— Puxa!
— exclamou Atlan descontente. — Acho que Bell haveria de comparar
esta fundamentação jurídica com algo parecido com chiclete. Mas se
eu tentar dar uma forma mais técnica, é capaz de surgir um jurista
para afirmar que o cérebro positrônico fez um julgamento errado. O
que devo fazer é informar Rhodan do acontecido.
*
* *
Cokaze
expôs ao melhor jurista de sua estirpe a resposta do cérebro de
Árcon.
Seus olhos
febricitavam de expectativa. Frio, Cardif estava sentado ao lado do
patriarca.
O jurista
Zutre, especialista neste assunto, estava em situação de dar na
hora seu comentário a respeito.
— Senhor
— disse ele num leve sorriso — os deuses talvez podem ter
aprovado e ratificado estes parágrafos que impedem o cérebro de
intervir na política interna. Mas, o mais interessante nesta
resposta é a alegação de que Thomas Cardif, aliás, de que o
procedimento de Thomas Cardif está em contradição com as leis de
Árcon. Esta afirmativa é uma frase vazia e, na realidade, diz
apenas que a tutela de Árcon, sobre este pequeno reino estelar,
representa nada mais que uma declaração para fins imediatistas, sem
maiores riscos de responsabilidade.
Cokaze se
afastou do jurista. Quando se defrontou novamente com Cardif, havia
nos olhos do saltador uma pergunta visível.
— Saltador
— disse Thomas Cardif, ainda com o mesmo tom inflexível de voz —
preciso de um local onde, sem ser perturbado, possa transmitir minha
proclamação para o Império Solar. Seus transmissores de
hipercomunicação têm a potência suficiente para cobrir com bom
volume todas as estações da Terra?
— Senhor
— disse Cokaze cofiando sua barba semi-aparada — a Terra vai
ouvir perfeitamente sua proclamação.
*
* *
Quando a
proclamação de Thomas Cardif chegou à Terra, a estação de
hiper-rádio de Terrânia pensou que se tratasse de uma brincadeira,
mas o chefe da estação, alarmado, viu a coisa com outros olhos e
estabeleceu contato com Rhodan, via ligação direta de alarme.
— Senhor
— disse ele nervoso, sem ao menos esperar que a figura de Rhodan
aparecesse — neste momento Thomas Cardif acaba de transmitir uma
proclamação, através da qual se apresenta como o novo
administrador da Terra.
Apareceu
então o rosto de Rhodan na tela, seus olhos tinham a expressão da
tranqüilidade.
— Por
que você está assim tão excitado? — foi a pergunta que Rhodan
lhe fez. — Por favor, dê-me a proclamação toda, quando Thomas
Cardif a tiver terminado. Estou esperando.
Rhodan
apertou o botão especial, desligando o aparelho de videofone. Bell,
Freyt e Mercant olhavam ansiosos para ele.
— As
frentes de combate começam a se definir — foi seu comentário.
3
O sistema
solar teve duas grandes sensações.
A
primeira: a proclamação de Cardif estourou como uma bomba e horas
mais tarde, quando já havia escoado a sensação do impacto, irrompe
a segunda sensação:
O
administrador não reagira!
O governo
do Império Solar não tomou conhecimento oficial das alterações
verificadas em Marte e Vênus.
Oito horas
e cinco minutos depois que Thomas Cardif havia se proclamado o novo
administrador, a grande barragem do Amazonas, perto de Manaus, voou
pelos ares.
Vinte
minutos depois disso, explodiram as usinas do Niger. Bombas de porte
médio, carregadas com T.N.T. arrancaram tudo do lugar. Três minutos
depois desses atos de sabotagem, duas instalações de laminação
também foram destruídas na Lua.
A partir
daí, era um atentado após outro. A última notícia era sempre pior
do que a anterior. A Terra, a Lua, até mesmo o gélido Plutão e os
satélites dos grandes planetas haviam se transformado num
pandemônio. Não somente as instalações governamentais de todo o
sistema solar, mas mesmo os edifícios civis eram destruídos.
Fábricas particulares, centrais elétricas, instalações estatais,
centros de alta pesquisa... nada escapava à onda de loucura.
Os jornais
se transformaram em panfletos. Os telejornais pareciam filmes de
terror... As catástrofes desfilavam perante a Humanidade perplexa.
Até mesmo
o cidadão mais comodista e preguiçoso perdia seu marasmo e começava
a pedir socorro. Por toda a parte as sabotagens seguiam trazendo
desespero.
Apenas em
Marte e em Vênus havia relativa calma, embora também aí as bombas
explodissem e milhares de pessoas perdiam tudo que possuíam. Apesar
disso, a situação nesses dois planetas era bem melhor que em outra
parte.
Quatorze
horas depois da dinamitação das ciclópicas barragens no rio
Amazonas, perto de Manaus, os alicerces do Império Solar estavam já
bastante abalados!
Todos se
levantaram contra Rhodan. A população desvairada exigia sua cabeça
e aplaudia o advento de Thomas Cardif.
A era de
Rhodan já havia passado. Ele, que não queria envelhecer, tinha de
desaparecer, sair de cena. Esta era a voz geral em toda a parte, não
apenas em Terrânia.
Em
Terrânia havia censura nos meios de informação. Ninguém podia
sair ou entrar na cidade. O imenso espaçoporto estava vazio. Não se
via uma só das naves esféricas. Há três horas atrás, decolara a
última espaçonave, a Drusus. Estava agora dando voltas em torno da
Terra, acompanhada de outras cem naves. Os aparelhos do tipo Estado,
de apenas cem metros de diâmetro, voavam todos a cinco mil metros de
altura, podendo assim ser muito bem reconhecidos do chão.
Era a
primeira resposta de Perry Rhodan à insensatez da população que,
de uma hora para outra, saiu de suas cavernas, ameaçando meio mundo.
A
imprensa, com exceção de pequenos jornais da situação, chamavam a
esta demonstração de ditadura rhodaniana.
Mas Perry
Rhodan, o homem de expressão marcante e de olhos castanhos de
incrível magnetismo pessoal, manteve estóico silêncio para com a
opinião pública. Ficara realmente impressionado com a inaudita onda
de sabotagem, que o pegou de surpresa. Quando se sentia apto para
enfrentá-la, aconteceu outra coisa inaudita: a sabotagem desapareceu
como que a toque mágico.
Cokaze, o
patriarca dos saltadores, havia se comunicado com Rhodan, exigindo
autorização para aterrissagem às 14 horas e 30 minutos.
— Ele
“exige”
a autorização — disse Bell. — Veja como estão as coisas...!
Havia
sempre uma ponta de malícia, quando Reginald Bell se expressava
assim com reticências.
Sentado à
sua escrivaninha, Rhodan examinava as pilhas de mensagens
recém-chegadas. O nervoso vaivém de Bell no escritório não o
perturbava. Apenas uma vez, Rhodan disse em tom fraternal:
— Você
também pode trabalhar um pouco, gorducho. Não se sente muito bem
hoje, não é?
O primeiro
ímpeto de Bell foi dar uma resposta bem dura, mas ainda teve tempo
de compreender o que Rhodan queria dizer. Dominando-se disse apenas:
— O que
há de novo? Será que teremos finalmente uma notícia boa?
— Exatamente,
olhe, leia aqui, por favor — disse Rhodan passando-lhe uma das
mensagens.
Bell, de
olhos arregalados e fungando terrivelmente, meteu o dedo entre o
colarinho engomado e o pescoço, como se lhe faltasse ar.
— Puxa!
A isso você chama de boa notícia, Perry? Depois de amanhã,
convocação extraordinária do Parlamento, através do Conselho dos
Senadores?
— Perfeitamente!
