domingo, 21 de agosto de 2016

P-084 - Recrutas de Árcon - Clark Darlton [Parte 2]

3



A paciência do comando especial foi submetida a uma prova muito dura.
A Drusus e a Califórnia circularam em torno do sistema solar durante quase dois dias; aguardavam a resposta do agente Jeremy Toffner.
Os membros do comando já se encontravam a bordo da Califórnia, um cruzador ligeiro com os conjuntos propulsores superpotentes, que lhe permitiam uma enorme aceleração. A nave levava apenas cinco minutos para alcançar a velocidade da luz.
Rhodan era o único que continuava a bordo da Drusus; aguardava a mensagem de Toffner. Gucky permanecia a seu lado já que, quando chegasse a hora, Rhodan desejava transportar-se imediatamente, por meio de um salto de teleportação, para a Califórnia.
O Coronel Baldur Sikermann, comandante do supercouraçado, acabara de designar um jovem oficial para pilotar a nave, pois queria pedir a Rhodan que lhe fornecesse as últimas instruções para a operação.
Os dois homens estavam sentados num compartimento contíguo à sala de rádio, na qual David Stern se mantinha à espera junto ao hiper-receptor. Não havia o menor perigo de que o impulso condensado a ser transmitido pela Burma fosse captado indevidamente por outra pessoa. Sua duração não ultrapassaria um décimo de milésimo de segundo. Antes que alguém pudesse dirigir as antenas goniométricas para o transmissor, a transmissão cessaria.
Sikermann voltou a repetir:
Quer dizer que sairei dez minutos antes, emergirei do hiperespaço a um minuto-luz de Zalit e, durante a aproximação, cuidarei simultaneamente da frenagem e da localização do transmissor de sinais goniométricos. Nosso transmissor de matéria se situará dentro do raio de ação do transmissor fictício, que será direcionado exatamente sobre o transmissor goniométrico a ser colocado por Toffner. Depois de um minuto, no máximo, o transmissor fictício será acionado para colocar o receptor de matéria em Zalit. Depois tratarei de colocar a Drusus em lugar seguro. Rhodan confirmou.
É só o que terá de fazer. Realize uma transição a pequena distância e aguarde a chegada da Califórnia, que deverá concluir sua tarefa dentro de dez minutos, aproximadamente. Depois, você se dirigirá à posição de espera, previamente fixada, acompanhado pelo cruzador ligeiro. Caso precisemos de você, Toffner chamará. Acho que está tudo claro.
Sikermann parecia um tanto desolado.
Tudo claro; ainda bem.
Rhodan sorriu.
Está tudo claro quanto à execução do plano. Não me atreverei a formular profecias sobre o resultado da operação.
A porta abriu-se e Gucky pôs a cabeça para o interior da sala.
A mensagem chegou, Perry. Stern está fazendo a decodificação.
Rhodan levantou-se com uma lentidão que chegava a parecer excessiva. Fez um sinal para Sikermann e, ao lado de Gucky, saiu para o corredor. O comandante levantou-se de um salto e seguiu-os.
Mais dois ou três minutos, Sir, e teremos o texto. A Burma agiu com uma precaução toda especial; realizou uma condensação dupla.
Sikermann manipulou a decodificadora automática e procurou encontrar as regulagens adequadas. O aparelho complicado começou a zumbir; chaves estalaram e entraram ruidosamente na posição de descanso.
Rhodan aguardou paciente, enquanto Sikermann saltitava, nervoso, de um pé para o outro. Inabalável, Gucky mantinha-se ao lado.
Finalmente a máquina expeliu uma fita. Stern pegou-a e passou-a imediatamente ao administrador.

Transmissor goniométrico em funcionamento.
Hora: 14,00.

Só isso.
Sikermann pegou a fita.
Quer dizer que chegou a hora, Sir?
Voltarei agora mesmo para a Califórnia juntamente com Gucky. Comece a acelerar dentro de três segundos. Percorra o trecho que nos separa de Zalit em quatro transições, conforme foi previsto. Levará duas horas para chegar ao planeta — olhou para o relógio. — Às dezessete horas, tempo de Terrânia, o receptor estará em Zalit, pronto para entrar em funcionamento. Boa sorte, Sikermann! Bem que precisaremos.
Sikermann apertou a mão de Rhodan. Depois virou-se abruptamente e saiu correndo em direção à sala de comando.
David Stern viu o pequeno rato-castor colocar-se ao lado do administrador e segurar-lhe a mão. Subitamente o ar começou a tremeluzir. Quando voltou a olhar, Rhodan e Gucky haviam desaparecido.
Quase no mesmo instante, os conjuntos propulsores da Drusus começaram a uivar.
Compensando totalmente a enorme pressão produzida pela aceleração, a nave saiu da órbita solar e tomou a rota do primeiro ponto de transição.
Rhodan e Gucky já se haviam materializado a bordo da Califórnia
Três minutos depois, o cruzador ligeiro também saiu velozmente em direção ao espaço interestelar.
O jogo entre os impérios estelares teve seu início.
Era um jogo de vida e morte...

