terça-feira, 30 de agosto de 2016

P-102 - A Divisão III Entra em Ação - Kurt Mahr [Parte 3]

Larry fez que sim, com o rosto zangado. Saíram logo depois do café. Ao que parecia, Ron combinara a saída com Zatok, sem que Larry o percebesse. É que Zatok e mais alguns ghameses se encontravam junto ao barco, e o nativo declarou com um orgulho inconfundível que fizera exatamente o que lhe haviam mandado. Ron elogiou-o e, mais uma vez, Larry percebeu que Ron Landry sabia lidar muito melhor com os ghameses do que ele mesmo.
Sem dizer uma palavra, Ron empurrou o barco para dentro da água. Larry saltou e sentou-se na proa.
Se Ron não quer abrir a boca”, pensou, “ele mesmo é quem deve dirigir o barco.”
Foi o que Ron fez. Gritou mais algumas palavras animadas para os ghameses, pôs em funcionamento o motor e fez o barco sair rapidamente para o mar aberto.
As horas foram passando. O sol subiu e espalhou um calor contra o qual não havia defesa, já que o barquinho não oferecia a menor sombra.
Finalmente Ron fez uma pausa. Já fazia seis horas que haviam perdido Killanak de vista. Ron desacelerou o motor e distribuiu mantimentos e bebidas tiradas de um pacote que Zatok devia ter preparado e colocado no barco. Enquanto faziam a ligeira refeição, não perderam uma palavra. Depois de algum tempo, Ron saltou do barco, a fim de refrescar-se na água. Larry ficou de vigia, para ver se havia um lidioque nas proximidades. Depois disso, a manobra foi invertida: Larry nadou um pouco e Ron ficou de vigia.
Após um pequeno descanso, prosseguiram a viagem. Mais quatro horas se passaram. Pelos cálculos de Larry, já deviam estar a mais de mil e trezentos quilômetros de Killanak. E ainda não sabia quais eram as intenções de Ron.
Devido à conduta de Ron, percebeu finalmente que se aproximavam do lugar de destino. Ron levantou-se e olhou em torno. Parecia estar muito seguro de si, pois fez cara de espanto, quando não descobriu imediatamente aquilo que estava procurando. Voltou a sentar-se e fez o barco percorrer mais um trecho.
Tornou a levantar-se. Porém Larry também já havia descoberto o ponto fosco que pairava bem ao longe, pouco acima da água, e, às vezes, emitia uma forte luminosidade, como se fosse de metal e refletisse a luz do sol.
Ron resmungou de satisfação, comprimiu a alavanca do acelerador até o fim e dirigiu-se ao local. Durante cinco minutos, o barco desenvolveu a velocidade máxima.
De repente o ponto começou a crescer rapidamente. Transformou-se numa pequena bola, e, logo depois, numa gigantesca esfera, que pairava pouco acima da água, sustentada por forças invisíveis, e cintilava à luz do sol.
Era a Empress of Arkon, a nave de abastecimentos. Larry ficou perplexo ao constatar que todas as conjeturas, feitas sobre a finalidade da excursão, ficavam muito longe da realidade...
O que estava fazendo a Empress of Arkon em pleno oceano, longe de qualquer ilha habitada?”, indagou-se mentalmente.
Ron tocou em seu ombro.
Chegamos — disse sem a menor necessidade. — Fique com os olhos abertos. Está bem?
Segurava um pequeno aparelho de comunicação, cujo tamanho não ultrapassava o das velhas caixas de fósforos. Larry ouviu-o dizer:
Tudo preparado?
Também entendeu a resposta:
Tudo preparado, sir.
Como está o ambiente?
Tudo “limpo”, sir. Fomos localizados durante a aproximação, mas no momento tudo está “limpo” em torno da nave, até onde alcançam nossos instrumentos.
E embaixo de vocês? — perguntou Ron com uma estranha entonação.
Embaixo também.
Ron Landry sorriu.
Muito bem. Podem começar! Tenho a meu lado uma pessoa que nem pode esperar para ver o que vocês trouxeram.

