quinta-feira, 25 de agosto de 2016

P-091 - O Regresso de Ernst Ellert - Clark Darlton [Parte 1]


Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Depois da longa viagem pela eternidade, o espírito de Ellert revive seu cadáver.


Com a descoberta de uma nave exploradora dos arcônidas, pousada na Lua, foi lançada a base da união da Humanidade terrana e do Império Solar, que haveria de sair dessa união. Então ninguém, nem mesmo Perry Rhodan, imaginava quantos esforços e firmeza de ânimo se tornariam necessários para, no curso dos anos, defender o sistema solar dos ataques vindos de dentro e de fora.
Graças ao auxílio dos arcônidas, conseguiu-se vencer a ameaça mais grave que pesou sobre a Humanidade, e que culminou na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar.
E o perigo interno, provocado por Thomas Cardif, o renegado, foi removido graças à ação isolada de Gucky.
Acontece que a evolução pacífica da Humanidade só se tornará possível se a Galáxia estiver em paz — e parece que há um longo caminho a percorrer até que se chegue lá...
Também Atlan, o imortal, que há pouco passou a ocupar a máquina gigantesca, que por meio da atuação implacável das frotas robotizadas abafava qualquer revolução no nascedouro, quer a paz.
Atlan, que passou a ser conhecido como Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, apóiam-se mutuamente, nem que seja pelo simples instinto de autoconservação.
E é assim que, em princípios de agosto do ano 2.044, quando recebe um aviso de emergência da Terra, Perry Rhodan, ainda se encontra em Árcon III. O Marechal Freyt lhe fala pelo telecomunicador. Transmite uma notícia vinda de Hades, a base terrana secreta, situada no Universo dos druufs. Trata-se do Regresso de Ernst Ellert...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Ernst EllertSeu corpo entra em decadência, e seu espírito ameaça descambar de novo para a eternidade.

OnotUm cientista que enfrenta uma situação difícil.

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Capitão Marcel RousComandante da Base de Hades.

GuckyO rato-castor mutante que vai caçar fantasmas.

Tenente MundiUm piloto espacial simpático e competente.

Dr. Eric ManoliMédico de bordo da velha Stardust.

