3
A
paciência do comando especial foi submetida a uma prova muito dura.
A Drusus e
a Califórnia circularam em torno do sistema solar durante quase dois
dias; aguardavam a resposta do agente Jeremy Toffner.
Os membros
do comando já se encontravam a bordo da Califórnia, um cruzador
ligeiro com os conjuntos propulsores superpotentes, que lhe permitiam
uma enorme aceleração. A nave levava apenas cinco minutos para
alcançar a velocidade da luz.
Rhodan era
o único que continuava a bordo da Drusus; aguardava a mensagem de
Toffner. Gucky permanecia a seu lado já que, quando chegasse a hora,
Rhodan desejava transportar-se imediatamente, por meio de um salto de
teleportação, para a Califórnia.
O Coronel
Baldur Sikermann, comandante do supercouraçado, acabara de designar
um jovem oficial para pilotar a nave, pois queria pedir a Rhodan que
lhe fornecesse as últimas instruções para a operação.
Os dois
homens estavam sentados num compartimento contíguo à sala de rádio,
na qual David Stern se mantinha à espera junto ao hiper-receptor.
Não havia o menor perigo de que o impulso condensado a ser
transmitido pela Burma fosse captado indevidamente por outra pessoa.
Sua duração não ultrapassaria um décimo de milésimo de segundo.
Antes que alguém pudesse dirigir as antenas goniométricas para o
transmissor, a transmissão cessaria.
Sikermann
voltou a repetir:
— Quer
dizer que sairei dez minutos antes, emergirei do hiperespaço a um
minuto-luz de Zalit e, durante a aproximação, cuidarei
simultaneamente da frenagem e da localização do transmissor de
sinais goniométricos. Nosso transmissor de matéria se situará
dentro do raio de ação do transmissor fictício, que será
direcionado exatamente sobre o transmissor goniométrico a ser
colocado por Toffner. Depois de um minuto, no máximo, o transmissor
fictício será acionado para colocar o receptor de matéria em
Zalit. Depois tratarei de colocar a Drusus em lugar seguro. Rhodan
confirmou.
— É só
o que terá de fazer. Realize uma transição a pequena distância e
aguarde a chegada da Califórnia, que deverá concluir sua tarefa
dentro de dez minutos, aproximadamente. Depois, você se dirigirá à
posição de espera, previamente fixada, acompanhado pelo cruzador
ligeiro. Caso precisemos de você, Toffner chamará. Acho que está
tudo claro.
Sikermann
parecia um tanto desolado.
— Tudo
claro; ainda bem.
Rhodan
sorriu.
— Está
tudo claro quanto à execução do plano. Não me atreverei a
formular profecias sobre o resultado da operação.
A porta
abriu-se e Gucky pôs a cabeça para o interior da sala.
— A
mensagem chegou, Perry. Stern está fazendo a decodificação.
Rhodan
levantou-se com uma lentidão que chegava a parecer excessiva. Fez um
sinal para Sikermann e, ao lado de Gucky, saiu para o corredor. O
comandante levantou-se de um salto e seguiu-os.
— Mais
dois ou três minutos, Sir, e teremos o texto. A Burma agiu com uma
precaução toda especial; realizou uma condensação dupla.
Sikermann
manipulou a decodificadora automática e procurou encontrar as
regulagens adequadas. O aparelho complicado começou a zumbir; chaves
estalaram e entraram ruidosamente na posição de descanso.
Rhodan
aguardou paciente, enquanto Sikermann saltitava, nervoso, de um pé
para o outro. Inabalável, Gucky mantinha-se ao lado.
Finalmente
a máquina expeliu uma fita. Stern pegou-a e passou-a imediatamente
ao administrador.
Transmissor
goniométrico em funcionamento.
Hora:
14,00.
Só isso.
Sikermann
pegou a fita.
— Quer
dizer que chegou a hora, Sir?
— Voltarei
agora mesmo para a Califórnia juntamente com Gucky. Comece a
acelerar dentro de três segundos. Percorra o trecho que nos separa
de Zalit em quatro transições, conforme foi previsto. Levará duas
horas para chegar ao planeta — olhou para o relógio. — Às
dezessete horas, tempo de Terrânia, o receptor estará em Zalit,
pronto para entrar em funcionamento. Boa sorte, Sikermann! Bem que
precisaremos.
Sikermann
apertou a mão de Rhodan. Depois virou-se abruptamente e saiu
correndo em direção à sala de comando.
David
Stern viu o pequeno rato-castor colocar-se ao lado do administrador e
segurar-lhe a mão. Subitamente o ar começou a tremeluzir. Quando
voltou a olhar, Rhodan e Gucky haviam desaparecido.
Quase no
mesmo instante, os conjuntos propulsores da Drusus começaram a
uivar.
Compensando
totalmente a enorme pressão produzida pela aceleração, a nave saiu
da órbita solar e tomou a rota do primeiro ponto de transição.
Rhodan e
Gucky já se haviam materializado a bordo da Califórnia
Três
minutos depois, o cruzador ligeiro também saiu velozmente em direção
ao espaço interestelar.
O jogo
entre os impérios estelares teve seu início.
Era um
jogo de vida e morte...
*
* *
No momento
em que desligou o hiper-transmissor e voltou a guardá-lo no interior
da caverna, Toffner compreendeu que já não havia ninguém que seria
capaz de deter o curso dos acontecimentos.
Pegou seu
planador e chegou são e salvo a Tagnor, de onde irradiou
imediatamente a mensagem combinada. Não sabia quando chegaria Rhodan
e o grupo que o acompanharia. E não tinha a menor idéia do número
dos membros do grupo ou de seus planos. Apenas executara as
instruções recebidas e estava esperando.
O
transmissor de sinais goniométricos funcionava há oitenta minutos.
Saiu de
seu cubículo cavado sob a rocha e, dando algumas voltas, foi ao
lugar em que se encontravam seus amigos, a fim de informá-los sobre
a palestra que tivera com Hhokga. Markh e Kharra ficaram
satisfeitíssimos ao saberem que o negociante de tecidos estava
disposto a ajudá-los. Insistiram junto a Toffner para que não
perdesse tempo: deveria fazer seus preparativos o mais depressa
possível e desaparecer, da mesma forma que tinham feito.
Toffner
disse que tinha de liquidar mais alguns assuntos e despediu-se
apressadamente. Sabia que seus dois amigos não desempenhariam
qualquer papel importante nos acontecimentos que se desenrolariam
dali a pouco. Eram apenas figuras marginais de uma operação de
âmbito galáctico.
No momento
em que passou pela saída oficial e seus pulmões voltaram a
encher-se de ar puro, respirou profundamente. As catacumbas contavam
com algumas instalações de renovação de ar que ainda funcionavam,
mas estas eram insuficientes para abastecer todos os recintos. Com o
tempo, a atmosfera abafada comprimia os pulmões que nem uma nuvem de
poeira, dificultando a respiração. A pessoa só conseguia
acostumar-se ao ambiente depois de algumas horas.
Fizera
todos os preparativos. Nas proximidades de seu esconderijo havia
alguns recintos maiores, que poderiam servir de abrigo e oficina. Não
tinha a menor idéia sobre os planos de Rhodan, mas sua intuitividade
bastava para formar uma idéia aproximada da futura evolução dos
acontecimentos.
Talvez
fosse preferível voltar ao deserto e aguardar a chegada de Rhodan.
Seu
planador estava estacionado numa área situada nas proximidades da
arena. Toffner caminhou vigorosamente, a fim de atingi-lo o mais
depressa possível. De repente teve a impressão de que, caso não se
apressasse não chegaria em tempo.
Quando
dobrou a última esquina e viu a área de estacionamento à sua
frente, estacou.
Alguns
guardas do Zarlt costumavam patrulhar a área e não provocavam
maiores suspeitas. Por outro lado, não constituiriam motivo para
preocupações. Mas naquele momento, um verdadeiro cordão de robôs
arcônidas fortemente armados cercava a área de estacionamento.
Entre eles caminhavam alguns oficiais que envergavam o uniforme do
Império e controlavam toda a área.
Toffner
viu que alguns zalitas que queriam dirigir-se a seus veículos eram
mandados de volta. Outros eram presos e levados por um robô.
Será que
esses zalitas cometeram a leviandade de realizar uma viagem de
negócios sem a necessária documentação?
Toffner
sentiu-se tranqüilizado. Sorriu e pôs a mão no cartão de
identificação que trazia no bolso. Estava registrado como habitante
de Tagnor, nascido em Zalit, e exercia uma profissão permitida.
Possuía numerosos amigos e protetores entre os soldados do Zarlt,
pois todos apreciavam as lutas que se travavam na arena.
Continuou
a caminhar em direção aos planadores estacionados e viu que o seu
continuava no mesmo lugar.
Um
oficial, cujo rosto exprimia a arrogância habitual dos arcônidas,
interpôs-se em seu caminho.
— Não
está vendo que é proibido entrar nesta área? — disse em tom
autoritário. — Ninguém pode sair de Tagnor sem nossa permissão.
Toffner
assustou-se. Aquilo não parecia ser apenas um controle rotineiro de
documentos.
Por que
ninguém podia sair de Tagnor?
