domingo, 21 de agosto de 2016

P-083 - Planeta Topsid, Favor Responder - Kurt Brand [Parte 2]

Não poderemos contar com qualquer resultado antes de amanhã de noite. A dificuldade consiste em manter estáveis as camadas de reflexão no hiperespaço. A coisa não quer funcionar. O que sabemos sobre o hiperespaço ainda é pouco. E ainda há um detalhe bastante desagradável, de que só agora tomamos conhecimento. Os hipercampos de interferência permanecem no hiperespaço sob a forma de campos de fuga circulares e giratórios, que, de repente e sem qualquer motivo plausível, se afastam do raio vetor e desaparecem. Será que a idéia dos campos de ionização foi exclusivamente minha, Perry?
Foi, gorducho. Você pode tirar a patente. Por isso seus problemas não me interessam muito. Quando começará a fabricação em série dos aparelhos de interferência? Amanhã de noite?
Se houver um milagre, sim; do contrário...
A essa altura, Perry Rhodan mostrou sua impetuosidade!
Com a voz fria e implacável transmitiu sua exigência:
A produção em série terá de ser iniciada amanhã de noite o mais tardar, Bell. Confio inteiramente em você. Desligo.
Crest, o velho cientista arcônida, entrou no gabinete de Rhodan. Ele e Thora não obtiveram a ducha celular regeneradora do planeta Peregrino. E para Crest, estavam chegando os dias em que um indício após o outro anuncia o fim que se vai aproximando lentamente. Mas sua energia psíquica continuava a ser a mesma dos melhores anos de vida.
Tomou lugar ao lado de Rhodan; demonstrou a calma e a tranqüilidade que Perry e Reginald Bell haviam observado há muitos decênios, quando travaram conhecimento com esse arcônida na Lua.
Voltei a examinar a lista dos mutantes que deverão participar da operação — principiou. — Não seria recomendável levar para Topsid apenas metade desses elementos insubstituíveis? Atlan não é da mesma opinião que eu; acabo de falar com ele. Mas em John Marshall encontrei maior compreensão. Ele acredita que a utilização maciça de todos os mutantes representa um risco excessivo.
Crest — respondeu Rhodan em tom resoluto — a operação Topsid tem de ser concluída o mais cedo possível. Não se esqueça de que agora somos obrigados a agir. Avançamos a partir de uma posição defensiva. Isso sempre representa um mau começo... Um instante; a estação de hiper-rádio está chamando.
Mais uma vez chegaram notícias da frente de luta, onde as armadas espaciais dos arcônidas bloqueavam a área de superposição e se envolviam em lutas infindáveis com os druufs.
Rhodan tinha ã sua frente mais de três dezenas de mensagens. Essa torrente de notícias só se tornou possível graças às novas sondas-foguete, difíceis de serem localizadas e derrubadas. Além disso, os aperfeiçoamentos introduzidos na ótica de campos magnéticos, que em seus efeitos tinham uma semelhança espantosa com as lentes de borracha, já superadas, aumentaram em mil por cento o potencial de observações óticas.
Sir — disse o chefe da estação de hiper-rádio de Terrânia, dirigindo-se a Rhodan. Em sua voz soava um certo orgulho. — Agora já dispomos de uma visão completa de todas as formações de naves arcônidas que se encontram na frente de combate. Apuramos que Árcon mantém em luta oitenta e três mil naves de guerra, sem computar as naus auxiliares e as de aprovisionamento.
Mais de cinqüenta mil dessas naves já estão sendo pilotadas por criaturas humanóides. A cada hora que passa, mil robôs são substituídos por inteligências vivas. Hoje de noite estará concluída a substituição total do comando de todas as naves de guerra arcônidas.
Há duas horas chegou um contingente de seis mil lagartos vindos do planeta Topsid. É o terceiro transporte que chega nestas últimas dez horas.
Ainda não concluímos a interpretação dos dados. Porém, desde já, posso dizer com absoluta segurança que, nos setores em que os lagartos comandam as naves de guerra de Árcon, as perdas materiais são mais reduzidas. De outro lado, os druufs estão sendo rechaçados com uma violência nunca vista.
Permita, Sir, que lhe forneça as notícias detalhadas...”
Rhodan interrompeu-o e agradeceu. Esta parte do relatório foi suficiente para orientar sua ação.
Desligou. Crest acompanhara a palestra.
Então — disse, dirigindo-se ao velho arcônida. — Não acha que as coisas estão ruins? A base de Hades e Ellert, o mutante, terão que intervir. O computador-regente não deve ter nenhuma pausa para respirar, pois do contrário, amanhã ou depois, teremos naves arcônidas pousando na Terra...
O que pretende fazer, Rhodan? — perguntou Crest, que desde o primeiro encontro vinha tributando uma admiração muda a esse terrano.
Nossa base no Universo dos druufs receberá ordens, por intermédio de uma sonda, para recorrer a todas as possibilidades, especialmente à influência que Ellert pode fazer valer perante os druufs, a fim de que eles continuem a realizar ataques maciços contra as linhas de bloqueio de Árcon. Será que não devemos atirar uma isca aos druufs? Poderíamos fazer chegar-lhes a informação de que, nos próximos dias, o inimigo aparecerá com campos defensivos superpotentes, praticamente indestrutíveis? Crest, quanto tempo será preciso para obter os dados numéricos necessários ao lançamento da isca?
Três horas, cinco no máximo, Rhodan, mas...
Perdão, Crest. Neste momento não posso aceitar nenhum “mas” com o sentido que o senhor atribui ao termo. Quer dizer que aguardo os dados por cinco horas. Mais alguma coisa?
Crest respondeu que não e retirou-se.
Até hoje de noite, o grande cérebro de Árcon colocará inteligências vivas no comando da maior parte de suas naves de guerra, gorducho. Você precisa dar um jeito para que amanhã possamos dispor dos primeiros aparelhos geradores de campos de hiperinterferência, a fim de que as primeiras naves estejam prontas para partir em direção ao planeta Topsid. Não lhe posso conceder prazo maior que este. É só.
Depois Rhodan ligou para Allan D. Mercant.
Algo de novo sobre Topsid?
Não senhor. Por enquanto nenhuma nave arcônida apareceu no setor de Orion ou foi anunciada pelo grande computador. Mas meus dois agentes constataram por meio do goniômetro que, nas últimas vinte e quatro horas, o computador-gigante entrou três vezes em contato com os tópsidas. Não foi possível decifrar as mensagens.
Como está a situação geral, Mercant?
O rosto do interlocutor de Rhodan não anunciava nada de agradável.
Muito má, Sir. A cada hora que passa, o computador-regente fica mais forte. Nem mesmo na época do apogeu, o Império foi comandado com tamanha energia como agora. Nem os aras se atrevem a levantar a voz, quanto mais os saltadores e os superpesados. Os druufs e seus ataques ininterruptos amalgamaram o Grande Império que se esfacelava. Meus agentes, que não têm uma visão geral da situação, vêem-se diante de um enigma. Os movimentos separatistas, as revoltas contra Árcon e outros acontecimentos semelhantes já não ocorrem no grupo estelar M-13.
Obrigado, Mercant.
Rhodan redigiu uma ordem que, dentro de duas horas, deveria chegar a Hades, um planeta situado no Universo dos druufs. O tráfego de carga para Hades foi suspenso a partir da destruição da base de Fera Cinzenta. O contato resumia-se às comunicações de rádio. Acontece que Rhodan não gostava de utilizá-las, pois conhecia perfeitamente o risco de uma localização goniométrica. Por isso, preferia transmitir as notícias através de uma sonda, que, na pior das hipóteses, apenas poderia ser derrubada. Jamais alguém poderia apoderar-se dela, porque o aparelho se autodestruiria, sem fornecer a menor indicação sobre a ordem de que era portadora.
Quando o planeta Plutão chamou por outra tela, Rhodan estava transmitindo o texto à estação de hiper-rádio.
Um momento! — gritou Rhodan; virando-se de lado, concluiu o texto.
A seguir, deu ordem para que este fosse transmitido por intermédio de pelo menos dez estações retransmissoras. Só depois respondeu ao chamado de Plutão.
