Autor
KURT
BRAND
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Tal pai,
tal filho —
E um
saltador também
vê
chegada sua hora...
O fato
de Perry Rhodan ter descoberto uma espaçonave arcônida encalhada na
Lua foi, há muitos anos, o ponto de partida para a unificação da
Humanidade e a pedra angular do fabuloso Império Solar, o domínio
absoluto da Terra sobre todo o sistema.
Este
Império, ridiculamente pequeno em comparação com as muitas
potências do Universo, se ainda existia e ainda não se transformara
num pandemônio atômico ou não se degradara à condição
humilhante de colônia de Árcon, devia este fato somente às jogadas
magistrais dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no
xadrez complicado das Galáxias. E também, em parte, à sorte, que,
quando se torna permanente, não é outra coisa senão a conjugação
da prudência com a intrepidez.
Mas não
há bem que sempre dure e o que Perry Rhodan, o administrador do
Império Solar, ajudado pela Nova Humanidade, conseguiu evitar até
hoje, acabou acontecendo: a posição do sistema solar no âmbito das
Galáxias, já não é mais segredo, como comprovou cabalmente O Caso
Columbus.
O
ataque da numerosa frota dos druufs poderia, talvez, ser debelado sem
o socorro dos arcônidas, mas o pedido de auxílio ao Grande Império
teve uma grave conseqüência: também os ávidos comerciantes das
Galáxias descobriram o caminho para o sistema solar. A presença
incômoda de Cokaze, o mais opulento patriarca dos saltadores,
iniciou para Perry Rhodan um período das mais graves dificuldades
políticas, até mesmo na administração interna da Terra.
Porém,
no momento em que as coisas se tornam amargas para Rhodan, surge A
Grande Hora de Gucky.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Seu nome é uma legenda na Galáxia.
Reginald
Bell
— O amigo de Rhodan; anda muito supersticioso.
Gucky
— O rato-castor mutante, que realiza uma perigosíssima missão.
Thomas
Cardif
— O ódio ao pai o torna traidor e desertor.
Cokaze
— Patriarca dos saltadores.
Cabo
Douglas
— Através de um relato complica a vida de Atlan.
1
O baixote,
de cabelos ruivos, que nervoso andava de um lado para o outro no
gabinete de Rhodan, sobraçava o volumoso New World Press, apontando
com a mão esquerda para o artigo que ocupava toda a primeira página.
— Isto é
uma pouca-vergonha, Perry, uma sujeira. Não tenho nem palavras para
classificar esta monstruosidade — disse ele.
— É,
mas até hoje você sempre deu muito valor ao editorial deste jornal
— disse Rhodan calmamente. — Por que que depois de terminar a
leitura do artigo, você não passa para a ordem do dia, Bell?
— Porque
não consigo, Perry. Ninguém pode ir contra sua própria natureza.
Auto-domínio é coisa muito bonita, mas também tem seus limites e
este jornal de sarjeta já está passando da conta.
— O New
World Press é reconhecidamente o melhor jornal do sistema solar —
corrigiu Rhodan.
— Que
está pretendendo com uma calma, que você realmente não tem? —
perguntou Bell.
— Até
que enfim observou algo certo, gorducho — disse Rhodan num tom
irônico. — Custou muito hoje, hein? Mas agora podemos nos
preocupar com o artigo de fundo.
— Como
assim? Quer dizer que tenho que ler de novo esta porcaria cheia de
maldade e mentira, para ficar com o sistema nervoso em pandarecos?
— Se for
este realmente o caso, meu caro Reginald, então está confirmada
minha dúvida de que você necessita de umas férias até...
Bell
assustou-se. Sua respiração estava acelerada. Com movimentos lentos
sentou-se ao lado de Perry. Levou bastante tempo para se refazer do
choque causado pelas palavras de Rhodan.
— Eu...
eu... tirar férias? Neste ano complicado, em que nada dá certo e
tudo sai cem por cento errado. Perry, você não está falando sério,
não é?
A pergunta
tinha um ressaibo de desânimo. Passou as duas mãos nos cabelos.
— Estou
sim — respondeu Rhodan seco. — Não estou brincando, não, meu
amigo. O momento não está para isto. Olhe aí — e apontou para o
artigo de fundo do New World Press. — Você já refletiu um pouco
nas conseqüências que poderão advir desta publicação? Não é um
jornal qualquer que nos ataca, é o jornal do Império Solar.
Lança-nos no rosto incompetência, traição e interesse particular.
Você leu os pontos em que sua crítica está bem expressa. Está em
condições de provar que o senhor Nicktown, o autor do artigo de
fundo, cometeu algum erro?
Neste
instante, Reginald Bell deu um salto da cadeira. Seu rosto estava
pegando fogo. Batendo com a mão fechada na mesa de Rhodan, repetia a
frase:
— Este
jornalista de meia-tigela...
— Bell —
interrompeu-o Rhodan com severidade — pela amizade que lhe tenho,
não chame Nicktown de jornalista de meia-tigela. Seu artigo de fundo
foi escrito com o mais profundo senso de responsabilidade. O homem
está certo, pois vê as coisas do nosso ponto de vista, isto é,
como nós, os responsáveis, expusemos a ele e a todos os outros. Nós
é que somos os culpados, Bell, nós e mais ninguém...
O baixote
havia voltado ao seu lugar na poltrona. O que Perry estava dizendo
não lhe agradou:
— Que
bonito, você dá razão a este Nicktown? Com isto confirma que somos
incompetentes para dirigir o Império Solar, não é?
Rhodan se
enfureceu ao notar que Bell, de propósito, se encastelava naqueles
argumentos.
— Que
aconteceu com você hoje? Será que este artigo o assustou tanto
assim?
— Assustar
não é bem o termo certo, Perry. Não consigo me libertar do
pressentimento de que, com isto, vai desabar sobre nós uma
tempestade, que desta vez não vem do espaço, mas daqui de dentro da
Terra mesmo. Vai nos trazer muitos aborrecimentos. Olha aqui...
escuta apenas esta frase.
E antes
que Rhodan tivesse tempo de impedi-lo, Bell começou a leitura do New
World Press:
— “Temos
o direito de saber que tenciona o administrador com a prorrogação
da Lei de Calamidade Pública: Quer ele, com isso, ter mãos livres
para transformar o Império Solar numa colônia arcônida ou para
estreitar maiores laços de amizade com os comerciantes das galáxias,
chefiados pelo patriarca Cokaze?”
Somente desta frase, Perry, pode explodir uma insurreição interna.
Haverá então combustível suficiente para dez revoluções...
— Você
é muito “otimista”
— interrompeu-o Rhodan.
Surpreso,
Bell ficou calado. Não havia, de início, compreendido bem a frase
de Rhodan. Depois perguntou com cautela:
— Você
parece que vê o perigo com maior gravidade do que eu?
Rhodan
apenas confirmou com a cabeça.
— Nos
últimos dez anos, cometemos erros muito grandes e hoje não estamos
em condições de exterminá-los. Hoje temos que agüentar as
conseqüências, e não é necessário ser profeta para agora se
afirmar que o Império Solar terá em breve seus primeiros grandes
debates parlamentares...
— Mas e
a Lei de Calamidade Pública... — atalhou subitamente Bell, para
silenciar logo depois, com um breve mas expressivo gesto de Rhodan.
— Mas
nem mesmo a Lei de Calamidade Pública poderia desativar o
Parlamento, e eu seria o último a ter algum interesse em
transformá-lo numa reunião de fantoches. Quando os senadores
acharem conveniente expor suas dúvidas ao governo, eu jamais os
haveria de impedir a fazer isto.