E não me interessa nem hoje nem depois de amanhã saber que alguns
deputados estão se encantando com o pensamento de verem Thomas
Cardif como novo administrador. Aconteça o que acontecer, teremos
nossos deveres a cumprir, e estes deveres exigem que estejamos à
altura das maiores crises e dificuldades. Antes de mais nada, vou
tomar todas as providências para que depois de amanhã seja votada a
prorrogação da Lei de Calamidade Pública.
— Você
não perde o bom humor, hein, Perry?
— Pelo
contrário, não resta em mim mais nada de humor. Estou falando com
objetividade. Precisamos desta prorrogação do estado de emergência
e, desta vez, vou consegui-la do Parlamento, Bell. Não tenha dúvida.
Reginald
não disse nada. Apenas fez um aceno de cabeça.
Rhodan foi
lembrado de que já eram 14 horas e 30 minutos. Acompanhado dos três
filhos mais velhos, Cokaze já estava esperando na ante-sala.
John
Marshall, o mais competente dos mutantes, introduziu os quatro
saltadores. Rhodan os convidou a sentar nas poltronas em volta da
mesa redonda. Sentaram sem pressa nenhuma, nunca perdendo de vista os
olhos de Rhodan. Conforme suas informações, era ele o mais
importante. Em contrapartida, não davam nenhuma atenção a Bell,
muito menos a John Marshall que estava lendo seus pensamentos, como
num livro aberto.
No
momento, estava Marshall instruindo Rhodan, que possuía forças
telepáticas, embora em menor escala, sobre as intenções de Cokaze.
Foi por esta troca telepática que Rhodan ficou sabendo que seu filho
se encontrava a bordo da Cok-I.
— Sim,
terrano, nossa vida difere muito pouco da de vocês — começou o
patriarca dos saltadores. — Um dia, somos visitados pela sorte,
outro, somos vítimas do azar. Parece que as coisas não andam muito
boas para o Império Solar, nem para seu governo, mas minha estirpe
estaria disposta a tudo fazer para ajudá-los, caso cheguemos a um
acordo quanto ao monopólio comercial. Temos mais ou menos quatro mil
espaçonaves cilíndricas em Marte e Vênus, Rhodan. São aparelhos
bem equipados com tripulação de alta especificação e experiência.
Com nosso apoio, seu governo ficaria resguardado de uma iminente
destruição.
Foi a
exposição mais cínica e petulante que Rhodan e Bell tiveram que
ouvir. Sem o mínimo escrúpulo, Cokaze fazia suas proposições.
Os filhos
de Cokaze meneavam a cabeça em sinal de apoio às palavras do pai.
Nenhum deles ainda havia se externado sobre o assunto. Para isto
seria necessário que o chefe do clã desse consentimento. Mas do que
qualquer outro povo, os mercadores galácticos eram muito rigorosos
na manutenção destes velhos costumes.
— Saltador
— começou Rhodan impassível, enquanto Bell tamborilava com as
pontas dos dedos no espaldar da poltrona — em toda a minha longa
vida, sempre pautei minhas relações com outros povos numa amizade
sincera e respeitosa, e por isso me alegro em ver na estirpe de
Cokaze bons amigos. Foi-me grato avaliar o grau de sua estima, pelo
fato de seu interesse em me apoiar, como administrador do Império
Solar, de uma deposição através do Parlamento. Gostaria de poder
lhes mostrar minha gratidão pela forma como vocês o desejam. Mas,
como o senhor mesmo acaba de salientar, minha posição é muito
melindrosa. E unicamente por este motivo, não estou em condições,
no momento, de manter conversações sobre a questão do monopólio
comercial. E mais ainda: minha posição como administrador foi
seriamente abalada por esta série doida, suicida e inexplicada de
atos de sabotagem, pois o governo não conseguiu prender um único
terrorista. Saltador, lamento profundamente não lhe poder dizer
outra coisa.
Neste
momento, Marshall entrou em contato telepático com Rhodan:
— O
saltador está fervendo de raiva, Sir. Pensa em não sair deste
aposento sem levar o contrato assinado. Está refletindo se já está
na hora de nos dizer que Marte e Vênus estão praticamente em seu
poder.
— Rhodan,
vou deixar de lado, por enquanto, sua pouca disposição para entrar
em conversação com nossa gente, os comerciantes das Galáxias —
respondeu Cokaze, num tom mais ríspido. — Não lhe resta outra
alternativa, administrador. Não menospreze o perigo que irrompeu
contra você na pessoa de Thomas Cardif...
— Um
simples desertor — falou Rhodan, serenamente.
— Seu
filho, Rhodan! — gritou Cokaze bem alto.
— Meu
filho, saltador? — Rhodan deu um sorriso amargo. — Você se
engana Cokaze. Um Rhodan nunca será um desertor. Portanto Thomas
Cardif não pode ser um Rhodan, talvez, porém, um arcônida
degenerado. Isto eu não posso nem quero discutir.
— Sua
esposa não foi uma arcônida? — perguntou o atrevido saltador.
Bell, de
um salto, se levantou da poltrona, Marshall fez a mesma coisa.
Somente Rhodan foi quem não mostrou a menor reação. Ele, o modelo
perfeito do autodomínio, apenas sorriu. Mas seus olhos castanhos
cintilavam. Inclinou-se levemente para frente. Veio depois o
surpreendente aceno da cabeça.
— Sim —
disse confirmando — minha mulher era arcônida. Que bom você ter
me lembrado isto, saltador Cokaze.
Os quatro
mercadores galácticos estremeceram, como se cada um deles tivesse
levado uma forte chicotada. Rhodan também não lhes deixou tempo
para se desculparem.
Levantou-se.
— Saltador,
já são 14 horas e 48 minutos. Meus robôs vão levá-los de volta
ao espaçoporto. Às 15 horas e 10 minutos receberá permissão para
decolagem, em vigência até 15 horas e 15 minutos. Desejo-lhe tudo
de bom, Cokaze.
De braços
cruzados no peito, ficou olhando para eles, que cabisbaixos e calados
deixavam o escritório, até que a porta se fechou.
*
* *
Os agentes
de Cokaze não dormiam no ponto...
O
patriarca, depois de seu insucesso com Perry Rhodan, de quem se
tornara o maior inimigo, só tinha em mente uma coisa: anexar o
Império Solar à Federação dos Estados de Árcon e fazer com que
sua estirpe fosse a única privilegiada a ter o direito de exportação
e de importação no sistema solar.
Thomas
Cardif era-lhe apenas uma peça no jogo, um meio para um fim.
Enquanto este rapaz lhe podia ser útil, tratava-o com deferência e
fingia dar muita atenção às suas propostas. Na realidade, porém,
toda a atividade de Cokaze visava apenas ao próprio interesse.
Após a
curta audiência com Rhodan, voltou Cokaze numa viagem relâmpago
para Vênus. Mobilizou todos os agentes que possuía na Terra. A
série de sabotagens, com o intuito de minar o prestígio de Rhodan,
continuaria com uma violência dez vezes maior. Pelo menos esta era a
vontade de Thomas Cardif.
— Mas
isto é assunto meu, terrano — disse-lhe desembaraçadamente o
patriarca dos saltadores.
Cokaze
simplesmente não podia compreender ou não podia se acostumar com a
idéia de que um rapaz, sem ser perguntado, tinha sempre que dar seus
palpites.
Cardif
sorria com ar de zombaria e aí é que mostrava grande semelhança
com seu pai.
— Claro
que é assunto seu, é coisa que você já devia saber, mas não
sabe, infelizmente. Por exemplo: nem sabe por que Rhodan mantém em
quatro lugares distintos da Terra cerca de cem mil homens
aquartelados e prontos para entrar em ação. Por acaso, seus agentes
já descobriram o que Rhodan tenciona com esta enorme reserva?
