Larry fez
que sim, com o rosto zangado. Saíram logo depois do café. Ao que
parecia, Ron combinara a saída com Zatok, sem que Larry o
percebesse. É que Zatok e mais alguns ghameses se encontravam junto
ao barco, e o nativo declarou com um orgulho inconfundível que
fizera exatamente o que lhe haviam mandado. Ron elogiou-o e, mais uma
vez, Larry percebeu que Ron Landry sabia lidar muito melhor com os
ghameses do que ele mesmo.
Sem dizer
uma palavra, Ron empurrou o barco para dentro da água. Larry saltou
e sentou-se na proa.
“Se
Ron não quer abrir a boca”,
pensou, “ele
mesmo é quem deve dirigir o barco.”
Foi o que
Ron fez. Gritou mais algumas palavras animadas para os ghameses, pôs
em funcionamento o motor e fez o barco sair rapidamente para o mar
aberto.
As horas
foram passando. O sol subiu e espalhou um calor contra o qual não
havia defesa, já que o barquinho não oferecia a menor sombra.
Finalmente
Ron fez uma pausa. Já fazia seis horas que haviam perdido Killanak
de vista. Ron desacelerou o motor e distribuiu mantimentos e bebidas
tiradas de um pacote que Zatok devia ter preparado e colocado no
barco. Enquanto faziam a ligeira refeição, não perderam uma
palavra. Depois de algum tempo, Ron saltou do barco, a fim de
refrescar-se na água. Larry ficou de vigia, para ver se havia um
lidioque nas proximidades. Depois disso, a manobra foi invertida:
Larry nadou um pouco e Ron ficou de vigia.
Após um
pequeno descanso, prosseguiram a viagem. Mais quatro horas se
passaram. Pelos cálculos de Larry, já deviam estar a mais de mil e
trezentos quilômetros de Killanak. E ainda não sabia quais eram as
intenções de Ron.
Devido à
conduta de Ron, percebeu finalmente que se aproximavam do lugar de
destino. Ron levantou-se e olhou em torno. Parecia estar muito seguro
de si, pois fez cara de espanto, quando não descobriu imediatamente
aquilo que estava procurando. Voltou a sentar-se e fez o barco
percorrer mais um trecho.
Tornou a
levantar-se. Porém Larry também já havia descoberto o ponto fosco
que pairava bem ao longe, pouco acima da água, e, às vezes, emitia
uma forte luminosidade, como se fosse de metal e refletisse a luz do
sol.
Ron
resmungou de satisfação, comprimiu a alavanca do acelerador até o
fim e dirigiu-se ao local. Durante cinco minutos, o barco desenvolveu
a velocidade máxima.
De repente
o ponto começou a crescer rapidamente. Transformou-se numa pequena
bola, e, logo depois, numa gigantesca esfera, que pairava pouco acima
da água, sustentada por forças invisíveis, e cintilava à luz do
sol.
Era a
Empress of Arkon, a nave de abastecimentos. Larry ficou perplexo ao
constatar que todas as conjeturas, feitas sobre a finalidade da
excursão, ficavam muito longe da realidade...
“O
que estava fazendo a Empress of Arkon em pleno oceano, longe de
qualquer ilha habitada?”,
indagou-se mentalmente.
Ron tocou
em seu ombro.
— Chegamos
— disse sem a menor necessidade. — Fique com os olhos abertos.
Está bem?
Segurava
um pequeno aparelho de comunicação, cujo tamanho não ultrapassava
o das velhas caixas de fósforos. Larry ouviu-o dizer:
— Tudo
preparado?
Também
entendeu a resposta:
— Tudo
preparado, sir.
— Como
está o ambiente?
— Tudo
“limpo”,
sir. Fomos localizados durante a aproximação, mas no momento tudo
está “limpo”
em torno da nave, até onde alcançam nossos instrumentos.
— E
embaixo de vocês? — perguntou Ron com uma estranha entonação.
— Embaixo
também.
Ron Landry
sorriu.
— Muito
bem. Podem começar! Tenho a meu lado uma pessoa que nem pode esperar
para ver o que vocês trouxeram.
*
* *
Richard
Silligan sentiu o raio quente da arma térmica passar próximo de sua
cabeça. Atirou-se para o lado, caiu, rolou por cima do ombro e
voltou a pôr-se de pé.
A porta
não ficava longe. O saltador perdera alguns preciosos segundos, pois
não acreditava que um dos terranos tentasse seriamente empreender a
fuga. Seu primeiro tiro, disparado sem pontaria, num momento de
surpresa, passara longe de Richard. Mas o segundo quase o atingiu.
O terrano
sabia que estaria perdido se a porta fosse uma daquelas que giravam
pesadamente nos gonzos, pois, nesse caso, levaria mais tempo para
abri-la do que o saltador gastaria para fazer boa pontaria. Apesar
disso continuou a correr. Precisava conseguir.
No momento
em que os ghameses e o saltador apareceram na praça, deu-se conta de
que nenhum terrano jamais saberia da queda da nave auxiliar sobre o
planeta Ghama, a não ser que ao menos um deles conseguisse abandonar
a cidade submarina e alcançar o posto terrano. Os saltadores eram
inimigos da Terra, por maior que fosse o número dos tratados
celebrados entre as duas raças. Para os saltadores, qualquer terrano
que caísse em suas mãos era um objeto precioso, que conforme as
condições poderia revelar certos detalhes sobre coisas que a Terra
procurava manter em segredo. Se caíssem nas mãos dos saltadores,
nunca mais conseguiriam recuperar a liberdade.
Esta idéia
deu novas forças a Richard, que correu em direção à porta.
Escutou uma barulheira às suas costas. Os ghameses, que até então
se haviam mantido em silêncio, começaram a movimentar-se. Richard
os ouviu correrem pelo pavimento liso da praça.
Estavam
atrás dele!
Num
instante reconheceu a chance que isso lhe representava. Enquanto os
ghameses procurassem pegá-lo, o saltador não poderia atirar. Não
se atreveria a fazê-lo, pois as pequenas criaturas de pele marrom se
encontravam na linha de tiro.
Richard
não reduziu a corrida quando alcançou a parede. Bateu fortemente
contra a pedra e, num movimento resoluto, pegou o fecho, puxando-o
fortemente para cima. Procurou forçá-lo, e viu que a porta se movia
lentamente.
Chegou o
momento em que podia ver o que havia naquele compartimento. Não era
propriamente uma sala. A janela, que Richard vira bem perto, na
parede, não pertencia ao recinto. Tratava-se de um corredor estreito
e escuro, que levava à parte central da cidade; só o diabo saberia
dizer precisamente para onde.
Richard
esgueirou-se pela porta semi-aberta e entrou no corredor. No mesmo
instante, alguma coisa bateu fortemente contra a parede, do lado
oposto da porta. Richard ouviu uma voz chorosa, quase histérica:
— Leve-me
consigo, Dick, pelo amor de Deus...!
Richard
ficou duro de susto. Não era difícil reconhecer aquela voz. Dynah
Langmuir encontrava-se do outro lado e procurava abrir o fecho.
Não podia
deixá-la por lá. Voltou a abrir ligeiramente a porta, pôs a mão
para fora, sem olhar, e agarrou o braço de Dynah. Puxou-a e, com um
ligeiro olhar, percebeu que a primeira fila dos ghameses se
encontrava a menos de dez metros.
