— Está
duro de pavor. Assim será fácil transportá-lo. Vamos, Ras, dê-me
a mão.
O africano
não se fez de rogado.
— Boa
sorte, Osega! Ficaremos em contato com o senhor.
Os dois
teleportadores desmaterializaram-se juntamente com Calus, antes que
este tivesse tempo de pensar qualquer coisa.
Osega, que
estava transformado no falso Calus, ficou só. Felizmente não se
sentia solitário. Mantinha contato permanente com Perry Rhodan,
através do telepata John Marshall. Dessa forma recebia prontamente
ás instruções que se tornavam necessárias. Isso acontecia graças
à habilidade de Harno, que sabia reproduzir em sua superfície a
imagem de Osega e dos arredores do lugar em que o falso almirante se
encontrasse.
— Atenção,
Osega! — “disse”
um impulso mental captado assim que Gucky e Ras desapareceram com o
prisioneiro. — Um oficial aproxima-se do gabinete. Quer falar com o
senhor.
— Ótimo;
assim tenho oportunidade de submeter-me a uma prova — respondeu
Osega e passou a dedicar sua atenção às anotações do discurso
que teria de proferir. Quando a porta se abriu, mal levantou os
olhos. Teve a habilidade de fazer surgir uma ruga de contrariedade em
sua testa.
Tomara que
o oficial pensasse que realmente se tratava da testa de Calus.
— Trago
uma ótima notícia, almirante — principiou o oficial na esperança
de melhorar o humor de seu superior. — Um transporte de homens
recrutados à força acaba de chegar das cidades do ocidente. Estão
sendo escoltados por robôs. Devem ser cerca de cinco mil.
Osega
recebeu a informação com a maior tranqüilidade. De certa forma, a
notícia era lamentável, pois significava que mais cinco mil zalitas
inocentes seriam arrastados para Árcon. Mas, por outro lado, também
podia significar que Rhodan e seus homens não teriam de esperar
muito para serem transportados para Árcon.
— Excelente!
— respondeu. — Providencie para que a notícia seja transmitida
imediatamente ao regente. Agora prefiro ficar só, pois preciso
preparar meu discurso.
O oficial
suspirou aliviado e retirou-se.
Também
Osega sentiu-se bastante aliviado. Dera certo. Também passaria pelo
teste da câmara de televisão, especialmente se anunciasse as
drásticas medidas que deveriam atingir as classes mais antigas.
Os zalitas
ficariam pasmados. Mas o importante era os arcônidas e seu regente
não se admirarem.
*
* *
E bem
verdade que o verdadeiro Calus tinha motivos de sobra para admirar-se
com uma porção de coisas. Além de ter sido levado por meio da
teleportação a um lugar totalmente desconhecido, que parecia ficar
embaixo da superfície, fitou alguns rostos estranhos e nada
amistosos.
Num canto
do recinto em que se encontrava, havia uma espécie de impressora,
que com intervalos de alguns minutos expelia passaportes zalitas
autênticos. Um grupo de homens de guarda-pó branco prendia fotos e
modelos de vibrações cerebrais aos documentos, preenchia-os e os
empilhava.
Num ponto
mais afastado, um grupo de zalitas estava sentado em torno de uma
mesa tosca e conversava. Alguns liam. Calus viu que à esquerda um
nicho fora separado por meio de plásticos negros. Não podia ver o
que havia atrás desses panos. Uma única vez um homem passou por
baixo desses panos e disse a um zalita:
— Os
aparelhos estão prontos para entrar em funcionamento, Sir. Se quiser
podemos começar.
— Muito
bem.
Com uma
expressão indefinível, o zalita ao qual haviam sido dirigidas essas
palavras fitou Calus. Depois de algum tempo começou a falar:
— O
senhor já deve ter compreendido o que aconteceu, Calus. Um sósia
foi colocado em seu lugar. O senhor encontra-se em nosso poder e só
depois de atingirmos nossos objetivos, será libertado. Em grande
parte, dependerá do senhor quando isso acontecerá. O senhor se
dispõe voluntariamente a prestar as informações que desejamos, ou
teremos de recorrer a uma suave coação?
Calus
tinha certeza absoluta de ter caído nas mãos dos rebeldes. Talvez
tais rebeldes contassem com o apoio de seres vindos de outros mundos,
que dispunham de faculdades parapsicológicas.
Nem pensou
na possibilidade de ter à sua frente os temíveis terranos dirigidos
por Perry Rhodan!
— Pode
perguntar — disse em tom tranqüilo. — Não terei dúvida em
dizer aquilo que posso revelar. Quanto ao resto...
— Quanto
ao resto, não se preocupe — disse o zalita, que não era outro
senão Perry Rhodan. — Sua saúde não será prejudicada, pois
nossos métodos de interrogatório hipnótico são totalmente
inofensivos. As primeiras perguntas são: qual é o motivo do
recrutamento forçado? Qual é o inimigo contra o qual Árcon está
lutando?
Os olhos
de Calus estreitaram-se.
— Recuso
responder essa pergunta. Aliás, tenho de preveni-lo de que os
senhores acabam de seqüestrar um almirante arcônida, e por isso
sofrerão um castigo rigorosíssimo. Se concordarem em libertar-me,
terei muito prazer em usar minha influência para...
