domingo, 21 de agosto de 2016

P-084 - Recrutas de Árcon - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN




Todos unidos por um ideal —
O segundo passo: rumo a Árcon!



Rhodan, em manobra fantástica, conseguiu destruir os últimos dados referentes à localização galáctica da Terra.
Entretanto, este ano será o da decisão, pois o comando suicida do Império Solar está movido por um só pensamento: derrubar o robô regente...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Jeremy ToffnerUm agente cósmico que, depois de uma solidão prolongada, recebe uma visita importante.

Almirante CalusO verdadeiro soberano de Zalit.

Roger OsegaUm sargento que sabe desempenhar o papel de almirante.

Gucky, Ras Tschubai e Tako KakutaCujas capacidades de teleportação permitem a realização de um transporte muito importante.

Kharra e MarkhDois homens que se esquivam à prestação do serviço militar.
1



As coisas não estão nada boas!
Perry Rhodan levantou a cabeça e viu o rosto sério da pessoa que pronunciara estas palavras. Fez uma constatação objetiva: os cabelos ruivos e curtos não estavam arrepiados; quase pareciam cabelos normais. O rosto redondo apresentava uma coloração vermelha, e um brilho nervoso marcava os olhos azul-pálidos.
Bell, você acaba de usar uma expressão drástica, mas totalmente adequada. As coisas realmente não estarão nada boas para a Terra, se não acontecer logo alguma coisa.
O velho de cabelos brancos, que estava sentado à mesa de conferências, do lado direito de Rhodan, acenou lentamente com a cabeça. Em seus olhos avermelhados ardia um fogo eterno de confiança recôndita. O vulto magro parecia encurvado, mas o brilho dos olhos continuava juvenil e vigoroso.
Rhodan dirigiu-se a esse homem.
Então, Crest?
O velho arcônida, que descendia de uma família real de Árcon, há muito extinta, voltou a acenar com a cabeça.
Concordo plenamente com Reginald Bell no ponto em que ele definiu a situação. Por outro lado, porém, quero ressaltar que a perda da Kublai Khan foi compensada por uma vitória relativa. Conseguimos destruir os últimos sinais que poderiam fornecer ao computador-regente alguma indicação sobre a posição da Terra. Nenhum tópsida vivo, que tenha participado da invasão do sistema de Vega, saberá dizer qualquer coisa a este respeito. É bem verdade que perdemos a Kublai Khan...
Bell pretendia dizer mais alguma coisa — anunciou Rhodan. — Ele se referia à situação geral. E esta não oferece margem a qualquer dúvida. Em toda a Galáxia só existem três fatores que devem ser considerados no jogo de forças. O primeiro é representado pelos druufs, que constituirão um perigo por mais doze meses, ou, ao menos, enquanto existir a área de superposição entre as duas dimensões temporais. Segundo: temos de considerar o gigantesco computador que governa Árcon. É verdade que, no momento, o cérebro-robô está plenamente ocupado com a invasão dos druufs, mas um dia voltará a dedicar-se àquilo que considera sua tarefa principal: localizar-nos e subjugar-nos. Por fim, o terceiro fator somos nós.
À direita de Rhodan, havia outro arcônida. Era mais jovem que Crest, ao menos no aspecto exterior. Na verdade, Atlan tinha mais de dez mil anos e adquirira a imortalidade graças ao ativador celular que, num passado remotíssimo, lhe fora dado por um desconhecido. Vivia na Terra desde a destruição de Atlântida e transformara-se no melhor aliado de Rhodan. E ele o seria pelo menos enquanto seu mundo, que era Árcon, fosse governado por um robô.
Atlan disse em voz alta e bem compreensível:
Devemos eliminar o computador; receio que não haverá outra saída.
Todo mundo prendeu a respiração.
Essa sugestão, saída da boca de um arcônida, tinha algo de terrível. Além disso, era inexeqüível. Havia dispositivos de segurança que protegiam o regente de Árcon contra qualquer ataque vindo de fora.
Mas também estaria protegido contra ataques vindos de dentro?
Rhodan imediatamente começou a raciocinar em torno desta idéia.
Só nos restam sete supercouraçados do tipo da Titan e da Drusus. Perdemos um dos transmissores de matéria que possuíamos. E não há como substituí-lo. Nossa frota espacial é grande, mas, em comparação com a de Árcon, é insignificante. Acho que só poderemos atacar Árcon por dentro.
Por dentro? — repetiu Atlan em tom interrogativo. Seus olhos avermelhados se iluminaram. — Talvez seja a solução.
À esquerda de Bell, estava sentado um homem que também tinha cabelos ruivos. Evidentemente era pura coincidência. Quanto ao mais, o Capitão Hubert Gorlat poderia ser considerado um tipo comum. Ao menos quanto ao aspecto exterior. Na verdade, Hubert Gorlat era especialista de defesa do Serviço de Segurança Solar, submetido diretamente a Mercant. Seu aspecto exterior não mostrava suas capacidades.
Quem sabe se isso não seria um serviço para mim? — disse em tom indiferente, mas com a voz trêmula de excitação.
Rhodan sorriu.
Fui eu que convoquei a reunião, e posso garantir que ninguém está aqui por acaso — fitou os presentes um por um. — O senhor também receberá sua tarefa, Gorlat.
Você tem algum plano? — perguntou Bell em tom de curiosidade.
Seu rosto ficou ainda mais vermelho. Seus cabelos começaram a arrepiar-se.
O plano surgirá no curso desta discussão — disse Rhodan, dando a entender que cada um tinha de contribuir para a elaboração do mesmo. — Antes de mais nada, estabeleçamos os fatos. Os tópsidas já não poderão fornecer ao regente qualquer indicação sobre a posição da Terra. De qualquer maneira, porém, um belo dia o regente nos encontrará. Isso vai acontecer quando não tiver mais nenhum perigo para enfrentar e puder concentrar-se exclusivamente sobre nós. Neste caso, não haverá nada que possa impedir tal descoberta, já que hoje em dia o Império de Árcon é forte e unido. Chegará o dia em que alguma nave se deparará com a Terra e transmitirá as respectivas coordenadas para Árcon. E depois?
Ninguém respondeu. Crest, que já estava muito velho, começou a falar com o rosto sério.
Não sobreviveremos ao ataque que vier depois disso — respondeu. — Não existe a menor dúvida. Árcon destruirá a Terra, muito embora os dois impérios unidos pudessem ser donos do Universo. A loucura, que costumava ser cometida pelos políticos terranos, será repetida no âmbito cósmico.
Qual é sua sugestão, Crest?
Rhodan formulou o pedido em tom calmo e indiferente, embora em seu interior rugisse uma tempestade. Não deu a perceber nada.
Crest soltou um suspiro.
Acha que devo ter alguma sugestão? Talvez possa fornecer uma indicação que possa servir de base a uma sugestão? Quem é nosso inimigo? Os arcônidas. Não, não é essa raça governada por um computador. Nosso inimigo é exclusivamente o computador, o regente de Árcon. Quer dizer que, se quisermos viver em paz com Árcon, teremos de eliminar o regente.
Acontece que o computador foi concebido e construído por arcônidas, e foram estes que fizeram dele o regente, quando a atividade dos arcônidas começou a diminuir. Todavia, quem construiu o computador foram os valentes arcônidas de outros tempos. No meu entender, este ponto representa a chave de qualquer ação bem sucedida. Acho impossível que os cientistas que construíram o regente não tenham previsto qualquer dispositivo de segurança.
Vamos raciocinar logicamente, senhores. O computador foi construído pelos arcônidas para que assumisse o governo do Império, quando eles mesmos degenerassem a ponto de não serem aptos para a condução dos negócios públicos. Conclui-se que na época ainda possuíam inteligência suficiente para reconhecerem suas próprias fraquezas. Por isso, é de supor que também tenham tido inteligência suficiente para não se submeterem irremediavelmente ao domínio de um cérebro positrônico. Por certo esperavam que um dia voltariam a existir arcônidas capazes. E estes assumiriam o governo. Vê-se que deve haver algum comando de segurança, que pode ser localizado. Acho que me fiz entendido.”
Olhou em torno com uma expressão indagadora e deparou-se com os olhos brilhantes dos outros. Rhodan respondeu com um aceno de cabeça.
Sim, Crest. Compreendemos perfeitamente o que quer dizer. Restaria descobrir como é esse dispositivo de segurança e de que forma deve ser manipulado. Acha que será fácil?
Crest parecia um tanto inseguro.
Na minha opinião não será fácil, mas será possível.
Gorlat continuou a raciocinar em torno de fatos concretos.
Antes de quebrarmos a cabeça sobre isso, devemos verificar se há uma possibilidade de nos aproximarmos do regente.
Subitamente Atlan voltou a participar da discussão.
Estou inclinado a concordar com Crest. O principal é que tenhamos certeza absoluta de que realmente existe um dispositivo de segurança. Na minha opinião, essa possibilidade existe. O dispositivo de segurança existe! Por isso deverá ser possível colocar o computador-regente fora de ação exclusivamente por meio da astúcia, independentemente de qualquer luta, libertando o Império de Árcon de um ditador maquinal.
Resta saber — ponderou Bell — como faremos para chegar a Árcon, sem que antes sejamos desmanchados em átomos.
Foi justamente por isso que convoquei esta reunião — disse Rhodan, dirigindo-se a Atlan com um visível interesse.
Quer dizer que tanto você como Crest têm certeza de que existe um dispositivo de segurança?
Certeza absoluta, bárbaro — respondeu Atlan, servindo-se do tratamento costumeiro, mais por costume que por ironia.
Não se esqueça de que há dez mil anos fui almirante do Império Arcônida. É bem verdade que naquela época ainda não pensávamos em construir um computador que nos pudesse exercer o governo sem o menor trabalho, mas tais planos já existiam no âmbito teórico. E nesses planos se aludia a um dispositivo de segurança que permitisse à pessoa indicada a reprogramação do computador.
Rhodan acenou com a cabeça; parecia pensativo.
Pois é isso: pela pessoa indicada. Quem será essa pessoa indicada?
Conforme já acontecera tantas vezes, a única resposta foi o silêncio.
Rhodan fitou seus interlocutores com um sorriso nos lábios.
Agradeço a Crest e Atlan pelas opiniões que acabam de formular, já que estas correspondem inteiramente às minhas suposições. Devo comunicar-lhes alguma coisa que até agora tenho guardado para mim. Há alguns meses ando pensando muito em Jeremy Toffner, que é um dos nossos agentes. Será a figura principal, que deverá abrir-nos o caminho para a fortaleza inexpugnável de Árcon.
O sistema de Árcon ficava a 34 mil anos-luz da Terra, e pertencia ao grupo estelar M-13, situado fora da Galáxia propriamente dita.
Jeremy Toffner? — repetiu Bell.
Ao que parecia, não se lembrava. Não era de admirar, pois os agentes cósmicos do Império Solar estavam espalhados pelos mais diversos pontos da Galáxia.
Quem é este?
É um homem nascido em Vênus. O Capitão Gorlat poderá extrair os dados necessários dos nossos registros. Mas não é o que nos interessa. O que interessa é sabermos onde se encontra Toffner.
Rhodan fez uma pausa.
Bell quase chegou a estourar de curiosidade.
Onde ele está?
Em Zalit, o quarto planeta do sol Voga.
Os homens fitaram Rhodan com uma expressão de perplexidade.
Zalit apenas distava pouco mais de três anos-luz de Árcon...