* * *

No momento em que desligou o hiper-transmissor e voltou a guardá-lo no interior da caverna, Toffner compreendeu que já não havia ninguém que seria capaz de deter o curso dos acontecimentos.
Pegou seu planador e chegou são e salvo a Tagnor, de onde irradiou imediatamente a mensagem combinada. Não sabia quando chegaria Rhodan e o grupo que o acompanharia. E não tinha a menor idéia do número dos membros do grupo ou de seus planos. Apenas executara as instruções recebidas e estava esperando.
O transmissor de sinais goniométricos funcionava há oitenta minutos.
Saiu de seu cubículo cavado sob a rocha e, dando algumas voltas, foi ao lugar em que se encontravam seus amigos, a fim de informá-los sobre a palestra que tivera com Hhokga. Markh e Kharra ficaram satisfeitíssimos ao saberem que o negociante de tecidos estava disposto a ajudá-los. Insistiram junto a Toffner para que não perdesse tempo: deveria fazer seus preparativos o mais depressa possível e desaparecer, da mesma forma que tinham feito.
Toffner disse que tinha de liquidar mais alguns assuntos e despediu-se apressadamente. Sabia que seus dois amigos não desempenhariam qualquer papel importante nos acontecimentos que se desenrolariam dali a pouco. Eram apenas figuras marginais de uma operação de âmbito galáctico.
No momento em que passou pela saída oficial e seus pulmões voltaram a encher-se de ar puro, respirou profundamente. As catacumbas contavam com algumas instalações de renovação de ar que ainda funcionavam, mas estas eram insuficientes para abastecer todos os recintos. Com o tempo, a atmosfera abafada comprimia os pulmões que nem uma nuvem de poeira, dificultando a respiração. A pessoa só conseguia acostumar-se ao ambiente depois de algumas horas.
Fizera todos os preparativos. Nas proximidades de seu esconderijo havia alguns recintos maiores, que poderiam servir de abrigo e oficina. Não tinha a menor idéia sobre os planos de Rhodan, mas sua intuitividade bastava para formar uma idéia aproximada da futura evolução dos acontecimentos.
Talvez fosse preferível voltar ao deserto e aguardar a chegada de Rhodan.
Seu planador estava estacionado numa área situada nas proximidades da arena. Toffner caminhou vigorosamente, a fim de atingi-lo o mais depressa possível. De repente teve a impressão de que, caso não se apressasse não chegaria em tempo.
Quando dobrou a última esquina e viu a área de estacionamento à sua frente, estacou.
Alguns guardas do Zarlt costumavam patrulhar a área e não provocavam maiores suspeitas. Por outro lado, não constituiriam motivo para preocupações. Mas naquele momento, um verdadeiro cordão de robôs arcônidas fortemente armados cercava a área de estacionamento. Entre eles caminhavam alguns oficiais que envergavam o uniforme do Império e controlavam toda a área.
Toffner viu que alguns zalitas que queriam dirigir-se a seus veículos eram mandados de volta. Outros eram presos e levados por um robô.
Será que esses zalitas cometeram a leviandade de realizar uma viagem de negócios sem a necessária documentação?
Toffner sentiu-se tranqüilizado. Sorriu e pôs a mão no cartão de identificação que trazia no bolso. Estava registrado como habitante de Tagnor, nascido em Zalit, e exercia uma profissão permitida. Possuía numerosos amigos e protetores entre os soldados do Zarlt, pois todos apreciavam as lutas que se travavam na arena.
Continuou a caminhar em direção aos planadores estacionados e viu que o seu continuava no mesmo lugar.
Um oficial, cujo rosto exprimia a arrogância habitual dos arcônidas, interpôs-se em seu caminho.
Não está vendo que é proibido entrar nesta área? — disse em tom autoritário. — Ninguém pode sair de Tagnor sem nossa permissão.
Toffner assustou-se. Aquilo não parecia ser apenas um controle rotineiro de documentos.
Por que ninguém podia sair de Tagnor?
Apenas quando havia alguma guerra ou revolução, isso costumava acontecer. E no momento, o clima político de Zalit não estava marcado por nenhum desses fenômenos.
Guerra? Se é que havia uma, não era em Zalit.
Preciso ir a Larg para tratar de negócios — respondeu Toffner com a maior tranqüilidade e apresentou seu documento de identidade. — Meus documentos estão em ordem, oficial.
O arcônida pegou o documento, estudou-o detidamente e fitou o rosto de seu interlocutor com uma expressão desconfiada.
O senhor explora a arena de gladiadores de Tagnor?
Por aqui todo mundo me conhece. Será que o senhor tem alguma dúvida quanto à autenticidade dos meus documentos? — Toffner apontou para seu documento de identidade. — Pergunte aos soldados zalitas.
Não tenho nenhum motivo para isso — respondeu o oficial. Fitou Toffner e prosseguiu: — Quando concluirá seus negócios e irá conosco para Árcon? Já conhece a data de seu recrutamento?
De repente, Toffner deu-se conta de que caíra, tolamente, numa armadilha!
A operação não era de controle de documentos, mas tinha por fim recrutar soldados para o exército arcônida.
Toffner respondeu com a maior tranqüilidade:
É claro que conheço a data. Ainda disponho de sete dias. Por que faz essa pergunta?
O arcônida ficou visivelmente impressionado com a calma de Toffner.
Ah, então ainda dispõe de sete dias? Por que quer viajar para Larg?
Já lhe disse que preciso tratar de negócios. Quando viajar para Árcon a fim de receber meu treinamento, alguém me substituirá na direção da arena. Tenho de instruí-lo e arranjar alguns animais para as lutas. O senhor há de compreender que mesmo no curso de uma guerra, se é que uma guerra está sendo travada, um povo não deve ser privado dos seus prazeres.
E o senhor não deve ser privado dos seus negócios; compreendo perfeitamente. Mas quem me garante que o senhor não vai desaparecer, e que, daqui a sete dias, o esperaremos em vão?
Desaparecer? — o rosto de Toffner exprimiu tamanha perplexidade que o oficial não conseguiu reprimir uma risada. — Onde é que poderia desaparecer?
O senhor não seria o primeiro. Muita gente constante das listas não compareceu no dia designado. Nós os encontraremos e castigaremos. Tome seu documento. Quando chegar a Larg, apresente-se ao chefe da seção de recrutamento. Se não o fizer, terá problemas.
Toffner procurou dissimular o alívio que sentiu e pegou sua carteira de identidade das mãos do oficial. Numa atitude que simbolizava a autoconfiança e a consciência tranqüila, passou pelos guardas robôs e dirigiu-se a seu planador. Sentiu o olhar do oficial na nuca, mas não se virou. Abriu a porta num gesto lento e indiferente, entrou na cabina e decolou.
Os robôs, os aviões, os zalitas e o oficial, tudo recuou rapidamente, quando descreveu uma curva e tomou a rota leste, que levava para Larg. Subiu mais e olhou em torno para ver se havia aeronaves policiais, mas não descobriu nenhuma. Bem embaixo dele, viu uma coluna que marchava; eram robôs.
Tagnor parecia um acampamento militar. Naquele instante, Toffner começou a desconfiar de que nunca mais deveria aparecer “oficialmente” na capital, a não ser que quisesse correr o risco de ser obrigado a prestar serviço militar aos arcônidas.
Imprimiu ao veículo a velocidade máxima e, depois de quinze minutos, chegou à cadeia de montanhas.
Certificou-se de que não havia nenhum planador nas proximidades e deixou seu veículo cair subitamente, detendo-o no último instante e pousando suave.
Por enquanto tudo continuava em silêncio; não se via nada.
Lá em cima notava-se um trecho circular do céu límpido e transparente. Era o único lugar do qual poderia vir algum perigo.
De súbito, Toffner estacou.
Não vira um lampejo metálico lá em cima? Viera de uma altitude considerável...
Ali... mais outro!
Seguiu-se uma luminosidade ofuscante, que logo se apagou.
Estaria sofrendo de alucinações?
Sacudiu a cabeça e dirigiu-se à caverna na qual fora colocado o transmissor de sinais goniométricos.
Quando estava prestes a entrar, viu um vulto que saía da penumbra.
Era um zalita!
Num movimento rapidíssimo pegou a arma que trazia escondida sob as vestes.
Haviam encontrado seu esconderijo! Estava tudo perdido...
Deu um enorme salto e abrigou-se atrás de uma pedra. Resolveu defender-se até o fim, pois queria vingar-se da traição de que se julgava vítima, fosse quem fosse o traidor...
Parou e levantou a arma.

* * *

Quando a Drusus emergiu da quarta transição, Zalit era uma grande esfera, situada a menos de vinte milhões de quilômetros. Naturalmente, uma esfera somente na tela, pois, a olho nu, o planeta era apenas uma estrela muito luminosa. Afinal, um minuto-luz é uma distância nada desprezível.
Sikermann era a calma em pessoa. Sabia que só tinha três minutos de vantagem. A Drusus deu início imediatamente à manobra de desaceleração. O transmissor de matéria, que se encontrava no âmbito de ação do transmissor fictício, foi ligado. Assim que chegasse a Zalit, teria de estar pronto para a recepção.
Rhodan possuía um único transmissor fictício. Recebera-o do grande imortal do planeta Peregrino. Até então, tentara em vão construir outro exemplar. O aparelho trabalhava na quinta dimensão e realizava o transporte instantâneo de objetos para qualquer lugar.
Com os transmissores comuns, a coisa era diferente. Já eram fabricados na Terra. Porém seu alcance era limitado e só funcionavam quando havia um transmissor e um receptor. O transmissor fictício da Drusus transportaria um receptor desse tipo para o planeta Zalit. Rhodan desejava que houvesse um receptor apto para entrar em funcionamento nesse planeta do sol Voga.
Sikermann exibiu um sorriso. No que dependesse dele, as coisas dariam certo...
O alarma soou na sala de comando.
Duas naves aproximam-se à velocidade da luz, Sir! Transmitem no código arcônida. Exigem que nos identifiquemos.
Sikermann continuou a ser a calma em pessoa. Olhou tranqüilamente para o relógio.
Rechacem-nas! — disse. Ainda dispunha de quarenta segundos. — Usem todo o armamento.
A Drusus tinha uma superioridade enorme sobre as duas naves de reconhecimento. Antes que os arcônidas — talvez se tratasse de um povo colonial — iniciassem o ataque, um punho imaginário tangeu-os vários milhões de quilômetros pelo espaço a fora. Seus conjuntos propulsores falharam e as naves ficaram impossibilitadas de manobrar. A muito custo, conseguiram manter a rota por meio do suprimento energético de emergência. Contentaram-se em avisar o Almirante Calus de que uma nave desconhecida de tipo arcônida penetrara no sistema e não fornecera sua identificação.
Trinta segundos depois do momento em que a Drusus emergiu do hiperespaço, o alarma soou em todo o sistema solar de Voga.
Sikermann reduziu fortemente a velocidade e penetrou na atmosfera de Zalit. Até que Stern o avisasse de que o receptor estava captando o sinal goniométrico, ficou circulando em torno do planeta. Antes que o transmissor fictício fosse ativado, o dispositivo de mira adaptou-se automaticamente a esses sinais.
Em um segundo, o campo de descarga do transmissor ficou vazio. A estação receptora de matéria fora transportada para algum lugar do planeta Zalit. Se tudo tivesse corrido de acordo com o programa, naquele momento devia encontrar-se a dez metros do transmissor de sinais goniométricos que continuava a funcionar.
A Drusus descreveu uma curva e voltou a disparar para o espaço. Não se aproximara a mais de cem quilômetros da superfície de Zalit.
Mas os arcônidas não estavam dormindo. Seu sistema de alerta funcionava muito bem. Mais de duzentas unidades robotizadas reagiram ao alarma transmitido pelos dois cruzadores atacados. O regente de Árcon desconfiava de que, caso surgisse um supercouraçado da classe Império, só poderia tratar-se de arcônidas — ou dos malditos terranos!
Era claro que o computador-regente não sabia praguejar. Se possuísse qualidades humanas, não teria deixado de fazê-lo. Mas, como não as tinha, contentou-se com a lógica dos seus cálculos.
Calus recebeu a ordem prosaica de abrir fogo contra qualquer nave do tipo arcônida que se recusasse a fornecer a identificação.
Quando a ordem chegou a Zalit, a Drusus já havia desaparecido no hiperespaço, sem deixar o menor vestígio. Mas, praticamente no mesmo instante, surgiu a Califórnia e correu diretamente para o cinturão defensivo das naves robotizadas colocadas em estado de prontidão.
No momento em que Zalit surgiu na tela, Rhodan viu ao mesmo tempo, por assim dizer, as bocas dos canhões energéticos de mais de trinta cruzadores ligeiros e outras naves de guerra.
A solicitação de fornecer a identidade não obteve resposta.
Os robôs cumpriram as instruções que haviam recebido. Abriram um fogo mortífero contra a nave esférica, que acabara de emergir do hiperespaço e procurava romper suas linhas.
A Califórnia parecia precipitar-se contra um muro feito de energia.
4