— Rhodan,
Rhodan e sempre de novo Rhodan. Já não consigo mais ouvir este nome
— esbravejou o patriarca. — Este Rhodan é a maior desgraça e o
maior perigo para o Universo.
— Por
que você fica tão nervoso assim, Cokaze? — perguntou Cardif com
toda calma. — Basta para você apenas um hiper-rádio e dentro de
dois ou três dias muitos milhares de espaçonaves de outras estirpes
se juntarão a você e então ninguém mais falará deste Império
Solar. Por que você não os chama em seu auxílio?
— Porque
só um terrano pode pensar numa bobagem desta — respondeu o velho
líder do clã.
Caso
convocasse outras estirpes para ajudá-lo, teria que dividir com eles
sua preciosa presa e isto não agradava a Cokaze.
— Bem —
disse Cardif tranqüilo, pagando na mesma moeda — digamos que sou
um terrano bobo. Mas, ao invés desta série de sabotagens, que não
levam a nada, poderia tentar influenciar os deputados e senadores
para que eles...
— Nem
todos se chamam Thomas Cardif!
Esta
frase, dita num ímpeto de raiva, Cokaze não podia mais desfazer.
— Você
quer dizer que nem todos são traidores como eu, não é, saltador?
Mas o fato é que os mais responsáveis, os parlamentares,
principalmente, não estão muito contentes com Rhodan. Com um
trabalho bem inteligente e uma propaganda bem articulada consegue-se
muito mais que com esta estúpida onda de violência. Você nunca me
perguntou por que motivo eu desertei. Vou contar-lhe, embora você
não se tenha interessado em saber.
“Contra
o parecer oficial dos médicos, Perry Rhodan mandou minha mãe para
Árcon, a fim de tratar com o regente robotizado da compra de cem
cruzadores. Nesta missão, ela, que já estava desenganada pelos
médicos, acabou morrendo.
“Cokaze,
isto bem espalhado na Terra, numa campanha de hábil propaganda, vai
custar a cabeça de Rhodan. Com isto, ele será destituído do cargo
de administrador e talvez processado. Um assunto deste mexe muito com
os homens e principalmente com as mulheres, e a influência das
mulheres na Terra é muito maior do que vocês possam imaginar.
“Só com
estes meios é que se pode combater Rhodan. Temos que atacá-lo
exatamente onde ele é vulnerável, no seu calcanhar de Aquiles.”
— Mas,
Cardif, sua afirmação de que Rhodan tenha mandado sua esposa
conscientemente para a morte não pode ser verdade.
— Não
pode ser verdade? Não pode ser verdade, como, saltador? Foi este
exatamente o motivo que me levou a quebrar meu juramento de
fidelidade ao Império Solar. Por este motivo me insurgi contra tudo
e contra todos, para destruir o assassino de minha mãe. Este é o
único sentido de minha vida, é a única coisa que quero conseguir.
Somente quando tiver destruído Perry Rhodan, poderei morrer
tranqüilo.
O saltador
afastou de sua frente a pilha de papel que estava na mesa. Fitou o
jovem desertor com mais atenção. Sentiu um arrepio, diante daquela
expressão de ódio, acumulada nos olhos de Thomas Cardif. Era um
homem carregado de ódio, da cabeça aos pés, como jamais havia
visto. E este homem havia feito a maior acusação contra seu pai: a
de ter assassinado sua mãe.
— Não,
Cardif, não posso acreditar numa acusação desta. Não consigo me
libertar dos olhos castanhos de Rhodan, neles não se pode aninhar
sentimento de ódio, muito menos de morte, mas, de qualquer
maneira... — e um sorriso repugnante aflorou em seu resto — de
qualquer maneira, a idéia é muito boa. Sim, vai acabar arruinando
Rhodan. Está certo, Cardif, vinte e quatro horas antes da reunião
plenária do Congresso, meus agentes vão fazer circular na Terra
estes boatos.
— E mais
uma coisa! Não se esqueçam dos mutantes de Rhodan, estes homens
dotados de poderes incríveis. Há alguns que conseguem passar
através de paredes, outros desaparecem repentinamente num lugar e
surgem no mesmo instante a milhares e milhares de quilômetros dali.
— Só
isto? — disse Cokaze com um sorriso zombeteiro. — Já ouvi falar
nisso, mas acho que noventa por cento é exagero.
— Não
há nenhum exagero, Cokaze. Dou-lhe até um conselho muito sério:
não fique com a sua Cok-I aqui em Vênus. Vá com ela para bem longe
no espaço. Mesmo lá, não estará cem por cento garantido contra a
ação dos mutantes de Perry Rhodan.
Mais uma
vez, Cokaze estava profundamente impressionado com as palavras de
Cardif. No íntimo, ele percebia que o jovem desertor conhecia muito
melhor as condições do diminuto Império Solar do que todos os seus
bem pagos técnicos.
E o que se
sabia até hoje do Império Solar?
Enquanto
ninguém conseguia descobrir a posição da Terra, a Galáxia inteira
vivia assustada com incríveis exageros. Muitos acreditavam piamente
que Rhodan era muito mais poderoso que todo o Império Arcônida.
— E
você, Cardif, não tem medo dos onipotentes mutantes de Rhodan? —
era patente a ironia do saltador.
— Medo é
isto aqui! — gritou Cardif, fazendo com que Cokaze se levantasse de
um salto.
Num gesto
rápido, o jovem desertor sacou duas pistolas de raios energéticos,
apontando-as na direção do assustado patriarca.
— É
assim que me preparo para enfrentar os mutantes de Rhodan.
Felizmente, conheço pessoalmente alguns deles e os que não conheço,
percebo logo pelo jeito e pela aparência. Aí então será eu ou
ele. Pois não tenho dúvida de que Rhodan tudo fará para me pegar
vivo. Sou mais importante para ele do que você com seus quatro mil
aparelhos...
— Complexo
de inferioridade, você não tem felizmente, não é, Thomas? —
disse o patriarca sorrindo.
Thomas
parece que não deu importância à indireta, mas certamente não a
esqueceu. Abstraído em seus pensamentos, olhava para o chão. Sentia
o olhar penetrante do velho saltador, mas fez como se não visse.
— Cokaze
— recomeçou ele — somente espalhando boatos, não venceremos
Rhodan. Por que você está deixando suas quatro mil naves
enferrujando em Marte e Vênus? Somente o comércio de mercadorias
entre Marte e Vênus haveria de lhe dar tanto lucro, que seria
suficiente ao menos para cobrir as despesas da manutenção imediata.
— Arcônida...!
Pela
primeira vez, Cokaze chamara o tenente desertor pelo nome de
arcônida. Este rapaz, que pretendia usar mais como um meio para seus
fins, revelava-se cada vez mais um estrategista frio e inteligente,
descobrindo não apenas as vantagens para seu lado, mas explorando
principalmente os pontos fracos e vulneráveis do adversário.
Cardif não
reparou na expressão de surpresa no rosto de Cokaze.
— Vou
dar minha contribuição para a queda de Rhodan — disse com a maior
calma. — Duas horas antes da reunião do Congresso em Terrânia,
vou fazer importantíssima proclamação à Terra, através do
hipercomunicador. Cokaze, você me empresta seu transmissor de
hiper-rádio?
— É
claro, mas tenho que exigir, saber antes do conteúdo de sua
mensagem, arcônida...
Os olhos
avermelhados de Cardif se encheram de um brilho diferente. Em tom de
voz diferente, chegou bem perto do patriarca.