Rhodan
sacudiu a cabeça e lançou um olhar para os homens que estavam
reunidos num canto. Já não estava sorrindo.
— Manoli!
Sinto muito, mas não temos outra alternativa. Vamos recorrer ao
tratamento hipnótico.
Enquanto
um Calus relutante estava sendo submetido aos efeitos dos campos de
choque eletrônicos, caminhava pelas ruas de Tagnor um homem ao qual
cabia testar as primeiras ordens do falso Calus.
Tratava-se
do mutante japonês Tako Kakuta, um teleportador. Ninguém
desconfiaria de que aquele corpo pequeno pertencesse a um terrano,
quanto mais a um japonês, pois o tratamento especializado fizera de
Tako um verdadeiro zalita. Seus cabelos pretos e vastos haviam
desaparecido. Em vez disso, tinha uma cabeleira cor de cobre. O
brilho esverdeado foi imitado com uma perfeição enganadora. Bastava
que Tako inclinasse a cabeça para que os raios do sol gigantesco de
Voga se quebrassem nos microcristais acrescentados à cabeleira
artificial.
Tako
passeava tranqüilamente pelas ruas como quem não tem nada a fazer.
Viu poucos zalitas com a sua idade. Os que não estivessem a caminho
de Árcon deviam estar escondidos. Por mais de uma vez conseguiu
esquivar-se das patrulhas de busca. Geralmente essas guarnições,
compostas por robôs ou soldados zalitas, eram comandadas por
oficiais arcônidas.
O êxito
desse tipo de controle já era muito reduzido. Um zalita que se
arriscasse a andar pela rua só poderia ser um doido, a não ser que
tivesse uma boa idade. Ainda se viam muitos velhos, mas por enquanto
estes não tinham nada a recear. Os arcônidas até chegavam a
tratá-los com muita consideração, naturalmente porque esperavam
que poderiam encontrar traidores entre os velhos zalitas.
Quando os
alto-falantes públicos começaram a transmitir o discurso diário do
almirante, Tako entrou num restaurante. Sentou a uma mesa e pediu o
vinho do planeta, que era muito saboroso graças ao sol gigantesco
que fazia amadurecer as uvas. O rosto conhecido de Calus parecia
fitá-lo da tela.
Ouviu
algumas pessoas praguejarem baixinho, mas logo a voz do arcônida
superou os cochichos.
Contemplou
Calus e não pôde deixar de reconhecer que, raras vezes, um disfarce
fora tão bem sucedido. Calus era Calus; não havia a menor dúvida.
Até mesmo a voz, a maneira de expressar-se e a entonação eram
semelhantes às do verdadeiro almirante. Os gestos, que serviam para
reforçar os trechos mais importantes do discurso, haviam sido tão
bem estudados por Osega que ninguém poderia ter dúvidas sobre a
identidade do almirante.
— Nesta
oportunidade mando que todos, repito: todos os homens de Zalit se
apresentem para serem examinados pelas comissões de recrutamento. Só
estas decidirão quem é inapto para o serviço da frota. Dentro de
uma semana, todo zalita deverá estar devidamente registrado.
Qualquer um que for encontrado sem um documento visado será preso.
Tako
divertiu-se ao pensar como a situação estava ficando esquisita. Os
documentos a que Calus se referia estavam sendo fabricados na
caverna, situada embaixo da arena, e seriam entregues às comissões
de recrutamento.
— Pelo
que se diz, existem zalitas que se recusam a prestar serviço
voluntário ao Império. Portanto, para o computador, todos estão
sujeitos às leis de guerra, daqui para frente. Qualquer sujeito apto
para a prestação do serviço militar, mas que negue-se a prestá-lo,
poderá ser condenado à morte.
Tako notou
que alguns zalitas mais idosos o fitavam. Devia pertencer à
categoria das pessoas a que acabara de aludir o almirante.
Calus
prosseguiu. Ressaltou que a paciência do regente de Árcon estava
definitivamente esgotada. O Império estava sendo ameaçado por uma
potência estranha, e o computador era generoso a ponto de confiar os
postos mais importantes aos arcônidas e zalitas. Portanto, seria uma
ingratidão... e o discurso prosseguia neste diapasão.
Quando
Calus concluiu, houve alguns segundos de silêncio no interior do
restaurante. Finalmente um zalita idoso levantou-se, atirou uma moeda
para o dono do restaurante e dirigiu-se à porta. Antes de sair,
virou-se e disse:
— Quem
se juntar aos arcônidas será um traidor e um escravo do computador!
Uma vez
proferidas estas palavras, desapareceu.
Os que
ficaram para trás pareciam suspirar aliviados. Começaram a discutir
apaixonadamente; procuravam convencer uns aos outros. Tako aproveitou
a confusão generalizada para sair do local. Não podia deixar de
confessar que Osega fizera um trabalho perfeito. Estava convencido de
que teria enganado até mesmo o regente de Árcon, se o computador
tivesse tido oportunidade de ouvir o discurso.
Tako não
se encontrou com nenhuma das patrulhas, que vasculhavam as ruas, e
por isso tornou-se mais arrojado. Foi-se aproximando do espaçoporto
e, subitamente, viu-se diante de uma fileira de guardas. Eram todos
robôs. Seus olhos frios e inexpressivos dirigiram-se para ele como
se fosse uma caça pela qual esperavam há muito tempo. Um deles veio
em sua direção. Seria inútil correr. Um robô sabe deslocar-se com
uma rapidez espantosa.
