7
Clinkskate
soltou uma praga e afastou Piotrowski, que estava muito pálido. A
atadura pendia frouxamente de seu corpo.
— Traga
o telefone — ordenou. — Faça uma ligação com Cavanaugh. Ande
depressa!
O médico
manipulou o aparelho com os dedos trêmulos.
— O
senhor perdeu muito sangue — disse em tom cauteloso. — Seria
preferível que me deixasse terminar logo a atadura.
— Ande
logo! — gritou Clinkskate. — Enquanto eu estiver falando no
telefone, pode aplicar o tratamento.
Deixou-se
cair no sofá e colocou a mão sobre o ombro dolorido. Acompanhou os
esforços de Piotrowski com um ar impaciente.
— Sim —
disse o médico. — Um momento, por favor.
Passou o
fone a Clinkskate.
— É
Cavanaugh — cochichou.
Clinkskate
repeliu-o com um movimento do braço sadio.
— Aqui,
Clinkskate — disse, falando para dentro do telefone. — O diabo
está às soltas, Mister Cavanaugh. Seria bom que o senhor viesse
imediatamente.
— Não —
prosseguiu depois de algum tempo. — Um homem fugiu da sala de
preparativos. Ao que parece contava com o apoio do Dr. Le Boeuf. Não;
Piotrowski está a meu lado, aplicando-me uma atadura. O fugitivo
atirou contra mim. Está lá embaixo, no pavilhão das câmaras de
sono. Seu nome é Richard Kennof; era detetive particular. Afirma
estar de posse de uma carga explosiva. Disse aos homens que é
policial. Conseguiu ‘arrancar’
doze horas, durante as quais apenas pretende permanecer na caverna. O
senhor sabe perfeitamente o que significa isso. Kennof viu o
transmissor...
Aguardou a
resposta e disse:
— Farei
o possível para convencer os homens a atacarem. Espero-o.
Desligou.
— Cavanaugh
virá o mais rápido possível — disse, dirigindo-se a Piotrowski.
— Até lá devemos tentar resolver o assunto por conta própria.
Tenho certeza de que o tal do Kennof andou blefando.
— De
qualquer maneira parece que tem coragem — objetou Piotrowski. —
Tenho a impressão de que ainda nos reserva uma surpresa...
— Tolice.
Quanto tempo ainda vai levar para colocar essa maldita atadura?
— Já
está pronta — respondeu o médico.
Clinkskate
lançou-lhe um olhar pensativo.
— Tenho
uma idéia, Piotrowski — disse. — Já sei como poderemos enganar
esse sujeito.
— Pode
falar — disse o outro em tom de expectativa.
— O
senhor irá para onde está ele — principiou Clinkskate.
Piotrowski
empalideceu. Um sorriso inseguro surgiu em seu rosto. Levantou ambas
as mãos, num gesto de recusa.
— Não
brinque — disse em tom medroso. — Então quer que eu enfrente
Kennof sozinho?
— Procure
puxar pela cabeça, homem! O senhor aparecerá diante dele como quem
não quer nada. Conte-lhe que sentiu remorsos, que nem Le Boeuf. Dirá
que resolveu juntar-se a ele. Assim que ele deixar de desconfiar, o
senhor poderá subjugá-lo.
— É
realmente muito simples — disse Piotrowski em tom sarcástico. —
Procure outra pessoa para levar avante essa linda idéia.
Clinkskate
gemeu enquanto se levantava num movimento apressado e caminhou em
direção a Piotrowski. Seu rosto estava rubro de raiva.
— O
senhor se esquece de quem o tem ajudado, meu caro. Lembre-se do
Canadá, onde viveu um certo Fedor Piotrowski. Exijo que cumpra minha
ordem.
O médico
recuou. O suor começou a gotejar em sua testa. Falando com a voz
rouca, disse temeroso.
— Não
irei...
Clinkskate
golpeou-o.
— O
senhor irá! — gritou.
*
* *
Acima de
cada uma das câmaras havia uma tampa com uma fechadura. Esta poderia
ser aberta a tiro de pistola, mas o ruído poderia atrair os homens.
Kennof
examinou as dobradiças e ficou satisfeito ao constatar que estas não
seriam capazes de resistir à sua habilidade. Utilizou algumas peças
retiradas do defletor e levantou a tampa.
Puxou-a
para o lado e olhou para dentro da câmara. Viu um velho de bigode e
cabeça calva. Era a imagem da paz. Kennof não pôde imaginar o que
esse velho estaria esperando do futuro que comprara por bom dinheiro.
Quando
penetrou na câmara, Kennof teve a impressão de que, de um momento
para outro, seu ocupante poderia abrir os olhos e perguntar em tom
áspero o que desejava.
O plasma
celular era mantido a uma temperatura agradável. Os pés de Kennof
tocaram o fundo, quando um terço do corpo ainda estava fora do
líquido. Foi caminhando para junto do homem adormecido. O corpo do
velho balançava ligeiramente. Kennof, que já passara por inúmeras
situações estranhas, não se sentiu muito à vontade. Mas já que
começara com aquilo, iria até o fim.
Seus dedos
tocaram cuidadosamente o peito do homem — e recuaram abruptamente.
A pele era
fria como gelo!
Kennof
sentiu um misto de repugnância e medo. A fazenda molhada da calça
grudava nas pernas. Fechou os olhos por um instante, a fim de
concentrar-se. Pegou a orelha do homem adormecido e puxou-a. Foi um
gesto puramente intuitivo. O órgão auditivo era de uma estranha
moleza e elasticidade.
De
repente, a orelha desprendeu-se da cabeça!
Kennof
soltou um grito de pavor e cambaleou para trás. O líquido
borbulhante fechou o vazio deixado por seu corpo.
Aos
poucos, o cérebro, que fora paralisado pelo pavor, voltava a
funcionar. Seus dedos continuavam a segurar a orelha, que não
sangrava. Da ferida aberta na cabeça do homem também não saía
sangue. Kennof fez um esforço sobre-humano para examinar o “objeto”
que segurava na mão.
A
iluminação fraca não permitiu que percebesse muita coisa.
A orelha
não era feita de carne humana. Ao que parecia, não era constituída
sequer de uma substância natural. Esse fato não produziu o menor
alívio em Kennof.
Será que
todo o corpo do homem era feito de material bioplástico? Ou será
que aquilo era apenas uma máscara destinada a ocultar alguma coisa?
Na vida de
qualquer homem sempre surge um momento em que se sente dominado pelo
pânico. Neste instante, Kennof sentia-se abalado até a medula dos
ossos. Sua estabilidade psíquica, que era muito superior à média,
ameaçava desmoronar.
Num gesto
puramente instintivo, saiu da câmara. Por algum tempo ficou deitado
junto à entrada, totalmente imóvel. Poças foram surgindo em torno
dele.
Assim que
refez-se do susto, rastejou para junto da abertura e olhou para
dentro da câmara.
Antes não
o tivesse feito!
O velho
fazia estranhos movimentos de nadador. De certa maneira as funções
dos membros eram inumanas, tão inumanas como qualquer coisa que
Kennof já tivesse visto. Perplexo, contemplou o espetáculo
fantasmagórico.
Seus olhos
arregalaram-se, pois de repente a pele do rosto do homem começou a
desprender-se!
Kennof não
estava em condições de continuar a olhar para verificar o que havia
embaixo da pele humana. Pegou a tampa e cobriu a abertura. Totalmente
abatido, ficou estendido. O disparo de gás deixara um gosto de podre
em sua boca.
Não
saberia dizer por quanto tempo permaneceu imóvel até que, de
repente, alguma coisa embaixo dele procurou levantar a tampa...
*
* *
Aos
poucos, Fedor Piotrowski foi-se familiarizando com a idéia de que
deveria matar um ser humano.
Com as
próprias mãos!
Sua vida
era um rastro de maldades e baixezas. Um olhar retrospectivo fez com
que o médico reconhecesse seu passado sombrio. Sabia que era mau, e
acreditava que essa qualidade representava algo do qual jamais
poderia afastar-se.
Sua
maldade era de tipo diferente da de Clinkskate. Enquanto os atos
deste eram marcados pelo egoísmo e pela brutalidade, Piotrowski
conseguia avaliar objetivamente o seu procedimento. Em seu cérebro
as noções do bem e do mal estavam nitidamente delimitadas. Suas
concepções a este respeito correspondiam exatamente às de um homem
decente. Toda vez que Piotrowski infringia a lei, uma voz interior
lhe dizia:
— Você
está cometendo uma injustiça! Tratava-se de uma constatação fria,
que não envolvia nenhuma auto-recriminação ou sentimento de culpa.
