terça-feira, 30 de agosto de 2016

P-101 - O Globetrotter das Estrelas - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Ele infringe as leis, mas presta auxílio
aos náufragos no planeta vivo.


Surgiu a nova época na História da Humanidade!
Desde os acontecimentos narrados no penúltimo número, 57 anos são passados, o calendário na Terra está marcando o ano 2.102.
Muita coisa aconteceu neste intervalo. Já passou o perigo dos druufs, a zona de superposição entre os dois universos já há muito se tornou instável, impossibilitando uma penetração. Com o apoio dos terranos, o arcônida Atlan conseguiu consolidar sua posição como imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar produziu bons frutos, mormente para os terranos, que já ocupam cargos de relevo em Árcon. Atlan não pode dispensá-los, pois não confia na maioria dos seus conterrâneos.
O Império Solar se transformou na maior e mais importante potência comercial das Galáxias. Há mais de 22 anos que são quase ininterruptas as correntes emigratórias para mundos que prestam-se à colonização. Conseqüência disso é a existência de embaixadas e representações comerciais da Terra em muitos planetas habitados por inteligências estranhas.
Em resumo, para muitos homens, o sonho de seus avós e bisavós — poder viajar pelas estrelas — é já há muito tempo simples realidade, como acontece, por exemplo, com O Globetrotter das Estrelas...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Capitão Samuel GrayboundContrabandista... mas competente e humano.

Rex KnatterbulTenente; primeiro-oficial da Lizard.

Major RammbügglQue pretende transformar um lobo-do-espaço em comandante das supernaves...

Henry SmithHumilde, mas excelente radiotelegrafista.

ToureiroPapagaio inteligente, muito indiscreto...

Rhodan e GuckyPor ora, náufragos da Fantasy.
1



Ao longo do gigantesco espaçoporto de Terrânia, enfileiram-se centenas de construções de vulto, pertencentes às firmas e companhias comerciais que escolheram aquela zona para seu quartel-general. É exatamente ali em Terrânia, um dos maiores centros do comércio interestelar, que as firmas se sentem como na origem de tudo que existe no cosmo.
Um pouco afastado daquele foco trepidante, ficava um prédio pequeno e modesto, mas sólido, todo de pedra. Parecia um grande galpão, mas não era. Na frente, ostentava uma tabuleta, aliás não muito grande. Para poder ler seus dizeres, era necessário ao curioso aproximar-se bastante.

Globetrotter das Estrelas” Cia. Ltda.
Companhia de Navegação Espacial.
Proprietário: Richard Flexner,
capitão da ativa

Se naquele dia, 16 de março do ano 2.102, alguém estivesse por perto, haveria de ouvir uma voz berrando, xingando e blasfemando em todas as tonalidades. Fosse um qualquer, certamente ficaria branco de medo e se afastaria. Mas aquela jovem senhora, que descera do táxi e com passos firmes se dirigiu para o edifício, parecia não ter nada de um qualquer.
Estava com um vestido leve de verão, chapéu de aba larga, uma linda bolsa de couro e um tipo de sandálias muito em voga naquela época. Suas feições podiam ser consideradas suaves, caso seus olhos não falassem de grande iniciativa, se bem que neles residia também um tom de admoestação.
Realmente, Ludmila Graybound, nascida McBain, não era de brinquedo. Seu marido sabia muito bem disso. Era ele quem estava esbravejando atrás das paredes da “Globetrotter das Estrelas”, Companhia de Navegação Espacial, sem suspeitar da aproximação de sua esposa.
O Capitão Samuel Graybound deu um pulo da cadeira, como se tivesse sentado em cima de pregos pontudos.
Você tem que me contar isto direito, Rich; talvez, então, eu possa acreditar em suas palavras. Instituto para aprendizagem de cosmonáutica! Que besteira é esta? O que é que eles querem de nós? Estes idiotas! Que o diabo os carregue!
Seu interlocutor era a calma personificada; achava-se acomodado numa cadeira atrás da mesa que, com toda certeza, era um móvel ainda de dez séculos atrás.
Meu caro Samuel, a excitação aumenta a pressão arterial — disse em tom de conselho. — Vá lá e você ficará sabendo de tudo o que pretendem com você. Eu também não lhe posso dizer o que seja.
Aprendizagem cosmonáutica! — Samuel Graybound não conseguia tranqüilizar-se. — Como se tivesse que aprender ainda alguma coisa? Estes idiotas, que os diabos os levem para os quintos dos infernos.
Calma, meu amigo! — tentou tranqüilizá-lo seu interlocutor e diretor da firma, capitão da ativa Richard Flexner. — Não se deve nunca agir com precipitação. Afinal de contas, este instituto de aprendizagem está subordinado à Administração Solar. É preciso levar isto em consideração.
Levar em consideração? Puxa! Somos uma companhia particular, com seis cargueiros próprios. O que que há ainda para aprendermos, homem de Deus? Será que vamos comerciar futuramente para o governo? Era só o que faltava. Haveriam de ficar com os cabelos arrepiados se soubessem o que muitas vezes transportamos escondido.
Tenha mais cuidado — sussurrou Flexner assustado, olhando em volta, como se tivesse medo de alguém que pudesse ouvir uma frase daquela. — Não fale tão alto! Você grita tanto que lá em Terrânia poderão ouvi-lo.
Por mim, que ouçam até nos confins de Árcon — trovejou novamente o Capitão Graybound, quase que possesso, alisando a barba ruiva, que não dava grande realce a seu rosto.
Seu nariz tremia, o que servia geralmente para calcular o grau de sua cólera. As bochechas caídas, quase sempre flácidas, tornavam-se agora rígidas. Sinal evidente de que a ira de seu dono atingia o clímax.
Quem é, hoje em dia, que não faz contrabando? Quem não o fizer é um idiota.
Flexner ficou branco.
Pelo amor de Deus, Samuel, cale a boca agora. Você quer a desgraça de todos nós? Nosso nome não é o mais limpo da praça, mas, de qualquer maneira, temos que protegê-lo. Você é meu sócio, pelo menos no que diz respeito às ações, que estão em poder de seu venerando sogro. Portanto, se continuar gritando assim, vai prejudicar a ele e a você.
Graybound estava ofegante, queria responder alguma coisa, quando ouviu passos atrás de si, no corredor. Soltou um muxoxo, virou-se para trás e viu a velha maçaneta começando a girar.
O próprio Flexner não escondeu o medo.
Uma visita?”, pensou. “Tomara que ela não tenha ouvido nada que este maluco falou.
Flexner, porém, respirou tranqüilo ao reconhecer a elegante figura de Ludmila Graybound. Ela entrou no recinto, fechou a porta atrás de si e pôs as mãos na cintura.
Que está havendo aqui? Por que esta gritaria? — queria saber, olhando para seu marido inquisitivamente. — Vamos, desembuche! Perdeu a língua?
Samuel Graybound tinha cinqüenta e dois anos, Ludmila estava com suas vinte primaveras. É verdade que, após o casamento, ela negligenciara um tanto a conservação da juventude. Mesmo assim, a diferença de idade entre os dois era grande demais para não dar na vista de qualquer um. O capitão não tinha medo de nada neste mundo. Não existia perigo que fosse suficiente para impedi-lo de fazer o que queria. Arrancaria até os cabelos do diabo, fio por fio, se alguém lhe tivesse solicitado isto e se ele soubesse onde encontrar o diabo. Mas, diante de sua frágil mulher, capitulava sempre, sem impor condições.
Mas, meu anjo — sussurrou carinhoso, apontando-lhe uma cadeira para sentar. — Não quer se acomodar primeiro? Terminamos agora nossos acertos de rotina...
Quantas vezes tenho de lhe dizer que você não deve mentir para mim — disse firme, afastando a mão dele. — Pode deixar que eu sento sozinha. E desde quando é que meu pai e contrabando pertencem aos “acertos de rotina?
Temos que construir paredes à prova de som — disse Graybound em voz mais baixa, puxando uma cadeira para si.
Quando se sentou, confiando seu peso-monstro à frágil madeira, parecia que Flexner estava rezando escondido para que a cadeira não quebrasse. Graybound era baixote, mas de compleição muito forte e com uma barriga respeitável. Mas a cadeira acabou resistindo.
Quem é que está fazendo contrabando? — insistia Ludmila, com os olhos faiscantes.
Graybound se encolheu todo na cadeira.
Estávamos apenas comentando a situação — disse Flexner numa tentativa de salvar as aparências. — O que é muito mais importante é o fato de que seu marido, minha querida, recebeu uma citação para comparecer...
...perante o tribunal? — completou apavorada Ludmila.
Não, para comparecer ao Instituto de Aprendizagem de Cosmonáutica. O documento oficial foi entregue hoje cedo. Como você sabe, seu marido partiria hoje com a Lizard para o sistema de Tuglan.
Sei sim. Levaria brinquedos de criança e ursinhos de pelúcia para a garotada de Tuglan. Ele me contou.
E é verdade, senhora Graybound. Principalmente os ursinhos de pelúcia, que lá são muito procurados e muito caros — deu uma risada feliz. — Os ursinhos da Terra pertencem aos artigos de exportação mais rendosos.
A julgar pela expressão fisionômica de Ludmila, não estava acreditando nada naquela história de ursinho de pelúcia. Não tinha nada contra os bichinhos e brinquedos, mas não podia compreender por que tais artigos não podiam ser fabricados lá mesmo em Tuglan.
E então chegou esta incômoda citação, não é? — fixou-se em Samuel Graybound, que tentava fugir do seu olhar. — O que eles querem? Será que você já aprontou mais alguma, Gray?
Por um momento, Graybound perdeu o autodomínio:
Como posso adivinhar? Sei lá o que estes burros pretendem? — gritou esbravejando. Pouco depois voltou à calma. — Perdoe-me, querida, apenas não consigo imaginar o que seja.
Aprendizagem? — disse pensativa. — Na sua idade, você não vai aprender mais nada, não é?
Graybound estremeceu. Não tolerava alusões à sua idade, e quando estas vinham de sua esposa, menos ainda. Fez um esforço doido para se dominar.
A idade — disse dogmático — não tem a menor importância. A gente é velho ou moço, conforme nós mesmos nos sentimos.
Vou lembrá-lo disso, no momento oportuno — disse Ludmila com um sorriso especial, e logo depois voltou a ficar séria.
Sim, se você não sabe, então vá até o Instituto. Lá ficará sabendo de tudo. E quando é que vai voltar?
Logo após o almoço.
Ludmila se ajeitou, buscando acomodar-se melhor na poltrona.
Vou esperar por você aqui no escritório do senhor Flexner.
Oh! É um grande prazer — falou Flexner, olhando de soslaio para seu sócio.
Assim, certamente, o tempo passará mais rápido.
Não tenho dúvida disso — resmungou Graybound, fitando pensativo o chefe da firma.
Flexner tinha a mesma idade que ele, parecia, porém, muito mais jovem, devido a seu porte mais atlético. Era solteirão e tinha fama de ser um terrível dom-juan. Conheciam-no pelos bares de Terrânia como um freguês generoso e um excelente cavalheiro.
Graybound não estava muito tranqüilo, não por ter de deixar Ludmila em companhia de Flexner, mas pelo fato de ela estar ciente das novidades. Aliás, inquietantes novidades.
Quer dizer que vou voltar aos bancos da escola, outra vez! — disse ele. — Aprendizagem... Este pessoal ficou maluco. Quem sabe até vão me rebaixar para fuzileiro naval?
Falou mais alguma coisa e se encaminhou para a porta.
Controle-se e não cometa nenhuma burrice — era a voz de sua esposa. — Pense sempre que há pessoas que são mais poderosas e fortes que você.
Bobagem! — disse Graybound, batendo a porta atrás de si.
No corredor, e também ao ar livre lá fora, deu expansão aos seus sentimentos, falando consigo mesmo e se censurando por dar atenção à citação do tal instituto.
Quando já estava a uns cem metros do escritório, começou a altear a voz. Felizmente ninguém o poderia ouvir, a não ser ele .mesmo.
Estes idiotas! Podem entender alguma coisa teoricamente, mas o que sabem fazer na prática? Nada. Absolutamente nada. Funcionários públicos, burocratas, parasitas da nação!
Em largas passadas, dirigiu-se ao estacionamento à beira do campo, onde estava seu carro. Abriu-o, movimentou o segredo da chave de ignição e sentou-se resmungando alguma coisa. Antes de dar a partida, olhou para os hangares.
Lá estavam as três naves da “Globetrotter das Estrelas”. Eram espaçonaves velhas, cargueiros esféricos, de oitenta metros de diâmetro, ainda funcionando com o antigo sistema dos supersaltos de transição. Em seu interior, além de algumas cabinas e as máquinas de propulsão, todo o espaço restante era depósito para mercadoria. Não havia luxo, nem conforto. Mas o que a Lizard transportava às escondidas não era da conta de ninguém, excluindo seu capitão Graybound e seus dezoito tripulantes.
Aprendizagem...! — repetia furioso e um pouco preocupado. — Mas esta gente vai se arrepender!
E seu carro disparou na direção de Terrânia.