— Documento!
— disse a voz rangedora da máquina.
Naturalmente
Tako possuía documento. A identidade fora fabricada no dia anterior,
no laboratório situado embaixo da arena. Toffner fornecera todos os
dados para isso. Acontece que não era o documento que importava.
Tako tinha a idade apropriada.
Enquanto
entregava o documento ao robô, o japonês falou sem pestanejar.
— Quero
apresentar-me à comissão de recrutamento. Onde fica?
O robô
examinou o documento. Sua programação, que no início previa a
prisão do homem que tinha diante de si, foi modificada. Aquele
indivíduo queria apresentar-se. Para este caso, as instruções eram
outras:
— Atravesse
a barreira que fica junto ao edifício principal. Ali encontrará um
oficial.
Tako se
transformaria em cobaia!
Enquanto
caminhava, procurou entrar em contato com John Marshall ou outro
mutante através do microtransmissor. Pouco antes de chegar ao
edifício que lhe fora designado, alguém respondeu:
— Faça
de conta que se apresentou para ser examinado. Se lhe perguntarem por
que só apareceu hoje, alegue doença. Estamos cuidando de você.
Harno tem sua imagem. Não se preocupe, dentro em breve o seguiremos.
Tako
continuou a caminhar. Sentiu-se tranqüilo. Enquanto Rhodan e seus
colegas do Exército de Mutantes estivessem atrás dele, nada lhe
poderia acontecer.
Chegou na
hora exata para assistir à chegada do almirante arcônida, que iria
realizar uma inspeção de surpresa na sede da comissão de
recrutamento.
6
No dia
seguinte, mais dez homens do grupo de Rhodan apresentaram-se para o
serviço da frota de Árcon. Possuíam documentos válidos e estavam
em condições de provar que, nos dias anteriores, viram-se impedidos
por motivos ponderáveis a apresentar-se às comissões de
recrutamento. Foram encaminhados aos alojamentos e examinados sem
maiores formalidades. O resultado do exame foi um só: aptos para o
serviço da frota.
Dali a
dois dias, aquele grupo de dez homens, entre os quais se encontrava o
hipno André Noir, começaram a “trabalhar”
os oficiais das diversas unidades. Não foi muito difícil chamá-los
um por um ao aposento em que os terranos haviam sido alojados. Uma
vez lá, foram submetidos a um “tratamento”
e regressaram às suas unidades com uma memória renovada e com
ordens estranhas.
E foi
assim que o grupo de dez terranos, e posteriormente Tako, fizeram
carreira muito rápida e logo se transformaram em chefes,
subordinados diretamente aos oficiais de Árcon. Até mesmo os robôs
deviam obedecer-lhes, isso principalmente depois que seus
dispositivos foram reprogramados às escondidas.
Enquanto
isso, Osega continuava a desempenhar o papel de Calus. Anunciou ao
regente que outro grupo estava pronto para ser transportado. E logo
depois, uma grande nave esférica decolou, levando muitos recrutas de
Zalit.
Os homens
do grupo de Rhodan não embarcaram nessa nave. Nem mesmo Calus
possuía poderes para decidir sobre o transporte dos recrutas. E a
hora ainda não havia chegado.
Na caverna
situada sob a arena, Rhodan e seu grupo estavam realizando uma
conferência. Harno estava aceso. Há vários dias não descansava.
Constantemente havia alguém perto dele e observava o que se passava
na superfície esférica de seu corpo.
Tristemente
agachado num canto, Gucky mastigava uma planta nativa do planeta, que
Bell lhe oferecera, dizendo que eram cenouras. Mas não era isso que
o deixava aborrecido. Seus problemas eram bem mais graves.
Rhodan
fornecera o nome de cinqüenta pessoas que não poderiam ir a Árcon.
Fora decidido em definitivo que ele, Gucky, era uma dessas cinqüenta
pessoas. Não havia meio de transformá-lo num zalita.
— Ainda
hoje subiremos à superfície e nos apresentaremos. Com isso, seremos
cento e cinqüenta homens ao todo. Acho que será suficiente. —
Rhodan olhou em torno. — Toffner ficará aqui. O Major Rosberg
assumirá o comando e dirigirá as ações em Zalit. Se houver algum
imprevisto, o Major Rosberg usará o aparelho de Toffner para avisar
a Drusus, que virá buscá-los. Acho que está tudo claro.
— Este
ponto será o único que poderá levar-me a recusar o cumprimento de
uma ordem — observou Rosberg. — Acredita que seríamos capazes de
deixá-lo preso numa armadilha somente porque alguma coisa não deu
certo? Arrancá-lo-emos de lá e...
— Não
farão nada disso, Rosberg! — a voz de Rhodan soou com uma estranha
aspereza. — Saberemos resguardar-nos. Além disso, seu sacrifício
seria inútil. Se formos agarrados, você não poderá fazer nada.
Exijo que se atenha às instruções que lhe são fornecidas. Mais
alguma pergunta?
O Major
Rosberg voltou a falar.
— Como
deveremos guarnecer o transmissor que se encontra na caverna?
— Ainda
bem que se lembrou, Rosberg. Acho que você deverá destacar três
homens que permanecerão lá, depois de terem avisado a Califórnia.