O médico conseguira certo distanciamento de si mesmo, e por isso
considerava-se uma terceira pessoa. Sua objetividade quase chegava a
ser uma espécie de autonomia em relação a si mesmo. Tratava-se de
uma forma estranha e inofensiva de cisão da personalidade. A
autonomia não favorecia nem o bem nem o mal, que coexistiam em seu
interior. Apenas estabelecia as distinções e fazia as constatações.
Naquele
instante, a voz interior constatou com uma objetividade total:
— Fedor
Piotrowski está prestes a matar um homem chamado Richard Kennof! A
pistola com que será praticado o ato está enfiada na bota direita.
Piotrowski
sabia que era perfeitamente possível que quem poderia ser morto era
ele, pois aquele fugitivo parecia ser um sujeito muito astuto. Tudo
dependeria de quem fosse mais rápido e esperto.
Piotrowski
chegou à caverna em que se encontravam as câmaras do sono e entrou.
Fez o barulho necessário para que Kennof não acreditasse que
quisesse entrar às escondidas.
— Fique
onde está — gritou Kennof do lugar elevado em que se encontrava. —
O que deseja?
— Quero
ajudá-lo — disse Piotrowski. — Sou o colega do Dr. Le Boeuf. Os
outros não sabem que estou aqui.
Kennof
respondeu em tom sarcástico:
— Agora
já sabem, pois o senhor berrou para dentro dos micro fones.
“Que
diabo”,
pensou Piotrowski. “Como
pude esquecer isso?”
Kennof
levantou a pistola.
— Não
cairei num truque idiota como esse, doutor — disse. — Dê o fora.
Os
alto-falantes transmitiram a voz de Clinkskate, desfigurada por uma
raiva impotente:
— Piotrowski,
seu amador maldito!
Piotrowski
percebeu que Kennof se agarrava desesperadamente ao lugar em que se
encontrava. E logo percebeu por quê. O detetive jogava todo o peso
do corpo sobre uma das tampas que fechavam as câmaras.
O médico
estremeceu.
“Acordou
um dos monstros!”,
pensou instintivamente.
Atirou-se
ao chão e, no mesmo instante, tirou a arma do cano da bota. Kennof
encontrava-se numa posição difícil. Não podia sair do lugar, pois
se o fizesse teria diante de si um atacante muito mais terrível que
Piotrowski e sua pistola.
Os dois
atiraram ao mesmo tempo. O eco transformou a chicotada dos tiros num
rugido que parecia sair das paredes rochosas.
Assim que
o ruído cessou, a voz de Clinkskate interrompeu o silêncio:
— Acertou
nele, doutor?
— Não —
disse Kennof em tom enfático. — Fui eu que acertei nele.
8
Owen
Cavanaugh foi ao último andar e desceu do elevador. Acima dele, o
helicóptero esperava na área destinada ao pouso. Cavanaugh abriu a
porta de vidro e saiu para a parte inferior da cobertura. Sentiu-se
atingido por uma brisa fresca, que arrastou alguns pedaços de papel
atrás dele.
Cavanaugh
subiu a escada que dava para a área de pouso. Quando viu o piloto
sair de trás da carlinga, parou num súbito espanto.
— Quem é
o senhor? — perguntou em tom autoritário. — Onde está Ben?
— Ben
adoeceu de repente — disse o homem. — Estou aqui para
substituí-lo.
Cavanaugh
lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Nunca
o vi — disse em tom áspero. — Quem contratou o senhor?
O
substituto de Ben sorriu.
— Foi
Mister M'Artois — respondeu.
— Tomara
que o senhor saiba pilotar tão bem quanto Ben — disse Cavanaugh,
aparentemente mais tranqüilo.
— O
senhor logo terá oportunidade de verificar — disse o homem.
— Qual é
seu nome? — perguntou Cavanaugh com um débil interesse.
— Jacó
— disse o novo piloto.
— É um
nome horrível — disse Cavanaugh, enquanto entrava no aparelho. —
Chamá-lo-ei de Ben. Por uma questão de hábito.
— Pois
não, Sir — disse Jacó em tom reverente e acomodou-se no assento
do piloto.
Ligou o
motor e as pás da hélice começaram a rodar cada vez mais depressa.
— Conhece
o destino? — perguntou Cavanaugh.
Teve de
berrar, pois o ruído do motor sobrepujava-lhe a voz.
Jacó
limitou-se a acenar com a cabeça.
— Preciso
chegar o mais depressa possível — disse Cavanaugh.
Encontravam-se
acima da cidade. Outros aparelhos surgiram em torno deles.
— O
senhor sabe pilotar muito bem — disse Cavanaugh. — Mas receio que
haja divergências sobre a hora e o local do pouso.
— É
possível — concordou Jacó.
Cavanaugh
comprimiu um pequeno objeto contra seu quadril.
— Sabe o
que é isto, Jacó?
O piloto
respondeu sem virar a cabeça:
— Deve
ser uma pistola de agulha.
— Adivinhou,
meu filho. E agora vá diretamente ao Parque Nacional de Yellowstone,
seja lá quem for o senhor.
Jacó
perguntou com a melhor calma:
— Como
foi que o senhor descobriu tão depressa?
Cavanaugh
sorriu.
— Acontece
que M'Artois não tem o direito de contratar quem quer que seja. Quem
preenche os empregos na CIS sou eu e Mr. Clinkskate. Somos nós que
fazemos a seleção.
— Essa
informação nos poupa uma série de perguntas — disse Jacó. —
Não quer contar tudo?
Cavanaugh
sorriu. Parecia divertir-se a valer.
— Sua
insolência não o salvará — disse em tom suave. — Gostaria de
saber quem é o senhor e quem o mandou.
— Sou o
homem que vai prendê-lo. Ainda haverá outra pessoa, que no momento
nem o senhor nem eu conhecemos. E o homem que o condenará.
Jacó
olhou para trás e acenou com a cabeça para reforçar o efeito de
suas palavras.
— É da
polícia?
— Não
diretamente — esclareceu Jacó. — Sou um agente do Serviço de
Segurança Solar.
A pressão
da pistola reforçou-se. O rosto de Cavanaugh cobriu-se de uma
palidez cadavérica.
— Conte
logo o que há realmente atrás da Companhia do Sono — pediu Jacó.
— O
senhor não vai saber de nada — gritou Cavanaugh em tom selvagem. —
Quer exercer pressão contra mim, a fim de obter alguma informação.
Não se esqueça de que é o senhor quem está num aperto.
Jacó
mudou o curso do helicóptero.
— Desista,
Cavanaugh — disse. — Neste momento, quatro helicópteros do
Serviço de Segurança Solar estão a caminho de Wyoming. Neles viaja
uma dezena de especialistas que não demorarão a descobrir a
verdadeira finalidade da CIS. Por uma questão de cautela, a polícia
estadual de Wyoming foi notificada e enviou um forte contingente de
tropas, a fim de apoiar nossos homens em caso de necessidade.
O
presidente da CIS gritou em tom histérico:
— Isso
não adiantará nada. Não existem provas contra nós. Podemos
enfrentar qualquer tipo de inspeção. O senhor sabe perfeitamente
que vou matá-lo. E ninguém se interporá no meu caminho. Um dia
dominarei o mundo. Quer saber de uma coisa, Jacó? Sou o futuro
administrador do Império Solar. Rhodan logo estará liquidado. Com o
auxílio dos meus amigos alijá-lo-ei do poder. E juntamente com eles
governarei o mundo.
— O
senhor está doente — constatou o agente em tom indiferente. — Se
me matar, o helicóptero cairá. Não pode fazer nada contra mim.
— Posso
obrigá-lo a levar-me a Wyoming — disse Cavanaugh.
— O
senhor não me pode obrigar a coisa alguma — objetou Jacó. —
Irei a um posto do Serviço de Segurança, onde cuidarão do senhor.
Enquanto
falava deixou o helicóptero cair subitamente. No mesmo instante,
Cavanaugh levou uma pancada no antebraço que o fez gritar de dor.
Disparou. Jacó foi atingido de raspão. Segurou a mão de Cavanaugh
e virou-se. Cavanaugh atirou o maciço crânio contra o tórax de
Jacó. O agente curvou-se com o impacto da cabeçada. Mesmo assim
conseguiu afastar a arma de Cavanaugh.