* * *

... e os zalitas eram súditos fiéis do regente de Árcon.
Quando o largaram às escondidas no planeta estranho, deixando que se arranjasse conforme pudesse, Jeremy Toffner já teve oportunidade de constatar este fato. O Serviço de Segurança Solar lhe fornecera documentos impecáveis, o que lhe permitiria enfrentar tranqüilamente um eventual controle. Os especialistas do setor de pesquisa médica haviam modificado seu aspecto exterior a tal ponto que nem mesmo sua avó o reconheceria. Qualquer pessoa pensaria que se tratava de um zalita genuíno, raça que por sua vez descendia dos arcônidas e com estes se assemelhava.
Tinham certa semelhança com os homens; geralmente seu corpo era esbelto e possuía a pele marrom-avermelhada. O que mais chamava a atenção era o cabelo cor de cobre que, conforme a incidência da luz, por vezes apresentava um tom verde oxidado.
Os zalitas eram considerados a raça colonial mais inteligente dos arcônidas e contavam-se entre os aliados mais fiéis dos mesmos.
Jeremy Toffner não teve a menor dificuldade em desaparecer em meio à população de Tagnor, uma cidade que contava trinta milhões de habitantes. Tagnor era a capital do planeta Zalit, e cobria uma área maior que muitos países terranos. A população total do planeta era muito superior a oito bilhões de habitantes, motivo por que uma aglomeração de trinta milhões não tinha nada de extraordinário.
Da mesma forma que em Árcon, também aqui predominavam as construções em forma de funil. A entrada ficava na boca do funil, e por ela o visitante penetrava num mundo completamente isolado do exterior. As residências localizavam-se em cima de degraus presos à parte interna das paredes inclinadas do funil.
A forma afunilada dos edifícios correspondia ao desejo dos arcônidas, que queriam uma residência individual e isolada. Os zalitas adotaram e conservaram este costume dos antepassados.
O maior dos edifícios-funis era o do governo, que era dirigido por um Zarlt. Esse Zarlt estava submetido ao computador-regente de Árcon e cumpria-lhe todos os desejos.
Toffner conseguiu escapar à atenção dos numerosos guardas, mas não conseguiu livrar-se de uma sensação desagradável. Mantinha-se sempre próximo à toca do leão. Árcon ficava perto, perto demais. Se o descobrissem, isso poderia acontecer tão de repente que não teria tempo de destruir seus documentos secretos. Talvez nem tivesse tempo para matar-se, a fim de escapar a um interrogatório que poderia trazer as piores conseqüências para a Terra.
A supercivilização dos zalitas manifestava-se num retorno à barbárie. Não eram tão degenerados como os arcônidas, mas sofriam do tédio resultante de toda e qualquer perfeição. Certas medidas foram tomadas para vencer esse tédio e, como houvesse tecnologia de sobra, abusava-se desta para promover um regresso ilusório de condições que de há muito pertenciam à História.
Quando se fixou em Tagnor, Jeremy Toffner jogou com estas circunstâncias. Não poderia dedicar-se a qualquer ramo de atividade oficialmente reconhecido sem despertar ao menos a atenção das autoridades, eternamente desconfiadas. Mas bastaria dedicar-se a um negócio, que só em parte fosse legal, para travar conhecimento com zalitas e mesmo com órgãos do governo, que não levavam muito a sério o cumprimento da lei.
A manutenção de arenas de gladiadores era permitida e chegava mesmo a ser estimulada pelo governo. Apesar disso, as mesmas cheiravam a ilegalidade, e tratava-se de uma ilegalidade que não era confirmada ou negada por ninguém. Era uma situação estranha, que Toffner não sabia explicar.
Encontrou uma residência num dos edifícios-funis, mas via de regra permanecia embaixo da superfície, nos amplos pavilhões e vestiários da arena principal. Por ali conhecia todos os cantos, todos os esconderijos, todos os corredores. E era ali que escondia o equipamento secreto que qualquer agente cósmico do Império Solar possuía, fosse qual fosse o lugar em que se achava.
Na caixa metálica, que não era muito pequena, havia o hiper-rádio. Por meio dele, Toffner transmitia, a intervalos regulares, às estações retransmissoras espalhadas pelo espaço a informação de que ainda estava vivo. E era por meio dela que recebia ordens e instruções. Era o único terrano em Zalit, e esse rádio constituía seu único elo de ligação com a Humanidade.
Fazia quase quatro anos que estava no local.
Quando chegara, obtivera das autoridades licença para promover lutas entre os sanguinários haraks e os gladiadores voluntários. Sua fama crescia cada vez mais, ao menos aos olhos das pessoas que faziam um bom negócio com essas lutas. Estas pessoas o elogiavam pelas boas idéias que costumava ter e lhe garantiam uma percentagem elevada dos lucros esperados.
Toffner bem que gostava disso. Também em Zalit precisava-se de dinheiro para viver, e as reservas com que viera não eram inesgotáveis.
Antes de ir para casa, resolveu visitar seu cubículo secreto nas profundezas da rocha. Não era hora de transmitir a notícia rotineira, mas talvez fosse o instinto que o prevenia. De qualquer maneira, não se sentiu muito surpreso quando, ao entrar no recinto, notou que a luz vermelha estava acesa.
Isso significava que havia uma hiper-mensagem para ele.
Trancou apressadamente a porta e ligou o aparelho. Menos de um minuto depois, viu na tela o rosto de um homem desconhecido. Esse rosto contemplou-o com uma expressão de curiosidade e sorriu.
O senhor é o agente Toffner, código ZV-4?
ZV-4 significava Zalit-Voga — 4o planeta.
Sou — disse.
O homem disse:
O chefe que falar com o senhor. Espere trinta segundos.
O chefe?
Só havia dois homens que costumavam ser designados como chefe. O primeiro, naturalmente, era Perry Rhodan, administrador do Império Solar. O outro era Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar. O que Mercant poderia querer dele?
Subitamente Toffner sentiu um calafrio.
Será que o chefe que deseja falar comigo é Rhodan?”, pensou.
Aguardou à frente da tela. Passaram-se vinte segundos. Trinta...
Quando o rosto voltou a aparecer, Toffner percebeu que sua suposição fora correta. Perry Rhodan fitou-o atentamente. Seus olhos frios pareciam penetrar em seu corpo e enxergar até o canto mais recôndito de sua mente.
O senhor é Jeremy Toffner?
Sim senhor — Toffner não conseguiu dizer mais que isso.
Estou falando de bordo de uma nave, e a mensagem foi distorcida. Apesar disso, prefiro que não indiquemos nenhum lugar. O perigo seria muito grande, principalmente para o senhor. Faz três anos que o senhor está por aí. Notou algo de extraordinário nestes últimos dias?
Toffner sentiu-se perplexo. Respondeu em tom hesitante:
Não senhor. Não que eu me lembre. Os z... os habitantes estão tranqüilos e tudo está normal com o governo. Não houve qualquer acontecimento extraordinário.
Vou formular a pergunta em termos mais específicos, para que o senhor compreenda o que quero dizer — disse Rhodan, logo depois. — Existe outro sistema solar que não fica muito longe do lugar em que o senhor se encontra. Acho que compreendeu o que quero dizer. Procure descobrir se o mundo em que o senhor se encontra recebe visita desse sistema, uma visita com intenções especiais. Se isso acontecer, avise imediatamente.
Não sei se estou compreendendo...
Pois é simples, Toffner. Quero saber se os habitantes do planeta são deixados à vontade, ou se há alguém que se imiscui nos assuntos internos de ZV-4.
Toffner fitou o rosto de Rhodan com certa perplexidade.
É claro que os habitantes do planeta são livres, mas estão sendo vigiados. O governo local tem pouco a ver com isso. Não sei se me fiz entendido.
Compreendi muito bem. Obrigado; é só. Entrei em contato com o senhor principalmente para que compreenda a importância da posição que ocupa, ou melhor, a importância que essa posição poderá ter no futuro. O senhor é meu posto avançado numa guerra que ainda não começou. Passe bem, Toffner.
