quinta-feira, 25 de agosto de 2016

P-091 - O Regresso de Ernst Ellert - Clark Darlton [Parte 2]

Qualquer assassino costuma declarar que é inocente. Traga as provas de sua inocência.
Nada disso! — exclamou Onot. — Vocês têm de provar que sou culpado!
Por um segundo, Ellert esqueceu-se das cautelas que devia adotar, porque tinha a sensação do triunfo. O intelecto de Onot rebelou-se contra a tutela exercida por Ellert. Onot disse:
É claro que liguei o transmissor, mas permitam que explique...
O presidente da Corte parecia um tanto perplexo. O traidor negara tudo, e logo a seguir confessara. Uma confissão desse tipo não vale muita coisa, pois tinha-se a impressão de que resultava de alguma forma de induzimento.
Ellert voltou a subjugar Onot. O druuf prosseguiu:
Naturalmente retifico o que acabo de declarar. Não sei o que me fez confessar um ato que não cometi.
Por que não me obedece? — perguntou Ellert, sentindo o esforço que teve de fazer como se fosse uma dor física. — Será melhor para você mesmo.
Mas Onot lutava denodadamente contra sua subjugação mental.
O traidor não sou eu, mas minha voz! — exclamou em tom de desespero. — Ela me obriga...
A voz? — interrompeu o presidente da Corte e lançou um olhar bastante expressivo para seus colegas. Começava a imaginar onde o acusado pretendia chegar. — Que voz é essa?
Desta vez, Ellert se manteve vigilante. Fez com que Onot respondesse:
Isso mesmo; minha voz. Com esta palavra quero designar as pessoas que têm inveja de mim, e que me atribuem atos que nunca pratiquei. Reafirmo minha inocência. Afinal, presenteei meu povo com um grande número de inventos valiosos.
Esse fato será considerado a seu favor, Onot — disse o juiz com uma estranha benevolência. — Uma confissão livre e espontânea melhoraria ainda mais a sua situação.
A essa altura, Ellert já tinha compreendido que não conseguiria submeter Onot à sua vontade para sempre e ininterruptamente. Era capaz de fazê-lo a curtos intervalos. Mas vez por outra, era obrigado a libertar o espírito de Onot.
Quem sabe se não poderia transformar essas oportunidades numa tática inteligente, transformando sua fraqueza numa arma? Se Onot caísse em contradição, admitindo sua culpa para cinco minutos após isso negá-la energicamente, isso só poderia confundir os juizes e a assistência. Deixou Onot entregue a si mesmo.
Foi a voz que me ordenou que ligasse o transmissor. De qualquer maneira, não o teria feito se fosse dono de mim mesmo. Não tive condições de me defender. A voz apossou-se de meu corpo e dirigiu meus músculos e nervos. Foi ela quem movimentou minhas mãos e me obrigou a ligar o transmissor.
Onot calou-se, exausto. Apressara-se em confessar sua culpa, pois receava que não poderia falar à vontade por muito tempo. Mas, para seu enorme espanto, o inimigo terrível não procurou impedi-lo. Antes que o juiz pudesse fazer qualquer observação, prosseguiu apressadamente:
Um espírito alojou-se dentro de mim. Ele não vem deste mundo, mas de um planeta que fica a muitos anos-luz de distância. Agora perdeu as forças e já não me domina. Seu mundo é...
Calou-se, pois Ellert não estava dormindo. Havia certas coisas que Onot não devia contar. Por isso, os ouvintes ficaram bastante espantados, quando Onot prosseguiu:
Não dêem atenção ao que estou dizendo. O que acabo de dizer é simples loucura. Não é verdade. Não sou nenhum traidor.
O presidente da Corte perdeu a paciência.
Onot, você quer nos enganar, simulando um colapso nervoso. Você não conseguirá nada com isso. Você confessa e, logo a seguir, nega tudo. Uma voz! Ora essa! Será que poderíamos ver sua voz?
A voz é invisível e está em toda parte, juiz. Neste momento está na sala em que nos encontramos. — Onot prosseguiu sem a menor pausa: — Às vezes chego a imaginar que a voz realmente existe, e que ela se encontra no interior do meu cérebro.
Pois então! — o presidente da Corte fez um sinal para um dos oficiais de justiça. — Providencie para que os médicos cuidem de Onot. Testemunha Brodak, sua presença não é mais necessária. Levem o acusado à sua cela. O processo fica suspenso até que recebamos o laudo médico.
Quando os guardas o seguraram, Onot defendeu-se desesperadamente.
Ellert sabia que, se não acontecesse o milagre, não passaria pela prova que tinha pela frente.

* * *

A esfera tinha cinqüenta centímetros de diâmetro, era leitosa como uma tela de TV e flutuava no centro da sala.
Perry Rhodan, Bell e o Coronel Sikermann, comandante da Drusus, estavam sentados perto dela e observavam os acontecimentos transmitidos por Harno. Tais acontecimentos se desenrolavam no planeta Druufon.
Harno, que se tornara membro regular do Exército de Mutantes, podia “ver” qualquer ponto do Universo e, em sua superfície, a visão se tornava perceptível aos olhos humanos. Além disso, sabia transmitir expressões verbais por via telepática, mesmo a seres que não possuíssem o dom da telepatia.
E foi assim que os três homens puderam assistir ao ato judicial, que estava sendo realizado em Druufon.
Rhodan disse:
Ellert está travando uma luta desesperada contra Onot, que vem se tornando cada vez mais forte. Quem dera que conhecêssemos as causas de sua debilidade progressiva. Nesse caso, talvez poderíamos fazer alguma coisa para combatê-la. Harno, será que você não nos poderia dar alguma informação a este respeito?
O ser esférico mantinha-se imóvel no ar. Compreendera a pergunta e respondeu por via telepática:
Ellert é um espírito sem corpo. Só um corpo consegue manter-se no presente; um espírito não está preso ao tempo nem ao espaço. É como se fosse um homem agarrado a uma pedra, no meio de uma violenta correnteza, e que tem de segurar-se com toda força para não ser carregado pela água. Se sua força diminuir, acabará se soltando e será arrastado. Já faz alguns anos que Ellert se segura na pedra representada por Onot.
Rhodan fez um gesto de assentimento.
Compreendo; naturalmente a explicação é figurada. Gostaria de saber o que podemos fazer.