— Santo
Deus! — exclamou Bell. — Tais debates, além de tudo transmitidos
pelo rádio e pela televisão, haveriam de centuplicar nossas
dificuldades. Estamos desta maneira espalhando, nós mesmos, o
material explosivo, Perry.
— Você
acha que seria melhor deixarmos o material explosivo acumular num
lugar só?
— Sua
comparação valeria algum dinheiro — disse Bell descontente —
porém não é muito bonita. Mas eu gostaria de quebrar o pescoço
deste Nicktown...
— Incrimine
a si mesmo, mas deixe este Nicktown fora do jogo — falou Rhodan com
certa dureza na voz. — Por muitos decênios, não informamos
devidamente os habitantes de nossa Terra. Quantas vezes lhes
ocultamos por semanas e meses situações da maior periculosidade?
Jamais os deixamos perceber quantas dificuldades tivemos para ocultar
perante o cérebro positrônico de Árcon a posição galáctica da
Terra. Nada disso foi publicado. Mantivemos a Humanidade como que
dopada em face da realidade... e depois vieram os druufs com quase
dez mil naves para o sistema solar, a seguir, veio Árcon com sua
frota robotizada para nos socorrer e, com os arcônidas, o patriarca
dos saltadores Cokaze trazendo quatro mil naves cilíndricas.
Fez uma
pausa e depois prosseguiu:
— Bell,
o que tudo isto significa para os homens que, de uma hora para outra,
despertam de seu sono tranqüilo? Para muitos, ocorre uma espécie de
fim do mundo. Já deu uma olhada nas últimas estatísticas
demográficas? Não? Já reparou no gráfico dos suicídios? Notou
que com a pretensa invasão dos druufs a porcentagem aumentou
sensivelmente, e esta onda de desespero continua até hoje?
“Sob
este ponto de vista, nós fracassamos. E hoje ninguém se interessa
em saber por que assim agimos. Nicktown se vê no papel de procurador
da raça humana. Tem razão de nos taxar de incompetentes.”
— Agora,
vamos acabar com isto — falou Bell irritado. — Conforme você
disse, nós não fizemos outra coisa a não ser erros!
— Devagar!
Nem o próprio Nicktown afirmou uma coisa desta. Ele nos acusa de
traição, mas nunca de termos feito o papel de ditador. Diz até
textualmente que meus auxiliares e eu jamais utilizamos em proveito
particular o poder que nos foi outorgado pela Lei de Calamidade
Pública. Porém, não recua diante da acusação de traição.
— Traição...!
Traição! — disse Bell indignado. — Isto é a maior mentira,
porém tal mentira é por demais perigosa para nós.
— ...sim,
exatamente porque, neste sentido, não soubemos informar
convenientemente a população. E é por isso que me alegro, de um
lado, pelo fato de os deputados e senadores se lembrarem de que
dispõem do direito de nos convocar para o Congresso. De outro lado,
porém, receio que isto contribua para fomentar a latente revolução.
Bell olhou
para ele.
— “Latente”?
Será que eu o compreendi bem? A revolução já está por aí?
— Tome,
sirva-se...! — dizendo isto, esticou o braço para a esquerda,
pegou um jornal, entregando-o ao surpreso gorducho.
Quanto
mais ele lia, mais horrorizado ficava.
— Para
mim chega — disse Bell, finalmente. — E todas as notícias são
de hoje e todas fazem referência ao artigo de fundo de Nicktown.
Então eu não tive razão, quando no réveillon
deste famigerado ano de 2.044, para evitar acontecimentos azarentos,
quebrei em mil pedaços meu copo de cristal numa rodada de
champanha...
— Pare
com isto! — ordenou Rhodan. Mas, no seu entusiasmo, Bell não
conseguiu parar.
— Não
adiantou nada. As coisas até pioraram de lá para cá. Com os cacos
de cristal, cortei o dedo. Então, chega-se à conclusão de que...
— Você
lucraria muito mais se dedicasse seus esforços mentais aos problemas
que temos a resolver, meu caro gorducho — disse Rhodan, um tanto
sério. — Por favor, chame Kank Donneld, do Departamento de
Informações. A partir de hoje, temos que modificar nossa política
informativa, fundamentalmente, ou daqui a pouco tempo, teremos novas
encrencas. E o que pode então acontecer... é imprevisível.
— Será
que com isto, Nicktown não tirou toda possibilidade de publicarmos a
prorrogação da Lei de Calamidade Pública? Pois, se juntamente com
a imprensa, também a indústria pesada começa a protestar e, com
ela, os bancos tentam tirar o corpo fora, é natural que também os
consumidores, o povo, entrem nesta confusão. Enquanto este cigano
das Galáxias, Cokaze, andar por Terra, Marte e Vênus, como se
estivesse em sua casa, estaremos caminhando para uma revolução.
— Até
que enfim, Bell — disse Rhodan espreguiçando-se e encostando-se na
poltrona. Sorriu calmamente e continuou. — Até que enfim, seus
pensamentos estão entrando nos eixos. É um dos motivos por que
tenho de ser grato ao senhor Nicktown, por ele ter escrito um artigo
tão agressivo...
— Um
momento, por favor! — disse Bell, mostrando que ainda estava
confuso. — Hoje, você está falando uma linguagem diferente,
Rhodan, ou será que eu não compreendo mais nada? O que disse agora
pouco? Que meus pensamentos entraram nos eixos e que você deve
gratidão a Nicktown?
— Sim,
nós precisamos da prorrogação da Lei de Calamidade Pública, para
termos mais liberdade de ação. Se a publicarmos no Diário Oficial,
o que é legal, estamos com isto convocando os homens do sistema
solar para as lutas de rua, para a revolução.
Mas se
conseguirmos que esta lei seja votada pelo Parlamento, teremos então
legalmente uma base para agir muito melhor do que nos foi possível
até agora.
— Nem
assim chego a compreender por que razão você deve gratidão a este
Nicktown — disse ele, meneando a cabeça.
— Este
artigo de fundo obrigará o Parlamento a se reunir em sessão
plenária. Está obrigando os deputados a pensarem nos direitos que
possuem, e mesmo que haja muita animosidade e muita divergência
entre eles, é bem melhor que uma luta mais ou menos escondida nos
bastidores, para vencermos a todo custo, dando-nos a pecha de
querermos ser ditadores...
O
alto-falante do intercomunicador deu o ruído típico.
Quando, há
uma hora atrás, os dois se reuniram para discutirem os assuntos
pendentes, Rhodan havia proibido terminantemente qualquer
interrupção. Os únicos que não estavam incluídos nesta proibição
eram o Marechal Allan D. Mercant, chefe supremo da Defesa Solar, e
John Marshall, chefe do Exército de Mutantes.
A tela do
videofone começou a cintilar. Desapareceu o cinza inicial e surgiram
as cores, em movimentos de vaivém, estabilizando-se em seguida.
Apareceu Allan D. Mercant.
— Sir,
estão chegando notícias muito importantes. Infelizmente a mais
importante é ainda um boato. Patrik O’Neil de Washington anuncia
que facções de deputados do bloco euro-americano estão, no
momento, em ligação com os blocos asiáticos e africanos. Desejam
uma convocação do Congresso do Império Solar em Terrânia, para
daqui a três dias. Ainda de acordo com os boatos circulantes, o
ponto central da ordem do dia será o voto de confiança, com a
respectiva votação, sendo que o bloco euro-americano se recusa a
debater a prorrogação da Lei de Calamidade Pública. Rhodan ouvia
tudo de fisionomia fechada. Depois falou no microfone do
intercomunicador:
— Mercant,
reúna todos os homens que for possível, imediatamente. Eles devem
fazer tudo para que os deputados possam mesmo estar em Terrânia
dentro de três dias.
