quarta-feira, 24 de agosto de 2016

P-089 - A Grande Hora de Gucky - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Tal pai, tal filho —
E um saltador também
vê chegada sua hora...


O fato de Perry Rhodan ter descoberto uma espaçonave arcônida encalhada na Lua foi, há muitos anos, o ponto de partida para a unificação da Humanidade e a pedra angular do fabuloso Império Solar, o domínio absoluto da Terra sobre todo o sistema.
Este Império, ridiculamente pequeno em comparação com as muitas potências do Universo, se ainda existia e ainda não se transformara num pandemônio atômico ou não se degradara à condição humilhante de colônia de Árcon, devia este fato somente às jogadas magistrais dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no xadrez complicado das Galáxias. E também, em parte, à sorte, que, quando se torna permanente, não é outra coisa senão a conjugação da prudência com a intrepidez.
Mas não há bem que sempre dure e o que Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, ajudado pela Nova Humanidade, conseguiu evitar até hoje, acabou acontecendo: a posição do sistema solar no âmbito das Galáxias, já não é mais segredo, como comprovou cabalmente O Caso Columbus.
O ataque da numerosa frota dos druufs poderia, talvez, ser debelado sem o socorro dos arcônidas, mas o pedido de auxílio ao Grande Império teve uma grave conseqüência: também os ávidos comerciantes das Galáxias descobriram o caminho para o sistema solar. A presença incômoda de Cokaze, o mais opulento patriarca dos saltadores, iniciou para Perry Rhodan um período das mais graves dificuldades políticas, até mesmo na administração interna da Terra.
Porém, no momento em que as coisas se tornam amargas para Rhodan, surge A Grande Hora de Gucky.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Seu nome é uma legenda na Galáxia.

Reginald Bell — O amigo de Rhodan; anda muito supersticioso.

Gucky — O rato-castor mutante, que realiza uma perigosíssima missão.

Thomas Cardif — O ódio ao pai o torna traidor e desertor.

Cokaze — Patriarca dos saltadores.

