sábado, 27 de agosto de 2016

P-095 - Céu Sem Estrelas - Clark Darlton [Parte 2]

Mantiveram-se em silêncio e continuaram a observar. As últimas estrelas passaram a deslizar mais velozmente ao seu lado. Mergulharam no mar leitoso formado pela nuvem de luz branca que se estendia atrás da nave.
Apenas a distante nebulosa de Andrômeda continuava visível. Mantinha-se imóvel e imutável no centro da abertura negra, que ocupava mais que três quartos do campo de visão. Examinando melhor, via-se uma figura elíptica, que se tornava mais espessa no centro. Apesar da velocidade imensa da nave, essa linha não crescia.
Nossa Via Láctea! — cochichou Sengu de repente, olhando para trás. — Meu Deus, esta é nossa Via Láctea...
Rhodan também virou a cabeça.
A gigantesca nuvem branca, formada por estrelas, encolheu rapidamente. A concentração de milhões de estrelas parecia cair num abismo sem fundo. Seu tamanho diminuía a olhos vistos.
Estamos percorrendo mais de um ano-luz por segundo — disse Rhodan em tom comovido. Sua voz tremia ligeiramente.
Pousou a mão sobre o ombro do rato-castor, que raramente ficava quieto. Porém agora estava tão abalado com a visão que se lhe oferecia, que não conseguia pronunciar uma única palavra. Rhodan nunca vira seu amigo dessa forma.
Acho que estamos sonhando — disse Sengu, falando tão baixo quanto antes. — Isso não pode ser verdade!
Esta experiência se desenrola no limite entre o sonho e a realidade — respondeu Rhodan. — Mais tarde não saberemos dizer o que foi sonho e o que foi realidade. Uma coisa é certa: estamos aqui fisicamente e voamos através do Universo. Nossos olhos vêem aquilo que realmente acontece. Quer dizer que nossa experiência não é um verdadeiro sonho. Mas por outro lado...
Terminou num suspiro. Depois permaneceu calado.
Não se lembrou de nada que ainda pudesse ser dito.

* * *

Seus relógios avançaram três horas.
A Via Láctea a que pertenciam mergulhara no infinito. Transformara-se numa grande mancha leitosa, de bordas desfiadas. Viam-se nitidamente os braços das espirais, que penetravam no negrume do espaço vazio Em algum lugar, o sol do planeta Terra brilhava.
A nebulosa de Andrômeda estava praticamente inalterada. Apenas se aproximara um pouco.
De resto, o Universo estava vazio, com exceção de algumas nebulosas minúsculas, quase imperceptíveis. Era escuro e negro, solitário e sem vida.
A impressão atingia os dois homens e o rato-castor com a força de um pesadelo.
Três horas! — disse Rhodan em certa oportunidade. — Calculo que neste tempo percorremos uma distância na qual a luz gastaria cem mil anos.
Esperou em vão que alguém respondesse. Três horas foram suficientes para transformar a Galáxia numa nebulosa, mas eram pouco para amainar o abalo que sacudia o coração de Sengu e Gucky.
Os minutos corriam lenta e pesadamente. Pingavam muito devagar no oceano do tempo, que parecia ter perdido seu significado.
De repente, Rhodan teve a impressão de que um tremor sacudia a pequena nave. A mancha formada pela nebulosa de Andrômeda deslocou-se para a direita e voltou a ficar imóvel. Houve um segundo abalo. Mais nada.
A nave modificou a rota — disse Sengu.
Rhodan confirmou. Concluiu que só agora os instrumentos especiais mencionados pelo imortal haviam entrado em funcionamento. Há poucos segundos tinham descoberto o planeta peregrino chamado Bárcon, um mundo que há centenas de milênios se afastara da Via Láctea, junto com seu sol. Seus habitantes, os misteriosos barcônidas, iniciaram uma experiência arriscada, pois abandonaram seu sol, a fim de levar seu planeta de volta à Galáxia.
Isso acontecera há mais de sessenta anos do calendário terrano. Nesse tempo, o planeta peregrino não poderia ter ido muito longe. Talvez tivesse percorrido uns dez ou vinte anos-luz. Quem sabe...
A que distância estaria nesse momento?
Rhodan não teve meios de descobrir, ainda mais que não sabia exatamente a que velocidade corriam pelo nada sem estrelas.
O mais estranho era que não sentiam o menor cansaço, embora fizesse muito tempo que não dormiam. Sengu já esvaziara sua lata de cerveja e consumira uma refeição, ajudado por Rhodan. As cenouras de Gucky haviam diminuído; o feixe estava muito menor.
Mais trinta minutos se passaram. A visão do cosmos permaneceu inalterada; nem sequer chegaram a notar qualquer modificação de sua posição. Parecia que se mantinham imóveis em meio ao grande nada.
De repente Sengu disse:
Ali na frente há alguma coisa...!
Rhodan esforçou-se para enxergar melhor.
O planeta aproximou-se da trajetória da nave. Era quase imperceptível, pois não recebia a luz de qualquer sol. Era negro como o espaço que o cercava — mas não totalmente negro. Um brilho cinzento muito apagado fixava seus contornos, e Rhodan percebeu com uma dor quase física que o planeta estava coberto de neve. Só graças ao elevado índice de reflexão, Bárcon se tornava visível ao olho humano.
O planeta aproximava-se rapidamente, mas a nave apenas percorria alguns quilômetros por segundo e continuava a desacelerar. Seguia diretamente para Bárcon.
Aos poucos, seus olhos se acostumaram à penumbra, que na verdade era formada apenas pelos reflexos de galáxias distantes — principalmente daquela a que pertenciam — que ficavam na linha da popa.
Vamos pousar! — exclamou Gucky em tom exaltado, quando a nave descreveu uma curva e desceu em direção à superfície de Bárcon. — É tudo cinzento. O que será isso?
É neve, Gucky! O sistema de aquecimento artificial que substitui o sol perdido parece ser menos forte do que se supunha. Os barcônidas abrigaram-se embaixo da superfície. Isso estava previsto. Mas a neve?
Calou-se. Sabia que a neve não fora prevista.
A nave pousou nas proximidades do equador, que não tinha nada a ver com qualquer sol ou calor. A neve era tão espessa quanto nos pólos. Talvez até fosse mais compacta, por causa do movimento de rotação. A nave pousou suavemente. Não aconteceu mais nada.
Rhodan contemplou a paisagem branquicenta, que parecia solitária e não apresentava o menor vestígio de vida. O deserto branco estendia-se até o horizonte distante, e sobre ele, o céu negro sem estrelas. As nebulosas leitosas das galáxias apareciam de forma um tanto confusa, provavelmente em virtude da atmosfera.
Da atmosfera...?
Na nave não havia qualquer instrumento por meio do qual se pudesse verificar a existência de atmosfera. Sabia-se que Bárcon já possuíra uma atmosfera respirável. Rhodan voltou a olhar para o céu. Em sua opinião, a nebulosa de Andrômeda não deveria aparecer com tamanha nitidez.
Será...?
Não; isso era pouco provável. Por que poderia ter acontecido uma coisa dessas? Os barcônidas haviam desenvolvido uma invejável tecnologia, que lhes permitia desprender seu planeta do campo de gravitação do respectivo sol e fazê-lo viajar em direção à Via Láctea. Sem dúvida também conseguiram evitar que sua atmosfera se desfizesse. O frio que reinava lá fora devia produzir a ilusão. A visão era mais nítida do que estavam acostumados na Terra.