Allan D.
Mercant, que conservava o vigor de sua juventude, graças à ducha
celular do planeta Peregrino, levou um susto e logo a seguir
mostrou-se surpreso, chegando ao ponto de interromper o
administrador.
— Sir —
disse com voz nervosa — ainda não ouviu as demais notícias. Todas
elas se referem ao artigo de Nicktown no New World Press e são...
— É a
isto que me estou referindo, Mercant — falou, esboçando um leve
sorriso. —
A
atmosfera política está tão envenenada, que somente uma limpeza
geral será capaz de restabelecer um ambiente respirável. O artigo
de Nicktown nos veio alertar de que realmente está na hora desta
limpeza. É por isso que estou ansioso para comparecer, dentro de
três dias, perante o Congresso do Império Solar.
Allan D.
Mercant — depois de Rhodan e Bell, o homem mais bem informado do
Império Solar, verdadeiro gênio no âmbito da defesa e a tudo com
ela relacionado — falou muito apreensivo:
— Sir,
haverá cerrados debates. A votação em todo o Império é uma coisa
problemática. Principalmente depois da luta contra a invasão da
Terra, sua simpatia decresceu muito...
Rhodan não
o deixou terminar. Em tom mais duro do que até então, perguntou:
— Mercant,
seus homens estão ou não estão em condições de prepararem tudo
para que haja uma reunião plenária do Parlamento, em três dias?
Não só o
Ministro da Defesa, mas também Bell ficaram perplexos. Os olhos de
Perry Rhodan voltaram a ter aquele brilho de aço, que surgia sempre
que estavam em jogo decisões de grande monta. Não era o olhar de um
aventureiro, que arrisca mais do que pode. Era um olhar indescritível
e inesquecível para quem o visse, uma vez que fosse. Um olhar que
empolgava e arrastava quem o sentisse.
E Allan D.
Mercant, como também Bell, sentiam-se impressionados e o marechal,
automaticamente, se empertigou e respondeu:
— Sir,
creio poder lhe assegurar que o Parlamento será convocado em
Terrânia, dentro de três dias.
— Obrigado,
Mercant — respondeu Perry Rhodan. — Não podia esperar outra
resposta.
Com isto,
desligou-se o intercomunicador.
*
* *
Milhões
de pessoas assistiam pela televisão aos debates travados no
Congresso Solar de Terrânia. Estava sendo realmente muito pior do
que os palpites pessimistas, previstos por Bell. Este virava-se a
toda hora para John Marshall, que com seus maravilhosos dons
telepáticos, auscultava o íntimo dos deputados.
— Continua
tudo na mesma, Sir — repetiu o mutante já pela décima vez —
mas, por favor, estou na pista de algo novo...
Isto
queria dizer que não se devia perturbar a atenção de Marshall.
Bell atendeu ao pedido do telepata e passou a concentrar toda atenção
no que Rhodan estava dizendo, da tribuna ao grande plenário, em
resposta a uma pergunta circunstancial.
De
repente, surgiu da delegação africana o aparte:
— Até
quando estaremos obrigados a financiar com nossos pesados impostos
sua milícia particular? Nem mesmo a Lei de Calamidade Pública lhe
dá o direito de esbanjar o dinheiro público com este bando de
aleijados mentais, que recebe o pomposo nome de Exército de
Mutantes. O que o senhor tem a dizer sobre isto, administrador?
Por dois
ou três segundos, o silêncio foi tão profundo, que se poderia
ouvir o zumbido de uma mosca voando. A questão levantada pelo
deputado africano, Onablunanga, fez com que um grande número de
deputados olhasse mais detidamente o administrador.
Milhões
de espectadores, diante de suas televisões, no mundo inteiro,
notaram que a fisionomia de Perry Rhodan se anuviou e seus lábios se
fecharam num risco horizontal.
A
televisão mostrou como Reginald Bell se levantou e sussurrando
alguma coisa nos ouvidos de Rhodan, se encaminhou para a tribuna,
substituindo seu chefe e amigo.
— Senhores
deputados e senadores! — soou a voz possante de Bell. — Minhas
senhoras e meus senhores. Em lugar do administrador do Império
Solar, gostaria de responder à pergunta do senhor Onablunanga, mas
antes quero, em nome do administrador e de seus auxiliares, expressar
meu protesto contra a formulação e as insinuações da pergunta.
“Tomo a
liberdade de lembrar ao senhor Onablunanga que não nos encontramos
nas Minas de Ferro Cimberley, mas que nós, e ele também, estamos na
sessão plenária do Congresso.”
Quando
Allan D. Mercant ouviu esta referência às Minas de Ferro Cimberley,
empertigou-se todo. Sua fantástica memória despertou para todos os
detalhes de um famoso escândalo, referente às minas. Onablunanga
somente não tinha ainda sofrido processo penal, porque, como
deputado, gozava das imunidades parlamentares.
O que
estava acontecendo na África não podia ser chamado de negócios
escusos, mas alguma coisa mais do que escândalo. E exatamente agora,
Reginald Bell, destemidamente, abordava a questão do ferro africano.
Mais forte
que o barulhão, provocado pela delegação africana, era a voz de
Bell, pois estava ampliada pelos alto-falantes do intercomunicador.
Com toda empolgação, começou a elogiar os abnegados mutantes que o
deputado africano chamara de “aleijados
mentais”.
A forma temperamental como Bell falava, seus conceitos precisos e o
arrolamento dos fatos, onde os mutantes expunham a vida para salvar
os interesses do Império Solar, obrigaram o plenário a ouvir com
crescente interesse sua exposição.
Rhodan
estava feliz, vendo e ouvindo seu amigo defender o grande patrimônio
humano: os mutantes. De repente, seu micro comunicador deu o sinal de
chamada, exatamente o alarme de urgência. Ergueu o braço esquerdo,
levando o pulso até encostar no ouvido. Terminado o sinal de alarme,
Rhodan ouviu atentamente a mensagem.
Segundos
depois, seu rosto empalideceu, dando a impressão de um homem
envelhecido repentinamente. E foi neste momento que as câmaras de
televisão passaram da figura empolgante de Bell para o esquálido e
abatido Rhodan.
Milhões e
milhões de homens estavam agora olhando para Rhodan, o administrador
do Império Solar, que passava um dos piores momentos de sua vida.
Rhodan
estava envolto numa onda de desespero. Foi grande nele a vontade de
desligar seu micro comunicador, mas muito mais forte foi a resolução
de ouvir até o fim a mensagem.
Thomas
Cardif, tenente da Frota Solar, lotado em Plutão, tinha abandonado
clandestinamente o planeta num destróier. O filho de Perry Rhodan
desertara. Thomas, que recebera a pena de degredo para Plutão, já
havia tentado desertar durante a guerra contra a invasão dos druufs.
Nutria verdadeiro ódio pelo pai...
Sua fuga
do planeta Plutão fora conhecida há poucos minutos. Contrariando a
rotina, a guarnição de Plutão revezou a tripulação da Estação
de Relê III, cinco dias antes do prazo normal. Aí foi que se
constatou que Cardif havia fugido, já há alguns dias.
— Para
onde dirigiu-se o desertor Tenente Cardif, ninguém sabe — foi o
final da mensagem.
Era claro
que, neste momento, Rhodan não era senhor de si. Perdera primeiro
sua esposa, Thora, e agora também seu filho. Fez questão de que o
filho crescesse entre pessoas estranhas para não passar a ser
conhecido apenas pela expressão o filho de Rhodan. Queria criar sua
própria personalidade. Mas, ainda como tenente recém-formado,
chegou a saber em Silico V quem eram seus pais. Foi então que
explodiu nele o sangue arcônida de sua mãe Thora. Com o orgulho e a
tenacidade, característicos de um puro arcônida, passou a odiar o
pai. Todo seu amor ficou voltado para a mãe. Para o pai, sobrou
apenas ódio e desprezo.
“Como
ele deve me odiar”,
pensava Rhodan em seu desespero.
Compreendeu
então como um homem, que paira em alturas inacessíveis para os
demais, pode se transformar num infeliz solitário.
Não sabia
que um sorriso amargo se esboçava em seus lábios. Não sabia que,
neste momento, milhões de pessoas olhavam para ele, pessoas que se
lembravam do dia em que Thora fora enterrada em seu mausoléu na Lua.
— Perry...
Bell se
sentara ao lado dele. Fora substituído na tribuna por Allan D.
Mercant, que começou a falar para um plenário que parecia não
querer perder uma só de suas palavras. Inicialmente exigiu que seu
discurso não fosse transmitido para o público em geral, mas só
para o ambiente do Congresso. Sua solicitação não era uma coisa
estranha e estava dentro das normas parlamentares. Allan D. Mercant
iria abordar um assunto de extrema gravidade. Iria expor ao poder
legislativo do Império Solar o fato de vinte e um deputados estarem
abusando de suas prerrogativas, a fim de se enriquecerem
ilicitamente. Todos estes deputados pertenciam à delegação
africana e eram inimigos figadais de Rhodan.
Neste
momento, milhões de televisões no Império Solar se apagaram. O
voto da maioria determinara parar toda transmissão, até que o
Ministro da Defesa Solar tivesse apresentado todos os documentos,
comprovando suas acusações, seria, também, dado tempo aos
parlamentares, para que estes verificassem a autenticidade das provas
apresentadas.
Inclinando-se
levemente para frente, John Marshall sussurrou no ouvido de Bell:
— Pela
indignação dos deputados sobre o escândalo das Minas de Ferro
Cimberley, fica cada vez mais evidente de que eles foram vítimas de
uma fraude na votação. Mas seu descontentamento sobre a informação
deficiente, por parte da administração, ainda continua agindo. A
delegação africana não sabe o que fazer.
Bell
pretendia passar estas informações para Perry. Tocou-o de leve e só
então é que notou como seu rosto estava pálido.
— O que
você tem, Perry? O que houve?
E Rhodan,
virando a cabeça como um autômato:
— Thomas
desertou com um destróier, Bell...
— Não...
— respondeu Bell, surpreso. — Não acredito numa coisa desta.
No íntimo,
Bell podia ter certeza de que isto era verdade.
O
Parlamento foi rígido para com os vinte e um deputados. Robôs e
policiais os tocaram para fora do recinto. Os robôs haviam recebido
a ordem de que os vinte e um deputados, não podiam se afastar de
Terrânia. Depois disso, procedeu-se à ordem do dia. E o artigo de
fundo de Nicktown ainda continuou sendo o ponto de apoio do debate.
A
transmissão para fora do recinto foi reiniciada, e os milhões de
aparelhos da Terra acompanhavam curiosos toda a discussão.
A
administração da Terra foi duramente atacada. Rhodan não fez
rodeios para enganar ninguém. Somente quando a acusação de traição
veio à baila, ele protestou:
— Os
druufs não são fantasmas que inventamos para assustar a Humanidade.
São talvez um perigo muito maior para a Terra, do que o cérebro
robotizado fora. O desenvolvimento das ações é uma coisa que não
podemos deter. Por este motivo, a posição da Terra, mais cedo ou
mais tarde teria de ser descoberta, e foi assim que ficamos gratos a
estes quatro mil aparelhos cilíndricos dos mercadores galácticos,
quando vieram em nosso auxílio na hora mais trágica do ataque dos
druufs. Mas não se pode falar em traição, a menos que os senhores
preferissem viver escravos dos druufs e não como terranos livres.
— Livres
sob a “guarda” dos saltadores! — gritou alguém.
— E por
que motivo as naves robotizadas dos arcônidas ainda não se
retiraram da Terra, administrador? — perguntou outro.
Estavam
agora aparecendo os grandes inconvenientes de Rhodan não haver usado
de mais franqueza com o público e de não ter prestado maiores
esclarecimentos. Explicou com paciência, ou tentou fazê-lo, por que
razão as naves cilíndricas dos saltadores ainda se encontravam nos
espaçoportos da Terra, Marte e Vênus e por que outras naves ainda
continuavam circulando no sistema solar. Mas, quanto mais tentava
explicar, menos era compreendido.
A estes
deputados, que de maneira alguma podiam ser incriminados por sua
atitude, faltava uma visão do conjunto para compreenderem mais
profundamente os motivos alegados por Rhodan. Tinham, pois, que
extravasar sua incompreensão.
Mas, de um
lado que ninguém esperava, houve uma mudança sensível!
Rhodan
continuava falando que ele mesmo se assustara com o teor do artigo do
jornalista Nicktown. Assinalou os pontos, devido aos quais, por
motivos de estratégia, não podia prestar contas diretas ao público.
— ...durante
os turbulentos acontecimentos nas Galáxias e também no sistema
solar, não tínhamos tempo de cientificá-los, e isto não é uma
desculpa vazia, como lhes posso provar.
E durante
cinco minutos citou fatos e dados que deixaram os deputados
boquiabertos.
— Nunca
agimos com imprudência ou falta de capacidade.
E citou
muitos exemplos. Depois concluindo disse:
— Mesmo
uma administração que possua grande liberdade de ação, dentro da
lei, não pode apresentar um trabalho profícuo e duradouro, se não
contar com o apoio do Congresso. E, por este motivo, como
administrador do Império Solar, faço aos senhores e a todos os
habitantes deste nosso diminuto império a seguinte pergunta:
contamos ou não com a confiança de todos?
Meia hora
depois, se soube do resultado da votação. Não foi um voto de
confiança estrondoso para Rhodan, mas era o que podia esperar
naqueles dias conturbados e de grande confusão política.
Ao voltar
à tribuna, disse simplesmente:
— Agradeço
ao Plenário o voto de confiança dado a mim e a meus colaboradores.
Neste
instante soou um aplauso relativamente fraco. Mas vinha de todos os
lados, e este fato era, para Rhodan, mais importante do que uma
votação maciça, de maioria absoluta.
As
muralhas erguidas contra Perry Rhodan começavam a abrir brechas em
todos os pontos. Mas Bell ainda não estava vendo o quadro assim. Ao
chegar ao seu lugar, Rhodan percebeu que Bell, com olhar pessimista,
lhe dizia em voz baixa:
— Tomara
que este ano pesado já tivesse acabado.
Era o dia
5 de junho de 2.044.
2
Somente
depois que a sessão plenária do Congresso do Império Solar
terminou, foi que Cokaze se levantou de sua poltrona em frente à
televisão.
O velho
patriarca, o único da raça dos comerciantes da Galáxia que havia
presenciado, desde o início, a carreira fulminante de Perry Rhodan,
balançou, contente, a cabeça, quando a transmissão terminou. Levou
aos lábios a taça que estava ao seu lado.
