Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Todos unidos por um ideal —
O segundo passo: rumo a Árcon!
Rhodan, em manobra fantástica,
conseguiu destruir os últimos dados referentes à localização
galáctica da Terra.
Entretanto, este ano será o da
decisão, pois o comando suicida do Império Solar está movido por
um só pensamento: derrubar o robô regente...
=
= = = = = = Personagens
Principais: = = = =
= = =
Perry
Rhodan
— Administrador do
Império Solar.
Jeremy
Toffner
— Um agente cósmico
que, depois de uma solidão prolongada, recebe uma visita importante.
Almirante
Calus
— O verdadeiro
soberano de Zalit.
Roger
Osega
— Um sargento que
sabe desempenhar o papel de almirante.
Gucky,
Ras
Tschubai
e Tako
Kakuta
— Cujas capacidades
de teleportação permitem a realização de um transporte muito
importante.
Kharra
e Markh
— Dois homens que se
esquivam à prestação do serviço militar.
1
— As coisas não estão nada
boas!
Perry Rhodan levantou a cabeça
e viu o rosto sério da pessoa que pronunciara estas palavras. Fez
uma constatação objetiva: os cabelos ruivos e curtos não estavam
arrepiados; quase pareciam cabelos normais. O rosto redondo
apresentava uma coloração vermelha, e um brilho nervoso marcava os
olhos azul-pálidos.
— Bell, você acaba de usar
uma expressão drástica, mas totalmente adequada. As coisas
realmente não estarão nada boas para a Terra, se não acontecer
logo alguma coisa.
O velho de cabelos brancos, que
estava sentado à mesa de conferências, do lado direito de Rhodan,
acenou lentamente com a cabeça. Em seus olhos avermelhados ardia um
fogo eterno de confiança recôndita. O vulto magro parecia
encurvado, mas o brilho dos olhos continuava juvenil e vigoroso.
Rhodan dirigiu-se a esse homem.
— Então, Crest?
O velho arcônida, que descendia
de uma família real de Árcon, há muito extinta, voltou a acenar
com a cabeça.
— Concordo plenamente com
Reginald Bell no ponto em que ele definiu a situação. Por outro
lado, porém, quero ressaltar que a perda da Kublai Khan foi
compensada por uma vitória relativa. Conseguimos destruir os últimos
sinais que poderiam fornecer ao computador-regente alguma indicação
sobre a posição da Terra. Nenhum tópsida vivo, que tenha
participado da invasão do sistema de Vega, saberá dizer qualquer
coisa a este respeito. É bem verdade que perdemos a Kublai Khan...
— Bell pretendia dizer mais
alguma coisa — anunciou Rhodan. — Ele se referia à situação
geral. E esta não oferece margem a qualquer dúvida. Em toda a
Galáxia só existem três fatores que devem ser considerados no jogo
de forças. O primeiro é representado pelos druufs, que constituirão
um perigo por mais doze meses, ou, ao menos, enquanto existir a área
de superposição entre as duas dimensões temporais. Segundo: temos
de considerar o gigantesco computador que governa Árcon. É verdade
que, no momento, o cérebro-robô está plenamente ocupado com a
invasão dos druufs, mas um dia voltará a dedicar-se àquilo que
considera sua tarefa principal: localizar-nos e subjugar-nos. Por
fim, o terceiro fator somos nós.
À direita de Rhodan, havia
outro arcônida. Era mais jovem que Crest, ao menos no aspecto
exterior. Na verdade, Atlan tinha mais de dez mil anos e adquirira a
imortalidade graças ao ativador celular que, num passado
remotíssimo, lhe fora dado por um desconhecido. Vivia na Terra desde
a destruição de Atlântida e transformara-se no melhor aliado de
Rhodan. E ele o seria pelo menos enquanto seu mundo, que era Árcon,
fosse governado por um robô.
Atlan disse em voz alta e bem
compreensível:
— Devemos eliminar o
computador; receio que não haverá outra saída.
Todo mundo prendeu a respiração.
Essa sugestão, saída da boca
de um arcônida, tinha algo de terrível. Além disso, era
inexeqüível. Havia dispositivos de segurança que protegiam o
regente de Árcon contra qualquer ataque vindo de fora.
Mas também estaria protegido
contra ataques vindos de dentro?
Rhodan imediatamente começou a
raciocinar em torno desta idéia.
— Só nos restam sete
supercouraçados do tipo da Titan e da Drusus. Perdemos um dos
transmissores de matéria que possuíamos. E não há como
substituí-lo. Nossa frota espacial é grande, mas, em comparação
com a de Árcon, é insignificante. Acho que só poderemos atacar
Árcon por dentro.
— Por dentro? — repetiu
Atlan em tom interrogativo. Seus olhos avermelhados se iluminaram. —
Talvez seja a solução.
À esquerda de Bell, estava
sentado um homem que também tinha cabelos ruivos. Evidentemente era
pura coincidência. Quanto ao mais, o Capitão Hubert Gorlat poderia
ser considerado um tipo comum. Ao menos quanto ao aspecto exterior.
Na verdade, Hubert Gorlat era especialista de defesa do Serviço de
Segurança Solar, submetido diretamente a Mercant. Seu aspecto
exterior não mostrava suas capacidades.
— Quem sabe se isso não seria
um serviço para mim? — disse em tom indiferente, mas com a voz
trêmula de excitação.
Rhodan sorriu.
— Fui eu que convoquei a
reunião, e posso garantir que ninguém está aqui por acaso —
fitou os presentes um por um. — O senhor também receberá sua
tarefa, Gorlat.
— Você tem algum plano? —
perguntou Bell em tom de curiosidade.
Seu rosto ficou ainda mais
vermelho. Seus cabelos começaram a arrepiar-se.
— O plano surgirá no curso
desta discussão — disse Rhodan, dando a entender que cada um tinha
de contribuir para a elaboração do mesmo. — Antes de mais nada,
estabeleçamos os fatos. Os tópsidas já não poderão fornecer ao
regente qualquer indicação sobre a posição da Terra. De qualquer
maneira, porém, um belo dia o regente nos encontrará. Isso vai
acontecer quando não tiver mais nenhum perigo para enfrentar e puder
concentrar-se exclusivamente sobre nós. Neste caso, não haverá
nada que possa impedir tal descoberta, já que hoje em dia o Império
de Árcon é forte e unido. Chegará o dia em que alguma nave se
deparará com a Terra e transmitirá as respectivas coordenadas para
Árcon. E depois?
Ninguém respondeu. Crest, que
já estava muito velho, começou a falar com o rosto sério.
— Não sobreviveremos ao
ataque que vier depois disso — respondeu. — Não existe a menor
dúvida. Árcon destruirá a Terra, muito embora os dois impérios
unidos pudessem ser donos do Universo. A loucura, que costumava ser
cometida pelos políticos terranos, será repetida no âmbito
cósmico.
— Qual é sua sugestão,
Crest?
Rhodan formulou o pedido em tom
calmo e indiferente, embora em seu interior rugisse uma tempestade.
Não deu a perceber nada.
Crest soltou um suspiro.
— Acha que devo ter alguma
sugestão? Talvez possa fornecer uma indicação que possa servir de
base a uma sugestão? Quem é nosso inimigo? Os arcônidas. Não, não
é essa raça governada por um computador. Nosso inimigo é
exclusivamente o computador, o regente de Árcon. Quer dizer que, se
quisermos viver em paz com Árcon, teremos de eliminar o regente.
“Acontece que o computador foi
concebido e construído por arcônidas, e foram estes que fizeram
dele o regente, quando a atividade dos arcônidas começou a
diminuir. Todavia, quem construiu o computador foram os valentes
arcônidas de outros tempos. No meu entender, este ponto representa a
chave de qualquer ação bem sucedida. Acho impossível que os
cientistas que construíram o regente não tenham previsto qualquer
dispositivo de segurança.
“Vamos raciocinar logicamente,
senhores. O computador foi construído pelos arcônidas para que
assumisse o governo do Império, quando eles mesmos degenerassem a
ponto de não serem aptos para a condução dos negócios públicos.
Conclui-se que na época ainda possuíam inteligência suficiente
para reconhecerem suas próprias fraquezas. Por isso, é de supor que
também tenham tido inteligência suficiente para não se submeterem
irremediavelmente ao domínio de um cérebro positrônico. Por certo
esperavam que um dia voltariam a existir arcônidas capazes. E estes
assumiriam o governo. Vê-se que deve haver algum comando de
segurança, que pode ser localizado. Acho que me fiz entendido.”
Olhou em torno com uma expressão
indagadora e deparou-se com os olhos brilhantes dos outros. Rhodan
respondeu com um aceno de cabeça.
— Sim, Crest. Compreendemos
perfeitamente o que quer dizer. Restaria descobrir como é esse
dispositivo de segurança e de que forma deve ser manipulado. Acha
que será fácil?
Crest parecia um tanto inseguro.
— Na minha opinião não será
fácil, mas será possível.
Gorlat continuou a raciocinar em
torno de fatos concretos.
— Antes de quebrarmos a cabeça
sobre isso, devemos verificar se há uma possibilidade de nos
aproximarmos do regente.
Subitamente Atlan voltou a
participar da discussão.
— Estou inclinado a concordar
com Crest. O principal é que tenhamos certeza absoluta de que
realmente existe um dispositivo de segurança. Na minha opinião,
essa possibilidade existe. O dispositivo de segurança existe! Por
isso deverá ser possível colocar o computador-regente fora de ação
exclusivamente por meio da astúcia, independentemente de qualquer
luta, libertando o Império de Árcon de um ditador maquinal.
— Resta saber — ponderou
Bell — como faremos para chegar a Árcon, sem que antes sejamos
desmanchados em átomos.
— Foi justamente por isso que
convoquei esta reunião — disse Rhodan, dirigindo-se a Atlan com um
visível interesse.