1



A superioridade deles era tamanha que preferiu não oferecer a menor resistência. Os planadores foram chegando às dezenas e pousaram no chão duro e pedregoso do deserto. Apontaram os canhões energéticos para a íngreme encosta, atrás da qual estava escondido o laboratório subterrâneo do cientista.
Por meio das telas de televisão, observou-os e ficou quebrando a cabeça, imaginando como fora descoberto. O esconderijo fora muito bem escolhido, e ninguém, a não ser ele mesmo, sabia de sua existência.
Suas reflexões foram subitamente interrompidas, quando os microfones externos levaram as vozes dos atacantes para dentro do laboratório. Os sons não seriam perceptíveis a qualquer ouvido humano, pois ficavam acima das freqüências audíveis. Mas ele, que estava sendo procurado e acabara de ser encontrado, entendia o que diziam.
Você está cercado, Onot! Se vier à superfície, sem armas, ouviremos o que tem a dizer. Caso contrário nós o mataremos e destruiremos seu laboratório.
Onot sentia-se abatido. Bem que desconfiara. No passado, sua vida não correra conforme desejava. Muitas vezes fizera coisas que ele mesmo julgava incompreensíveis e agira contrariamente às suas convicções. Às vezes procedera como se fosse inimigo de seu povo e amigo dos inimigos mais perigosos. Foi exclusivamente por sua culpa que os robôs de guerra dos atacantes destruíram o grande centro de computação e, posteriormente, também o centro científico espacial.
Irei — disse para dentro de um microfone e olhou em torno, um pouco triste.
Encontrava-se num gigantesco recinto de pedra, que há tempos fora aberto na montanha por meio de grandes armas energéticas. O único caminho que levava à superfície era um corredor estreito. Ali ficava seu laboratório secreto, onde costumava trabalhar sempre que precisava de tranqüilidade e solidão. E, como fosse o cientista mais competente de seu povo, fizera algumas invenções importantes.
Mas, naquele momento, tudo isso estaria esquecido. A única coisa que importava era a traição. A traição cometida por ele.
Passou a mão pela junta disforme do outro braço. Ali sentiu uma saliência minúscula, que nenhuma outra pessoa notaria. Com uma ligeira pressão do dedo, ativou a bateria celular do minúsculo transmissor escondido sob a pele.
Por um momento, Onot refletiu sobre o motivo por que possuía esse transmissor e a pessoa à qual poderia dirigir o pedido de socorro transmitido. Mas finalmente cobrou ânimo e caminhou em direção à porta, a fim de entregar-se aos policiais.
Nesse meio tempo, os ocupantes dos planadores se haviam espalhado a fim de cercar a encosta. Outros aviões se encontravam no céu colorido, prontos a apoiar a ação de surpresa contra o cientista rebelde. Não eram seres humanos. Suas figuras quadráticas e grosseiras erguiam-se a quase três metros sobre as duas pernas que antes pareciam colunas. A pele sem pêlos parecia feita de couro grosso e cobria todo o corpo. A cabeça esférica tinha quase cinqüenta centímetros de diâmetro, e nela havia quatro olhos que permitiam uma visão de ao menos trezentos graus. Nariz e orelhas não haviam.
Os druufs descendiam de insetos, mas não se percebiam muitos sinais disso. De qualquer maneira, eram ultrafonadores. As ondas que levavam as mensagens eram transmitidas por emissoras orgânicas e captadas por receptores do mesmo tipo. O que ainda chamava a atenção eram os braços disformes, em cujas extremidades se viam dedos finamente articulados, que não guardavam qualquer proporção com o corpo gigantesco.
Na rocha surgiu uma fenda. Onot saiu para o platô. Abriu os braços, para mostrar que não trazia nenhuma arma. Em seu rosto lia-se certa perplexidade, misturada talvez com uma pequena dose de curiosidade.
Aqui estou. O que querem de mim?
Um tenente da polícia saiu do abrigo, com a arma de radiações apontada para o cientista.
Quer dizer que está disposto a entregar-se?
Por que você acha que estou à sua frente? — respondeu Onot em tom irônico.
O oficial fez um sinal para seus homens.