Cabo Douglas — Através de um relato complica a vida de Atlan.
1



O baixote, de cabelos ruivos, que nervoso andava de um lado para o outro no gabinete de Rhodan, sobraçava o volumoso New World Press, apontando com a mão esquerda para o artigo que ocupava toda a primeira página.
Isto é uma pouca-vergonha, Perry, uma sujeira. Não tenho nem palavras para classificar esta monstruosidade — disse ele.
É, mas até hoje você sempre deu muito valor ao editorial deste jornal — disse Rhodan calmamente. — Por que que depois de terminar a leitura do artigo, você não passa para a ordem do dia, Bell?
Porque não consigo, Perry. Ninguém pode ir contra sua própria natureza. Auto-domínio é coisa muito bonita, mas também tem seus limites e este jornal de sarjeta já está passando da conta.
O New World Press é reconhecidamente o melhor jornal do sistema solar — corrigiu Rhodan.
Que está pretendendo com uma calma, que você realmente não tem? — perguntou Bell.
Até que enfim observou algo certo, gorducho — disse Rhodan num tom irônico. — Custou muito hoje, hein? Mas agora podemos nos preocupar com o artigo de fundo.
Como assim? Quer dizer que tenho que ler de novo esta porcaria cheia de maldade e mentira, para ficar com o sistema nervoso em pandarecos?
Se for este realmente o caso, meu caro Reginald, então está confirmada minha dúvida de que você necessita de umas férias até...
Bell assustou-se. Sua respiração estava acelerada. Com movimentos lentos sentou-se ao lado de Perry. Levou bastante tempo para se refazer do choque causado pelas palavras de Rhodan.
Eu... eu... tirar férias? Neste ano complicado, em que nada dá certo e tudo sai cem por cento errado. Perry, você não está falando sério, não é?
A pergunta tinha um ressaibo de desânimo. Passou as duas mãos nos cabelos.
Estou sim — respondeu Rhodan seco. — Não estou brincando, não, meu amigo. O momento não está para isto. Olhe aí — e apontou para o artigo de fundo do New World Press. — Você já refletiu um pouco nas conseqüências que poderão advir desta publicação? Não é um jornal qualquer que nos ataca, é o jornal do Império Solar. Lança-nos no rosto incompetência, traição e interesse particular. Você leu os pontos em que sua crítica está bem expressa. Está em condições de provar que o senhor Nicktown, o autor do artigo de fundo, cometeu algum erro?
Neste instante, Reginald Bell deu um salto da cadeira. Seu rosto estava pegando fogo. Batendo com a mão fechada na mesa de Rhodan, repetia a frase:
Este jornalista de meia-tigela...
Bell — interrompeu-o Rhodan com severidade — pela amizade que lhe tenho, não chame Nicktown de jornalista de meia-tigela. Seu artigo de fundo foi escrito com o mais profundo senso de responsabilidade. O homem está certo, pois vê as coisas do nosso ponto de vista, isto é, como nós, os responsáveis, expusemos a ele e a todos os outros. Nós é que somos os culpados, Bell, nós e mais ninguém...
O baixote havia voltado ao seu lugar na poltrona. O que Perry estava dizendo não lhe agradou:
Que bonito, você dá razão a este Nicktown? Com isto confirma que somos incompetentes para dirigir o Império Solar, não é?
Rhodan se enfureceu ao notar que Bell, de propósito, se encastelava naqueles argumentos.
Que aconteceu com você hoje? Será que este artigo o assustou tanto assim?
Assustar não é bem o termo certo, Perry. Não consigo me libertar do pressentimento de que, com isto, vai desabar sobre nós uma tempestade, que desta vez não vem do espaço, mas daqui de dentro da Terra mesmo. Vai nos trazer muitos aborrecimentos. Olha aqui... escuta apenas esta frase.
E antes que Rhodan tivesse tempo de impedi-lo, Bell começou a leitura do New World Press:
— “Temos o direito de saber que tenciona o administrador com a prorrogação da Lei de Calamidade Pública: Quer ele, com isso, ter mãos livres para transformar o Império Solar numa colônia arcônida ou para estreitar maiores laços de amizade com os comerciantes das galáxias, chefiados pelo patriarca Cokaze?” Somente desta frase, Perry, pode explodir uma insurreição interna. Haverá então combustível suficiente para dez revoluções...
Você é muito “otimista” — interrompeu-o Rhodan.
Surpreso, Bell ficou calado. Não havia, de início, compreendido bem a frase de Rhodan. Depois perguntou com cautela:
Você parece que vê o perigo com maior gravidade do que eu?
Rhodan apenas confirmou com a cabeça.
Nos últimos dez anos, cometemos erros muito grandes e hoje não estamos em condições de exterminá-los. Hoje temos que agüentar as conseqüências, e não é necessário ser profeta para agora se afirmar que o Império Solar terá em breve seus primeiros grandes debates parlamentares...
Mas e a Lei de Calamidade Pública... — atalhou subitamente Bell, para silenciar logo depois, com um breve mas expressivo gesto de Rhodan.
Mas nem mesmo a Lei de Calamidade Pública poderia desativar o Parlamento, e eu seria o último a ter algum interesse em transformá-lo numa reunião de fantoches. Quando os senadores acharem conveniente expor suas dúvidas ao governo, eu jamais os haveria de impedir a fazer isto.
Santo Deus! — exclamou Bell. — Tais debates, além de tudo transmitidos pelo rádio e pela televisão, haveriam de centuplicar nossas dificuldades. Estamos desta maneira espalhando, nós mesmos, o material explosivo, Perry.
Você acha que seria melhor deixarmos o material explosivo acumular num lugar só?
Sua comparação valeria algum dinheiro — disse Bell descontente — porém não é muito bonita. Mas eu gostaria de quebrar o pescoço deste Nicktown...
Incrimine a si mesmo, mas deixe este Nicktown fora do jogo — falou Rhodan com certa dureza na voz. — Por muitos decênios, não informamos devidamente os habitantes de nossa Terra. Quantas vezes lhes ocultamos por semanas e meses situações da maior periculosidade? Jamais os deixamos perceber quantas dificuldades tivemos para ocultar perante o cérebro positrônico de Árcon a posição galáctica da Terra. Nada disso foi publicado. Mantivemos a Humanidade como que dopada em face da realidade... e depois vieram os druufs com quase dez mil naves para o sistema solar, a seguir, veio Árcon com sua frota robotizada para nos socorrer e, com os arcônidas, o patriarca dos saltadores Cokaze trazendo quatro mil naves cilíndricas.
Fez uma pausa e depois prosseguiu:
Bell, o que tudo isto significa para os homens que, de uma hora para outra, despertam de seu sono tranqüilo? Para muitos, ocorre uma espécie de fim do mundo. Já deu uma olhada nas últimas estatísticas demográficas? Não? Já reparou no gráfico dos suicídios? Notou que com a pretensa invasão dos druufs a porcentagem aumentou sensivelmente, e esta onda de desespero continua até hoje?
Sob este ponto de vista, nós fracassamos. E hoje ninguém se interessa em saber por que assim agimos. Nicktown se vê no papel de procurador da raça humana. Tem razão de nos taxar de incompetentes.”
Agora, vamos acabar com isto — falou Bell irritado. — Conforme você disse, nós não fizemos outra coisa a não ser erros!
