quarta-feira, 24 de agosto de 2016

P-089 - A Grande Hora de Gucky - Kurt Brand [Parte 2]

Puxa! — exclamou Atlan descontente. — Acho que Bell haveria de comparar esta fundamentação jurídica com algo parecido com chiclete. Mas se eu tentar dar uma forma mais técnica, é capaz de surgir um jurista para afirmar que o cérebro positrônico fez um julgamento errado. O que devo fazer é informar Rhodan do acontecido.

* * *

Cokaze expôs ao melhor jurista de sua estirpe a resposta do cérebro de Árcon.
Seus olhos febricitavam de expectativa. Frio, Cardif estava sentado ao lado do patriarca.
O jurista Zutre, especialista neste assunto, estava em situação de dar na hora seu comentário a respeito.
Senhor — disse ele num leve sorriso — os deuses talvez podem ter aprovado e ratificado estes parágrafos que impedem o cérebro de intervir na política interna. Mas, o mais interessante nesta resposta é a alegação de que Thomas Cardif, aliás, de que o procedimento de Thomas Cardif está em contradição com as leis de Árcon. Esta afirmativa é uma frase vazia e, na realidade, diz apenas que a tutela de Árcon, sobre este pequeno reino estelar, representa nada mais que uma declaração para fins imediatistas, sem maiores riscos de responsabilidade.
Cokaze se afastou do jurista. Quando se defrontou novamente com Cardif, havia nos olhos do saltador uma pergunta visível.
Saltador — disse Thomas Cardif, ainda com o mesmo tom inflexível de voz — preciso de um local onde, sem ser perturbado, possa transmitir minha proclamação para o Império Solar. Seus transmissores de hipercomunicação têm a potência suficiente para cobrir com bom volume todas as estações da Terra?
Senhor — disse Cokaze cofiando sua barba semi-aparada — a Terra vai ouvir perfeitamente sua proclamação.

* * *

Quando a proclamação de Thomas Cardif chegou à Terra, a estação de hiper-rádio de Terrânia pensou que se tratasse de uma brincadeira, mas o chefe da estação, alarmado, viu a coisa com outros olhos e estabeleceu contato com Rhodan, via ligação direta de alarme.
Senhor — disse ele nervoso, sem ao menos esperar que a figura de Rhodan aparecesse — neste momento Thomas Cardif acaba de transmitir uma proclamação, através da qual se apresenta como o novo administrador da Terra.
Apareceu então o rosto de Rhodan na tela, seus olhos tinham a expressão da tranqüilidade.
Por que você está assim tão excitado? — foi a pergunta que Rhodan lhe fez. — Por favor, dê-me a proclamação toda, quando Thomas Cardif a tiver terminado. Estou esperando.
Rhodan apertou o botão especial, desligando o aparelho de videofone. Bell, Freyt e Mercant olhavam ansiosos para ele.
As frentes de combate começam a se definir — foi seu comentário.
3