* * *

Richard Silligan sentiu o raio quente da arma térmica passar próximo de sua cabeça. Atirou-se para o lado, caiu, rolou por cima do ombro e voltou a pôr-se de pé.
A porta não ficava longe. O saltador perdera alguns preciosos segundos, pois não acreditava que um dos terranos tentasse seriamente empreender a fuga. Seu primeiro tiro, disparado sem pontaria, num momento de surpresa, passara longe de Richard. Mas o segundo quase o atingiu.
O terrano sabia que estaria perdido se a porta fosse uma daquelas que giravam pesadamente nos gonzos, pois, nesse caso, levaria mais tempo para abri-la do que o saltador gastaria para fazer boa pontaria. Apesar disso continuou a correr. Precisava conseguir.
No momento em que os ghameses e o saltador apareceram na praça, deu-se conta de que nenhum terrano jamais saberia da queda da nave auxiliar sobre o planeta Ghama, a não ser que ao menos um deles conseguisse abandonar a cidade submarina e alcançar o posto terrano. Os saltadores eram inimigos da Terra, por maior que fosse o número dos tratados celebrados entre as duas raças. Para os saltadores, qualquer terrano que caísse em suas mãos era um objeto precioso, que conforme as condições poderia revelar certos detalhes sobre coisas que a Terra procurava manter em segredo. Se caíssem nas mãos dos saltadores, nunca mais conseguiriam recuperar a liberdade.
Esta idéia deu novas forças a Richard, que correu em direção à porta. Escutou uma barulheira às suas costas. Os ghameses, que até então se haviam mantido em silêncio, começaram a movimentar-se. Richard os ouviu correrem pelo pavimento liso da praça.
Estavam atrás dele!
Num instante reconheceu a chance que isso lhe representava. Enquanto os ghameses procurassem pegá-lo, o saltador não poderia atirar. Não se atreveria a fazê-lo, pois as pequenas criaturas de pele marrom se encontravam na linha de tiro.
Richard não reduziu a corrida quando alcançou a parede. Bateu fortemente contra a pedra e, num movimento resoluto, pegou o fecho, puxando-o fortemente para cima. Procurou forçá-lo, e viu que a porta se movia lentamente.
Chegou o momento em que podia ver o que havia naquele compartimento. Não era propriamente uma sala. A janela, que Richard vira bem perto, na parede, não pertencia ao recinto. Tratava-se de um corredor estreito e escuro, que levava à parte central da cidade; só o diabo saberia dizer precisamente para onde.
Richard esgueirou-se pela porta semi-aberta e entrou no corredor. No mesmo instante, alguma coisa bateu fortemente contra a parede, do lado oposto da porta. Richard ouviu uma voz chorosa, quase histérica:
Leve-me consigo, Dick, pelo amor de Deus...!
Richard ficou duro de susto. Não era difícil reconhecer aquela voz. Dynah Langmuir encontrava-se do outro lado e procurava abrir o fecho.
Não podia deixá-la por lá. Voltou a abrir ligeiramente a porta, pôs a mão para fora, sem olhar, e agarrou o braço de Dynah. Puxou-a e, com um ligeiro olhar, percebeu que a primeira fila dos ghameses se encontrava a menos de dez metros.
Ainda bem que não sabiam mover-se com muita habilidade em chão firme! Sua corrida ficava reduzida a uma série de arrastões apressados, que parecia forçá-los ao extremo. Richard deu-se conta de que estaria em segurança, enquanto se limitassem a correr atrás dele. Mas provavelmente os ghameses — ou o saltador — logo se lembrariam de que a cidade dispunha de outros corredores, pelos quais poderiam cortar caminho e cercá-los.
Richard saiu correndo. Uma vez fechada a porta, o corredor ficou completamente às escuras. Richard vira que a galeria prosseguia pelo menos cem metros em linha reta. Bastava estender a mão para sentir qualquer obstáculo que surgisse à sua frente. Com a outra mão segurava o braço de Dynah, arrastando-a atrás de si. Esperava que a qualquer momento a luz penetrasse no corredor. Os ghameses já deviam ter chegado à porta, e por certo não hesitariam um instante em perseguir os dois fugitivos.
Mas, quando atingiram a primeira curva do corredor sem que os perseguidores aparecessem atrás deles, Richard acreditou que avaliara erroneamente a mentalidade dos ghameses ou que os nativos deviam ter encontrado outro caminho, pelo qual esperavam apoderar-se mais depressa dos fugitivos.
Richard aliviou a pressão sobre o braço de Dynah. Notou que a moça cambaleou e se encostou à parede, para apoiar-se melhor. Sua debilidade fez com que a raiva de Richard se desvanecesse.
O que foi que a senhora estava pensando? — perguntou em tom muito menos áspero do que pretendia.
Dynah soluçava.
Nada — respondeu. — Simplesmente não quis nada com esse barbudo nojento. O senhor devia ter visto seus olhos quando me fitou...!
Richard os vira, e sabia que Dynah não estava exagerando.
Está bem — disse um tanto desorientado. — Acho que juntos conseguiremos. Mas a senhora terá que fazer das tripas coração. Como se sente?
Miseravelmente mal — confessou Dynah. — Minhas pernas parecem de chumbo, os ombros doem e nem tenho coragem de levantar os braços.
Richard não pôde deixar de rir.
É uma situação formidável para se fugir de dez mil inimigos — disse em tom irônico. — Mas pode deixar por minha conta. Nós nos arranjaremos.
Estava convencido do contrário, mas achava preferível deixar que Dynah ficasse bem-humorada.
Venha; precisamos seguir adiante — disse em tom suave.
Voltou a segurá-la pelo braço, e ela não se opôs. Passaram pela curva, que o corredor descrevia nesse lugar, e descobriram que, mais à frente, a galeria descia suavemente.
Foi de lá que nós viemos — disse Richard e obrigou-se a soltar uma boa gargalhada.
Não se esforçaram para evitar o barulho. No corredor reinava um silêncio absoluto. Em nenhum lugar parecia haver perseguidores, nem à frente, nem atrás deles.
Gostaria de saber que truque eles inventaram”, pensou Richard.
Resolveu dobrar na primeira bifurcação que encontrassem. Se os ghameses procurassem adivinhar em que lugar os dois saíram do corredor, chegariam à conclusão de que era mais provável que tivessem seguido em linha reta. Não pretendia tornar as coisas tão fáceis para eles. Era provável que dispensassem menos atenção às saídas laterais que à principal.
A idéia era boa — apenas não havia corredores laterais. Ao menos nos primeiros trinta minutos, não encontraram nenhum. A confiança de Richard foi enfraquecendo.
Subitamente teve uma idéia que lhe deu novas esperanças. O corredor devia ter alguma finalidade. Ninguém constrói um corredor apenas para ligar dois pontos que já estão ligados por uma rua. Quando construíram a galeria, os ghameses talvez tivessem agido com uma intenção definida. Devia haver alguma bifurcação que levasse a outra saída.
Até então Richard se limitara a apalpar a parede que ficava à sua esquerda. Do outro lado, Dynah fazia o mesmo com a mão estendida.
Isso não basta”, concluiu mentalmente Richard. “É possível que por aqui haja portas menos toscas que as que encontramos na beira da rua.”
Calculava que, se alguém passasse apenas ligeiramente a mão pela parede, talvez deixasse de notar pequeníssimas fendas.
Richard parou.
O que houve? — perguntou Dynah em tom assustado.
Precisamos de luz — respondeu Richard. — Receio que só com as mãos não descubramos nada.
Tenho um isqueiro — disse Dynah. — Mas é pequeno.
É melhor que nada. Poderia fazer o favor de emprestar-me?
Ouviu Dynah remexer os bolsos de sua roupa.
Aqui está.
Richard colocou o isqueiro perto da parede e iluminou-a. A claridade produzida não era maior que a unha do dedo polegar. Para iluminar uma área de um metro quadrado, de tal forma que nada lhe escapasse, Richard calculou que levaria mais de uma hora.
Finalmente descobriu que poderia aumentar a eficiência do isqueiro se colocasse a mão perto dos raios térmicos, fazendo com que a mesma refletisse parte da luz verde irradiada para o lado. Com isso, ampliava a área a ser iluminada.
Na parede não havia nada de extraordinário. O corredor fora aberto, com os meios mais primitivos, em meio à rocha natural. O chão era razoavelmente plano. O teto era tão baixo que Richard se admirou de não ter esbarrado várias vezes no mesmo. Mas não descobriu o menor sinal de uma porta ou de algum mecanismo misterioso que pudesse levar a um corredor lateral.
O senhor acredita que jamais conseguiremos sair daqui? — perguntou Dynah, de repente.
Richard deu uma risada.
Não pretendo concluir meus dias de vida neste corredor — respondeu.
O senhor ri demais — disse a moça, em tom sério. — Não precisa infundir-me coragem. Ao menos não precisa infundir-me mais coragem do que o senhor tem. Sempre me sinto melhor se sei exatamente a quantas ando.
Richard engoliu em seco.
Sinto-me desolado porque a senhora descortina com tamanha facilidade os meus pensamentos — asseverou. — De qualquer maneira, tenho certeza de que não morreremos neste corredor. Se não descobrirmos nada, voltaremos e faremos o que o saltador mandar. Isso ainda será melhor que morrer de fome.
Voltou a examinar a parede. E, por estranho que possa parecer, justamente naquele instante descobriu aquilo que procurara durante todo o tempo: uma fenda finíssima, quase imperceptível, que corria verticalmente na parede e descrevia uma linha tão reta que, em hipótese alguma, se poderia ter formado naturalmente.
Muito tenso, seguiu-a com a luz débil. Encontrou o ponto situado pouco abaixo do teto onde esta descrevia um ângulo reto, correndo paralelamente ao teto por um certo trecho, e o lugar em que descrevia outro ângulo reto, para voltar a descer em vertical.
Dynah não vira nada.
Aqui está a porta! — disse Richard em tom indiferente.
Dynah correu para junto dele e examinou o lugar.
Richard entregou-lhe o isqueiro e pediu-lhe que o segurasse junto à parede. Procurou mover o pedaço da rocha destacado pela fenda. Não havia nenhuma maçaneta, nenhuma tramela, nenhum botão. Mas existiria uma possibilidade de movê-lo.
Richard pensou que bastava apenas empurrar a porta para dentro. Então encostou o corpo à mesma e empurrou com toda força. A parede não saiu do lugar. Richard esteve prestes a desistir. Mas, subitamente, ouviu um leve estalido nas proximidades do solo!
A porta começou a mover-se com facilidade. Richard, por pouco, não perdeu o equilíbrio. O pedaço da rocha deslocou-se para o lado de dentro, como se corresse sobre rolamentos bem lubrificados. Uma abertura surgiu na parede; dois caminhos estreitos surgiram pelos flancos do bloco de rocha empurrado para dentro. Um para a direita e outro para a esquerda.
Richard recuou. Não sabia por que de repente se sentia tão orgulhoso. Talvez fosse a proximidade de Dynah. De qualquer maneira, fez um gesto convidativo em direção à entrada, que subitamente surgira à sua frente, e olhou para Dynah, como se quisesse dizer: “Descobri isso para você. Entre e dê uma olhada.”
E foi assim que Dynah fez a descoberta que deveria ter sido reservada a ele. Em atitude um pouco hesitante, com a mão direita estendida para trás, como se quisesse que Richard a segurasse, passou pela abertura, a fim de olhar o que havia do outro lado. Richard viu-a inclinar-se para a frente. A cabeça desapareceu atrás do bloco de rocha.
Vendo a jovem imobilizar-se, assustou-se.
O que a fez ficar assim?”, perguntou-se mentalmente.
Pegou sua mão, tentando puxar a jovem para trás. Mas, no mesmo instante, Dynah virou a cabeça. Estava muitíssimo comovida.
Lá embaixo! — exclamou. — O vidro, Dick...!
8