As estações retransmissoras eram cruzadores de reconhecimento da classe Estado, distribuídos a grandes distâncias pela Galáxia. Estas recebiam, muitas vezes em ziguezague, as mensagens codificadas e condensadas, e as irradiavam no mesmo segundo a outra nave, por uma freqüência diferente. Assim, as mensagens chegavam ao destino com uma demora de cinco segundos. Nenhum serviço goniométrico inimigo conseguiria saber o ponto de partida e de chegada da transmissão.
Pode falar — disse Rhodan, olhando para a tela na qual se via o rosto do chefe das instalações de Plutão.
Queira desculpar, Sir...
O que houve? — perguntou Rhodan em tom impaciente, dando a entender que a interrupção vinha em má hora.
O rosto do chefe da guarnição tornou-se ainda mais frio. Pigarreou e, usando o tom lamentoso que Rhodan não apreciava nem um pouco, disse:
Sir, há alguns dias o Tenente Thomas Cardif vem tentando...
Rhodan sentiu um calafrio.
Thomas Cardif — sua voz não traía a emoção que surgia em sua alma quando interrompeu o major da base de Plutão. — O senhor não é o superior imediato do tenente, major? Trate-o da mesma forma que trataria qualquer outro oficial!
Sir — Perry Rhodan não pôde deixar de notar que o major recorria às últimas reservas de coragem para expor seu problema. — O exame psiquiátrico do tenente levou à conclusão de que, em virtude do ódio que ele tem contra o senhor, o rapaz só tem uma responsabilidade restrita por seus atos. Por isso pediria licença para...
Perry Rhodan inclinou-se para a frente. Subitamente seus olhos cinzentos pareciam expelir chispas. As rugas da testa aprofundaram-se, dando mostras da emoção que sentia. Apenas a voz continuou inalterada, embora nela passasse a vibrar um tom gelado.
Se o lugar do Tenente Thomas Cardif for um estabelecimento psiquiátrico, ele não poderá continuar a ser um oficial da frota espacial do Império Solar. Caso não esteja doente e só sofra de certos complexos de ódio artificiais, criados por ele mesmo, dê uma ocupação ao jovem, major. O senhor tem filhos?
Tenho; dois rapazes e uma moça.
O.K. O que pretende fazer com ele, major?
O rapaz costuma proferir palavras ofensivas à sua pessoa.
O major ainda não se atrevera a expor ao pai de Thomas Cardif os atos de que este se fizera culpado.
Isso não é novidade, major. Mas não estou satisfeito com o procedimento do senhor, já que o fato de Thomas Cardif ser meu filho lhe tolhe a liberdade de movimentos. O que quero é que aja livremente. Coloque-o diante de uma corte marcial. Depois que tenha cumprido a pena que lhe venha ser imposta, dê-lhe um tratamento que lhe faça perder a vontade de fazer discursos subversivos.
Permite mais uma observação, Sir? — perguntou o major.
Pois não!
O Tenente Cardif possui a energia do senhor...
Mais uma vez Perry Rhodan interrompeu o major.
Isso é um fato positivo que me deixa muito satisfeito. Procure conduzir essa energia para canais adequados. Faço votos de que o senhor o consiga, pois isso seria um grande benefício para Thomas Cardif... Bem, major, acho que os filhos vêm ao mundo para dar aborrecimentos aos pais. Obrigado. Desligo.
A ligação entre Plutão, o planeta gelado, e a Terra deixou de existir. Mas os pensamentos de Rhodan, que se encontrava em Terrânia, giraram por alguns minutos em torno do filho, que só em Silico V, uma fortaleza planetária dos arcônidas, ficou sabendo que era filho de Thora e Perry Rhodan. E, desde então, se recusara a renunciar ao nome Cardif, sob o qual fora criado.
Rhodan estava com a alma revolta. Thomas, sempre Thomas, dizia seu pensamento. Perry sabia que o filho não conseguiria romper a herança arcônida que a mãe lhe deixara.
Thomas Cardif, filho único de Perry Rhodan, odiava o pai.
Quando viu Bell entrar em seu gabinete, Rhodan sentiu-se aliviado. O gorducho estacou ao ver o amigo tão abatido.
Alguma novidade? — perguntou em tom mais cauteloso do que costumava usar.
Bell, Thomas terá de enfrentar a corte marcial.
Não diga! — a voz de Bell parecia um toque de atacar. — O que foi que você fez? É claro que concordou, não é, Perry?
Pois como administrador do Império Solar não poderia...
Perry! — interrompeu Reginald Bell. — Você é um sujeito formidável, mas como pai não é tanto. Meu pai me esquentava os fundilhos quando fazia alguma coisa que não devia. Porém, mais tarde, se houvesse necessidade, teria ido até o presidente dos Estados Unidos para interceder por mim. E o que é que você está fazendo? Deixe-me usar esse aparelho.
Empurrou Perry para o lado. A tecla fez clique. A estação respondeu. Reginald Bell pediu uma ligação com o major que servia nas instalações de Plutão.
A imagem não demorou a surgir na tela.
Major — principiou Bell. — Estou chamando por causa de Thomas Cardif. Esse jovem não pode ser colocado diante da corte marcial. Estou falando do mesmo lugar em que o administrador falou com o senhor há pouco. Está sentado a meu lado. Quer dizer que estamos entendidos, não estamos? Se deve dar uma lição a esse jovem? É claro que sim; e que lição? Bem, o senhor entende disso melhor que eu. De qualquer maneira estamos conversados, não estamos?
Entendi perfeitamente, Mister Bell! — disse a voz vinda de Plutão, com um suspiro de alívio.
O.K. Desligo, major! — gritou Bell para dentro do microfone e desligou.
Bell não mais tocou no assunto Thomas Cardif. Afinal, não foi por isso que veio falar com Rhodan.
Amanhã de manhã será iniciada a produção em série dos novos aparelhos, Perry! O trabalho dos especialistas progrediu bem. Agora está na vez de os homens práticos, os técnicos mostrarem o que sabem fazer. Acho que, depois de muito tempo, esta noite será a primeira em que conseguiremos dormir bem.
Enquanto proferia estas palavras examinava o polegar direito, que já sarara da ferida. De qualquer maneira parecia não gostar, pois vivia sacudindo a cabeça.
Perry Rhodan preferiu não perguntar a Bell por que motivo ele vivia sacudindo a cabeça. Não fazia nenhuma questão de voltar a ouvir as previsões sombrias do amigo.
Bem — disse para desviar a atenção de Bell. — Acho que hoje conseguiremos dormir...
5



Oito cruzadores ligeiros da classe Estado decolaram em direção ao sistema de Orion. Tratava-se de veículos espaciais esféricos de apenas cem metros de diâmetro. Da operação ainda participavam duas naves da classe Terra. O supercouraçado Kublai Khan, que pelo aspecto exterior passara a ser uma nave arcônida com o nome On-Tharu, era o único que se mantinha à espera. Só poderia entrar em ação depois de concluídos os complicados preparativos da visita ao planeta Topsid.
Gallus, principal especialista em campos de ionização no hiperespaço, voava na Burma. Não conseguiu sair de seu minúsculo laboratório, até o momento em que Joe Pasgin, que naquele momento comandava essa nave da classe Estado, o convocara pelo intercomunicador para comparecer à sala de comando.
Gallus era um homem pequeno e franzino, hipersensível e extremamente excitável. Porém possuía uma competência extraordinária em seu setor. Era a primeira vez que se encontrava no espaço. Joe Pasgin sabia disso, e, por esse motivo, quando Gallus entrou na sala de comando, deixou-se ficar à frente da tela de visão global. O técnico não poderia deixar de ver o brilho dos milhares de sóis que se destacavam contra o fundo escuro.
Mas o perito em campos de ionização não deu a menor atenção à imagem do Universo projetada na tela. Só se interessava pelas notícias relativas aos campos de interferência, que agora teriam de passar pelo teste prático.
