Mantiveram-se
em silêncio e continuaram a observar. As últimas estrelas passaram
a deslizar mais velozmente ao seu lado. Mergulharam no mar leitoso
formado pela nuvem de luz branca que se estendia atrás da nave.
Apenas a
distante nebulosa de Andrômeda continuava visível. Mantinha-se
imóvel e imutável no centro da abertura negra, que ocupava mais que
três quartos do campo de visão. Examinando melhor, via-se uma
figura elíptica, que se tornava mais espessa no centro. Apesar da
velocidade imensa da nave, essa linha não crescia.
— Nossa
Via Láctea! — cochichou Sengu de repente, olhando para trás. —
Meu Deus, esta é nossa Via Láctea...
Rhodan
também virou a cabeça.
A
gigantesca nuvem branca, formada por estrelas, encolheu rapidamente.
A concentração de milhões de estrelas parecia cair num abismo sem
fundo. Seu tamanho diminuía a olhos vistos.
— Estamos
percorrendo mais de um ano-luz por segundo — disse Rhodan em tom
comovido. Sua voz tremia ligeiramente.
Pousou a
mão sobre o ombro do rato-castor, que raramente ficava quieto. Porém
agora estava tão abalado com a visão que se lhe oferecia, que não
conseguia pronunciar uma única palavra. Rhodan nunca vira seu amigo
dessa forma.
— Acho
que estamos sonhando — disse Sengu, falando tão baixo quanto
antes. — Isso não pode ser verdade!
— Esta
experiência se desenrola no limite entre o sonho e a realidade —
respondeu Rhodan. — Mais tarde não saberemos dizer o que foi sonho
e o que foi realidade. Uma coisa é certa: estamos aqui fisicamente e
voamos através do Universo. Nossos olhos vêem aquilo que realmente
acontece. Quer dizer que nossa experiência não é um verdadeiro
sonho. Mas por outro lado...
Terminou
num suspiro. Depois permaneceu calado.
Não se
lembrou de nada que ainda pudesse ser dito.
*
* *
Seus
relógios avançaram três horas.
A Via
Láctea a que pertenciam mergulhara no infinito. Transformara-se numa
grande mancha leitosa, de bordas desfiadas. Viam-se nitidamente os
braços das espirais, que penetravam no negrume do espaço vazio Em
algum lugar, o sol do planeta Terra brilhava.
A nebulosa
de Andrômeda estava praticamente inalterada. Apenas se aproximara um
pouco.
De resto,
o Universo estava vazio, com exceção de algumas nebulosas
minúsculas, quase imperceptíveis. Era escuro e negro, solitário e
sem vida.
A
impressão atingia os dois homens e o rato-castor com a força de um
pesadelo.
— Três
horas! — disse Rhodan em certa oportunidade. — Calculo que neste
tempo percorremos uma distância na qual a luz gastaria cem mil anos.
Esperou em
vão que alguém respondesse. Três horas foram suficientes para
transformar a Galáxia numa nebulosa, mas eram pouco para amainar o
abalo que sacudia o coração de Sengu e Gucky.
Os minutos
corriam lenta e pesadamente. Pingavam muito devagar no oceano do
tempo, que parecia ter perdido seu significado.
De
repente, Rhodan teve a impressão de que um tremor sacudia a pequena
nave. A mancha formada pela nebulosa de Andrômeda deslocou-se para a
direita e voltou a ficar imóvel. Houve um segundo abalo. Mais nada.
— A nave
modificou a rota — disse Sengu.
Rhodan
confirmou. Concluiu que só agora os instrumentos especiais
mencionados pelo imortal haviam entrado em funcionamento. Há poucos
segundos tinham descoberto o planeta peregrino chamado Bárcon, um
mundo que há centenas de milênios se afastara da Via Láctea, junto
com seu sol. Seus habitantes, os misteriosos barcônidas, iniciaram
uma experiência arriscada, pois abandonaram seu sol, a fim de levar
seu planeta de volta à Galáxia.
Isso
acontecera há mais de sessenta anos do calendário terrano. Nesse
tempo, o planeta peregrino não poderia ter ido muito longe. Talvez
tivesse percorrido uns dez ou vinte anos-luz. Quem sabe...
A que
distância estaria nesse momento?
Rhodan não
teve meios de descobrir, ainda mais que não sabia exatamente a que
velocidade corriam pelo nada sem estrelas.
O mais
estranho era que não sentiam o menor cansaço, embora fizesse muito
tempo que não dormiam. Sengu já esvaziara sua lata de cerveja e
consumira uma refeição, ajudado por Rhodan. As cenouras de Gucky
haviam diminuído; o feixe estava muito menor.
Mais
trinta minutos se passaram. A visão do cosmos permaneceu inalterada;
nem sequer chegaram a notar qualquer modificação de sua posição.
Parecia que se mantinham imóveis em meio ao grande nada.
De repente
Sengu disse:
— Ali na
frente há alguma coisa...!
Rhodan
esforçou-se para enxergar melhor.
O planeta
aproximou-se da trajetória da nave. Era quase imperceptível, pois
não recebia a luz de qualquer sol. Era negro como o espaço que o
cercava — mas não totalmente negro. Um brilho cinzento muito
apagado fixava seus contornos, e Rhodan percebeu com uma dor quase
física que o planeta estava coberto de neve. Só graças ao elevado
índice de reflexão, Bárcon se tornava visível ao olho humano.
O planeta
aproximava-se rapidamente, mas a nave apenas percorria alguns
quilômetros por segundo e continuava a desacelerar. Seguia
diretamente para Bárcon.
Aos
poucos, seus olhos se acostumaram à penumbra, que na verdade era
formada apenas pelos reflexos de galáxias distantes —
principalmente daquela a que pertenciam — que ficavam na linha da
popa.
— Vamos
pousar! — exclamou Gucky em tom exaltado, quando a nave descreveu
uma curva e desceu em direção à superfície de Bárcon. — É
tudo cinzento. O que será isso?
— É
neve, Gucky! O sistema de aquecimento artificial que substitui o sol
perdido parece ser menos forte do que se supunha. Os barcônidas
abrigaram-se embaixo da superfície. Isso estava previsto. Mas a
neve?
Calou-se.
Sabia que a neve não fora prevista.
A nave
pousou nas proximidades do equador, que não tinha nada a ver com
qualquer sol ou calor. A neve era tão espessa quanto nos pólos.
Talvez até fosse mais compacta, por causa do movimento de rotação.
A nave pousou suavemente. Não aconteceu mais nada.
Rhodan
contemplou a paisagem branquicenta, que parecia solitária e não
apresentava o menor vestígio de vida. O deserto branco estendia-se
até o horizonte distante, e sobre ele, o céu negro sem estrelas. As
nebulosas leitosas das galáxias apareciam de forma um tanto confusa,
provavelmente em virtude da atmosfera.
Da
atmosfera...?
Na nave
não havia qualquer instrumento por meio do qual se pudesse verificar
a existência de atmosfera. Sabia-se que Bárcon já possuíra uma
atmosfera respirável. Rhodan voltou a olhar para o céu. Em sua
opinião, a nebulosa de Andrômeda não deveria aparecer com tamanha
nitidez.
Será...?
Não; isso
era pouco provável. Por que poderia ter acontecido uma coisa dessas?
Os barcônidas haviam desenvolvido uma invejável tecnologia, que
lhes permitia desprender seu planeta do campo de gravitação do
respectivo sol e fazê-lo viajar em direção à Via Láctea. Sem
dúvida também conseguiram evitar que sua atmosfera se desfizesse. O
frio que reinava lá fora devia produzir a ilusão. A visão era mais
nítida do que estavam acostumados na Terra.
— Receio
que tenhamos de sair para o frio — disse Rhodan.