O Zarlt Kosoka estava sentado em seu trono. A importância desse trono era puramente simbólica; em termos reais não valia um centavo. Dirigiu seus olhos, apenas ligeiramente avermelhados, para um jovem oficial, que falava de modo autoritário.
Zarlt, tenho a impressão de que você ainda não se deu conta da gravidade da situação. Não basta transmitir minhas ordens de má vontade; você tem de cuidar para que elas sejam executadas. Em toda parte, seus soldados praticam uma espécie de resistência passiva. Ainda ontem permitiram que um desertor fugisse.
Sim, trata-se de um homem ao qual nem sequer deram oportunidade de despedir-se da família, antes de ser levado para Árcon. Submeto-me às ordens de Árcon a contragosto, porque não tenho outra alternativa, Almirante Calus, mas não posso deixar de manifestar meu desagrado pelos métodos que estão sendo usados pelo Império.
Você terá de obedecer, caso queira continuar no cargo — respondeu Calus em tom frio. — E, o que é o principal, você deve deixar de pensar. Quem pensa é o regente, e ele o faz por todos nós.
O Zarlt fez um gesto afirmativo.
Sei, almirante. Mas tenho a impressão de que o computador não quer dispensar o auxílio humano. Por que será que de repente sente tanta necessidade de soldados e oficiais? Até agora os robôs sempre conseguiram arranjar-se sozinhos.
O regente não governa por ele, mas por nós. E no momento que um perigo grave nos ameaça, todos devem colaborar para removê-lo.
Calus proferiu estas palavras sem pestanejar. Teve o cuidado de não revelar que havia outros motivos para que o computador passasse a incluir os arcônidas e os zalitas em seus planos. O regente chegara à conclusão de que não conseguiria arranjar-se sem o auxílio de seres orgânicos. Um império estelar não poderia ser defendido indefinidamente apenas com exércitos de robôs. Tornava-se necessário empregar seres humanos.
Mas o fato também representava o primeiro sinal da derrota do computador-regente.
Por que Árcon não se contenta com os voluntários?
Porque os homens, voluntariamente dispostos a lutar por nosso Império, são poucos. Os zalitas andam moles; em Árcon trataremos de endurecê-los de novo. O treinamento é curto, mas abrange todas as áreas da arte da guerra.
O Zarlt fitou atentamente o Almirante Calus, e perguntou:
Que naves foram estas que hoje atacaram ou procuraram atacar Zalit. Não pertencem ao Império?
Calus fez um gesto de desprezo.
Devem ser piratas ou terranos. Sei lá. Talvez quisessem desembarcar agentes, talvez pretendessem apenas testar nossas defesas. Seja lá quem forem, não voltarão.
O Zarlt esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas viu-se interrompido pela entrada de um oficial arcônida. Calus respondeu com um gesto indiferente à continência de seu subordinado e perguntou:
O que houve? Por que me incomoda?
Trata-se do exame dos recrutas, almirante. Hoje faltaram mais de duzentos. Suas residências foram revistadas, mas estão desaparecidos. Os membros de suas famílias não têm a menor idéia de onde possam estar.
É o que dizem! — disse Calus em tom furioso e caminhou nervosamente de um lado para outro. — Acho que devemos abandonar toda e qualquer consideração e responsabilizar os membros da família pela insubordinação dos homens. Onde poderão estar escondidos? — Dirigiu-se ao Zarlt: — Você sabe dizer?
O Zarlt respondeu que não. Calus refletiu por algum tempo. Depois dirigiu-se ao oficial:
Nos próximos dias falarei ao povo de Zalit. Providenciarei para que todas as estações de telecomunicação se mantenham de prontidão para uma transmissão de âmbito planetário. Acho que depois de minha fala as dificuldades diminuirão.
O oficial retirou-se.
Calus disse em tom irônico:
Aliás, para que Zalit precisa de um exército? Não existe o menor perigo de revolução e o planeta goza de proteção do Império. Para que soldados? Acho que incorporaremos o exército zalita à frota. Alguma objeção, Zarlt?
Surgiu uma ligeira pausa. Os dois homens fitaram-se por algum tempo.
Finalmente o Zarlt sacudiu a cabeça.
Não. É claro que não tenho nenhuma objeção.
Calus sorriu, parecia satisfeito.