O aparelho
foi descendo rapidamente.
Passou
raspando sobre alguns telhados da cidade.
Cavanaugh
não conseguiu segurar mais a arma. Com uma força irresistível,
Jacó puxou-o para a frente. O presidente da CIS defendeu-se que nem
um louco. O espaço reduzido não permitia grande liberdade de
movimentos.
O
helicóptero desgovernado se inclinou para o lado. Jacó viu os
telhados das casas numa proximidade ameaçadora. Os ocupantes de
outros veículos tiveram a atenção despertada para eles. As
estridentes sereias de alarma da polícia aérea aproximaram-se
velozmente.
Jacó
imaginava que, a fim de acompanhar o espetáculo com o coração
palpitante, grandes multidões se aglomeravam nas ruas. Cavanaugh
lutava que nem um animal selvagem, mas o agente conseguiu compensar a
maior força física de seu antagonista por meio da experiência e da
habilidade.
Segurou a
alavanca da direção com uma das mãos, enquanto com a outra
afastava Cavanaugh.
— Pare
com isso — gritou. — Desse jeito nos espatifaremos num telhado.
— E daí?
— disse Cavanaugh e redobrou seus esforços.
Num
movimento inesperado, Jacó soltou a direção e bateu com a mão
aberta no ouvido de seu adversário.
Em cima
deles surgiu um helicóptero da polícia. As sereias silenciaram. Um
megafone transmitiu a voz do policial:
— O
senhor está bêbedo? Controle seu “pássaro”.
Cavanaugh
caiu com um gemido. Seu rosto parecia murcho e vazio. Sonhara um
sonho curto, mas perigoso, impregnado de poder. Jacó não poderia
saber que o homem inconsciente que se encontrava a seu lado era um
traidor da Terra.
— Pouse
imediatamente! — berrou o policial. — Essa sua pilotagem é um
perigo para o tráfego.
Em poucos
segundos, Jacó conseguiu imprimir uma rota segura ao helicóptero.
Abriu ligeiramente o quebra-vento lateral e exibiu uma plaqueta, de
tal forma que o ocupante do aparelho, que voava acima dele, tinha de
vê-la.
Num
espanto indizível, o policial dirigiu-se ao colega que estava
sentado a seu lado.
— É um
agente da Segurança Solar — disse em tom de perplexidade. — Não
acredito que missões importantíssimas sejam confiadas a pessoas tão
incompetentes como esta!
— É
sempre a mesma coisa — disse o outro. — Pessoas competentes como
nós nunca recebem uma chance. De qualquer maneira, você deveria
cuidar da pilotagem. Estamos a apenas trinta metros do solo.
*
* *
— Será
que não poderíamos ir mais depressa? — perguntou Célia em tom de
impaciência.
— Há
uma porção de coisas que ainda poderíamos fazer — disse
Hardiston. — Geralmente o Serviço de Segurança Solar é mais
rápido, mas no caso não se trata propriamente de uma missão
oficial. Um simples chamado não pode levar o coronel a oferecer
combate a um inimigo que nem conhecemos. Só permitiu que fôssemos
porque gosta do velho Dick. Se Kennof tiver cometido um engano, o
‘velho’
se terá metido numa boa. A prisão de Jacó poderá custar-lhe o
emprego, se posteriormente se constatar que tudo não passou de um
falso alarma.
— Dick
enviou o pedido de socorro — disse Célia em tom impertinente. —
O coronel pode confiar nele.
— Está
certo — disse Shane com uma suave ironia. — Esse Dick é um
sujeito e tanto, que vai tropeçando de um perigo para outro.
— Seu
monstro desalmado! — chiou Célia.
Hardiston
inclinou-se para a frente, a fim de falar com o piloto.
— O que
acha? — perguntou em tom azedo.
— Não
sei de nada — disse este. — Apenas piloto o aparelho.
Riram, sem
desconfiar de que naquele momento Richard Kennof iria entrar numa
luta de vida e morte.
9
A pressão
exercida contra a parte interna da tampa tornou-se cada vez mais
forte.
“Talvez
sejam apenas minhas forças minguantes que não me permitam deter o
prisioneiro”,
pensou Kennof.
Certa vez,
o desconhecido conseguira levantar a tampa por alguns centímetros.
Uma mão surgira na borda do caixão. Kennof golpeou-a com a coronha
da pistola. O material bioplástico esfacelou-se. Era do mesmo tipo
daquela orelha que o detetive segurara poucas horas antes. A mão foi
retirada apressadamente. Seria mesmo uma mão? Ou uma pata? Uma
garra? Um tentáculo? Uma ventosa?
Kennof não
conseguiu distinguir. A aparição fora tão ligeira que apenas
conseguiu ver algo de fugidio.
Mas uma
coisa era certa: não se tratava de uma mão humana!
De
repente, a visão de Kennof parecia desanuviar-se. Compreendeu a
finalidade das providências minuciosas e daquilo que se dizia ser o
preparo dos corpos dos candidatos da CIS. Não se tratava de adaptar
o corpo dos mesmos a um sono de vários anos. A verdadeira finalidade
era outra. Por meio desses preparativos, os criminosos que integravam
a Companhia tinham oportunidade de estudar tranqüilamente o rosto e
a estatura das pessoas. Dessa forma, as máscaras de bioplástico
eram cuidadosamente preparadas e colocadas nos corpos dos indivíduos
que se encontravam nos recipientes.
Nenhum dos
fiscais do Ministério do Interior jamais tivera a idéia de entrar
nas câmaras, a fim de realizar um exame mais minucioso. Atrás das
lâminas de plástico transparente, os seres que dormiam no líquido
amarelento eram iguais às pessoas mencionadas nas cópias de
contratos, arquivadas no Ministério.
Acontece
que o estranho transmissor transportava os respectivos signatários a
um lugar desconhecido.
Nas
câmaras de dormir não havia um único ser humano.
Que seres
seriam estes que a CIS guardava na caverna? Seriam mutantes? Ou as
vítimas de alguma experiência condenável?
Para onde
eram levados os seres humanos colocados no transmissor? Qual era a
finalidade que Cavanaugh e seus comparsas pretendiam atingir por meio
de sua ação fraudulenta? O que lhes conferia coragem para cometer
um crime tão grave em pleno coração do Império Solar?
O homem
solitário, que se encontrava em cima da chapa de metal, não
encontrou resposta a estas perguntas. Mas seria fácil descobrir uma
coisa: quem se encontrava nas câmaras.
Bastaria
sair de cima da tampa.
Gostaria
que Snyder estivesse por lá para ver o que estava acontecendo. Em
algum lugar de Wyoming, um grupo de homens estava a caminho para
ajudá-lo. Um grupo de homens e uma mulher.
Chegariam
tarde!
Kennof
sentiu-se fraco e cansado. A roupa estava secando no corpo. Já por
duas vezes sentira calafrios. Em compensação, sua mente trabalhava
muito bem. O medo cedera lugar a uma certa resignação.
A criatura
presa embaixo da tampa lutava com uma força incrível pela
liberdade. Mais uma vez a tampa levantou-se. Kennof encostou os pés
numa tubulação, a fim de comprimi-la para baixo.
Entre o
detetive e seu inimigo havia apenas uns quatro milímetros de chapa
de aço. No momento, a tampa formava um ângulo de trinta graus com a
superfície do líquido.
A mão
voltou a aparecer.
Kennof
observou-a fascinado, sem fazer nada. A poucos centímetros de seu
rosto, a mão tateava em busca de um apoio.
Kennof viu
dedos estranhos.
Eram
delicados e esguios; pareciam ter sido criados por um grande artista.
A pele escura, quase negra, era atravessada por linhas e sulcos
suaves.
O detetive
sentiu-se atirado para o lado por uma forte pancada. Foi arrancado
subitamente de suas reflexões. Perdeu o apoio e teve de soltar a
tampa. A lâmina redonda foi empurrada para longe, desceu por cima da
borda do recipiente e caiu ao chão.
Kennof
retirou-se apressadamente do lugar onde estava e segurou firmemente a
pistola do Dr. Le Boeuf.
Ouviu o
burburinho do líquido. O plasma celular agitou-se. Alguns esguichos
caíram aos pés de Kennof. Pareciam gotas de sangue.
De repente
surgiu outra mão.
Estava
molhada. Deixou sua marca junto à borda do caixão. Parecia um
número enorme de impressões digitais.
