terça-feira, 23 de agosto de 2016

P-087 - As Cavernas do Sono - William Voltz [Parte 3]

7



Clinkskate soltou uma praga e afastou Piotrowski, que estava muito pálido. A atadura pendia frouxamente de seu corpo.
Traga o telefone — ordenou. — Faça uma ligação com Cavanaugh. Ande depressa!
O médico manipulou o aparelho com os dedos trêmulos.
O senhor perdeu muito sangue — disse em tom cauteloso. — Seria preferível que me deixasse terminar logo a atadura.
Ande logo! — gritou Clinkskate. — Enquanto eu estiver falando no telefone, pode aplicar o tratamento.
Deixou-se cair no sofá e colocou a mão sobre o ombro dolorido. Acompanhou os esforços de Piotrowski com um ar impaciente.
Sim — disse o médico. — Um momento, por favor.
Passou o fone a Clinkskate.
É Cavanaugh — cochichou.
Clinkskate repeliu-o com um movimento do braço sadio.
Aqui, Clinkskate — disse, falando para dentro do telefone. — O diabo está às soltas, Mister Cavanaugh. Seria bom que o senhor viesse imediatamente.
Não — prosseguiu depois de algum tempo. — Um homem fugiu da sala de preparativos. Ao que parece contava com o apoio do Dr. Le Boeuf. Não; Piotrowski está a meu lado, aplicando-me uma atadura. O fugitivo atirou contra mim. Está lá embaixo, no pavilhão das câmaras de sono. Seu nome é Richard Kennof; era detetive particular. Afirma estar de posse de uma carga explosiva. Disse aos homens que é policial. Conseguiu ‘arrancar’ doze horas, durante as quais apenas pretende permanecer na caverna. O senhor sabe perfeitamente o que significa isso. Kennof viu o transmissor...
Aguardou a resposta e disse:
Farei o possível para convencer os homens a atacarem. Espero-o.
Desligou.
Cavanaugh virá o mais rápido possível — disse, dirigindo-se a Piotrowski. — Até lá devemos tentar resolver o assunto por conta própria. Tenho certeza de que o tal do Kennof andou blefando.
De qualquer maneira parece que tem coragem — objetou Piotrowski. — Tenho a impressão de que ainda nos reserva uma surpresa...
Tolice. Quanto tempo ainda vai levar para colocar essa maldita atadura?
Já está pronta — respondeu o médico.
Clinkskate lançou-lhe um olhar pensativo.
Tenho uma idéia, Piotrowski — disse. — Já sei como poderemos enganar esse sujeito.
Pode falar — disse o outro em tom de expectativa.
O senhor irá para onde está ele — principiou Clinkskate.
Piotrowski empalideceu. Um sorriso inseguro surgiu em seu rosto. Levantou ambas as mãos, num gesto de recusa.
Não brinque — disse em tom medroso. — Então quer que eu enfrente Kennof sozinho?
Procure puxar pela cabeça, homem! O senhor aparecerá diante dele como quem não quer nada. Conte-lhe que sentiu remorsos, que nem Le Boeuf. Dirá que resolveu juntar-se a ele. Assim que ele deixar de desconfiar, o senhor poderá subjugá-lo.
É realmente muito simples — disse Piotrowski em tom sarcástico. — Procure outra pessoa para levar avante essa linda idéia.
Clinkskate gemeu enquanto se levantava num movimento apressado e caminhou em direção a Piotrowski. Seu rosto estava rubro de raiva.
O senhor se esquece de quem o tem ajudado, meu caro. Lembre-se do Canadá, onde viveu um certo Fedor Piotrowski. Exijo que cumpra minha ordem.
O médico recuou. O suor começou a gotejar em sua testa. Falando com a voz rouca, disse temeroso.
Não irei...
Clinkskate golpeou-o.
O senhor irá! — gritou.

* * *

Acima de cada uma das câmaras havia uma tampa com uma fechadura. Esta poderia ser aberta a tiro de pistola, mas o ruído poderia atrair os homens.
Kennof examinou as dobradiças e ficou satisfeito ao constatar que estas não seriam capazes de resistir à sua habilidade. Utilizou algumas peças retiradas do defletor e levantou a tampa.
Puxou-a para o lado e olhou para dentro da câmara. Viu um velho de bigode e cabeça calva. Era a imagem da paz. Kennof não pôde imaginar o que esse velho estaria esperando do futuro que comprara por bom dinheiro.
Quando penetrou na câmara, Kennof teve a impressão de que, de um momento para outro, seu ocupante poderia abrir os olhos e perguntar em tom áspero o que desejava.
O plasma celular era mantido a uma temperatura agradável. Os pés de Kennof tocaram o fundo, quando um terço do corpo ainda estava fora do líquido. Foi caminhando para junto do homem adormecido. O corpo do velho balançava ligeiramente. Kennof, que já passara por inúmeras situações estranhas, não se sentiu muito à vontade. Mas já que começara com aquilo, iria até o fim.
Seus dedos tocaram cuidadosamente o peito do homem — e recuaram abruptamente.
A pele era fria como gelo!
Kennof sentiu um misto de repugnância e medo. A fazenda molhada da calça grudava nas pernas. Fechou os olhos por um instante, a fim de concentrar-se. Pegou a orelha do homem adormecido e puxou-a. Foi um gesto puramente intuitivo. O órgão auditivo era de uma estranha moleza e elasticidade.
De repente, a orelha desprendeu-se da cabeça!
Kennof soltou um grito de pavor e cambaleou para trás. O líquido borbulhante fechou o vazio deixado por seu corpo.
Aos poucos, o cérebro, que fora paralisado pelo pavor, voltava a funcionar. Seus dedos continuavam a segurar a orelha, que não sangrava. Da ferida aberta na cabeça do homem também não saía sangue. Kennof fez um esforço sobre-humano para examinar o “objeto” que segurava na mão.
A iluminação fraca não permitiu que percebesse muita coisa.
A orelha não era feita de carne humana. Ao que parecia, não era constituída sequer de uma substância natural. Esse fato não produziu o menor alívio em Kennof.
Será que todo o corpo do homem era feito de material bioplástico? Ou será que aquilo era apenas uma máscara destinada a ocultar alguma coisa?
Na vida de qualquer homem sempre surge um momento em que se sente dominado pelo pânico. Neste instante, Kennof sentia-se abalado até a medula dos ossos. Sua estabilidade psíquica, que era muito superior à média, ameaçava desmoronar.
Num gesto puramente instintivo, saiu da câmara. Por algum tempo ficou deitado junto à entrada, totalmente imóvel. Poças foram surgindo em torno dele.
Assim que refez-se do susto, rastejou para junto da abertura e olhou para dentro da câmara.
Antes não o tivesse feito!
O velho fazia estranhos movimentos de nadador. De certa maneira as funções dos membros eram inumanas, tão inumanas como qualquer coisa que Kennof já tivesse visto. Perplexo, contemplou o espetáculo fantasmagórico.
Seus olhos arregalaram-se, pois de repente a pele do rosto do homem começou a desprender-se!
Kennof não estava em condições de continuar a olhar para verificar o que havia embaixo da pele humana. Pegou a tampa e cobriu a abertura. Totalmente abatido, ficou estendido. O disparo de gás deixara um gosto de podre em sua boca.
Não saberia dizer por quanto tempo permaneceu imóvel até que, de repente, alguma coisa embaixo dele procurou levantar a tampa...