Ainda bem
que não sabiam mover-se com muita habilidade em chão firme! Sua
corrida ficava reduzida a uma série de arrastões apressados, que
parecia forçá-los ao extremo. Richard deu-se conta de que estaria
em segurança, enquanto se limitassem a correr atrás dele. Mas
provavelmente os ghameses — ou o saltador — logo se lembrariam de
que a cidade dispunha de outros corredores, pelos quais poderiam
cortar caminho e cercá-los.
Richard
saiu correndo. Uma vez fechada a porta, o corredor ficou
completamente às escuras. Richard vira que a galeria prosseguia pelo
menos cem metros em linha reta. Bastava estender a mão para sentir
qualquer obstáculo que surgisse à sua frente. Com a outra mão
segurava o braço de Dynah, arrastando-a atrás de si. Esperava que a
qualquer momento a luz penetrasse no corredor. Os ghameses já deviam
ter chegado à porta, e por certo não hesitariam um instante em
perseguir os dois fugitivos.
Mas,
quando atingiram a primeira curva do corredor sem que os
perseguidores aparecessem atrás deles, Richard acreditou que
avaliara erroneamente a mentalidade dos ghameses ou que os nativos
deviam ter encontrado outro caminho, pelo qual esperavam apoderar-se
mais depressa dos fugitivos.
Richard
aliviou a pressão sobre o braço de Dynah. Notou que a moça
cambaleou e se encostou à parede, para apoiar-se melhor. Sua
debilidade fez com que a raiva de Richard se desvanecesse.
— O que
foi que a senhora estava pensando? — perguntou em tom muito menos
áspero do que pretendia.
Dynah
soluçava.
— Nada —
respondeu. — Simplesmente não quis nada com esse barbudo nojento.
O senhor devia ter visto seus olhos quando me fitou...!
Richard os
vira, e sabia que Dynah não estava exagerando.
— Está
bem — disse um tanto desorientado. — Acho que juntos
conseguiremos. Mas a senhora terá que fazer das tripas coração.
Como se sente?
— Miseravelmente
mal — confessou Dynah. — Minhas pernas parecem de chumbo, os
ombros doem e nem tenho coragem de levantar os braços.
Richard
não pôde deixar de rir.
— É uma
situação formidável para se fugir de dez mil inimigos — disse em
tom irônico. — Mas pode deixar por minha conta. Nós nos
arranjaremos.
Estava
convencido do contrário, mas achava preferível deixar que Dynah
ficasse bem-humorada.
— Venha;
precisamos seguir adiante — disse em tom suave.
Voltou a
segurá-la pelo braço, e ela não se opôs. Passaram pela curva, que
o corredor descrevia nesse lugar, e descobriram que, mais à frente,
a galeria descia suavemente.
— Foi de
lá que nós viemos — disse Richard e obrigou-se a soltar uma boa
gargalhada.
Não se
esforçaram para evitar o barulho. No corredor reinava um silêncio
absoluto. Em nenhum lugar parecia haver perseguidores, nem à frente,
nem atrás deles.
“Gostaria
de saber que truque eles inventaram”,
pensou Richard.
Resolveu
dobrar na primeira bifurcação que encontrassem. Se os ghameses
procurassem adivinhar em que lugar os dois saíram do corredor,
chegariam à conclusão de que era mais provável que tivessem
seguido em linha reta. Não pretendia tornar as coisas tão fáceis
para eles. Era provável que dispensassem menos atenção às saídas
laterais que à principal.
A idéia
era boa — apenas não havia corredores laterais. Ao menos nos
primeiros trinta minutos, não encontraram nenhum. A confiança de
Richard foi enfraquecendo.
Subitamente
teve uma idéia que lhe deu novas esperanças. O corredor devia ter
alguma finalidade. Ninguém constrói um corredor apenas para ligar
dois pontos que já estão ligados por uma rua. Quando construíram a
galeria, os ghameses talvez tivessem agido com uma intenção
definida. Devia haver alguma bifurcação que levasse a outra saída.
Até então
Richard se limitara a apalpar a parede que ficava à sua esquerda. Do
outro lado, Dynah fazia o mesmo com a mão estendida.
“Isso
não basta”,
concluiu mentalmente Richard. “É
possível que por aqui haja portas menos toscas que as que
encontramos na beira da rua.”
Calculava
que, se alguém passasse apenas ligeiramente a mão pela parede,
talvez deixasse de notar pequeníssimas fendas.
Richard
parou.
— O que
houve? — perguntou Dynah em tom assustado.
— Precisamos
de luz — respondeu Richard. — Receio que só com as mãos não
descubramos nada.
— Tenho
um isqueiro — disse Dynah. — Mas é pequeno.
— É
melhor que nada. Poderia fazer o favor de emprestar-me?
Ouviu
Dynah remexer os bolsos de sua roupa.
— Aqui
está.
Richard
colocou o isqueiro perto da parede e iluminou-a. A claridade
produzida não era maior que a unha do dedo polegar. Para iluminar
uma área de um metro quadrado, de tal forma que nada lhe escapasse,
Richard calculou que levaria mais de uma hora.
Finalmente
descobriu que poderia aumentar a eficiência do isqueiro se colocasse
a mão perto dos raios térmicos, fazendo com que a mesma refletisse
parte da luz verde irradiada para o lado. Com isso, ampliava a área
a ser iluminada.
Na parede
não havia nada de extraordinário. O corredor fora aberto, com os
meios mais primitivos, em meio à rocha natural. O chão era
razoavelmente plano. O teto era tão baixo que Richard se admirou de
não ter esbarrado várias vezes no mesmo. Mas não descobriu o menor
sinal de uma porta ou de algum mecanismo misterioso que pudesse levar
a um corredor lateral.
— O
senhor acredita que jamais conseguiremos sair daqui? — perguntou
Dynah, de repente.
Richard
deu uma risada.
— Não
pretendo concluir meus dias de vida neste corredor — respondeu.
— O
senhor ri demais — disse a moça, em tom sério. — Não precisa
infundir-me coragem. Ao menos não precisa infundir-me mais coragem
do que o senhor tem. Sempre me sinto melhor se sei exatamente a
quantas ando.
Richard
engoliu em seco.
— Sinto-me
desolado porque a senhora descortina com tamanha facilidade os meus
pensamentos — asseverou. — De qualquer maneira, tenho certeza de
que não morreremos neste corredor. Se não descobrirmos nada,
voltaremos e faremos o que o saltador mandar. Isso ainda será melhor
que morrer de fome.
Voltou a
examinar a parede. E, por estranho que possa parecer, justamente
naquele instante descobriu aquilo que procurara durante todo o tempo:
uma fenda finíssima, quase imperceptível, que corria verticalmente
na parede e descrevia uma linha tão reta que, em hipótese alguma,
se poderia ter formado naturalmente.
Muito
tenso, seguiu-a com a luz débil. Encontrou o ponto situado pouco
abaixo do teto onde esta descrevia um ângulo reto, correndo
paralelamente ao teto por um certo trecho, e o lugar em que descrevia
outro ângulo reto, para voltar a descer em vertical.
Dynah não
vira nada.
— Aqui
está a porta! — disse Richard em tom indiferente.
Dynah
correu para junto dele e examinou o lugar.
Richard
entregou-lhe o isqueiro e pediu-lhe que o segurasse junto à parede.
Procurou mover o pedaço da rocha destacado pela fenda. Não havia
nenhuma maçaneta, nenhuma tramela, nenhum botão. Mas existiria uma
possibilidade de movê-lo.