— Acho
que já lhe dei provas mais do que suficientes de que não trabalho
contra seus interesses, embora não consiga me libertar da suspeita
de que a estirpe de Cokaze só vê em mim um meio para seus
objetivos. Saltador, não permita que esta suspeita se transforme em
realidade. Sou arcônida e estou certo de que o cérebro robotizado
me dará razão. Conte com este fato como coisa certa, e oriente
todos os seus atos neste sentido. Assim ficaremos amigos.
Virou-se
de repente, deixando o grande camarote de Cokaze, antes que o velho
patriarca, surpreso e assustado, estivesse em condições de
responder às palavras marcantes de Cardif.
“Santos
deuses do espaço!”,
pensou ele preocupado. “Será
que este jovem desertor consegue ler meus pensamentos?”
*
* *
A Frota
Solar não estava mais voando em torno da Terra. Havia tomado posição
próximo a Marte, Terra e Vênus.
No
momento, Marte e Vênus estavam praticamente perdidos. Quem quisesse
dizer o contrário, estaria mentindo a si mesmo. Os senhores de Marte
e de Vênus eram, sem dúvida alguma, os mercadores galácticos da
estirpe de Cokaze. Mas a Terra não lhes pertencia, e a Frota Solar
ainda existia e continuava a ser um instrumento mortífero
supereficiente, contra qualquer inimigo.
A ordem
que a frota do Império Solar recebera determinava expressamente que
não se impedisse o tráfego entre Marte e Vênus, mas que fosse
cortada, com todos os meios, toda tentativa de aproximação da Terra
por parte de qualquer nave cilíndrica.
Rhodan
ainda era senhor absoluto de sua Frota Espacial, bem como da
Segurança Solar e do Exército de Mutantes. Estes últimos ainda não
se haviam esquecido de como foram tratados nos debates parlamentares.
Seus sentimentos para com os deputados não podiam ser dos mais
amistosos, no entanto, nenhum deles tivera a idéia de agir por conta
própria para lavar a honra denegrida.
Seguindo o
exemplo da Segurança Solar, que estava agindo sob o comando do
Marechal Allan D. Mercant, os mutantes entraram também de corpo e
alma na defesa perigosa do diminuto Império Solar. Seu primeiro
dever era descobrir o que Cokaze tencionava fazer nos próximos dias
e até que ponto ia a influência de Thomas Cardif, nos
acontecimentos. Receberam de Perry Rhodan a missão especial de
tomarem conta de Thomas Cardif e de trazer o desertor para a Terra.
Gucky, o
rato-castor, estava nesta missão especial. Aliás, ao menos neste
comando, era o único teleportador e telecineta. Os dons de John
Marshall se concentravam no âmbito da telepatia, enquanto Fellmer
Lloyd era o superespecialista em orientação e localização.
Apenas
ouvindo, Reginald Bell estava sentado num canto, com cara de
tristonho. Não podia acompanhar o comando, pois tinha que, com
Rhodan e os colaboradores mais íntimos, estar presente aos debates
no Congresso.
— Perry
— falou Gucky, interrompendo, sem muita cerimônia, o
administrador. — Será que o gorducho não pode participar do
comando até amanhã? Prometo-lhe devolvê-lo são e salvo para a
operação matadouro, sem nenhum atraso.
— Que
negócio é este de operação matadouro, Gucky? — perguntou-lhe
Rhodan meio surpreso.
Perry
estava demasiadamente preocupado com as medidas que tinha que tomar.
— Também
não sei não, chefe. O gorducho não pára de pensar em matadouro e
quando fala a respeito usa nomes tão horríveis que fico vermelho de
vergonha...
Neste
momento, Reginald Bell deu um pulo de sua poltrona, procurando
atingir Gucky. Porém, no meio do caminho ficou pregado no chão, não
conseguindo mais nem levantar um pé.
Gucky
estava se divertindo com suas forças telecinéticas e escolhera como
vítima exatamente seu amigo Bell.
— Mas
Perry, francamente não entendo o que Bell quer dizer com a palavra
matadouro, mas acho que se refere à sessão do Parlamento, temendo
que vocês todos levem na cabeça no meio destes deputados malucos.
Será que vai ser tão perigoso assim?
Perry
fitou os olhos sinceros de Gucky. O inteligente ser não estava agora
brincando, como costumava fazer. Apreensivo e muito sério, o
rato-castor continuava ao lado de Rhodan. Mantinha uma amizade muito
profunda não só para com Rhodan, mas também para com Bell. Estaria
pronto, a qualquer momento, a dar sua vida por eles, como já dera
provas evidentes disso, mais de uma vez.
— Não,
Gucky — respondeu Rhodan. — Não se pode desistir de uma hora
para outra de uma obra de mais de setenta anos. Lutaremos para poder
continuar cumprindo nossos deveres. Nós todos juntos já travamos
muitas batalhas amargas e vamos agüentar mais esta do Parlamento...
Neste
instante, uma das muitas instalações de alarme com ligação direta
das centrais para o escritório de Rhodan deu o sinal de urgência.
Do alto-falante soou a voz do Marechal Allan D. Mercant.
— Sir,
comunicados simultâneos das agências noticiosas de Berlim, Oslo,
Nova Iorque, Tóquio, Xangai, Sidney, Calcutá e Cidade do Cabo dão
conta de que, de um momento para outro, irrompeu uma onda de boatos.
Em tais boatos, o administrador é acusado por ter enviado sua esposa
para Árcon, em flagrante oposição ao parecer dos médicos... e
outras coisas mais, Sir.
Rhodan
empalideceu. Por muitos segundos manteve os olhos cerrados.
— Obrigado,
Mercant, está bem. Neste momento, Reginald Bell já estava
conseguindo mover-se. O rato-castor o havia liberado da força de sua
telecinese. Devagar, Bell se aproximou de seu amigo, botando-lhe a
mão no ombro.
— Escute
aqui — disse Bell muito pausado e em tom muito íntimo — estamos
ainda em condições de nos defender e vamos nos defender, Perry.
Permita que eu me encarregue de responder a esta calúnia. Acho que
não está precisando de mim no momento, não é? Você me poderá
achar facilmente através das centrais, que certamente sabem onde me
encontro. E você Gucky, capriche, traga Thomas para cá, mas para
mim, ouviu? Você está lendo meus pensamentos, não é?
Gucky
interrompeu seu amigo que estava muito abatido.
— Se foi
Cardif quem engendrou tudo isto, Bell, acho então que não é bom
trazê-lo para você. O desertor deve ser tratado imediatamente por
uma junta médica.
De
repente, Rhodan se ergueu.
— Ninguém
vai pôr a mão nele. A ação contra Thomas Cardif está cancelada.
Também não vou responder ao que ele espalhou pelo mundo como boato.
— Mas eu
vou — atalhou-o Bell. — E neste particular, não aceito nenhuma
ordem sua, Perry. Até hoje sempre me abstive de mexer com Cardif,
esperando e sempre esperando inutilmente. A mesma mão, que até hoje
o protegeu, vai levá-lo agora para onde ele deve ir. E eu lhe
prometo que Thomas chegará ao ponto certo. Estamos claros neste
ponto, Perry?
Rhodan, o
homem mais poderoso no Império Solar, não deu nenhuma resposta. Era
um pai desesperado.
Nesta
hora, ninguém estava prestando atenção em Gucky. Nos seus olhos se
lia estupefação. Ele que superava em inteligência a quase todos os
homens, sentia em seu instinto que, aqui, onde os fatos concretos
deviam ser analisados com toda clareza, ainda restavam muitas
sombras. Não podia dizer ao certo o que o inquietava, mas seu
desassossego era tão grande que uma resolução desesperada tomava
corpo dentro dele. Deixou o escritório de Rhodan em companhia de
Reginald Bell, de John Marshall e de Fellmer Lloyd.