* * *

A solicitação dos campos defensivos da Califórnia foi tão intensa que praticamente não sobrou energia para o armamento. O resto da energia armazenada foi conduzido para os conjuntos propulsores, para que a nave conservasse a capacidade de manobrar.
O General Deringhouse estava sentado à frente dos controles. Procurava desviar a nave das unidades de bloqueio. Normalmente isso seria praticamente impossível, mas a Califórnia era mais veloz que as naves dos arcônidas. Mais veloz e mais ágil.
Rhodan sabia que os homens que deveriam participar do comando se encontravam junto aos transmissores, onde aguardavam suas ordens. Não poderiam desperdiçar um segundo sequer.
Romper!
Foi a única palavra que dirigiu a Deringhouse.
E este rompeu as linhas.
A nave realizou uma tremenda aceleração, descreveu uma curva fechada e afastou-se velozmente dos atacantes. Até parecia que iria entrar em transição. Os atacantes transformaram-se em perseguidores, mas foram ficando para trás. Os disparos de radiações erravam o alvo ou se desfaziam no campo defensivo.
Zalit crescia rapidamente. Pouco importava onde se encontrava o receptor que participaria da transmissão de matéria, da mesma forma que, numa transmissão de rádio, a localização do receptor não assume qualquer importância.
Rhodan falou para dentro do microfone do sistema de intercomunicação:
Primeiro comando: saltar!
Quase cem homens comprimiam-se nas cinco jaulas energéticas dos transmissores de matéria. No momento em que soou a voz de comando de Rhodan, o impulso de transmissão foi desencadeado. Em apenas um segundo, as jaulas ficaram vazias.
Os cem homens se materializariam em algum lugar na superfície do planeta. Mais precisamente, no lugar exato em que o agente Toffner colocara o transmissor de sinais goniométricos e em que agora se encontrava a estação receptora.
Em algum lugar... Conforme Harno lhe mostrara, era uma caverna.
Rhodan esperou dez segundos, a fim de que os outros membros dos comandos tivessem tempo de preparar-se.
Segundo comando: saltar! Levantou-se e, dirigindo-se a Deringhouse, disse:
Espere exatamente cinco minutos. Depois dê o fora daqui e coloque-se na posição de espera, onde encontrará a Drusus. Faça um trabalho bem feito.
Sim senhor — disse o general. — Desejo-lhe boa sorte.
Obrigado. Até breve.
Rhodan virou-se apressadamente e saiu da sala de comando. Teria de apressar-se, a fim de que a operação não sofresse um retardamento desnecessário. Quando chegou ao hangar, as últimas peças de equipamento dos tripulantes da Califórnia estavam sendo colocadas nos transmissores. Rhodan seria o último a arriscar o salto. Levaria as armas e o equipamento especial.
Entrou na quinta jaula energética e olhou para o relógio. Os outros já deviam ter saído das jaulas do receptor. Esperaria mais vinte segundos...
O oficial que comandava a operação de transporte cumprimentou-o.
Tudo de bom, Sir!
Obrigado — respondeu Rhodan.
Faltavam dez segundos.
O alarma encheu a nave. A voz de Deringhouse anunciou pelos alto-falantes:
Atenção, atenção! Voltamos a ser atacados por grupos muito fortes. Transição dentro de vinte segundos. Transição dentro de vinte segundos.
Rhodan dispunha de cinco segundos! Era tempo de sobra.
Empurrou a chave transportadora para baixo... e no mesmo instante viu-se no interior do receptor colocado em Zalit. Não sentiu a desmaterialização. Apenas o quadro que via diante dos olhos modificou-se. No lugar em que pouco antes se encontravam as paredes lisas da Califórnia, surgiram as rochas ásperas da gigantesca caverna.
Os homens corriam apressadamente de um lado para outro. Alguns aproximaram-se rapidamente para cuidar do equipamento. Com um ligeiro olhar, Rhodan certificou-se de que tudo correra de acordo com o plano.
O receptor estava muito bem escondido. Dificilmente se poderia imaginar um lugar melhor. A caverna podia abrigar todos os homens e sua situação devia ser tal que não poderia ser descoberta.
Saiu da jaula energética e encontrou-se com Atlan e Bell, que supervisionavam a descarga.
Até agora tudo correu conforme planejamos — disse Bell e saltou para o lado, quando alguém passou com um volume pesado. — Gostaria de saber onde estamos. Toffner não nos forneceu qualquer detalhe...
Aparecerá por aqui; foi o que combinamos — disse Rhodan em tom tranqüilizador, embora por dentro não se sentisse muito tranqüilo. Caso alguma coisa tivesse acontecido a Toffner e caso ele se encontrasse num lugar do qual não pudesse sair, estariam numa armadilha. — Seja como for, estamos em Zalit e por enquanto ninguém desconfiou. Podemos dar-nos por satisfeitos.
Bell sorriu e, dirigindo-se a Atlan, disse:
Almirante, como se sente alguém que se parece com um zalita e deverá ser, futuramente, um dos soldados do exército do computador?
Atlan retribuiu o sorriso.
Não deve sentir-se muito pior que meu gordo amigo que, dentro em breve, se transformará num recruta que ficará marchando pelo pátio do quartel.
Mais uma vez sinto-me satisfeito por não ser um homem — piou Gucky, que se aproximou no seu andar balouçante. — Os arcônidas não poderão levar-me. Nunca serei um recruta.
É claro que não; pois os arcônidas não querem perder a guerra — constatou Bell e olhou atentamente em torno. — Onde estamos?
Essa pergunta chamou de volta a presente realidade. Rhodan mandou que, antes de mais nada, as armas fossem desempacotadas e distribuídas. Se houvesse um ataque, deviam estar preparados.
Subitamente, Gucky disse em meio ao nervosismo:
Alguém se aproxima lá fora; está junto à entrada da caverna.
Rhodan orientou-se num instante e constatou que a caverna possuía uma única saída. Colocou um radiador portátil no bolso largo de seu traje, que o caracterizava como um zalita típico, passou a mão pelos cabelos cor de cobre e foi caminhando em direção à saída.
Verificarei quem é — disse e acrescentou: — Gucky, mantenha-se ao alcance da vista. Assim perceberá quando chegar a hora de fazer alguma coisa.
Era claro que o rato-castor não deixaria de perceber, pois era telepata. Um pensamento de Rhodan seria suficiente.
E Rhodan, que era um genuíno zalita, saiu da caverna ao ver um único homem aproximar-se. Ao que parecia, também era uma criatura nascida em Zalit. Mas os primeiros impulsos mentais captados por Rhodan confirmaram sua suspeita de que o homem que tinha à sua frente era Toffner.
Acontece que Toffner segurava uma arma, que ia apontando lentamente para Rhodan. Isso era bom sinal, pois provava que o disfarce era bom, tanto que chegava a enganar até Toffner, que se encontrava em Zalit há três anos.
Bom dia, Jeremy Toffner — disse em inglês. — Não precisa gastar sua munição.
Toffner sentiu-se aliviado ao ouvir as palavras pronunciadas em sua língua materna. Baixou a arma e guardou-a no bolso.
Graças a Deus! — disse num suspiro e aproximou-se de Rhodan. — Permite que lhe pergunte quem é o senhor? Parece um zalita...
Rhodan — disse o administrador e apertou a mão do agente. — Acho que já nos encontramos antes.
Já. Foi quando em Terrânia recebi ordens de ir para Zalit. Naquela oportunidade, o senhor me disse que eu ficaria sozinho por muito tempo. Ao que parece, esse tempo chegou ao fim.
Olhou para a entrada da caverna, onde alguns homens conversavam de pé. Gucky encontrava-se em meio ao grupo. Já sabia que as ordens que Rhodan lhe dera haviam perdido a finalidade.
Deu tudo certo?
Até agora sim — respondeu Rhodan com um sorriso. — Como faremos para ir a Tagnor? Já pensou sobre isso?
Não sabia quantos homens participariam do comando — disse Toffner a título de desculpa pela omissão. Em Tagnor existe um lugar em que poderão abrigar-se, mas será muito difícil entrar na cidade sem que ninguém o perceba. As sentinelas estão espalhadas em toda parte, e elas fazem o controle de todas as pessoas que passam.
Não há problema quanto aos documentos.
Os documentos não bastam, Sir. Também possuo um documento válido. Acontece que os arcônidas passaram a prender as pessoas que se encontrem na faixa etária adequada, a fim de que não possam subtrair-se ao serviço militar.
Rhodan refletiu um pouco. O Major Rosberg e o Capitão Gorlat já haviam saído da caverna. Olhavam em torno com um grande interesse. Ao que parecia, gostaram do vale com os paredões elevados.
No interior da caverna, o equipamento estava sendo arrumado.
Quer dizer que o problema se resume em saber como entraremos na cidade para chegar ao esconderijo preparado por você. O transmissor de matéria não servirá de nada, pois só temos este exemplar. Além disso, seria muito difícil levá-lo a Tagnor, sem chamar a atenção. Será que não podemos chegar até a cidade sob a proteção da noite?
Talvez consigamos. Acontece que Tagnor fica a quinhentos quilômetros. E, sem dúvida, a marcha pelo deserto seria observada por alguém.
Naturalmente; o senhor tem razão — Rhodan levantou os olhos para o céu límpido. Os raios do sol iluminavam a borda superior das rochas íngremes que fechavam o vale. — Será que aqui estamos em segurança?
Sim; aqui nos encontramos numa segurança razoável. Caso não tenha necessidade, ninguém vem ao deserto. É bem verdade que os aviões costumam sobrevoar a área, mas dificilmente notarão este vale.
Rhodan não respondeu. Lançou um olhar pensativo para Gucky, que passou por eles para trocar algumas palavras com o teleportador africano Ras Tschubai. John Marshall estava conversando com Bell. Os homens iam saindo da caverna. Parece que o trabalho de arrumação estava praticamente concluído.
Gucky! Ras! — gritou Rhodan, aproximando-se dos seres cujo nome acabara de pronunciar. — Quero fazer algumas perguntas.
Fique à vontade! — disse o rato-castor. — Se quiser saber minha opinião, estamos numa ratoeira.
Gucky tem razão — disse o africano. — Um vale como este protege-nos dos olhares dos outros, mas quando tivermos sido descobertos não teremos qualquer saída.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Justamente por isso temos de dar o fora. Quando os arcônidas começarem a procurar os zalitas que querem fugir do serviço militar, vasculharão também esta cadeia de montanhas. No momento em que isso acontecer, já deveremos encontrar-nos num lugar seguro. Acontece que Toffner acaba de explicar que é muito difícil chegar à cidade. Há sentinelas por toda a parte. Quanto tempo vocês levarão para carregar todos os homens e o equipamento até a cidade de Tagnor?
A pergunta tinha sua razão de ser. Gucky e Ras eram teleportadores, mas também estavam sujeitos aos limites traçados pela natureza. Um teleportador poderia levar dois homens num salto, mas o cansaço das células nervosas era considerável. O processo não podia ser repetido à vontade. As pausas de descanso eram indispensáveis. A distância era indiferente. Pouco importava que o salto fosse de quinhentos ou de cinco mil quilômetros.
Gucky alisou o pêlo. O gesto parecia exprimir certo embaraço.
Será muito cansativo — disse. — Se Tako ajudar, poderemos terminar em um ou dois dias. O destino já é conhecido?
Toffner o mostrará.
Nesse caso não haverá problema. O equipamento não inclui nenhum objeto muito pesado. Os volumes maiores serão transportados por Ras e por mim em conjunto. Quando poderemos começar?