Receio que tenhamos de sair para o frio — disse Rhodan.
Sengu sobressaltou-se. Gucky colocou o capacete de plástico e disse em tom preocupado:
Vou ligar o aquecimento. Ainda bem que colocamos os trajes espaciais.
Sengu seguiu o exemplo de Gucky. Rhodan também se sentia satisfeito por poder escapar ao frio, mas hesitou um pouco.
Vamos levar as conservas que nos restam. Aqui temos uma sacola. Como será que ela veio parar na nave?
Ninguém sabia. Colocaram na sacola as poucas latas que lhes restavam e Sengu pegou-a. Rhodan pôs a mão no bolso do traje espacial, tirou o pequeno radiador e verificou sua carga. O japonês e Gucky também traziam uma arma energética.
Vamos andando — disse Rhodan e fechou seu capacete.
O sistema gerador de ar logo entrou em funcionamento automaticamente. O dispositivo permitia a regulagem manual da temperatura.
Assim que entraram na comporta, a escotilha interna fechou-se. A externa abriu-se, quase no mesmo instante.
A sucção quase arrastou Gucky, que se encontrava à frente dos outros.
Bárcon não possuía mais atmosfera!
Naquele momento, Rhodan compreendeu que algo de terrível devia ter acontecido.
3



Sengu foi o último a saltar sobre a superfície de Bárcon. Afundou na neve até os tornozelos. Logo sentiu um frio agradável. Tiveram de modificar a regulagem da temperatura.
Rhodan olhou atentamente para os lados. Até onde a vista alcançava, estendia-se o imenso deserto de neve. Avançava até o horizonte distante, monótono e sem contornos definidos. Mal se reconhecia a linha em que a superfície do planeta e o céu se encontravam.
A Via Láctea, o lugar da partida, ficava pouco acima da linha do horizonte. Se ocupasse a posição do sol para marcar as horas do dia, estariam no fim da tarde. Os braços das espirais pareciam girar lentamente, mas claro que isso era apenas um jogo da imaginação. As outras ilhas do cosmos estavam reduzidas a frias manchas luminosas, que não assumiam a menor importância. Bárcon era um planeta sem luz e, ao que parecia, também se transformara num mundo sem esperança.
Rhodan olhou para o chão.
Em algum lugar, lá embaixo, deviam estar os barcônidas. Quando eles se retiraram para as profundezas do planeta, acreditavam que esta era a única possibilidade de resistir a uma longa viagem pelo nada.
A nave!
A voz assustada de Gucky foi o primeiro som que se fez ouvir no interior dos capacetes, depois que haviam chegado a Bárcon. Rhodan virou-se abruptamente. O que viu — ou melhor, aquilo que não viu — deixou-o rígido de pavor.
A nave tinha desaparecido.
Felizmente lembrou-se das palavras do imortal. A qualquer momento poderia chamar a nave de volta, mas só poderia fazê-lo uma única vez. Quando chegasse, teriam de entrar na mesma e abandonar Bárcon.
Em hipótese alguma”, pensou, “isso acontecerá antes que tenhamos certeza sobre o destino dos barcônidas.
Não se preocupe, Gucky. Podemos chamar a nave de volta assim que precisarmos dela. Há mais alguma coisa? Notou algo?
Nada, Perry! Não estou captando nenhum impulso mental. Se quiser saber minha opinião, neste deserto de gelo não existe vivalma.
Nem mesmo sob a superfície? Gucky fitou a neve que se amontoava a seus pés.
Lá embaixo? De lá também não vem nenhum impulso.
Todo o ser de Rhodan se rebelava contra a idéia de admitir a morte de toda a população de um planeta. Só aceitaria tal catástrofe, se tivesse uma prova cabal disso. Será que a crosta do planeta era tão densa que não deixava os impulsos mentais chegarem ao cérebro sensível de Gucky?
E o senhor, Sengu? O que está vendo?
O japonês também olhou para a neve. Rhodan sabia que seus olhos iam mais longe que os de qualquer outra pessoa. O olhar de Sengu avançou pela neve e pela rocha, penetrando no interior do planeta, metro por metro. A que distância chegou? Rhodan teve de confessar que não sabia qual era o alcance da capacidade de Sengu.
Alguns minutos de tensão se passaram.
Finalmente Sengu levantou a cabeça e fitou Rhodan.
Nada, sir. Até uma profundidade de mil metros não existe absolutamente nada.
Rhodan sabia que o sistema propulsor do planeta ficava a cinco mil metros de profundidade. Mas antes de pedir a Sengu que prosseguisse em sua busca, queria examinar a superfície de Bárcon. Da nave, isso não fora possível. Além disso, seus olhos só agora se haviam acostumado à penumbra.
Vamos saltar, Gucky. Em cada salto percorreremos cinqüenta quilômetros. Seguiremos para o leste.
Gucky soltou um suspiro e segurou os dois homens pelas mãos. Face ao contato físico teleportaria também Rhodan e Sengu. Teria de utilizar um volume muito maior de sua paraenergia, mas poderia agüentar isso por algum tempo.
Quando voltaram a materializar-se, a paisagem estava praticamente inalterada. Apenas a Via Láctea havia descido mais um pedacinho em direção à linha do horizonte.
Aqui as coisas não parecem melhores — comentou Gucky e voltou a saltar.
Cem quilômetros.
Mil quilômetros.
Nada mudou. Vales, montanhas, planícies — tudo estava coberto por uma grossa camada de neve, formada pela precipitação da atmosfera de Bárcon. Sengu constatou que, em certos lugares, a espessura dessa camada chegava a cinqüenta metros, enquanto em outros lugares não ultrapassava dois ou três metros. Concluiu que ainda houvera tempestades, que cessaram com a rarefação progressiva da atmosfera.
A neve congelara-se, ficando dura que nem pedra. Só na superfície havia uma camada fina de neve mais fofa, que certamente se formara com as precipitações mais recentes.
Haviam dado a volta aproximadamente em torno da metade do planeta. Gucky esteve a ponto de iniciar outro salto, quando Sengu exclamou apressadamente:
Impulsos de ondulações! São de natureza mecânica. Eu os sinto.
Rhodan nem sabia que Sengu também era capaz de constatar a presença de impulsos de ondulações. Quando foi perguntado a este respeito, o mutante explicou que, em virtude do processo de mutação por que havia passado, seus nervos óticos supersensíveis reagiam a esse tipo de impulso.
O que quer dizer com ondas de natureza mecânica?
São ondas causadas por máquinas. Mas estas não funcionam mais. Devem ser as últimas irradiações de conjuntos nucleares paralisados.
Se fosse assim, não poderia fazer muito tempo que as instalações de Bárcon deixaram de funcionar. Quem sabe se não havia alguns barcônidas vivos nos subterrâneos que esfriavam lentamente?
Rhodan pôs-se a refletir.
Ali estavam eles, sós e abandonados, num mundo sem vida, cujas aldeias e cidades foram soterradas pela neve. Ali em cima não encontrariam nada. Se ainda houvesse vida, esta já se teria retirado para as profundezas do planeta.
Ou para a capital...?
Rhodan procurou recordar.
Gucky, vamos mudar de direção e aumentar a distância dos saltos. Siga quase exatamente na direção norte e salte três mil quilômetros de cada vez.