Richard
pensou que bastava apenas empurrar a porta para dentro. Então
encostou o corpo à mesma e empurrou com toda força. A parede não
saiu do lugar. Richard esteve prestes a desistir. Mas, subitamente,
ouviu um leve estalido nas proximidades do solo!
A porta
começou a mover-se com facilidade. Richard, por pouco, não perdeu o
equilíbrio. O pedaço da rocha deslocou-se para o lado de dentro,
como se corresse sobre rolamentos bem lubrificados. Uma abertura
surgiu na parede; dois caminhos estreitos surgiram pelos flancos do
bloco de rocha empurrado para dentro. Um para a direita e outro para
a esquerda.
Richard
recuou. Não sabia por que de repente se sentia tão orgulhoso.
Talvez fosse a proximidade de Dynah. De qualquer maneira, fez um
gesto convidativo em direção à entrada, que subitamente surgira à
sua frente, e olhou para Dynah, como se quisesse dizer: “Descobri
isso para você. Entre e dê uma olhada.”
E foi
assim que Dynah fez a descoberta que deveria ter sido reservada a
ele. Em atitude um pouco hesitante, com a mão direita estendida para
trás, como se quisesse que Richard a segurasse, passou pela
abertura, a fim de olhar o que havia do outro lado. Richard viu-a
inclinar-se para a frente. A cabeça desapareceu atrás do bloco de
rocha.
Vendo a
jovem imobilizar-se, assustou-se.
“O
que a fez ficar assim?”,
perguntou-se mentalmente.
Pegou sua
mão, tentando puxar a jovem para trás. Mas, no mesmo instante,
Dynah virou a cabeça. Estava muitíssimo comovida.
— Lá
embaixo! — exclamou. — O vidro, Dick...!
8
Retransmissora
XIV para estação Ghama:
Terra diz
que só ingredientes
fundamentais são interessantes. Existe estoque suficiente de
produtos acabados. A ação suave é a lei suprema. Desligo.
Estação
Ghama para retransmissora XIV:
Obrigado
pela indicação.
Por enquanto não podemos agir. Desligo.
*
* *
Ron Landry
bem que gostaria de dar outra resposta. Mas os canais intergalácticos
de telecomunicações não se destinavam à transmissão das emoções
de cada um.
Ao ver a
mensagem, Larry Randall soltou uma risada amarga.
— Não
têm a mínima idéia de como são as coisas aqui embaixo —
constatou.
— Nem
poderiam ter — disse Ron. — Se conseguir pôr as mãos no tal do
Silligan, ele verá o que é bom. Poucas vezes vi alguém fazer uma
tolice pior que ele.
Larry
meneou a cabeça.
— Não
sei. Se estivesse no seu lugar, provavelmente teria feito a mesma
coisa.
Ron
virou-se, devagar e bastante contrariado.
— Pois é
justamente isso — disse meio contrafeito. — Cada um acredita que
tem de cuidar de si mesmo. Ele devia saber que a Terra não abandona
seus homens. Nunca abandonou...
Larry
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Suas
palavras parecem bastante patéticas — disse. — Não sei se,
quando chegasse o momento, eu confiaria nelas.
Ron fez um
gesto enérgico.
— Um dos
princípios de nossa política é este: se um único terrano se vê
em dificuldade no espaço, envia-se, caso seja necessário, uma
expedição de salvamento. A idéia é do próprio Perry Rhodan, que
é de opinião que de outra forma não podemos levar os saltadores, e
outras criaturas que tenham alguma coisa contra nós, a deixar nossas
naves em paz. Rhodan toma isso a sério, e para mim é uma excelente
idéia. Quem se vê em situação difícil faz apenas o necessário
para conservar-se vivo. Quanto ao mais, deve-se esperar, e ter
confiança, pois a qualquer momento surgirá uma nave terrana que
tirará a pessoa da situação penosa em que se encontra.
Larry fez
um gesto de concordância; parecia perturbado.
— Ah;
será que o senhor está falando sério?
— Sem
dúvida.
Larry
refletiu por algum tempo. Finalmente disse em tom discreto:
— Muito
bem. A gente tem de acostumar-se a isso. Até agora os terranos
sempre comeram as sopas que cozinharam. Não posso condenar Silligan
pelo que fez.
Ron voltou
a ficar junto à janela, com o copo na mão.
— Para
falar com franqueza, também não posso — confessou. — Mas
provavelmente a bravata lhe custará a vida... e a vida da moça que
está em sua companhia. Não posso permitir que Warren Teller e seus
homens fiquem nadando uma eternidade lá embaixo. Terão de agir. E
se até então Silligan e a moça não tiverem aparecido, seu ato
lhes custará o pescoço.
Larry
refletiu.
— Alboolal
também está lá embaixo, não está? — perguntou.
Ron fez
que sim.
— Sim.
Pela descrição que recebemos deve ser Alboolal.
— O que
será feito dele?
Ron
hesitou um pouco.
— Teller
recebeu instruções para procurá-lo — respondeu. — Se Silligan
e a moça aparecerem em tempo, não teremos lugar para Alboolal, e
nesse caso ele próprio terá de comer a sopa que cozinhou. Mesmo que
os dois não sejam encontrados, Teller e seus homens terão bastante
trabalho para acolher os prisioneiros em segurança e escapar da
cidade que desmoronará. Conclui-se que não poderão correr atrás
de Alboolal.
— Mas
poderão descobrir antes onde ele se encontra, não poderão?
— Só se
estiver ao alcance de sua vista. Em certos lugares a cidade não está
envidraçada.
— E isso
se aplicará tanto aos prisioneiros como a Alboolal. Se Teller não
puder ver onde eles se encontram, não poderá libertá-los.
Ron
sorriu.
— Perfeitamente.
Justamente por isso Teller esperará, depois de receber ordens para
entrar em ação, até que os prisioneiros apareçam em algum lugar.
*
* *
Quando
procurou enxergar o que havia atrás do bloco de rocha, a primeira
impressão colhida por Richard foi uma sensação de claridade
ofuscante e de calor mortífero.
Mas seus
olhos logo se acostumaram à claridade e começaram a distinguir os
pormenores. Richard viu que a luz e o calor eram emitidos por uma
torrente viscosa de material incandescente, que saía de uma parede
nos fundos da gigantesca sala, que agora Richard abrangia com a
vista. Tal torrente se dirigia até um canteiro, aparentemente bem
delimitado, na parte da frente. Ao que tudo indicava, uma vez
alcançado esse canteiro, o material esfriava e perdia a
luminosidade. Por fim encontrava, em meio ao seu caminho, uma espécie
de tina cheia de água, na qual mergulhava com um forte chiado.
Richard não pôde ver se realmente se tratava de uma tina. Parecia
que os ghameses tinham aberto um pequeno furo na parede lateral, por
onde entrava a água do mar. Mas isso não importava. O que importava
era que a massa incandescente, depois de esfriar na água até
adquirir uma coloração vermelha, saía do lado em que se encontrava
Richard. Já não era líquida, mas plástica. Deslizava no chão
seco, ia quebrando em pedaços e só depois disso ficava parada. Até
parecia que aquela massa estranha possuía vida.