E logo
depois, Gucky se teleportou. O fato não causou espanto a nenhum dos
três, pois o rato-castor não gostava nada de andar a pé, e todos
sabiam disso. Mas ninguém podia imaginar que fosse rematerializar-se
na central do espaçoporto.
Seu
inesperado aparecimento assustou a todos. Em qualquer outra situação,
Gucky começaria com suas brincadeiras, mas desta vez nem pensou
nisso.
— Quando
parte a primeira nave para Vênus? — perguntou.
— Vênus
e Marte estão fechados para qualquer vôo — foi a resposta que
recebeu. — A Don-4, uma nave cargueira, foi a última a partir,
exatamente há oito minutos, em direção a Vênus, com um
carregamento especial de medicamentos...
— Onde
estará esta Don-4 neste instante? — interrompeu Gucky. —
Depressa, mostre-me esta nave na tela.
O controle
de medição ligou a tela de ampliação e no mesmo instante surgiu
um minúsculo ponto luminoso, que pela posterior ampliação se
transformou num disco. A aparelhagem de medição calculou com
exatidão de metros a distância entre a Don-4 e o espaçoporto de
Terrânia. A Don-4 havia passado dos 15 mil quilômetros...
— Como,
onde está ele? — perguntou o oficial que estava prestando
informações, quando virou para falar com Gucky.
Mas até a
cintilação do ar já tinha desaparecido.
E Gucky
agora estava na Don-4, no posto de comando, ao lado do Capitão Eyk.
— Oba...
— mais do que isto o capitão não conseguiu dizer.
Sua
respiração estava ofegante e o suor lhe escorria da testa.
— Para
onde está voando, capitão? — Gucky era para todos os efeitos
tenente do Exército de Mutantes.
— Para a
Califórnia, tenente. O senhor quer...
— A que
distância de Vênus está a Califórnia?
— Um
momento, tenente, isto eu não sei de cor. Brothers, pergunte à
positrônica de bordo.
Um
oficial, muito jovem, fez três movimentos no computador e quase no
mesmo instante levou a mão para a fenda de saída. Seu trabalho deve
ter sido perfeito pois o jovem, com um pouco de orgulho na voz,
disse:
— Por
favor, aqui está o resultado — e entregou a tira perfurada para
Gucky.
Era
realmente um quadro singular ver um rato-castor, metido num vistoso
uniforme da Frota Solar, de pé no posto de comando da Don-4,
concentrando-se com seus grandes e belos olhos para poder entender a
tira perfurada do computador.
Aos
poucos, o único dente roedor de Gucky começou a aparecer.
— Vai
ser um sucesso!
Foi o que
ouviram os oficiais da central da Don-4.
— Vai
ser mesmo um recorde — continuou ele.
Depois,
erguendo a cabeça e enfiando no bolso a tira de papel, disse:
— Quando
é que entramos em transição?
— Como?
— perguntou Eyk assustado. — Entrar em transição só para estes
poucos milhões de quilômetros? Além disso, tenente, as transições
estão terminantemente proibidas.
Gucky
estava de fato arriscando tudo nesta operação. Quis dar a impressão
de ser maior do que era. A grossa cauda, em que se apoiava ajudava um
pouco nesta tentativa. Mas mesmo assim o seu tamanho pouco aumentava.
— Missão
especial, capitão! Tenho que chegar a Vênus pelo caminho mais
curto. Entre em transição. É uma ordem de um tenente do Exército
de Mutantes. Tenho que apresentar minhas credenciais?
Se havia
alguém que não tinha necessidade de credenciais, era o rato-castor.
E os serviços que prestara à causa do Império Solar eram fora de
série.
Se alguma
coisa fracassasse, nem mesmo sua grande amizade com Rhodan e Bell o
haveria de salvar de uma deprimente expulsão do Exército de
Mutantes.
— O
senhor tem que ir para Vênus, tenente? — o Capitão Eyk ainda
continuava perplexo. — Mas, já estamos nos aproximando de Vênus
e...
Com um
gesto espalhafatoso, Gucky o interrompeu.
— Que
diferença faz? Então vou me teleportar, capitão.
— Mas
não nesta distância toda.
— Por
que não? Posso sentar nesta poltrona, capitão? Gostaria de tirar
uma soneca, antes.
Gucky
tirou mesmo sua soneca e continuou dormindo até mesmo durante a
transição, que fora realizada dentro do sistema solar e registrada
por todas as estações em atividade.
Na Terra
estavam todos zangados e não menos zangados também estavam todos em
Plutão, no satélite Ganimedes e em meia centena de espaçonaves da
Frota Solar. Palavrões eram ouvidos, inclusive através dos canais
do intercomunicador. A instalação do hipercomunicador da Don-4
estava em atividade.
— Eu
sabia disso — respondia o Capitão Eyk, acordando o rato-castor que
cochilava tranqüilamente. — Alô, tenente, ouça um pouco o que
estão dizendo através das freqüências do hiper-rádio.
Gucky
ouviu por algum tempo e depois, com muita euforia, começou a falar:
— Missão
especial, isto justifica tudo. Capitão, você ainda mantém a
simples velocidade da luz?
Esta
última frase era do vocabulário de Bell. Gucky gostava do modo de
falar de Bell, um tanto rude, principalmente quando não havia
nenhuma razão para usá-lo.
Mas o
Capitão Eyk não estava com disposição para piadas. Estava
prevendo complicações. O que se ouvia no hiper-rádio deixava
antever o pior.
— Não,
tenente, não estamos mais voando com a velocidade da luz. Estamos
brecando fortemente. Mas terei que mandá-lo para os quintos dos
infernos se, devido a suas ordens, tiver mais aborrecimentos.
— De
acordo! — disse Gucky chiando.
Pouco
depois, o lugar, onde estivera o singular mutante, achava-se vago. As
lamúrias do Capitão Eyk, ele não as ouviu.
Da
instalação da positrônica, perguntava Brothers:
— Não
estará ele já em Vênus... este terrível rato-castor?
— Pergunte
a ele mesmo — respondeu Eyk, zangado. — E agora, por favor,
desligue este desgraçado aparelho de hiper-rádio. Não suporto mais
esta gritaria de todos os lados. Chame-me somente se for uma ligação
de Terrânia.
*
* *
Gucky
procurou cair de pé. Mas só o conseguindo, porém, na quarta
tentativa, deixando-se arrastar pelo chão.
— Nunca
mais farei isto — disse ele quase gemendo. — É meu primeiro e
último recorde em salto de distância por teleportação.
Mas Gucky
gozava de uma excelente constituição física. Enquanto a chuva da
noite se abatia sobre ele, notou que as forças dispendidas no
perigosíssimo salto de teleportação se refaziam paulatinamente.
Meia hora
após sua chegada a Vênus, estava pronto para qualquer coisa. Para
ele, não tinha importância alguma o local onde se achava. Era
questão de somenos importância. Agora procurava, por via
telepática, localizar Thomas Cardif, o filho de Perry. Rhodan.
Era sua
missão especial.
Apesar de
procurar muito, não o achou.
— Devia
ter trazido Harno — dizia se lamentando e desejando ter a seu lado
o singular ser esférico, o magnífico televisor vivo.
Harno,
porém, estava na Terra, não podendo por isto ouvir seu apelo devido
à grande distância.
A chuva
continuava forte. Gucky olhou para seu cronômetro e viu as horas.
Faltavam ainda quatro horas para a alvorada.
Quando,
apesar da chuva torrencial, começou a clarear o dia, Gucky estava
sentado sob a copa de uma frondosa palmeira, cujas folhas em leque,
de mais de um metro, lhe serviram de abrigo. O rato-castor já não
media mais um metro de comprimento. Todo encolhido, dava uma
impressão deprimente.
— Tomei
esta iniciativa e tenho que arcar com as conseqüências.