Precisaremos de suprimentos de armas e materiais. Em Zalit deve ser
instalada uma verdadeira base, capaz de defender-se até mesmo dos
ataques de Árcon. Não sei se as coisas chegarão a este ponto,
contudo deveremos estar preparados para qualquer eventualidade. Mas
peço-lhe que só cuide dessa caverna depois que estivermos a caminho
de Árcon.
Outros
detalhes foram discutidos, até que tudo ficou esclarecido. Nenhum
ponto deixou de ser examinado. O contato fônico entre os dois grupos
seria mantido ininterruptamente, embora Harno pudesse transmitir
sempre a Rhodan a imagem dos homens que permaneciam em Zalit.
A missão
tornava-se cada vez mais, menos perigosa, pois os homens já
recrutados haviam preparado o terreno. A maior parte dos oficiais
arcônidas recebera um bloqueio hipnótico e quase todos os robôs
foram reprogramados. Duas telepatas, Betty Toufry e Ishy Matsu, que
permaneceriam em Zalit, manteriam o contato entre Calus e o Major
Rosberg. Gucky também se dedicaria a essa tarefa.
Dali a
dois dias, os últimos “voluntários”
puseram-se a caminho. Além de Rhodan e Bell pertenciam ao grupo o
Capitão Gorlat, Atlan e Fron Wroma. Tal qual os outros, levavam um
passaporte falso no qual estava consignado um nome zalita. Não havia
nada que pudesse sair errado.
Passaram
pelos primeiros controles e chegaram à entrada principal, onde foram
recebidos por um arcônida arrogante. Robôs de guerra patrulhavam as
áreas adjacentes à cerca provisória. No interior do acampamento
enxameavam os zalitas, que haviam realizado o treinamento preliminar
ali mesmo e aguardavam o momento de serem transportados para Árcon.
Uma vez lá, talvez fossem incorporados definitivamente na frota do
Império.
O oficial
arcônida fitou os recém-chegados com um misto de alegre surpresa e
de arrogância insuportável. Apesar disso, esforçou-se para
encontrar uma forma de tratamento aceitável.
— Quer
dizer que resolveram entrar para a gloriosa frota do Império? —
disse e fez um sinal para os vigilantes robôs. — Serão
examinados, registrados e transportados o mais depressa possível.
Qualquer homem capaz poderá fazer uma carreira rápida. Também
temos lugar para o pessoal técnico.
Estendeu a
mão.
— Os
documentos, por favor.
Depois de
algum tempo, devolveu os papéis.
— No
primeiro edifício fica o setor de registro. Apresentem-se ao
sargento de plantão. Ele os encaminhará. Desejo-lhes um futuro
repleto de vitórias.
Rhodan
agradeceu, voltou a guardar o passaporte e passou pelos robôs, sem
saber se estes haviam sido reprogramados ou não. Naquele momento,
isso ainda não importava muito. Eram recrutas e qualquer gesto
estranho provocaria suspeitas. Por enquanto tinham de submeter-se às
normas vigentes.
Felizmente
o sargento incumbido do registro já fora “preparado”
por Noir. Um dos homens do grupo de Rhodan, que já se encontrava no
acampamento há alguns dias, ajudou o hipno no registro dos
recém-chegados.
Apresentaram
seus passaportes e tiveram o cuidado de não proferir uma única
palavra suspeita. Os aparelhos de escuta poderiam estar escondidos em
qualquer lugar, e os arcônidas que os ouvissem certamente não
estavam condicionados.
O sargento
levantou a cabeça e piscou ligeiramente os olhos.
— Como
vejo, já serviu na frota de Zalit. Foi major, não foi, Sesete? —
era o nome que Rhodan estava usando. — Excelente! Precisamos de
homens experientes como o senhor. Acho que ocupará o mesmo posto.
Examinou os passaportes dos outros.
— Comandante
Ighur, da frota mercante — o nome pertencia a Atlan, que se limitou
a confirmar com um aceno de cabeça. — Pelo que vejo, foram todos
oficiais. Major Roake — lançou um olhar ligeiro para Bell. —
Capitão Norvt, Tenente Likro... excelente.
Empurrou
os passaportes para seu assistente.
— Providencie
alojamentos de primeira. Não é todos os dias que aparece um grupo
formado exclusivamente por ex-oficiais. Sem dúvida resolveram
esperar um pouco antes de resolver juntar-se a nós, não é? Bem,
não importa. O que vale é que atenderam ao nosso apelo. O exame
médico será realizado amanhã. Acredito... bem, parecem todos muito
sadios.
O
assistente devolveu os passaportes. Além disso, entregou-lhes um
papel com uma planta do acampamento, pela qual poderiam orientar-se.
Os algarismos indicavam a seqüência dos locais em que teriam de
apresentar-se.
Constataram
que realmente lhes forneceram alojamentos condignos, a que tinham
direito por serem antigos oficiais.
Parecia
pura coincidência... Os outros homens do comando terrano foram
alojados em local bem próximo!
*
* *
Toffner
levou a sério a tarefa que lhe foi confiada. Sabia quanta coisa
dependia da execução da mesma. O Major Rosberg o prevenira quanto a
isso. Se fosse preso pelos arcônidas ou pelos soldados de Zalit, não
poderia contar com qualquer auxílio. Além disso, deveria evitar que
sua pista levasse às catacumbas.