Apenas
quando havia alguma guerra ou revolução, isso costumava acontecer.
E no momento, o clima político de Zalit não estava marcado por
nenhum desses fenômenos.
Guerra? Se
é que havia uma, não era em Zalit.
— Preciso
ir a Larg para tratar de negócios — respondeu Toffner com a maior
tranqüilidade e apresentou seu documento de identidade. — Meus
documentos estão em ordem, oficial.
O arcônida
pegou o documento, estudou-o detidamente e fitou o rosto de seu
interlocutor com uma expressão desconfiada.
— O
senhor explora a arena de gladiadores de Tagnor?
— Por
aqui todo mundo me conhece. Será que o senhor tem alguma dúvida
quanto à autenticidade dos meus documentos? — Toffner apontou para
seu documento de identidade. — Pergunte aos soldados zalitas.
— Não
tenho nenhum motivo para isso — respondeu o oficial. Fitou Toffner
e prosseguiu: — Quando concluirá seus negócios e irá conosco
para Árcon? Já conhece a data de seu recrutamento?
De
repente, Toffner deu-se conta de que caíra, tolamente, numa
armadilha!
A operação
não era de controle de documentos, mas tinha por fim recrutar
soldados para o exército arcônida.
Toffner
respondeu com a maior tranqüilidade:
— É
claro que conheço a data. Ainda disponho de sete dias. Por que faz
essa pergunta?
O arcônida
ficou visivelmente impressionado com a calma de Toffner.
— Ah,
então ainda dispõe de sete dias? Por que quer viajar para Larg?
— Já
lhe disse que preciso tratar de negócios. Quando viajar para Árcon
a fim de receber meu treinamento, alguém me substituirá na direção
da arena. Tenho de instruí-lo e arranjar alguns animais para as
lutas. O senhor há de compreender que mesmo no curso de uma guerra,
se é que uma guerra está sendo travada, um povo não deve ser
privado dos seus prazeres.
— E o
senhor não deve ser privado dos seus negócios; compreendo
perfeitamente. Mas quem me garante que o senhor não vai desaparecer,
e que, daqui a sete dias, o esperaremos em vão?
— Desaparecer?
— o rosto de Toffner exprimiu tamanha perplexidade que o oficial
não conseguiu reprimir uma risada. — Onde é que poderia
desaparecer?
— O
senhor não seria o primeiro. Muita gente constante das listas não
compareceu no dia designado. Nós os encontraremos e castigaremos.
Tome seu documento. Quando chegar a Larg, apresente-se ao chefe da
seção de recrutamento. Se não o fizer, terá problemas.
Toffner
procurou dissimular o alívio que sentiu e pegou sua carteira de
identidade das mãos do oficial. Numa atitude que simbolizava a
autoconfiança e a consciência tranqüila, passou pelos guardas
robôs e dirigiu-se a seu planador. Sentiu o olhar do oficial na
nuca, mas não se virou. Abriu a porta num gesto lento e indiferente,
entrou na cabina e decolou.
Os robôs,
os aviões, os zalitas e o oficial, tudo recuou rapidamente, quando
descreveu uma curva e tomou a rota leste, que levava para Larg. Subiu
mais e olhou em torno para ver se havia aeronaves policiais, mas não
descobriu nenhuma. Bem embaixo dele, viu uma coluna que marchava;
eram robôs.
Tagnor
parecia um acampamento militar. Naquele instante, Toffner começou a
desconfiar de que nunca mais deveria aparecer “oficialmente”
na capital, a não ser que quisesse correr o risco de ser obrigado a
prestar serviço militar aos arcônidas.
Imprimiu
ao veículo a velocidade máxima e, depois de quinze minutos, chegou
à cadeia de montanhas.
Certificou-se
de que não havia nenhum planador nas proximidades e deixou seu
veículo cair subitamente, detendo-o no último instante e pousando
suave.
Por
enquanto tudo continuava em silêncio; não se via nada.
Lá em
cima notava-se um trecho circular do céu límpido e transparente.
Era o único lugar do qual poderia vir algum perigo.
De súbito,
Toffner estacou.
Não vira
um lampejo metálico lá em cima? Viera de uma altitude
considerável...
Ali...
mais outro!
Seguiu-se
uma luminosidade ofuscante, que logo se apagou.
Estaria
sofrendo de alucinações?
Sacudiu a
cabeça e dirigiu-se à caverna na qual fora colocado o transmissor
de sinais goniométricos.
Quando
estava prestes a entrar, viu um vulto que saía da penumbra.
Era um
zalita!
Num
movimento rapidíssimo pegou a arma que trazia escondida sob as
vestes.
Haviam
encontrado seu esconderijo! Estava tudo perdido...
Deu um
enorme salto e abrigou-se atrás de uma pedra. Resolveu defender-se
até o fim, pois queria vingar-se da traição de que se julgava
vítima, fosse quem fosse o traidor...
Parou e
levantou a arma.
*
* *
Quando a
Drusus emergiu da quarta transição, Zalit era uma grande esfera,
situada a menos de vinte milhões de quilômetros. Naturalmente, uma
esfera somente na tela, pois, a olho nu, o planeta era apenas uma
estrela muito luminosa. Afinal, um minuto-luz é uma distância nada
desprezível.
Sikermann
era a calma em pessoa. Sabia que só tinha três minutos de vantagem.
A Drusus deu início imediatamente à manobra de desaceleração. O
transmissor de matéria, que se encontrava no âmbito de ação do
transmissor fictício, foi ligado. Assim que chegasse a Zalit, teria
de estar pronto para a recepção.
Rhodan
possuía um único transmissor fictício. Recebera-o do grande
imortal do planeta Peregrino. Até então, tentara em vão construir
outro exemplar. O aparelho trabalhava na quinta dimensão e realizava
o transporte instantâneo de objetos para qualquer lugar.
Com os
transmissores comuns, a coisa era diferente. Já eram fabricados na
Terra. Porém seu alcance era limitado e só funcionavam quando havia
um transmissor e um receptor. O transmissor fictício da Drusus
transportaria um receptor desse tipo para o planeta Zalit. Rhodan
desejava que houvesse um receptor apto para entrar em funcionamento
nesse planeta do sol Voga.
Sikermann
exibiu um sorriso. No que dependesse dele, as coisas dariam certo...
O alarma
soou na sala de comando.
— Duas
naves aproximam-se à velocidade da luz, Sir! Transmitem no código
arcônida. Exigem que nos identifiquemos.
Sikermann
continuou a ser a calma em pessoa. Olhou tranqüilamente para o
relógio.
— Rechacem-nas!
— disse. Ainda dispunha de quarenta segundos. — Usem todo o
armamento.
A Drusus
tinha uma superioridade enorme sobre as duas naves de reconhecimento.
Antes que os arcônidas — talvez se tratasse de um povo colonial —
iniciassem o ataque, um punho imaginário tangeu-os vários milhões
de quilômetros pelo espaço a fora. Seus conjuntos propulsores
falharam e as naves ficaram impossibilitadas de manobrar. A muito
custo, conseguiram manter a rota por meio do suprimento energético
de emergência. Contentaram-se em avisar o Almirante Calus de que uma
nave desconhecida de tipo arcônida penetrara no sistema e não
fornecera sua identificação.
Trinta
segundos depois do momento em que a Drusus emergiu do hiperespaço, o
alarma soou em todo o sistema solar de Voga.
Sikermann
reduziu fortemente a velocidade e penetrou na atmosfera de Zalit. Até
que Stern o avisasse de que o receptor estava captando o sinal
goniométrico, ficou circulando em torno do planeta. Antes que o
transmissor fictício fosse ativado, o dispositivo de mira adaptou-se
automaticamente a esses sinais.
Em um
segundo, o campo de descarga do transmissor ficou vazio. A estação
receptora de matéria fora transportada para algum lugar do planeta
Zalit. Se tudo tivesse corrido de acordo com o programa, naquele
momento devia encontrar-se a dez metros do transmissor de sinais
goniométricos que continuava a funcionar.
A Drusus
descreveu uma curva e voltou a disparar para o espaço. Não se
aproximara a mais de cem quilômetros da superfície de Zalit.
Mas os
arcônidas não estavam dormindo. Seu sistema de alerta funcionava
muito bem. Mais de duzentas unidades robotizadas reagiram ao alarma
transmitido pelos dois cruzadores atacados. O regente de Árcon
desconfiava de que, caso surgisse um supercouraçado da classe
Império, só poderia tratar-se de arcônidas — ou dos malditos
terranos!
Era claro
que o computador-regente não sabia praguejar. Se possuísse
qualidades humanas, não teria deixado de fazê-lo. Mas, como não as
tinha, contentou-se com a lógica dos seus cálculos.
Calus
recebeu a ordem prosaica de abrir fogo contra qualquer nave do tipo
arcônida que se recusasse a fornecer a identificação.
Quando a
ordem chegou a Zalit, a Drusus já havia desaparecido no hiperespaço,
sem deixar o menor vestígio. Mas, praticamente no mesmo instante,
surgiu a Califórnia e correu diretamente para o cinturão defensivo
das naves robotizadas colocadas em estado de prontidão.