Devagar! Nem o próprio Nicktown afirmou uma coisa desta. Ele nos acusa de traição, mas nunca de termos feito o papel de ditador. Diz até textualmente que meus auxiliares e eu jamais utilizamos em proveito particular o poder que nos foi outorgado pela Lei de Calamidade Pública. Porém, não recua diante da acusação de traição.
Traição...! Traição! — disse Bell indignado. — Isto é a maior mentira, porém tal mentira é por demais perigosa para nós.
...sim, exatamente porque, neste sentido, não soubemos informar convenientemente a população. E é por isso que me alegro, de um lado, pelo fato de os deputados e senadores se lembrarem de que dispõem do direito de nos convocar para o Congresso. De outro lado, porém, receio que isto contribua para fomentar a latente revolução.
Bell olhou para ele.
— “Latente”? Será que eu o compreendi bem? A revolução já está por aí?
Tome, sirva-se...! — dizendo isto, esticou o braço para a esquerda, pegou um jornal, entregando-o ao surpreso gorducho.
Quanto mais ele lia, mais horrorizado ficava.
Para mim chega — disse Bell, finalmente. — E todas as notícias são de hoje e todas fazem referência ao artigo de fundo de Nicktown. Então eu não tive razão, quando no réveillon deste famigerado ano de 2.044, para evitar acontecimentos azarentos, quebrei em mil pedaços meu copo de cristal numa rodada de champanha...
Pare com isto! — ordenou Rhodan. Mas, no seu entusiasmo, Bell não conseguiu parar.
Não adiantou nada. As coisas até pioraram de lá para cá. Com os cacos de cristal, cortei o dedo. Então, chega-se à conclusão de que...
Você lucraria muito mais se dedicasse seus esforços mentais aos problemas que temos a resolver, meu caro gorducho — disse Rhodan, um tanto sério. — Por favor, chame Kank Donneld, do Departamento de Informações. A partir de hoje, temos que modificar nossa política informativa, fundamentalmente, ou daqui a pouco tempo, teremos novas encrencas. E o que pode então acontecer... é imprevisível.
Será que com isto, Nicktown não tirou toda possibilidade de publicarmos a prorrogação da Lei de Calamidade Pública? Pois, se juntamente com a imprensa, também a indústria pesada começa a protestar e, com ela, os bancos tentam tirar o corpo fora, é natural que também os consumidores, o povo, entrem nesta confusão. Enquanto este cigano das Galáxias, Cokaze, andar por Terra, Marte e Vênus, como se estivesse em sua casa, estaremos caminhando para uma revolução.
Até que enfim, Bell — disse Rhodan espreguiçando-se e encostando-se na poltrona. Sorriu calmamente e continuou. — Até que enfim, seus pensamentos estão entrando nos eixos. É um dos motivos por que tenho de ser grato ao senhor Nicktown, por ele ter escrito um artigo tão agressivo...
Um momento, por favor! — disse Bell, mostrando que ainda estava confuso. — Hoje, você está falando uma linguagem diferente, Rhodan, ou será que eu não compreendo mais nada? O que disse agora pouco? Que meus pensamentos entraram nos eixos e que você deve gratidão a Nicktown?
Sim, nós precisamos da prorrogação da Lei de Calamidade Pública, para termos mais liberdade de ação. Se a publicarmos no Diário Oficial, o que é legal, estamos com isto convocando os homens do sistema solar para as lutas de rua, para a revolução.
Mas se conseguirmos que esta lei seja votada pelo Parlamento, teremos então legalmente uma base para agir muito melhor do que nos foi possível até agora.
Nem assim chego a compreender por que razão você deve gratidão a este Nicktown — disse ele, meneando a cabeça.
Este artigo de fundo obrigará o Parlamento a se reunir em sessão plenária. Está obrigando os deputados a pensarem nos direitos que possuem, e mesmo que haja muita animosidade e muita divergência entre eles, é bem melhor que uma luta mais ou menos escondida nos bastidores, para vencermos a todo custo, dando-nos a pecha de querermos ser ditadores...
O alto-falante do intercomunicador deu o ruído típico.
Quando, há uma hora atrás, os dois se reuniram para discutirem os assuntos pendentes, Rhodan havia proibido terminantemente qualquer interrupção. Os únicos que não estavam incluídos nesta proibição eram o Marechal Allan D. Mercant, chefe supremo da Defesa Solar, e John Marshall, chefe do Exército de Mutantes.
A tela do videofone começou a cintilar. Desapareceu o cinza inicial e surgiram as cores, em movimentos de vaivém, estabilizando-se em seguida. Apareceu Allan D. Mercant.
Sir, estão chegando notícias muito importantes. Infelizmente a mais importante é ainda um boato. Patrik O’Neil de Washington anuncia que facções de deputados do bloco euro-americano estão, no momento, em ligação com os blocos asiáticos e africanos. Desejam uma convocação do Congresso do Império Solar em Terrânia, para daqui a três dias. Ainda de acordo com os boatos circulantes, o ponto central da ordem do dia será o voto de confiança, com a respectiva votação, sendo que o bloco euro-americano se recusa a debater a prorrogação da Lei de Calamidade Pública. Rhodan ouvia tudo de fisionomia fechada. Depois falou no microfone do intercomunicador:
Mercant, reúna todos os homens que for possível, imediatamente. Eles devem fazer tudo para que os deputados possam mesmo estar em Terrânia dentro de três dias.
Allan D. Mercant, que conservava o vigor de sua juventude, graças à ducha celular do planeta Peregrino, levou um susto e logo a seguir mostrou-se surpreso, chegando ao ponto de interromper o administrador.
Sir — disse com voz nervosa — ainda não ouviu as demais notícias. Todas elas se referem ao artigo de Nicktown no New World Press e são...
É a isto que me estou referindo, Mercant — falou, esboçando um leve sorriso. —
A atmosfera política está tão envenenada, que somente uma limpeza geral será capaz de restabelecer um ambiente respirável. O artigo de Nicktown nos veio alertar de que realmente está na hora desta limpeza. É por isso que estou ansioso para comparecer, dentro de três dias, perante o Congresso do Império Solar.
Allan D. Mercant — depois de Rhodan e Bell, o homem mais bem informado do Império Solar, verdadeiro gênio no âmbito da defesa e a tudo com ela relacionado — falou muito apreensivo:
Sir, haverá cerrados debates. A votação em todo o Império é uma coisa problemática. Principalmente depois da luta contra a invasão da Terra, sua simpatia decresceu muito...
Rhodan não o deixou terminar. Em tom mais duro do que até então, perguntou:
Mercant, seus homens estão ou não estão em condições de prepararem tudo para que haja uma reunião plenária do Parlamento, em três dias?
Não só o Ministro da Defesa, mas também Bell ficaram perplexos. Os olhos de Perry Rhodan voltaram a ter aquele brilho de aço, que surgia sempre que estavam em jogo decisões de grande monta. Não era o olhar de um aventureiro, que arrisca mais do que pode. Era um olhar indescritível e inesquecível para quem o visse, uma vez que fosse. Um olhar que empolgava e arrastava quem o sentisse.
E Allan D. Mercant, como também Bell, sentiam-se impressionados e o marechal, automaticamente, se empertigou e respondeu:
Sir, creio poder lhe assegurar que o Parlamento será convocado em Terrânia, dentro de três dias.
Obrigado, Mercant — respondeu Perry Rhodan. — Não podia esperar outra resposta.
Com isto, desligou-se o intercomunicador.