Rhodan sentiu-se aliviado ao perceber a calma com que os dois teleportadores encaravam a tarefa. Não a julgavam muito fácil, pois isso seria uma irresponsabilidade. Todavia...
Fez um sinal para Toffner, que se encontrava num ponto mais afastado. O agente aproximou-se e lançou um olhar curioso para Gucky. Já ouvira falar no rato-castor, mas nunca tivera oportunidade de vê-lo.
Estes são Gucky e Ras Tschubai. Ambos são teleportadores. Eles nos levarão para Tagnor. Primeiro iremos nós quatro, a fim de conhecermos o local. Os outros seguirão depois. Explique aos dois como é Tagnor. Enquanto isso instruirei os homens sobre como proceder nesse meio tempo.
Deixou que Toffner ficasse a sós com os dois mutantes e foi para junto de Rosberg, Gorlat e Bell. Os três encontravam-se na entrada da caverna, de onde podiam ver o vale e a maior parte do subterrâneo. Ao que parecia, não se sentiam muito à vontade no lugar em que estavam.
Bell, você ocupará meu lugar por algumas horas. A fim de examinar nossos alojamentos, irei a Tagnor com Toffner, Gucky e Ras Tschubai. Se houver algum ataque, defenda-se com todos os recursos de que possa dispor. Se isso acontecer, teremos de modificar nossa tática. Talvez os arcônidas acreditem que somos zalitas que querem fugir do serviço militar.
Por que não vamos todos? — perguntou Rosberg.
Rhodan sacudiu a cabeça.
É impossível. Pelo que diz Toffner, os controles são mais rigorosos e eficientes do que supúnhamos. É bem verdade que nem por isso nossos planos sofrerão maiores alterações. Investigarei a situação e voltarei. Espero que, dentro de dois ou três dias, todos estejamos sãos e salvos nas catacumbas de Tagnor.
As despedidas foram breves. Rhodan pegou a arma de radiações e não se esqueceu de entregar Harno aos cuidados de Bell. Depois saiu caminhando ao lado de Toffner, Ras Tschubai e Gucky em direção à entrada do vale.
Os que ficaram para trás viram-nos desaparecer em meio às rochas.
John Marshall, que lera os pensamentos de Rhodan e por isso conhecia-lhe as intenções, disse:
Quer dizer que, se não surgir uma alternativa melhor, os teleportadores nos levarão um por um para Tagnor. Por que não ficamos no deserto? Acho que seria mais fácil.
Seria muito mais difícil operarmos daqui. Se ficarmos em plena cidade de Tagnor, as coisas se tornarão mais fáceis.
Bell levantou os olhos para o céu.
Quando deverá anoitecer aqui?
Dentro de, aproximadamente, quatro horas — respondeu Rosberg, que já colhera informações detalhadas. — Até lá o chefe deverá estar de volta.
Bell lembrou-se das obrigações que lhe cabiam como representante de Rhodan. Entrou na caverna e certificou-se de que, junto à parede da caverna, todo o equipamento estava bem arrumado e empilhado. Cada membro do comando saberia o que teria de fazer e quais os objetos que teria de levar, quando chegasse a hora para isso. Na caverna havia uma boa quantidade de volumes com armas, um laboratório bioquímico, um laboratório físico, mantimentos e equipamento especial.
Quando o Major Rosberg, o Capitão Gorlat e John Marshall entraram correndo na caverna, Bell verificava os volumes.
Um avião! — gritou o major em tom exaltado, agitando os braços. — Passou sobre o vale em vôo baixo; parece que estão procurando alguma coisa. Tomara que não desconfiem de nada.
Bell olhou para as caixas. Seria inútil desempacotar um pequeno canhão de radiações. Além disso, a montagem seria muito demorada. Se fossem utilizados, racionalmente, numa ação maciça...
Ninguém deverá aparecer fora da caverna! — gritou e correu para a entrada. Avançou cautelosamente até um ponto em que podia ver todo o vale. Enxergou também um pedacinho do céu.
Era um planador de asas curtas. A maneira de voar revelava que possuía campos antigravitacionais. O veículo aéreo foi descendo e quase chegou a tocar o chão no fundo do vale.
Bell escondeu-se atrás de uma rocha e fez um sinal para o interior da caverna.
Dez homens para cá! — gritou e destravou sua arma. — Tenham cuidado. Não deveremos ser descobertos antes da hora.
John Marshall foi um dos que rastejaram para junto de Bell.
Quantos serão? — perguntou, já deitado ao lado de Reginald.
Veremos. Estou curioso para ver se são arcônidas ou zalitas.
Sua paciência não foi submetida a uma prova muito prolongada.
O planador pousou. O ruído do motor cessou. Dali a pouco, uma escotilha da cabina abriu-se e quatro vultos saltaram. Eram robôs.
O piloto é um arcônida; um oficial — Marshall estava oferecendo seu relato. — Consigo captar seus pensamentos. Trata-se de uma verificação de rotina. Pousaram aqui por puro acaso.
Que azar! — disse Bell. — Se vierem para cá, teremos de colocá-los fora de ação. O que deveremos fazer com o piloto? Se escapar, o diabo estará às soltas. Virão com bombas e verdadeiros exércitos. Quer dizer que ninguém deverá escapar.
André Noir! — disse Marshall, falando no minúsculo transmissor de laringe.
O hipno do Exército de Mutantes logo captou o sinal. Rastejou para junto de Marshall.
Você me chamou?
Devemos impedir o piloto de decolar quando destruirmos os robôs. Você será capaz disso?
Noir fez um gesto afirmativo.
Farei o possível. Talvez consiga fazer com que abandone o aparelho. Mais tarde aplicar-lhe-ei um bloqueio hipnótico, e ele se esquecerá de tudo. Talvez consiga mesmo mandá-lo para Tagnor com uma lembrança falsa dos fatos.
Excelente — disse Bell e passou a concentrar-se sobre os robôs que se aproximavam.
Subitamente um dos homens-máquina parou e chamou a atenção dos outros para alguma coisa que vira na areia.
São os rastros dos nossos pés! — Marshall compreendeu imediatamente do que se tratava. — Encontraram nossas pegadas.
Ótimo! — disse Bell numa súbita resolução. — Assim escaparemos ao sofrimento de uma espera prolongada. Noir, tente a sorte. Quanto a nós, cuidaremos dos robôs curiosos.
Os robôs conferenciaram através dos aparelhos embutidos em seus corpos. Os círculos de armas começaram a rodar. Ao que parecia, procuravam um alvo. Voltaram a colocar-se em movimento. Separaram-se, já que ainda não haviam identificado o objetivo.
Bell avançou e levantou a arma de radiações. Um dos robôs caminhava em direção à entrada da caverna.
Abriremos fogo ao mesmo tempo, a fim de pegá-los de surpresa — cochichou para os outros. — Antes que possam ativar seus campos defensivos, deverão estar liquidados.
Era perfeitamente possível destruir um robô de guerra com uma arma de radiações portátil, desde que se conhecesse os pontos sensíveis dos monstros eletrônicos.
E desde que se acertasse logo. Uma vez ativados os campos energéticos dos colossos, eles se tornariam praticamente invulneráveis.
Bell levantou a mão esquerda. Os homens estavam distribuídos de maneira tal que cada robô poderia ser alvejado por dois ou três deles.
Bell baixou a mão, e, no mesmo instante, as fúrias do inferno ficaram soltas. Num instante, os raios energéticos saíram das armas, perfuraram a blindagem dos robôs, atingiram peças vitais e as gaseificaram. Um cérebro eletrônico reage com uma rapidez espantosa. Porém, quando não está em condições de funcionamento, deixa de reagir. Foi o que aconteceu com três dos robôs.
O quarto teve mais sorte. Ativou o campo defensivo que o encerrou numa campânula invisível, feita de energia de elevada potência, que não deixaria passar qualquer porção de matéria ou outras formas de energia.
O robô logo começou a responder ao fogo.
Bell abaixou-se e sentiu as costas esquentarem. O bombardeio energético atingira a parede de rocha, da qual começaram a cair pingos grossos. O segundo tiro foi mais baixo; quase chegou a atingir Bell de raspão. Os feixes energéticos disparados pelos homens “tatearam” em direção ao robô, mas o campo defensivo refletiu a energia.
Betty! — cochichou Bell em tom assustado. Sabia que sem a intervenção da telecineta não teriam a menor chance contra o monstro. Betty também era telepata e seria capaz de ler seus pensamentos. — Betty Toufry!
Betty era uma mulher jovem — e continuaria a sê-lo. A ducha celular aplicada no planeta Peregrino prolongara sua vida por seis decênios. Captou os impulsos desesperados de Bell e compreendeu imediatamente. Não perdeu tempo. Correu em direção à entrada da caverna e, com um ligeiro olhar, avaliou a situação. Três robôs haviam sido colocados fora de ação. Estavam no chão, destruídos.
Mas o quarto robô caminhava em direção a Bell, que achava-se deitado atrás de uma pedra e lhe enviara o pedido de socorro.
Estava em cima da hora!
Bell ouviu os passos pesados da máquina de guerra que se aproximava. Nunca saberia por que escolhera justamente a ele, ignorando as outras pessoas que atiravam. Se Betty não agisse logo...
De repente, os passos cessaram. Um dos membros do comando soltou um grito; era um grito de alívio. Bell arriscou-se a levantar a cabeça acima da pedra e respirou aliviado diante do que viu. Betty ouvira e compreendera seu pedido de socorro.
O robô cambaleou. Subitamente perdeu o apoio dos pés e tombou. Com a queda, o campo defensivo foi desligado. O robô procurou reativá-lo. Entretanto, nesse instante, uma grande pedra levantou-se a poucos metros dele, como se tivesse sido agarrada pela mão de um fantasma. Subiu rapidamente, parou bem em cima do robô e subitamente caiu, como se a mão a tivesse soltado. Atingiu com toda força a cabeça supersensível do monstro e esmagou o importante dispositivo positrônico. O corpo do robô amoleceu, como se fosse o de um homem, e estirou-se ficando completamente imóvel.
Mas o perigo ainda não havia passado.
Assim que irromperam as hostilidades, o planador levantou vôo. Parou vinte metros acima do fundo do vale. Ao que parecia, o piloto estava refletindo sobre o que deveria fazer. Mas logo descreveu uma espiral descendente e voltou a pousar.
O piloto saiu da cabina e num caminhar duro e estranho seguiu em direção à entrada da caverna.
André Noir, que estava deitado perto de Bell, levantou-se.
Tenho o piloto sob controle, Mr. Bell — disse com certo triunfo na voz. — Foi fácil entrar em seu cérebro, pois o rapaz parece ser muito degenerado. Não tem muita coisa na cabeça.
Excelente! — disse Bell e também se levantou. Enfiou a arma de radiações no cinto do uniforme. — Vamos dar uma olhada nesse sujeito.
Dirigiu-se ao telepata.
Marshall, o senhor e Noir tentarão extrair dele tudo que possa assumir certa importância. Depois colocaremos dados falsos em sua memória e deixaremos que volte para casa.
Não seria conveniente ficarmos com o planador? — indagou Noir.
Não. Sentiriam falta dele e começariam a procurá-lo. O que faríamos com isso? Afinal, o planador de Toffner está escondido embaixo dessa rocha saliente. Acho que será mais vantajoso deixarmos que o piloto regresse à base com informações falsas. Precisará de uma explicação plausível para a falta dos quatro robôs.
Noir soltou um suspiro.
Está bem; cuidemos do arcônida.
Dali a meia hora, quando o planador levantou vôo e saiu em direção a Tagnor, o arcônida sentado atrás dos controles era o mesmo de antes...
Mas esse arcônida sofrerá o implante de uma memória artificial!