A tela apagou-se, mas Toffner ficou fitando-a pelo menos por mais dez minutos. Parecia que, de um instante para outro, fora tomada uma decisão sobre seu destino. Sua permanência em Zalit era perigosa, e ela o fora desde o momento da chegada. Mas sempre havia certa diferença entre um perigo remoto e um perigo iminente.
Continuou a dedicar-se àquilo que pareciam ser suas tarefas normais, mas passou a prestar maior atenção ao que se passava em torno dele. No início não percebeu nada de anormal. As naves de Árcon chegavam com a mesma freqüência dos anos anteriores. Traziam mercadorias, robôs de trabalho, equipamento técnico e alimentos sintéticos. Naturalmente também traziam soldados que deviam revezar os que estavam acantonados em Zalit.
Via de regra, os oficiais eram arcônidas ou membros de outros povos auxiliares. Já a tropa propriamente dita incluía mais robôs que seres orgânicos. Há tempos imemoriais Árcon mantinha esse tipo de guarnição nos planetas coloniais. Tais guarnições atuavam sob o disfarce de forças policiais ou elementos auxiliares. Só a contragosto os zalitas se submetiam a esse suave jugo, mas não se atreviam a provocar a ira do todo-poderoso regente de Árcon, que estava tão próximo. A lembrança das expedições punitivas ainda estava viva na memória dos habitantes do planeta.
As instruções de Rhodan eram claras.
Toffner passou a observar as tropas de Árcon. Mas, por mais que se esforçasse, não descobriu qualquer modificação. Ao que tudo indicava, as suspeitas de Rhodan não tinham fundamento.
As mensagens dirigidas ao Serviço de Segurança Solar prosseguiam normalmente, mas permaneciam no campo da rotina.
Os dias foram passando, enfileiraram-se em semanas e em meses. Rhodan não chamou mais. Toffner começou a acreditar que só queriam despertá-lo de uma suposta letargia. Era possível que os agentes solitários precisassem, vez por outra, de uma ducha de perigo. Podia ser.
Exatamente três meses depois do dia em que recebeu o chamado de Rhodan, Toffner alugou um dos planadores com piloto automático, que costumavam ser usados no planeta, e foi a Larg, uma das maiores cidades situadas ao leste de Tagnor.
Larg, que tinha apenas cinco milhões de habitantes, era um dos principais centros comerciais de Zalit. As feiras mensais eram visitadas por caravanas modernas, comerciantes ricos, vigaristas... e pela polícia.
Toffner alugou um quarto num hotel e foi ao mercado, a fim de procurar os objetos de que precisava para as futuras lutas de gladiadores. O mercado de animais estava bem sortido como sempre. Levou apenas algumas horas para fazer alguns pedidos. Pagou adiantado, pois conhecia a maior parte dos comerciantes. Uma vez fechado o negócio, o mesmo costumava ser regado com bebida. Por isso não era de admirar que, ao anoitecer, Toffner se encontrasse no meio de um grupo alegre, indo parar num bar.
O treinamento hipnótico, recebido na Terra, habilitara Toffner a falar o genuíno dialeto zalita, que não passava do arcônida com um ligeiro sotaque. Conhecia todas as nuances do linguajar do planeta.
Ei, Garak! Fico satisfeito em vê-lo em Larg — gritou alguém que se encontrava numa mesa do outro lado do recinto cheio de mercadores, compradores e outros tipos de gente. Em algum canto alguém cantava uma canção triste, mas ninguém lhe dava atenção. — Veio para comprar novas atrações?
Vim — respondeu Toffner. — E você, Kharra? Arranjou bastante vinho para dar banho em toda a família?
Kharra, o mercador de vinho, soltou uma estrondosa gargalhada e deu um gigantesco copo para Toffner e seus amigos.
Toffner voltou a prestar atenção à conversa dos homens sentados à sua mesa.
Não estou gostando muito — disse Markh, o caçador de animais vivos em tom exaltado. — Até parece que toda a Galáxia está em rebuliço, e que precisam de muitos soldados. Não estou com vontade de ser enfiado numa nave...
Não quer que lhe façam o que você faz com os animais — gritou alguém na intenção de fazer uma piada, mas ninguém riu.
Markh prosseguiu sem dar atenção ao falso humorista.
Pelo que ouvi dizer, todos os dias são formados novos comandos. É claro que são de voluntários. Mas tenho a impressão de que o Zarlt já está exercendo uma suave pressão, ou melhor, vem transmitindo a pressão suave que recebe de Árcon.
Todos falaram ao mesmo tempo, dando sua opinião. Ao que parecia, ninguém concordava com a guerra que estava sendo travada na distante Via Láctea. Hhokga, um opulento comerciante de tecidos, formulou sua opinião nos seguintes termos:
Em Zalit estamos passando bem, e ninguém nos ameaça. Nenhuma nave mercante nossa foi atacada. O que temos a ver com a guerra de Árcon? Eu nunca me apresentarei voluntariamente.
Nem eu! — disseram os demais, quase em coro.
Depois de uma ligeira pausa, Markh disse:
Receio que, dentro de pouco tempo, os voluntários não serão suficientes, e então recorrerão à violência propriamente dita. Tenho um pressentimento de que vai acontecer isso mesmo, amigos.
Toffner sentiu-se aborrecido por ter perdido o início da conversa.
De que estão falando? — perguntou. — Está havendo alguma guerra?
O caçador lançou um olhar de espanto para seu melhor freguês e respondeu:
Você deveria interessar-se mais pelo que acontece em Tagnor e arredores, pois do contrário um belo dia será atropelado pelos acontecimentos. Será que você não lê os jornais? Todos os dias são publicados apelos do governo, para que os cidadãos ingressem voluntariamente na frota espacial. E o que acontece com os pobres coitados que atendem aos apelos? São colocados nas naves robotizadas de Árcon e desaparecem para sempre.
Calou-se de repente e olhou para a porta.
Toffner empalideceu sob a pele colorida. Dois zalitas uniformizados entraram no botequim e olharam para os lados em atitude provocadora, como se estivessem à procura de alguma coisa. As conversas nas outras mesas cessaram. Todos fitaram os policiais do Zarlt. Pareciam ter a consciência pesada.
Mas os dois homens uniformizados viraram-se e foram saindo. Seguiu-se uma forte sensação de alívio. Markh suspirou e disse mais baixo que antes:
Ficam espiando a gente em tudo quanto é lugar. Acho que já estão escolhendo as vítimas. O Zarlt não passa de um criado de Árcon. Éramos tão felizes sem a proteção dos arcônidas, que são governados por um computador desalmado. Gostaria de saber por que temos de obedecer a uma máquina.
Toffner inclinou-se para a frente e cochichou:
Fique quieto, Markh, senão acabaremos todos na cadeia. Não estamos passando bem? Não deveríamos sentir-nos satisfeitos? Que importa se alguns malucos se apresentem voluntariamente para servir na frota espacial para morrer em algum mundo distante? Enquanto nos deixarem em paz...
Acontece que não nos deixarão em paz! — exclamou Markh. O caçador manteve uma atitude obstinada, o que deixou Toffner satisfeito no seu íntimo. — Dentro de pouco tempo não nos perguntarão se queremos ir ou não. Eles nos obrigarão.
Você está exagerando! — Hhokga demonstrou vontade de levar a palestra a outra trilha. — Por enquanto trata-se de voluntários; isto é um fato incontestável. Se as coisas mudarem, ainda teremos tempo de tomar nossas providências.
Caramba! — gritou Markh em tom zangado. — Que providências podemos tomar?
Dali em diante, a palestra passou a arrastar-se. O bom humor dos negociantes se fora; cada uma estava entregue aos seus pensamentos. Toffner logo se despediu e voltou ao hotel, onde procurou digerir aquilo que acabara de ouvir.
Seriam estas as informações que Rhodan desejava receber?
Resolveu enviar na noite seguinte um relatório sucinto ao Império Solar. A estação retransmissora mais próxima o captaria, fosse qual fosse o lugar em que se encontrasse a respectiva nave.
E foi assim que Perry Rhodan recebeu, um mês antes da conferência realizada em Terrânia, a notícia de que o regente de Árcon estava substituindo seus robôs por voluntários recrutados entre todas as raças.
O computador reconhecia que não poderia arranjar-se sem inteligências orgânicas.
Era um fator de pouca importância, que convidava a certas reflexões e infundia alguma esperança...