* * *

Milhões de pessoas assistiam pela televisão aos debates travados no Congresso Solar de Terrânia. Estava sendo realmente muito pior do que os palpites pessimistas, previstos por Bell. Este virava-se a toda hora para John Marshall, que com seus maravilhosos dons telepáticos, auscultava o íntimo dos deputados.
Continua tudo na mesma, Sir — repetiu o mutante já pela décima vez — mas, por favor, estou na pista de algo novo...
Isto queria dizer que não se devia perturbar a atenção de Marshall. Bell atendeu ao pedido do telepata e passou a concentrar toda atenção no que Rhodan estava dizendo, da tribuna ao grande plenário, em resposta a uma pergunta circunstancial.
De repente, surgiu da delegação africana o aparte:
Até quando estaremos obrigados a financiar com nossos pesados impostos sua milícia particular? Nem mesmo a Lei de Calamidade Pública lhe dá o direito de esbanjar o dinheiro público com este bando de aleijados mentais, que recebe o pomposo nome de Exército de Mutantes. O que o senhor tem a dizer sobre isto, administrador?
Por dois ou três segundos, o silêncio foi tão profundo, que se poderia ouvir o zumbido de uma mosca voando. A questão levantada pelo deputado africano, Onablunanga, fez com que um grande número de deputados olhasse mais detidamente o administrador.
Milhões de espectadores, diante de suas televisões, no mundo inteiro, notaram que a fisionomia de Perry Rhodan se anuviou e seus lábios se fecharam num risco horizontal.
A televisão mostrou como Reginald Bell se levantou e sussurrando alguma coisa nos ouvidos de Rhodan, se encaminhou para a tribuna, substituindo seu chefe e amigo.
Senhores deputados e senadores! — soou a voz possante de Bell. — Minhas senhoras e meus senhores. Em lugar do administrador do Império Solar, gostaria de responder à pergunta do senhor Onablunanga, mas antes quero, em nome do administrador e de seus auxiliares, expressar meu protesto contra a formulação e as insinuações da pergunta.
Tomo a liberdade de lembrar ao senhor Onablunanga que não nos encontramos nas Minas de Ferro Cimberley, mas que nós, e ele também, estamos na sessão plenária do Congresso.”
Quando Allan D. Mercant ouviu esta referência às Minas de Ferro Cimberley, empertigou-se todo. Sua fantástica memória despertou para todos os detalhes de um famoso escândalo, referente às minas. Onablunanga somente não tinha ainda sofrido processo penal, porque, como deputado, gozava das imunidades parlamentares.
O que estava acontecendo na África não podia ser chamado de negócios escusos, mas alguma coisa mais do que escândalo. E exatamente agora, Reginald Bell, destemidamente, abordava a questão do ferro africano.
Mais forte que o barulhão, provocado pela delegação africana, era a voz de Bell, pois estava ampliada pelos alto-falantes do intercomunicador. Com toda empolgação, começou a elogiar os abnegados mutantes que o deputado africano chamara de “aleijados mentais”. A forma temperamental como Bell falava, seus conceitos precisos e o arrolamento dos fatos, onde os mutantes expunham a vida para salvar os interesses do Império Solar, obrigaram o plenário a ouvir com crescente interesse sua exposição.
Rhodan estava feliz, vendo e ouvindo seu amigo defender o grande patrimônio humano: os mutantes. De repente, seu micro comunicador deu o sinal de chamada, exatamente o alarme de urgência. Ergueu o braço esquerdo, levando o pulso até encostar no ouvido. Terminado o sinal de alarme, Rhodan ouviu atentamente a mensagem.
Segundos depois, seu rosto empalideceu, dando a impressão de um homem envelhecido repentinamente. E foi neste momento que as câmaras de televisão passaram da figura empolgante de Bell para o esquálido e abatido Rhodan.
Milhões e milhões de homens estavam agora olhando para Rhodan, o administrador do Império Solar, que passava um dos piores momentos de sua vida.
Rhodan estava envolto numa onda de desespero. Foi grande nele a vontade de desligar seu micro comunicador, mas muito mais forte foi a resolução de ouvir até o fim a mensagem.
Thomas Cardif, tenente da Frota Solar, lotado em Plutão, tinha abandonado clandestinamente o planeta num destróier. O filho de Perry Rhodan desertara. Thomas, que recebera a pena de degredo para Plutão, já havia tentado desertar durante a guerra contra a invasão dos druufs. Nutria verdadeiro ódio pelo pai...
Sua fuga do planeta Plutão fora conhecida há poucos minutos. Contrariando a rotina, a guarnição de Plutão revezou a tripulação da Estação de Relê III, cinco dias antes do prazo normal. Aí foi que se constatou que Cardif havia fugido, já há alguns dias.
Para onde dirigiu-se o desertor Tenente Cardif, ninguém sabe — foi o final da mensagem.
Era claro que, neste momento, Rhodan não era senhor de si. Perdera primeiro sua esposa, Thora, e agora também seu filho. Fez questão de que o filho crescesse entre pessoas estranhas para não passar a ser conhecido apenas pela expressão o filho de Rhodan. Queria criar sua própria personalidade. Mas, ainda como tenente recém-formado, chegou a saber em Silico V quem eram seus pais. Foi então que explodiu nele o sangue arcônida de sua mãe Thora. Com o orgulho e a tenacidade, característicos de um puro arcônida, passou a odiar o pai. Todo seu amor ficou voltado para a mãe. Para o pai, sobrou apenas ódio e desprezo.
Como ele deve me odiar”, pensava Rhodan em seu desespero.
Compreendeu então como um homem, que paira em alturas inacessíveis para os demais, pode se transformar num infeliz solitário.
Não sabia que um sorriso amargo se esboçava em seus lábios. Não sabia que, neste momento, milhões de pessoas olhavam para ele, pessoas que se lembravam do dia em que Thora fora enterrada em seu mausoléu na Lua.
Perry...
Bell se sentara ao lado dele. Fora substituído na tribuna por Allan D. Mercant, que começou a falar para um plenário que parecia não querer perder uma só de suas palavras. Inicialmente exigiu que seu discurso não fosse transmitido para o público em geral, mas só para o ambiente do Congresso. Sua solicitação não era uma coisa estranha e estava dentro das normas parlamentares. Allan D. Mercant iria abordar um assunto de extrema gravidade. Iria expor ao poder legislativo do Império Solar o fato de vinte e um deputados estarem abusando de suas prerrogativas, a fim de se enriquecerem ilicitamente. Todos estes deputados pertenciam à delegação africana e eram inimigos figadais de Rhodan.
Neste momento, milhões de televisões no Império Solar se apagaram. O voto da maioria determinara parar toda transmissão, até que o Ministro da Defesa Solar tivesse apresentado todos os documentos, comprovando suas acusações, seria, também, dado tempo aos parlamentares, para que estes verificassem a autenticidade das provas apresentadas.
Inclinando-se levemente para frente, John Marshall sussurrou no ouvido de Bell:
Pela indignação dos deputados sobre o escândalo das Minas de Ferro Cimberley, fica cada vez mais evidente de que eles foram vítimas de uma fraude na votação. Mas seu descontentamento sobre a informação deficiente, por parte da administração, ainda continua agindo. A delegação africana não sabe o que fazer.
Bell pretendia passar estas informações para Perry. Tocou-o de leve e só então é que notou como seu rosto estava pálido.
O que você tem, Perry? O que houve?
E Rhodan, virando a cabeça como um autômato:
Thomas desertou com um destróier, Bell...
Não... — respondeu Bell, surpreso. — Não acredito numa coisa desta.
No íntimo, Bell podia ter certeza de que isto era verdade.
O Parlamento foi rígido para com os vinte e um deputados. Robôs e policiais os tocaram para fora do recinto. Os robôs haviam recebido a ordem de que os vinte e um deputados, não podiam se afastar de Terrânia. Depois disso, procedeu-se à ordem do dia. E o artigo de fundo de Nicktown ainda continuou sendo o ponto de apoio do debate.
A transmissão para fora do recinto foi reiniciada, e os milhões de aparelhos da Terra acompanhavam curiosos toda a discussão.
A administração da Terra foi duramente atacada. Rhodan não fez rodeios para enganar ninguém. Somente quando a acusação de traição veio à baila, ele protestou:
Os druufs não são fantasmas que inventamos para assustar a Humanidade. São talvez um perigo muito maior para a Terra, do que o cérebro robotizado fora. O desenvolvimento das ações é uma coisa que não podemos deter. Por este motivo, a posição da Terra, mais cedo ou mais tarde teria de ser descoberta, e foi assim que ficamos gratos a estes quatro mil aparelhos cilíndricos dos mercadores galácticos, quando vieram em nosso auxílio na hora mais trágica do ataque dos druufs. Mas não se pode falar em traição, a menos que os senhores preferissem viver escravos dos druufs e não como terranos livres.
Livres sob a “guarda” dos saltadores! — gritou alguém.
E por que motivo as naves robotizadas dos arcônidas ainda não se retiraram da Terra, administrador? — perguntou outro.
Estavam agora aparecendo os grandes inconvenientes de Rhodan não haver usado de mais franqueza com o público e de não ter prestado maiores esclarecimentos. Explicou com paciência, ou tentou fazê-lo, por que razão as naves cilíndricas dos saltadores ainda se encontravam nos espaçoportos da Terra, Marte e Vênus e por que outras naves ainda continuavam circulando no sistema solar. Mas, quanto mais tentava explicar, menos era compreendido.
A estes deputados, que de maneira alguma podiam ser incriminados por sua atitude, faltava uma visão do conjunto para compreenderem mais profundamente os motivos alegados por Rhodan. Tinham, pois, que extravasar sua incompreensão.
Mas, de um lado que ninguém esperava, houve uma mudança sensível!
Rhodan continuava falando que ele mesmo se assustara com o teor do artigo do jornalista Nicktown. Assinalou os pontos, devido aos quais, por motivos de estratégia, não podia prestar contas diretas ao público.
...durante os turbulentos acontecimentos nas Galáxias e também no sistema solar, não tínhamos tempo de cientificá-los, e isto não é uma desculpa vazia, como lhes posso provar.
E durante cinco minutos citou fatos e dados que deixaram os deputados boquiabertos.
Nunca agimos com imprudência ou falta de capacidade.
E citou muitos exemplos. Depois concluindo disse:
Mesmo uma administração que possua grande liberdade de ação, dentro da lei, não pode apresentar um trabalho profícuo e duradouro, se não contar com o apoio do Congresso. E, por este motivo, como administrador do Império Solar, faço aos senhores e a todos os habitantes deste nosso diminuto império a seguinte pergunta: contamos ou não com a confiança de todos?
Meia hora depois, se soube do resultado da votação. Não foi um voto de confiança estrondoso para Rhodan, mas era o que podia esperar naqueles dias conturbados e de grande confusão política.
Ao voltar à tribuna, disse simplesmente:
Agradeço ao Plenário o voto de confiança dado a mim e a meus colaboradores.
Neste instante soou um aplauso relativamente fraco. Mas vinha de todos os lados, e este fato era, para Rhodan, mais importante do que uma votação maciça, de maioria absoluta.
As muralhas erguidas contra Perry Rhodan começavam a abrir brechas em todos os pontos. Mas Bell ainda não estava vendo o quadro assim. Ao chegar ao seu lugar, Rhodan percebeu que Bell, com olhar pessimista, lhe dizia em voz baixa:
Tomara que este ano pesado já tivesse acabado.
Era o dia 5 de junho de 2.044.
2