— Quer dizer que tanto você
como Crest têm certeza de que existe um dispositivo de segurança?
— Certeza absoluta, bárbaro —
respondeu Atlan, servindo-se do tratamento costumeiro, mais por
costume que por ironia.
— Não se esqueça de que há
dez mil anos fui almirante do Império Arcônida. É bem verdade que
naquela época ainda não pensávamos em construir um computador que
nos pudesse exercer o governo sem o menor trabalho, mas tais planos
já existiam no âmbito teórico. E nesses planos se aludia a um
dispositivo de segurança que permitisse à pessoa indicada a
reprogramação do computador.
Rhodan acenou com a cabeça;
parecia pensativo.
— Pois é isso: pela pessoa
indicada. Quem será essa pessoa indicada?
Conforme já acontecera tantas
vezes, a única resposta foi o silêncio.
Rhodan fitou seus interlocutores
com um sorriso nos lábios.
— Agradeço a Crest e Atlan
pelas opiniões que acabam de formular, já que estas correspondem
inteiramente às minhas suposições. Devo comunicar-lhes alguma
coisa que até agora tenho guardado para mim. Há alguns meses ando
pensando muito em Jeremy Toffner, que é um dos nossos agentes. Será
a figura principal, que deverá abrir-nos o caminho para a fortaleza
inexpugnável de Árcon.
O sistema de Árcon ficava a 34
mil anos-luz da Terra, e pertencia ao grupo estelar M-13, situado
fora da Galáxia propriamente dita.
— Jeremy Toffner? — repetiu
Bell.
Ao que parecia, não se
lembrava. Não era de admirar, pois os agentes cósmicos do Império
Solar estavam espalhados pelos mais diversos pontos da Galáxia.
— Quem é este?
— É um homem nascido em
Vênus. O Capitão Gorlat poderá extrair os dados necessários dos
nossos registros. Mas não é o que nos interessa. O que interessa é
sabermos onde se encontra Toffner.
Rhodan fez uma pausa.
Bell quase chegou a estourar de
curiosidade.
— Onde ele está?
— Em Zalit, o quarto planeta
do sol Voga.
Os homens fitaram Rhodan com uma
expressão de perplexidade.
Zalit apenas distava pouco mais
de três anos-luz de Árcon...
*
* *
... e os zalitas eram súditos
fiéis do regente de Árcon.
Quando o largaram às escondidas
no planeta estranho, deixando que se arranjasse conforme pudesse,
Jeremy Toffner já teve oportunidade de constatar este fato. O
Serviço de Segurança Solar lhe fornecera documentos impecáveis, o
que lhe permitiria enfrentar tranqüilamente um eventual controle. Os
especialistas do setor de pesquisa médica haviam modificado seu
aspecto exterior a tal ponto que nem mesmo sua avó o reconheceria.
Qualquer pessoa pensaria que se tratava de um zalita genuíno, raça
que por sua vez descendia dos arcônidas e com estes se assemelhava.
Tinham certa semelhança com os
homens; geralmente seu corpo era esbelto e possuía a pele
marrom-avermelhada. O que mais chamava a atenção era o cabelo cor
de cobre que, conforme a incidência da luz, por vezes apresentava um
tom verde oxidado.
Os zalitas eram considerados a
raça colonial mais inteligente dos arcônidas e contavam-se entre os
aliados mais fiéis dos mesmos.
Jeremy Toffner não teve a menor
dificuldade em desaparecer em meio à população de Tagnor, uma
cidade que contava trinta milhões de habitantes. Tagnor era a
capital do planeta Zalit, e cobria uma área maior que muitos países
terranos. A população total do planeta era muito superior a oito
bilhões de habitantes, motivo por que uma aglomeração de trinta
milhões não tinha nada de extraordinário.
Da mesma forma que em Árcon,
também aqui predominavam as construções em forma de funil. A
entrada ficava na boca do funil, e por ela o visitante penetrava num
mundo completamente isolado do exterior. As residências
localizavam-se em cima de degraus presos à parte interna das paredes
inclinadas do funil.
A forma afunilada dos edifícios
correspondia ao desejo dos arcônidas, que queriam uma residência
individual e isolada. Os zalitas adotaram e conservaram este costume
dos antepassados.
O maior dos edifícios-funis era
o do governo, que era dirigido por um Zarlt. Esse Zarlt estava
submetido ao computador-regente de Árcon e cumpria-lhe todos os
desejos.
Toffner conseguiu escapar à
atenção dos numerosos guardas, mas não conseguiu livrar-se de uma
sensação desagradável. Mantinha-se sempre próximo à toca do
leão. Árcon ficava perto, perto demais. Se o descobrissem, isso
poderia acontecer tão de repente que não teria tempo de destruir
seus documentos secretos. Talvez nem tivesse tempo para matar-se, a
fim de escapar a um interrogatório que poderia trazer as piores
conseqüências para a Terra.
A supercivilização dos zalitas
manifestava-se num retorno à barbárie. Não eram tão degenerados
como os arcônidas, mas sofriam do tédio resultante de toda e
qualquer perfeição. Certas medidas foram tomadas para vencer esse
tédio e, como houvesse tecnologia de sobra, abusava-se desta para
promover um regresso ilusório de condições que de há muito
pertenciam à História.
Quando se fixou em Tagnor,
Jeremy Toffner jogou com estas circunstâncias. Não poderia
dedicar-se a qualquer ramo de atividade oficialmente reconhecido sem
despertar ao menos a atenção das autoridades, eternamente
desconfiadas. Mas bastaria dedicar-se a um negócio, que só em parte
fosse legal, para travar conhecimento com zalitas e mesmo com órgãos
do governo, que não levavam muito a sério o cumprimento da lei.
A manutenção de arenas de
gladiadores era permitida e chegava mesmo a ser estimulada pelo
governo. Apesar disso, as mesmas cheiravam a ilegalidade, e
tratava-se de uma ilegalidade que não era confirmada ou negada por
ninguém. Era uma situação estranha, que Toffner não sabia
explicar.
Encontrou uma residência num
dos edifícios-funis, mas via de regra permanecia embaixo da
superfície, nos amplos pavilhões e vestiários da arena principal.
Por ali conhecia todos os cantos, todos os esconderijos, todos os
corredores. E era ali que escondia o equipamento secreto que qualquer
agente cósmico do Império Solar possuía, fosse qual fosse o lugar
em que se achava.
Na caixa metálica, que não era
muito pequena, havia o hiper-rádio. Por meio dele, Toffner
transmitia, a intervalos regulares, às estações retransmissoras
espalhadas pelo espaço a informação de que ainda estava vivo. E
era por meio dela que recebia ordens e instruções. Era o único
terrano em Zalit, e esse rádio constituía seu único elo de ligação
com a Humanidade.
Fazia quase quatro anos que
estava no local.
Quando chegara, obtivera das
autoridades licença para promover lutas entre os sanguinários
haraks
e os gladiadores voluntários. Sua fama crescia cada vez mais, ao
menos aos olhos das pessoas que faziam um bom negócio com essas
lutas. Estas pessoas o elogiavam pelas boas idéias que costumava ter
e lhe garantiam uma percentagem elevada dos lucros esperados.
Toffner bem que gostava disso.
Também em Zalit precisava-se de dinheiro para viver, e as reservas
com que viera não eram inesgotáveis.
Antes de ir para casa, resolveu
visitar seu cubículo secreto nas profundezas da rocha. Não era hora
de transmitir a notícia rotineira, mas talvez fosse o instinto que o
prevenia. De qualquer maneira, não se sentiu muito surpreso quando,
ao entrar no recinto, notou que a luz vermelha estava acesa.
Isso significava que havia uma
hiper-mensagem para ele.
Trancou apressadamente a porta e
ligou o aparelho. Menos de um minuto depois, viu na tela o rosto de
um homem desconhecido. Esse rosto contemplou-o com uma expressão de
curiosidade e sorriu.
— O senhor é o agente
Toffner, código ZV-4?
ZV-4 significava Zalit-Voga —
4o
planeta.
— Sou — disse.
O homem disse:
— O chefe que falar com o
senhor. Espere trinta segundos.
— O chefe?
Só havia dois homens que
costumavam ser designados como chefe. O primeiro, naturalmente, era
Perry Rhodan, administrador do Império Solar. O outro era Mercant,
chefe do Serviço de Segurança Solar. O que Mercant poderia querer
dele?
Subitamente Toffner sentiu um
calafrio.
“Será que o chefe que
deseja falar comigo é Rhodan?”,
pensou.
Aguardou à frente da tela.
Passaram-se vinte segundos. Trinta...
Quando o rosto voltou a
aparecer, Toffner percebeu que sua suposição fora correta. Perry
Rhodan fitou-o atentamente. Seus olhos frios pareciam penetrar em seu
corpo e enxergar até o canto mais recôndito de sua mente.
— O senhor é Jeremy Toffner?
— Sim senhor — Toffner não
conseguiu dizer mais que isso.
— Estou falando de bordo de
uma nave, e a mensagem foi distorcida. Apesar disso, prefiro que não
indiquemos nenhum lugar. O perigo seria muito grande, principalmente
para o senhor. Faz três anos que o senhor está por aí. Notou algo
de extraordinário nestes últimos dias?
Toffner sentiu-se perplexo.
Respondeu em tom hesitante:
— Não senhor. Não que eu me
lembre. Os z... os habitantes estão tranqüilos e tudo está normal
com o governo. Não houve qualquer acontecimento extraordinário.
— Vou formular a pergunta em
termos mais específicos, para que o senhor compreenda o que quero
dizer — disse Rhodan, logo depois. — Existe outro sistema solar
que não fica muito longe do lugar em que o senhor se encontra. Acho
que compreendeu o que quero dizer. Procure descobrir se o mundo em
que o senhor se encontra recebe visita desse sistema, uma visita com
intenções especiais. Se isso acontecer, avise imediatamente.