— À
nossa saúde — disse, olhando em volta.
Mais de
vinte pessoas, todas de sua estirpe, sentadas de acordo com o posto
de cada um, repetiram-lhe a saudação.
Eram, mais
ou menos, semelhantes, não apenas no vestuário, não apenas na
barba aparada, em flagrante contraste com os longos cabelos, mas
acima de tudo pela estatura: dois metros.
Para o clã
de Cokaze só havia um chefe: o próprio patriarca Cokaze. Suas
ordens eram leis, suas opiniões eram normas. Não era apenas o mais
velho, era também o mais experiente entre os saltadores, nos
assuntos que diziam respeito a Rhodan.
Desde que
Topthor, o superpesado, havia morrido em combate com os druufs, ele
era o único que havia conhecido Perry Rhodan, ainda com poucos
recursos tecnológicos, nos primeiros dias de sua vertiginosa
carreira.
O poder do
administrador do Império Solar era agora bem maior. Cokaze e seus
auxiliares imediatos sentiram tal poderio pela televisão.
Apesar
disso, Cokaze acreditava ter razão de sobra para um brinde à
vitória dos saltadores. Pois, não apenas estava informado sobre o
potencial bélico de Rhodan, mas sabia, de primeira mão, como a
posição política do administrador estava periclitante.
Os outros
saltadores apanharam seus copos e beberam à saúde de seu chefe, sem
dizer uma palavra.
Com a mão
esquerda, Cokaze limpou a barba, fez uma inclinação vagarosa e se
dirigiu depois a seu filho mais velho Olsge, que residia com sua
família na espaçonave esférica Cok-III
— Você
voará amanhã para o planeta Vênus, Olsge, e reunirá os capitães.
Virou-se
depois para Oktag, seu filho predileto.
— Você
vai aterrissar amanhã na Cidade de Marte, e reunirá nossa gente.
Não há muita coisa para discutir, mas temos muita coisa para fazer.
Fez uma
pausa.
— Nós
ficaremos aqui! Ficaremos aqui até que Rhodan nos garanta por
contrato o monopólio do comércio em todo o sistema solar.
“Depois,
talvez, poderemos até deixar a Terra. Isso se Rhodan me pedir...
porque nós, os saltadores, somos seres humanos, não somos
selvagens, podemos dialogar... se nos oferecerem grandes vantagens.”
Deu uma
estrondosa gargalhada e seus olhos brilhavam.
Cokaze
nunca passou por mau comerciante e sua reputação no meio dos seus
era muito grande. Prova disso era sua enorme frota espacial, de mais
ou menos quatro mil unidades, de naves modernas. Uma parte desta
frota estava em reparos nos estaleiros de Marte e de Vênus. A
batalha contra os druufs lhe saíra cara. Mas os aparelhos, que
estavam nos aeroportos da Terra, não tinham nenhum defeito e podiam
voar a qualquer momento. Em quase todos os espaçoportos, havia naves
dos saltadores.
E isto não
foi por acaso. Cokaze era também um estrategista, além de ser um
grande comerciante, que só fazia negócio quando se tratava de lucro
de centenas de milhões. Tinha que manter uma frota de quatro mil
naves cilíndricas, e isso lhe exigia diariamente uma pequena
fortuna.
Surgiu,
porém, uma objeção, cortês e reticente, como convinha aos severos
costumes dos comerciantes das Galáxias.
— Senhor,
será que o grande regente não criará nenhuma dificuldade? Sua
frota é muito maior que a nossa...
Novamente
a gargalhada estrondosa do velho patriarca e sua expressão de
superioridade.
— Krako,
parece que você andou dormindo o tempo todo, enquanto os deputados
terranos martirizavam o pobre Rhodan com suas perguntas. Acho que
Rhodan fará tudo para que o regente de Árcon chame de volta suas
naves robotizadas. Se nós...
Naquele
instante, tocou o sinal do intercomunicador. Do posto central da
Cok-I, o radiotelegrafista transferiu a ligação diretamente para o
camarote do patriarca. A tela iluminou-se e Cokaze virou-se para o
lado. Sua intenção era sentar-se bem em frente ao vídeo. Quando a
imagem se estabilizou, o rosto tranqüilo de Rhodan estava olhando
para o chefe dos saltadores.
— Cokaze,
suponho que você e seus capitães tenham assistido aos debates no
Parlamento Terrano — começou Rhodan, depois de curta saudação. —
Isto me dispensa de explicações mais detalhadas. Acabo de falar com
o grande regente de Árcon. Dentro de duas horas as naves
robotizadas, que ainda permanecem no sistema deixarão nosso setor,
para voltarem a Árcon ou para a frente de bloqueio dos druufs. O
regente robotizado não fez nenhuma objeção ao meu pedido de
retirar sua frota. O mesmo pedido gostaria de fazer agora a você,
Cokaze. Posso lhe perguntar quando você vai retirar do sistema solar
as naves que estão em Marte, na Terra e em Vênus, bem como as que
se encontram nos satélites dos grandes planetas?
— Rhodan
— respondeu o patriarca com expressão de amabilidade na voz,
esforçando-se para falar a língua arcônida com perfeição. — É
com tristeza que tenho de constatar que a gratidão não é uma
virtude característica dos terranos. Eu...
Neste
momento, o operador de rádio da
Cok-I, que
se esgueirou na ponta dos pés por entre as filas de cadeiras dos
capitães saltadores que não perdiam uma palavra do diálogo de seu
chefe, tinha chegado até o patriarca. Inclinou-se para ele e, com
muito cuidado, lhe sussurrou no ouvido:
— Senhor,
o filho de Perry Rhodan o espera na Cok-CCCXXII, que está em Vênus.
O
tremendamente ladino Cokaze não deixou transparecer nada do impacto
que recebera. Fez apenas um aceno de cabeça para o jovem operador de
rádio, desculpando-se a Rhodan da pequena interrupção. Depois
apontou na direção de seus auxiliares mais próximos, e continuou:
— Rhodan,
como você vê, estamos reunidos em conselho. Peço que me dê três
horas terranas, para que nós lhe possamos transmitir nossa decisão.
— Cokaze,
você vai ligar para mim, ou terei que chamá-lo de novo? — disse
Rhodan com a mesma educação de sempre.
— Eu
ligo para você, Rhodan.
— Obrigado,
saltador. Tomo a liberdade de declarar neste instante, mais uma vez,
que nós, os terranos, nunca faltamos na gratidão para com nenhum
dos nossos amigos.
— Se
esta gratidão se traduz em números bem contabilizados, terrano —
respondeu Cokaze na sua linguagem imediatista
— então
seremos nós, os comerciantes das Galáxias, os últimos a
menosprezar esta grande virtude. Poderíamos fazer um contrato em que
se estipule para meu clã o monopólio comercial do sistema solar.
Afinal de contas, se o Império Solar ainda existe, deve-o ao meu
auxílio. Mas, sobre isto falaremos depois, terrano. Vou desligar
agora.
*
* *
— Sujeito
sem-vergonha! — exclamou Bell irritado, quando o rosto de Cokaze
desapareceu da tela.
Assistira
com atenção ao diálogo entre Rhodan e Cokaze.
— Acho
que não lhe resta outro meio a não ser apelar de novo para Atlan,
para que ele explique a Cokaze que nós não aceitamos chantagem. A
referência ao monopólio comercial é uma deslavada chantagem, ou
melhor, uma verdadeira extorsão.