Somente depois que a sessão plenária do Congresso do Império Solar terminou, foi que Cokaze se levantou de sua poltrona em frente à televisão.
O velho patriarca, o único da raça dos comerciantes da Galáxia que havia presenciado, desde o início, a carreira fulminante de Perry Rhodan, balançou, contente, a cabeça, quando a transmissão terminou. Levou aos lábios a taça que estava ao seu lado.
À nossa saúde — disse, olhando em volta.
Mais de vinte pessoas, todas de sua estirpe, sentadas de acordo com o posto de cada um, repetiram-lhe a saudação.
Eram, mais ou menos, semelhantes, não apenas no vestuário, não apenas na barba aparada, em flagrante contraste com os longos cabelos, mas acima de tudo pela estatura: dois metros.
Para o clã de Cokaze só havia um chefe: o próprio patriarca Cokaze. Suas ordens eram leis, suas opiniões eram normas. Não era apenas o mais velho, era também o mais experiente entre os saltadores, nos assuntos que diziam respeito a Rhodan.
Desde que Topthor, o superpesado, havia morrido em combate com os druufs, ele era o único que havia conhecido Perry Rhodan, ainda com poucos recursos tecnológicos, nos primeiros dias de sua vertiginosa carreira.
O poder do administrador do Império Solar era agora bem maior. Cokaze e seus auxiliares imediatos sentiram tal poderio pela televisão.
Apesar disso, Cokaze acreditava ter razão de sobra para um brinde à vitória dos saltadores. Pois, não apenas estava informado sobre o potencial bélico de Rhodan, mas sabia, de primeira mão, como a posição política do administrador estava periclitante.
Os outros saltadores apanharam seus copos e beberam à saúde de seu chefe, sem dizer uma palavra.
Com a mão esquerda, Cokaze limpou a barba, fez uma inclinação vagarosa e se dirigiu depois a seu filho mais velho Olsge, que residia com sua família na espaçonave esférica Cok-III
Você voará amanhã para o planeta Vênus, Olsge, e reunirá os capitães.
Virou-se depois para Oktag, seu filho predileto.
Você vai aterrissar amanhã na Cidade de Marte, e reunirá nossa gente. Não há muita coisa para discutir, mas temos muita coisa para fazer.
Fez uma pausa.
Nós ficaremos aqui! Ficaremos aqui até que Rhodan nos garanta por contrato o monopólio do comércio em todo o sistema solar.
Depois, talvez, poderemos até deixar a Terra. Isso se Rhodan me pedir... porque nós, os saltadores, somos seres humanos, não somos selvagens, podemos dialogar... se nos oferecerem grandes vantagens.”
Deu uma estrondosa gargalhada e seus olhos brilhavam.
Cokaze nunca passou por mau comerciante e sua reputação no meio dos seus era muito grande. Prova disso era sua enorme frota espacial, de mais ou menos quatro mil unidades, de naves modernas. Uma parte desta frota estava em reparos nos estaleiros de Marte e de Vênus. A batalha contra os druufs lhe saíra cara. Mas os aparelhos, que estavam nos aeroportos da Terra, não tinham nenhum defeito e podiam voar a qualquer momento. Em quase todos os espaçoportos, havia naves dos saltadores.
E isto não foi por acaso. Cokaze era também um estrategista, além de ser um grande comerciante, que só fazia negócio quando se tratava de lucro de centenas de milhões. Tinha que manter uma frota de quatro mil naves cilíndricas, e isso lhe exigia diariamente uma pequena fortuna.
Surgiu, porém, uma objeção, cortês e reticente, como convinha aos severos costumes dos comerciantes das Galáxias.
Senhor, será que o grande regente não criará nenhuma dificuldade? Sua frota é muito maior que a nossa...
Novamente a gargalhada estrondosa do velho patriarca e sua expressão de superioridade.
Krako, parece que você andou dormindo o tempo todo, enquanto os deputados terranos martirizavam o pobre Rhodan com suas perguntas. Acho que Rhodan fará tudo para que o regente de Árcon chame de volta suas naves robotizadas. Se nós...
Naquele instante, tocou o sinal do intercomunicador. Do posto central da Cok-I, o radiotelegrafista transferiu a ligação diretamente para o camarote do patriarca. A tela iluminou-se e Cokaze virou-se para o lado. Sua intenção era sentar-se bem em frente ao vídeo. Quando a imagem se estabilizou, o rosto tranqüilo de Rhodan estava olhando para o chefe dos saltadores.
Cokaze, suponho que você e seus capitães tenham assistido aos debates no Parlamento Terrano — começou Rhodan, depois de curta saudação. — Isto me dispensa de explicações mais detalhadas. Acabo de falar com o grande regente de Árcon. Dentro de duas horas as naves robotizadas, que ainda permanecem no sistema deixarão nosso setor, para voltarem a Árcon ou para a frente de bloqueio dos druufs. O regente robotizado não fez nenhuma objeção ao meu pedido de retirar sua frota. O mesmo pedido gostaria de fazer agora a você, Cokaze. Posso lhe perguntar quando você vai retirar do sistema solar as naves que estão em Marte, na Terra e em Vênus, bem como as que se encontram nos satélites dos grandes planetas?
Rhodan — respondeu o patriarca com expressão de amabilidade na voz, esforçando-se para falar a língua arcônida com perfeição. — É com tristeza que tenho de constatar que a gratidão não é uma virtude característica dos terranos. Eu...
Neste momento, o operador de rádio da
Cok-I, que se esgueirou na ponta dos pés por entre as filas de cadeiras dos capitães saltadores que não perdiam uma palavra do diálogo de seu chefe, tinha chegado até o patriarca. Inclinou-se para ele e, com muito cuidado, lhe sussurrou no ouvido:
Senhor, o filho de Perry Rhodan o espera na Cok-CCCXXII, que está em Vênus.
O tremendamente ladino Cokaze não deixou transparecer nada do impacto que recebera. Fez apenas um aceno de cabeça para o jovem operador de rádio, desculpando-se a Rhodan da pequena interrupção. Depois apontou na direção de seus auxiliares mais próximos, e continuou:
Rhodan, como você vê, estamos reunidos em conselho. Peço que me dê três horas terranas, para que nós lhe possamos transmitir nossa decisão.
Cokaze, você vai ligar para mim, ou terei que chamá-lo de novo? — disse Rhodan com a mesma educação de sempre.
Eu ligo para você, Rhodan.
Obrigado, saltador. Tomo a liberdade de declarar neste instante, mais uma vez, que nós, os terranos, nunca faltamos na gratidão para com nenhum dos nossos amigos.
Se esta gratidão se traduz em números bem contabilizados, terrano — respondeu Cokaze na sua linguagem imediatista
então seremos nós, os comerciantes das Galáxias, os últimos a menosprezar esta grande virtude. Poderíamos fazer um contrato em que se estipule para meu clã o monopólio comercial do sistema solar. Afinal de contas, se o Império Solar ainda existe, deve-o ao meu auxílio. Mas, sobre isto falaremos depois, terrano. Vou desligar agora.