Revistem-no — gritou.
Não encontraram nada; não notaram o pequeno transmissor.
Poderia informar de que sou acusado? — perguntou Onot.
O tenente ficou devendo a resposta.
Oportunamente você saberá. Mas desde já posso dizer-lhe uma coisa: será muito difícil você limpar-se da pecha da traição. Devemos agradecê-lo pela destruição de nosso centro de computação. Mas isso foi apenas o primeiro passo. O centro espacial... ora, já basta! Siga-me.
Onot parecia querer dizer alguma coisa, mas resolveu ficar quieto. Seguiu o tenente com a boca triangular firmemente cerrada. Olhou para o céu e notou que o sol já se encontrava no poente. Dali a pouco, seria noite.
Era um gigantesco sol vermelho que se encontrava acima das colinas próximas e derramava sua luz sobre a paisagem desolada. Mas este sol não estava só. A seu lado via-se um pequeno companheiro esverdeado, quase oculto pela luz vermelha.
Depois de um vôo de pouco menos de uma hora, os planadores policiais pousaram no espaçoporto da capital. Um veículo blindado levou Onot ao edifício em que funcionava o Supremo Tribunal.
O cientista teve oportunidade de observar os arredores através de uma janela pequena. Ficou espantado ao constatar que a maior parte dos edifícios apresentava sérios danos. Alguns deles haviam sido destruídos por completo e desmoronaram. Havia bairros inteiramente arrasados.
Um confuso sentimento de culpa começou a dominar sua mente. Porém tal sentimento logo foi superado por uma voz interna, tranqüilizadora. Tal voz lhe dizia que era totalmente inocente.
A voz interior...?
Onot procurou lembrar-se do que sabia dela, mas sua memória falhou por completo. Havia alguma coisa; tinha uma lembrança confusa, mas por mais que se esforçasse, não seria capaz de dizer o que era. Alguém estava com ele, mas não podia vê-lo nem senti-lo.
Parecia despertar de um sonho, quando mãos rudes agarraram seus braços e o arrastaram para fora do carro. Encontrava-se numa área cercada por altos muros.
Deixe os sonhos para depois — disse o tenente em tom irônico. Parecia ter-se esquecido de que o cientista facilitara seu trabalho ao entregar-se sem oferecer a menor resistência. — As celas são silenciosas e bastante solitárias.
Obrigado — respondeu Onot, ainda distraído.
Levaram-no por uma série de enormes corredores. Passou por numerosas portas e, finalmente, desceu ao subsolo. Quando a porta da cela se fechou e ele se viu só, suspirou aliviado. Talvez lhe dessem tempo para refletir calmamente.
No teto do recinto sem janela, havia uma grade; pertencia ao sistema de condicionamento de ar. Era possível que atrás dela estivesse escondida uma objetiva de televisão. Num dos cantos havia uma cama estreita, e, ao lado da mesma, uma mesa e uma cadeira. Era só.
Onot sentou-se. Apoiou a cabeça nas mãos e procurou recapitular o passado. Fazia tanto tempo, mais de cem ou duzentos dias. Aliás, já não tinha uma idéia precisa de nada. Antigamente fora Onot, um homem afamado, o cientista mais competente dos druufs. Presenteara-os com numerosas invenções.
Invenções...?
Onot foi recuperando a esperança. Quer dizer que ainda sabia disso! Lembrou-se do último trabalho por ele realizado. Montara o estabilizador estrutural na grande estação espacial. Esta sua invenção mais recente era um aparelho único. Também poderia ser designado como paralisador do tempo. Permitia a criação de um campo em que o tempo ficava parado.
O paralisador do tempo...? Onot teve a impressão de que a escuridão, que cercava os acontecimentos pelos quais pretendiam responsabilizá-lo, estava cedendo. Talvez, se sua memória voltasse a funcionar, ele conseguisse encontrar a explicação.
Mas quando de repente tornou a sentir aquelas fortes dores de cabeça, perdeu as esperanças. Sabia que essa dor de cabeça era seu pior inimigo. Quando ela surgia, por vezes tinha a impressão de que a voz interior lhe falava. Lembrou-se de que, certa vez, soubera quem era essa voz, mas agora não se lembrava mais.
Talvez mais tarde conseguisse lembrar-se.