Com os
olhos arregalados e a arma apontada, Kennof mantinha-se a três
metros do caixão. O estranho ser parecia hesitar um pouco. Kennof
sentiu uma tendência irresistível de fugir. Até mesmo a voz
horrível de Clinkskate, caso o xingasse pelo alto-falante,
representaria um alívio para o ex-agente.
Kennof
soltou um grito.
A cabeça
da estranha criatura apareceu. Era formada por placas bioplásticas.
Era uma coisa tremendamente apavorante. Os remanescentes da máscara
davam certo aspecto humano àquele crânio. Parecia a caricatura de
uma cabeça humana. O bigode estava quase perfeito. Completamente
molhado, parecia uma centopéia colada ao rosto da estranha criatura.
O resto do
corpo apareceu. O monstro foi saindo para a liberdade.
Num
instante, Kennof compreendeu a verdade. O conhecimento que adquiriu
era tão terrível e inacreditável que ameaçava subjugá-lo. Mas
recuperou a força de decisão.
Esvaziou o
pente de balas e não esperou para ver o resultado. Quase chegou a
cair escada abaixo.
Clinkskate
voltou a chamar. O tom de sua voz demonstrava temor.
— Contra
quem foram disparados esses tiros, Kennof?
Kennof
correu em direção ao poço de ventilação.
— Contra
um membro jovem da raça à qual a CIS quer entregar a Humanidade —
gritou o detetive em tom indignado.
— Contra
um druuf!
10
“Agora
ele descobriu”,
pensou Clinkskate apavorado.
Praguejou
contra a moleza de seus homens. Kennof teria de ser eliminado o mais
depressa possível.
A ferida
do ombro doía. Deixou-se cair para trás e apoiou-se com o braço do
ombro são contra o encosto do sofá. Será que o plano concebido por
Cavanaugh e por seus amigos, vindos de um outro universo, tinha
alguma falha?
Clinkskate
refletiu intensamente sobre a situação global.
De certa
forma, durante um processo de superposição, que se realizasse numa
área próxima, o plano temporal dos druufs ficava praticamente nas
vizinhanças. Na época em que a Terra começou a utilizar os
transmissores no transporte regular de matérias-primas, destinadas à
sua base lunar, os druufs conseguiram uma localização da frente de
superposição típica para a feição instável de sua estrutura
espaço-temporal. Os descendentes de insetos ficaram refletindo sobre
como aproveitar-se da intensa atividade dos transmissores. Viram nela
uma boa chance não só de determinar a posição da Terra, mas de
avançar até o terceiro planeta do sistema solar.
Mas todos
os esforços foram em vão, até que foram ajudados pelo acaso.
Durante um salto de transmissão, que visava a outra finalidade, um
druuf ficou sujeito à influência dos transmissores terranos. Em vez
dele, um saco de feijão foi parar na estação de integradores dos
seres de Druufon. Por um ligeiro instante houvera uma interseção na
quinta dimensão, causada pelo funcionamento simultâneo dos
transmissores. Enquanto os druufs ainda se espantavam com a presença
do saco de feijão, o acaso veio em seu auxílio pela segunda vez. O
druuf — transportado à Lua, em vez da leguminosa — não foi
descoberto. Em virtude de um retardamento no controle do transmissor,
sua vida foi salva.
Os
cientistas dos druufs possuíam bastante fantasia para reagir
imediatamente. O saco de feijão foi atirado para trás, antes que se
apagasse o rastro energético que o transmissor deixara na quinta
dimensão. O alimento foi colocado no caminho correto, e sua massa
foi suficiente para arrancar o druuf do satélite da Terra, antes que
qualquer homem tivesse percebido sua presença.
Os
cálculos realizados pelos peritos dos druufs revelaram que a
probabilidade da ocorrência de um segundo salto desse tipo era muito
reduzida. Não era apenas a extensão da zona de superposição que
interferia no fenômeno, mas também o local e o tempo do acionamento
dos dois transmissores. Além disso, a massa dos dois corpos devia
ser aproximadamente igual, pois só assim se tornaria possível o
intercâmbio superdimensional de energia.
Clinkskate
não tinha a menor idéia da atividade febril que passou a ser
desenvolvida pelos druufs, quando estes viram uma chance de chegar à
Terra. Apesar de todas as experiências, não houve como repetir à
força aquilo que o acaso lhes proporcionara.
Não seria
possível enviar uma nave dos druufs à Lua, a fim de informar os
combatentes experimentados do Império Solar de que só deveriam
acionar seus transmissores num tempo determinado e com uma carga
prefixada. Os terranos teriam transformado a nave dos druufs num
pequeno sol e se divertiriam a valer com a ingenuidade do inimigo.
Os chefes
dessa raça de insetos sabiam que seu plano só poderia ser levado
avante se contassem com o auxílio de um ser humano. Tornava-se
necessário estabelecer contato com alguns homens influentes, que se
mostrassem dispostos a trabalhar para eles em troca de uma paga
adequada.
Uma nave
robotizada foi introduzida com todas as cautelas possíveis no
Universo einsteiniano. Sua tarefa era perfeitamente conhecida, mas
extremamente difícil. Deveria trazer um ser humano.
Trouxeram
Lewis Shirreff, um homem que infringia a lei ao voar num barco
espacial na área dos asteróides. Shirreff era um sonhador
entusiasmado pela astronáutica, que gastara sua fortuna não
desprezível com o pequeno veículo espacial em que estava viajando.
Antes que a Frota Solar pudesse apreender a embarcação de Shirreff,
este foi preso pela nave robotizada. Em Marte foram presos alguns
funcionários que acobertavam o procedimento ilegal daquele homem, e
uma nave espacial lançou-se ao espaço a fim de prender Shirreff.
Mas o infrator desaparecera. Porcuraram em vão. Não se atribuiu
maior importância ao acontecimento, pois supunha-se que a nave de
Shirreff tivesse sido submetida à gravitação de Júpiter.
Finalmente as buscas foram encerradas e o assunto caiu no
esquecimento.
Os druufs
constataram que Shirreff não era o homem que pudesse ajudá-los.
Mas, uma vez submetido a um tratamento especial pelos seres de
Druufon, mostrou-se disposto a levá-los ao homem de que precisavam.
A Owen
Cavanaugh.
Quando
entre os colonos de Marte já não havia mais ninguém que apostasse
um solar pela volta de Shirreff, a nave deste surgiu nos céus do
planeta.
A opinião
pública, que festejou Shirreff como um herói, evitou que ao mesmo
fosse imposta pena de prisão pela prática não licenciada da
navegação espacial. O juiz concluiu que o acusado não era
inteiramente capaz de entender a natureza de seu ato, e por isso
aplicou uma pena extremamente suave.
Lewis
Shirreff teve de pagar uma multa. Dali a quinze dias viu-se diante de
Cavanaugh. O inescrupuloso e rico negociante reuniu um grupo de
homens dos quais se poderia esperar que fariam tudo para adquirir
riqueza e poder num espaço de tempo muito curto.
Em
comparação com as dificuldades já vencidas, o resto foi uma
brincadeira para os druufs.
Cavanaugh
adquiriu as cavernas do Parque Nacional de Yellowstone. Bem sob as
vistas do Ministério do Interior, criou a Companhia Intertemporal do
Sono. Agiu de modo aberto e assim evitou que os druufs perdessem mais
tempo e se expusessem a um afastamento maior da área de
superposição. Cavanaugh e seus comparsas não fizeram maior segredo
ao prepararem as cavernas para suas finalidades.
Por
paradoxal que pudesse parecer, o fato de Cavanaugh agir em público
na execução dos seus planos conferia-lhe uma segurança que nunca
poderia ter alcançado num trabalho secreto. Sob o disfarce da CIS,
os druufs começaram a transportar seu destacamento avançado para a
Terra.
Uma vez
instalado o transmissor dos druufs e recebidas as primeiras pessoas
que seriam postas a dormir, o resto foi quase automático. Os seres
de Druufon mataram dois coelhos de uma cajadada. Puderam preparar a
invasão sem que ninguém os percebesse e puderam manter constante a
substância orgânica de seu universo, já que para cada druuf
enviado à Terra um ser humano ingressava em sua dimensão temporal.
E isto era
imprescindível. Para chegar à Terra por meio de um transmissor,
tornava-se necessário que simultaneamente um ser humano vivo fosse
enviado ao mundo dos druufs. Era só por meio desse intercâmbio
constante de energia e de matéria que se conseguia preparar a
invasão com a necessária segurança.