Retransmissora XIV para estação Ghama:

Terra diz que só ingredientes fundamentais são interessantes. Existe estoque suficiente de produtos acabados. A ação suave é a lei suprema. Desligo.

Estação Ghama para retransmissora XIV:

Obrigado pela indicação. Por enquanto não podemos agir. Desligo.

* * *

Ron Landry bem que gostaria de dar outra resposta. Mas os canais intergalácticos de telecomunicações não se destinavam à transmissão das emoções de cada um.
Ao ver a mensagem, Larry Randall soltou uma risada amarga.
Não têm a mínima idéia de como são as coisas aqui embaixo — constatou.
Nem poderiam ter — disse Ron. — Se conseguir pôr as mãos no tal do Silligan, ele verá o que é bom. Poucas vezes vi alguém fazer uma tolice pior que ele.
Larry meneou a cabeça.
Não sei. Se estivesse no seu lugar, provavelmente teria feito a mesma coisa.
Ron virou-se, devagar e bastante contrariado.
Pois é justamente isso — disse meio contrafeito. — Cada um acredita que tem de cuidar de si mesmo. Ele devia saber que a Terra não abandona seus homens. Nunca abandonou...
Larry lançou-lhe um olhar de espanto.
Suas palavras parecem bastante patéticas — disse. — Não sei se, quando chegasse o momento, eu confiaria nelas.
Ron fez um gesto enérgico.
Um dos princípios de nossa política é este: se um único terrano se vê em dificuldade no espaço, envia-se, caso seja necessário, uma expedição de salvamento. A idéia é do próprio Perry Rhodan, que é de opinião que de outra forma não podemos levar os saltadores, e outras criaturas que tenham alguma coisa contra nós, a deixar nossas naves em paz. Rhodan toma isso a sério, e para mim é uma excelente idéia. Quem se vê em situação difícil faz apenas o necessário para conservar-se vivo. Quanto ao mais, deve-se esperar, e ter confiança, pois a qualquer momento surgirá uma nave terrana que tirará a pessoa da situação penosa em que se encontra.
Larry fez um gesto de concordância; parecia perturbado.
Ah; será que o senhor está falando sério?
Sem dúvida.
Larry refletiu por algum tempo. Finalmente disse em tom discreto:
Muito bem. A gente tem de acostumar-se a isso. Até agora os terranos sempre comeram as sopas que cozinharam. Não posso condenar Silligan pelo que fez.
Ron voltou a ficar junto à janela, com o copo na mão.
Para falar com franqueza, também não posso — confessou. — Mas provavelmente a bravata lhe custará a vida... e a vida da moça que está em sua companhia. Não posso permitir que Warren Teller e seus homens fiquem nadando uma eternidade lá embaixo. Terão de agir. E se até então Silligan e a moça não tiverem aparecido, seu ato lhes custará o pescoço.
Larry refletiu.
Alboolal também está lá embaixo, não está? — perguntou.
Ron fez que sim.
Sim. Pela descrição que recebemos deve ser Alboolal.
O que será feito dele?
Ron hesitou um pouco.
Teller recebeu instruções para procurá-lo — respondeu. — Se Silligan e a moça aparecerem em tempo, não teremos lugar para Alboolal, e nesse caso ele próprio terá de comer a sopa que cozinhou. Mesmo que os dois não sejam encontrados, Teller e seus homens terão bastante trabalho para acolher os prisioneiros em segurança e escapar da cidade que desmoronará. Conclui-se que não poderão correr atrás de Alboolal.
Mas poderão descobrir antes onde ele se encontra, não poderão?
Só se estiver ao alcance de sua vista. Em certos lugares a cidade não está envidraçada.
E isso se aplicará tanto aos prisioneiros como a Alboolal. Se Teller não puder ver onde eles se encontram, não poderá libertá-los.
Ron sorriu.
Perfeitamente. Justamente por isso Teller esperará, depois de receber ordens para entrar em ação, até que os prisioneiros apareçam em algum lugar.