— Não é
à toa que eles se chamam comerciantes das Galáxias — respondeu
Rhodan. — E não é isto que me preocupa no momento. Quero saber
que notícia foi sussurrada ao ouvido de Cokaze, no momento em que
ele me respondia. Jamais vi um saltador cujos olhos brilhassem tanto
como os de Cokaze, naquele instante. Embora seu rosto continuasse o
mesmo, os olhos traíam uma grande alegria.
Intuitivamente,
Bell pegou os pensamentos de Rhodan. Este deu um leve sorriso para o
amigo.
— Perry,
você está ficando louco. Rhodan olhou demoradamente para Bell.
— Gostaria
mesmo de ficar louco, Bell. Você sempre passou a mão sobre os erros
de Thomas. Há pouco tempo, numa transação um pouco escusa, você o
livrou de uma corte marcial...
Mas Rhodan
parou por aí. Sempre que, entre os dois, o assunto era o filho de
Rhodan, as opiniões divergiam diametralmente. Bell acreditava no bom
caráter de Thomas Cardif, quase que cegamente, não podendo
compreender a posição de Rhodan, desanimada e desesperançada,
vendo tudo de errado nas ações do rapaz.
Bell fez
com que Rhodan se afastasse do hipercomunicador.
— Se
você não o quer fazer, eu chamarei a estação de Plutão. Thomas,
talvez, jamais fugisse com um destróier.
A tecla
estalou com o ruído de encaixe. Imediatamente se apresentou o
telegrafista da central de Terrânia e Bell ordenou uma ligação
urgente para o chefe da guarnição de Plutão.
Levou três
minutos até que o major aparecesse na tela do escritório de Rhodan.
— Sir,
às suas ordens!
Bell
entrou diretamente no assunto.
— Major,
o que lhe foi informado sobre a fuga de Thomas Cardif? O senhor está
a par dos motivos?
— Sir...
— podia-se perceber o esforço que o major fazia para se expressar
e responder bem a estas perguntas. — Sir, correm boatos por aí, o
senhor sabe como os soldados são linguarudos...
Bell não
parecia hoje estar disposto a exercícios de paciência.
— Major,
fiz-lhe uma pergunta bem clara e exijo também uma resposta clara.
Portanto...
— Não
posso fazer outra coisa do que transmitir os boatos que circulam por
aí.
— Com os
diabos, pois então transmita estes boatos — disse Bell com voz
alterada. — Ou será que eu lhe disse para chupar os dedos?
No gélido
planeta Plutão, a algumas centenas de milhões de quilômetros da
Terra, o chefe da guarnição, tremendo diante da descompostura de
seu superior, automaticamente tomou a posição de sentido.
— Sir,
na minha guarnição corre o boato de que o administrador, há tempo,
determinou, em flagrante desobediência ao parecer dos médicos, que
sua esposa recebesse a incumbência de viajar para Árcon III, a fim
de negociar a aquisição de cem naves esféricas...
— O
quê?! — gritou Bell, de rosto vermelho. — O que o chefe fez
mesmo?
— Sir,
sua ordem foi para eu narrar boatos, e foi o que acabou de ouvir.
Reginald
Bell tirou um cigarro, acendeu-o e deu umas tragadas. Olhou depois
para o lado. A três passos dele, diante da janela, estava Rhodan,
sem mostrar a menor reação. Parecia petrificado e não reagiu ao
olhar inquiridor de Bell.
Depois de
mais algumas tragadas nervosas, Bell amassou o cigarro no cinzeiro.
— Obrigado,
major! É só.
E com isso
interrompeu a ligação.
— Perry!
Rhodan não
se mexeu.
— Com os
diabos — esbravejou o gorducho. — Será que todo o sistema solar
virou um inferno? Antes nunca tivesse botado a mão em política. “Em
flagrante desobediência ao parecer dos médicos...”
Se eu pegar este sujeito que espalhou este boato... este canalha...
E o resto
foram palavras não muito elegantes.
*
* *
No mesmo
instante, na espaçonave cilíndrica Cok-CCCXXII, Thomas Cardif ouvia
que o patriarca Cokaze havia anunciado sua chegada para as 3,30 da
madrugada, hora de Vênus.
Tsathor,
parente afastado do chefe do clã, parecendo com ele fisicamente,
mediu Thomas de alto a baixo, com vivo interesse. Não podia atinar
bem o que pretendia o jovem tenente, ainda usando o uniforme do
Império Solar. Não era a primeira vez que estava diante de um
desertor ou traidor, mas nunca tivera um encontro como este do
Tenente Thomas Cardif.
Seu
destróier já estava alojado no hangar 8 da Cok-CCCXXII. Já tinha
sido transportado, há uma hora, sob o manto da escuridão, pela
Cok-DV, para a nave.
— Pode
ficar com o destróier, se quiser — disse Thomas Cardif,
indiferente — não vou mais precisar dele.
Tsathor
fez apenas um gesto de assentimento, ocultando sua alegria.
— Cardif,
você não tem necessidade alguma de se explicar. Você parece muito
com Perry Rhodan, quando jovem.
— Sou
arcônida, Tsathor — interrompeu-o bruscamente o tenente. — Não
sou terrano.
Suas
palavras tinham um tom frio. Mas os olhos de um brilho avermelhado,
característico dos arcônidas, certamente por parte de sua mãe,
demonstravam nervosismo.
— Como
arcônida, você não poderá falar em nome dos terranos — ponderou
Tsathor. — Ou será que não o compreendi direito?
Thomas
Cardif sorriu.
— Quem
são estes terranos, Tsathor? Nesta Galáxia só existe uma raça, à
qual pertencemos você e eu. Isto é, os arcônidas. O grande regente
haverá de me reconhecer, e com ele e com a estirpe de Cokaze
haveremos de reduzir a Terra ao que ela realmente é. Haveremos de
transformá-la numa colônia de Árcon e todo o comércio será
exercido exclusivamente pela estirpe de Cokaze.
— Será
formidável quando tudo isto se realizar, Cardif — disse Tsathor,
visivelmente impressionado com as palavras do jovem tenente — mas o
que você espera ganhar com isto?
— O
aniquilamento de Rhodan. Sua morte. Só isto me basta.
O saltador
estava intimamente abalado. A resposta, que acabara de ouvir, o
deixou estonteado. Palavras frias, pronunciadas sem a menor comoção.
Tsathor perguntou espantado:
— Mas,
Perry Rhodan não é seu pai, terrano?
— Saltador,
nem sou terrano, nem Rhodan é meu pai. Apenas não posso negar que
ele me gerou. Mas encerremos este assunto até a chegada do patriarca
Cokaze.
Um gesto
do comandante Tsathor fez com que os olhos de Cardif se iluminassem
de novo.
— Qual é
a dúvida que ainda tem? Com esta pergunta, feita num tom de
superioridade, Cardif se portava de novo como um legítimo arcônida.
Sem o
querer, Tsathor continuava impressionado e perguntou com a maior
simplicidade:
— Por
que você odeia Rhodan a este ponto, Cardif?
Thomas
Cardif colocou suas mãos bem tratadas sobre a mesa. Era um gesto
mais do que claro de que esta seria a última pergunta que
responderia.
— Contra
o parecer de todos os médicos, Rhodan obrigou minha mãe, já
desenganada, a executar uma missão perigosa em Árcon III. Queria
ficar livre dela, porque minha mãe envelhecera de repente e ele
in-tencionava enviuvar-se para casar de novo com uma mulher jovem.
