— Não
poderemos contar com qualquer resultado antes de amanhã de noite. A
dificuldade consiste em manter estáveis as camadas de reflexão no
hiperespaço. A coisa não quer funcionar. O que sabemos sobre o
hiperespaço ainda é pouco. E ainda há um detalhe bastante
desagradável, de que só agora tomamos conhecimento. Os hipercampos
de interferência permanecem no hiperespaço sob a forma de campos de
fuga circulares e giratórios, que, de repente e sem qualquer motivo
plausível, se afastam do raio vetor e desaparecem. Será que a idéia
dos campos de ionização foi exclusivamente minha, Perry?
— Foi,
gorducho. Você pode tirar a patente. Por isso seus problemas não me
interessam muito. Quando começará a fabricação em série dos
aparelhos de interferência? Amanhã de noite?
— Se
houver um milagre, sim; do contrário...
A essa
altura, Perry Rhodan mostrou sua impetuosidade!
Com a voz
fria e implacável transmitiu sua exigência:
— A
produção em série terá de ser iniciada amanhã de noite o mais
tardar, Bell. Confio inteiramente em você. Desligo.
Crest, o
velho cientista arcônida, entrou no gabinete de Rhodan. Ele e Thora
não obtiveram a ducha celular regeneradora do planeta Peregrino. E
para Crest, estavam chegando os dias em que um indício após o outro
anuncia o fim que se vai aproximando lentamente. Mas sua energia
psíquica continuava a ser a mesma dos melhores anos de vida.
Tomou
lugar ao lado de Rhodan; demonstrou a calma e a tranqüilidade que
Perry e Reginald Bell haviam observado há muitos decênios, quando
travaram conhecimento com esse arcônida na Lua.
— Voltei
a examinar a lista dos mutantes que deverão participar da operação
— principiou. — Não seria recomendável levar para Topsid apenas
metade desses elementos insubstituíveis? Atlan não é da mesma
opinião que eu; acabo de falar com ele. Mas em John Marshall
encontrei maior compreensão. Ele acredita que a utilização maciça
de todos os mutantes representa um risco excessivo.
— Crest
— respondeu Rhodan em tom resoluto — a operação Topsid tem de
ser concluída o mais cedo possível. Não se esqueça de que agora
somos obrigados a agir. Avançamos a partir de uma posição
defensiva. Isso sempre representa um mau começo... Um instante; a
estação de hiper-rádio está chamando.
Mais uma
vez chegaram notícias da frente de luta, onde as armadas espaciais
dos arcônidas bloqueavam a área de superposição e se envolviam em
lutas infindáveis com os druufs.
Rhodan
tinha ã sua frente mais de três dezenas de mensagens. Essa torrente
de notícias só se tornou possível graças às novas
sondas-foguete, difíceis de serem localizadas e derrubadas. Além
disso, os aperfeiçoamentos introduzidos na ótica de campos
magnéticos, que em seus efeitos tinham uma semelhança espantosa com
as lentes de borracha, já superadas, aumentaram em mil por cento o
potencial de observações óticas.
— Sir —
disse o chefe da estação de hiper-rádio de Terrânia, dirigindo-se
a Rhodan. Em sua voz soava um certo orgulho. — Agora já dispomos
de uma visão completa de todas as formações de naves arcônidas
que se encontram na frente de combate. Apuramos que Árcon mantém em
luta oitenta e três mil naves de guerra, sem computar as naus
auxiliares e as de aprovisionamento.
“Mais de
cinqüenta mil dessas naves já estão sendo pilotadas por criaturas
humanóides. A cada hora que passa, mil robôs são substituídos por
inteligências vivas. Hoje de noite estará concluída a substituição
total do comando de todas as naves de guerra arcônidas.
“Há
duas horas chegou um contingente de seis mil lagartos vindos do
planeta Topsid. É o terceiro transporte que chega nestas últimas
dez horas.
“Ainda
não concluímos a interpretação dos dados. Porém, desde já,
posso dizer com absoluta segurança que, nos setores em que os
lagartos comandam as naves de guerra de Árcon, as perdas materiais
são mais reduzidas. De outro lado, os druufs estão sendo rechaçados
com uma violência nunca vista.
“Permita,
Sir, que lhe forneça as notícias detalhadas...”
Rhodan
interrompeu-o e agradeceu. Esta parte do relatório foi suficiente
para orientar sua ação.
Desligou.
Crest acompanhara a palestra.
— Então
— disse, dirigindo-se ao velho arcônida. — Não acha que as
coisas estão ruins? A base de Hades e Ellert, o mutante, terão que
intervir. O computador-regente não deve ter nenhuma pausa para
respirar, pois do contrário, amanhã ou depois, teremos naves
arcônidas pousando na Terra...
— O que
pretende fazer, Rhodan? — perguntou Crest, que desde o primeiro
encontro vinha tributando uma admiração muda a esse terrano.
— Nossa
base no Universo dos druufs receberá ordens, por intermédio de uma
sonda, para recorrer a todas as possibilidades, especialmente à
influência que Ellert pode fazer valer perante os druufs, a fim de
que eles continuem a realizar ataques maciços contra as linhas de
bloqueio de Árcon. Será que não devemos atirar uma isca aos
druufs? Poderíamos fazer chegar-lhes a informação de que, nos
próximos dias, o inimigo aparecerá com campos defensivos
superpotentes, praticamente indestrutíveis? Crest, quanto tempo será
preciso para obter os dados numéricos necessários ao lançamento da
isca?
— Três
horas, cinco no máximo, Rhodan, mas...
— Perdão,
Crest. Neste momento não posso aceitar nenhum “mas”
com o sentido que o senhor atribui ao termo. Quer dizer que aguardo
os dados por cinco horas. Mais alguma coisa?
Crest
respondeu que não e retirou-se.
— Até
hoje de noite, o grande cérebro de Árcon colocará inteligências
vivas no comando da maior parte de suas naves de guerra, gorducho.
Você precisa dar um jeito para que amanhã possamos dispor dos
primeiros aparelhos geradores de campos de hiperinterferência, a fim
de que as primeiras naves estejam prontas para partir em direção ao
planeta Topsid. Não lhe posso conceder prazo maior que este. É só.
Depois
Rhodan ligou para Allan D. Mercant.
— Algo
de novo sobre Topsid?
— Não
senhor. Por enquanto nenhuma nave arcônida apareceu no setor de
Orion ou foi anunciada pelo grande computador. Mas meus dois agentes
constataram por meio do goniômetro que, nas últimas vinte e quatro
horas, o computador-gigante entrou três vezes em contato com os
tópsidas. Não foi possível decifrar as mensagens.
— Como
está a situação geral, Mercant?
O rosto do
interlocutor de Rhodan não anunciava nada de agradável.
— Muito
má, Sir. A cada hora que passa, o computador-regente fica mais
forte. Nem mesmo na época do apogeu, o Império foi comandado com
tamanha energia como agora. Nem os aras se atrevem a levantar a voz,
quanto mais os saltadores e os superpesados. Os druufs e seus ataques
ininterruptos amalgamaram o Grande Império que se esfacelava. Meus
agentes, que não têm uma visão geral da situação, vêem-se
diante de um enigma. Os movimentos separatistas, as revoltas contra
Árcon e outros acontecimentos semelhantes já não ocorrem no grupo
estelar M-13.
— Obrigado,
Mercant.
Rhodan
redigiu uma ordem que, dentro de duas horas, deveria chegar a Hades,
um planeta situado no Universo dos druufs. O tráfego de carga para
Hades foi suspenso a partir da destruição da base de Fera Cinzenta.
O contato resumia-se às comunicações de rádio. Acontece que
Rhodan não gostava de utilizá-las, pois conhecia perfeitamente o
risco de uma localização goniométrica. Por isso, preferia
transmitir as notícias através de uma sonda, que, na pior das
hipóteses, apenas poderia ser derrubada. Jamais alguém poderia
apoderar-se dela, porque o aparelho se autodestruiria, sem fornecer a
menor indicação sobre a ordem de que era portadora.
Quando o
planeta Plutão chamou por outra tela, Rhodan estava transmitindo o
texto à estação de hiper-rádio.
— Um
momento! — gritou Rhodan; virando-se de lado, concluiu o texto.
A seguir,
deu ordem para que este fosse transmitido por intermédio de pelo
menos dez estações retransmissoras. Só depois respondeu ao chamado
de Plutão.
As
estações retransmissoras eram cruzadores de reconhecimento da
classe Estado, distribuídos a grandes distâncias pela Galáxia.
