando
a atacar todas as naves maiores com um fogo concentrado de mais de
cinqüenta aparelhos. Nossa maior agilidade de manobra nos livrou até
agora do pior. Sir, que pretende fazer?
Rhodan
simplesmente deu ordem de retirada. Plutão seria evacuado e as
instalações de defesa, entregues aos robôs. As esquadrilhas mais
avançadas recuaram até a órbita de Saturno, onde se reuniram,
formando novos grupos.
Rhodan
esperou até que chegassem os boletins das últimas perdas. Quando os
números foram conhecidos, olhando para os oficiais do estado-maior,
sentenciou:
— Meus
senhores, o ponto crítico chegou. Se tivéssemos mais algumas naves,
não precisaríamos pedir o auxílio de Atlan. Os senhores farão
alguma objeção em chamarmos nosso amigo Atlan?
— Eu já
teria feito isto há mais de vinte e quatro horas — disse Reginald
Bell, com calma. — Nossas perdas são horrorosas. O fato de já
termos abatido mais de duas mil naves dos druufs, não nos vai ajudar
muito, no balanço geral. Ninguém tem objeções a fazer.
Sem dizer
uma palavra, Rhodan voltou para a central de comando. Foi o momento
mais importante na história da raça humana. Perry Rhodan, primeiro
administrador do Império Solar, resolvera abrir mão do segredo da
localização da Terra, mantido até então com tanta firmeza e
prudência.
A ligação
por hipercomunicador, preparada já há muito tempo, se fez em menos
de quatro minutos. Podia-se ver claramente o rosto de Atlan. A enorme
distância de 34 mil anos-luz não representava nada para as
freqüências do hiper-rádio.
— Já
chegou a este ponto? — perguntou o arcônida sério. — Estou
acompanhando o ataque há algumas horas. Cinco cruzadores robotizados
estão nas redondezas de Capela. Você quer meu auxílio? Em caso
afirmativo, não se esqueça de que não poderei manter por muito
tempo o que lhe prometi.
— Peço
o apoio do Grande Império — respondeu Rhodan, gaguejando um pouco.
— Atlan, estamos sendo atacados por cerca de oito mil naves dos
druufs. Acho que ainda consigo manter a resistência por mais vinte e
quatro horas. Depois disso, atacarão a Terra e Vênus através de
Marte.
— Todas
as ligações já estão preparadas. Tenho a impressão de que estes
insetos monstruosos vão fazer tudo para deter as forças arcônidas
na zona de descarga. Vou lhe mandar tudo que não me for
indispensável. Daqui a dez ou doze horas, a frota chegará aí.
Estão ainda em vigor as nossas velhas senhas de reconhecimento?
— Sem
exceção. Vou avisar os comandantes terranos. Os sinalizadores de
impulso receberão logo a programação combinada.
Depois que
o arcônida desligou, Rhodan ainda ficou longo tempo diante da tela.
Acreditou que estava recebendo nas costas os olhares de todos os seus
oficiais superiores.
— Caso
você nos pergunte se o consideramos um traidor, vou ficar realmente
zangado — disse alguém.
Rhodan
virou-se para trás. Reginald Bell o encarava. Os olhares dos dois
homens se encontraram, até que Rhodan disse em voz baixa:
— Não...
não vou perguntar. Santo Deus, como tudo isto foi tão simples. Com
um simples radiograma, a gente destrói tudo que se construiu em
setenta anos. Daqui em diante, a Terra estará aberta, franqueada
para amigos e inimigos. Vai começar uma nova época.
— Eu me
alegro com isto, Sir — disse o Marechal Freyt. — Nós não
poderíamos nos esconder mais por muito tempo.
6
Allan D.
Mercant havia iniciado a reunião às 13:30, hora padrão, no grande
salão da tripulação do cruzador Califórnia. Estavam presentes
todos os membros da tripulação da nave e os especialistas do
exército de mutantes. Perry Rhodan não se achava ali. Tinha outros
assuntos importantes para resolver. Os preparativos para a ação dos
mutantes era um assunto exclusivo do setor geral da defesa.
No sistema
solar, estrugia a mais dura das batalhas. A Humanidade fora obrigada
a pegar em armas. Além do sistema solar, reinava calma na imensidão
do espaço.
Mercant
foi sucinto:
— Os
acontecimentos provam que os senhores e as senhoras, apesar de seus
dons sobrenaturais, não têm o poder de se opor aos invasores. Isto
é uma guerra, ou melhor, uma batalha aberta, que, realmente, não
tem nada a ver com as suas atividades de agentes de forças
paranormais. Entre os senhores, apenas os três teleportadores teriam
uma possibilidade limitada de destruir naves inimigas, transportando
explosivos nucleares. Gucky já experimentou atacar desta maneira.
Foi bem-sucedido em dois casos. Na sua terceira teleportação, errou
o alvo móvel e quase foi morto.
— O
druuf decolou, exatamente quando eu estava me concentrando —
ouviu-se alguém dizer, em tom de voz fina, nos fundos da sala.
Podia-se
ver a figura pequena do rato-castor.
— Eu
pulei para fora, exatamente para fora, coisa que nunca me aconteceu.
— E isto
vai acontecer muitas vezes. Numa aglomeração de tantos milhares de
espaçonaves assim, de todos os tipos, a intervenção dos mutantes
se torna irracional, pelo menos desta forma. Permaneçam, portanto,
no campo de ação que lhes é peculiar e deixem a batalha apenas
para as espaçonaves.
Mercant
interrompeu seu discurso e cumprimentou o administrador do Império
Solar, que estava entrando naquele momento. Rhodan agradeceu
rapidamente. Sobre sua cabeça, pairou Harno, o singular ente
esférico.
— Já
está pronto, Marshall, confia no nosso plano?
A figura
imponente de Marshall se destacou dos corpos que estavam agrupados
rente à parede.
— Tudo
em ordem, Sir. Estamos experimentando. Sei que telepatas e pessoas de
meu tipo não podem fazer muita coisa numa batalha aberta.
— Isto
já foi dito, há anos, por um homem sábio e experimentado — disse
Rhodan. — Seu nome é Atlan. Para sua informação: pedi o auxílio
dele. Vai nos enviar todas as naves de que não estiver precisando no
momento. Apesar disso, temos que tentar tudo. A Drusus vai partir
daqui a alguns minutos para fora da frente de batalha e o Major
Tifflor a acompanhará com a Califórnia. Vou mandar instalar para
você um dispositivo de lentes, através do qual possa enxergar,
perfeitamente, o Universo dos druufs. Aproveite o grande poder de
aceleração do cruzador. Entre em contato com a base de Hades. Gucky
pode tentar encontrar Ernst Ellert. Parece que ele está em
dificuldades. Penetre no sistema de Siamed e passe a averiguar se
realmente existe a estação espacial anunciada por Rous. Se esta
instalação corresponde de lato a uma usina voadora para construção
dos funis de descarga artificiais. A seguir, faça o que achar
melhor.
“Tifflor
e você, Marshall, trabalharão juntos. Tifflor controlará a nave
Califórnia e Marshall colocará os mutantes preparados para atuarem.
Mas, de qualquer maneira, você deverá tentar destruir esta estação
espacial. Terá muitas oportunidades, pois um empreendimento deste
tipo é um ótimo campo de ação para suas forças mentais. Agora,
uma coisa: de mim vocês não podem esperar socorro. Ficarei
demasiadamente ocupado por aqui. Estejam bem compenetrados de que vão
estar entregues às suas próprias forças. Também não lhes posso
prometer auxílio por intermédio dos transmissores fictícios. Todos
os instrumentos existentes nos supercouraçados estão sendo usados
para salvamento urgente dos feridos e acidentados. Os tripulantes das
naves atingidas estão sendo levados para outras unidades com o
auxílio dos transmissores fictícios.
“Vocês
estão vendo como nossa situação é difícil. Não quero ainda usar
a expressão ‘desesperadora’,
mas pode ser que, em futuro próximo, tenhamos que usá-la.”
Depois de
pequena pausa, Rhodan continuou:
— Nós
todos somos homens, temos uma pátria comum, a nossa Terra. Gucky e
Harno pertencem ao nosso meio. Não consideramos como monstros outras
inteligências que existam no espaço, se forem justas e honestas.
Ninguém é responsável por seus aspectos exteriores.
— Muito
obrigado, pelo que me toca — disse Gucky lá dos fundos.
Seu dente
roedor estava à vista.
— Não
estava me referindo a você — disse Rhodan sorrindo.
E este
sorriso quebrou um pouco a tensão expressa no rosto dos homens que o
ouviam. Era como se Rhodan tivesse rompido uma barreira.