No momento
em que Zalit surgiu na tela, Rhodan viu ao mesmo tempo, por assim
dizer, as bocas dos canhões energéticos de mais de trinta
cruzadores ligeiros e outras naves de guerra.
A
solicitação de fornecer a identidade não obteve resposta.
Os robôs
cumpriram as instruções que haviam recebido. Abriram um fogo
mortífero contra a nave esférica, que acabara de emergir do
hiperespaço e procurava romper suas linhas.
A
Califórnia parecia precipitar-se contra um muro feito de energia.
4
O Zarlt
Kosoka estava sentado em seu trono. A importância desse trono era
puramente simbólica; em termos reais não valia um centavo. Dirigiu
seus olhos, apenas ligeiramente avermelhados, para um jovem oficial,
que falava de modo autoritário.
— Zarlt,
tenho a impressão de que você ainda não se deu conta da gravidade
da situação. Não basta transmitir minhas ordens de má vontade;
você tem de cuidar para que elas sejam executadas. Em toda parte,
seus soldados praticam uma espécie de resistência passiva. Ainda
ontem permitiram que um desertor fugisse.
— Sim,
trata-se de um homem ao qual nem sequer deram oportunidade de
despedir-se da família, antes de ser levado para Árcon. Submeto-me
às ordens de Árcon a contragosto, porque não tenho outra
alternativa, Almirante Calus, mas não posso deixar de manifestar meu
desagrado pelos métodos que estão sendo usados pelo Império.
— Você
terá de obedecer, caso queira continuar no cargo — respondeu Calus
em tom frio. — E, o que é o principal, você deve deixar de
pensar. Quem pensa é o regente, e ele o faz por todos nós.
O Zarlt
fez um gesto afirmativo.
— Sei,
almirante. Mas tenho a impressão de que o computador não quer
dispensar o auxílio humano. Por que será que de repente sente tanta
necessidade de soldados e oficiais? Até agora os robôs sempre
conseguiram arranjar-se sozinhos.
— O
regente não governa por ele, mas por nós. E no momento que um
perigo grave nos ameaça, todos devem colaborar para removê-lo.
Calus
proferiu estas palavras sem pestanejar. Teve o cuidado de não
revelar que havia outros motivos para que o computador passasse a
incluir os arcônidas e os zalitas em seus planos. O regente chegara
à conclusão de que não conseguiria arranjar-se sem o auxílio de
seres orgânicos. Um império estelar não poderia ser defendido
indefinidamente apenas com exércitos de robôs. Tornava-se
necessário empregar seres humanos.
Mas o fato
também representava o primeiro sinal da derrota do
computador-regente.
— Por
que Árcon não se contenta com os voluntários?
— Porque
os homens, voluntariamente dispostos a lutar por nosso Império, são
poucos. Os zalitas andam moles; em Árcon trataremos de endurecê-los
de novo. O treinamento é curto, mas abrange todas as áreas da arte
da guerra.
O Zarlt
fitou atentamente o Almirante Calus, e perguntou:
— Que
naves foram estas que hoje atacaram ou procuraram atacar Zalit. Não
pertencem ao Império?
Calus fez
um gesto de desprezo.
— Devem
ser piratas ou terranos. Sei lá. Talvez quisessem desembarcar
agentes, talvez pretendessem apenas testar nossas defesas. Seja lá
quem forem, não voltarão.
O Zarlt
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas viu-se interrompido pela
entrada de um oficial arcônida. Calus respondeu com um gesto
indiferente à continência de seu subordinado e perguntou:
— O que
houve? Por que me incomoda?
— Trata-se
do exame dos recrutas, almirante. Hoje faltaram mais de duzentos.
Suas residências foram revistadas, mas estão desaparecidos. Os
membros de suas famílias não têm a menor idéia de onde possam
estar.
— É o
que dizem! — disse Calus em tom furioso e caminhou nervosamente de
um lado para outro. — Acho que devemos abandonar toda e qualquer
consideração e responsabilizar os membros da família pela
insubordinação dos homens. Onde poderão estar escondidos? —
Dirigiu-se ao Zarlt: — Você sabe dizer?
O Zarlt
respondeu que não. Calus refletiu por algum tempo. Depois dirigiu-se
ao oficial:
— Nos
próximos dias falarei ao povo de Zalit. Providenciarei para que
todas as estações de telecomunicação se mantenham de prontidão
para uma transmissão de âmbito planetário. Acho que depois de
minha fala as dificuldades diminuirão.
O oficial
retirou-se.
Calus
disse em tom irônico:
— Aliás,
para que Zalit precisa de um exército? Não existe o menor perigo de
revolução e o planeta goza de proteção do Império. Para que
soldados? Acho que incorporaremos o exército zalita à frota. Alguma
objeção, Zarlt?
Surgiu uma
ligeira pausa. Os dois homens fitaram-se por algum tempo.
Finalmente
o Zarlt sacudiu a cabeça.
— Não.
É claro que não tenho nenhuma objeção.
Calus
sorriu, parecia satisfeito.
*
* *
A
solicitação dos campos defensivos da Califórnia foi tão intensa
que praticamente não sobrou energia para o armamento. O resto da
energia armazenada foi conduzido para os conjuntos propulsores, para
que a nave conservasse a capacidade de manobrar.
O General
Deringhouse estava sentado à frente dos controles. Procurava desviar
a nave das unidades de bloqueio. Normalmente isso seria praticamente
impossível, mas a Califórnia era mais veloz que as naves dos
arcônidas. Mais veloz e mais ágil.
Rhodan
sabia que os homens que deveriam participar do comando se encontravam
junto aos transmissores, onde aguardavam suas ordens. Não poderiam
desperdiçar um segundo sequer.
— Romper!
Foi a
única palavra que dirigiu a Deringhouse.
E este
rompeu as linhas.
A nave
realizou uma tremenda aceleração, descreveu uma curva fechada e
afastou-se velozmente dos atacantes. Até parecia que iria entrar em
transição. Os atacantes transformaram-se em perseguidores, mas
foram ficando para trás. Os disparos de radiações erravam o alvo
ou se desfaziam no campo defensivo.
Zalit
crescia rapidamente. Pouco importava onde se encontrava o receptor
que participaria da transmissão de matéria, da mesma forma que,
numa transmissão de rádio, a localização do receptor não assume
qualquer importância.
Rhodan
falou para dentro do microfone do sistema de intercomunicação:
— Primeiro
comando: saltar!
Quase cem
homens comprimiam-se nas cinco jaulas energéticas dos transmissores
de matéria. No momento em que soou a voz de comando de Rhodan, o
impulso de transmissão foi desencadeado. Em apenas um segundo, as
jaulas ficaram vazias.
Os cem
homens se materializariam em algum lugar na superfície do planeta.
Mais precisamente, no lugar exato em que o agente Toffner colocara o
transmissor de sinais goniométricos e em que agora se encontrava a
estação receptora.
Em algum
lugar... Conforme Harno lhe mostrara, era uma caverna.
Rhodan
esperou dez segundos, a fim de que os outros membros dos comandos
tivessem tempo de preparar-se.
— Segundo
comando: saltar! Levantou-se e, dirigindo-se a Deringhouse, disse:
— Espere
exatamente cinco minutos. Depois dê o fora daqui e coloque-se na
posição de espera, onde encontrará a Drusus. Faça um trabalho bem
feito.
— Sim
senhor — disse o general. — Desejo-lhe boa sorte.
— Obrigado.
Até breve.
Rhodan
virou-se apressadamente e saiu da sala de comando. Teria de
apressar-se, a fim de que a operação não sofresse um retardamento
desnecessário. Quando chegou ao hangar, as últimas peças de
equipamento dos tripulantes da Califórnia estavam sendo colocadas
nos transmissores. Rhodan seria o último a arriscar o salto. Levaria
as armas e o equipamento especial.
Entrou na
quinta jaula energética e olhou para o relógio. Os outros já
deviam ter saído das jaulas do receptor. Esperaria mais vinte
segundos...
O oficial
que comandava a operação de transporte cumprimentou-o.
— Tudo
de bom, Sir!
— Obrigado
— respondeu Rhodan.
Faltavam
dez segundos.
O alarma
encheu a nave. A voz de Deringhouse anunciou pelos alto-falantes:
— Atenção,
atenção! Voltamos a ser atacados por grupos muito fortes. Transição
dentro de vinte segundos. Transição dentro de vinte segundos.
Rhodan
dispunha de cinco segundos! Era tempo de sobra.
Empurrou a
chave transportadora para baixo... e no mesmo instante viu-se no
interior do receptor colocado em Zalit. Não sentiu a
desmaterialização. Apenas o quadro que via diante dos olhos
modificou-se. No lugar em que pouco antes se encontravam as paredes
lisas da Califórnia, surgiram as rochas ásperas da gigantesca
caverna.
Os homens
corriam apressadamente de um lado para outro. Alguns aproximaram-se
rapidamente para cuidar do equipamento. Com um ligeiro olhar, Rhodan
certificou-se de que tudo correra de acordo com o plano.
O receptor
estava muito bem escondido. Dificilmente se poderia imaginar um lugar
melhor. A caverna podia abrigar todos os homens e sua situação
devia ser tal que não poderia ser descoberta.