* * *

A rigor, o Capitão Marcel Rous encontrava-se numa posição perigosa.
Conforme se depreende do próprio nome, o planeta Hades era um verdadeiro inferno. Era o décimo terceiro planeta do maior sistema solar visto por qualquer olho humano. O gigantesco sol gêmeo de Siamed possuía sessenta e dois planetas, e quase todos eles eram cercados por luas. O planeta número 16 era Druufon, o mundo dos druufs.
Era este o motivo pelo qual o Capitão Marcel Rous se encontrava em Hades, que era o décimo terceiro planeta. A base terrana fora aberta em plena rocha por meio dos fortes raios energéticos das peças de artilharia das naves. Ficava bem abaixo da superfície do planeta crepuscular, no qual a vida era praticamente impossível, com exceção talvez da estreita zona da penumbra.
De qualquer maneira, não tinham nada a fazer na superfície, onde poderiam ser avistados por eventuais unidades de patrulhamento dos seres quadráticos. Depois da pesada derrota sofrida no Universo einsteiniano, os druufs se haviam retirado para sua dimensão temporal e desistiram das tentativas de ampliar seu poder. O inimigo até aproveitara a boa oportunidade proporcionada pela retirada e destruirá a estação espacial na qual estava instalada a mais recente criação de Onot.
De qualquer maneira, Marcel Rous preferiu agir com cautela. Se os druufs descobrissem que em seu sistema solar havia uma base da Terra, eles a atacariam com todo o poder de que dispunham.
A base tinha agora uma única finalidade: não permitir que a ligação com Ernst Ellert fosse interrompida.
Há mais de setenta anos Ernst Ellert se tornara membro do Exército de Mutantes. Sua capacidade de enviar o espírito para o futuro selara seu destino. Um acidente separara o espírito do corpo. Dali em diante, o espírito passou a vagar sem descanso pelo tempo e pelo espaço, à procura do presente, que nunca encontrou. O que encontrou foi um novo presente, que, naquele tempo, ainda se situava num futuro longínquo.
Agora possuía novamente um corpo, mas não era o seu. A sua verdadeira matéria encontrava-se num mausoléu nas proximidades de Terrânia. Perry Rhodan, administrador do Império Solar, mandara sepultá-lo naquele lugar.
Ellert encontrava-se em Druufon. Disse que avisaria quando chegasse o tempo em que pudesse abandonar o corpo, que o acolhera provisoriamente, e voltar à Terra.
A um ano-luz de Hades, havia uma fresta no Universo, que ligava os dois planos temporais. Graças a isto, tornava-se possível passar de um plano a outro, sem que houvesse necessidade de recursos técnicos especiais. Acontece que essa fresta — ou melhor, o chamado funil de descarga — se deslocava e se estreitava. Não demoraria muito, e tal abertura seria coisa do passado. Depois disso, os druufs simplesmente desapareciam do plano existencial dos terranos, a não ser que conseguissem transpor com seus próprios meios a barreira do tempo.
Na base de Hades havia doze transmissores de matéria. Graças a eles, se tornou possível a construção e a instalação da fortificação secreta. As armas, os materiais e mantimentos, as provisões e o pessoal foram transportados das naves para Hades, percorrendo mais de um ano-luz.
Marcel Rous fazia sua ronda diária pela base. Vez por outra, falava com um dos homens que a guarneciam e controlava o armamento, o equipamento de rádio e os aparelhos de alerta.
Ao passar pela sala de rádio, Rous certificou-se de que o setor de recepção estava pronto para entrar em ação. Ao menor impulso, as fitas gravadoras começariam a correr e armazenariam toda e qualquer mensagem que fosse recebida. Mas por enquanto as luzes de controle estavam no verde. Não havia chegado nenhuma mensagem.
O cruzador Ohio encontra-se junto ao funil de descarga — informou o operador de rádio. — Não há nada de extraordinário.
Marcel Rous fez um gesto de assentimento e voltou aos seus alojamentos, depois de realizar mais uma visita à sala de comando da base.
Tudo calmo em Hades.
O planeta infernal parecia viver numa paz absoluta. No entanto, a desgraça encontrava-se a poucos minutos-luz de distância.
Quando nada acontece tão perto da zona de perigo, a gente chega a sentir tédio — disse Marcel Rous ao deitar-se.
Mais tarde desejaria que nunca tivesse pensado assim.