* * *

Sujeito sem-vergonha! — exclamou Bell irritado, quando o rosto de Cokaze desapareceu da tela.
Assistira com atenção ao diálogo entre Rhodan e Cokaze.
Acho que não lhe resta outro meio a não ser apelar de novo para Atlan, para que ele explique a Cokaze que nós não aceitamos chantagem. A referência ao monopólio comercial é uma deslavada chantagem, ou melhor, uma verdadeira extorsão.
Não é à toa que eles se chamam comerciantes das Galáxias — respondeu Rhodan. — E não é isto que me preocupa no momento. Quero saber que notícia foi sussurrada ao ouvido de Cokaze, no momento em que ele me respondia. Jamais vi um saltador cujos olhos brilhassem tanto como os de Cokaze, naquele instante. Embora seu rosto continuasse o mesmo, os olhos traíam uma grande alegria.
Intuitivamente, Bell pegou os pensamentos de Rhodan. Este deu um leve sorriso para o amigo.
Perry, você está ficando louco. Rhodan olhou demoradamente para Bell.
Gostaria mesmo de ficar louco, Bell. Você sempre passou a mão sobre os erros de Thomas. Há pouco tempo, numa transação um pouco escusa, você o livrou de uma corte marcial...
Mas Rhodan parou por aí. Sempre que, entre os dois, o assunto era o filho de Rhodan, as opiniões divergiam diametralmente. Bell acreditava no bom caráter de Thomas Cardif, quase que cegamente, não podendo compreender a posição de Rhodan, desanimada e desesperançada, vendo tudo de errado nas ações do rapaz.
Bell fez com que Rhodan se afastasse do hipercomunicador.
Se você não o quer fazer, eu chamarei a estação de Plutão. Thomas, talvez, jamais fugisse com um destróier.
A tecla estalou com o ruído de encaixe. Imediatamente se apresentou o telegrafista da central de Terrânia e Bell ordenou uma ligação urgente para o chefe da guarnição de Plutão.
Levou três minutos até que o major aparecesse na tela do escritório de Rhodan.
Sir, às suas ordens!
Bell entrou diretamente no assunto.
Major, o que lhe foi informado sobre a fuga de Thomas Cardif? O senhor está a par dos motivos?
Sir... — podia-se perceber o esforço que o major fazia para se expressar e responder bem a estas perguntas. — Sir, correm boatos por aí, o senhor sabe como os soldados são linguarudos...
Bell não parecia hoje estar disposto a exercícios de paciência.
Major, fiz-lhe uma pergunta bem clara e exijo também uma resposta clara. Portanto...
Não posso fazer outra coisa do que transmitir os boatos que circulam por aí.
Com os diabos, pois então transmita estes boatos — disse Bell com voz alterada. — Ou será que eu lhe disse para chupar os dedos?
No gélido planeta Plutão, a algumas centenas de milhões de quilômetros da Terra, o chefe da guarnição, tremendo diante da descompostura de seu superior, automaticamente tomou a posição de sentido.
Sir, na minha guarnição corre o boato de que o administrador, há tempo, determinou, em flagrante desobediência ao parecer dos médicos, que sua esposa recebesse a incumbência de viajar para Árcon III, a fim de negociar a aquisição de cem naves esféricas...
O quê?! — gritou Bell, de rosto vermelho. — O que o chefe fez mesmo?
Sir, sua ordem foi para eu narrar boatos, e foi o que acabou de ouvir.
Reginald Bell tirou um cigarro, acendeu-o e deu umas tragadas. Olhou depois para o lado. A três passos dele, diante da janela, estava Rhodan, sem mostrar a menor reação. Parecia petrificado e não reagiu ao olhar inquiridor de Bell.
Depois de mais algumas tragadas nervosas, Bell amassou o cigarro no cinzeiro.
Obrigado, major! É só.
E com isso interrompeu a ligação.
Perry!
Rhodan não se mexeu.
Com os diabos — esbravejou o gorducho. — Será que todo o sistema solar virou um inferno? Antes nunca tivesse botado a mão em política. “Em flagrante desobediência ao parecer dos médicos...” Se eu pegar este sujeito que espalhou este boato... este canalha...
E o resto foram palavras não muito elegantes.

* * *

No mesmo instante, na espaçonave cilíndrica Cok-CCCXXII, Thomas Cardif ouvia que o patriarca Cokaze havia anunciado sua chegada para as 3,30 da madrugada, hora de Vênus.
Tsathor, parente afastado do chefe do clã, parecendo com ele fisicamente, mediu Thomas de alto a baixo, com vivo interesse. Não podia atinar bem o que pretendia o jovem tenente, ainda usando o uniforme do Império Solar. Não era a primeira vez que estava diante de um desertor ou traidor, mas nunca tivera um encontro como este do Tenente Thomas Cardif.
Seu destróier já estava alojado no hangar 8 da Cok-CCCXXII. Já tinha sido transportado, há uma hora, sob o manto da escuridão, pela Cok-DV, para a nave.
Pode ficar com o destróier, se quiser — disse Thomas Cardif, indiferente — não vou mais precisar dele.
Tsathor fez apenas um gesto de assentimento, ocultando sua alegria.
Cardif, você não tem necessidade alguma de se explicar. Você parece muito com Perry Rhodan, quando jovem.
Sou arcônida, Tsathor — interrompeu-o bruscamente o tenente. — Não sou terrano.
Suas palavras tinham um tom frio. Mas os olhos de um brilho avermelhado, característico dos arcônidas, certamente por parte de sua mãe, demonstravam nervosismo.
Como arcônida, você não poderá falar em nome dos terranos — ponderou Tsathor. — Ou será que não o compreendi direito?
Thomas Cardif sorriu.
Quem são estes terranos, Tsathor? Nesta Galáxia só existe uma raça, à qual pertencemos você e eu. Isto é, os arcônidas. O grande regente haverá de me reconhecer, e com ele e com a estirpe de Cokaze haveremos de reduzir a Terra ao que ela realmente é. Haveremos de transformá-la numa colônia de Árcon e todo o comércio será exercido exclusivamente pela estirpe de Cokaze.
Será formidável quando tudo isto se realizar, Cardif — disse Tsathor, visivelmente impressionado com as palavras do jovem tenente — mas o que você espera ganhar com isto?
O aniquilamento de Rhodan. Sua morte. Só isto me basta.
O saltador estava intimamente abalado. A resposta, que acabara de ouvir, o deixou estonteado. Palavras frias, pronunciadas sem a menor comoção. Tsathor perguntou espantado:
Mas, Perry Rhodan não é seu pai, terrano?
Saltador, nem sou terrano, nem Rhodan é meu pai. Apenas não posso negar que ele me gerou. Mas encerremos este assunto até a chegada do patriarca Cokaze.
Um gesto do comandante Tsathor fez com que os olhos de Cardif se iluminassem de novo.
Qual é a dúvida que ainda tem? Com esta pergunta, feita num tom de superioridade, Cardif se portava de novo como um legítimo arcônida.
Sem o querer, Tsathor continuava impressionado e perguntou com a maior simplicidade:
Por que você odeia Rhodan a este ponto, Cardif?
Thomas Cardif colocou suas mãos bem tratadas sobre a mesa. Era um gesto mais do que claro de que esta seria a última pergunta que responderia.
Contra o parecer de todos os médicos, Rhodan obrigou minha mãe, já desenganada, a executar uma missão perigosa em Árcon III. Queria ficar livre dela, porque minha mãe envelhecera de repente e ele in-tencionava enviuvar-se para casar de novo com uma mulher jovem. Mandou minha mãe para Árcon, sem ela saber de nada. Ela estava completamente por fora de tudo, não sabia nem de seu estado de saúde, nem dos perigos de sua missão. E isso posso provar porque ela nem se despediu de mim, quando partiu.
Quando a vi de novo, estava morta, a única criatura que sempre me amou. Também quero ver Rhodan morto. Eu o odeio, desde o dia em que fiquei sabendo que ele é meu pai. O Universo todo só tem espaço ou para Perry Rhodan, ou para Thomas Cardif. Para os dois, é demasiadamente pequeno.”

* * *

A imprensa do Império Solar se dividiu, parte a favor de Rhodan, parte como adversária irreconciliável do administrador. O pouco expressivo voto de confiança do Congresso serviu de ponto de partida para novos ataques. Os jornais africanos não perdoaram a Reginald Bell, por haver, durante os debates, trazido à baila o escândalo das Minas de Ferro Cimberley. Afirmavam peremptoriamente que, desta forma, o assunto Cimberley havia influído no resultado final da votação, pois os vinte e um deputados, a quem seria movido um processo imediatamente, eram todos contra Rhodan.
A retirada repentina da frota arcônida foi saudada com satisfação. O New World Press, principalmente o artigo de fundo de Nicktown, de apenas 30 linhas, tentaram acalmar um princípio de agitação. E seu teor mais conciliador contribuiu muito para fazer com que grande parte dos terranos perdesse todo interesse em novas escaramuças. No entanto, sob uma camada de aparente tranqüilidade, havia ainda qualquer coisa e o Serviço de Segurança de Allan D. Mercant acompanhava atentamente todos os movimentos.
Vinte e quatro horas depois dos debates ainda restavam uns grupinhos procurando causar desordem. Não sabiam, porém, que cada um de seus movimentos era vigiado e não podiam fazer tanto mal como pensavam.
Neste meio tempo, Rhodan mantivera uma longa conversa com Atlan por hiper-rádio. O almirante arcônida estava preocupado com as dificuldades de Rhodan na Terra e colocou à disposição do amigo qualquer tipo de auxílio.
Almirante, agradeço-lhe pela generosa oferta, mas no momento me é necessário mais tempo do que propriamente demonstração de força.
Está bem, Perry, vou então anunciar através do cérebro positrônico para toda a Galáxia que o Império Solar está sob a proteção de Árcon. Você está de acordo com esta nova formulação?
Rhodan refletiu por uns instantes e, depois de receber de Bell, de Mercant e de Freyt um aceno de confirmação, respondeu:
De acordo, almirante. Creio que a formulação sob a proteção de Árcon vai me arranjar uma pausa para respirar, o que nos é indispensável na situação atual. Não lhe quero ocultar que minha situação nunca esteve tão crítica, como nas últimas vinte e quatro horas.
Uma risada de pouca alegria chegou até a Terra pelo hiper-rádio.
Então, dois homens se apertam as mãos, Perry. Pelos deuses imortais de Árcon!... Estou com medo da hora em que o Grande Império souber que eu estou exercendo o poder em lugar do regente robotizado. Você está atolado até o pescoço com as questões de política interna, enquanto eu ainda estou aguardando por tudo isto e, independente de nossa amizade, terrano, tenho de ajudá-lo agora, para que você me possa ajudar, quando chegar a minha hora difícil. Gostaria milhões de vezes mais de ser Perry Rhodan, pois seu nome tem prestígio enorme na Via-Láctea. Representa uma força, simboliza um fator simplesmente inacreditável. Quem é que conhece o nome Atlan? Sou um nada em comparação com você, terrano. Veja como nossos destinos estão intimamente ligados. Perry, é realmente maravilhoso tê-lo como amigo.
Antes que Rhodan estivesse em condições de responder qualquer coisa, Atlan, a 34 mil anos-luz, sob a proteção da enorme cúpula eletrônica, desligou o hiper-rádio.
Rhodan não estava nada animado.
Não estou gostando deste jogo de xadrez, principalmente desta última jogada. Sim, eu sei... — e levantou as mãos, como para se defender, quando viu os protestos de Bell, Mercant e de Freyt — sei que não há outro meio. Agora, tenho minhas dúvidas sobre se este contrato de misericórdia vai nos livrar da forca, isto é, se vai nos ajudar a vencer as dificuldades internas. Quisera ser profeta. Falando com franqueza, como será a opinião pública sobre estas mudanças? Para mim, é mistério...
Para mim, não é tão mistério assim — observou Bell. — Todos têm medo de que a batalha recomece, apesar de a pergunta ser repetida a toda hora: para onde fugiram os druufs? A questão é esta, estamos numa situação infernal e temos que ser o bode expiatório de todo mal que nos acontece. Para a visão curta do povo, nós somos os culpados por este estado de ameaça permanente contra a Terra. E numa situação desta, nem Atlan nos pode mais ajudar.
Para mim, o grande enigma é o patriarca dos saltadores, Cokaze — disse Allan D. Mercant, dando vazão a seu pessimismo.
Cokaze evacuou todos os espaçoportos da Terra, mas se encastelou em Vênus e Marte. Será que o saltador ainda quer especular conosco o pretendido monopólio comercial?
Sou eu ou você, Mercant, o chefe da segurança? — perguntou Rhodan, um tanto áspero.
Sir — a expressão de Mercant denotava calma e firmeza. — O Serviço de Segurança Solar nunca esteve tão sobrecarregado como nos dias atuais. Há uma avalancha de incumbências intermináveis. Onde deveria empregar dez por cento de todo o pessoal, dou-me por feliz se conseguir dois ou três homens disponíveis. Dizer que a Segurança Solar está falhando ou falhou é não querer reconhecer as convulsões políticas por que passamos ou subestimá-las.
Obrigado — disse Rhodan com sarcasmo. — É ótimo poder ouvir a verdade. Onde se encontra o tenente desertor Thomas Cardif, senhor Marechal Mercant?
Só nos faltava mesmo uma pergunta deste tipo — protestou Bell em voz bem alta, sendo interrompido por Rhodan.
Bell o fitou com estranheza. Mas seu pensamento estava desenhado em seu rosto.
Que aconteceu com ele? Era a pergunta muda.
O rosto de Rhodan parecia de pedra.
Por favor, marechal, estou esperando sua resposta.
Bell estava de respiração ofegante. Freyt, imóvel como uma estátua. Allan D. Mercant, respirando profundamente. Ninguém se lembrava de ter vivido semelhante situação em toda a vida. Mas os três sabiam que havia só um chefe, Perry Rhodan.
Não era o pai que estava perguntando pelo paradeiro de seu filho, mas o administrador, responsável pelo Império Solar.
Sir, não estou em condições de lhe fornecer novos dados sobre o paradeiro de Thomas Cardif. Não sabemos ainda para onde ele foi, após a fuga de Plutão, nem onde se encontra atualmente. Recomendo para este fim o emprego do Exército de Mutantes.