Os druufs
e os gângsteres de Cavanaugh só tinham um problema: O que fazer com
os invasores que iam chegando à Terra? Foi o próprio Clinkskate
quem descobriu a solução. Um druuf adulto tinha uma altura de três
metros. No entanto, a altura de um jovem dessa raça de descendentes
de insetos correspondia à de um homem adulto. Uma vez revestido com
material bioplástico e colocado no líquido, que para ele era
agradável, não havia como distingui-lo de um terrano.
Enquanto
os druufs cresciam no interior dos recipientes, os homens da CIS
teriam tempo para construir recintos secretos no subsolo, onde os
invasores poderiam esconder-se. O lugar de cada druuf adulto seria
ocupado por uma boneca de bioplástico, que seria igual ao ser humano
adormecido atrás das lâminas de plástico.
Sem
desconfiar de nada, os homens entregues à Companhia do Sono
encontravam-se na dimensão temporal dos druufs.
Estes
informaram que os terranos enviados em troca dos seres-toco
continuavam vivos.
Mais de
dois mil candidatos ao sono já tinham chegado ao nordeste do Wyoming
e caído na cilada da CIS. E igual número de druufs encontrava-se
nos recipientes.
“Não”,
pensou Clinkskate muito zangado. “Menos
dois...”
Ainda não
haviam prendido Kennof, e este acabara de matar um dos extraterrenos.
De
repente, suas reflexões foram interrompidas por uma barulheira.
St. Cloud
e Tober entraram precipitadamente.
— Quatro
helicópteros estão circulando em cima do campo de pouso — gritou
St. Cloud. — Ao que parece, querem pousar.
— Não
parece que sejam da equipe de televisão — acrescentou Tober.
Seu rosto
mostrou um sorriso estúpido. Clinkskate levantou-se de um salto e
empurrou-os para o lado. Saiu de seu gabinete, seguido por St. Cloud
e Tober.
Quando se
encontravam do lado de fora, viram que o pessoal da CIS estava
reunido e observava o pequeno campo de pouso.
Quatro
helicópteros grandes descreviam curvas.
Clinkskate
sentiu-se tomado pelo pânico. Esqueceu o ombro dolorido.
— Estefano
— disse a um dos homens parados por ali. — Pegue dois homens e
arrume a caverna do sono. Esse maluco do Kennof matou um dos
extraterrenos. Os restos mortais deverão desaparecer. Sei lá quem
são os nossos visitantes.
Estefano,
um homem de cabelos louros desgrenhados e nariz aquilino, disse em
tom de repugnância:
— O
senhor se esquece da carga explosiva de Kennof.
O rosto
enrugado de Clinkskate transformou-se numa máscara implacável.
— Se os
ocupantes desses helicópteros forem um grupo de fiscais, que nos faz
uma visita de surpresa, o senhor logo saberá o que é mais perigoso
— disse em tom gelado. — Kennof ou estes homens.
Tober pôs
a mão em concha na testa, a fim de enxergar melhor. O sol se
encontrava próximo à linha do horizonte.
— Estão
pousando — disse em meio ao barulho.
— Ande
depressa, Estefano — gritou Clinkskate em tom nervoso.
Esperou
que Estefano escolhesse mais dois homens.
— St.
Cloud — prosseguiu. — Acompanhe-me até o campo de pouso. Vamos
cumprimentar os visitantes. Espero que, neste meio tempo, o lugar
seja arrumado e recupere seu bom aspecto.
Os membros
do grupo saíram correndo em várias direções.
— Vamos
andando, St. Cloud — disse Clinkskate em tom decidido.
— Quem
será? — perguntou St. Cloud um tanto preocupado.
— Não é
ninguém cuja visita nos deva alegrar — afirmou Clinkskate.
Atingiram
o bosque e seguiram pelo caminho que levava ao campo de pouso. Também
Clinkskate sentia-se inseguro. Os quatro helicópteros roubaram-lhe
toda segurança. Evidentemente era possível que acabassem sendo
inofensivos.
Talvez
fosse um grupo de topógrafos, que muitas vezes costumavam aparecer
nas montanhas. Ou um grupo de caçadores do governo, pretendendo
abater algum urso hidrófobo no parque nacional. Havia inúmeras
possibilidades...
Quando
haviam percorrido metade do caminho, um grupo de homens aproximou-se
deles. Clinkskate viu que eram onze homens e uma mulher. Traziam um
equipamento estranho... e possuíam armas.
Clinkskate
engoliu em seco. Fez um esforço e prosseguiu na caminhada. St. Cloud
soltou um rugido, que nem um animal acuado. Num gesto automático,
Clinkskate estendeu o braço e cumprimentou amavelmente o grupo que
se aproximava.
Pararam.
Para Clinkskate, no momento, estes eram os homens mais perigosos de
todo o universo. Admirou-se por conseguir ficar parado
tranqüilamente.
— Este
terreno é particular — disse. Sua voz era amável, mas firme. —
Vejo-me obrigado a indagar pelo motivo da visita de vocês.
Um homem
alto, de aspecto melancólico, deu alguns passos em sua direção.
St. Cloud recuou instintivamente.
— Meu
nome é Shane Hardiston — disse o homem.
Em seu
cinturão estava pendurada uma arma. Jamais Clinkskate poderia
imaginá-la ali. Em suas costas havia uma caixa presa a correias de
couro.
Clinkskate
disse seu nome.
— Sou um
dos diretores da CIS — disse. — Ali ficam nossas cavernas do
sono. Nenhuma pessoa não autorizada pode entrar nelas.
Hardiston
tirou alguma coisa do bolso e mostrou-a. St. Cloud, que olhava por
cima do ombro de Clinkskate, soltou um grito assustado.
Clinkskate
umedeceu os lábios.
— Então
são do Serviço de Segurança Solar — disse com um sorriso. —
Sentimo-nos honrados!
O agente
olhou para além dele, como se esperasse que a qualquer momento fosse
aparecer alguém no caminho.
— Estamos
à procura de um homem — falou Hardiston, depois de algum tempo. —
Seu nome é Richard Kennof.
Clinkskate
se fez de pensativo.
— Será
que se refere a um dos nossos clientes? — perguntou. — Acho que
me lembro de uma pessoa com esse nome.
Dirigiu-se
para St. Cloud.
— Sabe
alguma coisa a respeito dele, Davi?
— Não
sei — gaguejou St. Cloud. — Isto é...
— Parece
que a visita dos senhores está deixando o coitado do Davi totalmente
confuso — disse Clinkskate em tom complacente.
Nos olhos
de St. Cloud estava escrito o medo.
“Que
vá para o inferno”,
pensou Clinkskate. “Por
que é que esse molóide não procura controlar-se?”
Fez um
gesto convidativo e, dirigindo-se a Hardiston, disse:
— Poderemos
verificar logo se esse Kennof está por aqui. Se quiser fazer o favor
de acompanhar-me até as cavernas, tudo ficará esclarecido.
Sua voz
assumiu um tom confidente.
— Será
que Richard Kennof é um criminoso procurado pela polícia, que
recorreu à CIS para atingir suas finalidades escusas?
— É um
policial — disse Hardiston em tom seco.
Fez um
sinal aos seus homens, e o grupo pôs-se em movimento.
— Que
aparelhos esquisitos eles trouxeram! — cochichou St. Cloud.
— Cale-se,
seu idiota! — respondeu Clinkskate.
Vez por
outra, a luz do sol irrompia entre a densa folhagem, desenhando
sombras fugazes sobre os rostos dos homens. Seus pés levantavam
folhas secas que eram atiradas para o lado e esvoaçavam por algum
tempo acima do chão. Às vezes, os aparelhos e instrumentos, que os
agentes traziam, tilintavam.
Clinkskate
lançou um olhar de esguelha sobre os rostos angulosos desses homens.
Dessa escolta não poderia esperar qualquer contemplação, se esta
descobrisse o que havia no interior das cavernas.
E eles
descobririam!
A única
saída seria a luta e a fuga.
Um plano
começou a adquirir concretude no cérebro de Clinkskate.
Quando
saíram do bosque, Tober encontrava-se na área livre que ficava à
frente das cavernas. Fitou Clinkskate com um misto de preocupação e
curiosidade. Clinkskate teve o cuidado de manter-se à frente do
grupo.
Só a
entrada do edifício da administração estava aberta.
— Vamos
entrar aqui — disse Clinkskate em tom amável.