Mais uma vez não viram nada. Sengu não pôde constatar a presença de qualquer impulso produzido por ondulações. A seguir, três saltos. E depois... a grande cidade!
Rhodan reconheceu-a imediatamente pelos contornos que se destacavam nitidamente sob a neve. Alguns dos edifícios mais altos chegavam mesmo a sobressair por cima da mortalha branca, dando a quem os via a certeza de que ali ficava a antiga capital dos barcônidas.
Via de regra, a neve não era muito abundante. Sua profundidade média devia ser de cinco metros; num e noutro lugar talvez chegasse a dez metros. Quem caminhasse por uma das suas ruas teria a impressão de se encontrar numa povoação de mineradores de ouro dos Estados Unidos de dois séculos atrás. As grandes acumulações de neve e as construções solitárias, que pareciam muito baixas, lembravam o quadro que todos conheciam dos filmes estereotipados.
Gucky?
Nada, absolutamente nada. Aqui não vive mais ninguém.
Se o rato-castor não captava nenhum impulso mental, não havia por ali ninguém que pensasse. E qualquer ser vivo dotado de uma inteligência mediana pensava.
O negrume do nada estendia-se sobre a cidade morta. De repente não parecia só este planeta, mas todo o Universo que estava sem vida. Rhodan teve a impressão de que os únicos seres vivos eram ele, Sengu e Gucky.
Sengu?
Não sinto qualquer impulso, sir.
Rhodan foi tomado por um princípio de desespero. Por enquanto ainda resistia à perspectiva de executar com Gucky um salto às cegas para o subsolo do planeta. Tal procedimento encerrava um tremendo perigo. Evidentemente, depois de um salto de teleportação, só poderiam materializar-se num lugar em que não existisse outra matéria. Mas se caíssem num lugar onde já houvesse matéria, como a água ou a lava liquefeita.,.?
A uns quinhentos quilômetros a oeste daqui fica a entrada principal do mundo subterrâneo. Já estive lá. Desse lugar sai um túnel que nos pode levar à central de comando dos propulsores e das outras instalações. Acho que é lá que se gera o ar e se produzem os alimentos.
Gucky segurou os dois homens pela mão.
Vamos tentar. Aqui não perdemos nada.
Perdemos... era a palavra exata. Rhodan teve a impressão de que Gucky, sem querer, acertara em cheio. Bárcon parecia perdido... e com Bárcon os barcônidas.
O salto seguinte levou-os para outro deserto de neve, sem elevações ou outros marcos característicos. Só por ocasião do quarto salto, Rhodan hesitou um pouco. Lançou um olhar atento para o pico coberto de neve de uma montanha próxima, ocultando metade da Via Láctea, que voltara a surgir junto à linha do horizonte.
Acho que foi aqui. Vamos nos aproximar da montanha, Gucky.
Materializaram-se ao pé da montanha solitária.
O túnel desce obliquamente nesta montanha, até atingir a profundidade de cinco mil metros. Não está captando nenhum impulso mental, Gucky?
Não; está tudo morto.
Nem tudo!
Fora Sengu, que fitava o chão, com os olhos bem abertos. Parecia enxergar alguma coisa.
Está captando impulsos?
São quase imperceptíveis, sir, mas estão presentes. São idênticos aos que senti há pouco. Provêm de radiações evanescentes. Se ali embaixo existem máquinas, as mesmas foram desligadas. Mas sempre demora bastante até que os últimos resíduos nucleares tenham irradiado sua energia. Sabemos que a produção de combustível prossegue até o último instante. Depois de desligados os conjuntos, o remanescente deve ser irradiado, ou irradia-se por si. São estes os impulsos que consigo ver.
O que mais está vendo?
Ainda não me aprofundei bastante — disse o mutante, lembrando o fato de que só podia avançar para o fundo por camadas. — Cheguei a dois mil metros. Vejo corredores e túneis não iluminados. Não há nenhuma luz acesa, mas as instalações estão lá. Não vejo muita coisa, pois apesar da minha faculdade, dependo da luz refletida.
Rhodan logo reconheceu a dificuldade. Nem mesmo o espia conseguia ver sem luz.
Será que poderia dar a Gucky os dados para o salto?
Sengu fez um gesto afirmativo, sem permitir que estas palavras o distraíssem.
Isso deve ser possível. Mas... Não concluiu a frase.
Cuidado! — gritou Gucky que, por ser um telepata, possuía uma sensibilidade mais intensa. — Alguém se aproxima!
Rhodan virou-se abruptamente e olhou na direção em que apontava o braço de Gucky. Não viu nada. Apenas o deserto de neve e o horizonte distante. Olhou em torno. Mas em nenhuma direção viu qualquer coisa que se movesse.
Onde?
Gucky, que se sentia um pouco inseguro, baixou o braço.
Será que posso enganar-me a tal ponto? Ali havia alguém! Não sei o que pensava, mas posso afirmar que pensou alguma coisa.
Você, que é um telepata, pode analisar qualquer pensamento e identificar seu sentido — disse Rhodan em tom de espanto. — Será que desta vez não consegue?
Foram apenas impulsos, sem sentido definido. Mas não eram amistosos. Senti isso sem identificá-los. Ali... voltaram! São mais fortes e mais próximos. Vêm em nossa direção...
Ao notar que os pêlos da nuca de Gucky se arrepiaram, Rhodan ficou surpreso. Sentiu-se preocupado. Era muito raro Gucky ter medo, mas quando isso acontecia, o perigo era tremendo.
Sengu desistira de romper o solo com o olhar. Encontrava-se ao lado de Rhodan, pronto para segurar a mão de Gucky no momento em que o chefe desse um sinal. Mas por enquanto não estava acontecendo nada.
Rhodan continuava a olhar fixamente na direção indicada por Gucky. Não viu nada.
Deve estar bem perto — cochichou Gucky com a voz embaraçada. — E está pensando...
Rhodan também sentiu.
Alguma coisa penetrou cautelosamente em sua mente e passou a exercer uma pressão bem perceptível. A pressão foi-se transformando em dor que, embora fosse suportável, era desagradável porque não se podia fazer nada contra ela.
Alguém procurou apoderar-se de sua consciência.
Quem seria?
A superfície coberta de neve jazia intocada à sua frente. E o desconhecido devia estar bem ali, a poucos metros de distância. Era um ser invisível.
Mas não havia rastros na neve. Qualquer pessoa invisível teria deixado rastros na neve macia. Os olhos de Rhodan começaram a lacrimejar de tanto que se esforçou para descobrir alguma indicação. E a dor na cabeça aumentava.
Faça uma tentativa telecinética! — disse, dirigindo-se a Gucky.
O rato-castor confirmou com um gesto. Concentrou-se sobre a matéria invisível que devia estar bem à sua frente — e desferiu seu golpe.
O golpe atingiu o vazio. A dor continuou.
Rhodan tateou em direção à arma energética, mas logo percebeu que seu propósito era absurdo. Não poderia atirar contra alguma coisa que não via. Ao menos por enquanto.
Não consigo — disse Gucky em tom de desespero. — Mas acho que posso atingir o ser, ou a coisa, por via telepática. Meus pensamentos encontram uma resistência. A distância deve ser de uns dez metros; não é mais que isso.
Já era alguma coisa. Gucky conseguia determinar a direção e a distância. Infelizmente não conseguiu mais do que isso. Ao menos por enquanto.