— Os
senhores precisam saber que a empreitada é dura. Se tudo correr bem,
os senhores irão separar a base de suprimento dos druufs de sua
frota que está em combate. Isto será meia vitória. Naturalmente
ainda continuaria o problema de liquidarmos com o restante dos
aparelhos inimigos. Este problema não diz respeito aos senhores, mas
sim a nós, aqui no nosso Universo. Procurem a todo custo destruir
esta estação espacial. Guerra é guerra. Se forem obrigados a
atacar com armas atômicas, lembrem-se de que estamos defendendo a
Humanidade. Não deixará de ser uma legítima defesa. Bem... é tudo
que pretendia dizer. Resta ainda alguma dúvida?
Rhodan
olhou para o relógio. Marshall ainda se informou sobre a extensão
da missão de Harno, televisor vivo.
— Harno
fica aqui — resolveu Rhodan. — Vou precisar de seus dons com
urgência, para poder regular corretamente o transmissor fictício da
Drusus. Quero atacar com ele as naves mais importantes dos druufs.
Logo em
seguida, o chefe do Império Solar voltou para a nave capitânia, em
cujo flanco estava ancorada a Califórnia, que media apenas 100
metros de comprimento.
O cruzador
se desprendeu de suas travas magnéticas, decolou e pouco depois
entrou em transição. Era a única nave do Império Solar que ainda
dispunha de uma estação especial a bordo para instalação do campo
óptico.
Atrás
dela, desapareceu também no hiperespaço a Califórnia. Ambas se
rematerializaram, depois de um longo salto, nas proximidades da
frente de bloqueio, que distava mais ou menos 6.300 dias-luz da
Terra.
A duas
horas-luz da tal frente, estavam lutando as grandes esquadrilhas da
frota arcônida com os druufs que irrompiam do funil de descarga. Era
evidente que os seres estranhos faziam de tudo para se aproximar das
unidades arcônidas. Além disso, se notava facilmente que
esquadrilhas inteiras estavam se afastando da frente de combate.
Assim, Rhodan se convenceu de que Atlan estava cumprindo sua palavra,
isto é, dando ordens de que estas esquadrilhas voassem para o
sistema solar.
Mas
ninguém sabia que ele, Atlan, estava atrás do cérebro robotizado.
Suas ordens eram transmitidas na freqüência conhecida do grande
cérebro, motivo pelo qual eram obedecidas imediatamente.
A
Califórnia estava apenas a cem quilômetros atrás da Drusus que
freava com toda força. Tifflor iniciou também as manobras de
frenagem. Quando a nave capitânia parou, ele desviou cauteloso a
Califórnia. Rhodan apareceu na tela do vídeo de telecomunicação.
— Bom
trabalho. Chegamos bem. Se você penetrar por este lado, deverá sair
perto do sistema Siamed. Em todas as suas operações, não se
esqueça de que os pontos de referência do espaço de cinco
dimensões não são idênticos aos do de quarto. Não se admire,
portanto, quando você descobrir a mencionada estação espacial do
planeta Druufon, embora o funil de descarga produzido por ela esteja
a cerca de seis mil e trezentos anos-luz de distância, bem rente da
Terra. Trata-se de um processo de ligação, para o qual a separação
espacial nada representa. Aqui estão as últimas instruções:
“Se
vocês forem bem-sucedidos, nós o saberemos pelo desaparecimento
repentino do funil. Neste caso, virei com a Drusus até este setor do
espaço, instalo aí um campo refletor e os apanho. Se o ataque de
vocês fracassar, ou se a suposta existência desta estação
energética voadora se baseia num erro, vocês voarão para Hades e
lá aguardarão novas instruções. Tentarei, neste caso, tirá-los
de Hades através de uma nave com transmissor fictício. Está tudo
claro? Então, mãos à obra.
*
* *
Julian
Tifflor sentiu umas agulhadas dolorosas na região dos rins, quando,
bem rente de seu cruzador, se desenhou aquele fenômeno luminoso,
causado pela aproximação da Drusus.
Lembrou-se,
neste momento, de sua primeira missão, realizada em obediência a
uma ordem de Rhodan. Tratava-se, naquela época, de enganar os
comerciantes das Galáxias. Julian Tifflor estava se recordando.
Naquele tempo, ele era ainda bem jovem. Um rapaz que, para
perplexidade de seus colegas, foi arrancado dos bancos da Academia,
em plena época de provas finais. Um cirurgião terrano lhe
implantara no corpo um pequeno aparelho. Tratava-se de um sinalizador
orgânico, que servia para localizá-lo onde quer que estivesse. Este
micro aparelho estava implantado em sua cavidade renal...
No
momento, a situação era esta: bem próximo da Califórnia,
formou-se um campo de transição, de onde partiam os diferentes
influxos energéticos dos dois tipos de espaço. Um círculo luminoso
de apenas trezentos metros de diâmetro surgiu no meio do espaço
sombrio. O que havia por trás dele, não se podia explicar com
poucas palavras.
O rosto de
Tifflor, que se mantinha admiravelmente jovem, mostrava traços de
preocupação. Acabaram-se os sonhos e recordações da juventude. Só
um pensamento podia haver em sua cabeça neste instante: a
sobrevivência da Terra.
John
Marshall, um dos primeiros elementos do Exército de Mutantes, estava
de pé, atrás dele. Tifflor fitou aqueles olhos, cuja expressão não
permitia nenhuma conclusão sobre os sentimentos de Marshall. Quase a
contragosto, disse o comandante:
— John,
temos de nos desejar boa sorte. Estava há pouco pensando nos bons
velhos tempos.
— Eu
também, Tiff — respondeu Marshall em voz baixa. — Você sabe que
nós já devíamos estar mortos há muito tempo? Recebemos a ducha
celular renovadora do planeta Peregrino e nosso processo natural de
envelhecimento foi suspenso temporariamente. Tiff, em certo sentido,
esta poderá ser nossa última missão.
— Autorização
para decolar — soou a voz de Rhodan nos alto-falantes. — Vamos, o
que estão esperando? Não percam tempo.
Julian
Tifflor deu as ordens necessárias. Com os motores de propulsão
funcionando com pouco ruído, o mais moderno cruzador da Terra
deslizou em direção ao círculo luminoso. Pequenas correções o
colocaram exatamente no centro do campo. Trinta mil metros antes,
Tifflor passou para velocidade mais elevada. O fogo-fátuo ficou mais
visível e depois desapareceu. Uma dor breve, mas penetrante se fez
sentir em toda a tripulação. A comunicação de rádio com a Drusus
cessou repentinamente. As últimas palavras de Rhodan não foram mais
ouvidas.
— Manobra
terminada, Sir — soou a voz do segundo-oficial. — Já
atravessamos.
Tifflor se
dirigiu para as telas. O que elas mostravam não era outra coisa que
o monótono e sombrio Universo dos druufs, onde todas as colorações
se fundiam num avermelhado forte. Era o quadro de sempre. Quantas
vezes Tifflor já havia visto isto!
Os
instrumentos de rastreamento da Califórnia começaram a trabalhar. A
uma distância de pouco mais de dois anos-luz, constatou-se intenso
movimento de espaçonaves. Simultaneamente, veio a comunicação de
que o duplo sol captado pelo rastreador de matéria era idêntico ao
do sistema Siamed.
O
gigantesco sol tinha um companheiro de brilho esverdeado. Já que não
era coisa rara encontrar-se um sol duplo rodeado de planetas, ninguém
se mostrou preocupado.
Mas a
situação se alterou, quando se constatou a multiplicidade de
órbitas dos 62 planetas. Uns giravam apenas em torno do sol maior,
outros davam volta em torno dos dois sóis e um terceiro grupo
serpenteava em órbitas aparentemente contraditórias, por entre os
fortes campos de gravitação dos dois sóis.
O sistema
Siamed foi sempre um pesadelo para Julian Tifflor. Nada aqui parecia
normal, era tudo imprevisível. Acrescia a tudo isto a grande
variação de tempo do sistema, de cujas dimensões não se sabia
muita coisa. A cosmonáutica dos terranos se contentara em estudar
mais seriamente apenas o sistema pátrio dos druufs. O que se passava
nos planetas dos diversos sóis estava além dos conhecimentos de
Tifflor. Para ele parecia suficiente saber de que maneira se entrava
neste quase inferno.
A
Califórnia estava parada no espaço.
— Desapareceu
o campo de refração — disse o “goniômetro”
Tanaka Seiko, através do rádio.
Tifflor
passou a mão pelos cabelos. Seu rosto jovem, de barba feita, parecia
indeciso. Olhou em volta, meio desajeitado.
— Mas é
isto mesmo. Tínhamos que contar com isto. Certamente a presença da
Drusus se tornou necessária na frente de combate. Marshall, o que
você propõe agora? Infelizmente não nos foi possível receber
instruções mais detalhadas.