Estas recebiam, muitas vezes em ziguezague, as mensagens codificadas
e condensadas, e as irradiavam no mesmo segundo a outra nave, por uma
freqüência diferente. Assim, as mensagens chegavam ao destino com
uma demora de cinco segundos. Nenhum serviço goniométrico inimigo
conseguiria saber o ponto de partida e de chegada da transmissão.
— Pode
falar — disse Rhodan, olhando para a tela na qual se via o rosto do
chefe das instalações de Plutão.
— Queira
desculpar, Sir...
— O que
houve? — perguntou Rhodan em tom impaciente, dando a entender que a
interrupção vinha em má hora.
O rosto do
chefe da guarnição tornou-se ainda mais frio. Pigarreou e, usando o
tom lamentoso que Rhodan não apreciava nem um pouco, disse:
— Sir,
há alguns dias o Tenente Thomas Cardif vem tentando...
Rhodan
sentiu um calafrio.
— Thomas
Cardif — sua voz não traía a emoção que surgia em sua alma
quando interrompeu o major da base de Plutão. — O senhor não é o
superior imediato do tenente, major? Trate-o da mesma forma que
trataria qualquer outro oficial!
— Sir —
Perry Rhodan não pôde deixar de notar que o major recorria às
últimas reservas de coragem para expor seu problema. — O exame
psiquiátrico do tenente levou à conclusão de que, em virtude do
ódio que ele tem contra o senhor, o rapaz só tem uma
responsabilidade restrita por seus atos. Por isso pediria licença
para...
Perry
Rhodan inclinou-se para a frente. Subitamente seus olhos cinzentos
pareciam expelir chispas. As rugas da testa aprofundaram-se, dando
mostras da emoção que sentia. Apenas a voz continuou inalterada,
embora nela passasse a vibrar um tom gelado.
— Se o
lugar do Tenente Thomas Cardif for um estabelecimento psiquiátrico,
ele não poderá continuar a ser um oficial da frota espacial do
Império Solar. Caso não esteja doente e só sofra de certos
complexos de ódio artificiais, criados por ele mesmo, dê uma
ocupação ao jovem, major. O senhor tem filhos?
— Tenho;
dois rapazes e uma moça.
— O.K. O
que pretende fazer com ele, major?
— O
rapaz costuma proferir palavras ofensivas à sua pessoa.
O major
ainda não se atrevera a expor ao pai de Thomas Cardif os atos de que
este se fizera culpado.
— Isso
não é novidade, major. Mas não estou satisfeito com o procedimento
do senhor, já que o fato de Thomas Cardif ser meu filho lhe tolhe a
liberdade de movimentos. O que quero é que aja livremente. Coloque-o
diante de uma corte marcial. Depois que tenha cumprido a pena que lhe
venha ser imposta, dê-lhe um tratamento que lhe faça perder a
vontade de fazer discursos subversivos.
— Permite
mais uma observação, Sir? — perguntou o major.
— Pois
não!
— O
Tenente Cardif possui a energia do senhor...
Mais uma
vez Perry Rhodan interrompeu o major.
— Isso é
um fato positivo que me deixa muito satisfeito. Procure conduzir essa
energia para canais adequados. Faço votos de que o senhor o consiga,
pois isso seria um grande benefício para Thomas Cardif... Bem,
major, acho que os filhos vêm ao mundo para dar aborrecimentos aos
pais. Obrigado. Desligo.
A ligação
entre Plutão, o planeta gelado, e a Terra deixou de existir. Mas os
pensamentos de Rhodan, que se encontrava em Terrânia, giraram por
alguns minutos em torno do filho, que só em Silico V, uma fortaleza
planetária dos arcônidas, ficou sabendo que era filho de Thora e
Perry Rhodan. E, desde então, se recusara a renunciar ao nome
Cardif, sob o qual fora criado.
Rhodan
estava com a alma revolta. Thomas, sempre Thomas, dizia seu
pensamento. Perry sabia que o filho não conseguiria romper a herança
arcônida que a mãe lhe deixara.
Thomas
Cardif, filho único de Perry Rhodan, odiava o pai.
Quando viu
Bell entrar em seu gabinete, Rhodan sentiu-se aliviado. O gorducho
estacou ao ver o amigo tão abatido.
— Alguma
novidade? — perguntou em tom mais cauteloso do que costumava usar.
— Bell,
Thomas terá de enfrentar a corte marcial.
— Não
diga! — a voz de Bell parecia um toque de atacar. — O que foi que
você fez? É claro que concordou, não é, Perry?
— Pois
como administrador do Império Solar não poderia...
— Perry!
— interrompeu Reginald Bell. — Você é um sujeito formidável,
mas como pai não é tanto. Meu pai me esquentava os fundilhos quando
fazia alguma coisa que não devia. Porém, mais tarde, se houvesse
necessidade, teria ido até o presidente dos Estados Unidos para
interceder por mim. E o que é que você está fazendo? Deixe-me usar
esse aparelho.
Empurrou
Perry para o lado. A tecla fez clique. A estação respondeu.
Reginald Bell pediu uma ligação com o major que servia nas
instalações de Plutão.
A imagem
não demorou a surgir na tela.
— Major
— principiou Bell. — Estou chamando por causa de Thomas Cardif.
Esse jovem não pode ser colocado diante da corte marcial. Estou
falando do mesmo lugar em que o administrador falou com o senhor há
pouco. Está sentado a meu lado. Quer dizer que estamos entendidos,
não estamos? Se deve dar uma lição a esse jovem? É claro que sim;
e que lição? Bem, o senhor entende disso melhor que eu. De qualquer
maneira estamos conversados, não estamos?
— Entendi
perfeitamente, Mister Bell! — disse a voz vinda de Plutão, com um
suspiro de alívio.
— O.K.
Desligo, major! — gritou Bell para dentro do microfone e desligou.
Bell não
mais tocou no assunto Thomas Cardif. Afinal, não foi por isso que
veio falar com Rhodan.
— Amanhã
de manhã será iniciada a produção em série dos novos aparelhos,
Perry! O trabalho dos especialistas progrediu bem. Agora está na vez
de os homens práticos, os técnicos mostrarem o que sabem fazer.
Acho que, depois de muito tempo, esta noite será a primeira em que
conseguiremos dormir bem.
Enquanto
proferia estas palavras examinava o polegar direito, que já sarara
da ferida. De qualquer maneira parecia não gostar, pois vivia
sacudindo a cabeça.
Perry
Rhodan preferiu não perguntar a Bell por que motivo ele vivia
sacudindo a cabeça. Não fazia nenhuma questão de voltar a ouvir as
previsões sombrias do amigo.
— Bem —
disse para desviar a atenção de Bell. — Acho que hoje
conseguiremos dormir...
5
Oito
cruzadores ligeiros da classe Estado decolaram em direção ao
sistema de Orion. Tratava-se de veículos espaciais esféricos de
apenas cem metros de diâmetro. Da operação ainda participavam duas
naves da classe Terra. O supercouraçado Kublai Khan, que pelo
aspecto exterior passara a ser uma nave arcônida com o nome
On-Tharu, era o único que se mantinha à espera. Só poderia entrar
em ação depois de concluídos os complicados preparativos da visita
ao planeta Topsid.
Gallus,
principal especialista em campos de ionização no hiperespaço,
voava na Burma. Não conseguiu sair de seu minúsculo laboratório,
até o momento em que Joe Pasgin, que naquele momento comandava essa
nave da classe Estado, o convocara pelo intercomunicador para
comparecer à sala de comando.
Gallus era
um homem pequeno e franzino, hipersensível e extremamente excitável.
Porém possuía uma competência extraordinária em seu setor. Era a
primeira vez que se encontrava no espaço. Joe Pasgin sabia disso, e,
por esse motivo, quando Gallus entrou na sala de comando, deixou-se
ficar à frente da tela de visão global. O técnico não poderia
deixar de ver o brilho dos milhares de sóis que se destacavam contra
o fundo escuro.
Mas o
perito em campos de ionização não deu a menor atenção à imagem
do Universo projetada na tela. Só se interessava pelas notícias
relativas aos campos de interferência, que agora teriam de passar
pelo teste prático.
Pasgin
viu-se obrigado a dizer:
— As
experiências só serão realizadas quando chegarmos ao setor de
Orion. São ordens expressas do chefe, Mr. Gallus. Afinal, não vamos
forçar as coisas para trazer os arcônidas à Terra. Está ouvindo a
contagem regressiva? Daqui a vinte segundos entraremos em transição
para sair no setor de Orion. Acredito que possa ter paciência para
esperar mais dois minutos.