Sengu
sobressaltou-se. Gucky colocou o capacete de plástico e disse em tom
preocupado:
— Vou
ligar o aquecimento. Ainda bem que colocamos os trajes espaciais.
Sengu
seguiu o exemplo de Gucky. Rhodan também se sentia satisfeito por
poder escapar ao frio, mas hesitou um pouco.
— Vamos
levar as conservas que nos restam. Aqui temos uma sacola. Como será
que ela veio parar na nave?
Ninguém
sabia. Colocaram na sacola as poucas latas que lhes restavam e Sengu
pegou-a. Rhodan pôs a mão no bolso do traje espacial, tirou o
pequeno radiador e verificou sua carga. O japonês e Gucky também
traziam uma arma energética.
— Vamos
andando — disse Rhodan e fechou seu capacete.
O sistema
gerador de ar logo entrou em funcionamento automaticamente. O
dispositivo permitia a regulagem manual da temperatura.
Assim que
entraram na comporta, a escotilha interna fechou-se. A externa
abriu-se, quase no mesmo instante.
A sucção
quase arrastou Gucky, que se encontrava à frente dos outros.
Bárcon
não possuía mais atmosfera!
Naquele
momento, Rhodan compreendeu que algo de terrível devia ter
acontecido.
3
Sengu foi
o último a saltar sobre a superfície de Bárcon. Afundou na neve
até os tornozelos. Logo sentiu um frio agradável. Tiveram de
modificar a regulagem da temperatura.
Rhodan
olhou atentamente para os lados. Até onde a vista alcançava,
estendia-se o imenso deserto de neve. Avançava até o horizonte
distante, monótono e sem contornos definidos. Mal se reconhecia a
linha em que a superfície do planeta e o céu se encontravam.
A Via
Láctea, o lugar da partida, ficava pouco acima da linha do
horizonte. Se ocupasse a posição do sol para marcar as horas do
dia, estariam no fim da tarde. Os braços das espirais pareciam girar
lentamente, mas claro que isso era apenas um jogo da imaginação. As
outras ilhas do cosmos estavam reduzidas a frias manchas luminosas,
que não assumiam a menor importância. Bárcon era um planeta sem
luz e, ao que parecia, também se transformara num mundo sem
esperança.
Rhodan
olhou para o chão.
Em algum
lugar, lá embaixo, deviam estar os barcônidas. Quando eles se
retiraram para as profundezas do planeta, acreditavam que esta era a
única possibilidade de resistir a uma longa viagem pelo nada.
— A
nave!
A voz
assustada de Gucky foi o primeiro som que se fez ouvir no interior
dos capacetes, depois que haviam chegado a Bárcon. Rhodan virou-se
abruptamente. O que viu — ou melhor, aquilo que não viu —
deixou-o rígido de pavor.
A nave
tinha desaparecido.
Felizmente
lembrou-se das palavras do imortal. A qualquer momento poderia chamar
a nave de volta, mas só poderia fazê-lo uma única vez. Quando
chegasse, teriam de entrar na mesma e abandonar Bárcon.
“Em
hipótese alguma”,
pensou, “isso
acontecerá antes que tenhamos certeza sobre o destino dos
barcônidas.”
— Não
se preocupe, Gucky. Podemos chamar a nave de volta assim que
precisarmos dela. Há mais alguma coisa? Notou algo?
— Nada,
Perry! Não estou captando nenhum impulso mental. Se quiser saber
minha opinião, neste deserto de gelo não existe vivalma.
— Nem
mesmo sob a superfície? Gucky fitou a neve que se amontoava a seus
pés.
— Lá
embaixo? De lá também não vem nenhum impulso.
Todo o ser
de Rhodan se rebelava contra a idéia de admitir a morte de toda a
população de um planeta. Só aceitaria tal catástrofe, se tivesse
uma prova cabal disso. Será que a crosta do planeta era tão densa
que não deixava os impulsos mentais chegarem ao cérebro sensível
de Gucky?
— E o
senhor, Sengu? O que está vendo?
O japonês
também olhou para a neve. Rhodan sabia que seus olhos iam mais longe
que os de qualquer outra pessoa. O olhar de Sengu avançou pela neve
e pela rocha, penetrando no interior do planeta, metro por metro. A
que distância chegou? Rhodan teve de confessar que não sabia qual
era o alcance da capacidade de Sengu.
Alguns
minutos de tensão se passaram.
Finalmente
Sengu levantou a cabeça e fitou Rhodan.
— Nada,
sir. Até uma profundidade de mil metros não existe absolutamente
nada.
Rhodan
sabia que o sistema propulsor do planeta ficava a cinco mil metros de
profundidade. Mas antes de pedir a Sengu que prosseguisse em sua
busca, queria examinar a superfície de Bárcon. Da nave, isso não
fora possível. Além disso, seus olhos só agora se haviam
acostumado à penumbra.
— Vamos
saltar, Gucky. Em cada salto percorreremos cinqüenta quilômetros.
Seguiremos para o leste.
Gucky
soltou um suspiro e segurou os dois homens pelas mãos. Face ao
contato físico teleportaria também Rhodan e Sengu. Teria de
utilizar um volume muito maior de sua paraenergia, mas poderia
agüentar isso por algum tempo.
Quando
voltaram a materializar-se, a paisagem estava praticamente
inalterada. Apenas a Via Láctea havia descido mais um pedacinho em
direção à linha do horizonte.
— Aqui
as coisas não parecem melhores — comentou Gucky e voltou a saltar.
Cem
quilômetros.
Mil
quilômetros.
Nada
mudou. Vales, montanhas, planícies — tudo estava coberto por uma
grossa camada de neve, formada pela precipitação da atmosfera de
Bárcon. Sengu constatou que, em certos lugares, a espessura dessa
camada chegava a cinqüenta metros, enquanto em outros lugares não
ultrapassava dois ou três metros. Concluiu que ainda houvera
tempestades, que cessaram com a rarefação progressiva da atmosfera.
A neve
congelara-se, ficando dura que nem pedra. Só na superfície havia
uma camada fina de neve mais fofa, que certamente se formara com as
precipitações mais recentes.
Haviam
dado a volta aproximadamente em torno da metade do planeta. Gucky
esteve a ponto de iniciar outro salto, quando Sengu exclamou
apressadamente:
— Impulsos
de ondulações! São de natureza mecânica. Eu os sinto.
Rhodan nem
sabia que Sengu também era capaz de constatar a presença de
impulsos de ondulações. Quando foi perguntado a este respeito, o
mutante explicou que, em virtude do processo de mutação por que
havia passado, seus nervos óticos supersensíveis reagiam a esse
tipo de impulso.
— O que
quer dizer com ondas de natureza mecânica?
— São
ondas causadas por máquinas. Mas estas não funcionam mais. Devem
ser as últimas irradiações de conjuntos nucleares paralisados.
Se fosse
assim, não poderia fazer muito tempo que as instalações de Bárcon
deixaram de funcionar. Quem sabe se não havia alguns barcônidas
vivos nos subterrâneos que esfriavam lentamente?
Rhodan
pôs-se a refletir.
Ali
estavam eles, sós e abandonados, num mundo sem vida, cujas aldeias e
cidades foram soterradas pela neve. Ali em cima não encontrariam
nada. Se ainda houvesse vida, esta já se teria retirado para as
profundezas do planeta.
Ou para a
capital...?
Rhodan
procurou recordar.
— Gucky,
vamos mudar de direção e aumentar a distância dos saltos. Siga
quase exatamente na direção norte e salte três mil quilômetros de
cada vez.
Mais uma
vez não viram nada. Sengu não pôde constatar a presença de
qualquer impulso produzido por ondulações. A seguir, três saltos.