Pasgin viu-se obrigado a dizer:
As experiências só serão realizadas quando chegarmos ao setor de Orion. São ordens expressas do chefe, Mr. Gallus. Afinal, não vamos forçar as coisas para trazer os arcônidas à Terra. Está ouvindo a contagem regressiva? Daqui a vinte segundos entraremos em transição para sair no setor de Orion. Acredito que possa ter paciência para esperar mais dois minutos.

* * *

Oito cruzadores ligeiros e duas naves da classe Terra saltaram sob a proteção dos neutralizadores de vibrações e voltaram ao espaço normal, a uma distância pouco superior a oitocentos anos-luz.
Assim que passou o choque da rematerialização e as dores na nuca cessaram, a Sambo transmitiu o sinal para a primeira experiência a ser realizada com os novos aparelhos, que deveriam gerar e manter estáveis campos de ionização de dimensões astronômicas.
A distância entre a Burma e a Sambo era de 1,1 milhões de quilômetros. Sem o auxílio dos instrumentos uma nave não seria capaz de ver a outra. Mas a Sambo adquiriu existência no interior da sala de comando da Burma, onde Gallus e Pasgin observavam os novos instrumentos acoplados ao receptor de hiper-rádio. Uma curva dupla de formato estranho, que se modificava constantemente na lâmina do oscilógrafo, fez com que Gallus exclamasse:
Olhe a Sambo!
Joe Pasgin, que não entendia nada dessa técnica de comunicações, limitou-se a fazer um gesto cortês de assentimento. Essas curvas lhe diziam muito pouco, e seu aspecto lhe parecia estranho.
Mas Gallus dedicou-lhes uma atenção entusiástica.
Quando subitamente a lâmina oval negra, junto ao instrumento semelhante a um oscilógrafo, emitiu uma luminosidade verde e, depois de algumas oscilações, passou a brilhar numa intensidade constante, o técnico soltou algumas exclamações de arrebatamento.
Ao que parecia, o operador de rádio da Burma fora instruído antes da decolagem sobre as funções da lâmina oval, pois disse em tom de surpresa:
Ora vejam! Aqui não se consegue nada com o hipercomunicador. Nunca teria acreditado!
Naquele instante, Gallus era exclusivamente o pesquisador.
Mantenha o raio direcional! Quero medir os reflexos.
Quase a contragosto Joe Pasgin começou a interessar-se pelas experiências de Gallus. Afinal, a possibilidade de interromper todas as comunicações de rádio com o mundo dos lagartos, a ponto de que este planeta só pudesse receber as mensagens conduzidas através da zona de bloqueio pelas naves terranas, e novamente irradiadas atrás dessa zona, dependeria apenas do resultado dessas experiências.
Enquanto a pequena formação mista da Frota Espacial Terrana se aproximava do mundo dos lagartos, desenvolvendo metade da velocidade da luz, a bordo da Burma e da Sambo, estavam sendo concluídas as últimas experiências.
O pequenino Gallus estava irreconhecível; parecia crescer para além de si mesmo. Com um zelo quase furioso foi ampliando as séries de experiências. Passou a aplicar padrões cada vez mais rigorosos.
Porém por mais que se esforçasse para romper os campos de ionização gerados do hiperespaço, todas as tentativas realizadas para esse fim falharam. O que mais o espantou foi a estabilidade dessas zonas de interferência, e o fato de que tais zonas se deslocavam em sentido horizontal e vertical, sem que para isso se precisasse recorrer a um grande dispêndio de energia.
O maior efeito útil é alcançado numa distância de vinte e oito a trinta e quatro vírgula cinco minutos-luz — explicou Gallus a Joe Pasgin, que o ouvia atentamente. — Três cruzadores bastarão para interromper todas as comunicações de rádio com o grupo estelar M-13 e as linhas de bloqueio. Caso surja um imprevisto, duas naves terão de ser mantidas de prontidão para logo entrarem em ação.
E constatou em tom quase exultante:
Mister Pasgin, o chefe ficará satisfeito com nosso trabalho.
Pasgin não tomou conhecimento da observação.
Como faremos para transmitir as mensagens que os lagartos deverão receber? — indagou.
Os campos de ionização, que acabam de ser criados por nós, não deixarão passar qualquer mensagem de hipercomunicação, seja qual for a sua potência de irradiação. Afinal, uma das características desses campos de ionização consiste no fato de refletir cem por cento das ondas. É bem verdade que essa característica envolve um perigo...
Qual é esse perigo? — indagou Joe Pasgin.
O perigo resultaria o ângulo incorreto da superfície do campo de reflexão em relação ao ângulo de incidência. Neste caso, o mesmo seria facilmente refletido a plena potência para o ponto de saída...
Por todos os santos da Via Láctea! — exclamou Pasgin em tom de alarma. — Nesse caso, a resposta que o computador-regente receberia a qualquer mensagem seria a própria mensagem.
Naturalmente! — disse Gallus em tom de espanto, pois não sabia explicar o motivo do espanto do oficial.
O chefe conhece essa possibilidade, Gallus?
É claro que não conhece. Como poderia conhecer?
Ora essa! Só mesmo um cientista que anda com a cabeça nas nuvens seria capaz de criar uma coisa destas! — exclamou Pasgin. — O que acha que o computador fará se em vez de uma resposta receber o texto da indagação que acaba de formular? Enviará uma esquadrilha ao lugar em que foi refletida sua mensagem.
Para onde? Para o hiperespaço? — perguntou Gallus com a maior ingenuidade. Era um homem sem a menor malícia, cujo único interesse consistia na ciência.
Joe Pasgin procurou dominar-se. Sua voz exprimia o martírio que sentia porque esse cientista não tinha o menor contato com a áspera realidade.
Não — respondeu. — Mas as naves arcônidas aparecerão no lugar em que se localiza a fonte das interferências no tráfego de hipercomunicações e golpearão implacavelmente. Por isso o chefe terá de ser informado o quanto antes.
O interfone de bordo transmitiu uma mensagem da sala de comando, segundo a qual a formação terrana alcançaria dentro de cinco minutos a posição que lhe fora designada.
O oficial despediu-se apressadamente de Gallus. Quando Pasgin entrou na sala de comando, no interior desta desenvolvia-se uma atividade febril. Os dados e as notícias chegavam ininterruptamente de todos os cantos da nave. Constituíam o prelúdio de uma das manobras mais arrojadas de que lançara mão Perry Rhodan. Vários homens da sala de comando da Burma já tinham participado de outras missões, motivo por que possuíam uma intuição apurada, que lhes dizia se determinada operação era ou não perigosa.
A operação que estavam realizando não era apenas extremamente perigosa; representava um atrevimento elevado à última potência. Nenhum dos presentes desejava um confronto direto com o inimigo, mas o golpe audacioso pelo qual se adiantariam ao computador-regente alegrava todos. Por isso aceitaram prazerosamente o risco ligado à operação.
Essa operação recebera um nome já consagrado em casos dessa natureza: Comando Suicida.
O nome dizia tudo, mas isso pouco importava à equipe de Perry Rhodan. Estavam acostumados às horas de turbulência. Embora a operação em que estavam envolvidos não fosse propriamente um piquenique, não viam nela aquilo que realmente era: uma tentativa desesperada de Rhodan, isto é, desejava salvar o que pudesse ser salvo.
Joe Pasgin foi recebendo as mensagens das outras naves. Examinou os dados relativos à posição e fez um sinal de confirmação em direção ao computador de bordo. Para o oficial de computação, isso significava que as outras naves se encontravam na posição prevista, e que ele poderia dar início a seu trabalho.
Ao contrário das outras naves da classe Estado, a Burma possuía um computador positrônico de tipo especial, cujo forte era a hipermatemática arcônida, que permitia os cálculos relativos ao hiperespaço.
Naquele momento estava ocupado numa operação extremamente complexa: o cálculo do ângulo de incidência do raio direcional do hipertransmissor de Árcon III, que o regente utilizava constantemente. Para cada segundo de operação tinha de ser considerada muita coisa, além das centenas de movimentos que por vezes se desenvolviam em sentido contrário.