* * *

Dê-me a mão. — Ras Tschubai impacientou-se diante da hesitação de Toffner. — Para podermos saltar, precisamos do contato físico — fitou o rato-castor. — O objetivo já foi identificado?
Gucky fez que sim.
Se Toffner continuar a pensar intensamente nas catacumbas, iremos parar lá. Acho que podemos começar.
Os dois teleportadores concentraram-se. O salto foi efetuado sem o conhecimento direto do destino, mas a seu lado estava alguém que conhecia esse destino e transmitia seu conhecimento a Gucky por via telepática. E entre Gucky e Ras havia um contato físico.
Os três homens e o pequeno rato-castor desmaterializaram-se.
Mais ou menos uma hora depois, o Almirante Calus recebeu uma notícia alarmante. No setor norte da cadeia de montanhas que se estendia entre Tagnor e Larg havia um grande grupo de rebeldes, que atacara o veículo aéreo dos arcônidas e destruíra quatro robôs de guerra.
Quando fez o piloto do planador comparecer à sua presença e começou a interrogá-lo, Calus tremia de raiva. Conseguiu controlar-se a custo e ouviu em silêncio o relato que lhe estava sendo apresentado.
Saímos à procura de homens capazes de pegar em armas, conforme as ordens que havíamos recebido, senhor. Procuramos principalmente nos lugares mais afastados do deserto. Supõe-se que por lá estejam escondidos zalitas que se recusam a servir ao Império. Juntamente com outros oficiais vasculhei a parte sul e central da cadeia de montanhas, mas não descobri nada. Naquela área existem poucos locais em que alguém possa esconder-se. Mas, mais ao norte, torna-se difícil examinar o terreno, mesmo do alto. Separamo-nos. Incumbi-me das encostas do leste, em direção a Larg.
Subitamente começaram a atirar contra mim. Descobri um grupo de zalitas escondido num vale. Segui as ordens que me foram fornecidas: pousei e mandei que os robôs avançassem. Foram todos destruídos. Levantei vôo para evitar que a aeronave caísse nas mãos dos rebeldes e voltei imediatamente.
Calus fitou-o com uma expressão zangada.
Na parte norte da cadeia de montanhas? — o almirante refletiu por algum tempo e perguntou: — Verificou a posição exata?
Saberei encontrar o vale, senhor.
Muito bem! Ainda hoje, antes do escurecer, uma esquadrilha de caças ligeiros decolará e atacará os rebeldes que se esconderam nas montanhas. Procure pegá-los vivos. Precisamos de soldados, não de cadáveres. Entendido?
Pode confiar em nós...
É o que espero. E não me venha com a alegação de que de repente não consegue encontrar o vale. Eu o previno para que isso não aconteça. Se a operação não for coroada de êxito, o senhor será rebaixado para soldado raso.
Dali a dez minutos, a esquadrilha de caças decolou.
O sol já descia para o horizonte. Os aviões corriam para o leste, em direção à noite que iria cobrir o planeta.
O infeliz oficial com a memória “falsificada” acompanhou-os. Foi seu último dia como oficial. Calus costumava cumprir suas promessas e suas ameaças.
Acontece que o lugar, onde o oficial acreditava que estivessem escondidos os rebeldes, ficava dois mil quilômetros ao norte do pequeno vale em que Bell e o restante do comando esperavam ansiosamente pela volta de Rhodan.
Perry e seus companheiros rematerializaram-se nas grandes cavernas, situadas embaixo da arena de Tagnor.
Rhodan soltou a mão de Gucky e lançou um olhar para Toffner, a fim de certificar-se de que estavam no lugar certo. Depois olhou em torno.
O recinto era quadrado e nele se viam vários muros que o dividiam em nichos. O teto era de pedra pouco trabalhada, mas parecia ser muito forte. Era ligeiramente abobadado. Nas paredes, que eram lisas e estavam revestidas com um verniz transparente, viam-se pequenas portas.
Aqui poderia ser instalado o quartel-general — disse Rhodan e prestou atenção ao eco de sua voz. — A que profundidade estamos?
Vinte metros no máximo — respondeu Toffner. — Existem várias saídas. As portas foram embutidas na parede de tal maneira que são quase invisíveis. As fechaduras são eletrônicas ou de vibrações orgânicas. Estamos bem embaixo da arena e, portanto, do centro da cidade. Não se leva mais de cinco minutos para chegar ao palácio do governo.
Rhodan fez um sinal de concordância.
Excelente. Daqui podemos operar. Os laboratórios serão abrigados nas diversas salas.
Lançou um olhar penetrante para Toffner.
Quem conhece este subterrâneo além do senhor? Por que os arcônidas ainda não tiveram a idéia de procurar fugitivos por aqui?
Acredito que não tenham conhecimento da existência das catacumbas. Só as cavernas exteriores são conhecidas, e estas já foram revistadas. A parte interna é fechada por portas que não foram descobertas. Aqui estamos em segurança. Há três anos meu esconderijo fica neste lugar.
Não foi por desconfiança que perguntei, Toffner, mas precisamos ter cuidado. Não podemos desprezar qualquer fator. Traremos nossos homens e equipamentos. Gucky e Ras, saltem de volta. Ficarei aqui com Toffner.
O rato-castor esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas acabou acenando com a cabeça e segurou a mão de Ras.
Teleportaram-se ao mesmo tempo.
Muito bem, Toffner — disse Rhodan com uma ênfase estranha. — Conte-me alguma coisa dos dois zalitas que o senhor mantém escondidos. Gucky leu seus pensamentos. O que houve com eles?
Toffner logo venceu o embaraço.
São meus amigos, e deveriam ser recrutados. Pediram que os ajudasse, e eu os escondi. É só. Não têm a menor idéia do que está acontecendo aqui embaixo. O cubículo em que estão escondidos não tem nenhuma ligação com o pavilhão em que nos encontramos.
Talvez, um belo dia, possam ajudar-nos — disse Rhodan, dando a entender que não condenava o gesto de solidariedade de Toffner. — Têm todo motivo para não entreterem sentimentos amistosos em relação aos arcônidas. Oportunamente darei uma olhada neles.
Toffner sentiu-se aliviado.
Mas antes que tivesse tempo de responder Gucky materializou-se juntamente com Bell.
Que é isso? Vocês fizeram exercícios de campo?
Bell procurou endireitar o uniforme amarrotado.
Foi mais ou menos isso. Um oficial arcônida procurou arrancar-nos da caverna. Estava acompanhado por quatro robôs de combate.
Depois de oferecer um relato sucinto dos acontecimentos, concluiu:
O piloto contará uma fábula a Calus. Se tivermos sorte, morrerão de tanto procurar a dois mil quilômetros do vale.
Tomara — disse Rhodan, enquanto Ras Tschubai materializava-se com um técnico do comando. Gucky desapareceu no mesmo instante. A seguir, apareceu Tako Kakuta, um teleportador japonês.
O grande reagrupamento teve início...
Demorou dois dias.
Finalmente instalaram-se no grande pavilhão de pedra e puderam dar início ao trabalho propriamente dito, que os levaria a Árcon.
5



