Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Ele
infringe as leis, mas presta auxílio
aos
náufragos no planeta vivo.
Surgiu
a nova época na História da Humanidade!
Desde
os acontecimentos narrados no penúltimo número, 57 anos são
passados, o calendário na Terra está marcando o ano 2.102.
Muita
coisa aconteceu neste intervalo. Já passou o perigo dos druufs, a
zona de superposição entre os dois universos já há muito se
tornou instável, impossibilitando uma penetração. Com o apoio dos
terranos, o arcônida Atlan conseguiu consolidar sua posição como
imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar produziu bons
frutos, mormente para os terranos, que já ocupam cargos de relevo em
Árcon. Atlan não pode dispensá-los, pois não confia na maioria
dos seus conterrâneos.
O
Império Solar se transformou na maior e mais importante potência
comercial das Galáxias. Há mais de 22 anos que são quase
ininterruptas as correntes emigratórias para mundos que prestam-se à
colonização. Conseqüência disso é a existência de embaixadas e
representações comerciais da Terra em muitos planetas habitados por
inteligências estranhas.
Em
resumo, para muitos homens, o sonho de seus avós e bisavós —
poder viajar pelas estrelas — é já há muito tempo simples
realidade, como acontece, por exemplo, com O Globetrotter das
Estrelas...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Capitão
Samuel
Graybound
— Contrabandista...
mas competente e humano.
Rex
Knatterbul
— Tenente;
primeiro-oficial da Lizard.
Major
Rammbüggl
— Que
pretende transformar um lobo-do-espaço em comandante das
supernaves...
Henry
Smith
— Humilde,
mas excelente radiotelegrafista.
Toureiro
— Papagaio
inteligente, muito indiscreto...
Rhodan
e Gucky
— Por
ora, náufragos da Fantasy.
1
Ao longo
do gigantesco espaçoporto de Terrânia, enfileiram-se centenas de
construções de vulto, pertencentes às firmas e companhias
comerciais que escolheram aquela zona para seu quartel-general. É
exatamente ali em Terrânia, um dos maiores centros do comércio
interestelar, que as firmas se sentem como na origem de tudo que
existe no cosmo.
Um pouco
afastado daquele foco trepidante, ficava um prédio pequeno e
modesto, mas sólido, todo de pedra. Parecia um grande galpão, mas
não era. Na frente, ostentava uma tabuleta, aliás não muito
grande. Para poder ler seus dizeres, era necessário ao curioso
aproximar-se bastante.
“Globetrotter
das Estrelas” Cia. Ltda.
Companhia
de Navegação Espacial.
Proprietário:
Richard Flexner,
capitão
da ativa
Se naquele
dia, 16 de março do ano 2.102, alguém estivesse por perto, haveria
de ouvir uma voz berrando, xingando e blasfemando em todas as
tonalidades. Fosse um qualquer, certamente ficaria branco de medo e
se afastaria. Mas aquela jovem senhora, que descera do táxi e com
passos firmes se dirigiu para o edifício, parecia não ter nada de
um qualquer.
Estava com
um vestido leve de verão, chapéu de aba larga, uma linda bolsa de
couro e um tipo de sandálias muito em voga naquela época. Suas
feições podiam ser consideradas suaves, caso seus olhos não
falassem de grande iniciativa, se bem que neles residia também um
tom de admoestação.
Realmente,
Ludmila Graybound, nascida McBain, não era de brinquedo. Seu marido
sabia muito bem disso. Era ele quem estava esbravejando atrás das
paredes da “Globetrotter
das Estrelas”,
Companhia de Navegação Espacial, sem suspeitar da aproximação de
sua esposa.
O Capitão
Samuel Graybound deu um pulo da cadeira, como se tivesse sentado em
cima de pregos pontudos.
— Você
tem que me contar isto direito, Rich; talvez, então, eu possa
acreditar em suas palavras. Instituto para aprendizagem de
cosmonáutica! Que besteira é esta? O que é que eles querem de nós?
Estes idiotas! Que o diabo os carregue!
Seu
interlocutor era a calma personificada; achava-se acomodado numa
cadeira atrás da mesa que, com toda certeza, era um móvel ainda de
dez séculos atrás.
— Meu
caro Samuel, a excitação aumenta a pressão arterial — disse em
tom de conselho. — Vá lá e você ficará sabendo de tudo o que
pretendem com você. Eu também não lhe posso dizer o que seja.
— Aprendizagem
cosmonáutica! — Samuel Graybound não conseguia tranqüilizar-se.
— Como se tivesse que aprender ainda alguma coisa? Estes idiotas,
que os diabos os levem para os quintos dos infernos.
— Calma,
meu amigo! — tentou tranqüilizá-lo seu interlocutor e diretor da
firma, capitão da ativa Richard Flexner. — Não se deve nunca agir
com precipitação. Afinal de contas, este instituto de aprendizagem
está subordinado à Administração Solar. É preciso levar isto em
consideração.
— Levar
em consideração? Puxa! Somos uma companhia particular, com seis
cargueiros próprios. O que que há ainda para aprendermos, homem de
Deus? Será que vamos comerciar futuramente para o governo? Era só o
que faltava. Haveriam de ficar com os cabelos arrepiados se soubessem
o que muitas vezes transportamos escondido.
— Tenha
mais cuidado — sussurrou Flexner assustado, olhando em volta, como
se tivesse medo de alguém que pudesse ouvir uma frase daquela. —
Não fale tão alto! Você grita tanto que lá em Terrânia poderão
ouvi-lo.
— Por
mim, que ouçam até nos confins de Árcon — trovejou novamente o
Capitão Graybound, quase que possesso, alisando a barba ruiva, que
não dava grande realce a seu rosto.
Seu nariz
tremia, o que servia geralmente para calcular o grau de sua cólera.
As bochechas caídas, quase sempre flácidas, tornavam-se agora
rígidas. Sinal evidente de que a ira de seu dono atingia o clímax.
— Quem
é, hoje em dia, que não faz contrabando? Quem não o fizer é um
idiota.
Flexner
ficou branco.
— Pelo
amor de Deus, Samuel, cale a boca agora. Você quer a desgraça de
todos nós? Nosso nome não é o mais limpo da praça, mas, de
qualquer maneira, temos que protegê-lo. Você é meu sócio, pelo
menos no que diz respeito às ações, que estão em poder de seu
venerando sogro. Portanto, se continuar gritando assim, vai
prejudicar a ele e a você.
Graybound
estava ofegante, queria responder alguma coisa, quando ouviu passos
atrás de si, no corredor. Soltou um muxoxo, virou-se para trás e
viu a velha maçaneta começando a girar.
O próprio
Flexner não escondeu o medo.
“Uma
visita?”,
pensou. “Tomara
que ela não tenha ouvido nada que este maluco falou.”
Flexner,
porém, respirou tranqüilo ao reconhecer a elegante figura de
Ludmila Graybound. Ela entrou no recinto, fechou a porta atrás de si
e pôs as mãos na cintura.
— Que
está havendo aqui? Por que esta gritaria? — queria saber, olhando
para seu marido inquisitivamente. — Vamos, desembuche! Perdeu a
língua?
Samuel
Graybound tinha cinqüenta e dois anos, Ludmila estava com suas vinte
primaveras. É verdade que, após o casamento, ela negligenciara um
tanto a conservação da juventude. Mesmo assim, a diferença de
idade entre os dois era grande demais para não dar na vista de
qualquer um. O capitão não tinha medo de nada neste mundo. Não
existia perigo que fosse suficiente para impedi-lo de fazer o que
queria. Arrancaria até os cabelos do diabo, fio por fio, se alguém
lhe tivesse solicitado isto e se ele soubesse onde encontrar o diabo.
Mas, diante de sua frágil mulher, capitulava sempre, sem impor
condições.
— Mas,
meu anjo — sussurrou carinhoso, apontando-lhe uma cadeira para
sentar. — Não quer se acomodar primeiro? Terminamos agora nossos
acertos de rotina...
— Quantas
vezes tenho de lhe dizer que você não deve mentir para mim —
disse firme, afastando a mão dele. — Pode deixar que eu sento
sozinha. E desde quando é que meu pai e contrabando pertencem aos
“acertos
de rotina?”
— Temos
que construir paredes à prova de som — disse Graybound em voz mais
baixa, puxando uma cadeira para si.
Quando se
sentou, confiando seu peso-monstro à frágil madeira, parecia que
Flexner estava rezando escondido para que a cadeira não quebrasse.
Graybound era baixote, mas de compleição muito forte e com uma
barriga respeitável. Mas a cadeira acabou resistindo.
— Quem é
que está fazendo contrabando? — insistia Ludmila, com os olhos
faiscantes.
Graybound
se encolheu todo na cadeira.
— Estávamos
apenas comentando a situação — disse Flexner numa tentativa de
salvar as aparências. — O que é muito mais importante é o fato
de que seu marido, minha querida, recebeu uma citação para
comparecer...
— ...perante
o tribunal? — completou apavorada Ludmila.
— Não,
para comparecer ao Instituto de Aprendizagem de Cosmonáutica. O
documento oficial foi entregue hoje cedo. Como você sabe, seu marido
partiria hoje com a Lizard para o sistema de Tuglan.
— Sei
sim. Levaria brinquedos de criança e ursinhos de pelúcia para a
garotada de Tuglan. Ele me contou.
— E é
verdade, senhora Graybound. Principalmente os ursinhos de pelúcia,
que lá são muito procurados e muito caros — deu uma risada feliz.
— Os ursinhos da Terra pertencem aos artigos de exportação mais
rendosos.
A julgar
pela expressão fisionômica de Ludmila, não estava acreditando nada
naquela história de ursinho de pelúcia. Não tinha nada contra os
bichinhos e brinquedos, mas não podia compreender por que tais
artigos não podiam ser fabricados lá mesmo em Tuglan.
— E
então chegou esta incômoda citação, não é? — fixou-se em
Samuel Graybound, que tentava fugir do seu olhar. — O que eles
querem? Será que você já aprontou mais alguma, Gray?
Por um
momento, Graybound perdeu o autodomínio:
— Como
posso adivinhar? Sei lá o que estes burros pretendem? — gritou
esbravejando. Pouco depois voltou à calma. — Perdoe-me, querida,
apenas não consigo imaginar o que seja.
— Aprendizagem?
— disse pensativa. — Na sua idade, você não vai aprender mais
nada, não é?
Graybound
estremeceu. Não tolerava alusões à sua idade, e quando estas
vinham de sua esposa, menos ainda. Fez um esforço doido para se
dominar.
— A
idade — disse dogmático — não tem a menor importância. A gente
é velho ou moço, conforme nós mesmos nos sentimos.
— Vou
lembrá-lo disso, no momento oportuno — disse Ludmila com um
sorriso especial, e logo depois voltou a ficar séria.
— Sim,
se você não sabe, então vá até o Instituto. Lá ficará sabendo
de tudo. E quando é que vai voltar?
— Logo
após o almoço.
Ludmila se
ajeitou, buscando acomodar-se melhor na poltrona.
— Vou
esperar por você aqui no escritório do senhor Flexner.
— Oh! É
um grande prazer — falou Flexner, olhando de soslaio para seu
sócio.
— Assim,
certamente, o tempo passará mais rápido.
— Não
tenho dúvida disso — resmungou Graybound, fitando pensativo o
chefe da firma.
Flexner
tinha a mesma idade que ele, parecia, porém, muito mais jovem,
devido a seu porte mais atlético. Era solteirão e tinha fama de ser
um terrível dom-juan.
Conheciam-no pelos bares de Terrânia como um freguês generoso e um
excelente cavalheiro.
Graybound
não estava muito tranqüilo, não por ter de deixar Ludmila em
companhia de Flexner, mas pelo fato de ela estar ciente das
novidades. Aliás, inquietantes novidades.
— Quer
dizer que vou voltar aos bancos da escola, outra vez! — disse ele.
— Aprendizagem... Este pessoal ficou maluco. Quem sabe até vão me
rebaixar para fuzileiro naval?
Falou mais
alguma coisa e se encaminhou para a porta.
— Controle-se
e não cometa nenhuma burrice — era a voz de sua esposa. — Pense
sempre que há pessoas que são mais poderosas e fortes que você.
— Bobagem!
— disse Graybound, batendo a porta atrás de si.
No
corredor, e também ao ar livre lá fora, deu expansão aos seus
sentimentos, falando consigo mesmo e se censurando por dar atenção
à citação do tal instituto.
Quando já
estava a uns cem metros do escritório, começou a altear a voz.
Felizmente ninguém o poderia ouvir, a não ser ele .mesmo.
— Estes
idiotas! Podem entender alguma coisa teoricamente, mas o que sabem
fazer na prática? Nada. Absolutamente nada. Funcionários públicos,
burocratas, parasitas da nação!
Em largas
passadas, dirigiu-se ao estacionamento à beira do campo, onde estava
seu carro. Abriu-o, movimentou o segredo da chave de ignição e
sentou-se resmungando alguma coisa. Antes de dar a partida, olhou
para os hangares.
Lá
estavam as três naves da “Globetrotter
das Estrelas”.
Eram espaçonaves velhas, cargueiros esféricos, de oitenta metros de
diâmetro, ainda funcionando com o antigo sistema dos supersaltos de
transição. Em seu interior, além de algumas cabinas e as máquinas
de propulsão, todo o espaço restante era depósito para mercadoria.
Não havia luxo, nem conforto. Mas o que a Lizard transportava às
escondidas não era da conta de ninguém, excluindo seu capitão
Graybound e seus dezoito tripulantes.
— Aprendizagem...!
— repetia furioso e um pouco preocupado. — Mas esta gente vai se
arrepender!
E seu
carro disparou na direção de Terrânia.
*
* *
Um enorme
arranha-céu na periferia da cidade. Milhares de escritórios. Em
volta, campos verdejantes e bancos. Ao lado, o Instituto, com seus
laboratórios e estações experimentais. Um outro conjunto
arquitetônico, bem protegido por alto gradil de ferro e por inúmeros
guardas. Era o Instituto de Aprendizagem de Cosmonáutica.
O
inspetor-chefe Major Ludwig Rammbüggl parecia esconder-se atrás de
uma enorme mesa de trabalho, onde remexia num catatau de folhas
avulsas. O secretário, que o ajudava, disse-lhe rapidamente:
— Algumas
novas propostas saídas do cérebro eletrônico. Os candidatos vão
se apresentar a partir de hoje. Senhor, já preparei tudo.
— Está
certo, Pierre. No meio destas propostas, estão alguns dos
convocados?
Sob o
termo “convocados”,
entendiam-se os membros da Frota Espacial e da Frota Comercial que
não se apresentaram voluntariamente para a aprendizagem, mas foram
considerados pelos dados do computador como altamente qualificados
para isto.
— Perfeitamente,
senhor. Há um deles, um tal de Capitão Samuel Graybound.
O
secretário folheou o grosso catatau de fichas e tirou uma delas,
apresentando-a ao chefe.
— Aqui
estão os documentos.
O major
começou a estudá-los. Seu semblante, antes calmo, se anuviou de
repente e as rugas de sua testa pressupunham algo de desagradável.
Num nervosismo crescente, acabou de folhear os papéis, parecendo não
saber o que fazer.
— O
computador deve ter-se enganado — afirmou ele. — Certamente uma
pequena confusão.
— Impossível,
sir. O senhor sabe melhor do que eu que qualquer confusão está
totalmente excluída.
— Aí é
que está a questão — explicou o Major Ludwig Rammbüggl,
alvoroçado. — Mas este aqui... — apontou no papel — ...Capitão
Graybound, não poderá nunca ser considerado capaz de dirigir uma
das modernas naves. Estou até convencido de que ele não vai
aparecer por aqui. Um caráter assim como o....
O leve
zumbido dos alto-falantes do intercomunicador o interrompeu. O zeloso
secretário correu e transferiu a ligação para a mesa do chefe.
— Escritório
do Major Rammbüggl — apresentou-se ele.
— Um tal
de Capitão Graybound está aqui e traz uma citação...
— Mande-o
entrar! — gritou o major, interferindo no diálogo, para logo
depois refestelar-se no espaldar da poltrona, como se se sentisse
mal. — Quem vai compreender isto? O homem atendeu à convocação.
— Quem
sabe, o senhor está enganado e o homem é mesmo competente, mais do
que o senhor calcula. Os documentos também falham...
— Permita
Deus! Mas vamos ver.
E viram
mesmo. A porta se abriu e o Capitão Samuel Graybound se precipitou
no escritório. Olhou primeiro para o secretário Pierre e depois
para o Major Rammbüggl. Seus cabelos ruivos maltratados e em
desalinho lhe caíam pela testa. A barba também deixava muito a
desejar. Mas as bochechas avermelhadas tremiam, o que significava
grande nervosismo.
— Quem
foi que me mandou este estúpido “bilhete”?
— esbravejou com toda fúria, atirando o papel da citação em cima
da mesa de Rammbüggl. — Tenho mais coisa a fazer, do que perder
tempo com burocratas.
O pobre do
major enrubesceu, de tão assustado que ficou. Pierre recuou uns
passos e olhava para Graybound como se ele fosse um animal
pré-histórico. Jamais tinha visto alguém tratar assim seu distinto
chefe.
“Que
sujeito atrevido!”,
pensou Pierre.
Graybound
olhava por sua vez para o rosto vermelho do homem que lhe estava à
frente, como se se tratasse de um fenômeno científico. Depois,
balançando a cabeça, procurou por uma cadeira. Não encontrando
nenhuma, teve que ficar de pé. Mas inclinou-se para a frente,
apoiando as mãos na mesa de trabalho de Rammbüggl.
— Graybound
é meu nome. Capitão Samuel Graybound, comandante do cargueiro
Lizard, da “Globetrotter das Estrelas”. E quem é o senhor?
O Major
Rammbüggl foi se recuperando aos poucos. Mas o “e
quem é o senhor”
soou de tal maneira debochado e menosprezante, que ele quase
explodiu. A vermelhidão do rosto foi desaparecendo enquanto
respondia:
— Major
Ludwig Rammbüggl, chefe da seção de Novos Contatos.
Graybound
se inclinou mais para frente ainda, e encarou firme seu interlocutor,
sem compreender nada.
— Rammbüggl?
— repetiu ele e começou a rir sem parar. — Pelos anéis de
Saturno! Que nome horrível!
— Senhor!
Mais respeito, por favor!
— Que
respeito...? — continuou Graybound indiferente. — Ninguém lhe
disse isto até hoje? E o senhor nunca notou o ridículo de seu nome?
Então já era tempo que alguém lhe dissesse.
— Cavalheiro!
— Sim! —
confirmou o capitão, mais sereno, acenando com a cabeça como se
tivesse gostado do tratamento. — É isto que realmente eu sou. E
estou pronto para partir os ossos de quem afirmar o contrário.
Aspirou
profundamente.
— O
senhor me pode fazer o grande favor de me comunicar por que razão
fui intimado a vir aqui?
O major
afundou de novo no acolchoado da poltrona e, com os dedos ágeis,
folheou o maço de papéis.
— O
senhor é o Capitão Samuel Graybound?
— Já me
apresentei claramente no início, mas parece que sua cabeça é muito
dura.
— O
senhor está aqui somente para responder às minhas perguntas e nada
mais. Portanto, é o tal capitão ou não é?
Graybound
deu um suspiro e fez uma cara de quem vai ensinar o beabá
às criancinhas.
— Sim,
sou eu mesmo.
O major
continuou consultando os papéis.
— Casado
com Ludmila, nascida McBain.
— Infelizmente,
senhor major. Sócio da firma “Globetrotter das Estrelas” e
comandante do cargueiro espacial Lizard com a tripulação de dezoito
homens.
O Major
Rammbüggl deu a entender claramente que não queria mais ser
interrompido, nem por confirmação.
— Quando
jovem foi oficial da Frota Espacial, sendo, porém, demitido por
alcoolismo e indisciplina.
— Falso,
major! — interrompeu Graybound com toda dignidade. — Antes que os
imbecis me pudessem expulsar, fiz um requerimento solicitando meu
desligamento da Frota Espacial. Anote isto, por favor, Major
Bammrüggl!
— Rammbüggl!
— corrigiu o major no mesmo instante.
— Mesmo
assim, não ficou melhor — Graybound fez uma mesura forçada e
repetiu: — Rammbüggl.
— Major,
sim? — gritou Rammbüggl com toda força.
Graybound
balançou a cabeça:
— Eu sou
apenas capitão, se me permite.
O major
teve que desistir.
— Depois
o senhor se tornou comandante comercial numa nave cargueira da
General Cosmic Company. Dois anos mais tarde, deixou esta empresa e
ingressou na “Globetrotter
das Estrelas”,
logo após ter se casado com a filha única de... — olhou para os
papéis — ...Ephraim McBain, que possuía a maioria das ações da
companhia. Assim o senhor se tornou também um sócio.
— Não
casei-me por interesse — garantiu ele com muita franqueza, para
logo depois explodir em fúria: — Meus assuntos particulares não
são da sua conta, seu fofoqueiro! Preocupe-se primeiro com suas
bandalheiras, que devem ser muitas.
O Major
Rammbüggl se levantou vermelho como um pimentão.
— Cale a
boca — gritou furioso — senão eu o toco daqui para fora.
— Não
precisa, pois o que mais quero é sair daqui. Não tenho realmente
tempo para perder.
— Não!
Então, o senhor fica! — ordenou Rammbüggl, exasperado.
O major
sabia que seu trabalho seria infrutífero, mas tinha que cumprir as
prescrições.
— O
senhor casou com sua mulher, não é?
— É
mais do que lógico, não é? Acho que todo homem casa com sua mulher
e não com a mulher do vizinho.
Desta vez,
o major se dominou e continuou:
— Uma
senhora muito jovem. A diferença de idade não o atrapalha?
— A mim,
não. Será que atrapalha ao senhor?
O major
desistiu de fazer novas perguntas sobre sua vida conjugal. Não
estava mais aguentando.
— Os
documentos dizem que foi acusado duas vezes de tentativa de
contrabando. Não foi possível a apresentação de provas, motivo
pelo qual o senhor ainda está em liberdade. Além disso, consta
que...
— Calúnia!
Deslavada calúnia! Tenho muitos que me invejam. O senhor talvez não?
— O
senhor não foi pronunciado por falta de prova concludente, mais não
pude saber. Ademais, parece que o senhor não leva as leis muito a
sério.
— É
outra coisa que o senhor não pode provar — disse com uma
gargalhada triunfante.
— Um
momento! — falou o major folheando de novo o catatau de documentos.
Apanhou
então uma ficha azul e começou a lê-la, franzindo a testa e
abanando a cabeça.
— Aqui
está a apreciação do computador, onde lançamos todos os seus
dados para o cálculo. A dedução clara e coerente que daí resulta
é que o senhor é um piloto espacial muito capacitado, com longa
experiência. Além disso, o cérebro eletrônico constata que o
senhor deve ser convocado para a aprendizagem e estará apto para
comandar uma das novas supernaves.
Graybound
ouviu tudo. E voltou a curvar-se, apoiando-se na mesa do major. Para
ter mais espaço, empurrou o papelório para o lado. Algumas folhas
caíram no chão e foram apanhadas cuidadosamente por Pierre e
novamente ajuntadas sobre a mesa.
— Novas
supernaves? O que o senhor quer dizer?
O Major
Rammbüggl aspirou profundamente. Era chegada a sua hora.
“Este
sujeito completamente maluco”,
pensou, “vai
ficar de olhos arregalados.”
— Trata-se
da nova propulsão linear de velocidade muitas vezes superior à da
luz — anunciou o major, com ares de profeta. — Este tipo de
propulsão foi desenvolvido nos últimos decênios. No momento, o
próprio Perry Rhodan se encontra num vôo experimental de longo
alcance, do qual ele ainda não regressou...
— E
jamais retornará — disse Graybound, dando vazão à sua
contrariedade a respeito desta novidade. — Como é que Rhodan foi
se meter num bicho-de-sete-cabeças deste, ao invés de continuar se
utilizando dos velhos e comprovados métodos do vôo por hipersaltos
de transição?
— Não
se preocupe com o administrador. De qualquer maneira, novos
couraçados com propulsão linear serão imediatamente incorporados à
Frota Espacial. Para isto, serão necessários comandantes de
comprovada capacitação. Os candidatos, escolhidos a dedo, farão o
aprendizado em nosso Instituto. Por isto é que o senhor está aqui,
para uma simples reciclagem.
— Reciclagem?
Eu? — Graybound estava de fato boquiaberto. — Exatamente a mim é
que vocês foram escolher? Vocês estão completamente doidos, doidos
varridos!
— Tenha
a bondade, capitão!
— Tenha
a bondade, digo eu, Major Knalldübel.
Mas o senhor está perdendo seu tempo. Eu fico com a velha e honrada
cosmonáutica e não quero saber destas novidades malucas. Diga isto
a seus superiores. Posso ir-me embora agora?
— Meu
nome é Rammbüggl — protestou energicamente o major, esforçando-se
desesperadamente para salvar seu nome da tremenda verborréia do
capitão. — O que o senhor quer ou pensa, não tem maior
importância. O cérebro eletrônico decidiu e está acabado.
— O que
eu devo a este montão de lata velha, hein? Afinal, sou eu o dono de
minhas decisões e mais ninguém. Estamos numa democracia, ou não?
Eu não quero e acabou.
— Espere
um pouco! — disse Rammbüggl, correndo atrás dele. — Você não
pode se recusar sem mais nem menos, sem ter se submetido a um exame.
Se o senhor não passar na prova, ninguém poderá forçá-lo a fazer
uma reciclagem.
— Exame,
prova? — perguntou desconfiado. — Que tipo de prova?
— Conhecimentos
técnicos, características psicológicas, cultura geral e outras
coisas de rotina.
— Ah!
Características psicológicas...! — repetiu Graybound, admirado. —
Então, não há dúvida de que já tomei bomba. Até logo.
— Pare —
gritou o major. — Espere. O teste ainda tem que ser feito,
porque...
O capitão
hesitou um pouco. Muito pensativo, virou-se devagar e olhou para o
major. Balançou a cabeça e disse:
— O
senhor está com a razão — depois mudou o tom de voz. — O senhor
merece que eu lhe faça um teste.
Graybound
caminhou dois passos para frente e gritou com todas as forças de seu
pulmão:
— O
senhor é o burro mais quadrado que circula por este miserável
planeta. O senhor é um idiota, o senhor é um... um..., sim, o
senhor é um Rammbüggl
verdadeiro!
— Eu me
chamo Rammbüggl! — exclamou o major, confuso.
Seu pobre
secretário correu assustado para um canto da sala e devia estar
pensando que o mundo iria desabar.
— Vou
mandar prendê-lo por ofensa e grave falta de respeito — berrou o
major. — Isto é o cúmulo!
— Quer
dizer que não passei no teste? — perguntou o capitão, cortês e
já em tom moderado. — Ou ainda existem outras provas? Não quero
trabalhar num destes rastejadores modernos. Prefiro minha velha
espaçonave de saltos de transição. Compreendeu isto, seu imitação
de oficial? Ora veja... candidato a piloto de rastejador!
Foi a
partir daquele momento que as novas supernaves de propulsão linear
começaram a ser chamadas de “rastejadoras”.
Foi a hora do surgimento de um novo conceito. Mas nem Graybound, nem
Rammbüggl ainda não tinham tal idéia a respeito.
O major
pegou um grande lápis vermelho de cima da mesa e traçou um risco
bem forte na diagonal da ficha azul do computador.
— Inadequado!
— gritou, quase perdendo a respiração. — Completamente
inadequado! Tanto quanto ao caráter, como quanto à cultura geral.
Desapareça daqui, homem. Não quero vê-lo nunca mais em minha vida.
E se chegar alguma coisa ao meu ouvido, tais como transgressão da
lei, e etc... terá muita dor-de-cabeça. Acautele-se, portanto, pois
nós não estamos ainda quites. E foi o senhor quem saiu me devendo.
— Então,
estou dispensado — disse Graybound, intimamente aliviado. — Pode
se dar por muito feliz, se eu não fizer uma reclamação contra o
senhor.
Foi até a
porta e, ao abri-la:
— Passe
bem, Major Schwammflügel.
— Rammbüggl!
— exasperou-se o oficial do IAC.
Com passos
enérgicos, o capitão atravessou a ante-sala, sem dar atenção à
secretária. Bateu com força a segunda porta e ganhou o corredor.
Num instante achou o atalho para o estacionamento onde se achava seu
carro.
“Aprendizagem!
Reciclagem!”,
refletia Graybound. “Eles
é que precisam de uma reciclagem. Que tolice! Quererem me colocar de
novo num uniforme do Império, num molde pré-fabricado do
‘cumprimento honroso do dever’, como eles dizem.”
A uma
velocidade não permitida no trânsito, disparou para o edifício da
“Globetrotter
das Estrelas”.
Estacionou, a seguir, e caminhou com passo lento em direção ao
escritório onde se achava seu sócio.
— Já
está de volta? — disse Ludmila, contente. — Estávamos com medo
de que o tivessem segurado por lá.
— Esses
malucos! — deixou-se cair na cadeira. — Aprendizagem!
— Aliás
— disse Richard Flexner, com boa dose de ironia — nem se nota que
você tenha aprendido alguma coisa. Será que eles chegaram a tentar?
O que foi, afinal de contas, que se passou por lá?
— Queriam
me obrigar a comandar um rastejador. A serviço do Império.
Completamente malucos!
— Rastejador?
— Sim,
este negócio moderno, de propulsão linear, se é que entendi bem.
— Ah! —
compreendeu logo Flexner, pois muito se falava a respeito
ultimamente. — Mas acho que vão nos deixar em paz agora. Para mim
não há nada melhor do que a técnica da transição.
— É
minha opinião também — acudiu Graybound.
Levantou-se
de novo, foi até sua esposa, colocando-lhe a mão direita no ombro.
— Já
estou com um atraso de uma hora. Em poucos dias estarei de volta.
Adeus, meu amor. Você já sabe, não é? Ursinhos de pelúcia para
Tuglan. A criançada de Tuglan já está esperando.
Ludmila
olhou para Flexner com alguma desconfiança.
— Será
que o carregamento é mesmo de brinquedos e de ursinhos? —
perguntou ela, deixando ver claro nos seus olhos que pensava em tudo,
menos em brinquedos.
— Dou
minha palavra de honra — acudiu Flexner, com aparente franqueza. —
Se o cargueiro sofrer uma inspeção, a mercadoria tem que ser aquela
que está nas guias de despacho. A senhora vê, portanto...
— Não
se preocupe tanto com meus negócios, querida.
Graybound
já estava perdendo a calma, mas diante dos olhos tristes da esposa,
abrandou-se de novo.
— Vou
trazer alguma coisa especial para você.
Deu-lhe um
beijo, apanhou as guias de despacho e os relatórios alfandegários
das mãos de Flexner e deixou o recinto a passos largos.
Desta vez,
pegou um táxi que o levou quase que até o local da decolagem. As
três velhas naves da “Globetrotter
das Estrelas”
estavam bem juntas. Os tripulantes iam e vinham e, como parecia, as
duas naves gêmeas estavam sendo carregadas. Caminhões elétricos
faziam fila diante da grande escotilha.
A Lizard
já estava com quase todas as escotilhas fechadas e com a tripulação
completa a bordo. A folga do pessoal terminara pela manhã daquele
dia, mas algumas horas já eram passadas.
Um oficial
da administração do espaço-porto veio ao encontro de Graybound,
assim que este deixou o táxi. Apontando para a Lizard, indagou:
— É sua
nave, capitão?
— Puxa!
Dopner, você está cansado de saber que é, não?
— Em
serviço, capitão, não conheço ninguém.
Graybound
sentiu como sua alergia e mesmo o ódio contra a burocracia se
agigantavam dentro dele. Mas soube se dominar. Dopner era importante
demais, para se perder a paciência com ele.
— Ah! É
verdade, ia-me esquecendo.
Permita-me
apresentar-me. Meu nome é Graybound, Capitão Samuel Graybound da
“Globetrotter
das Estrelas”.
E quem é o senhor?
— Sou o
Tenente Dopner, conferente da alfândega. Qual é a carga que o
senhor tem a declarar, Capitão Graybound?
— Ursinhos
de pelúcia.
O tenente
franziu a testa. Olhou primeiro para Graybound e depois para a
Lizard. Sem dizer uma palavra, estendeu a mão.
— Papéis,
por favor.
Dopner
olhou atentamente os relatórios.
A cada
instante, aterrissavam e decolavam no espaçoporto de Terrânia naves
comerciais e unidades da Frota Solar. Os rígidos controles de
outrora haviam diminuído muito, pois o contrabando, mesmo ainda
existindo, andava escasso. Pesadas multas ajudaram a rarear o
comércio clandestino. Era muito comum que naves particulares
efetuassem transporte para o Império. A administração cuidava
quase que exclusivamente para que as espaçonaves fossem despachadas
em ordem.
— Muito
bem. Ursinhos de pelúcia — Dopner não podia simplesmente
compreender com o que se pode comerciar hoje em dia...
— Você
precisa ver, pelo menos uma vez, como estes bichinhos são
encantadores — disse-lhe Graybound depois de receber carimbados e
assinados os relatórios. — Quem sabe terei o prazer de lhe dar
alguns para suas crianças?
— Não
tenho filhos, não sou casado.
— Isto
não seria razão para recusar, Dopner — depois, refletindo melhor,
continuou: — Posso decolar?
— Claro
que sim, Graybound, já está tudo assinado — disse o tenente, se
retirando.
Mesmo o
mais atento observador não descobriria que se tratava de dois
íntimos amigos, que muitas vezes faziam juntos boas farras nos bares
de Terrânia. Porém as prescrições de serviço lhes proibiam
manifestações de amizade no trabalho.
Graybound
murmurou qualquer coisa mais ou menos parecida com “a
gente devia enforcar todos os burocratas”,
enquanto caminhava rápido para o cargueiro. Uma averiguação mais
detalhada da carga declarada, ser-lhe-ia um abacaxi, por muitos
motivos... Só depois da decolagem é que o perigo desaparecia.
Na
escotilha aberta da nave esférica de oitenta metros de diâmetro
estava um homem esperando. Era tão baixo que se tornava difícil
reconhecê-lo, mas Graybound sabia quem era. Entrou no elevador e
subiu, chegando à plataforma que dava para a escotilha.
— Olá,
Rex! — disse, levantando a mão numa displicente continência. —
Parece que você está pisando em brasa, hein?
— Já
devíamos ter partido há mais de uma hora, Samuel. Que aconteceu com
você?
— Depois
eu lhe conto, agora não. Já temos permissão para decolar.
Aquele
baixote portava o uniforme de tenente. Seu rosto estava um pouco
desfigurado por sinais de varíola e não inspirava muita confiança.
O nariz achatado de boxeador simbolizava as difíceis lutas de seu
dono. No olhar, porém, havia um ar de bondade, que certamente não
rimava com seu comportamento. Rex Knatterbul era primeiro-oficial da
Lizard e muito íntimo de Graybound.
— Tudo
pronto para a partida, Samuel.
— Então,
vamos embora. Graybound entrou na escotilha e fez com que a rampa
fosse recolhida. Fechou a última escotilha e, acompanhado por Rex,
se dirigiu para o posto de comando. A instalação automática de
ventilação entrou em ação, como se a Lizard já estivesse no
espaço.
As telas
panorâmicas começaram a funcionar. Viam-se as inúmeras espaçonaves
no espaçoporto de Terrânia. A positrônica de bordo pôs o
envoltório energético para funcionar. Depois, tal envoltório
cintilava levemente à luz do Sol, se aproximando do poente.
— Todos
os homens a postos — foi o aviso do intercomunicador. — Partida
em dez segundos — repetiu Graybound.
*
* *
Depois da
primeira transição, continuaram voando com velocidade inferior à
da luz. Agora, examinariam e calculariam a nova rota, pois Graybound
tinha em mente algo muito diferente do que voar para Tuglan. Seu
objetivo estava a 12.618 anos-luz de distância e se chamava Glatra
III, um mundo agora ocupado pelos saltadores. Para um certo tipo de
mercadoria proveniente da Terra, os barbudos pagavam um bom preço.
Naturalmente, as autoridades terranas não podiam perceber nada
daquele comércio. E muito menos podiam saber que a Lizard
aterrissara num planeta dos saltadores.
Os
computadores começaram a funcionar. A positrônica de bordo,
engolindo os dados, calculava as próximas transições.
Quando se
sentiram a sós no posto de comando, Rex Knatterbul falou:
— Há
uma coisa que deixou para explicar-me mais tarde, Samuel: a razão do
seu atraso.
Graybound
acenou positivamente e, levantando-se de sua poltrona, que, contra
toda a tradição de construção cosmonáutica, estava ao lado do
posto de comando, abriu a porta de uma gaiola.
— Louro,
louro, meu amigo no espaço, você não quer sair, não?
Rex
bocejou. Já conhecia demais a palhaçada com o maluco do papagaio.
Graybound parecia gostar mais daquele papagaio do que de sua esposa.
Pegava-o pelas asas, e o considerava como uma espécie de talismã.
Trazia-lhe felicidade, dizia ele. E ninguém teria coragem de
contrariar-lhe tal parecer ou de falar que aquilo era pura
ignorância.
Mas o
papagaio, com o nome de Toureiro, era mesmo impagável. Falava muito
bem e muitas vezes dizia coisas que se casavam bem com a situação.
Naturalmente, era mesmo mero acaso, como qualquer um sabe. No
entanto, Graybound afirmava categórico que seu papagaio tinha mais
juízo que a maioria de seus tripulantes.