O caráter problemático da operação também não resultava do fato de o sistema de Topsid ficar a pouco mais de 33 mil anos-luz do mundo central de Árcon. O principal fator de complicação consistia na necessidade de determinar o ângulo de incidência dentro do hiperespaço, já que, em conformidade com a matemática arcônida, no hiperespaço não havia nada que se assemelhasse ao caráter espaço-temporal normal, e nele não podiam ser aplicados os conceitos que se identificassem com aqueles adotados em nosso Universo.
Se não fosse a máquina positrônica, um homem de nosso sistema solar não se atreveria a iniciar a execução da tarefa. Mas, no interior da Burma, tal missão não infundia o menor receio. Puseram mãos à obra sem a menor hesitação ou constrangimento. Quando a fita perfurada foi expelida pelo computador, Pasgin perguntou:
Não seria preferível recorrermos ao especialista, Ylers? Há pouco Gallus me falou na possibilidade de um reflexo de cem por cento.
Pelo amor de Deus, tragam o homem. Não quero assumir o risco sozinho! — exclamou o oficial do computador em tom nervoso, sacudindo a cabeça, num gesto de ceticismo.
Pasgin o observou, enquanto dava ordem para que Gallus fosse chamado à sala de comando.
Ylers, o senhor não acreditava nesses cem por cento? — perguntou em tom curioso.
Ylers respondeu prontamente:
Uma reflexão de cem por cento não existe! O processo de retorno das radiações consome certa quantidade de energia.
Mesmo no hiperespaço? — perguntou Pasgin.
Ora! — respondeu Ylers. — Com essa o senhor me pegou. Ninguém poderá responder sim ou não a essa pergunta.
Pare aí, Ylers! Nosso especialista afirma que é assim. Pelo que diz, a retribuição das radiações sem qualquer perda é uma das características do hiperespaço.
Ele deve saber — confessou Ylers a contragosto.
Não conseguia livrar-se do ceticismo. Gallus entrou.
Mister Gallus, queira conferir os resultados fornecidos pelo computador.
Um instante, Mister Pasgin — disse Gallus. — Parece haver um mal-entendido. Não estou em condições de conferir a interpretação fornecida pelo computador de bordo. Nem mesmo um arcônida seria capaz disso. Tudo a respeito do hiperespaço não passa de um cálculo de fatores estranhos que se processa no desconhecido. Mas nem mesmo um arcônida sabe explicar por que o cálculo correto fornece um resultado que revela sua exatidão também no terreno prático, como, por exemplo, numa transição.
Quer dizer que posso transmitir minha mensagem à Terra para avisar que concluímos nossos preparativos?
Perfeitamente — disse o perito em ionização. — Não há nenhum inconveniente.
Pois bem. Nesse caso, o Comando Suicida pode entrar em ação — disse Pasgin, fazendo uma ligação de interfone com a sala de rádio. — Transmita o texto combinado ao chefe, usando as estações retransmissoras. A mensagem será distorcida e condensada. O código já é de seu conhecimento. Solicito confirmação. Câmbio.
A sala de rádio confirmou. No mesmo instante foi expedida a mensagem previamente combinada.
A operação tinha sido iniciada!
6



No dia 6 de janeiro de 2.044, às 23 horas, 31 minutos e 9 segundos, hora de Terrânia, a grande estação de hiper-rádio da metrópole terrana recebeu a mensagem da Burma, que foi retransmitida imediatamente para a Kublai Khan, que se mantinha preparada para decolar a qualquer momento.
Às 23 horas, 35 minutos e 14 segundos decolou o supercouraçado Kublai Khan, que, com exceção da nave capitania Drusus, era o único veículo espacial que dispunha de um transmissor de matéria.
O envoltório esférico de 1.500 metros de diâmetro, feito do melhor aço, abrigava uma tripulação de dois mil homens, que para essa operação não havia sido selecionada com muito rigor. Os uniformes dos homens diziam o suficiente: pareciam disfarces. Só Atlan viu neles algo de familiar e começou a sentir algo parecido com saudades de Árcon. Em qualquer lugar da Kublai Khan se viam os uniformes arcônidas, e em todos os lugares se falava o arcônida ou o intercosmo, que era a língua usada no intercâmbio interestelar.
Os tripulantes da Kublai Khan pareciam não conhecer a língua inglesa.
No dia 7 de janeiro de 2.044, às 02h 01m 34seg o supercouraçado realizou a transição, protegido pelo potente neutralizador de vibrações. Saiu do hiperespaço nas imediações do sistema de Orion e a menos de um minuto-luz do grupo que tinha ido na frente.
Enquanto o doloroso choque do salto ainda maltratava dois mil terranos disfarçados de arcônidas, o transmissor automático forneceu o sinal de identificação ao grupo de naves.
Os membros mais importantes do comando que participaria da operação encontravam-se em companhia de Perry Rhodan, na sala central da Kublai Khan. Naquele momento, ouviam o relato de Joe Pasgin sobre as experiências realizadas com os hipercampos de interferência.
Bell, que em virtude de sua pequena estatura não fazia boa figura no uniforme de membro do estado-maior arcônida, disse em voz baixa:
Se não houver nenhuma pane com estes campos de ionização, quero chamar-me de Smith. Oh, Via Láctea, como estão nossas perspectivas!
Ninguém o contestou, nem mesmo Gucky, o rato-castor, que se refestelava no sofá e envergava seu uniforme de inspetor arcônida. A seu lado tinha uma esfera. Era Harno, seu novo amigo.
Ao que parecia, só Perry Rhodan e Atlan tinham algo a fazer. Bell, que elaborara o plano de ação contra Topsid, estava reduzido ao papel de espectador, tal qual as outras pessoas que se encontravam na sala de comando. O rato-castor chegou mesmo a bocejar acintosamente, e nem sequer teve o cuidado de cobrir a boca com uma das patas...
O pessoal da sala de rádio estava ocupadíssimo.
As ordens se atropelavam. As naves de Perry Rhodan começaram a promover o fechamento hermético do planeta Topsid contra qualquer tipo de tráfego de rádio.
A criação dos campos de ionização progredia rapidamente.
A uma distância de trinta minutos-luz, uma esfera fechava-se em torno do planeta. Tratava-se de uma esfera que não existia no espaço normal e fazia com que os lagartos não pudessem receber qualquer mensagem vinda do espaço e nem estivessem em condições de fazer chegar um raio direcional a uma distância superior a trinta minutos-luz. Tal raio sempre acabaria atingindo o hipercampo esférico de interferência, que causava seu desvio e reflexão, segundo as leis prevalentes no hiperespaço.
Na sala de rádio da Kublai Khan, que segundo os caracteres arcônidas gravados em seu envoltório esférico passara a chamar-se de On-Tharu, as máquinas complicadíssimas, com regulagens ainda mais complicadas, transformavam simples pios em mensagens de extensão e importância consideráveis. O sistema de intercomunicação de bordo transmitia-as prontamente à equipe que cercava Perry Rhodan.
No dia 7 de janeiro, às 03h 42m 04seg, hora de Terrânia, completou-se o isolamento do mundo dos lagartos. Perry Rhodan já poderia pensar em reparar o erro cometido no passado.
Enquanto a On-Tharu, que desenvolvia metade da velocidade da luz, avançava lentamente em direção ao sistema de sóis germinados de Topsid, o grupo-tarefa da Frota Terrana permaneceu na sua área de atuação, situada antes e depois da zona de interferência. No supercouraçado foram tomados os últimos preparativos para que, por ocasião de seu pouso no mundo dos lagartos, a nave não fosse recebida com disparos dos potentes canhões de radiações.
Rhodan inclinou-se em direção ao microfone e, dirigindo-se à sala de rádio, disse:
Ligue a faixa de hiperfreqüência do computador-regente e irradie em seu comprimento de onda. Trinta segundos serão suficientes. O regente nunca nos dirigiu qualquer chamado com maior duração.
Quase ao mesmo tempo ouviu atrás de si o passo pesado de um robô.
Atlan exibiu um sorriso forçado, enquanto um sorriso alegre surgia no rosto de Bell, que parecia ter esquecido tudo que se relacionasse com o dedo machucado.
O rato-castor não parecia sentir o nervosismo gerado pela situação. Rolara Harno, o ser esférico, para junto de si e colocara a pata sobre a superfície lisa de seu corpo. Os olhos de Gucky continuavam fechados. Apenas o dente roedor permanecia visível. Dali se concluía que Gucky se sentia à vontade.
O alto-falante do sistema de intercomunicação transmitiu a mensagem:
Disfarce montado!
Rhodan confirmou o recebimento.
O robô estava parado a seu lado. Parecia ter sido programado especialmente para a situação.
Na tela surgiu o tristemente afamado modelo de ondas do computador-regente de Árcon III.
Nos últimos vinte segundos, esse modelo devia ter ficado visível em algumas telas especiais dos lagartos.
Depois de algum tempo, o mundo dos tópsidas expediu o primeiro sinal de rádio, em resposta à mensagem de comando do Regente de Árcon.
Assim que terminaram os trinta segundos, o robô que se encontrava ao lado de Perry Rhodan começou a falar com sua voz metálica, que tinha uma semelhança espantosa com o órgão vocal do computador-regente:
Aqui fala o Grande Coordenador. A On-Tharu, comandada por meu representante Attor, pousará ainda hoje em Topsid, a fim de realizar certas investigações no local. Atendam a qualquer pedido, a qualquer ordem, forneçam todo auxílio que lhes seja solicitado. A conseqüência de uma eventual recusa será a destruição do planeta.
A comunicação foi interrompida. Qualquer tópsida acreditaria que o chamado vinha diretamente do Grande Coordenador, sediado em Árcon III.
O robô especialmente preparado para esse tipo de engano desapareceu. A On-Tharu continuava a aproximar-se do sistema de sóis geminados, desenvolvendo a metade da velocidade da luz. Esse sistema, com seus vinte e sete planetas, não poderia ser chamado de pequeno. Quinze desses mundos pertenciam ao grande sol, que emitia uma luz branca e ofuscante e tinha seis vezes o tamanho de seu companheiro violeta.
Seis planetas corriam em torno do astro que emitia uma luz violeta-pálida e, à primeira vista, tinha o aspecto de um anão. A um exame mais detido percebia-se que se tratava de um sol muito quente, de massa reduzida, gravitação insignificante e pequeno diâmetro.
Os seis planetas restantes gravitavam em torno dos dois sóis, e um deles era o mundo central dos lagartos, enquanto outros cinco planetas, situados no mesmo sistema, eram de importância secundária sob todos os pontos de vista.
O enorme computador de bordo de On-Tharu, que recebera seu saber arcônida da velha Titan, estava transmitindo ao sistema de pilotagem da nave os últimos dados sobre a rota do mundo dos tópsidas. Naquele instante, o veículo esférico foi localizado pelas naves de vigilância espacial dos lagartos.
Localização!
Abalo estrutural!
Seis naves no amarelo, duas no verde.
Os três homens ali reunidos, dos quais dependia o êxito ou o fracasso da operação, fitaram-se ligeiramente.
Sala de comando de artilharia — gritou Atlan pelo intercomunicador, para chamar a gigantesca central de controle de fogo da enorme nave.
Pois não — respondeu o oficial, mas logo retificou: — Às ordens, almirante!
Se os lagartos se aproximarem demais, faça um disparo de advertência com todas as armas na frente de sua proa. Não daremos nenhum aviso prévio pelo rádio. Se quisermos afirmar que somos arcônidas, teremos de agir como indivíduos dessa raça. Dispare sem prévio aviso, sem atingir os tópsidas. Entendido?
Entendido, almirante. Se quisermos fazer o papel de arcônidas, deveremos agir como arcônidas.
Essa resposta causou uma sensação desagradável em Atlan.
Não teve necessidade de olhar para os lados para saber se Rhodan e Bell estavam rindo.
Estavam sorrindo. Procuraram disfarçar, mas não conseguiram.
Que sujeito insolente! — disse Atlan em tom furioso.
Não sabia que o homem mais importante do nosso setor de armamentos também é um poeta. Só mesmo um poeta conseguiria exprimir em tão poucas palavras o caráter de um povo, tornando desnecessárias quaisquer perguntas. Atlan, o senhor não acha que estas palavras exprimem tudo?
Se quisermos fazer o papel de arcônidas, deveremos agir como ar...
Não conseguiu completar a palavra!
A Kublai Khan disparou com todas as armas das duas torres polares, colocando alguns tiros de advertência diante da proa das naves tópsidas. Embora a distância entre as duas torres fosse de pelo menos mil e quinhentos metros, o ruído dos disparos era perfeitamente perceptível na sala de comando.
Assim que o ruído amainou um pouco, Atlan inclinou-se para Bell e cochichou ao ouvido do mesmo:
Gorducho, ainda direi umas boas a seu poeta e...
Reginald Bell, um homem que apreciava a boa vida, mas nem por isso costumava fugir à aventura, colocou a mão sobre o braço de Atlan.
Você não vai tratar nosso oficial de artilharia como um arcônida. Apesar de toda compreensão pela Humanidade, você muitas vezes não compreende os homens e sua mentalidade. O Major Crafford, acho que é este seu nome, não teve a intenção de ofendê-lo. Apenas quis ressaltar a enorme tolice e arrogância de seu povo. Almirante Atlan, hoje em dia os arcônidas poderiam ser donos do Universo, se soubessem fazer amigos. Devíamos...
A segunda série de disparos sacudiu a nave sob a forma de várias ondas sonoras. O Major Crafford expediu o segundo aviso sob a forma de alguns feixes de raios mortíferos.
Os alto-falantes transmitiram a mensagem vinda da sala de rádio.
Os lagartos solicitam o nome da nave, Sir...
Crest aproximou-se rapidamente de Perry Rhodan e esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando os alto-falantes transmitiram uma voz potente:
Localização energética, Sir. No planeta Topsid procuram criar problemas para nós.
A mensagem era pouco clara.
Problemas? O que quer dizer com isso? — perguntou Rhodan em tom áspero.
No mesmo instante, o alarma de solicitação máxima dos campos defensivos fez soar as sereias. No interior da nave, os conversores começaram a rugir. Uma série de conjuntos de reserva entrou em funcionamento a fim de absorver as energias de características desconhecidas vindas de fora, que investiam contra os campos defensivos superpotentes da Kublai Khan, e conduzi-las através dos conversores para os depósitos vazios.
Tudo não demorou mais de alguns segundos. Mais uma vez, o alto-falante transmitiu notícias vindas da sala de rádio.
Topsid pede desculpas por não ter reconhecido antes a On-Tharu. Deu ordem a todas as naves para que se afastem de nós.
O comentário de Bell foi o seguinte:
Isso é uma mentira tola e infame. Devíamos...
Nesse momento houve outro chamado da sala de rádio.
A estação de hiper-rádio de Topsid está chamando o computador de Árcon.
Não tome conhecimento do chamado! — ordenou Perry Rhodan. Lembrou-se de que também já chamara em vão o regente de Árcon.
Sir, existe a zona de interferência...
A zona de interferência era a área esférica de ionização que fechava o sistema dos dois sóis contra o resto do Universo.
Não tomem conhecimento do chamado. Desligo.
No mesmo instante, Perry Rhodan voltou a falar nos problemas energéticos.
Então, senhores, será que poderiam fornecer uma explicação sobre o motivo por que nossos campos defensivos quase chegaram a entrar em colapso?
Queria informações precisas. Seus olhos cinzentos brilhavam, exprimindo uma raiva controlada, isto é, o aborrecimento que sentia por ter de formular uma pergunta como esta.
Sir, aqui fala a Divisão 184/t — disse pelo interfone a central de pesquisa energética, dirigida pelo Dr. Bansfield. O rosto jovem do cientista, que não contava mais de trinta anos, estava marcado pela excitação. — Topsid deve ter descoberto um novo meio de defesa. Se as primeiras interpretações dos fatos forem corretas, devem possuir um tipo de corrente bifásica...
O que vem a ser isso? — disse Rhodan em tom contrariado.
Sir, queira desculpar...
Fale logo! — disse Rhodan em tom impaciente.