* * *

Das janelas de seu gabinete, Rhodan via perfeitamente a capital da Terra, ou ao menos um lado desta. Terrânia crescera e continuava a crescer a cada dia que passava. As construções não eram realizadas ao acaso; os edifícios e as ruas iam surgindo em conformidade com planos previamente traçados, circunstância que concorria para melhorar o aspecto da cidade. Terrânia parecia ter atravessado um processo de crescimento orgânico... e realmente atravessara. Bell entrou no gabinete. Viu Rhodan parado junto à janela e aproximou-se do mesmo.
Esta cidade parece uma fábula — disse em tom sonhador, o que não combinava com seu caráter. — É aqui que vêm ter todos os fios, e estes passam por nossas mãos. É a metrópole do Sistema Solar. Temos motivo para orgulhar-nos...
Rhodan virou ligeiramente a cabeça e disse:
Devemos pensar em descobrir um meio de conservar Terrânia.
Bell fitou-o com uma expressão de perplexidade no rosto.
O que quer dizer com isso, Perry? Conservar a cidade? Quem...?
É Árcon! Acho que você já sabe, pois os termos de nossa palestra foram muito claros. Ou destruímos o cérebro positrônico, ou seremos destruídos por ele. Não existe outra alternativa. Seria inútil firmarmos outro tratado, pois sabemos perfeitamente quais são as intenções do regente. E não haverá ninguém que o demova disso. Já refletiu sobre todas as possibilidades?
Bell parecia embaraçado.
Para dizer a verdade, devo confessar que não. Pensei que isso não tivesse tanta pressa.
Temos muita pressa! — Rhodan voltou a olhar para a cidade, que se estendia até o horizonte. Para além da metrópole começava o grande deserto, que atualmente era cortado por grandes estradas. — O computador-regente tem mais tempo que nós, mas vem se apressando. Acho que chegou a hora de agir.
O que pretende fazer?
A palestra que tivemos concorreu para reforçar minha decisão. Devemos lançar um ataque direto contra Árcon. O computador-regente tem um ponto vulnerável: o dispositivo de segurança. Se o descobrirmos, o regente estará liquidado.
Não será fácil — ponderou Bell.
Não será fácil? — repetiu e deu uma risadinha, mas seu rosto logo voltou a tornar-se sério. — Diria que é quase impossível. Pelo que se depreende dos relatórios enviados por nossos agentes, é totalmente impossível romper o anel de fortificações que cerca Árcon. Por meio da violência não conseguiremos nada. Nem mesmo o transmissor de matéria seria capaz de romper os campos de radiações. Para chegarmos a Árcon, teremos de recorrer aos meios legais.
Aos meios legais? Quer dizer que teríamos de obter a permissão do regente? Não sei como...
Eu também ainda não sei — respondeu Rhodan em tom preocupado. — Mas havemos de encontrar um caminho.
Bell não respondeu. Lançou um olhar para o movimento da cidade, para as ruas largas com os carros pilotados automaticamente, para os táxis planadores e para a multidão que se comprimia no bairro comercial.
Esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas o silêncio foi rompido por uma campainha estridente.
De um salto, Rhodan colocou-se à frente do quadro de comando que ocupava toda uma parede. Num movimento rápido moveu para baixo uma pequena chave.
A tela iluminou-se e um rosto apareceu.
Mensagem para o chefe! Mensagem para o chefe! Mensagem para...
Aqui fala o chefe! — disse Rhodan em tom impaciente, interrompendo a frase repetida. — O que houve?
O rosto na tela quase não se modificou.
É uma ligação de Vênus, Sir. No momento, o Marechal Mercant se encontra lá.
Já sei. Pode completar a ligação.
Não demorou dez segundos até que a coroa de cabelos ralos de Mercant surgisse na tela. O chefe do Serviço de Segurança Solar mantivera-se jovem, pois recebera, tal qual Rhodan e Bell, a ducha celular rejuvenescedora.
Ainda bem que a ligação está boa — disse em tom satisfeito. — Tive a intenção de esperar até que a Burma chegasse aí, mas concluí que é melhor informá-lo imediatamente.
A Burma? — ao que parecia, Rhodan não conseguia lembrar-se.
Mercant ajudou-o a lembrar-se.
A Burma está estacionada nas proximidades da área de superposição entre nosso Universo e o dos druufs. Funciona como estação retransmissora para nossos agentes cósmicos. Meu elemento de confiança informou que deseja fazer chegar ao senhor uma mensagem pessoal. Daqui a alguns minutos, a Burma deverá pousar em Terrânia. Era o que eu lhe queria dizer. Como vai o senhor?
Bem, obrigado — respondeu Rhodan. Ao que parecia, não estava disposto a dar uma resposta mais detalhada à pergunta de Mercant. — Dentro de poucos dias nos veremos. Até lá mantenha-se livre dos sáurios.
Mercant compreendeu, e desligou.
A tela apagou-se.
Bell saíra de junto da janela.
O que significa isso, Perry? A Burma tem algo a ver com nossos planos relativos a Árcon?
Talvez, Bell. Não sei. Está trazendo uma mensagem. De quem pode ser essa mensagem? De Árcon? De algum dos nossos agentes? Se for assim, por que motivo a mensagem deve ser transmitida pessoalmente? Sinto muito, mas não posso responder à sua pergunta. Só nos resta aguardar.
Mercant disse que a Burma deverá pousar dentro de poucos minutos. Ele deve saber, mesmo que esteja em Vênus.
Rhodan estava pronto para sair.
Acho que precisamos de ar puro. Quer ir comigo até o espaçoporto?

* * *

Nada aconteceu nos vinte dias que se seguiram à visita ao mercado, mas Toffner teve tempo para convencer-se da veracidade das informações de Markh, o caçador. Realmente, todos os dias saíam grandes naves transportadoras do regente com voluntários destinados a Árcon.
Mas no vigésimo segundo dia aconteceu.
Dois supercouraçados pousaram no espaçoporto de Tagnor. Tratava-se de veículos espaciais esféricos de mil e quinhentos metros de diâmetro, acompanhados de uma série de gigantescas naves de transporte. Um exército de robôs de guerra — monstros metálicos de três metros de altura — saiu das duas naves de guerra e entrou em formação. Os braços armados situados na altura do ventre, capazes de girar num ângulo de cento e oitenta graus e supridos de energia pelas baterias arcônidas, giraram lenta e ameaçadoramente. Assim que o exército acabou de entrar em formação, imobilizou-se de uma hora para outra. Alguém desativara os robôs.
Esse alguém não demorou a aparecer.
Um arcônida, inconfundível pela arrogância e pelo uniforme vistoso, no qual mal havia lugar para os distintivos e condecorações, dirigiu-se à superfície do planeta Zalit e exigiu que o levassem imediatamente ao palácio do Zarlt.
Toffner não soube o que aconteceu e o que foi discutido por lá, mas os acontecimentos dos próximos dias não deixaram dúvidas sobre isso.
O Zarlt publicou uma proclamação dirigida a toda a população, na qual ordenou que todos os homens jovens se apresentassem à comissão de recrutamento dirigida por Calus, um almirante arcônida. Os exames seriam iniciados ao amanhecer do dia seguinte. Qualquer recusa daria lugar à aplicação de penas gravíssimas.
A proclamação foi publicada na imprensa diária e transmitida constantemente durante as programações de televisão. Qualquer pessoa tomaria conhecimento da mesma, e não se admitiria desculpa. Indicou-se um prazo, e a ordem da apresentação seguia certos critérios, baseados na idade ou na profissão.
Jeremy Toffner calculou que disporia exatamente de dez dias; depois desse prazo estaria sujeito a penalidades.
Seriam dez dias tão longos e tão terrivelmente curtos em Zalit.
Na noite do mesmo dia passou apressadamente pelas ruas de Tagnor, a fim de alcançar seu esconderijo. Por várias vezes notou grupos que discutiam acaloradamente, e que conversavam sobre assuntos sem importância, enquanto passava por eles. Mas não se iludiu. Sabia sobre o que estavam falando.
Irradiou a notícia alarmante e solicitou novas instruções. Por uma questão de precaução ligou o gravador automático. Se durante sua ausência chegasse alguma mensagem, esta seria gravada, depois de decodificada. Poderia ouvi-la a qualquer momento. Dessa forma não perderia nenhuma mensagem que viesse fora da hora marcada.
Saiu do cubículo, trancou-o cuidadosamente e deixou que a parede de rocha natural voltasse a encobrir a porta. Nem mesmo os olhos desconfiados de um policial descobririam a fenda que, além de ser muito fina, corria num traçado irregular.
Caminhou o mais depressa que pôde pelos corredores debilmente iluminados, pois desejava chegar à superfície o quanto antes. Se alguém o encontrasse por ali, teria de responder a algumas perguntas. Mas isso não era o pior. Nesses subterrâneos ficavam as jaulas dos animais, os vestiários e os aposentos dos gladiadores e os pavilhões de treinamento. Cabia-lhe andar por ali para verificar se tudo corria bem. No entanto, preferia evitar qualquer contato com as autoridades de Tagnor.
Chegou à sua residência, situada num edifício-funil, sem que ninguém o incomodasse. O número de policiais que patrulhavam a cidade era maior que nos outros dias, mas ninguém o abordou. Depois das pequenas demonstrações a que já assistira, não era de admirar que o policiamento fosse intensificado.
Tirou a chave do bolso e esteve a ponto de enfiá-la na fechadura, quando uma sombra se destacou em meio à escuridão do corredor. A sombra aproximou-se e parou a seu lado. Toffner quase morreu de susto.
Teria sido descoberto? Será que seu jogo chegara ao fim?
Quando ouviu a voz que se dirigiu a ele, suspirou aliviado.
Não se assuste, Garak, sou eu.
Era Markh, o caçador! Tratava-se de um amigo de Toffner, com o qual costumava fazer negócios.
Você me deu um susto — disse Toffner e apertou a mão de Markh. — Por que resolveu esperar-me aqui? Você sabe onde encontrar-me de dia.
Vamos entrar, Garak. O que tenho a lhe dizer não deve ser ouvido por mais ninguém.
Toffner sentiu a insistência que vibrava na voz de seu interlocutor e não fez outras perguntas. Começou a desconfiar de que o acaso viera em seu auxílio, embora sua situação começasse a tornar-se crítica. Devia tentar reunir os dois fatores, para extrair o maior proveito possível da situação.
Abriu apressadamente a porta e deixou que o caçador entrasse. Voltou a fechá-la e certificou-se de que, durante sua ausência, ninguém entrara para instalar algum microfone. Costumava proceder assim todas as noites; tal procedência não passava de uma rotina de importância vital. Markh contemplou-o em silêncio.
Tudo em ordem. Vamos sentar. Sobre a mesa havia uma garrafa bojuda com vinho. Tomaram alguns goles. Toffner lançou um olhar indagador para o caçador.
O que o trouxe até aqui, Markh? Fale à vontade, pois ninguém poderá ouvir-nos. Suponho que você deva ter um bom motivo para vir a esta hora; não deve ter vindo por puro prazer.
O rosto de Markh, que costumava ser tão juvenil e tostado pelo sol de Voga, mostrava uma palidez espantosa. Apesar disso, porém, era mais escuro que o de um europeu que acaba de passar um mês na zona do equador. No entanto, faltava-lhe a tonalidade do cobre, característica de todos os zalitas. Em seus olhos havia uma expressão de pavor. Markh devia ter sentido muito medo.
Por quê? Pois o recrutamento só seria iniciado no dia seguinte.
Você viu as naves que se encontram no espaçoporto? — principiou. Toffner limitou-se a acenar com a cabeça. — Eu sabia que isso acabaria acontecendo. Levarão todos os jovens. Estão travando uma guerra e não conseguem vencê-la. Ou então preparam um grande golpe contra alguém que deve ser mais forte que Árcon. E querem que nós os ajudemos.
Deve ser mais ou menos isso — disse Toffner.
Pois então. O que pretende fazer? Ir com eles para morrer?
Quem lhe disse que eles nos levarão? — disse Toffner para estimular o espírito de contradição do amigo. Só assim poderia saber tudo que precisava saber. — Talvez seja apenas um exame de rotina, para qualquer eventualidade.
Será que para isso teriam de trazer um exército de robôs?
Talvez não. Acontece que Árcon gosta de fazer demonstrações de força. Você não acha que a presença dos robôs constitui prova de que o Império não corre qualquer perigo? Do contrário, o regente não poderia dispensar suas tropas.
Eu já lhe disse o que estão tramando — disse Markh, insistindo em sua suspeita.
Talvez só precisem dos robôs de guerra mais tarde. E quando isso acontecer, estaremos ao lado deles.
Toffner refletiu.
Suponhamos que sua suposição seja correta. O que pretende fazer? Recusar-se e correr o risco de enfrentar os fuzis energéticos dos arcônidas?
Pouco importa que eu morra agora ou dentro de pouco tempo, a bordo de alguma nave e em meio a um grupo de robôs desalmados.
Vai arriscar-se? — Toffner lançou um olhar indagador para Markh. Quando notou o gesto afirmativo de Markh, acrescentou:
Por que veio falar justamente comigo? O que posso fazer por você? Terei de apresentar-me daqui a dez dias, e não tenho a menor dúvida de que me julgarão apto.
Markh inclinou o corpo.
Fiquei sabendo há poucas horas. Deverei apresentar-me dentro de dois dias, Garak! Dois dias!
E daí?
Toffner fingiu-se de indiferente, mas em seu interior rugia uma verdadeira tormenta. Seria esta a chance de, depois de três anos de faina, conseguir um verdadeiro amigo e aliado? Ou estaria próximo ao fim?
E daí? Não quero ir com os arcônidas. Prefiro viver nas catacumbas que ficam embaixo de sua arena, proscrito e escondido, procurado pela polícia, transformado num prisioneiro voluntário. Será que ainda não compreendeu?
Toffner compreendia perfeitamente. Evidentemente o caçador sabia que para ele só havia uma possibilidade de escapar aos comandos de recrutamento. Teria de esconder-se num lugar em que ninguém o encontrasse. E que lugar poderia ser melhor que as catacumbas existentes embaixo da cidade de Tagnor? Muitas delas eram antiqüíssimas, e parte delas desabara, parte fora esquecida.
Nas galerias que ficam embaixo da arena? — repetiu o agente, para ganhar tempo. — O que espera conseguir com isso? Afinal, você não pode passar o resto dos seus dias sem sol e longe dos homens.
Nem pretendo fazer isso, Garak. Um belo dia, quando tiverem arranjado um número suficiente de soldados, os arcônidas irão embora. Depois poderei sair do esconderijo e começar vida nova. Quando o tal do Calus tiver dado o fora, os policiais do Zarlt já não terão o menor interesse por mim.
Toffner teve suas dúvidas.
Não sei se devo concordar com você. Muita gente terá a mesma idéia. Se o afluxo de recrutas diminuir muito, procurarão localizar os elementos faltantes. E onde serão iniciadas as buscas? É claro que será nas catacumbas.
Markh não respondeu imediatamente. Manteve um silêncio obstinado. Toffner via perfeitamente que o zalita já se arrependera por ter informado alguém sobre seus planos. Mas depois de alguns minutos, o caçador voltou a levantar a cabeça.
Sempre fizemos bons negócios e somos amigos. Se eu lhe pedir, você me ajudará? Tenho dinheiro, Garak. Só lhe peço que me forneça mantimentos. Prefiro um cubículo nas pedras a uma luxuosa nave arcônida. Acho que você compreende.
Toffner percebeu que não deveria forçar a situação.
É claro que quero ajudá-lo e sei muito bem onde poderei escondê-lo. Mas, de uma hora para outra...
Ainda disponho de dois dias. Voltarei a Larg e providenciarei para que alguém cuide dos meus negócios. Será um velho, que ninguém convocará para o exército. Ele dirá que estou numa caçada e ainda não voltei. É bem possível que se esqueçam de mim. Trarei minha fortuna em dinheiro, que não é pequena. Além disso, trarei um amigo. Trata-se de uma pessoa que também não está interessada em entrar para o serviço das armas.
Revelou seus planos a alguém? — perguntou Jeremy em tom apavorado. — Não acha que foi uma leviandade?
Trata-se de Kharra, o negociante de vinhos. Você o conhece. Bem, ver-nos-emos daqui a dois dias. Pode ser aqui em seu apartamento, à mesma hora?
Toffner apertou a mão de Markh.
Confie em mim. É possível que vocês não fiquem sós em seu esconderijo. Também não estou com a menor vontade de dizer adeus ao planeta Zalit. Um belo dia, Calus terá de ir embora.
Markh levantou-se; parecia muito satisfeito. Agradeceu efusivamente e, ao despedir-se, prometeu tomar cuidado para não provocar suspeitas.
Jeremy Toffner voltou a ficar só.
Quando se viu na cama e fechou os olhos, teve um desejo ardente: queria receber instruções concretas pelo hiper-rádio.
Encontrava-se num beco sem saída...
2



O cruzador ligeiro Burma, da classe Estado, deu alguns hipersaltos que o levou a vários pontos da Via Láctea, e acabou pousando no espaçoporto de Terrânia. Ao proceder dessa forma, o comandante seguia uma regra geral, segundo a qual não se devia confiar exclusivamente no neutralizador de vibrações, montado em série, muito embora tal aparelho neutralizasse os abalos causados pelos hipersaltos, tornando impossível a localização goniométrica da nave. Mas a experiência havia dado aos terranos uma amarga lição: um aparelho desse tipo está sujeito a falhas, e quando estas ocorrem, todas as tentativas de camuflagem se tornam inúteis. E a descoberta da posição da Terra representaria o fim.
O comandante da Burma emitiu uma ordem geral no sentido de que ninguém deveria sair da nave. Fundamentou a medida com o fato de que o cruzador ligeiro voltaria a decolar dentro de trinta minutos no máximo.
Depois pediu a presença do Tenente Behrends, encarregado da estação retransmissora destinada ao tráfego com os agentes.
Dali a cinco minutos, Rhodan e Bell entraram no convés de comando da Burma e, depois de cumprimentarem ligeiramente o comandante, acompanharam o Tenente Behrends para a sala de rádio.
Behrends era um oficial jovem, mas muito competente e experimentado. Há anos pertencia à equipe que mantinha contato com os agentes espalhados por todos os cantos. Rhodan conhecia-o pessoalmente e sabia que podia confiar nele. As precauções tomadas por Behrends constituíam a melhor prova disso. Afinal, a importantíssima mensagem poderia ter sido transmitida como qualquer outra. Havia uma probabilidade de 99 por cento de que esta não fosse captada por qualquer pessoa não autorizada. Mas Behrends achou que o um por cento que sobrava ainda representava um risco excessivo.
Foi o senhor que recebeu a mensagem? — perguntou Rhodan para certificar-se, quando finalmente se viram a sós na sala recheada de equipamentos técnicos e aparelhos de todos os tipos. — Quem a expediu? Será que foi Jeremy Toffner, nosso agente em Zalit?
O Tenente Behrends interrompeu o que estava fazendo e virou-se abruptamente. Fitou Rhodan como se o administrador fosse um fantasma.
É de Toffner, Sir — gaguejou. — Como foi que o senhor soube?
Rhodan sorriu.
Era o que eu imaginava.
Behrends recuperou-se do espanto.
Não falei com ninguém sobre isso e tratei o assunto com o maior sigilo. Por motivos de segurança preferi não retransmitir o texto da mensagem ao Marechal Mercant. E, apesar de tudo, o senhor já sabe de que se trata. Não compreendo, Sir.
Foi apenas uma suposição, tenente. Vejo que se confirmou. Mas tranqüilize-se; eu já esperava notícias importantes de Zalit. Na verdade, já as esperava há algumas semanas.
O Tenente Behrends parecia mais tranqüilo, pois chegou à conclusão de que não cometera nenhum erro. Aliás, isso seria incompreensível...
Com as mãos ágeis ligou o projetor sonoro e colocou o dedo sobre os lábios. A transmissão não era muito nítida; havia interferências. Faltavam algumas palavras, mas o sentido era claro. Era fácil substituir os fragmentos.
Rhodan e Bell mantiveram-se em silêncio, prestando atenção à voz de um homem solitário, que dependia exclusivamente da própria capacidade para prestar seus serviços à Terra. Vivia em meio a uma raça estranha e nunca sabia se assistiria ao amanhecer do dia seguinte. Os agentes cósmicos mereciam todo respeito, pois eram os homens mais valentes e mais solitários do Universo.
Há algumas horas Árcon vem obrigando os zalitas a entrarem no serviço da frota. Não fazem exceções. A ação vem sendo dirigida por um certo Almirante Calus. É relativamente jovem e desenvolve uma atividade espantosa para um arcônida. O Zarlt submeteu-se sem oferecer a menor resistência. Kosoka, o Zarlt, é um velho debilitado que faz tudo que Árcon lhe pede. Aguardo novas instruções.
Rhodan estava prestando atenção, mas a voz de Toffner já silenciara.
Como soube que esta notícia é tão importante? — perguntou, dirigindo-se a Behrends. — Seu texto não parece ser muito sigiloso.
É possível — respondeu o tenente, que já tinha vencido o espanto. — Acontece que Zalit é o mais importante dos nossos postos avançados e o mais exposto. Em hipótese alguma, devemos perdê-lo, e é por isso que agi com tamanha cautela. Além disso, a mensagem confirma que Árcon está recrutando tropas, fato que também resulta das mensagens recebidas de outros mundos coloniais. Fiz questão de evitar que alguém saiba que em Zalit existe um terrano. E o regente deverá ter exatamente essa suspeita se ficar inteirado de nossa reação.
Muito bem — disse Rhodan e lançou um olhar benevolente para o jovem tenente. — Agiu com grande circunspeção; merece elogios. É bem verdade que tomaremos nossas medidas, mas quando Árcon perceber alguma coisa, já será tarde. Isto é, se tudo correr de acordo com os planos. E faço votos sinceros de que seja assim.
O Tenente Behrends levantou-se.
Quer voltar a ouvir a mensagem, ou posso apagá-la?
Apague-a, Behrends. E volte a seu posto. Nos próximos dias, você receberá uma mensagem relativa a Toffner. Providencie para que seja transmitida imediatamente. Deve ser condensada e codificada ao extremo. É muito importante.
Posso imaginar — respondeu Behrends e fez continência.
Rhodan e Bell saíram da sala de rádio. Do lado de fora encontraram-se com o comandante.
Decole dentro de cinco minutos — ordenou Rhodan.
Quando voltou a sentir o pavimento do espaçoporto sob os pés, sentiu-se aliviado. Sem dizer uma palavra, subiu ao planador juntamente com Bell.
O campo de pouso foi ficando para trás.
E agora? — perguntou Bell. — Vamos acelerar nossos planos?
Rhodan respondeu com a maior tranqüilidade:
Não aceleraremos tanto nossos planos, mas principalmente a execução dos mesmos. Ainda bem que já preparei tudo. A ação infiltração será iniciada ainda hoje.
Tomara que ela seja bem sucedida — disse Bell, olhando atentamente para a frente, de onde os telhados de Terrânia se aproximavam velozmente.
O comando que executaria a operação estava preparado.
Tratava-se de duzentos homens muito bem treinados para a execução da tarefa. Ninguém sabia de que se tratava, mas todos desconfiavam de que a operação a ser executada assumia a maior importância. Há vários meses os homens estavam sendo submetidos a intensos treinamentos hipnóticos que lhes transmitiriam todos os conhecimentos que um zalita deve possuir. Falavam sem o menor sotaque a língua do planeta Zalit, entendiam o arcônida e estavam familiarizados com a respectiva tecnologia. Entre esses duzentos homens havia competentíssimos astronautas, operadores de rádio, cientistas de todas as especialidades, mutantes e ex-agentes do Serviço de Segurança.
Um dos oficiais mais importantes era o Major Art Rosberg, especialista em transmissão de matéria. Sabia como se construía um transmissor, aparelho que desempenharia um papel importantíssimo na operação a ser executada, fosse ela qual fosse. O major, um tanto ranzinza, baixo e grisalho, era uma sumidade em sua área de especialização, mas não gostou de ser investido de uma hora para outra no comando de duzentos homens. Supervisionava, juntamente com um amigo, o Capitão Gorlat, o treinamento do grupo de especialistas.
Naquela noite, os dois mais uma vez estavam reunidos e se entregavam às suas especulações. Gorlat sabia mais do que queria confessar. Afinal, participara regularmente das conferências realizadas com os dirigentes do Império. Mas o sigilo a que estava obrigado também se aplicava às suas relações com Rosberg.
Tomara que a coisa não demore muito — disse o major em tom contrariado.
Já estou ficando nervoso de tanto esperar.
Receio que seus nervos ainda terão de suportar cargas bem maiores — respondeu Gorlat em tom contrariado; realmente estava falando sério. — Se não estou muito enganado, não teremos de esperar muito tempo pela ordem de entrar em ação. A Burma chegou hoje de tarde. Sabe que se trata de um cruzador da classe Estado que serve de estação retransmissora.
E daí? O que é que nós temos com isso?
Gorlat não queria revelar demais, mas aproveitava todas as oportunidades para animar o major.
É claro que também não sei exatamente. Mas o fato é que Rhodan e Bell subiram a bordo e permaneceram no cruzador durante meia hora, aproximadamente. Depois disso a Burma partiu.
Isso pouco me importa — disse o Major Rosberg e encheu o cachimbo. — Tenho inveja do pessoal que viaja nas naves. Bem que gostaria que o vento de Marte voltasse a fustigar meu rosto.
Talvez isso aconteça muito em breve — disse Gorlat em voz de oráculo, sem desconfiar de que essa profecia se cumpriria com tamanha rapidez. — O treinamento propriamente dito está concluído em todos os setores. Só estamos esperando a ordem de entrar em ação.
Antes que Art Rosberg tivesse tempo para responder, o aparelho de comunicação que se encontrava sobre a mesa emitiu um zumbido. Tratava-se de um videofone do tipo usual, que dispunha de pequena tela de imagem.
Com um movimento um tanto preguiçoso, Rosberg pôs a mão na caixa e comprimiu o botão.
Quem estaria chamando àquela hora da noite? Só poderia ser alguém que quisesse pedir licença para sair, ou então...
Quando reconheceu o rosto de Rhodan, estremeceu de susto.
Major Rosberg? O Capitão Gorlat está aí? Ah, já o estou vendo. Preste atenção, Gorlat! Neste momento entra em vigor a ordem X. Providencie tudo que se torne necessário. Decolaremos dentro de três dias, com a Drusus.
Gorlat levantou-se de um salto.
Entendido, Sir! — respondeu, ficando em posição de sentido. — Tomarei todas as providências. — Lançou um olhar ligeiro para Rosberg e perguntou: — Já posso informar o major?
Rhodan sorriu.
Informe-o, Gorlat, senão acaba estourando de curiosidade. Ainda precisaremos dele.
A tela apagou-se.
Rosberg fitou a superfície leitosa, virou-se lentamente e olhou para Gorlat, que retribuiu o olhar com um sorriso.
O que foi que o chefe disse?
Gorlat fez um gesto vago.
Disse que já lhe posso contar tudo. Aguarde um momento; tenho que dar minhas ordens, a fim de que não haja qualquer atraso no cronograma.
Usou o videofone de Rosberg.
O major ficava mais pálido a cada minuto que passava, mas em seus olhos ardia a chama da excitação.
A espera e a inatividade haviam chegado ao fim!

* * *

Trabalhava-se dia e noite.
Especialmente nos laboratórios químico-biológicos a atividade era muito intensa.
Os biomédicos estavam modificando as aparências do comando especial. Usavam um preparado especial para alterar a cor dos olhos e da pele. Os cabelos também não foram esquecidos. A cada hora, oito terranos completamente modificados saíam do laboratório e procuravam acostumar-se a seu novo aspecto. Ainda bem que Rhodan proibira as saídas, pois do contrário certamente haveria barulho nos bares de Terrânia.
Do laboratório bioquímico os homens passavam aos vestiários. Cada participante da operação a ser realizada recebia vestes zalitas, confeccionadas em conformidade com dados minuciosos. As roupas eram diferentes umas das outras, conforme teriam de ser para os paisanos. As calças largas incomodavam, mas todos acabavam por acostumar-se. Foi principalmente Bell, que, da mesma forma que Rhodan, não escapou ao procedimento rotineiro, que teve de ouvir uma série de conselhos. E, enquanto ouvia, as calças incomodavam menos.
Houve uma única exceção, com a qual todos concordaram.
Gucky, o rato-castor, continuou a ser o mesmo. Não havia possibilidade de transformá-lo num zalita. Afinal, era um rato gigantesco com rabo de castor. Consciente da situação excepcional em que se encontrava, Gucky caminhava orgulhosamente entre os homens e distribuía francamente suas piadas sobre as máscaras dos outros. Rhodan deixou que agisse à vontade, pois sabia que os homens precisavam de algo que os animasse.
Depois de dois dias, a operação foi discutida pela última vez. No dia seguinte já estariam a caminho.
Quer dizer que, além da Drusus, que levará o transmissor fictício, decolará a Califórnia, com cinco transmissores de matéria a bordo. Quanto menor o numero de naves que se dirigem ao grupo estelar M-13, menor será o perigo de sermos descobertos. Precisamos conseguir o máximo possível com o uso do menor volume possível de recursos. Não pode haver nenhuma pane, pois do contrário iremos parar no inferno. Nossa vida dependerá da capacidade de nosso agente Toffner. Este recebeu ordens para colocar um transmissor de sinais goniométricos em qualquer ponto de Zalit que se preste às finalidades que temos em vista.
Os homens fitaram Rhodan sem dizer uma palavra e esperaram. Depois de uma pausa o administrador prosseguiu:
Com apenas umas poucas transições chegaremos ao sistema de Voga. A Drusus executará uma operação-relâmpago, no curso da qual usará o transmissor fictício para colocar uma estação receptora de matéria num ponto de Zalit onde Toffner tiver instalado o transmissor de sinais goniométricos. Depois disso, a Drusus terá de desaparecer do local, o mais rápido possível. O resto será simples. Na Califórnia estão instaladas cinco estações de transmissão de matéria. E nós também estaremos a bordo da Califórnia, com todo o equipamento. Agiremos rapidamente. Dentro de dez minutos deveremos estar em segurança em Zalit, pois é de se esperar que nossa aproximação não deixará de ser registrada.
Quando iniciarem a perseguição da Califórnia, já deveremos estar em lugar seguro. Acho que todos compreenderam o que está em jogo. Só nos resta desejarmos boa sorte uns aos outros. Bem que precisaremos. Alguma pergunta?
Duzentos homens e um rato-castor fitaram Rhodan. Ao que parecia, ninguém tinha perguntas.
Ou será que tinha?
A voz resmunguenta do Major Rosberg interrompeu o silêncio carregado de expectativa.
O que vamos fazer em Zalit, Sir? Muito bem; somos igualzinhos aos zalitas. Mas qual é o objetivo da operação? Acho que não iremos a Zalit para meter um susto nos habitantes do planeta...
Sem dúvida, major — respondeu Rhodan em tom irônico. — Mas não se esqueça de que Zalit fica a apenas três anos-luz de Árcon. Em termos cósmicos é apenas um pulo. Para nós, Zalit representa a porta de entrada de Árcon.
Ou a entrada para o inferno — acrescentou Rosberg e envolveu-se num silêncio apreensivo.
Talvez — limitou-se Rhodan a dizer.

* * *

Jeremy Toffner parou na porta.
Vocês quiseram assim, amigos; não me venham com recriminações. Garanto que ninguém os encontrará aqui, mas a permanência neste lugar não será nada agradável. Vocês terão comida e bebida à vontade, e também não sentirão falta de livros. Em compensação não terão liberdade.
O vinho dá para seis meses — respondeu Kharra em tom animado. — Tenho certeza de que antes disso Calus terá saído de Zalit. Não quero ser enfiado num uniforme. Nunca gostei de uniformes.
Nem eu — disse Markh e sacudiu o corpo. — Prefiro viver numa caverna a morrer por Árcon. O que é que você fará, Garak?
Ainda tenho oito dias para decidir — respondeu Toffner e refletiu febrilmente sobre o que deveria fazer nesses oito dias. Em hipótese alguma poderia permanecer na superfície. — De qualquer maneira arranjarei alimentos para mim e procurarei encontrar um zalita que nos avise quando a barra estiver limpa.
Fale com Hhokga, um comerciante de tecidos de Larg! — exclamou Markh. — É muito velho para ser recrutado pelos arcônidas. E posso garantir que é digno de confiança.
Falarei com ele — prometeu Toffner. — É bem verdade que temos aparelhos de telecomunicação com os quais podemos entrar em contato com a superfície, mas quem sabe se os locutores dirão a verdade? E possível que trabalhem por ordem dos arcônidas e procurem atrair os zalitas, que vivem na ilegalidade, a uma armadilha. Por isso acho que não podemos dispensar um aliado de confiança. Voltarei amanhã ou depois.
Fez um gesto para os amigos e saiu para o corredor. Trancou cuidadosamente a porta de pedra e certificou-se de que também este esconderijo era praticamente perfeito. Depois dirigiu-se o mais rápido possível a seu cubículo em meio à rocha.
Ao entrar, percebeu imediatamente que a notícia pela qual tanto ansiava já chegara.

* * *

Sem dizer uma palavra, Rhodan contemplou David Stern, chefe da equipe de rádio da Drusus, enquanto este irradiava a mensagem codificada. Naquele mesmo instante, essa mensagem seria captada pela Burma, que a retransmitiria imediatamente. Dentro de um minuto tal mensagem poderia chegar às mãos de Jeremy Toffner, se ele por acaso se encontrasse perto do aparelho.
Mas havia boa margem de tolerância.
A Drusus e a Califórnia circulavam em torno do sistema solar a que pertenciam, a uma distância de dez bilhões de quilômetros. Rhodan permaneceria ali para aguardar o último sinal de Zalit, que representaria a confirmação do recebimento da ordem e a data. Só depois valeria a pena iniciar a operação.
A existência do Império Solar estava por um fio!

* * *

Enquanto subia os poucos degraus que levavam à residência de Hhokga, o coração de Jeremy Toffner batia fortemente. Tinha de arriscar todas as chances numa só carta. Se Markh se tivesse enganado quanto ao caráter do negociante de tecidos, tudo estaria perdido. Naturalmente, caso se recusasse a ajudar, poderiam matar Hhokga. Mas Toffner sentia certo constrangimento em matar uma pessoa inocente. Ainda acontecia que o negociante era um velho indefeso. Quer dizer que, se obedecesse às leis vigentes, não assumiria qualquer risco.
Toffner passara a noite em Tagnor e preparara tudo para poder responder o mais cedo possível à indagação de Rhodan. Sabia que esperavam por isso, e que a operação só começaria depois que chegassem as indicações a serem fornecidas por ele. De outro lado estava cônscio de suas responsabilidades e não daria o sinal para que a operação se iniciasse antes que a segurança fosse total. O tempo urgia, e por isso resolvera harmonizar a visita a Hhokga com a execução de seus planos.
Com um gesto hesitante, acionou a campainha.
Por um instante tudo permaneceu em silêncio. O negociante de tecidos residia num daqueles edifícios afunilados. Cada inquilino levava sua própria vida e gozava de um máximo de independência. Era como se morasse numa cabana situada na selva, pois cada apartamento possuía entrada independente. Quem utilizasse a escada, dispensando o elevador, poderia ter certeza de escapar aos olhares curiosos dos moradores do edifício.
Ouviu passos atrás da porta.
Será que o próprio Hhokga viria abrir a porta? Talvez morasse só. Markh dissera que o comerciante era solteiro e que de noite dispensava sua criadagem.
A porta abriu-se, e o rosto espantado de um homem idoso fitou Toffner.
É o senhor, Garak? O que veio fazer em Larg?
Apenas queria...
Entre, Garak — deu um passo para o lado, para que Toffner pudesse passar. Voltou a trancar a porta. — Não deve ter vindo apenas para dar boa noite a um velho.
O senhor não é tão velho assim — objetou Toffner e sentou-se na poltrona que lhe foi oferecida. — Até acho que está na melhor idade... Nos dias que correm muita gente gostaria de ser tão velho quanto o senhor...
Hhokga não era um homem que tivesse dificuldade de compreender as coisas. Fitou atentamente seu interlocutor, acenou algumas vezes com a cabeça e foi a um armário do qual tirou dois copos e uma garrafa. Colocou tudo sobre uma pequena mesa oval, sentou-se, removeu a rolha da garrafa e disse:
Isso é uma questão de ponto de vista, Garak. Se fosse mais jovem, bem que gostaria de ser recrutado pelos arcônidas.
Qualquer pessoa está disposta a fazer um tremendo sacrifício em troca de alguma coisa impossível, Hhokga. Mas os jovens de Zalit não pensam assim, justamente por serem jovens.
Hhokga sorveu o primeiro gole de vinho.
Tudo depende da maneira de encarar as coisas, meu jovem amigo. Aliás, receio que não seja tão velho que possa escapar para sempre aos arcônidas. Compreende o que quero dizer?
Toffner compreendeu, mas não compartilhava os receios do comerciante.
O senhor ainda tem muito tempo, Hhokga. Alguns anos se passarão até que todos os jovens de Zalit tenham sido arrastados para o serviço militar. Até lá o senhor envelhecerá ainda mais. Portanto, não vejo motivo...
O senhor tem visto Markh? — interrompeu Hhokga subitamente e fitou Toffner. — Anteontem era o dia em que costumávamos jogar, mas ele não apareceu.
Podia ser uma coincidência. Ou uma armadilha.
Toffner fitou os olhos do velho e percebeu que Hhokga nunca seria capaz de trair alguém. Resolveu confiar nele, jogando todas as chances numa só carta. Afinal, não poderia deixar de proceder assim, pois o momento parecia favorável.
Sim, tenho visto Markh. Foi a Tagnor a fim de pedir que eu o ajudasse. Escondi-o nas catacumbas, juntamente com Kharra, o mercador de vinhos, que o senhor conhece. Os dois não querem apresentar-se aos arcônidas. Foram eles que me pediram que o procurasse.
Hhokga refletiu por algum tempo. Subitamente seus olhos ligeiramente avermelhados se iluminaram.
O senhor tem confiança em mim; o senhor e meus amigos. Mas por que jogam esse problema nos meus ombros? Por que tenho de participar de um segredo que pode ser mortal?
Toffner explicou a situação e concluiu:
O senhor receberá parte da fortuna de Markh. A única coisa que terá de fazer é providenciar para que ele seja abastecido regularmente de alimentos. E, o que é o principal: quando os arcônidas, especialmente o tal do Almirante Calus, saírem de Zalit, o senhor deverá avisar Markh. É só o que terá de fazer.
Se eu me recusasse, não seria um amigo de verdade — disse o negociante, apertando a mão de Toffner. — Confie em mim. Não acredite que concordo com o procedimento desses arcônidas arrogantes. Pelo contrário! Mas o que posso fazer? A resistência passiva já representaria um perigo. Mas ajudarei meus amigos no que puder. No entanto, não preciso de dinheiro.
Toffner sentiu-se aliviado por ter liquidado sua incumbência nessa parte. Mas restava esclarecer um ponto relacionado com a hipermensagem de Rhodan. Embora Markh lhe tivesse fornecido uma descrição minuciosa do planeta, seus conhecimentos não eram suficientes para encontrar um lugar que se prestasse aos fins que tinham em vista. Por isso ainda aqui tinha de recorrer ao auxílio de Hhokga.
Tenho outro assunto a tratar com o senhor. Tenho necessidade absoluta de achar um esconderijo bem camuflado no deserto, que fica ao oeste daqui, entre Larg e Tagnor. Durante um vôo constatei que há uma cadeia de montanhas, não muito elevadas, que divide o deserto. Pelo que diz Markh, na encosta oeste dessa cadeia de montanhas existem cavernas. O senhor conhece essas cavernas, pois já fez excursões por lá. Poderia levar-me até lá?
Hhokga sacudiu a cabeça.
Não me leve a mal se deixo de atender a esse pedido, Garak. Se chegassem a desconfiar, tanto o senhor como eu seríamos presos. E se eu andasse pelo deserto, isso seria inevitável. Para um caçador a presença no deserto não tem nada de extraordinário, mas, para um velho como eu, tem. No entanto, embora não esteja disposto a acompanhá-lo, terei o maior prazer em fornecer algumas informações que por certo lhe serão úteis. Conheço as cavernas a que está aludindo.
Parecia que alguém tirara um peso de cima de Toffner. Talvez fosse mesmo preferível que se dirigisse sozinho ás cavernas. Assim despertaria menos atenção do que saindo da cidade juntamente com o negociante. Se alguém fosse no seu encalço, poderia dizer que estava à procura de Markh, o caçador.
É claro que ficaremos satisfeitos com isso. Estaria pronto a fornecer uma descrição minuciosa das grandes cavernas, a fim de que possa localizá-las sem maiores problemas?
Pois não.
Toffner inclinou-se para a frente.
Por que não me pergunta o que quero fazer nas cavernas?
Um sorriso sábio surgiu no rosto de Hhokga.
Quanto menos sabe o homem, melhor para sua saúde, Garak. Eu o ajudo, cumprindo um desejo seu. Não me interessa por que está interessado em encontrar as cavernas. Um momento; vou pegar uma folha para desenhar um mapa.
Toffner reclinou-se na poltrona e tomou um gole do excelente vinho que tinha à sua frente. Sentia-se muito satisfeito com o rumo que estavam tomando os acontecimentos. Se conseguisse encontrar uma caverna que se prestasse aos fins que tinha em vista, amanhã mesmo poderia avisar Rhodan. Pôs a mão no bolso e apalpou uma caixa metálica retangular. Era o emissor de raios goniométricos que seria depositado na caverna. Uma vez ligado, transmitiria sinais por semanas a fio, numa freqüência de que só Rhodan tinha conhecimento. Só mesmo por um acaso, altamente improvável, outra pessoa poderia captá-los. E essa pessoa não saberia o que tais sinais significavam.
Hhokga voltou. Empurrou os copos para o lado e colocou uma folha de metal finíssima sobre a mesa. Tinha um lápis magnético na mão.
Acho que o senhor não vai a pé, não é, Garak?
Isso mesmo. Aluguei um planador.
Muito bem. Preste atenção. Aqui fica Larg — desenhou um círculo do lado direito da folha — e aqui fica Tagnor.
O segundo círculo, bem maior, ficava do lado esquerdo.
Depois Hhokga fez um traço irregular que percorria o centro da folha, em sentido vertical.
Aqui fica a cadeia de montanhas que atravessa o deserto. A distância entre as duas cidades é de mil quilômetros, aproximadamente. No deserto não mora ninguém, especialmente na parte montanhosa. Nossos antepassados não julgaram conveniente transformar aquela área em terras férteis, e hoje não há mais necessidade disso. Para quem faríamos isso? Para os arcônidas!
Soltou um suspiro e voltou a olhar para o mapa.
As cavernas ficam mais ou menos por aqui. A maior delas quase pode abrigar uma espaçonave. Em algumas há vestígios de que foram, em épocas remotas, habitadas.
Sorriu para Toffner.
Seja lá o que o senhor pretende fazer nas cavernas, estará em segurança. Ninguém o encontrará.
Toffner compreendeu que Hhokga estava tirando uma conclusão errada. Acreditava que pretendia esconder-se nas cavernas. Talvez o zalita pensasse que existia uma passagem subterrânea das galerias sob a arena à cadeia de montanhas.
Não há problema; saberei encontrar as cavernas — asseverou o agente sem dar outras explicações a Hhokga. — Amanhã mesmo começarei a procurá-las.
Tomaram mais um pouco de vinho. Finalmente o negociante convidou Toffner a dormir em sua casa. Toffner aceitou com o maior prazer. Dormiu um sono tranqüilo e profundo na segurança do lar.
Na manhã do dia seguinte despediu-se e tomou um táxi que o levou à área de estacionamento, onde encontrou o planador alugado em perfeitas condições. Antes de partir fez um vultoso depósito bancário em nome de Hhokga.
Inseriu a programação da rota no piloto automático. O veículo aéreo desprendeu-se suavemente do solo e subiu em alta velocidade. Não demorou para que a cidade de Larg desaparecesse atrás dele. Não imaginava se, e quando, iria revê-la...
O deserto deslizava abaixo dele. Muito raramente era interrompido por platôs de pedra e vales secos. Certa vez chegou mesmo a ver uma mata rala. Toffner viu uma manada de animais que fugiu em desabalada carreira quando o planador se aproximou. Já sabia que lá embaixo encontraria carne, se precisasse dela.
Finalmente a linha comprida do complexo montanhoso surgiu à sua frente.
A cadeia não era tão baixa como parecia, quando vista de uma altitude maior. Pelos cálculos de Toffner, a altura média dos cumes devia chegar a dois mil metros. O ar límpido parecia reduzir as distâncias.
Examinou a programação e corrigiu a rota. O planador desceu e a velocidade foi reduzida. Passou rente aos cumes e seguiu as encostas do lado oposto. Tagnor ficava em algum lugar, atrás da linha do horizonte.
O planador pousou num vale escondido. Antes disso, Toffner dera algumas voltas e se certificara de que o vale se ligava ao deserto por uma passagem estreita, passagem essa que era praticamente invisível a quem se encontrasse no deserto.
O vale era quase circular e tinha um diâmetro de pelo menos quinhentos metros. As cavernas negras interrompiam a uniformidade das paredes lisas de rocha.
Chegara ao destino.
Dali a duas horas encontrou o lugar que procurava. Não era a maior das cavernas, mas seu tamanho era suficiente para os fins que tinha em vista. Além disso, a entrada não apresentava maiores problemas; a passagem era fácil. Um exército poderia abrigar-se no fundo do vale, sem que houvesse o menor perigo de ser descoberto.
Toffner pegou cautelosamente o pequeno emissor, ativou-o e colocou-o no interior — e bem no centro — da caverna. Rhodan ressaltara em suas instruções que era muito importante tal colocação.
Toffner lançou um olhar pensativo para a caixinha metálica, que passou a irradiar seus sinais. Era verdade que estes só se propagavam à velocidade da luz, mas isso não tinha importância. Se Rhodan dependia dos sinais para achar a caverna, era sinal de que já se encontrava nas imediações do planeta Zalit.
Subitamente, Toffner começou a tremer de nervosismo.
Compreendeu que não ficaria só por muito tempo...

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