E depois... a grande cidade!
Rhodan
reconheceu-a imediatamente pelos contornos que se destacavam
nitidamente sob a neve. Alguns dos edifícios mais altos chegavam
mesmo a sobressair por cima da mortalha branca, dando a quem os via a
certeza de que ali ficava a antiga capital dos barcônidas.
Via de
regra, a neve não era muito abundante. Sua profundidade média devia
ser de cinco metros; num e noutro lugar talvez chegasse a dez metros.
Quem caminhasse por uma das suas ruas teria a impressão de se
encontrar numa povoação de mineradores de ouro dos Estados Unidos
de dois séculos atrás. As grandes acumulações de neve e as
construções solitárias, que pareciam muito baixas, lembravam o
quadro que todos conheciam dos filmes estereotipados.
— Gucky?
— Nada,
absolutamente nada. Aqui não vive mais ninguém.
Se o
rato-castor não captava nenhum impulso mental, não havia por ali
ninguém que pensasse. E qualquer ser vivo dotado de uma inteligência
mediana pensava.
O negrume
do nada estendia-se sobre a cidade morta. De repente não parecia só
este planeta, mas todo o Universo que estava sem vida. Rhodan teve a
impressão de que os únicos seres vivos eram ele, Sengu e Gucky.
— Sengu?
— Não
sinto qualquer impulso, sir.
Rhodan foi
tomado por um princípio de desespero. Por enquanto ainda resistia à
perspectiva de executar com Gucky um salto às cegas para o subsolo
do planeta. Tal procedimento encerrava um tremendo perigo.
Evidentemente, depois de um salto de teleportação, só poderiam
materializar-se num lugar em que não existisse outra matéria. Mas
se caíssem num lugar onde já houvesse matéria, como a água ou a
lava liquefeita.,.?
— A uns
quinhentos quilômetros a oeste daqui fica a entrada principal do
mundo subterrâneo. Já estive lá. Desse lugar sai um túnel que nos
pode levar à central de comando dos propulsores e das outras
instalações. Acho que é lá que se gera o ar e se produzem os
alimentos.
Gucky
segurou os dois homens pela mão.
— Vamos
tentar. Aqui não perdemos nada.
Perdemos...
era a palavra exata. Rhodan teve a impressão de que Gucky, sem
querer, acertara em cheio. Bárcon parecia perdido... e com Bárcon
os barcônidas.
O salto
seguinte levou-os para outro deserto de neve, sem elevações ou
outros marcos característicos. Só por ocasião do quarto salto,
Rhodan hesitou um pouco. Lançou um olhar atento para o pico coberto
de neve de uma montanha próxima, ocultando metade da Via Láctea,
que voltara a surgir junto à linha do horizonte.
— Acho
que foi aqui. Vamos nos aproximar da montanha, Gucky.
Materializaram-se
ao pé da montanha solitária.
— O
túnel desce obliquamente nesta montanha, até atingir a profundidade
de cinco mil metros. Não está captando nenhum impulso mental,
Gucky?
— Não;
está tudo morto.
— Nem
tudo!
Fora
Sengu, que fitava o chão, com os olhos bem abertos. Parecia enxergar
alguma coisa.
— Está
captando impulsos?
— São
quase imperceptíveis, sir, mas estão presentes. São idênticos aos
que senti há pouco. Provêm de radiações evanescentes. Se ali
embaixo existem máquinas, as mesmas foram desligadas. Mas sempre
demora bastante até que os últimos resíduos nucleares tenham
irradiado sua energia. Sabemos que a produção de combustível
prossegue até o último instante. Depois de desligados os conjuntos,
o remanescente deve ser irradiado, ou irradia-se por si. São estes
os impulsos que consigo ver.
— O que
mais está vendo?
— Ainda
não me aprofundei bastante — disse o mutante, lembrando o fato de
que só podia avançar para o fundo por camadas. — Cheguei a dois
mil metros. Vejo corredores e túneis não iluminados. Não há
nenhuma luz acesa, mas as instalações estão lá. Não vejo muita
coisa, pois apesar da minha faculdade, dependo da luz refletida.
Rhodan
logo reconheceu a dificuldade. Nem mesmo o espia conseguia ver sem
luz.
— Será
que poderia dar a Gucky os dados para o salto?
Sengu fez
um gesto afirmativo, sem permitir que estas palavras o distraíssem.
— Isso
deve ser possível. Mas... Não concluiu a frase.
— Cuidado!
— gritou Gucky que, por ser um telepata, possuía uma sensibilidade
mais intensa. — Alguém se aproxima!
Rhodan
virou-se abruptamente e olhou na direção em que apontava o braço
de Gucky. Não viu nada. Apenas o deserto de neve e o horizonte
distante. Olhou em torno. Mas em nenhuma direção viu qualquer coisa
que se movesse.
— Onde?
Gucky, que
se sentia um pouco inseguro, baixou o braço.
— Será
que posso enganar-me a tal ponto? Ali havia alguém! Não sei o que
pensava, mas posso afirmar que pensou alguma coisa.
— Você,
que é um telepata, pode analisar qualquer pensamento e identificar
seu sentido — disse Rhodan em tom de espanto. — Será que desta
vez não consegue?
— Foram
apenas impulsos, sem sentido definido. Mas não eram amistosos. Senti
isso sem identificá-los. Ali... voltaram! São mais fortes e mais
próximos. Vêm em nossa direção...
Ao notar
que os pêlos da nuca de Gucky se arrepiaram, Rhodan ficou surpreso.
Sentiu-se preocupado. Era muito raro Gucky ter medo, mas quando isso
acontecia, o perigo era tremendo.
Sengu
desistira de romper o solo com o olhar. Encontrava-se ao lado de
Rhodan, pronto para segurar a mão de Gucky no momento em que o chefe
desse um sinal. Mas por enquanto não estava acontecendo nada.
Rhodan
continuava a olhar fixamente na direção indicada por Gucky. Não
viu nada.
— Deve
estar bem perto — cochichou Gucky com a voz embaraçada. — E está
pensando...
Rhodan
também sentiu.
Alguma
coisa penetrou cautelosamente em sua mente e passou a exercer uma
pressão bem perceptível. A pressão foi-se transformando em dor
que, embora fosse suportável, era desagradável porque não se podia
fazer nada contra ela.
Alguém
procurou apoderar-se de sua consciência.
Quem
seria?
A
superfície coberta de neve jazia intocada à sua frente. E o
desconhecido devia estar bem ali, a poucos metros de distância. Era
um ser invisível.
Mas não
havia rastros na neve. Qualquer pessoa invisível teria deixado
rastros na neve macia. Os olhos de Rhodan começaram a lacrimejar de
tanto que se esforçou para descobrir alguma indicação. E a dor na
cabeça aumentava.
— Faça
uma tentativa telecinética! — disse, dirigindo-se a Gucky.
O
rato-castor confirmou com um gesto. Concentrou-se sobre a matéria
invisível que devia estar bem à sua frente — e desferiu seu
golpe.
O golpe
atingiu o vazio. A dor continuou.
Rhodan
tateou em direção à arma energética, mas logo percebeu que seu
propósito era absurdo. Não poderia atirar contra alguma coisa que
não via. Ao menos por enquanto.
— Não
consigo — disse Gucky em tom de desespero. — Mas acho que posso
atingir o ser, ou a coisa, por via telepática. Meus pensamentos
encontram uma resistência. A distância deve ser de uns dez metros;
não é mais que isso.
Já era
alguma coisa. Gucky conseguia determinar a direção e a distância.
Infelizmente não conseguiu mais do que isso. Ao menos por enquanto.
— Você
é capaz de determinar seu tamanho?
— Apenas
sinto certa resistência em seus pensamentos; mais nada. Até parece
que os pensamentos do desconhecido são a única coisa material que
existe nele. Quanto ao corpo... não tem corpo no sentido que nós
atribuímos ao termo.
Uma súbita
suspeita surgiu na mente de Rhodan, mas ele logo abandonou-a. Não,
em hipótese alguma podia tratar-se de um druuf. Estes só
permaneciam invisíveis por pertencerem a outro plano temporal.
Evidentemente isso não acontecia aqui.
Também
recorreu à sua modesta capacidade telepática, e sentiu a
resistência. Mas não foi capaz de sondar os impulsos mentais
captados, muito menos de decifrá-los.
De
repente, a dor no cérebro cessou.
Gucky
manteve-se imóvel.
— Desistiu
de seu ataque mental. Suas energias são mais fracas que as nossas. A
tentativa de submeter-nos à sua vontade falhou.
— É
apenas um?
Gucky não
respondeu. Ao que parecia, ainda não pensara na possibilidade de ter
diante de si mais de um inimigo. O pêlo da nuca voltara a alisar-se,
mas a testa continuava enrugada.
— Não;
são vários. Aproximam-se de todos os lados.
Ainda não
se via nada, nenhum contorno, por mais apagado que fosse e nenhuma
pista.
Rhodan fez
um sinal para Sengu e segurou a mão de Gucky. O japonês segurou a
outra mão.
— Assim
que houver outro ataque, saltaremos.
Esperaram.
Mas não
por muito tempo.
Subitamente
um raio energético branco-azulado surgiu do nada e atingiu a neve
bem à frente dos seus pés. Esta logo começou a derreter e
volatilizou-se.
— Vamos!
— exclamou Rhodan. Gucky calculara o salto de tal maneira que se
materializaram a menos de um quilômetro. Encontravam-se em local um
pouco mais elevado, no flanco da montanha. Viam perfeitamente o lugar
em que estiveram pouco antes.
Um
verdadeiro fogo de artifício rugia por lá. Os raios mortíferos
vinham de todas as direções. Transformaram a neve num pequeno lago,
que começou a ferver. O vapor de água logo desapareceu para todos
os lados; parte dele logo se precipitou para o solo.
— Acreditam
que também nos tornamos invisíveis — conjeturou Rhodan. Não
tinha muita certeza do que estava dizendo. — E agora procuram
destruir-nos.
No mesmo
instante, os ataques cessaram. Os raios energéticos apagaram-se e
não voltaram mais, O lago endureceu rapidamente. À distância em
que se encontravam, parecia um olho de vidro que alguém tivesse
perdido no deserto de neve.
Gucky
concentrou-se.
— Agora
vêm nesta direção — cochichou. — Não tenho certeza, mas
acredito que sejam apenas uns cinco ou seis. Voltaram a pensar.
Receio que também tenham localizado nossos impulsos mentais. Foi por
isso que suspenderam o ataque.
— Se for
assim, também devem estar quebrando a cabeça para descobrir como
pudemos chegar aqui tão depressa — observou Rhodan com um tom de
triunfo na voz. — São muito rápidos?
— Não —
respondeu Gucky. — Um corredor comum desloca-se mais depressa que
eles.
Olharam
fixamente na direção do lago gelado. Era de lá que deviam vir e
chegariam dentro de dois ou três minutos. Acontece que nada se movia
na planície em declive. Não surgiu o menor torvelinho de neve, que
desse notícia da investida dos perseguidores invisíveis.
Rhodan
voltou a sentir os impulsos mentais dolorosos.
— Que
criaturas serão estas? — perguntou num sopro. — São invisíveis
e, ao que parece, imateriais. São telepatas, mas não conseguem
interpretar nossos pensamentos, pois do contrário teriam sabido
antecipadamente de nosso salto de teleportação. Pensam, mas não
podemos fazer muita coisa com seus pensamentos. Não estabelecem
contato, pois preferem lançar desde logo um ataque implacável.
Procuram matar-nos!
— Sejam
eles quem forem — murmurou Gucky em tom indignado — não sinto a
menor simpatia por eles. Se conseguir pegar um deles... mas como é
que se pode pegar alguém que não existe?
— Eles
existem! — disse Rhodan em tom enfático. — Apenas existem de uma
forma que nós não podemos conceber. A que distância estão?
Em vez de
uma resposta houve o ataque.
O primeiro
raio energético errou o alvo, e antes que viesse o segundo, Gucky
teleportou-se. Desta vez afastou-se dez quilômetros, até o cume da
montanha.
Encontravam-se
sobre um pequeno platô gelado, que ficava a quatro mil metros acima
da planície. O vácuo provocava um efeito agradável: a ausência de
qualquer vento. Para Rhodan e seus companheiros era totalmente
indiferente que se encontrassem na planície ou a quatro mil metros
de altura.
O platô
formava um quadrado, cujos lados mediam cerca de vinte metros. Era
plano. Se os atacantes invisíveis quisessem persegui-los a pé,
teriam uma tarefa dura pela frente. Ou será que possuíam aviões ou
armas de grande alcance?
— Você
ainda consegue captar seus pensamentos, Gucky?
A resposta
não foi imediata. O rato-castor esforçou-se para localizar os
estranhos impulsos. Depois de algum tempo balançou a cabeça.
— O
alcance deles é muito reduzido. Como é possível uma coisa dessas?
Rhodan
teve de confessar que não havia explicação para isso.
Na borda
do platô estavam espalhadas algumas pedras grandes, cobertas com uma
grossa camada de gelo. Estas formavam o cume propriamente dito da
montanha. Uma das pedras tinha o formato de um banco muito largo.
Gucky não
resistiu à tentação. Soltou as mãos dos companheiros e sentou-se
cautelosamente sobre o banco.
— Aqui
estamos nós, contemplando o mundo de gelo — disse com um suspiro
de satisfação.
Rhodan não
diminuiu a vigilância. Aqueles invisíveis haviam arruinado seus
cálculos. De início contara, no seu íntimo, com a ocorrência de
uma catástrofe técnica que tivesse vitimado os barcônidas. As
máquinas poderiam ter falhado. Mas agora as coisas pareciam
totalmente diferentes. Alguém — ou alguma coisa — viera do
cosmos e apoderara-se deste mundo. Do cosmos? De onde...? Será que
havia criaturas que conseguiram vencer a enorme distância de mais de
cem mil anos-luz? Teoricamente isso era possível. Já se conheciam
hipersaltos de até trinta mil anos-luz, mas por enquanto ninguém se
atrevera a avançar no espaço intercósmico situado entre as
galáxias.
Por
enquanto!
Mas agora
acontecera!
— Sengu,
continue a procurar — pediu Rhodan.
O japonês
olhou para a planície.
Enxergava-se
perfeitamente para todos os lados. Com exceção daquele em que os
blocos de pedra se amontoavam, formando o cume da montanha, não
havia nada que impedisse a visão. O horizonte distante formava uma
linha que brilhava confusa, uma vez que a neve debilmente iluminada
desaparecia no negrume do espaço. E até lá não havia nada, nada
se movia. Apesar disso, um perigo terrível e invisível
espreitava-os em algum lugar.
Sengu
disse em voz baixa:
— Os
corredores largos descem obliquamente. Estão vazios e abandonados.
Não se vê nenhuma criatura viva. Alguns veículos estão espalhados
por lá, como se tivessem sido esquecidos. Agora estou vendo o
pavilhão de teto abaulado. Os corredores continuam a descer em todas
as direções. Qual deles devo seguir?
— Aquele
em que correm os trilhos — respondeu Rhodan, recorrendo às suas
lembranças. — Num deles existem trilhos, não existem?
— É
verdade! — o tom de voz do japonês exprimia admiração.
Mais uma
vez surgiu o silêncio no grupo. E o silêncio durou até que Rhodan
voltasse a sentir a dor na cabeça. Essa dor representava a primeira
advertência. Os invisíveis estavam avançando de novo.
Gucky
levantou-se de um salto. Apontou para o leste, mas não para baixo,
em direção à planície, mas para cima, para o céu negro.
— Estão-se
aproximando; muito depressa.
Sengu
suspendeu sua atividade de espia e segurou a mão do rato-castor.
Rhodan seguiu seu exemplo.
— De
onde?
— Vêm
de cima — respondeu Gucky em tom exaltado. — Será que sabem
voar?
Não
ficaram sabendo se os seres invisíveis eram capazes de voar por sua
natureza, ou se utilizavam aviões ou foguetes. Uma coisa era certa:
os invisíveis viram-nos e atacaram.
Acima de
suas cabeças surgiu um clarão vindo do nada. Um raio branco-azulado
desceu e cortou o gelo do platô. Rhodan teve presença de espírito
para acompanhar o rastro do raio energético. Sua direção não se
modificou, e o ângulo de incidência na superfície permaneceu
inalterado. Porém o raio caminhou com uma rapidez espantosa pelo
platô, desceu pela encosta e apagou-se.
Gucky
cochichou:
— Estão-se
afastando; agora estão voltando.
Face a
isso, tiveram certeza de que os invisíveis se encontravam numa
máquina que também era invisível. Descreviam uma curva e lançavam
o segundo ataque. Talvez desta vez sua pontaria fosse melhor.
— Vamos
embora! — gritou Rhodan.
Gucky já
estava preparado. Saltou.
Desta vez
materializaram a uma distância de quase mil quilômetros, em meio a
uma cadeia de montanhas. Foi pura coincidência, mas Rhodan percebeu
ao primeiro relance de olhos que se tratava de um lugar ideal para
seus objetivos. Se os desconhecidos possuíssem aviões, dificilmente
poderiam operar com estes naquele vale entrecortado. Talvez
estivessem em segurança por algum tempo.
— Sengu,
vamos trabalhar!
Rhodan
esperou que o japonês confirmasse com um gesto e dirigiu-se ao
rato-castor:
— Preste
atenção aos invisíveis. Ao menor sinal de sua aproximação, dê o
alarma.
Os dois
mutantes conheciam sua tarefa. Rhodan sentiu-se um pouco deprimido,
pois no momento tinha de manter-se inativo, já que não possuía as
faculdades dos mutantes. A única coisa que podia fazer era esperar o
resultado de seus esforços.
Sentiu-se
tomado por algo como o desespero. O que adiantava tudo isso, se tinha
de fugir constantemente dos desconhecidos, que tinham ao menos uma
superioridade numérica sobre eles? Como poderiam ajudar aos
barcônidas, se estavam ocupados durante todo o tempo para continuar
vivos?
“Até
então nossa permanência em Bárcon não passa de uma fuga
ininterrupta”,
rememorou Rhodan, enquanto se afastava alguns passos.
Lançou um
olhar distraído para as formações de rocha que apresentavam uma
estranha regularidade. De início não notou, mas de repente
sobressaltou-se.
A parede
lisa e vertical não estava coberta de neve. Só havia nela uma
camada fina e transparente de gelo. Rhodan passou a mão pela mesma.
A parede era lisa e compacta.
Lisa
demais para ser uma rocha natural.
Rhodan
olhou em torno. Pelo que pôde ver, o vale não era inacessível. Era
perfeitamente possível que aqui houvesse outro acesso ao mundo
subterrâneo de Bárcon.
Viu
confirmada sua suposição, quando Sengu disse:
— Mais
uma vez estou captando débeis impulsos de radiações, sir. Além
disso, existe um túnel... Mil metros, dois mil...
— Cuidado!
A voz de
Gucky era estridente. Uma coisa muito perigosa devia aproximar-se
deles.
Num
movimento instintivo, Rhodan tirou a arma energética do bolso e
destravou-a. Não pretendia manter-se constantemente em fuga. Estava
na hora de mostrarem aos atacantes que sabiam defender-se. Afinal,
teriam que tentar.
Sengu
compreendeu imediatamente. Também destravou sua arma.
— Acho
que é apenas um — disse Gucky em tom hesitante.
— Pegue
sua arma! — ordenou Rhodan.
Gucky
parecia cético. Apesar disso cumpriu a ordem de Rhodan e sacou a
arma. Apontou na direção da saída do vale.
— Sim, é
somente um. Já deve ter estado aqui. Seus pensamentos exprimem
principalmente curiosidade. É só o que posso constatar.
— Deve
ser uma espécie de guarda — conjeturou Rhodan e olhou na mesma
direção que Gucky.
Sentiu a
indagação insistente em seu cérebro. Com o tempo se tornou
dolorosa. Não via nada, nem mesmo qualquer rastro na neve.
Entretanto uma criatura aproximava-se deles. Era uma criatura
inteligente, pertencente a uma raça que construíra armas
energéticas.
— Qual é
a distância?
— Uns
vinte ou trinta metros, não posso dizer...
Gucky não
chegou a concluir a frase.
A uns
vinte e cinco metros de distância surgiu um lampejo.
O raio
azul passou pelo menos a dois metros de Sengu. Enquanto o japonês
procurava abrigar-se, Rhodan abriu fogo. Fez pontaria para o local de
origem do raio azul, que se apagou de repente. Mas Rhodan não
suspendeu o fogo. Notou que o raio ofuscante expelido por sua arma se
escoava diante de um obstáculo invisível, cujos contornos quase
chegavam a ser humanos.
— Vamos!
— gritou Rhodan para Gucky.
O
rato-castor leu os pensamentos de Rhodan e compreendeu.
Também
disparou contra o alvo invisível. Sengu, que continuava deitado no
chão, também abriu fogo.
Os
contornos chamejantes do atacante invisível tornaram-se mais
nítidos. Seu corpo tinha resistência suficiente para refletir os
raios energéticos. Não seria possível destruí-lo? Subitamente
Rhodan viu uma coisa que lhe deu novas esperanças.
O estranho
ser começou a cambalear e já não respondia ao fogo concêntrico.
Apenas se
viam os contornos, não o corpo propriamente dito. Isso se tornava
possível em virtude dos raios energéticos disparados, que
delineavam sua figura. Devia ser mais ou menos como um balde de água
derramado sobre um homem invisível. A água permitiria ao observador
reconhecer os contornos do homem.
Subitamente,
apenas por alguns segundos, aconteceu o inconcebível.
Talvez
fosse por causa da confluência dos três raios energéticos, ou quem
sabe, devido a uma outra circunstância.
O
invisível assumia contornos nítidos! Tornou-se visível!
Transformou-se em matéria sólida.
— Suspender
o fogo! — gritou Rhodan e saiu correndo.
Uma idéia
desesperada e um lampejo de esperança impeliam-no para a frente. O
desconhecido já teria disparado de novo, se o contra-ataque não o
tivesse afetado. E se estava adquirindo contornos definidos e seu
corpo encobria a neve, também deveria ser possível segurá-lo...
com as mãos.
Era
exatamente o que Rhodan pretendia fazer.
De olhos
arregalados, Gucky e Sengu fitavam Rhodan. O rato-castor estava tão
perplexo que nem utilizou suas faculdades telecinéticas para segurar
o desconhecido. Ficou parado, olhando. O braço com a pistola pendia
molemente junto ao corpo.
Enquanto
Rhodan vencia num salto gigantesco os últimos metros que o separavam
do desconhecido, os contornos deste voltaram a apagar-se. Já se via
a neve do outro lado.
Rhodan
atingiu-o.
Suas mãos,
que estavam livres, já que deixara cair a arma, procuraram segurar o
desconhecido e sentiram certa resistência. Seus dedos cingiram-se em
torno de uma coisa mole. Um fluxo de pensamentos carregados de ódio
atingiu seu cérebro e fê-lo estremecer. As dores no cérebro
tornaram-se insuportáveis.
Subitamente
o desconhecido desmaterializou-se e escapou das mãos de Rhodan. Não
houve outro ataque. Os impulsos mentais tornaram-se mais débeis e
cessaram de vez.
Rhodan
abaixou-se e pegou a arma.
Gucky
disse:
— O que
foi isso? Não se tratava de teleportação nem de campo de deflexão.
Você conseguiu agarrá-lo, mas ele desapareceu. Não compreendo mais
nada.
— Tranqüilize-se;
também não tenho nenhuma explicação — respondeu Rhodan, em tom
amargurado. — De qualquer maneira, já sabemos que não são tão
invulneráveis como receávamos. Sob o fogo concêntrico de nossas
armas, tornam-se visíveis e materiais. Talvez cheguem a sentir
dores. Até é possível que morram e se desmaterializem. Gostaria de
saber quem são, de onde vêm e o que vieram fazer aqui.
A paisagem
silenciosa, que se estendia sob o céu eterno e sem estrelas, não
deu nenhuma resposta.
— Olhem
esse paredão — prosseguiu Rhodan. — É artificial, ou pelo menos
foi trabalhado. Tente verificar o que há atrás dele, Sengu.
Para o
japonês, isso não representou nenhum problema.
— Tem
apenas um metro de espessura. Atrás dele há um grande pavilhão.
Parece uma estação ferroviária. Vejo muitos trilhos e veículos, e
numerosos desvios. Segue-se um túnel que desce obliquamente. Duas
linhas. Não existe nenhuma luz.
Rhodan
apontou para a sacola que se encontrava nas mãos de Sengu.
— Trouxemos
uma lanterna. Leve-nos para lá, Gucky. Examinaremos Bárcon de
dentro. Receio que na superfície não possamos encontrar mais nada,
a não ser a morte. Aquilo ali — apontou para o lugar em que
sentira o desconhecido — foi puro acaso.
Gucky
aproximou-se e segurou as mãos dos companheiros.
— Sentir-me-ei
mais à vontade se conseguir ver um teto, em vez desse céu medonho
sem estrelas — prosseguiu Rhodan. — Como a gente está acostumado
às estrelas...
— A
gente só nota isso, quando não as vê mais — confirmou o
rato-castor.
Concentrou-se
e realizou a teleportação.
4
O salto
não os fez percorrer mais que dez metros. Mas levou-os através da
grossa muralha de pedra, que no estado de estabilidade normal da
matéria representaria intransponível obstáculo.
Estava
escuro. Rhodan tentou penetrar a escuridão com os olhos. Depois de
algum tempo ligou a lanterna. A luz foi refletida pelas paredes
lisas; fazia seu jogo sobre os trilhos cintilantes e era devolvida
pelos pequenos carros metálicos, que estavam espalhados por toda
parte. Era exatamente como Sengu dissera.
Gucky
soltou um forte suspiro.
— Para
dizer a verdade, lá fora ainda consegui captar alguns impulsos
débeis, mas por aqui não existe nada. Será que a rocha não deixa
passar seus pensamentos? Se for assim, não poderão localizar os
nossos pensamentos, e estaremos em segurança.
— A não
ser que tenham descoberto uma entrada mais fácil de ser vencida —
disse Rhodan, abafando o otimismo do rato-castor. A luz da lanterna
correu pelo pavilhão. — Descobriremos assim que descermos mais.
— Vamos
a pé? — perguntou Gucky, contemplando suas perninhas.
Rhodan
apontou para os carros.
— Vamos
pegar um táxi, meu baixinho. Assim você não se cansará. Também
poderíamos saltar, mas quero ver por onde vamos passar. O túnel é
seguro, Sengu?
— Até
onde posso enxergar é.
— Então
vamos! Tomara que os motores ainda estejam funcionando. Tenho uma
vaga lembrança de como a gente faz para andar nessa carreta. Os
controles são muito simples.
Os carros
de transporte eram de vários tamanhos e destinavam-se a diversas
finalidades. Alguns deles pareciam servir ao transporte de
passageiros; possuíam uns vinte ou trinta assentos. Outros eram
menores, só oferecendo lugar para duas ou quatro pessoas.
Escolheram
um veículo no qual havia dois bancos, situados um atrás do outro.
Sengu sentou-se ao lado de Rhodan, enquanto Gucky se refestelava no
banco de trás.
— Ali
estão duas chaves que se pode puxar — disse Rhodan. — Uma delas
serve para regular a velocidade, enquanto a outra aciona o freio.
Acho que não precisaremos de mais nada nesta viagem de trem. Se não
me engano, a descida é íngreme.
— Realmente
— confirmou Sengu, que não se sentia tão bem quanto Gucky.
A chave do
freio foi destravada. Rhodan rodou-a um tanto e o carro começou a
andar para dentro da abertura negra do túnel. A lanterna portátil
era tão fraca que quase não iluminava o caminho.
— Segure
a lanterna — pediu Rhodan e começou a examinar o painel de
instrumentos. Dali a alguns segundos acenderam-se dois potentes
faróis. — Era o que eu pensava.
Agora era
mais fácil. Enxergava-se pelo menos a cinqüenta metros, e podia-se
ver se a linha estava livre. Nesse meio tempo a velocidade do carro
aumentara, e seria muito desagradável se esbarrassem em algum
obstáculo. Apesar de suas faculdades Sengu não via muita coisa,
pois estava muito escuro. Seus olhos, que conseguiam penetrar na
matéria sólida, falhavam na ausência de luz.
— Sinto
nitidamente impulsos de ondas — disse em tom hesitante. — Estão
muito distantes. Não sei dizer com precisão qual é a distância.
Viajaram
quase durante uma hora. De repente Sengu disse:
— Freie,
sir! Acho que o túnel está terminando. Mais ou menos a quinhentos
metros daqui.
Rhodan
puxou a chave do freio. O carro reduziu a velocidade, motivo por que
Gucky desistiu de manter-se constantemente preparado para saltar. O
banco traseiro, muito bem estofado, era muito confortável, mas ele
não confiava muito nessa viagem realizada às cegas.
Dali a
cinco minutos, a luz dos faróis foi refletida por uma parede que
fechava o túnel. O carro parou. Rhodan examinou-a. Parecia
artificial e tão compacta que até mesmo os trilhos desapareceram em
seu interior, como se não mais existissem.
Em virtude
dessa circunstância Rhodan descobriu do que se tratava.
— É uma
comporta pressurizada! Tomara que consigamos atravessá-la, pois do
contrário teremos de pegar outro carro lá adiante. Sengu, o que é
que o senhor está vendo?
— Vejo
uma câmara, e atrás dela outra parede igual a esta. Talvez tenha
razão, sir. É possível que se trate de uma comporta de ar.
Rhodan
desceu do carro. Deixou os faróis ligados.
— A
comporta deveria funcionar automaticamente, mas com os conjuntos
paralisados, isso não seria de esperar. Deve haver algum outro
controle. Se não existir, Gucky terá que tentar a sorte.
O
rato-castor soltou um suspiro e continuou sentado.
— Se
tiver que trabalhar, prefiro começar daqui mesmo.
Rhodan
aproximou-se da parede e examinou-a demoradamente. No canto inferior
direito, encontrou uma roda de regulagem e girou-a. Felizmente o
mecanismo da comporta era alimentado por um gerador de emergência. A
parede dividiu-se ao meio e deslizou para o lado.