— Se for
uma armadilha, o senhor não terá muito tempo para regozijar-se —
anunciou Hardiston com a voz fria.
Clinkskate
fitou-o como se não entendesse.
— O que
quer dizer com isso? — perguntou em tom indignado.
Enquanto
falava, agarrou St. Cloud e empurrou-o contra Hardiston. Os dois
homens esbarraram um no outro. Clinkskate viu o agente pôr a mão na
arma. Correu para dentro da caverna. Antes que Hardiston conseguisse
desvencilhar-se, Clinkskate fechou os grandes portões.
Saiu
apressadamente pelo corredor a fora. Os primeiros funcionários da
CIS apareceram à sua frente.
— Vamos
embora! — gritou. — O Serviço de Segurança Solar está no nosso
encalço.
Seu braço
escorregou para fora da tipóia preparada por Piotrowski. Ao que
parecia, a ferida se abrira no momento em que empurrou St. Cloud.
— Vamos
todos para a estação do transmissor — gritou. — Coloquem
barricadas nas galerias e introduzam gás nos corredores.
Estava
cercado por homens apressados e suarentos, que investiam contra ele
com um arsenal de perguntas. Ouviu-os correrem a seu lado.
— Distribuam
as armas — ordenou. — E não se esqueçam de ligar as armadilhas.
Há apenas onze homens lá fora.
Em poucos
minutos, o setor administrativo estava vazio.
Uma
explosão ensurdeceu Clinkskate. Alguns homens ficaram parados. O
chão estremeceu e pedras caíram do teto e das paredes.
— Vamos!
— Clinkskate tangia os homens sem a maior contemplação. —
Querem dinamitar a entrada. Devemos dar o fora antes que consigam.
De repente
sentiu o cheiro de algo que queimava. Um incêndio devia ter
irrompido em algum lugar. Lembrou-se de Estefano e de seus dois
acompanhantes, que pretendiam dominar Kennof. Onde estariam?
A unidade
energética estava envolta em densas nuvens de fumaça. As chamas
erguiam-se à entrada, situada em nível mais elevado. No pavimento
inferior devia lavrar um incêndio muito forte. Kennof devia estar
lá, ou então Estefano. Provavelmente tinham sido os causadores do
incêndio.
Os olhos
de Clinkskate começaram a lacrimejar. Ao seu lado homens tossiam
enquanto se deslocavam em meio à fumaça.
Clinkskate
ordenou em tom enérgico:
— Temos
de passar! Tragam panos... As palavras foram tragadas por uma
explosão. O ar comprimido atravessou o corredor. A respiração ali
tornou-se difícil. Procurou controlar-se e fez um esforço para
ordenar as idéias. A essa altura, os agentes já deviam ter aberto o
portão. Mas teriam de avançar com a maior cautela pelos corredores,
pois não sabiam em que ponto teriam de enfrentar uma resistência.
Alguém
colocou um pano úmido nas mãos de Clinkskate. Comprimiu-o contra o
rosto e correu para dentro das nuvens de fumaça.
*
* *
As fúrias
do inferno pareciam estar às soltas em torno de Kennof. Este
rastejou. Do lado oposto do recinto, as chamas subiam. Há uma hora,
três homens apareceram por ali e procuraram caçá-lo. Com o último
tiro disparado da pistola de Piotrowski, Kennof conseguiu pôr um
deles fora de combate. Quando os outros responderam ao fogo, uma
máquina foi atingida atrás de Kennof. Fagulhas azuis caíram ao
chão, e o fogo logo se espalhou. Na confusão, o detetive conseguiu
escapar mais uma vez. Os inimigos deviam estar atrás da cortina de
fogo. Provavelmente só podiam cuidar de si mesmos. Kennof sabia que
só podia salvar-se por meio de uma ação rapidíssima.
Depois de
sair do poço, dirigira-se imediatamente à caverna destinada aos
preparativos. Ali, onde ficavam os grandes geradores, ainda teria uma
pequena chance de causar dificuldades à CIS.
Acontece
que o aparecimento dos três guardas estragou seus planos. Kennof
ouvira as duas explosões, mas não sabia dizer do que se tratava.
Por que
não aparecia ninguém para apagar o fogo?
Enquanto
rastejava, o detetive tossia. À sua frente, em meio à cortina de
fogo, fumaça e cinzas, um objeto queimado caiu ruidosamente ao chão.
Um homem
saiu cambaleando em meio às chamas. Suas roupas estavam chamuscadas
em alguns lugares. Segurava uma arma.
Kennof
atirou-se contra as pernas do outro. Sentiu que este perdeu o apoio e
caiu ao chão. O detetive virou-se, respirando com dificuldade. Um
pedaço de madeira queimada passou por eles que nem um fogo-fátuo.
Quando se concentrava no inimigo, ouviu uma voz rouca vinda do lado:
— É
você, Estefano?
— Rápido
— gritou o homem deitado embaixo de Kennof. — Aqui!
Numa
clareza súbita, Kennof viu outro homem parado bem perto dele. Alguma
coisa tocou seu quadril. Tratava-se de algo que passou num abrir e
fechar de olhos, deixando em Kennof uma dor martirizante.
A sala
começou a girar em torno do detetive, e este caiu para trás. Quando
ouviu o homem que se encontrava a seu lado sair rastejando, estava
quase inconsciente.
— Este
está liquidado — disse uma voz. — Vamos dar o fora.
“Os
druufs”,
pensou Kennof com as últimas forças que lhe restavam. “Preciso
deixar um aviso para Shane.”
O fogo
crepitante ia-se aproximando...
*
* *
As enormes
mãos de Hardiston cerraram-se em torno de uma barra de ferro oculta
e puxaram-na para o lado.
— Célia
e Zekizawa ficarão aqui — ordenou. — Os outros irão comigo para
dentro da caverna. Payne, encarregue-se do aparelho de localização.
Não se esqueça de que podemos encontrar armadilhas pela frente.
Passou por
cima dos destroços do portão e saltou agilmente um buraco.
— Não
atirem se não for necessário — ordenou Hardiston. — Não
queremos atingir pessoas inocentes. Fiquem com as máscaras
preparadas, pois é possível que encontremos gases. Maliverney, não
se esqueça de verificar constantemente a pressão atmosférica.
Lohnert e Adams, venham comigo.
Esperou
até que os dois agentes se encontrassem a seu lado.
Por um
instante Célia viu a figura enorme de Hardiston na entrada aberta a
dinamite, mas logo sumiu no corredor escuro.
Os outros
seguiram-no...
*
* *
A cabeça
de Clinkskate parecia girar. O corpo fustigado pelas dores só
conhecia um objetivo: a estação do transmissor.
— Todas
as instalações estão queimando! — gritou alguém que se
encontrava atrás dele.
Clinkskate
tinha certeza de que este incêndio representava o fim de mais de
dois mil druufs. Os descendentes de insetos ainda eram muito jovens e
achavam-se indefesos para escapar com suas próprias forças do
inferno desencadeado em torno deles. Os condutos, que levavam aos
recipientes, já haviam sido interrompidos. Em algum lugar, o líquido
nutritivo se entranhava no solo das cavernas. E os tubos de oxigênio
deixariam de conduzir ar respirável, para levar fumaças sufocantes.
Um homem
puxou seu braço.
— Não
conseguiremos passar — gritou para Clinkskate.
Este
reconheceu o rosto desfigurado de Eberhard. Provavelmente seu aspecto
não era muito melhor.
— Temos
de chegar ao transmissor — gritou. — É a única chance de
sairmos daqui.
— O fogo
está em toda parte — gritou Eberhard em tom de desespero. — Não
conseguimos chegar aos equipamentos de combate ao incêndio.
Deveríamos tê-los espalhado por toda parte.
Clinkskate
chutou uma peça de plástico em chamas.
— Acredita
que isso adiantaria alguma coisa? — perguntou em tom irônico.
Viu uma
fresta entre duas máquinas. Atrás dela, o fogo ainda não se
espalhara.
Por alguns
segundos o cheiro de óleo lubrificante misturou-se ao fedor
causticante. Como se estivesse paralisado, o braço ferido pendia ao
lado do corpo de Clinkskate. Continuou a avançar. Ouviu atrás dele
o grito de um homem atingido por uma peça em chamas. Fazia votos de
que nem todos os homens conseguissem chegar ao transmissor com ele.
Se o aparelho funcionasse, apenas poucos poderiam escapar.