*
* *
Oito
cruzadores ligeiros e duas naves da classe Terra saltaram sob a
proteção dos neutralizadores de vibrações e voltaram ao espaço
normal, a uma distância pouco superior a oitocentos anos-luz.
Assim que
passou o choque da rematerialização e as dores na nuca cessaram, a
Sambo transmitiu o sinal para a primeira experiência a ser realizada
com os novos aparelhos, que deveriam gerar e manter estáveis campos
de ionização de dimensões astronômicas.
A
distância entre a Burma e a Sambo era de 1,1 milhões de
quilômetros. Sem o auxílio dos instrumentos uma nave não seria
capaz de ver a outra. Mas a Sambo adquiriu existência no interior da
sala de comando da Burma, onde Gallus e Pasgin observavam os novos
instrumentos acoplados ao receptor de hiper-rádio. Uma curva dupla
de formato estranho, que se modificava constantemente na lâmina do
oscilógrafo, fez com que Gallus exclamasse:
— Olhe a
Sambo!
Joe
Pasgin, que não entendia nada dessa técnica de comunicações,
limitou-se a fazer um gesto cortês de assentimento. Essas curvas lhe
diziam muito pouco, e seu aspecto lhe parecia estranho.
Mas Gallus
dedicou-lhes uma atenção entusiástica.
Quando
subitamente a lâmina oval negra, junto ao instrumento semelhante a
um oscilógrafo, emitiu uma luminosidade verde e, depois de algumas
oscilações, passou a brilhar numa intensidade constante, o técnico
soltou algumas exclamações de arrebatamento.
Ao que
parecia, o operador de rádio da Burma fora instruído antes da
decolagem sobre as funções da lâmina oval, pois disse em tom de
surpresa:
— Ora
vejam! Aqui não se consegue nada com o hipercomunicador. Nunca teria
acreditado!
Naquele
instante, Gallus era exclusivamente o pesquisador.
— Mantenha
o raio direcional! Quero medir os reflexos.
Quase a
contragosto Joe Pasgin começou a interessar-se pelas experiências
de Gallus. Afinal, a possibilidade de interromper todas as
comunicações de rádio com o mundo dos lagartos, a ponto de que
este planeta só pudesse receber as mensagens conduzidas através da
zona de bloqueio pelas naves terranas, e novamente irradiadas atrás
dessa zona, dependeria apenas do resultado dessas experiências.
Enquanto a
pequena formação mista da Frota Espacial Terrana se aproximava do
mundo dos lagartos, desenvolvendo metade da velocidade da luz, a
bordo da Burma e da Sambo, estavam sendo concluídas as últimas
experiências.
O
pequenino Gallus estava irreconhecível; parecia crescer para além
de si mesmo. Com um zelo quase furioso foi ampliando as séries de
experiências. Passou a aplicar padrões cada vez mais rigorosos.
Porém por
mais que se esforçasse para romper os campos de ionização gerados
do hiperespaço, todas as tentativas realizadas para esse fim
falharam. O que mais o espantou foi a estabilidade dessas zonas de
interferência, e o fato de que tais zonas se deslocavam em sentido
horizontal e vertical, sem que para isso se precisasse recorrer a um
grande dispêndio de energia.
— O
maior efeito útil é alcançado numa distância de vinte e oito a
trinta e quatro vírgula cinco minutos-luz — explicou Gallus a Joe
Pasgin, que o ouvia atentamente. — Três cruzadores bastarão para
interromper todas as comunicações de rádio com o grupo estelar
M-13 e as linhas de bloqueio. Caso surja um imprevisto, duas naves
terão de ser mantidas de prontidão para logo entrarem em ação.
E
constatou em tom quase exultante:
— Mister
Pasgin, o chefe ficará satisfeito com nosso trabalho.
Pasgin não
tomou conhecimento da observação.
— Como
faremos para transmitir as mensagens que os lagartos deverão
receber? — indagou.
— Os
campos de ionização, que acabam de ser criados por nós, não
deixarão passar qualquer mensagem de hipercomunicação, seja qual
for a sua potência de irradiação. Afinal, uma das características
desses campos de ionização consiste no fato de refletir cem por
cento das ondas. É bem verdade que essa característica envolve um
perigo...
— Qual é
esse perigo? — indagou Joe Pasgin.
— O
perigo resultaria o ângulo incorreto da superfície do campo de
reflexão em relação ao ângulo de incidência. Neste caso, o mesmo
seria facilmente refletido a plena potência para o ponto de saída...
— Por
todos os santos da Via Láctea! — exclamou Pasgin em tom de alarma.
— Nesse caso, a resposta que o computador-regente receberia a
qualquer mensagem seria a própria mensagem.
— Naturalmente!
— disse Gallus em tom de espanto, pois não sabia explicar o motivo
do espanto do oficial.
— O
chefe conhece essa possibilidade, Gallus?
— É
claro que não conhece. Como poderia conhecer?
— Ora
essa! Só mesmo um cientista que anda com a cabeça nas nuvens seria
capaz de criar uma coisa destas! — exclamou Pasgin. — O que acha
que o computador fará se em vez de uma resposta receber o texto da
indagação que acaba de formular? Enviará uma esquadrilha ao lugar
em que foi refletida sua mensagem.
— Para
onde? Para o hiperespaço? — perguntou Gallus com a maior
ingenuidade. Era um homem sem a menor malícia, cujo único interesse
consistia na ciência.
Joe Pasgin
procurou dominar-se. Sua voz exprimia o martírio que sentia porque
esse cientista não tinha o menor contato com a áspera realidade.
— Não —
respondeu. — Mas as naves arcônidas aparecerão no lugar em que se
localiza a fonte das interferências no tráfego de hipercomunicações
e golpearão implacavelmente. Por isso o chefe terá de ser informado
o quanto antes.
O
interfone de bordo transmitiu uma mensagem da sala de comando,
segundo a qual a formação terrana alcançaria dentro de cinco
minutos a posição que lhe fora designada.
O oficial
despediu-se apressadamente de Gallus. Quando Pasgin entrou na sala de
comando, no interior desta desenvolvia-se uma atividade febril. Os
dados e as notícias chegavam ininterruptamente de todos os cantos da
nave. Constituíam o prelúdio de uma das manobras mais arrojadas de
que lançara mão Perry Rhodan. Vários homens da sala de comando da
Burma já tinham participado de outras missões, motivo por que
possuíam uma intuição apurada, que lhes dizia se determinada
operação era ou não perigosa.
A operação
que estavam realizando não era apenas extremamente perigosa;
representava um atrevimento elevado à última potência. Nenhum dos
presentes desejava um confronto direto com o inimigo, mas o golpe
audacioso pelo qual se adiantariam ao computador-regente alegrava
todos. Por isso aceitaram prazerosamente o risco ligado à operação.
Essa
operação recebera um nome já consagrado em casos dessa natureza:
Comando Suicida.
O nome
dizia tudo, mas isso pouco importava à equipe de Perry Rhodan.
Estavam acostumados às horas de turbulência. Embora a operação em
que estavam envolvidos não fosse propriamente um piquenique, não
viam nela aquilo que realmente era: uma tentativa desesperada de
Rhodan, isto é, desejava salvar o que pudesse ser salvo.
Joe Pasgin
foi recebendo as mensagens das outras naves. Examinou os dados
relativos à posição e fez um sinal de confirmação em direção
ao computador de bordo. Para o oficial de computação, isso
significava que as outras naves se encontravam na posição prevista,
e que ele poderia dar início a seu trabalho.
Ao
contrário das outras naves da classe Estado, a Burma possuía um
computador positrônico de tipo especial, cujo forte era a
hipermatemática arcônida, que permitia os cálculos relativos ao
hiperespaço.
Naquele
momento estava ocupado numa operação extremamente complexa: o
cálculo do ângulo de incidência do raio direcional do
hipertransmissor de Árcon III, que o regente utilizava
constantemente. Para cada segundo de operação tinha de ser
considerada muita coisa, além das centenas de movimentos que por
vezes se desenvolviam em sentido contrário.
O caráter
problemático da operação também não resultava do fato de o
sistema de Topsid ficar a pouco mais de 33 mil anos-luz do mundo
central de Árcon. O principal fator de complicação consistia na
necessidade de determinar o ângulo de incidência dentro do
hiperespaço, já que, em conformidade com a matemática arcônida,
no hiperespaço não havia nada que se assemelhasse ao caráter
espaço-temporal normal, e nele não podiam ser aplicados os
conceitos que se identificassem com aqueles adotados em nosso
Universo.
Se não
fosse a máquina positrônica, um homem de nosso sistema solar não
se atreveria a iniciar a execução da tarefa. Mas, no interior da
Burma, tal missão não infundia o menor receio. Puseram mãos à
obra sem a menor hesitação ou constrangimento. Quando a fita
perfurada foi expelida pelo computador, Pasgin perguntou:
— Não
seria preferível recorrermos ao especialista, Ylers? Há pouco
Gallus me falou na possibilidade de um reflexo de cem por cento.
— Pelo
amor de Deus, tragam o homem. Não quero assumir o risco sozinho! —
exclamou o oficial do computador em tom nervoso, sacudindo a cabeça,
num gesto de ceticismo.
Pasgin o
observou, enquanto dava ordem para que Gallus fosse chamado à sala
de comando.
— Ylers,
o senhor não acreditava nesses cem por cento? — perguntou em tom
curioso.
Ylers
respondeu prontamente:
— Uma
reflexão de cem por cento não existe! O processo de retorno das
radiações consome certa quantidade de energia.
— Mesmo
no hiperespaço? — perguntou Pasgin.
— Ora! —
respondeu Ylers. — Com essa o senhor me pegou. Ninguém poderá
responder sim ou não a essa pergunta.
— Pare
aí, Ylers! Nosso especialista afirma que é assim. Pelo que diz, a
retribuição das radiações sem qualquer perda é uma das
características do hiperespaço.
— Ele
deve saber — confessou Ylers a contragosto.
Não
conseguia livrar-se do ceticismo. Gallus entrou.
— Mister
Gallus, queira conferir os resultados fornecidos pelo computador.
— Um
instante, Mister Pasgin — disse Gallus. — Parece haver um
mal-entendido. Não estou em condições de conferir a interpretação
fornecida pelo computador de bordo. Nem mesmo um arcônida seria
capaz disso. Tudo a respeito do hiperespaço não passa de um cálculo
de fatores estranhos que se processa no desconhecido. Mas nem mesmo
um arcônida sabe explicar por que o cálculo correto fornece um
resultado que revela sua exatidão também no terreno prático, como,
por exemplo, numa transição.
— Quer
dizer que posso transmitir minha mensagem à Terra para avisar que
concluímos nossos preparativos?
— Perfeitamente
— disse o perito em ionização. — Não há nenhum inconveniente.
— Pois
bem. Nesse caso, o Comando Suicida pode entrar em ação — disse
Pasgin, fazendo uma ligação de interfone com a sala de rádio. —
Transmita o texto combinado ao chefe, usando as estações
retransmissoras. A mensagem será distorcida e condensada. O código
já é de seu conhecimento. Solicito confirmação. Câmbio.
A sala de
rádio confirmou. No mesmo instante foi expedida a mensagem
previamente combinada.
A operação
tinha sido iniciada!
6
No dia 6
de janeiro de 2.044, às 23 horas, 31 minutos e 9 segundos, hora de
Terrânia, a grande estação de hiper-rádio da metrópole terrana
recebeu a mensagem da Burma, que foi retransmitida imediatamente para
a Kublai Khan, que se mantinha preparada para decolar a qualquer
momento.
Às 23
horas, 35 minutos e 14 segundos decolou o supercouraçado Kublai
Khan, que, com exceção da nave capitania Drusus, era o único
veículo espacial que dispunha de um transmissor de matéria.
O
envoltório esférico de 1.500 metros de diâmetro, feito do melhor
aço, abrigava uma tripulação de dois mil homens, que para essa
operação não havia sido selecionada com muito rigor. Os uniformes
dos homens diziam o suficiente: pareciam disfarces. Só Atlan viu
neles algo de familiar e começou a sentir algo parecido com saudades
de Árcon. Em qualquer lugar da Kublai Khan se viam os uniformes
arcônidas, e em todos os lugares se falava o arcônida ou o
intercosmo, que era a língua usada no intercâmbio interestelar.
Os
tripulantes da Kublai Khan pareciam não conhecer a língua inglesa.
No dia 7
de janeiro de 2.044, às 02h 01m 34seg o supercouraçado realizou a
transição, protegido pelo potente neutralizador de vibrações.
Saiu do hiperespaço nas imediações do sistema de Orion e a menos
de um minuto-luz do grupo que tinha ido na frente.
Enquanto o
doloroso choque do salto ainda maltratava dois mil terranos
disfarçados de arcônidas, o transmissor automático forneceu o
sinal de identificação ao grupo de naves.
Os membros
mais importantes do comando que participaria da operação
encontravam-se em companhia de Perry Rhodan, na sala central da
Kublai Khan. Naquele momento, ouviam o relato de Joe Pasgin sobre as
experiências realizadas com os hipercampos de interferência.
Bell, que
em virtude de sua pequena estatura não fazia boa figura no uniforme
de membro do estado-maior arcônida, disse em voz baixa:
— Se não
houver nenhuma pane com estes campos de ionização, quero chamar-me
de Smith. Oh, Via Láctea, como estão nossas perspectivas!
Ninguém o
contestou, nem mesmo Gucky, o rato-castor, que se refestelava no sofá
e envergava seu uniforme de inspetor arcônida. A seu lado tinha uma
esfera. Era Harno, seu novo amigo.
Ao que
parecia, só Perry Rhodan e Atlan tinham algo a fazer. Bell, que
elaborara o plano de ação contra Topsid, estava reduzido ao papel
de espectador, tal qual as outras pessoas que se encontravam na sala
de comando. O rato-castor chegou mesmo a bocejar acintosamente, e nem
sequer teve o cuidado de cobrir a boca com uma das patas...
O pessoal
da sala de rádio estava ocupadíssimo.
As ordens
se atropelavam. As naves de Perry Rhodan começaram a promover o
fechamento hermético do planeta Topsid contra qualquer tipo de
tráfego de rádio.
A criação
dos campos de ionização progredia rapidamente.
A uma
distância de trinta minutos-luz, uma esfera fechava-se em torno do
planeta. Tratava-se de uma esfera que não existia no espaço normal
e fazia com que os lagartos não pudessem receber qualquer mensagem
vinda do espaço e nem estivessem em condições de fazer chegar um
raio direcional a uma distância superior a trinta minutos-luz. Tal
raio sempre acabaria atingindo o hipercampo esférico de
interferência, que causava seu desvio e reflexão, segundo as leis
prevalentes no hiperespaço.
Na sala de
rádio da Kublai Khan, que segundo os caracteres arcônidas gravados
em seu envoltório esférico passara a chamar-se de On-Tharu, as
máquinas complicadíssimas, com regulagens ainda mais complicadas,
transformavam simples pios em mensagens de extensão e importância
consideráveis. O sistema de intercomunicação de bordo
transmitia-as prontamente à equipe que cercava Perry Rhodan.
No dia 7
de janeiro, às 03h 42m 04seg, hora de Terrânia, completou-se o
isolamento do mundo dos lagartos. Perry Rhodan já poderia pensar em
reparar o erro cometido no passado.
Enquanto a
On-Tharu, que desenvolvia metade da velocidade da luz, avançava
lentamente em direção ao sistema de sóis germinados de Topsid, o
grupo-tarefa da Frota Terrana permaneceu na sua área de atuação,
situada antes e depois da zona de interferência. No supercouraçado
foram tomados os últimos preparativos para que, por ocasião de seu
pouso no mundo dos lagartos, a nave não fosse recebida com disparos
dos potentes canhões de radiações.
Rhodan
inclinou-se em direção ao microfone e, dirigindo-se à sala de
rádio, disse:
— Ligue
a faixa de hiperfreqüência do computador-regente e irradie em seu
comprimento de onda. Trinta segundos serão suficientes. O regente
nunca nos dirigiu qualquer chamado com maior duração.
Quase ao
mesmo tempo ouviu atrás de si o passo pesado de um robô.
Atlan
exibiu um sorriso forçado, enquanto um sorriso alegre surgia no
rosto de Bell, que parecia ter esquecido tudo que se relacionasse com
o dedo machucado.
O
rato-castor não parecia sentir o nervosismo gerado pela situação.
Rolara Harno, o ser esférico, para junto de si e colocara a pata
sobre a superfície lisa de seu corpo. Os olhos de Gucky continuavam
fechados. Apenas o dente roedor permanecia visível. Dali se concluía
que Gucky se sentia à vontade.