Rhodan
entrou na comporta. Na outra parede também encontrou uma roda. Fez
um sinal para os companheiros.
— Tudo
em ordem. Sengu, faça o carro entrar devagar na comporta. Tenha
cuidado para não bater na parede.
O japonês
agiu imediatamente. O carro começou a rolar e parou a poucos
centímetros da segunda parede. Gucky exibiu um sorriso de aprovação,
mas não fez qualquer comentário.
Antes de
abrir o segundo portão, Rhodan voltou a colocar a primeira roda na
posição anterior. A primeira parede começou a fechar-se. Perry
saltou rapidamente para dentro da comporta e esperou que o portão se
fechasse. Em condições normais não se teria arriscado a fechar um
dos portões, antes de certificar-se de que o outro funcionava. No
entanto, estava em companhia de Gucky.
Quando a
segunda parede se abriu, Rhodan sentiu uma lufada de ar, que vinha do
interior do túnel.
Ali
embaixo havia uma atmosfera!
O carro
rolou mais um pedaço. Rhodan fechou a comporta.
Ficou
parado uns dez segundos. De repente levantou a mão e começou a
soltar calmamente o fecho do capacete espacial. Gucky gritou com a
voz estridente:
— Não
faça isso, Perry! O ar pode ser venenoso...!
— Os
barcônidas respiram oxigênio — disse Rhodan para tranqüilizá-lo
e tirou o capacete.
Estava
quente e um pouco abafado, mas de resto o ar era perfeitamente
respirável. Inalou profundamente por algumas vezes e não sentiu
qualquer efeito adverso.
— Podem
tirar os capacetes. Assim economizaremos energia. Quem sabe por
quanto tempo ainda teremos de usar os trajes espaciais?
Entrou no
carro e soltou o freio. Dali a duas horas, Sengu olhou para o teto e
disse:
— Vejo a
superfície. Encontramo-nos mais ou menos a quatro mil metros de
profundidade.
— Sinto-me
como uma toupeira — disse Gucky e enrodilhou-se para dormir um
pouco.
Haviam
desligado a calefação de seus trajes, pois por ali reinava um calor
agradável. Sengu abriu uma lata de frutas. Mataram a fome. Era bem
verdade que o caldo doce não contribuiu para mitigar a sede.
— Deveria
ter desejado mais de uma lata de cerveja — disse Sengu em tom
abatido. — Acho que não poderemos contar com uma renovação das
provisões. Ao menos aqui...
— Ainda
agüentaremos um dia, se fizermos economia. Se a sede aumentar, Gucky
terá de ir à superfície e trazer neve.
— Neve...?
— o rato-castor sacudiu-se e mexeu no bolso. Depois de algum tempo
tirou uma cenoura. — Prefiro morrer de sede.
Rhodan
sorriu, mas não deu nenhuma resposta. Teve a impressão de que o
calor aumentava. Deviam estar-se aproximando do setor residencial
propriamente dito, ou ao menos do lugar em que se planejara sua
instalação.
Assustou-se
com a coerência de seu raciocínio, mas este infundiu-lhe uma idéia.
— E os
impulsos mentais, Gucky? Você não consegue captar nenhum?
O
rato-castor concentrou-se por algum tempo.
— Nada,
absolutamente nada. Até parece que estamos sós neste mundo, com
exceção dos invisíveis, que não são pensadores normais. Se os
barcônidas forem o que você diz, isto é, criaturas humanóides, eu
os encontrarei.
— Nenhum
impulso?
— Sinto
muito, mas não há nada. Rhodan resistiu à suposição de que os
atacantes poderiam ter exterminado todo um povo. Os barcônidas já
existiam há milhões de anos e haviam colonizado grande parte da
Galáxia. Até era possível que fossem os antepassados dos arcônidas
e dos terranos. E agora teriam deixado de existir no curso de meio
século.
Havia algo
de errado. O que seria?
O túnel
já não descia obliquamente, mas corria em sentido horizontal.
Rhodan já desligara o freio e acionara o acelerador. Os trilhos
seguiam em linha reta e o carro corria numa velocidade louca. Uma
hora. Duas horas. Ia na direção exata da entrada principal, onde
haviam sofrido o primeiro ataque dos invisíveis.
— Vejo
luz — disse Sengu, de repente, em meio ao silêncio, interrompido
apenas pelo zumbido leve do motor. — A dez quilômetros daqui
existe luz, um tanto escassa e difusa. Parece antes um tipo de
iluminação de emergência.
— Reconhece
mais alguma coisa?
— Máquinas
e grandes pavilhões, corredores, muitas portas. Atrás dessas portas
há outros pavilhões cheios de máquinas. Conjuntos, geradores, um
salão cujas paredes acham-se cobertas de telas. Estas não estão
funcionando. As máquinas também estão paradas. Mas é delas que
saem as radiações que consegui captar. Será que nos aproximamos da
central de comando, sir?
— Não
existe a menor dúvida. Estamos indo para a mesma central na qual
entrei há sessenta anos, a fim de corrigir um pequeno engano e
salvar os barcônidas da destruição certa. Ao que parece, meus
esforços foram em vão.
A
velocidade do carro diminuiu bastante. De repente entrou num grande
pavilhão. Os trilhos desdobraram-se em várias direções,
multiplicando as opções para o prosseguimento da viagem. Mas Rhodan
não tinha a intenção de continuar. Parou o carro.
— Chegamos.
Foi exatamente neste lugar em que desci há sessenta anos. Não sei
dizer de que lado vim. Bem, depois descobriremos.
Saiu do
carro e, por alguns segundos, permaneceu indeciso. Finalmente
dirigiu-se a Sengu.
— As
salas de máquinas ficam nesta direção?
Apontou
para uma porta. Sengu fez um gesto afirmativo e Rhodan prosseguiu:
— Sim,
agora consigo orientar-me de novo. Vamos andando.
Sengu
levantou-se rapidamente e logo se colocou ao lado de Rhodan. Gucky
não demonstrou tanta pressa. Com uma lentidão irritante saiu do
banco traseiro e caminhou desajeitadamente pela plataforma.
— O que
pretende fazer na sala de máquinas? — perguntou, embora sua
capacidade telepática já lhe tivesse revelado as intenções de
Rhodan. — Quer recauchutar o planeta adormecido?
Rhodan
esteve a ponto de dar uma resposta áspera, mas de repente lançou um
olhar pensativo para Gucky. Uma ruga vertical surgiu em sua testa.
— As
crianças, os idiotas, e às vezes também os ratos-castores,
costumam dizer a verdade... Poderíamos ao menos tentar ativar os
conjuntos paralisados. Talvez dessa forma consigamos saber o que
aconteceu com os barcônidas.
Gucky
fitou-o com uma expressão de perplexidade, quando se dirigiu a uma
porta isolada. Depois de hesitar um pouco, abriu-a com uma simples
pressão da mão. Um sorriso de embaraço surgiu no rosto de Gucky,
que saltou atrás de Rhodan. Sengu seguiu-o. Não compreendera quase
nada do que se passara, pois não sabia ler pensamentos.
As
máquinas permaneciam em silêncio. As mesmas brilhavam de tão
limpas que estavam. Até parecia que tinham sido instaladas há um
dia. No teto viam-se fios e grossos cabos que desapareciam nas
paredes e ligavam os conjuntos de máquinas com os controles da sala
de comando. Atrás daquele recinto existiam amplos pavilhões,
conforme era do conhecimento de Rhodan e foi confirmado por Sengu.
Seus
passos provocavam um som surdo, que era refletido pelas paredes nuas.
Pararam na
sala de comando principal. A lanterna de Rhodan bastou para iluminar
o recinto.