— Não sei se estou
compreendendo...
— Pois é simples, Toffner.
Quero saber se os habitantes do planeta são deixados à vontade, ou
se há alguém que se imiscui nos assuntos internos de ZV-4.
Toffner fitou o rosto de Rhodan
com certa perplexidade.
— É claro que os habitantes
do planeta são livres, mas estão sendo vigiados. O governo local
tem pouco a ver com isso. Não sei se me fiz entendido.
— Compreendi muito bem.
Obrigado; é só. Entrei em contato com o senhor principalmente para
que compreenda a importância da posição que ocupa, ou melhor, a
importância que essa posição poderá ter no futuro. O senhor é
meu posto avançado numa guerra que ainda não começou. Passe bem,
Toffner.
A tela apagou-se, mas Toffner
ficou fitando-a pelo menos por mais dez minutos. Parecia que, de um
instante para outro, fora tomada uma decisão sobre seu destino. Sua
permanência em Zalit era perigosa, e ela o fora desde o momento da
chegada. Mas sempre havia certa diferença entre um perigo remoto e
um perigo iminente.
Continuou a dedicar-se àquilo
que pareciam ser suas tarefas normais, mas passou a prestar maior
atenção ao que se passava em torno dele. No início não percebeu
nada de anormal. As naves de Árcon chegavam com a mesma freqüência
dos anos anteriores. Traziam mercadorias, robôs de trabalho,
equipamento técnico e alimentos sintéticos. Naturalmente também
traziam soldados que deviam revezar os que estavam acantonados em
Zalit.
Via de regra, os oficiais eram
arcônidas ou membros de outros povos auxiliares. Já a tropa
propriamente dita incluía mais robôs que seres orgânicos. Há
tempos imemoriais Árcon mantinha esse tipo de guarnição nos
planetas coloniais. Tais guarnições atuavam sob o disfarce de
forças policiais ou elementos auxiliares. Só a contragosto os
zalitas se submetiam a esse suave jugo, mas não se atreviam a
provocar a ira do todo-poderoso regente de Árcon, que estava tão
próximo. A lembrança das expedições punitivas ainda estava viva
na memória dos habitantes do planeta.
As instruções de Rhodan eram
claras.
Toffner passou a observar as
tropas de Árcon. Mas, por mais que se esforçasse, não descobriu
qualquer modificação. Ao que tudo indicava, as suspeitas de Rhodan
não tinham fundamento.
As mensagens dirigidas ao
Serviço de Segurança Solar prosseguiam normalmente, mas permaneciam
no campo da rotina.
Os dias foram passando,
enfileiraram-se em semanas e em meses. Rhodan não chamou mais.
Toffner começou a acreditar que só queriam despertá-lo de uma
suposta letargia. Era possível que os agentes solitários
precisassem, vez por outra, de uma ducha de perigo. Podia ser.
Exatamente três meses depois do
dia em que recebeu o chamado de Rhodan, Toffner alugou um dos
planadores com piloto automático, que costumavam ser usados no
planeta, e foi a Larg, uma das maiores cidades situadas ao leste de
Tagnor.
Larg, que tinha apenas cinco
milhões de habitantes, era um dos principais centros comerciais de
Zalit. As feiras mensais eram visitadas por caravanas modernas,
comerciantes ricos, vigaristas... e pela polícia.
Toffner alugou um quarto num
hotel e foi ao mercado, a fim de procurar os objetos de que precisava
para as futuras lutas de gladiadores. O mercado de animais estava bem
sortido como sempre. Levou apenas algumas horas para fazer alguns
pedidos. Pagou adiantado, pois conhecia a maior parte dos
comerciantes. Uma vez fechado o negócio, o mesmo costumava ser
regado com bebida. Por isso não era de admirar que, ao anoitecer,
Toffner se encontrasse no meio de um grupo alegre, indo parar num
bar.
O treinamento hipnótico,
recebido na Terra, habilitara Toffner a falar o genuíno dialeto
zalita, que não passava do arcônida com um ligeiro sotaque.
Conhecia todas as nuances do linguajar do planeta.
— Ei, Garak! Fico satisfeito
em vê-lo em Larg — gritou alguém que se encontrava numa mesa do
outro lado do recinto cheio de mercadores, compradores e outros tipos
de gente. Em algum canto alguém cantava uma canção triste, mas
ninguém lhe dava atenção. — Veio para comprar novas atrações?
— Vim — respondeu Toffner. —
E você, Kharra? Arranjou bastante vinho para dar banho em toda a
família?
Kharra, o mercador de vinho,
soltou uma estrondosa gargalhada e deu um gigantesco copo para
Toffner e seus amigos.
Toffner voltou a prestar atenção
à conversa dos homens sentados à sua mesa.
— Não estou gostando muito —
disse Markh, o caçador de animais vivos em tom exaltado. — Até
parece que toda a Galáxia está em rebuliço, e que precisam de
muitos soldados. Não estou com vontade de ser enfiado numa nave...
— Não quer que lhe façam o
que você faz com os animais — gritou alguém na intenção de
fazer uma piada, mas ninguém riu.
Markh prosseguiu sem dar atenção
ao falso humorista.
— Pelo que ouvi dizer, todos
os dias são formados novos comandos. É claro que são de
voluntários. Mas tenho a impressão de que o Zarlt já está
exercendo uma suave pressão, ou melhor, vem transmitindo a pressão
suave que recebe de Árcon.
Todos falaram ao mesmo tempo,
dando sua opinião. Ao que parecia, ninguém concordava com a guerra
que estava sendo travada na distante Via Láctea. Hhokga, um opulento
comerciante de tecidos, formulou sua opinião nos seguintes termos:
— Em Zalit estamos passando
bem, e ninguém nos ameaça. Nenhuma nave mercante nossa foi atacada.
O que temos a ver com a guerra de Árcon? Eu nunca me apresentarei
voluntariamente.
— Nem eu! — disseram os
demais, quase em coro.
Depois de uma ligeira pausa,
Markh disse:
— Receio que, dentro de pouco
tempo, os voluntários não serão suficientes, e então recorrerão
à violência propriamente dita. Tenho um pressentimento de que vai
acontecer isso mesmo, amigos.
Toffner sentiu-se aborrecido por
ter perdido o início da conversa.
— De que estão falando? —
perguntou. — Está havendo alguma guerra?
O caçador lançou um olhar de
espanto para seu melhor freguês e respondeu:
— Você deveria interessar-se
mais pelo que acontece em Tagnor e arredores, pois do contrário um
belo dia será atropelado pelos acontecimentos. Será que você não
lê os jornais? Todos os dias são publicados apelos do governo, para
que os cidadãos ingressem voluntariamente na frota espacial. E o que
acontece com os pobres coitados que atendem aos apelos? São
colocados nas naves robotizadas de Árcon e desaparecem para sempre.
Calou-se de repente e olhou para
a porta.
Toffner empalideceu sob a pele
colorida. Dois zalitas uniformizados entraram no botequim e olharam
para os lados em atitude provocadora, como se estivessem à procura
de alguma coisa. As conversas nas outras mesas cessaram. Todos
fitaram os policiais do Zarlt. Pareciam ter a consciência pesada.
Mas os dois homens uniformizados
viraram-se e foram saindo. Seguiu-se uma forte sensação de alívio.
Markh suspirou e disse mais baixo que antes:
— Ficam espiando a gente em
tudo quanto é lugar. Acho que já estão escolhendo as vítimas. O
Zarlt não passa de um criado de Árcon. Éramos tão felizes sem a
proteção dos arcônidas, que são governados por um computador
desalmado. Gostaria de saber por que temos de obedecer a uma máquina.
Toffner inclinou-se para a
frente e cochichou:
— Fique quieto, Markh, senão
acabaremos todos na cadeia. Não estamos passando bem? Não
deveríamos sentir-nos satisfeitos? Que importa se alguns malucos se
apresentem voluntariamente para servir na frota espacial para morrer
em algum mundo distante? Enquanto nos deixarem em paz...
— Acontece que não nos
deixarão em paz! — exclamou Markh. O caçador manteve uma atitude
obstinada, o que deixou Toffner satisfeito no seu íntimo. — Dentro
de pouco tempo não nos perguntarão se queremos ir ou não. Eles nos
obrigarão.
— Você está exagerando! —
Hhokga demonstrou vontade de levar a palestra a outra trilha. — Por
enquanto trata-se de voluntários; isto é um fato incontestável. Se
as coisas mudarem, ainda teremos tempo de tomar nossas providências.
— Caramba! — gritou Markh em
tom zangado. — Que providências podemos tomar?
Dali em diante, a palestra
passou a arrastar-se. O bom humor dos negociantes se fora; cada uma
estava entregue aos seus pensamentos. Toffner logo se despediu e
voltou ao hotel, onde procurou digerir aquilo que acabara de ouvir.
Seriam estas as informações
que Rhodan desejava receber?
Resolveu enviar na noite
seguinte um relatório sucinto ao Império Solar. A estação
retransmissora mais próxima o captaria, fosse qual fosse o lugar em
que se encontrasse a respectiva nave.
E foi assim que Perry Rhodan
recebeu, um mês antes da conferência realizada em Terrânia, a
notícia de que o regente de Árcon estava substituindo seus robôs
por voluntários recrutados entre todas as raças.
O computador reconhecia que não
poderia arranjar-se sem inteligências orgânicas.
Era um fator de pouca
importância, que convidava a certas reflexões e infundia alguma
esperança...
*
* *
Das janelas de seu gabinete,
Rhodan via perfeitamente a capital da Terra, ou ao menos um lado
desta. Terrânia crescera e continuava a crescer a cada dia que
passava. As construções não eram realizadas ao acaso; os edifícios
e as ruas iam surgindo em conformidade com planos previamente
traçados, circunstância que concorria para melhorar o aspecto da
cidade. Terrânia parecia ter atravessado um processo de crescimento
orgânico... e realmente atravessara. Bell entrou no gabinete. Viu
Rhodan parado junto à janela e aproximou-se do mesmo.