Marshall
se aproximou mais das telas do vídeo. A galeria das diversas telas,
de ordinário repletas do argênteo cintilar de grandes estrelas,
tinha agora um aspecto sombrio, deprimente.
Os
rastreadores estruturais do cruzador mantinham o ruído de sempre. A
uma distância de apenas dois anos-luz, havia grandes levas de
espaçonaves que tentavam penetrar num funil de descarga formado pela
própria natureza ou imergir na estreita garganta energética.
O número
tão grande de naves desenvolvia um volume tal de energia que as
freqüências próprias, já existentes no funil de descarga,
recebiam uma sobrecarga grande demais. Marshall se dirigiu mais vezes
à central de rastreamento, mas ninguém lhe conseguiu dar maiores
explicações.
Uma coisa,
porém, estava certa: o cálculo de Rhodan fora exato. Estavam bem
próximos do sistema pátrio dos druufs, onde devia estar localizada
a misteriosa estação espacial.
Não se
conseguia ainda encontrá-la. As distâncias eram demasiadamente
grandes, o número fantástico de planetas os confundia muito e os
motores de propulsão das inúmeras naves, que funcionavam a todo
vapor, ainda contribuíam para fazer desaparecer os poucos vestígios
do mundo druuf.
John
Marshall surpreendeu-se pronunciando uma terrível imprecação que
deixou a mutante Betty Toufry horrorizada.
— John!...
— disse ela com ar de repreensão.
O
rato-castor caiu numa risada estridente. Parecia ser o único
completamente calmo a bordo.
Aparentemente
enfastiado da longa espera, o pequeno animal começou a andar pela
central. Depois esticou as patas dianteiras e se apoiou na larga
cauda de castor, com todo conforto.
— Ah!...
se eu não existisse... — declarou cheio de si.
— Medroso
— disse o mutante de duas cabeças Goratchim. Ivan, o mais velho,
sorriu feliz.
O focinho
pontiagudo de Gucky se contraiu numa expressão de desprezo. Suas
orelhas viraram para a direção do gigante de dois metros e meio.
— Ninguém
está falando com vocês. E tem mais: cheguei à conclusão de que...
— Como?
— interrompeu Marshall. — Você chegou à conclusão de que nós
não temos outra opção a não ser pular para o interior do sistema,
não é?
— Exatamente
— confirmou Gucky. — O que vocês pretendem fazer? Estamos aqui
completamente isolados. Em Hades não há nenhum telepata, e eu não
acho conveniente usar um hiper-rádio. Ernst Ellert é um bom
telepata, mas me parece que está demasiadamente ocupado com este
cientista druuf. Venho observando há tempo como Onot tenta escapar
da influência mental de Ellert. Assim sendo, não há outro jeito, a
não ser...
— A não
ser o quê? — acudiu novamente Marshall.
— Não
gosto muito de ser interrompido a cada instante. Isto é falta de
respeito. Posso falar ou não?
Marshall
resignado fez um sinal afirmativo. Tifflor sentou-se pacientemente na
primeira cadeira.
— Então
vamos lá — disse Gucky mais tranqüilo. — Sugiro penetrarmos
pelo menos dez horas-luz. Desta distância poderei entrar em contato
com Ellert, com toda certeza. Se for necessário, John, Betty, Ishy
Matsu e eu teremos que formar um bloco ou uma corrente mental para
atingirmos de fato Ellert. Ele haverá de saber onde devemos procurar
esta estação espacial. Talvez não precisemos enviar um radiograma
ao Capitão Rous. Ele se encontra agora no décimo terceiro planeta.
Quando a usina voadora explodir, ele logo saberá que fomos nós os
autores da façanha. O que os senhores dizem do meu plano?
Marshall,
muito pensativo, continuou limpando as unhas.
— Hum...!
— pigarreou evasivamente a mutante telepata Ishy Matsu.
John
Marshall enfiou as mãos nos bolsos da calça. Seu olhar procurou o
comandante da Califórnia.
— Tiff,
que diz você de tudo isto? Tem o nosso amigo de fato uma boa idéia,
ou você possui outros planos?
— Não
vejo caminho melhor do que este. Haveria outras possibilidades, mas
muito complicadas e perigosas. Vamos arriscar. Tenho que encontrar o
início do funil de descarga, independente do fato de ele se achar
num planeta ou numa estação espacial. Só desejo uma coisa, é que
nossos agentes não tenham se enganado. E se a garganta de transição
for de origem natural, podemos voltar satisfeitos.
O
semblante de Marshall se anuviou. Tifflor não gostou quando percebeu
o olhar sério do telepata.
— Não,
não podemos... — opôs-se o chefe dos mutantes. — Pelo que Atlan
contava sobre a submersão da Atlântida, sabemos que ele conseguiu,
naquela época, fazer desmoronar semelhantes formações energéticas
por meio de fogo cerrado de mecanismos de impulsos reativados.
Possivelmente, vamos nos orientar por estes dados e aproveitar a
experiência dos velhos arcônidas, ou melhor, fazer o que seus
cosmonautas fizeram já há milênios. Está certo? Vamos embora?
Tifflor se
levantou. Tinha compreendido tudo muito bem. John Marshall estava
firme na sua resolução de terminar com o estranho fenômeno, de um
modo ou de outro. Os mutantes voltaram à sala, pois não tinham nada
a ver com o comando da nave.
Meia hora
mais tarde, já estavam prontos os cálculos para a transição.
Tifflor os conferiu três vezes, para que houvesse absoluta segurança
nos dados mais complicados. Conforme os cálculos, a Califórnia
haveria de chegar ao ponto do hiperespaço, que equivalia para os
druufs ao que é para nós o espaço de Einstein. Já este fato
bastaria para provar, logo que penetrassem no segundo plano temporal,
que a nave estava no local certo.
— Transição
cerca de seis minutos após a partida — comunicou Tifflor através
dos alto-falantes. — Colocar os trajes espaciais. Os mutantes, que
sairão em missão, devem usar os uniformes arcônidas de combate.
Pode ser que os teleportadores tenham de saltar antes do tempo
combinado. Não gostaria de perder uma excelente oportunidade por
mero descuido. Marshall, por favor, apanhe com o oficial do
almoxarife as microbombas já preparadas, distribuindo-as com seu
pessoal. O negócio tem de ser bem feito.
Havia um
novo surto de vida dentro do pequeno cruzador. Com os motores
funcionando em plena carga, foi dada a partida. Os cento e cinqüenta
tripulantes já estavam familiarizados com o grande abalo nervoso,
que então se iniciava. Fazia-se até o impossível para que todas as
mensagens fossem rápidas e claras.
Os
dispositivos de absorção de pressão amorteciam as alucinantes
forças da inércia, provenientes da súbita aceleração.
Ninguém a
bordo notou que a Califórnia varava o estranho universo druuf a mil
quilômetros por segundo. Para Julian Tifflor, as qualidades daquela
pequena nave eram excelentes. Embora, do ponto de vista de
armamentos, a Terra fosse inferior a Druufon, os descendentes de
inseto não podiam apresentar um aparelho que se comparasse à
Califórnia, principalmente no tocante aos grandes valores de
aceleração. Além disso, os aparelhos dos druufs, exatamente devido
à grande diversidade de planos de tempo, conseguiam no máximo
atingir a metade da velocidade da luz.
A
situação, porém, se alterava assim que passavam para a transição
linear. Aí, novamente, eram superiores às construções terranas.
Depois de
alguns minutos, a carcaça do cruzador começou a vibrar
intensamente. Os motores de propulsão já estavam funcionando com
injeção extra de combustível, para que a velocidade fosse mantida
nos valores previstos. Dez segundos antes da transição, Tifflor
ligou as telas da instalação do intercomunicador.
— Vamos
saltar. Está tudo em ordem com você, John?
— Certo,
está tudo bem. Boa sorte! Veio então a dor da desmaterialização,
penetrando até na medula dos ossos. Já deviam estar acostumados, no
entanto cada salto parecia ser o primeiro, uma verdadeira tortura...
A nave
Califórnia desapareceu do plano normal dos druufs. Não houve a onda
de abalos, devido ao fato de estarem ligados os aparelhos de absorção
estrutural.
Surgia
assim a possibilidade de emergirem inesperadamente diante do sistema
de Siamed.
7
As
oscilações do décimo terceiro planeta inspiraram cuidados. Não
havia mais dúvida de que, numa órbita aparentemente impossível,
estavam se aproximando cada vez mais do gigantesco sol vermelho.
De acordo
com as medições da astronomia, este sol não era muito quente, mas
para os habitantes da base de Hades ele se assemelhava a um forno
atômico, cujas labaredas, chamejantes de hidrogênio, podiam a
qualquer momento cobrir toda a superfície do planeta.