* * *

Thomas Cardif estava sentado em frente de Cokaze.
O velho e experimentado saltador e o jovem tenente, desertor do Império Solar, tratavam-se mutuamente como dois sócios com direitos iguais.
O camarote de Cokaze na Cok-I, que havia aterrissado em Vênus, ao lado da Cok-CCCXXII, foi o local onde se travaram as primeiras conversações com o objetivo de expurgar do mapa das Galáxias um diminuto reino estelar.
Era com admiração e, ao mesmo tempo com um certo mal-estar, que Cokaze olhava constantemente para o jovem desertor.
Fascinava-o a lógica fria do tenente, mas assustava-o também seu ódio selvagem contra Rhodan.
Cokaze, você jamais obterá o monopólio comercial de Rhodan, enquanto ele for o administrador do sistema solar — explicava Cardif. — E não vai também conseguir nada de seu sucessor, se não destruir Perry. O novo, ou os novos administradores que vierem haverão de considerá-los como mercenários. No entanto, você e sua estirpe serão reconhecidos como arcônidas, se o novo administrador for um arcônida.
Cokaze coçou a barba.
Deixe-me algum tempo para pensar, Cardif.
Thomas Cardif já estava no terceiro cigarro, quando o patriarca, inclinando-se levemente para frente, lhe perguntou afinal:
O que se deve fazer para minar ainda mais a posição de Rhodan?
O que você está disposto a fazer para provocar a queda de Rhodan, saltador? — perguntou Cardif como um sócio inteligente. — Você espera por um contrato que lhe dê o direito exclusivo de trazer para o sistema solar todo e qualquer tipo de mercadoria e de exportar os produtos fabricados na Terra. Já percebeu que com este contrato você e sua estirpe se tornarão o povo mais rico da Via-Láctea. Naturalmente, um presente deste tem seu preço. O que você pretende investir?
Pela primeira vez, Cokaze se mostrou surpreso.
Cardif, você é tão frio e calculista como seu pai e tão arrogante como um arcônida. Ainda mais quando penso que você é tão jovem, ficaria com receio, caso não se tratasse de um grande negócio que...
O alto-falante do hiper-rádio deu o sinal de chamada. A tela começou a acender, até que Cokaze e Thomas Cardif levaram um susto, ao aparecer o emblema do grande regente de Árcon.
O cérebro robotizado comunicava uma resolução.
A confusão de linhas, conhecida em toda a Galáxia, deu lugar a um pedaço da cúpula gigantesca de Árcon. Simultaneamente com a imagem da cúpula, ouviu-se a voz metálica e inanimada do cérebro positrônico.
Cokaze e Cardif se entreolharam com ar de triunfo.
A gigantesca positrônica de Árcon acabara de anunciar que o sistema solar estava, a partir deste instante, sob a proteção de Árcon.
Ambos interpretavam a mensagem do seguinte modo: viam pura e simplesmente uma anexação do Império Solar por parte de Árcon.
Cardif, estou pronto a investir alguma coisa, como você estava falando há pouco. Minha frota não vai sair nem de Marte nem de Vênus. O poder bélico de minhas naves continua inalterado. Rhodan não vai ter força suficiente para me expulsar e dois planetas de seu sistema em minhas mãos já são uma boa base para entrarmos em conversação sobre o tratado de concessão do monopólio comercial.
Mas você, Cardif, vai ter também o que fazer. Como legítimo arcônida e filho de Rhodan, logicamente você é o sucessor natural do administrador e, com esta declaração do regente robotizado de Árcon III, estou convencido de que ele o escolheu para ser o novo administrador do pequeno reino estelar.”
Saltador, não cabe a você me obrigar a assumir um cargo pelo qual ainda não me decidi.
Todo o orgulho dos arcônidas se manifestava nesta frase. Thomas Cardif olhava frio para o patriarca, que dispunha de quase quatro mil espaçonaves e era um dos homens mais ricos da Galáxia. Cokaze se assustou diante da irrupção de orgulho do jovem tenente, vendo-o como um legítimo arcônida.
Uma formação histórica, que abrangeu um período de mais de 15 mil anos, tinha que deixar sinais em cada saltador e para cada um deles, mesmo na posição de um rico patriarca, um arcônida seria sempre O Senhor.
Automaticamente, sem perceber o que estava fazendo, sob o impacto da admoestação de Cardif, Cokaze tentou uma retirada ou uma modificação de seu modo de agir, mudando inclusive sua linguagem do intercosmo para a língua arcônida:
Senhor, creio não haver outra alternativa para sua pessoa.
Não estou pensando em tirar das mãos do regente o poder de decidir quem vai ser o novo administrador do Império Solar — respondeu Thomas Cardif com firmeza. — Antes de me preocupar com estes problemas, saltador, vou entrar primeiro em entendimento com o cérebro positrônico em Árcon III.
Quando isto? — perguntou Cokaze. O patriarca dos saltadores depois de ter esolvido intervir com a força de sua estirpe nas lutas internas deste sistema solar, estava naturalmente apressado em conseguir o mais cedo possível seu cobiçado contrato de monopólio comercial.
Imediatamente, Cokaze. Arranje-me uma ligação direta na hiperfreqüência do regente de Árcon.

* * *

Atlan ficou perplexo quando o alto-falante do telecomunicador anunciou o nome de Thomas Cardif.
A gigantesca central de rádio da não menos gigantesca positrônica de Árcon recebia centenas e centenas de chamados simultâneos, que eram armazenados e, depois de classificados e examinados, iam sendo distribuídos para Atlan, segundo o grau de prioridade. Todo este processo, naturalmente, se fazia eletronicamente. Mas esta mensagem oriunda de Vênus era endereçada diretamente a Atlan.
O filho de Perry Rhodan”, pensava ele. “Santos deuses de Árcon... será que o rapaz ficou louco?
Com a respiração tensa, Atlan escutava o jovem. Mas quem estava falando só podia ser um arcônida e não um homem da Terra! Tão orgulhoso e exigente, só podia ser um arcônida!
E Atlan pensou em Thora, a arcônida descendente da estirpe real e se lembrou do que Rhodan já lhe havia dito a respeito de seu filho. Thora era a mãe de Thomas. Ela, que tivera a força de conseguir dominar as más qualidades de seu povo, as havia transmitido para seu filho único, que agora era dominado por estes traços hereditários.
Thomas Cardif queria destruir seu pai e fazer do Império Solar uma simples colônia arcônida. Queria, numa palavra, quebrar a espinha dorsal da Humanidade e entregar o monopólio comercial aos saltadores.
E agora era a vez de a positrônica responder, o cérebro robotizado era apenas um órgão executivo e Atlan não se manifestava.
Atlan ligou o setor de armazenamento jurídico e a mensagem de Thomas Cardif foi transmitida a este departamento. Ao mesmo tempo, a central recebeu a ordem para que Cardif aguardasse o resultado.
Atlan foi prudente demais e não usou, neste julgamento, seus sentimentos pessoais.
Era necessário que agora, como antes, se mantivesse na Via-Láctea a certeza de que quem governava o sistema estelar M-13 era o grande cérebro positrônico. Por este motivo, Atlan se afastou completamente, deixando o julgamento para o setor jurídico do grande cérebro.
A voz metálica do grande cérebro ainda estava transmitindo a ordem para que Cardif esperasse, quando o resultado já estava nas mãos de Atlan.
A legislação arcônida vedava qualquer intromissão de Árcon. Ao mesmo tempo o cérebro constatou que o procedimento de Cardif estava em flagrante oposição com as leis arcônidas.

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