* * *

Quando procurou enxergar o que havia atrás do bloco de rocha, a primeira impressão colhida por Richard foi uma sensação de claridade ofuscante e de calor mortífero.
Mas seus olhos logo se acostumaram à claridade e começaram a distinguir os pormenores. Richard viu que a luz e o calor eram emitidos por uma torrente viscosa de material incandescente, que saía de uma parede nos fundos da gigantesca sala, que agora Richard abrangia com a vista. Tal torrente se dirigia até um canteiro, aparentemente bem delimitado, na parte da frente. Ao que tudo indicava, uma vez alcançado esse canteiro, o material esfriava e perdia a luminosidade. Por fim encontrava, em meio ao seu caminho, uma espécie de tina cheia de água, na qual mergulhava com um forte chiado. Richard não pôde ver se realmente se tratava de uma tina. Parecia que os ghameses tinham aberto um pequeno furo na parede lateral, por onde entrava a água do mar. Mas isso não importava. O que importava era que a massa incandescente, depois de esfriar na água até adquirir uma coloração vermelha, saía do lado em que se encontrava Richard. Já não era líquida, mas plástica. Deslizava no chão seco, ia quebrando em pedaços e só depois disso ficava parada. Até parecia que aquela massa estranha possuía vida.
As peças esfriadas tornavam-se vitrificadas e transparentes, e tanto mais transparentes quanto mais próximas se encontrassem do lugar em que Richard se achava. Era estranho de ver que o formato das peças se tornava cada vez menos nítido, a partir da tina, até ficar irreconhecível. Richard tinha certeza de que, mesmo nos lugares onde não distinguia mais nada, havia peças.
Encontravam-se no local secreto em que era fabricado o célebre vidro de Ghama, daquele resistente vidro que os ghameses utilizavam para proteger suas cidades contra o mar.
Alguns ghameses corriam de um lado para outro. Ao que parecia, não se importavam com o calor. Observavam a massa incandescente que saía da parede, corria pelo chão e se despejava com um forte chiado no interior da tina. Parecia que não precisavam prestar atenção a mais nada. Ao sair do outro lado da tina, o material já estava metamorfoseado. Era vidro, o incrível vidro.
Richard começou a contar. Lá embaixo havia um total de onze ghameses. Do lugar em que se encontrava não enxergava todo o recinto. Era possível que, em outro lugar, ainda houvesse outros nativos. A situação era bastante desfavorável. Não possuía arma. Era bem verdade que os ghameses também não estavam armados, mas face à superioridade numérica isso não fazia muita diferença.
Richard realizou um exame crítico do local. Do outro lado do bloco de rocha, o corredor descia rapidamente, tornando-se mais largo e mais alto. Tinha certa semelhança com um funil que se abrisse para dentro do pavilhão. O pavilhão propriamente dito estava vazio, com exceção dos onze ghameses, da tina cavada na parede e da massa vítrea incandescente. Não havia a menor possibilidade de esconder-se.
De qualquer maneira, teriam que descer. Só havia um meio de alcançar a liberdade: pegar um ghamês e obrigá-lo a dizer-lhes onde poderiam encontrar uma comporta e um barco.
Um plano começou a formar-se no cérebro de Richard. Era simples, e teve sua origem antes na necessidade que na visão tática. Mas Richard Silligan não poderia perder muito tempo com reflexões. O plano lhe pareceu razoável e promissor.
Recuou e fitou Dynah. Enquanto refletia sobre a forma de dizer-lhe o que tinha em mente, ela adiantou-se e disse:
Não tente convencer-me de que devo ficar aqui e olhar o que o senhor estará fazendo. Irei com o senhor.
Apesar disso Richard tentou. Ou melhor, quis tentar. Mas Dynah não permitiu que falasse. Apontou para o outro lado do bloco de pedra e falou:
Desceremos juntos, e se alguém nos quiser fazer qualquer coisa, este alguém verá o que é bom. Entendido?

* * *

Ron Landry olhou para o relógio.
Até parece que isso adianta alguma coisa”, pensou Larry bastante desanimado. “Desapareceram e não aparecerão, até que a água os carregue para a superfície.”
Ron tirou o pequeno aparelho de comunicação do bolso de sua roupa e ligou-o.
Perca chamando truta — disse em tom tranqüilo e com a voz séria. — Responda, truta.
Passou-se algum tempo. Finalmente o receptor emitiu o conhecido estalo, e uma voz vinda bem de longe respondeu:
Truta para perca. Pode falar.
O que aconteceu com Silligan e com a moça, truta?
Não temos o menor sinal deles, perca.
E os outros?
No momento não os vejo. Mas sei onde estão.
Muito bem. Preste atenção, truta. Ataque quando o momento lhe parecer mais oportuno. Não podemos esperar mais por Silligan e pela moça. Procure localizar o saltador e traga-o se for possível.
Entendido, perca. Atacarei quanto antes e levarei o saltador.
Está bem. Desligo.

* * *

Warren Teller observou os arredores através de um dos grandes olhos. No início costumava rir toda vez que lhe vinha a idéia de como estes olhos eram práticos e preenchiam a finalidade normal de um olho: enxergar.
Mas Warren Teller já perdera a vontade de rir. Sabia que, se seguisse as ordens recebidas e atacasse assim que surgisse uma boa oportunidade, retiraria de dois seres humanos todas as chances de vida. Warren Teller começou a ter suas dúvidas sobre certos princípios estranhos da política terrana. Na verdade, não haveria qualquer objeção a que esperasse até que Silligan e a moça aparecessem em algum lugar. Dessa forma salvaria cinco pessoas, e a única pessoa prejudicada pela ação seria o saltador barbudo. Os ghameses estavam habituados à água. Se sua cidade desmoronasse, nadariam para colocar-se em segurança.
Mas não; não se podia esperar tanto tempo. A Missão Ghama tinha de ser levada avante. Tornava-se necessário evitar que os saltadores se fixassem definitivamente em Ghama e fazer com que a representação terrana adquirisse uma posição mais segura. E tudo isso tinha de ser feito sem que os nativos se espantassem. Deviam saber o menos possível do que estava acontecendo.
Silligan e a moça acabariam sendo sacrificados por essas exigências. Warren Teller não duvidava de que as pessoas, que haviam estabelecido as diretivas, sabiam o que estavam fazendo. Tinha certeza de que uma coisa extremamente importante estava em jogo; por certo tratava-se de um empreendimento que não poderia ser sacrificado por causa de um oficial e uma moça.
Apesar de tudo teve pena dos dois. Poderia começar logo, pois sabia onde se encontravam os prisioneiros, mas preferiu esperar até que estes aparecessem de novo.
Ligou o visor de luz ultra vermelha, e o interior da cidade surgiu nitidamente em seu receptor. Via os ghameses que arrastavam os pés pela estranha praça situada atrás da parede de vidro, bem como as cinco sentinelas postadas diante da porta do aposento em que se encontravam os prisioneiros. No momento estava com eles o saltador barbudo, que provavelmente pretendia interrogá-los. Também viu os vinte ou vinte e cinco ghameses que se encontravam junto a outra porta, armados com porretes e outros objetos. Tratava-se da entrada pela qual Silligan e a moça haviam saído. Os ghameses esperavam que voltassem pela mesma porta. Mas, com toda certeza, também haviam postado sentinelas em outros lugares.
Teller gostaria de saber o que aconteceria se atacasse a cidade juntamente com os quatro companheiros. Sem dúvida, os ghameses se sentiriam tomados de tamanho pavor que nem mesmo as ordens de um saltador conseguiriam levá-los a fazer qualquer outra coisa, senão salvar-se através da fuga.
Houve um movimento na tela, que interrompeu as reflexões de Warren. De repente as cinco sentinelas, postadas diante da porta do aposento em que se encontravam os prisioneiros, afastaram-se. A porta abriu-se. Quatro vultos surgiram, e a atenção dos ghameses, que se encontravam na praça, dirigiu-se imediatamente para estes. Warren Teller reconheceu o saltador barbudo, principalmente pelo tamanho. A julgar pela lista de passageiros da Carolina, os outros três deviam ser Lyn Trenton, representante da administração terrana em Árcon, Ez Rykher, um fazendeiro de Oregon, que ganhara a viagem para Árcon num concurso, e por fim Tony Laughlin, tripulante da Carolina.
Warren reconhecia-os perfeitamente, embora naquele momento se encontrasse a mais de um quilômetro de distância. E era um quilômetro de águas turvas, que a luz do sol quase não as atravessava.
Sabia que era este o momento previsto nas instruções que lhe haviam sido dadas. Devia atacar!
Pegou o microfone e deu ordem de ataque.