O uso da expressão “corrente bifásica” representa um recurso de emergência. Na realidade, não sabemos como os lagartos conseguiram solucionar o problema extremamente complexo de medir a capacidade de absorção de nossos campos energéticos por meio de um raio-eco. Pelo que pudemos constatar, a energia transportada pelo raio-eco regula sua tensão pela de nossos campos defensivos...
Isso não passa de uma grande tolice! — interveio Bell. — A tensão dos campos defensivos nunca se mantém constante.
O jovem cientista parecia ter muita certeza do que estava dizendo.
Foi o que eu pensei, Sir. Porém, quando constatamos que os acumuladores vazios destinados a entrarem em ação no caso de uma solicitação excessiva continuavam vazios, enquanto alguns dos grandes acumuladores perderam mais de vinte por cento de sua carga, e isso em menos de dois segundos, só encontramos uma explicação: os lagartos devem ter descoberto um meio de que os campos defensivos se autodestruam, por meio de uma interferência leve vinda de cima. Ao contrário das experiências anteriores, os mecanismos de absorção não conduziram ao campo defensivo a energia vinda de fora. Entretanto, numa reação verdadeiramente absurda, levaram a esses campos imensas quantidades adicionais de energia dos acumuladores, deixando-os supersaturados em menos de dois segundos e fazendo com que quase entrassem em colapso em virtude de uma reação interna.
Atlan ergueu-se abruptamente. Bell aproximou-se da tela. Rhodan foi o único que permaneceu em sua poltrona.
Doutor — disse e, como muitas vezes acontecia quando a situação se tornava crítica, sua voz irradiava uma calma fascinante. — Resumindo, deve ser o seguinte: um raio-eco atingiu nosso campo defensivo e mediu sua intensidade. No mesmo instante, a tensão da energia conduzida por esse raio adaptou-se à do nosso campo. Se eu cometer um erro de raciocínio, avise imediatamente. Com isso, aparentemente esses campos são reforçados por meio de um suprimento de energia vindo de fora. Não compreendo como é que os mecanismos de absorção podem inverter sua função de uma hora para outra, conduzindo quantidades adicionais de energia ao campo defensivo, em vez de absorver a energia excessiva.
Sir — o Dr. Bansfield respirou profundamente. — Depois de identificar-se com os nossos campos, o raio-eco rompeu-os e, conforme se depreende dos diagramas, inverteu os pólos dos conversores dos mecanismos de absorção. É possível que esse fenômeno só encontre explicação no âmbito da hipertórica, que é uma ciência a qual se dedicaram alguns velhos matemáticos arcônidas.
Perry Rhodan, que, tal qual Reginald Bell, recebera um máximo de treinamento hipnótico arcônida, lembrou-se desses cientistas e espantou-se de que o Dr. Bansfield estivesse tão bem informado. Mas não deu a perceber. Agradeceu a Bansfield e animou-o para que prosseguisse com o máximo de dedicação nas suas investigações relativas à nova energia.
No momento não tenho tempo para cuidar do caso, mas já vimos que o esclarecimento cabal do mesmo é de importância vital para nós. Assim que seja possível, pedir-lhe-ei que me forneça informações mais detalhadas. Posso garantir-lhe uma coisa, doutor. Em Topsid esforçar-nos-emos ao máximo para encontrar a nova arma defensiva. Fico-lhe muito grato. Obrigado.
7



A On-Tharu soltou as colunas de apoio telescópicas, que pareciam verdadeiras torres. O rugido dos propulsores de impulsos, situados na protuberância equatorial da gigantesca nave, foi substituído por um leve trovejar. Os projetores antigravitacionais fizeram com que a nave perdesse o peso.
Quando se encontrava trezentos metros acima do espaçoporto de Kerh-Onf — segundo os catálogos estelares dos arcônidas, esta era a cidade mais importante do sistema de sóis gêmeos e ali ficava o único espaçoporto que permitia o pouso de supernaves, sem que seu pavimento fosse danificado — a On-Tharu começou a descer com uma lentidão encantadora.
Perry Rhodan mandou chamar John Marshall, Gucky e Harno, a criatura esférica. Pediu aos primeiros que recorressem às suas faculdades telepáticas para analisar a disposição de ânimo da multidão de lagartos que os esperava na periferia do campo de pouso, a Harno que fizesse uso de sua faculdade natural — tornando-se televisão — e tentasse localizar o posto de combate que irradiara o raio-eco.
Atlan e Bell pousaram a gigantesca nave, que pelas suas dimensões representava uma expressão condigna da grandeza do Império. Todos os postos de combate estavam guarnecidos. Até mesmo os transmissores de matéria estavam prontos para entrar em ação.
Subitamente o rato-castor exclamou:
Perry, esses lagartos estão com uma raiva danada. Gostariam de transformar tudo quanto é arcônida num foguete que errasse pelo espaço. E sua opinião sobre o Grande Coordenador é ainda mais desfavorável...
É verdade! — confirmou Marshall, chefe do Exército de Mutantes. — Com o recrutamento forçado levado a efeito no sistema de Topsid, Árcon perdeu o que ainda lhe restava de simpatia.
Crest resolveu intervir na palestra.
No curso da história os lagartos têm violado todos os tratados que celebraram com Árcon.
Gucky encostou-se a Perry Rhodan. Era o único que podia permitir-se esse tipo de liberdade. Afinal, não era uma criatura humana, e nem queria ser. Muitas vezes dava a entender que se sentia orgulhoso por seu corpo de animal, embora nessas oportunidades não fizesse propaganda de suas faculdades fenomenais e de sua extraordinária inteligência.
Qualquer pessoa que travasse conhecimento com Gucky teria de libertar-se da idéia de que existe uma ligação entre inteligência e aspecto humanóide.
Chefe, a delegação do governo está sendo organizada. O nome do primeiro-xeque é Xxal-Ri. Não sei se a pronúncia está correta. Como Xxal-Ri gosta dos arcônidas, e como sua consciência está pesada! Ele só vive pensando nas fraudes cometidas contra o sistema Árcon! O fato de nossa descida ser um tanto demorada deixa-o muito assustado.
Naquele momento, a On-Tharu pousou suavemente. Os ruídos dos propulsores foram cessando, e a intensidade do campo antigravitacional foi diminuindo.
Harno entrou em contato telepático com Rhodan. A criatura esférica parecia flutuar na altura de seu peito e lhe exibia uma estranha posição de artilharia, cujas peças não apresentavam a menor semelhança com desintegradores ou geradores de raios térmicos.
Perry Rhodan, é este o lugar do qual foi disparado o raio-eco que atingiu a Kublai Khan, — emitiu Harno. — Há alguns minutos os lagartos concluíram, com base nos cálculos por eles realizados, que esse raio seria capaz de eliminar os campos defensivos de nossa espaçonave. Neste momento a notícia está sendo transmitida a alguém.
Se esses lagartos estivessem em condições de agir segundo sua vontade, eles nos transformariam em espinafre, Perry. Neste momento estão conversando sobre o passado. Comentam os processos criminais a que responderam no sistema de Betelgeuze. Sentem-se como quem está em cima de um coqueiro...
Gucky viu-se interrompido por Bell.
Em Topsid não existem coqueiros; logo, os tópsidas não poderiam estar em cima de um coqueiro. Está na hora de você procurar exprimir-se com maior precisão. Há pouco você disse que o chefe da delegação dos lagartos é um xeque. Ora, Gucky, um tenente do Exército de Mutantes não deve usar expressões deste tipo.
Queira desculpar, representante do administrador — piou Gucky em tom tão sério que até Perry Rhodan admirou-se e lançou um olhar interrogativo para o rato-castor.
Não estavam acostumados a vê-lo agir com tamanha moderação. Via de regra defendia-se energicamente assim que era atacado.
No futuro, eu me guiarei exclusivamente pelo senhor.
O chamado da sala de rádio não permitiu que as gargalhadas surgissem.
Sir, acabamos de receber uma mensagem da Sambo! — a nave encontrava-se antes da zona de interferência. — Um grupo de naves mercantes tópsidas procura entrar em contato de hiper-rádio com o quarto mundo do sistema de sóis gêmeos.
Rhodan respondeu em tom contrariado:
Diga à Sambo que não complique desnecessariamente as coisas. Diga-lhes que apliquem imediatamente o sistema de travessia.