Harno respondeu:
Só há um meio. Ellert tem de regressar a seu corpo. Por enquanto ainda pode realizar o salto... talvez. Do contrário terá de permanecer, para sempre, no interior de Onot, não como dominador, mas como o subconsciente reprimido do druuf. Seria um destino nada agradável.
Muitos seres vivos têm um subconsciente — interveio Bell. — Será que dali se deve concluir...
Não tire conclusões apressadas — advertiu Harno. — Todo e qualquer ser orgânico inteligente tem um espírito, uma alma. E esta alma é dupla; só isso. O intelecto que se mantém na superfície corresponde ao que costumamos chamar de inteligência, enquanto o adversário reprimido é o subconsciente.
Quer dizer que essa situação não se compara com o estado em que Ellert se encontraria depois de derrotado?
Será que eu afirmei isso?
Tive essa impressão.
Se fosse assim, todo homem possuiria duas almas, dois intelectos.
Rhodan achou preferível interromper o debate. Se Harno começava a filosofar, ninguém podia prever quando iria terminar.
Talvez seja isso mesmo — disse e viu os dois druufs levarem Onot. — Seria bom se pudéssemos aproveitar a pausa. Freyt deverá chegar dentro em breve.
A superfície de Harno modificou-se. Figuras coloridas correram sobre seu corpo esférico e aos poucos foram-se unindo num quadro.
Era o espaço cósmico. Milhões de estrelas tornavam o infinito num veludo negro coberto de brilhantes. Visto a uma distância maior, o veludo pareceria branco.
Uma pequena esfera flutuava perto de outra, quinze vezes maior.
É a Ohio e nós — disse Rhodan. — Freyt ainda não chegou. Pela mensagem que recebemos, já deveria...
Enquanto Rhodan ainda falava, um pequeno cruzador da frota materializou-se a menos de dois segundos-luz. Deslocava-se a uma velocidade vertiginosa, porém o televisor vivo, Harno, mostrou-o e penetrou em seu interior.
É Freyt — disse Rhodan com um suspiro de alívio, enquanto via a nave reduzir a velocidade e descrever uma curva ampla, para voltar ao ponto em que emergira do hiperespaço. — Harno, daqui em diante você vigiará Onot ininterruptamente e me avisará, assim que o druuf seja levado para ser submetido ao exame médico. É bem possível que não tenhamos mais muito tempo.
Sem responder nada, Harno subiu ao teto e tornou-se menor. A imagem projetada em sua superfície apagou-se. O Coronel Sikermann também se levantou, de maneira lenta e compenetrada.
Os três saíram da cabina, a fim de preparar a ação que se aproximava.

* * *

O Marechal Freyt não perdeu muito tempo com os cumprimentos. Mal o cruzador entrou no gigantesco hangar da Drusus, uma abertura surgiu no ventre do pequeno veículo espacial e uma pequena rampa desceu.
Um carro apareceu. Era a maça. Via-se o corpo de um homem, coberto de panos brancos. Freyt, Haggard e Jamison seguiram-no. Logo que chegaram ao lado do carro, Rhodan veio correndo e apertou a mão de Freyt.
Vejo que trabalhou depressa, Freyt. Como está Ellert?
O Marechal respondeu com a voz preocupada:
Não sei. Não gostei do seu aspecto. Nem Haggard. A pele já assumiu uma cor azulada em todas as regiões do corpo.
Naquele momento Eric Manoli, médico e amigo de Rhodan, chegou ao hangar. Ouvira as últimas palavras do colega.
Vejo que a alma continua a manter uma ligação com o corpo, mesmo que se encontre longe — disse, enquanto cumprimentava os três homens. — Ellert constitui a melhor prova disso.
Como?
Manoli lançou um olhar de surpresa para Haggard.
Acho que é muito simples. Antigamente, o espírito de Ellert enviava uma pequena fração de sua energia ao corpo, vencendo o espaço e o tempo, a fim de fazê-la chegar ao túmulo situado na Terra. Atualmente, esse espírito está muito fraco. Suas forças estão desgastadas. Seu subconsciente, ou seja lá que nome se queira dar a isso, não dispõe mais de nenhuma energia. O corpo abandonado começa a morrer.
Fora mais ou menos o que Harno exprimira, sem saber das palavras de Manoli.
Por que o espírito de Ellert está ficando fraco? — perguntou Rhodan.
Porque o de Onot está ficando mais forte — respondeu Manoli.
Rhodan preferiu não fazer outras perguntas. Aproximou-se do carro e levantou os panos. No momento em que viu o rosto de Ellert levou um susto. Os olhos fechados pousavam profundamente nas covas negras. A pele era de um azul esmaecido.
Durante setenta anos, o corpo de Ellert não sofrerá qualquer modificação. Parecia que o teletemporário apenas dormia, mas agora o repouso estava chegando ao fim. O corpo de Ellert já tinha o aspecto de um organismo morto.
Rhodan controlou-se e ordenou:
Reginald Bell me substituíra no comando da Drusus. Ras Tschubai e Gucky me acompanharão. Sim, você também, Manoli. Vamos a Hades. E levaremos o corpo de Ellert.
Bell esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas preferiu ficar calado. Talvez o rosto de Rhodan lhe dissesse que qualquer tentativa de fazê-lo mudar de opinião estava condenada ao fracasso. Sikermann limitou-se a acenar, concordando. Freyt parecia desapontado.
Será que há tanta pressa?
Infelizmente sim. De qualquer maneira, agradeço-lhe por ter agido tão depressa. Se tivermos êxito, provavelmente deveremos agradecer isso à sua ação rápida. Volte à Terra. Espero que em breve voltemos a nos encontrar.
As despedidas foram curtas. Dali a dez minutos, Rhodan, Ras Tschubai, o teleportador africano e o rato-castor Gucky já se encontravam na jaula do transmissor. O carro com o corpo moribundo dirigiu-se também para o aparelho. A porta fechou-se atrás de Manoli. Uma luz verde acendeu-se, indicando que o receptor fora ligado em Hades.
Rhodan moveu a alavanca do aciona-dor e teve a impressão de que nada estava mudando, ao menos no interior do transmissor. No entanto, tudo já estava modificado. Bell, que se encontrara ao lado do aparelho, desapareceu de repente. No lugar dele, surgiu Marcel Rous, que aguardava a expedição. O capitão abriu apressadamente aporta da jaula.
Chegou rápido demais, Sir! — exclamou em tom de alívio. — Recebemos outro pedido de socorro irradiado pelo transmissor de Ellert. Infelizmente não temos nenhuma possibilidade de enviar-lhe uma mensagem. Seu minúsculo transmissor não está acoplado a qualquer receptor.
Daqui a pouco estabeleceremos contato pessoal com ele — disse Rhodan, enquanto dois homens, dirigidos por Manoli, empurravam para fora do transmissor o carro com o corpo de Ellert. — Prepare uma das gazelas para mim, capitão. Uma nave de reconhecimento de longo curso é o veículo que melhor se presta aos nossos objetivos.
Irá com a tripulação?
Não; apenas com um piloto. A empresa é um tanto perigosa, e quero que o risco seja o menor possível. Somos poucos, e assim é bem melhor.
Nesse caso sugiro o Tenente Werner Mundi.
O húngaro?
É austríaco, Sir. É um piloto muito competente. Acho que poderá confiar nele.
É o que preciso, Rous. Pois bem. Diga a Mundi que decolaremos dentro de meia hora. Ainda preciso mandar levar algumas coisas para a gazela.
A nave de reconhecimento tinha a forma de um disco de trinta metros de diâmetro. O bojo, medido de pólo a pólo, era de dezoito metros. Além de desenvolver a velocidade da luz, as gazelas eram capazes de realizar hipersaltos até uma distância de cinco anos-luz.
O Tenente Mundi estava sentado na poltrona do piloto, diante dos controles, e aguardava instruções. Seu rosto rosado e amável não era nada magro e irradiava simpatia. Quando falava inglês, seu sotaque gentil revelava às primeiras palavras onde estivera seu berço.
Ras Tschubai e Gucky também se acomodaram na sala de comando. Mantiveram-se em silêncio, pois não estavam gostando da tarefa que tinham diante de si. Os riscos eram demais, e não havia a menor indicação concreta de que conseguiriam fugir pela segunda vez de Druufon.
Rhodan e Manoli foram os últimos a entrarem na sala de comando da gazela, que ainda continuava estacionada no hangar subterrâneo da base de Hades. Antes, Perry providenciara para que uma grande caixa de equipamentos de combate do Serviço de Segurança Solar fosse colocada no compartimento de carga. Além de armas portáteis, havia bombas-relógio, material de sabotagem e, além de outras coisas, alimentos e medicamentos. Ao lado da caixa, encontrava-se o carro com o corpo de Ellert.
Saia de Hades, Tenente Mundi, e dirija-se a Druufon à velocidade da luz. A transição só deverá ser realizada, quando eu der ordem para isso.
Mundi respondeu com um sorriso amável e transmitiu ao pessoal que se encontrava na comporta da base subterrânea as instruções necessárias à decolagem. Dali a alguns segundos, o disco, sustentado pelos campos antigravitacionais, foi subindo lentamente e, aumentando de velocidade, passou pela galeria e dirigiu-se à superfície de Hades. As comportas abriram-se diante dele, e a gazela precipitou-se em direção ao céu escuro de Druufon, para logo a seguir desaparecer em meio às estrelas.

* * *

Os druufs não se apressaram.
Sentado sobre a cama, em sua cela, Onot contemplava o futuro com sérias preocupações. A essa altura, pouco importava se o espírito que o martirizava, realmente existisse ou não. Os juizes haviam solicitado o exame médico e hipnótico-psicológico. Era bem possível que durante o procedimento perdesse sua memória e viesse adquirir uma nova personalidade.
Talvez”, pensou numa disposição amarga, “teria sido preferível que eu tivesse obedecido à voz. Nesse caso, o juiz ao menos não iria supor que eu tivesse enlouquecido. Quando muito, teria sido interrogado com o auxílio do detector de mentiras e, nesse caso, forçosamente haveriam de chegar à conclusão de que eu estava dizendo a verdade. Ellert me instruiria sobre as respostas e nenhum detector de mentiras seria capaz de provar o contrário.”
Mas já era tarde para arrepender-se do erro cometido.
A culpa é sua — disse Ellert, que continuava a controlar os pensamentos de Onot.
Até teve a impressão de que aos poucos ia se recuperando das canseiras. Se Onot deixasse de oferecer resistência até poderia ser possível que conseguisse abandonar o corpo do druuf, sem que disso resultassem efeitos colaterais adversos.
Por que não confiou em mim?
Onot rememorou os acontecimentos, e seus pensamentos tiveram a feição de palavras faladas:
Como poderia confiar em você, depois de tudo que eu sabia a seu respeito? Você não está interessado na conservação de minha vida, porque sua vida corre perigo. Não acha que eu tinha todos os motivos para supor que você agiria da forma que melhor lhe conviesse? Estava disposto a pôr um fim na voz...
Com isso, você só se colocou em pior situação. Não estou sentindo nenhuma dor física ou espiritual, mas você está. O que pretende fazer?
Não tenho outra alternativa senão esperar.
Ellert sabia que Onot não estava mentindo. O druuf desistira definitivamente da luta. Mas já era tarde, até mesmo para ele, Ellert. Se Onot sofresse um choque mais forte, o espírito de Ellert poderia ser atirado para fora do corpo do druuf, e ninguém sabia o que aconteceria depois.
De repente, Ellert compreendeu que sua existência corria perigo.
Fez uma tentativa e constatou que voltara a dispor de energia suficiente para abandonar o corpo de Onot. Sem dúvida encontraria outro corpo em que poderia abrigar-se. Desde que se mantivesse quieto e em atitude passiva, poderia esperar até que Rhodan viesse buscá-lo.
Talvez a solução razoável fosse mesmo esta.
Comunicou suas idéias ao cientista, mas teve a surpresa de descobrir que Onot era de outra opinião.
Ah, quer dizer que você quer se retirar depois que, por sua culpa, me vejo nesta situação difícil. Quero que fique! Se puder, ajude-me. Deve haver uma possibilidade para isso.
Não vejo nenhuma saída — confessou Ellert. — Ainda acontece que a culpa é tanto sua quanto minha. Se tivesse obedecido...
Se tiver outra oportunidade, obedecerei — prometeu Onot.
Nesse momento exato, a idéia salvadora surgiu na cabeça de Ellert.

* * *

No momento em que as primeiras unidades de vigilância dos druufs surgiram bem ao longe, a gazela abrigou-se no hiperespaço.
Ali permaneceram, desmaterializados, apenas por uma fração de segundo. Logo voltaram ao espaço normal; era bem verdade que se tratava do espaço em que reinava a dimensão temporal dos druufs.
O décimo sexto planeta era gigantesco em meio ao espaço. Estava cercado por vinte e uma luas e uma frota montava-lhe guarda.
Enquanto Rhodan transmitia suas instruções ao piloto, um sorriso frio surgiu-lhe no rosto.
Mantenha ligado o neutralizador de vibrações. Ativar os campos defensivos. Prosseguiremos até a face noturna de Druufon, onde nos manteremos em posição de espera.
O Tenente Mundi também sorriu. Mas seu sorriso não era frio; antes exprimia gentileza e confiança.
Os druufs ficarão espantados se não nos descobrirem — disse num ilogismo que desarmaria qualquer pessoa. — Vamos defender-nos se formos atacados?
Se vamos! — respondeu Rhodan. Com isso, a situação ficou esclarecida. Agachado num canto do estreito sofá, Gucky parecia escutar seu próprio interior.
Sua capacidade telepática era tremenda; conseguia captar e interpretar impulsos mentais estranhos a uma distância de dezenas de milhares de quilômetros. Era claro que, naquele momento, estava captando um verdadeiro fluxo de impulsos vindos de Druufon, mas não conseguiu identificar os pensamentos de Onot, em meio a esse fluxo. Sua mente funcionava tal qual um rádio que captasse todas as emissoras ao mesmo tempo. Então, era-lhe difícil identificar a que interessava.
Gucky suspirou; parecia aborrecido.
Você devia ter trazido Harno — piou em tom de recriminação, abrindo os olhos por um instante, — Ele poderia aproximar-me de Onot.
Harno tem de permanecer com Bell a bordo da Drusus, a fim de que lá estejam sempre informados sobre nosso paradeiro — disse Rhodan em tom suave, mas firme. — O que há com Ellert? Por que não tenta encontrá-lo?
Seria ainda mais difícil — respondeu o rato-castor em tom indignado e voltou a fechar os olhos. — O fantasma já parou de pensar.
Rhodan preferiu não fazer o comentário que trazia na ponta da língua, e que não seria nada gentil para Gucky. Mas pensou. E Gucky compreenderia seus pensamentos.
Ras Tschubai era teleportador, mas não telepata, por isso, a pergunta que dirigiu a Gucky era típica de um leigo.
Você sabe em que lugar da capital fica a prisão, não sabe? Pois então! Por que não procura nesse lugar?
Gucky voltou a abrir os olhos, nos quais se lia um triste conformismo.
Como você é inteligente, africano. Acha que ainda não tentei? Acontece que nosso prezado Onot não se encontra mais na prisão.
Rhodan, que estava de costas para Gucky, virou-se abruptamente.
O que foi que você disse, Gucky? Onot não está mais na sua cela?
Não consigo encontrá-lo lá — respondeu Gucky, esquivando-se cautelosamente. — É claro que foi o lugar em que tentei antes de qualquer outro, mas acontece que Onot e Ellert já não sabem pensar, ou então estão em outro lugar.
E só agora você vem me dizer isso? — repreendeu-o Rhodan.
Fiz o possível para encontrá-lo — disse Gucky a título de desculpa. — Por que haveria de deixá-lo preocupado? É possível que Onot já tenha sido levado a alguma instituição onde está sendo submetido a exames. Não se preocupe; haverei de encontrá-lo.
Sem esperar resposta, voltou a concentrar-se.
O Tenente Mundi apontou para a tela.
Se quisermos pousar, devemos decidir logo. Daqui a pouco, voltaremos a sair da face noturna.
Existem barreiras?
Só muito acima do planeta. Já as atravessamos. Não nos localizaram goniometricamente; é ao menos o que espero. Se a sorte continuar a favorecer-nos, conseguiremos pousar, sem que ninguém perceba. Afinal, o novo dispositivo antilocalização está ligado.
Rhodan fez um gesto de assentimento.
Vamos pousar. Antes, porém, ligue a tela de luz infravermelha. Quero examinar a área. Felizmente grande parte da superfície do planeta consiste em montanhas e planaltos desabitados. Se encontrarmos um bom esconderijo, teremos melhores condições de operar.
Constataram que se achavam em posição lateral em relação a uma cidadezinha. Desenvolvendo elevada velocidade, afastaram-se algumas centenas de quilômetros na direção norte, até que se encontraram em cima de uma cadeia de montanhas entrecortadas por profundos desfiladeiros.
Mundi deixou a gazela baixar em direção à superfície, até que os paredões rochosos, que se erguiam de ambos os lados, foram reduzindo o segmento do céu que podiam alcançar com a vista. Finalmente, a nave pousou suave. Os propulsores silenciaram.
Foi um pouso bem feito — disse Ras Tschubai a título de elogio. — Tomara que ninguém nos encontre.
Examine nos mapas a que distância fica a capital — ordenou Rhodan em tom frio. — Todos foram confeccionados em conformidade com as indicações fornecidas por Ellert. Não têm muita precisão, mas acho que para os nossos fins serão suficientes.
O Tenente Mundi pôs-se a trabalhar e determinou o local de pouso. Depois disso, as coisas não foram muito difíceis.
Na capital é noite fechada, Sir. Fica a cerca de quinze mil quilômetros a oeste. No local em que pousamos, logo será dia.
De qualquer maneira poderemos dormir um pouco — disse Gucky e reiniciou suas pesquisas, como se quisesse provar que não estava falando sério. — Voltarei a tentar.
Deixe para lá — disse Rhodan. — É preferível que investigue as áreas adjacentes ao local de pouso, para evitar alguma surpresa desagradável. Quem sabe por quanto tempo teremos de esperar Ellert.
Devo ir só?
Não; Ras o acompanhará. Verifiquem se existem druufs nos arredores. Talvez consigam encontrar um esconderijo para a gazela. Prefiro não deixá-la exposta no desfiladeiro. Algum planador em vôo baixo poderia descobri-la.
Os dois teleportadores desapareceram para examinar o terreno. O Tenente Mundi resolveu dormir um pouco. Antes comeu alguma coisa. Era um sujeito notável! Nem para comer nem para dormir, saía da poltrona de piloto.
Rhodan dirigiu-se até a pequena enfermaria da nave, onde se encontrava o Dr. Manoli. Depois do pouso, o corpo de Ellert fora levado para lá, pois o compartimento de carga não parecia ser um local adequado.
Ellert estava deitado na cama. Rhodan percebeu que a coloração azul da pele aumentara, não muito, mas numa proporção capaz de causar preocupações.
Por quanto tempo a estrutura celular deverá conservar a capacidade de revitalização, Eric?
Os dois costumavam tratar-se por você. Manoli acompanhara Perry Rhodan há mais de setenta anos, quando este, na qualidade de major da Força Espacial dos Estados Unidos, pousou na Lua. Também recebera a ducha celular no planeta Peregrino.
Não tenho certeza, mas acho que uma demora de três dias já envolve certo perigo. Ellert deve retornar ao seu corpo amanhã, ou o mais tardar depois de amanhã. Depois será tarde.
Em Druufon, o dia dura quarenta e oito horas, Eric. Quer dizer que o regresso deve verificar-se até amanhã. De noite, praticamente não podemos fazer nada.
Quem dera que conseguíssemos estabelecer contato telepático. Não compreendo por que Gucky está fracassando.
Não está fracassando no verdadeiro sentido da palavra — disse Rhodan, em defesa do rato-castor. — As circunstâncias trabalham contra ele. Provavelmente, Ellert está tão fraco que seus impulsos mal chegam a ser irradiados. Apenas podemos fazer votos, para que o acaso venha em nosso auxílio.
Rhodan fitou o rosto de Ellert, com uma expressão pensativa.
O que mais me preocupa é que, segundo parece, Onot não se encontra mais na prisão. Gucky não consegue localizá-lo com seu goniômetro, conforme costuma dizer. Vê-se obrigado a procurá-lo em meio a milhões de impulsos.
Por que não se teleporta para a cela em que Onot esteve por último? Talvez lá consiga encontrar alguma indicação.
Mais tarde poderá fazer isso; por enquanto não. Devemos evitar de qualquer maneira que os druufs desconfiem de alguma coisa. Nunca devem descobrir que o cientista mantém qualquer tipo de contato conosco. Se isso acontecesse, logicamente teriam de admitir que também nos apoderamos das invenções de Onot e tomariam suas precauções. Uma nova invasão da Terra seria inevitável. Para eles, Onot deve continuar a ser apenas um druuf traidor... Seria uma perturbação psíquica; muito bem. Mas nunca devem concluir que está dominado pelo espírito de um terrano.
Compreendo — murmurou Manoli e passou a caminhar de um lado para outro. — Acontece que não sei como poderemos encontrar Ellert, sem despertarmos a atenção de ninguém.
Ainda esta noite Gucky e eu nos teleportaremos à capital — disse Rhodan. — É possível que lá surja alguma possibilidade de descobrir o paradeiro de Onot. Se um druuf puser os olhos em nosso rato-castor, por certo não haverá de acreditar que se trata de um terrano. E bem verdade que eu terei de me manter escondido.
Manoli sorriu.
É verdade. Dificilmente alguém acreditará que Gucky é um ser humano. Apesar disso, sua aparição não deixa de representar um perigo para nós. É bem possível que alguém tenha ouvido falar dele.
Gucky terá o máximo de cuidado — prometeu Rhodan e continuou a refletir com um máximo de concentração.
De repente, teve a impressão de se encontrar num beco sem saída.
E teria de sair do tal beco até o meio-dia do dia seguinte.
4



Antes de mais nada, Ellert pensou nas anotações relativas à hiperpropulsão linear que Onot trazia no bolso. Sabia que dispunha de energia suficiente para abandonar o corpo de Onot, sem que isso representasse qualquer perigo para ele. Porém não tinha a menor idéia da distância que poderia percorrer nos seus saltos. E se não possuísse forças para penetrar logo num outro corpo...
Nem se atreveu a pensar nas conseqüências. Mais uma vez, teria de realizar uma peregrinação imaterial pela eternidade.
Está bem, Onot — comunicou depois de algum tempo ao druuf. — Se quiser obedecer-me, tentaremos juntos pregar uma peça ao juiz. Evitarei que você seja submetido a exame médico, e farei com que mais tarde, quando eu o tiver abandonado, ninguém lhe possa fazer nada.
Como pretende fazer isso?
Eu lhe darei uma nova memória, que corresponderá à antiga e permitirá que você conserve sua personalidade. Porém não me conhecerá mais. Será como se nunca tivesse existido para você. E, quando se encontrar diante do juiz, dirá a verdade. Os detectores de mentiras poderão provar isso. Você deixará de ser um traidor.
A idéia de uma nova memória não era muito simpática para Onot, mas teve a percepção lógica de que, para ele, não havia solução melhor.
Estou de acordo — disse.
Daqui a uma hora será noite. Hoje não virão buscá-lo mais. Fugiremos de noite. Procuraremos chegar a seu velho laboratório nas montanhas, onde poderemos “equipar-nos”. Talvez até lá consiga descobrir onde estão meus amigos. Assim que eu os encontrar, você estará livre. Quando voltar a enfrentar o juiz, estará “equipado” com sua nova memória.
Onot não se sentia muito à vontade dentro da sua grossa pele.
Por que irei fugir se devo voltar a apresentar-me?
Para provar sua boa vontade e sua consciência tranqüila. Garanto-lhe que isso bastará para convencê-los.
Como faremos para sair da prisão?
Deixe isto por minha conta, meu caro Onot.
O druuf deu-se por satisfeito. Deitou sobre a cama e, seguindo a ordem de Ellert, procurou dormir.
Assim que fechou os olhos e relaxou um pouco, Ellert fez a primeira tentativa.
Mais uma vez, viu Onot deitado a seus pés, enquanto ele mesmo flutuava livremente no espaço, sem corpo e sem peso. Atravessou o teto e viu-se no interior de outra cela. Um druuf acorrentado estava deitado no chão, dormindo. Tudo indicava que não recebera um tratamento tão bom quanto o de Onot; provavelmente não era nenhum célebre cientista.
Ellert preferiu não escolher essa pobre criatura como objeto de suas experiências. Seria preferível escolher algum druuf que estivesse em liberdade.
Sem a menor dificuldade, atravessou as paredes e viu-se no corredor. Naturalmente seria fácil “desaparecer” pura e simplesmente. Mas nesse caso, Onot continuaria no interior da cela e, com ele, as importantes anotações que, só em último caso, estaria disposto a abandonar. Era claro que poderia procurar diretamente o presidente da Corte e influenciá-lo, mas teve a impressão de que isso seria muito arriscado. Um insignificante guarda que cometesse um erro não despertaria muito interesse. Mas se além de Onot também o juiz mais graduado sofresse uma perturbação de suas faculdades mentais, o fato não poderia deixar de provocar suspeitas.
Devia-se ter a impressão de que Onot fugira de forma natural.
Ellert desceu através do soalho e chegou ao corredor que levava à cela de Onot. Já estava em condições de regular à vontade a velocidade de seu “vôo”, e tinha certeza de que conseguiria vencer distâncias maiores. No entanto, ainda não arriscaria um salto que o levasse de um planeta a outro.
O plano temporal dos druufs se adaptara até certo ponto ao Universo einsteiniano, mas tal proximidade não duraria muito. Dentro de alguns meses, os dois planos temporais voltariam a afastar-se e as diferenças nas dimensões temporais aumentariam, até que o tempo do Universo dos druufs corresse novamente setenta e duas mil vezes mais devagar que, por exemplo, o da Terra. Atualmente só corria duas vezes mais devagar. Como os druufs fossem grandes e pesados, quase não se notava essa diferença. Além disso, Ellert já se acostumara ao aspecto daqueles seres lerdos, sem lembrar-se constantemente de que, para eles, o tempo fluía apenas à metade da velocidade do tempo dos terranos.
Sentiu os pensamentos de um druuf que se aproximava.
Um homem, ou qualquer outro ser corpóreo, sem dúvida se sentiria inclinado a esconder-se. Mas Ellert não era um homem sob esse ponto de vista. Continuou onde estava, pois nenhum ser poderia encontrá-lo, caso ele não quisesse.
O druuf dobrou a esquina do corredor. Ellert já sabia que era o guarda que levava o jantar de Onot.
É uma boa oportunidade de experimentar duas coisas ao mesmo tempo”, pensou Ellert muito satisfeito.
Poderia ver como Onot se comportaria, enquanto não estava submetido à sua influência e, ao mesmo tempo, tentaria assumir o corpo do guarda.
O druuf forneceu, em primeiro lugar, o alimento dos prisioneiros que se encontravam do outro lado do corredor. Finalmente, chegou à porta atrás da qual ficava a cela de Onot. Abriu a portinhola e colocou uma tigela sobre a tábua.
Sua comida, Onot — disse e esperou, até que o prisioneiro se aproximasse da porta. — Tudo preparado para a noite?
Ao que parecia, Onot estava dormindo, pois levou quase trinta segundos para chegar à porta e poder dar uma resposta.
Tudo em ordem — respondeu. Pegou a tigela e voltou à cama. Não emitiu um único impulso que pudesse ser interpretado como uma intenção de trair Ellert.
O guarda fechou a portinhola e afastou-se, arrastando os pés.
Ellert seguiu-o — em sentido figurado — até a sala dos guardas. Mais dois guardas estavam lá e se preparavam para passar a noite. Atrás da sala havia uma grade metálica que fechava um corredor. Ellert sabia que a galeria terminava na sala de controle, onde todos os visitantes eram examinados por meio de raios capazes de detectar a presença de armas ou ferramentas. Além disso, naquela sala ficavam os registros. Todos os prisioneiros eram registrados eletronicamente, na entrada e na saída.
Ellert deixou os três guardas entregues a si mesmos, depois de descobrir que eram os únicos funcionários a tirarem plantão noturno no interior da prisão propriamente dita. Havia apenas mais um druuf junto à saída, que controlava a porta eletrônica.
Quando voltou a sentir a presença de Ellert, Onot pouco se sentiu surpreso.
Fez uma excursão? — perguntou, enquanto comia o resto do mingau que lhe haviam servido. — Acho que a comida de prisão é ruim em qualquer lugar do Universo. Se não estivesse com fome...
Você tem de conservar as forças — advertiu Ellert. — Andei examinando a situação. Acho que a fuga não seria difícil. Não se esqueça de que a escapada deve parecer inteiramente normal. E tem de ser realizada hoje, pois amanhã será tarde — nem desconfiava de quanto essa opinião era correta. — Daqui a algumas horas, quando a cidade estiver dormindo, assumirei um guarda e voltarei. Assim que este abrir a porta, você o derruba com uma pancada. Acha que será capaz disso?
Onot colocou a tigela embaixo da cama.
Acredito que sim. É verdade que sou contrário a todo e qualquer tipo de violência. Porém, na situação em que me encontro, vejo-me obrigado a abandonar certos princípios. O que poderei usar como arma?
Infelizmente não lhe posso dar nenhuma arma. Acho que você poderá quebrar a perna dessa cadeira. Vamos preparar tudo.
A cadeira parecia muito frágil, mas não era. Onot teve de fazer um esforço tremendo para arrancar uma perna da mesma, que representava uma arma respeitável.
É claro que poderia fazer com que um guarda lhe desse uma arma de radiações, mas nesse caso sua fuga se tornaria misteriosa, e é o que não deve acontecer. Deve parecer uma fuga inteiramente normal.
Onot estendeu-se na cama. Colocou a perna da cadeira ao seu lado.
Pronto; podemos começar. É uma pena que não exista outro meio de convencer o presidente da Corte de Justiça.
Quando estiver na hora, eu o acordarei — disse Ellert, sem dar atenção à observação que Onot acabara de fazer. — Durma um pouco.
Passado algum tempo, Onot adormecera. Ficara livre da carga de angustia que pesava sobre ele. Já não via o futuro com tamanho desespero.
Ellert também descansou, muito embora, em seu caso, não se pudesse falar em sono. O sono é um fenômeno orgânico. Até mesmo o espírito que se encontra dentro de um corpo adormecido apenas está descansando. O espírito nunca dorme.
As horas foram passando. Ellert não “pensava”, e foi por isso que Gucky não conseguiu captar seus impulsos. Eram muito débeis para que alguém pudesse detectá-los. E mais tarde, Gucky desistira de captá-los.
Lá fora já era noite. Ellert teve vontade de sair numa excursão, mas a fraqueza, que acabara de vencer, fê-lo desistir desse intento. Quem lhe garantiria que a mesma não poderia voltar? De qualquer maneira, a experiência do fim da tarde lhe infundira nova coragem.
Olhou para o relógio de Onot. Era meia-noite.
O cientista estava mergulhado num sono profundo. Ellert quase chegou a ter pena de acordá-lo, mas Onot devia estar preparado, quando o guarda aparecesse.
Está na hora, Onot! Acorde!
Onot despertou ao primeiro impulso. Ergueu-se e olhou em torno, como se tivesse de fazer um esforço para lembrar-se de onde estava. Finalmente recuperou a memória. Pôs a mão na perna da cadeira.
Já está chegando?
Não, mas vou buscá-lo e faço-o entrar. Quando isso acontecer, derrube-o. Não bata com muita força, para não matá-lo.
Infelizmente não tenho nenhuma experiência nessa área — respondeu Onot e piscou os quatro olhos.
Ellert teria sorrido, se fosse capaz disso. Como não era, despediu-se com um impulso amável e desprendeu-se do corpo de Onot. Dali a um segundo, já estava atravessando o comprido corredor e chegou à sala dos guardas. Um dos druufs estava deitado num leito e dormia. Os outros dois — inclusive o guarda que cuidava de Onot — achavam-se sentados junto a uma mesa e Jogavam. Por não conhecer o jogo, Ellert compreendeu que talvez seria obrigado a introduzir uma pequena modificação em seus planos.
Penetrou sem a menor dificuldade no cérebro do druuf e assumiu-lhe a consciência, desligando-a e vedando-o com um bloco amnésico. O que o guarda passou a pensar e fazer, dali em diante, não resultava de sua vontade e, mais tarde, não se lembraria disso. Quando acordasse no interior da cela de Onot, não saberia dizer como fora parar lá.
Ellert contemplou o homem que estava sentado à sua frente através dos olhos do guarda.
É sua vez! — disse em tom enérgico.
Era fácil dizer isso. Mas esse estranho jogo não constituía a especialidade de Ellert.
Porém, de repente, encontrou uma saída. Levantou o braço e olhou para o relógio — o relógio do guarda.
Levantou-se.
Daqui a pouco, continuaremos nosso jogo. Tenho de fazer uma ronda — o adormecido centro de memória do guarda lhe dera essa informação. — Já passou da hora.
Até parece que isso é muito importante. Você não costuma ser assim...
Mas hoje sou — respondeu Ellert e saiu da sala.
Percebeu que o outro druuf ficou um tanto desconfiado, mas não se preocupou com isso. Mesmo que mais tarde o colega do guarda declarasse que este tivera um comportamento estranho, tal fato não provocaria maiores suspeitas. Além disso, o guarda não teria interesse em fazer alarde de sua impontualidade.
Ellert — ou seja, o guarda — foi andando pelo corredor, em direção à cela de Onot. Tirou do bolso uma chave, consistente numa combinação eletrônica, enfiou-a na fenda e a ligou.
A porta da cela de Onot abriu-se imediatamente. O guarda entrou, sem desconfiar de nada. Ellert viu Onot de pé ao lado da cama, segurando a perna da cadeira com ambas as mãos. Parecia hesitar. Talvez preferisse esperar até que Ellert se encontrasse novamente em seu corpo, o que evidentemente seria um absurdo, pois Ellert não sentiria qualquer dor física, caso não quisesse.
Bata logo! — fez o guarda dizer.
Por um instante divertiu-se com o rosto atoleimado de Onot. Mas logo abaixou-se — em sentido figurado — pois Onot deu um enorme salto em sua direção, brandindo a perna da cadeira. Atingiu a parte posterior do crânio do guarda.
Enquanto o druuf caía ao chão, Ellert abandonou-o e penetrou em Onot.
Muito bem, amigo. Este não acordará antes do amanhecer.
Onot colocou, cautelosamente, a perna da cadeira no chão.
Será que ele tem uma arma?
Naturalmente, Ellert não se lembrara disso. Na sala dos guardas, havia armas em abundância. Mas também havia um druuf que queria continuar seu jogo.
Ainda arranjaremos uma arma, Onot. Faço votos de que nunca tenhamos necessidade de usá-la. Vá andando!
Ao que parecia, Onot gastara toda a coragem no golpe que desferira no guarda. Agora não lhe sobrara muita. Hesitou.
O que devo fazer se aparecer alguém?
Deixe isso por minha conta, Onot. Vamos logo; não podemos perder tempo.
O druuf obedeceu. Saiu para o corredor e foi caminhando em direção à sala dos guardas. Ellert correu à sua frente e “assumiu” o guarda que estava sentado à mesa. Aplicou-lhe um bloqueio amnésico e ordenou-lhe que fosse dormir.
Dali a dois minutos, quando Onot entrou na sala dos guardas, viu os dois homens deitados em suas camas. Não se mexiam, pois dormiam profundamente. Ellert sabia que, a essa hora, nem mesmo um tiro de canhão seria capaz de despertá-los.
Ali na parede há armas — disse a Onot. — Entre elas há alguns radiadores de choque de grande alcance. Acho que você deveria pegar um deles. Posteriormente, isso servirá de prova de seu ânimo pacífico, que você poderá apresentar, quando estiver de novo à frente do juiz.
Nem me fale nisso! — disse Onot em tom indignado e pegou uma das armas.
Como cientista que era, naturalmente tinha algum conhecimento desses artefatos eletrônicos e sabia quais eram as funções que desempenhavam. Examinou a carga e colocou a arma no cinto de sua capa.
E agora? — perguntou, em tom mais confiante.
Muito bem — disse Ellert. — Passe por essa porta. Atrás dela fica a sala de controle e, também, a saída.
Evidentemente, Ellert não tinha qualquer influência sobre o cérebro eletrônico.
No dia seguinte, quando lhe indagassem sobre a fuga de um preso, o guarda diria simplesmente que Onot passara sozinho na barreira; ninguém se encontrava em sua companhia.
Chegaram à saída sem quaisquer problemas.
Ellert correra à frente e “assumira” o guarda postado ali. Onot não teve a menor dificuldade em deixá-lo inconsciente com um disparo de sua arma. O druuf atingido levaria pelo menos cinco horas para acordar.
Ótimo — disse Ellert muito satisfeito, quando viu o guarda caído atrás da mesa. — Aperte o botão que se encontra junto ao videofone. É ele que aciona o portão.
Onot começou a divertir-se com a fuga. Ninguém contestaria que se tratava de um acontecimento fora do comum. Dispunha de um auxiliar valiosíssimo. Se estivesse só, nunca se teria arriscado a fugir, e muito menos conseguiria.
No espaçoporto estão estacionados os táxis planadores. Pegaremos um e voaremos ao laboratório nas montanhas. Uma vez lá, veremos o que podemos fazer.
Pegar um planador? O espaçoporto está sempre vigiado.
Ellert riu em silêncio, mas Onot percebeu perfeitamente.
Você acaba de ver quanto vale um guarda. Eles não nos causarão problemas.
Neste ponto, Ellert tinha razão, mas havia um detalhe que o mutante desconhecia...
Todo guarda estava equipado com um aparelho de controle positrônico, parecido com uma minúscula câmara fotográfica. No centro de controle do edifício do tribunal, um técnico estava sentado à frente de uma parede coberta por centenas de pequenas telas. Cada uma dessas telas exibia exatamente o quadro que o portador do respectivo aparelho de controle focalizava.
E, numa das telas, o técnico vira uma cela em cujo interior um druuf — segundo a tabela, era o preso Onot — golpeou o guarda com uma perna de cadeira. Deu o alarma geral.

* * *

É uma área desolada. O solo é rochoso e praticamente não apresenta a menor vegetação. Acredito que seja desabitada — era Ras Tschubai quem estava transmitindo esse relato.
Gucky confirmou-o à sua maneira peculiar, pondo à mostra o dente roedor solitário.
Não poderíamos ter escolhido esconderijo melhor que este. Até parece que pousamos no centro dos Alpes.
De dia, as coisas serão diferentes — disse Rhodan, manifestando seus receios. — Precisamos camuflar a gazela. O ideal seria alguma rocha saliente.
Encontramos uma, Sir. Se Mundi achar que pode se arriscar...
O tenente encolheu-se, como se alguém tivesse colocado uma medalha incandescente sobre seu peito.
Arriscar-me? Se necessário levarei esta panqueca para dentro de uma toca de rato, sem provocar o menor arranhão.
Ras sorriu.
Eu sabia. Tomara que o senhor seja capaz de fazer isso de noite.
Se ligar a tela de luz infravermelha, não haverá problema, meu caro. Não convém acender os holofotes. Basta mostrar onde fica o esconderijo...
Rhodan interrompeu Mundi.
Ninguém duvida de sua habilidade como piloto, tenente. Será necessário que nos dirijamos imediatamente ao esconderijo. Ninguém sabe se, de noite, a área costuma ser patrulhada por unidades equipadas com aparelhos de luz infravermelha. Então, Ras, faça o papel de navegador.
A manobra durou quase uma hora. Finalmente, conseguiram pousar a gazela junto ao paredão de rocha íngreme, que a uma altura de cinqüenta metros avançava a ponto de barrar a visão para cima.
Rhodan estava muito cansado. Mas havia muita pressa.
Vamos dar um pulo à cidade, Gucky. Não manteremos contato pelo rádio, pois do contrário poderemos ser localizados pelos goniômetros. Se alguma coisa acontecer por aqui, Gucky saberá. Se houver necessidade, decole, Tenente Mundi. Em hipótese alguma, a gazela deverá ser destruída. Se isso acontecer, entrarei em contato com Hades. O corpo de Ellert é mais importante que nosso regresso na hora combinada...
Sim senhor — disse Mundi, mas deu a perceber que tinha suas dúvidas, quanto ao que Rhodan acabara de dizer.
Ras Tschubai limitou-se a fazer um gesto de assentimento. Notava-se que estava bastante preocupado. Manoli, que acabara de entrar na sala de comando, disse:
Na base está tudo preparado. Assim que o espírito de Ellert penetrar no corpo, o processo de revitalização será iniciado automaticamente. Acredito que haja necessidade de uma troca de sangue. É bem verdade que o braço direito...
Deixemos isso para depois — interrompeu-o Rhodan, que não queria perder um segundo que fosse. — Ellert receberá uma prótese como nunca nenhum ser humano teve igual.
Ainda formulou algumas recomendações para os que ficariam. Depois segurou a pata direita de Gucky. O rato-castor conhecia o ponto de destino, mas preferiu não teleportar-se diretamente para o edifício da Corte de Justiça.
Quando o espaço tridimensional voltou-lhe a surgir diante dos olhos, Rhodan não viu muita coisa. Estava escuro; só as estrelas proporcionavam uma fraca penumbra. À direita, paredes íngremes erguiam-se, impedindo a vista para o céu. À esquerda, nada parecia impedir a visão do horizonte, ao menos de dia.
Onde estamos?
A cidade fica a vinte quilômetros — respondeu Gucky, que perscrutava a escuridão. — Os impulsos mentais são mais escassos; os druufs estão dormindo. É uma tremenda confusão. Gostaria de saber o que esses hipopótamos costumam sonhar.
Rhodan não pôde deixar de rir.
Ainda não encontrou nenhum sinal de Ellert?
Não. Espere aqui. Saltarei até a prisão e procurarei a cela dele. As indicações de Harno não foram muito exatas.
Ah, é? Então você quer que eu fique aqui? E se aparecer alguém?
Gucky fez um sinal, mas Rhodan não o viu.
Num raio de dez quilômetros não há viva alma, se é que os druufs têm alma. Voltarei dentro de poucos minutos. Além disso, manterei contato mental com você.
Rhodan não se sentiu muito à vontade, mas permitiu que Gucky se afastasse. Reconheceu que conviria melhor aos seus objetivos que o rato-castor saísse sozinho, para fazer um reconhecimento.
Isto são rochas?
É uma pequena cadeia montanhosa. Enquanto for noite, ninguém o encontrará por aqui. Fique encostado ao paredão.
A escuridão não era completa, mas bastava para impedir que Rhodan visse o torvelinho que se formou no momento da desmaterialização de Gucky.
O rato-castor calculou seu salto, a fim de surgir na periferia da cidade. Dali em diante, poderia realizar teleportações de curta distância, que seriam menos cansativas.
De início não viu ninguém. As ruas, que se estendiam sob o céu salpicado de constelações estranhas, estavam abandonadas. Só nos cruzamentos havia lâmpadas fortes. Ao que parecia, não estavam dispostos a realizar despesas com iluminação em outros lugares. Gucky sentia-se grato por essa medida dos druufs, muito embora não compreendesse sua finalidade.
Após três saltos, colocou-se junto da grande abóbada com a qual já travara conhecimento por ocasião de outras visitas. Era ali que funcionava o Conselho dos Sessenta e Seis, o órgão governamental de Druufon. Uma vez no local, conhecia o caminho que levava ao edifício da Corte Suprema e à prisão.
Com mais dois saltos, viu-se junto à parte dos fundos de uma enorme construção, que parecia atingir as estrelas. Naturalmente, essa impressão não passava de uma ilusão ótica, provocada pela escuridão. Em geral, as casas dos druufs eram mais largas que altas.
Gucky refletia para onde deveria dirigir o próximo salto, quando um acontecimento interrompeu abruptamente o silêncio da noite.
As luzes das ruas da cidade acenderam-se!

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