Um vulto
estava estendido à sua frente. As vestes achavam-se tão queimadas
que Clinkskate não saberia dizer quem era. Inclinou-se sobre o
vulto. Eberhard juntou-se a ele.
— Vire-o
— ordenou Clinkskate.
Eberhard
colocou o corpo de costas. Era Estefano. Ainda respirava. Clinkskate
sacudiu-o.
Estefano
abriu os olhos.
— O que
é feito de Kennof? — perguntou Clinkskate.
Houve uma
reação débil nas pupilas do homem quase inconsciente.
— Conseguiu
liquidá-lo?
Estefano
abriu a boca para dizer alguma coisa, mas as cordas vocais
recusaram-se a obedecer. Clinkskate sacudiu-o brutalmente.
— Vamos
logo! Fale! — gritou.
— Deixe-o
em paz — disse Eberhard em tom de repugnância. — Vamos embora
antes que seja tarde.
Clinkskate
levantou-se. Chamas azuis começaram a levantar-se atrás das
máquinas. A tinta começou a formar bolhas.
— Atenção!
Seu braço
estendido apontava para a frente. O caminho, que levava ao corredor
da estação do transmissor, estava em chamas. Não poderiam
prosseguir sem arriscar a vida.
— Estamos
cercados pelo fogo — disse Clinkskate em tom apático.
À sua
frente estava o inferno... E atrás deles havia outro!
*
* *
Apesar de
todo o cuidado, não perceberam a primeira armadilha.
Subitamente
Maliverney, que ia à frente dos outros, soltou um grito e cambaleou
para trás. Hardiston segurou-o. Os objetos metálicos que Maliverney
trazia no corpo emitiram um brilho estranho. Hardiston não perdeu
tempo: arrancou o equipamento de cima do corpo do agente. Em todos os
lugares em que o metal tocara diretamente a pele de Maliverney, havia
queimaduras graves.
— O
contato deve ficar nestas paredes — disse Hardiston em tom zangado.
— Provavelmente instalaram um aparelho de localização. Assim que
surge qualquer tipo de metal em sua área de influência, dá-se a
radiação e o aquece ao ponto de ficar incandescente.
Maliverney
cochichou com o rosto desfigurado pela dor:
— Ainda
bem que Pounds não estava no meu lugar. Ele tem três dentes de
ouro.
Pounds
resmungou alguma coisa em tom indignado e os outros obrigaram-se a
rir.
— Se não
conseguirmos destruir a instalação, só nos restará uma saída:
prosseguir sem armas e equipamento — disse Shane.
— O que
devemos fazer? — perguntou Adams em tom deprimido.
— Isto!
— Hardiston puxou a arma e disparou contra a parede de rocha.
Os outros
seguiram seu exemplo.
— Pelo
menos vamos danificar o aparelho de localização — disse Lohnert
em tom esperançoso.
Fecher
tirou uma pá de ferro de seu equipamento e atirou-a na direção da
perigosa barreira, que, apesar de sua invisibilidade, quase teria
feito uma vítima.
Não
aconteceu nada.
— Isso
está liquidado — disse Adams em tom de satisfação e saiu
correndo.
— Pounds,
fique com Maliverney. Procure levá-lo para junto de Célia. Ela
cuidará dele. Adams levará sua bagagem.
Adams
voltou correndo para cumprir a ordem.
— Como
será que a CIS consegue fazer armadilhas como esta? — perguntou
Fecher em tom de espanto.
Hardiston
fez sinal para que prosseguisse. Alguns metros adiante, uma parede
metálica interpôs-se no seu caminho.
— Temos
que dinamitar de novo — disse Lohnert.
Baixou seu
equipamento e começou a desenrolar vários cabos.
— Espere
aí! — ordenou Hardiston. — Imagino que com a detonação seremos
esmagados pela montanha. Temos que descobrir outro meio.
— Poderíamos
usar o explosivo para abrir uma passagem lateral — sugeriu Adams.
— O
resultado seria praticamente o mesmo — objetou Shane. —
Poderíamos utilizar cargas reduzidas, mas nesse caso levaríamos
algumas horas para chegar ao corredor principal.
Fecher
bateu com a pá contra o obstáculo. Lohnert ouviu atentamente.
— Pelos
meus cálculos tem cinco centímetros de espessura — disse.
— Vamos
abrir isso a maçarico — decidiu Hardiston. — É a única maneira
de prosseguirmos sem risco.
— A
parede não é de lata; tenho certeza absoluta — observou Benson,
um homem pequeno e calado, de olhos negros e cabelo rebelde.
— A
garrafa de oxigênio — ordenou Hardiston. — Monte o maçarico,
Adams.
— Quem
dera que tivéssemos uma queimadora termonuclear — disse Lohnert
com um suspiro.
— Teremos
de arranjar-nos sem ela — Hardiston colocou uma mangueira no bocal
do queimador e prendeu-a com um grampo. — Mande o gás.
Dali a
pouco a mistura de oxigênio e acetileno foi acesa. Na ponta da chama
reinava uma temperatura de cerca de 1.600 graus.
Hardiston
colocou o queimador. Um feixe de chamas foi jogado para trás.
— Não
adianta — disse o agente em tom resignado. — A parede consiste em
várias camadas entre as quais há espaços ocos de menos de um
milímetro. Nestas condições é quase impossível atravessá-la.
Levaríamos uma eternidade.
Fechou o
suprimento de oxigênio e a chama apagou-se com um leve estalo. Os
homens observavam-no em silêncio.
— E
agora? — perguntou Fecher.
— A
parede avança um bom pedaço para o interior da terra — anunciou
Lohnert.
— Se
dentro de três minutos não nos ocorrer uma idéia melhor, teremos
de usar dinamite — sentenciou Hardiston.
Sete
homens fitaram-no. Em seus olhos brilhava a decisão firme de romper
a barreira, fosse como fosse.
11
O Dr. Le
Boeuf ficou atento para ouvir o que se passava na escuridão. Antes
que recuperasse a consciência, um fato decisivo acontecera.
Tateou até
a porta do cubículo em que fora preso. Ao notar que não estava
trancada, ficou espantado. Saiu cautelosamente para o corredor.
Também aqui a escuridão era completa. Parou por um instante para
orientar-se. Sentiu o cheiro de fumaça. À frente dele, devia ficar
o poço de ventilação da caverna do sono.
O médico
prosseguiu com as mãos estendidas para a frente, a fim de facilitar
sua orientação. Pela primeira vez seu subconsciente deu um sinal de
que houvera uma modificação naqueles subterrâneos.
Le Boeuf
não tinha um plano definido. Avançou aos tropeções, e seus pés
encontraram a borda da abertura capaz de dar passagem a um homem.
Esteve prestes a entrar na mesma, quando teve outra idéia.
Lembrou-se do transmissor. Se conseguisse sabotar a estação,
poderia desferir um golpe duro contra a CIS e os druufs. Os traidores
teriam dificuldades quase insuperáveis para construir outro
transmissor.
Acontece
que pouca coisa poderia fazer com as mãos desarmadas. Mas
subitamente lembrou-se de algumas palavras de Clinkskate.
— Em
hipótese alguma, o transmissor deve ser acionado se no plano dos
druufs não for enviada simultaneamente uma massa correspondente.
Qualquer infração a esta regra poderá causar uma catástrofe.
O que
aconteceria se ele, Le Boeuf, acionasse o transmissor sem que os
druufs soubessem disso? Será que seu corpo se dissolveria e
desapareceria para todo o sempre em alguma dimensão sobreposta?
Mas o
equilíbrio energético entre o plano dos druufs e o Universo
einsteiniano, que era mantido automaticamente, levaria a outra
conclusão.
O espaço
de cinco dimensões o atiraria para trás. O médico não sabia
formar uma idéia precisa do volume de energia que seria liberado com
isso. Mas tinha certeza de uma coisa: essa energia seria suficiente
para destruir o transmissor.
E
destruiria também outras coisas.
Durante a
execução do plano o Dr. Le Boeuf encontraria a morte. Não sentiu
medo nem remorsos. Caminhava apressadamente pela escuridão. Era um
homem baixo e sardento que, nas últimas horas de vida, adquiriu a
consciência de sua responsabilidade perante a raça a que pertencia.
*
* *
Lohnert
soprou uma mecha de cabelo. Na testa de Benson, o suor porejava.
Tiveram de ligar suas lanternas, já que as luzes se apagaram de
repente. Vez por outra, o rosto de um homem surgia num feixe de luz.