— Esta cidade parece uma
fábula — disse em tom sonhador, o que não combinava com seu
caráter. — É aqui que vêm ter todos os fios, e estes passam por
nossas mãos. É a metrópole do Sistema Solar. Temos motivo para
orgulhar-nos...
Rhodan virou ligeiramente a
cabeça e disse:
— Devemos pensar em descobrir
um meio de conservar Terrânia.
Bell fitou-o com uma expressão
de perplexidade no rosto.
— O que quer dizer com isso,
Perry? Conservar a cidade? Quem...?
— É Árcon! Acho que você já
sabe, pois os termos de nossa palestra foram muito claros. Ou
destruímos o cérebro positrônico, ou seremos destruídos por ele.
Não existe outra alternativa. Seria inútil firmarmos outro tratado,
pois sabemos perfeitamente quais são as intenções do regente. E
não haverá ninguém que o demova disso. Já refletiu sobre todas as
possibilidades?
Bell parecia embaraçado.
— Para dizer a verdade, devo
confessar que não. Pensei que isso não tivesse tanta pressa.
— Temos muita pressa! —
Rhodan voltou a olhar para a cidade, que se estendia até o
horizonte. Para além da metrópole começava o grande deserto, que
atualmente era cortado por grandes estradas. — O computador-regente
tem mais tempo que nós, mas vem se apressando. Acho que chegou a
hora de agir.
— O que pretende fazer?
— A palestra que tivemos
concorreu para reforçar minha decisão. Devemos lançar um ataque
direto contra Árcon. O computador-regente tem um ponto vulnerável:
o dispositivo de segurança. Se o descobrirmos, o regente estará
liquidado.
— Não será fácil —
ponderou Bell.
— Não será fácil? —
repetiu e deu uma risadinha, mas seu rosto logo voltou a tornar-se
sério. — Diria que é quase impossível. Pelo que se depreende dos
relatórios enviados por nossos agentes, é totalmente impossível
romper o anel de fortificações que cerca Árcon. Por meio da
violência não conseguiremos nada. Nem mesmo o transmissor de
matéria seria capaz de romper os campos de radiações. Para
chegarmos a Árcon, teremos de recorrer aos meios legais.
— Aos meios legais? Quer dizer
que teríamos de obter a permissão do regente? Não sei como...
— Eu também ainda não sei —
respondeu Rhodan em tom preocupado. — Mas havemos de encontrar um
caminho.
Bell não respondeu. Lançou um
olhar para o movimento da cidade, para as ruas largas com os carros
pilotados automaticamente, para os táxis planadores e para a
multidão que se comprimia no bairro comercial.
Esteve a ponto de dizer alguma
coisa, mas o silêncio foi rompido por uma campainha estridente.
De um salto, Rhodan colocou-se à
frente do quadro de comando que ocupava toda uma parede. Num
movimento rápido moveu para baixo uma pequena chave.
A tela iluminou-se e um rosto
apareceu.
— Mensagem para o chefe!
Mensagem para o chefe! Mensagem para...
— Aqui fala o chefe! — disse
Rhodan em tom impaciente, interrompendo a frase repetida. — O que
houve?
O rosto na tela quase não se
modificou.
— É uma ligação de Vênus,
Sir. No momento, o Marechal Mercant se encontra lá.
— Já sei. Pode completar a
ligação.
Não demorou dez segundos até
que a coroa de cabelos ralos de Mercant surgisse na tela. O chefe do
Serviço de Segurança Solar mantivera-se jovem, pois recebera, tal
qual Rhodan e Bell, a ducha celular rejuvenescedora.
— Ainda bem que a ligação
está boa — disse em tom satisfeito. — Tive a intenção de
esperar até que a Burma chegasse aí, mas concluí que é melhor
informá-lo imediatamente.
— A Burma? — ao que parecia,
Rhodan não conseguia lembrar-se.
Mercant ajudou-o a lembrar-se.
— A Burma está estacionada
nas proximidades da área de superposição entre nosso Universo e o
dos druufs. Funciona como estação retransmissora para nossos
agentes cósmicos. Meu elemento de confiança informou que deseja
fazer chegar ao senhor uma mensagem pessoal. Daqui a alguns minutos,
a Burma deverá pousar em Terrânia. Era o que eu lhe queria dizer.
Como vai o senhor?
— Bem, obrigado — respondeu
Rhodan. Ao que parecia, não estava disposto a dar uma resposta mais
detalhada à pergunta de Mercant. — Dentro de poucos dias nos
veremos. Até lá mantenha-se livre dos sáurios.
Mercant compreendeu, e desligou.
A tela apagou-se.
Bell saíra de junto da janela.
— O que significa isso, Perry?
A Burma tem algo a ver com nossos planos relativos a Árcon?
— Talvez, Bell. Não sei. Está
trazendo uma mensagem. De quem pode ser essa mensagem? De Árcon? De
algum dos nossos agentes? Se for assim, por que motivo a mensagem
deve ser transmitida pessoalmente? Sinto muito, mas não posso
responder à sua pergunta. Só nos resta aguardar.
— Mercant disse que a Burma
deverá pousar dentro de poucos minutos. Ele deve saber, mesmo que
esteja em Vênus.
Rhodan estava pronto para sair.
— Acho que precisamos de ar
puro. Quer ir comigo até o espaçoporto?
*
* *
Nada aconteceu nos vinte dias
que se seguiram à visita ao mercado, mas Toffner teve tempo para
convencer-se da veracidade das informações de Markh, o caçador.
Realmente, todos os dias saíam grandes naves transportadoras do
regente com voluntários destinados a Árcon.
Mas no vigésimo segundo dia
aconteceu.
Dois supercouraçados pousaram
no espaçoporto de Tagnor. Tratava-se de veículos espaciais
esféricos de mil e quinhentos metros de diâmetro, acompanhados de
uma série de gigantescas naves de transporte. Um exército de robôs
de guerra — monstros metálicos de três metros de altura — saiu
das duas naves de guerra e entrou em formação. Os braços armados
situados na altura do ventre, capazes de girar num ângulo de cento e
oitenta graus e supridos de energia pelas baterias arcônidas,
giraram lenta e ameaçadoramente. Assim que o exército acabou de
entrar em formação, imobilizou-se de uma hora para outra. Alguém
desativara os robôs.
Esse alguém não demorou a
aparecer.
Um arcônida, inconfundível
pela arrogância e pelo uniforme vistoso, no qual mal havia lugar
para os distintivos e condecorações, dirigiu-se à superfície do
planeta Zalit e exigiu que o levassem imediatamente ao palácio do
Zarlt.
Toffner não soube o que
aconteceu e o que foi discutido por lá, mas os acontecimentos dos
próximos dias não deixaram dúvidas sobre isso.
O Zarlt publicou uma proclamação
dirigida a toda a população, na qual ordenou que todos os homens
jovens se apresentassem à comissão de recrutamento dirigida por
Calus, um almirante arcônida. Os exames seriam iniciados ao
amanhecer do dia seguinte. Qualquer recusa daria lugar à aplicação
de penas gravíssimas.
A proclamação foi publicada na
imprensa diária e transmitida constantemente durante as programações
de televisão. Qualquer pessoa tomaria conhecimento da mesma, e não
se admitiria desculpa. Indicou-se um prazo, e a ordem da apresentação
seguia certos critérios, baseados na idade ou na profissão.
Jeremy Toffner calculou que
disporia exatamente de dez dias; depois desse prazo estaria sujeito a
penalidades.
Seriam dez dias tão longos e
tão terrivelmente curtos em Zalit.
Na noite do mesmo dia passou
apressadamente pelas ruas de Tagnor, a fim de alcançar seu
esconderijo. Por várias vezes notou grupos que discutiam
acaloradamente, e que conversavam sobre assuntos sem importância,
enquanto passava por eles. Mas não se iludiu. Sabia sobre o que
estavam falando.
Irradiou a notícia alarmante e
solicitou novas instruções. Por uma questão de precaução ligou o
gravador automático. Se durante sua ausência chegasse alguma
mensagem, esta seria gravada, depois de decodificada. Poderia ouvi-la
a qualquer momento. Dessa forma não perderia nenhuma mensagem que
viesse fora da hora marcada.
Saiu do cubículo, trancou-o
cuidadosamente e deixou que a parede de rocha natural voltasse a
encobrir a porta. Nem mesmo os olhos desconfiados de um policial
descobririam a fenda que, além de ser muito fina, corria num traçado
irregular.
Caminhou o mais depressa que
pôde pelos corredores debilmente iluminados, pois desejava chegar à
superfície o quanto antes. Se alguém o encontrasse por ali, teria
de responder a algumas perguntas. Mas isso não era o pior. Nesses
subterrâneos ficavam as jaulas dos animais, os vestiários e os
aposentos dos gladiadores e os pavilhões de treinamento. Cabia-lhe
andar por ali para verificar se tudo corria bem. No entanto, preferia
evitar qualquer contato com as autoridades de Tagnor.
Chegou à sua residência,
situada num edifício-funil, sem que ninguém o incomodasse. O número
de policiais que patrulhavam a cidade era maior que nos outros dias,
mas ninguém o abordou. Depois das pequenas demonstrações a que já
assistira, não era de admirar que o policiamento fosse
intensificado.
Tirou a chave do bolso e esteve
a ponto de enfiá-la na fechadura, quando uma sombra se destacou em
meio à escuridão do corredor. A sombra aproximou-se e parou a seu
lado. Toffner quase morreu de susto.
Teria sido descoberto? Será que
seu jogo chegara ao fim?