* * *

Um enorme arranha-céu na periferia da cidade. Milhares de escritórios. Em volta, campos verdejantes e bancos. Ao lado, o Instituto, com seus laboratórios e estações experimentais. Um outro conjunto arquitetônico, bem protegido por alto gradil de ferro e por inúmeros guardas. Era o Instituto de Aprendizagem de Cosmonáutica.
O inspetor-chefe Major Ludwig Rammbüggl parecia esconder-se atrás de uma enorme mesa de trabalho, onde remexia num catatau de folhas avulsas. O secretário, que o ajudava, disse-lhe rapidamente:
Algumas novas propostas saídas do cérebro eletrônico. Os candidatos vão se apresentar a partir de hoje. Senhor, já preparei tudo.
Está certo, Pierre. No meio destas propostas, estão alguns dos convocados?
Sob o termo “convocados”, entendiam-se os membros da Frota Espacial e da Frota Comercial que não se apresentaram voluntariamente para a aprendizagem, mas foram considerados pelos dados do computador como altamente qualificados para isto.
Perfeitamente, senhor. Há um deles, um tal de Capitão Samuel Graybound.
O secretário folheou o grosso catatau de fichas e tirou uma delas, apresentando-a ao chefe.
Aqui estão os documentos.
O major começou a estudá-los. Seu semblante, antes calmo, se anuviou de repente e as rugas de sua testa pressupunham algo de desagradável. Num nervosismo crescente, acabou de folhear os papéis, parecendo não saber o que fazer.
O computador deve ter-se enganado — afirmou ele. — Certamente uma pequena confusão.
Impossível, sir. O senhor sabe melhor do que eu que qualquer confusão está totalmente excluída.
Aí é que está a questão — explicou o Major Ludwig Rammbüggl, alvoroçado. — Mas este aqui... — apontou no papel — ...Capitão Graybound, não poderá nunca ser considerado capaz de dirigir uma das modernas naves. Estou até convencido de que ele não vai aparecer por aqui. Um caráter assim como o....
O leve zumbido dos alto-falantes do intercomunicador o interrompeu. O zeloso secretário correu e transferiu a ligação para a mesa do chefe.
Escritório do Major Rammbüggl — apresentou-se ele.
Um tal de Capitão Graybound está aqui e traz uma citação...
Mande-o entrar! — gritou o major, interferindo no diálogo, para logo depois refestelar-se no espaldar da poltrona, como se se sentisse mal. — Quem vai compreender isto? O homem atendeu à convocação.
Quem sabe, o senhor está enganado e o homem é mesmo competente, mais do que o senhor calcula. Os documentos também falham...
Permita Deus! Mas vamos ver.
E viram mesmo. A porta se abriu e o Capitão Samuel Graybound se precipitou no escritório. Olhou primeiro para o secretário Pierre e depois para o Major Rammbüggl. Seus cabelos ruivos maltratados e em desalinho lhe caíam pela testa. A barba também deixava muito a desejar. Mas as bochechas avermelhadas tremiam, o que significava grande nervosismo.
Quem foi que me mandou este estúpido “bilhete”? — esbravejou com toda fúria, atirando o papel da citação em cima da mesa de Rammbüggl. — Tenho mais coisa a fazer, do que perder tempo com burocratas.
O pobre do major enrubesceu, de tão assustado que ficou. Pierre recuou uns passos e olhava para Graybound como se ele fosse um animal pré-histórico. Jamais tinha visto alguém tratar assim seu distinto chefe.
Que sujeito atrevido!”, pensou Pierre.
Graybound olhava por sua vez para o rosto vermelho do homem que lhe estava à frente, como se se tratasse de um fenômeno científico. Depois, balançando a cabeça, procurou por uma cadeira. Não encontrando nenhuma, teve que ficar de pé. Mas inclinou-se para a frente, apoiando as mãos na mesa de trabalho de Rammbüggl.
Graybound é meu nome. Capitão Samuel Graybound, comandante do cargueiro Lizard, da “Globetrotter das Estrelas”. E quem é o senhor?
O Major Rammbüggl foi se recuperando aos poucos. Mas o “e quem é o senhor” soou de tal maneira debochado e menosprezante, que ele quase explodiu. A vermelhidão do rosto foi desaparecendo enquanto respondia:
Major Ludwig Rammbüggl, chefe da seção de Novos Contatos.
Graybound se inclinou mais para frente ainda, e encarou firme seu interlocutor, sem compreender nada.
Rammbüggl? — repetiu ele e começou a rir sem parar. — Pelos anéis de Saturno! Que nome horrível!
Senhor! Mais respeito, por favor!
Que respeito...? — continuou Graybound indiferente. — Ninguém lhe disse isto até hoje? E o senhor nunca notou o ridículo de seu nome? Então já era tempo que alguém lhe dissesse.
Cavalheiro!
Sim! — confirmou o capitão, mais sereno, acenando com a cabeça como se tivesse gostado do tratamento. — É isto que realmente eu sou. E estou pronto para partir os ossos de quem afirmar o contrário.
Aspirou profundamente.
O senhor me pode fazer o grande favor de me comunicar por que razão fui intimado a vir aqui?
O major afundou de novo no acolchoado da poltrona e, com os dedos ágeis, folheou o maço de papéis.
O senhor é o Capitão Samuel Graybound?
Já me apresentei claramente no início, mas parece que sua cabeça é muito dura.
O senhor está aqui somente para responder às minhas perguntas e nada mais. Portanto, é o tal capitão ou não é?
Graybound deu um suspiro e fez uma cara de quem vai ensinar o beabá às criancinhas.
Sim, sou eu mesmo.
O major continuou consultando os papéis.
Casado com Ludmila, nascida McBain.
Infelizmente, senhor major. Sócio da firma “Globetrotter das Estrelas” e comandante do cargueiro espacial Lizard com a tripulação de dezoito homens.
O Major Rammbüggl deu a entender claramente que não queria mais ser interrompido, nem por confirmação.
Quando jovem foi oficial da Frota Espacial, sendo, porém, demitido por alcoolismo e indisciplina.
Falso, major! — interrompeu Graybound com toda dignidade. — Antes que os imbecis me pudessem expulsar, fiz um requerimento solicitando meu desligamento da Frota Espacial. Anote isto, por favor, Major Bammrüggl!
Rammbüggl! — corrigiu o major no mesmo instante.
Mesmo assim, não ficou melhor — Graybound fez uma mesura forçada e repetiu: — Rammbüggl.
Major, sim? — gritou Rammbüggl com toda força.
Graybound balançou a cabeça:
Eu sou apenas capitão, se me permite.
O major teve que desistir.
Depois o senhor se tornou comandante comercial numa nave cargueira da General Cosmic Company. Dois anos mais tarde, deixou esta empresa e ingressou na “Globetrotter das Estrelas”, logo após ter se casado com a filha única de... — olhou para os papéis — ...Ephraim McBain, que possuía a maioria das ações da companhia. Assim o senhor se tornou também um sócio.
Não casei-me por interesse — garantiu ele com muita franqueza, para logo depois explodir em fúria: — Meus assuntos particulares não são da sua conta, seu fofoqueiro! Preocupe-se primeiro com suas bandalheiras, que devem ser muitas.
O Major Rammbüggl se levantou vermelho como um pimentão.
Cale a boca — gritou furioso — senão eu o toco daqui para fora.
Não precisa, pois o que mais quero é sair daqui. Não tenho realmente tempo para perder.
Não! Então, o senhor fica! — ordenou Rammbüggl, exasperado.
O major sabia que seu trabalho seria infrutífero, mas tinha que cumprir as prescrições.
O senhor casou com sua mulher, não é?
É mais do que lógico, não é? Acho que todo homem casa com sua mulher e não com a mulher do vizinho.
Desta vez, o major se dominou e continuou:
Uma senhora muito jovem. A diferença de idade não o atrapalha?
A mim, não. Será que atrapalha ao senhor?
O major desistiu de fazer novas perguntas sobre sua vida conjugal. Não estava mais aguentando.
Os documentos dizem que foi acusado duas vezes de tentativa de contrabando. Não foi possível a apresentação de provas, motivo pelo qual o senhor ainda está em liberdade. Além disso, consta que...
Calúnia! Deslavada calúnia! Tenho muitos que me invejam. O senhor talvez não?
O senhor não foi pronunciado por falta de prova concludente, mais não pude saber. Ademais, parece que o senhor não leva as leis muito a sério.
É outra coisa que o senhor não pode provar — disse com uma gargalhada triunfante.
Um momento! — falou o major folheando de novo o catatau de documentos.
Apanhou então uma ficha azul e começou a lê-la, franzindo a testa e abanando a cabeça.
Aqui está a apreciação do computador, onde lançamos todos os seus dados para o cálculo. A dedução clara e coerente que daí resulta é que o senhor é um piloto espacial muito capacitado, com longa experiência. Além disso, o cérebro eletrônico constata que o senhor deve ser convocado para a aprendizagem e estará apto para comandar uma das novas supernaves.
Graybound ouviu tudo. E voltou a curvar-se, apoiando-se na mesa do major. Para ter mais espaço, empurrou o papelório para o lado. Algumas folhas caíram no chão e foram apanhadas cuidadosamente por Pierre e novamente ajuntadas sobre a mesa.
Novas supernaves? O que o senhor quer dizer?
O Major Rammbüggl aspirou profundamente. Era chegada a sua hora.
Este sujeito completamente maluco”, pensou, “vai ficar de olhos arregalados.”
Trata-se da nova propulsão linear de velocidade muitas vezes superior à da luz — anunciou o major, com ares de profeta. — Este tipo de propulsão foi desenvolvido nos últimos decênios. No momento, o próprio Perry Rhodan se encontra num vôo experimental de longo alcance, do qual ele ainda não regressou...
E jamais retornará — disse Graybound, dando vazão à sua contrariedade a respeito desta novidade. — Como é que Rhodan foi se meter num bicho-de-sete-cabeças deste, ao invés de continuar se utilizando dos velhos e comprovados métodos do vôo por hipersaltos de transição?
Não se preocupe com o administrador. De qualquer maneira, novos couraçados com propulsão linear serão imediatamente incorporados à Frota Espacial. Para isto, serão necessários comandantes de comprovada capacitação. Os candidatos, escolhidos a dedo, farão o aprendizado em nosso Instituto. Por isto é que o senhor está aqui, para uma simples reciclagem.
Reciclagem? Eu? — Graybound estava de fato boquiaberto. — Exatamente a mim é que vocês foram escolher? Vocês estão completamente doidos, doidos varridos!
Tenha a bondade, capitão!