Hades
mantinha virada para o sol sempre a mesma face. Na parte ensolarada a
temperatura média era de 168 graus. A outra metade, de eterna noite,
já havia há muito perdido os últimos restinhos de calor. A
temperatura ali reinante era de zero absoluto.
A base
estava construída na zona do lusco-fusco. Tinha a extensão de
apenas oitenta quilômetros de largura, no entanto achava-se sujeita
a variações de suas dimensões, e seus limites não eram
constantes.
O Capitão
Rous estava olhando para seu relógio. Na parte traseira do grande
capacete pressurizado, o motor do condicionador de ar abafava os
pequenos ruídos que vinham de fora. Hades havia girado novamente
pela fração de um grau. Provavelmente, este planeta, mais ou menos
das dimensões de Marte, estava sujeito de tal modo às influências
gravitacionais do gigantesco sol vizinho, que uma parte considerável
da zona de meia-luz entraria agora na parte iluminada.
Em
crescente desassossego, Rous olhava agora para as colinas da
esperança do outro lado. No primeiro ataque, haviam incendiado nos
seus flancos uma estação camuflada nas cavernas, que foi
reconstruída e ampliada nos meses subseqüentes.
Jatos de
luz de um vermelho intenso se acumulavam na crista íngreme dos
morros, em direção ao céu escuro. Não iria demorar muito até que
a região sombria se convertesse num cadinho de fundição.
Rous se
retirou para a proteção de um rochedo bem alto. Já estava na hora
de deixar aquele ambiente desagradável, a fim de procurar abrigo nas
instalações bem refrigeradas da base.
Mais para
trás, a um quilômetro, começavam a evaporar os gases antes
congelados. O calor aumentava sensivelmente. Dentro de poucas horas,
se daria uma tempestade de gás de grande violência.
Capitão
Rous resolveu deixar seu posto de observação. Antes de o fazer,
porém, virou a parte superior do corpo para trás, para assim
ampliar seu campo visual. Respirando profundamente, olhou para o
espaço cintilante de estrelas. Os poucos resíduos de gás não
podiam ser tomados como atmosfera.
De
repente, Rous viu o que os homens da Califórnia não tinham ainda
presenciado: o clarão vermelho-escuro da técnica dos druufs. Tal
clarão começava como uma formação tubular, fina, partindo das
proximidades do décimo sexto planeta, para dali em diante se perder
no espaço infinito.
Caso Rous
se inclinasse mais para trás, veria bem nitidamente o surgimento do
terrível funil.
Gemendo,
com as mãos procurando um apoio, o capitão se levantou. Seu
uniforme, muito pesado, dificultava-lhe cada movimento, apesar da
gravitação relativamente reduzida de apenas 0,35 Gravos.
Rous
estava pensando que já fazia muito tempo que não conseguia um
contato via rádio com os cruzadores terranos, os pontos de ligação
com a Terra. Aliás, estava prevista a chegada de uma nave com
transmissor fictício, que viria para a região do funil de descarga,
não muito longe da base.
Rous
sentia-se um pouco perdido no seu posto avançado. As últimas
informações sobre os acontecimentos na Terra, ele as recebera do
Major Matsuro, comandante da Nippon.
Matsuro
falara de um ataque dos druufs e, logo após, desaparecera com seu
cruzador.
Rous podia
imaginar o que estava se passando no sistema solar. Amaldiçoou o
destino que o prendia aqui neste planeta do inferno. Desanimado,
olhou de novo para a formação luminosa na sua frente. O vento
provocado pelo movimento dos gases estava cada vez mais forte e os
raios do sol mais intensos.
“Se
dependesse de mim, já teria abandonado este recanto perdido do
espaço”,
refletiu.
Preocupado
com estes pensamentos, assustou-se com o ruído no alto-falante do
capacete. Era o Tenente Kagus que se apresentava.
— Alô,
Marcel Rous, você ainda está vivo?
— Obrigado
pela bela saudação — respondeu Rous mal-humorado. — Se eu
pudesse, destruiria esta toca aqui na rocha. A vibração aumenta.
Dentro de três ou quatro horas teremos duzentos graus Celsius aqui
na entrada da caverna.
— Oh!
Que coisa “gostosa”!
Por este motivo é que você deve vir correndo para cá. Creio que
acabamos de registrar a transição de uma nave terrana. De qualquer
maneira não houve as habituais ondas de choques e nem o
estremecimento próprio das naves druufs. Pode bem ser possível que
alguém, protegido pelo dispositivo de absorção de freqüências,
tenha penetrado no hiperespaço.
— Só
agora é que você vem dizer isto!? — exclamou Rous, interrogativo.
— Como
assim só agora? Mal comecei a falar!
O capitão
se pôs a caminho. Depois de dez minutos, chegou ao tabique onde
achavam-se os homens. Era tão bem camuflado que ninguém o
descobriria.
Impaciente,
Rous olhava para o movimento lento da enorme porta blindada, atrás
da qual começava a estreita comporta do ar pressurizado. Quando
conseguiu ouvir o chiar do ar que entrava, Rous bateu com a palma da
mão no botão do interruptor do comando magnético. O ar comprimido
escapou de uma só vez.
Sem dar
atenção ao sentinela que o saudou, Rous ganhou o corredor. A
central de rastreamento e de rádio estava repleta de terranos.
À
esquerda da central, começavam os aposentos onde se localizavam os
transmissores fictícios. Com o uso destes aparelhos, se conseguia
contato direto com as rápidas naves do Império Solar, sem se expor
ao perigo de a mensagem ser captada pelos adversários.
Os
transmissores fictícios trabalhavam em planos superpostos. Quando
dois aparelhos estavam bem sintonizados entre si, não havia perigo
de erro, independente das muitas influências do meio ambiente.
Ocorreu certa vez um erro, mas descobriu-se a causa posteriormente, e
tudo foi sanado.
Alguém
puxou a porta corrediça. Rous entrou no posto de rádio e
completamente cansado procurou uma cadeira.
O Tenente
Kagus estava concentrado diante dos instrumentos de medição. Sem
tirar os olhos dos aparelhos, falou:
— Já
estão emergindo novamente no espaço normal. Aposto qualquer coisa:
trata-se de uma nave terrana. A curva branda já é uma
característica de nossas naves. Alguém deu um salto espacial,
protegido pelo aparelho de absorção de freqüências. Olha isto
aqui, por favor.
O diagrama
da medição era de fato interessante. Não se constatou realmente
nenhum abalo estrutural. Apenas um resto insignificante de irradiação
de um compensador foi registrado pelos sensibilíssimos instrumentos
especializados.
— Quem
será? — perguntou Rous. — O que você acha? Antes de mais nada,
como é que esta nave conseguiu penetrar no espaço dos druufs? Se
tivesse irrompido pela garganta de descarga, teríamos percebido o
imenso clarão no espaço. Já há muitos dias, os druufs não
permitem a passagem de ninguém. Mantêm várias esquadrilhas
postadas bem na entrada da garganta.
Rous
continuou examinando as escalas do rastreador de freqüências. Mas
não houve mais nenhum registro.
Kagus
tirou o fone do ouvido.
— Se não
estou enganado, alguém lá na Terra se lembrou dos velhos geradores
de campos visuais. Por meio deles se pode também penetrar no segundo
plano. Temos de nos preparar para uma sobreposição de campo a
qualquer momento.
Rous olhou
para seu colega, com a fisionomia carregada.
— Sobreposição
de campo? Quer dizer então que você está acreditando numa
destruição do funil de descarga?
— Exatamente.
Se o chefe mandou um grupo de pessoas por intermédio do campo óptico
para o espaço dos druufs, então não podem ser homens comuns. Estou
crendo numa missão especial dos mutantes. Afinal de contas, não
comunicamos ao comandante da Nippon nossos cuidados com a estranha
formação aqui perto de nós? Não posso imaginar de que maneira um
funil de descarga, instalado nesta distância, aqui em Druufon, possa
servir para um ataque à Terra, mas de qualquer maneira, este funil
aqui está. Por outro lado, também, não se pode imaginar que o
Major Matsuro não tenha comunicado aos seus superiores na Terra o
que viu aqui. Assim, me parece muito lógico que Perry Rhodan não
perdeu a oportunidade de tentar alguma coisa.
Kagus
tamborilava com os dedos na fita plástica com os dados do
rastreador, enquanto Marcel Rous continuava pensativo.
— Só
podemos é esperar pelo que vai acontecer. É claro que se eles
estiverem por aqui, não cometerão a imprudência de fazer uso do
rádio. O perigo de serem localizados pelo rádio é muito grande. De
qualquer modo, temos de nos preparar para coisas desagradáveis.
Talvez sejam obrigados a aterrissar em Hades. Sargento Eicksen, você
assume com seu grupo, a partir de agora, uma severa vigilância aqui
no posto do transmissor. Quando as máquinas derem o sinal verde,
quero ser avisado imediatamente.