Quando ouviu a voz que se
dirigiu a ele, suspirou aliviado.
— Não se assuste, Garak, sou
eu.
Era Markh, o caçador!
Tratava-se de um amigo de Toffner, com o qual costumava fazer
negócios.
— Você me deu um susto —
disse Toffner e apertou a mão de Markh. — Por que resolveu
esperar-me aqui? Você sabe onde encontrar-me de dia.
— Vamos entrar, Garak. O que
tenho a lhe dizer não deve ser ouvido por mais ninguém.
Toffner sentiu a insistência
que vibrava na voz de seu interlocutor e não fez outras perguntas.
Começou a desconfiar de que o acaso viera em seu auxílio, embora
sua situação começasse a tornar-se crítica. Devia tentar reunir
os dois fatores, para extrair o maior proveito possível da situação.
Abriu apressadamente a porta e
deixou que o caçador entrasse. Voltou a fechá-la e certificou-se de
que, durante sua ausência, ninguém entrara para instalar algum
microfone. Costumava proceder assim todas as noites; tal procedência
não passava de uma rotina de importância vital. Markh contemplou-o
em silêncio.
— Tudo em ordem. Vamos sentar.
Sobre a mesa havia uma garrafa bojuda com vinho. Tomaram alguns
goles. Toffner lançou um olhar indagador para o caçador.
— O que o trouxe até aqui,
Markh? Fale à vontade, pois ninguém poderá ouvir-nos. Suponho que
você deva ter um bom motivo para vir a esta hora; não deve ter
vindo por puro prazer.
O rosto de Markh, que costumava
ser tão juvenil e tostado pelo sol de Voga, mostrava uma palidez
espantosa. Apesar disso, porém, era mais escuro que o de um europeu
que acaba de passar um mês na zona do equador. No entanto,
faltava-lhe a tonalidade do cobre, característica de todos os
zalitas. Em seus olhos havia uma expressão de pavor. Markh devia ter
sentido muito medo.
Por quê? Pois o recrutamento só
seria iniciado no dia seguinte.
— Você viu as naves que se
encontram no espaçoporto? — principiou. Toffner limitou-se a
acenar com a cabeça. — Eu sabia que isso acabaria acontecendo.
Levarão todos os jovens. Estão travando uma guerra e não conseguem
vencê-la. Ou então preparam um grande golpe contra alguém que deve
ser mais forte que Árcon. E querem que nós os ajudemos.
— Deve ser mais ou menos isso
— disse Toffner.
— Pois então. O que pretende
fazer? Ir com eles para morrer?
— Quem lhe disse que eles nos
levarão? — disse Toffner para estimular o espírito de contradição
do amigo. Só assim poderia saber tudo que precisava saber. —
Talvez seja apenas um exame de rotina, para qualquer eventualidade.
— Será que para isso teriam
de trazer um exército de robôs?
— Talvez não. Acontece que
Árcon gosta de fazer demonstrações de força. Você não acha que
a presença dos robôs constitui prova de que o Império não corre
qualquer perigo? Do contrário, o regente não poderia dispensar suas
tropas.
— Eu já lhe disse o que estão
tramando — disse Markh, insistindo em sua suspeita.
— Talvez só precisem dos
robôs de guerra mais tarde. E quando isso acontecer, estaremos ao
lado deles.
Toffner refletiu.
— Suponhamos que sua suposição
seja correta. O que pretende fazer? Recusar-se e correr o risco de
enfrentar os fuzis energéticos dos arcônidas?
— Pouco importa que eu morra
agora ou dentro de pouco tempo, a bordo de alguma nave e em meio a um
grupo de robôs desalmados.
— Vai arriscar-se? — Toffner
lançou um olhar indagador para Markh. Quando notou o gesto
afirmativo de Markh, acrescentou:
— Por que veio falar
justamente comigo? O que posso fazer por você? Terei de
apresentar-me daqui a dez dias, e não tenho a menor dúvida de que
me julgarão apto.
Markh inclinou o corpo.
— Fiquei sabendo há poucas
horas. Deverei apresentar-me dentro de dois dias, Garak! Dois dias!
— E daí?
Toffner fingiu-se de
indiferente, mas em seu interior rugia uma verdadeira tormenta. Seria
esta a chance de, depois de três anos de faina, conseguir um
verdadeiro amigo e aliado? Ou estaria próximo ao fim?
— E daí? Não quero ir com os
arcônidas. Prefiro viver nas catacumbas que ficam embaixo de sua
arena, proscrito e escondido, procurado pela polícia, transformado
num prisioneiro voluntário. Será que ainda não compreendeu?
Toffner compreendia
perfeitamente. Evidentemente o caçador sabia que para ele só havia
uma possibilidade de escapar aos comandos de recrutamento. Teria de
esconder-se num lugar em que ninguém o encontrasse. E que lugar
poderia ser melhor que as catacumbas existentes embaixo da cidade de
Tagnor? Muitas delas eram antiqüíssimas, e parte delas desabara,
parte fora esquecida.
— Nas galerias que ficam
embaixo da arena? — repetiu o agente, para ganhar tempo. — O que
espera conseguir com isso? Afinal, você não pode passar o resto dos
seus dias sem sol e longe dos homens.
— Nem pretendo fazer isso,
Garak. Um belo dia, quando tiverem arranjado um número suficiente de
soldados, os arcônidas irão embora. Depois poderei sair do
esconderijo e começar vida nova. Quando o tal do Calus tiver dado o
fora, os policiais do Zarlt já não terão o menor interesse por
mim.
Toffner teve suas dúvidas.
— Não sei se devo concordar
com você. Muita gente terá a mesma idéia. Se o afluxo de recrutas
diminuir muito, procurarão localizar os elementos faltantes. E onde
serão iniciadas as buscas? É claro que será nas catacumbas.
Markh não respondeu
imediatamente. Manteve um silêncio obstinado. Toffner via
perfeitamente que o zalita já se arrependera por ter informado
alguém sobre seus planos. Mas depois de alguns minutos, o caçador
voltou a levantar a cabeça.
— Sempre fizemos bons negócios
e somos amigos. Se eu lhe pedir, você me ajudará? Tenho dinheiro,
Garak. Só lhe peço que me forneça mantimentos. Prefiro um cubículo
nas pedras a uma luxuosa nave arcônida. Acho que você compreende.
Toffner percebeu que não
deveria forçar a situação.
— É claro que quero ajudá-lo
e sei muito bem onde poderei escondê-lo. Mas, de uma hora para
outra...
— Ainda disponho de dois dias.
Voltarei a Larg e providenciarei para que alguém cuide dos meus
negócios. Será um velho, que ninguém convocará para o exército.
Ele dirá que estou numa caçada e ainda não voltei. É bem possível
que se esqueçam de mim. Trarei minha fortuna em dinheiro, que não é
pequena. Além disso, trarei um amigo. Trata-se de uma pessoa que
também não está interessada em entrar para o serviço das armas.
— Revelou seus planos a
alguém? — perguntou Jeremy em tom apavorado. — Não acha que foi
uma leviandade?
— Trata-se de Kharra, o
negociante de vinhos. Você o conhece. Bem, ver-nos-emos daqui a dois
dias. Pode ser aqui em seu apartamento, à mesma hora?
Toffner apertou a mão de Markh.
— Confie em mim. É possível
que vocês não fiquem sós em seu esconderijo. Também não estou
com a menor vontade de dizer adeus ao planeta Zalit. Um belo dia,
Calus terá de ir embora.
Markh levantou-se; parecia muito
satisfeito. Agradeceu efusivamente e, ao despedir-se, prometeu tomar
cuidado para não provocar suspeitas.
Jeremy Toffner voltou a ficar
só.
Quando se viu na cama e fechou
os olhos, teve um desejo ardente: queria receber instruções
concretas pelo hiper-rádio.
Encontrava-se num beco sem
saída...
2
O cruzador ligeiro Burma, da
classe Estado, deu alguns hipersaltos que o levou a vários pontos da
Via Láctea, e acabou pousando no espaçoporto de Terrânia. Ao
proceder dessa forma, o comandante seguia uma regra geral, segundo a
qual não se devia confiar exclusivamente no neutralizador de
vibrações, montado em série, muito embora tal aparelho
neutralizasse os abalos causados pelos hipersaltos, tornando
impossível a localização goniométrica da nave. Mas a experiência
havia dado aos terranos uma amarga lição: um aparelho desse tipo
está sujeito a falhas, e quando estas ocorrem, todas as tentativas
de camuflagem se tornam inúteis. E a descoberta da posição da
Terra representaria o fim.
O comandante da Burma emitiu uma
ordem geral no sentido de que ninguém deveria sair da nave.
Fundamentou a medida com o fato de que o cruzador ligeiro voltaria a
decolar dentro de trinta minutos no máximo.
Depois pediu a presença do
Tenente Behrends, encarregado da estação retransmissora destinada
ao tráfego com os agentes.
Dali a cinco minutos, Rhodan e
Bell entraram no convés de comando da Burma e, depois de
cumprimentarem ligeiramente o comandante, acompanharam o Tenente
Behrends para a sala de rádio.
Behrends era um oficial jovem,
mas muito competente e experimentado. Há anos pertencia à equipe
que mantinha contato com os agentes espalhados por todos os cantos.
Rhodan conhecia-o pessoalmente e sabia que podia confiar nele. As
precauções tomadas por Behrends constituíam a melhor prova disso.
Afinal, a importantíssima mensagem poderia ter sido transmitida como
qualquer outra. Havia uma probabilidade de 99 por cento de que esta
não fosse captada por qualquer pessoa não autorizada. Mas Behrends
achou que o um por cento que sobrava ainda representava um risco
excessivo.
— Foi o senhor que recebeu a
mensagem? — perguntou Rhodan para certificar-se, quando finalmente
se viram a sós na sala recheada de equipamentos técnicos e
aparelhos de todos os tipos. — Quem a expediu? Será que foi Jeremy
Toffner, nosso agente em Zalit?