Tenha a bondade, digo eu, Major Knalldübel. Mas o senhor está perdendo seu tempo. Eu fico com a velha e honrada cosmonáutica e não quero saber destas novidades malucas. Diga isto a seus superiores. Posso ir-me embora agora?
Meu nome é Rammbüggl — protestou energicamente o major, esforçando-se desesperadamente para salvar seu nome da tremenda verborréia do capitão. — O que o senhor quer ou pensa, não tem maior importância. O cérebro eletrônico decidiu e está acabado.
O que eu devo a este montão de lata velha, hein? Afinal, sou eu o dono de minhas decisões e mais ninguém. Estamos numa democracia, ou não? Eu não quero e acabou.
Espere um pouco! — disse Rammbüggl, correndo atrás dele. — Você não pode se recusar sem mais nem menos, sem ter se submetido a um exame. Se o senhor não passar na prova, ninguém poderá forçá-lo a fazer uma reciclagem.
Exame, prova? — perguntou desconfiado. — Que tipo de prova?
Conhecimentos técnicos, características psicológicas, cultura geral e outras coisas de rotina.
Ah! Características psicológicas...! — repetiu Graybound, admirado. — Então, não há dúvida de que já tomei bomba. Até logo.
Pare — gritou o major. — Espere. O teste ainda tem que ser feito, porque...
O capitão hesitou um pouco. Muito pensativo, virou-se devagar e olhou para o major. Balançou a cabeça e disse:
O senhor está com a razão — depois mudou o tom de voz. — O senhor merece que eu lhe faça um teste.
Graybound caminhou dois passos para frente e gritou com todas as forças de seu pulmão:
O senhor é o burro mais quadrado que circula por este miserável planeta. O senhor é um idiota, o senhor é um... um..., sim, o senhor é um Rammbüggl verdadeiro!
Eu me chamo Rammbüggl! — exclamou o major, confuso.
Seu pobre secretário correu assustado para um canto da sala e devia estar pensando que o mundo iria desabar.
Vou mandar prendê-lo por ofensa e grave falta de respeito — berrou o major. — Isto é o cúmulo!
Quer dizer que não passei no teste? — perguntou o capitão, cortês e já em tom moderado. — Ou ainda existem outras provas? Não quero trabalhar num destes rastejadores modernos. Prefiro minha velha espaçonave de saltos de transição. Compreendeu isto, seu imitação de oficial? Ora veja... candidato a piloto de rastejador!
Foi a partir daquele momento que as novas supernaves de propulsão linear começaram a ser chamadas de “rastejadoras”. Foi a hora do surgimento de um novo conceito. Mas nem Graybound, nem Rammbüggl ainda não tinham tal idéia a respeito.
O major pegou um grande lápis vermelho de cima da mesa e traçou um risco bem forte na diagonal da ficha azul do computador.
Inadequado! — gritou, quase perdendo a respiração. — Completamente inadequado! Tanto quanto ao caráter, como quanto à cultura geral. Desapareça daqui, homem. Não quero vê-lo nunca mais em minha vida. E se chegar alguma coisa ao meu ouvido, tais como transgressão da lei, e etc... terá muita dor-de-cabeça. Acautele-se, portanto, pois nós não estamos ainda quites. E foi o senhor quem saiu me devendo.
Então, estou dispensado — disse Graybound, intimamente aliviado. — Pode se dar por muito feliz, se eu não fizer uma reclamação contra o senhor.
Foi até a porta e, ao abri-la:
Passe bem, Major Schwammflügel.
Rammbüggl! — exasperou-se o oficial do IAC.
Com passos enérgicos, o capitão atravessou a ante-sala, sem dar atenção à secretária. Bateu com força a segunda porta e ganhou o corredor. Num instante achou o atalho para o estacionamento onde se achava seu carro.
Aprendizagem! Reciclagem!”, refletia Graybound. “Eles é que precisam de uma reciclagem. Que tolice! Quererem me colocar de novo num uniforme do Império, num molde pré-fabricado do ‘cumprimento honroso do dever’, como eles dizem.”
A uma velocidade não permitida no trânsito, disparou para o edifício da “Globetrotter das Estrelas”. Estacionou, a seguir, e caminhou com passo lento em direção ao escritório onde se achava seu sócio.
Já está de volta? — disse Ludmila, contente. — Estávamos com medo de que o tivessem segurado por lá.
Esses malucos! — deixou-se cair na cadeira. — Aprendizagem!
Aliás — disse Richard Flexner, com boa dose de ironia — nem se nota que você tenha aprendido alguma coisa. Será que eles chegaram a tentar? O que foi, afinal de contas, que se passou por lá?
Queriam me obrigar a comandar um rastejador. A serviço do Império. Completamente malucos!
Rastejador?
Sim, este negócio moderno, de propulsão linear, se é que entendi bem.
Ah! — compreendeu logo Flexner, pois muito se falava a respeito ultimamente. — Mas acho que vão nos deixar em paz agora. Para mim não há nada melhor do que a técnica da transição.
É minha opinião também — acudiu Graybound.
Levantou-se de novo, foi até sua esposa, colocando-lhe a mão direita no ombro.
Já estou com um atraso de uma hora. Em poucos dias estarei de volta. Adeus, meu amor. Você já sabe, não é? Ursinhos de pelúcia para Tuglan. A criançada de Tuglan já está esperando.
Ludmila olhou para Flexner com alguma desconfiança.
Será que o carregamento é mesmo de brinquedos e de ursinhos? — perguntou ela, deixando ver claro nos seus olhos que pensava em tudo, menos em brinquedos.
Dou minha palavra de honra — acudiu Flexner, com aparente franqueza. — Se o cargueiro sofrer uma inspeção, a mercadoria tem que ser aquela que está nas guias de despacho. A senhora vê, portanto...
Não se preocupe tanto com meus negócios, querida.
Graybound já estava perdendo a calma, mas diante dos olhos tristes da esposa, abrandou-se de novo.
Vou trazer alguma coisa especial para você.
Deu-lhe um beijo, apanhou as guias de despacho e os relatórios alfandegários das mãos de Flexner e deixou o recinto a passos largos.
Desta vez, pegou um táxi que o levou quase que até o local da decolagem. As três velhas naves da “Globetrotter das Estrelas” estavam bem juntas. Os tripulantes iam e vinham e, como parecia, as duas naves gêmeas estavam sendo carregadas. Caminhões elétricos faziam fila diante da grande escotilha.
A Lizard já estava com quase todas as escotilhas fechadas e com a tripulação completa a bordo. A folga do pessoal terminara pela manhã daquele dia, mas algumas horas já eram passadas.
Um oficial da administração do espaço-porto veio ao encontro de Graybound, assim que este deixou o táxi. Apontando para a Lizard, indagou:
É sua nave, capitão?
Puxa! Dopner, você está cansado de saber que é, não?
Em serviço, capitão, não conheço ninguém.
Graybound sentiu como sua alergia e mesmo o ódio contra a burocracia se agigantavam dentro dele. Mas soube se dominar. Dopner era importante demais, para se perder a paciência com ele.
Ah! É verdade, ia-me esquecendo.
Permita-me apresentar-me. Meu nome é Graybound, Capitão Samuel Graybound da “Globetrotter das Estrelas”. E quem é o senhor?
Sou o Tenente Dopner, conferente da alfândega. Qual é a carga que o senhor tem a declarar, Capitão Graybound?
Ursinhos de pelúcia.
O tenente franziu a testa. Olhou primeiro para Graybound e depois para a Lizard. Sem dizer uma palavra, estendeu a mão.
Papéis, por favor.
Dopner olhou atentamente os relatórios.
A cada instante, aterrissavam e decolavam no espaçoporto de Terrânia naves comerciais e unidades da Frota Solar. Os rígidos controles de outrora haviam diminuído muito, pois o contrabando, mesmo ainda existindo, andava escasso. Pesadas multas ajudaram a rarear o comércio clandestino. Era muito comum que naves particulares efetuassem transporte para o Império. A administração cuidava quase que exclusivamente para que as espaçonaves fossem despachadas em ordem.
Muito bem. Ursinhos de pelúcia — Dopner não podia simplesmente compreender com o que se pode comerciar hoje em dia...
Você precisa ver, pelo menos uma vez, como estes bichinhos são encantadores — disse-lhe Graybound depois de receber carimbados e assinados os relatórios. — Quem sabe terei o prazer de lhe dar alguns para suas crianças?
Não tenho filhos, não sou casado.
Isto não seria razão para recusar, Dopner — depois, refletindo melhor, continuou: — Posso decolar?
Claro que sim, Graybound, já está tudo assinado — disse o tenente, se retirando.
Mesmo o mais atento observador não descobriria que se tratava de dois íntimos amigos, que muitas vezes faziam juntos boas farras nos bares de Terrânia. Porém as prescrições de serviço lhes proibiam manifestações de amizade no trabalho.
Graybound murmurou qualquer coisa mais ou menos parecida com “a gente devia enforcar todos os burocratas”, enquanto caminhava rápido para o cargueiro. Uma averiguação mais detalhada da carga declarada, ser-lhe-ia um abacaxi, por muitos motivos... Só depois da decolagem é que o perigo desaparecia.
Na escotilha aberta da nave esférica de oitenta metros de diâmetro estava um homem esperando. Era tão baixo que se tornava difícil reconhecê-lo, mas Graybound sabia quem era. Entrou no elevador e subiu, chegando à plataforma que dava para a escotilha.
Olá, Rex! — disse, levantando a mão numa displicente continência. — Parece que você está pisando em brasa, hein?
Já devíamos ter partido há mais de uma hora, Samuel. Que aconteceu com você?
Depois eu lhe conto, agora não. Já temos permissão para decolar.
Aquele baixote portava o uniforme de tenente. Seu rosto estava um pouco desfigurado por sinais de varíola e não inspirava muita confiança. O nariz achatado de boxeador simbolizava as difíceis lutas de seu dono. No olhar, porém, havia um ar de bondade, que certamente não rimava com seu comportamento. Rex Knatterbul era primeiro-oficial da Lizard e muito íntimo de Graybound.
Tudo pronto para a partida, Samuel.
Então, vamos embora. Graybound entrou na escotilha e fez com que a rampa fosse recolhida. Fechou a última escotilha e, acompanhado por Rex, se dirigiu para o posto de comando. A instalação automática de ventilação entrou em ação, como se a Lizard já estivesse no espaço.
As telas panorâmicas começaram a funcionar. Viam-se as inúmeras espaçonaves no espaçoporto de Terrânia. A positrônica de bordo pôs o envoltório energético para funcionar. Depois, tal envoltório cintilava levemente à luz do Sol, se aproximando do poente.
Todos os homens a postos — foi o aviso do intercomunicador. — Partida em dez segundos — repetiu Graybound.