* * *

Aos poucos, Fedor Piotrowski foi-se familiarizando com a idéia de que deveria matar um ser humano.
Com as próprias mãos!
Sua vida era um rastro de maldades e baixezas. Um olhar retrospectivo fez com que o médico reconhecesse seu passado sombrio. Sabia que era mau, e acreditava que essa qualidade representava algo do qual jamais poderia afastar-se.
Sua maldade era de tipo diferente da de Clinkskate. Enquanto os atos deste eram marcados pelo egoísmo e pela brutalidade, Piotrowski conseguia avaliar objetivamente o seu procedimento. Em seu cérebro as noções do bem e do mal estavam nitidamente delimitadas. Suas concepções a este respeito correspondiam exatamente às de um homem decente. Toda vez que Piotrowski infringia a lei, uma voz interior lhe dizia:
Você está cometendo uma injustiça! Tratava-se de uma constatação fria, que não envolvia nenhuma auto-recriminação ou sentimento de culpa. O médico conseguira certo distanciamento de si mesmo, e por isso considerava-se uma terceira pessoa. Sua objetividade quase chegava a ser uma espécie de autonomia em relação a si mesmo. Tratava-se de uma forma estranha e inofensiva de cisão da personalidade. A autonomia não favorecia nem o bem nem o mal, que coexistiam em seu interior. Apenas estabelecia as distinções e fazia as constatações.
Naquele instante, a voz interior constatou com uma objetividade total:
Fedor Piotrowski está prestes a matar um homem chamado Richard Kennof! A pistola com que será praticado o ato está enfiada na bota direita.
Piotrowski sabia que era perfeitamente possível que quem poderia ser morto era ele, pois aquele fugitivo parecia ser um sujeito muito astuto. Tudo dependeria de quem fosse mais rápido e esperto.
Piotrowski chegou à caverna em que se encontravam as câmaras do sono e entrou. Fez o barulho necessário para que Kennof não acreditasse que quisesse entrar às escondidas.
Fique onde está — gritou Kennof do lugar elevado em que se encontrava. — O que deseja?
Quero ajudá-lo — disse Piotrowski. — Sou o colega do Dr. Le Boeuf. Os outros não sabem que estou aqui.
Kennof respondeu em tom sarcástico:
Agora já sabem, pois o senhor berrou para dentro dos micro fones.
Que diabo”, pensou Piotrowski. “Como pude esquecer isso?
Kennof levantou a pistola.
Não cairei num truque idiota como esse, doutor — disse. — Dê o fora.
Os alto-falantes transmitiram a voz de Clinkskate, desfigurada por uma raiva impotente:
Piotrowski, seu amador maldito!
Piotrowski percebeu que Kennof se agarrava desesperadamente ao lugar em que se encontrava. E logo percebeu por quê. O detetive jogava todo o peso do corpo sobre uma das tampas que fechavam as câmaras.
O médico estremeceu.
Acordou um dos monstros!”, pensou instintivamente.
Atirou-se ao chão e, no mesmo instante, tirou a arma do cano da bota. Kennof encontrava-se numa posição difícil. Não podia sair do lugar, pois se o fizesse teria diante de si um atacante muito mais terrível que Piotrowski e sua pistola.
Os dois atiraram ao mesmo tempo. O eco transformou a chicotada dos tiros num rugido que parecia sair das paredes rochosas.
Assim que o ruído cessou, a voz de Clinkskate interrompeu o silêncio:
Acertou nele, doutor?
Não — disse Kennof em tom enfático. — Fui eu que acertei nele.
8



Owen Cavanaugh foi ao último andar e desceu do elevador. Acima dele, o helicóptero esperava na área destinada ao pouso. Cavanaugh abriu a porta de vidro e saiu para a parte inferior da cobertura. Sentiu-se atingido por uma brisa fresca, que arrastou alguns pedaços de papel atrás dele.
Cavanaugh subiu a escada que dava para a área de pouso. Quando viu o piloto sair de trás da carlinga, parou num súbito espanto.
Quem é o senhor? — perguntou em tom autoritário. — Onde está Ben?
Ben adoeceu de repente — disse o homem. — Estou aqui para substituí-lo.
Cavanaugh lançou-lhe um olhar desconfiado.
Nunca o vi — disse em tom áspero. — Quem contratou o senhor?
O substituto de Ben sorriu.
Foi Mister M'Artois — respondeu.
Tomara que o senhor saiba pilotar tão bem quanto Ben — disse Cavanaugh, aparentemente mais tranqüilo.
O senhor logo terá oportunidade de verificar — disse o homem.
Qual é seu nome? — perguntou Cavanaugh com um débil interesse.
Jacó — disse o novo piloto.
É um nome horrível — disse Cavanaugh, enquanto entrava no aparelho. — Chamá-lo-ei de Ben. Por uma questão de hábito.
Pois não, Sir — disse Jacó em tom reverente e acomodou-se no assento do piloto.
Ligou o motor e as pás da hélice começaram a rodar cada vez mais depressa.
Conhece o destino? — perguntou Cavanaugh.
Teve de berrar, pois o ruído do motor sobrepujava-lhe a voz.
Jacó limitou-se a acenar com a cabeça.
Preciso chegar o mais depressa possível — disse Cavanaugh.
Encontravam-se acima da cidade. Outros aparelhos surgiram em torno deles.
O senhor sabe pilotar muito bem — disse Cavanaugh. — Mas receio que haja divergências sobre a hora e o local do pouso.
É possível — concordou Jacó.
Cavanaugh comprimiu um pequeno objeto contra seu quadril.
Sabe o que é isto, Jacó?
O piloto respondeu sem virar a cabeça:
Deve ser uma pistola de agulha.
Adivinhou, meu filho. E agora vá diretamente ao Parque Nacional de Yellowstone, seja lá quem for o senhor.
Jacó perguntou com a melhor calma:
Como foi que o senhor descobriu tão depressa?
Cavanaugh sorriu.
Acontece que M'Artois não tem o direito de contratar quem quer que seja. Quem preenche os empregos na CIS sou eu e Mr. Clinkskate. Somos nós que fazemos a seleção.
Essa informação nos poupa uma série de perguntas — disse Jacó. — Não quer contar tudo?
Cavanaugh sorriu. Parecia divertir-se a valer.
Sua insolência não o salvará — disse em tom suave. — Gostaria de saber quem é o senhor e quem o mandou.
Sou o homem que vai prendê-lo. Ainda haverá outra pessoa, que no momento nem o senhor nem eu conhecemos. E o homem que o condenará.
Jacó olhou para trás e acenou com a cabeça para reforçar o efeito de suas palavras.
É da polícia?
Não diretamente — esclareceu Jacó. — Sou um agente do Serviço de Segurança Solar.
A pressão da pistola reforçou-se. O rosto de Cavanaugh cobriu-se de uma palidez cadavérica.
Conte logo o que há realmente atrás da Companhia do Sono — pediu Jacó.
O senhor não vai saber de nada — gritou Cavanaugh em tom selvagem. — Quer exercer pressão contra mim, a fim de obter alguma informação. Não se esqueça de que é o senhor quem está num aperto.
Jacó mudou o curso do helicóptero.
Desista, Cavanaugh — disse. — Neste momento, quatro helicópteros do Serviço de Segurança Solar estão a caminho de Wyoming. Neles viaja uma dezena de especialistas que não demorarão a descobrir a verdadeira finalidade da CIS. Por uma questão de cautela, a polícia estadual de Wyoming foi notificada e enviou um forte contingente de tropas, a fim de apoiar nossos homens em caso de necessidade.
O presidente da CIS gritou em tom histérico:
Isso não adiantará nada. Não existem provas contra nós. Podemos enfrentar qualquer tipo de inspeção. O senhor sabe perfeitamente que vou matá-lo. E ninguém se interporá no meu caminho. Um dia dominarei o mundo. Quer saber de uma coisa, Jacó? Sou o futuro administrador do Império Solar. Rhodan logo estará liquidado. Com o auxílio dos meus amigos alijá-lo-ei do poder. E juntamente com eles governarei o mundo.
O senhor está doente — constatou o agente em tom indiferente. — Se me matar, o helicóptero cairá. Não pode fazer nada contra mim.
Posso obrigá-lo a levar-me a Wyoming — disse Cavanaugh.
O senhor não me pode obrigar a coisa alguma — objetou Jacó. — Irei a um posto do Serviço de Segurança, onde cuidarão do senhor.
Enquanto falava deixou o helicóptero cair subitamente. No mesmo instante, Cavanaugh levou uma pancada no antebraço que o fez gritar de dor. Disparou. Jacó foi atingido de raspão. Segurou a mão de Cavanaugh e virou-se. Cavanaugh atirou o maciço crânio contra o tórax de Jacó. O agente curvou-se com o impacto da cabeçada. Mesmo assim conseguiu afastar a arma de Cavanaugh.
O aparelho foi descendo rapidamente.
Passou raspando sobre alguns telhados da cidade.
Cavanaugh não conseguiu segurar mais a arma. Com uma força irresistível, Jacó puxou-o para a frente. O presidente da CIS defendeu-se que nem um louco. O espaço reduzido não permitia grande liberdade de movimentos.
O helicóptero desgovernado se inclinou para o lado. Jacó viu os telhados das casas numa proximidade ameaçadora. Os ocupantes de outros veículos tiveram a atenção despertada para eles. As estridentes sereias de alarma da polícia aérea aproximaram-se velozmente.
Jacó imaginava que, a fim de acompanhar o espetáculo com o coração palpitante, grandes multidões se aglomeravam nas ruas. Cavanaugh lutava que nem um animal selvagem, mas o agente conseguiu compensar a maior força física de seu antagonista por meio da experiência e da habilidade.
Segurou a alavanca da direção com uma das mãos, enquanto com a outra afastava Cavanaugh.
Pare com isso — gritou. — Desse jeito nos espatifaremos num telhado.
E daí? — disse Cavanaugh e redobrou seus esforços.
Num movimento inesperado, Jacó soltou a direção e bateu com a mão aberta no ouvido de seu adversário.
Em cima deles surgiu um helicóptero da polícia. As sereias silenciaram. Um megafone transmitiu a voz do policial:
O senhor está bêbedo? Controle seu “pássaro”.
Cavanaugh caiu com um gemido. Seu rosto parecia murcho e vazio. Sonhara um sonho curto, mas perigoso, impregnado de poder. Jacó não poderia saber que o homem inconsciente que se encontrava a seu lado era um traidor da Terra.
Pouse imediatamente! — berrou o policial. — Essa sua pilotagem é um perigo para o tráfego.
Em poucos segundos, Jacó conseguiu imprimir uma rota segura ao helicóptero. Abriu ligeiramente o quebra-vento lateral e exibiu uma plaqueta, de tal forma que o ocupante do aparelho, que voava acima dele, tinha de vê-la.
Num espanto indizível, o policial dirigiu-se ao colega que estava sentado a seu lado.
É um agente da Segurança Solar — disse em tom de perplexidade. — Não acredito que missões importantíssimas sejam confiadas a pessoas tão incompetentes como esta!
É sempre a mesma coisa — disse o outro. — Pessoas competentes como nós nunca recebem uma chance. De qualquer maneira, você deveria cuidar da pilotagem. Estamos a apenas trinta metros do solo.