O Tenente Behrends interrompeu o
que estava fazendo e virou-se abruptamente. Fitou Rhodan como se o
administrador fosse um fantasma.
— É de Toffner, Sir —
gaguejou. — Como foi que o senhor soube?
Rhodan sorriu.
— Era o que eu imaginava.
Behrends recuperou-se do
espanto.
— Não falei com ninguém
sobre isso e tratei o assunto com o maior sigilo. Por motivos de
segurança preferi não retransmitir o texto da mensagem ao Marechal
Mercant. E, apesar de tudo, o senhor já sabe de que se trata. Não
compreendo, Sir.
— Foi apenas uma suposição,
tenente. Vejo que se confirmou. Mas tranqüilize-se; eu já esperava
notícias importantes de Zalit. Na verdade, já as esperava há
algumas semanas.
O Tenente Behrends parecia mais
tranqüilo, pois chegou à conclusão de que não cometera nenhum
erro. Aliás, isso seria incompreensível...
Com as mãos ágeis ligou o
projetor sonoro e colocou o dedo sobre os lábios. A transmissão não
era muito nítida; havia interferências. Faltavam algumas palavras,
mas o sentido era claro. Era fácil substituir os fragmentos.
Rhodan e Bell mantiveram-se em
silêncio, prestando atenção à voz de um homem solitário, que
dependia exclusivamente da própria capacidade para prestar seus
serviços à Terra. Vivia em meio a uma raça estranha e nunca sabia
se assistiria ao amanhecer do dia seguinte. Os agentes cósmicos
mereciam todo respeito, pois eram os homens mais valentes e mais
solitários do Universo.
— Há algumas horas Árcon
vem obrigando os zalitas a entrarem no serviço da frota. Não fazem
exceções. A ação vem sendo dirigida por um certo Almirante Calus.
É relativamente jovem e desenvolve uma atividade espantosa para um
arcônida. O Zarlt submeteu-se sem oferecer a menor resistência.
Kosoka, o Zarlt, é um velho debilitado que faz tudo que Árcon lhe
pede. Aguardo novas instruções.
Rhodan estava prestando atenção,
mas a voz de Toffner já silenciara.
— Como soube que esta notícia
é tão importante? — perguntou, dirigindo-se a Behrends. — Seu
texto não parece ser muito sigiloso.
— É possível — respondeu o
tenente, que já tinha vencido o espanto. — Acontece que Zalit é o
mais importante dos nossos postos avançados e o mais exposto. Em
hipótese alguma, devemos perdê-lo, e é por isso que agi com
tamanha cautela. Além disso, a mensagem confirma que Árcon está
recrutando tropas, fato que também resulta das mensagens recebidas
de outros mundos coloniais. Fiz questão de evitar que alguém saiba
que em Zalit existe um terrano. E o regente deverá ter exatamente
essa suspeita se ficar inteirado de nossa reação.
— Muito bem — disse Rhodan e
lançou um olhar benevolente para o jovem tenente. — Agiu com
grande circunspeção; merece elogios. É bem verdade que tomaremos
nossas medidas, mas quando Árcon perceber alguma coisa, já será
tarde. Isto é, se tudo correr de acordo com os planos. E faço votos
sinceros de que seja assim.
O Tenente Behrends levantou-se.
— Quer voltar a ouvir a
mensagem, ou posso apagá-la?
— Apague-a, Behrends. E volte
a seu posto. Nos próximos dias, você receberá uma mensagem
relativa a Toffner. Providencie para que seja transmitida
imediatamente. Deve ser condensada e codificada ao extremo. É muito
importante.
— Posso imaginar — respondeu
Behrends e fez continência.
Rhodan e Bell saíram da sala de
rádio. Do lado de fora encontraram-se com o comandante.
— Decole dentro de cinco
minutos — ordenou Rhodan.
Quando voltou a sentir o
pavimento do espaçoporto sob os pés, sentiu-se aliviado. Sem dizer
uma palavra, subiu ao planador juntamente com Bell.
O campo de pouso foi ficando
para trás.
— E agora? — perguntou Bell.
— Vamos acelerar nossos planos?
Rhodan respondeu com a maior
tranqüilidade:
— Não aceleraremos tanto
nossos planos, mas principalmente a execução dos mesmos. Ainda bem
que já preparei tudo. A ação infiltração será iniciada ainda
hoje.
— Tomara que ela seja bem
sucedida — disse Bell, olhando atentamente para a frente, de onde
os telhados de Terrânia se aproximavam velozmente.
O comando que executaria a
operação estava preparado.
Tratava-se de duzentos homens
muito bem treinados para a execução da tarefa. Ninguém sabia de
que se tratava, mas todos desconfiavam de que a operação a ser
executada assumia a maior importância. Há vários meses os homens
estavam sendo submetidos a intensos treinamentos hipnóticos que lhes
transmitiriam todos os conhecimentos que um zalita deve possuir.
Falavam sem o menor sotaque a língua do planeta Zalit, entendiam o
arcônida e estavam familiarizados com a respectiva tecnologia. Entre
esses duzentos homens havia competentíssimos astronautas, operadores
de rádio, cientistas de todas as especialidades, mutantes e
ex-agentes do Serviço de Segurança.
Um dos oficiais mais importantes
era o Major Art Rosberg, especialista em transmissão de matéria.
Sabia como se construía um transmissor, aparelho que desempenharia
um papel importantíssimo na operação a ser executada, fosse ela
qual fosse. O major, um tanto ranzinza, baixo e grisalho, era uma
sumidade em sua área de especialização, mas não gostou de ser
investido de uma hora para outra no comando de duzentos homens.
Supervisionava, juntamente com um amigo, o Capitão Gorlat, o
treinamento do grupo de especialistas.
Naquela noite, os dois mais uma
vez estavam reunidos e se entregavam às suas especulações. Gorlat
sabia mais do que queria confessar. Afinal, participara regularmente
das conferências realizadas com os dirigentes do Império. Mas o
sigilo a que estava obrigado também se aplicava às suas relações
com Rosberg.
— Tomara que a coisa não
demore muito — disse o major em tom contrariado.
— Já estou ficando nervoso de
tanto esperar.
— Receio que seus nervos ainda
terão de suportar cargas bem maiores — respondeu Gorlat em tom
contrariado; realmente estava falando sério. — Se não estou muito
enganado, não teremos de esperar muito tempo pela ordem de entrar em
ação. A Burma chegou hoje de tarde. Sabe que se trata de um
cruzador da classe Estado que serve de estação retransmissora.
— E daí? O que é que nós
temos com isso?
Gorlat não queria revelar
demais, mas aproveitava todas as oportunidades para animar o major.
— É claro que também não
sei exatamente. Mas o fato é que Rhodan e Bell subiram a bordo e
permaneceram no cruzador durante meia hora, aproximadamente. Depois
disso a Burma partiu.
— Isso pouco me importa —
disse o Major Rosberg e encheu o cachimbo. — Tenho inveja do
pessoal que viaja nas naves. Bem que gostaria que o vento de Marte
voltasse a fustigar meu rosto.
— Talvez isso aconteça muito
em breve — disse Gorlat em voz de oráculo, sem desconfiar de que
essa profecia se cumpriria com tamanha rapidez. — O treinamento
propriamente dito está concluído em todos os setores. Só estamos
esperando a ordem de entrar em ação.
Antes que Art Rosberg tivesse
tempo para responder, o aparelho de comunicação que se encontrava
sobre a mesa emitiu um zumbido. Tratava-se de um videofone do tipo
usual, que dispunha de pequena tela de imagem.
Com um movimento um tanto
preguiçoso, Rosberg pôs a mão na caixa e comprimiu o botão.
Quem estaria chamando àquela
hora da noite? Só poderia ser alguém que quisesse pedir licença
para sair, ou então...
Quando reconheceu o rosto de
Rhodan, estremeceu de susto.
— Major Rosberg? O Capitão
Gorlat está aí? Ah, já o estou vendo. Preste atenção, Gorlat!
Neste momento entra em vigor a ordem X. Providencie tudo que se torne
necessário. Decolaremos dentro de três dias, com a Drusus.
Gorlat levantou-se de um salto.
— Entendido, Sir! —
respondeu, ficando em posição de sentido. — Tomarei todas as
providências. — Lançou um olhar ligeiro para Rosberg e perguntou:
— Já posso informar o major?
Rhodan sorriu.
— Informe-o, Gorlat, senão
acaba estourando de curiosidade. Ainda precisaremos dele.
A tela apagou-se.
Rosberg fitou a superfície
leitosa, virou-se lentamente e olhou para Gorlat, que retribuiu o
olhar com um sorriso.
— O que foi que o chefe disse?
Gorlat fez um gesto vago.
— Disse que já lhe posso
contar tudo. Aguarde um momento; tenho que dar minhas ordens, a fim
de que não haja qualquer atraso no cronograma.
Usou o videofone de Rosberg.
O major ficava mais pálido a
cada minuto que passava, mas em seus olhos ardia a chama da
excitação.
A espera e a inatividade haviam
chegado ao fim!
*
* *
Trabalhava-se dia e noite.
Especialmente nos laboratórios
químico-biológicos a atividade era muito intensa.
Os biomédicos estavam
modificando as aparências do comando especial. Usavam um preparado
especial para alterar a cor dos olhos e da pele. Os cabelos também
não foram esquecidos. A cada hora, oito terranos completamente
modificados saíam do laboratório e procuravam acostumar-se a seu
novo aspecto. Ainda bem que Rhodan proibira as saídas, pois do
contrário certamente haveria barulho nos bares de Terrânia.