* * *

Depois da primeira transição, continuaram voando com velocidade inferior à da luz. Agora, examinariam e calculariam a nova rota, pois Graybound tinha em mente algo muito diferente do que voar para Tuglan. Seu objetivo estava a 12.618 anos-luz de distância e se chamava Glatra III, um mundo agora ocupado pelos saltadores. Para um certo tipo de mercadoria proveniente da Terra, os barbudos pagavam um bom preço. Naturalmente, as autoridades terranas não podiam perceber nada daquele comércio. E muito menos podiam saber que a Lizard aterrissara num planeta dos saltadores.
Os computadores começaram a funcionar. A positrônica de bordo, engolindo os dados, calculava as próximas transições.
Quando se sentiram a sós no posto de comando, Rex Knatterbul falou:
Há uma coisa que deixou para explicar-me mais tarde, Samuel: a razão do seu atraso.
Graybound acenou positivamente e, levantando-se de sua poltrona, que, contra toda a tradição de construção cosmonáutica, estava ao lado do posto de comando, abriu a porta de uma gaiola.
Louro, louro, meu amigo no espaço, você não quer sair, não?
Rex bocejou. Já conhecia demais a palhaçada com o maluco do papagaio. Graybound parecia gostar mais daquele papagaio do que de sua esposa. Pegava-o pelas asas, e o considerava como uma espécie de talismã. Trazia-lhe felicidade, dizia ele. E ninguém teria coragem de contrariar-lhe tal parecer ou de falar que aquilo era pura ignorância.
Mas o papagaio, com o nome de Toureiro, era mesmo impagável. Falava muito bem e muitas vezes dizia coisas que se casavam bem com a situação. Naturalmente, era mesmo mero acaso, como qualquer um sabe. No entanto, Graybound afirmava categórico que seu papagaio tinha mais juízo que a maioria de seus tripulantes.
Bom dia! Oba, oba! — ouviu-se na cabina ao lado.
Depois seguiu-se um ruflar de asas e Toureiro veio voando e pousou no ombro de Graybound, dizendo:
Vovô, vovô!
Mas era o único a bordo que podia chamar Graybound de vovô.
Convocaram-me para o Instituto para uma cômica aprendizagem ou reciclagem, como eles dizem. Eu teria que ser comandante de uma supernave de propulsão linear. Chegaram a esta conclusão pelos resultados de seu computador que, “num ataque de loucura”, me descobriu. Depois, fui examinado por um tal Major Rammbüggl, que me achou imprestável. É tudo.
Rammbüggl! Que nome maluco!
O seu também é — disse, cocando a cabeça do papagaio. — Em compensação, pude dizer-lhe toda a verdade a respeito da tal propulsão linear. É um “rastejamento” desgraçado. Para mim a transição é muito melhor, mesmo que se diga que já está superada. Toda a Frota Solar não chega aos pés da nossa Lizard.
Puxa! Você tem certeza disto? — perguntou Rex Knatterbul. — E eles deixaram você ir embora, sem mais nem menos?
Não tive oportunidade de ficar sabendo muita coisa a respeito, mas me parece que tal tipo de propulsão é um sonho... O major se mostrou muito compreensivo e fez com que eu fosse reprovado na prova. Assim, fui liberado.
Esquisito — disse o primeiro-oficial. — Muito estranho.
Não há nada de estranho; é tudo bobagem. O computador deles deve ter se enganado, isto pode acontecer.
Você é doido! — falou Toureiro com sua voz rachada, mas muito nítida, em bom inglês.
E quem ainda duvidaria de que era uma frase aplicável em qualquer circunstância?
Cale a boca, bicho bobo! — exclamou zangado Rex, que não suportava o papagaio.
Depois, dirigindo-se a Graybound:
Samuel, logo eles vão procurá-lo de novo. Não desistirão tão depressa, necessitam de boas cobaias.
Para os novos supercouraçados?
Claro que é. Essa gente, que não combina em nada com você, o trancafia nestes caixões de aço e o leva lá para as estrelas do inferno. Se você não voltar, o prejuízo a lamentar é só quanto à supernave, milhões de vezes mais veloz que a luz. Está claro?
Não muito — disse Graybound. — Você acha que eles querem ficar livres de Rhodan?
Besteira! Como é que lhe vem uma idéia maluca assim?
Porque Rhodan, há muitos dias, está viajando num destes aparelhos novos, para experimentá-lo. Se ele expõe sua vida lá nos confins das estrelas, o negócio deve estar em ordem. Ou você acha que...
Não, isto muda o quadro, naturalmente. Estão procurando pessoas decentes, é claro. Agora, o esquisito é que vieram dar justamente com você.
Graybound se ergueu da poltrona. Toureiro levou um susto e quase perdeu o equilíbrio.
O que você está insinuando aí, seu malandro, que eu não sou um homem decente? Você, comandante falido de frota?!
Bandido, assassino, caçador de ratos, querido! — gritava Toureiro, e não se aquietava.
Graybound deu-lhe um peteleco nas costas e ele silenciou.
O que eu quis dizer é que você não é “decente” como os oficiais quadradões da frota — explicou Rex ao seu chefe. — Você tem uma mania terrível de entender tudo errado...
O major da aprendizagem também tinha — disse Graybound sorrindo. — Puxa, ensinei muita coisa para este sujeito. Mas, quem sabe se o cérebro eletrônico estava com razão? Pode ser que eu seja de fato um comandante muito capacitado e genial. Um computador daqueles não pode enganar-se.
Agora mesmo, você afirmou o contrário — disse Rex com muita cautela e em voz fraca.
Acho que a gente pode a todo instante reformular nossa opinião.
Do computador de bordo saiu uma tira de papel. Rex a apanhou, observando-a com atenção.
Outro salto de transição está prestes. O desvio da rota anunciada é considerável. Se nossos irmãozinhos notarem isto?
Nós diremos que foi mero acaso — disse Graybound, examinando a ficha e comparando os dados dos saltos de transição com os do relatório de embarque. — É uma grande diferença, mas podemos sempre dar a desculpa de que nossa velha geringonça se descontrolou no espaço. Certamente haverão de acreditar.
Não confio muito — disse Rex diminuindo as esperanças de Graybound. — Temos ainda dez segundos antes da transição...

* * *

Quando saíram do hiperespaço e se re-materializaram no contínuo de Einstein, já haviam deixado para trás três mil anos-luz. O sistema de Tuglan estava quase na direção oposta.
O próximo salto será daqui a trinta minutos — anunciou Rex.
O primeiro-oficial fazia também às vezes de navegador, já que a Lizard, com uma tripulação de apenas dezoito homens, tinha deficiência de mão-de-obra.
Temos ainda um pouco de tempo — concluiu Rex.
Tempo para quê? — perguntou um velho de barba ruiva, admirado.
Rex calou-se, pois naquele momento a porta para a central de comando se abriu, entrando um homem à paisana. Tinha na mão um bloco de rascunho.