Saiu da
jaula energética e encontrou-se com Atlan e Bell, que
supervisionavam a descarga.
— Até
agora tudo correu conforme planejamos — disse Bell e saltou para o
lado, quando alguém passou com um volume pesado. — Gostaria de
saber onde estamos. Toffner não nos forneceu qualquer detalhe...
— Aparecerá
por aqui; foi o que combinamos — disse Rhodan em tom
tranqüilizador, embora por dentro não se sentisse muito tranqüilo.
Caso alguma coisa tivesse acontecido a Toffner e caso ele se
encontrasse num lugar do qual não pudesse sair, estariam numa
armadilha. — Seja como for, estamos em Zalit e por enquanto ninguém
desconfiou. Podemos dar-nos por satisfeitos.
Bell
sorriu e, dirigindo-se a Atlan, disse:
— Almirante,
como se sente alguém que se parece com um zalita e deverá ser,
futuramente, um dos soldados do exército do computador?
Atlan
retribuiu o sorriso.
— Não
deve sentir-se muito pior que meu gordo amigo que, dentro em breve,
se transformará num recruta que ficará marchando pelo pátio do
quartel.
— Mais
uma vez sinto-me satisfeito por não ser um homem — piou Gucky, que
se aproximou no seu andar balouçante. — Os arcônidas não poderão
levar-me. Nunca serei um recruta.
— É
claro que não; pois os arcônidas não querem perder a guerra —
constatou Bell e olhou atentamente em torno. — Onde estamos?
Essa
pergunta chamou de volta a presente realidade. Rhodan mandou que,
antes de mais nada, as armas fossem desempacotadas e distribuídas.
Se houvesse um ataque, deviam estar preparados.
Subitamente,
Gucky disse em meio ao nervosismo:
— Alguém
se aproxima lá fora; está junto à entrada da caverna.
Rhodan
orientou-se num instante e constatou que a caverna possuía uma única
saída. Colocou um radiador portátil no bolso largo de seu traje,
que o caracterizava como um zalita típico, passou a mão pelos
cabelos cor de cobre e foi caminhando em direção à saída.
— Verificarei
quem é — disse e acrescentou: — Gucky, mantenha-se ao alcance da
vista. Assim perceberá quando chegar a hora de fazer alguma coisa.
Era claro
que o rato-castor não deixaria de perceber, pois era telepata. Um
pensamento de Rhodan seria suficiente.
E Rhodan,
que era um genuíno zalita, saiu da caverna ao ver um único homem
aproximar-se. Ao que parecia, também era uma criatura nascida em
Zalit. Mas os primeiros impulsos mentais captados por Rhodan
confirmaram sua suspeita de que o homem que tinha à sua frente era
Toffner.
Acontece
que Toffner segurava uma arma, que ia apontando lentamente para
Rhodan. Isso era bom sinal, pois provava que o disfarce era bom,
tanto que chegava a enganar até Toffner, que se encontrava em Zalit
há três anos.
— Bom
dia, Jeremy Toffner — disse em inglês. — Não precisa gastar sua
munição.
Toffner
sentiu-se aliviado ao ouvir as palavras pronunciadas em sua língua
materna. Baixou a arma e guardou-a no bolso.
— Graças
a Deus! — disse num suspiro e aproximou-se de Rhodan. — Permite
que lhe pergunte quem é o senhor? Parece um zalita...
— Rhodan
— disse o administrador e apertou a mão do agente. — Acho que já
nos encontramos antes.
— Já.
Foi quando em Terrânia recebi ordens de ir para Zalit. Naquela
oportunidade, o senhor me disse que eu ficaria sozinho por muito
tempo. Ao que parece, esse tempo chegou ao fim.
Olhou para
a entrada da caverna, onde alguns homens conversavam de pé. Gucky
encontrava-se em meio ao grupo. Já sabia que as ordens que Rhodan
lhe dera haviam perdido a finalidade.
— Deu
tudo certo?
— Até
agora sim — respondeu Rhodan com um sorriso. — Como faremos para
ir a Tagnor? Já pensou sobre isso?
— Não
sabia quantos homens participariam do comando — disse Toffner a
título de desculpa pela omissão. Em Tagnor existe um lugar em que
poderão abrigar-se, mas será muito difícil entrar na cidade sem
que ninguém o perceba. As sentinelas estão espalhadas em toda
parte, e elas fazem o controle de todas as pessoas que passam.
— Não
há problema quanto aos documentos.
— Os
documentos não bastam, Sir. Também possuo um documento válido.
Acontece que os arcônidas passaram a prender as pessoas que se
encontrem na faixa etária adequada, a fim de que não possam
subtrair-se ao serviço militar.
Rhodan
refletiu um pouco. O Major Rosberg e o Capitão Gorlat já haviam
saído da caverna. Olhavam em torno com um grande interesse. Ao que
parecia, gostaram do vale com os paredões elevados.
No
interior da caverna, o equipamento estava sendo arrumado.
— Quer
dizer que o problema se resume em saber como entraremos na cidade
para chegar ao esconderijo preparado por você. O transmissor de
matéria não servirá de nada, pois só temos este exemplar. Além
disso, seria muito difícil levá-lo a Tagnor, sem chamar a atenção.
Será que não podemos chegar até a cidade sob a proteção da
noite?
— Talvez
consigamos. Acontece que Tagnor fica a quinhentos quilômetros. E,
sem dúvida, a marcha pelo deserto seria observada por alguém.
— Naturalmente;
o senhor tem razão — Rhodan levantou os olhos para o céu límpido.
Os raios do sol iluminavam a borda superior das rochas íngremes que
fechavam o vale. — Será que aqui estamos em segurança?
— Sim;
aqui nos encontramos numa segurança razoável. Caso não tenha
necessidade, ninguém vem ao deserto. É bem verdade que os aviões
costumam sobrevoar a área, mas dificilmente notarão este vale.
Rhodan não
respondeu. Lançou um olhar pensativo para Gucky, que passou por eles
para trocar algumas palavras com o teleportador africano Ras
Tschubai. John Marshall estava conversando com Bell. Os homens iam
saindo da caverna. Parece que o trabalho de arrumação estava
praticamente concluído.
— Gucky!
Ras! — gritou Rhodan, aproximando-se dos seres cujo nome acabara de
pronunciar. — Quero fazer algumas perguntas.
— Fique
à vontade! — disse o rato-castor. — Se quiser saber minha
opinião, estamos numa ratoeira.
— Gucky
tem razão — disse o africano. — Um vale como este protege-nos
dos olhares dos outros, mas quando tivermos sido descobertos não
teremos qualquer saída.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Justamente
por isso temos de dar o fora. Quando os arcônidas começarem a
procurar os zalitas que querem fugir do serviço militar, vasculharão
também esta cadeia de montanhas. No momento em que isso acontecer,
já deveremos encontrar-nos num lugar seguro. Acontece que Toffner
acaba de explicar que é muito difícil chegar à cidade. Há
sentinelas por toda a parte. Quanto tempo vocês levarão para
carregar todos os homens e o equipamento até a cidade de Tagnor?
A pergunta
tinha sua razão de ser. Gucky e Ras eram teleportadores, mas também
estavam sujeitos aos limites traçados pela natureza. Um teleportador
poderia levar dois homens num salto, mas o cansaço das células
nervosas era considerável. O processo não podia ser repetido à
vontade. As pausas de descanso eram indispensáveis. A distância era
indiferente. Pouco importava que o salto fosse de quinhentos ou de
cinco mil quilômetros.
Gucky
alisou o pêlo. O gesto parecia exprimir certo embaraço.
— Será
muito cansativo — disse. — Se Tako ajudar, poderemos terminar em
um ou dois dias. O destino já é conhecido?
— Toffner
o mostrará.
— Nesse
caso não haverá problema. O equipamento não inclui nenhum objeto
muito pesado. Os volumes maiores serão transportados por Ras e por
mim em conjunto. Quando poderemos começar?
Rhodan
sentiu-se aliviado ao perceber a calma com que os dois teleportadores
encaravam a tarefa. Não a julgavam muito fácil, pois isso seria uma
irresponsabilidade. Todavia...
Fez um
sinal para Toffner, que se encontrava num ponto mais afastado. O
agente aproximou-se e lançou um olhar curioso para Gucky. Já ouvira
falar no rato-castor, mas nunca tivera oportunidade de vê-lo.
— Estes
são Gucky e Ras Tschubai. Ambos são teleportadores. Eles nos
levarão para Tagnor. Primeiro iremos nós quatro, a fim de
conhecermos o local. Os outros seguirão depois. Explique aos dois
como é Tagnor. Enquanto isso instruirei os homens sobre como
proceder nesse meio tempo.
Deixou que
Toffner ficasse a sós com os dois mutantes e foi para junto de
Rosberg, Gorlat e Bell. Os três encontravam-se na entrada da
caverna, de onde podiam ver o vale e a maior parte do subterrâneo.
Ao que parecia, não se sentiam muito à vontade no lugar em que
estavam.