* * *

Será que não poderíamos ir mais depressa? — perguntou Célia em tom de impaciência.
Há uma porção de coisas que ainda poderíamos fazer — disse Hardiston. — Geralmente o Serviço de Segurança Solar é mais rápido, mas no caso não se trata propriamente de uma missão oficial. Um simples chamado não pode levar o coronel a oferecer combate a um inimigo que nem conhecemos. Só permitiu que fôssemos porque gosta do velho Dick. Se Kennof tiver cometido um engano, o ‘velho’ se terá metido numa boa. A prisão de Jacó poderá custar-lhe o emprego, se posteriormente se constatar que tudo não passou de um falso alarma.
Dick enviou o pedido de socorro — disse Célia em tom impertinente. — O coronel pode confiar nele.
Está certo — disse Shane com uma suave ironia. — Esse Dick é um sujeito e tanto, que vai tropeçando de um perigo para outro.
Seu monstro desalmado! — chiou Célia.
Hardiston inclinou-se para a frente, a fim de falar com o piloto.
O que acha? — perguntou em tom azedo.
Não sei de nada — disse este. — Apenas piloto o aparelho.
Riram, sem desconfiar de que naquele momento Richard Kennof iria entrar numa luta de vida e morte.
9



A pressão exercida contra a parte interna da tampa tornou-se cada vez mais forte.
Talvez sejam apenas minhas forças minguantes que não me permitam deter o prisioneiro”, pensou Kennof.
Certa vez, o desconhecido conseguira levantar a tampa por alguns centímetros. Uma mão surgira na borda do caixão. Kennof golpeou-a com a coronha da pistola. O material bioplástico esfacelou-se. Era do mesmo tipo daquela orelha que o detetive segurara poucas horas antes. A mão foi retirada apressadamente. Seria mesmo uma mão? Ou uma pata? Uma garra? Um tentáculo? Uma ventosa?
Kennof não conseguiu distinguir. A aparição fora tão ligeira que apenas conseguiu ver algo de fugidio.
Mas uma coisa era certa: não se tratava de uma mão humana!
De repente, a visão de Kennof parecia desanuviar-se. Compreendeu a finalidade das providências minuciosas e daquilo que se dizia ser o preparo dos corpos dos candidatos da CIS. Não se tratava de adaptar o corpo dos mesmos a um sono de vários anos. A verdadeira finalidade era outra. Por meio desses preparativos, os criminosos que integravam a Companhia tinham oportunidade de estudar tranqüilamente o rosto e a estatura das pessoas. Dessa forma, as máscaras de bioplástico eram cuidadosamente preparadas e colocadas nos corpos dos indivíduos que se encontravam nos recipientes.
Nenhum dos fiscais do Ministério do Interior jamais tivera a idéia de entrar nas câmaras, a fim de realizar um exame mais minucioso. Atrás das lâminas de plástico transparente, os seres que dormiam no líquido amarelento eram iguais às pessoas mencionadas nas cópias de contratos, arquivadas no Ministério.
Acontece que o estranho transmissor transportava os respectivos signatários a um lugar desconhecido.
Nas câmaras de dormir não havia um único ser humano.
Que seres seriam estes que a CIS guardava na caverna? Seriam mutantes? Ou as vítimas de alguma experiência condenável?
Para onde eram levados os seres humanos colocados no transmissor? Qual era a finalidade que Cavanaugh e seus comparsas pretendiam atingir por meio de sua ação fraudulenta? O que lhes conferia coragem para cometer um crime tão grave em pleno coração do Império Solar?
O homem solitário, que se encontrava em cima da chapa de metal, não encontrou resposta a estas perguntas. Mas seria fácil descobrir uma coisa: quem se encontrava nas câmaras.
Bastaria sair de cima da tampa.
Gostaria que Snyder estivesse por lá para ver o que estava acontecendo. Em algum lugar de Wyoming, um grupo de homens estava a caminho para ajudá-lo. Um grupo de homens e uma mulher.
Chegariam tarde!
Kennof sentiu-se fraco e cansado. A roupa estava secando no corpo. Já por duas vezes sentira calafrios. Em compensação, sua mente trabalhava muito bem. O medo cedera lugar a uma certa resignação.
A criatura presa embaixo da tampa lutava com uma força incrível pela liberdade. Mais uma vez a tampa levantou-se. Kennof encostou os pés numa tubulação, a fim de comprimi-la para baixo.
Entre o detetive e seu inimigo havia apenas uns quatro milímetros de chapa de aço. No momento, a tampa formava um ângulo de trinta graus com a superfície do líquido.
A mão voltou a aparecer.
Kennof observou-a fascinado, sem fazer nada. A poucos centímetros de seu rosto, a mão tateava em busca de um apoio.
Kennof viu dedos estranhos.
Eram delicados e esguios; pareciam ter sido criados por um grande artista. A pele escura, quase negra, era atravessada por linhas e sulcos suaves.
O detetive sentiu-se atirado para o lado por uma forte pancada. Foi arrancado subitamente de suas reflexões. Perdeu o apoio e teve de soltar a tampa. A lâmina redonda foi empurrada para longe, desceu por cima da borda do recipiente e caiu ao chão.
Kennof retirou-se apressadamente do lugar onde estava e segurou firmemente a pistola do Dr. Le Boeuf.
Ouviu o burburinho do líquido. O plasma celular agitou-se. Alguns esguichos caíram aos pés de Kennof. Pareciam gotas de sangue.
De repente surgiu outra mão.
Estava molhada. Deixou sua marca junto à borda do caixão. Parecia um número enorme de impressões digitais.
Com os olhos arregalados e a arma apontada, Kennof mantinha-se a três metros do caixão. O estranho ser parecia hesitar um pouco. Kennof sentiu uma tendência irresistível de fugir. Até mesmo a voz horrível de Clinkskate, caso o xingasse pelo alto-falante, representaria um alívio para o ex-agente.
Kennof soltou um grito.
A cabeça da estranha criatura apareceu. Era formada por placas bioplásticas. Era uma coisa tremendamente apavorante. Os remanescentes da máscara davam certo aspecto humano àquele crânio. Parecia a caricatura de uma cabeça humana. O bigode estava quase perfeito. Completamente molhado, parecia uma centopéia colada ao rosto da estranha criatura.
O resto do corpo apareceu. O monstro foi saindo para a liberdade.
Num instante, Kennof compreendeu a verdade. O conhecimento que adquiriu era tão terrível e inacreditável que ameaçava subjugá-lo. Mas recuperou a força de decisão.
Esvaziou o pente de balas e não esperou para ver o resultado. Quase chegou a cair escada abaixo.
Clinkskate voltou a chamar. O tom de sua voz demonstrava temor.
Contra quem foram disparados esses tiros, Kennof?
Kennof correu em direção ao poço de ventilação.
Contra um membro jovem da raça à qual a CIS quer entregar a Humanidade — gritou o detetive em tom indignado.
Contra um druuf!
10