* * *

Por estranho que possa parecer, Ez Rykher foi o primeiro a ver o peixe. Isso aconteceu quando as atenções dos ghameses se concentraram exclusivamente no grupo, formado por um saltador, cinco guardas e três prisioneiros, que atravessava a praça. Alboolal, o saltador, ameaçara os prisioneiros de levá-los ao buraco mais escuro de Guluk, se estes não lhe contassem espontaneamente aquilo que desejava saber. Seu interesse dirigia-se principalmente para um novo sistema de propulsão de naves que, segundo ouvira, passou a ser construído há alguns anos nos estaleiros da Terra. Ninguém sabia dar informações a este respeito. Lyn Trenton e Ez Rykher não sabiam absolutamente nada. Tony Laughlin ouvira falar alguma coisa, mas não estava em condições de fornecer detalhes, porque não entendia nada do assunto.
Alboolal disse que se tratava de uma desculpa e dispôs-se a cumprir sua ameaça.
Os prisioneiros seriam levados novamente a uma parte da cidade, situada num ponto mais baixo.
Ez Rykher estava refletindo sobre esta perspectiva nada animadora, quando viu o peixe. Parou, fazendo com que Lyn Trenton esbarrasse nele. Com isso Lyn teve sua atenção despertada. Olhou pela parede de vidro e também viu o monstro.
Meu Deus...! — gritou em tom de espanto.
Os guardas perceberam que dois dos prisioneiros haviam parado e obrigaram-nos a seguirem adiante. Por pura curiosidade também dirigiram os olhos para a parede de vidro.
Liiidioooque...! — soou o grito selvagem e cantante.
Com isso, todas as pessoas na praça notaram que alguma coisa estava acontecendo. Os ghameses giraram sobre os calcanhares. Ninguém deu a menor atenção aos prisioneiros. Ez Rykher, perplexo, continuava a fitar o monstro. De repente percebeu que mais quatro se aproximavam rapidamente, colocando-se diante da grande janela.
O pânico espalhou-se entre os ghameses. Gritando e lamentando-se, fugiram em direção às saídas da praça. Os guardas também se esqueceram do seu dever. Lançaram um olhar assustado para o saltador e saíram correndo. Uma confusão terrível formou-se nas ruas que saíam da praça.
O saltador logo compreendeu a situação. Também parou e dirigiu a arma de radiações sobre os três prisioneiros.
Não quero que ninguém acredite que esta é a grande oportunidade — disse com a voz séria, numa ameaça inconfundível. — Vamos andando; prosseguiremos. Os lidioques não nos farão nada.
Mas os lidioques não pareciam ser da mesma opinião. Investiram em conjunto contra a parede de vidro, chocando-se contra ela com uma força inimaginável. No momento do impacto, a gigantesca área de vidro ressoou que nem um sino gigantesco plantado no fundo do mar. A cidade foi sacudida sob o solavanco. Por alguns segundos a gritaria dos ghameses, que se aglomeravam nas ruas, cessou, para recomeçar mais forte e mais apavorada que antes.
O saltador começou a movimentar-se mais depressa. Parecia já não ter tanta certeza da exatidão de sua teoria.
Os cinco lidioques fizeram meia-volta, afastaram-se da parede de vidro, colocaram-se outra vez de frente para esta e repetiram o ataque. Ez Rykher parou, muito embora Alboolal o ameaçasse com a arma, e observou o segundo ataque, contendo a respiração. E quando os monstros bateram com um enorme estrondo contra o vidro, estremeceu. Respirou aliviado no momento em que fizeram meia-volta, mas subitamente viu a grande fenda que atravessava a parede em direção oblíqua. Em alguns lugares a água esguichava violentamente para a praça.
O saltador pôs-se a correr. Não deu a menor atenção aos prisioneiros. De repente perdeu todo o interesse pelos novos sistemas de propulsão e outros segredos.
E os lidioques uniram-se para o terceiro ataque.
Desta vez passarão”, pensou Ez Rykher. “Diabo! Atrás desta parede a água exerce uma pressão de vinte atmosferas.
9



Estação Ghama para retransmissora XIV:

Ação iniciada. Silligan e Langmuir provavelmente perdidos. Desligo.

Retransmissora XIV para estação Ghama:

O bem da Terra é tudo; nossas preocupações pessoais não são nada. Desligo.

* * *

Ao segurar esta mensagem, Ron Landry soltou uma terrível praga, muito embora soubesse que, no fundo, os homens da retransmissora XIV estavam com a razão.

* * *

Desceram lado a lado. O calor que os envolvia tornou-se cada vez mais insuportável.
Os ghameses ainda não haviam percebido nada. O chiado da água, na qual se despejava o vidro liquefeito, abafava o ruído dos passos de Richard e Dynah.
Richard olhou para Dynah. Estava séria, mas não parecia nervosa.
Quando chegaram à altura da tina de água, Richard seguiu para a direita. Dois ghameses encontravam-se junto à tina, e os mesmos serviam tão bem como quaisquer outros para serem os primeiros a ouvir a terrível notícia inventada por Richard Silligan. Este começou a correr, como se estivesse com uma tremenda pressa, e Dynah corria a seu lado. Seus passos ainda não podiam ser ouvidos. Os ghameses só notaram a presença dos dois terranos, quando estes se encontravam a seu lado.
Richard sentiu que não agüentaria por muito tempo o calor que fazia naquele lugar, a apenas dez metros da torrente de vidro. Sua exaustão só era fingida em parte. Gritou:
Lidioques! Um bando deles está atacando a cidade. Se não fugirmos, estamos perdidos.
Falou em arcônida. Não tinha certeza de que o nome do peixe gigante realmente era o que tinha na memória. Mas os ghameses pareciam compreendê-lo. Um deles virou-se para o lado e soltou o velho grito de pavor dos habitantes de Ghama:
Liiidíoooque...!
O grito superou o ruído das massas de vidro liquefeito. Os outros ghameses levantaram os olhos. Richard entesou os músculos. Era este o momento em que veria se seu truque seria bem sucedido ou não.
Nesse instante aconteceu alguma coisa com a qual Richard não contaria nem mesmo nos seus sonhos mais ousados. Um estrondo surdo e forte atravessou a rocha. O ruído gelou o sangue nas veias de Richard; os ghameses já pareciam conhecê-lo e puseram-se a correr. Richard teve de esforçar-se para segurar pelo ombro um dos dois que se encontravam próximos a ele. Notou o pavor que estava estampado na face daquela criatura.
Onde estão os barcos...? A comporta...? — gritou para ele. — Nós não sabemos nadar.
Teve de repetir a pergunta. De tão nervoso que estava, o ghamês não compreendeu o sentido da pergunta e procurou libertar-se.
Ali... — gaguejou depois de algum tempo. — Na mesma direção... nós vamos...!
Isso soava lógico. Se os ghameses quisessem sair da cidade porque temiam os lidioques, também teriam de usar uma comporta, mesmo que soubessem nadar. Não poderiam atravessar uma parede compacta. Richard soltou o ghamês.
Corra atrás dele! — gritou para Dynah.
Movido por uma grande curiosidade, Richard abaixou-se rapidamente e pegou uma pequena peça de vidro que se encontrava ao lado da tina. Enganara-se quanto à temperatura da peça. Queimou os dedos. Mas não se importou com isso. Colocou a peça de vidro no bolso e correu atrás de Dynah e dos ghameses.

* * *

Sob o ponto de vista de Ez Rykher a situação evoluiu de forma extremamente rápida e chocante.
No fundo, Ez estava convencido de que não adiantaria sair correndo, quando os lidioques pela terceira vez uniram as forças no ataque. Apesar disso disparou atrás de Tony Laughlin e Lyn Trenton. A praça estava quase completamente vazia. Apenas uns poucos ghameses se comprimiam nas ruas que saíam do largo.
Enquanto corria, Ez ficou de olho na parede de vidro rachada. Viu os peixes gigantes se aproximarem. Sabia que, desta vez, o vidro se romperia por completo e a água invadiria as ruas. E atrás da água viriam os lidioques, a fim de colher os frutos de seu trabalho, isto é, algumas dezenas de ghameses, que não se tivessem afastado com suficiente rapidez. Talvez também devorassem a ele, Ezekiel Dunlop Rykher, mas pouco lhe importava que fosse devorado ou morresse afogado.
Foram estes os pensamentos que se atropelaram no cérebro de Ez. As cabeças dos lidioques bateram fortemente contra a parede de vidro e o desastre começou.
Um segundo depois, a fenda tornou-se mais larga. A água começou lentamente a invadir o local. Depois a parede espatifou-se de vez. O líquido passou ruidosamente por cima dos destroços e encheu a praça com uma rapidez apavorante.
Ez Rykher já não corria. Estava tudo no fim. Não adiantava fugir. Uma torrente de água precipitou-se sobre ele e arrastou-o. Subitamente estava coberto pela água. Não conseguia respirar e começou a debater-se. Voltou a subir à tona e viu bem à sua frente a enorme boca do lidioque, armada de dentes. De repente a boca produziu uma sucção e Ez foi arrastado para dentro da abertura sombria, juntamente com alguns metros cúbicos de água.
Foi atirado de um lado para outro. Fechou os olhos de pavor.
Ao notar que por algum tempo nada lhe estava acontecendo, sentiu um ligeiro espanto; apenas estava sendo jogado de um lado para o outro, ele e a água, que diminuía cada vez mais, como se escorresse em algum lugar. Ez teve a idéia tola de que o lidioque talvez nem quisesse comer, mas beber. Talvez voltasse a cuspi-lo, lançando-o outra vez na água.
Finalmente imobilizou-se. O último solavanco atirara-o sobre um local que parecia seco e macio. Ez nunca esperara encontrar um lugar destes no interior de um lidioque.
Muito espantado, abriu os olhos.
E sentiu-se ainda mais espantado ao ver, pouco acima de sua cabeça, uma moderna lâmpada incandescente a gás, cuja luz forte iluminava um pequeno recinto quadrado.

* * *

A comporta não ficava longe do pavilhão de vidro. Mas nesse meio tempo a cidade fora sacudida por mais duas fortes pancadas. Richard, que inventara a história dos lidioques para fazer com que os ghameses saíssem correndo, teve a impressão de que conjurara o demônio. De qualquer maneira, os ghameses pareciam ver nos ruídos um sinal inequívoco de que a cidade realmente estava sendo atacada por lidioques.
Com isso, a situação modificou-se. Richard realmente estava com pressa. E não poderia permitir que os ghameses saíssem a nado, para que ele mesmo compreendesse em tempo o mecanismo de um dos barcos.
O tanque da comporta era de um tamanho espantoso, e nele havia uns cinqüenta barcos de todos os tipos. Richard e Dynah mantiveram-se próximos de um dos ghameses e, ao verem que os que iam na frente saltavam para dentro do tanque da comporta a fim de nadarem até o portão exterior da comporta e abandonarem a cidade, seguraram o que se encontrava a seu lado e apontaram para os barcos.
Era difícil fazer com que o ghamês, terrivelmente apavorado, compreendesse qualquer coisa. Mas depois de algum tempo pareceu entender o que desejavam. Apesar disso Richard não tirou os olhos dele, quando saltaram da borda baixa do tanque para o convés de um dos barcos. Com os dedos trêmulos o ghamês abriu o fecho da escotilha que levava para o interior do barco. Mal conseguiu abri-la, fez menção de entrar, mas Richard segurou-o. Dynah foi a primeira, depois Richard, que prestou atenção para que o ghamês voltasse a fechar a escotilha.
A última coisa que ouviram antes de trancar a escotilha do lado de dentro foi um ribombar vindo do alto, que provavelmente era provocado pelas massas de água que se precipitavam para dentro da cidade.
No barco, onde se sentia mais seguro, o ghamês parecia perder parte do medo de que se sentia possuído. Uma vez no interior da pequena cabine de comando, agiu com rapidez e segurança. O motor foi posto em movimento, e o barco deslizou pelo tanque, em direção ao portão externo. O portão estava aberto, e o barco penetrou num túnel escuro, que levava ao tanque de flutuação. Richard permanecera na cabina principal do barco e procurava verificar se a catástrofe já se manifestara no interior das comportas. Mas não viu nenhum sinal disso, até que o barco desapareceu no túnel de flutuação.
Numa viagem tranqüila, mas rápida, o barco chegou ao tanque de flutuação. A abertura da comporta demorou algum tempo. Depois o veículo saiu para a penumbra verde das águas profundas do mar. Richard olhou pelas pequenas janelas da cabina principal e viu a grande nuvem de lama e poeira que se levantava no lugar em que antes ficava a cidade de Guluk.
A água estava cheia de ghameses. Ao que parecia, a catástrofe acontecera morosamente e todos tiveram tempo de salvar-se.