Tinha que
se lamentar realmente... Suas forças não eram suficientes para se
concentrar e poder ativar seus dons telepáticos. A procura de Thomas
Cardif não lhe estava rendendo quase nada, era um esforço inútil.
De
repente, teve um calafrio e seu corpo estremeceu todo. Soltou um
guincho curto e penetrante, como que horrorizado consigo mesmo.
— Agüentar
firme! — foi o comando que deu a si mesmo.
No mesmo
instante, o rato-castor era apenas um telepata. Reduziu a um mínimo
todas as outras funções mentais, concentrando suas forças
disponíveis nos dons telepáticos. Sentiu então como era enorme a
distância que o separava de Cardif e foi então que lhe veio ao
consciente que o filho de Rhodan não se encontrava mais em Vênus,
mas que tinha que estar no espaço, muito acima deste planeta.
Para os
leigos, parecia sempre uma brincadeira, quando um teleportador,
usando de seus dons, se transportava para bem longe. Poucos, porém,
sabiam que esforços ingentes eram necessários para se teleportar e
quais eram as condições indispensáveis para se atingir o objetivo
colimado, evitando assim um salto errado, quase sempre de
conseqüências desastrosas.
Thomas
Cardif se encontrava a bordo de uma espaçonave. Se esta nave se
movia a grande velocidade ou não, isto pouco lhe interessava, mas
tinha que fazer uma idéia mais nítida do espaço em que se
encontrava o filho de Rhodan, no momento.
O
rato-castor teve sorte, pois neste momento, os pensamentos de Thomas
Cardif se preocupavam exatamente com a pobre instalação de seu
camarote, principalmente com o fato de que não existia ali nenhum
meio de se comunicar com o resto da nave.
E foi
neste exato momento que Gucky se teleportou para uma nave cilíndrica
que dava voltas em torno de Vênus.
*
* *
Allan D.
Mercant, chefe da Segurança Solar, foi o primeiro na Terra a saber
da curta transição realizada pela Don-4. As transições achavam-se
suspensas, principalmente, dentro do sistema solar.
Mesmo
antes que a Don-4 chegasse até a Califórnia, para entregar um
medicamento especial para um de seus tripulantes em estado grave, Eyk
era chamado ao tele-comunicador.
— Será
que você bebeu demais? — disse Mercant severamente para o capitão.
— Não pode haver outra explicação para sua pequena, mas
irregular e altamente nociva transição?
O
nervosismo tomou conta do pobre Capitão Eyk. Gucky o deixara em má
situação. Seu ódio contra o rato-castor não tinha mais medidas.
Protestando, tentou defender a pele.
— Gucky,
o tenente do Exército de Mutantes...
— Um
momento, capitão — interrompeu-o muito cortesmente Mercant — o
rato-castor está a bordo de sua nave e...
— Esteve,
Sir, já deixou a Don-4 há tempo. Se é verdade o que disse, queria
ir para Vênus...
— Para
Vênus?... — repetiu Mercant horrorizado. — Quanto tempo faz que
ele desapareceu da Don-4?
O Capitão
Eyk perguntou o tempo exato na central de sua nave.
— Obrigado!
— disse o Marechal Mercant, desligando o telecomunicador.
— Que
coisa horrível... — disse para si mesmo o Capitão Eyk.
Porém, no
íntimo, estava contente, pois este incidente já havia passado.
*
* *
Com uma
única ordem, Reginald Bell mandou interromper toda a programação
de televisão do sistema solar, pelo menos das estações oficiais.
Estas emissoras perfaziam mais de cinqüenta por cento da cadeia de
televisão que, dia e noite, alimentava o Império Solar com
notícias, e programas educativos e recreativos.
Em
resposta ao boato de que Perry Rhodan, tivesse mandado sua esposa,
contrariando o conselho dos médicos, para uma perigosa missão em
Árcon, com o intuito de ficar livre dela, Reginald Bell havia
determinado a retransmissão inteira das cerimônias do sepultamento
de Thora no mausoléu da Lua.
Quem se
lembrasse daqueles momentos angustiantes, tinha que reconhecer que o
nojento boato tinha apenas o objetivo de difamar Rhodan, com a
imputação de um assassinato moral.
Esta
apresentação, de duas em duas horas, da solene cerimônia fúnebre
não deixava de ser um terrível golpe para Thomas Cardif. A câmara
mostrava, numa cena comovente, como Perry Rhodan, tremendamente
abatido pela morte da esposa, estendia a mão para o filho, que
estava a seu lado...
E a equipe
dos operadores de televisão foi realmente sensacional na técnica
que usou durante a filmagem. Os homens atrás das câmaras, num
instinto de repórteres, devem ter sentido a importância deste gesto
de Rhodan, pois com suas possantes teleobjetivas, fizeram a cena ser
presenciada bem de perto.
E estas
cenas foram transmitidas, na época, para milhões de seres humanos,
mostrando como Thomas Cardif, retrato fiel de seu pai, Rhodan,
recusou a mão que lhe fora estendida. Mas o operador filmou também
quando o temperamental Reginald Bell avançou de repente e afastou
Thomas Cardif de junto de seu pai, ficando ele, Bell, ao lado do
amigo desesperado, enquanto Thomas recuava uma fila para trás.
O próprio
Bell estava recebendo as confirmações dos horários de
retransmissão das diversas estações, quando chegou um chamado de
Allan D. Mercant.
— ...já
falei também com John Marshall. Está tão surpreso quanto eu. Gucky
deve estar de fato em Vênus.
— E o
que pretende ele em Vênus? — perguntou Reginald Bell, que não
estava em condições de selecionar as notícias mais importantes
para ter uma visão geral dos acontecimentos.
— Ora
essa, Bell! Que pretende Gucky em Vênus? Ele meteu na cabeça que
tem de pegar Thomas Cardif e trazê-lo para Terrânia — respondeu
Mercant.
Bell
conhecia Gucky muito melhor do que Mercant. O gorducho, de cabelos
ruivos, balançou a cabeça.
— Não,
não acredito, Mercant, mas... em todo caso... — qualquer um podia
perceber como Bell mudara um pouco de atitude. — Mas, por favor,
dê-me a distância exata do local de onde Gucky saltou para Vênus.
A resposta
veio logo, mas seguiu-se imediatamente a contrapergunta de Bell:
— Será
que você não entendeu mal? E Gucky saltou sem o uniforme espacial?
Mercant, não estou duvidando de suas faculdades mentais, mas tudo
isto parece tão utópico, não é?
— Tudo
parece utópico neste episódio, Sir. Já é estranho o fato de ele
ter ordenado ao capitão da Don-4 que executasse uma transição
dentro do sistema solar. Os estremecimentos estruturais provocaram
uma confusão tão grande nas medições, que todos os valores,
nestes poucos segundos, estão alterados.
— Bom,
isto é um assunto que diz respeito mais às estações — Bell não
queria perder tempo com coisas secundárias. — Para mim, é da
maior importância saber o que pretende este malandro. O chefe está
a par desta saída clandestina e proibida de Gucky?
— Não,
ainda não. Mas vou agora colocá-lo ciente de tudo.
— Este
trabalho, Mercant, você deixa comigo — atalhou-o Bell. —
Chame-me se tiver outras notícias importantes, marechal.
— Certamente,
Sir — respondeu Mercant, desligando.
Estava
convencido de que Bell não ia falar nada com Rhodan a respeito das
travessuras de Gucky. Se havia quem sempre estendia a mão para
encobrir as peraltices de Gucky, era exatamente Reginald Bell.