Você é capaz de determinar seu tamanho?
Apenas sinto certa resistência em seus pensamentos; mais nada. Até parece que os pensamentos do desconhecido são a única coisa material que existe nele. Quanto ao corpo... não tem corpo no sentido que nós atribuímos ao termo.
Uma súbita suspeita surgiu na mente de Rhodan, mas ele logo abandonou-a. Não, em hipótese alguma podia tratar-se de um druuf. Estes só permaneciam invisíveis por pertencerem a outro plano temporal. Evidentemente isso não acontecia aqui.
Também recorreu à sua modesta capacidade telepática, e sentiu a resistência. Mas não foi capaz de sondar os impulsos mentais captados, muito menos de decifrá-los.
De repente, a dor no cérebro cessou.
Gucky manteve-se imóvel.
Desistiu de seu ataque mental. Suas energias são mais fracas que as nossas. A tentativa de submeter-nos à sua vontade falhou.
É apenas um?
Gucky não respondeu. Ao que parecia, ainda não pensara na possibilidade de ter diante de si mais de um inimigo. O pêlo da nuca voltara a alisar-se, mas a testa continuava enrugada.
Não; são vários. Aproximam-se de todos os lados.
Ainda não se via nada, nenhum contorno, por mais apagado que fosse e nenhuma pista.
Rhodan fez um sinal para Sengu e segurou a mão de Gucky. O japonês segurou a outra mão.
Assim que houver outro ataque, saltaremos.
Esperaram.
Mas não por muito tempo.
Subitamente um raio energético branco-azulado surgiu do nada e atingiu a neve bem à frente dos seus pés. Esta logo começou a derreter e volatilizou-se.
Vamos! — exclamou Rhodan. Gucky calculara o salto de tal maneira que se materializaram a menos de um quilômetro. Encontravam-se em local um pouco mais elevado, no flanco da montanha. Viam perfeitamente o lugar em que estiveram pouco antes.
Um verdadeiro fogo de artifício rugia por lá. Os raios mortíferos vinham de todas as direções. Transformaram a neve num pequeno lago, que começou a ferver. O vapor de água logo desapareceu para todos os lados; parte dele logo se precipitou para o solo.
Acreditam que também nos tornamos invisíveis — conjeturou Rhodan. Não tinha muita certeza do que estava dizendo. — E agora procuram destruir-nos.
No mesmo instante, os ataques cessaram. Os raios energéticos apagaram-se e não voltaram mais, O lago endureceu rapidamente. À distância em que se encontravam, parecia um olho de vidro que alguém tivesse perdido no deserto de neve.
Gucky concentrou-se.
Agora vêm nesta direção — cochichou. — Não tenho certeza, mas acredito que sejam apenas uns cinco ou seis. Voltaram a pensar. Receio que também tenham localizado nossos impulsos mentais. Foi por isso que suspenderam o ataque.
Se for assim, também devem estar quebrando a cabeça para descobrir como pudemos chegar aqui tão depressa — observou Rhodan com um tom de triunfo na voz. — São muito rápidos?
Não — respondeu Gucky. — Um corredor comum desloca-se mais depressa que eles.
Olharam fixamente na direção do lago gelado. Era de lá que deviam vir e chegariam dentro de dois ou três minutos. Acontece que nada se movia na planície em declive. Não surgiu o menor torvelinho de neve, que desse notícia da investida dos perseguidores invisíveis.
Rhodan voltou a sentir os impulsos mentais dolorosos.
Que criaturas serão estas? — perguntou num sopro. — São invisíveis e, ao que parece, imateriais. São telepatas, mas não conseguem interpretar nossos pensamentos, pois do contrário teriam sabido antecipadamente de nosso salto de teleportação. Pensam, mas não podemos fazer muita coisa com seus pensamentos. Não estabelecem contato, pois preferem lançar desde logo um ataque implacável. Procuram matar-nos!
Sejam eles quem forem — murmurou Gucky em tom indignado — não sinto a menor simpatia por eles. Se conseguir pegar um deles... mas como é que se pode pegar alguém que não existe?
Eles existem! — disse Rhodan em tom enfático. — Apenas existem de uma forma que nós não podemos conceber. A que distância estão?
Em vez de uma resposta houve o ataque.
O primeiro raio energético errou o alvo, e antes que viesse o segundo, Gucky teleportou-se. Desta vez afastou-se dez quilômetros, até o cume da montanha.
Encontravam-se sobre um pequeno platô gelado, que ficava a quatro mil metros acima da planície. O vácuo provocava um efeito agradável: a ausência de qualquer vento. Para Rhodan e seus companheiros era totalmente indiferente que se encontrassem na planície ou a quatro mil metros de altura.
O platô formava um quadrado, cujos lados mediam cerca de vinte metros. Era plano. Se os atacantes invisíveis quisessem persegui-los a pé, teriam uma tarefa dura pela frente. Ou será que possuíam aviões ou armas de grande alcance?
Você ainda consegue captar seus pensamentos, Gucky?
A resposta não foi imediata. O rato-castor esforçou-se para localizar os estranhos impulsos. Depois de algum tempo balançou a cabeça.
O alcance deles é muito reduzido. Como é possível uma coisa dessas?
Rhodan teve de confessar que não havia explicação para isso.
Na borda do platô estavam espalhadas algumas pedras grandes, cobertas com uma grossa camada de gelo. Estas formavam o cume propriamente dito da montanha. Uma das pedras tinha o formato de um banco muito largo.
Gucky não resistiu à tentação. Soltou as mãos dos companheiros e sentou-se cautelosamente sobre o banco.
Aqui estamos nós, contemplando o mundo de gelo — disse com um suspiro de satisfação.
Rhodan não diminuiu a vigilância. Aqueles invisíveis haviam arruinado seus cálculos. De início contara, no seu íntimo, com a ocorrência de uma catástrofe técnica que tivesse vitimado os barcônidas. As máquinas poderiam ter falhado. Mas agora as coisas pareciam totalmente diferentes. Alguém — ou alguma coisa — viera do cosmos e apoderara-se deste mundo. Do cosmos? De onde...? Será que havia criaturas que conseguiram vencer a enorme distância de mais de cem mil anos-luz? Teoricamente isso era possível. Já se conheciam hipersaltos de até trinta mil anos-luz, mas por enquanto ninguém se atrevera a avançar no espaço intercósmico situado entre as galáxias.
Por enquanto!
Mas agora acontecera!
Sengu, continue a procurar — pediu Rhodan.
O japonês olhou para a planície.
Enxergava-se perfeitamente para todos os lados. Com exceção daquele em que os blocos de pedra se amontoavam, formando o cume da montanha, não havia nada que impedisse a visão. O horizonte distante formava uma linha que brilhava confusa, uma vez que a neve debilmente iluminada desaparecia no negrume do espaço. E até lá não havia nada, nada se movia. Apesar disso, um perigo terrível e invisível espreitava-os em algum lugar.
Sengu disse em voz baixa:
Os corredores largos descem obliquamente. Estão vazios e abandonados. Não se vê nenhuma criatura viva. Alguns veículos estão espalhados por lá, como se tivessem sido esquecidos. Agora estou vendo o pavilhão de teto abaulado. Os corredores continuam a descer em todas as direções. Qual deles devo seguir?
Aquele em que correm os trilhos — respondeu Rhodan, recorrendo às suas lembranças. — Num deles existem trilhos, não existem?
É verdade! — o tom de voz do japonês exprimia admiração.
Mais uma vez surgiu o silêncio no grupo. E o silêncio durou até que Rhodan voltasse a sentir a dor na cabeça. Essa dor representava a primeira advertência. Os invisíveis estavam avançando de novo.
Gucky levantou-se de um salto. Apontou para o leste, mas não para baixo, em direção à planície, mas para cima, para o céu negro.
Estão-se aproximando; muito depressa.
Sengu suspendeu sua atividade de espia e segurou a mão do rato-castor. Rhodan seguiu seu exemplo.
De onde?
Vêm de cima — respondeu Gucky em tom exaltado. — Será que sabem voar?
Não ficaram sabendo se os seres invisíveis eram capazes de voar por sua natureza, ou se utilizavam aviões ou foguetes. Uma coisa era certa: os invisíveis viram-nos e atacaram.
Acima de suas cabeças surgiu um clarão vindo do nada. Um raio branco-azulado desceu e cortou o gelo do platô. Rhodan teve presença de espírito para acompanhar o rastro do raio energético. Sua direção não se modificou, e o ângulo de incidência na superfície permaneceu inalterado. Porém o raio caminhou com uma rapidez espantosa pelo platô, desceu pela encosta e apagou-se.
Gucky cochichou:
Estão-se afastando; agora estão voltando.
Face a isso, tiveram certeza de que os invisíveis se encontravam numa máquina que também era invisível. Descreviam uma curva e lançavam o segundo ataque. Talvez desta vez sua pontaria fosse melhor.
Vamos embora! — gritou Rhodan.
Gucky já estava preparado. Saltou.
Desta vez materializaram a uma distância de quase mil quilômetros, em meio a uma cadeia de montanhas. Foi pura coincidência, mas Rhodan percebeu ao primeiro relance de olhos que se tratava de um lugar ideal para seus objetivos. Se os desconhecidos possuíssem aviões, dificilmente poderiam operar com estes naquele vale entrecortado. Talvez estivessem em segurança por algum tempo.
Sengu, vamos trabalhar!
Rhodan esperou que o japonês confirmasse com um gesto e dirigiu-se ao rato-castor:
Preste atenção aos invisíveis. Ao menor sinal de sua aproximação, dê o alarma.
Os dois mutantes conheciam sua tarefa. Rhodan sentiu-se um pouco deprimido, pois no momento tinha de manter-se inativo, já que não possuía as faculdades dos mutantes. A única coisa que podia fazer era esperar o resultado de seus esforços.
Sentiu-se tomado por algo como o desespero. O que adiantava tudo isso, se tinha de fugir constantemente dos desconhecidos, que tinham ao menos uma superioridade numérica sobre eles? Como poderiam ajudar aos barcônidas, se estavam ocupados durante todo o tempo para continuar vivos?
Até então nossa permanência em Bárcon não passa de uma fuga ininterrupta”, rememorou Rhodan, enquanto se afastava alguns passos.
Lançou um olhar distraído para as formações de rocha que apresentavam uma estranha regularidade. De início não notou, mas de repente sobressaltou-se.
A parede lisa e vertical não estava coberta de neve. Só havia nela uma camada fina e transparente de gelo. Rhodan passou a mão pela mesma. A parede era lisa e compacta.
Lisa demais para ser uma rocha natural.
Rhodan olhou em torno. Pelo que pôde ver, o vale não era inacessível. Era perfeitamente possível que aqui houvesse outro acesso ao mundo subterrâneo de Bárcon.
Viu confirmada sua suposição, quando Sengu disse:
Mais uma vez estou captando débeis impulsos de radiações, sir. Além disso, existe um túnel... Mil metros, dois mil...
Cuidado!
A voz de Gucky era estridente. Uma coisa muito perigosa devia aproximar-se deles.
Num movimento instintivo, Rhodan tirou a arma energética do bolso e destravou-a. Não pretendia manter-se constantemente em fuga. Estava na hora de mostrarem aos atacantes que sabiam defender-se. Afinal, teriam que tentar.
Sengu compreendeu imediatamente. Também destravou sua arma.
Acho que é apenas um — disse Gucky em tom hesitante.
Pegue sua arma! — ordenou Rhodan.
Gucky parecia cético. Apesar disso cumpriu a ordem de Rhodan e sacou a arma. Apontou na direção da saída do vale.
Sim, é somente um. Já deve ter estado aqui. Seus pensamentos exprimem principalmente curiosidade. É só o que posso constatar.
Deve ser uma espécie de guarda — conjeturou Rhodan e olhou na mesma direção que Gucky.
Sentiu a indagação insistente em seu cérebro. Com o tempo se tornou dolorosa. Não via nada, nem mesmo qualquer rastro na neve. Entretanto uma criatura aproximava-se deles. Era uma criatura inteligente, pertencente a uma raça que construíra armas energéticas.
Qual é a distância?
Uns vinte ou trinta metros, não posso dizer...
Gucky não chegou a concluir a frase.
A uns vinte e cinco metros de distância surgiu um lampejo.
O raio azul passou pelo menos a dois metros de Sengu. Enquanto o japonês procurava abrigar-se, Rhodan abriu fogo. Fez pontaria para o local de origem do raio azul, que se apagou de repente. Mas Rhodan não suspendeu o fogo. Notou que o raio ofuscante expelido por sua arma se escoava diante de um obstáculo invisível, cujos contornos quase chegavam a ser humanos.
Vamos! — gritou Rhodan para Gucky.
O rato-castor leu os pensamentos de Rhodan e compreendeu.
Também disparou contra o alvo invisível. Sengu, que continuava deitado no chão, também abriu fogo.
Os contornos chamejantes do atacante invisível tornaram-se mais nítidos. Seu corpo tinha resistência suficiente para refletir os raios energéticos. Não seria possível destruí-lo? Subitamente Rhodan viu uma coisa que lhe deu novas esperanças.
O estranho ser começou a cambalear e já não respondia ao fogo concêntrico.
Apenas se viam os contornos, não o corpo propriamente dito. Isso se tornava possível em virtude dos raios energéticos disparados, que delineavam sua figura. Devia ser mais ou menos como um balde de água derramado sobre um homem invisível. A água permitiria ao observador reconhecer os contornos do homem.
Subitamente, apenas por alguns segundos, aconteceu o inconcebível.
Talvez fosse por causa da confluência dos três raios energéticos, ou quem sabe, devido a uma outra circunstância.
O invisível assumia contornos nítidos! Tornou-se visível! Transformou-se em matéria sólida.
Suspender o fogo! — gritou Rhodan e saiu correndo.
Uma idéia desesperada e um lampejo de esperança impeliam-no para a frente. O desconhecido já teria disparado de novo, se o contra-ataque não o tivesse afetado. E se estava adquirindo contornos definidos e seu corpo encobria a neve, também deveria ser possível segurá-lo... com as mãos.
Era exatamente o que Rhodan pretendia fazer.
De olhos arregalados, Gucky e Sengu fitavam Rhodan. O rato-castor estava tão perplexo que nem utilizou suas faculdades telecinéticas para segurar o desconhecido. Ficou parado, olhando. O braço com a pistola pendia molemente junto ao corpo.
Enquanto Rhodan vencia num salto gigantesco os últimos metros que o separavam do desconhecido, os contornos deste voltaram a apagar-se. Já se via a neve do outro lado.