Assim já
estavam cientes do mais importante. A pequena tripulação de Hades
sabia da gravidade dos acontecimentos que estavam para se desenrolar.
Ignoravam,
porém, a extensão da invasão dos druufs. Para os seus conceitos, o
funil, surgido nas proximidades da zona de descarga, tinha de
destruir o espaço de Einstein. No entanto, ele se aproximava
bastante da Terra e esta era a grande diferença.
Rous e
Kagus deixaram o posto de observação. Depois de fechar a porta, o
capitão ainda perguntou:
— Você
crê mesmo na teoria de que falou? Na ação dos mutantes?
Kagus
sorriu.
— Você
deveria conhecer os especialistas do Comando Supremo melhor do que
eu. Acha que eles teriam ficado parados, depois de nossa comunicação?
Além do mais, há poucos minutos uma nave terrana entrou em
transição. Deve ter sido aqui no espaço dos druufs, do contrário
nossos instrumentos não a teriam registrado. Se nossa gente
encontrar o funil, temos que estar preparados para tudo.
— Se
antes disso não forem derrubados pelos milhares de aparelhos druufs
— disse Rous sério. — O sistema de Siamed está coalhado de
belonaves de todos os tipos.
*
* *
A
permanência num local situado a dez horas-luz fora do sistema de
Siamed foi muito curta. O Coronel Tifflor já estava preparando a
próxima transição, depois de ter constatado que não tinham sido
localizados pelos druufs.
Enquanto
isto, o intenso movimento de naves, que reinava no espaço dos 62
planetas, veio favorecer à Califórnia. Devia ser praticamente
impossível para as bases localizadas nos planetas distinguirem o
relativamente pequeno cruzador terrano, entre a multidão de seus
próprios aparelhos.
Ainda não
tinham encontrado o funil. Mas depois de uma procura febril, um dos
cientistas da equipe chegou ao pensamento certo.
Estava
mais do que evidente: uma sondagem por via energética era totalmente
desaconselhada, devido aos efeitos de sobreposição. Um
reconhecimento por via óptica também seria falho, devido às
enormes dimensões de um tal funil. Quando se estava perguntando se
já estavam no local certo, um dos físicos disse, depois de uma
tremenda imprecação:
— Há
quanto tempo existe este funil? Só há poucos dias? E qual é a
velocidade da luz no espaço dos druufs? Mais ou menos cento e
cinqüenta mil quilômetros por segundo? Então não se admirem se
ainda não pudemos ver o fenômeno. A luz não chegou aqui ainda,
meus senhores. Voemos um pouco mais, e ela aparecerá.
Foi este o
motivo que levou Tifflor a fazer uma segunda transição.
Agora,
depois do segundo salto, estava tudo claro. As grandes telas
panorâmicas não conseguiam captar o fenômeno luminoso em toda sua
grandeza. Tifflor calculou sua altura em dez bilhões de quilômetros.
A boca do funil poderia ter, na parte de transição onde se torna
quase invisível, aproximadamente vinte milhões de quilômetros em
diâmetro.
Eram
espaços enormes, que, no entanto, para os parâmetros astronômicos,
eram pequenos e de pouca significação. De qualquer maneira, o
diâmetro era suficiente para permitir a uma frota inteira a livre
entrada no espaço de Einstein.
Os
instrumentos de rastreamento da Califórnia trabalhavam sem cessar.
Tinha-se chegado ao décimo quinto planeta, vindo do plano superior.
O décimo sexto planeta, a pátria dos druufs, distava ainda duzentos
e cinqüenta milhões de quilômetros. Nas telas de ampliação de
rastreamento, mais veloz que a luz, já brilhava o número dezesseis
— chamado de Druufon — do tamanho de um punho cerrado.
Bem perto
de Druufon, começava, em forma de um tubo enorme, a extremidade do
funil de descarga, que estava sendo a causa da desgraça do sistema
solar.
Tifflor
supunha naturalmente que este conjunto artificial repousasse também
numa base artificial. Da anunciada estação espacial, não se sabia
nada ainda. Tifflor estava pensando em chamar a base de Hades e pedir
informações.
Isto era,
porém, muito perigoso. Portanto, acabou desistindo. Um radiograma
podia ser uma verdadeira traição, mais comprometedor do que o
aparecimento do próprio cruzador terrano.
Um rugido
tonitruante das turbinas superpotentes fez estremecer todo o bojo do
cruzador. Ainda estavam nas manobras de frenagem. A seguir,
tentariam, com a nave parada, colher melhores dados sobre a
localização do fenômeno luminoso.
Além
disso, era fato notório de que um corpo parado tinha muito mais peso
de um objeto a grande velocidade. Temia não poder levantar vôo mais
uma vez. Três minutos depois, a Califórnia parou completamente.
Com a nave
pairando no espaço, os técnicos rastreadores começaram de novo a
procurar a estação espacial. Os ecos registrados, porém, provinham
de naves dos druufs que decolavam ou aterrissavam. Parecia mesmo que
o décimo sexto planeta era a grande base da frota. Quanto mais se
aproximavam da fonte de interferência, mais confusas se tornavam as
medições.
— Continue
tentando — disse Tifflor. — Enquanto permanecermos incógnitos, o
tempo perdido não tem importância. Agora, como anda a situação na
Terra, nem é bom pensar.
O
comandante queria logo depois chamar John Marshall. Deixou de fazê-lo
porque Goratchim lhe disse que Marshall estava ocupado. O comandante
se contentou então em observar a cena tão singular através das
telas do vídeo.
Os membros
do corpo de mutantes, com poderes telepáticos, estavam todos de pé
de mãos dadas. Eram Gucky, John Marshall, Betty Toufry e Ishy Matsu.
Seus rostos pareciam vazios e os olhos arregalados não tinham
nenhuma expressão.
Fora
deles, não havia ninguém por perto. Uma corrente de vontades,
formada por telepatas tão competentes, não podia ser perturbada por
nenhum ruído.
A única
coisa a mover-se eram as tele-câmaras de captação óptica, que
aliás não faziam o menor ruído.
Marshall
fazia o papel de porta-voz do conjunto de vontades. Os outros três
mutantes simplesmente lhe colocavam à disposição suas forças
individuais através do contato manual. Forças estas que Marshall
podia aplicar tanto para sua própria irradiação, como também para
ampliação dos impulsos recebidos.
Somente
depois de dez minutos da mais intensa concentração, conseguiram o
contato desejado.
A
distância não lhes causou propriamente nenhuma dificuldade. Mas
pelo fato de que Ellert, que por uma rara fatalidade, tinha se
apossado da personalidade do cientista Onot, tivesse levado tanto
tempo para responder aos insistentes apelos dos mutantes, já se
podia perceber que ele se achava em grandes dificuldades. Marshall
teve que transmitir muitas e muitas vezes os impulsos combinados, até
conseguir se comunicar.
O
subconsciente de John Marshall captou uma voz fraca:
— Quem
chama? É John?
— Você
está em apuros, nós o sentimos. Formamos uma corrente. Podemos
ajudá-lo?
— Não.
Consegui a muito custo dominar o espírito de Onot que se revoltou.
Vocês vieram por causa do funil?
Marshall
confirmou. Ele e os outros mutantes tiveram que fazer o maior esforço
para ampliar os impulsos de Ellert, debilitados por sua extrema
fraqueza.
— Estamos
à procura da estação espacial, Ellert.
— Ela
gira em torno de Druufon a uma distância de três milhões de
quilômetros. Vocês devem destruí-la. Os maiores cientistas de
Druufon estão dentro dela. Tudo de importante se encontra nessa
estação. Essa estação é a responsável pelo funil. O
aparelhamento necessário para criar o tal funil foi construído de
acordo com as descobertas do cientista Onot no seu novo compactador
do tempo. Essa estação foi a primeira feita pelos druufs. Se for
destruída, e com ela também os responsáveis pela sua montagem, não
haverá mais possibilidade de os druufs reconstruírem uma outra
plataforma espacial. Onot está praticamente numa prisão preventiva.
Ele e eu estamos no planeta. Ataquem o quanto antes, do contrário
será tarde.
A seguir,
a comunicação foi interrompida. Por mais que Marshall chamasse,
Ellert não respondia.
Tifflor
estava numa grande excitação. Ao desaparecer a rigidez da expressão
dos mutantes, o coronel perguntou afobado:
— Que
aconteceu? Que foi que ele disse? Por favor, digam alguma coisa,
podemos ser descobertos a qualquer momento.
— A
estação espacial está girando em volta de Druufon, a uma distância
de três milhões de quilômetros. Por isto é que ela não pode ser
localizada. O gigantesco planeta encobre tudo. Ellert parou de falar
de repente. Receio que ele não esteja bem. Deveríamos tentar
auxiliá-lo...