O
alto-falante do sistema de intercomunicação transmitiu a mensagem:
— Disfarce
montado!
Rhodan
confirmou o recebimento.
O robô
estava parado a seu lado. Parecia ter sido programado especialmente
para a situação.
Na tela
surgiu o tristemente afamado modelo de ondas do computador-regente de
Árcon III.
Nos
últimos vinte segundos, esse modelo devia ter ficado visível em
algumas telas especiais dos lagartos.
Depois de
algum tempo, o mundo dos tópsidas expediu o primeiro sinal de rádio,
em resposta à mensagem de comando do Regente de Árcon.
Assim que
terminaram os trinta segundos, o robô que se encontrava ao lado de
Perry Rhodan começou a falar com sua voz metálica, que tinha uma
semelhança espantosa com o órgão vocal do computador-regente:
— Aqui
fala o Grande Coordenador. A On-Tharu, comandada por meu
representante Attor, pousará ainda hoje em Topsid, a fim de realizar
certas investigações no local. Atendam a qualquer pedido, a
qualquer ordem, forneçam todo auxílio que lhes seja solicitado. A
conseqüência de uma eventual recusa será a destruição do
planeta.
A
comunicação foi interrompida. Qualquer tópsida acreditaria que o
chamado vinha diretamente do Grande Coordenador, sediado em Árcon
III.
O robô
especialmente preparado para esse tipo de engano desapareceu. A
On-Tharu continuava a aproximar-se do sistema de sóis geminados,
desenvolvendo a metade da velocidade da luz. Esse sistema, com seus
vinte e sete planetas, não poderia ser chamado de pequeno. Quinze
desses mundos pertenciam ao grande sol, que emitia uma luz branca e
ofuscante e tinha seis vezes o tamanho de seu companheiro violeta.
Seis
planetas corriam em torno do astro que emitia uma luz violeta-pálida
e, à primeira vista, tinha o aspecto de um anão. A um exame mais
detido percebia-se que se tratava de um sol muito quente, de massa
reduzida, gravitação insignificante e pequeno diâmetro.
Os seis
planetas restantes gravitavam em torno dos dois sóis, e um deles era
o mundo central dos lagartos, enquanto outros cinco planetas,
situados no mesmo sistema, eram de importância secundária sob todos
os pontos de vista.
O enorme
computador de bordo de On-Tharu, que recebera seu saber arcônida da
velha Titan, estava transmitindo ao sistema de pilotagem da nave os
últimos dados sobre a rota do mundo dos tópsidas. Naquele instante,
o veículo esférico foi localizado pelas naves de vigilância
espacial dos lagartos.
— Localização!
— Abalo
estrutural!
— Seis
naves no amarelo, duas no verde.
Os três
homens ali reunidos, dos quais dependia o êxito ou o fracasso da
operação, fitaram-se ligeiramente.
— Sala
de comando de artilharia — gritou Atlan pelo intercomunicador, para
chamar a gigantesca central de controle de fogo da enorme nave.
— Pois
não — respondeu o oficial, mas logo retificou: — Às ordens,
almirante!
— Se os
lagartos se aproximarem demais, faça um disparo de advertência com
todas as armas na frente de sua proa. Não daremos nenhum aviso
prévio pelo rádio. Se quisermos afirmar que somos arcônidas,
teremos de agir como indivíduos dessa raça. Dispare sem prévio
aviso, sem atingir os tópsidas. Entendido?
— Entendido,
almirante. Se quisermos fazer o papel de arcônidas, deveremos agir
como arcônidas.
Essa
resposta causou uma sensação desagradável em Atlan.
Não teve
necessidade de olhar para os lados para saber se Rhodan e Bell
estavam rindo.
Estavam
sorrindo. Procuraram disfarçar, mas não conseguiram.
— Que
sujeito insolente! — disse Atlan em tom furioso.
— Não
sabia que o homem mais importante do nosso setor de armamentos também
é um poeta. Só mesmo um poeta conseguiria exprimir em tão poucas
palavras o caráter de um povo, tornando desnecessárias quaisquer
perguntas. Atlan, o senhor não acha que estas palavras exprimem
tudo?
— Se
quisermos fazer o papel de arcônidas, deveremos agir como ar...
Não
conseguiu completar a palavra!
A Kublai
Khan disparou com todas as armas das duas torres polares, colocando
alguns tiros de advertência diante da proa das naves tópsidas.
Embora a distância entre as duas torres fosse de pelo menos mil e
quinhentos metros, o ruído dos disparos era perfeitamente
perceptível na sala de comando.
Assim que
o ruído amainou um pouco, Atlan inclinou-se para Bell e cochichou ao
ouvido do mesmo:
— Gorducho,
ainda direi umas boas a seu poeta e...
Reginald
Bell, um homem que apreciava a boa vida, mas nem por isso costumava
fugir à aventura, colocou a mão sobre o braço de Atlan.
— Você
não vai tratar nosso oficial de artilharia como um arcônida. Apesar
de toda compreensão pela Humanidade, você muitas vezes não
compreende os homens e sua mentalidade. O Major Crafford, acho que é
este seu nome, não teve a intenção de ofendê-lo. Apenas quis
ressaltar a enorme tolice e arrogância de seu povo. Almirante Atlan,
hoje em dia os arcônidas poderiam ser donos do Universo, se
soubessem fazer amigos. Devíamos...
A segunda
série de disparos sacudiu a nave sob a forma de várias ondas
sonoras. O Major Crafford expediu o segundo aviso sob a forma de
alguns feixes de raios mortíferos.
Os
alto-falantes transmitiram a mensagem vinda da sala de rádio.
— Os
lagartos solicitam o nome da nave, Sir...
Crest
aproximou-se rapidamente de Perry Rhodan e esteve a ponto de dizer
alguma coisa, quando os alto-falantes transmitiram uma voz potente:
— Localização
energética, Sir. No planeta Topsid procuram criar problemas para
nós.
A mensagem
era pouco clara.
— Problemas?
O que quer dizer com isso? — perguntou Rhodan em tom áspero.
No mesmo
instante, o alarma de solicitação máxima dos campos defensivos fez
soar as sereias. No interior da nave, os conversores começaram a
rugir. Uma série de conjuntos de reserva entrou em funcionamento a
fim de absorver as energias de características desconhecidas vindas
de fora, que investiam contra os campos defensivos superpotentes da
Kublai Khan, e conduzi-las através dos conversores para os depósitos
vazios.
Tudo não
demorou mais de alguns segundos. Mais uma vez, o alto-falante
transmitiu notícias vindas da sala de rádio.
— Topsid
pede desculpas por não ter reconhecido antes a On-Tharu. Deu ordem a
todas as naves para que se afastem de nós.
O
comentário de Bell foi o seguinte:
— Isso é
uma mentira tola e infame. Devíamos...
Nesse
momento houve outro chamado da sala de rádio.
— A
estação de hiper-rádio de Topsid está chamando o computador de
Árcon.
— Não
tome conhecimento do chamado! — ordenou Perry Rhodan. Lembrou-se de
que também já chamara em vão o regente de Árcon.
— Sir,
existe a zona de interferência...
A zona de
interferência era a área esférica de ionização que fechava o
sistema dos dois sóis contra o resto do Universo.
— Não
tomem conhecimento do chamado. Desligo.
No mesmo
instante, Perry Rhodan voltou a falar nos problemas energéticos.
— Então,
senhores, será que poderiam fornecer uma explicação sobre o motivo
por que nossos campos defensivos quase chegaram a entrar em colapso?
Queria
informações precisas. Seus olhos cinzentos brilhavam, exprimindo
uma raiva controlada, isto é, o aborrecimento que sentia por ter de
formular uma pergunta como esta.
— Sir,
aqui fala a Divisão 184/t — disse pelo interfone a central de
pesquisa energética, dirigida pelo Dr. Bansfield. O rosto jovem do
cientista, que não contava mais de trinta anos, estava marcado pela
excitação. — Topsid deve ter descoberto um novo meio de defesa.
Se as primeiras interpretações dos fatos forem corretas, devem
possuir um tipo de corrente bifásica...
— O que
vem a ser isso? — disse Rhodan em tom contrariado.
— Sir,
queira desculpar...
— Fale
logo! — disse Rhodan em tom impaciente.
— O uso
da expressão “corrente
bifásica”
representa um recurso de emergência. Na realidade, não sabemos como
os lagartos conseguiram solucionar o problema extremamente complexo
de medir a capacidade de absorção de nossos campos energéticos por
meio de um raio-eco. Pelo que pudemos constatar, a energia
transportada pelo raio-eco regula sua tensão pela de nossos campos
defensivos...
— Isso
não passa de uma grande tolice! — interveio Bell. — A tensão
dos campos defensivos nunca se mantém constante.
O jovem
cientista parecia ter muita certeza do que estava dizendo.
— Foi o
que eu pensei, Sir. Porém, quando constatamos que os acumuladores
vazios destinados a entrarem em ação no caso de uma solicitação
excessiva continuavam vazios, enquanto alguns dos grandes
acumuladores perderam mais de vinte por cento de sua carga, e isso em
menos de dois segundos, só encontramos uma explicação: os lagartos
devem ter descoberto um meio de que os campos defensivos se
autodestruam, por meio de uma interferência leve vinda de cima. Ao
contrário das experiências anteriores, os mecanismos de absorção
não conduziram ao campo defensivo a energia vinda de fora.
Entretanto, numa reação verdadeiramente absurda, levaram a esses
campos imensas quantidades adicionais de energia dos acumuladores,
deixando-os supersaturados em menos de dois segundos e fazendo com
que quase entrassem em colapso em virtude de uma reação interna.
Atlan
ergueu-se abruptamente. Bell aproximou-se da tela. Rhodan foi o único
que permaneceu em sua poltrona.
— Doutor
— disse e, como muitas vezes acontecia quando a situação se
tornava crítica, sua voz irradiava uma calma fascinante. —
Resumindo, deve ser o seguinte: um raio-eco atingiu nosso campo
defensivo e mediu sua intensidade. No mesmo instante, a tensão da
energia conduzida por esse raio adaptou-se à do nosso campo. Se eu
cometer um erro de raciocínio, avise imediatamente. Com isso,
aparentemente esses campos são reforçados por meio de um suprimento
de energia vindo de fora. Não compreendo como é que os mecanismos
de absorção podem inverter sua função de uma hora para outra,
conduzindo quantidades adicionais de energia ao campo defensivo, em
vez de absorver a energia excessiva.
— Sir —
o Dr. Bansfield respirou profundamente. — Depois de identificar-se
com os nossos campos, o raio-eco rompeu-os e, conforme se depreende
dos diagramas, inverteu os pólos dos conversores dos mecanismos de
absorção. É possível que esse fenômeno só encontre explicação
no âmbito da hipertórica, que é uma ciência a qual se dedicaram
alguns velhos matemáticos arcônidas.
Perry
Rhodan, que, tal qual Reginald Bell, recebera um máximo de
treinamento hipnótico arcônida, lembrou-se desses cientistas e
espantou-se de que o Dr. Bansfield estivesse tão bem informado. Mas
não deu a perceber. Agradeceu a Bansfield e animou-o para que
prosseguisse com o máximo de dedicação nas suas investigações
relativas à nova energia.
— No
momento não tenho tempo para cuidar do caso, mas já vimos que o
esclarecimento cabal do mesmo é de importância vital para nós.
Assim que seja possível, pedir-lhe-ei que me forneça informações
mais detalhadas. Posso garantir-lhe uma coisa, doutor. Em Topsid
esforçar-nos-emos ao máximo para encontrar a nova arma defensiva.
Fico-lhe muito grato. Obrigado.
7
A On-Tharu
soltou as colunas de apoio telescópicas, que pareciam verdadeiras
torres. O rugido dos propulsores de impulsos, situados na
protuberância equatorial da gigantesca nave, foi substituído por um
leve trovejar. Os projetores antigravitacionais fizeram com que a
nave perdesse o peso.
Quando se
encontrava trezentos metros acima do espaçoporto de Kerh-Onf —
segundo os catálogos estelares dos arcônidas, esta era a cidade
mais importante do sistema de sóis gêmeos e ali ficava o único
espaçoporto que permitia o pouso de supernaves, sem que seu
pavimento fosse danificado — a On-Tharu começou a descer com uma
lentidão encantadora.
Perry
Rhodan mandou chamar John Marshall, Gucky e Harno, a criatura
esférica. Pediu aos primeiros que recorressem às suas faculdades
telepáticas para analisar a disposição de ânimo da multidão de
lagartos que os esperava na periferia do campo de pouso, a Harno que
fizesse uso de sua faculdade natural — tornando-se televisão — e
tentasse localizar o posto de combate que irradiara o raio-eco.
Atlan e
Bell pousaram a gigantesca nave, que pelas suas dimensões
representava uma expressão condigna da grandeza do Império. Todos
os postos de combate estavam guarnecidos. Até mesmo os transmissores
de matéria estavam prontos para entrar em ação.
Subitamente
o rato-castor exclamou:
— Perry,
esses lagartos estão com uma raiva danada. Gostariam de transformar
tudo quanto é arcônida num foguete que errasse pelo espaço. E sua
opinião sobre o Grande Coordenador é ainda mais desfavorável...
— É
verdade! — confirmou Marshall, chefe do Exército de Mutantes. —
Com o recrutamento forçado levado a efeito no sistema de Topsid,
Árcon perdeu o que ainda lhe restava de simpatia.
Crest
resolveu intervir na palestra.
— No
curso da história os lagartos têm violado todos os tratados que
celebraram com Árcon.
Gucky
encostou-se a Perry Rhodan. Era o único que podia permitir-se esse
tipo de liberdade. Afinal, não era uma criatura humana, e nem queria
ser. Muitas vezes dava a entender que se sentia orgulhoso por seu
corpo de animal, embora nessas oportunidades não fizesse propaganda
de suas faculdades fenomenais e de sua extraordinária inteligência.
Qualquer
pessoa que travasse conhecimento com Gucky teria de libertar-se da
idéia de que existe uma ligação entre inteligência e aspecto
humanóide.
— Chefe,
a delegação do governo está sendo organizada. O nome do
primeiro-xeque é Xxal-Ri. Não sei se a pronúncia está correta.
Como Xxal-Ri gosta
dos arcônidas, e como sua consciência está pesada! Ele só vive
pensando nas fraudes cometidas contra o sistema Árcon! O fato de
nossa descida ser um tanto demorada deixa-o muito assustado.
Naquele
momento, a On-Tharu pousou suavemente. Os ruídos dos propulsores
foram cessando, e a intensidade do campo antigravitacional foi
diminuindo.
Harno
entrou em contato telepático com Rhodan. A criatura esférica
parecia flutuar na altura de seu peito e lhe exibia uma estranha
posição de artilharia, cujas peças não apresentavam a menor
semelhança com desintegradores ou geradores de raios térmicos.
— Perry
Rhodan, é este o lugar do qual foi disparado o raio-eco que atingiu
a Kublai Khan,
— emitiu Harno. — Há
alguns minutos os lagartos concluíram, com base nos cálculos por
eles realizados, que esse raio seria capaz de eliminar os campos
defensivos de nossa espaçonave. Neste momento a notícia está sendo
transmitida a alguém.
— Se
esses lagartos estivessem em condições de agir segundo sua vontade,
eles nos transformariam em espinafre, Perry. Neste momento estão
conversando sobre o passado. Comentam os processos criminais a que
responderam no sistema de Betelgeuze. Sentem-se como quem está em
cima de um coqueiro...
Gucky
viu-se interrompido por Bell.
— Em
Topsid não existem coqueiros; logo, os tópsidas não poderiam estar
em cima de um coqueiro. Está na hora de você procurar exprimir-se
com maior precisão. Há pouco você disse que o chefe da delegação
dos lagartos é um xeque. Ora, Gucky, um tenente do Exército de
Mutantes não deve usar expressões deste tipo.
— Queira
desculpar, representante do administrador — piou Gucky em tom tão
sério que até Perry Rhodan admirou-se e lançou um olhar
interrogativo para o rato-castor.
Não
estavam acostumados a vê-lo agir com tamanha moderação. Via de
regra defendia-se energicamente assim que era atacado.
— No
futuro, eu me guiarei exclusivamente pelo senhor.
O chamado
da sala de rádio não permitiu que as gargalhadas surgissem.
— Sir,
acabamos de receber uma mensagem da Sambo! — a nave encontrava-se
antes da zona de interferência. — Um grupo de naves mercantes
tópsidas procura entrar em contato de hiper-rádio com o quarto
mundo do sistema de sóis gêmeos.
Rhodan
respondeu em tom contrariado:
— Diga à
Sambo que não complique desnecessariamente as coisas. Diga-lhes que
apliquem imediatamente o sistema de travessia.