As peças
esfriadas tornavam-se vitrificadas e transparentes, e tanto mais
transparentes quanto mais próximas se encontrassem do lugar em que
Richard se achava. Era estranho de ver que o formato das peças se
tornava cada vez menos nítido, a partir da tina, até ficar
irreconhecível. Richard tinha certeza de que, mesmo nos lugares onde
não distinguia mais nada, havia peças.
Encontravam-se
no local secreto em que era fabricado o célebre vidro de Ghama,
daquele resistente vidro que os ghameses utilizavam para proteger
suas cidades contra o mar.
Alguns
ghameses corriam de um lado para outro. Ao que parecia, não se
importavam com o calor. Observavam a massa incandescente que saía da
parede, corria pelo chão e se despejava com um forte chiado no
interior da tina. Parecia que não precisavam prestar atenção a
mais nada. Ao sair do outro lado da tina, o material já estava
metamorfoseado. Era vidro, o incrível vidro.
Richard
começou a contar. Lá embaixo havia um total de onze ghameses. Do
lugar em que se encontrava não enxergava todo o recinto. Era
possível que, em outro lugar, ainda houvesse outros nativos. A
situação era bastante desfavorável. Não possuía arma. Era bem
verdade que os ghameses também não estavam armados, mas face à
superioridade numérica isso não fazia muita diferença.
Richard
realizou um exame crítico do local. Do outro lado do bloco de rocha,
o corredor descia rapidamente, tornando-se mais largo e mais alto.
Tinha certa semelhança com um funil que se abrisse para dentro do
pavilhão. O pavilhão propriamente dito estava vazio, com exceção
dos onze ghameses, da tina cavada na parede e da massa vítrea
incandescente. Não havia a menor possibilidade de esconder-se.
De
qualquer maneira, teriam que descer. Só havia um meio de alcançar a
liberdade: pegar um ghamês e obrigá-lo a dizer-lhes onde poderiam
encontrar uma comporta e um barco.
Um plano
começou a formar-se no cérebro de Richard. Era simples, e teve sua
origem antes na necessidade que na visão tática. Mas Richard
Silligan não poderia perder muito tempo com reflexões. O plano lhe
pareceu razoável e promissor.
Recuou e
fitou Dynah. Enquanto refletia sobre a forma de dizer-lhe o que tinha
em mente, ela adiantou-se e disse:
— Não
tente convencer-me de que devo ficar aqui e olhar o que o senhor
estará fazendo. Irei com o senhor.
Apesar
disso Richard tentou. Ou melhor, quis tentar. Mas Dynah não permitiu
que falasse. Apontou para o outro lado do bloco de pedra e falou:
— Desceremos
juntos, e se alguém nos quiser fazer qualquer coisa, este alguém
verá o que é bom. Entendido?
*
* *
Ron Landry
olhou para o relógio.
“Até
parece que isso adianta alguma coisa”,
pensou Larry bastante desanimado. “Desapareceram
e não aparecerão, até que a água os carregue para a superfície.”
Ron tirou
o pequeno aparelho de comunicação do bolso de sua roupa e ligou-o.
— Perca
chamando truta — disse em tom tranqüilo e com a voz séria. —
Responda, truta.
Passou-se
algum tempo. Finalmente o receptor emitiu o conhecido estalo, e uma
voz vinda bem de longe respondeu:
— Truta
para perca. Pode falar.
— O que
aconteceu com Silligan e com a moça, truta?
— Não
temos o menor sinal deles, perca.
— E os
outros?
— No
momento não os vejo. Mas sei onde estão.
— Muito
bem. Preste atenção, truta. Ataque quando o momento lhe parecer
mais oportuno. Não podemos esperar mais por Silligan e pela moça.
Procure localizar o saltador e traga-o se for possível.
— Entendido,
perca. Atacarei quanto antes e levarei o saltador.
— Está
bem. Desligo.
*
* *
Warren
Teller observou os arredores através de um dos grandes olhos. No
início costumava rir toda vez que lhe vinha a idéia de como estes
olhos eram práticos e preenchiam a finalidade normal de um olho:
enxergar.
Mas Warren
Teller já perdera a vontade de rir. Sabia que, se seguisse as ordens
recebidas e atacasse assim que surgisse uma boa oportunidade,
retiraria de dois seres humanos todas as chances de vida. Warren
Teller começou a ter suas dúvidas sobre certos princípios
estranhos da política terrana. Na verdade, não haveria qualquer
objeção a que esperasse até que Silligan e a moça aparecessem em
algum lugar. Dessa forma salvaria cinco pessoas, e a única pessoa
prejudicada pela ação seria o saltador barbudo. Os ghameses estavam
habituados à água. Se sua cidade desmoronasse, nadariam para
colocar-se em segurança.
Mas não;
não se podia esperar tanto tempo. A Missão Ghama tinha de ser
levada avante. Tornava-se necessário evitar que os saltadores se
fixassem definitivamente em Ghama e fazer com que a representação
terrana adquirisse uma posição mais segura. E tudo isso tinha de
ser feito sem que os nativos se espantassem. Deviam saber o menos
possível do que estava acontecendo.
Silligan e
a moça acabariam sendo sacrificados por essas exigências. Warren
Teller não duvidava de que as pessoas, que haviam estabelecido as
diretivas, sabiam o que estavam fazendo. Tinha certeza de que uma
coisa extremamente importante estava em jogo; por certo tratava-se de
um empreendimento que não poderia ser sacrificado por causa de um
oficial e uma moça.
Apesar de
tudo teve pena dos dois. Poderia começar logo, pois sabia onde se
encontravam os prisioneiros, mas preferiu esperar até que estes
aparecessem de novo.
Ligou o
visor de luz ultra vermelha, e o interior da cidade surgiu
nitidamente em seu receptor. Via os ghameses que arrastavam os pés
pela estranha praça situada atrás da parede de vidro, bem como as
cinco sentinelas postadas diante da porta do aposento em que se
encontravam os prisioneiros. No momento estava com eles o saltador
barbudo, que provavelmente pretendia interrogá-los. Também viu os
vinte ou vinte e cinco ghameses que se encontravam junto a outra
porta, armados com porretes e outros objetos. Tratava-se da entrada
pela qual Silligan e a moça haviam saído. Os ghameses esperavam que
voltassem pela mesma porta. Mas, com toda certeza, também haviam
postado sentinelas em outros lugares.
Teller
gostaria de saber o que aconteceria se atacasse a cidade juntamente
com os quatro companheiros. Sem dúvida, os ghameses se sentiriam
tomados de tamanho pavor que nem mesmo as ordens de um saltador
conseguiriam levá-los a fazer qualquer outra coisa, senão salvar-se
através da fuga.
Houve um
movimento na tela, que interrompeu as reflexões de Warren. De
repente as cinco sentinelas, postadas diante da porta do aposento em
que se encontravam os prisioneiros, afastaram-se. A porta abriu-se.
Quatro vultos surgiram, e a atenção dos ghameses, que se
encontravam na praça, dirigiu-se imediatamente para estes. Warren
Teller reconheceu o saltador barbudo, principalmente pelo tamanho. A
julgar pela lista de passageiros da Carolina, os outros três deviam
ser Lyn Trenton, representante da administração terrana em Árcon,
Ez Rykher, um fazendeiro de Oregon, que ganhara a viagem para Árcon
num concurso, e por fim Tony Laughlin, tripulante da Carolina.
Warren
reconhecia-os perfeitamente, embora naquele momento se encontrasse a
mais de um quilômetro de distância. E era um quilômetro de águas
turvas, que a luz do sol quase não as atravessava.