— Não!
Marshall
estranhou o tom duro do “não”
de Tifflor. Quando olhou para cima e examinou a tela, sua fisionomia
se transformara. Era um Coronel Tifflor diferente, aquele homem de
aço, pronto para qualquer sacrifício.
— O
salvamento de Ellert será uma incumbência para outra expedição.
Não estamos nem preparados para isto, nem temos o tempo necessário.
John, vamos fazer mais uma transição. Preparem-se. Acho que não
temos mais um minuto a perder. Venha com os três telepatas para a
central de comando.
Julian
Tifflor tentou abrandar suas duras palavras. Notou que tinha sido um
pouco ríspido. Aquele “não”
ainda lhe estava queimando na boca. Levado pelo remorso, olhou calmo
em volta. Mas ninguém demonstrava qualquer sinal de reação.
Enquanto
se faziam os cálculos para a curta transição, apareceram Marshall,
o rato-castor Gucky, Tako Kakuta e o negro Ras Tschubai. Com exceção
de Marshall, todos eram teleportadores. Todos vestiam trajes
espaciais de combate de fabricação arcônida, cujo envoltório de
proteção individual dispensava a pesada couraça. Traziam a
tiracolo um objeto preto brilhante, do tamanho de uma bola de
futebol. Ali estava uma terrível arma de destruição.
Três
minutos antes da preparada transição, a Califórnia foi descoberta,
apesar do envoltório protetor. Do posto de radiotelegrafia, o
sentinela chamou:
— Tenente
Instedt, Sir. Acabamos de registrar hiperimpulsos, com volume sete.
São três reflexos diferentes, agora já cinco. Acho que nos
descobriram.
— Ecos
de ondas de choque, em amplitude rasa — comunicou a central de
rastreamento. — Algumas naves penetram no meio-espaço, estamos
perdendo o contato. O eco das ondas indica motores de propulsão
linear. Fim.
Tifflor
era a calma em pessoa. Para não perder tempo, se absteve de
conferir, como sempre fazia, os cálculos para a transição.
Enquanto
ainda estavam entrando os últimos dados para o salto, as turbinas da
Califórnia já estrugiam, e, em poucos segundos, deslocou-se para o
espaço.
A brusca
aceleração a atirou para longe.
Quando o
posto de rastreamento anunciou a presença de cinco naves dos druufs,
a Califórnia já tinha percorrido alguns milhões de quilômetros.
Os valores
para o salto ainda não estavam completos. A programação automática
do campo estrutural levava sempre algum tempo.
Nas telas
que correspondiam ao campo óptico instalado fora da nave, as
estrelas, até então bem claras, começaram a se ofuscar. Estava-se
aproximando da velocidade da luz. Quando o zumbido dos motores de
propulsão indicou que a injeção adicional de combustível havia
entrado em ação, Tifflor sabia que, voando normalmente, não seria
mais alcançado. As naves druufs não conseguiam nem a rápida
aceleração, nem a velocidade final das naves terranas.
Tifflor
calculou que ainda dispunha de cinco minutos. Com toda calma,
virou-se para os três teleportadores do grupo:
— Eis o
meu plano, que vocês devem seguir rigorosamente: é impossível para
a Califórnia atacar com tiros de canhão a estação espacial, pois
poderiam nos abater. Vamos nos rematerializar a uma distância de
três milhões de quilômetros, antes do planeta principal do
sistema. Depois, terei o espaço de um minuto para localizar a
estação e atacá-la numa ação fulminante.
“Assim
que ela aparecer nas telas e vocês conseguirem se orientar, saltem
com as bombas. Quando desaparecerem, eu entro numa curta transição.
Assim, desapareço do teatro de operações. Depois da manobra de
reaparecer no espaço, vou levar cinco minutos para as operações de
frenagem. Depois, mais cinco minutos para calcular a transição de
volta. Vou me abster de, antes da volta ao hiperespaço, fazer outra
transição. Em compensação, vou me arriscar a uma perigosa
transição de nível para chegar exatamente diante da estação
espacial.
“Assim
que acontecer tudo isto, vocês receberão de mim um curto impulso em
hiperonda. Concentrem-se de novo e pulem de volta para bordo. Ao
todo, terão de agüentar dentro da estação dez ou doze minutos.
Antes disso, certamente não poderei estar de volta. Agora, quando
receberem meu impulso, terão apenas trinta segundos para atingirem a
nave. Está tudo claro? Há alguma pergunta a fazer?”
Gucky se
apresentou:
— Por
que você não espera um instante, até que atiremos as bombas? Isto
não dura mais que um minuto.
— Um
minuto eu já vou levar para procurar a estação. Outro minuto seria
exatamente o tempo que os canhoneiros druufs levariam para
transformar a Califórnia numa tocha viva. Temos que ficar com o meu
plano. Vocês saltam, eu desapareço no hiperespaço, detenho a
Califórnia, volto e lhes envio o curto impulso. Prestem atenção
nos trinta segundos que lhes restam depois do impulso recebido. Não
posso esperar um segundo mais, para reiniciar o vôo. Vocês vão
conseguir isto?
Tako
Kakuta sorriu.
— É a
isto que eu chamo de um plano de emergência perfeitamente estudado!
Daremos conta do recado.
Logo
depois, constatou-se a aproximação de nove espaçonaves druufs.
Estavam perseguindo a Califórnia, que se mantinha no espaço normal
por meio de aparelhos com propulsão linear.
— Agora
— disse Tifflor — toda a frota de emergência será avisada.
Atenção, transição. Quero deixar para longe de nós esta barreira
de fogo dos druufs.
Quando os
perseguidores surgiram de repente no espaço normal do Universo dos
druufs, a Califórnia já havia desaparecido na dimensão superior.
Os projéteis de raios energéticos disparados contra ela se
desfizeram inutilmente no espaço.
Simultaneamente,
o posto de rastreamento de Hades registrava novos dados. O Capitão
Rous deu alarme geral, o mesmo acontecendo com as naves de
reconhecimento em torno da estação espacial. Demorou poucos
instantes, até que o cruzador desaparecido terminasse sua reduzida
transição a duzentos e cinqüenta milhões de quilômetros para
frente.
Quando se
tornou novamente visível, apareceu também nas telas das naves dos
druufs.
*
* *
Uma coisa
extraordinária foi a visão dos projéteis de raios energéticos
disparados pelos druufs. Uma coisa impossível no espaço de
Einstein, em decorrência da absoluta ausência da matéria, se
tornava aqui uma fantástica realidade.
Os feixes
de impulsos, em consonância com as leis do tempo ali reinante,
alcançavam somente a metade da velocidade da luz. Foi assim que o
Comandante Tifflor achou muito simples poder escapar dos raios
mortíferos e continuar tranqüilo em sua rota.
Mas, por
quanto tempo ainda teriam tanta sorte assim? Tifflor sabia que a
situação daqui para frente pioraria. Estava comandando a Califórnia
com controle manual. Conseguia, assim, manobras incríveis, com as
quais escapava dos inúmeros projéteis do inimigo.
O espaço
entre os planetas, de um brilho vermelho-sombrio, foi percorrido por
uma tempestade de cintilações das mais pesadas descargas térmicas.
Provavelmente
devia haver, bem próximo aos dois sóis, uma espécie de
micro-matéria cósmica, que era atraída e mantida presa por
poderosos campos de gravitação. Quando Tifflor mandou abrir fogo,
formaram-se, nas bocas dos canhões da nave terrana, flamejantes
bolas de fogo. Os dois disparos, feitos no correr de cinco segundos,
atingiram em cheio seu alvo. Os sóis atômicos coruscantes tragaram
as duas naves druufs que estavam no encalço da Califórnia.
Foi fácil
localizar a estação espacial, mais fácil do que se esperava.
Bastou que se orientasse pela delgada extremidade tubular do grande
funil. Divisava-se com nitidez a estranha figura luminosa no espaço.
Ali, onde a garganta começava, devia estar instalada a usina
flutuante. Não podia ser de modo diferente.
Tifflor
não se deteve. Os motores de propulsão da Califórnia trabalhavam
com toda a potência. Há dois segundos atrás, os campos magnéticos
de proteção antichoque foram ligados automaticamente, em virtude da
estranha e surpreendentemente grossa camada de micromatéria no meio
do sistema, causando desagradáveis atritos nos flancos da nave.
O bojo
esférico do cruzador já estava atingindo a coloração de metal
incandescente, quando os projetores entraram automaticamente em ação.
Ionizavam as diminutas partículas, expulsando-as para longe do
trajeto da nave.
Do minuto
que Tifflor tinha dado, como tempo suficiente para o vôo, quarenta
segundos já se haviam passado. Na grande tela da frente, viu-se
claramente uma figura em forma de disco, com cerca de oito
quilômetros de diâmetro por um e meio de altura.