— Bell,
você ocupará meu lugar por algumas horas. A fim de examinar nossos
alojamentos, irei a Tagnor com Toffner, Gucky e Ras Tschubai. Se
houver algum ataque, defenda-se com todos os recursos de que possa
dispor. Se isso acontecer, teremos de modificar nossa tática. Talvez
os arcônidas acreditem que somos zalitas que querem fugir do serviço
militar.
— Por
que não vamos todos? — perguntou Rosberg.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— É
impossível. Pelo que diz Toffner, os controles são mais rigorosos e
eficientes do que supúnhamos. É bem verdade que nem por isso nossos
planos sofrerão maiores alterações. Investigarei a situação e
voltarei. Espero que, dentro de dois ou três dias, todos estejamos
sãos e salvos nas catacumbas de Tagnor.
As
despedidas foram breves. Rhodan pegou a arma de radiações e não se
esqueceu de entregar Harno aos cuidados de Bell. Depois saiu
caminhando ao lado de Toffner, Ras Tschubai e Gucky em direção à
entrada do vale.
Os que
ficaram para trás viram-nos desaparecer em meio às rochas.
John
Marshall, que lera os pensamentos de Rhodan e por isso conhecia-lhe
as intenções, disse:
— Quer
dizer que, se não surgir uma alternativa melhor, os teleportadores
nos levarão um por um para Tagnor. Por que não ficamos no deserto?
Acho que seria mais fácil.
— Seria
muito mais difícil operarmos daqui. Se ficarmos em plena cidade de
Tagnor, as coisas se tornarão mais fáceis.
Bell
levantou os olhos para o céu.
— Quando
deverá anoitecer aqui?
— Dentro
de, aproximadamente, quatro horas — respondeu Rosberg, que já
colhera informações detalhadas. — Até lá o chefe deverá estar
de volta.
Bell
lembrou-se das obrigações que lhe cabiam como representante de
Rhodan. Entrou na caverna e certificou-se de que, junto à parede da
caverna, todo o equipamento estava bem arrumado e empilhado. Cada
membro do comando saberia o que teria de fazer e quais os objetos que
teria de levar, quando chegasse a hora para isso. Na caverna havia
uma boa quantidade de volumes com armas, um laboratório bioquímico,
um laboratório físico, mantimentos e equipamento especial.
Quando o
Major Rosberg, o Capitão Gorlat e John Marshall entraram correndo na
caverna, Bell verificava os volumes.
— Um
avião! — gritou o major em tom exaltado, agitando os braços. —
Passou sobre o vale em vôo baixo; parece que estão procurando
alguma coisa. Tomara que não desconfiem de nada.
Bell olhou
para as caixas. Seria inútil desempacotar um pequeno canhão de
radiações. Além disso, a montagem seria muito demorada. Se fossem
utilizados, racionalmente, numa ação maciça...
— Ninguém
deverá aparecer fora da caverna! — gritou e correu para a entrada.
Avançou cautelosamente até um ponto em que podia ver todo o vale.
Enxergou também um pedacinho do céu.
Era um
planador de asas curtas. A maneira de voar revelava que possuía
campos antigravitacionais. O veículo aéreo foi descendo e quase
chegou a tocar o chão no fundo do vale.
Bell
escondeu-se atrás de uma rocha e fez um sinal para o interior da
caverna.
— Dez
homens para cá! — gritou e destravou sua arma. — Tenham cuidado.
Não deveremos ser descobertos antes da hora.
John
Marshall foi um dos que rastejaram para junto de Bell.
— Quantos
serão? — perguntou, já deitado ao lado de Reginald.
— Veremos.
Estou curioso para ver se são arcônidas ou zalitas.
Sua
paciência não foi submetida a uma prova muito prolongada.
O planador
pousou. O ruído do motor cessou. Dali a pouco, uma escotilha da
cabina abriu-se e quatro vultos saltaram. Eram robôs.
— O
piloto é um arcônida; um oficial — Marshall estava oferecendo seu
relato. — Consigo captar seus pensamentos. Trata-se de uma
verificação de rotina. Pousaram aqui por puro acaso.
— Que
azar! — disse Bell. — Se vierem para cá, teremos de colocá-los
fora de ação. O que deveremos fazer com o piloto? Se escapar, o
diabo estará às soltas. Virão com bombas e verdadeiros exércitos.
Quer dizer que ninguém deverá escapar.
— André
Noir! — disse Marshall, falando no minúsculo transmissor de
laringe.
O hipno do
Exército de Mutantes logo captou o sinal. Rastejou para junto de
Marshall.
— Você
me chamou?
— Devemos
impedir o piloto de decolar quando destruirmos os robôs. Você será
capaz disso?
Noir fez
um gesto afirmativo.
— Farei
o possível. Talvez consiga fazer com que abandone o aparelho. Mais
tarde aplicar-lhe-ei um bloqueio hipnótico, e ele se esquecerá de
tudo. Talvez consiga mesmo mandá-lo para Tagnor com uma lembrança
falsa dos fatos.
— Excelente
— disse Bell e passou a concentrar-se sobre os robôs que se
aproximavam.
Subitamente
um dos homens-máquina parou e chamou a atenção dos outros para
alguma coisa que vira na areia.
— São
os rastros dos nossos pés! — Marshall compreendeu imediatamente do
que se tratava. — Encontraram nossas pegadas.
— Ótimo!
— disse Bell numa súbita resolução. — Assim escaparemos ao
sofrimento de uma espera prolongada. Noir, tente a sorte. Quanto a
nós, cuidaremos dos robôs curiosos.
Os robôs
conferenciaram através dos aparelhos embutidos em seus corpos. Os
círculos de armas começaram a rodar. Ao que parecia, procuravam um
alvo. Voltaram a colocar-se em movimento. Separaram-se, já que ainda
não haviam identificado o objetivo.
Bell
avançou e levantou a arma de radiações. Um dos robôs caminhava em
direção à entrada da caverna.
— Abriremos
fogo ao mesmo tempo, a fim de pegá-los de surpresa — cochichou
para os outros. — Antes que possam ativar seus campos defensivos,
deverão estar liquidados.
Era
perfeitamente possível destruir um robô de guerra com uma arma de
radiações portátil, desde que se conhecesse os pontos sensíveis
dos monstros eletrônicos.
E desde
que se acertasse logo. Uma vez ativados os campos energéticos dos
colossos, eles se tornariam praticamente invulneráveis.
Bell
levantou a mão esquerda. Os homens estavam distribuídos de maneira
tal que cada robô poderia ser alvejado por dois ou três deles.
Bell
baixou a mão, e, no mesmo instante, as fúrias do inferno ficaram
soltas. Num instante, os raios energéticos saíram das armas,
perfuraram a blindagem dos robôs, atingiram peças vitais e as
gaseificaram. Um cérebro eletrônico reage com uma rapidez
espantosa. Porém, quando não está em condições de funcionamento,
deixa de reagir. Foi o que aconteceu com três dos robôs.
O quarto
teve mais sorte. Ativou o campo defensivo que o encerrou numa
campânula invisível, feita de energia de elevada potência, que não
deixaria passar qualquer porção de matéria ou outras formas de
energia.
O robô
logo começou a responder ao fogo.
Bell
abaixou-se e sentiu as costas esquentarem. O bombardeio energético
atingira a parede de rocha, da qual começaram a cair pingos grossos.
O segundo tiro foi mais baixo; quase chegou a atingir Bell de raspão.
Os feixes energéticos disparados pelos homens “tatearam”
em direção ao robô, mas o campo defensivo refletiu a energia.
— Betty!
— cochichou Bell em tom assustado. Sabia que sem a intervenção da
telecineta não teriam a menor chance contra o monstro. Betty também
era telepata e seria capaz de ler seus pensamentos. — Betty Toufry!
Betty era
uma mulher jovem — e continuaria a sê-lo. A ducha celular aplicada
no planeta Peregrino prolongara sua vida por seis decênios. Captou
os impulsos desesperados de Bell e compreendeu imediatamente. Não
perdeu tempo. Correu em direção à entrada da caverna e, com um
ligeiro olhar, avaliou a situação. Três robôs haviam sido
colocados fora de ação. Estavam no chão, destruídos.
Mas o
quarto robô caminhava em direção a Bell, que achava-se deitado
atrás de uma pedra e lhe enviara o pedido de socorro.
Estava em
cima da hora!
Bell ouviu
os passos pesados da máquina de guerra que se aproximava. Nunca
saberia por que escolhera justamente a ele, ignorando as outras
pessoas que atiravam. Se Betty não agisse logo...
De
repente, os passos cessaram. Um dos membros do comando soltou um
grito; era um grito de alívio. Bell arriscou-se a levantar a cabeça
acima da pedra e respirou aliviado diante do que viu. Betty ouvira e
compreendera seu pedido de socorro.
O robô
cambaleou. Subitamente perdeu o apoio dos pés e tombou. Com a queda,
o campo defensivo foi desligado. O robô procurou reativá-lo.
Entretanto, nesse instante, uma grande pedra levantou-se a poucos
metros dele, como se tivesse sido agarrada pela mão de um fantasma.