Pelo sistema de travessia, uma nave que se encontrasse antes da zona de ionização atravessaria a mesma com a mensagem de qualquer nave espacial, e irradiaria tal mensagem atrás dessa zona, em direção ao ponto de destino. Era um processo bastante complicado. Mas, as cabeças mais competentes de Terrânia não encontraram um meio melhor, motivo por que acabaram concordando com o plano de Bell, embora não o julgassem inteiramente satisfatório.
Nesse meio tempo, no interior da On-Tharu foram tomados todos os preparativos para sair da nave. As mensagens recebidas sucediam-se rapidamente. As coisas corriam às mil maravilhas.
Atlan e Rhodan dispuseram-se a sair da sala de comando.
E eu? — piou Gucky em tom enérgico. — Pensei que fosse representar o papel principal diante dos lagartos, Perry! Será que sua memória deu para falhar?
Mensagem urgente para o chefe! Mensagem urgente para o chefe! — berraram os alto-falantes, abafando qualquer palestra que se desenvolvesse no interior da nave.
Depois desse anúncio de emergência, o Tenente Elp, que estava de serviço na sala de rádio, desfiou o texto da mensagem:
Aviso de F. C. Curtiss, agente do Serviço Solar de Segurança em Topsid. Acabamos de saber que há três dias duas naves robotizadas arcônidas se encontram no planeta, a fim de receber seis mil astronautas tópsidas. Fim da mensagem transmitida por F. C. Curtiss.
Atlan e Rhodan fitaram-se. Bell, que continuava sentado na poltrona, assumiu uma postura tensa. Na gigantesca sala de comando da On-Tharu houve alguns segundos de total silêncio.
Perry Rhodan respirou profundamente, olhou para John Marshall e deu sua ordem:
Os mutantes entrarão em ação!
Bell contemplou o polegar direito. De repente sentiu-se dominado de novo pela terrível sensação que por pouco não lhe estragou a festa de passagem de ano.
Enquanto Rhodan e Atlan saíam da sala de comando, Gucky aproximou-se lentamente de Reginald Bell e piou-lhe:
Gorducho, bem que eu deveria ter trazido sapatos quentes, pois nossos pés esfriarão como nunca. Os pés de todos nós! Se acredita que pode resmungar por causa das expressões que uso, devo ponderar com todas as vênias que você sempre vive falando de seus sapatões...
O rato-castor saltou para o lado, desviando-se da mão de Bell. Marshall gritou para Gucky:
Permaneça em contato com o chefe até que eu esteja de volta!
Saiu da sala de comando para destacar alguns mutantes que deveriam cuidar das duas naves arcônidas. Procurariam saber antes de mais nada qual era a idade-limite dos lagartos astronautas que o computador-regente estava usando na frente. John Marshall não se esquecera do motivo que levara Perry a lançar no último instante essa operação desesperada.
Rhodan e Atlan desceram pelo elevador antigravitacional e chegaram à comporta principal, que ficava bem em frente ao lugar em que se encontrava a delegação dos tópsidas.
Cento e cinqüenta robôs, que pelo aspecto em nada se distinguiam das máquinas de guerra arcônidas, dividiram-se em dois grupos iguais e puseram-se em movimento ao lado de Rhodan e Atlan, enquanto estes desciam pela larga rampa de plástico.
Bem ao longe, as construções da cidade de Kerh-Onf destacavam-se contra a silhueta das grandes montanhas, que tomavam mais da metade da linha do horizonte.
A menos de dois quilômetros, um grupo de mais de duzentos lagartos aguardava-os na periferia do campo de pouso.
Rhodan e Atlan, que envergavam seus vistosos uniformes arcônidas, caminharam em direção a esse grupo, demonstrando orgulho e arrogância. À sua direita e à sua esquerda, cento e cinqüenta robôs de guerra faziam o pavimento de plástico ressoar. Atrás deles veio um grupo de nove pessoas, das quais só três tinham o aspecto de arcônidas. Os seis restantes pareciam ser membros de algum povo colonial arcônida.
Essas pessoas pertenciam ao exército mais estranho da Galáxia: o Exército de Mutantes. Sua missão não consistia em proteger Rhodan e Atlan. Teriam de cumprir a difícil tarefa de, por ocasião do primeiro contato com os lagartos, verificar qual era a lembrança que estes guardavam dos acontecimentos desenrolados há setenta anos no setor de Vega.
Os anfitriões, que se encontravam na periferia do espaçoporto, foram-se aproximando do grupo saído da nave.
Os tópsidas caminhavam como homens. Possuíam mãos e pés, mantinham o corpo ereto e respiravam a mesma mistura gasosa que os homens. Estes eram os únicos pontos de semelhança.
O crânio achatado e pelado, os lábios finíssimos e os olhos salientes davam-lhes um aspecto de animais selvagens. Era difícil acreditar que esses lagartos fossem inteligentes, e ainda mais difícil se tornava acreditar que seu nível de inteligência correspondia à média da inteligência humana. Em seu mundo, os padrões ético-morais aplicados pelo homem não tinham validade. Sua língua não conhecia a palavra compaixão. Mas, em certas áreas estranhas aos conhecimentos dos terranos e dos arcônidas, suas realizações eram importantes.
A pele escamosa marrom-escura que cobria os corpos magros desses seres servia para reforçar seu aspecto medonho. A cabeça de lagarto era outra característica que realçava sua natureza não-humanóide.
Não haveria dificuldades de comunicação. Qualquer tópsida que trabalhasse para o governo devia ter o domínio completo do intercosmo, a língua interestelar. Por isso Rhodan e Atlan preferiram não trazer tradutoras positrônicas. No entanto, antes de decolarem em direção ao sistema dos sóis gêmeos fizeram um curso hipnótico intensivo da língua dos lagartos. Mas pretendiam não informá-los a este respeito.
Os dois grupos encontraram-se a meio caminho.
Onze criaturas humanóides acompanhados de cento e cinqüenta robôs viram-se diante de cerca de duzentos lagartos. Entre os dois grupos havia uma zona neutra de dez metros de largura.
Atlan adiantou-se meio metro. Encarnava o protótipo do arcônida: era orgulhoso, arrogante e insolente.
Quem é Xxal-Ri? Quero que ele se apresente imediatamente! — disse num tom de voz que, até mesmo em Perry Rhodan, provocou uma sensação desagradável.
Uns duzentos lagartos esguios e imóveis deram mostras de seu nervosismo. Seus olhos grandes e salientes emitiram um brilho frio e giraram para todos os lados.
Um lagarto de uniforme verde-oliva, sem distintivos, adiantou-se.
Você é Xxal-Ri? Por ordem do Grande Coordenador exijo que seja iniciada imediatamente uma investigação para descobrir quem foi o tópsida que deu ordem de tatear a On-Tharu. Xxal-Ri, você sabe qual é o incidente ao qual me refiro?
Sei...
No mesmo instante, Atlan lhe fez uma advertência em termos bastante ásperos.
Quando falar comigo, use sempre o tratamento Alteza, e — apontou para Perry Rhodan — quando falar com o representante do Grande Coordenador, chame-o de Grande Arcônida Attor! Quando me serão apresentados os tópsidas que tiveram a audácia de tatear uma nave do Grande Coordenador? Não esperarei mais de duas horas. Agora quero ir à cidade. Saiam do meu caminho, lagartos...!
Só mesmo um arcônida poderia desempenhar esse papel com a perfeição que Atlan estava demonstrando. Perry Rhodan ouviu às suas costas os suspiros de alívio. Todos os detalhes haviam sido discutidos e todos os mutantes conheciam os arcônidas e seu orgulho misturado com presunção, mas o procedimento de Atlan deixou-os chocados. O mesmo era incompatível com a mentalidade humana. E o tratamento de lagartos, que Atlan acabara de dar aos tópsidas, era a pior ofensa que alguém poderia fazer a esse povo não-humanóide.
Apesar de tudo, porém, os lagartos só esbravejavam em pensamento. Ainda era cedo para um confronto aberto com Árcon.