Mandou minha mãe para Árcon, sem ela saber de nada. Ela estava
completamente por fora de tudo, não sabia nem de seu estado de
saúde, nem dos perigos de sua missão. E isso posso provar porque
ela nem se despediu de mim, quando partiu.
“Quando
a vi de novo, estava morta, a única criatura que sempre me amou.
Também quero ver Rhodan morto. Eu o odeio, desde o dia em que fiquei
sabendo que ele é meu pai. O Universo todo só tem espaço ou para
Perry Rhodan, ou para Thomas Cardif. Para os dois, é demasiadamente
pequeno.”
*
* *
A imprensa
do Império Solar se dividiu, parte a favor de Rhodan, parte como
adversária irreconciliável do administrador. O pouco expressivo
voto de confiança do Congresso serviu de ponto de partida para novos
ataques. Os jornais africanos não perdoaram a Reginald Bell, por
haver, durante os debates, trazido à baila o escândalo das Minas de
Ferro Cimberley. Afirmavam peremptoriamente que, desta forma, o
assunto Cimberley havia influído no resultado final da votação,
pois os vinte e um deputados, a quem seria movido um processo
imediatamente, eram todos contra Rhodan.
A retirada
repentina da frota arcônida foi saudada com satisfação. O New
World Press, principalmente o artigo de fundo de Nicktown, de apenas
30 linhas, tentaram acalmar um princípio de agitação. E seu teor
mais conciliador contribuiu muito para fazer com que grande parte dos
terranos perdesse todo interesse em novas escaramuças. No entanto,
sob uma camada de aparente tranqüilidade, havia ainda qualquer coisa
e o Serviço de Segurança de Allan D. Mercant acompanhava
atentamente todos os movimentos.
Vinte e
quatro horas depois dos debates ainda restavam uns grupinhos
procurando causar desordem. Não sabiam, porém, que cada um de seus
movimentos era vigiado e não podiam fazer tanto mal como pensavam.
Neste meio
tempo, Rhodan mantivera uma longa conversa com Atlan por hiper-rádio.
O almirante arcônida estava preocupado com as dificuldades de Rhodan
na Terra e colocou à disposição do amigo qualquer tipo de auxílio.
— Almirante,
agradeço-lhe pela generosa oferta, mas no momento me é necessário
mais tempo do que propriamente demonstração de força.
— Está
bem, Perry, vou então anunciar através do cérebro positrônico
para toda a Galáxia que o Império Solar está sob a proteção de
Árcon. Você está de acordo com esta nova formulação?
Rhodan
refletiu por uns instantes e, depois de receber de Bell, de Mercant e
de Freyt um aceno de confirmação, respondeu:
— De
acordo, almirante. Creio que a formulação sob a proteção de Árcon
vai me arranjar uma pausa para respirar, o que nos é indispensável
na situação atual. Não lhe quero ocultar que minha situação
nunca esteve tão crítica, como nas últimas vinte e quatro horas.
Uma risada
de pouca alegria chegou até a Terra pelo hiper-rádio.
— Então,
dois homens se apertam as mãos, Perry. Pelos deuses imortais de
Árcon!... Estou com medo da hora em que o Grande Império souber que
eu estou exercendo o poder em lugar do regente robotizado. Você está
atolado até o pescoço com as questões de política interna,
enquanto eu ainda estou aguardando por tudo isto e, independente de
nossa amizade, terrano, tenho de ajudá-lo agora, para que você me
possa ajudar, quando chegar a minha hora difícil. Gostaria milhões
de vezes mais de ser Perry Rhodan, pois seu nome tem prestígio
enorme na Via-Láctea. Representa uma força, simboliza um fator
simplesmente inacreditável. Quem é que conhece o nome Atlan? Sou um
nada em comparação com você, terrano. Veja como nossos destinos
estão intimamente ligados. Perry, é realmente maravilhoso tê-lo
como amigo.
Antes que
Rhodan estivesse em condições de responder qualquer coisa, Atlan, a
34 mil anos-luz, sob a proteção da enorme cúpula eletrônica,
desligou o hiper-rádio.
Rhodan não
estava nada animado.
— Não
estou gostando deste jogo de xadrez, principalmente desta última
jogada. Sim, eu sei... — e levantou as mãos, como para se
defender, quando viu os protestos de Bell, Mercant e de Freyt — sei
que não há outro meio. Agora, tenho minhas dúvidas sobre se este
contrato de misericórdia vai nos livrar da forca, isto é, se vai
nos ajudar a vencer as dificuldades internas. Quisera ser profeta.
Falando com franqueza, como será a opinião pública sobre estas
mudanças? Para mim, é mistério...
— Para
mim, não é tão mistério assim — observou Bell. — Todos têm
medo de que a batalha recomece, apesar de a pergunta ser repetida a
toda hora: para onde fugiram os druufs? A questão é esta, estamos
numa situação infernal e temos que ser o bode expiatório de todo
mal que nos acontece. Para a visão curta do povo, nós somos os
culpados por este estado de ameaça permanente contra a Terra. E numa
situação desta, nem Atlan nos pode mais ajudar.
— Para
mim, o grande enigma é o patriarca dos saltadores, Cokaze — disse
Allan D. Mercant, dando vazão a seu pessimismo.
— Cokaze
evacuou todos os espaçoportos da Terra, mas se encastelou em Vênus
e Marte. Será que o saltador ainda quer especular conosco o
pretendido monopólio comercial?
— Sou eu
ou você, Mercant, o chefe da segurança? — perguntou Rhodan, um
tanto áspero.
— Sir —
a expressão de Mercant denotava calma e firmeza. — O Serviço de
Segurança Solar nunca esteve tão sobrecarregado como nos dias
atuais. Há uma avalancha de incumbências intermináveis. Onde
deveria empregar dez por cento de todo o pessoal, dou-me por feliz se
conseguir dois ou três homens disponíveis. Dizer que a Segurança
Solar está falhando ou falhou é não querer reconhecer as
convulsões políticas por que passamos ou subestimá-las.
— Obrigado
— disse Rhodan com sarcasmo. — É ótimo poder ouvir a verdade.
Onde se encontra o tenente desertor Thomas Cardif, senhor Marechal
Mercant?
— Só
nos faltava mesmo uma pergunta deste tipo — protestou Bell em voz
bem alta, sendo interrompido por Rhodan.
Bell o
fitou com estranheza. Mas seu pensamento estava desenhado em seu
rosto.
Que
aconteceu com ele? Era a pergunta muda.
O rosto de
Rhodan parecia de pedra.
— Por
favor, marechal, estou esperando sua resposta.
Bell
estava de respiração ofegante. Freyt, imóvel como uma estátua.
Allan D. Mercant, respirando profundamente. Ninguém se lembrava de
ter vivido semelhante situação em toda a vida. Mas os três sabiam
que havia só um chefe, Perry Rhodan.
Não era o
pai que estava perguntando pelo paradeiro de seu filho, mas o
administrador, responsável pelo Império Solar.
— Sir,
não estou em condições de lhe fornecer novos dados sobre o
paradeiro de Thomas Cardif. Não sabemos ainda para onde ele foi,
após a fuga de Plutão, nem onde se encontra atualmente. Recomendo
para este fim o emprego do Exército de Mutantes.
*
* *
Thomas
Cardif estava sentado em frente de Cokaze.
O velho e
experimentado saltador e o jovem tenente, desertor do Império Solar,
tratavam-se mutuamente como dois sócios com direitos iguais.
O camarote
de Cokaze na Cok-I, que havia aterrissado em Vênus, ao lado da
Cok-CCCXXII, foi o local onde se travaram as primeiras conversações
com o objetivo de expurgar do mapa das Galáxias um diminuto reino
estelar.