Dessa
forma, Toffner voltara a ficar só; dependeria exclusivamente de sua
habilidade.
O
documento, que Calus assinara, era a única coisa que o
tranqüilizava, pois atestava que a comissão de recrutamento o
julgara inapto para o serviço da frota.
Não foi
por nada que o Almirante Calus baixou tal ordem, que admitia certas
exceções e permitia a emissão dos respectivos documentos...
Toffner
teria de preparar os jogos da arena, que seriam realizados no outono.
O terrano, ou melhor, Garak, tinha necessidade premente de
gladiadores. Onde arranjá-los, se em Tagnor quase não restavam
homens capazes? Não teve outra alternativa senão viajar por aí.
Foi a uma
agência e alugou um planador. Desta vez escolheu um modelo maior.
Talvez tivesse de realizar alguns transportes. Por duas vezes as
patrulhas o pararam e controlaram seus documentos. O atestado
produziu verdadeiros milagres. Deixaram-no passar sem dificuldades.
O planador
estava estacionado na área de parqueamento. Achava-se cercado por
uma fileira de guardas. E tal situação provocou um sorriso discreto
em Toffner.
O que
poderia acontecer-lhe?
Conforme
esperava, o controle foi rápido e fácil como os anteriores.
Permitiram-lhe que decolasse, depois de ter informado seu destino: a
cidade de Larg.
Descreveu
uma curva a baixa altitude e constatou que o tráfego civil estava
praticamente paralisado. Vez por outra encontrava-se com um planador
militar. Mas estes não se interessaram por ele. Logo atingiu a
periferia da cidade e dirigiu-se para o leste, para o deserto.
Resistiu à
tentação de pousar nas proximidades da caverna. Pelo que se sabia,
ninguém aparecera por lá. Isso só aconteceria nos próximos dias.
Seria necessário colocar o transmissor em recepção e descarregar
os volumes que chegassem.
A cadeia
de montanhas foi avistada e voltou a desaparecer. Finalmente, Toffner
pousou em Larg sem maiores incidentes. Estacionou o planador e
regulou o fecho positrônico para seu número de identificação.
Nenhuma pessoa estranha seria capaz de abrir a cabina, a não ser que
possuísse seu modelo de vibrações cerebrais, o que era totalmente
impossível.
Hhokga, o
negociante de tecidos, ficou não apenas surpreso, mas assustado ao
rever tão depressa o homem que conhecia como Garak. Pediu silêncio
e levou o inesperado hóspede à sala de estar. A tarde findava;
dentro de mais algumas horas, escureceria. Os robôs patrulhavam as
ruas.
— Sua
vinda representa um tremendo perigo para mim! — as palavras de
Hhokga foram ditas em voz tão baixa que Toffner mal conseguiu
entendê-las. — Por que veio? Nos últimos dias, a situação
tornou-se muito mais crítica. Devo apresentar-me amanhã para ser
submetido a exame médico. Os homens velhos estão sendo
recrutados...
— Não
se preocupe! — interrompeu Toffner com a voz tranqüila e
sentou-se. — O senhor não será incorporado em hipótese alguma.
Acredite em mim e não faça perguntas. Tome este papel. Trata-se de
um documento emitido em seu nome, no qual se lê que o senhor se
apresentou em Tagnor e foi julgado inapto. Apresente-o a qualquer
patrulha que venha abordá-lo.
Hhokga
lançou um olhar de espanto para o documento.
— O
senhor deve ter amigos muito influentes — disse o negociante de
tecidos em tom respeitoso. — Quem sabe se pode proteger Markh e
Kharra dos arcônidas?
— Ambos
poderão andar à vontade em Tagnor, pois também receberão hoje um
documento igual a este. Ainda obterão licença para viajar para
Larg. É por isso que estou aqui.
Hhokga foi
pegar o vinho e sentou-se.
— Não
compreendo como foi que o senhor conseguiu isso. O que sei é que não
tenho a menor esperança de poder retribuir este favor. O senhor é
mais poderoso que eu, que apenas sou um velho sem confiança no
futuro...
— O
futuro é muito mais brilhante do que o senhor imagina — asseverou
Toffner, esperando que não tivesse dito demais.
— O
Almirante Calus também é mortal — comentou Hhokga.
Toffner
assustou-se. Será que planejavam o assassinato do almirante
arcônida, do qual ninguém sabia que, na realidade, era um terrano e
um grande amigo dos zalitas? Isso complicaria a situação. Talvez
Hhokga soubesse dizer alguma coisa.
— Pretendem
matá-lo?
— Como é
que o senhor pode dizer uma coisa dessas, Garak? Não se trata disso.
Apenas estou falando em termos gerais. Qualquer pessoa terá de
morrer um dia — suspirou. — Posso ajudá-lo em algo?
— Markh
me disse que o senhor tem relações com as autoridades locais. É
bem verdade que o mercador de animais pode locomover-se livremente,
mas achamos preferível que por enquanto mantenha uma atitude mais
discreta. Preciso de animais selvagens e de gladiadores que se
disponham a lutar na arena. Não posso contar com presos políticos
ou comuns, pois os arcônidas esvaziaram as prisões. E quem mais
concordaria em ir voluntariamente para a arena? Quer dizer que tenho
pouca gente. E, se não consigo gladiadores, terei de fazer os
animais lutarem contra outros animais.