* * *

Levantou-se. Uma série de pensamentos confusos atravessou seu cérebro.
Subitamente ouviu uma voz que saía de um alto-falante situado quase no teto:
Meu nome é Warren Teller. No momento encontro-me na cabina de comando deste veículo que tem a forma de um lidioque. Acho que o senhor é Ez Rykher. Mantenha-se calmo e reprima qualquer sensação de pânico. É o que se deve fazer numa situação como esta. Colocá-lo-emos em segurança, a bordo de uma nave terrana. É só.
Ez Rykher procurou obedecer ao conselho. Disse para si mesmo que não havia nada demais em ser devorado por um lidioque e, posteriormente, constatar no interior do ventre do monstro que este era apenas uma imitação, feita na Terra, a fim de salvar cinco terranos que se encontravam numa situação extremamente difícil.
Lembrou-se de Richard Silligan e Dynah. Sentiu-se sacudido por um choque. Os dois não puderam ser salvos pelos lidioques de imitação. Deviam ter sido esmagados pelos destroços da cidade, ou morrido afogados.
A tristeza não ajudou Ez Rykher a superar aqueles torturantes minutos de confusas reflexões.
Dick e Dynah, santo Deus!”, pensou. “A essa hora já devem estar mortos.”
Não sabia há quanto tempo já se encontrava ali, quando, de repente, surgiu uma abertura na parede e um homem, envergando o uniforme da frota terrana, entrou no recinto quadrado. Sorriu, mas Ez não estava com disposição para sorrir. Antes que o homem tivesse tempo de abrir a boca, investiu com esta pergunta contra ele:
O que aconteceu com Dick Silligan e a moça? Conseguiram salvá-los?
O rosto do homem assumiu uma expressão séria. Balançou a cabeça.
Não; não pudemos esperar mais. Tivemos de atacar, e não tínhamos a menor idéia de onde os dois estavam.
Ez baixou a cabeça. Depois de algum tempo prosseguiu:
Não adianta recriminá-lo por isso. Suponho que o senhor seja Warren Teller.
O homem fez um gesto afirmativo.
E agora? — perguntou Ez num tom de voz que revelava já não estar interessado em mais nada.
Chegamos ao destino. Encontramo-nos junto à Urânia, um cruzador pesado da frota terrana. Peço-lhe que suba a bordo. Será levado para casa pelo caminho mais rápido. A propósito: seus dois companheiros também estão em segurança, e conseguimos prender o saltador.

* * *

A voz de Ron Landry parecia dura e implacável.
Seguiu meu conselho? — perguntou. — Fez seu testamento e designou um chefe de clã para sucedê-lo?
Alboolal procurou controlar-se. Ainda se achava muito confuso, devido aos acontecimentos dos últimos minutos. Sentiu, porém, que estaria perdido se não cobrasse ânimo e enfrentasse o terrano.
Protesto! — disse o mais alto que pôde.
Na pequena cabina em que se encontravam sua voz ressoou que nem um tiro de canhão.
Mas o terrano não se impressionou com isso.
Contra o quê? — perguntou com um sorriso. — Contra o fato de nós o termos salvo? A cidade estava desmoronando.
A cidade foi destruída por causa de suas maquinações... — gritou Alboolal.
Ron interrompeu-o em tom frio.
Naturalmente. Mas pelo que sabemos, entre os ghameses não houve mortos e feridos. E, o que é mais importante, o senhor nunca estará em condições de contar isso a quem quer que seja.
Alboolal parecia ter sido atingido por um choque.
Por quê?
Porque será levado à Terra para ser processado.
Alboolal respirava com dificuldade.
Isso é...! — principiou, fungando de raiva. — O senhor não pode fazer uma coisa dessas comigo! Sou um saltador livre.
O senhor já foi um saltador livre — interrompeu Ron. — Acontece que participou do ataque a uma nave mercante terrana e de sua destruição. Com isso, a situação se modifica. Será que o senhor realmente acreditava que qualquer saltador vagabundo pode andar derrubando naves terranas e continuar a viver como se nada tivesse acontecido?
O senhor... o senhor não tem nenhuma prova contra mim... — disse o saltador em sua defesa.
Ron Landry fez um gesto de desprezo.
O senhor se esquece — respondeu com a voz tranqüila — que esse acontecimento representa uma questão política de primeira ordem. A Terra dispõe de meios perfeitamente legais de fazer com que um suspeito nos conte a verdade.
Protestarei contra isso — gritou Alboolal. — Farei com que toda a Galáxia conheça os métodos que a Terra costuma usar.
Um sorriso frio surgiu no rosto de Ron Landry.
É o que o senhor deve fazer — respondeu. — Colocaremos à sua disposição todo e qualquer órgão de comunicação que o senhor queira usar. Estamos interessados em que o público saiba que certos clãs dos saltadores não passam de bandos de piratas. Acho que o senhor é capaz de imaginar a reação que isso provocará na Galáxia.
Alboolal imaginava perfeitamente. De repente viu o futuro de seu clã diante dos olhos. Os terranos descobririam a verdade; não havia a menor dúvida. E informariam o público a este respeito; quanto a isso também não havia a menor dúvida. Fosse qual fosse seu destino pessoal — os terranos matá-lo-iam ou prendê-lo-iam, segundo as prescrições de suas leis — seu clã estava desacreditado para todo o sempre. Ninguém iria querer manter relações com o mesmo. Teria de abandonar sua base em Ghama.
Alboolal sabia o que ele e seu clã podiam esperar. Teve um colapso. Um colapso tão violento que tiveram de chamar um médico para que se recuperasse.

* * *

A Urânia não tinha mais nada a fazer em Ghama. O comandante recebera instruções para recolher a bordo as pessoas resgatadas, bem como o Tenente Larry Randall e o Capitão Ron Landry, e por fim os cinco monstros lidioques fabricados na Terra, a fim de que não restasse nenhum vestígio da missão secreta que haviam desempenhado em Ghama. Depois disso deveria retirar-se o mais depressa possível, para que os nativos não tivessem oportunidade de refletir sobre as atividades misteriosas desenvolvidas em seu mundo aquático.
No entanto, a decolagem da Urânia foi retardada.
Um pequeno submarino dos nativos emergiu e, logo que avistou a nave que pairava pouco acima da superfície do mar, tomou a rota da Urânia. Assim a decolagem da nave foi adiada.
O que seria que os nativos queriam a bordo?
O pequeno submarino encostou junto à Urânia.
Quem primeiro apareceu no convés liso e arredondado foi o Tenente Dick Silligan, ex-tripulante do cargueiro Carolina. Parecia um tanto cansado e sua roupa estava bem maltratada, mas de resto achava-se em perfeitas condições e bem-disposto.
Depois de Silligan surgiu a moça sobre a qual tanto se falara nas últimas horas: Dynah Langmuir. Também dava a impressão de não ter levado uma vida muito confortável nos últimos tempos. Assim que foi levada para bordo, chorou de alegria e cansaço.
O ghamês, que pilotara o submarino, não quis subir a bordo da Urânia; preferiu continuar no submarino e sair à procura de seus conterrâneos. Os lidioques de imitação já se encontravam nos compartimentos de carga da nave, motivo por que não poderia nutrir suspeitas quanto à destruição da cidade de Guluk e quanto ao papel que os terranos haviam desempenhado na mesma.
A Urânia decolou depois de certificar-se, por meio de uma troca de mensagens com a ilha Killanak, onde o sucessor de Larry Randall já entrara no exercício de suas funções, de que por lá estava tudo em ordem.
A base dos saltadores mantinha uma atitude de tranqüila expectativa. Não precisaria aguardar muito para descobrir o que havia acontecido.