*
* *
Não se
ouvia o menor ruído, quando Gucky rematerializou-se no corredor do
camarote de Cardif, na Cok-I. Olhou imediatamente para os lados. O
amplo convés da nave cilíndrica estava bem iluminado, não havia
ninguém. Atrás do mutante, uma porta. A tabuleta indicava que era
ali a entrada para um depósito. Gucky era um exemplo vivo da
preguiça. Não gostava nada de andar, preferindo sempre usar seus
dons de teleportador. Estava agora com tanta preguiça de abrir a
porta com a força de seus músculos, que pôs em ação seu dom de
telecinese. E, como num passe de mágica, a porta se abriu com
suavidade e Gucky desapareceu no interior do depósito.
Ali também
estava tudo bem iluminado. O compartimento era um depósito médio,
lotado até os dois terços com mercadorias. Curioso como era, queria
saber o que havia nos recipientes de plástico. Mais uma teleportação
de poucos metros e ele estava no ponto mais alto do grande
empilhamento. Daí, via bem os fundos do depósito e foi olhando para
lá que avistou algo...
Assustou-se
com a visão de tantas bombas, que estavam bem empilhadas no fundo,
tendo na frente, para despistar, os recipientes de plástico.
— Puxa!
E a gente acredita sempre que os comerciantes das Galáxias só fazem
transação com goma de mascar, botões de camisa, pílulas para o
fígado e outras bugigangas. Mas, quando se olha atrás das cortinas,
encontram-se estas bombas, das quais uma só bastaria para arrasar
meio planeta. Mas, espere um pouco, seu Cokaze, que você não terá
muita “alegria”
com estas bombas!
O
rato-castor estava, tal qual um ser humano, em cima da grande pilha
de bombas. O movimento de suas patas dianteiras, Gucky havia
conseguido, imitando o andar dos homens. Aliás, tinha uma grande
queda para imitar e representar. Podia-se dizer que sua grande paixão
era brincar. Mas, conforme ele mesmo dizia, quase não tinha
oportunidade para isto, e poucas vezes dava cordas ao seu instinto
brincalhão. Mas aqui estava uma ótima oportunidade para isto.
E ele
pensou:
“Onde
há bomba, tem de haver também detonador por perto. Uma bomba sem o
dispositivo de disparo é um simples ferro velho. E essas bombas vão
mesmo ser reduzidas a simples ferro velho.”
Ouviu um
ruído. A porta, que ele havia fechado, foi aberta por cima. No mesmo
instante, Gucky captou os pensamentos de dois saltadores. Além
disso, captou também ondas de computação. Mas não as conseguia
entender, até que percebeu que eram vibrações incompletas de uma
máquina positrônica, que deviam originar-se de algum robô.
Num rápido
movimento, Gucky desapareceu atrás de um recipiente de plástico. O
que os dois saltadores estavam falando era de pouco interesse para
ele. Muito mais rendoso era pegar seus pensamentos e o que conseguiu
captar, obrigou-o a sorrir com o dente roedor à mostra.
O
patriarca Cokaze tinha dado ordens a sua gente de levar para a
escotilha de descarga um terço das grandes bombas, acompanhadas dos
respectivos detonadores, a fim de distribuir este perigoso material,
nas próximas horas, para as naves de sua frota, que formariam fila
ao lado da grande Cok-I.
Num mal
falado intercosmo, Gucky ouviu um dos saltadores:
— Eu
acho que nosso chefe quer extorquir o contrato de monopólio
comercial destes terranos, sob a ameaça de milhares de bombas
atômicas.
Os robôs
dos comerciantes das Galáxias começaram a remover os recipientes de
plástico que camuflavam as terríveis bombas nucleares. Gucky
preferiu abandonar o recinto, antes que fosse visto por algum
saltador.
Apesar de
sua inclinação natural para a brincadeira, Gucky — sem deixar de
ser prudente — era um estrategista ousado, que dificilmente
arriscava tudo.
Controlando
o pensamento dos dois saltadores, conseguiu saber onde estavam os
detonadores. O espaço interno de uma nave cilíndrica, como a de
Cokaze, era dominado por Gucky tão bem como o de um aparelho
arcônida. A fabricação em série destas naves cilíndricas exigia
que todas fossem rigorosamente iguais, como dois ovos.
Gucky não
correu nenhum risco, quando, dois andares mais para baixo,
teleportou-se e rematerializou-se no convés superior.
Lá estava
ele, pairando no ar, enquanto a seus pés, um saltador controlava o
trabalho de três robôs que embalavam, em recipientes especiais, à
prova de choque, os pesados detonadores das bombas nucleares.
Enquanto
suas forças telecinéticas o mantinham pairando no ar, Gucky estava
refletindo de que maneira poderia anular melhor a ação dos
detonadores. Não queria agir com violência, mas, talvez fosse
obrigado a isso!
Gucky
estava abusando de seus poderes paranormais. Neste momento, fazia uso
de seu mais novo poder: a hipnose...
O mercador
galáctico nem reparou que dois de seus três robôs de serviço
haviam “recebido”
de repente a ordem de tirarem os detonadores da caixa de plástico,
onde já estavam acondicionados, colocando-os onde estavam antes.
Foi um
trabalho de poucos minutos. Gucky, flutuando pouco abaixo da
cobertura, sorria feliz com seu dente roedor.
Depois
veio a segunda ordem do saltador hipnotizado. Cada robô saiu
carregando uma caixa com os detonadores, deixando o depósito, que
normalmente era trancado três vezes. Atrás dos dois robôs, vinha o
saltador hipnotizado, enquanto o terceiro robô fechou a porta,
travando-a novamente, sem perceber a presença de uma sombra de mais
ou menos um metro, que se assemelhava a um grande rato.
Gucky
rematerializou-se junto da escotilha de carga, esperando pelo
saltador hipnotizado e pelos dois robôs com as duas caixas contendo
os detonadores.
Gucky
estava preparado para qualquer incidente e para estender seu domínio
hipnótico também sobre outros saltadores. Mas felizmente não foi
preciso, não houve nenhum contratempo. O próprio saltador
hipnotizado acionou a escotilha, cuja porta interna se abriu
lentamente. Apareceram os robôs com as duas caixas.
— Mais
depressa! — ordenou Gucky ao saltador, que ainda estava sob total
domínio hipnótico.
Enquanto
isto, apesar de sua concentração, Gucky não se esqueceu de que o
simples movimento de abrir uma comporta haveria de produzir na
central da nave cilíndrica um alarme automático, luminoso ou
sonoro.
Gucky
ativou suas forças telepáticas, para controlar o que se passava na
central da Cok-I. Até o momento, o sinal de alarme ainda não tinha
tocado.
Abriu-se
então a comporta externa da escotilha de carga, depois que duas
bombas sugaram o ar no espaço entre as duas comportas.
Pela tela
de visão direta, o rato-castor viu quando os dois robôs atiraram ao
espaço, com toda força, as duas caixas com os detonadores
nucleares.
Mas as
duas caixas com a perigosa carga ainda não haviam saído totalmente.
A nave cilíndrica Cok-I, tinha, como todas as demais espaçonaves, o
envoltório de proteção.
De
repente, Gucky sentiu telepaticamente que o alarme havia soado na
central da Cok-I. Viu, de baixo para cima, o saltador hipnotizado que
estava ao lado dele, com uma expressão abobalhada, sem nenhum
movimento, sem mesmo ouvir o alarme.
O alarme
fez com que a comporta externa se fechasse no mesmo instante. Gucky
dispunha de poucos segundos para destruir os detonadores atômicos.
Suas poderosas forças telecinéticas entraram em ação, pegaram as
duas caixas que estavam caindo normalmente no envoltório de proteção
e as atiraram com uma velocidade inaudita de encontro ao mencionado
envoltório.