— O que
posso fazer pelo senhor?
— Pode
ajudar-me a formar uma expedição. Basta que um dos seus veículos
de transporte, destinados a Tagnor, pouse em determinado ponto nas
montanhas e receba as cargas que expedirei em nome de Markh. Será
feito tudo legalmente e com licença das autoridades. Eu mesmo
poderia organizar tudo, mas tenho de voltar o quanto antes para
Tagnor.
“Entrego-lhe
dez documentos assinados pelo Almirante Calus. Tais identidades dizem
que o portador, depois de examinado pela comissão de recrutamento
arcônida, foi julgado inapto para o serviço ativo. Os documentos
foram emitidos em branco. Utilize-os à vontade. O senhor deve ter
dez bons amigos que estejam dispostos a trabalhar nesses transportes
em troca da garantia de não serem molestados pelos arcônidas.”
— Se o
documento realmente for bom, posso garantir que uma caravana chegará
às montanhas. Vou desenhar um esboço.
Dali a
trinta minutos, Toffner saiu da residência de Hhokga. Quando pousou
em Tagnor já estava escurecendo. A fim de apresentar seu relato a
Rosberg, dirigiu-se furtivamente ao esconderijo situado embaixo da
arena.
O Major
elaborou seu plano.
— Daqui
a dois dias, Gucky saltará para a caverna juntamente com três
especialistas e ligará o transmissor. Antes disso, entraremos em
contato com a Califórnia para mandar que as coisas nos sejam
enviadas. Daqui a três dias, o tal do Hhokga sairá de Larg. Dali a
mais dois dias, chegará às montanhas. Carregará as caixas.
Acontece que a carga poderá ser controlada. Não seria preferível
incluir alguns animais? Seu amigo Markh poderia cuidar disso.
Toffner
prometeu confiar essa tarefa ao caçador.
— Como
estão as coisas lá em cima? — perguntou Rosberg, depois que
tinham discutido todos os detalhes. — Hoje ouvi o discurso de
Osega. Metade da população de Zalit deve ter sido levada do
planeta.
— As
coisas não são tão ruins, Sir. A maior parte dos homens está
escondida. A vida econômica de Zalit está um tanto paralisada, mas
a situação não chega a ser crítica. Os habitantes do planeta são
ricos e têm suas reservas. Agüentarão mais algum tempo.
— Até
lá o perigo terá sido eliminado, ou nada mais importa — disse
Rosberg em tom tranqüilo.
*
* *
O comando
era formado por quatro robôs de guerra e um arcônida.
O grupo
vasculhou sistematicamente os porões de uma rua de Tagnor que levava
diretamente do palácio do governo à arena. O fato em si não tinha
nada de inquietante, pois todos os dias surgiam as patrulhas que
andavam à procura de desertores.
E nada
teria acontecido, se não...
O guarda
zalita, que estava de folga e viera visitar a família em Tagnor,
correu bem para dentro dos braços do comando. Seus documentos foram
controlados e foi dispensado. Pretendia seguir seu caminho, mas o
arcônida chamou-o de volta.
— O
senhor deve conhecer Tagnor muito bem, soldado.
O zalita
estava muito interessado em servir aos seus senhores, e por isso fez
um gesto afirmativo.
— Conheço
a cidade como a palma de minha mão, oficial. Deseja alguma
informação?
O arcônida
apontou para a arena.
— É ali
que são realizadas as lutas?
— Atualmente
não, senhor. Não há animais e gladiadores.
— A
arena tem instalações subterrâneas.
— Existem
algumas catacumbas, senhor. Quando há jogos, é lá que costumam
alojar-se os lutadores. E as jaulas dos animais também ficam lá.
— Não
seria possível que alguns desertores se escondessem nessas
catacumbas?
O soldado
sacudiu a cabeça.
— Dificilmente,
senhor. Revistamos atentamente as catacumbas, na parte conhecida. Não
encontramos nenhum sinal da presença de fugitivos.
O oficial
aguçou o ouvido.
— Na
parte conhecida? Isso quer dizer que nem todos os subterrâneos são
conhecidos?
— Isso
mesmo. Antigamente havia muitas passagens secretas que davam para o
palácio. Em parte, tais entradas foram fechadas. A arena não
precisa de tanto espaço. Seria muito dispendioso providenciar
calefação e ventilação para todas as catacumbas.
Era só o
que o arcônida queria saber. Suas suspeitas se confirmaram. Embaixo
de Tagnor havia esconderijos que eram completamente desconhecidos...
ao menos da maior parte das pessoas.
— Obrigado
— disse, dirigindo-se ao soldado. — Pode retirar-se.
O zalita
afastou-se. Estava satisfeito por não ter causado uma impressão
desfavorável. Pelo contrário: prestara um serviço ao arcônida.
Talvez um dia, isso lhe trouxesse alguma vantagem. Dificilmente a
informação causaria qualquer prejuízo a seu povo.
A entrada
tinha ao menos dez metros de largura. Os degraus levavam para baixo.
— Então
é este o acesso às catacumbas! — balbuciou o arcônida.
Lembrou-se
de que as galerias já haviam sido revistadas, mas não se esqueceu
da observação do soldado zalita: na parte conhecida. Era o ponto
decisivo, que o animava a empreender a ação que estava iniciando.