— Bom
dia! Oba, oba!
— ouviu-se na cabina ao lado.
Depois
seguiu-se um ruflar de asas e Toureiro veio voando e pousou no ombro
de Graybound, dizendo:
— Vovô,
vovô!
Mas era o
único a bordo que podia chamar Graybound de vovô.
— Convocaram-me
para o Instituto para uma cômica aprendizagem ou reciclagem, como
eles dizem. Eu teria que ser comandante de uma supernave de propulsão
linear. Chegaram a esta conclusão pelos resultados de seu computador
que, “num
ataque de loucura”,
me descobriu. Depois, fui examinado por um tal Major Rammbüggl, que
me achou imprestável. É tudo.
— Rammbüggl!
Que nome maluco!
— O seu
também é — disse, cocando a cabeça do papagaio. — Em
compensação, pude dizer-lhe toda a verdade a respeito da tal
propulsão linear. É um “rastejamento”
desgraçado. Para mim a transição é muito melhor, mesmo que se
diga que já está superada. Toda a Frota Solar não chega aos pés
da nossa Lizard.
— Puxa!
Você tem certeza disto? — perguntou Rex Knatterbul. — E eles
deixaram você ir embora, sem mais nem menos?
— Não
tive oportunidade de ficar sabendo muita coisa a respeito, mas me
parece que tal tipo de propulsão é um sonho... O major se mostrou
muito compreensivo e fez com que eu fosse reprovado na prova. Assim,
fui liberado.
— Esquisito
— disse o primeiro-oficial. — Muito estranho.
— Não
há nada de estranho; é tudo bobagem. O computador deles deve ter se
enganado, isto pode acontecer.
— Você
é doido!
— falou Toureiro com sua voz rachada, mas muito nítida, em bom
inglês.
E quem
ainda duvidaria de que era uma frase aplicável em qualquer
circunstância?
— Cale a
boca, bicho bobo! — exclamou zangado Rex, que não suportava o
papagaio.
Depois,
dirigindo-se a Graybound:
— Samuel,
logo eles vão procurá-lo de novo. Não desistirão tão depressa,
necessitam de boas cobaias.
— Para
os novos supercouraçados?
— Claro
que é. Essa gente, que não combina em nada com você, o trancafia
nestes caixões de aço e o leva lá para as estrelas do inferno. Se
você não voltar, o prejuízo a lamentar é só quanto à supernave,
milhões de vezes mais veloz que a luz. Está claro?
— Não
muito — disse Graybound. — Você acha que eles querem ficar
livres de Rhodan?
— Besteira!
Como é que lhe vem uma idéia maluca assim?
— Porque
Rhodan, há muitos dias, está viajando num destes aparelhos novos,
para experimentá-lo. Se ele expõe sua vida lá nos confins das
estrelas, o negócio deve estar em ordem. Ou você acha que...
— Não,
isto muda o quadro, naturalmente. Estão procurando pessoas decentes,
é claro. Agora, o esquisito é que vieram dar justamente com você.
Graybound
se ergueu da poltrona. Toureiro levou um susto e quase perdeu o
equilíbrio.
— O que
você está insinuando aí, seu malandro, que eu não sou um homem
decente? Você, comandante falido de frota?!
— Bandido,
assassino, caçador de ratos, querido! — gritava Toureiro, e não
se aquietava.
Graybound
deu-lhe um peteleco nas costas e ele silenciou.
— O que
eu quis dizer é que você não é “decente”
como os oficiais quadradões da frota — explicou Rex ao seu chefe.
— Você tem uma mania terrível de entender tudo errado...
— O
major da aprendizagem também tinha — disse Graybound sorrindo. —
Puxa, ensinei muita coisa para este sujeito. Mas, quem sabe se o
cérebro eletrônico estava com razão? Pode ser que eu seja de fato
um comandante muito capacitado e genial. Um computador daqueles não
pode enganar-se.
— Agora
mesmo, você afirmou o contrário — disse Rex com muita cautela e
em voz fraca.
— Acho
que a gente pode a todo instante reformular nossa opinião.
Do
computador de bordo saiu uma tira de papel. Rex a apanhou,
observando-a com atenção.
— Outro
salto de transição está prestes. O desvio da rota anunciada é
considerável. Se nossos irmãozinhos notarem isto?
— Nós
diremos que foi mero acaso — disse Graybound, examinando a ficha e
comparando os dados dos saltos de transição com os do relatório de
embarque. — É uma grande diferença, mas podemos sempre dar a
desculpa de que nossa velha geringonça se descontrolou no espaço.
Certamente haverão de acreditar.
— Não
confio muito — disse Rex diminuindo as esperanças de Graybound. —
Temos ainda dez segundos antes da transição...
*
* *
Quando
saíram do hiperespaço e se re-materializaram no contínuo de
Einstein, já haviam deixado para trás três mil anos-luz. O sistema
de Tuglan estava quase na direção oposta.
— O
próximo salto será daqui a trinta minutos — anunciou Rex.
O
primeiro-oficial fazia também às vezes de navegador, já que a
Lizard, com uma tripulação de apenas dezoito homens, tinha
deficiência de mão-de-obra.
— Temos
ainda um pouco de tempo — concluiu Rex.
— Tempo
para quê? — perguntou um velho de barba ruiva, admirado.
Rex
calou-se, pois naquele momento a porta para a central de comando se
abriu, entrando um homem à paisana. Tinha na mão um bloco de
rascunho.
— Que há
de novo, Smith? — gritou Graybound. — Você tem que ficar na sua
mesa de rádio e só nos atrapalhar quando houver um motivo muito
sério.
— Domador
de ondas!
— gritou Toureiro.
Henry
Smith era de estatura pequena e tremendamente tímido. Era um homem
que parecia não combinar com o ambiente. Mas, no fundo, tudo não
passava de uma impressão errada. Cada um dos membros da tripulação
tinha uma mancha no seu passado. E também Smith, cujo nome certo
ninguém sabia. Mas, não deixava de ser um ótimo telegrafista e um
excelente radiotécnico. Era o que interessava ao capitão.
— Cale a
boca e não interrompa quem está falando — ordenou Graybound ao
papagaio. — Então, Smith, o que há?
— Sinais
de rádio. Mais velozes do que a luz, mas não é hiper-rádio. Devem
ter sido emitidos a cinco horas-luz daqui.
Mais uma
vez, o comandante se ergueu da poltrona.
— Com os
diabos! E você vem me dizer isto só agora? E se for uma
nave-patrulha da Frota Solar?
— É um
cruzador, senhor, rumando em nossa direção.
O
primeiro-oficial pulou para o controle da transição. Faltavam ainda
vinte e oito minutos até a próxima transição. Muito tempo.
— Em
nossa direção? — repetiu Graybound, aterrorizado. — O que quer
ele?
— Não
disse — respondeu Smith muito deprimido. — Mas, o que poderá
querer de nós? Declaração da rota, verificação da carga e
coisinhas assim.
— Vagabundo!
— disse Toureiro, bem nítido.
E ninguém
podia saber a quem o papagaio se referia.
Um
hipersalto não controlado acarretava uma série de perigos. Podia-se
perder totalmente a direção e nunca mais voltar ao local de origem.
É verdade que todos os dados eram guardados no computador e alguma
coisa se poderia reconstruir, mas, mesmo assim, o risco era grande
demais. O próprio Capitão Graybound, com toda sua coragem, não
queria assumir tão grande responsabilidade. A este risco, seria
preferível o controle de uma possível nave-patrulha.
— Não
responda nada, Smith, fique firme na escuta e não diga nada.
Avise-me quando esta patrulha chegar mais perto. Então teremos que
desaparecer. Temos ainda vinte e cinco minutos até o próximo salto.
Smith
desapareceu e Rex estava manobrando os controles.
— Podemos
saltar quando quisermos, Samuel.
— Espere,
Rex. Se o fizermos, teremos de refazer todos os cálculos... caso
tenhamos sorte e não nos perdermos. Vamos, pois, manter o velho
processo. Se o cruzador não chegar a tempo, então saltaremos, como
está programado. Se chegar antes, faremos o salto no escuro, de
qualquer maneira e para qualquer lugar. No fim, tudo vai dar certo.
Assim espero.
— Maluco!
— interveio Toureiro.
Graybound
soltou um palavrão daqueles, tirou o papagaio do ombro e olhou-o
firmemente.
— Não
lhe acabei de dizer para não interromper quem está falando? Cale a
boca, seu cara de macaco. Vou prendê-lo no porão, ouviu?
Toureiro,
ao menos por uns instantes, não falou mais. E assim pôde continuar
no ombro do Capitão Graybound e não ser trancafiado no porão.
Naturalmente não se tratava de um porão de verdade, mas apenas de
um armário de armas da Lizard, que se encontrava atrás do posto de
comando. Tão bem escondido estava tal armário, que ninguém o
acharia, a não ser destruindo o cargueiro. E isto tornava-se muito
importante, pois, nos aparelhos de carga, é expressamente proibido o
uso de armas. Graybound temia uma vistoria em sua Lizard, porque
havia muitas a bordo, até mesmo canhões energéticos, capazes de
destruir um cruzador.
Passaram-se
dez minutos de angustiante incerteza.
De repente
Smith entrou de novo no posto de comando.
— O
cruzador fez uma transição e materializou-se a menos de um
minuto-luz de distância. Seu comandante exige que diminuamos a
marcha e recebamos a bordo um comando de investigação. Quer saber
também por que não respondemos.
— Quem
sabe podemos detê-los com dez minutos de prosa fiada — interveio
Rex.
Graybound
concordou.
— Pois
bem, Smith, ponha-se em contato com eles e ligue depois para o posto
de comando. Eu mesmo quero falar com estes malandros.
Vinte
segundos depois, apareceu na tela do videofone o rosto de um oficial
da Frota Solar. Sua testa se franzia em sinal de cólera controlada.
— O que
vocês estão pensando que são, para não responder? Abram as
escotilhas para a inspeção!
Graybound
tentou primeiro com boas maneiras:
— Nossa
instalação de rádio está defeituosa. Às vezes funciona, às
vezes não. No momento parece estar boa.
— Deixe
de falsa desculpa. Conhecemos muito bem todos estes truques.
Identifique-se:
— Cargueiro
Lizard, da “Globetrotter
das Estrelas”.
Comandante: Capitão Samuel Graybound. Carga para Tuglan.
— Graybound?
— repetiu o oficial incrédulo. — Será o Graybound do papagaio?
— e começou de repente a sorrir. — Então temos muita sorte.
Aposto que nossa visita a bordo não lhe vai agradar muito.
— Pelo
contrário, será um prazer — disse o capitão mentindo, maldizendo
a péssima reputação que possuía.
— Ah!
Este aí é o tal papagaio? — perguntou o oficial, vendo o louro no
ombro de Graybound. — É mesmo tão inteligente como se diz?
— Burro
quadrado!
— vociferou Toureiro bem alto e nítido, e desta vez estava
evidente a quem ele se referia.
O oficial
da Frota Solar ficou meio desnorteado.
— O
senhor é ventríloquo?
O capitão
consultou o relógio. Ainda faltavam cinco minutos...
— De vez
em quando — respondeu com modéstia. — Mas, desta vez, não fui
eu não.
— Muito
bem. Mas deixemos de lado a brincadeira. Abra a escotilha. Meu
comando já está a caminho. Eu chegarei um pouco mais tarde.
Smith,
gesticulando muito, disse mais baixo:
— Já
estão chegando, ao todo seis homens, comandante.
Rex fez
uma cara de preocupado. Sua mão direita pousava firme na alavanca
que poderia provocar um hipersalto desprogramado, assim que fosse
abaixada. Graybound acenou para ele, sem dar porém o sinal para
executar a manobra.
— Preste
atenção, tenente, não pretendemos fazer mal algum à sua gente,
por isso não posso deixar que se aproximem mais de mim. Estamos
agindo por ordem superior. O senhor se torna criminalmente culpado.
Entendido?
— Burro
quadrado!
— repetiu Toureiro com ênfase.
Graybound
fez um sinal para Rex. A alavanca foi abaixada.
Diante dos
olhos do enraivecido comandante do cruzador, que não era tenente,
mas sim major, a Lizard desapareceu.
O comando
de investigação interrompeu seu vôo, voltando de mãos vazias para
o cruzador. Já era tarde demais para se tentar uma perseguição.
Enquanto isto, o Capitão Graybound mergulhara com sua Lizard no mar
das estrelas.
2
Não era
muito diferente a situação de Perry Rhodan e de sua gente a bordo
da nave experimental Fantasy.
Saindo de
Ácon, a mais de quarenta mil anos-luz da Terra, haviam se perdido no
Universo. O vôo linear funcionava a contento, mas acontece que,
depois de fugirem precipitadamente de Ácon, ficaram sem saber onde
estavam.
A Fantasy,
uma nave esférica do tipo dos cruzadores pesados da série Terra,
com duzentos metros de diâmetro e parcialmente reformada, acolhia o
novo tipo de propulsão linear.
Não
realizava mais as transições de hipersaltos, mas voava
tranqüilamente com uma velocidade milhões de vezes superior à da
luz. A base técnica desta invenção viera dos druufs, mas já
estava muito alterada e substancialmente melhorada.
Quando
voavam para Ácon, a Fantasy atravessou o núcleo de um sol, formando
assim um campo energético próprio, semelhante ao envoltório de
proteção azul de Ácon. O planeta atuara como um pólo de atração,
puxando a Fantasy contra si. Desta maneira, a descoberta do
planeta-pátrio dos arcônidas, não foi obra do acaso, mas de uma
lei inflexível da natureza, depois do choque com o sol desconhecido.
E agora o
vôo de regresso. Perdidos no espaço! Onde estava a Terra?
Vários
tripulantes achavam-se na cabina de Rhodan, ligados com o comandante
Jefe Claudrin pelo videofone. No momento, Claudrin dirigia a câmara
de tal maneira que se podia ver todo o espaço lá fora. A descomunal
densidade de estrelas indicava que estavam no centro ou próximos do
centro da Via Láctea. A Terra, porém, devia estar mais para fora,
na região mais pobre em estrelas. Era para lá que se devia orientar
qualquer tentativa de descoberta da direção do sistema solar. Um
alarme de emergência já fora transmitido por hiper-rádio, mas não
ia adiantar muito, pois a Fantasy não podia dar sua própria
localização.
— Sir,
já determinamos a posição de uma estrela, que nos servirá de
ponto de apoio — comunicou o Major Claudrin. — Estamos voando a
uma velocidade de um milhão de vezes superior à da luz. Quando nos
aproximarmos mais, acho eu, poderemos fazer outras medições de
posicionamento.
Sentado ao
lado de Rhodan, Reginald Bell disse:
— Não
sou muito fanático pela nova tração linear. É verdade que a gente
pode viajar vendo as estrelas, mas é só! Temos maior velocidade do
que antes? A propulsão é melhor? Não, ainda prefiro as transições.
— E as
dores na rematerialização? — lembrou-lhe Rhodan.
— Eram
suportáveis, Perry. Sempre melhor do que se perder.
Rhodan
olhou pensativo para o fogo de artifício galáctico das grandes
concentrações de estrelas.
As
constelações se deslocavam lentamente, mas se deslocavam. Portanto,
estavam voando. Como o Major Krefenbac afirmara, encontravam-se em
qualquer ponto entre Árcon e a Terra, não podendo no entanto dar a
posição exata.
E Hunt
Krefenbac era um cosmonauta experimentado. Em situação mais
favorável, haveria de reconhecer uma das constelações, que
naturalmente estavam em constante alteração, conforme o ponto do
observador. Krefenbac ainda conseguiria se orientar.
— Todo
invento tem de ter sua fase, às vezes longa, de experimentação —
falou Rhodan. — Nós fomos as cobaias. Mas já sabemos quais são
as coisas que devem ser modificadas, isto é, melhoradas. Assim, por
exemplo, os compensadores kalupianos...
— Como,
por favor? — perguntou um homenzarrão numa poltrona ao lado.
Devia ter
um metro e noventa, uma careca de brilho fosco e bochechas
esponjosas. Exteriormente, ninguém diria que ali estava o
hiperfísico mais competente da Terra.
— O que
tem o senhor a criticar nos meus compensadores?
— Meu
querido Kalup, não tenho nada a criticar, mas o senhor não acha que
devem ser feitos alguns melhoramentos? As manobras ainda me parecem
muito complicadas. Nada tenho a dizer quanto à eficácia dos
conversores, mas estaríamos perdidos, se eles enguiçassem. Qualquer
conserto só pode ser realizado com a nave aterrissada.
O
professor Amo Kalup se refestelou tranqüilo no espaldar da poltrona.
— Graças
a Deus que o senhor não tem outras reclamações.
— No
momento, ainda não — disse Rhodan, olhando novamente para a tela
panorâmica.
Bell
esticou as pernas, olhando de soslaio para Kalup. Embora não
deixasse perceber, Bell via nisso uma pequena derrota de Kalup,
aliás, coisa sem importância que não empanaria o brilho do grande
cientista. Mas o gorducho não gostava muito do modo cínico e um
tanto arrogante do cientista; por este motivo, fugia de discussões
mais longas. Achou, pois, melhor não dizer nada.
Mais para
o fundo, entretinham-se o matemático Carlos Riebsam e o médico Dr.
Gorl Nkolate. Já que conversavam muito baixo, ninguém podia saber
do que estavam falando. Mas o assunto não era mesmo da conta dos
demais.
Um abalo
percorreu a espaçonave, repetindo-se mais duas vezes com a mesma
intensidade, até desaparecer por completo. Em todos os cantos, soava
o sinal de alarme. A voz do oficial, engenheiro-chefe, se fez ouvir:
— Atenção!
Explosão no setor BN-8. Extensão dos danos ainda ignorada. Isolar
todos os setores de máquinas fechando as portas automaticamente.
Rompimento do vácuo.
Rhodan deu
um pulo e já estava ao lado de Kalup:
— Seu
setor, professor! Os conversores.
— Homem
de Deus! Nunca se deve pintar o diabo na parede, senão ele aparece —
disse Kalup calmo, antes de se levantar.
Novamente
os sinais de alarme.
— Rompimento
do vácuo confirmado — anunciou o alto-falante. — Permaneçam em
seus postos. Colocar o uniforme espacial e aguardar novas ordens.
Rhodan
hesitou por uns instantes, mas acabou reconhecendo que, em última
análise, lhe cabia toda a responsabilidade, embora no momento quem
estivesse dando as ordens era Slide Narco, o engenheiro-chefe. O
lugar de Rhodan era no posto de comando, ao lado do comandante, o
Major Claudrin.
— Os
senhores fiquem aqui — disse ele e saiu porta afora.
— Seu
traje espacial, Perry! Rompimento do vácuo.
Bell
correu nervoso para os armários embutidos onde estavam guardados os
leves uniformes de emergência. Eram mais do que suficientes para
proteger um homem das conseqüências do vácuo.
— Não
dá mais tempo — disse Rhodan, já no corredor.
Dali ao
posto de comando não era longe, mas apesar da proibição, encontrou
muitos tripulantes que corriam para seus abrigos à procura do traje
espacial. Rhodan não lhes deu atenção, pois não tinha tempo. Além
de tudo, era o mais razoável que podiam fazer.
O Major
Claudrin, com seu corpo pesa-dão, lembrava um pouco os superpesados
da estirpe de Topthor. Tinha um metro e sessenta de altura e quase o
mesmo de largura, de pele morena e cabelos avermelhados. Como um
assim chamado “adaptado
ao ambiente”,
estava acostumado a viver com uma pressão de dois gravos e se
movimentava com agilidade admirável, apesar do peso de seu corpo,
fato que Rhodan sempre admirava.
— Como
está a situação, major?
— Ruim,
sir. Não chega nenhuma notícia da seção de máquinas. Tenho medo
do que pode acontecer...
Rhodan
tinha a impressão de que uma mão de ferro estava comprimindo seu
coração. Não era medo de qualquer perigo, nem do seu próprio
destino. Nada disso o assustava. Mas começou a pensar, de repente,
na vida de sua gente. Pessoas, cujos nomes talvez ele nem soubesse,
mas que se apresentaram voluntariamente para aquela arriscada missão.
— Ligação
da imagem no intercomunicador!
— Cortada,
sir, não temos mais ligação.
Parecia o
fim.
— Qual é
a velocidade?
— Já
estamos abaixo da velocidade da luz, sir, com a propulsão comum.
Acho que a explosão deve ter vindo dos conversores kalupianos.
Rhodan
sabia que Kalup não era o culpado.
— Você
ainda consegue manobrar?
— Infelizmente,
não. A nave não me obedece mais.
A
depressão tornava-se visível no rosto de Rhodan.
— Quer
dizer, então, que nos encontramos bem perto do fim: sem propulsão,
sem direção, estamos perdidos!
O Major
Claudrin apenas balançou a cabeça.
— Instantes
antes do acidente, fiz as medições de rotina. A três horas-luz de
distância há um sol amarelo, semelhante ao nosso. Deve ter
planetas. Estamos voando mais ou menos naquela direção.
— E daí?
Você acha que com a Fantasy neste estado, conseguiremos fazer uma
aterrissagem?
— Com os
Space-Jets, sir. Acho que nem todos eles foram destruídos. Podemos
aproveitar estes aparelhos salva-vidas.
Rhodan
notou que as palavras calmas de Claudrin lhe fizeram bem aos nervos.
E exatamente agora, o raciocínio calmo lhe seria absolutamente
indispensável.
— O
senhor tem razão, major. Por favor, mande investigar quantos barcos
de emergência estão disponíveis. Vou ver se posso fazer alguma
coisa pelos tripulantes.
Antes que
o comandante pudesse responder, Rhodan já deixara o posto de
comando. Disparou pelo corredor e pulou para o elevador
antigravitacional, que o levou até próximo ao coração da nave.
Pelos alto-falantes, que ainda funcionavam, ouvia-se a voz do Capitão
Slide Narco, dando mais instruções. O engenheiro-chefe cuidava para
que os sobreviventes da catástrofe não se expusessem a novos
perigos. Ordenou primeiro aos grupos de salvamento que corressem até
o local do acidente e prestassem auxílio. Pelas instruções
expedidas, Rhodan pôde medir a extensão da catástrofe. Todo o
setor das instalações das máquinas devia estar destruído. Poucas
haviam sido as partes poupadas. O fornecimento de energia estava
ainda funcionando, como também o sistema de aeração.
Mas, e o
rompimento do vácuo? O setor das máquinas abrangia todo o rebordo
central da nave!
Orientando-se
pelas instruções dadas por Narco nos alto-falantes, Rhodan
continuou penetrando mais para a parte central da nave, até ser
detido por um oficial. Era o Tenente Mahaut Sikhra, chefe do comando
de ação para casos especiais. O pequeno e rígido nepalês de
cabelos negros era conhecido por sua intransigência. Estava
comandando a ação de salvamento.
— Não
pode passar daqui para frente, sir.
Rhodan lhe
deu razão. A violência das explosões destruiu mais do que se
imaginava. Portas foram arrancadas de seus batentes e havia destroços
por toda parte. O vazio do Universo teria penetrado ali, não fossem
as escotilhas blindadas de aço e de Vedação hermética. Eram a
única coisa que estava entre eles e a morte.
— Como
está a situação, tenente?
— Meu
pessoal está tentando ter uma idéia geral dos estragos. Um pequeno
grupo penetrou pela escotilha de emergência até as máquinas. Estou
esperando uma comunicação a qualquer momento.
Abriu
quase todo o volume de seu receptor de pulso que estava em contato
com o grupo avançado.
— Será
que foi atingida apenas a parte das máquinas? — indagou Perry.
— Infelizmente,
não, sir. A compressão de ar provocada pela explosão procurou uma
saída: o lado mais fraco dos depósitos. Esta compressão rebentou
as paredes divisórias, provocando novas explosões nos aparelhos
salva-vidas e no arsenal de munições. Depois veio o rebordo de
propulsão. Explodiu na periferia mais fraca, provocando um rombo.
Nesta parte não se salvou nada. Tenho pressentimento de que o
rompimento do vácuo foi o que causou a morte do maior número de
tripulantes, e não a explosão.
Rhodan
nada respondeu. Não se sabia ainda o número de mortos, mas devia
atingir mais de cem pessoas, talvez mesmo duzentas. Haveria ainda
alguma saída daquela catástrofe? Daquela situação desesperadora?
O receptor
de pulso de Sikhra estava dando sinal e ele aumentou ainda mais o
volume.
— Aqui
fala Sikhra. O que há?
— Sargento
Radler, tenente. Não há sobreviventes. Todos mortos. Se o
rompimento do vácuo não se desse tão depressa assim, muitos teriam
posto o uniforme espacial e não morreriam. Mas o acidente aconteceu
de repente.
Sikhra
olhou para Rhodan, mudo e de cabeça baixa. Depois falou no pequeno
microfone:
— Está
bem, Radler, pode voltar, assim que terminar a vistoria. Vedação!
Talvez existam cabinas onde ainda haja ar. Proceda com muita cautela.
— Pode
ter confiança em nós, tenente.
Sikhra
desligou e disse muito acabrunhado:
— No
momento, mais não podemos fazer, sir.
Rhodan
apenas meneou a cabeça. Sentia um vazio enorme na alma.
Teria ele
culpa naquela catástrofe? Ou seria natural que invenções avançadas
exigissem tantas vítimas assim? Poderia ter evitado aquele
morticínio?
Virou-se e
percorreu o mesmo caminho de volta. Quase que derrubou Gucky, que
acabara de rematerializar-se à sua frente. Como teleportador, nada
era mais fácil para Gucky do que pular de um lugar para outro. Desta
vez, descobrindo telepaticamente a localização de Rhodan, o
encontrou.
— Você
não poderia ter evitado a catástrofe — disse o rato-castor, com
voz bem firme. — Não se acuse pelo que aconteceu. Ninguém é
responsável pela explosão, ninguém, nem mesmo Kalup.
— Não
coloquei a culpa em ninguém, mas a gente pode imaginar como as
coisas poderiam ter sido — e, dizendo isto, continuou seu caminho.
Mas Gucky
foi atrás dele:
— Você
sabe quantos homens morreram?
— Não
sei não. Mas sei que só nos resta um único Space-Jet. Todos os
outros aparelhos salva-vidas foram destruídos. Estavam exatamente na
direção das explosões dos gases.
Os
Space-Jets eram aparelhos de reconhecimento tipo Gazela,
naturalmente, mais avançados, em forma de um disco. Com seus trinta
metros de diâmetro, não ofereciam muito espaço, mas em caso de
necessidade, todo o lugar seria aproveitado.
— Temos
que convocar todos os sobreviventes, Gucky. Acho que o salão dos
oficiais não foi atingido. Você pode cuidar disso?
— Pode
deixar por minha conta.
Sentiu-se
feliz por lhe ter cabido uma missão de relevo. Sorriu e desapareceu.
Rhodan
caminhou apressado para o posto de comando. Somente agora lhe veio a
idéia de transmitir um pedido de socorro pelo hiper-rádio.
Infelizmente, por alguns minutos, tarde demais.
A vinte
passos da porta da cabina de rádio, o chão se levantou sob seus pés
e ele cambaleou. Apoiou-se com as mãos na parede. Neste mesmo
instante, a luz se apagou e desapareceu a última vibração dos
reatores em funcionamento.
Um
silêncio fúnebre tomou conta de tudo. Rhodan se aprumou e saiu
caminhando pelo corredor escuro, mas que conhecia bem. Sua mão achou
a maçaneta da porta e a comprimiu. No mesmo instante, acendeu-se a
iluminação de emergência, alimentada por baterias. Ao menos esta
fora poupada. Para sua grande surpresa, viu o Dr. Riebsam, o grande
matemático. Que podia ele estar fazendo por ali? Rhodan julgava que
ele estivesse ainda em sua cabina, onde o deixara.
— O
senhor aqui?
— O
senhor desapareceu e ninguém sabia onde se encontrava. Aí me veio a
idéia de transmitir uma mensagem de socorro pelo hiper-rádio.
Estava tudo pronto, mas o reator energético explodiu. Cheguei
atrasado por um minuto.
O raio de
esperança, que ainda havia em Rhodan, desapareceu.
— Quer
dizer que o senhor também não conseguiu, não é?
Riebsam
fez um gesto negativo, enquanto Rhodan olhava para os instrumentos de
radiotelegrafia.
— Será
que as baterias não dão para isto?
— Só
para transmissão de curta distância, e isto não nos interessa.
— Por
que que não nos interessa? — indagou Rhodan, pensativo. — Nossas
patrulhas de vigilância andam também neste setor da Galáxia. Quem
sabe está uma delas aí por perto? Portanto, vamos lá, tente enviar
a mensagem.
Rhodan
tinha certeza de que podia confiar em Riebsam, pois sabia haver
coisas mais importantes a fazer. Tinha que tentar tudo para conservar
a vida dos que lhe restavam. Quando chegou ao posto de comando,
surgiu novamente Gucky. Bell já estava ao lado de Claudrin, falando
com ele. Interrompeu a conversa, quando viu Rhodan e foi para ele.
— Como é
que é, Perry? Ainda há esperança?
Rhodan
preferiu o caminho da evasiva:
— Enquanto
se vive e se pensa, há sempre uma esperança — e, virando-se para
Gucky: — Conseguiu alguma coisa?
— Estão
se reunindo no salão dos oficiais, como foi determinado. Até agora,
são mais ou menos cinqüenta.
— Cinqüenta?
— repetiu Rhodan, empalidecendo. — Cinqüenta... antes eram
trezentos! Santo Deus!
O
rato-castor nada respondeu. Seu olhar denotava grande tristeza e não
parecia mais aquele tipo brincalhão.
— Devem
ser certamente mais — interveio Claudrin. — Vou pedir a Narco
para fazer uma contagem mais precisa. Acho que muita gente ainda deve
estar paralisada de medo ou mesmo inconsciente.
— Diga a
este pessoal que se dirija diretamente para o hangar B. Partiremos
com o Space-Jet, dentro de meia hora.
Claudrin
transmitiu a ordem. Um minuto depois, todos os alto-falantes não
danificados repetiam esta instrução.
Os homens,
oficiais, tripulantes e cientistas, davam impressão de estarem
atordoados. Eram os sobreviventes de uma catástrofe, que
infelizmente pontilhava as duras rotas do progresso da Cosmonáutica.
Sobreviveram, mas o caminho para a segurança total ainda seria
longo.
— As
escotilhas foram danificadas — dizia Rhodan — o ar vai se
volatizando devagar, mas progressivamente, pois as baterias estão
com pouca carga. Não há, portanto, outro meio: somos obrigados a
abandonar a Fantasy, o mais depressa possível. Temos à disposição
apenas um Space-Jet. Partiremos daqui a vinte e cinco minutos. Todos
devem se dirigir para o hangar B, usando o uniforme espacial, isto é,
o traje de emergência. Entendido? Armas e alimento encontram-se em
abundância a bordo do Space.
Apressem-se e não percam tempo!
Depois,
Rhodan e Gucky vestiram seus uniformes e atarraxaram os capacetes
plásticos transparentes. No mesmo instante começou a aeração.
Foi muito
simples para Gucky fazer uma teleportação com Rhodan. Bastou para
isto um contato físico. O rato-castor pegou a mão de Rhodan e
pulou.
Cinco
minutos antes da partida, estavam já no hangar B oitenta homens
reunidos. Eram os únicos sobreviventes da catástrofe. A eles se
somaram Rhodan e Gucky. O Space-Jet tinha normalmente uma tripulação
de quatro homens, mas a casa de máquinas e os depósitos davam para
abrigar mais gente.
Foi uma
sorte a parte da nave, onde estava o hangar B, não ter sido
danificada.
Sem o
aparelho auxiliar, Rhodan e o restante de sua gente estariam
perdidos.
O embarque
e a acomodação se deu sem dificuldade. Como piloto, funcionaria de
novo o Major Claudrin, que ocupou logo a poltrona do comandante,
esperando a ordem de partida de Rhodan. Abriu-se a grande escotilha
externa do hangar. O ar saiu num forte sibilo e o vácuo invadiu o
ambiente.
Quando
Rhodan deu o sinal de partida, houve mais uma explosão no interior
da Fantasy. O abalo foi tão forte que o jato balançou. Depois, o
aparelho deslizou nos largos trilhos para fora da comporta,
atirando-se no confuso amontoado de estrelas, onde era impossível
obter um ponto de referência.
Somente o
sol amarelo parecia dar vazão a um certo otimismo, se bem que o
tempo fora muito exíguo para serem feitas melhores observações a
respeito de sua natureza. Mesmo a suposição teórica de que possuía
planetas, não tinha apoio em nada positivo.
O
professor Arno Kalup se mantinha calado e reservado, se bem que seu
cérebro, por demais inteligente, não deixasse de trabalhar. Via-se
claramente em sua fisionomia que ele, em vão, quebrava a cabeça,
tentando descobrir como podia ter surgido tal catástrofe. Rhodan
sentia pena dele, mas preferiu calar, sem lhe dizer uma palavra de
consolo. O cientista teria primeiro que superar seus problemas
psicológicos.
As pessoas
mais importantes e todos os mutantes a bordo da Fantasy estavam no
meio dos sobreviventes. Era um dos motivos pelo qual Rhodan podia
levantar a mão para o céu e agradecer ao destino. E ele de fato o
fez.
Quando
Claudrin tentou fazer uma alteração na rota, o jato só obedeceu a
muito custo. O major olhou intranqüilo para Rhodan, que estava
acompanhando tudo e lhe perguntou:
— Que
está havendo com o Space-Jet? Diga francamente.
Claudrin
estava indeciso.
— Não
sei, não. Dá a impressão de que não foi tão poupado assim, como
nós supúnhamos. A direção...
Hesitou um
pouco e pegou com mão firme nos controles. Seus dedos tocaram nos
botões e interruptores. Os ponteiros nos mostradores quase não se
moveram. Vibraram um pouco e voltaram ao ponto de partida.
— Alguma
coisa não está em ordem — disse Claudrin. — Não podemos
arriscar um salto de transição, sir. Temos de voar em velocidade
inferior à da luz e nada mais. Mas, quem sabe existem naves terranas
por perto?
— Talvez
— respondeu Rhodan, pensativo.
Achavam-se
numa parte completamente desconhecida da Via Láctea, e a Terra
poderia estar a uns vinte mil anos-luz, caso o registrador de rota da
Fantasy estivesse de fato funcionando bem.
— Não
podemos confiar exclusivamente nisso. Que tal tentarmos um radiograma
de emergência? — indagou Perry, depois de algum tempo.
O posto de
radiotelegrafia era logo ali ao lado. O pessoal já o estava
testando. Um oficial ainda jovem ouviu a sugestão de Rhodan. Pela
porta aberta, esticou o pescoço para dentro da cabina de comando:
— O
aparelho de hiper-rádio não funciona, sir. É possível apenas o
rádio comum.
Rhodan fez
um esforço para se dominar.
Por que
tudo tinha que estar contra eles? Nada de hiper-rádio! Parecia-lhe
quase impossível que uma nave estivesse tão próxima que pudesse
captar as ondas comuns de simples velocidade da luz!
— Use-o
— ordenou ele.
O
experimentado Claudrin conseguiu alterar a rota de tal maneira que o
jato voava agora na direção do sol amarelo. Dali a cinco horas,
estariam em condições de constatar se o referido sol tinha ou não
planetas.
E o que
seria se não possuísse nenhum? Rhodan nem queria aventar tal
hipótese.
*
* *
— Quatro
planetas, sir! — anunciou Krefenbac, o primeiro-oficial.
— Obrigado,
major. Boas perspectivas?
— O
planeta interno é incandescente. Os dois externos são gigantes de
metano. Agora, o segundo planeta parece ser favorável. Atmosfera
respirável, não há mar. Uma única extensão de solo sem
vegetação.
Rhodan
voltou-se para Claudrin.
— Dirija-se
ao segundo planeta e procure um lugar para aterrissagem. Não nos
resta outra possibilidade.
Nas
últimas cinco horas, Rhodan chegara a esta conclusão. O Space-Jet
era pequeno demais para os oitenta e dois sobreviventes. Os gêneros
alimentícios e a água ainda dariam para mais tempo, mas o homem
precisa também de espaço para esticar as pernas. Além disso, os
últimos solavancos produzidos pela sucção do ar, devido à
abertura repentina da escotilha do hangar B, haviam acarretado mais
prejuízos, que não podiam ser negligenciados. O mecanismo de
direção era um deles.
Houve, no
entanto, uma surpresa: o jovem tenente da radiotelegrafia conseguiu
obter um curto impulso de emergência no aparelho de hiper-rádio.
Infelizmente, segundos depois, a alimentação elétrica falhou outra
vez. O impulso fora muito curto e fraco. Só poderia ser captado por
receptores de alta sensibilidade e isto só mesmo com muita sorte,
caso houvesse alguma nave próxima. Mas nem todos os cruzadores da
Terra possuíam aparelhos tão sensíveis assim. A esperança subira,
pois, alguns graus, mas continuava ainda muito frágil.
Enquanto
se aproximavam do segundo planeta, o sol amarelo lhes estava à
direita. Podiam ver agora na tela detalhes de sua superfície.
— Parece
um pouco monótono — observou Bell, que, aos poucos, se recuperava
do grande choque. — Nada de água! Tudo cinzento... nem florestas,
nem campinas.
— Você
está querendo demais — respondeu Rhodan. — Podemos nos dar por
satisfeitos, caso consigamos aterrissar sem acidente. A propulsão do
jato está fraca demais. Quem sabe descobriremos a causa lá embaixo?
Pelo menos, teremos chão firme sob os pés.

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