Rhodan atingiu-o.
Suas mãos, que estavam livres, já que deixara cair a arma, procuraram segurar o desconhecido e sentiram certa resistência. Seus dedos cingiram-se em torno de uma coisa mole. Um fluxo de pensamentos carregados de ódio atingiu seu cérebro e fê-lo estremecer. As dores no cérebro tornaram-se insuportáveis.
Subitamente o desconhecido desmaterializou-se e escapou das mãos de Rhodan. Não houve outro ataque. Os impulsos mentais tornaram-se mais débeis e cessaram de vez.
Rhodan abaixou-se e pegou a arma.
Gucky disse:
O que foi isso? Não se tratava de teleportação nem de campo de deflexão. Você conseguiu agarrá-lo, mas ele desapareceu. Não compreendo mais nada.
Tranqüilize-se; também não tenho nenhuma explicação — respondeu Rhodan, em tom amargurado. — De qualquer maneira, já sabemos que não são tão invulneráveis como receávamos. Sob o fogo concêntrico de nossas armas, tornam-se visíveis e materiais. Talvez cheguem a sentir dores. Até é possível que morram e se desmaterializem. Gostaria de saber quem são, de onde vêm e o que vieram fazer aqui.
A paisagem silenciosa, que se estendia sob o céu eterno e sem estrelas, não deu nenhuma resposta.
Olhem esse paredão — prosseguiu Rhodan. — É artificial, ou pelo menos foi trabalhado. Tente verificar o que há atrás dele, Sengu.
Para o japonês, isso não representou nenhum problema.
Tem apenas um metro de espessura. Atrás dele há um grande pavilhão. Parece uma estação ferroviária. Vejo muitos trilhos e veículos, e numerosos desvios. Segue-se um túnel que desce obliquamente. Duas linhas. Não existe nenhuma luz.
Rhodan apontou para a sacola que se encontrava nas mãos de Sengu.
Trouxemos uma lanterna. Leve-nos para lá, Gucky. Examinaremos Bárcon de dentro. Receio que na superfície não possamos encontrar mais nada, a não ser a morte. Aquilo ali — apontou para o lugar em que sentira o desconhecido — foi puro acaso.
Gucky aproximou-se e segurou as mãos dos companheiros.
Sentir-me-ei mais à vontade se conseguir ver um teto, em vez desse céu medonho sem estrelas — prosseguiu Rhodan. — Como a gente está acostumado às estrelas...
A gente só nota isso, quando não as vê mais — confirmou o rato-castor.
Concentrou-se e realizou a teleportação.
4



O salto não os fez percorrer mais que dez metros. Mas levou-os através da grossa muralha de pedra, que no estado de estabilidade normal da matéria representaria intransponível obstáculo.
Estava escuro. Rhodan tentou penetrar a escuridão com os olhos. Depois de algum tempo ligou a lanterna. A luz foi refletida pelas paredes lisas; fazia seu jogo sobre os trilhos cintilantes e era devolvida pelos pequenos carros metálicos, que estavam espalhados por toda parte. Era exatamente como Sengu dissera.
Gucky soltou um forte suspiro.
Para dizer a verdade, lá fora ainda consegui captar alguns impulsos débeis, mas por aqui não existe nada. Será que a rocha não deixa passar seus pensamentos? Se for assim, não poderão localizar os nossos pensamentos, e estaremos em segurança.
A não ser que tenham descoberto uma entrada mais fácil de ser vencida — disse Rhodan, abafando o otimismo do rato-castor. A luz da lanterna correu pelo pavilhão. — Descobriremos assim que descermos mais.
Vamos a pé? — perguntou Gucky, contemplando suas perninhas.
Rhodan apontou para os carros.
Vamos pegar um táxi, meu baixinho. Assim você não se cansará. Também poderíamos saltar, mas quero ver por onde vamos passar. O túnel é seguro, Sengu?
Até onde posso enxergar é.
Então vamos! Tomara que os motores ainda estejam funcionando. Tenho uma vaga lembrança de como a gente faz para andar nessa carreta. Os controles são muito simples.
Os carros de transporte eram de vários tamanhos e destinavam-se a diversas finalidades. Alguns deles pareciam servir ao transporte de passageiros; possuíam uns vinte ou trinta assentos. Outros eram menores, só oferecendo lugar para duas ou quatro pessoas.
Escolheram um veículo no qual havia dois bancos, situados um atrás do outro. Sengu sentou-se ao lado de Rhodan, enquanto Gucky se refestelava no banco de trás.
Ali estão duas chaves que se pode puxar — disse Rhodan. — Uma delas serve para regular a velocidade, enquanto a outra aciona o freio. Acho que não precisaremos de mais nada nesta viagem de trem. Se não me engano, a descida é íngreme.
Realmente — confirmou Sengu, que não se sentia tão bem quanto Gucky.
A chave do freio foi destravada. Rhodan rodou-a um tanto e o carro começou a andar para dentro da abertura negra do túnel. A lanterna portátil era tão fraca que quase não iluminava o caminho.
Segure a lanterna — pediu Rhodan e começou a examinar o painel de instrumentos. Dali a alguns segundos acenderam-se dois potentes faróis. — Era o que eu pensava.
Agora era mais fácil. Enxergava-se pelo menos a cinqüenta metros, e podia-se ver se a linha estava livre. Nesse meio tempo a velocidade do carro aumentara, e seria muito desagradável se esbarrassem em algum obstáculo. Apesar de suas faculdades Sengu não via muita coisa, pois estava muito escuro. Seus olhos, que conseguiam penetrar na matéria sólida, falhavam na ausência de luz.
Sinto nitidamente impulsos de ondas — disse em tom hesitante. — Estão muito distantes. Não sei dizer com precisão qual é a distância.
Viajaram quase durante uma hora. De repente Sengu disse:
Freie, sir! Acho que o túnel está terminando. Mais ou menos a quinhentos metros daqui.
Rhodan puxou a chave do freio. O carro reduziu a velocidade, motivo por que Gucky desistiu de manter-se constantemente preparado para saltar. O banco traseiro, muito bem estofado, era muito confortável, mas ele não confiava muito nessa viagem realizada às cegas.
Dali a cinco minutos, a luz dos faróis foi refletida por uma parede que fechava o túnel. O carro parou. Rhodan examinou-a. Parecia artificial e tão compacta que até mesmo os trilhos desapareceram em seu interior, como se não mais existissem.
Em virtude dessa circunstância Rhodan descobriu do que se tratava.
É uma comporta pressurizada! Tomara que consigamos atravessá-la, pois do contrário teremos de pegar outro carro lá adiante. Sengu, o que é que o senhor está vendo?
Vejo uma câmara, e atrás dela outra parede igual a esta. Talvez tenha razão, sir. É possível que se trate de uma comporta de ar.
Rhodan desceu do carro. Deixou os faróis ligados.
A comporta deveria funcionar automaticamente, mas com os conjuntos paralisados, isso não seria de esperar. Deve haver algum outro controle. Se não existir, Gucky terá que tentar a sorte.
O rato-castor soltou um suspiro e continuou sentado.
Se tiver que trabalhar, prefiro começar daqui mesmo.
Rhodan aproximou-se da parede e examinou-a demoradamente. No canto inferior direito, encontrou uma roda de regulagem e girou-a. Felizmente o mecanismo da comporta era alimentado por um gerador de emergência. A parede dividiu-se ao meio e deslizou para o lado.