Agora ele descobriu”, pensou Clinkskate apavorado.
Praguejou contra a moleza de seus homens. Kennof teria de ser eliminado o mais depressa possível.
A ferida do ombro doía. Deixou-se cair para trás e apoiou-se com o braço do ombro são contra o encosto do sofá. Será que o plano concebido por Cavanaugh e por seus amigos, vindos de um outro universo, tinha alguma falha?
Clinkskate refletiu intensamente sobre a situação global.
De certa forma, durante um processo de superposição, que se realizasse numa área próxima, o plano temporal dos druufs ficava praticamente nas vizinhanças. Na época em que a Terra começou a utilizar os transmissores no transporte regular de matérias-primas, destinadas à sua base lunar, os druufs conseguiram uma localização da frente de superposição típica para a feição instável de sua estrutura espaço-temporal. Os descendentes de insetos ficaram refletindo sobre como aproveitar-se da intensa atividade dos transmissores. Viram nela uma boa chance não só de determinar a posição da Terra, mas de avançar até o terceiro planeta do sistema solar.
Mas todos os esforços foram em vão, até que foram ajudados pelo acaso. Durante um salto de transmissão, que visava a outra finalidade, um druuf ficou sujeito à influência dos transmissores terranos. Em vez dele, um saco de feijão foi parar na estação de integradores dos seres de Druufon. Por um ligeiro instante houvera uma interseção na quinta dimensão, causada pelo funcionamento simultâneo dos transmissores. Enquanto os druufs ainda se espantavam com a presença do saco de feijão, o acaso veio em seu auxílio pela segunda vez. O druuf — transportado à Lua, em vez da leguminosa — não foi descoberto. Em virtude de um retardamento no controle do transmissor, sua vida foi salva.
Os cientistas dos druufs possuíam bastante fantasia para reagir imediatamente. O saco de feijão foi atirado para trás, antes que se apagasse o rastro energético que o transmissor deixara na quinta dimensão. O alimento foi colocado no caminho correto, e sua massa foi suficiente para arrancar o druuf do satélite da Terra, antes que qualquer homem tivesse percebido sua presença.
Os cálculos realizados pelos peritos dos druufs revelaram que a probabilidade da ocorrência de um segundo salto desse tipo era muito reduzida. Não era apenas a extensão da zona de superposição que interferia no fenômeno, mas também o local e o tempo do acionamento dos dois transmissores. Além disso, a massa dos dois corpos devia ser aproximadamente igual, pois só assim se tornaria possível o intercâmbio superdimensional de energia.
Clinkskate não tinha a menor idéia da atividade febril que passou a ser desenvolvida pelos druufs, quando estes viram uma chance de chegar à Terra. Apesar de todas as experiências, não houve como repetir à força aquilo que o acaso lhes proporcionara.
Não seria possível enviar uma nave dos druufs à Lua, a fim de informar os combatentes experimentados do Império Solar de que só deveriam acionar seus transmissores num tempo determinado e com uma carga prefixada. Os terranos teriam transformado a nave dos druufs num pequeno sol e se divertiriam a valer com a ingenuidade do inimigo.
Os chefes dessa raça de insetos sabiam que seu plano só poderia ser levado avante se contassem com o auxílio de um ser humano. Tornava-se necessário estabelecer contato com alguns homens influentes, que se mostrassem dispostos a trabalhar para eles em troca de uma paga adequada.
Uma nave robotizada foi introduzida com todas as cautelas possíveis no Universo einsteiniano. Sua tarefa era perfeitamente conhecida, mas extremamente difícil. Deveria trazer um ser humano.
Trouxeram Lewis Shirreff, um homem que infringia a lei ao voar num barco espacial na área dos asteróides. Shirreff era um sonhador entusiasmado pela astronáutica, que gastara sua fortuna não desprezível com o pequeno veículo espacial em que estava viajando. Antes que a Frota Solar pudesse apreender a embarcação de Shirreff, este foi preso pela nave robotizada. Em Marte foram presos alguns funcionários que acobertavam o procedimento ilegal daquele homem, e uma nave espacial lançou-se ao espaço a fim de prender Shirreff. Mas o infrator desaparecera. Porcuraram em vão. Não se atribuiu maior importância ao acontecimento, pois supunha-se que a nave de Shirreff tivesse sido submetida à gravitação de Júpiter. Finalmente as buscas foram encerradas e o assunto caiu no esquecimento.
Os druufs constataram que Shirreff não era o homem que pudesse ajudá-los. Mas, uma vez submetido a um tratamento especial pelos seres de Druufon, mostrou-se disposto a levá-los ao homem de que precisavam.
A Owen Cavanaugh.
Quando entre os colonos de Marte já não havia mais ninguém que apostasse um solar pela volta de Shirreff, a nave deste surgiu nos céus do planeta.
A opinião pública, que festejou Shirreff como um herói, evitou que ao mesmo fosse imposta pena de prisão pela prática não licenciada da navegação espacial. O juiz concluiu que o acusado não era inteiramente capaz de entender a natureza de seu ato, e por isso aplicou uma pena extremamente suave.
Lewis Shirreff teve de pagar uma multa. Dali a quinze dias viu-se diante de Cavanaugh. O inescrupuloso e rico negociante reuniu um grupo de homens dos quais se poderia esperar que fariam tudo para adquirir riqueza e poder num espaço de tempo muito curto.
Em comparação com as dificuldades já vencidas, o resto foi uma brincadeira para os druufs.
Cavanaugh adquiriu as cavernas do Parque Nacional de Yellowstone. Bem sob as vistas do Ministério do Interior, criou a Companhia Intertemporal do Sono. Agiu de modo aberto e assim evitou que os druufs perdessem mais tempo e se expusessem a um afastamento maior da área de superposição. Cavanaugh e seus comparsas não fizeram maior segredo ao prepararem as cavernas para suas finalidades.
Por paradoxal que pudesse parecer, o fato de Cavanaugh agir em público na execução dos seus planos conferia-lhe uma segurança que nunca poderia ter alcançado num trabalho secreto. Sob o disfarce da CIS, os druufs começaram a transportar seu destacamento avançado para a Terra.
Uma vez instalado o transmissor dos druufs e recebidas as primeiras pessoas que seriam postas a dormir, o resto foi quase automático. Os seres de Druufon mataram dois coelhos de uma cajadada. Puderam preparar a invasão sem que ninguém os percebesse e puderam manter constante a substância orgânica de seu universo, já que para cada druuf enviado à Terra um ser humano ingressava em sua dimensão temporal.
E isto era imprescindível. Para chegar à Terra por meio de um transmissor, tornava-se necessário que simultaneamente um ser humano vivo fosse enviado ao mundo dos druufs. Era só por meio desse intercâmbio constante de energia e de matéria que se conseguia preparar a invasão com a necessária segurança.
Os druufs e os gângsteres de Cavanaugh só tinham um problema: O que fazer com os invasores que iam chegando à Terra? Foi o próprio Clinkskate quem descobriu a solução. Um druuf adulto tinha uma altura de três metros. No entanto, a altura de um jovem dessa raça de descendentes de insetos correspondia à de um homem adulto. Uma vez revestido com material bioplástico e colocado no líquido, que para ele era agradável, não havia como distingui-lo de um terrano.
Enquanto os druufs cresciam no interior dos recipientes, os homens da CIS teriam tempo para construir recintos secretos no subsolo, onde os invasores poderiam esconder-se. O lugar de cada druuf adulto seria ocupado por uma boneca de bioplástico, que seria igual ao ser humano adormecido atrás das lâminas de plástico.
Sem desconfiar de nada, os homens entregues à Companhia do Sono encontravam-se na dimensão temporal dos druufs.
Estes informaram que os terranos enviados em troca dos seres-toco continuavam vivos.
Mais de dois mil candidatos ao sono já tinham chegado ao nordeste do Wyoming e caído na cilada da CIS. E igual número de druufs encontrava-se nos recipientes.
Não”, pensou Clinkskate muito zangado. “Menos dois...”
Ainda não haviam prendido Kennof, e este acabara de matar um dos extraterrenos.
De repente, suas reflexões foram interrompidas por uma barulheira.
St. Cloud e Tober entraram precipitadamente.
Quatro helicópteros estão circulando em cima do campo de pouso — gritou St. Cloud. — Ao que parece, querem pousar.
Não parece que sejam da equipe de televisão — acrescentou Tober.