* * *

Onot passou dois dias e três noites em sua cela, sem que ninguém se interessasse por ele. Um guarda silencioso trazia-lhe a comida e não respondia às perguntas que fazia.
A memória foi voltando lentamente.
Até então o cientista ainda não se dera conta de que estava atacado de amnésia. Era bem verdade que se esquecera, apenas, de uma ou outra coisa. No passado, especialmente quando o centro de computação foi destruído pelos robôs inimigos, agira de forma estranha. E não sabia explicar por que agira assim, mas ainda se lembrava de que ele o fizera.
Encontrava-se numa tremenda confusão mental. Seus pensamentos esforçavam-se para traçar uma linha reta, entre o presente e os acontecimentos do passado, mas não conseguiram. Teve a impressão de que inexplicáveis véus se interpunham entre os acontecimentos, impedindo-o de olhar para trás. E as dores de cabeça voltaram a tornar-se insuportáveis.
Sabia perfeitamente que se encontrava numa armadilha. Seria responsabilizado por coisas das quais não se lembrava.
Será que realmente fora ele quem causara a destruição do grande centro de computação subterrâneo? E, em caso afirmativo, por que teria feito isso? Por que havia permitido que os robôs inimigos penetrassem no centro de computação?
De repente, teve a impressão de que poderia tocar o passado com as mãos. Mas quando estendeu as mesmas, o passado desapareceu, outra vez, atrás dos véus. Até parecia que alguém o arrastara para longe. Alguém...?
De súbito, Onot lembrou-se de que alguém desempenhara um papel importante. Alguém que não podia ver, mas ouvir. Alguém que se encontrava perto dele. Ou melhor, dentro dele.
Isso mesmo; agora sabia. Ao amanhecer do terceiro dia, Onot começou a lembrar-se.
Naquela oportunidade, uma voz lhe dirigira a palavra. Parecia vir do nada, mas estava falando dentro dele... e para ele. Era uma voz clara e apavorante. Afirmara que já há anos habitava seu corpo e controlava seu trabalho. E essa voz ainda lhe dissera que foi só, graças a ela, que Onot se tornou o maior cientista de seu povo.
Onot levantou-se e caminhou nervosamente de um lado para outro. Cinco passos para um lado, cinco passos para outro lado. A voz...
Ela ainda lhe dissera que teria de fazer o que mandava. Precisava obedecer-lhe, fossem quais fossem as ordens transmitidas. E lembrou-se de que essa voz lhe ordenara que cometesse a traição. Sim, foi ele mesmo quem ligou o receptor do transmissor, a fim de que os robôs inimigos pudessem penetrar no centro de computação. E fez isso unicamente porque a voz o exigira.
Onot voltou a sentar-se.
Quando falasse a respeito da voz, será que o juiz acreditaria? Ou será que consideraria aquilo uma desculpa barata, uma elucubração de um cérebro doentio?
Onot já parecia ouvir as estrondosas gargalhadas que fariam retumbar a sala de sessões. Os druufs eram seres frios e calculistas. Não acreditavam em vozes ou fantasmas.
Onot continuou a revirar suas recordações.
Aquela voz não lhe dissera também que, quando ela o abandonasse, teria de morrer? Pois bem. Ela já o abandonara há muito tempo, mas continuava vivo. E, além disso, a memória dos acontecimentos estava voltando aos poucos. Talvez tudo isso acabasse bem, desde que conseguisse convencer os juizes de que era inocente. Instalaria outro centro de computação e montaria outro paralisador do tempo. Teria oportunidade de reparar os erros do passado.
Naquela oportunidade, a voz lhe dissera ser um espírito que perdera o corpo. Encontrara um novo abrigo no interior de Onot. O espírito e o intelecto de Onot, assim prosseguira a voz, não deveriam resistir às suas ordens, mas deveriam cumpri-las.
Onot obedecera por ter sido obrigado a isso, e ainda porque, no momento, não tivera a menor idéia do que estava acontecendo com ele. Sob o ponto de vista moral não era culpado dos crimes pelos quais o acusavam. Mas face às leis impiedosas de Druufon as coisas poderiam ser diferentes.
Voltei a recuperar o domínio de meu espírito e, com isso, de meu corpo — balbuciou Onot. — Ninguém manda em mim. Construirei uma arma para os druufs, com a qual nós poderemos conquistar o Universo. Afinal, sou Onot, o cientista! O tempo... quais serão os acontecimentos que este ainda reserva para mim? Se quiser, posso inverter o fluxo do tempo. E eu o farei para anular os acontecimentos do passado. Descobrirei o dono daquela voz e o matarei, antes que seu espírito abandone meu corpo. A Terra foi sua pátria, e haveremos de descobrir onde fica esse planeta. Alguns dos nossos já estiveram lá. Se você me ouve, voz, responda. Confesse que sou mais forte que você...
Suas reflexões foram interrompidas, quando o guarda abriu a portinhola e olhou para dentro da cela. Após isso, a portinhola foi fechada de novo.
Onot encostou-se à parede.
A voz não está mais aqui”, pensou numa disposição eufórica. “Antigamente bastava que dedicasse a menor idéia à rebelião, para que ela se fizesse ouvir e me ameaçasse. Fazia com que ficasse com dor de cabeça e me martirizava. Afastava meus pensamentos e transformava-me num escravo. Mas hoje...”
Não; a voz não estava mais com ele.
Finalmente chegara a hora pela qual ansiara por tanto tempo. Viu o passado nitidamente desenhado. Poderia explicar tudo ao juiz... mas seria necessário que este acreditasse em suas palavras.
Subitamente, teve a impressão de levar uma forte pancada; tudo parecia desmoronar em torno dele. A voz falou silenciosamente:
Você está enganado, Onot! Ainda estou aqui. Mas é bem possível que, dentro em breve, você fique só... completamente só. Quando isso acontecer, você talvez irá desejar que eu volte.
Muito assustado, Onot prestou atenção à voz. Mas esta encerrou a fala.

* * *

Por alguns segundos ou milênios — não havia nenhum ponto de referência temporal, que lhe permitisse fixar este detalhe — o espírito de Ernst Ellert, abandonado pelo corpo, turbilhonou no fluxo do tempo, antes que as ondas o atirassem às margens temporais dos druufs.
Só então deu-se conta de que não havia apenas um fluxo temporal, que o plano temporal não era único, mas que havia vários. Atravessara alguns deles, varando muros geralmente impermeáveis. Mas as frestas fecharam-se atrás dele, tornando ilusória qualquer idéia de regresso.
E foi assim que entrou em Onot. Foi penetrando cautelosamente na mente do cientista. De início, o druuf se rebelara contra a tutela, mas depois de algum tempo teve de cessar a resistência. Onot transformou-se num escravo de Ellert, não mais possuía vontade própria. Era bem verdade que, vez por outra, procurava livrar-se do incômodo e perigoso hóspede vindo do nada, mas não conseguia. Ellert encontrara um novo corpo e, com isso, um novo lar para seu espírito.
Certa vez houve um contato com o plano temporal do qual provinha, mas ele não o percebeu. Foi na época em que Árcon colonizou o planeta Vênus e a Atlântida mergulhou num dos oceanos do planeta Terra. Foi só dali a dez mil anos — que para Ellert representaram apenas algumas semanas — que houve um segundo contato, que se revelaria decisivo.
Perry Rhodan encontrou o plano temporal dos druufs, e localizou Ellert.
Dali em diante, Onot passou a trabalhar por ordem de Ellert, a favor de Perry Rhodan e dos terranos. Ele o fez porque era obrigado a tanto. Entretanto, um dia rebelou-se e sentiu que estava mais forte. Não conseguira impedir a traição, mas sabia que o ser que o dominava — a voz — se tornara mais fraco.
Ellert também sabia.
Ficou preocupado ao constatar que a influência que conseguia exercer sobre o intelecto de Onot tornava-se cada vez mais reduzida. Teve de fazer um tremendo esforço para não ser expulso do cérebro de Onot. Não desejava assumir para sempre a identidade de Onot, mas ainda não havia chegado o momento de regressar. Seu verdadeiro corpo o esperava — a mais de seis mil anos-luz dali. Será que ainda era capaz de vencer essa enorme distância?
Contemplou os arredores através dos quatro olhos de Onot. Viu as paredes nuas e desoladas da cela em que o cientista se encontrava preso. Talvez devesse fazer uma tentativa, apesar de tudo. O segredo da propulsão encontrava-se em suas mãos, em sentido figurado. Seria capaz de construir espaçonaves capazes de voar a milhões de vezes acima da velocidade da luz, sem que fossem obrigadas a desmaterializarem-se. Pretendia presentear Rhodan com esse sistema de propulsão.
Nos últimos dias preferira não molestar Onot. Só naquela manhã vira-se obrigado a esclarecer ao druuf que ainda estava presente.
Mas agora havia outra coisa a fazer. Os documentos relativos ao sistema de propulsão linear estavam guardados no laboratório, isto é, no esconderijo escavado na rocha. Era bem verdade que sabia de cor os detalhes e sentia-se bastante seguro, mas não havia inconveniente em certificar-se mais uma vez. Mais tarde, talvez, não tivesse tempo para isso.
Começou a desprender-se cautelosamente de Onot. O druuf não sentiu nada. Subitamente Ellert viu-o embaixo dele, sentado na cama. As paredes da cela começaram a tornar-se confusas e foram recuando. Sua estrutura molecular não representava qualquer obstáculo para o espírito de Ellert. Atravessou a matéria sólida e, dali a alguns segundos, flutuava bem acima do edifício do tribunal.
Concentrou-se no deserto pedregoso e no laboratório secreto escondido sob a montanha — e, no mesmo instante, encontrava-se lá. Planava bem em cima da planície. Alguns veículos estavam parados junto à entrada do laboratório. Os druufs saíam do corredor de pedra e carregavam caixas e aparelhos para colocá-los nos veículos. Estavam reunindo material probatório.
Ellert assustou-se. Fazia votos de que ainda não tivessem levado os documentos relativos ao sistema de propulsão. Isso não assumiria uma importância decisiva. Todavia...
Desceu e manteve-se suspenso, invisível e desmaterializado, acima das cabeças dos druufs.
Um oficial, que pelos distintivos pertencia ao Serviço de Segurança de Druufon, comandava os homens com a arrogância típica das pessoas acostumadas a mandar. Ao que parecia, pretendia esvaziar totalmente o laboratório de Onot.
Se Ellert possuísse um rosto, qualquer pessoa que o olhasse naquele momento perceberia que estava sorrindo. Não teve nenhuma dificuldade em penetrar no cérebro desprevenido do druuf. Não houve a menor resistência. Mas os esforçados policiais não acreditaram no que seus superórgãos receptores captavam, quando subitamente receberam ordem para recolocar tudo no laboratório.
Ellert obrigou o oficial a dirigir-se ao laboratório. Havia uma confusão tremenda no interior dos recintos cavados na rocha. As coisas estavam jogadas por todos os lugares. E o caos aumentou ainda mais quando os druufs voltaram a trazer os objetos que haviam retirado.
O oficial atravessou os diversos recintos, como se estivesse procurando alguma coisa. Folheou grandes pilhas de documentos, contemplou-os com os olhos perplexos e recolocou-os no mesmo lugar. Levou quase trinta minutos para encontrar o que estava procurando, sem que o soubesse!
Ellert teria respirado de alívio, se possuísse pulmões. Achara as anotações. Estavam escritas numa folha de metal, finíssima e rabiscada com fórmulas quase ilegíveis. No entanto, o valor dessas fórmulas era imenso.
O oficial dobrou a folha e enfiou-a no bolso. No mesmo instante, ordenou aos homens que prosseguissem com o trabalho, levando tudo novamente para a superfície.
A ordem foi cumprida imediatamente. Estavam acostumados a agüentar muita coisa desse oficial, inclusive as ordens mais absurdas. Sem dizer uma palavra e sem demonstrar a menor contrariedade, os homens voltaram a esvaziar aqueles recintos.
O serviço foi concluído dentro de poucas horas. Ellert permaneceu no corpo do oficial, que entrou num planador e regressou à cidade, onde informou às autoridades de que sua missão fora cumprida.
Depois disso, pediu que lhe permitissem falar com o prisioneiro.
O general — segundo os padrões terra-nos — lançou-lhe um olhar de espanto.
Quer falar com Onot? O que quer com ele? As investigações ainda não foram concluídas.
Ellert colocou a resposta na boca do oficial.
Tenho a impressão de que ainda não encontramos tudo que possa servir de prova contra ele. Se eu o interrogar, talvez consiga algumas novas indicações.
O general refletiu por um instante. Finalmente fez um gesto de assentimento.
Pedirei ao chefe da Corte de Justiça que lhe conceda uma entrevista.
Ellert aguardou pacientemente. Só no fim da tarde, sua paciência obteve a devida recompensa. O oficial conseguiu permissão para falar com o prisioneiro.
Onot sobressaltou-se em meio às suas reflexões, quando a porta da cela foi aberta e um oficial de polícia entrou. Libertado por algumas horas da presença de Ellert, recuperara a memória em toda plenitude e sabia o que havia acontecido. Era bem verdade que não poderia desconfiar de que aquele que o subjugara se encontrava na sua frente, corporificado na figura do visitante.
Preciso falar imediatamente com o juiz — disse antes que o oficial tivesse tempo para abrir a boca. — Não cometi traição como todo mundo acredita. Eu...
Cale-se! — respondeu o oficial, sob a coação exercida por Ellert. — Faça o que eu disser. Estive no seu laboratório e trouxe uma coisa que o senhor tem de esconder junto ao corpo. São estas anotações. As mesmas não se devem perder.
Entregou a folha a Onot. O cientista pegou-a. Ficou perplexo ao perceber que a letra era sua, e que a folha continha os segredos fundamentais da propulsão linear. Não compreendia a finalidade daquilo. Esse sistema de propulsão estava sendo usado há muito tempo.
Para que serviriam aquelas anotações? Para qualquer druuf seriam inúteis.
A não ser que um ser vindo de outro Universo...
Começou a compreender.
Pegue estas anotações e destrua-as.
Ellert reconheceu a situação perigosa em que se encontrava. Seria impossível dominar dois indivíduos ao mesmo tempo. Estava na hora de apossar-se novamente da personalidade de Onot.
E o oficial? Não se lembraria do que acabara de acontecer? Será que um suave bloco amnésico seria suficiente para fazê-lo esquecer tudo?
Precisava tentar.
O tratamento durou dez segundos. Depois disso, Ellert abandonou o corpo do oficial e voltou a penetrar no cérebro de Onot. Sentiu uma resistência, que afastou implacavelmente. Cada segundo era precioso.
Onot cedeu.
Está bem; farei o que o senhor acaba de pedir — disse em tom indiferente. — Faça o favor de retirar-se.
O oficial parecia despertar de um sonho.
Como fora parar na cela do prisioneiro? O que desejava de Onot, o traidor?
Virou-se sem dizer uma palavra e saiu da cela. O guarda trancou cuidadosamente a porta e acompanhou o oficial, quando este se dirigiu para cima. Caminhava em silêncio e como num transe, até que se visse à frente do juiz, que indagou sobre o resultado de seu trabalho.
Então, conseguiu alguma coisa? O oficial parecia perplexo.
Nada, excelência. Absolutamente nada.
Era o que eu imaginava — respondeu o juiz e fez um gesto de indiferença. — Pode retirar-se.
O oficial saiu da sala.
Esforçou-se em vão para recordar o que acontecera a partir do momento em que haviam esvaziado o laboratório.
Mais uma vez, Ellert conseguiu dominar Onot. O druuf, que já se sentira livre, estava disposto a revelar os segredos perigosos que trazia na mente. Se isso acontecesse, os demais seres quadráticos estariam prevenidos. Jamais deveriam descobrir que Perry Rhodan dispunha de uma arma tão estonteante como era Ellert. E nem deve- riam descobrir que Rhodan estava atrás de todos os atentados cometidos contra Druufon, e, muito menos, perceberem que havia uma base dos terranos no planeta Hades.
Para você, isso é uma questão de vida ou morte, Onot! — comunicou ao cientista. — Enquanto eu não o abandonar, nada lhe acontecerá. Você me ajudou e, por isso eu o ajudarei.
Você não tem forças para isso — respondeu o cientista em tom exultante.
Posso matá-lo — retrucou Ellert.
Pois mate-me! — pediu o druuf.
Ainda existe outra alternativa.
Qual é?
Abandoná-lo-ei assim que chegue o momento adequado. Prometo-lhe que nunca mais voltarei. Você será livre.
O que você exige em troca? — indagou o druuf, que não seria capaz de imaginar que a liberdade lhe poderia ser restituída de graça. — O que devo fazer?
Ellert sentiu-se aliviado.
Você pode sentir uma ligeira saliência sob a pele do braço esquerdo. Aperte-a com o dedo. É só o que tem que fazer. Isso mesmo; aperte com mais força.
Onot não estava disposto a submeter-se às ordens daquela voz, mas a simples curiosidade levou-o a procurar o objeto oculto sob sua pele. Não teve a menor dificuldade em encontrá-lo.
O que é isto?
Não faça perguntas, Onot. Aperte com mais força. Isso; assim está bom. Agora já lhe posso dizer. Isso é um pequeno transmissor, que me põe em contato- com bons amigos. Perto deles, nesse instante, uma luz vermelha se acendeu. Meus impulsos mentais, ou também os seus, são convertidos em vibrações elétricas, e estas são transformadas em palavras da minha língua por um aparelho especial. Agora, assuma por alguns minutos uma atitude inteiramente passiva. Já não estou em condições de obrigá-lo a fazer isso, mas peço-lhe que acredite que esta é sua última e única chance de continuar vivo.