Estes
campos magnéticos de proteção, construídos principalmente com o
objetivo de aparar o choque de asteróides de pequenas dimensões,
reagiram normalmente ao impacto das duas caixas. Apenas não se podia
saber onde se localizavam as duas caixas de plástico. Quando o
comandante converteu em gás os dois invólucros retidos nos campos
magnéticos de proteção, foram os detonadores que se dissolveram.
Simultaneamente, este envoltório magnético, feito para suportar os
mais terríveis raios energéticos térmicos ou nucleares, foi
solicitado até o limite de seu poder de resistência.
Bem rente
da Cok-I, surgiram dois pontos minúsculos, de incandescência
amarelada, espalhando fortes raios de luz para todos os lados.
A confusão
surgida na central da Cok-I atingiu o próprio patriarca Cokaze, que
estava ali casualmente. Do posto de radiogoniometria vinham gritos
desesperados, dando conta de que os instrumentos de medição não
estavam funcionando. Através das telas panorâmicas irrompiam os
lampejos ofuscantes dos dois pontos de incandescência amarelada.
Ninguém conseguia saber o que tinha sido atirado de dentro da Cok-I
e o alarme deixava todo mundo nervoso.
Entre os
muitos que acorreram para a central, estava Thomas Cardif.
— Para
fora, para fora — ouviu o patriarca berrando.
Quatro ou
cinco saltadores deixaram a central correndo, menos Thomas Cardif.
— Para
fora, terrano — gritou o chefe da estirpe dos Cokaze, na cara de
Thomas.
Neste
momento, ali estava de novo o arcônida Thomas Cardif.
Um simples
gesto bastaria para lembrar
Cokaze de
que a mãe de Cardif era uma princesa arcônida.
— O que
está acontecendo?
E esta
pergunta não saiu dos lábios de Cokaze, mas de Thomas Cardif.
O
rato-castor não estava mais nas proximidades da escotilha de carga,
escondera-se numa cabina afastada da sala de comando da Cok-I e
“ouvia”
o que se passava na sala de comando.
— Todos
os comerciantes das Galáxias são tão nervosos assim? — continuou
Cardif, em tom de zombaria, depois de Cokaze não lhe responder. —
Então só me resta recomendar-lhes um curso na Academia Espacial da
Terra. Lá vocês podem aprender como não perder a cabeça numa hora
difícil. Meu Deus, quanto tempo vai levar ainda até que vocês
sejam donos dos seus cinco sentidos?
Com uma
fúria insana, que se confundia com ódio, o patriarca encarava o
jovem terrano. Soltou um palavrão em arcônida, fazendo o sangue
subir à cabeça de Thomas Cardif, que no primeiro rompante teve
ânsias de sacar sua pistola energética para atingir Cokaze. Mas
acabou controlando-se.
Do seu
esconderijo, Gucky estava recebendo tudo de primeira mão.
— Agradeço-lhe
pela “fina”
expressão, saltador — disse Thomas, frio e duro como aço. —
Como desertor, não espero receber outra coisa. Mas, já recuperou
seus cinco sentidos?
— Não
foi nenhum ataque — afirmou o saltador que estava de serviço na
goniometria. — Foi algo que não veio de fora. Tive impressão de
serem dois invólucros que flutuavam no envoltório magnético...
— E eu
venho ouvir isto somente agora? — interrompeu-o Cokaze gritando. —
Você disse dois invólucros... tem certeza de que eram dois...?
— Perfeitamente,
senhor, duas peças e acho que vinham da escotilha maior de carga.
— Arcônida,
venha comigo.
Dizendo
isto, o patriarca saiu correndo na frente.
Agachado e
imóvel em seu esconderijo, Gucky sorria feliz. A brincadeira lhe
dava ótima disposição e quando pensava que as terríveis bombas,
que estavam três andares abaixo, seriam agora totalmente
inofensivas, sentia vontade até de assobiar de alegria.
Continuou
mantendo contato com Cokaze e Cardif. A suspeita do patriarca tinha
razão de ser. Cokaze temia pelos detonadores de suas bombas
atômicas.
Já
estavam chegando ao depósito camuflado, garantido por três sistemas
de travamento, onde se guardavam as bombas e os detonadores, Cokaze
na frente e Cardif atrás.
— Vazio,
vazio... pelos deuses do espaço, tudo vazio! Não pode ser verdade!
Onde está Foggzi, com seus três robôs? Foggzi, Foggzi!
Mas Foggzi
não estava em condições de responder. Ainda estava sob forte
controle hipnótico, parado diante da escotilha de carga. Seus olhos
petrificados encaravam a comporta interna, sem nada ver. Atrás dele,
os dois robôs de serviço esperavam rígidos, como era natural em
máquinas automatizadas.
Alguns
minutos mais tarde, localizaram Foggzi em seu estado hipnótico. A
notícia chegou até o patriarca que, ofegante de tanto correr, foi
até a escotilha maior. O estado de Foggzi lhe era um mistério.
Gucky, em
seu esconderijo, se contorcia de rir.
Neste
mesmo tempo, Thomas Cardif tentava fazer com que o patriarca
compreendesse que, dentro de sua Cok-I, devia haver um dos elementos
do Exército de Mutantes de Perry Rhodan.
Cokaze não
se atrevia mais a zombar dos mutantes, e recebeu com certo temor as
ponderações do terrano.
— Então
vamos procurá-lo, arcônida — disse resoluto.
— Permita-me
perguntar-lhe antes, o que você pretendia fazer com estas bombas
atômicas, saltador?
— Queria
dar um ultimato a Rhodan: ou o monopólio comercial para minha
estirpe ou a destruição total da Terra, Vênus e Marte. Mas acho
que isto não vai agradar muito a você, terrano, não é? —
indagou Cokaze, ao ver a cara fechada de Cardif, diante de tamanho
horror.
— Não,
saltador, não pode agradar nem ao diabo. Mas uma coisa eu lhe digo:
com estes meios não dominará Rhodan. Vocês, comerciantes
galácticos, são e continuarão sendo leigos em tudo que diz
respeito aos terranos. Ainda estão muito longe de conhecerem este
grande povo da Terra. A raça terrana é a mais firme e determinada
do Universo.
— Por
que você não ficou com os terranos, se os aprecia tanto? — disse
o velho patriarca, meio admirado, meio enraivecido.
— Será
que você precisa ouvir mais uma vez, patriarca? Já se esqueceu de
que Perry Rhodan é o assassino de minha mãe?
— Acabe
de uma vez com esta história sem cabimento — atalhou Cokaze em tom
de irritado. — Qual destes mutantes você acha que está a bordo de
minha nave?
— Procurem
vocês mesmos! — disse Thomas Cardif, tremendamente decepcionado. —
Se acha, saltador, que eu ando atrás de uma quimera ou de um
fantasma, por que você finge então estar do meu lado? Não se
esqueça de quem foi minha mãe e também não se esqueça de que
você não passa de um mercador galáctico, Cokaze.
O arcônida
estava de novo se confrontando com o saltador. E mais uma vez, o
comerciante das Galáxias se curvou perante o orgulhoso arcônida. Um
jovem, nascido para líder, com determinação e inteligência,
apenas ainda não bem amadurecido, estava ali de pé, diante do velho
e experimentado patriarca, olhando para o saltador, como se fosse seu
servo.
— Não
estique o arco demais, arcônida — disse o patriarca.
Gucky
estava ouvindo tudo isto telepaticamente. O fato de quererem
procurá-lo, não o assustava. Vênus não estava tão longe assim.
Um salto bastaria para o teleportar ao planeta. Não tinha mais nada
que fazer aqui.
O chefe
havia proibido expressamente levar Thomas Cardif para Terra de
maneira violenta e Gucky não ia desobedecer a uma ordem de Rhodan.
Concentrou-se
e partiu de volta para Vênus.

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