Sabia que
era este o momento previsto nas instruções que lhe haviam sido
dadas. Devia atacar!
Pegou o
microfone e deu ordem de ataque.
*
* *
Por
estranho que possa parecer, Ez Rykher foi o primeiro a ver o peixe.
Isso aconteceu quando as atenções dos ghameses se concentraram
exclusivamente no grupo, formado por um saltador, cinco guardas e
três prisioneiros, que atravessava a praça. Alboolal, o saltador,
ameaçara os prisioneiros de levá-los ao buraco mais escuro de
Guluk, se estes não lhe contassem espontaneamente aquilo que
desejava saber. Seu interesse dirigia-se principalmente para um novo
sistema de propulsão de naves que, segundo ouvira, passou a ser
construído há alguns anos nos estaleiros da Terra. Ninguém sabia
dar informações a este respeito. Lyn Trenton e Ez Rykher não
sabiam absolutamente nada. Tony Laughlin ouvira falar alguma coisa,
mas não estava em condições de fornecer detalhes, porque não
entendia nada do assunto.
Alboolal
disse que se tratava de uma desculpa e dispôs-se a cumprir sua
ameaça.
Os
prisioneiros seriam levados novamente a uma parte da cidade, situada
num ponto mais baixo.
Ez Rykher
estava refletindo sobre esta perspectiva nada animadora, quando viu o
peixe. Parou, fazendo com que Lyn Trenton esbarrasse nele. Com isso
Lyn teve sua atenção despertada. Olhou pela parede de vidro e
também viu o monstro.
— Meu
Deus...! — gritou em tom de espanto.
Os guardas
perceberam que dois dos prisioneiros haviam parado e obrigaram-nos a
seguirem adiante. Por pura curiosidade também dirigiram os olhos
para a parede de vidro.
— Liiidioooque...!
— soou o grito selvagem e cantante.
Com isso,
todas as pessoas na praça notaram que alguma coisa estava
acontecendo. Os ghameses giraram sobre os calcanhares. Ninguém deu a
menor atenção aos prisioneiros. Ez Rykher, perplexo, continuava a
fitar o monstro. De repente percebeu que mais quatro se aproximavam
rapidamente, colocando-se diante da grande janela.
O pânico
espalhou-se entre os ghameses. Gritando e lamentando-se, fugiram em
direção às saídas da praça. Os guardas também se esqueceram do
seu dever. Lançaram um olhar assustado para o saltador e saíram
correndo. Uma confusão terrível formou-se nas ruas que saíam da
praça.
O saltador
logo compreendeu a situação. Também parou e dirigiu a arma de
radiações sobre os três prisioneiros.
— Não
quero que ninguém acredite que esta é a grande oportunidade —
disse com a voz séria, numa ameaça inconfundível. — Vamos
andando; prosseguiremos. Os lidioques não nos farão nada.
Mas os
lidioques não pareciam ser da mesma opinião. Investiram em conjunto
contra a parede de vidro, chocando-se contra ela com uma força
inimaginável. No momento do impacto, a gigantesca área de vidro
ressoou que nem um sino gigantesco plantado no fundo do mar. A cidade
foi sacudida sob o solavanco. Por alguns segundos a gritaria dos
ghameses, que se aglomeravam nas ruas, cessou, para recomeçar mais
forte e mais apavorada que antes.
O saltador
começou a movimentar-se mais depressa. Parecia já não ter tanta
certeza da exatidão de sua teoria.
Os cinco
lidioques fizeram meia-volta, afastaram-se da parede de vidro,
colocaram-se outra vez de frente para esta e repetiram o ataque. Ez
Rykher parou, muito embora Alboolal o ameaçasse com a arma, e
observou o segundo ataque, contendo a respiração. E quando os
monstros bateram com um enorme estrondo contra o vidro, estremeceu.
Respirou aliviado no momento em que fizeram meia-volta, mas
subitamente viu a grande fenda que atravessava a parede em direção
oblíqua. Em alguns lugares a água esguichava violentamente para a
praça.
O saltador
pôs-se a correr. Não deu a menor atenção aos prisioneiros. De
repente perdeu todo o interesse pelos novos sistemas de propulsão e
outros segredos.
E os
lidioques uniram-se para o terceiro ataque.
“Desta
vez passarão”,
pensou Ez Rykher. “Diabo!
Atrás desta parede a água exerce uma pressão de vinte atmosferas.”
9
Estação
Ghama para retransmissora XIV:
Ação
iniciada. Silligan e Langmuir provavelmente perdidos. Desligo.
Retransmissora
XIV para estação Ghama:
O bem
da Terra é tudo; nossas preocupações pessoais não são nada.
Desligo.
*
* *
Ao segurar
esta mensagem, Ron Landry soltou uma terrível praga, muito embora
soubesse que, no fundo, os homens da retransmissora XIV estavam com a
razão.
*
* *
Desceram
lado a lado. O calor que os envolvia tornou-se cada vez mais
insuportável.
Os
ghameses ainda não haviam percebido nada. O chiado da água, na qual
se despejava o vidro liquefeito, abafava o ruído dos passos de
Richard e Dynah.
Richard
olhou para Dynah. Estava séria, mas não parecia nervosa.
Quando
chegaram à altura da tina de água, Richard seguiu para a direita.
Dois ghameses encontravam-se junto à tina, e os mesmos serviam tão
bem como quaisquer outros para serem os primeiros a ouvir a terrível
notícia inventada por Richard Silligan. Este começou a correr, como
se estivesse com uma tremenda pressa, e Dynah corria a seu lado. Seus
passos ainda não podiam ser ouvidos. Os ghameses só notaram a
presença dos dois terranos, quando estes se encontravam a seu lado.
Richard
sentiu que não agüentaria por muito tempo o calor que fazia naquele
lugar, a apenas dez metros da torrente de vidro. Sua exaustão só
era fingida em parte. Gritou:
— Lidioques!
Um bando deles está atacando a cidade. Se não fugirmos, estamos
perdidos.
Falou em
arcônida. Não tinha certeza de que o nome do peixe gigante
realmente era o que tinha na memória. Mas os ghameses pareciam
compreendê-lo. Um deles virou-se para o lado e soltou o velho grito
de pavor dos habitantes de Ghama:
— Liiidíoooque...!
O grito
superou o ruído das massas de vidro liquefeito. Os outros ghameses
levantaram os olhos. Richard entesou os músculos. Era este o momento
em que veria se seu truque seria bem sucedido ou não.
Nesse
instante aconteceu alguma coisa com a qual Richard não contaria nem
mesmo nos seus sonhos mais ousados. Um estrondo surdo e forte
atravessou a rocha. O ruído gelou o sangue nas veias de Richard; os
ghameses já pareciam conhecê-lo e puseram-se a correr. Richard teve
de esforçar-se para segurar pelo ombro um dos dois que se
encontravam próximos a ele. Notou o pavor que estava estampado na
face daquela criatura.
— Onde
estão os barcos...? A comporta...? — gritou para ele. — Nós não
sabemos nadar.
Teve de
repetir a pergunta. De tão nervoso que estava, o ghamês não
compreendeu o sentido da pergunta e procurou libertar-se.
— Ali...
— gaguejou depois de algum tempo. — Na mesma direção... nós
vamos...!