Antes de
esgotar o prazo estabelecido de um minuto, parecia que os postos de
defesa automática da frota de vigilância estavam atirando. Os
ângulos de correção foram bem calculados, pois o primeiro projétil
atingiu o envoltório de proteção.
Isto
aconteceu um minuto antes da planejada ação. Vencido o minuto,
Tifflor sabia que o tempo urgia. Um segundo projétil veio de
encontro à barragem magnética e, no centro da nave, houve um ruído
como de um grande sino rachado. A estação espacial distava ainda
cinqüenta mil quilômetros.
— Saltem!
— gritou o comandante, já com um atraso de uma fração de
segundo.
Os três
teleportadores sabiam que venceriam aquela distância, apesar das
perigosas bombas.
No local
onde os três estavam em grande concentração, surgiram pontos
luminosos de várias colorações, que logo se dissolveram.
No mesmo
instante, Tifflor puxou a alavanca de transição. A Califórnia
desapareceu no hiperespaço, quando quatorze projéteis de raios
térmicos cruzaram o local onde devia estar, se continuasse em seu
vôo normal.
Dentro da
estação espacial, onde já reinava o estado de alerta, os
cientistas druufs se parabenizavam eufóricos. Estavam convencidos de
terem repelido um desesperado ataque de um comando suicida, ainda
mais que se havia percebido claramente como o estranho inimigo
tentara atingir seriamente a grande estação flutuante. Não tinha
acertado nenhum tiro, a estação estava intacta, o funil funcionando
como antes.
Exatamente
esta crença é que Tifflor queria provocar neles. Tudo dependia
agora de que os mutantes pudessem agir sem serem vistos. Pelos
cálculos humanos, tudo devia dar certo. Ninguém podia contar com o
fato de que três seres dotados de forças sobrenaturais pudessem
sair de uma nave em velocidade quase idêntica à da luz, sem uma
nave auxiliar, ou qualquer outro meio mecânico.
Quando a
Califórnia se rematerializou, e seus oficiais navegadores começaram
logo os cálculos para um salto de regresso, chegaram também ao seu
objetivo os três mutantes.
*
* *
Ras
Tschubai teve o azar de saltar exatamente num local desprotegido,
onde estavam instalados transformadores de alta tensão. Ofuscado por
incessantes descargas de curto-circuito dos cabos de alta voltagem,
gemendo de dores cambaleou para trás. Seu corpo ainda estava
ressentindo-se da terrível compressão da desmaterialização. Só
no último instante notou-se que toda a superfície da enorme estação
estava envolta numa barragem energética em forma de uma campânula
de proteção.
Aparentemente,
a estação possuía uma estranha energia. Tschubai já tinha sentido
isto, pois quando tentou andar mais para frente, viu-se preso...
Sentou-se
num canto mais protegido, prestando muita atenção para não
encostar nos cabos condutores desprotegidos.
Do outro
lado da parede metálica, roncavam as possantes máquinas de
propulsão. A julgar pelo ruído, deviam ser fornos de grande
potência, acoplados a conversores. Neste sentido, o modo de agir dos
druufs não era essencialmente diferente do dos terranos. Apenas
usavam para estabilização de sua energia nuclear um outro processo
catalítico.
Sem perda
de tempo, Ras começou a agir. Com todo cuidado, desatarraxou a bomba
de seu cinturão, olhou para o relógio, e regulou o detonador,
descontando os segundos já decorridos, para um prazo de quinze
minutos.
A ação
tinha sido planejada para três homens, a fim de se poder atingir um
alto grau de segurança. Mesmo que duas bombas fossem descobertas a
tempo, sempre sobraria uma, que bastaria para destruir toda a estação
flutuante.
A partir
daí, Ras Tschubai ficou esperando pelos impulsos combinados. Seu
receptor de pulso estava ligado. Os trinta segundos depois dos
impulsos tinham que ser aproveitados, ou não haveria mais um
regresso.
Gucky e
Tako Kakuta tiveram a sorte de aterrissar nos grandes corredores,
onde havia muitos cantos para se esconder. Depois de chegarem à
estação, o resto do trabalho foi muito simples. Como se esperava,
as grandes instalações técnicas eram quase todas de controle
remoto. Gucky conseguiu ver apenas um druuf, que naturalmente estava
de ronda.
Exatamente
aos 12:03 minutos, os microcomunicadores se fizeram ouvir. Ao mesmo
tempo, escutaram as tonitruantes descargas dos canhões energéticos,
com as quais a estação espacial devia estar bem equipada para se
defender.
Pularam ao
mesmo tempo. Quando se materializaram, estavam a bordo da nave
terrana, cujo comandante tentava, com manobras desesperadas, fugir ao
fogo cerrado dos druufs, que atiravam sem parar. Depois de ter
recebido dois projéteis, arruinando o envoltório de proteção,
Tifflor resolveu entrar em transição, embora não tivesse ainda a
necessária velocidade prescrita.
As dores
da desmaterialização foram terríveis, muito mais fortes do que
todas as vezes anteriores, isto porque não se atingira a necessária
velocidade para abrandar o choque, como nos saltos normais.
A
Califórnia desapareceu na quinta dimensão. Quando voltou ao espaço
normal, o gigantesco funil de descarga havia sumido. Estavam nos
confins do sistema Siamed. Mas, no lugar onde o rastreador ainda há
pouco mostrava o grande funil, o campo óptico apenas apresentava uma
eclosão energética.
E, no
entanto, ainda se podia ver o funil em sua forma primitiva. Era
naturalmente uma ilusão ótica, já que no espaço dos druufs os
raios luminosos tinham a metade da velocidade, produzindo uma imagem
que já não existia mais.
Do mesmo
modo, não se podia ainda ver a gigantesca bola de fogo. Sua luz
ainda não havia chegado até ao sexagésimo segundo planeta. Somente
um rastreamento espontâneo, trabalhando à base de maior velocidade
que a luz, podia provar que o sol artificial não se identificava com
o funil de descarga.
Ras
Tschubai e Tako Kakuta sofriam terrivelmente com um grande mal-estar.
Gucky jazia sem sentidos. O salto superapressado e as dificuldades
com o singular envoltório de proteção da estação já destruída
haviam causado um profundo esgotamento nos três teleportadores.
Tifflor,
porém, estava de excelente humor. Podia anunciar seu sucesso. Mas
lhe faltava ainda sair são e salvo do Universo dos druufs.
A
Califórnia continuou seu trajeto, possivelmente se preparando para a
transição. Tifflor parou o cruzador exatamente no local onde Rhodan
pretendia aparecer com a Drusus e montar o campo óptico. Todas as
máquinas que pudessem traí-los por suas irradiações estavam
paradas. O ágil cruzador terrano parecia uma nave-fantasma.
A única
coisa a funcionar era um reator de alimentação independente,
cuidadosamente blindado, que fornecia a energia para os
sensibilíssimos rastreadores. Por meio deles se constatava se a
Califórnia tinha sido atingida por impulsos sonoros e desta maneira
localizada pelos druufs.
*
* *
Três
horas após a erupção da quinta onda de assalto, detonaram nas luas
de Júpiter as primeiras bombas de telecomando. Um cruzador,
acidentalmente atingido, rolou sobre um grupo de caças e
destróieres, já prontos para decolar.
No setor
central, rugia a mais incrível das batalhas. As perdas do Império
Solar eram tremendas, no entanto, os druufs já haviam perdido cinco
vezes mais em espaçonaves do que os terranos.
Os
supercouraçados formavam a espinha dorsal da defesa. Principalmente
a Drusus causou tantos prejuízos ao inimigo com seu transmissor
fictício, que, em todo lugar onde aparecia a nave gigante, abriam-se
enormes lacunas na linha de ataque dos druufs.
Nove horas
após o regresso da nave capitania, aconteceram duas coisas
importantes. Um radiograma anunciava que o funil de descarga perto do
sistema Capela tinha sido destruído repentinamente. Os gritos de
alegria a bordo das naves terranas, Rhodan não conseguiu ouvir, mas
notou bem que suas forças, de moral irremediavelmente deprimido, se
lançaram com novo entusiasmo ao ataque.
A esquadra
druuf sediada em Marte foi aniquilada em pouco tempo. Mas ainda havia
muita nave dos druufs pelo sistema solar, para se poder proclamar uma
vitória da Terra.
Rhodan
ordenou então, por hiper-rádio, a retirada para a terceira e última
linha de defesa do Império Solar. Unidades danificadas de todos os
tipos lá estavam reunidas.
Foi então
que se deu o segundo grande acontecimento, decisivo para o resultado
das operações.