Era com
admiração e, ao mesmo tempo com um certo mal-estar, que Cokaze
olhava constantemente para o jovem desertor.
Fascinava-o
a lógica fria do tenente, mas assustava-o também seu ódio selvagem
contra Rhodan.
— Cokaze,
você jamais obterá o monopólio comercial de Rhodan, enquanto ele
for o administrador do sistema solar — explicava Cardif. — E não
vai também conseguir nada de seu sucessor, se não destruir Perry. O
novo, ou os novos administradores que vierem haverão de
considerá-los como mercenários. No entanto, você e sua estirpe
serão reconhecidos como arcônidas, se o novo administrador for um
arcônida.
Cokaze
coçou a barba.
— Deixe-me
algum tempo para pensar, Cardif.
Thomas
Cardif já estava no terceiro cigarro, quando o patriarca,
inclinando-se levemente para frente, lhe perguntou afinal:
— O que
se deve fazer para minar ainda mais a posição de Rhodan?
— O que
você está disposto a fazer para provocar a queda de Rhodan,
saltador? — perguntou Cardif como um sócio inteligente. — Você
espera por um contrato que lhe dê o direito exclusivo de trazer para
o sistema solar todo e qualquer tipo de mercadoria e de exportar os
produtos fabricados na Terra. Já percebeu que com este contrato você
e sua estirpe se tornarão o povo mais rico da Via-Láctea.
Naturalmente, um presente deste tem seu preço. O que você pretende
investir?
Pela
primeira vez, Cokaze se mostrou surpreso.
— Cardif,
você é tão frio e calculista como seu pai e tão arrogante como um
arcônida. Ainda mais quando penso que você é tão jovem, ficaria
com receio, caso não se tratasse de um grande negócio que...
O
alto-falante do hiper-rádio deu o sinal de chamada. A tela começou
a acender, até que Cokaze e Thomas Cardif levaram um susto, ao
aparecer o emblema do grande regente de Árcon.
O cérebro
robotizado comunicava uma resolução.
A confusão
de linhas, conhecida em toda a Galáxia, deu lugar a um pedaço da
cúpula gigantesca de Árcon. Simultaneamente com a imagem da cúpula,
ouviu-se a voz metálica e inanimada do cérebro positrônico.
Cokaze e
Cardif se entreolharam com ar de triunfo.
A
gigantesca positrônica de Árcon acabara de anunciar que o sistema
solar estava, a partir deste instante, sob a proteção de Árcon.
Ambos
interpretavam a mensagem do seguinte modo: viam pura e simplesmente
uma anexação do Império Solar por parte de Árcon.
— Cardif,
estou pronto a investir alguma coisa, como você estava falando há
pouco. Minha frota não vai sair nem de Marte nem de Vênus. O poder
bélico de minhas naves continua inalterado. Rhodan não vai ter
força suficiente para me expulsar e dois planetas de seu sistema em
minhas mãos já são uma boa base para entrarmos em conversação
sobre o tratado de concessão do monopólio comercial.
“Mas
você, Cardif, vai ter também o que fazer. Como legítimo arcônida
e filho de Rhodan, logicamente você é o sucessor natural do
administrador e, com esta declaração do regente robotizado de Árcon
III, estou convencido de que ele o escolheu para ser o novo
administrador do pequeno reino estelar.”
— Saltador,
não cabe a você me obrigar a assumir um cargo pelo qual ainda não
me decidi.
Todo o
orgulho dos arcônidas se manifestava nesta frase. Thomas Cardif
olhava frio para o patriarca, que dispunha de quase quatro mil
espaçonaves e era um dos homens mais ricos da Galáxia. Cokaze se
assustou diante da irrupção de orgulho do jovem tenente, vendo-o
como um legítimo arcônida.
Uma
formação histórica, que abrangeu um período de mais de 15 mil
anos, tinha que deixar sinais em cada saltador e para cada um deles,
mesmo na posição de um rico patriarca, um arcônida seria sempre O
Senhor.
Automaticamente,
sem perceber o que estava fazendo, sob o impacto da admoestação de
Cardif, Cokaze tentou uma retirada ou uma modificação de seu modo
de agir, mudando inclusive sua linguagem do intercosmo para a língua
arcônida:
— Senhor,
creio não haver outra alternativa para sua pessoa.
— Não
estou pensando em tirar das mãos do regente o poder de decidir quem
vai ser o novo administrador do Império Solar — respondeu Thomas
Cardif com firmeza. — Antes de me preocupar com estes problemas,
saltador, vou entrar primeiro em entendimento com o cérebro
positrônico em Árcon III.
— Quando
isto? — perguntou Cokaze. O patriarca dos saltadores depois de ter
esolvido intervir com a força de sua estirpe nas lutas internas
deste sistema solar, estava naturalmente apressado em conseguir o
mais cedo possível seu cobiçado contrato de monopólio comercial.
— Imediatamente,
Cokaze. Arranje-me uma ligação direta na hiperfreqüência do
regente de Árcon.
*
* *
Atlan
ficou perplexo quando o alto-falante do telecomunicador anunciou o
nome de Thomas Cardif.
A
gigantesca central de rádio da não menos gigantesca positrônica de
Árcon recebia centenas e centenas de chamados simultâneos, que eram
armazenados e, depois de classificados e examinados, iam sendo
distribuídos para Atlan, segundo o grau de prioridade. Todo este
processo, naturalmente, se fazia eletronicamente. Mas esta mensagem
oriunda de Vênus era endereçada diretamente a Atlan.
“O
filho de Perry Rhodan”,
pensava ele. “Santos
deuses de Árcon... será que o rapaz ficou louco?”
Com a
respiração tensa, Atlan escutava o jovem. Mas quem estava falando
só podia ser um arcônida e não um homem da Terra! Tão orgulhoso e
exigente, só podia ser um arcônida!
E Atlan
pensou em Thora, a arcônida descendente da estirpe real e se lembrou
do que Rhodan já lhe havia dito a respeito de seu filho. Thora era a
mãe de Thomas. Ela, que tivera a força de conseguir dominar as más
qualidades de seu povo, as havia transmitido para seu filho único,
que agora era dominado por estes traços hereditários.
Thomas
Cardif queria destruir seu pai e fazer do Império Solar uma simples
colônia arcônida. Queria, numa palavra, quebrar a espinha dorsal da
Humanidade e entregar o monopólio comercial aos saltadores.
E agora
era a vez de a positrônica responder, o cérebro robotizado era
apenas um órgão executivo e Atlan não se manifestava.
Atlan
ligou o setor de armazenamento jurídico e a mensagem de Thomas
Cardif foi transmitida a este departamento. Ao mesmo tempo, a central
recebeu a ordem para que Cardif aguardasse o resultado.
Atlan foi
prudente demais e não usou, neste julgamento, seus sentimentos
pessoais.
Era
necessário que agora, como antes, se mantivesse na Via-Láctea a
certeza de que quem governava o sistema estelar M-13 era o grande
cérebro positrônico. Por este motivo, Atlan se afastou
completamente, deixando o julgamento para o setor jurídico do grande
cérebro.
A voz
metálica do grande cérebro ainda estava transmitindo a ordem para
que Cardif esperasse, quando o resultado já estava nas mãos de
Atlan.
A
legislação arcônida vedava qualquer intromissão de Árcon. Ao
mesmo tempo o cérebro constatou que o procedimento de Cardif estava
em flagrante oposição com as leis arcônidas.

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