* * *

Naquele dia, Larry Randall viu pela primeira vez o Coronel Nike Quinto, e por ele sentiu a mesma antipatia que Ron Landry lhe dedicara no início. Mas Ron já o preparara para essa impressão. Por isso manteve-se em atitude de expectativa e procurou descobrir de que forma se manifestaria a “genialidade” de Quinto.
De início Nike não deu sinais da mesma. Suava. Seu rosto vermelho formava um contraste pouco agradável com os cabelos ralos.
Que coisa horrível são estas instalações de condicionamento de ar! — exclamou com a voz aguda. — São totalmente insuficientes numa temperatura como a atual. Um dia ainda me matarão. Minha pressão sangüínea não pára de subir.
Parecia procurar alguma coisa na escrivaninha; talvez fosse apenas um gesto de nervosismo. De qualquer maneira, depois de uma ligeira pausa disse:
E o senhor ainda me fez ficar mais doente!
Permite que pergunte de que forma, sir? — indagou Ron Landry com a maior tranqüilidade.
Naturalmente; não posso deixar de responder. Os cinco peixes gigantes, que o senhor encomendou, devoraram boa parte do meu orçamento. Sabe lá quanto custam cinco lidioques dirigíveis? Dez milhões de solares, se são produzidos segundo as rotinas normais, e o dobro dessa cifra se a gente tem tanta pressa quanto o senhor.
Ron reprimiu o riso. Sabia de fonte segura que o orçamento da Divisão III era ilimitado. Nem sequer tomaria conhecimento de um prejuízo de vinte milhões de solares.
Foi uma medida imprescindível, sir — observou Ron. — Sem isso não poderíamos ter impedido as maquinações dos saltadores, sem chamar a atenção dos nativos.
Hum... — fez Quinto com um sorriso matreiro. — Isso não deixa de ser verdade. Mas por que haveremos de permanecer em boa paz com os nativos? Por que fazemos tanta questão de que nos considerem amigos? O senhor sabe dizer?
Não senhor. O senhor conseguiu evitar que eu soubesse disso.
Nike Quinto acenou fortemente com a cabeça.
Ora essa! Se eu não conseguisse manter um segredo como este, não seria capaz de comandá-los. Bem, trata-se de certa matéria-prima.
Pronunciou estas palavras com tamanha ênfase que pareceu estar revelando todo o segredo.
É mesmo? — foi esta a única resposta de Ron.
É mesmo? — disse Nike Quinto, imitando Ron. — Até parece que isso não representa nada para o senhor.
Ron balançou a cabeça.
Pois eu lhe digo. Conhece o estranho tipo de vidro usado pelos ghameses? É totalmente transparente. Tem uma permeabilidade de cem por cento. Não produz a menor dispersão na faixa da luz visível. Apresenta um ângulo incrivelmente aberto para a reflexão total. Em poucas palavras: é a matéria-prima ideal para um objeto invisível. Além disso, apresenta excelentes qualidades óticas em outras freqüências. É o meio ideal para o laser infravermelho. Etc, etc...
Ron Landry confessou que já começava a compreender.
Não conhecíamos a matéria-prima — prosseguiu Nike Quinto. — Conseguimos amostras do produto acabado, mas nossos cientistas não descobriram como o mesmo é fabricado. Um processo totalmente desconhecido à nossa tecnologia deve ser empregado na fabricação. Pensamos que poderíamos conseguir mais se obtivéssemos uma amostra da matéria-prima e se nos tornássemos amigos dos ghameses, a fim de que um dia eles nos revelassem o segredo. Precisamos do material. O laser infravermelho pode ser transformado numa arma portátil tão eficiente que a Galáxia nunca viu igual. Além disso, os saltadores estavam interessados no mesmo negócio, e, com isso, nossa situação tornou-se ainda mais difícil. Acho que o senhor já compreende os motivos por que o assunto teve de ser resolvido com tamanha discrição, não é?
Ron fez um gesto afirmativo.
Sem dúvida, sir — respondeu. — Mas com isso compreendo ainda menos por que o senhor achou que a despesa com a fabricação dos lidioques dirigíveis foi tão pesada.
Nike Quinto parecia explodir.
Por quê? — gritou. — Porque o problema já foi solucionado, e isso graças à coragem e à criatividade de um jovem tenente, que a esta hora já é capitão. Ele soube fazer a coisa certa na hora certa, e, além disso, soube escapar da cidade dos ghameses graças à própria habilidade, sem que lançasse mão dos lidioques dirigíveis.
Ron estacou.
Se não me engano, o senhor está aludindo a Dick Silligan.
Isso mesmo. Estou falando em Dick Silligan. Esse jovem revelou-nos o segredo. Esteve no lugar em que os ghameses fabricam o material maravilhoso e trouxe uma amostra do produto semi-acabado.
Ron Landry manteve-se calado.
A matéria-prima — prosseguiu Nike Quinto — que é algum silicato, é derretida num forno. O material derretido é resfriado rapidamente por meio da água do mar à temperatura normal. Provavelmente os ghameses não sabem mais que isso. Mas a amostra trazida por Silligan permitiu-nos descobrir que o processo não serve apenas ao resfriamento. A água do mar, continuamente renovada pelos ghameses por meio de uma instalação bem concebida, contém um tipo de alga que produz certa reação química na massa vitrificada. Se não fossem estas algas, o produto final seria um vidro igual a qualquer outro, em nada melhor ao que antigamente costumava ser usado nas vidraças das janelas. O segredo está nas algas. Dick Silligan trouxe um pedaço desse vidro. Ainda apresentava vestígios das algas. Isso bastou para que nossos cientistas desvendassem o segredo. Já estamos em condições de fabricar o vidro dos ghameses.
Recostou-se. Estava muito satisfeito; até parecia que tudo aquilo devia ser creditado a ele, em pessoa.
Ron Landry riu.
Quer dizer que agora podemos tratar os ghameses como quisermos, não é? — perguntou.
O corpo de Nike Quinto precipitou-se para a frente.
Não se atreva! — berrou sua voz aguda em tom furioso. — Os habitantes de Ghama são nossos amigos, e como tais serão tratados.
Subitamente levantou-se de um golpe.
Caramba! Vá embora. O senhor deixa meu coração em pandarecos com essa falta de compreensão das coisas. O que será da minha pressão? Apresente-se amanhã ao setor de pessoal, entendido? Há alguma coisa para os senhores por lá. Se os compreendi bem, trata-se de uma degradação ou de uma promoção. E agora dêem o fora!
Ron e Larry levantaram-se, fizeram continência e saíram. Já no corredor, a uma distância segura de Nike Quinto, pararam e sorriram.
Que tal uma bebida, capitão? — perguntou Ron Landry.
Larry Randall soltou um suspiro.
Não sei se minha pressão sangüínea suportará, major.

* * *

Retransmissora XIV para estação Ghama:

Observamos vinte e três transições em direção a Ghama. Intervalos pequenos. Supomos que tenham sido causadas pela retirada da base dos saltadores. Solicitamos confirmação. Desligo.

Estação Ghama para retransmissora XIV:

Confirmado. Não há mais nenhum saltador em Ghama. Por aqui tudo ficou monótono. Desligo.



* * *
* *
*







A Divisão III, chefiada por Nike Quinto, agiu de modo eficaz. E o que é mais importante: não deixou pistas...
O próximo volume da série, intitulado O Monstro de Plasma, liga-se aos acontecimentos relatados no volume 100. Os habitantes do sistema Azul vão mostrar um novo tipo de arma.

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