O Almirante Calus mandou que o turboveículo parasse à frente do edifício e desceu. Enquanto subia pelos largos degraus e entrava pelo portal, dois oficiais de alta patente, que traziam armas de radiações, acompanharam-no. As sentinelas zalitas que guardavam o edifício fizeram continência em atitude respeitosa.
Em cima do telhado, uma antena esférica estendia-se para o céu. A emissora de Tagnor era a maior e a mais potente do planeta. As estações retransmissoras garantiam a perfeita recepção dos programas irradiados dali. Nos últimos dias, os programas recreativos haviam sido sacrificados grandemente em benefício dos apelos militares.
Calus comparecia quase diariamente ao edifício em que funcionava a estação de rádio e fazia uma de suas alocuções autoritárias e ameaçadoras. A fim de impedir um eventual atentado contra a vida do almirante, dois oficiais o acompanhavam constantemente. No fundo, Calus não acreditava que pudesse haver tal atentado. Afinal, apoiava-se no poderio de Árcon. Ninguém se atreveria de atrair sobre si as iras do computador-regente.
Dali a dez minutos, o rosto do arcônida apareceu em milhões de telas. Todos entendiam sua língua, que era a língua do Império Arcônida. Era uma língua clara, inequívoca e, acima de tudo, dura.
Na caverna subterrânea, situada embaixo da arena, Rhodan e seus colaboradores mais chegados também estavam sentados à frente da tela. Naquele dia, era a segunda vez que viam e ouviam Calus.
No dia anterior haviam examinado seu aspecto exterior e encontraram alguém que tinha certa semelhança com ele. Agora o sargento Roger Osega estava sentado ao lado de Rhodan e observava todos os movimentos de Calus. Os bioquímicos já haviam realizado algumas modificações anatômicas em seu rosto. O sargento Osega tinha uma semelhança espantosa com Calus. Era fácil confundi-los.
O Almirante Calus pertence à conhecidíssima família dos Monizas — disse Toffner, quando Calus fez uma ligeira pausa. — Há muito tempo essa família serve ao computador-regente e goza de uma confiança irrestrita.
Isso logo mudará — disse Bell com a voz zangada. Depois o silêncio voltou a reinar.
Calus estava dizendo:
Se as ordens de apresentação não forem cumpridas, agiremos com todos os meios que estão ao nosso alcance. A recusa de prestar serviço no exército imortal de nosso regente será punida com a morte. Até agora preferi não me valer do direito que me cabe como juiz supremo, mas no futuro não terei a menor contemplação: mandarei fuzilar qualquer desertor ou insubmisso. Concedo mais um prazo de dez dias a todos os zalitas que estejam em condições de pegar em armas, a fim de que se apresentem à circunscrição de recrutamento de Tagnor. Quem for encontrado depois disso e não puder dar explicações satisfatórias enfrentará os pelotões de fuzilamento. Acho que me fiz entendido.
A tela apagou-se.
O sargento Osega soltou um suspiro.
Então terei de fazer o papel desse monstro? Isso não será nenhum prazer.
Pouco importa que sinta ou não sinta prazer — disse Rhodan em tom de repreensão. — O fato é que o êxito de nossa missão dependerá de seu desempenho como ator. Os bioquímicos voltarão a ocupar-se com você. Posso garantir que depois disso ninguém conseguirá distingui-lo do verdadeiro Calus.
Osega confirmou com um gesto.
É claro que compreendo que não há outra alternativa, Sir. Apenas acontece que não me sinto muito à vontade em constranger inocentes zalitas a se apresentarem para o serviço militar de Árcon.
Rhodan soltou uma gargalhada.
O senhor também encaminhará voluntários a Árcon. E nós estaremos entre eles. Acredito que gostaremos muito mais do novo Calus. O antigo receberá um tratamento especial.
Com isso, o plano já estava delineado. Apenas faltava aguardar a oportunidade de realizá-lo.
E essa oportunidade surgiu dali a quatro dias.

* * *

Antes disso, o sargento Osega passou algumas horas desagradáveis no interior do laboratório.
O doutor Tschai Toung, que era o melhor confeccionador de máscaras do Serviço de Segurança Solar, cuidou dele. Quando se tratava de transformar um homem em outro, o chinês tornava-se pedante. Os filmes tirados da imagem televisada foram rodados incessantemente; Osega teve oportunidade de estudar atentamente seu sósia. E o Dr. Toung também teve. Sacudiu a vasta cabeleira negra.
Não estou gostando do nariz, sargento. O senhor já possui um documento de identidade plenamente válido, que o apresenta oficialmente como Calus, mas seu nariz ainda não é o nariz dele. Colocarei mais um enxerto de bioplástico.
Osega gemia de fazer dó.
Vocês ainda acabam me estragando por completo — disse, embora não estivesse falando sério. — Minha própria mãe acabará por não me reconhecer.
Pois é exatamente o que queremos — disse Toung em tom sério.
O professor Eric Manoli serviu de assistente na operação inteiramente indolor. Quando a mesma foi concluída, Tschai Toung tinha todo motivo para orgulhar-se de sua obra.
Agora estou satisfeito — anunciou. — Ninguém conseguirá distinguir um almirante do outro.
Esfregou as mãos e passou os olhos pelos mutantes e especialistas do comando, que estavam sentados em torno dele.
Agora está na hora de vocês mostrarem do que são capazes. Troquem meu pupilo pelo verdadeiro Calus. Se agirem com bastante habilidade, ninguém perceberá.
Tomara! — disse Rhodan e adiantou-se. — Osega também terá que desempenhar o papel de Calus por ocasião das aparições na televisão. Acredita que será capaz disso?
Tive boas oportunidades de estudar suas ameaças e suas frases — asseverou o sargento. — Não gosto de fazer isso, mas acho que consigo.
É só o que importa. Aliás, apesar do risco que isso representa, Toffner saiu para investigar a situação. De início tive a intenção de fazer a troca durante um discurso, mas depois elaborei um plano melhor. Calus reside no palácio do Zarlt e é constantemente cercado por guardas, mas muitas vezes fica a sós em seu gabinete. Olhe!
Harno, o ser esférico vindo do sistema de Tatlira, desceu do teto. Era uma bola branca de superfície polida. Nela se viu uma imagem que parecia projetada numa tela. Harno possuía uma faculdade espantosa. Era capaz de tornar visível em sua superfície qualquer ponto do Universo, independentemente de uma câmara de televisão. Era o televisor vivo do Exército dos Mutantes.
Viram um recinto com móveis pesados, algumas peças de equipamento técnico e, mais ao fundo, a cabeceira de uma cama. Uma ligeira visão através da porta mostrou dois guardas pesadamente armados que estavam postados no corredor.
A troca terá de ser realizada neste recinto — disse Rhodan. — Não deverá haver maiores problemas, pois não teremos necessidade de passar pelos guardas. Os dois soldados serão capazes de jurar que ninguém poderia ter entrado no quarto. Aliás, nem será necessário que prestem esse tipo de declaração. Ninguém formulará perguntas a este respeito, pois não se dará pela falta do verdadeiro Calus. Gucky o levará ao palácio, Osega. Por uma questão de cautela mandarei que Ras Tschubai vá com o senhor, pois é possível que Calus tente resistir. O trabalho terá de ser muito rápido.
O sargento Osega observava Harno.
Quando será?
Rhodan olhou para o relógio.
Daqui a pouco, Calus fará seu discurso costumeiro na televisão. Que faça! Amanhã o discurso será feito pelo senhor. Será amanhã às quatorze horas, tempo de Terrânia.
Ao anoitecer, Toffner regressou são e salvo. Encontrara alguns amigos convocados para o serviço militar e dois soldados do Zarlt que conhecera na arena. Ao que parecia, dentro de três dias outro contingente de tropas seria enviado a Árcon. Esse contingente já estava completo. Pelo que se dizia, a próxima chegada das naves transportadoras já fora anunciada.
O treinamento dos recrutas era feito num planeta de Árcon.
No subterrâneo só se notava a diferença entre o dia e a noite em virtude de uma pausa para dormir. Rhodan aproveitou o tempo que ainda lhe restava para, juntamente com Toffner, fazer uma visita aos dois zalitas. No início, os dois levaram um tremendo susto, mas logo se mostraram dispostos a cooperar na execução do plano. Espantaram-se com a existência de uma organização secreta que operava em Zalit, mas logo se conformaram com o fato. Rhodan teve bons motivos para não lhes contar que eram os únicos zalitas pertencentes à organização.
A noite passou e um novo dia teve início. Todos esperavam que esse novo dia marcasse o início de uma nova época.