Do laboratório bioquímico os
homens passavam aos vestiários. Cada participante da operação a
ser realizada recebia vestes zalitas, confeccionadas em conformidade
com dados minuciosos. As roupas eram diferentes umas das outras,
conforme teriam de ser para os paisanos. As calças largas
incomodavam, mas todos acabavam por acostumar-se. Foi principalmente
Bell, que, da mesma forma que Rhodan, não escapou ao procedimento
rotineiro, que teve de ouvir uma série de conselhos. E, enquanto
ouvia, as calças incomodavam menos.
Houve uma única exceção, com
a qual todos concordaram.
Gucky, o rato-castor, continuou
a ser o mesmo. Não havia possibilidade de transformá-lo num zalita.
Afinal, era um rato gigantesco com rabo de castor. Consciente da
situação excepcional em que se encontrava, Gucky caminhava
orgulhosamente entre os homens e distribuía francamente suas piadas
sobre as máscaras dos outros. Rhodan deixou que agisse à vontade,
pois sabia que os homens precisavam de algo que os animasse.
Depois de dois dias, a operação
foi discutida pela última vez. No dia seguinte já estariam a
caminho.
— Quer dizer que, além da
Drusus, que levará o transmissor fictício, decolará a Califórnia,
com cinco transmissores de matéria a bordo. Quanto menor o numero de
naves que se dirigem ao grupo estelar M-13, menor será o perigo de
sermos descobertos. Precisamos conseguir o máximo possível com o
uso do menor volume possível de recursos. Não pode haver nenhuma
pane, pois do contrário iremos parar no inferno. Nossa vida
dependerá da capacidade de nosso agente Toffner. Este recebeu ordens
para colocar um transmissor de sinais goniométricos em qualquer
ponto de Zalit que se preste às finalidades que temos em vista.
Os homens fitaram Rhodan sem
dizer uma palavra e esperaram. Depois de uma pausa o administrador
prosseguiu:
— Com apenas umas poucas
transições chegaremos ao sistema de Voga. A Drusus executará uma
operação-relâmpago, no curso da qual usará o transmissor fictício
para colocar uma estação receptora de matéria num ponto de Zalit
onde Toffner tiver instalado o transmissor de sinais goniométricos.
Depois disso, a Drusus terá de desaparecer do local, o mais rápido
possível. O resto será simples. Na Califórnia estão instaladas
cinco estações de transmissão de matéria. E nós também
estaremos a bordo da Califórnia, com todo o equipamento. Agiremos
rapidamente. Dentro de dez minutos deveremos estar em segurança em
Zalit, pois é de se esperar que nossa aproximação não deixará de
ser registrada.
Quando iniciarem a perseguição
da Califórnia, já deveremos estar em lugar seguro. Acho que todos
compreenderam o que está em jogo. Só nos resta desejarmos boa sorte
uns aos outros. Bem que precisaremos. Alguma pergunta?
Duzentos homens e um rato-castor
fitaram Rhodan. Ao que parecia, ninguém tinha perguntas.
Ou será que tinha?
A voz resmunguenta do Major
Rosberg interrompeu o silêncio carregado de expectativa.
— O que vamos fazer em Zalit,
Sir? Muito bem; somos igualzinhos aos zalitas. Mas qual é o objetivo
da operação? Acho que não iremos a Zalit para meter um susto nos
habitantes do planeta...
— Sem dúvida, major —
respondeu Rhodan em tom irônico. — Mas não se esqueça de que
Zalit fica a apenas três anos-luz de Árcon.
Em termos cósmicos é apenas um pulo. Para nós, Zalit representa a
porta de entrada de Árcon.
— Ou a
entrada para o inferno — acrescentou Rosberg e envolveu-se num
silêncio apreensivo.
— Talvez
— limitou-se Rhodan a dizer.
*
* *
Jeremy
Toffner parou na porta.
— Vocês
quiseram assim, amigos; não me venham com recriminações. Garanto
que ninguém os encontrará aqui, mas a permanência neste lugar não
será nada agradável. Vocês terão comida e bebida à vontade, e
também não sentirão falta de livros. Em compensação não terão
liberdade.
— O
vinho dá para seis meses — respondeu Kharra em tom animado. —
Tenho certeza de que antes disso Calus terá saído de Zalit. Não
quero ser enfiado num uniforme. Nunca gostei de uniformes.
— Nem eu
— disse Markh e sacudiu o corpo. — Prefiro viver numa caverna a
morrer por Árcon. O que é que você fará, Garak?
— Ainda
tenho oito dias para decidir — respondeu Toffner e refletiu
febrilmente sobre o que deveria fazer nesses oito dias. Em hipótese
alguma poderia permanecer na superfície. — De qualquer maneira
arranjarei alimentos para mim e procurarei encontrar um zalita que
nos avise quando a barra estiver limpa.
— Fale
com Hhokga, um comerciante de tecidos de Larg! — exclamou Markh. —
É muito velho para ser recrutado pelos arcônidas. E posso garantir
que é digno de confiança.
— Falarei
com ele — prometeu Toffner. — É bem verdade que temos aparelhos
de telecomunicação com os quais podemos entrar em contato com a
superfície, mas quem sabe se os locutores dirão a verdade? E
possível que trabalhem por ordem dos arcônidas e procurem atrair os
zalitas, que vivem na ilegalidade, a uma armadilha. Por isso acho que
não podemos dispensar um aliado de confiança. Voltarei amanhã ou
depois.
Fez um
gesto para os amigos e saiu para o corredor. Trancou cuidadosamente a
porta de pedra e certificou-se de que também este esconderijo era
praticamente perfeito. Depois dirigiu-se o mais rápido possível a
seu cubículo em meio à rocha.
Ao entrar,
percebeu imediatamente que a notícia pela qual tanto ansiava já
chegara.
*
* *
Sem dizer
uma palavra, Rhodan contemplou David Stern, chefe da equipe de rádio
da Drusus, enquanto este irradiava a mensagem codificada. Naquele
mesmo instante, essa mensagem seria captada pela Burma, que a
retransmitiria imediatamente. Dentro de um minuto tal mensagem
poderia chegar às mãos de Jeremy Toffner, se ele por acaso se
encontrasse perto do aparelho.
Mas havia
boa margem de tolerância.
A Drusus e
a Califórnia circulavam em torno do sistema solar a que pertenciam,
a uma distância de dez bilhões de quilômetros. Rhodan permaneceria
ali para aguardar o último sinal de Zalit, que representaria a
confirmação do recebimento da ordem e a data. Só depois valeria a
pena iniciar a operação.
A
existência do Império Solar estava por um fio!
*
* *
Enquanto
subia os poucos degraus que levavam à residência de Hhokga, o
coração de Jeremy Toffner batia fortemente. Tinha de arriscar todas
as chances numa só carta. Se Markh se tivesse enganado quanto ao
caráter do negociante de tecidos, tudo estaria perdido.
Naturalmente, caso se recusasse a ajudar, poderiam matar Hhokga. Mas
Toffner sentia certo constrangimento em matar uma pessoa inocente.
Ainda acontecia que o negociante era um velho indefeso. Quer dizer
que, se obedecesse às leis vigentes, não assumiria qualquer risco.
Toffner
passara a noite em Tagnor e preparara tudo para poder responder o
mais cedo possível à indagação de Rhodan. Sabia que esperavam por
isso, e que a operação só começaria depois que chegassem as
indicações a serem fornecidas por ele. De outro lado estava cônscio
de suas responsabilidades e não daria o sinal para que a operação
se iniciasse antes que a segurança fosse total. O tempo urgia, e por
isso resolvera harmonizar a visita a Hhokga com a execução de seus
planos.
Com um
gesto hesitante, acionou a campainha.
Por um
instante tudo permaneceu em silêncio. O negociante de tecidos
residia num daqueles edifícios afunilados. Cada inquilino levava sua
própria vida e gozava de um máximo de independência. Era como se
morasse numa cabana situada na selva, pois cada apartamento possuía
entrada independente. Quem utilizasse a escada, dispensando o
elevador, poderia ter certeza de escapar aos olhares curiosos dos
moradores do edifício.
Ouviu
passos atrás da porta.
Será que
o próprio Hhokga viria abrir a porta? Talvez morasse só. Markh
dissera que o comerciante era solteiro e que de noite dispensava sua
criadagem.
A porta
abriu-se, e o rosto espantado de um homem idoso fitou Toffner.
— É o
senhor, Garak? O que veio fazer em Larg?
— Apenas
queria...
— Entre,
Garak — deu um passo para o lado, para que Toffner pudesse passar.
Voltou a trancar a porta. — Não deve ter vindo apenas para dar boa
noite a um velho.
— O
senhor não é tão velho assim — objetou Toffner e sentou-se na
poltrona que lhe foi oferecida. — Até acho que está na melhor
idade... Nos dias que correm muita gente gostaria de ser tão velho
quanto o senhor...
Hhokga não
era um homem que tivesse dificuldade de compreender as coisas. Fitou
atentamente seu interlocutor, acenou algumas vezes com a cabeça e
foi a um armário do qual tirou dois copos e uma garrafa. Colocou
tudo sobre uma pequena mesa oval, sentou-se, removeu a rolha da
garrafa e disse:
— Isso é
uma questão de ponto de vista, Garak. Se fosse mais jovem, bem que
gostaria de ser recrutado pelos arcônidas.
— Qualquer
pessoa está disposta a fazer um tremendo sacrifício em troca de
alguma coisa impossível, Hhokga. Mas os jovens de Zalit não pensam
assim, justamente por serem jovens.
Hhokga
sorveu o primeiro gole de vinho.
— Tudo
depende da maneira de encarar as coisas, meu jovem amigo. Aliás,
receio que não seja tão velho que possa escapar para sempre aos
arcônidas. Compreende o que quero dizer?
Toffner
compreendeu, mas não compartilhava os receios do comerciante.