Isso soava
lógico. Se os ghameses quisessem sair da cidade porque temiam os
lidioques, também teriam de usar uma comporta, mesmo que soubessem
nadar. Não poderiam atravessar uma parede compacta. Richard soltou o
ghamês.
— Corra
atrás dele! — gritou para Dynah.
Movido por
uma grande curiosidade, Richard abaixou-se rapidamente e pegou uma
pequena peça de vidro que se encontrava ao lado da tina. Enganara-se
quanto à temperatura da peça. Queimou os dedos. Mas não se
importou com isso. Colocou a peça de vidro no bolso e correu atrás
de Dynah e dos ghameses.
*
* *
Sob o
ponto de vista de Ez Rykher a situação evoluiu de forma
extremamente rápida e chocante.
No fundo,
Ez estava convencido de que não adiantaria sair correndo, quando os
lidioques pela terceira vez uniram as forças no ataque. Apesar disso
disparou atrás de Tony Laughlin e Lyn Trenton. A praça estava quase
completamente vazia. Apenas uns poucos ghameses se comprimiam nas
ruas que saíam do largo.
Enquanto
corria, Ez ficou de olho na parede de vidro rachada. Viu os peixes
gigantes se aproximarem. Sabia que, desta vez, o vidro se romperia
por completo e a água invadiria as ruas. E atrás da água viriam os
lidioques, a fim de colher os frutos de seu trabalho, isto é,
algumas dezenas de ghameses, que não se tivessem afastado com
suficiente rapidez. Talvez também devorassem a ele, Ezekiel Dunlop
Rykher, mas pouco lhe importava que fosse devorado ou morresse
afogado.
Foram
estes os pensamentos que se atropelaram no cérebro de Ez. As cabeças
dos lidioques bateram fortemente contra a parede de vidro e o
desastre começou.
Um segundo
depois, a fenda tornou-se mais larga. A água começou lentamente a
invadir o local. Depois a parede espatifou-se de vez. O líquido
passou ruidosamente por cima dos destroços e encheu a praça com uma
rapidez apavorante.
Ez Rykher
já não corria. Estava tudo no fim. Não adiantava fugir. Uma
torrente de água precipitou-se sobre ele e arrastou-o. Subitamente
estava coberto pela água. Não conseguia respirar e começou a
debater-se. Voltou a subir à tona e viu bem à sua frente a enorme
boca do lidioque, armada de dentes. De repente a boca produziu uma
sucção e Ez foi arrastado para dentro da abertura sombria,
juntamente com alguns metros cúbicos de água.
Foi
atirado de um lado para outro. Fechou os olhos de pavor.
Ao notar
que por algum tempo nada lhe estava acontecendo, sentiu um ligeiro
espanto; apenas estava sendo jogado de um lado para o outro, ele e a
água, que diminuía cada vez mais, como se escorresse em algum
lugar. Ez teve a idéia tola de que o lidioque talvez nem quisesse
comer, mas beber. Talvez voltasse a cuspi-lo, lançando-o outra vez
na água.
Finalmente
imobilizou-se. O último solavanco atirara-o sobre um local que
parecia seco e macio. Ez nunca esperara encontrar um lugar destes no
interior de um lidioque.
Muito
espantado, abriu os olhos.
E
sentiu-se ainda mais espantado ao ver, pouco acima de sua cabeça,
uma moderna lâmpada incandescente a gás, cuja luz forte iluminava
um pequeno recinto quadrado.
*
* *
A comporta
não ficava longe do pavilhão de vidro. Mas nesse meio tempo a
cidade fora sacudida por mais duas fortes pancadas. Richard, que
inventara a história dos lidioques para fazer com que os ghameses
saíssem correndo, teve a impressão de que conjurara o demônio. De
qualquer maneira, os ghameses pareciam ver nos ruídos um sinal
inequívoco de que a cidade realmente estava sendo atacada por
lidioques.
Com isso,
a situação modificou-se. Richard realmente estava com pressa. E não
poderia permitir que os ghameses saíssem a nado, para que ele mesmo
compreendesse em tempo o mecanismo de um dos barcos.
O tanque
da comporta era de um tamanho espantoso, e nele havia uns cinqüenta
barcos de todos os tipos. Richard e Dynah mantiveram-se próximos de
um dos ghameses e, ao verem que os que iam na frente saltavam para
dentro do tanque da comporta a fim de nadarem até o portão exterior
da comporta e abandonarem a cidade, seguraram o que se encontrava a
seu lado e apontaram para os barcos.
Era
difícil fazer com que o ghamês, terrivelmente apavorado,
compreendesse qualquer coisa. Mas depois de algum tempo pareceu
entender o que desejavam. Apesar disso Richard não tirou os olhos
dele, quando saltaram da borda baixa do tanque para o convés de um
dos barcos. Com os dedos trêmulos o ghamês abriu o fecho da
escotilha que levava para o interior do barco. Mal conseguiu abri-la,
fez menção de entrar, mas Richard segurou-o. Dynah foi a primeira,
depois Richard, que prestou atenção para que o ghamês voltasse a
fechar a escotilha.
A última
coisa que ouviram antes de trancar a escotilha do lado de dentro foi
um ribombar vindo do alto, que provavelmente era provocado pelas
massas de água que se precipitavam para dentro da cidade.
No barco,
onde se sentia mais seguro, o ghamês parecia perder parte do medo de
que se sentia possuído. Uma vez no interior da pequena cabine de
comando, agiu com rapidez e segurança. O motor foi posto em
movimento, e o barco deslizou pelo tanque, em direção ao portão
externo. O portão estava aberto, e o barco penetrou num túnel
escuro, que levava ao tanque de flutuação. Richard permanecera na
cabina principal do barco e procurava verificar se a catástrofe já
se manifestara no interior das comportas. Mas não viu nenhum sinal
disso, até que o barco desapareceu no túnel de flutuação.
Numa
viagem tranqüila, mas rápida, o barco chegou ao tanque de
flutuação. A abertura da comporta demorou algum tempo. Depois o
veículo saiu para a penumbra verde das águas profundas do mar.
Richard olhou pelas pequenas janelas da cabina principal e viu a
grande nuvem de lama e poeira que se levantava no lugar em que antes
ficava a cidade de Guluk.
A água
estava cheia de ghameses. Ao que parecia, a catástrofe acontecera
morosamente e todos tiveram tempo de salvar-se.
*
* *
Levantou-se.
Uma série de pensamentos confusos atravessou seu cérebro.
Subitamente
ouviu uma voz que saía de um alto-falante situado quase no teto:
— Meu
nome é Warren Teller. No momento encontro-me na cabina de comando
deste veículo que tem a forma de um lidioque. Acho que o senhor é
Ez Rykher. Mantenha-se calmo e reprima qualquer sensação de pânico.
É o que se deve fazer numa situação como esta. Colocá-lo-emos em
segurança, a bordo de uma nave terrana. É só.
Ez Rykher
procurou obedecer ao conselho. Disse para si mesmo que não havia
nada demais em ser devorado por um lidioque e, posteriormente,
constatar no interior do ventre do monstro que este era apenas uma
imitação, feita na Terra, a fim de salvar cinco terranos que se
encontravam numa situação extremamente difícil.
Lembrou-se
de Richard Silligan e Dynah. Sentiu-se sacudido por um choque. Os
dois não puderam ser salvos pelos lidioques de imitação. Deviam
ter sido esmagados pelos destroços da cidade, ou morrido afogados.