Seu rosto mostrou um sorriso estúpido. Clinkskate levantou-se de um salto e empurrou-os para o lado. Saiu de seu gabinete, seguido por St. Cloud e Tober.
Quando se encontravam do lado de fora, viram que o pessoal da CIS estava reunido e observava o pequeno campo de pouso.
Quatro helicópteros grandes descreviam curvas.
Clinkskate sentiu-se tomado pelo pânico. Esqueceu o ombro dolorido.
Estefano — disse a um dos homens parados por ali. — Pegue dois homens e arrume a caverna do sono. Esse maluco do Kennof matou um dos extraterrenos. Os restos mortais deverão desaparecer. Sei lá quem são os nossos visitantes.
Estefano, um homem de cabelos louros desgrenhados e nariz aquilino, disse em tom de repugnância:
O senhor se esquece da carga explosiva de Kennof.
O rosto enrugado de Clinkskate transformou-se numa máscara implacável.
Se os ocupantes desses helicópteros forem um grupo de fiscais, que nos faz uma visita de surpresa, o senhor logo saberá o que é mais perigoso — disse em tom gelado. — Kennof ou estes homens.
Tober pôs a mão em concha na testa, a fim de enxergar melhor. O sol se encontrava próximo à linha do horizonte.
Estão pousando — disse em meio ao barulho.
Ande depressa, Estefano — gritou Clinkskate em tom nervoso.
Esperou que Estefano escolhesse mais dois homens.
St. Cloud — prosseguiu. — Acompanhe-me até o campo de pouso. Vamos cumprimentar os visitantes. Espero que, neste meio tempo, o lugar seja arrumado e recupere seu bom aspecto.
Os membros do grupo saíram correndo em várias direções.
Vamos andando, St. Cloud — disse Clinkskate em tom decidido.
Quem será? — perguntou St. Cloud um tanto preocupado.
Não é ninguém cuja visita nos deva alegrar — afirmou Clinkskate.
Atingiram o bosque e seguiram pelo caminho que levava ao campo de pouso. Também Clinkskate sentia-se inseguro. Os quatro helicópteros roubaram-lhe toda segurança. Evidentemente era possível que acabassem sendo inofensivos.
Talvez fosse um grupo de topógrafos, que muitas vezes costumavam aparecer nas montanhas. Ou um grupo de caçadores do governo, pretendendo abater algum urso hidrófobo no parque nacional. Havia inúmeras possibilidades...
Quando haviam percorrido metade do caminho, um grupo de homens aproximou-se deles. Clinkskate viu que eram onze homens e uma mulher. Traziam um equipamento estranho... e possuíam armas.
Clinkskate engoliu em seco. Fez um esforço e prosseguiu na caminhada. St. Cloud soltou um rugido, que nem um animal acuado. Num gesto automático, Clinkskate estendeu o braço e cumprimentou amavelmente o grupo que se aproximava.
Pararam. Para Clinkskate, no momento, estes eram os homens mais perigosos de todo o universo. Admirou-se por conseguir ficar parado tranqüilamente.
Este terreno é particular — disse. Sua voz era amável, mas firme. — Vejo-me obrigado a indagar pelo motivo da visita de vocês.
Um homem alto, de aspecto melancólico, deu alguns passos em sua direção. St. Cloud recuou instintivamente.
Meu nome é Shane Hardiston — disse o homem.
Em seu cinturão estava pendurada uma arma. Jamais Clinkskate poderia imaginá-la ali. Em suas costas havia uma caixa presa a correias de couro.
Clinkskate disse seu nome.
Sou um dos diretores da CIS — disse. — Ali ficam nossas cavernas do sono. Nenhuma pessoa não autorizada pode entrar nelas.
Hardiston tirou alguma coisa do bolso e mostrou-a. St. Cloud, que olhava por cima do ombro de Clinkskate, soltou um grito assustado.
Clinkskate umedeceu os lábios.
Então são do Serviço de Segurança Solar — disse com um sorriso. — Sentimo-nos honrados!
O agente olhou para além dele, como se esperasse que a qualquer momento fosse aparecer alguém no caminho.
Estamos à procura de um homem — falou Hardiston, depois de algum tempo. — Seu nome é Richard Kennof.
Clinkskate se fez de pensativo.
Será que se refere a um dos nossos clientes? — perguntou. — Acho que me lembro de uma pessoa com esse nome.
Dirigiu-se para St. Cloud.
Sabe alguma coisa a respeito dele, Davi?
Não sei — gaguejou St. Cloud. — Isto é...
Parece que a visita dos senhores está deixando o coitado do Davi totalmente confuso — disse Clinkskate em tom complacente.
Nos olhos de St. Cloud estava escrito o medo.
Que vá para o inferno”, pensou Clinkskate. “Por que é que esse molóide não procura controlar-se?
Fez um gesto convidativo e, dirigindo-se a Hardiston, disse:
Poderemos verificar logo se esse Kennof está por aqui. Se quiser fazer o favor de acompanhar-me até as cavernas, tudo ficará esclarecido.
Sua voz assumiu um tom confidente.
Será que Richard Kennof é um criminoso procurado pela polícia, que recorreu à CIS para atingir suas finalidades escusas?
É um policial — disse Hardiston em tom seco.
Fez um sinal aos seus homens, e o grupo pôs-se em movimento.
Que aparelhos esquisitos eles trouxeram! — cochichou St. Cloud.
Cale-se, seu idiota! — respondeu Clinkskate.
Vez por outra, a luz do sol irrompia entre a densa folhagem, desenhando sombras fugazes sobre os rostos dos homens. Seus pés levantavam folhas secas que eram atiradas para o lado e esvoaçavam por algum tempo acima do chão. Às vezes, os aparelhos e instrumentos, que os agentes traziam, tilintavam.
Clinkskate lançou um olhar de esguelha sobre os rostos angulosos desses homens. Dessa escolta não poderia esperar qualquer contemplação, se esta descobrisse o que havia no interior das cavernas.
E eles descobririam!
A única saída seria a luta e a fuga.
Um plano começou a adquirir concretude no cérebro de Clinkskate.
Quando saíram do bosque, Tober encontrava-se na área livre que ficava à frente das cavernas. Fitou Clinkskate com um misto de preocupação e curiosidade. Clinkskate teve o cuidado de manter-se à frente do grupo.
Só a entrada do edifício da administração estava aberta.
Vamos entrar aqui — disse Clinkskate em tom amável.
Se for uma armadilha, o senhor não terá muito tempo para regozijar-se — anunciou Hardiston com a voz fria.
Clinkskate fitou-o como se não entendesse.
O que quer dizer com isso? — perguntou em tom indignado.
Enquanto falava, agarrou St. Cloud e empurrou-o contra Hardiston. Os dois homens esbarraram um no outro. Clinkskate viu o agente pôr a mão na arma. Correu para dentro da caverna. Antes que Hardiston conseguisse desvencilhar-se, Clinkskate fechou os grandes portões.
Saiu apressadamente pelo corredor a fora. Os primeiros funcionários da CIS apareceram à sua frente.
Vamos embora! — gritou. — O Serviço de Segurança Solar está no nosso encalço.
Seu braço escorregou para fora da tipóia preparada por Piotrowski. Ao que parecia, a ferida se abrira no momento em que empurrou St. Cloud.
Vamos todos para a estação do transmissor — gritou. — Coloquem barricadas nas galerias e introduzam gás nos corredores.
Estava cercado por homens apressados e suarentos, que investiam contra ele com um arsenal de perguntas. Ouviu-os correrem a seu lado.
Distribuam as armas — ordenou. — E não se esqueçam de ligar as armadilhas. Há apenas onze homens lá fora.
Em poucos minutos, o setor administrativo estava vazio.
Uma explosão ensurdeceu Clinkskate. Alguns homens ficaram parados. O chão estremeceu e pedras caíram do teto e das paredes.
Vamos! — Clinkskate tangia os homens sem a maior contemplação. — Querem dinamitar a entrada. Devemos dar o fora antes que consigam.
De repente sentiu o cheiro de algo que queimava. Um incêndio devia ter irrompido em algum lugar. Lembrou-se de Estefano e de seus dois acompanhantes, que pretendiam dominar Kennof. Onde estariam?
A unidade energética estava envolta em densas nuvens de fumaça. As chamas erguiam-se à entrada, situada em nível mais elevado. No pavimento inferior devia lavrar um incêndio muito forte. Kennof devia estar lá, ou então Estefano. Provavelmente tinham sido os causadores do incêndio.
Os olhos de Clinkskate começaram a lacrimejar. Ao seu lado homens tossiam enquanto se deslocavam em meio à fumaça.
Clinkskate ordenou em tom enérgico:
Temos de passar! Tragam panos... As palavras foram tragadas por uma explosão. O ar comprimido atravessou o corredor. A respiração ali tornou-se difícil. Procurou controlar-se e fez um esforço para ordenar as idéias. A essa altura, os agentes já deviam ter aberto o portão. Mas teriam de avançar com a maior cautela pelos corredores, pois não sabiam em que ponto teriam de enfrentar uma resistência.
Alguém colocou um pano úmido nas mãos de Clinkskate. Comprimiu-o contra o rosto e correu para dentro das nuvens de fumaça.