— Sigam-me
— ordenou aos robôs. — Mantenham os radiadores térmicos prontos
para disparar.
Estava
muito escuro, mas as luzes fortes dos robôs dissiparam a escuridão.
Antigamente havia luminárias aplicadas nos tetos abaulados, e que
apareciam a intervalos regulares. Mas agora, todas estavam apagadas.
Vez por outra, um corredor estreito saía para a direita ou para a
esquerda. O arcônida deixava um robô na bifurcação, enquanto
juntamente com os outros examinava o corredor lateral. Via de regra,
tais passagens terminavam depois de poucos metros numa parede lisa.
O fato de
não encontrar nenhum desertor por ali apenas reforçou suas
suspeitas. Se nesse lugar não havia gente escondida, deveria haver
esconderijos melhores mais embaixo. Precisava encontrá-los.
Seus
passos ressoaram, mas não conseguiram sobrepujar o ruído dos outros
passos...
— Parem!
Os robôs
imobilizaram-se abruptamente. As armas dirigiram-se para a escuridão
que surgia à sua frente. O arcônida aguçou o ouvido.
Era isso
mesmo! Alguém vinha ao seu encontro.
— Apaguem
as luzes.
A
escuridão foi completa. Porém, lá na frente, surgiu uma
luminosidade que se tornou mais forte, à medida que se aproximava.
Finalmente,
um vulto saiu de um dos corredores laterais.
Aproximou-se
do grupo e, quando avistou os quatro robôs, parou de repente. A
lanterna balançou ligeiramente.
— Quem é
você? — perguntou o arcônida e adiantou-se. No mesmo instante, as
luzes dos robôs acenderam-se e mergulharam o vulto numa luz
ofuscante. Era um zalita.
Quando
descobriu o comando, Toffner levou um susto tremendo... Tarde para
pôr-se a salvo! Acabara de atravessar a porta secreta a fim de
visitar um amigo em Tagnor. E agora acontecia isso!
— Sou
Garak, o administrador disto.
— O que
veio fazer aqui de noite?
— Meu
negócio é este...
— Talvez
seja — disse o arcônida em tom desconfiado. — De onde veio?
Desse corredor lateral? Vamos até lá. Mostre-me onde esteve.
Toffner
sabia que só mesmo um milagre poderia evitar a descoberta do recinto
secreto. O corredor era curto e, tal qual os outros, terminava numa
parede de rocha lisa.
Foi
caminhando devagar, seguido pelo oficial e pelos robôs. Desta vez
todos os quatro foram com o oficial; nenhum ficou para trás. Era uma
sensação desagradável saber que as armas de radiações dos
monstros estavam apontadas para suas costas.
— O
corredor termina aqui — disse quando atingiram a parede atrás da
qual ficava o esconderijo.
Toffner só
poderia fazer votos de que o arcônida não notasse as pequeninas
fendas, e de que um metro de rocha fosse suficiente para deter os
robôs.
Acontece
que o arcônida não era nenhum tolo. Sabia raciocinar logicamente.
— Quer
dizer que você esteve num corredor em que praticamente não existe
nada?
— Sim;
eu me perdi.
— É
muito estranho que isso tenha acontecido com o administrador da
arena, que deve conhecer todos os cantos destes subterrâneos, não
acha? Fale logo, zalita! O que veio fazer aqui? E onde está a saída?
Onde está
a saída...
Toffner
refletiu febrilmente para encontrar uma solução.
Gucky!
Betty! Ishy! — foi esta a mensagem silenciosa que enviou aos três
telepatas. — Há um perigo gravíssimo bem à porta: Quatro robôs
e um arcônida. Cuidado!
A resposta
veio pelo microcomunicador colocado em seu ouvido:
— Já
percebemos, Toffner. Mantenha a calma. Procure detê-los.
Devia ter
sido Gucky.
— Entendido
— “respondeu”
Toffner.
— Responda,
zalita! — disse o arcônida em tom grosseiro, quando viu que o
silêncio de Toffner se prolongava demais. — O que veio fazer aqui?
Mostre a porta oculta, senão darei ordem aos robôs para que
derretam a parede.
Era apenas
uma ameaça. Nem mais nem menos. O arcônida ameaçava ao acaso, na
esperança de amedrontar seu interlocutor.
— Atrás
dessa parede não há nada — asseverou Toffner, e fazia votos de
que logo fosse acontecer alguma coisa.
Os homens
no esconderijo haviam sido avisados. Saberiam defender-se. Mas quando
a parede tivesse sido derretida, o esconderijo não valeria mais
nada.
— Mande
seus robôs entrarem em ação. Talvez assim fique sabendo se por
aqui realmente existem passagens secretas.
O arcônida
hesitou. Será que um zalita sabia fingir com tamanha perfeição?
Mas não era esta a hora de refletir sobre isso. Transmitiu suas
ordens aos robôs.
— Intensidade
reduzida, contra a parede que está à nossa frente. Iniciar dentro
de dez segundos.
O feixe
energético atingiu a parede de rocha e foi-se espalhando por igual.
A rocha foi-se derretendo lentamente e começou a pingar. No chão do
corredor surgiram poças reluzentes.
Toffner
começou a suar de aflição.