Que há de novo, Smith? — gritou Graybound. — Você tem que ficar na sua mesa de rádio e só nos atrapalhar quando houver um motivo muito sério.
Domador de ondas! — gritou Toureiro.
Henry Smith era de estatura pequena e tremendamente tímido. Era um homem que parecia não combinar com o ambiente. Mas, no fundo, tudo não passava de uma impressão errada. Cada um dos membros da tripulação tinha uma mancha no seu passado. E também Smith, cujo nome certo ninguém sabia. Mas, não deixava de ser um ótimo telegrafista e um excelente radiotécnico. Era o que interessava ao capitão.
Cale a boca e não interrompa quem está falando — ordenou Graybound ao papagaio. — Então, Smith, o que há?
Sinais de rádio. Mais velozes do que a luz, mas não é hiper-rádio. Devem ter sido emitidos a cinco horas-luz daqui.
Mais uma vez, o comandante se ergueu da poltrona.
Com os diabos! E você vem me dizer isto só agora? E se for uma nave-patrulha da Frota Solar?
É um cruzador, senhor, rumando em nossa direção.
O primeiro-oficial pulou para o controle da transição. Faltavam ainda vinte e oito minutos até a próxima transição. Muito tempo.
Em nossa direção? — repetiu Graybound, aterrorizado. — O que quer ele?
Não disse — respondeu Smith muito deprimido. — Mas, o que poderá querer de nós? Declaração da rota, verificação da carga e coisinhas assim.
Vagabundo! — disse Toureiro, bem nítido.
E ninguém podia saber a quem o papagaio se referia.
Um hipersalto não controlado acarretava uma série de perigos. Podia-se perder totalmente a direção e nunca mais voltar ao local de origem. É verdade que todos os dados eram guardados no computador e alguma coisa se poderia reconstruir, mas, mesmo assim, o risco era grande demais. O próprio Capitão Graybound, com toda sua coragem, não queria assumir tão grande responsabilidade. A este risco, seria preferível o controle de uma possível nave-patrulha.
Não responda nada, Smith, fique firme na escuta e não diga nada. Avise-me quando esta patrulha chegar mais perto. Então teremos que desaparecer. Temos ainda vinte e cinco minutos até o próximo salto.
Smith desapareceu e Rex estava manobrando os controles.
Podemos saltar quando quisermos, Samuel.
Espere, Rex. Se o fizermos, teremos de refazer todos os cálculos... caso tenhamos sorte e não nos perdermos. Vamos, pois, manter o velho processo. Se o cruzador não chegar a tempo, então saltaremos, como está programado. Se chegar antes, faremos o salto no escuro, de qualquer maneira e para qualquer lugar. No fim, tudo vai dar certo. Assim espero.
Maluco! — interveio Toureiro.
Graybound soltou um palavrão daqueles, tirou o papagaio do ombro e olhou-o firmemente.
Não lhe acabei de dizer para não interromper quem está falando? Cale a boca, seu cara de macaco. Vou prendê-lo no porão, ouviu?
Toureiro, ao menos por uns instantes, não falou mais. E assim pôde continuar no ombro do Capitão Graybound e não ser trancafiado no porão. Naturalmente não se tratava de um porão de verdade, mas apenas de um armário de armas da Lizard, que se encontrava atrás do posto de comando. Tão bem escondido estava tal armário, que ninguém o acharia, a não ser destruindo o cargueiro. E isto tornava-se muito importante, pois, nos aparelhos de carga, é expressamente proibido o uso de armas. Graybound temia uma vistoria em sua Lizard, porque havia muitas a bordo, até mesmo canhões energéticos, capazes de destruir um cruzador.
Passaram-se dez minutos de angustiante incerteza.
De repente Smith entrou de novo no posto de comando.
O cruzador fez uma transição e materializou-se a menos de um minuto-luz de distância. Seu comandante exige que diminuamos a marcha e recebamos a bordo um comando de investigação. Quer saber também por que não respondemos.
Quem sabe podemos detê-los com dez minutos de prosa fiada — interveio Rex.
Graybound concordou.
Pois bem, Smith, ponha-se em contato com eles e ligue depois para o posto de comando. Eu mesmo quero falar com estes malandros.
Vinte segundos depois, apareceu na tela do videofone o rosto de um oficial da Frota Solar. Sua testa se franzia em sinal de cólera controlada.
O que vocês estão pensando que são, para não responder? Abram as escotilhas para a inspeção!
Graybound tentou primeiro com boas maneiras:
Nossa instalação de rádio está defeituosa. Às vezes funciona, às vezes não. No momento parece estar boa.
Deixe de falsa desculpa. Conhecemos muito bem todos estes truques. Identifique-se:
Cargueiro Lizard, da “Globetrotter das Estrelas”. Comandante: Capitão Samuel Graybound. Carga para Tuglan.
Graybound? — repetiu o oficial incrédulo. — Será o Graybound do papagaio? — e começou de repente a sorrir. — Então temos muita sorte. Aposto que nossa visita a bordo não lhe vai agradar muito.
Pelo contrário, será um prazer — disse o capitão mentindo, maldizendo a péssima reputação que possuía.
Ah! Este aí é o tal papagaio? — perguntou o oficial, vendo o louro no ombro de Graybound. — É mesmo tão inteligente como se diz?
Burro quadrado! — vociferou Toureiro bem alto e nítido, e desta vez estava evidente a quem ele se referia.
O oficial da Frota Solar ficou meio desnorteado.
O senhor é ventríloquo?
O capitão consultou o relógio. Ainda faltavam cinco minutos...
De vez em quando — respondeu com modéstia. — Mas, desta vez, não fui eu não.
Muito bem. Mas deixemos de lado a brincadeira. Abra a escotilha. Meu comando já está a caminho. Eu chegarei um pouco mais tarde.
Smith, gesticulando muito, disse mais baixo:
Já estão chegando, ao todo seis homens, comandante.
Rex fez uma cara de preocupado. Sua mão direita pousava firme na alavanca que poderia provocar um hipersalto desprogramado, assim que fosse abaixada. Graybound acenou para ele, sem dar porém o sinal para executar a manobra.
Preste atenção, tenente, não pretendemos fazer mal algum à sua gente, por isso não posso deixar que se aproximem mais de mim. Estamos agindo por ordem superior. O senhor se torna criminalmente culpado. Entendido?
Burro quadrado! — repetiu Toureiro com ênfase.
Graybound fez um sinal para Rex. A alavanca foi abaixada.
Diante dos olhos do enraivecido comandante do cruzador, que não era tenente, mas sim major, a Lizard desapareceu.
O comando de investigação interrompeu seu vôo, voltando de mãos vazias para o cruzador. Já era tarde demais para se tentar uma perseguição. Enquanto isto, o Capitão Graybound mergulhara com sua Lizard no mar das estrelas.
2