A tristeza
não ajudou Ez Rykher a superar aqueles torturantes minutos de
confusas reflexões.
“Dick
e Dynah, santo Deus!”,
pensou. “A
essa hora já devem estar mortos.”
Não sabia
há quanto tempo já se encontrava ali, quando, de repente, surgiu
uma abertura na parede e um homem, envergando o uniforme da frota
terrana, entrou no recinto quadrado. Sorriu, mas Ez não estava com
disposição para sorrir. Antes que o homem tivesse tempo de abrir a
boca, investiu com esta pergunta contra ele:
— O que
aconteceu com Dick Silligan e a moça? Conseguiram salvá-los?
O rosto do
homem assumiu uma expressão séria. Balançou a cabeça.
— Não;
não pudemos esperar mais. Tivemos de atacar, e não tínhamos a
menor idéia de onde os dois estavam.
Ez baixou
a cabeça. Depois de algum tempo prosseguiu:
— Não
adianta recriminá-lo por isso. Suponho que o senhor seja Warren
Teller.
O homem
fez um gesto afirmativo.
— E
agora? — perguntou Ez num tom de voz que revelava já não estar
interessado em mais nada.
— Chegamos
ao destino. Encontramo-nos junto à Urânia, um cruzador pesado da
frota terrana. Peço-lhe que suba a bordo. Será levado para casa
pelo caminho mais rápido. A propósito: seus dois companheiros
também estão em segurança, e conseguimos prender o saltador.
*
* *
A voz de
Ron Landry parecia dura e implacável.
— Seguiu
meu conselho? — perguntou. — Fez seu testamento e designou um
chefe de clã para sucedê-lo?
Alboolal
procurou controlar-se. Ainda se achava muito confuso, devido aos
acontecimentos dos últimos minutos. Sentiu, porém, que estaria
perdido se não cobrasse ânimo e enfrentasse o terrano.
— Protesto!
— disse o mais alto que pôde.
Na pequena
cabina em que se encontravam sua voz ressoou que nem um tiro de
canhão.
Mas o
terrano não se impressionou com isso.
— Contra
o quê? — perguntou com um sorriso. — Contra o fato de nós o
termos salvo? A cidade estava desmoronando.
— A
cidade foi destruída por causa de suas maquinações... — gritou
Alboolal.
Ron
interrompeu-o em tom frio.
— Naturalmente.
Mas pelo que sabemos, entre os ghameses não houve mortos e feridos.
E, o que é mais importante, o senhor nunca estará em condições de
contar isso a quem quer que seja.
Alboolal
parecia ter sido atingido por um choque.
— Por
quê?
— Porque
será levado à Terra para ser processado.
Alboolal
respirava com dificuldade.
— Isso
é...! — principiou, fungando de raiva. — O senhor não pode
fazer uma coisa dessas comigo! Sou um saltador livre.
— O
senhor já foi um saltador livre — interrompeu Ron. — Acontece
que participou do ataque a uma nave mercante terrana e de sua
destruição. Com isso, a situação se modifica. Será que o senhor
realmente acreditava que qualquer saltador vagabundo pode andar
derrubando naves terranas e continuar a viver como se nada tivesse
acontecido?
— O
senhor... o senhor não tem nenhuma prova contra mim... — disse o
saltador em sua defesa.
Ron Landry
fez um gesto de desprezo.
— O
senhor se esquece — respondeu com a voz tranqüila — que esse
acontecimento representa uma questão política de primeira ordem. A
Terra dispõe de meios perfeitamente legais de fazer com que um
suspeito nos conte a verdade.
— Protestarei
contra isso — gritou Alboolal. — Farei com que toda a Galáxia
conheça os métodos que a Terra costuma usar.
Um sorriso
frio surgiu no rosto de Ron Landry.
— É o
que o senhor deve fazer — respondeu. — Colocaremos à sua
disposição todo e qualquer órgão de comunicação que o senhor
queira usar. Estamos interessados em que o público saiba que certos
clãs dos saltadores não passam de bandos de piratas. Acho que o
senhor é capaz de imaginar a reação que isso provocará na
Galáxia.
Alboolal
imaginava perfeitamente. De repente viu o futuro de seu clã diante
dos olhos. Os terranos descobririam a verdade; não havia a menor
dúvida. E informariam o público a este respeito; quanto a isso
também não havia a menor dúvida. Fosse qual fosse seu destino
pessoal — os terranos matá-lo-iam ou prendê-lo-iam, segundo as
prescrições de suas leis — seu clã estava desacreditado para
todo o sempre. Ninguém iria querer manter relações com o mesmo.
Teria de abandonar sua base em Ghama.
Alboolal
sabia o que ele e seu clã podiam esperar. Teve um colapso. Um
colapso tão violento que tiveram de chamar um médico para que se
recuperasse.
*
* *
A Urânia
não tinha mais nada a fazer em Ghama. O comandante recebera
instruções para recolher a bordo as pessoas resgatadas, bem como o
Tenente Larry Randall e o Capitão Ron Landry, e por fim os cinco
monstros lidioques fabricados na Terra, a fim de que não restasse
nenhum vestígio da missão secreta que haviam desempenhado em Ghama.
Depois disso deveria retirar-se o mais depressa possível, para que
os nativos não tivessem oportunidade de refletir sobre as atividades
misteriosas desenvolvidas em seu mundo aquático.
No
entanto, a decolagem da Urânia foi retardada.
Um pequeno
submarino dos nativos emergiu e, logo que avistou a nave que pairava
pouco acima da superfície do mar, tomou a rota da Urânia. Assim a
decolagem da nave foi adiada.
O que
seria que os nativos queriam a bordo?
O pequeno
submarino encostou junto à Urânia.
Quem
primeiro apareceu no convés liso e arredondado foi o Tenente Dick
Silligan, ex-tripulante do cargueiro Carolina. Parecia um tanto
cansado e sua roupa estava bem maltratada, mas de resto achava-se em
perfeitas condições e bem-disposto.
Depois de
Silligan surgiu a moça sobre a qual tanto se falara nas últimas
horas: Dynah Langmuir. Também dava a impressão de não ter levado
uma vida muito confortável nos últimos tempos. Assim que foi levada
para bordo, chorou de alegria e cansaço.
O ghamês,
que pilotara o submarino, não quis subir a bordo da Urânia;
preferiu continuar no submarino e sair à procura de seus
conterrâneos. Os lidioques de imitação já se encontravam nos
compartimentos de carga da nave, motivo por que não poderia nutrir
suspeitas quanto à destruição da cidade de Guluk e quanto ao papel
que os terranos haviam desempenhado na mesma.
A Urânia
decolou depois de certificar-se, por meio de uma troca de mensagens
com a ilha Killanak, onde o sucessor de Larry Randall já entrara no
exercício de suas funções, de que por lá estava tudo em ordem.
A base dos
saltadores mantinha uma atitude de tranqüila expectativa. Não
precisaria aguardar muito para descobrir o que havia acontecido.
*
* *
Naquele
dia, Larry Randall viu pela primeira vez o Coronel Nike Quinto, e por
ele sentiu a mesma antipatia que Ron Landry lhe dedicara no início.
Mas Ron já o preparara para essa impressão. Por isso manteve-se em
atitude de expectativa e procurou descobrir de que forma se
manifestaria a “genialidade”
de Quinto.
De início
Nike não deu sinais da mesma. Suava. Seu rosto vermelho formava um
contraste pouco agradável com os cabelos ralos.