— O
senhor ainda tem muito tempo, Hhokga. Alguns anos se passarão até
que todos os jovens de Zalit tenham sido arrastados para o serviço
militar. Até lá o senhor envelhecerá ainda mais. Portanto, não
vejo motivo...
— O
senhor tem visto Markh? — interrompeu Hhokga subitamente e fitou
Toffner. — Anteontem era o dia em que costumávamos jogar, mas ele
não apareceu.
Podia ser
uma coincidência. Ou uma armadilha.
Toffner
fitou os olhos do velho e percebeu que Hhokga nunca seria capaz de
trair alguém. Resolveu confiar nele, jogando todas as chances numa
só carta. Afinal, não poderia deixar de proceder assim, pois o
momento parecia favorável.
— Sim,
tenho visto Markh. Foi a Tagnor a fim de pedir que eu o ajudasse.
Escondi-o nas catacumbas, juntamente com Kharra, o mercador de
vinhos, que o senhor conhece. Os dois não querem apresentar-se aos
arcônidas. Foram eles que me pediram que o procurasse.
Hhokga
refletiu por algum tempo. Subitamente seus olhos ligeiramente
avermelhados se iluminaram.
— O
senhor tem confiança em mim; o senhor e meus amigos. Mas por que
jogam esse problema nos meus ombros? Por que tenho de participar de
um segredo que pode ser mortal?
Toffner
explicou a situação e concluiu:
— O
senhor receberá parte da fortuna de Markh. A única coisa que terá
de fazer é providenciar para que ele seja abastecido regularmente de
alimentos. E, o que é o principal: quando os arcônidas,
especialmente o tal do Almirante Calus, saírem de Zalit, o senhor
deverá avisar Markh. É só o que terá de fazer.
— Se eu
me recusasse, não seria um amigo de verdade — disse o negociante,
apertando a mão de Toffner. — Confie em mim. Não acredite que
concordo com o procedimento desses arcônidas arrogantes. Pelo
contrário! Mas o que posso fazer? A resistência passiva já
representaria um perigo. Mas ajudarei meus amigos no que puder. No
entanto, não preciso de dinheiro.
Toffner
sentiu-se aliviado por ter liquidado sua incumbência nessa parte.
Mas restava esclarecer um ponto relacionado com a hipermensagem de
Rhodan. Embora Markh lhe tivesse fornecido uma descrição minuciosa
do planeta, seus conhecimentos não eram suficientes para encontrar
um lugar que se prestasse aos fins que tinham em vista. Por isso
ainda aqui tinha de recorrer ao auxílio de Hhokga.
— Tenho
outro assunto a tratar com o senhor. Tenho necessidade absoluta de
achar um esconderijo bem camuflado no deserto, que fica ao oeste
daqui, entre Larg e Tagnor. Durante um vôo constatei que há uma
cadeia de montanhas, não muito elevadas, que divide o deserto. Pelo
que diz Markh, na encosta oeste dessa cadeia de montanhas existem
cavernas. O senhor conhece essas cavernas, pois já fez excursões
por lá. Poderia levar-me até lá?
Hhokga
sacudiu a cabeça.
— Não
me leve a mal se deixo de atender a esse pedido, Garak. Se chegassem
a desconfiar, tanto o senhor como eu seríamos presos. E se eu
andasse pelo deserto, isso seria inevitável. Para um caçador a
presença no deserto não tem nada de extraordinário, mas, para um
velho como eu, tem. No entanto, embora não esteja disposto a
acompanhá-lo, terei o maior prazer em fornecer algumas informações
que por certo lhe serão úteis. Conheço as cavernas a que está
aludindo.
Parecia
que alguém tirara um peso de cima de Toffner. Talvez fosse mesmo
preferível que se dirigisse sozinho ás cavernas. Assim despertaria
menos atenção do que saindo da cidade juntamente com o negociante.
Se alguém fosse no seu encalço, poderia dizer que estava à procura
de Markh, o caçador.
— É
claro que ficaremos satisfeitos com isso. Estaria pronto a fornecer
uma descrição minuciosa das grandes cavernas, a fim de que possa
localizá-las sem maiores problemas?
— Pois
não.
Toffner
inclinou-se para a frente.
— Por
que não me pergunta o que quero fazer nas cavernas?
Um sorriso
sábio surgiu no rosto de Hhokga.
— Quanto
menos sabe o homem, melhor para sua saúde, Garak. Eu o ajudo,
cumprindo um desejo seu. Não me interessa por que está interessado
em encontrar as cavernas. Um momento; vou pegar uma folha para
desenhar um mapa.
Toffner
reclinou-se na poltrona e tomou um gole do excelente vinho que tinha
à sua frente. Sentia-se muito satisfeito com o rumo que estavam
tomando os acontecimentos. Se conseguisse encontrar uma caverna que
se prestasse aos fins que tinha em vista, amanhã mesmo poderia
avisar Rhodan. Pôs a mão no bolso e apalpou uma caixa metálica
retangular. Era o emissor de raios goniométricos que seria
depositado na caverna. Uma vez ligado, transmitiria sinais por
semanas a fio, numa freqüência de que só Rhodan tinha
conhecimento. Só mesmo por um acaso, altamente improvável, outra
pessoa poderia captá-los. E essa pessoa não saberia o que tais
sinais significavam.
Hhokga
voltou. Empurrou os copos para o lado e colocou uma folha de metal
finíssima sobre a mesa. Tinha um lápis magnético na mão.
— Acho
que o senhor não vai a pé, não é, Garak?
— Isso
mesmo. Aluguei um planador.
— Muito
bem. Preste atenção. Aqui fica Larg — desenhou um círculo do
lado direito da folha — e aqui fica Tagnor.
O segundo
círculo, bem maior, ficava do lado esquerdo.
Depois
Hhokga fez um traço irregular que percorria o centro da folha, em
sentido vertical.
— Aqui
fica a cadeia de montanhas que atravessa o deserto. A distância
entre as duas cidades é de mil quilômetros, aproximadamente. No
deserto não mora ninguém, especialmente na parte montanhosa. Nossos
antepassados não julgaram conveniente transformar aquela área em
terras férteis, e hoje não há mais necessidade disso. Para quem
faríamos isso? Para os arcônidas!
Soltou um
suspiro e voltou a olhar para o mapa.
— As
cavernas ficam mais ou menos por aqui. A maior delas quase pode
abrigar uma espaçonave. Em algumas há vestígios de que foram, em
épocas remotas, habitadas.
Sorriu
para Toffner.
— Seja
lá o que o senhor pretende fazer nas cavernas, estará em segurança.
Ninguém o encontrará.
Toffner
compreendeu que Hhokga estava tirando uma conclusão errada.
Acreditava que pretendia esconder-se nas cavernas. Talvez o zalita
pensasse que existia uma passagem subterrânea das galerias sob a
arena à cadeia de montanhas.
— Não
há problema; saberei encontrar as cavernas — asseverou o agente
sem dar outras explicações a Hhokga. — Amanhã mesmo começarei a
procurá-las.
Tomaram
mais um pouco de vinho. Finalmente o negociante convidou Toffner a
dormir em sua casa. Toffner aceitou com o maior prazer. Dormiu um
sono tranqüilo e profundo na segurança do lar.
Na manhã
do dia seguinte despediu-se e tomou um táxi que o levou à área de
estacionamento, onde encontrou o planador alugado em perfeitas
condições. Antes de partir fez um vultoso depósito bancário em
nome de Hhokga.
Inseriu a
programação da rota no piloto automático. O veículo aéreo
desprendeu-se suavemente do solo e subiu em alta velocidade. Não
demorou para que a cidade de Larg desaparecesse atrás dele. Não
imaginava se, e quando, iria revê-la...
O deserto
deslizava abaixo dele. Muito raramente era interrompido por platôs
de pedra e vales secos. Certa vez chegou mesmo a ver uma mata rala.
Toffner viu uma manada de animais que fugiu em desabalada carreira
quando o planador se aproximou. Já sabia que lá embaixo encontraria
carne, se precisasse dela.
Finalmente
a linha comprida do complexo montanhoso surgiu à sua frente.
A cadeia
não era tão baixa como parecia, quando vista de uma altitude maior.
Pelos cálculos de Toffner, a altura média dos cumes devia chegar a
dois mil metros. O ar límpido parecia reduzir as distâncias.
Examinou a
programação e corrigiu a rota. O planador desceu e a velocidade foi
reduzida. Passou rente aos cumes e seguiu as encostas do lado oposto.
Tagnor ficava em algum lugar, atrás da linha do horizonte.
O planador
pousou num vale escondido. Antes disso, Toffner dera algumas voltas e
se certificara de que o vale se ligava ao deserto por uma passagem
estreita, passagem essa que era praticamente invisível a quem se
encontrasse no deserto.
O vale era
quase circular e tinha um diâmetro de pelo menos quinhentos metros.
As cavernas negras interrompiam a uniformidade das paredes lisas de
rocha.
Chegara ao
destino.
Dali a
duas horas encontrou o lugar que procurava. Não era a maior das
cavernas, mas seu tamanho era suficiente para os fins que tinha em
vista. Além disso, a entrada não apresentava maiores problemas; a
passagem era fácil. Um exército poderia abrigar-se no fundo do
vale, sem que houvesse o menor perigo de ser descoberto.
Toffner
pegou cautelosamente o pequeno emissor, ativou-o e colocou-o no
interior — e bem no centro — da caverna. Rhodan ressaltara em
suas instruções que era muito importante tal colocação.
Toffner
lançou um olhar pensativo para a caixinha metálica, que passou a
irradiar seus sinais. Era verdade que estes só se propagavam à
velocidade da luz, mas isso não tinha importância. Se Rhodan
dependia dos sinais para achar a caverna, era sinal de que já se
encontrava nas imediações do planeta Zalit.
Subitamente,
Toffner começou a tremer de nervosismo.
Compreendeu
que não ficaria só por muito tempo...

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