Não era muito diferente a situação de Perry Rhodan e de sua gente a bordo da nave experimental Fantasy.
Saindo de Ácon, a mais de quarenta mil anos-luz da Terra, haviam se perdido no Universo. O vôo linear funcionava a contento, mas acontece que, depois de fugirem precipitadamente de Ácon, ficaram sem saber onde estavam.
A Fantasy, uma nave esférica do tipo dos cruzadores pesados da série Terra, com duzentos metros de diâmetro e parcialmente reformada, acolhia o novo tipo de propulsão linear.
Não realizava mais as transições de hipersaltos, mas voava tranqüilamente com uma velocidade milhões de vezes superior à da luz. A base técnica desta invenção viera dos druufs, mas já estava muito alterada e substancialmente melhorada.
Quando voavam para Ácon, a Fantasy atravessou o núcleo de um sol, formando assim um campo energético próprio, semelhante ao envoltório de proteção azul de Ácon. O planeta atuara como um pólo de atração, puxando a Fantasy contra si. Desta maneira, a descoberta do planeta-pátrio dos arcônidas, não foi obra do acaso, mas de uma lei inflexível da natureza, depois do choque com o sol desconhecido.
E agora o vôo de regresso. Perdidos no espaço! Onde estava a Terra?
Vários tripulantes achavam-se na cabina de Rhodan, ligados com o comandante Jefe Claudrin pelo videofone. No momento, Claudrin dirigia a câmara de tal maneira que se podia ver todo o espaço lá fora. A descomunal densidade de estrelas indicava que estavam no centro ou próximos do centro da Via Láctea. A Terra, porém, devia estar mais para fora, na região mais pobre em estrelas. Era para lá que se devia orientar qualquer tentativa de descoberta da direção do sistema solar. Um alarme de emergência já fora transmitido por hiper-rádio, mas não ia adiantar muito, pois a Fantasy não podia dar sua própria localização.
Sir, já determinamos a posição de uma estrela, que nos servirá de ponto de apoio — comunicou o Major Claudrin. — Estamos voando a uma velocidade de um milhão de vezes superior à da luz. Quando nos aproximarmos mais, acho eu, poderemos fazer outras medições de posicionamento.
Sentado ao lado de Rhodan, Reginald Bell disse:
Não sou muito fanático pela nova tração linear. É verdade que a gente pode viajar vendo as estrelas, mas é só! Temos maior velocidade do que antes? A propulsão é melhor? Não, ainda prefiro as transições.
E as dores na rematerialização? — lembrou-lhe Rhodan.
Eram suportáveis, Perry. Sempre melhor do que se perder.
Rhodan olhou pensativo para o fogo de artifício galáctico das grandes concentrações de estrelas.
As constelações se deslocavam lentamente, mas se deslocavam. Portanto, estavam voando. Como o Major Krefenbac afirmara, encontravam-se em qualquer ponto entre Árcon e a Terra, não podendo no entanto dar a posição exata.
E Hunt Krefenbac era um cosmonauta experimentado. Em situação mais favorável, haveria de reconhecer uma das constelações, que naturalmente estavam em constante alteração, conforme o ponto do observador. Krefenbac ainda conseguiria se orientar.
Todo invento tem de ter sua fase, às vezes longa, de experimentação — falou Rhodan. — Nós fomos as cobaias. Mas já sabemos quais são as coisas que devem ser modificadas, isto é, melhoradas. Assim, por exemplo, os compensadores kalupianos...
Como, por favor? — perguntou um homenzarrão numa poltrona ao lado.
Devia ter um metro e noventa, uma careca de brilho fosco e bochechas esponjosas. Exteriormente, ninguém diria que ali estava o hiperfísico mais competente da Terra.
O que tem o senhor a criticar nos meus compensadores?
Meu querido Kalup, não tenho nada a criticar, mas o senhor não acha que devem ser feitos alguns melhoramentos? As manobras ainda me parecem muito complicadas. Nada tenho a dizer quanto à eficácia dos conversores, mas estaríamos perdidos, se eles enguiçassem. Qualquer conserto só pode ser realizado com a nave aterrissada.
O professor Amo Kalup se refestelou tranqüilo no espaldar da poltrona.
Graças a Deus que o senhor não tem outras reclamações.
No momento, ainda não — disse Rhodan, olhando novamente para a tela panorâmica.
Bell esticou as pernas, olhando de soslaio para Kalup. Embora não deixasse perceber, Bell via nisso uma pequena derrota de Kalup, aliás, coisa sem importância que não empanaria o brilho do grande cientista. Mas o gorducho não gostava muito do modo cínico e um tanto arrogante do cientista; por este motivo, fugia de discussões mais longas. Achou, pois, melhor não dizer nada.
Mais para o fundo, entretinham-se o matemático Carlos Riebsam e o médico Dr. Gorl Nkolate. Já que conversavam muito baixo, ninguém podia saber do que estavam falando. Mas o assunto não era mesmo da conta dos demais.
Um abalo percorreu a espaçonave, repetindo-se mais duas vezes com a mesma intensidade, até desaparecer por completo. Em todos os cantos, soava o sinal de alarme. A voz do oficial, engenheiro-chefe, se fez ouvir:
Atenção! Explosão no setor BN-8. Extensão dos danos ainda ignorada. Isolar todos os setores de máquinas fechando as portas automaticamente. Rompimento do vácuo.
Rhodan deu um pulo e já estava ao lado de Kalup:
Seu setor, professor! Os conversores.
Homem de Deus! Nunca se deve pintar o diabo na parede, senão ele aparece — disse Kalup calmo, antes de se levantar.
Novamente os sinais de alarme.
Rompimento do vácuo confirmado — anunciou o alto-falante. — Permaneçam em seus postos. Colocar o uniforme espacial e aguardar novas ordens.
Rhodan hesitou por uns instantes, mas acabou reconhecendo que, em última análise, lhe cabia toda a responsabilidade, embora no momento quem estivesse dando as ordens era Slide Narco, o engenheiro-chefe. O lugar de Rhodan era no posto de comando, ao lado do comandante, o Major Claudrin.
Os senhores fiquem aqui — disse ele e saiu porta afora.
Seu traje espacial, Perry! Rompimento do vácuo.
Bell correu nervoso para os armários embutidos onde estavam guardados os leves uniformes de emergência. Eram mais do que suficientes para proteger um homem das conseqüências do vácuo.
Não dá mais tempo — disse Rhodan, já no corredor.
Dali ao posto de comando não era longe, mas apesar da proibição, encontrou muitos tripulantes que corriam para seus abrigos à procura do traje espacial. Rhodan não lhes deu atenção, pois não tinha tempo. Além de tudo, era o mais razoável que podiam fazer.
O Major Claudrin, com seu corpo pesa-dão, lembrava um pouco os superpesados da estirpe de Topthor. Tinha um metro e sessenta de altura e quase o mesmo de largura, de pele morena e cabelos avermelhados. Como um assim chamado “adaptado ao ambiente”, estava acostumado a viver com uma pressão de dois gravos e se movimentava com agilidade admirável, apesar do peso de seu corpo, fato que Rhodan sempre admirava.
Como está a situação, major?
Ruim, sir. Não chega nenhuma notícia da seção de máquinas. Tenho medo do que pode acontecer...
Rhodan tinha a impressão de que uma mão de ferro estava comprimindo seu coração. Não era medo de qualquer perigo, nem do seu próprio destino. Nada disso o assustava. Mas começou a pensar, de repente, na vida de sua gente. Pessoas, cujos nomes talvez ele nem soubesse, mas que se apresentaram voluntariamente para aquela arriscada missão.
Ligação da imagem no intercomunicador!
Cortada, sir, não temos mais ligação.
Parecia o fim.
Qual é a velocidade?
Já estamos abaixo da velocidade da luz, sir, com a propulsão comum. Acho que a explosão deve ter vindo dos conversores kalupianos.
Rhodan sabia que Kalup não era o culpado.
Você ainda consegue manobrar?
Infelizmente, não. A nave não me obedece mais.
A depressão tornava-se visível no rosto de Rhodan.
Quer dizer, então, que nos encontramos bem perto do fim: sem propulsão, sem direção, estamos perdidos!
O Major Claudrin apenas balançou a cabeça.
Instantes antes do acidente, fiz as medições de rotina. A três horas-luz de distância há um sol amarelo, semelhante ao nosso. Deve ter planetas. Estamos voando mais ou menos naquela direção.
E daí? Você acha que com a Fantasy neste estado, conseguiremos fazer uma aterrissagem?
Com os Space-Jets, sir. Acho que nem todos eles foram destruídos. Podemos aproveitar estes aparelhos salva-vidas.
Rhodan notou que as palavras calmas de Claudrin lhe fizeram bem aos nervos. E exatamente agora, o raciocínio calmo lhe seria absolutamente indispensável.
O senhor tem razão, major. Por favor, mande investigar quantos barcos de emergência estão disponíveis. Vou ver se posso fazer alguma coisa pelos tripulantes.
Antes que o comandante pudesse responder, Rhodan já deixara o posto de comando. Disparou pelo corredor e pulou para o elevador antigravitacional, que o levou até próximo ao coração da nave. Pelos alto-falantes, que ainda funcionavam, ouvia-se a voz do Capitão Slide Narco, dando mais instruções. O engenheiro-chefe cuidava para que os sobreviventes da catástrofe não se expusessem a novos perigos. Ordenou primeiro aos grupos de salvamento que corressem até o local do acidente e prestassem auxílio. Pelas instruções expedidas, Rhodan pôde medir a extensão da catástrofe. Todo o setor das instalações das máquinas devia estar destruído. Poucas haviam sido as partes poupadas. O fornecimento de energia estava ainda funcionando, como também o sistema de aeração.
Mas, e o rompimento do vácuo? O setor das máquinas abrangia todo o rebordo central da nave!
Orientando-se pelas instruções dadas por Narco nos alto-falantes, Rhodan continuou penetrando mais para a parte central da nave, até ser detido por um oficial. Era o Tenente Mahaut Sikhra, chefe do comando de ação para casos especiais. O pequeno e rígido nepalês de cabelos negros era conhecido por sua intransigência. Estava comandando a ação de salvamento.
Não pode passar daqui para frente, sir.
Rhodan lhe deu razão. A violência das explosões destruiu mais do que se imaginava. Portas foram arrancadas de seus batentes e havia destroços por toda parte. O vazio do Universo teria penetrado ali, não fossem as escotilhas blindadas de aço e de Vedação hermética. Eram a única coisa que estava entre eles e a morte.
Como está a situação, tenente?
Meu pessoal está tentando ter uma idéia geral dos estragos. Um pequeno grupo penetrou pela escotilha de emergência até as máquinas. Estou esperando uma comunicação a qualquer momento.
Abriu quase todo o volume de seu receptor de pulso que estava em contato com o grupo avançado.
Será que foi atingida apenas a parte das máquinas? — indagou Perry.