Os golpes mortais que sua frota espacial recebera no sistema de Betelgeuze ainda ardiam em sua memória, e sua inteligência não lhes permitia praticar qualquer ato de resistência. Caso tentassem opor-se ao domínio de Árcon, seu planeta correria o perigo de ser destruído.
Sir, não há qualquer indício de uma resistência ativa, mas o tal do Xxal-Ri nem pensa em realizar a investigação exigida por Atlan. Pretende entregar-nos três lagartos já condenados à morte.
A mensagem telepática foi transmitida por Harno.
No mesmo instante, Atlan gritou para Xxal-Ri, que chefiava a delegação:
Lagarto, se você se atrever a simular que os culpados do rastreamento são três tópsidas condenados à morte, o Grande arcônida Attor solicitará ao Grande Coordenador o envio de três esquadrilhas de couraçados espaciais que varrerão este sistema da Galáxia.
O procedimento de Atlan era chocante, e todos os lagartos acreditaram na arrogância do arcônida. Pela primeira vez Xxal-Ri mostrou que sabia estremecer e abaixar-se de medo, que nem um humanóide. Seus olhos enormes já não giravam; fitavam Atlan com uma expressão de pavor. Perry Rhodan nunca vira uma expressão de medo tão bem marcada como a que se desenhava no “rosto” de Xxal-Ri.
Falando sua língua materna, o lagarto disse:
O Regente enviou-nos o diabo em pessoa... ele sabe ler pensamentos!
O desassossego passou a dominar o círculo dos tópsidas mais chegados a Xxal-Ri. Rhodan e Atlan não lhes deram oportunidade de fazer crescer esse desassossego. Os cento e cinqüenta robôs aproximaram-se e obrigaram os lagartos a espalhar-se. Os onze homens e sua escolta não demoraram a atingir a periferia do espaçoporto.
De repente Rhodan tocou de leve a mão do arcônida. Atlan acenou discretamente com a cabeça. Estavam recebendo a notícia de Gucky, transmitida por intermédio de Harno, que servia de estação telepática retransmissora:
Chefe, F. C. Curtiss acaba de avisar que as duas naves arcônidas se aproximam do espaçoporto de Kerh-Onf. Pelo que diz, há cerca de mil e quinhentos lagartos a bordo.
Rhodan respondeu por meio do microfone de pulso. Entrou em contato diretamente com Bell.
Enquanto for possível, não tome conhecimento das duas espaçonaves tripuladas por robôs. Avise imediatamente a zona de interferência. Desligo.
Atlan, que ouvira a troca de mensagens, lançou um olhar pensativo para Rhodan.
Bárbaro, receio que uma trovoada esteja para desabar sobre nós. Na minha opinião, a Kublai Khan deveria manter-se preparada para decolar a qualquer momento. Isso representará certa tranqüilidade. De qualquer maneira, ainda ensinarei a esses tópsidas como se deve receber e tratar um grupo de arcônidas que representa o Grande Coordenador...

* * *

Enquanto Perry Rhodan e Atlan voavam em direção à cidade, acompanhados por dois mutantes e quatro robôs, o arcônida disse em voz baixa, para que só Rhodan o ouvisse:
Há pouco, quando destratei os lagartos e fiz o papel do arcônida arrogante, tive nojo de mim mesmo. Mas descobri uma coisa, bárbaro: não foi tão difícil desempenhar esse papel...
Um súbito trovejar vindo do céu tópsida, ligeiramente violeta, o interrompeu.
Eram dois couraçados arcônidas que desciam sobre o espaçoporto de Kerh-Onf. Os dois veículos tripulados por robôs vieram a Topsid para recrutar à força seis mil lagartos que tivessem experiência na astronáutica, a fim de levá-los o mais rápido possível à zona de descarga, onde rugia a batalha devoradora de gente e materiais.
Rhodan olhou tranqüilamente em direção às duas naves, enquanto pousavam na extremidade oposta do espaçoporto. Ao contrário de Atlan, acreditava que estas não representavam qualquer risco para a arrojada operação.
Olhou para trás e viu que os outros membros do Exército de Mutantes e os robôs de guerra seguiram-nos em cinco planadores tópsidas.
As bizarras construções da grande metrópole Kerh-Onf foram surgindo em meio à névoa que cobria todo o planeta. Enquanto a Kublai Khan descrevia três círculos em torno do planeta, ela constatara que essa névoa também existia na face noturna do planeta, e que se tratava de neblina, simplesmente.
O eixo polar de Topsid media 14.708 quilômetros, ou seja, dois mil quilômetros mais que o da Terra. Apesar disso, sua gravitação não ultrapassava l,3G. Não se constatara a presença de massas de gelo nas regiões polares. Não havia oceanos de dimensões iguais a dos terranos, mas apenas alguns lagos que se comunicavam por meio de canais artificiais. Quatro gigantescos complexos montanhosos davam a impressão de que Topsid era um planeta entrecortado por montanhas. No entanto, entre esses complexos estendiam-se enormes planícies.
Três luas gravitavam em torno de Topsid. Eram minúsculos satélites, de 600, e 900 quilômetros de diâmetro.
Diga-me uma coisa, almirante. No seu tempo os tópsidas já eram conhecidos no Grande Império?
Não, ao menos que eu saiba. O que é isso que vem vindo do espaçoporto? — num gesto nervoso, apontou para a esquerda.
Cinco pequenas naves esféricas de construção arcônida pareciam interpor-se no caminho dos planadores. No mesmo instante o ar começou a tremeluzir à frente de Rhodan e Atlan.
Gucky, o rato-castor, surgiu à sua frente. Segurava Harno, o ser esférico, sob o braço esquerdo.
Perry — piou antes que Rhodan tivesse tempo para dizer qualquer coisa. — Os tópsidas estão desmontando as instalações de raio-eco. Eu gostaria de ajudá-los nesse trabalho. Você permite?
Os tópsidas são mais traiçoeiros que o computador-regente! — exclamou Atlan.
É justamente por isso que quero cuidar para que todas as peças desmontadas cheguem em boas condições à Kublai Khan — disse Gucky, sorrindo com o dente roedor solitário. — Com isso poderemos evitar aborrecimentos.
Deixe Harno aqui mesmo, Gucky! — ordenou Rhodan. — E não assuma qualquer risco. Entendido?
Ótimo! — disse o rato-castor em tom de júbilo. — Cuide bem de Harno, chefe.
O ar voltou a tremeluzir, e Gucky desapareceu num salto de teleportação que o levaria ao posto de rastreamento dos tópsidas.
Enquanto falavam com Gucky, Rhodan e Atlan se haviam esquecido das cinco naves arcônidas. Agora Rhodan lembrou-se das mesmas. Naquele instante recebeu o chamado de Bell.
Três pequenas naves arcônidas estão em cima de nós. Não respondem aos nossos chamados pelo rádio. A On-Tharu está de prontidão para abrir fogo a qualquer momento. Se descerem mais ou pousarem perto de nossa nave, eu lhes darei uma recepção condigna com nosso raio de tração mais potente. De acordo?
De acordo, mas o raio de tração só deverá ser usado depois que...
Acho que demos um alarma falso — interrompeu Bell. — As naves se afastam. Por que é que duas delas estão nos calcanhares de vocês? Estão uns seis mil metros acima de vocês. Ainda não as viram?
Bell estava utilizando todos os instrumentos de observação da Kublai Khan. Valendo-se da ampliação positrônica direta, conseguiu um aumento tão grande dos dois pequenos veículos esféricos que os mesmos pareciam estar a três metros de distância.
Não façam nada! — exclamou Atlan antes que Rhodan dissesse qualquer coisa. — Acabo de ter uma idéia. As cinco naves que vimos estão atrás de tópsidas recrutáveis.
É uma bela expressão, almirante — disse Bell em tom de escárnio. — Acho que você não consegue esquecer o tempo de serviço militar arcônida. O.K.! Desligo.
Deslocando-se a oitocentos metros de altura, os planadores tópsidas corriam velozmente em direção à grande metrópole.
Atlan fitou com uma expressão de desagrado as construções alongadas e altas.
Que estilo maluco será este? — perguntou-se.
Perry Rhodan formulara a mesma pergunta há alguns minutos.

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