— O
tempo passou — disse Shane Hardiston.
Seu corpo
projetava uma sombra gigantesca contra a parede.
Adams e
Fecher dirigiram as luzes de sua lanterna para o detonador eletrônico
de Lohnert. O agente mexia nos fios.
— Atenção!
— gritou Benson de repente.
A luz de
suas lanternas iluminava a barreira metálica, que ia subindo
lentamente. Os membros do destacamento especial do Serviço de
Segurança Solar pegaram as armas. Uma nuvem de fumaça passou por
baixo da parede divisória. Espalhou-se rapidamente.
— Gás!
— gritou Fecher e pegou a máscara.
Hardiston
não se abalou. Farejou o ar. Depois de algum tempo, sacudiu a
cabeça.
— Lá
dentro há um incêndio — disse.
A barreira
parou a cerca de cinqüenta centímetros de altura, rangendo
fortemente. A fumaça amarela continuava passando pela abertura.
— Deve
estar empenada — disse Thatcher. — O caminho está livre.
Quando o
primeiro colaborador da CIS passou pela abertura, avistou um vulto.
Hardiston baixou o cano do paralisador. Esse homem já não seria
capaz de pensar, embora segurasse uma faca. Em alguns lugares, as
vestes totalmente queimadas deixavam entrever pedaços de pele
chamuscada.
— Ajudem-no
— ordenou Hardiston. Agindo com a maior cautela, Adams e Lohnert
puxaram o ferido para fora da abertura. O homem gemia de dor.
— Ali
vem mais gente — disse o grandalhão. — Receiam que atirem contra
eles.
Hardiston
colocou a máscara e inclinou-se para falar através da abertura.
— Saiam
e entreguem-se — gritou para dentro das nuvens de fumaça. — Não
atiraremos.
Dali a
pouco, suas mãos agarraram alguma coisa e outro corpo foi arrastado
para o lado de cá da parede metálica. Alguns minutos depois,
quarenta homens, que apresentavam queimaduras leves e graves,
encontravam-se em poder dos agentes do SDS.
Um desses
homens era Clinkskate...
— O que
é feito dos homens adormecidos? — disse Hardiston, superando o
gemido dos prisioneiros. — Serão queimados!
Clinkskate
abriu as pálpebras vermelhas. Seus cílios estavam chamuscados.
— Não
se preocupe — disse com a voz rouca. — Não há mais ninguém lá
dentro.
A atadura
de Clinkskate estava transformada numa crosta gosmenta feita de
fuligem, sangue e sujeira. O corpo atingira o estágio de esgotamento
em que o homem se torna incapaz de sentir dor.
— O que
quer dizer com isso? — perguntou Hardiston em tom insistente. —
Onde estão as pessoas adormecidas?
— As
pessoas adormecidas estão ali mesmo — disse Clinkskate em tom
apático. — Acontece que não se trata de gente. São druufs. As
pessoas, que o senhor procura, encontram-se num planeta situado no
plano dos druufs.
— Está
fantasiando — ironizou Fecher.
— Não,
é verdade — opôs-se um dos colaboradores da CIS que se encontrava
agachado ao lado de Clinkskate. — Quando o fogo cessar, o senhor
mesmo poderá ver. É bem verdade que, quando isso acontecer, os
monstros já estarão mortos. O fogo destruiu os dutos que levam aos
recipientes.
— O que
houve com Richard Kennof? — perguntou Hardiston em tom apressado.
— Ele
fugiu — respondeu alguém. — A esta hora deve estar morto.
Hardiston
levantou-se.
— Preciso
de dois voluntários para procurar o velho Dick — disse em tom
tranqüilo. — Os outros ficarão aqui para cuidar destes homens.
Todos se
ofereceram.
— Thatcher
e Lohnert — decidiu Hardiston.
Colocaram
as máscaras.
— Ninguém
deverá seguir-nos — disse Shane. — Nem agora nem depois.
*
* *
O Dr. Le
Boeuf segurou a barra de metal e passou por ela. A estação do
transmissor era totalmente independente das outras cavernas. Se
houvesse cabos que saíssem da unidade energética e levassem para
ela, isso poderia provocar suspeitas. Nesse caso, um belo dia, algum
funcionário mais curioso teria a idéia de seguir esses cabos e
acabaria fatalmente na caverna secreta.
O Dr. Le
Boeuf não sabia quanto tempo se passaria antes que o transmissor
entrasse em funcionamento. E isso pouco lhe importava. Sentado no
chão frio, mantinha-se à espera. Mais de dois mil homens estiveram
no mesmo lugar antes dele... e contra sua vontade.
E ele
ajudara a cometer esse crime.
Um sorriso
amargo surgiu em seu rosto. O ato, que estava prestes a cometer, lhe
restituiria o auto-respeito. Era só o que importava. Será que
sentiria dores?
Foi
atingido por uma sensação que não passou de um ligeiro sopro, mas
que o desvencilhou de todos os problemas. A metamorfose provocada
pelo transmissor teve início. A estrutura atômica do médico foi
convertida num impulso hiperenergético e atirada para uma dimensão
inconcebível.
Normalmente
ali teria penetrado na área de influência do transmissor dos
druufs. Acontece que estes ignoravam o Dr. Le Boeuf e seus planos
temerários. Dessa forma permaneceu por um tempo que, para as
concepções humanas, não tem correspondente numérico.
Depois
disso, foi atirado de volta.
Mas o que
surgiu no transmissor não foi o Dr. Le Boeuf.
E sim um
volume de energia indômita!
*
* *
Célia
Mortimer não tirava os olhos da entrada aberta a dinamite. Zekizawa,
que percebia a direção de seu olhar, não disse nada. Ficou de olho
em St. Cloud e Tober, empenhados numa discussão acalorada. Pounds
levara Maliverney ao campo de pouso, a fim de colocar o homem ferido
numa cama de dobrar.
O sol já
desaparecera atrás do bosque. Um vento fresco soprava por cima das
copas das árvores. Bem no alto, uma águia descrevia círculos.
“Para
esta criatura, não tenho a menor importância”,
pensou Célia. “Seu
olhar atinge o infinito e sua vida é feita da luta e da caça.”
Subitamente
o chão começou a tremer.
Dois
punhos gigantescos pareciam sacudir a montanha, a fim de rasgá-la em
duas. Um rugido surdo saiu das cavernas. Uma fina nuvem de pó surgiu
acima da rocha. Grandes pedaços de rocha pareciam levitar no ar.
Célia viu
Zekizawa abrir a boca para dizer alguma coisa, mas o barulho foi
tamanho que abafou as palavras. As entradas das cavernas, que ainda
estavam fechadas, fenderam-se. A montanha parecia rachar.
Zekizawa
atirou-se ao chão e arrastou Célia consigo.
O fenômeno
terminou tão de repente como havia começado. Uma poeira cinzenta
saiu das cavernas. Célia choramingava baixinho.
Zekizawa
ouviu Tober dizer a St. Cloud:
— Só
pode ter sido o transmissor.
“Deve
ter enlouquecido de medo”,
pensou o agente.
Subitamente,
alguns vultos escuros e irreconhecíveis saíram das cavernas.
— Estão
vivos — gritou Zekizawa e correu ao encontro dos homens.
Célia
reconheceu Fecher, Hardiston e Benson.
Alguma
coisa comprimiu sua garganta. Onde estava o velho Dick?
Lohnert
arrastava Thatcher, que parecia ferido. Os homens da CIS
seguiram-nos. Era um grupo de pessoas cambaleantes, exaustas,
semimortas.
— Célia
— gritou uma voz rouca.
Uma das
figuras cobertas de pó e fuligem levantou o braço.
— Ali
está ele — disse Zekizawa no tom indiferente que lhe era peculiar.
— O velho Dick.
Estas
palavras representaram um alívio para Célia.
Kennof
aproximou-se cambaleando. Em seus olhos cansados surgiu um ligeiro
brilho, que mal e mal foi percebido por Célia.
— Como
vai Buster? — perguntou com a voz rouca.
Tombou
para a frente e teria caído ao chão, se Zekizawa não o tivesse
segurado.
*
* *
*
*
*
Os
“adormecidos” não mais seriam capazes de conquistar o Império
Solar — esta é a conclusão que poderia ser extraída desta
história.
Em O
Caso Columbus,
título da próxima aventura, o Império Solar sofrerá um ataque
direto de incalculáveis dimensões...

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