Rhodan entrou na comporta. Na outra parede também encontrou uma roda. Fez um sinal para os companheiros.
Tudo em ordem. Sengu, faça o carro entrar devagar na comporta. Tenha cuidado para não bater na parede.
O japonês agiu imediatamente. O carro começou a rolar e parou a poucos centímetros da segunda parede. Gucky exibiu um sorriso de aprovação, mas não fez qualquer comentário.
Antes de abrir o segundo portão, Rhodan voltou a colocar a primeira roda na posição anterior. A primeira parede começou a fechar-se. Perry saltou rapidamente para dentro da comporta e esperou que o portão se fechasse. Em condições normais não se teria arriscado a fechar um dos portões, antes de certificar-se de que o outro funcionava. No entanto, estava em companhia de Gucky.
Quando a segunda parede se abriu, Rhodan sentiu uma lufada de ar, que vinha do interior do túnel.
Ali embaixo havia uma atmosfera!
O carro rolou mais um pedaço. Rhodan fechou a comporta.
Ficou parado uns dez segundos. De repente levantou a mão e começou a soltar calmamente o fecho do capacete espacial. Gucky gritou com a voz estridente:
Não faça isso, Perry! O ar pode ser venenoso...!
Os barcônidas respiram oxigênio — disse Rhodan para tranqüilizá-lo e tirou o capacete.
Estava quente e um pouco abafado, mas de resto o ar era perfeitamente respirável. Inalou profundamente por algumas vezes e não sentiu qualquer efeito adverso.
Podem tirar os capacetes. Assim economizaremos energia. Quem sabe por quanto tempo ainda teremos de usar os trajes espaciais?
Entrou no carro e soltou o freio. Dali a duas horas, Sengu olhou para o teto e disse:
Vejo a superfície. Encontramo-nos mais ou menos a quatro mil metros de profundidade.
Sinto-me como uma toupeira — disse Gucky e enrodilhou-se para dormir um pouco.
Haviam desligado a calefação de seus trajes, pois por ali reinava um calor agradável. Sengu abriu uma lata de frutas. Mataram a fome. Era bem verdade que o caldo doce não contribuiu para mitigar a sede.
Deveria ter desejado mais de uma lata de cerveja — disse Sengu em tom abatido. — Acho que não poderemos contar com uma renovação das provisões. Ao menos aqui...
Ainda agüentaremos um dia, se fizermos economia. Se a sede aumentar, Gucky terá de ir à superfície e trazer neve.
Neve...? — o rato-castor sacudiu-se e mexeu no bolso. Depois de algum tempo tirou uma cenoura. — Prefiro morrer de sede.
Rhodan sorriu, mas não deu nenhuma resposta. Teve a impressão de que o calor aumentava. Deviam estar-se aproximando do setor residencial propriamente dito, ou ao menos do lugar em que se planejara sua instalação.
Assustou-se com a coerência de seu raciocínio, mas este infundiu-lhe uma idéia.
E os impulsos mentais, Gucky? Você não consegue captar nenhum?
O rato-castor concentrou-se por algum tempo.
Nada, absolutamente nada. Até parece que estamos sós neste mundo, com exceção dos invisíveis, que não são pensadores normais. Se os barcônidas forem o que você diz, isto é, criaturas humanóides, eu os encontrarei.
Nenhum impulso?
Sinto muito, mas não há nada. Rhodan resistiu à suposição de que os atacantes poderiam ter exterminado todo um povo. Os barcônidas já existiam há milhões de anos e haviam colonizado grande parte da Galáxia. Até era possível que fossem os antepassados dos arcônidas e dos terranos. E agora teriam deixado de existir no curso de meio século.
Havia algo de errado. O que seria?
O túnel já não descia obliquamente, mas corria em sentido horizontal. Rhodan já desligara o freio e acionara o acelerador. Os trilhos seguiam em linha reta e o carro corria numa velocidade louca. Uma hora. Duas horas. Ia na direção exata da entrada principal, onde haviam sofrido o primeiro ataque dos invisíveis.
Vejo luz — disse Sengu, de repente, em meio ao silêncio, interrompido apenas pelo zumbido leve do motor. — A dez quilômetros daqui existe luz, um tanto escassa e difusa. Parece antes um tipo de iluminação de emergência.
Reconhece mais alguma coisa?
Máquinas e grandes pavilhões, corredores, muitas portas. Atrás dessas portas há outros pavilhões cheios de máquinas. Conjuntos, geradores, um salão cujas paredes acham-se cobertas de telas. Estas não estão funcionando. As máquinas também estão paradas. Mas é delas que saem as radiações que consegui captar. Será que nos aproximamos da central de comando, sir?
Não existe a menor dúvida. Estamos indo para a mesma central na qual entrei há sessenta anos, a fim de corrigir um pequeno engano e salvar os barcônidas da destruição certa. Ao que parece, meus esforços foram em vão.
A velocidade do carro diminuiu bastante. De repente entrou num grande pavilhão. Os trilhos desdobraram-se em várias direções, multiplicando as opções para o prosseguimento da viagem. Mas Rhodan não tinha a intenção de continuar. Parou o carro.
Chegamos. Foi exatamente neste lugar em que desci há sessenta anos. Não sei dizer de que lado vim. Bem, depois descobriremos.
Saiu do carro e, por alguns segundos, permaneceu indeciso. Finalmente dirigiu-se a Sengu.
As salas de máquinas ficam nesta direção?
Apontou para uma porta. Sengu fez um gesto afirmativo e Rhodan prosseguiu:
Sim, agora consigo orientar-me de novo. Vamos andando.
Sengu levantou-se rapidamente e logo se colocou ao lado de Rhodan. Gucky não demonstrou tanta pressa. Com uma lentidão irritante saiu do banco traseiro e caminhou desajeitadamente pela plataforma.
O que pretende fazer na sala de máquinas? — perguntou, embora sua capacidade telepática já lhe tivesse revelado as intenções de Rhodan. — Quer recauchutar o planeta adormecido?
Rhodan esteve a ponto de dar uma resposta áspera, mas de repente lançou um olhar pensativo para Gucky. Uma ruga vertical surgiu em sua testa.
As crianças, os idiotas, e às vezes também os ratos-castores, costumam dizer a verdade... Poderíamos ao menos tentar ativar os conjuntos paralisados. Talvez dessa forma consigamos saber o que aconteceu com os barcônidas.
Gucky fitou-o com uma expressão de perplexidade, quando se dirigiu a uma porta isolada. Depois de hesitar um pouco, abriu-a com uma simples pressão da mão. Um sorriso de embaraço surgiu no rosto de Gucky, que saltou atrás de Rhodan. Sengu seguiu-o. Não compreendera quase nada do que se passara, pois não sabia ler pensamentos.
As máquinas permaneciam em silêncio. As mesmas brilhavam de tão limpas que estavam. Até parecia que tinham sido instaladas há um dia. No teto viam-se fios e grossos cabos que desapareciam nas paredes e ligavam os conjuntos de máquinas com os controles da sala de comando. Atrás daquele recinto existiam amplos pavilhões, conforme era do conhecimento de Rhodan e foi confirmado por Sengu.
Seus passos provocavam um som surdo, que era refletido pelas paredes nuas.
Pararam na sala de comando principal. A lanterna de Rhodan bastou para iluminar o recinto.