Subiu rapidamente, parou bem em cima do robô e subitamente caiu,
como se a mão a tivesse soltado. Atingiu com toda força a cabeça
supersensível do monstro e esmagou o importante dispositivo
positrônico. O corpo do robô amoleceu, como se fosse o de um homem,
e estirou-se ficando completamente imóvel.
Mas o
perigo ainda não havia passado.
Assim que
irromperam as hostilidades, o planador levantou vôo. Parou vinte
metros acima do fundo do vale. Ao que parecia, o piloto estava
refletindo sobre o que deveria fazer. Mas logo descreveu uma espiral
descendente e voltou a pousar.
O piloto
saiu da cabina e num caminhar duro e estranho seguiu em direção à
entrada da caverna.
André
Noir, que estava deitado perto de Bell, levantou-se.
— Tenho
o piloto sob controle, Mr. Bell — disse com certo triunfo na voz. —
Foi fácil entrar em seu cérebro, pois o rapaz parece ser muito
degenerado. Não tem muita coisa na cabeça.
— Excelente!
— disse Bell e também se levantou. Enfiou a arma de radiações no
cinto do uniforme. — Vamos dar uma olhada nesse sujeito.
Dirigiu-se
ao telepata.
— Marshall,
o senhor e Noir tentarão extrair dele tudo que possa assumir certa
importância. Depois colocaremos dados falsos em sua memória e
deixaremos que volte para casa.
— Não
seria conveniente ficarmos com o planador? — indagou Noir.
— Não.
Sentiriam falta dele e começariam a procurá-lo. O que faríamos com
isso? Afinal, o planador de Toffner está escondido embaixo dessa
rocha saliente. Acho que será mais vantajoso deixarmos que o piloto
regresse à base com informações falsas. Precisará de uma
explicação plausível para a falta dos quatro robôs.
Noir
soltou um suspiro.
— Está
bem; cuidemos do arcônida.
Dali a
meia hora, quando o planador levantou vôo e saiu em direção a
Tagnor, o arcônida sentado atrás dos controles era o mesmo de
antes...
Mas esse
arcônida sofrerá o implante de uma memória artificial!
*
* *
— Dê-me
a mão. — Ras Tschubai impacientou-se diante da hesitação de
Toffner. — Para podermos saltar, precisamos do contato físico —
fitou o rato-castor. — O objetivo já foi identificado?
Gucky fez
que sim.
— Se
Toffner continuar a pensar intensamente nas catacumbas, iremos parar
lá. Acho que podemos começar.
Os dois
teleportadores concentraram-se. O salto foi efetuado sem o
conhecimento direto do destino, mas a seu lado estava alguém que
conhecia esse destino e transmitia seu conhecimento a Gucky por via
telepática. E entre Gucky e Ras havia um contato físico.
Os três
homens e o pequeno rato-castor desmaterializaram-se.
Mais ou
menos uma hora depois, o Almirante Calus recebeu uma notícia
alarmante. No setor norte da cadeia de montanhas que se estendia
entre Tagnor e Larg havia um grande grupo de rebeldes, que atacara o
veículo aéreo dos arcônidas e destruíra quatro robôs de guerra.
Quando fez
o piloto do planador comparecer à sua presença e começou a
interrogá-lo, Calus tremia de raiva. Conseguiu controlar-se a custo
e ouviu em silêncio o relato que lhe estava sendo apresentado.
— Saímos
à procura de homens capazes de pegar em armas, conforme as ordens
que havíamos recebido, senhor. Procuramos principalmente nos lugares
mais afastados do deserto. Supõe-se que por lá estejam escondidos
zalitas que se recusam a servir ao Império. Juntamente com outros
oficiais vasculhei a parte sul e central da cadeia de montanhas, mas
não descobri nada. Naquela área existem poucos locais em que alguém
possa esconder-se. Mas, mais ao norte, torna-se difícil examinar o
terreno, mesmo do alto. Separamo-nos. Incumbi-me das encostas do
leste, em direção a Larg.
Subitamente
começaram a atirar contra mim. Descobri um grupo de zalitas
escondido num vale. Segui as ordens que me foram fornecidas: pousei e
mandei que os robôs avançassem. Foram todos destruídos. Levantei
vôo para evitar que a aeronave caísse nas mãos dos rebeldes e
voltei imediatamente.
Calus
fitou-o com uma expressão zangada.
— Na
parte norte da cadeia de montanhas? — o almirante refletiu por
algum tempo e perguntou: — Verificou a posição exata?
— Saberei
encontrar o vale, senhor.
— Muito
bem! Ainda hoje, antes do escurecer, uma esquadrilha de caças
ligeiros decolará e atacará os rebeldes que se esconderam nas
montanhas. Procure pegá-los vivos. Precisamos de soldados, não de
cadáveres. Entendido?
— Pode
confiar em nós...
— É o
que espero. E não me venha com a alegação de que de repente não
consegue encontrar o vale. Eu o previno para que isso não aconteça.
Se a operação não for coroada de êxito, o senhor será rebaixado
para soldado raso.
Dali a dez
minutos, a esquadrilha de caças decolou.
O sol já
descia para o horizonte. Os aviões corriam para o leste, em direção
à noite que iria cobrir o planeta.
O infeliz
oficial com a memória “falsificada”
acompanhou-os. Foi seu último dia como oficial. Calus costumava
cumprir suas promessas e suas ameaças.
Acontece
que o lugar, onde o oficial acreditava que estivessem escondidos os
rebeldes, ficava dois mil quilômetros ao norte do pequeno vale em
que Bell e o restante do comando esperavam ansiosamente pela volta de
Rhodan.
Perry e
seus companheiros rematerializaram-se nas grandes cavernas, situadas
embaixo da arena de Tagnor.
Rhodan
soltou a mão de Gucky e lançou um olhar para Toffner, a fim de
certificar-se de que estavam no lugar certo. Depois olhou em torno.
O recinto
era quadrado e nele se viam vários muros que o dividiam em nichos. O
teto era de pedra pouco trabalhada, mas parecia ser muito forte. Era
ligeiramente abobadado. Nas paredes, que eram lisas e estavam
revestidas com um verniz transparente, viam-se pequenas portas.
— Aqui
poderia ser instalado o quartel-general — disse Rhodan e prestou
atenção ao eco de sua voz. — A que profundidade estamos?
— Vinte
metros no máximo — respondeu Toffner. — Existem várias saídas.
As portas foram embutidas na parede de tal maneira que são quase
invisíveis. As fechaduras são eletrônicas ou de vibrações
orgânicas. Estamos bem embaixo da arena e, portanto, do centro da
cidade. Não se leva mais de cinco minutos para chegar ao palácio do
governo.
Rhodan fez
um sinal de concordância.
— Excelente.
Daqui podemos operar. Os laboratórios serão abrigados nas diversas
salas.
Lançou um
olhar penetrante para Toffner.
— Quem
conhece este subterrâneo além do senhor? Por que os arcônidas
ainda não tiveram a idéia de procurar fugitivos por aqui?
— Acredito
que não tenham conhecimento da existência das catacumbas. Só as
cavernas exteriores são conhecidas, e estas já foram revistadas. A
parte interna é fechada por portas que não foram descobertas. Aqui
estamos em segurança. Há três anos meu esconderijo fica neste
lugar.
— Não
foi por desconfiança que perguntei, Toffner, mas precisamos ter
cuidado. Não podemos desprezar qualquer fator. Traremos nossos
homens e equipamentos. Gucky e Ras, saltem de volta. Ficarei aqui com
Toffner.
O
rato-castor esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas acabou acenando
com a cabeça e segurou a mão de Ras.
Teleportaram-se
ao mesmo tempo.
— Muito
bem, Toffner — disse Rhodan com uma ênfase estranha. — Conte-me
alguma coisa dos dois zalitas que o senhor mantém escondidos. Gucky
leu seus pensamentos. O que houve com eles?
Toffner
logo venceu o embaraço.
— São
meus amigos, e deveriam ser recrutados. Pediram que os ajudasse, e eu
os escondi. É só. Não têm a menor idéia do que está acontecendo
aqui embaixo. O cubículo em que estão escondidos não tem nenhuma
ligação com o pavilhão em que nos encontramos.
— Talvez,
um belo dia, possam ajudar-nos — disse Rhodan, dando a entender que
não condenava o gesto de solidariedade de Toffner. — Têm todo
motivo para não entreterem sentimentos amistosos em relação aos
arcônidas. Oportunamente darei uma olhada neles.
Toffner
sentiu-se aliviado.
Mas antes
que tivesse tempo de responder Gucky materializou-se juntamente com
Bell.
— Que é
isso? Vocês fizeram exercícios de campo?
Bell
procurou endireitar o uniforme amarrotado.
— Foi
mais ou menos isso. Um oficial arcônida procurou arrancar-nos da
caverna. Estava acompanhado por quatro robôs de combate.
Depois de
oferecer um relato sucinto dos acontecimentos, concluiu:
— O
piloto contará uma fábula a Calus. Se tivermos sorte, morrerão de
tanto procurar a dois mil quilômetros do vale.
— Tomara
— disse Rhodan, enquanto Ras Tschubai materializava-se com um
técnico do comando. Gucky desapareceu no mesmo instante. A seguir,
apareceu Tako Kakuta, um teleportador japonês.