* * *

As fúrias do inferno pareciam estar às soltas em torno de Kennof. Este rastejou. Do lado oposto do recinto, as chamas subiam. Há uma hora, três homens apareceram por ali e procuraram caçá-lo. Com o último tiro disparado da pistola de Piotrowski, Kennof conseguiu pôr um deles fora de combate. Quando os outros responderam ao fogo, uma máquina foi atingida atrás de Kennof. Fagulhas azuis caíram ao chão, e o fogo logo se espalhou. Na confusão, o detetive conseguiu escapar mais uma vez. Os inimigos deviam estar atrás da cortina de fogo. Provavelmente só podiam cuidar de si mesmos. Kennof sabia que só podia salvar-se por meio de uma ação rapidíssima.
Depois de sair do poço, dirigira-se imediatamente à caverna destinada aos preparativos. Ali, onde ficavam os grandes geradores, ainda teria uma pequena chance de causar dificuldades à CIS.
Acontece que o aparecimento dos três guardas estragou seus planos. Kennof ouvira as duas explosões, mas não sabia dizer do que se tratava.
Por que não aparecia ninguém para apagar o fogo?
Enquanto rastejava, o detetive tossia. À sua frente, em meio à cortina de fogo, fumaça e cinzas, um objeto queimado caiu ruidosamente ao chão.
Um homem saiu cambaleando em meio às chamas. Suas roupas estavam chamuscadas em alguns lugares. Segurava uma arma.
Kennof atirou-se contra as pernas do outro. Sentiu que este perdeu o apoio e caiu ao chão. O detetive virou-se, respirando com dificuldade. Um pedaço de madeira queimada passou por eles que nem um fogo-fátuo. Quando se concentrava no inimigo, ouviu uma voz rouca vinda do lado:
É você, Estefano?
Rápido — gritou o homem deitado embaixo de Kennof. — Aqui!
Numa clareza súbita, Kennof viu outro homem parado bem perto dele. Alguma coisa tocou seu quadril. Tratava-se de algo que passou num abrir e fechar de olhos, deixando em Kennof uma dor martirizante.
A sala começou a girar em torno do detetive, e este caiu para trás. Quando ouviu o homem que se encontrava a seu lado sair rastejando, estava quase inconsciente.
Este está liquidado — disse uma voz. — Vamos dar o fora.
Os druufs”, pensou Kennof com as últimas forças que lhe restavam. “Preciso deixar um aviso para Shane.
O fogo crepitante ia-se aproximando...

* * *

As enormes mãos de Hardiston cerraram-se em torno de uma barra de ferro oculta e puxaram-na para o lado.
Célia e Zekizawa ficarão aqui — ordenou. — Os outros irão comigo para dentro da caverna. Payne, encarregue-se do aparelho de localização. Não se esqueça de que podemos encontrar armadilhas pela frente.
Passou por cima dos destroços do portão e saltou agilmente um buraco.
Não atirem se não for necessário — ordenou Hardiston. — Não queremos atingir pessoas inocentes. Fiquem com as máscaras preparadas, pois é possível que encontremos gases. Maliverney, não se esqueça de verificar constantemente a pressão atmosférica. Lohnert e Adams, venham comigo.
Esperou até que os dois agentes se encontrassem a seu lado.
Por um instante Célia viu a figura enorme de Hardiston na entrada aberta a dinamite, mas logo sumiu no corredor escuro.
Os outros seguiram-no...

* * *

A cabeça de Clinkskate parecia girar. O corpo fustigado pelas dores só conhecia um objetivo: a estação do transmissor.
Todas as instalações estão queimando! — gritou alguém que se encontrava atrás dele.
Clinkskate tinha certeza de que este incêndio representava o fim de mais de dois mil druufs. Os descendentes de insetos ainda eram muito jovens e achavam-se indefesos para escapar com suas próprias forças do inferno desencadeado em torno deles. Os condutos, que levavam aos recipientes, já haviam sido interrompidos. Em algum lugar, o líquido nutritivo se entranhava no solo das cavernas. E os tubos de oxigênio deixariam de conduzir ar respirável, para levar fumaças sufocantes.
Um homem puxou seu braço.
Não conseguiremos passar — gritou para Clinkskate.
Este reconheceu o rosto desfigurado de Eberhard. Provavelmente seu aspecto não era muito melhor.
Temos de chegar ao transmissor — gritou. — É a única chance de sairmos daqui.
O fogo está em toda parte — gritou Eberhard em tom de desespero. — Não conseguimos chegar aos equipamentos de combate ao incêndio. Deveríamos tê-los espalhado por toda parte.
Clinkskate chutou uma peça de plástico em chamas.
Acredita que isso adiantaria alguma coisa? — perguntou em tom irônico.
Viu uma fresta entre duas máquinas. Atrás dela, o fogo ainda não se espalhara.
Por alguns segundos o cheiro de óleo lubrificante misturou-se ao fedor causticante. Como se estivesse paralisado, o braço ferido pendia ao lado do corpo de Clinkskate. Continuou a avançar. Ouviu atrás dele o grito de um homem atingido por uma peça em chamas. Fazia votos de que nem todos os homens conseguissem chegar ao transmissor com ele. Se o aparelho funcionasse, apenas poucos poderiam escapar.
Um vulto estava estendido à sua frente. As vestes achavam-se tão queimadas que Clinkskate não saberia dizer quem era. Inclinou-se sobre o vulto. Eberhard juntou-se a ele.
Vire-o — ordenou Clinkskate.
Eberhard colocou o corpo de costas. Era Estefano. Ainda respirava. Clinkskate sacudiu-o.
Estefano abriu os olhos.
O que é feito de Kennof? — perguntou Clinkskate.
Houve uma reação débil nas pupilas do homem quase inconsciente.
Conseguiu liquidá-lo?
Estefano abriu a boca para dizer alguma coisa, mas as cordas vocais recusaram-se a obedecer. Clinkskate sacudiu-o brutalmente.
Vamos logo! Fale! — gritou.
Deixe-o em paz — disse Eberhard em tom de repugnância. — Vamos embora antes que seja tarde.
Clinkskate levantou-se. Chamas azuis começaram a levantar-se atrás das máquinas. A tinta começou a formar bolhas.
Atenção!
Seu braço estendido apontava para a frente. O caminho, que levava ao corredor da estação do transmissor, estava em chamas. Não poderiam prosseguir sem arriscar a vida.
Estamos cercados pelo fogo — disse Clinkskate em tom apático.
À sua frente estava o inferno... E atrás deles havia outro!