* * *

Pouco depois do meio-dia, o Almirante Calus recebeu uma mensagem do regente. Tal comunicado lhe foi entregue por um oficial, vindo diretamente da nave capitania dos arcônidas, ao qual cabia a supervisão dos serviços de rádio da unidade. Parecia estar muito nervoso.
Esta mensagem foi recebida há trinta minutos, almirante — disse e entregou o bilhete a Calus. Naturalmente valia-se dos padrões arcônidas que correspondiam aproximadamente a meia hora. — O regente já começa a impacientar-se.
Calus fez um gesto autoritário e leu a mensagem. Depois disse em tom de contrariedade:
Acha que estamos enviando poucas tropas. O treinamento é muito prolongado. O regente quer bastante oficiais.
Refletiu intensamente. O oficial mantinha-se à espera a uma distância respeitosa da escrivaninha. Lançou um olhar tímido para o superior, representante imediato do regente.
Calus levantou os olhos.
O próximo transporte parte depois de amanhã, não é?
Sim, almirante.
Muito bem! No discurso de hoje farei sentir a necessidade de serem recrutadas pessoas mais idosas. O regente precisa de astronautas e oficiais experimentados. Quem sabe se não foi descoberto finalmente o tal do planeta Terra, que tantos aborrecimentos nos tem causado? Os preparativos estarão sendo adotados por isso... Seja como for, temos de cumprir nosso dever.
Apenas isso. Envie a seguinte mensagem ao regente...
O Almirante Calus refletiu por alguns segundos e começou a ditar:
Calus ao regente! Transporte especial de aspirantes a oficiais está sendo preparado. O critério de seleção será a experiência espacial. Em Zalit não há problemas. Tudo normal. Almirante Calus — fitou seu interlocutor. — Providencie para que a mensagem seja transmitida imediatamente para Árcon e, assim que cheguem novas notícias, avise-me. Obrigado.
O oficial retirou-se. Calus ficou só.
Estava sentado atrás de sua escrivaninha. Não desconfiava de que suas palavras foram ouvidas uma por uma. E também não podia saber que cada um dos seus movimentos, cada um dos seus gestos foi observado atentamente. Era como se estivesse sentado à frente de uma câmara que registrasse todas as fases de sua existência.
Faltavam duas horas para o discurso de hoje. Queria aproveitar o tempo. A situação não era tão brilhante como acabara de relatar ao regente. Mas se tivesse contado a verdade, isso só teria resultado em desvantagem para ele. Nesse caso, o computador talvez tivesse a idéia de colocar outro oficial em seu lugar...
Ainda havia em Árcon muitos homens ambiciosos que descendiam das famílias antigas e que disputavam ferozmente os bons lugares no Império. Naturalmente só o faziam com vistas a uma eventual queda do computador-regente. E quando isso acontecesse, alguém teria de ser o imperador de Árcon.
Suspirou.
Nos últimos anos, os arcônidas voltaram a evoluir ou ao menos alguns deles. Até parecia que o computador governante não exercia qualquer influência desfavorável sobre o espírito humano... Pelo contrário! As resistências internas haviam crescido. Muitos arcônidas lembravam-se do passado glorioso e envergonhavam-se do presente humilhante. A nova geração reconhecia o domínio do cérebro positrônico. Mas nas profundezas das almas começava a surgir o plano de um dia substituí-lo por outro tipo de governo.
Calus acreditava ser o homem indicado para um belo dia assumir o governo.
Suspirou e fez suas anotações. As classes mais jovens de Zalit haviam sido abrangidas pelo recrutamento, com exceção dos que não se haviam apresentado. Mais de cem mil zalitas deviam ter desaparecido. Ao que tudo indicava, seria impossível pôr a mão neles. Talvez fosse conveniente alegar esse fato para justificar o recrutamento das classes mais antigas. Podia-se perfeitamente jogar um grupo contra o outro.
Os astronautas experimentados eram bastante procurados.
Estranho! Será que de repente as naves dirigidas por robôs positrônicos não eram capazes de enfrentar o inimigo? Por que de repente passou a precisar de gente? Isso era de estranhar no regente que até aqui se conhecia. Será que um computador era capaz de aprender alguma coisa?
Calus ouviu um ruído e levantou os olhos.
Viu seu próprio rosto.
Com um ar estupefato fitou o arcônida que se encontrava a dois metros dele, entre a escrivaninha e a porta. Calus não sabia explicar como viera parar ali. Tinha certeza absoluta de que no recinto em que se encontrava havia uma única porta.
E o arcônida não estava só. Em sua companhia estava um zalita de pele escura e um ser estranho e pequeno, que o fitava com uma expressão insolente.
Calus ficou sentado e não se mexeu. Seu cérebro esforçou-se em vão para encontrar uma explicação racional do fenômeno inexplicável.
Está admirado?
O animal lhe dirigiu a palavra em arcônida! Mais um milagre! Primeiro o aparecimento que não conseguia explicar, e agora isso...
Mas as coisas ainda ficariam piores.
Não, meu nobre almirante, não sou um animal doméstico falante, e nem penso em deixar que alguém me adestre. O senhor não devia pensar tolices. Isso pode estragar nosso relacionamento.
Será que o bicho sabe ler pensamentos?”, pensou Calus.
Porém não encontrou a resposta, pois não lhe deram tempo para isso. Aproximou a mão direita discretamente de uma pequena caixa escura que se encontrava sobre a mesa. No momento em que pretendia apertar o botão com os dedos bem abertos, a caixa subiu levemente, como se tivesse perdido o peso. Planou para o lado, como se um fantasma a segurasse, e caiu ao chão. Ouviu-se um ruído suspeito. Os cacos de vidro e de plástico espalharam-se pelo chão. O aparelho de intercomunicação acabara de ser inutilizado.
Sentimos muito, almirante, mas seu tempo de serviço nesse posto chegou ao fim. Permita que me apresente como seu sucessor — Osega proferiu estas palavras num tom irônico e adiantou-se um passo. — Queira ceder-me seu lugar. O senhor se retirará juntamente com meus amigos. Se for razoável, nada lhe acontecerá.
Calus ainda não se recuperara da surpresa, mas as explicações podiam ficar para mais tarde. O que importava no momento era escapar ao perigo que o ameaçava.
Quem é o senhor? — gritou em tom exaltado. — E quem são as criaturas que estão em sua companhia? É meu sucessor? Só pode estar louco.
O animalzinho caminhou em torno da mesa, apoiando-se na cauda larga. Sob os olhos vivos surgiu um dente roedor solitário, que parecia sorrir. Calus não sabia que, quando Gucky exibia esse dente, estava de bom humor e pretendia pregar uma peça a alguém.
O homem que está à sua frente é o Almirante Calus, seu tolo! — chiou Gucky com a voz muito aguda. — Não vai levantar-se e fazer uma mesura?
Calus engoliu em seco. Ele era Calus! O outro era um sósia.
É o que você pensa! — prosseguiu o rato-castor. Naquela altura Calus teve certeza quase absoluta de que aquela criatura lia seus pensamentos. — Se por aqui existe um Calus falsificado, é você. Será que pode provar o contrário?
O almirante começou a desconfiar de que a situação não seria muito fácil de resolver, ainda mais que seus pavorosos visitantes pareciam possuir algumas “qualidades” que não conhecia. De qualquer maneira...
Num gesto rapidíssimo tirou do bolso a mão com a pequenina pistola que disparava agulhas, mas antes que pudesse apertar o gatilho, a arma escapou de sua mão e, como que conduzida por um fantasma, foi parar na mão do animal cujo dente roedor sobressaía ainda mais.
Ora, almirante, que métodos são estes? Afinal, você é um soldado ou um assassino? Vamos logo! Levante-se para que o verdadeiro Calus possa sentar. Ele precisa preparar um discurso. Vejo que já fez algumas anotações. Que gentileza!
Provavelmente Calus teria permanecido em seu lugar, mas de repente teve a impressão de que alguma coisa se movia embaixo do prolongamento da coluna. Teve a impressão de que a cadeira subia juntamente com ele. Levou um tremendo susto, levantou-se de um salto e deu um ou dois passos. A cadeira voltou ao seu lugar.
O sósia — ou seja, o sargento Osega — caminhou em atitude compenetrada em direção à cadeira e acomodou-se. Depois olhou para os companheiros.
Acho que vocês devem dar o fora o quanto antes — disse, dirigindo-se a Gucky e Ras Tschubai. — Se de repente aparecer alguém... Dois Calus são demais.
Um já é demais! — constatou Gucky e apontou para o almirante arcônida, para o genuíno. — Este é demais! Vamos levá-lo logo.
Aproximou-se de Calus e segurou a mão que pendia frouxamente junto ao corpo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html