Pelo
sistema de travessia, uma nave que se encontrasse antes da zona de
ionização atravessaria a mesma com a mensagem de qualquer nave
espacial, e irradiaria tal mensagem atrás dessa zona, em direção
ao ponto de destino. Era um processo bastante complicado. Mas, as
cabeças mais competentes de Terrânia não encontraram um meio
melhor, motivo por que acabaram concordando com o plano de Bell,
embora não o julgassem inteiramente satisfatório.
Nesse meio
tempo, no interior da On-Tharu foram tomados todos os preparativos
para sair da nave. As mensagens recebidas sucediam-se rapidamente. As
coisas corriam às mil maravilhas.
Atlan e
Rhodan dispuseram-se a sair da sala de comando.
— E eu?
— piou Gucky em tom enérgico. — Pensei que fosse representar o
papel principal diante dos lagartos, Perry! Será que sua memória
deu para falhar?
— Mensagem
urgente para o chefe! Mensagem urgente para o chefe! — berraram os
alto-falantes, abafando qualquer palestra que se desenvolvesse no
interior da nave.
Depois
desse anúncio de emergência, o Tenente Elp, que estava de serviço
na sala de rádio, desfiou o texto da mensagem:
— Aviso
de F. C. Curtiss, agente do Serviço Solar de Segurança em Topsid.
Acabamos de saber que há três dias duas naves robotizadas arcônidas
se encontram no planeta, a fim de receber seis mil astronautas
tópsidas. Fim da mensagem transmitida por F. C. Curtiss.
Atlan e
Rhodan fitaram-se. Bell, que continuava sentado na poltrona, assumiu
uma postura tensa. Na gigantesca sala de comando da On-Tharu houve
alguns segundos de total silêncio.
Perry
Rhodan respirou profundamente, olhou para John Marshall e deu sua
ordem:
— Os
mutantes entrarão em ação!
Bell
contemplou o polegar direito. De repente sentiu-se dominado de novo
pela terrível sensação que por pouco não lhe estragou a festa de
passagem de ano.
Enquanto
Rhodan e Atlan saíam da sala de comando, Gucky aproximou-se
lentamente de Reginald Bell e piou-lhe:
— Gorducho,
bem que eu deveria ter trazido sapatos quentes, pois nossos pés
esfriarão como nunca. Os pés de todos nós! Se acredita que pode
resmungar por causa das expressões que uso, devo ponderar com todas
as vênias que você sempre vive falando de seus sapatões...
O
rato-castor saltou para o lado, desviando-se da mão de Bell.
Marshall gritou para Gucky:
— Permaneça
em contato com o chefe até que eu esteja de volta!
Saiu da
sala de comando para destacar alguns mutantes que deveriam cuidar das
duas naves arcônidas. Procurariam saber antes de mais nada qual era
a idade-limite dos lagartos astronautas que o computador-regente
estava usando na frente. John Marshall não se esquecera do motivo
que levara Perry a lançar no último instante essa operação
desesperada.
Rhodan e
Atlan desceram pelo elevador antigravitacional e chegaram à comporta
principal, que ficava bem em frente ao lugar em que se encontrava a
delegação dos tópsidas.
Cento e
cinqüenta robôs, que pelo aspecto em nada se distinguiam das
máquinas de guerra arcônidas, dividiram-se em dois grupos iguais e
puseram-se em movimento ao lado de Rhodan e Atlan, enquanto estes
desciam pela larga rampa de plástico.
Bem ao
longe, as construções da cidade de Kerh-Onf destacavam-se contra a
silhueta das grandes montanhas, que tomavam mais da metade da linha
do horizonte.
A menos de
dois quilômetros, um grupo de mais de duzentos lagartos aguardava-os
na periferia do campo de pouso.
Rhodan e
Atlan, que envergavam seus vistosos uniformes arcônidas, caminharam
em direção a esse grupo, demonstrando orgulho e arrogância. À sua
direita e à sua esquerda, cento e cinqüenta robôs de guerra faziam
o pavimento de plástico ressoar. Atrás deles veio um grupo de nove
pessoas, das quais só três tinham o aspecto de arcônidas. Os seis
restantes pareciam ser membros de algum povo colonial arcônida.
Essas
pessoas pertenciam ao exército mais estranho da Galáxia: o Exército
de Mutantes. Sua missão não consistia em proteger Rhodan e Atlan.
Teriam de cumprir a difícil tarefa de, por ocasião do primeiro
contato com os lagartos, verificar qual era a lembrança que estes
guardavam dos acontecimentos desenrolados há setenta anos no setor
de Vega.
Os
anfitriões, que se encontravam na periferia do espaçoporto,
foram-se aproximando do grupo saído da nave.
Os
tópsidas caminhavam como homens. Possuíam mãos e pés, mantinham o
corpo ereto e respiravam a mesma mistura gasosa que os homens. Estes
eram os únicos pontos de semelhança.
O crânio
achatado e pelado, os lábios finíssimos e os olhos salientes
davam-lhes um aspecto de animais selvagens. Era difícil acreditar
que esses lagartos fossem inteligentes, e ainda mais difícil se
tornava acreditar que seu nível de inteligência correspondia à
média da inteligência humana. Em seu mundo, os padrões
ético-morais aplicados pelo homem não tinham validade. Sua língua
não conhecia a palavra compaixão. Mas, em certas áreas estranhas
aos conhecimentos dos terranos e dos arcônidas, suas realizações
eram importantes.
A pele
escamosa marrom-escura que cobria os corpos magros desses seres
servia para reforçar seu aspecto medonho. A cabeça de lagarto era
outra característica que realçava sua natureza não-humanóide.
Não
haveria dificuldades de comunicação. Qualquer tópsida que
trabalhasse para o governo devia ter o domínio completo do
intercosmo, a língua interestelar. Por isso Rhodan e Atlan
preferiram não trazer tradutoras positrônicas. No entanto, antes de
decolarem em direção ao sistema dos sóis gêmeos fizeram um curso
hipnótico intensivo da língua dos lagartos. Mas pretendiam não
informá-los a este respeito.
Os dois
grupos encontraram-se a meio caminho.
Onze
criaturas humanóides acompanhados de cento e cinqüenta robôs
viram-se diante de cerca de duzentos lagartos. Entre os dois grupos
havia uma zona neutra de dez metros de largura.
Atlan
adiantou-se meio metro. Encarnava o protótipo do arcônida: era
orgulhoso, arrogante e insolente.
— Quem é
Xxal-Ri? Quero que ele se apresente imediatamente! — disse num tom
de voz que, até mesmo em Perry Rhodan, provocou uma sensação
desagradável.
Uns
duzentos lagartos esguios e imóveis deram mostras de seu nervosismo.
Seus olhos grandes e salientes emitiram um brilho frio e giraram para
todos os lados.
Um lagarto
de uniforme verde-oliva, sem distintivos, adiantou-se.
— Você
é Xxal-Ri? Por ordem do Grande Coordenador exijo que seja iniciada
imediatamente uma investigação para descobrir quem foi o tópsida
que deu ordem de tatear a On-Tharu. Xxal-Ri, você sabe qual é o
incidente ao qual me refiro?
— Sei...
No mesmo
instante, Atlan lhe fez uma advertência em termos bastante ásperos.
— Quando
falar comigo, use sempre o tratamento Alteza, e — apontou para
Perry Rhodan — quando falar com o representante do Grande
Coordenador, chame-o de Grande Arcônida Attor! Quando me serão
apresentados os tópsidas que tiveram a audácia de tatear uma nave
do Grande Coordenador? Não esperarei mais de duas horas. Agora quero
ir à cidade. Saiam do meu caminho, lagartos...!
Só mesmo
um arcônida poderia desempenhar esse papel com a perfeição que
Atlan estava demonstrando. Perry Rhodan ouviu às suas costas os
suspiros de alívio. Todos os detalhes haviam sido discutidos e todos
os mutantes conheciam os arcônidas e seu orgulho misturado com
presunção, mas o procedimento de Atlan deixou-os chocados. O mesmo
era incompatível com a mentalidade humana. E o tratamento de
lagartos, que Atlan acabara de dar aos tópsidas, era a pior ofensa
que alguém poderia fazer a esse povo não-humanóide.
Apesar de
tudo, porém, os lagartos só esbravejavam em pensamento. Ainda era
cedo para um confronto aberto com Árcon.