* * *

Apesar de todo o cuidado, não perceberam a primeira armadilha.
Subitamente Maliverney, que ia à frente dos outros, soltou um grito e cambaleou para trás. Hardiston segurou-o. Os objetos metálicos que Maliverney trazia no corpo emitiram um brilho estranho. Hardiston não perdeu tempo: arrancou o equipamento de cima do corpo do agente. Em todos os lugares em que o metal tocara diretamente a pele de Maliverney, havia queimaduras graves.
O contato deve ficar nestas paredes — disse Hardiston em tom zangado. — Provavelmente instalaram um aparelho de localização. Assim que surge qualquer tipo de metal em sua área de influência, dá-se a radiação e o aquece ao ponto de ficar incandescente.
Maliverney cochichou com o rosto desfigurado pela dor:
Ainda bem que Pounds não estava no meu lugar. Ele tem três dentes de ouro.
Pounds resmungou alguma coisa em tom indignado e os outros obrigaram-se a rir.
Se não conseguirmos destruir a instalação, só nos restará uma saída: prosseguir sem armas e equipamento — disse Shane.
O que devemos fazer? — perguntou Adams em tom deprimido.
Isto! — Hardiston puxou a arma e disparou contra a parede de rocha.
Os outros seguiram seu exemplo.
Pelo menos vamos danificar o aparelho de localização — disse Lohnert em tom esperançoso.
Fecher tirou uma pá de ferro de seu equipamento e atirou-a na direção da perigosa barreira, que, apesar de sua invisibilidade, quase teria feito uma vítima.
Não aconteceu nada.
Isso está liquidado — disse Adams em tom de satisfação e saiu correndo.
Pounds, fique com Maliverney. Procure levá-lo para junto de Célia. Ela cuidará dele. Adams levará sua bagagem.
Adams voltou correndo para cumprir a ordem.
Como será que a CIS consegue fazer armadilhas como esta? — perguntou Fecher em tom de espanto.
Hardiston fez sinal para que prosseguisse. Alguns metros adiante, uma parede metálica interpôs-se no seu caminho.
Temos que dinamitar de novo — disse Lohnert.
Baixou seu equipamento e começou a desenrolar vários cabos.
Espere aí! — ordenou Hardiston. — Imagino que com a detonação seremos esmagados pela montanha. Temos que descobrir outro meio.
Poderíamos usar o explosivo para abrir uma passagem lateral — sugeriu Adams.
O resultado seria praticamente o mesmo — objetou Shane. — Poderíamos utilizar cargas reduzidas, mas nesse caso levaríamos algumas horas para chegar ao corredor principal.
Fecher bateu com a pá contra o obstáculo. Lohnert ouviu atentamente.
Pelos meus cálculos tem cinco centímetros de espessura — disse.
Vamos abrir isso a maçarico — decidiu Hardiston. — É a única maneira de prosseguirmos sem risco.
A parede não é de lata; tenho certeza absoluta — observou Benson, um homem pequeno e calado, de olhos negros e cabelo rebelde.
A garrafa de oxigênio — ordenou Hardiston. — Monte o maçarico, Adams.
Quem dera que tivéssemos uma queimadora termonuclear — disse Lohnert com um suspiro.
Teremos de arranjar-nos sem ela — Hardiston colocou uma mangueira no bocal do queimador e prendeu-a com um grampo. — Mande o gás.
Dali a pouco a mistura de oxigênio e acetileno foi acesa. Na ponta da chama reinava uma temperatura de cerca de 1.600 graus.
Hardiston colocou o queimador. Um feixe de chamas foi jogado para trás.
Não adianta — disse o agente em tom resignado. — A parede consiste em várias camadas entre as quais há espaços ocos de menos de um milímetro. Nestas condições é quase impossível atravessá-la. Levaríamos uma eternidade.
Fechou o suprimento de oxigênio e a chama apagou-se com um leve estalo. Os homens observavam-no em silêncio.
E agora? — perguntou Fecher.
A parede avança um bom pedaço para o interior da terra — anunciou Lohnert.
Se dentro de três minutos não nos ocorrer uma idéia melhor, teremos de usar dinamite — sentenciou Hardiston.
Sete homens fitaram-no. Em seus olhos brilhava a decisão firme de romper a barreira, fosse como fosse.
11



O Dr. Le Boeuf ficou atento para ouvir o que se passava na escuridão. Antes que recuperasse a consciência, um fato decisivo acontecera.
Tateou até a porta do cubículo em que fora preso. Ao notar que não estava trancada, ficou espantado. Saiu cautelosamente para o corredor. Também aqui a escuridão era completa. Parou por um instante para orientar-se. Sentiu o cheiro de fumaça. À frente dele, devia ficar o poço de ventilação da caverna do sono.
O médico prosseguiu com as mãos estendidas para a frente, a fim de facilitar sua orientação. Pela primeira vez seu subconsciente deu um sinal de que houvera uma modificação naqueles subterrâneos.
Le Boeuf não tinha um plano definido. Avançou aos tropeções, e seus pés encontraram a borda da abertura capaz de dar passagem a um homem. Esteve prestes a entrar na mesma, quando teve outra idéia. Lembrou-se do transmissor. Se conseguisse sabotar a estação, poderia desferir um golpe duro contra a CIS e os druufs. Os traidores teriam dificuldades quase insuperáveis para construir outro transmissor.
Acontece que pouca coisa poderia fazer com as mãos desarmadas. Mas subitamente lembrou-se de algumas palavras de Clinkskate.
Em hipótese alguma, o transmissor deve ser acionado se no plano dos druufs não for enviada simultaneamente uma massa correspondente. Qualquer infração a esta regra poderá causar uma catástrofe.
O que aconteceria se ele, Le Boeuf, acionasse o transmissor sem que os druufs soubessem disso? Será que seu corpo se dissolveria e desapareceria para todo o sempre em alguma dimensão sobreposta?
Mas o equilíbrio energético entre o plano dos druufs e o Universo einsteiniano, que era mantido automaticamente, levaria a outra conclusão.
O espaço de cinco dimensões o atiraria para trás. O médico não sabia formar uma idéia precisa do volume de energia que seria liberado com isso. Mas tinha certeza de uma coisa: essa energia seria suficiente para destruir o transmissor.
E destruiria também outras coisas.
Durante a execução do plano o Dr. Le Boeuf encontraria a morte. Não sentiu medo nem remorsos. Caminhava apressadamente pela escuridão. Era um homem baixo e sardento que, nas últimas horas de vida, adquiriu a consciência de sua responsabilidade perante a raça a que pertencia.