O grande
reagrupamento teve início...
Demorou
dois dias.
Finalmente
instalaram-se no grande pavilhão de pedra e puderam dar início ao
trabalho propriamente dito, que os levaria a Árcon.
5
O
Almirante Calus mandou que o turboveículo parasse à frente do
edifício e desceu. Enquanto subia pelos largos degraus e entrava
pelo portal, dois oficiais de alta patente, que traziam armas de
radiações, acompanharam-no. As sentinelas zalitas que guardavam o
edifício fizeram continência em atitude respeitosa.
Em cima do
telhado, uma antena esférica estendia-se para o céu. A emissora de
Tagnor era a maior e a mais potente do planeta. As estações
retransmissoras garantiam a perfeita recepção dos programas
irradiados dali. Nos últimos dias, os programas recreativos haviam
sido sacrificados grandemente em benefício dos apelos militares.
Calus
comparecia quase diariamente ao edifício em que funcionava a estação
de rádio e fazia uma de suas alocuções autoritárias e
ameaçadoras. A fim de impedir um eventual atentado contra a vida do
almirante, dois oficiais o acompanhavam constantemente. No fundo,
Calus não acreditava que pudesse haver tal atentado. Afinal,
apoiava-se no poderio de Árcon. Ninguém se atreveria de atrair
sobre si as iras do computador-regente.
Dali a dez
minutos, o rosto do arcônida apareceu em milhões de telas. Todos
entendiam sua língua, que era a língua do Império Arcônida. Era
uma língua clara, inequívoca e, acima de tudo, dura.
Na caverna
subterrânea, situada embaixo da arena, Rhodan e seus colaboradores
mais chegados também estavam sentados à frente da tela. Naquele
dia, era a segunda vez que viam e ouviam Calus.
No dia
anterior haviam examinado seu aspecto exterior e encontraram alguém
que tinha certa semelhança com ele. Agora o sargento Roger Osega
estava sentado ao lado de Rhodan e observava todos os movimentos de
Calus. Os bioquímicos já haviam realizado algumas modificações
anatômicas em seu rosto. O sargento Osega tinha uma semelhança
espantosa com Calus. Era fácil confundi-los.
— O
Almirante Calus pertence à conhecidíssima família dos Monizas —
disse Toffner, quando Calus fez uma ligeira pausa. — Há muito
tempo essa família serve ao computador-regente e goza de uma
confiança irrestrita.
— Isso
logo mudará — disse Bell com a voz zangada. Depois o silêncio
voltou a reinar.
Calus
estava dizendo:
— Se as
ordens de apresentação não forem cumpridas, agiremos com todos os
meios que estão ao nosso alcance. A recusa de prestar serviço no
exército imortal de nosso regente será punida com a morte. Até
agora preferi não me valer do direito que me cabe como juiz supremo,
mas no futuro não terei a menor contemplação: mandarei fuzilar
qualquer desertor ou insubmisso. Concedo mais um prazo de dez dias a
todos os zalitas que estejam em condições de pegar em armas, a fim
de que se apresentem à circunscrição de recrutamento de Tagnor.
Quem for encontrado depois disso e não puder dar explicações
satisfatórias enfrentará os pelotões de fuzilamento. Acho que me
fiz entendido.
A tela
apagou-se.
O sargento
Osega soltou um suspiro.
— Então
terei de fazer o papel desse monstro? Isso não será nenhum prazer.
— Pouco
importa que sinta ou não sinta prazer — disse Rhodan em tom de
repreensão. — O fato é que o êxito de nossa missão dependerá
de seu desempenho como ator. Os bioquímicos voltarão a ocupar-se
com você. Posso garantir que depois disso ninguém conseguirá
distingui-lo do verdadeiro Calus.
Osega
confirmou com um gesto.
— É
claro que compreendo que não há outra alternativa, Sir. Apenas
acontece que não me sinto muito à vontade em constranger inocentes
zalitas a se apresentarem para o serviço militar de Árcon.
Rhodan
soltou uma gargalhada.
— O
senhor também encaminhará voluntários a Árcon. E nós estaremos
entre eles. Acredito que gostaremos muito mais do novo Calus. O
antigo receberá um tratamento especial.
Com isso,
o plano já estava delineado. Apenas faltava aguardar a oportunidade
de realizá-lo.
E essa
oportunidade surgiu dali a quatro dias.
*
* *
Antes
disso, o sargento Osega passou algumas horas desagradáveis no
interior do laboratório.
O doutor
Tschai Toung, que era o melhor confeccionador de máscaras do Serviço
de Segurança Solar, cuidou dele. Quando se tratava de transformar um
homem em outro, o chinês tornava-se pedante. Os filmes tirados da
imagem televisada foram rodados incessantemente; Osega teve
oportunidade de estudar atentamente seu sósia. E o Dr. Toung também
teve. Sacudiu a vasta cabeleira negra.
— Não
estou gostando do nariz, sargento. O senhor já possui um documento
de identidade plenamente válido, que o apresenta oficialmente como
Calus, mas seu nariz ainda não é o nariz dele. Colocarei mais um
enxerto de bioplástico.
Osega
gemia de fazer dó.
— Vocês
ainda acabam me estragando por completo — disse, embora não
estivesse falando sério. — Minha própria mãe acabará por não
me reconhecer.
— Pois é
exatamente o que queremos — disse Toung em tom sério.
O
professor Eric Manoli serviu de assistente na operação inteiramente
indolor. Quando a mesma foi concluída, Tschai Toung tinha todo
motivo para orgulhar-se de sua obra.
— Agora
estou satisfeito — anunciou. — Ninguém conseguirá distinguir um
almirante do outro.
Esfregou
as mãos e passou os olhos pelos mutantes e especialistas do comando,
que estavam sentados em torno dele.
— Agora
está na hora de vocês mostrarem do que são capazes. Troquem meu
pupilo pelo verdadeiro Calus. Se agirem com bastante habilidade,
ninguém perceberá.
— Tomara!
— disse Rhodan e adiantou-se. — Osega também terá que
desempenhar o papel de Calus por ocasião das aparições na
televisão. Acredita que será capaz disso?
— Tive
boas oportunidades de estudar suas ameaças e suas frases —
asseverou o sargento. — Não gosto de fazer isso, mas acho que
consigo.
— É só
o que importa. Aliás, apesar do risco que isso representa, Toffner
saiu para investigar a situação. De início tive a intenção de
fazer a troca durante um discurso, mas depois elaborei um plano
melhor. Calus reside no palácio do Zarlt e é constantemente cercado
por guardas, mas muitas vezes fica a sós em seu gabinete. Olhe!
Harno, o
ser esférico vindo do sistema de Tatlira, desceu do teto. Era uma
bola branca de superfície polida. Nela se viu uma imagem que parecia
projetada numa tela. Harno possuía uma faculdade espantosa. Era
capaz de tornar visível em sua superfície qualquer ponto do
Universo, independentemente de uma câmara de televisão. Era o
televisor vivo do Exército dos Mutantes.
Viram um
recinto com móveis pesados, algumas peças de equipamento técnico
e, mais ao fundo, a cabeceira de uma cama. Uma ligeira visão através
da porta mostrou dois guardas pesadamente armados que estavam
postados no corredor.
— A
troca terá de ser realizada neste recinto — disse Rhodan. — Não
deverá haver maiores problemas, pois não teremos necessidade de
passar pelos guardas. Os dois soldados serão capazes de jurar que
ninguém poderia ter entrado no quarto. Aliás, nem será necessário
que prestem esse tipo de declaração. Ninguém formulará perguntas
a este respeito, pois não se dará pela falta do verdadeiro Calus.
Gucky o levará ao palácio, Osega. Por uma questão de cautela
mandarei que Ras Tschubai vá com o senhor, pois é possível que
Calus tente resistir. O trabalho terá de ser muito rápido.
O sargento
Osega observava Harno.
— Quando
será?
Rhodan
olhou para o relógio.
— Daqui
a pouco, Calus fará seu discurso costumeiro na televisão. Que faça!
Amanhã o discurso será feito pelo senhor. Será amanhã às
quatorze horas, tempo de Terrânia.
Ao
anoitecer, Toffner regressou são e salvo. Encontrara alguns amigos
convocados para o serviço militar e dois soldados do Zarlt que
conhecera na arena. Ao que parecia, dentro de três dias outro
contingente de tropas seria enviado a Árcon. Esse contingente já
estava completo. Pelo que se dizia, a próxima chegada das naves
transportadoras já fora anunciada.
O
treinamento dos recrutas era feito num planeta de Árcon.
No
subterrâneo só se notava a diferença entre o dia e a noite em
virtude de uma pausa para dormir. Rhodan aproveitou o tempo que ainda
lhe restava para, juntamente com Toffner, fazer uma visita aos dois
zalitas. No início, os dois levaram um tremendo susto, mas logo se
mostraram dispostos a cooperar na execução do plano. Espantaram-se
com a existência de uma organização secreta que operava em Zalit,
mas logo se conformaram com o fato. Rhodan teve bons motivos para não
lhes contar que eram os únicos zalitas pertencentes à organização.
A noite
passou e um novo dia teve início. Todos esperavam que esse novo dia
marcasse o início de uma nova época.