O sistema solar teve duas grandes sensações.
A primeira: a proclamação de Cardif estourou como uma bomba e horas mais tarde, quando já havia escoado a sensação do impacto, irrompe a segunda sensação:
O administrador não reagira!
O governo do Império Solar não tomou conhecimento oficial das alterações verificadas em Marte e Vênus.
Oito horas e cinco minutos depois que Thomas Cardif havia se proclamado o novo administrador, a grande barragem do Amazonas, perto de Manaus, voou pelos ares.
Vinte minutos depois disso, explodiram as usinas do Niger. Bombas de porte médio, carregadas com T.N.T. arrancaram tudo do lugar. Três minutos depois desses atos de sabotagem, duas instalações de laminação também foram destruídas na Lua.
A partir daí, era um atentado após outro. A última notícia era sempre pior do que a anterior. A Terra, a Lua, até mesmo o gélido Plutão e os satélites dos grandes planetas haviam se transformado num pandemônio. Não somente as instalações governamentais de todo o sistema solar, mas mesmo os edifícios civis eram destruídos. Fábricas particulares, centrais elétricas, instalações estatais, centros de alta pesquisa... nada escapava à onda de loucura.
Os jornais se transformaram em panfletos. Os telejornais pareciam filmes de terror... As catástrofes desfilavam perante a Humanidade perplexa.
Até mesmo o cidadão mais comodista e preguiçoso perdia seu marasmo e começava a pedir socorro. Por toda a parte as sabotagens seguiam trazendo desespero.
Apenas em Marte e em Vênus havia relativa calma, embora também aí as bombas explodissem e milhares de pessoas perdiam tudo que possuíam. Apesar disso, a situação nesses dois planetas era bem melhor que em outra parte.
Quatorze horas depois da dinamitação das ciclópicas barragens no rio Amazonas, perto de Manaus, os alicerces do Império Solar estavam já bastante abalados!
Todos se levantaram contra Rhodan. A população desvairada exigia sua cabeça e aplaudia o advento de Thomas Cardif.
A era de Rhodan já havia passado. Ele, que não queria envelhecer, tinha de desaparecer, sair de cena. Esta era a voz geral em toda a parte, não apenas em Terrânia.
Em Terrânia havia censura nos meios de informação. Ninguém podia sair ou entrar na cidade. O imenso espaçoporto estava vazio. Não se via uma só das naves esféricas. Há três horas atrás, decolara a última espaçonave, a Drusus. Estava agora dando voltas em torno da Terra, acompanhada de outras cem naves. Os aparelhos do tipo Estado, de apenas cem metros de diâmetro, voavam todos a cinco mil metros de altura, podendo assim ser muito bem reconhecidos do chão.
Era a primeira resposta de Perry Rhodan à insensatez da população que, de uma hora para outra, saiu de suas cavernas, ameaçando meio mundo.
A imprensa, com exceção de pequenos jornais da situação, chamavam a esta demonstração de ditadura rhodaniana.
Mas Perry Rhodan, o homem de expressão marcante e de olhos castanhos de incrível magnetismo pessoal, manteve estóico silêncio para com a opinião pública. Ficara realmente impressionado com a inaudita onda de sabotagem, que o pegou de surpresa. Quando se sentia apto para enfrentá-la, aconteceu outra coisa inaudita: a sabotagem desapareceu como que a toque mágico.
Cokaze, o patriarca dos saltadores, havia se comunicado com Rhodan, exigindo autorização para aterrissagem às 14 horas e 30 minutos.
Ele “exige” a autorização — disse Bell. — Veja como estão as coisas...!
Havia sempre uma ponta de malícia, quando Reginald Bell se expressava assim com reticências.
Sentado à sua escrivaninha, Rhodan examinava as pilhas de mensagens recém-chegadas. O nervoso vaivém de Bell no escritório não o perturbava. Apenas uma vez, Rhodan disse em tom fraternal:
Você também pode trabalhar um pouco, gorducho. Não se sente muito bem hoje, não é?
O primeiro ímpeto de Bell foi dar uma resposta bem dura, mas ainda teve tempo de compreender o que Rhodan queria dizer. Dominando-se disse apenas:
O que há de novo? Será que teremos finalmente uma notícia boa?
Exatamente, olhe, leia aqui, por favor — disse Rhodan passando-lhe uma das mensagens.
Bell, de olhos arregalados e fungando terrivelmente, meteu o dedo entre o colarinho engomado e o pescoço, como se lhe faltasse ar.
Puxa! A isso você chama de boa notícia, Perry? Depois de amanhã, convocação extraordinária do Parlamento, através do Conselho dos Senadores?
Perfeitamente! E não me interessa nem hoje nem depois de amanhã saber que alguns deputados estão se encantando com o pensamento de verem Thomas Cardif como novo administrador. Aconteça o que acontecer, teremos nossos deveres a cumprir, e estes deveres exigem que estejamos à altura das maiores crises e dificuldades. Antes de mais nada, vou tomar todas as providências para que depois de amanhã seja votada a prorrogação da Lei de Calamidade Pública.
Você não perde o bom humor, hein, Perry?
Pelo contrário, não resta em mim mais nada de humor. Estou falando com objetividade. Precisamos desta prorrogação do estado de emergência e, desta vez, vou consegui-la do Parlamento, Bell. Não tenha dúvida.
Reginald não disse nada. Apenas fez um aceno de cabeça.
Rhodan foi lembrado de que já eram 14 horas e 30 minutos. Acompanhado dos três filhos mais velhos, Cokaze já estava esperando na ante-sala.
John Marshall, o mais competente dos mutantes, introduziu os quatro saltadores. Rhodan os convidou a sentar nas poltronas em volta da mesa redonda. Sentaram sem pressa nenhuma, nunca perdendo de vista os olhos de Rhodan. Conforme suas informações, era ele o mais importante. Em contrapartida, não davam nenhuma atenção a Bell, muito menos a John Marshall que estava lendo seus pensamentos, como num livro aberto.
No momento, estava Marshall instruindo Rhodan, que possuía forças telepáticas, embora em menor escala, sobre as intenções de Cokaze. Foi por esta troca telepática que Rhodan ficou sabendo que seu filho se encontrava a bordo da Cok-I.
Sim, terrano, nossa vida difere muito pouco da de vocês — começou o patriarca dos saltadores. — Um dia, somos visitados pela sorte, outro, somos vítimas do azar. Parece que as coisas não andam muito boas para o Império Solar, nem para seu governo, mas minha estirpe estaria disposta a tudo fazer para ajudá-los, caso cheguemos a um acordo quanto ao monopólio comercial. Temos mais ou menos quatro mil espaçonaves cilíndricas em Marte e Vênus, Rhodan. São aparelhos bem equipados com tripulação de alta especificação e experiência. Com nosso apoio, seu governo ficaria resguardado de uma iminente destruição.
Foi a exposição mais cínica e petulante que Rhodan e Bell tiveram que ouvir. Sem o mínimo escrúpulo, Cokaze fazia suas proposições.
Os filhos de Cokaze meneavam a cabeça em sinal de apoio às palavras do pai. Nenhum deles ainda havia se externado sobre o assunto. Para isto seria necessário que o chefe do clã desse consentimento. Mas do que qualquer outro povo, os mercadores galácticos eram muito rigorosos na manutenção destes velhos costumes.
Saltador — começou Rhodan impassível, enquanto Bell tamborilava com as pontas dos dedos no espaldar da poltrona — em toda a minha longa vida, sempre pautei minhas relações com outros povos numa amizade sincera e respeitosa, e por isso me alegro em ver na estirpe de Cokaze bons amigos. Foi-me grato avaliar o grau de sua estima, pelo fato de seu interesse em me apoiar, como administrador do Império Solar, de uma deposição através do Parlamento. Gostaria de poder lhes mostrar minha gratidão pela forma como vocês o desejam. Mas, como o senhor mesmo acaba de salientar, minha posição é muito melindrosa. E unicamente por este motivo, não estou em condições, no momento, de manter conversações sobre a questão do monopólio comercial. E mais ainda: minha posição como administrador foi seriamente abalada por esta série doida, suicida e inexplicada de atos de sabotagem, pois o governo não conseguiu prender um único terrorista. Saltador, lamento profundamente não lhe poder dizer outra coisa.
Neste momento, Marshall entrou em contato telepático com Rhodan:
O saltador está fervendo de raiva, Sir. Pensa em não sair deste aposento sem levar o contrato assinado. Está refletindo se já está na hora de nos dizer que Marte e Vênus estão praticamente em seu poder.
Rhodan, vou deixar de lado, por enquanto, sua pouca disposição para entrar em conversação com nossa gente, os comerciantes das Galáxias — respondeu Cokaze, num tom mais ríspido. — Não lhe resta outra alternativa, administrador. Não menospreze o perigo que irrompeu contra você na pessoa de Thomas Cardif...
Um simples desertor — falou Rhodan, serenamente.
Seu filho, Rhodan! — gritou Cokaze bem alto.
Meu filho, saltador? — Rhodan deu um sorriso amargo. — Você se engana Cokaze. Um Rhodan nunca será um desertor. Portanto Thomas Cardif não pode ser um Rhodan, talvez, porém, um arcônida degenerado. Isto eu não posso nem quero discutir.
Sua esposa não foi uma arcônida? — perguntou o atrevido saltador.
Bell, de um salto, se levantou da poltrona, Marshall fez a mesma coisa. Somente Rhodan foi quem não mostrou a menor reação. Ele, o modelo perfeito do autodomínio, apenas sorriu. Mas seus olhos castanhos cintilavam. Inclinou-se levemente para frente. Veio depois o surpreendente aceno da cabeça.
Sim — disse confirmando — minha mulher era arcônida. Que bom você ter me lembrado isto, saltador Cokaze.
Os quatro mercadores galácticos estremeceram, como se cada um deles tivesse levado uma forte chicotada. Rhodan também não lhes deixou tempo para se desculparem.
Levantou-se.
Saltador, já são 14 horas e 48 minutos. Meus robôs vão levá-los de volta ao espaçoporto. Às 15 horas e 10 minutos receberá permissão para decolagem, em vigência até 15 horas e 15 minutos. Desejo-lhe tudo de bom, Cokaze.
De braços cruzados no peito, ficou olhando para eles, que cabisbaixos e calados deixavam o escritório, até que a porta se fechou.