Infelizmente, não, sir. A compressão de ar provocada pela explosão procurou uma saída: o lado mais fraco dos depósitos. Esta compressão rebentou as paredes divisórias, provocando novas explosões nos aparelhos salva-vidas e no arsenal de munições. Depois veio o rebordo de propulsão. Explodiu na periferia mais fraca, provocando um rombo. Nesta parte não se salvou nada. Tenho pressentimento de que o rompimento do vácuo foi o que causou a morte do maior número de tripulantes, e não a explosão.
Rhodan nada respondeu. Não se sabia ainda o número de mortos, mas devia atingir mais de cem pessoas, talvez mesmo duzentas. Haveria ainda alguma saída daquela catástrofe? Daquela situação desesperadora?
O receptor de pulso de Sikhra estava dando sinal e ele aumentou ainda mais o volume.
Aqui fala Sikhra. O que há?
Sargento Radler, tenente. Não há sobreviventes. Todos mortos. Se o rompimento do vácuo não se desse tão depressa assim, muitos teriam posto o uniforme espacial e não morreriam. Mas o acidente aconteceu de repente.
Sikhra olhou para Rhodan, mudo e de cabeça baixa. Depois falou no pequeno microfone:
Está bem, Radler, pode voltar, assim que terminar a vistoria. Vedação! Talvez existam cabinas onde ainda haja ar. Proceda com muita cautela.
Pode ter confiança em nós, tenente.
Sikhra desligou e disse muito acabrunhado:
No momento, mais não podemos fazer, sir.
Rhodan apenas meneou a cabeça. Sentia um vazio enorme na alma.
Teria ele culpa naquela catástrofe? Ou seria natural que invenções avançadas exigissem tantas vítimas assim? Poderia ter evitado aquele morticínio?
Virou-se e percorreu o mesmo caminho de volta. Quase que derrubou Gucky, que acabara de rematerializar-se à sua frente. Como teleportador, nada era mais fácil para Gucky do que pular de um lugar para outro. Desta vez, descobrindo telepaticamente a localização de Rhodan, o encontrou.
Você não poderia ter evitado a catástrofe — disse o rato-castor, com voz bem firme. — Não se acuse pelo que aconteceu. Ninguém é responsável pela explosão, ninguém, nem mesmo Kalup.
Não coloquei a culpa em ninguém, mas a gente pode imaginar como as coisas poderiam ter sido — e, dizendo isto, continuou seu caminho.
Mas Gucky foi atrás dele:
Você sabe quantos homens morreram?
Não sei não. Mas sei que só nos resta um único Space-Jet. Todos os outros aparelhos salva-vidas foram destruídos. Estavam exatamente na direção das explosões dos gases.
Os Space-Jets eram aparelhos de reconhecimento tipo Gazela, naturalmente, mais avançados, em forma de um disco. Com seus trinta metros de diâmetro, não ofereciam muito espaço, mas em caso de necessidade, todo o lugar seria aproveitado.
Temos que convocar todos os sobreviventes, Gucky. Acho que o salão dos oficiais não foi atingido. Você pode cuidar disso?
Pode deixar por minha conta.
Sentiu-se feliz por lhe ter cabido uma missão de relevo. Sorriu e desapareceu.
Rhodan caminhou apressado para o posto de comando. Somente agora lhe veio a idéia de transmitir um pedido de socorro pelo hiper-rádio. Infelizmente, por alguns minutos, tarde demais.
A vinte passos da porta da cabina de rádio, o chão se levantou sob seus pés e ele cambaleou. Apoiou-se com as mãos na parede. Neste mesmo instante, a luz se apagou e desapareceu a última vibração dos reatores em funcionamento.
Um silêncio fúnebre tomou conta de tudo. Rhodan se aprumou e saiu caminhando pelo corredor escuro, mas que conhecia bem. Sua mão achou a maçaneta da porta e a comprimiu. No mesmo instante, acendeu-se a iluminação de emergência, alimentada por baterias. Ao menos esta fora poupada. Para sua grande surpresa, viu o Dr. Riebsam, o grande matemático. Que podia ele estar fazendo por ali? Rhodan julgava que ele estivesse ainda em sua cabina, onde o deixara.
O senhor aqui?
O senhor desapareceu e ninguém sabia onde se encontrava. Aí me veio a idéia de transmitir uma mensagem de socorro pelo hiper-rádio. Estava tudo pronto, mas o reator energético explodiu. Cheguei atrasado por um minuto.
O raio de esperança, que ainda havia em Rhodan, desapareceu.
Quer dizer que o senhor também não conseguiu, não é?
Riebsam fez um gesto negativo, enquanto Rhodan olhava para os instrumentos de radiotelegrafia.
Será que as baterias não dão para isto?
Só para transmissão de curta distância, e isto não nos interessa.
Por que que não nos interessa? — indagou Rhodan, pensativo. — Nossas patrulhas de vigilância andam também neste setor da Galáxia. Quem sabe está uma delas aí por perto? Portanto, vamos lá, tente enviar a mensagem.
Rhodan tinha certeza de que podia confiar em Riebsam, pois sabia haver coisas mais importantes a fazer. Tinha que tentar tudo para conservar a vida dos que lhe restavam. Quando chegou ao posto de comando, surgiu novamente Gucky. Bell já estava ao lado de Claudrin, falando com ele. Interrompeu a conversa, quando viu Rhodan e foi para ele.
Como é que é, Perry? Ainda há esperança?
Rhodan preferiu o caminho da evasiva:
Enquanto se vive e se pensa, há sempre uma esperança — e, virando-se para Gucky: — Conseguiu alguma coisa?
Estão se reunindo no salão dos oficiais, como foi determinado. Até agora, são mais ou menos cinqüenta.
Cinqüenta? — repetiu Rhodan, empalidecendo. — Cinqüenta... antes eram trezentos! Santo Deus!
O rato-castor nada respondeu. Seu olhar denotava grande tristeza e não parecia mais aquele tipo brincalhão.
Devem ser certamente mais — interveio Claudrin. — Vou pedir a Narco para fazer uma contagem mais precisa. Acho que muita gente ainda deve estar paralisada de medo ou mesmo inconsciente.
Diga a este pessoal que se dirija diretamente para o hangar B. Partiremos com o Space-Jet, dentro de meia hora.
Claudrin transmitiu a ordem. Um minuto depois, todos os alto-falantes não danificados repetiam esta instrução.
Os homens, oficiais, tripulantes e cientistas, davam impressão de estarem atordoados. Eram os sobreviventes de uma catástrofe, que infelizmente pontilhava as duras rotas do progresso da Cosmonáutica. Sobreviveram, mas o caminho para a segurança total ainda seria longo.
As escotilhas foram danificadas — dizia Rhodan — o ar vai se volatizando devagar, mas progressivamente, pois as baterias estão com pouca carga. Não há, portanto, outro meio: somos obrigados a abandonar a Fantasy, o mais depressa possível. Temos à disposição apenas um Space-Jet. Partiremos daqui a vinte e cinco minutos. Todos devem se dirigir para o hangar B, usando o uniforme espacial, isto é, o traje de emergência. Entendido? Armas e alimento encontram-se em abundância a bordo do Space. Apressem-se e não percam tempo!
Depois, Rhodan e Gucky vestiram seus uniformes e atarraxaram os capacetes plásticos transparentes. No mesmo instante começou a aeração.
Foi muito simples para Gucky fazer uma teleportação com Rhodan. Bastou para isto um contato físico. O rato-castor pegou a mão de Rhodan e pulou.
Cinco minutos antes da partida, estavam já no hangar B oitenta homens reunidos. Eram os únicos sobreviventes da catástrofe. A eles se somaram Rhodan e Gucky. O Space-Jet tinha normalmente uma tripulação de quatro homens, mas a casa de máquinas e os depósitos davam para abrigar mais gente.
Foi uma sorte a parte da nave, onde estava o hangar B, não ter sido danificada.
Sem o aparelho auxiliar, Rhodan e o restante de sua gente estariam perdidos.
O embarque e a acomodação se deu sem dificuldade. Como piloto, funcionaria de novo o Major Claudrin, que ocupou logo a poltrona do comandante, esperando a ordem de partida de Rhodan. Abriu-se a grande escotilha externa do hangar. O ar saiu num forte sibilo e o vácuo invadiu o ambiente.
Quando Rhodan deu o sinal de partida, houve mais uma explosão no interior da Fantasy. O abalo foi tão forte que o jato balançou. Depois, o aparelho deslizou nos largos trilhos para fora da comporta, atirando-se no confuso amontoado de estrelas, onde era impossível obter um ponto de referência.
Somente o sol amarelo parecia dar vazão a um certo otimismo, se bem que o tempo fora muito exíguo para serem feitas melhores observações a respeito de sua natureza. Mesmo a suposição teórica de que possuía planetas, não tinha apoio em nada positivo.
O professor Arno Kalup se mantinha calado e reservado, se bem que seu cérebro, por demais inteligente, não deixasse de trabalhar. Via-se claramente em sua fisionomia que ele, em vão, quebrava a cabeça, tentando descobrir como podia ter surgido tal catástrofe. Rhodan sentia pena dele, mas preferiu calar, sem lhe dizer uma palavra de consolo. O cientista teria primeiro que superar seus problemas psicológicos.
As pessoas mais importantes e todos os mutantes a bordo da Fantasy estavam no meio dos sobreviventes. Era um dos motivos pelo qual Rhodan podia levantar a mão para o céu e agradecer ao destino. E ele de fato o fez.
Quando Claudrin tentou fazer uma alteração na rota, o jato só obedeceu a muito custo. O major olhou intranqüilo para Rhodan, que estava acompanhando tudo e lhe perguntou:
Que está havendo com o Space-Jet? Diga francamente.
Claudrin estava indeciso.
Não sei, não. Dá a impressão de que não foi tão poupado assim, como nós supúnhamos. A direção...
Hesitou um pouco e pegou com mão firme nos controles. Seus dedos tocaram nos botões e interruptores. Os ponteiros nos mostradores quase não se moveram. Vibraram um pouco e voltaram ao ponto de partida.
Alguma coisa não está em ordem — disse Claudrin. — Não podemos arriscar um salto de transição, sir. Temos de voar em velocidade inferior à da luz e nada mais. Mas, quem sabe existem naves terranas por perto?
Talvez — respondeu Rhodan, pensativo.
Achavam-se numa parte completamente desconhecida da Via Láctea, e a Terra poderia estar a uns vinte mil anos-luz, caso o registrador de rota da Fantasy estivesse de fato funcionando bem.
Não podemos confiar exclusivamente nisso. Que tal tentarmos um radiograma de emergência? — indagou Perry, depois de algum tempo.
O posto de radiotelegrafia era logo ali ao lado. O pessoal já o estava testando. Um oficial ainda jovem ouviu a sugestão de Rhodan. Pela porta aberta, esticou o pescoço para dentro da cabina de comando:
O aparelho de hiper-rádio não funciona, sir. É possível apenas o rádio comum.
Rhodan fez um esforço para se dominar.
Por que tudo tinha que estar contra eles? Nada de hiper-rádio! Parecia-lhe quase impossível que uma nave estivesse tão próxima que pudesse captar as ondas comuns de simples velocidade da luz!
Use-o — ordenou ele.
O experimentado Claudrin conseguiu alterar a rota de tal maneira que o jato voava agora na direção do sol amarelo. Dali a cinco horas, estariam em condições de constatar se o referido sol tinha ou não planetas.
E o que seria se não possuísse nenhum? Rhodan nem queria aventar tal hipótese.