“O
que Gucky e os outros estavam esperando para agir?”
pensou. “Se
não tomassem logo providências...”
— Psiu!
Não pense tão “alto”!
— era Gucky. — Eu trouxe Betty. Precisamos de dois telecinetas
para pôr os robôs fora de ação. Você conhece a disposição de
suas peças. Enquanto nós os “seguramos”,
procure pôr a mão na chave que os desliga. Mais tarde mudaremos sua
programação e mandaremos que voltem à superfície, com o oficial
submetido ao tratamento hipnótico, que a esta hora já está
dormindo.
Toffner
ficou calado. Caminhou às apalpadelas em direção ao fim do
corredor, que estava bem iluminado, a fim de colocar-se atrás dos
robôs.
Um pedaço
da parede já havia sido derretido. O chiado do raio energético
sobrepujava os outros ruídos.
— Pegarei
dois, enquanto Betty se encarregará de um. Vamos, Toffner, gire o
parafuso...
Realmente
era um parafuso que podia ser girado com a mão, desde que a gente
conseguisse aproximar-se do robô por trás. Nem mesmo os arcônidas
quiseram dispensar esse dispositivo de segurança. Se necessário, um
robô poderia ser desativado de um instante para outro.
Toffner
deu dois ou três passos e tateou para encontrar o parafuso do
primeiro robô.
Gucky
saltara para o lado de Toffner.
— Não
está mesmo dando certo! — cochichou apressadamente, pois havia
lido os pensamentos de Toffner. — Rápido! Pegue os outros dois.
Estão sob controle, mas não por muito tempo.
Os outros
dois não ofereceram a menor dificuldade. Toffner conseguiu pô-los
fora de combate.
O quarto e
último dos robôs apresentaria maiores problemas. Estava em posição
inclinada e não poderia deixar de ver as ações de Gucky e Toffner,
desde que girasse levemente para o lado. Além disso, sua arma estava
funcionando. Um movimento do corpo significaria a destruição
inevitável. O calor quase chegava a ser insuportável. Metade da
parede já devia estar derretida.
Gucky
passou rapidamente por Toffner e colocou-se bem atrás do robô.
Fitou o
parafuso que sobressaía na nuca do monstro. Tal peça começou a
girar muito lentamente sob a ação das energias mentais de Gucky.
Segurava o robô por meio da telecinese e, simultaneamente, pelo
mesmo processo, fazia girar o parafuso.
Ao
apagar-se num bruxulear, o raio energético atingiu o rato-castor!
Gucky
soltou um grito estridente e teleportou-se rapidamente até a
entrada.
Betty
correu para junto dele e abaixou-se.
— Coitado!
Está doendo muito?
Gucky
levantou-se e mal conseguiu disfarçar o embaraço.
— Se
você me consolar, nada mais poderá doer, Betty. — ergueu-se de
vez. — O que aconteceu com o arcônida?
— Levou
apenas uma leve pancada de um dos robôs, quando este parou de
funcionar. Acho que devemos primeiro colocar-nos em segurança. Além
disso, temos de remover os vestígios. Aquele buraco na parede...
— Nós o
taparemos — completou Gucky com a voz tranqüila. Soprava as patas
que ainda ardiam. — Primeiro vamos reprogramar os robôs, e depois
aplicaremos um bloqueio hipnótico no arcônida.
Toffner
sentiu-se satisfeito por não ter de ouvir recriminações. De certa
forma era culpado pelo que acontecera a Gucky, se é que no caso se
podia falar em culpa.
Abriu uma
porta lateral do corredor. Felizmente tal porta não fora afetada
pelos raios energéticos disparados pelos robôs. Os outros membros
do comando terrano cumprimentaram Toffner e os dois mutantes com uma
certa sensação de alívio. Não sabiam o que tinha acontecido do
lado de fora. As informações que Ishy Matsu lhes pôde fornecer
foram muito escassas.
E foi
assim que, dali a quatro horas, um comando de busca voltou ao
espaçoporto e anunciou ao oficial arcônida que exercia o comando:
— Revistamos
a rua que dá para o palácio. Sem resultado. Além disso,
vasculhamos as chamadas catacumbas. Todos os corredores terminam em
paredes. Não há a menor possibilidade de que por lá exista um
esconderijo. É impossível que haja desertores embaixo da arena.
O oficial,
que transmitiu estas informações, foi elogiado pela operação de
busca e recebeu ordens para, no dia seguinte, patrulhar outras ruas.
Garantiu que essa incumbência também seria executada de maneira a
satisfazer seus superiores.
Com certo
orgulho afirmou que não havia melhores robôs que os seus.
Seu
superior acreditou nisso, pois também já havia recebido um
“tratamento”.
Dessa
forma, Rhodan iniciou sua caminhada para Árcon...
*
* *
*
*
*
A
primeira parte dos preparativos estava concluída. Tratava-se dos
preparativos que, segundo a intenção de Rhodan, deveriam levar à
conquista de Árcon e ao término do governo do robô.
Cento e
cinqüenta homens estavam preparados para abalar um império estelar.
E o
próprio regente daria a ordem para isso.
A ordem
para que o cavalo de Tróia fosse transportado de Zalit para Árcon!
Em
Escola
de Guerra Naator,
título do próximo volume, Rhodan tentará neutralizar as ações
defensivas do computador-regente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário