— Qualquer
assassino costuma declarar que é inocente. Traga as provas de sua
inocência.
— Nada
disso! — exclamou Onot. — Vocês têm de provar que sou culpado!
Por um
segundo, Ellert esqueceu-se das cautelas que devia adotar, porque
tinha a sensação do triunfo. O intelecto de Onot rebelou-se contra
a tutela exercida por Ellert. Onot disse:
— É
claro que liguei o transmissor, mas permitam que explique...
O
presidente da Corte parecia um tanto perplexo. O traidor negara tudo,
e logo a seguir confessara. Uma confissão desse tipo não vale muita
coisa, pois tinha-se a impressão de que resultava de alguma forma de
induzimento.
Ellert
voltou a subjugar Onot. O druuf prosseguiu:
— Naturalmente
retifico o que acabo de declarar. Não sei o que me fez confessar um
ato que não cometi.
— Por
que não me obedece?
— perguntou Ellert, sentindo o esforço que teve de fazer como se
fosse uma dor física. — Será
melhor para você mesmo.
Mas Onot
lutava denodadamente contra sua subjugação mental.
— O
traidor não sou eu, mas minha voz! — exclamou em tom de desespero.
— Ela me obriga...
— A voz?
— interrompeu o presidente da Corte e lançou um olhar bastante
expressivo para seus colegas. Começava a imaginar onde o acusado
pretendia chegar. — Que voz é essa?
Desta vez,
Ellert se manteve vigilante. Fez com que Onot respondesse:
— Isso
mesmo; minha voz. Com esta palavra quero designar as pessoas que têm
inveja de mim, e que me atribuem atos que nunca pratiquei. Reafirmo
minha inocência. Afinal, presenteei meu povo com um grande número
de inventos valiosos.
— Esse
fato será considerado a seu favor, Onot — disse o juiz com uma
estranha benevolência. — Uma confissão livre e espontânea
melhoraria ainda mais a sua situação.
A essa
altura, Ellert já tinha compreendido que não conseguiria submeter
Onot à sua vontade para sempre e ininterruptamente. Era capaz de
fazê-lo a curtos intervalos. Mas vez por outra, era obrigado a
libertar o espírito de Onot.
Quem sabe
se não poderia transformar essas oportunidades numa tática
inteligente, transformando sua fraqueza numa arma? Se Onot caísse em
contradição, admitindo sua culpa para cinco minutos após isso
negá-la energicamente, isso só poderia confundir os juizes e a
assistência. Deixou Onot entregue a si mesmo.
— Foi a
voz que me ordenou que ligasse o transmissor. De qualquer maneira,
não o teria feito se fosse dono de mim mesmo. Não tive condições
de me defender. A voz apossou-se de meu corpo e dirigiu meus músculos
e nervos. Foi ela quem movimentou minhas mãos e me obrigou a ligar o
transmissor.
Onot
calou-se, exausto. Apressara-se em confessar sua culpa, pois receava
que não poderia falar à vontade por muito tempo. Mas, para seu
enorme espanto, o inimigo terrível não procurou impedi-lo. Antes
que o juiz pudesse fazer qualquer observação, prosseguiu
apressadamente:
— Um
espírito alojou-se dentro de mim. Ele não vem deste mundo, mas de
um planeta que fica a muitos anos-luz de distância. Agora perdeu as
forças e já não me domina. Seu mundo é...
Calou-se,
pois Ellert não estava dormindo. Havia certas coisas que Onot não
devia contar. Por isso, os ouvintes ficaram bastante espantados,
quando Onot prosseguiu:
— Não
dêem atenção ao que estou dizendo. O que acabo de dizer é simples
loucura. Não é verdade. Não sou nenhum traidor.
O
presidente da Corte perdeu a paciência.
— Onot,
você quer nos enganar, simulando um colapso nervoso. Você não
conseguirá nada com isso. Você confessa e, logo a seguir, nega
tudo. Uma voz! Ora essa! Será que poderíamos ver sua voz?
— A voz
é invisível e está em toda parte, juiz. Neste momento está na
sala em que nos encontramos. — Onot prosseguiu sem a menor pausa: —
Às vezes chego a imaginar que a voz realmente existe, e que ela se
encontra no interior do meu cérebro.
— Pois
então! — o presidente da Corte fez um sinal para um dos oficiais
de justiça. — Providencie para que os médicos cuidem de Onot.
Testemunha Brodak, sua presença não é mais necessária. Levem o
acusado à sua cela. O processo fica suspenso até que recebamos o
laudo médico.
Quando os
guardas o seguraram, Onot defendeu-se desesperadamente.
Ellert
sabia que, se não acontecesse o milagre, não passaria pela prova
que tinha pela frente.
*
* *
A esfera
tinha cinqüenta centímetros de diâmetro, era leitosa como uma tela
de TV e flutuava no centro da sala.
Perry
Rhodan, Bell e o Coronel Sikermann, comandante da Drusus, estavam
sentados perto dela e observavam os acontecimentos transmitidos por
Harno. Tais acontecimentos se desenrolavam no planeta Druufon.
Harno, que
se tornara membro regular do Exército de Mutantes, podia “ver”
qualquer ponto do Universo e, em sua superfície, a visão se tornava
perceptível aos olhos humanos. Além disso, sabia transmitir
expressões verbais por via telepática, mesmo a seres que não
possuíssem o dom da telepatia.
E foi
assim que os três homens puderam assistir ao ato judicial, que
estava sendo realizado em Druufon.
Rhodan
disse:
— Ellert
está travando uma luta desesperada contra Onot, que vem se tornando
cada vez mais forte. Quem dera que conhecêssemos as causas de sua
debilidade progressiva. Nesse caso, talvez poderíamos fazer alguma
coisa para combatê-la. Harno, será que você não nos poderia dar
alguma informação a este respeito?
O ser
esférico mantinha-se imóvel no ar. Compreendera a pergunta e
respondeu por via telepática:
— Ellert
é um espírito sem corpo. Só um corpo consegue manter-se no
presente; um espírito não está preso ao tempo nem ao espaço. É
como se fosse um homem agarrado a uma pedra, no meio de uma violenta
correnteza, e que tem de segurar-se com toda força para não ser
carregado pela água. Se sua força diminuir, acabará se soltando e
será arrastado. Já faz alguns anos que Ellert se segura na pedra
representada por Onot.
Rhodan fez
um gesto de assentimento.
— Compreendo;
naturalmente a explicação é figurada. Gostaria de saber o que
podemos fazer.
Harno
respondeu:
— Só
há um meio. Ellert tem de regressar a seu corpo. Por enquanto ainda
pode realizar o salto... talvez. Do contrário terá de permanecer,
para sempre, no interior de Onot, não como dominador, mas como o
subconsciente reprimido do druuf. Seria um destino nada agradável.
— Muitos
seres vivos têm um subconsciente — interveio Bell. — Será que
dali se deve concluir...
— Não
tire conclusões apressadas
— advertiu Harno. — Todo
e qualquer ser orgânico inteligente tem um espírito, uma alma. E
esta alma é dupla; só isso. O intelecto que se mantém na
superfície corresponde ao que costumamos chamar de inteligência,
enquanto o adversário reprimido é o subconsciente.
— Quer
dizer que essa situação não se compara com o estado em que Ellert
se encontraria depois de derrotado?
— Será
que eu afirmei isso?
— Tive
essa impressão.
— Se
fosse assim, todo homem possuiria duas almas, dois intelectos.
Rhodan
achou preferível interromper o debate. Se Harno começava a
filosofar, ninguém podia prever quando iria terminar.
— Talvez
seja isso mesmo — disse e viu os dois druufs levarem Onot. —
Seria bom se pudéssemos aproveitar a pausa. Freyt deverá chegar
dentro em breve.
A
superfície de Harno modificou-se. Figuras coloridas correram sobre
seu corpo esférico e aos poucos foram-se unindo num quadro.
Era o
espaço cósmico. Milhões de estrelas tornavam o infinito num veludo
negro coberto de brilhantes. Visto a uma distância maior, o veludo
pareceria branco.
Uma
pequena esfera flutuava perto de outra, quinze vezes maior.
— É a
Ohio e nós — disse Rhodan. — Freyt ainda não chegou. Pela
mensagem que recebemos, já deveria...
Enquanto
Rhodan ainda falava, um pequeno cruzador da frota materializou-se a
menos de dois segundos-luz. Deslocava-se a uma velocidade
vertiginosa, porém o televisor vivo, Harno, mostrou-o e penetrou em
seu interior.
— É
Freyt — disse Rhodan com um suspiro de alívio, enquanto via a nave
reduzir a velocidade e descrever uma curva ampla, para voltar ao
ponto em que emergira do hiperespaço. — Harno, daqui em diante
você vigiará Onot ininterruptamente e me avisará, assim que o
druuf seja levado para ser submetido ao exame médico. É bem
possível que não tenhamos mais muito tempo.
Sem
responder nada, Harno subiu ao teto e tornou-se menor. A imagem
projetada em sua superfície apagou-se. O Coronel Sikermann também
se levantou, de maneira lenta e compenetrada.
Os três
saíram da cabina, a fim de preparar a ação que se aproximava.
*
* *
O Marechal
Freyt não perdeu muito tempo com os cumprimentos. Mal o cruzador
entrou no gigantesco hangar da Drusus, uma abertura surgiu no ventre
do pequeno veículo espacial e uma pequena rampa desceu.
Um carro
apareceu. Era a maça. Via-se o corpo de um homem, coberto de panos
brancos. Freyt, Haggard e Jamison seguiram-no. Logo que chegaram ao
lado do carro, Rhodan veio correndo e apertou a mão de Freyt.
— Vejo
que trabalhou depressa, Freyt. Como está Ellert?
O Marechal
respondeu com a voz preocupada:
— Não
sei. Não gostei do seu aspecto. Nem Haggard. A pele já assumiu uma
cor azulada em todas as regiões do corpo.
Naquele
momento Eric Manoli, médico e amigo de Rhodan, chegou ao hangar.
Ouvira as últimas palavras do colega.
— Vejo
que a alma continua a manter uma ligação com o corpo, mesmo que se
encontre longe — disse, enquanto cumprimentava os três homens. —
Ellert constitui a melhor prova disso.
— Como?
Manoli
lançou um olhar de surpresa para Haggard.
— Acho
que é muito simples. Antigamente, o espírito de Ellert enviava uma
pequena fração de sua energia ao corpo, vencendo o espaço e o
tempo, a fim de fazê-la chegar ao túmulo situado na Terra.
Atualmente, esse espírito está muito fraco. Suas forças estão
desgastadas. Seu subconsciente, ou seja lá que nome se queira dar a
isso, não dispõe mais de nenhuma energia. O corpo abandonado começa
a morrer.
Fora mais
ou menos o que Harno exprimira, sem saber das palavras de Manoli.
— Por
que o espírito de Ellert está ficando fraco? — perguntou Rhodan.
— Porque
o de Onot está ficando mais forte — respondeu Manoli.
Rhodan
preferiu não fazer outras perguntas. Aproximou-se do carro e
levantou os panos. No momento em que viu o rosto de Ellert levou um
susto. Os olhos fechados pousavam profundamente nas covas negras. A
pele era de um azul esmaecido.
Durante
setenta anos, o corpo de Ellert não sofrerá qualquer modificação.
Parecia que o teletemporário apenas dormia, mas agora o repouso
estava chegando ao fim. O corpo de Ellert já tinha o aspecto de um
organismo morto.
Rhodan
controlou-se e ordenou:
— Reginald
Bell me substituíra no comando da Drusus. Ras Tschubai e Gucky me
acompanharão. Sim, você também, Manoli. Vamos a Hades. E levaremos
o corpo de Ellert.
Bell
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas preferiu ficar calado.
Talvez o rosto de Rhodan lhe dissesse que qualquer tentativa de
fazê-lo mudar de opinião estava condenada ao fracasso. Sikermann
limitou-se a acenar, concordando. Freyt parecia desapontado.
— Será
que há tanta pressa?
— Infelizmente
sim. De qualquer maneira, agradeço-lhe por ter agido tão depressa.
Se tivermos êxito, provavelmente deveremos agradecer isso à sua
ação rápida. Volte à Terra. Espero que em breve voltemos a nos
encontrar.
As
despedidas foram curtas. Dali a dez minutos, Rhodan, Ras Tschubai, o
teleportador africano e o rato-castor Gucky já se encontravam na
jaula do transmissor. O carro com o corpo moribundo dirigiu-se também
para o aparelho. A porta fechou-se atrás de Manoli. Uma luz verde
acendeu-se, indicando que o receptor fora ligado em Hades.
Rhodan
moveu a alavanca do aciona-dor e teve a impressão de que nada estava
mudando, ao menos no interior do transmissor. No entanto, tudo já
estava modificado. Bell, que se encontrara ao lado do aparelho,
desapareceu de repente. No lugar dele, surgiu Marcel Rous, que
aguardava a expedição. O capitão abriu apressadamente aporta da
jaula.
— Chegou
rápido demais, Sir! — exclamou em tom de alívio. — Recebemos
outro pedido de socorro irradiado pelo transmissor de Ellert.
Infelizmente não temos nenhuma possibilidade de enviar-lhe uma
mensagem. Seu minúsculo transmissor não está acoplado a qualquer
receptor.
— Daqui
a pouco estabeleceremos contato pessoal com ele — disse Rhodan,
enquanto dois homens, dirigidos por Manoli, empurravam para fora do
transmissor o carro com o corpo de Ellert. — Prepare uma das
gazelas para mim, capitão. Uma nave de reconhecimento de longo curso
é o veículo que melhor se presta aos nossos objetivos.
— Irá
com a tripulação?
— Não;
apenas com um piloto. A empresa é um tanto perigosa, e quero que o
risco seja o menor possível. Somos poucos, e assim é bem melhor.
— Nesse
caso sugiro o Tenente Werner Mundi.
— O
húngaro?
— É
austríaco, Sir. É um piloto muito competente. Acho que poderá
confiar nele.
— É o
que preciso, Rous. Pois bem. Diga a Mundi que decolaremos dentro de
meia hora. Ainda preciso mandar levar algumas coisas para a gazela.
A nave de
reconhecimento tinha a forma de um disco de trinta metros de
diâmetro. O bojo, medido de pólo a pólo, era de dezoito metros.
Além de desenvolver a velocidade da luz, as gazelas eram capazes de
realizar hipersaltos até uma distância de cinco anos-luz.
O Tenente
Mundi estava sentado na poltrona do piloto, diante dos controles, e
aguardava instruções. Seu rosto rosado e amável não era nada
magro e irradiava simpatia. Quando falava inglês, seu sotaque gentil
revelava às primeiras palavras onde estivera seu berço.
Ras
Tschubai e Gucky também se acomodaram na sala de comando.
Mantiveram-se em silêncio, pois não estavam gostando da tarefa que
tinham diante de si. Os riscos eram demais, e não havia a menor
indicação concreta de que conseguiriam fugir pela segunda vez de
Druufon.
Rhodan e
Manoli foram os últimos a entrarem na sala de comando da gazela, que
ainda continuava estacionada no hangar subterrâneo da base de Hades.
Antes, Perry providenciara para que uma grande caixa de equipamentos
de combate do Serviço de Segurança Solar fosse colocada no
compartimento de carga. Além de armas portáteis, havia
bombas-relógio, material de sabotagem e, além de outras coisas,
alimentos e medicamentos. Ao lado da caixa, encontrava-se o carro com
o corpo de Ellert.
— Saia
de Hades, Tenente Mundi, e dirija-se a Druufon à velocidade da luz.
A transição só deverá ser realizada, quando eu der ordem para
isso.
Mundi
respondeu com um sorriso amável e transmitiu ao pessoal que se
encontrava na comporta da base subterrânea as instruções
necessárias à decolagem. Dali a alguns segundos, o disco,
sustentado pelos campos antigravitacionais, foi subindo lentamente e,
aumentando de velocidade, passou pela galeria e dirigiu-se à
superfície de Hades. As comportas abriram-se diante dele, e a gazela
precipitou-se em direção ao céu escuro de Druufon, para logo a
seguir desaparecer em meio às estrelas.
*
* *
Os druufs
não se apressaram.
Sentado
sobre a cama, em sua cela, Onot contemplava o futuro com sérias
preocupações. A essa altura, pouco importava se o espírito que o
martirizava, realmente existisse ou não. Os juizes haviam solicitado
o exame médico e hipnótico-psicológico. Era bem possível que
durante o procedimento perdesse sua memória e viesse adquirir uma
nova personalidade.
“Talvez”,
pensou numa disposição amarga, “teria
sido preferível que eu tivesse obedecido à voz. Nesse caso, o juiz
ao menos não iria supor que eu tivesse enlouquecido. Quando muito,
teria sido interrogado com o auxílio do detector de mentiras e,
nesse caso, forçosamente haveriam de chegar à conclusão de que eu
estava dizendo a verdade. Ellert me instruiria sobre as respostas e
nenhum detector de mentiras seria capaz de provar o contrário.”
Mas já
era tarde para arrepender-se do erro cometido.
— A
culpa é sua
— disse Ellert, que continuava a controlar os pensamentos de Onot.
Até teve
a impressão de que aos poucos ia se recuperando das canseiras. Se
Onot deixasse de oferecer resistência até poderia ser possível que
conseguisse abandonar o corpo do druuf, sem que disso resultassem
efeitos colaterais adversos.
— Por
que não confiou em mim?
Onot
rememorou os acontecimentos, e seus pensamentos tiveram a feição de
palavras faladas:
— Como
poderia confiar em você, depois de tudo que eu sabia a seu respeito?
Você não está interessado na conservação de minha vida, porque
sua vida corre perigo. Não acha que eu tinha todos os motivos para
supor que você agiria da forma que melhor lhe conviesse? Estava
disposto a pôr um fim na voz...
— Com
isso, você só se colocou em pior situação. Não estou sentindo
nenhuma dor física ou espiritual, mas você está. O que pretende
fazer?
— Não
tenho outra alternativa senão esperar.
Ellert
sabia que Onot não estava mentindo. O druuf desistira
definitivamente da luta. Mas já era tarde, até mesmo para ele,
Ellert. Se Onot sofresse um choque mais forte, o espírito de Ellert
poderia ser atirado para fora do corpo do druuf, e ninguém sabia o
que aconteceria depois.
De
repente, Ellert compreendeu que sua existência corria perigo.
Fez uma
tentativa e constatou que voltara a dispor de energia suficiente para
abandonar o corpo de Onot. Sem dúvida encontraria outro corpo em que
poderia abrigar-se. Desde que se mantivesse quieto e em atitude
passiva, poderia esperar até que Rhodan viesse buscá-lo.
Talvez a
solução razoável fosse mesmo esta.
Comunicou
suas idéias ao cientista, mas teve a surpresa de descobrir que Onot
era de outra opinião.
— Ah,
quer dizer que você quer se retirar depois que, por sua culpa, me
vejo nesta situação difícil. Quero que fique! Se puder, ajude-me.
Deve haver uma possibilidade para isso.
— Não
vejo nenhuma saída
— confessou Ellert. — Ainda
acontece que a culpa é tanto sua quanto minha. Se tivesse
obedecido...
— Se
tiver outra oportunidade, obedecerei — prometeu Onot.
Nesse
momento exato, a idéia salvadora surgiu na cabeça de Ellert.
*
* *
No momento
em que as primeiras unidades de vigilância dos druufs surgiram bem
ao longe, a gazela abrigou-se no hiperespaço.
Ali
permaneceram, desmaterializados, apenas por uma fração de segundo.
Logo voltaram ao espaço normal; era bem verdade que se tratava do
espaço em que reinava a dimensão temporal dos druufs.
O décimo
sexto planeta era gigantesco em meio ao espaço. Estava cercado por
vinte e uma luas e uma frota montava-lhe guarda.
Enquanto
Rhodan transmitia suas instruções ao piloto, um sorriso frio
surgiu-lhe no rosto.
— Mantenha
ligado o neutralizador de vibrações. Ativar os campos defensivos.
Prosseguiremos até a face noturna de Druufon, onde nos manteremos em
posição de espera.
O Tenente
Mundi também sorriu. Mas seu sorriso não era frio; antes exprimia
gentileza e confiança.
— Os
druufs ficarão espantados se não nos descobrirem — disse num
ilogismo que desarmaria qualquer pessoa. — Vamos defender-nos se
formos atacados?
— Se
vamos! — respondeu Rhodan. Com isso, a situação ficou
esclarecida. Agachado num canto do estreito sofá, Gucky parecia
escutar seu próprio interior.
Sua
capacidade telepática era tremenda; conseguia captar e interpretar
impulsos mentais estranhos a uma distância de dezenas de milhares de
quilômetros. Era claro que, naquele momento, estava captando um
verdadeiro fluxo de impulsos vindos de Druufon, mas não conseguiu
identificar os pensamentos de Onot, em meio a esse fluxo. Sua mente
funcionava tal qual um rádio que captasse todas as emissoras ao
mesmo tempo. Então, era-lhe difícil identificar a que interessava.
Gucky
suspirou; parecia aborrecido.
— Você
devia ter trazido Harno — piou em tom de recriminação, abrindo os
olhos por um instante, — Ele poderia aproximar-me de Onot.
— Harno
tem de permanecer com Bell a bordo da Drusus, a fim de que lá
estejam sempre informados sobre nosso paradeiro — disse Rhodan em
tom suave, mas firme. — O que há com Ellert? Por que não tenta
encontrá-lo?
— Seria
ainda mais difícil — respondeu o rato-castor em tom indignado e
voltou a fechar os olhos. — O fantasma já parou de pensar.
Rhodan
preferiu não fazer o comentário que trazia na ponta da língua, e
que não seria nada gentil para Gucky. Mas pensou. E Gucky
compreenderia seus pensamentos.
Ras
Tschubai era teleportador, mas não telepata, por isso, a pergunta
que dirigiu a Gucky era típica de um leigo.
— Você
sabe em que lugar da capital fica a prisão, não sabe? Pois então!
Por que não procura nesse lugar?
Gucky
voltou a abrir os olhos, nos quais se lia um triste conformismo.
— Como
você é inteligente, africano. Acha que ainda não tentei? Acontece
que nosso prezado Onot não se encontra mais na prisão.
Rhodan,
que estava de costas para Gucky, virou-se abruptamente.
— O que
foi que você disse, Gucky? Onot não está mais na sua cela?
— Não
consigo encontrá-lo lá — respondeu Gucky, esquivando-se
cautelosamente. — É claro que foi o lugar em que tentei antes de
qualquer outro, mas acontece que Onot e Ellert já não sabem pensar,
ou então estão em outro lugar.
— E só
agora você vem me dizer isso? — repreendeu-o Rhodan.
— Fiz o
possível para encontrá-lo — disse Gucky a título de desculpa. —
Por que haveria de deixá-lo preocupado? É possível que Onot já
tenha sido levado a alguma instituição onde está sendo submetido a
exames. Não se preocupe; haverei de encontrá-lo.
Sem
esperar resposta, voltou a concentrar-se.
O Tenente
Mundi apontou para a tela.
— Se
quisermos pousar, devemos decidir logo. Daqui a pouco, voltaremos a
sair da face noturna.
— Existem
barreiras?
— Só
muito acima do planeta. Já as atravessamos. Não nos localizaram
goniometricamente; é ao menos o que espero. Se a sorte continuar a
favorecer-nos, conseguiremos pousar, sem que ninguém perceba.
Afinal, o novo dispositivo antilocalização está ligado.
Rhodan fez
um gesto de assentimento.
— Vamos
pousar. Antes, porém, ligue a tela de luz infravermelha. Quero
examinar a área. Felizmente grande parte da superfície do planeta
consiste em montanhas e planaltos desabitados. Se encontrarmos um bom
esconderijo, teremos melhores condições de operar.
Constataram
que se achavam em posição lateral em relação a uma cidadezinha.
Desenvolvendo elevada velocidade, afastaram-se algumas centenas de
quilômetros na direção norte, até que se encontraram em cima de
uma cadeia de montanhas entrecortadas por profundos desfiladeiros.
Mundi
deixou a gazela baixar em direção à superfície, até que os
paredões rochosos, que se erguiam de ambos os lados, foram reduzindo
o segmento do céu que podiam alcançar com a vista. Finalmente, a
nave pousou suave. Os propulsores silenciaram.
— Foi um
pouso bem feito — disse Ras Tschubai a título de elogio. —
Tomara que ninguém nos encontre.
— Examine
nos mapas a que distância fica a capital — ordenou Rhodan em tom
frio. — Todos foram confeccionados em conformidade com as
indicações fornecidas por Ellert. Não têm muita precisão, mas
acho que para os nossos fins serão suficientes.
O Tenente
Mundi pôs-se a trabalhar e determinou o local de pouso. Depois
disso, as coisas não foram muito difíceis.
— Na
capital é noite fechada, Sir. Fica a cerca de quinze mil quilômetros
a oeste. No local em que pousamos, logo será dia.
— De
qualquer maneira poderemos dormir um pouco — disse Gucky e
reiniciou suas pesquisas, como se quisesse provar que não estava
falando sério. — Voltarei a tentar.
— Deixe
para lá — disse Rhodan. — É preferível que investigue as áreas
adjacentes ao local de pouso, para evitar alguma surpresa
desagradável. Quem sabe por quanto tempo teremos de esperar Ellert.
— Devo
ir só?
— Não;
Ras o acompanhará. Verifiquem se existem druufs nos arredores.
Talvez consigam encontrar um esconderijo para a gazela. Prefiro não
deixá-la exposta no desfiladeiro. Algum planador em vôo baixo
poderia descobri-la.
Os dois
teleportadores desapareceram para examinar o terreno. O Tenente Mundi
resolveu dormir um pouco. Antes comeu alguma coisa. Era um sujeito
notável! Nem para comer nem para dormir, saía da poltrona de
piloto.
Rhodan
dirigiu-se até a pequena enfermaria da nave, onde se encontrava o
Dr. Manoli. Depois do pouso, o corpo de Ellert fora levado para lá,
pois o compartimento de carga não parecia ser um local adequado.
Ellert
estava deitado na cama. Rhodan percebeu que a coloração azul da
pele aumentara, não muito, mas numa proporção capaz de causar
preocupações.
— Por
quanto tempo a estrutura celular deverá conservar a capacidade de
revitalização, Eric?
Os dois
costumavam tratar-se por você. Manoli acompanhara Perry Rhodan há
mais de setenta anos, quando este, na qualidade de major da Força
Espacial dos Estados Unidos, pousou na Lua. Também recebera a ducha
celular no planeta Peregrino.
— Não
tenho certeza, mas acho que uma demora de três dias já envolve
certo perigo. Ellert deve retornar ao seu corpo amanhã, ou o mais
tardar depois de amanhã. Depois será tarde.
— Em
Druufon, o dia dura quarenta e oito horas, Eric. Quer dizer que o
regresso deve verificar-se até amanhã. De noite, praticamente não
podemos fazer nada.
— Quem
dera que conseguíssemos estabelecer contato telepático. Não
compreendo por que Gucky está fracassando.
— Não
está fracassando no verdadeiro sentido da palavra — disse Rhodan,
em defesa do rato-castor. — As circunstâncias trabalham contra
ele. Provavelmente, Ellert está tão fraco que seus impulsos mal
chegam a ser irradiados. Apenas podemos fazer votos, para que o acaso
venha em nosso auxílio.
Rhodan
fitou o rosto de Ellert, com uma expressão pensativa.
— O que
mais me preocupa é que, segundo parece, Onot não se encontra mais
na prisão. Gucky não consegue localizá-lo com seu goniômetro,
conforme costuma dizer. Vê-se obrigado a procurá-lo em meio a
milhões de impulsos.
— Por
que não se teleporta para a cela em que Onot esteve por último?
Talvez lá consiga encontrar alguma indicação.
— Mais
tarde poderá fazer isso; por enquanto não. Devemos evitar de
qualquer maneira que os druufs desconfiem de alguma coisa. Nunca
devem descobrir que o cientista mantém qualquer tipo de contato
conosco. Se isso acontecesse, logicamente teriam de admitir que
também nos apoderamos das invenções de Onot e tomariam suas
precauções. Uma nova invasão da Terra seria inevitável. Para
eles, Onot deve continuar a ser apenas um druuf traidor... Seria uma
perturbação psíquica; muito bem. Mas nunca devem concluir que está
dominado pelo espírito de um terrano.
— Compreendo
— murmurou Manoli e passou a caminhar de um lado para outro. —
Acontece que não sei como poderemos encontrar Ellert, sem
despertarmos a atenção de ninguém.
— Ainda
esta noite Gucky e eu nos teleportaremos à capital — disse Rhodan.
— É possível que lá surja alguma possibilidade de descobrir o
paradeiro de Onot. Se um druuf puser os olhos em nosso rato-castor,
por certo não haverá de acreditar que se trata de um terrano. E bem
verdade que eu terei de me manter escondido.
Manoli
sorriu.
— É
verdade. Dificilmente alguém acreditará que Gucky é um ser humano.
Apesar disso, sua aparição não deixa de representar um perigo para
nós. É bem possível que alguém tenha ouvido falar dele.
— Gucky
terá o máximo de cuidado — prometeu Rhodan e continuou a refletir
com um máximo de concentração.
De
repente, teve a impressão de se encontrar num beco sem saída.
E teria de
sair do tal beco até o meio-dia do dia seguinte.
4
Antes de
mais nada, Ellert pensou nas anotações relativas à hiperpropulsão
linear que Onot trazia no bolso. Sabia que dispunha de energia
suficiente para abandonar o corpo de Onot, sem que isso representasse
qualquer perigo para ele. Porém não tinha a menor idéia da
distância que poderia percorrer nos seus saltos. E se não possuísse
forças para penetrar logo num outro corpo...
Nem se
atreveu a pensar nas conseqüências. Mais uma vez, teria de realizar
uma peregrinação imaterial pela eternidade.
— Está
bem, Onot
— comunicou depois de algum tempo ao druuf. — Se
quiser obedecer-me, tentaremos juntos pregar uma peça ao juiz.
Evitarei que você seja submetido a exame médico, e farei com que
mais tarde, quando eu o tiver abandonado, ninguém lhe possa fazer
nada.
— Como
pretende fazer isso?
— Eu
lhe darei uma nova memória, que corresponderá à antiga e permitirá
que você conserve sua personalidade. Porém não me conhecerá mais.
Será como se nunca tivesse existido para você. E, quando se
encontrar diante do juiz, dirá a verdade. Os detectores de mentiras
poderão provar isso. Você deixará de ser um traidor.
A idéia
de uma nova memória não era muito simpática para Onot, mas teve a
percepção lógica de que, para ele, não havia solução melhor.
— Estou
de acordo — disse.
— Daqui
a uma hora será noite. Hoje não virão buscá-lo mais. Fugiremos de
noite. Procuraremos chegar a seu velho laboratório nas montanhas,
onde poderemos “equipar-nos”. Talvez até lá consiga descobrir
onde estão meus amigos. Assim que eu os encontrar, você estará
livre. Quando voltar a enfrentar o juiz, estará “equipado” com
sua nova memória.
Onot não
se sentia muito à vontade dentro da sua grossa pele.
— Por
que irei fugir se devo voltar a apresentar-me?
— Para
provar sua boa vontade e sua consciência tranqüila. Garanto-lhe que
isso bastará para convencê-los.
— Como
faremos para sair da prisão?
— Deixe
isto por minha conta, meu caro Onot.
O druuf
deu-se por satisfeito. Deitou sobre a cama e, seguindo a ordem de
Ellert, procurou dormir.
Assim que
fechou os olhos e relaxou um pouco, Ellert fez a primeira tentativa.
Mais uma
vez, viu Onot deitado a seus pés, enquanto ele mesmo flutuava
livremente no espaço, sem corpo e sem peso. Atravessou o teto e
viu-se no interior de outra cela. Um druuf acorrentado estava deitado
no chão, dormindo. Tudo indicava que não recebera um tratamento tão
bom quanto o de Onot; provavelmente não era nenhum célebre
cientista.
Ellert
preferiu não escolher essa pobre criatura como objeto de suas
experiências. Seria preferível escolher algum druuf que estivesse
em liberdade.
Sem a
menor dificuldade, atravessou as paredes e viu-se no corredor.
Naturalmente seria fácil “desaparecer”
pura e simplesmente. Mas nesse caso, Onot continuaria no interior da
cela e, com ele, as importantes anotações que, só em último caso,
estaria disposto a abandonar. Era claro que poderia procurar
diretamente o presidente da Corte e influenciá-lo, mas teve a
impressão de que isso seria muito arriscado. Um insignificante
guarda que cometesse um erro não despertaria muito interesse. Mas se
além de Onot também o juiz mais graduado sofresse uma perturbação
de suas faculdades mentais, o fato não poderia deixar de provocar
suspeitas.
Devia-se
ter a impressão de que Onot fugira de forma natural.
Ellert
desceu através do soalho e chegou ao corredor que levava à cela de
Onot. Já estava em condições de regular à vontade a velocidade de
seu “vôo”,
e tinha certeza de que conseguiria vencer distâncias maiores. No
entanto, ainda não arriscaria um salto que o levasse de um planeta a
outro.
O plano
temporal dos druufs se adaptara até certo ponto ao Universo
einsteiniano, mas tal proximidade não duraria muito. Dentro de
alguns meses, os dois planos temporais voltariam a afastar-se e as
diferenças nas dimensões temporais aumentariam, até que o tempo do
Universo dos druufs corresse novamente setenta e duas mil vezes mais
devagar que, por exemplo, o da Terra. Atualmente só corria duas
vezes mais devagar. Como os druufs fossem grandes e pesados, quase
não se notava essa diferença. Além disso, Ellert já se acostumara
ao aspecto daqueles seres lerdos, sem lembrar-se constantemente de
que, para eles, o tempo fluía apenas à metade da velocidade do
tempo dos terranos.
Sentiu os
pensamentos de um druuf que se aproximava.
Um homem,
ou qualquer outro ser corpóreo, sem dúvida se sentiria inclinado a
esconder-se. Mas Ellert não era um homem sob esse ponto de vista.
Continuou onde estava, pois nenhum ser poderia encontrá-lo, caso ele
não quisesse.
O druuf
dobrou a esquina do corredor. Ellert já sabia que era o guarda que
levava o jantar de Onot.
“É
uma
boa oportunidade de experimentar duas coisas ao mesmo tempo”,
pensou Ellert muito satisfeito.
Poderia
ver como Onot se comportaria, enquanto não estava submetido à sua
influência e, ao mesmo tempo, tentaria assumir o corpo do guarda.
O druuf
forneceu, em primeiro lugar, o alimento dos prisioneiros que se
encontravam do outro lado do corredor. Finalmente, chegou à porta
atrás da qual ficava a cela de Onot. Abriu a portinhola e colocou
uma tigela sobre a tábua.
— Sua
comida, Onot — disse e esperou, até que o prisioneiro se
aproximasse da porta. — Tudo preparado para a noite?
Ao que
parecia, Onot estava dormindo, pois levou quase trinta segundos para
chegar à porta e poder dar uma resposta.
— Tudo
em ordem — respondeu. Pegou a tigela e voltou à cama. Não emitiu
um único impulso que pudesse ser interpretado como uma intenção de
trair Ellert.
O guarda
fechou a portinhola e afastou-se, arrastando os pés.
Ellert
seguiu-o — em sentido figurado — até a sala dos guardas. Mais
dois guardas estavam lá e se preparavam para passar a noite. Atrás
da sala havia uma grade metálica que fechava um corredor. Ellert
sabia que a galeria terminava na sala de controle, onde todos os
visitantes eram examinados por meio de raios capazes de detectar a
presença de armas ou ferramentas. Além disso, naquela sala ficavam
os registros. Todos os prisioneiros eram registrados eletronicamente,
na entrada e na saída.
Ellert
deixou os três guardas entregues a si mesmos, depois de descobrir
que eram os únicos funcionários a tirarem plantão noturno no
interior da prisão propriamente dita. Havia apenas mais um druuf
junto à saída, que controlava a porta eletrônica.
Quando
voltou a sentir a presença de Ellert, Onot pouco se sentiu surpreso.
— Fez
uma excursão? — perguntou, enquanto comia o resto do mingau que
lhe haviam servido. — Acho que a comida de prisão é ruim em
qualquer lugar do Universo. Se não estivesse com fome...
— Você
tem de conservar as forças
— advertiu Ellert. — Andei
examinando a situação. Acho que a fuga não seria difícil. Não se
esqueça de que a escapada deve parecer inteiramente normal. E tem de
ser realizada hoje, pois amanhã será tarde
— nem desconfiava de quanto essa opinião era correta. — Daqui
a algumas horas, quando a cidade estiver dormindo, assumirei um
guarda e voltarei. Assim que este abrir a porta, você o derruba com
uma pancada. Acha que será capaz disso?
Onot
colocou a tigela embaixo da cama.
— Acredito
que sim. É verdade que sou contrário a todo e qualquer tipo de
violência. Porém, na situação em que me encontro, vejo-me
obrigado a abandonar certos princípios. O que poderei usar como
arma?
— Infelizmente
não lhe posso dar nenhuma arma. Acho que você poderá quebrar a
perna dessa cadeira. Vamos preparar tudo.
A cadeira
parecia muito frágil, mas não era. Onot teve de fazer um esforço
tremendo para arrancar uma perna da mesma, que representava uma arma
respeitável.
— É
claro que poderia fazer com que um guarda lhe desse uma arma de
radiações, mas nesse caso sua fuga se tornaria misteriosa, e é o
que não deve acontecer. Deve parecer uma fuga inteiramente normal.
Onot
estendeu-se na cama. Colocou a perna da cadeira ao seu lado.
— Pronto;
podemos começar. É uma pena que não exista outro meio de convencer
o presidente da Corte de Justiça.
— Quando
estiver na hora, eu o acordarei
— disse Ellert, sem dar atenção à observação que Onot acabara
de fazer. — Durma
um pouco.
Passado
algum tempo, Onot adormecera. Ficara livre da carga de angustia que
pesava sobre ele. Já não via o futuro com tamanho desespero.
Ellert
também descansou, muito embora, em seu caso, não se pudesse falar
em sono. O sono é um fenômeno orgânico. Até mesmo o espírito que
se encontra dentro de um corpo adormecido apenas está descansando. O
espírito nunca dorme.
As horas
foram passando. Ellert não “pensava”,
e foi por isso que Gucky não conseguiu captar seus impulsos. Eram
muito débeis para que alguém pudesse detectá-los. E mais tarde,
Gucky desistira de captá-los.
Lá fora
já era noite. Ellert teve vontade de sair numa excursão, mas a
fraqueza, que acabara de vencer, fê-lo desistir desse intento. Quem
lhe garantiria que a mesma não poderia voltar? De qualquer maneira,
a experiência do fim da tarde lhe infundira nova coragem.
Olhou para
o relógio de Onot. Era meia-noite.
O
cientista estava mergulhado num sono profundo. Ellert quase chegou a
ter pena de acordá-lo, mas Onot devia estar preparado, quando o
guarda aparecesse.
— Está
na hora, Onot! Acorde!
Onot
despertou ao primeiro impulso. Ergueu-se e olhou em torno, como se
tivesse de fazer um esforço para lembrar-se de onde estava.
Finalmente recuperou a memória. Pôs a mão na perna da cadeira.
— Já
está chegando?
— Não,
mas vou buscá-lo e faço-o entrar. Quando isso acontecer, derrube-o.
Não bata com muita força, para não matá-lo.
— Infelizmente
não tenho nenhuma experiência nessa área — respondeu Onot e
piscou os quatro olhos.
Ellert
teria sorrido, se fosse capaz disso. Como não era, despediu-se com
um impulso amável e desprendeu-se do corpo de Onot. Dali a um
segundo, já estava atravessando o comprido corredor e chegou à sala
dos guardas. Um dos druufs estava deitado num leito e dormia. Os
outros dois — inclusive o guarda que cuidava de Onot — achavam-se
sentados junto a uma mesa e Jogavam. Por não conhecer o jogo, Ellert
compreendeu que talvez seria obrigado a introduzir uma pequena
modificação em seus planos.
Penetrou
sem a menor dificuldade no cérebro do druuf e assumiu-lhe a
consciência, desligando-a e vedando-o com um bloco amnésico. O que
o guarda passou a pensar e fazer, dali em diante, não resultava de
sua vontade e, mais tarde, não se lembraria disso. Quando acordasse
no interior da cela de Onot, não saberia dizer como fora parar lá.
Ellert
contemplou o homem que estava sentado à sua frente através dos
olhos do guarda.
— É sua
vez! — disse em tom enérgico.
Era fácil
dizer isso. Mas esse estranho jogo não constituía a especialidade
de Ellert.
Porém, de
repente, encontrou uma saída. Levantou o braço e olhou para o
relógio — o relógio do guarda.
Levantou-se.
— Daqui
a pouco, continuaremos nosso jogo. Tenho de fazer uma ronda — o
adormecido centro de memória do guarda lhe dera essa informação. —
Já passou da hora.
— Até
parece que isso é muito importante. Você não costuma ser assim...
— Mas
hoje sou — respondeu Ellert e saiu da sala.
Percebeu
que o outro druuf ficou um tanto desconfiado, mas não se preocupou
com isso. Mesmo que mais tarde o colega do guarda declarasse que este
tivera um comportamento estranho, tal fato não provocaria maiores
suspeitas. Além disso, o guarda não teria interesse em fazer alarde
de sua impontualidade.
Ellert —
ou seja, o guarda — foi andando pelo corredor, em direção à cela
de Onot. Tirou do bolso uma chave, consistente numa combinação
eletrônica, enfiou-a na fenda e a ligou.
A porta da
cela de Onot abriu-se imediatamente. O guarda entrou, sem desconfiar
de nada. Ellert viu Onot de pé ao lado da cama, segurando a perna da
cadeira com ambas as mãos. Parecia hesitar. Talvez preferisse
esperar até que Ellert se encontrasse novamente em seu corpo, o que
evidentemente seria um absurdo, pois Ellert não sentiria qualquer
dor física, caso não quisesse.
— Bata
logo! — fez o guarda dizer.
Por um
instante divertiu-se com o rosto atoleimado de Onot. Mas logo
abaixou-se — em sentido figurado — pois Onot deu um enorme salto
em sua direção, brandindo a perna da cadeira. Atingiu a parte
posterior do crânio do guarda.
Enquanto o
druuf caía ao chão, Ellert abandonou-o e penetrou em Onot.
— Muito
bem, amigo. Este não acordará antes do amanhecer.
Onot
colocou, cautelosamente, a perna da cadeira no chão.
— Será
que ele tem uma arma?
Naturalmente,
Ellert não se lembrara disso. Na sala dos guardas, havia armas em
abundância. Mas também havia um druuf que queria continuar seu
jogo.
— Ainda
arranjaremos uma arma, Onot. Faço votos de que nunca tenhamos
necessidade de usá-la. Vá andando!
Ao que
parecia, Onot gastara toda a coragem no golpe que desferira no
guarda. Agora não lhe sobrara muita. Hesitou.
— O que
devo fazer se aparecer alguém?
— Deixe
isso por minha conta, Onot. Vamos logo; não podemos perder tempo.
O druuf
obedeceu. Saiu para o corredor e foi caminhando em direção à sala
dos guardas. Ellert correu à sua frente e “assumiu”
o guarda que estava sentado à mesa. Aplicou-lhe um bloqueio amnésico
e ordenou-lhe que fosse dormir.
Dali a
dois minutos, quando Onot entrou na sala dos guardas, viu os dois
homens deitados em suas camas. Não se mexiam, pois dormiam
profundamente. Ellert sabia que, a essa hora, nem mesmo um tiro de
canhão seria capaz de despertá-los.
— Ali
na parede há armas
— disse a Onot. — Entre
elas há alguns radiadores de choque de grande alcance. Acho que você
deveria pegar um deles. Posteriormente, isso servirá de prova de seu
ânimo pacífico, que você poderá apresentar, quando estiver de
novo à frente do juiz.
— Nem me
fale nisso! — disse Onot em tom indignado e pegou uma das armas.
Como
cientista que era, naturalmente tinha algum conhecimento desses
artefatos eletrônicos e sabia quais eram as funções que
desempenhavam. Examinou a carga e colocou a arma no cinto de sua
capa.
— E
agora? — perguntou, em tom mais confiante.
— Muito
bem
— disse Ellert. — Passe
por essa porta. Atrás dela fica a sala de controle e, também, a
saída.
Evidentemente,
Ellert não tinha qualquer influência sobre o cérebro eletrônico.
No dia
seguinte, quando lhe indagassem sobre a fuga de um preso, o guarda
diria simplesmente que Onot passara sozinho na barreira; ninguém se
encontrava em sua companhia.
Chegaram à
saída sem quaisquer problemas.
Ellert
correra à frente e “assumira”
o guarda postado ali. Onot não teve a menor dificuldade em deixá-lo
inconsciente com um disparo de sua arma. O druuf atingido levaria
pelo menos cinco horas para acordar.
— Ótimo
— disse Ellert muito satisfeito, quando viu o guarda caído atrás
da mesa. — Aperte
o botão que se encontra junto ao videofone. É ele que aciona o
portão.
Onot
começou a divertir-se com a fuga. Ninguém contestaria que se
tratava de um acontecimento fora do comum. Dispunha de um auxiliar
valiosíssimo. Se estivesse só, nunca se teria arriscado a fugir, e
muito menos conseguiria.
— No
espaçoporto estão estacionados os táxis planadores. Pegaremos um e
voaremos ao laboratório nas montanhas. Uma vez lá, veremos o que
podemos fazer.
— Pegar
um planador? O espaçoporto está sempre vigiado.
Ellert riu
em silêncio, mas Onot percebeu perfeitamente.
— Você
acaba de ver quanto vale um guarda. Eles não nos causarão
problemas.
Neste
ponto, Ellert tinha razão, mas havia um detalhe que o mutante
desconhecia...
Todo
guarda estava equipado com um aparelho de controle positrônico,
parecido com uma minúscula câmara fotográfica. No centro de
controle do edifício do tribunal, um técnico estava sentado à
frente de uma parede coberta por centenas de pequenas telas. Cada uma
dessas telas exibia exatamente o quadro que o portador do respectivo
aparelho de controle focalizava.
E, numa
das telas, o técnico vira uma cela em cujo interior um druuf —
segundo a tabela, era o preso Onot — golpeou o guarda com uma perna
de cadeira. Deu o alarma geral.
*
* *
— É uma
área desolada. O solo é rochoso e praticamente não apresenta a
menor vegetação. Acredito que seja desabitada — era Ras Tschubai
quem estava transmitindo esse relato.
Gucky
confirmou-o à sua maneira peculiar, pondo à mostra o dente roedor
solitário.
— Não
poderíamos ter escolhido esconderijo melhor que este. Até parece
que pousamos no centro dos Alpes.
— De
dia, as coisas serão diferentes — disse Rhodan, manifestando seus
receios. — Precisamos camuflar a gazela. O ideal seria alguma rocha
saliente.
— Encontramos
uma, Sir. Se Mundi achar que pode se arriscar...
O tenente
encolheu-se, como se alguém tivesse colocado uma medalha
incandescente sobre seu peito.
— Arriscar-me?
Se necessário levarei esta panqueca para dentro de uma toca de rato,
sem provocar o menor arranhão.
Ras
sorriu.
— Eu
sabia. Tomara que o senhor seja capaz de fazer isso de noite.
— Se
ligar a tela de luz infravermelha, não haverá problema, meu caro.
Não convém acender os holofotes. Basta mostrar onde fica o
esconderijo...
Rhodan
interrompeu Mundi.
— Ninguém
duvida de sua habilidade como piloto, tenente. Será necessário que
nos dirijamos imediatamente ao esconderijo. Ninguém sabe se, de
noite, a área costuma ser patrulhada por unidades equipadas com
aparelhos de luz infravermelha. Então, Ras, faça o papel de
navegador.
A manobra
durou quase uma hora. Finalmente, conseguiram pousar a gazela junto
ao paredão de rocha íngreme, que a uma altura de cinqüenta metros
avançava a ponto de barrar a visão para cima.
Rhodan
estava muito cansado. Mas havia muita pressa.
— Vamos
dar um pulo à cidade, Gucky. Não manteremos contato pelo rádio,
pois do contrário poderemos ser localizados pelos goniômetros. Se
alguma coisa acontecer por aqui, Gucky saberá. Se houver
necessidade, decole, Tenente Mundi. Em hipótese alguma, a gazela
deverá ser destruída. Se isso acontecer, entrarei em contato com
Hades. O corpo de Ellert é mais importante que nosso regresso na
hora combinada...
— Sim
senhor — disse Mundi, mas deu a perceber que tinha suas dúvidas,
quanto ao que Rhodan acabara de dizer.
Ras
Tschubai limitou-se a fazer um gesto de assentimento. Notava-se que
estava bastante preocupado. Manoli, que acabara de entrar na sala de
comando, disse:
— Na
base está tudo preparado. Assim que o espírito de Ellert penetrar
no corpo, o processo de revitalização será iniciado
automaticamente. Acredito que haja necessidade de uma troca de
sangue. É bem verdade que o braço direito...
— Deixemos
isso para depois — interrompeu-o Rhodan, que não queria perder um
segundo que fosse. — Ellert receberá uma prótese como nunca
nenhum ser humano teve igual.
Ainda
formulou algumas recomendações para os que ficariam. Depois segurou
a pata direita de Gucky. O rato-castor conhecia o ponto de destino,
mas preferiu não teleportar-se diretamente para o edifício da Corte
de Justiça.
Quando o
espaço tridimensional voltou-lhe a surgir diante dos olhos, Rhodan
não viu muita coisa. Estava escuro; só as estrelas proporcionavam
uma fraca penumbra. À direita, paredes íngremes erguiam-se,
impedindo a vista para o céu. À esquerda, nada parecia impedir a
visão do horizonte, ao menos de dia.
— Onde
estamos?
— A
cidade fica a vinte quilômetros — respondeu Gucky, que perscrutava
a escuridão. — Os impulsos mentais são mais escassos; os druufs
estão dormindo. É uma tremenda confusão. Gostaria de saber o que
esses hipopótamos costumam sonhar.
Rhodan não
pôde deixar de rir.
— Ainda
não encontrou nenhum sinal de Ellert?
— Não.
Espere aqui. Saltarei até a prisão e procurarei a cela dele. As
indicações de Harno não foram muito exatas.
— Ah, é?
Então você quer que eu fique aqui? E se aparecer alguém?
Gucky fez
um sinal, mas Rhodan não o viu.
— Num
raio de dez quilômetros não há viva alma, se é que os druufs têm
alma. Voltarei dentro de poucos minutos. Além disso, manterei
contato mental com você.
Rhodan não
se sentiu muito à vontade, mas permitiu que Gucky se afastasse.
Reconheceu que conviria melhor aos seus objetivos que o rato-castor
saísse sozinho, para fazer um reconhecimento.
— Isto
são rochas?
— É uma
pequena cadeia montanhosa. Enquanto for noite, ninguém o encontrará
por aqui. Fique encostado ao paredão.
A
escuridão não era completa, mas bastava para impedir que Rhodan
visse o torvelinho que se formou no momento da desmaterialização de
Gucky.
O
rato-castor calculou seu salto, a fim de surgir na periferia da
cidade. Dali em diante, poderia realizar teleportações de curta
distância, que seriam menos cansativas.
De início
não viu ninguém. As ruas, que se estendiam sob o céu salpicado de
constelações estranhas, estavam abandonadas. Só nos cruzamentos
havia lâmpadas fortes. Ao que parecia, não estavam dispostos a
realizar despesas com iluminação em outros lugares. Gucky sentia-se
grato por essa medida dos druufs, muito embora não compreendesse sua
finalidade.
Após três
saltos, colocou-se junto da grande abóbada com a qual já travara
conhecimento por ocasião de outras visitas. Era ali que funcionava o
Conselho dos Sessenta e Seis, o órgão governamental de Druufon. Uma
vez no local, conhecia o caminho que levava ao edifício da Corte
Suprema e à prisão.
Com mais
dois saltos, viu-se junto à parte dos fundos de uma enorme
construção, que parecia atingir as estrelas. Naturalmente, essa
impressão não passava de uma ilusão ótica, provocada pela
escuridão. Em geral, as casas dos druufs eram mais largas que altas.
Gucky
refletia para onde deveria dirigir o próximo salto, quando um
acontecimento interrompeu abruptamente o silêncio da noite.
As luzes
das ruas da cidade acenderam-se!

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