Tratava-se de uma instalação de controle, cuja complexidade correspondia plenamente às tarefas gigantescas que tinha de desempenhar. Talvez, a partir dali, o planeta havia sido arrancado para fora da órbita de seu sol e obrigado a realizar uma viagem longa e solitária através do espaço cósmico. Era possível que aquele bloco semicircular, em cuja superfície polida se viam centenas de botões e escalas, fosse o dispositivo de direção. Ou seria o gigantesco painel que se encontrava junto às mesas? Talvez ele permitisse regular a produção de alimentos ou o sistema de renovação de ar.
Rhodan contemplou as complexas instalações, enquanto sua coragem se desvanecia. Como poderia familiarizar-se com essas instalações, que durante duzentos mil anos tornaram aquele planeta independente da luz do sol?
Adiantou-se e examinou as escalas do bloco semicircular. Todos os ponteiros encontravam-se na posição zero. Aguçou o ouvido e não percebeu o menor ruído. Estava tudo em silêncio, sem vida.
As máquinas também haviam sido paralisadas. Sengu lhe confirmara isso.
Sengu...?
Rhodan apontou para uma porta situada na extremidade oposta da central de comando.
Ali fica um pavilhão que abriga as instalações geradoras de energia. As radiações remanescentes devem vir de lá. Será que o senhor poderia verificar este ponto?
Sengu foi até a porta e entrou no pavilhão contíguo. Rhodan e Gucky seguiram-no. No centro do pavilhão via-se perfeitamente uma tampa redonda de cinco metros de diâmetro. Rhodan apontou para a mesma.
Ali embaixo fica o reator. É maior e mais potente que qualquer coisa que possamos imaginar. Então, Sengu? Esse reator está funcionando?
Sengu olhou para a tampa... e olhou através da mesma.
A instalação está parada, sir. O reator foi paralisado. Nas câmaras de chumbo ainda existem alguns restos de matéria radiativa. Não se vê ninguém.
Procure seguir a fiação de comando até a central que fica ao lado. Talvez consigamos descobrir os controles que correspondem ao reator.
O japonês pôs-se a trabalhar. Tratava-se de um trabalho inconcebível para uma pessoa não familiarizada. Seus olhos venceram todos os obstáculos, encontraram o cabo mestre e acompanharam-no através dos muros e paredes, até o ponto de partida. Enquanto isso o japonês percorria lentamente o pavilhão, olhando sempre para o chão, até chegar à central de comando. Seus olhos procuravam alguma coisa, sua visão continuava a caminhar. Até que seu olhar estacionou no objeto semicircular.
Isto aqui é o equipamento de controle do reator, sir.
Os botões, chaves e escalas não traziam nenhum letreiro, mas apresentavam-se em diversas cores, a fim de permitir a distinção. Sua finalidade só poderia ser adivinhada por meio de uma série de conjeturas óticas.
É aqui que termina o cabo mestre — disse Sengu, apontando para um conjunto de apenas três botões. Um deles era verde, o outro amarelo e o último vermelho. — Seria um tremendo acaso se justamente o verde fosse o de partida.
E o botão vermelho seria o de parada, não é? — acrescentou Gucky com sorriso.
Rhodan continuou sério.
Um acaso? — disse, esticando as palavras. — Quem sabe se realmente é um acaso.
Sua mão aproximou-se lentamente do botão verde, parou sobre o mesmo e, como se quisesse evitar a possibilidade de mudar de idéia, comprimiu-o fortemente para dentro da base.
Nos primeiros dez segundos não aconteceu nada. Depois o teto do recinto foi tornando-se incandescente, ficou cada vez mais luminoso e acabou por mergulhar a central de comando numa luz ofuscante. O reator voltara a gerar energia.
Rhodan desligou sua lanterna e enfiou-a no bolso. Depois estendeu a mão.
Não estão percebendo nada? — perguntou.
Uma lufada de ar morno passou por sua mão. Além de morna, a lufada trazia ar puro. Só agora notaram que o ar que até então haviam respirado nos pavilhões e corredores estava muito gasto.
Parece que todas as instalações voltaram a funcionar — disse Sengu. — Gostaria de saber quem desligou o reator.
Terão sido os invisíveis? — Gucky não parecia ter muita certeza. — Por enquanto, aqui embaixo, ainda não nos encontramos com nenhum deles.
Daí não se pode concluir que nunca estiveram aqui — respondeu Rhodan e sentiu um crescente mal-estar. — Se notarem alguma coisa, atirem imediatamente. Já sabemos que não gostam disso.
Olhou em torno, como se procurasse alguma coisa, e disse:
Devíamos tentar descobrir alguma pista dos barcônidas desaparecidos. Devem estar em algum lugar. Agora, que o suprimento de energia foi restabelecido, ao menos temos luz.
Vamos prosseguir nossa viagem com o carro — sugeriu Gucky. — Por aqui só existem máquinas; mais nada.
O setor residencial fica na mesma altura. Podemos tentar chegar lá com o carro. Ou será que o senhor consegue enxergar alguma coisa, Sengu?
Para dizer a verdade, sir, por enquanto só me interessei pelas instalações, não pelos barcônidas. Talvez consiga...
Ouviu-se um clique.
Ouviram-no perfeitamente; não podia haver a menor dúvida. Ao mesmo tempo, a vibração, que sentiam nitidamente a seus pés, cessou. O teto foi escurecendo e tornou-se completamente negro. E a lufada de ar puro parou.
Alguém voltara a desligar o reator.
Rhodan tirou a lanterna do bolso e fez o facho de luz correr pelo recinto. Encontravam-se a uns vinte metros do bloco semicircular e teriam visto qualquer pessoa que estivesse nas proximidades do mesmo.
O recinto estava vazio.
Uma das mãos de Rhodan segurava a lanterna, e a outra uma pistola energética. Com um movimento resoluto saiu caminhando em direção ao bloco. Não acreditou no que seus olhos viam. O botão verde saltara para fora da base. Alguém devia ter comprimido o botão vermelho.
Teve a impressão de que o invisível devia estar bem a seu lado, mas não conseguiu captar qualquer impulso mental.
Gucky, há alguém por aqui?
Ninguém. Somos os únicos seres pensantes que se encontram aqui embaixo.
A mão de Rhodan desceu sobre o botão verde e comprimiu-o. A luz voltou a acender-se imediatamente. Vários ponteiros se moveram e começaram a tremer. Sob seus pés ouviu-se um zumbido. A gigantesca maquinaria voltara a funcionar.
Clique!
Rhodan ficou perplexo!
Contemplou o botão verde que saltara para fora da base. A luz apagou-se. As máquinas silenciaram.
Desta vez vira perfeitamente. De início o botão vermelho descera, como se tivesse sido comprimido por uma mão invisível. Só depois disso o botão verde, impelido pelos relês, saíra da base.
Voltou a ligar o reator e colocou a mão em atitude protetora por cima do botão vermelho, numa posição tal que ninguém poderia comprimi-lo.
Clique!
Era incompreensível. Rhodan não encontrou nenhuma explicação para o fenômeno. Talvez fosse alguma ação teleguiada, desencadeada na superfície do planeta. Ninguém sabia quem eram os invisíveis e qual era a técnica de que dispunham. A palavra impossível já deixara de figurar no vocabulário dos astronautas terranos, pois a experiência há muito lhes ensinara que havia uma explicação para todos os enigmas do Universo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html