* * *

Os agentes de Cokaze não dormiam no ponto...
O patriarca, depois de seu insucesso com Perry Rhodan, de quem se tornara o maior inimigo, só tinha em mente uma coisa: anexar o Império Solar à Federação dos Estados de Árcon e fazer com que sua estirpe fosse a única privilegiada a ter o direito de exportação e de importação no sistema solar.
Thomas Cardif era-lhe apenas uma peça no jogo, um meio para um fim. Enquanto este rapaz lhe podia ser útil, tratava-o com deferência e fingia dar muita atenção às suas propostas. Na realidade, porém, toda a atividade de Cokaze visava apenas ao próprio interesse.
Após a curta audiência com Rhodan, voltou Cokaze numa viagem relâmpago para Vênus. Mobilizou todos os agentes que possuía na Terra. A série de sabotagens, com o intuito de minar o prestígio de Rhodan, continuaria com uma violência dez vezes maior. Pelo menos esta era a vontade de Thomas Cardif.
Mas isto é assunto meu, terrano — disse-lhe desembaraçadamente o patriarca dos saltadores.
Cokaze simplesmente não podia compreender ou não podia se acostumar com a idéia de que um rapaz, sem ser perguntado, tinha sempre que dar seus palpites.
Cardif sorria com ar de zombaria e aí é que mostrava grande semelhança com seu pai.
Claro que é assunto seu, é coisa que você já devia saber, mas não sabe, infelizmente. Por exemplo: nem sabe por que Rhodan mantém em quatro lugares distintos da Terra cerca de cem mil homens aquartelados e prontos para entrar em ação. Por acaso, seus agentes já descobriram o que Rhodan tenciona com esta enorme reserva?
Rhodan, Rhodan e sempre de novo Rhodan. Já não consigo mais ouvir este nome — esbravejou o patriarca. — Este Rhodan é a maior desgraça e o maior perigo para o Universo.
Por que você fica tão nervoso assim, Cokaze? — perguntou Cardif com toda calma. — Basta para você apenas um hiper-rádio e dentro de dois ou três dias muitos milhares de espaçonaves de outras estirpes se juntarão a você e então ninguém mais falará deste Império Solar. Por que você não os chama em seu auxílio?
Porque só um terrano pode pensar numa bobagem desta — respondeu o velho líder do clã.
Caso convocasse outras estirpes para ajudá-lo, teria que dividir com eles sua preciosa presa e isto não agradava a Cokaze.
Bem — disse Cardif tranqüilo, pagando na mesma moeda — digamos que sou um terrano bobo. Mas, ao invés desta série de sabotagens, que não levam a nada, poderia tentar influenciar os deputados e senadores para que eles...
Nem todos se chamam Thomas Cardif!
Esta frase, dita num ímpeto de raiva, Cokaze não podia mais desfazer.
Você quer dizer que nem todos são traidores como eu, não é, saltador? Mas o fato é que os mais responsáveis, os parlamentares, principalmente, não estão muito contentes com Rhodan. Com um trabalho bem inteligente e uma propaganda bem articulada consegue-se muito mais que com esta estúpida onda de violência. Você nunca me perguntou por que motivo eu desertei. Vou contar-lhe, embora você não se tenha interessado em saber.
Contra o parecer oficial dos médicos, Perry Rhodan mandou minha mãe para Árcon, a fim de tratar com o regente robotizado da compra de cem cruzadores. Nesta missão, ela, que já estava desenganada pelos médicos, acabou morrendo.
Cokaze, isto bem espalhado na Terra, numa campanha de hábil propaganda, vai custar a cabeça de Rhodan. Com isto, ele será destituído do cargo de administrador e talvez processado. Um assunto deste mexe muito com os homens e principalmente com as mulheres, e a influência das mulheres na Terra é muito maior do que vocês possam imaginar.
Só com estes meios é que se pode combater Rhodan. Temos que atacá-lo exatamente onde ele é vulnerável, no seu calcanhar de Aquiles.”
Mas, Cardif, sua afirmação de que Rhodan tenha mandado sua esposa conscientemente para a morte não pode ser verdade.
Não pode ser verdade? Não pode ser verdade, como, saltador? Foi este exatamente o motivo que me levou a quebrar meu juramento de fidelidade ao Império Solar. Por este motivo me insurgi contra tudo e contra todos, para destruir o assassino de minha mãe. Este é o único sentido de minha vida, é a única coisa que quero conseguir. Somente quando tiver destruído Perry Rhodan, poderei morrer tranqüilo.
O saltador afastou de sua frente a pilha de papel que estava na mesa. Fitou o jovem desertor com mais atenção. Sentiu um arrepio, diante daquela expressão de ódio, acumulada nos olhos de Thomas Cardif. Era um homem carregado de ódio, da cabeça aos pés, como jamais havia visto. E este homem havia feito a maior acusação contra seu pai: a de ter assassinado sua mãe.
Não, Cardif, não posso acreditar numa acusação desta. Não consigo me libertar dos olhos castanhos de Rhodan, neles não se pode aninhar sentimento de ódio, muito menos de morte, mas, de qualquer maneira... — e um sorriso repugnante aflorou em seu resto — de qualquer maneira, a idéia é muito boa. Sim, vai acabar arruinando Rhodan. Está certo, Cardif, vinte e quatro horas antes da reunião plenária do Congresso, meus agentes vão fazer circular na Terra estes boatos.
E mais uma coisa! Não se esqueçam dos mutantes de Rhodan, estes homens dotados de poderes incríveis. Há alguns que conseguem passar através de paredes, outros desaparecem repentinamente num lugar e surgem no mesmo instante a milhares e milhares de quilômetros dali.
Só isto? — disse Cokaze com um sorriso zombeteiro. — Já ouvi falar nisso, mas acho que noventa por cento é exagero.
Não há nenhum exagero, Cokaze. Dou-lhe até um conselho muito sério: não fique com a sua Cok-I aqui em Vênus. Vá com ela para bem longe no espaço. Mesmo lá, não estará cem por cento garantido contra a ação dos mutantes de Perry Rhodan.
Mais uma vez, Cokaze estava profundamente impressionado com as palavras de Cardif. No íntimo, ele percebia que o jovem desertor conhecia muito melhor as condições do diminuto Império Solar do que todos os seus bem pagos técnicos.
E o que se sabia até hoje do Império Solar?
Enquanto ninguém conseguia descobrir a posição da Terra, a Galáxia inteira vivia assustada com incríveis exageros. Muitos acreditavam piamente que Rhodan era muito mais poderoso que todo o Império Arcônida.
E você, Cardif, não tem medo dos onipotentes mutantes de Rhodan? — era patente a ironia do saltador.
Medo é isto aqui! — gritou Cardif, fazendo com que Cokaze se levantasse de um salto.
Num gesto rápido, o jovem desertor sacou duas pistolas de raios energéticos, apontando-as na direção do assustado patriarca.
É assim que me preparo para enfrentar os mutantes de Rhodan. Felizmente, conheço pessoalmente alguns deles e os que não conheço, percebo logo pelo jeito e pela aparência. Aí então será eu ou ele. Pois não tenho dúvida de que Rhodan tudo fará para me pegar vivo. Sou mais importante para ele do que você com seus quatro mil aparelhos...
Complexo de inferioridade, você não tem felizmente, não é, Thomas? — disse o patriarca sorrindo.
Thomas parece que não deu importância à indireta, mas certamente não a esqueceu. Abstraído em seus pensamentos, olhava para o chão. Sentia o olhar penetrante do velho saltador, mas fez como se não visse.
Cokaze — recomeçou ele — somente espalhando boatos, não venceremos Rhodan. Por que você está deixando suas quatro mil naves enferrujando em Marte e Vênus? Somente o comércio de mercadorias entre Marte e Vênus haveria de lhe dar tanto lucro, que seria suficiente ao menos para cobrir as despesas da manutenção imediata.
Arcônida...!
Pela primeira vez, Cokaze chamara o tenente desertor pelo nome de arcônida. Este rapaz, que pretendia usar mais como um meio para seus fins, revelava-se cada vez mais um estrategista frio e inteligente, descobrindo não apenas as vantagens para seu lado, mas explorando principalmente os pontos fracos e vulneráveis do adversário.
Cardif não reparou na expressão de surpresa no rosto de Cokaze.
Vou dar minha contribuição para a queda de Rhodan — disse com a maior calma. — Duas horas antes da reunião do Congresso em Terrânia, vou fazer importantíssima proclamação à Terra, através do hipercomunicador. Cokaze, você me empresta seu transmissor de hiper-rádio?
É claro, mas tenho que exigir, saber antes do conteúdo de sua mensagem, arcônida...
Os olhos avermelhados de Cardif se encheram de um brilho diferente. Em tom de voz diferente, chegou bem perto do patriarca.
Acho que já lhe dei provas mais do que suficientes de que não trabalho contra seus interesses, embora não consiga me libertar da suspeita de que a estirpe de Cokaze só vê em mim um meio para seus objetivos. Saltador, não permita que esta suspeita se transforme em realidade. Sou arcônida e estou certo de que o cérebro robotizado me dará razão. Conte com este fato como coisa certa, e oriente todos os seus atos neste sentido. Assim ficaremos amigos.
Virou-se de repente, deixando o grande camarote de Cokaze, antes que o velho patriarca, surpreso e assustado, estivesse em condições de responder às palavras marcantes de Cardif.
Santos deuses do espaço!”, pensou ele preocupado. “Será que este jovem desertor consegue ler meus pensamentos?

* * *

A Frota Solar não estava mais voando em torno da Terra. Havia tomado posição próximo a Marte, Terra e Vênus.
No momento, Marte e Vênus estavam praticamente perdidos. Quem quisesse dizer o contrário, estaria mentindo a si mesmo. Os senhores de Marte e de Vênus eram, sem dúvida alguma, os mercadores galácticos da estirpe de Cokaze. Mas a Terra não lhes pertencia, e a Frota Solar ainda existia e continuava a ser um instrumento mortífero supereficiente, contra qualquer inimigo.
A ordem que a frota do Império Solar recebera determinava expressamente que não se impedisse o tráfego entre Marte e Vênus, mas que fosse cortada, com todos os meios, toda tentativa de aproximação da Terra por parte de qualquer nave cilíndrica.
Rhodan ainda era senhor absoluto de sua Frota Espacial, bem como da Segurança Solar e do Exército de Mutantes. Estes últimos ainda não se haviam esquecido de como foram tratados nos debates parlamentares. Seus sentimentos para com os deputados não podiam ser dos mais amistosos, no entanto, nenhum deles tivera a idéia de agir por conta própria para lavar a honra denegrida.
Seguindo o exemplo da Segurança Solar, que estava agindo sob o comando do Marechal Allan D. Mercant, os mutantes entraram também de corpo e alma na defesa perigosa do diminuto Império Solar. Seu primeiro dever era descobrir o que Cokaze tencionava fazer nos próximos dias e até que ponto ia a influência de Thomas Cardif, nos acontecimentos. Receberam de Perry Rhodan a missão especial de tomarem conta de Thomas Cardif e de trazer o desertor para a Terra.
Gucky, o rato-castor, estava nesta missão especial. Aliás, ao menos neste comando, era o único teleportador e telecineta. Os dons de John Marshall se concentravam no âmbito da telepatia, enquanto Fellmer Lloyd era o superespecialista em orientação e localização.
Apenas ouvindo, Reginald Bell estava sentado num canto, com cara de tristonho. Não podia acompanhar o comando, pois tinha que, com Rhodan e os colaboradores mais íntimos, estar presente aos debates no Congresso.
Perry — falou Gucky, interrompendo, sem muita cerimônia, o administrador. — Será que o gorducho não pode participar do comando até amanhã? Prometo-lhe devolvê-lo são e salvo para a operação matadouro, sem nenhum atraso.
Que negócio é este de operação matadouro, Gucky? — perguntou-lhe Rhodan meio surpreso.
Perry estava demasiadamente preocupado com as medidas que tinha que tomar.
Também não sei não, chefe. O gorducho não pára de pensar em matadouro e quando fala a respeito usa nomes tão horríveis que fico vermelho de vergonha...
Neste momento, Reginald Bell deu um pulo de sua poltrona, procurando atingir Gucky. Porém, no meio do caminho ficou pregado no chão, não conseguindo mais nem levantar um pé.
Gucky estava se divertindo com suas forças telecinéticas e escolhera como vítima exatamente seu amigo Bell.
Mas Perry, francamente não entendo o que Bell quer dizer com a palavra matadouro, mas acho que se refere à sessão do Parlamento, temendo que vocês todos levem na cabeça no meio destes deputados malucos. Será que vai ser tão perigoso assim?
Perry fitou os olhos sinceros de Gucky. O inteligente ser não estava agora brincando, como costumava fazer. Apreensivo e muito sério, o rato-castor continuava ao lado de Rhodan. Mantinha uma amizade muito profunda não só para com Rhodan, mas também para com Bell. Estaria pronto, a qualquer momento, a dar sua vida por eles, como já dera provas evidentes disso, mais de uma vez.
Não, Gucky — respondeu Rhodan. — Não se pode desistir de uma hora para outra de uma obra de mais de setenta anos. Lutaremos para poder continuar cumprindo nossos deveres. Nós todos juntos já travamos muitas batalhas amargas e vamos agüentar mais esta do Parlamento...
Neste instante, uma das muitas instalações de alarme com ligação direta das centrais para o escritório de Rhodan deu o sinal de urgência. Do alto-falante soou a voz do Marechal Allan D. Mercant.
Sir, comunicados simultâneos das agências noticiosas de Berlim, Oslo, Nova Iorque, Tóquio, Xangai, Sidney, Calcutá e Cidade do Cabo dão conta de que, de um momento para outro, irrompeu uma onda de boatos. Em tais boatos, o administrador é acusado por ter enviado sua esposa para Árcon, em flagrante oposição ao parecer dos médicos... e outras coisas mais, Sir.
Rhodan empalideceu. Por muitos segundos manteve os olhos cerrados.
Obrigado, Mercant, está bem. Neste momento, Reginald Bell já estava conseguindo mover-se. O rato-castor o havia liberado da força de sua telecinese. Devagar, Bell se aproximou de seu amigo, botando-lhe a mão no ombro.
Escute aqui — disse Bell muito pausado e em tom muito íntimo — estamos ainda em condições de nos defender e vamos nos defender, Perry. Permita que eu me encarregue de responder a esta calúnia. Acho que não está precisando de mim no momento, não é? Você me poderá achar facilmente através das centrais, que certamente sabem onde me encontro. E você Gucky, capriche, traga Thomas para cá, mas para mim, ouviu? Você está lendo meus pensamentos, não é?
Gucky interrompeu seu amigo que estava muito abatido.
Se foi Cardif quem engendrou tudo isto, Bell, acho então que não é bom trazê-lo para você. O desertor deve ser tratado imediatamente por uma junta médica.
De repente, Rhodan se ergueu.
Ninguém vai pôr a mão nele. A ação contra Thomas Cardif está cancelada. Também não vou responder ao que ele espalhou pelo mundo como boato.
Mas eu vou — atalhou-o Bell. — E neste particular, não aceito nenhuma ordem sua, Perry. Até hoje sempre me abstive de mexer com Cardif, esperando e sempre esperando inutilmente. A mesma mão, que até hoje o protegeu, vai levá-lo agora para onde ele deve ir. E eu lhe prometo que Thomas chegará ao ponto certo. Estamos claros neste ponto, Perry?
Rhodan, o homem mais poderoso no Império Solar, não deu nenhuma resposta. Era um pai desesperado.
Nesta hora, ninguém estava prestando atenção em Gucky. Nos seus olhos se lia estupefação. Ele que superava em inteligência a quase todos os homens, sentia em seu instinto que, aqui, onde os fatos concretos deviam ser analisados com toda clareza, ainda restavam muitas sombras. Não podia dizer ao certo o que o inquietava, mas seu desassossego era tão grande que uma resolução desesperada tomava corpo dentro dele. Deixou o escritório de Rhodan em companhia de Reginald Bell, de John Marshall e de Fellmer Lloyd.
E logo depois, Gucky se teleportou. O fato não causou espanto a nenhum dos três, pois o rato-castor não gostava nada de andar a pé, e todos sabiam disso. Mas ninguém podia imaginar que fosse rematerializar-se na central do espaçoporto.
Seu inesperado aparecimento assustou a todos. Em qualquer outra situação, Gucky começaria com suas brincadeiras, mas desta vez nem pensou nisso.
Quando parte a primeira nave para Vênus? — perguntou.
Vênus e Marte estão fechados para qualquer vôo — foi a resposta que recebeu. — A Don-4, uma nave cargueira, foi a última a partir, exatamente há oito minutos, em direção a Vênus, com um carregamento especial de medicamentos...
Onde estará esta Don-4 neste instante? — interrompeu Gucky. — Depressa, mostre-me esta nave na tela.
O controle de medição ligou a tela de ampliação e no mesmo instante surgiu um minúsculo ponto luminoso, que pela posterior ampliação se transformou num disco. A aparelhagem de medição calculou com exatidão de metros a distância entre a Don-4 e o espaçoporto de Terrânia. A Don-4 havia passado dos 15 mil quilômetros...
Como, onde está ele? — perguntou o oficial que estava prestando informações, quando virou para falar com Gucky.
Mas até a cintilação do ar já tinha desaparecido.
E Gucky agora estava na Don-4, no posto de comando, ao lado do Capitão Eyk.
Oba... — mais do que isto o capitão não conseguiu dizer.
Sua respiração estava ofegante e o suor lhe escorria da testa.
Para onde está voando, capitão? — Gucky era para todos os efeitos tenente do Exército de Mutantes.
Para a Califórnia, tenente. O senhor quer...
A que distância de Vênus está a Califórnia?
Um momento, tenente, isto eu não sei de cor. Brothers, pergunte à positrônica de bordo.
Um oficial, muito jovem, fez três movimentos no computador e quase no mesmo instante levou a mão para a fenda de saída. Seu trabalho deve ter sido perfeito pois o jovem, com um pouco de orgulho na voz, disse:
Por favor, aqui está o resultado — e entregou a tira perfurada para Gucky.
Era realmente um quadro singular ver um rato-castor, metido num vistoso uniforme da Frota Solar, de pé no posto de comando da Don-4, concentrando-se com seus grandes e belos olhos para poder entender a tira perfurada do computador.
Aos poucos, o único dente roedor de Gucky começou a aparecer.
Vai ser um sucesso!
Foi o que ouviram os oficiais da central da Don-4.
Vai ser mesmo um recorde — continuou ele.
Depois, erguendo a cabeça e enfiando no bolso a tira de papel, disse:
Quando é que entramos em transição?
Como? — perguntou Eyk assustado. — Entrar em transição só para estes poucos milhões de quilômetros? Além disso, tenente, as transições estão terminantemente proibidas.
Gucky estava de fato arriscando tudo nesta operação. Quis dar a impressão de ser maior do que era. A grossa cauda, em que se apoiava ajudava um pouco nesta tentativa. Mas mesmo assim o seu tamanho pouco aumentava.
Missão especial, capitão! Tenho que chegar a Vênus pelo caminho mais curto. Entre em transição. É uma ordem de um tenente do Exército de Mutantes. Tenho que apresentar minhas credenciais?
Se havia alguém que não tinha necessidade de credenciais, era o rato-castor. E os serviços que prestara à causa do Império Solar eram fora de série.
Se alguma coisa fracassasse, nem mesmo sua grande amizade com Rhodan e Bell o haveria de salvar de uma deprimente expulsão do Exército de Mutantes.
O senhor tem que ir para Vênus, tenente? — o Capitão Eyk ainda continuava perplexo. — Mas, já estamos nos aproximando de Vênus e...
Com um gesto espalhafatoso, Gucky o interrompeu.
Que diferença faz? Então vou me teleportar, capitão.
Mas não nesta distância toda.
Por que não? Posso sentar nesta poltrona, capitão? Gostaria de tirar uma soneca, antes.
Gucky tirou mesmo sua soneca e continuou dormindo até mesmo durante a transição, que fora realizada dentro do sistema solar e registrada por todas as estações em atividade.
Na Terra estavam todos zangados e não menos zangados também estavam todos em Plutão, no satélite Ganimedes e em meia centena de espaçonaves da Frota Solar. Palavrões eram ouvidos, inclusive através dos canais do intercomunicador. A instalação do hipercomunicador da Don-4 estava em atividade.
Eu sabia disso — respondia o Capitão Eyk, acordando o rato-castor que cochilava tranqüilamente. — Alô, tenente, ouça um pouco o que estão dizendo através das freqüências do hiper-rádio.
Gucky ouviu por algum tempo e depois, com muita euforia, começou a falar:
Missão especial, isto justifica tudo. Capitão, você ainda mantém a simples velocidade da luz?
Esta última frase era do vocabulário de Bell. Gucky gostava do modo de falar de Bell, um tanto rude, principalmente quando não havia nenhuma razão para usá-lo.
Mas o Capitão Eyk não estava com disposição para piadas. Estava prevendo complicações. O que se ouvia no hiper-rádio deixava antever o pior.
Não, tenente, não estamos mais voando com a velocidade da luz. Estamos brecando fortemente. Mas terei que mandá-lo para os quintos dos infernos se, devido a suas ordens, tiver mais aborrecimentos.
De acordo! — disse Gucky chiando.
Pouco depois, o lugar, onde estivera o singular mutante, achava-se vago. As lamúrias do Capitão Eyk, ele não as ouviu.
Da instalação da positrônica, perguntava Brothers:
Não estará ele já em Vênus... este terrível rato-castor?
Pergunte a ele mesmo — respondeu Eyk, zangado. — E agora, por favor, desligue este desgraçado aparelho de hiper-rádio. Não suporto mais esta gritaria de todos os lados. Chame-me somente se for uma ligação de Terrânia.

* * *

Gucky procurou cair de pé. Mas só o conseguindo, porém, na quarta tentativa, deixando-se arrastar pelo chão.
Nunca mais farei isto — disse ele quase gemendo. — É meu primeiro e último recorde em salto de distância por teleportação.
Mas Gucky gozava de uma excelente constituição física. Enquanto a chuva da noite se abatia sobre ele, notou que as forças dispendidas no perigosíssimo salto de teleportação se refaziam paulatinamente.
Meia hora após sua chegada a Vênus, estava pronto para qualquer coisa. Para ele, não tinha importância alguma o local onde se achava. Era questão de somenos importância. Agora procurava, por via telepática, localizar Thomas Cardif, o filho de Perry. Rhodan.
Era sua missão especial.
Apesar de procurar muito, não o achou.
Devia ter trazido Harno — dizia se lamentando e desejando ter a seu lado o singular ser esférico, o magnífico televisor vivo.
Harno, porém, estava na Terra, não podendo por isto ouvir seu apelo devido à grande distância.
A chuva continuava forte. Gucky olhou para seu cronômetro e viu as horas. Faltavam ainda quatro horas para a alvorada.
Quando, apesar da chuva torrencial, começou a clarear o dia, Gucky estava sentado sob a copa de uma frondosa palmeira, cujas folhas em leque, de mais de um metro, lhe serviram de abrigo. O rato-castor já não media mais um metro de comprimento. Todo encolhido, dava uma impressão deprimente.
Tomei esta iniciativa e tenho que arcar com as conseqüências.
Tinha que se lamentar realmente... Suas forças não eram suficientes para se concentrar e poder ativar seus dons telepáticos. A procura de Thomas Cardif não lhe estava rendendo quase nada, era um esforço inútil.
De repente, teve um calafrio e seu corpo estremeceu todo. Soltou um guincho curto e penetrante, como que horrorizado consigo mesmo.
Agüentar firme! — foi o comando que deu a si mesmo.
No mesmo instante, o rato-castor era apenas um telepata. Reduziu a um mínimo todas as outras funções mentais, concentrando suas forças disponíveis nos dons telepáticos. Sentiu então como era enorme a distância que o separava de Cardif e foi então que lhe veio ao consciente que o filho de Rhodan não se encontrava mais em Vênus, mas que tinha que estar no espaço, muito acima deste planeta.
Para os leigos, parecia sempre uma brincadeira, quando um teleportador, usando de seus dons, se transportava para bem longe. Poucos, porém, sabiam que esforços ingentes eram necessários para se teleportar e quais eram as condições indispensáveis para se atingir o objetivo colimado, evitando assim um salto errado, quase sempre de conseqüências desastrosas.
Thomas Cardif se encontrava a bordo de uma espaçonave. Se esta nave se movia a grande velocidade ou não, isto pouco lhe interessava, mas tinha que fazer uma idéia mais nítida do espaço em que se encontrava o filho de Rhodan, no momento.
O rato-castor teve sorte, pois neste momento, os pensamentos de Thomas Cardif se preocupavam exatamente com a pobre instalação de seu camarote, principalmente com o fato de que não existia ali nenhum meio de se comunicar com o resto da nave.
E foi neste exato momento que Gucky se teleportou para uma nave cilíndrica que dava voltas em torno de Vênus.

* * *

Allan D. Mercant, chefe da Segurança Solar, foi o primeiro na Terra a saber da curta transição realizada pela Don-4. As transições achavam-se suspensas, principalmente, dentro do sistema solar.
Mesmo antes que a Don-4 chegasse até a Califórnia, para entregar um medicamento especial para um de seus tripulantes em estado grave, Eyk era chamado ao tele-comunicador.
Será que você bebeu demais? — disse Mercant severamente para o capitão. — Não pode haver outra explicação para sua pequena, mas irregular e altamente nociva transição?
O nervosismo tomou conta do pobre Capitão Eyk. Gucky o deixara em má situação. Seu ódio contra o rato-castor não tinha mais medidas. Protestando, tentou defender a pele.
Gucky, o tenente do Exército de Mutantes...
Um momento, capitão — interrompeu-o muito cortesmente Mercant — o rato-castor está a bordo de sua nave e...
Esteve, Sir, já deixou a Don-4 há tempo. Se é verdade o que disse, queria ir para Vênus...
Para Vênus?... — repetiu Mercant horrorizado. — Quanto tempo faz que ele desapareceu da Don-4?
O Capitão Eyk perguntou o tempo exato na central de sua nave.
Obrigado! — disse o Marechal Mercant, desligando o telecomunicador.
Que coisa horrível... — disse para si mesmo o Capitão Eyk.
Porém, no íntimo, estava contente, pois este incidente já havia passado.

* * *

Com uma única ordem, Reginald Bell mandou interromper toda a programação de televisão do sistema solar, pelo menos das estações oficiais. Estas emissoras perfaziam mais de cinqüenta por cento da cadeia de televisão que, dia e noite, alimentava o Império Solar com notícias, e programas educativos e recreativos.
Em resposta ao boato de que Perry Rhodan, tivesse mandado sua esposa, contrariando o conselho dos médicos, para uma perigosa missão em Árcon, com o intuito de ficar livre dela, Reginald Bell havia determinado a retransmissão inteira das cerimônias do sepultamento de Thora no mausoléu da Lua.
Quem se lembrasse daqueles momentos angustiantes, tinha que reconhecer que o nojento boato tinha apenas o objetivo de difamar Rhodan, com a imputação de um assassinato moral.
Esta apresentação, de duas em duas horas, da solene cerimônia fúnebre não deixava de ser um terrível golpe para Thomas Cardif. A câmara mostrava, numa cena comovente, como Perry Rhodan, tremendamente abatido pela morte da esposa, estendia a mão para o filho, que estava a seu lado...
E a equipe dos operadores de televisão foi realmente sensacional na técnica que usou durante a filmagem. Os homens atrás das câmaras, num instinto de repórteres, devem ter sentido a importância deste gesto de Rhodan, pois com suas possantes teleobjetivas, fizeram a cena ser presenciada bem de perto.
E estas cenas foram transmitidas, na época, para milhões de seres humanos, mostrando como Thomas Cardif, retrato fiel de seu pai, Rhodan, recusou a mão que lhe fora estendida. Mas o operador filmou também quando o temperamental Reginald Bell avançou de repente e afastou Thomas Cardif de junto de seu pai, ficando ele, Bell, ao lado do amigo desesperado, enquanto Thomas recuava uma fila para trás.
O próprio Bell estava recebendo as confirmações dos horários de retransmissão das diversas estações, quando chegou um chamado de Allan D. Mercant.
...já falei também com John Marshall. Está tão surpreso quanto eu. Gucky deve estar de fato em Vênus.
E o que pretende ele em Vênus? — perguntou Reginald Bell, que não estava em condições de selecionar as notícias mais importantes para ter uma visão geral dos acontecimentos.
Ora essa, Bell! Que pretende Gucky em Vênus? Ele meteu na cabeça que tem de pegar Thomas Cardif e trazê-lo para Terrânia — respondeu Mercant.
Bell conhecia Gucky muito melhor do que Mercant. O gorducho, de cabelos ruivos, balançou a cabeça.
Não, não acredito, Mercant, mas... em todo caso... — qualquer um podia perceber como Bell mudara um pouco de atitude. — Mas, por favor, dê-me a distância exata do local de onde Gucky saltou para Vênus.
A resposta veio logo, mas seguiu-se imediatamente a contrapergunta de Bell:
Será que você não entendeu mal? E Gucky saltou sem o uniforme espacial? Mercant, não estou duvidando de suas faculdades mentais, mas tudo isto parece tão utópico, não é?
Tudo parece utópico neste episódio, Sir. Já é estranho o fato de ele ter ordenado ao capitão da Don-4 que executasse uma transição dentro do sistema solar. Os estremecimentos estruturais provocaram uma confusão tão grande nas medições, que todos os valores, nestes poucos segundos, estão alterados.
Bom, isto é um assunto que diz respeito mais às estações — Bell não queria perder tempo com coisas secundárias. — Para mim, é da maior importância saber o que pretende este malandro. O chefe está a par desta saída clandestina e proibida de Gucky?
Não, ainda não. Mas vou agora colocá-lo ciente de tudo.
Este trabalho, Mercant, você deixa comigo — atalhou-o Bell. — Chame-me se tiver outras notícias importantes, marechal.
Certamente, Sir — respondeu Mercant, desligando.
Estava convencido de que Bell não ia falar nada com Rhodan a respeito das travessuras de Gucky. Se havia quem sempre estendia a mão para encobrir as peraltices de Gucky, era exatamente Reginald Bell.

* * *

Não se ouvia o menor ruído, quando Gucky rematerializou-se no corredor do camarote de Cardif, na Cok-I. Olhou imediatamente para os lados. O amplo convés da nave cilíndrica estava bem iluminado, não havia ninguém. Atrás do mutante, uma porta. A tabuleta indicava que era ali a entrada para um depósito. Gucky era um exemplo vivo da preguiça. Não gostava nada de andar, preferindo sempre usar seus dons de teleportador. Estava agora com tanta preguiça de abrir a porta com a força de seus músculos, que pôs em ação seu dom de telecinese. E, como num passe de mágica, a porta se abriu com suavidade e Gucky desapareceu no interior do depósito.
Ali também estava tudo bem iluminado. O compartimento era um depósito médio, lotado até os dois terços com mercadorias. Curioso como era, queria saber o que havia nos recipientes de plástico. Mais uma teleportação de poucos metros e ele estava no ponto mais alto do grande empilhamento. Daí, via bem os fundos do depósito e foi olhando para lá que avistou algo...
Assustou-se com a visão de tantas bombas, que estavam bem empilhadas no fundo, tendo na frente, para despistar, os recipientes de plástico.
Puxa! E a gente acredita sempre que os comerciantes das Galáxias só fazem transação com goma de mascar, botões de camisa, pílulas para o fígado e outras bugigangas. Mas, quando se olha atrás das cortinas, encontram-se estas bombas, das quais uma só bastaria para arrasar meio planeta. Mas, espere um pouco, seu Cokaze, que você não terá muita “alegria” com estas bombas!
O rato-castor estava, tal qual um ser humano, em cima da grande pilha de bombas. O movimento de suas patas dianteiras, Gucky havia conseguido, imitando o andar dos homens. Aliás, tinha uma grande queda para imitar e representar. Podia-se dizer que sua grande paixão era brincar. Mas, conforme ele mesmo dizia, quase não tinha oportunidade para isto, e poucas vezes dava cordas ao seu instinto brincalhão. Mas aqui estava uma ótima oportunidade para isto.
E ele pensou:
Onde há bomba, tem de haver também detonador por perto. Uma bomba sem o dispositivo de disparo é um simples ferro velho. E essas bombas vão mesmo ser reduzidas a simples ferro velho.”
Ouviu um ruído. A porta, que ele havia fechado, foi aberta por cima. No mesmo instante, Gucky captou os pensamentos de dois saltadores. Além disso, captou também ondas de computação. Mas não as conseguia entender, até que percebeu que eram vibrações incompletas de uma máquina positrônica, que deviam originar-se de algum robô.
Num rápido movimento, Gucky desapareceu atrás de um recipiente de plástico. O que os dois saltadores estavam falando era de pouco interesse para ele. Muito mais rendoso era pegar seus pensamentos e o que conseguiu captar, obrigou-o a sorrir com o dente roedor à mostra.
O patriarca Cokaze tinha dado ordens a sua gente de levar para a escotilha de descarga um terço das grandes bombas, acompanhadas dos respectivos detonadores, a fim de distribuir este perigoso material, nas próximas horas, para as naves de sua frota, que formariam fila ao lado da grande Cok-I.
Num mal falado intercosmo, Gucky ouviu um dos saltadores:
Eu acho que nosso chefe quer extorquir o contrato de monopólio comercial destes terranos, sob a ameaça de milhares de bombas atômicas.
Os robôs dos comerciantes das Galáxias começaram a remover os recipientes de plástico que camuflavam as terríveis bombas nucleares. Gucky preferiu abandonar o recinto, antes que fosse visto por algum saltador.
Apesar de sua inclinação natural para a brincadeira, Gucky — sem deixar de ser prudente — era um estrategista ousado, que dificilmente arriscava tudo.
Controlando o pensamento dos dois saltadores, conseguiu saber onde estavam os detonadores. O espaço interno de uma nave cilíndrica, como a de Cokaze, era dominado por Gucky tão bem como o de um aparelho arcônida. A fabricação em série destas naves cilíndricas exigia que todas fossem rigorosamente iguais, como dois ovos.
Gucky não correu nenhum risco, quando, dois andares mais para baixo, teleportou-se e rematerializou-se no convés superior.
Lá estava ele, pairando no ar, enquanto a seus pés, um saltador controlava o trabalho de três robôs que embalavam, em recipientes especiais, à prova de choque, os pesados detonadores das bombas nucleares.
Enquanto suas forças telecinéticas o mantinham pairando no ar, Gucky estava refletindo de que maneira poderia anular melhor a ação dos detonadores. Não queria agir com violência, mas, talvez fosse obrigado a isso!
Gucky estava abusando de seus poderes paranormais. Neste momento, fazia uso de seu mais novo poder: a hipnose...
O mercador galáctico nem reparou que dois de seus três robôs de serviço haviam “recebido” de repente a ordem de tirarem os detonadores da caixa de plástico, onde já estavam acondicionados, colocando-os onde estavam antes.
Foi um trabalho de poucos minutos. Gucky, flutuando pouco abaixo da cobertura, sorria feliz com seu dente roedor.
Depois veio a segunda ordem do saltador hipnotizado. Cada robô saiu carregando uma caixa com os detonadores, deixando o depósito, que normalmente era trancado três vezes. Atrás dos dois robôs, vinha o saltador hipnotizado, enquanto o terceiro robô fechou a porta, travando-a novamente, sem perceber a presença de uma sombra de mais ou menos um metro, que se assemelhava a um grande rato.
Gucky rematerializou-se junto da escotilha de carga, esperando pelo saltador hipnotizado e pelos dois robôs com as duas caixas contendo os detonadores.
Gucky estava preparado para qualquer incidente e para estender seu domínio hipnótico também sobre outros saltadores. Mas felizmente não foi preciso, não houve nenhum contratempo. O próprio saltador hipnotizado acionou a escotilha, cuja porta interna se abriu lentamente. Apareceram os robôs com as duas caixas.
Mais depressa! — ordenou Gucky ao saltador, que ainda estava sob total domínio hipnótico.
Enquanto isto, apesar de sua concentração, Gucky não se esqueceu de que o simples movimento de abrir uma comporta haveria de produzir na central da nave cilíndrica um alarme automático, luminoso ou sonoro.
Gucky ativou suas forças telepáticas, para controlar o que se passava na central da Cok-I. Até o momento, o sinal de alarme ainda não tinha tocado.
Abriu-se então a comporta externa da escotilha de carga, depois que duas bombas sugaram o ar no espaço entre as duas comportas.
Pela tela de visão direta, o rato-castor viu quando os dois robôs atiraram ao espaço, com toda força, as duas caixas com os detonadores nucleares.
Mas as duas caixas com a perigosa carga ainda não haviam saído totalmente. A nave cilíndrica Cok-I, tinha, como todas as demais espaçonaves, o envoltório de proteção.
De repente, Gucky sentiu telepaticamente que o alarme havia soado na central da Cok-I. Viu, de baixo para cima, o saltador hipnotizado que estava ao lado dele, com uma expressão abobalhada, sem nenhum movimento, sem mesmo ouvir o alarme.
O alarme fez com que a comporta externa se fechasse no mesmo instante. Gucky dispunha de poucos segundos para destruir os detonadores atômicos. Suas poderosas forças telecinéticas entraram em ação, pegaram as duas caixas que estavam caindo normalmente no envoltório de proteção e as atiraram com uma velocidade inaudita de encontro ao mencionado envoltório.
Estes campos magnéticos de proteção, construídos principalmente com o objetivo de aparar o choque de asteróides de pequenas dimensões, reagiram normalmente ao impacto das duas caixas. Apenas não se podia saber onde se localizavam as duas caixas de plástico. Quando o comandante converteu em gás os dois invólucros retidos nos campos magnéticos de proteção, foram os detonadores que se dissolveram. Simultaneamente, este envoltório magnético, feito para suportar os mais terríveis raios energéticos térmicos ou nucleares, foi solicitado até o limite de seu poder de resistência.
Bem rente da Cok-I, surgiram dois pontos minúsculos, de incandescência amarelada, espalhando fortes raios de luz para todos os lados.
A confusão surgida na central da Cok-I atingiu o próprio patriarca Cokaze, que estava ali casualmente. Do posto de radiogoniometria vinham gritos desesperados, dando conta de que os instrumentos de medição não estavam funcionando. Através das telas panorâmicas irrompiam os lampejos ofuscantes dos dois pontos de incandescência amarelada. Ninguém conseguia saber o que tinha sido atirado de dentro da Cok-I e o alarme deixava todo mundo nervoso.
Entre os muitos que acorreram para a central, estava Thomas Cardif.
Para fora, para fora — ouviu o patriarca berrando.
Quatro ou cinco saltadores deixaram a central correndo, menos Thomas Cardif.
Para fora, terrano — gritou o chefe da estirpe dos Cokaze, na cara de Thomas.
Neste momento, ali estava de novo o arcônida Thomas Cardif.
Um simples gesto bastaria para lembrar
Cokaze de que a mãe de Cardif era uma princesa arcônida.
O que está acontecendo?
E esta pergunta não saiu dos lábios de Cokaze, mas de Thomas Cardif.
O rato-castor não estava mais nas proximidades da escotilha de carga, escondera-se numa cabina afastada da sala de comando da Cok-I e “ouvia” o que se passava na sala de comando.
Todos os comerciantes das Galáxias são tão nervosos assim? — continuou Cardif, em tom de zombaria, depois de Cokaze não lhe responder. — Então só me resta recomendar-lhes um curso na Academia Espacial da Terra. Lá vocês podem aprender como não perder a cabeça numa hora difícil. Meu Deus, quanto tempo vai levar ainda até que vocês sejam donos dos seus cinco sentidos?
Com uma fúria insana, que se confundia com ódio, o patriarca encarava o jovem terrano. Soltou um palavrão em arcônida, fazendo o sangue subir à cabeça de Thomas Cardif, que no primeiro rompante teve ânsias de sacar sua pistola energética para atingir Cokaze. Mas acabou controlando-se.
Do seu esconderijo, Gucky estava recebendo tudo de primeira mão.
Agradeço-lhe pela “fina” expressão, saltador — disse Thomas, frio e duro como aço. — Como desertor, não espero receber outra coisa. Mas, já recuperou seus cinco sentidos?
Não foi nenhum ataque — afirmou o saltador que estava de serviço na goniometria. — Foi algo que não veio de fora. Tive impressão de serem dois invólucros que flutuavam no envoltório magnético...
E eu venho ouvir isto somente agora? — interrompeu-o Cokaze gritando. — Você disse dois invólucros... tem certeza de que eram dois...?
Perfeitamente, senhor, duas peças e acho que vinham da escotilha maior de carga.
Arcônida, venha comigo.
Dizendo isto, o patriarca saiu correndo na frente.
Agachado e imóvel em seu esconderijo, Gucky sorria feliz. A brincadeira lhe dava ótima disposição e quando pensava que as terríveis bombas, que estavam três andares abaixo, seriam agora totalmente inofensivas, sentia vontade até de assobiar de alegria.
Continuou mantendo contato com Cokaze e Cardif. A suspeita do patriarca tinha razão de ser. Cokaze temia pelos detonadores de suas bombas atômicas.
Já estavam chegando ao depósito camuflado, garantido por três sistemas de travamento, onde se guardavam as bombas e os detonadores, Cokaze na frente e Cardif atrás.
Vazio, vazio... pelos deuses do espaço, tudo vazio! Não pode ser verdade! Onde está Foggzi, com seus três robôs? Foggzi, Foggzi!
Mas Foggzi não estava em condições de responder. Ainda estava sob forte controle hipnótico, parado diante da escotilha de carga. Seus olhos petrificados encaravam a comporta interna, sem nada ver. Atrás dele, os dois robôs de serviço esperavam rígidos, como era natural em máquinas automatizadas.
Alguns minutos mais tarde, localizaram Foggzi em seu estado hipnótico. A notícia chegou até o patriarca que, ofegante de tanto correr, foi até a escotilha maior. O estado de Foggzi lhe era um mistério.
Gucky, em seu esconderijo, se contorcia de rir.
Neste mesmo tempo, Thomas Cardif tentava fazer com que o patriarca compreendesse que, dentro de sua Cok-I, devia haver um dos elementos do Exército de Mutantes de Perry Rhodan.
Cokaze não se atrevia mais a zombar dos mutantes, e recebeu com certo temor as ponderações do terrano.
Então vamos procurá-lo, arcônida — disse resoluto.
Permita-me perguntar-lhe antes, o que você pretendia fazer com estas bombas atômicas, saltador?
Queria dar um ultimato a Rhodan: ou o monopólio comercial para minha estirpe ou a destruição total da Terra, Vênus e Marte. Mas acho que isto não vai agradar muito a você, terrano, não é? — indagou Cokaze, ao ver a cara fechada de Cardif, diante de tamanho horror.
Não, saltador, não pode agradar nem ao diabo. Mas uma coisa eu lhe digo: com estes meios não dominará Rhodan. Vocês, comerciantes galácticos, são e continuarão sendo leigos em tudo que diz respeito aos terranos. Ainda estão muito longe de conhecerem este grande povo da Terra. A raça terrana é a mais firme e determinada do Universo.
Por que você não ficou com os terranos, se os aprecia tanto? — disse o velho patriarca, meio admirado, meio enraivecido.
Será que você precisa ouvir mais uma vez, patriarca? Já se esqueceu de que Perry Rhodan é o assassino de minha mãe?
Acabe de uma vez com esta história sem cabimento — atalhou Cokaze em tom de irritado. — Qual destes mutantes você acha que está a bordo de minha nave?
Procurem vocês mesmos! — disse Thomas Cardif, tremendamente decepcionado. — Se acha, saltador, que eu ando atrás de uma quimera ou de um fantasma, por que você finge então estar do meu lado? Não se esqueça de quem foi minha mãe e também não se esqueça de que você não passa de um mercador galáctico, Cokaze.
O arcônida estava de novo se confrontando com o saltador. E mais uma vez, o comerciante das Galáxias se curvou perante o orgulhoso arcônida. Um jovem, nascido para líder, com determinação e inteligência, apenas ainda não bem amadurecido, estava ali de pé, diante do velho e experimentado patriarca, olhando para o saltador, como se fosse seu servo.
Não estique o arco demais, arcônida — disse o patriarca.
Gucky estava ouvindo tudo isto telepaticamente. O fato de quererem procurá-lo, não o assustava. Vênus não estava tão longe assim. Um salto bastaria para o teleportar ao planeta. Não tinha mais nada que fazer aqui.
O chefe havia proibido expressamente levar Thomas Cardif para Terra de maneira violenta e Gucky não ia desobedecer a uma ordem de Rhodan.
Concentrou-se e partiu de volta para Vênus.

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