— Que
coisa horrível são estas instalações de condicionamento de ar! —
exclamou com a voz aguda. — São totalmente insuficientes numa
temperatura como a atual. Um dia ainda me matarão. Minha pressão
sangüínea não pára de subir.
Parecia
procurar alguma coisa na escrivaninha; talvez fosse apenas um gesto
de nervosismo. De qualquer maneira, depois de uma ligeira pausa
disse:
— E o
senhor ainda me fez ficar mais doente!
— Permite
que pergunte de que forma, sir? — indagou Ron Landry com a maior
tranqüilidade.
— Naturalmente;
não posso deixar de responder. Os cinco peixes gigantes, que o
senhor encomendou, devoraram boa parte do meu orçamento. Sabe lá
quanto custam cinco lidioques dirigíveis? Dez milhões de solares,
se são produzidos segundo as rotinas normais, e o dobro dessa cifra
se a gente tem tanta pressa quanto o senhor.
Ron
reprimiu o riso. Sabia de fonte segura que o orçamento da Divisão
III era ilimitado. Nem sequer tomaria conhecimento de um prejuízo de
vinte milhões de solares.
— Foi
uma medida imprescindível, sir — observou Ron. — Sem isso não
poderíamos ter impedido as maquinações dos saltadores, sem chamar
a atenção dos nativos.
— Hum...
— fez Quinto com um sorriso matreiro. — Isso não deixa de ser
verdade. Mas por que haveremos de permanecer em boa paz com os
nativos? Por que fazemos tanta questão de que nos considerem amigos?
O senhor sabe dizer?
— Não
senhor. O senhor conseguiu evitar que eu soubesse disso.
Nike
Quinto acenou fortemente com a cabeça.
— Ora
essa! Se eu não conseguisse manter um segredo como este, não seria
capaz de comandá-los. Bem, trata-se de certa matéria-prima.
Pronunciou
estas palavras com tamanha ênfase que pareceu estar revelando todo o
segredo.
— É
mesmo? — foi esta a única resposta de Ron.
— É
mesmo? — disse Nike Quinto, imitando Ron. — Até parece que isso
não representa nada para o senhor.
Ron
balançou a cabeça.
— Pois
eu lhe digo. Conhece o estranho tipo de vidro usado pelos ghameses? É
totalmente transparente. Tem uma permeabilidade de cem por cento. Não
produz a menor dispersão na faixa da luz visível. Apresenta um
ângulo incrivelmente aberto para a reflexão total. Em poucas
palavras: é a matéria-prima ideal para um objeto invisível. Além
disso, apresenta excelentes qualidades óticas em outras freqüências.
É o meio ideal para o laser infravermelho. Etc, etc...
Ron Landry
confessou que já começava a compreender.
— Não
conhecíamos a matéria-prima — prosseguiu Nike Quinto. —
Conseguimos amostras do produto acabado, mas nossos cientistas não
descobriram como o mesmo é fabricado. Um processo totalmente
desconhecido à nossa tecnologia deve ser empregado na fabricação.
Pensamos que poderíamos conseguir mais se obtivéssemos uma amostra
da matéria-prima e se nos tornássemos amigos dos ghameses, a fim de
que um dia eles nos revelassem o segredo. Precisamos do material. O
laser infravermelho pode ser transformado numa arma portátil tão
eficiente que a Galáxia nunca viu igual. Além disso, os saltadores
estavam interessados no mesmo negócio, e, com isso, nossa situação
tornou-se ainda mais difícil. Acho que o senhor já compreende os
motivos por que o assunto teve de ser resolvido com tamanha
discrição, não é?
Ron fez um
gesto afirmativo.
— Sem
dúvida, sir — respondeu. — Mas com isso compreendo ainda menos
por que o senhor achou que a despesa com a fabricação dos lidioques
dirigíveis foi tão pesada.
Nike
Quinto parecia explodir.
— Por
quê? — gritou. — Porque o problema já foi solucionado, e isso
graças à coragem e à criatividade de um jovem tenente, que a esta
hora já é capitão. Ele soube fazer a coisa certa na hora certa, e,
além disso, soube escapar da cidade dos ghameses graças à própria
habilidade, sem que lançasse mão dos lidioques dirigíveis.
Ron
estacou.
— Se não
me engano, o senhor está aludindo a Dick Silligan.
— Isso
mesmo. Estou falando em Dick Silligan. Esse jovem revelou-nos o
segredo. Esteve no lugar em que os ghameses fabricam o material
maravilhoso e trouxe uma amostra do produto semi-acabado.
Ron Landry
manteve-se calado.
— A
matéria-prima — prosseguiu Nike Quinto — que é algum silicato,
é derretida num forno. O material derretido é resfriado rapidamente
por meio da água do mar à temperatura normal. Provavelmente os
ghameses não sabem mais que isso. Mas a amostra trazida por Silligan
permitiu-nos descobrir que o processo não serve apenas ao
resfriamento. A água do mar, continuamente renovada pelos ghameses
por meio de uma instalação bem concebida, contém um tipo de alga
que produz certa reação química na massa vitrificada. Se não
fossem estas algas, o produto final seria um vidro igual a qualquer
outro, em nada melhor ao que antigamente costumava ser usado nas
vidraças das janelas. O segredo está nas algas. Dick Silligan
trouxe um pedaço desse vidro. Ainda apresentava vestígios das
algas. Isso bastou para que nossos cientistas desvendassem o segredo.
Já estamos em condições de fabricar o vidro dos ghameses.
Recostou-se.
Estava muito satisfeito; até parecia que tudo aquilo devia ser
creditado a ele, em pessoa.
Ron Landry
riu.
— Quer
dizer que agora podemos tratar os ghameses como quisermos, não é? —
perguntou.
O corpo de
Nike Quinto precipitou-se para a frente.
— Não
se atreva! — berrou sua voz aguda em tom furioso. — Os habitantes
de Ghama são nossos amigos, e como tais serão tratados.
Subitamente
levantou-se de um golpe.
— Caramba!
Vá embora. O senhor deixa meu coração em pandarecos com essa falta
de compreensão das coisas. O que será da minha pressão?
Apresente-se amanhã ao setor de pessoal, entendido? Há alguma coisa
para os senhores por lá. Se os compreendi bem, trata-se de uma
degradação ou de uma promoção. E agora dêem o fora!
Ron e
Larry levantaram-se, fizeram continência e saíram. Já no corredor,
a uma distância segura de Nike Quinto, pararam e sorriram.
— Que
tal uma bebida, capitão? — perguntou Ron Landry.
Larry
Randall soltou um suspiro.
— Não
sei se minha pressão sangüínea suportará, major.
*
* *
Retransmissora
XIV para estação Ghama:
Observamos
vinte e três transições em direção a Ghama. Intervalos pequenos.
Supomos que tenham sido causadas pela retirada da base dos
saltadores. Solicitamos confirmação. Desligo.
Estação
Ghama para retransmissora XIV:
Confirmado.
Não há mais nenhum saltador em Ghama. Por aqui tudo ficou monótono.
Desligo.
*
* *
*
*
*
A
Divisão III, chefiada por Nike Quinto, agiu de modo eficaz. E o que
é mais importante: não deixou pistas...
O
próximo volume da série, intitulado O
Monstro de Plasma,
liga-se aos acontecimentos relatados no volume 100. Os habitantes do
sistema Azul vão mostrar um novo tipo de arma.

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