* * *

Quatro planetas, sir! — anunciou Krefenbac, o primeiro-oficial.
Obrigado, major. Boas perspectivas?
O planeta interno é incandescente. Os dois externos são gigantes de metano. Agora, o segundo planeta parece ser favorável. Atmosfera respirável, não há mar. Uma única extensão de solo sem vegetação.
Rhodan voltou-se para Claudrin.
Dirija-se ao segundo planeta e procure um lugar para aterrissagem. Não nos resta outra possibilidade.
Nas últimas cinco horas, Rhodan chegara a esta conclusão. O Space-Jet era pequeno demais para os oitenta e dois sobreviventes. Os gêneros alimentícios e a água ainda dariam para mais tempo, mas o homem precisa também de espaço para esticar as pernas. Além disso, os últimos solavancos produzidos pela sucção do ar, devido à abertura repentina da escotilha do hangar B, haviam acarretado mais prejuízos, que não podiam ser negligenciados. O mecanismo de direção era um deles.
Houve, no entanto, uma surpresa: o jovem tenente da radiotelegrafia conseguiu obter um curto impulso de emergência no aparelho de hiper-rádio. Infelizmente, segundos depois, a alimentação elétrica falhou outra vez. O impulso fora muito curto e fraco. Só poderia ser captado por receptores de alta sensibilidade e isto só mesmo com muita sorte, caso houvesse alguma nave próxima. Mas nem todos os cruzadores da Terra possuíam aparelhos tão sensíveis assim. A esperança subira, pois, alguns graus, mas continuava ainda muito frágil.
Enquanto se aproximavam do segundo planeta, o sol amarelo lhes estava à direita. Podiam ver agora na tela detalhes de sua superfície.
Parece um pouco monótono — observou Bell, que, aos poucos, se recuperava do grande choque. — Nada de água! Tudo cinzento... nem florestas, nem campinas.
Você está querendo demais — respondeu Rhodan. — Podemos nos dar por satisfeitos, caso consigamos aterrissar sem acidente. A propulsão do jato está fraca demais. Quem sabe descobriremos a causa lá embaixo? Pelo menos, teremos chão firme sob os pés.

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