*
* *
Pouco
depois do meio-dia, o Almirante Calus recebeu uma mensagem do
regente. Tal comunicado lhe foi entregue por um oficial, vindo
diretamente da nave capitania dos arcônidas, ao qual cabia a
supervisão dos serviços de rádio da unidade. Parecia estar muito
nervoso.
— Esta
mensagem foi recebida há trinta minutos, almirante — disse e
entregou o bilhete a Calus. Naturalmente valia-se dos padrões
arcônidas que correspondiam aproximadamente a meia hora. — O
regente já começa a impacientar-se.
Calus fez
um gesto autoritário e leu a mensagem. Depois disse em tom de
contrariedade:
— Acha
que estamos enviando poucas tropas. O treinamento é muito
prolongado. O regente quer bastante oficiais.
Refletiu
intensamente. O oficial mantinha-se à espera a uma distância
respeitosa da escrivaninha. Lançou um olhar tímido para o superior,
representante imediato do regente.
Calus
levantou os olhos.
— O
próximo transporte parte depois de amanhã, não é?
— Sim,
almirante.
— Muito
bem! No discurso de hoje farei sentir a necessidade de serem
recrutadas pessoas mais idosas. O regente precisa de astronautas e
oficiais experimentados. Quem sabe se não foi descoberto finalmente
o tal do planeta Terra, que tantos aborrecimentos nos tem causado? Os
preparativos estarão sendo adotados por isso... Seja como for, temos
de cumprir nosso dever.
Apenas
isso. Envie a seguinte mensagem ao regente...
O
Almirante Calus refletiu por alguns segundos e começou a ditar:
— Calus
ao regente! Transporte especial de aspirantes a oficiais está sendo
preparado. O critério de seleção será a experiência espacial. Em
Zalit não há problemas. Tudo normal. Almirante Calus — fitou seu
interlocutor. — Providencie para que a mensagem seja transmitida
imediatamente para Árcon e, assim que cheguem novas notícias,
avise-me. Obrigado.
O oficial
retirou-se. Calus ficou só.
Estava
sentado atrás de sua escrivaninha. Não desconfiava de que suas
palavras foram ouvidas uma por uma. E também não podia saber que
cada um dos seus movimentos, cada um dos seus gestos foi observado
atentamente. Era como se estivesse sentado à frente de uma câmara
que registrasse todas as fases de sua existência.
Faltavam
duas horas para o discurso de hoje. Queria aproveitar o tempo. A
situação não era tão brilhante como acabara de relatar ao
regente. Mas se tivesse contado a verdade, isso só teria resultado
em desvantagem para ele. Nesse caso, o computador talvez tivesse a
idéia de colocar outro oficial em seu lugar...
Ainda
havia em Árcon muitos homens ambiciosos que descendiam das famílias
antigas e que disputavam ferozmente os bons lugares no Império.
Naturalmente só o faziam com vistas a uma eventual queda do
computador-regente. E quando isso acontecesse, alguém teria de ser o
imperador de Árcon.
Suspirou.
Nos
últimos anos, os arcônidas voltaram a evoluir ou ao menos alguns
deles. Até parecia que o computador governante não exercia qualquer
influência desfavorável sobre o espírito humano... Pelo contrário!
As resistências internas haviam crescido. Muitos arcônidas
lembravam-se do passado glorioso e envergonhavam-se do presente
humilhante. A nova geração reconhecia o domínio do cérebro
positrônico. Mas nas profundezas das almas começava a surgir o
plano de um dia substituí-lo por outro tipo de governo.
Calus
acreditava ser o homem indicado para um belo dia assumir o governo.
Suspirou e
fez suas anotações. As classes mais jovens de Zalit haviam sido
abrangidas pelo recrutamento, com exceção dos que não se haviam
apresentado. Mais de cem mil zalitas deviam ter desaparecido. Ao que
tudo indicava, seria impossível pôr a mão neles. Talvez fosse
conveniente alegar esse fato para justificar o recrutamento das
classes mais antigas. Podia-se perfeitamente jogar um grupo contra o
outro.
Os
astronautas experimentados eram bastante procurados.
Estranho!
Será que de repente as naves dirigidas por robôs positrônicos não
eram capazes de enfrentar o inimigo? Por que de repente passou a
precisar de gente? Isso era de estranhar no regente que até aqui se
conhecia. Será que um computador era capaz de aprender alguma coisa?
Calus
ouviu um ruído e levantou os olhos.
Viu seu
próprio rosto.
Com um ar
estupefato fitou o arcônida que se encontrava a dois metros dele,
entre a escrivaninha e a porta. Calus não sabia explicar como viera
parar ali. Tinha certeza absoluta de que no recinto em que se
encontrava havia uma única porta.
E o
arcônida não estava só. Em sua companhia estava um zalita de pele
escura e um ser estranho e pequeno, que o fitava com uma expressão
insolente.
Calus
ficou sentado e não se mexeu. Seu cérebro esforçou-se em vão para
encontrar uma explicação racional do fenômeno inexplicável.
— Está
admirado?
O animal
lhe dirigiu a palavra em arcônida! Mais um milagre! Primeiro o
aparecimento que não conseguia explicar, e agora isso...
Mas as
coisas ainda ficariam piores.
— Não,
meu nobre almirante, não sou um animal doméstico falante, e nem
penso em deixar que alguém me adestre. O senhor não devia pensar
tolices. Isso pode estragar nosso relacionamento.
“Será
que o bicho sabe ler pensamentos?”, pensou Calus.
Porém não
encontrou a resposta, pois não lhe deram tempo para isso. Aproximou
a mão direita discretamente de uma pequena caixa escura que se
encontrava sobre a mesa. No momento em que pretendia apertar o botão
com os dedos bem abertos, a caixa subiu levemente, como se tivesse
perdido o peso. Planou para o lado, como se um fantasma a segurasse,
e caiu ao chão. Ouviu-se um ruído suspeito. Os cacos de vidro e de
plástico espalharam-se pelo chão. O aparelho de intercomunicação
acabara de ser inutilizado.
— Sentimos
muito, almirante, mas seu tempo de serviço nesse posto chegou ao
fim. Permita que me apresente como seu sucessor — Osega proferiu
estas palavras num tom irônico e adiantou-se um passo. — Queira
ceder-me seu lugar. O senhor se retirará juntamente com meus amigos.
Se for razoável, nada lhe acontecerá.
Calus
ainda não se recuperara da surpresa, mas as explicações podiam
ficar para mais tarde. O que importava no momento era escapar ao
perigo que o ameaçava.
— Quem é
o senhor? — gritou em tom exaltado. — E quem são as criaturas
que estão em sua companhia? É meu sucessor? Só pode estar louco.
O
animalzinho caminhou em torno da mesa, apoiando-se na cauda larga.
Sob os olhos vivos surgiu um dente roedor solitário, que parecia
sorrir. Calus não sabia que, quando Gucky exibia esse dente, estava
de bom humor e pretendia pregar uma peça a alguém.
— O
homem que está à sua frente é o Almirante Calus, seu tolo! —
chiou Gucky com a voz muito aguda. — Não vai levantar-se e fazer
uma mesura?
Calus
engoliu em seco. Ele era Calus! O outro era um sósia.
— É o
que você pensa! — prosseguiu o rato-castor. Naquela altura Calus
teve certeza quase absoluta de que aquela criatura lia seus
pensamentos. — Se por aqui existe um Calus falsificado, é você.
Será que pode provar o contrário?
O
almirante começou a desconfiar de que a situação não seria muito
fácil de resolver, ainda mais que seus pavorosos visitantes pareciam
possuir algumas “qualidades”
que não conhecia. De qualquer maneira...
Num gesto
rapidíssimo tirou do bolso a mão com a pequenina pistola que
disparava agulhas, mas antes que pudesse apertar o gatilho, a arma
escapou de sua mão e, como que conduzida por um fantasma, foi parar
na mão do animal cujo dente roedor sobressaía ainda mais.
— Ora,
almirante, que métodos são estes? Afinal, você é um soldado ou um
assassino? Vamos logo! Levante-se para que o verdadeiro Calus possa
sentar. Ele precisa preparar um discurso. Vejo que já fez algumas
anotações. Que gentileza!
Provavelmente
Calus teria permanecido em seu lugar, mas de repente teve a impressão
de que alguma coisa se movia embaixo do prolongamento da coluna. Teve
a impressão de que a cadeira subia juntamente com ele. Levou um
tremendo susto, levantou-se de um salto e deu um ou dois passos. A
cadeira voltou ao seu lugar.
O sósia —
ou seja, o sargento Osega — caminhou em atitude compenetrada em
direção à cadeira e acomodou-se. Depois olhou para os
companheiros.
— Acho
que vocês devem dar o fora o quanto antes — disse, dirigindo-se a
Gucky e Ras Tschubai. — Se de repente aparecer alguém... Dois
Calus são demais.
— Um já
é demais! — constatou Gucky e apontou para o almirante arcônida,
para o genuíno. — Este é demais! Vamos levá-lo logo.
Aproximou-se
de Calus e segurou a mão que pendia frouxamente junto ao corpo.

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