Os golpes
mortais que sua frota espacial recebera no sistema de Betelgeuze
ainda ardiam em sua memória, e sua inteligência não lhes permitia
praticar qualquer ato de resistência. Caso tentassem opor-se ao
domínio de Árcon, seu planeta correria o perigo de ser destruído.
— Sir,
não há qualquer indício de uma resistência ativa, mas o tal do
Xxal-Ri nem pensa em realizar a investigação exigida por Atlan.
Pretende entregar-nos três lagartos já condenados à morte.
A mensagem
telepática foi transmitida por Harno.
No mesmo
instante, Atlan gritou para Xxal-Ri, que chefiava a delegação:
— Lagarto,
se você se atrever a simular que os culpados do rastreamento são
três tópsidas condenados à morte, o Grande arcônida Attor
solicitará ao Grande Coordenador o envio de três esquadrilhas de
couraçados espaciais que varrerão este sistema da Galáxia.
O
procedimento de Atlan era chocante, e todos os lagartos acreditaram
na arrogância do arcônida. Pela primeira vez Xxal-Ri mostrou que
sabia estremecer e abaixar-se de medo, que nem um humanóide. Seus
olhos enormes já não giravam; fitavam Atlan com uma expressão de
pavor. Perry Rhodan nunca vira uma expressão de medo tão bem
marcada como a que se desenhava no “rosto”
de Xxal-Ri.
Falando
sua língua materna, o lagarto disse:
— O
Regente enviou-nos o diabo em pessoa... ele sabe ler pensamentos!
O
desassossego passou a dominar o círculo dos tópsidas mais chegados
a Xxal-Ri. Rhodan e Atlan não lhes deram oportunidade de fazer
crescer esse desassossego. Os cento e cinqüenta robôs
aproximaram-se e obrigaram os lagartos a espalhar-se. Os onze homens
e sua escolta não demoraram a atingir a periferia do espaçoporto.
De repente
Rhodan tocou de leve a mão do arcônida. Atlan acenou discretamente
com a cabeça. Estavam recebendo a notícia de Gucky, transmitida por
intermédio de Harno, que servia de estação telepática
retransmissora:
— Chefe,
F. C. Curtiss acaba de avisar que as duas naves arcônidas se
aproximam do espaçoporto de Kerh-Onf. Pelo que diz, há cerca de mil
e quinhentos lagartos a bordo.
Rhodan
respondeu por meio do microfone de pulso. Entrou em contato
diretamente com Bell.
— Enquanto
for possível, não tome conhecimento das duas espaçonaves
tripuladas por robôs. Avise imediatamente a zona de interferência.
Desligo.
Atlan, que
ouvira a troca de mensagens, lançou um olhar pensativo para Rhodan.
— Bárbaro,
receio que uma trovoada esteja para desabar sobre nós. Na minha
opinião, a Kublai Khan deveria manter-se preparada para decolar a
qualquer momento. Isso representará certa tranqüilidade. De
qualquer maneira, ainda ensinarei a esses tópsidas como se deve
receber e tratar um grupo de arcônidas que representa o Grande
Coordenador...
*
* *
Enquanto
Perry Rhodan e Atlan voavam em direção à cidade, acompanhados por
dois mutantes e quatro robôs, o arcônida disse em voz baixa, para
que só Rhodan o ouvisse:
— Há
pouco, quando destratei os lagartos e fiz o papel do arcônida
arrogante, tive nojo de mim mesmo. Mas descobri uma coisa, bárbaro:
não foi tão difícil desempenhar esse papel...
Um súbito
trovejar vindo do céu tópsida, ligeiramente violeta, o interrompeu.
Eram dois
couraçados arcônidas que desciam sobre o espaçoporto de Kerh-Onf.
Os dois veículos tripulados por robôs vieram a Topsid para recrutar
à força seis mil lagartos que tivessem experiência na
astronáutica, a fim de levá-los o mais rápido possível à zona de
descarga, onde rugia a batalha devoradora de gente e materiais.
Rhodan
olhou tranqüilamente em direção às duas naves, enquanto pousavam
na extremidade oposta do espaçoporto. Ao contrário de Atlan,
acreditava que estas não representavam qualquer risco para a
arrojada operação.
Olhou para
trás e viu que os outros membros do Exército de Mutantes e os robôs
de guerra seguiram-nos em cinco planadores tópsidas.
As
bizarras construções da grande metrópole Kerh-Onf foram surgindo
em meio à névoa que cobria todo o planeta. Enquanto a Kublai Khan
descrevia três círculos em torno do planeta, ela constatara que
essa névoa também existia na face noturna do planeta, e que se
tratava de neblina, simplesmente.
O eixo
polar de Topsid media 14.708 quilômetros, ou seja, dois mil
quilômetros mais que o da Terra. Apesar disso, sua gravitação não
ultrapassava l,3G. Não se constatara a presença de massas de gelo
nas regiões polares. Não havia oceanos de dimensões iguais a dos
terranos, mas apenas alguns lagos que se comunicavam por meio de
canais artificiais. Quatro gigantescos complexos montanhosos davam a
impressão de que Topsid era um planeta entrecortado por montanhas.
No entanto, entre esses complexos estendiam-se enormes planícies.
Três luas
gravitavam em torno de Topsid. Eram minúsculos satélites, de 600, e
900 quilômetros de diâmetro.
— Diga-me
uma coisa, almirante. No seu tempo os tópsidas já eram conhecidos
no Grande Império?
— Não,
ao menos que eu saiba. O que é isso que vem vindo do espaçoporto? —
num gesto nervoso, apontou para a esquerda.
Cinco
pequenas naves esféricas de construção arcônida pareciam
interpor-se no caminho dos planadores. No mesmo instante o ar começou
a tremeluzir à frente de Rhodan e Atlan.
Gucky, o
rato-castor, surgiu à sua frente. Segurava Harno, o ser esférico,
sob o braço esquerdo.
— Perry
— piou antes que Rhodan tivesse tempo para dizer qualquer coisa. —
Os tópsidas estão desmontando as instalações de raio-eco. Eu
gostaria de ajudá-los nesse trabalho. Você permite?
— Os
tópsidas são mais traiçoeiros que o computador-regente! —
exclamou Atlan.
— É
justamente por isso que quero cuidar para que todas as peças
desmontadas cheguem em boas condições à Kublai Khan — disse
Gucky, sorrindo com o dente roedor solitário. — Com isso poderemos
evitar aborrecimentos.
— Deixe
Harno aqui mesmo, Gucky! — ordenou Rhodan. — E não assuma
qualquer risco. Entendido?
— Ótimo!
— disse o rato-castor em tom de júbilo. — Cuide bem de Harno,
chefe.
O ar
voltou a tremeluzir, e Gucky desapareceu num salto de teleportação
que o levaria ao posto de rastreamento dos tópsidas.
Enquanto
falavam com Gucky, Rhodan e Atlan se haviam esquecido das cinco naves
arcônidas. Agora Rhodan lembrou-se das mesmas. Naquele instante
recebeu o chamado de Bell.
— Três
pequenas naves arcônidas estão em cima de nós. Não respondem aos
nossos chamados pelo rádio. A On-Tharu está de prontidão para
abrir fogo a qualquer momento. Se descerem mais ou pousarem perto de
nossa nave, eu lhes darei uma recepção condigna com nosso raio de
tração mais potente. De acordo?
— De
acordo, mas o raio de tração só deverá ser usado depois que...
— Acho
que demos um alarma falso — interrompeu Bell. — As naves se
afastam. Por que é que duas delas estão nos calcanhares de vocês?
Estão uns seis mil metros acima de vocês. Ainda não as viram?
Bell
estava utilizando todos os instrumentos de observação da Kublai
Khan. Valendo-se da ampliação positrônica direta, conseguiu um
aumento tão grande dos dois pequenos veículos esféricos que os
mesmos pareciam estar a três metros de distância.
— Não
façam nada! — exclamou Atlan antes que Rhodan dissesse qualquer
coisa. — Acabo de ter uma idéia. As cinco naves que vimos estão
atrás de tópsidas recrutáveis.
— É uma
bela expressão, almirante — disse Bell em tom de escárnio. —
Acho que você não consegue esquecer o tempo de serviço militar
arcônida. O.K.! Desligo.
Deslocando-se
a oitocentos metros de altura, os planadores tópsidas corriam
velozmente em direção à grande metrópole.
Atlan
fitou com uma expressão de desagrado as construções alongadas e
altas.
— Que
estilo maluco será este? — perguntou-se.
Perry
Rhodan formulara a mesma pergunta há alguns minutos.

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