* * *

Lohnert soprou uma mecha de cabelo. Na testa de Benson, o suor porejava. Tiveram de ligar suas lanternas, já que as luzes se apagaram de repente. Vez por outra, o rosto de um homem surgia num feixe de luz.
O tempo passou — disse Shane Hardiston.
Seu corpo projetava uma sombra gigantesca contra a parede.
Adams e Fecher dirigiram as luzes de sua lanterna para o detonador eletrônico de Lohnert. O agente mexia nos fios.
Atenção! — gritou Benson de repente.
A luz de suas lanternas iluminava a barreira metálica, que ia subindo lentamente. Os membros do destacamento especial do Serviço de Segurança Solar pegaram as armas. Uma nuvem de fumaça passou por baixo da parede divisória. Espalhou-se rapidamente.
Gás! — gritou Fecher e pegou a máscara.
Hardiston não se abalou. Farejou o ar. Depois de algum tempo, sacudiu a cabeça.
Lá dentro há um incêndio — disse.
A barreira parou a cerca de cinqüenta centímetros de altura, rangendo fortemente. A fumaça amarela continuava passando pela abertura.
Deve estar empenada — disse Thatcher. — O caminho está livre.
Quando o primeiro colaborador da CIS passou pela abertura, avistou um vulto. Hardiston baixou o cano do paralisador. Esse homem já não seria capaz de pensar, embora segurasse uma faca. Em alguns lugares, as vestes totalmente queimadas deixavam entrever pedaços de pele chamuscada.
Ajudem-no — ordenou Hardiston. Agindo com a maior cautela, Adams e Lohnert puxaram o ferido para fora da abertura. O homem gemia de dor.
Ali vem mais gente — disse o grandalhão. — Receiam que atirem contra eles.
Hardiston colocou a máscara e inclinou-se para falar através da abertura.
Saiam e entreguem-se — gritou para dentro das nuvens de fumaça. — Não atiraremos.
Dali a pouco, suas mãos agarraram alguma coisa e outro corpo foi arrastado para o lado de cá da parede metálica. Alguns minutos depois, quarenta homens, que apresentavam queimaduras leves e graves, encontravam-se em poder dos agentes do SDS.
Um desses homens era Clinkskate...
O que é feito dos homens adormecidos? — disse Hardiston, superando o gemido dos prisioneiros. — Serão queimados!
Clinkskate abriu as pálpebras vermelhas. Seus cílios estavam chamuscados.
Não se preocupe — disse com a voz rouca. — Não há mais ninguém lá dentro.
A atadura de Clinkskate estava transformada numa crosta gosmenta feita de fuligem, sangue e sujeira. O corpo atingira o estágio de esgotamento em que o homem se torna incapaz de sentir dor.
O que quer dizer com isso? — perguntou Hardiston em tom insistente. — Onde estão as pessoas adormecidas?
As pessoas adormecidas estão ali mesmo — disse Clinkskate em tom apático. — Acontece que não se trata de gente. São druufs. As pessoas, que o senhor procura, encontram-se num planeta situado no plano dos druufs.
Está fantasiando — ironizou Fecher.
Não, é verdade — opôs-se um dos colaboradores da CIS que se encontrava agachado ao lado de Clinkskate. — Quando o fogo cessar, o senhor mesmo poderá ver. É bem verdade que, quando isso acontecer, os monstros já estarão mortos. O fogo destruiu os dutos que levam aos recipientes.
O que houve com Richard Kennof? — perguntou Hardiston em tom apressado.
Ele fugiu — respondeu alguém. — A esta hora deve estar morto.
Hardiston levantou-se.
Preciso de dois voluntários para procurar o velho Dick — disse em tom tranqüilo. — Os outros ficarão aqui para cuidar destes homens.
Todos se ofereceram.
Thatcher e Lohnert — decidiu Hardiston.
Colocaram as máscaras.
Ninguém deverá seguir-nos — disse Shane. — Nem agora nem depois.

* * *

O Dr. Le Boeuf segurou a barra de metal e passou por ela. A estação do transmissor era totalmente independente das outras cavernas. Se houvesse cabos que saíssem da unidade energética e levassem para ela, isso poderia provocar suspeitas. Nesse caso, um belo dia, algum funcionário mais curioso teria a idéia de seguir esses cabos e acabaria fatalmente na caverna secreta.
O Dr. Le Boeuf não sabia quanto tempo se passaria antes que o transmissor entrasse em funcionamento. E isso pouco lhe importava. Sentado no chão frio, mantinha-se à espera. Mais de dois mil homens estiveram no mesmo lugar antes dele... e contra sua vontade.
E ele ajudara a cometer esse crime.
Um sorriso amargo surgiu em seu rosto. O ato, que estava prestes a cometer, lhe restituiria o auto-respeito. Era só o que importava. Será que sentiria dores?
Foi atingido por uma sensação que não passou de um ligeiro sopro, mas que o desvencilhou de todos os problemas. A metamorfose provocada pelo transmissor teve início. A estrutura atômica do médico foi convertida num impulso hiperenergético e atirada para uma dimensão inconcebível.
Normalmente ali teria penetrado na área de influência do transmissor dos druufs. Acontece que estes ignoravam o Dr. Le Boeuf e seus planos temerários. Dessa forma permaneceu por um tempo que, para as concepções humanas, não tem correspondente numérico.
Depois disso, foi atirado de volta.
Mas o que surgiu no transmissor não foi o Dr. Le Boeuf.
E sim um volume de energia indômita!

* * *

Célia Mortimer não tirava os olhos da entrada aberta a dinamite. Zekizawa, que percebia a direção de seu olhar, não disse nada. Ficou de olho em St. Cloud e Tober, empenhados numa discussão acalorada. Pounds levara Maliverney ao campo de pouso, a fim de colocar o homem ferido numa cama de dobrar.
O sol já desaparecera atrás do bosque. Um vento fresco soprava por cima das copas das árvores. Bem no alto, uma águia descrevia círculos.
Para esta criatura, não tenho a menor importância”, pensou Célia. “Seu olhar atinge o infinito e sua vida é feita da luta e da caça.
Subitamente o chão começou a tremer.
Dois punhos gigantescos pareciam sacudir a montanha, a fim de rasgá-la em duas. Um rugido surdo saiu das cavernas. Uma fina nuvem de pó surgiu acima da rocha. Grandes pedaços de rocha pareciam levitar no ar.
Célia viu Zekizawa abrir a boca para dizer alguma coisa, mas o barulho foi tamanho que abafou as palavras. As entradas das cavernas, que ainda estavam fechadas, fenderam-se. A montanha parecia rachar.
Zekizawa atirou-se ao chão e arrastou Célia consigo.
O fenômeno terminou tão de repente como havia começado. Uma poeira cinzenta saiu das cavernas. Célia choramingava baixinho.
Zekizawa ouviu Tober dizer a St. Cloud:
Só pode ter sido o transmissor.
Deve ter enlouquecido de medo”, pensou o agente.
Subitamente, alguns vultos escuros e irreconhecíveis saíram das cavernas.
Estão vivos — gritou Zekizawa e correu ao encontro dos homens.
Célia reconheceu Fecher, Hardiston e Benson.
Alguma coisa comprimiu sua garganta. Onde estava o velho Dick?
Lohnert arrastava Thatcher, que parecia ferido. Os homens da CIS seguiram-nos. Era um grupo de pessoas cambaleantes, exaustas, semimortas.
Célia — gritou uma voz rouca.
Uma das figuras cobertas de pó e fuligem levantou o braço.
Ali está ele — disse Zekizawa no tom indiferente que lhe era peculiar. — O velho Dick.
Estas palavras representaram um alívio para Célia.
Kennof aproximou-se cambaleando. Em seus olhos cansados surgiu um ligeiro brilho, que mal e mal foi percebido por Célia.
Como vai Buster? — perguntou com a voz rouca.
Tombou para a frente e teria caído ao chão, se Zekizawa não o tivesse segurado.








* * *
* *
*








Os “adormecidos” não mais seriam capazes de conquistar o Império Solar — esta é a conclusão que poderia ser extraída desta história.
Em O Caso Columbus, título da próxima aventura, o Império Solar sofrerá um ataque direto de incalculáveis dimensões...

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