Instantes
depois da destruição do couraçado Osage, sob o comando do Coronel
Poskanow, os rastreadores estruturais das espaçonaves terranas
ameaçavam rebentar.
Num
movimento surpreendentemente rápido, surgiram do hiperespaço
numerosas belonaves. Atlan agira mais rápido do que se esperava.
Apenas nove horas depois do pedido de socorro, chegaram dez mil
belonaves pesadas e pesadíssimas, da frota robotizada dos arcônidas.
Estavam
sob o comando do almirante arcônida Senekho, que após a troca
radiofônica das senhas combinadas, entrou imediatamente em ação,
para expulsar os invasores.
Cinco
minutos mais tarde, chegaram outras quatro mil naves, cuja forma
externa demonstrava serem construções dos saltadores.
Foi a
primeira vez que os comerciantes das Galáxias penetraram livremente
no sistema solar, naquele sistema que eles há tanto tempo procuravam
sem sucesso.
— Venho
por ordem do regente, administrador — reboou a voz de um velho
patriarca de barba branca, através dos alto-falantes. — Cokaze é
meu nome. Sou o chefe de minha estirpe. Onde é que se torna mais
importante nossa intervenção?
Rhodan
parecia paralisado diante da tela. A expressão sombria do velho
despertou em Rhodan toda a antipatia que nutrira durante longos anos
contra os saltadores.
Com muita
reserva, deu algumas informações. Ao mesmo tempo retirou suas
unidades menores da frente de combate. Somente os couraçados e
supercouraçados, como também os cruzadores não danificados,
ficaram na linha de frente. Os extenuados pilotos dos caças e dos
destróieres de três homens voaram a toda, de volta para suas bases.
A partir
deste momento, os oficiais do estado-maior, a bordo da Drusus, não
tiveram mais nada que fazer, a não ser observar de longe a
sistemática destruição das restantes oito mil naves dos druufs.
Depois de
quinze minutos, o comandante dos inimigos, que não era um ser
humano, reconheceu a situação. Vendo que suas naves iam explodindo
uma após a outra, sem poder mais contar com reforço, em virtude do
súbito desaparecimento do funil de descarga, deu ordem de reunião
de suas unidades. Com apenas três mil naves — melancólico fim da
gigantesca frota de invasão — desapareceu no segundo plano.
De um
minuto para o outro, o sistema solar se libertou de seu ferrenho
adversário. Mas agora, ficavam outros aqui, não muito desejáveis.
Rhodan
pediu uma ligação para falar com o Almirante Senekho. O ancião
pertencia aos poucos arcônidas ativos a quem se podia ainda confiar
o comando de uma esquadra. Quando o rosto cansado e enrugado apareceu
na tela da Drusus, Rhodan teve que rir, sem querer. Senekho era o
mesmo oficial que examinava os navegadores espaciais na grande lua do
ciclópico planeta Naat. Eram navegadores de Zalit a quem Senekho
também instruía sobre as naves do Império de Árcon.
Isto tudo
fora há apenas algumas semanas e, no entanto, parecia a Rhodan um
fato de muitos e muitos anos atrás.
— Foi
uma viagem enorme, terrano — começou Senekho. — Tenho impressão
de que você mantém boas relações com o regente, não é? Seus
inimigos fugiram. E não se podia esperar outra coisa. Fui instruído
para executar todas as suas ordens. Que resta ainda a fazer?
Foi uma
pergunta clara e objetiva. Em oposição à grande maioria dos homens
de sua raça, Senekho tinha grandes qualidades.
— Nada,
muito obrigado. Se precisar de água fresca, mantimentos ou qualquer
outra coisa, nossas bases no Império Solar estão à sua disposição.
— Império?
— repetiu Senekho admirado. E começou a sorrir. — Império?
Gostei de ouvir, terrano. Você chama de império sua miserável
estrelazinha com planetas em miniatura?
Ao ouvir
isto, Reginald Bell ficou vermelho de ira, olhando furioso para a
tela. Rhodan não perdeu a calma devido a esta arrogância, que era
típica dos arcônidas. Respondeu muito à vontade:
— Realmente,
Império, almirante. O senhor já deve ter ouvido falar muito de nós,
para saber que a grandeza territorial de um sistema solar não é
decisiva para as qualidades de seus habitantes. Mas não é sobre
isto que gostaria de falar.
— Sobre
o que, então?
Senekho se
inclinou interessado. Seu rosto parecia maior e mais expressivo.
— Quando
propus aliança com o regente de Árcon, foi-me prometida a proteção
do Império. Como pode acontecer então que de repente aparecem no
meu sistema quatro mil naves dos saltadores?
Senekho
sorria.
— Não
sabia nada desta aliança, mas não duvido de sua existência, pois
se não fosse assim, não me tirariam da frente de bloqueio. O
regente mandou também as naves dos saltadores por recear que as
minhas dez mil unidades sozinhas não seriam suficientes. Nós não
podíamos saber que os monstros do outro Universo já haviam sofrido
tão grandes perdas. Fora disso, você tem algum desejo especial,
terrano?
Rhodan
refletiu um pouco. Sabia que Cokaze, o patriarca dos saltadores,
estava ouvindo tudo.
— Gostaria
de lhe pedir para explicar a Cokaze que a Terra não deseja ser
anexada ao domínio dos saltadores. Somos um sistema independente e
queremos continuar assim.
— Compreendi
— disse o almirante pensativo. — Está bem claro.
Com isto,
interrompeu a ligação. Enquanto a frota arcônida se reunia nas
proximidades da órbita de Marte, para daí partir direto para sua
frente de bloqueio, os quatro mil aparelhos dos saltadores voavam na
direção da Terra.
Rhodan
chamou o chefe do clã e lhe disse com toda firmeza:
— Você
vai mudar de direção em três minutos, Cokaze, do contrário vai
levar uma boa lição. Não pedi seu auxílio, portanto não exija
nenhuma recompensa.
— Somos
comerciantes e não fazemos nada de graça.
— Não
os chamei. Se vocês abaixam a crista para o regente, cumpram suas
ordens, isto não tem nada a ver comigo. Ainda estou bem forte para
lhes dar um banho de sangue. Caso não mude de rumo, minha frota
partirá imediatamente.
Como
Cokaze recebeu tudo isto, Rhodan não podia saber. No mesmo momento,
porém, suas naves entraram na operação de frenagem e logo depois
se ajuntaram à frota dos robôs arcônidas.
Somente
sessenta unidades danificadas em combate obtiveram permissão de
Rhodan para aterrissar. Assim aconteceu que, pela primeira vez,
alguns comerciantes das Galáxias pisaram o chão do nosso planeta,
onde foram recebidos por uma multidão de homens calados, de
expressão pouco amistosa.
Rhodan
passou para o supercouraçado Wellington, a fim de observar melhor os
que vieram de tão longe para ajudá-lo. Os comandantes das
esquadrilhas terranas receberam instruções secretas.
Concluindo,
Rhodan disse o seguinte:
— É
claro que nem o Almirante Senekho, nem os saltadores estão
informados sobre a mudança que houve em Árcon III. Por amor de
Deus, sejam prudentes, não digam nada a respeito, pois do contrário
a situação de Atlan ficará muito séria. O que nos interessa agora
é vermos os saltadores longe de nós. A frota robotizada voltará em
um ou dois dias, conforme garantiu Atlan. Somente estes saltadores é
que nos podem incomodar. Abram fogo imediatamente assim que um deles
tente descer em Vênus, em Marte ou na Terra, sem minha expressa
autorização.
“Meus
senhores, está na hora de despertarmos. O jogo de esconder já
acabou. A partir de agora, todo mundo sabe onde moramos. Temos, pois,
que reformular nossa política galáctica. Tenho plena certeza de que
encontraremos o caminho certo. Permaneçam de olhos abertos. Muito
obrigado.”
Enquanto a
Drusus disparava pelo hiperespaço para apanhar o cruzador
Califórnia, Rhodan voltou para seu camarote.
“Esperar”,
pensava ele, “esperar,
mais uma vez. Até hoje a Terra não dormiu, e também amanhã ou
depois de amanhã, ela não vai dormir. Vocês, de outros mundos,
ainda haverão de nos conhecer!”
*
* *
*
*
*
A Terra
venceu a grande batalha, sendo que o avanço desesperado de Tifflor
para o interior do Universo druuf foi o que decidiu, na hora mais
séria da História da Humanidade, a sorte do nosso planeta.
No
entanto, apesar do resultado positivo da luta, surge um novo fator:
acabou o mistério da localização da Terra. Começa então agora,
para Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, a fase mais
perigosa de sua longa carreira...
Irrompe
a hora gloriosa de Gucky, exatamente quando o destino traça os
momentos mais trágicos de Perry Rhodan!
A
Grande Hora de Gucky,
este é o nome do próximo livro da série.

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