Tratava-se
de uma instalação de controle, cuja complexidade correspondia
plenamente às tarefas gigantescas que tinha de desempenhar. Talvez,
a partir dali, o planeta havia sido arrancado para fora da órbita de
seu sol e obrigado a realizar uma viagem longa e solitária através
do espaço cósmico. Era possível que aquele bloco semicircular, em
cuja superfície polida se viam centenas de botões e escalas, fosse
o dispositivo de direção. Ou seria o gigantesco painel que se
encontrava junto às mesas? Talvez ele permitisse regular a produção
de alimentos ou o sistema de renovação de ar.
Rhodan
contemplou as complexas instalações, enquanto sua coragem se
desvanecia. Como poderia familiarizar-se com essas instalações, que
durante duzentos mil anos tornaram aquele planeta independente da luz
do sol?
Adiantou-se
e examinou as escalas do bloco semicircular. Todos os ponteiros
encontravam-se na posição zero. Aguçou o ouvido e não percebeu o
menor ruído. Estava tudo em silêncio, sem vida.
As
máquinas também haviam sido paralisadas. Sengu lhe confirmara isso.
Sengu...?
Rhodan
apontou para uma porta situada na extremidade oposta da central de
comando.
— Ali
fica um pavilhão que abriga as instalações geradoras de energia.
As radiações remanescentes devem vir de lá. Será que o senhor
poderia verificar este ponto?
Sengu foi
até a porta e entrou no pavilhão contíguo. Rhodan e Gucky
seguiram-no. No centro do pavilhão via-se perfeitamente uma tampa
redonda de cinco metros de diâmetro. Rhodan apontou para a mesma.
— Ali
embaixo fica o reator. É maior e mais potente que qualquer coisa que
possamos imaginar. Então, Sengu? Esse reator está funcionando?
Sengu
olhou para a tampa... e olhou através da mesma.
— A
instalação está parada, sir. O reator foi paralisado. Nas câmaras
de chumbo ainda existem alguns restos de matéria radiativa. Não se
vê ninguém.
— Procure
seguir a fiação de comando até a central que fica ao lado. Talvez
consigamos descobrir os controles que correspondem ao reator.
O japonês
pôs-se a trabalhar. Tratava-se de um trabalho inconcebível para uma
pessoa não familiarizada. Seus olhos venceram todos os obstáculos,
encontraram o cabo mestre e acompanharam-no através dos muros e
paredes, até o ponto de partida. Enquanto isso o japonês percorria
lentamente o pavilhão, olhando sempre para o chão, até chegar à
central de comando. Seus olhos procuravam alguma coisa, sua visão
continuava a caminhar. Até que seu olhar estacionou no objeto
semicircular.
— Isto
aqui é o equipamento de controle do reator, sir.
Os botões,
chaves e escalas não traziam nenhum letreiro, mas apresentavam-se em
diversas cores, a fim de permitir a distinção. Sua finalidade só
poderia ser adivinhada por meio de uma série de conjeturas óticas.
— É
aqui que termina o cabo mestre — disse Sengu, apontando para um
conjunto de apenas três botões. Um deles era verde, o outro amarelo
e o último vermelho. — Seria um tremendo acaso se justamente o
verde fosse o de partida.
— E o
botão vermelho seria o de parada, não é? — acrescentou Gucky com
sorriso.
Rhodan
continuou sério.
— Um
acaso? — disse, esticando as palavras. — Quem sabe se realmente é
um acaso.
Sua mão
aproximou-se lentamente do botão verde, parou sobre o mesmo e, como
se quisesse evitar a possibilidade de mudar de idéia, comprimiu-o
fortemente para dentro da base.
Nos
primeiros dez segundos não aconteceu nada. Depois o teto do recinto
foi tornando-se incandescente, ficou cada vez mais luminoso e acabou
por mergulhar a central de comando numa luz ofuscante. O reator
voltara a gerar energia.
Rhodan
desligou sua lanterna e enfiou-a no bolso. Depois estendeu a mão.
— Não
estão percebendo nada? — perguntou.
Uma lufada
de ar morno passou por sua mão. Além de morna, a lufada trazia ar
puro. Só agora notaram que o ar que até então haviam respirado nos
pavilhões e corredores estava muito gasto.
— Parece
que todas as instalações voltaram a funcionar — disse Sengu. —
Gostaria de saber quem desligou o reator.
— Terão
sido os invisíveis? — Gucky não parecia ter muita certeza. —
Por enquanto, aqui embaixo, ainda não nos encontramos com nenhum
deles.
— Daí
não se pode concluir que nunca estiveram aqui — respondeu Rhodan e
sentiu um crescente mal-estar. — Se notarem alguma coisa, atirem
imediatamente. Já sabemos que não gostam disso.
Olhou em
torno, como se procurasse alguma coisa, e disse:
— Devíamos
tentar descobrir alguma pista dos barcônidas desaparecidos. Devem
estar em algum lugar. Agora, que o suprimento de energia foi
restabelecido, ao menos temos luz.
— Vamos
prosseguir nossa viagem com o carro — sugeriu Gucky. — Por aqui
só existem máquinas; mais nada.
— O
setor residencial fica na mesma altura. Podemos tentar chegar lá com
o carro. Ou será que o senhor consegue enxergar alguma coisa, Sengu?
— Para
dizer a verdade, sir, por enquanto só me interessei pelas
instalações, não pelos barcônidas. Talvez consiga...
Ouviu-se
um clique.
Ouviram-no
perfeitamente; não podia haver a menor dúvida. Ao mesmo tempo, a
vibração, que sentiam nitidamente a seus pés, cessou. O teto foi
escurecendo e tornou-se completamente negro. E a lufada de ar puro
parou.
Alguém
voltara a desligar o reator.
Rhodan
tirou a lanterna do bolso e fez o facho de luz correr pelo recinto.
Encontravam-se a uns vinte metros do bloco semicircular e teriam
visto qualquer pessoa que estivesse nas proximidades do mesmo.
O recinto
estava vazio.
Uma das
mãos de Rhodan segurava a lanterna, e a outra uma pistola
energética. Com um movimento resoluto saiu caminhando em direção
ao bloco. Não acreditou no que seus olhos viam. O botão verde
saltara para fora da base. Alguém devia ter comprimido o botão
vermelho.
Teve a
impressão de que o invisível devia estar bem a seu lado, mas não
conseguiu captar qualquer impulso mental.
— Gucky,
há alguém por aqui?
— Ninguém.
Somos os únicos seres pensantes que se encontram aqui embaixo.
A mão de
Rhodan desceu sobre o botão verde e comprimiu-o. A luz voltou a
acender-se imediatamente. Vários ponteiros se moveram e começaram a
tremer. Sob seus pés ouviu-se um zumbido. A gigantesca maquinaria
voltara a funcionar.
Clique!
Rhodan
ficou perplexo!
Contemplou
o botão verde que saltara para fora da base. A luz apagou-se. As
máquinas silenciaram.
Desta vez
vira perfeitamente. De início o botão vermelho descera, como se
tivesse sido comprimido por uma mão invisível. Só depois disso o
botão verde, impelido pelos relês, saíra da base.
Voltou a
ligar o reator e colocou a mão em atitude protetora por cima do
botão vermelho, numa posição tal que ninguém poderia comprimi-lo.
Clique!
Era
incompreensível. Rhodan não encontrou nenhuma explicação para o
fenômeno. Talvez fosse alguma ação teleguiada, desencadeada na
superfície do planeta. Ninguém sabia quem eram os invisíveis e
qual era a técnica de que dispunham. A palavra impossível já
deixara de figurar no vocabulário dos astronautas terranos, pois a
experiência há muito lhes ensinara que havia uma explicação para
todos os enigmas do Universo.

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