* * *

O alarma arrancou o Capitão Marcel Rous de um sono profundo.
Colocou, ao mesmo tempo, os dois pés sobre o frio chão metálico de seu camarote e, nu da cintura para cima, saiu em disparada pelo corredor, em direção à sala de rádio da qual viera o alarma. Devia tratar-se de uma mensagem extremamente importante. Se o alarma tivesse vindo da sala de comando poderia tratar-se de um ataque direto dos seres-toco.
Então não são os druufs — disse Rous em tom tranqüilizador para si mesmo.
Entrou esbaforido na sala de rádio e viu o sargento Masters desligar os receptores. Na pressa não pôde verificar se o aparelho havia captado uma hipermensagem da Ohio ou outro tipo de transmissão. A última coisa de que se lembrou foi o minúsculo receptor especial que ligava a base com o transmissor de Ellert.
O que houve, Masters?
O sargento fez mais um movimento com a mão e levantou-se.
Uma mensagem de Ellert, expedida de Druufon. A decifração está em andamento, Sir.
Rous fez um gesto de assentimento e começou a caminhar nervosamente pela sala de comando. Sabia que qualquer mensagem de Ellert seria importante e urgente.
O mutante só chamava em casos graves.
Sabia por experiência própria que o autômato não levaria mais de dez minutos para decifrar a mensagem. Pouco importava que a mensagem fosse breve ou longa.
O sargento Masters manteve-se em silêncio. Impaciente, olhava a fita, que se desenrolava, e ouvia os cliques da máquina decodificadora. Finalmente, a fita voltou a correr para trás.
Pronto! — anunciou Masters.
O Capitão Rous fez um gesto afirmativo.
Deixe correr!
Mais alguns movimentos com a mão, e no interior do recinto surgiu uma voz que pertencia, certamente, a um homem chamado Ellert. O receptor especial convertera os impulsos mentais do mutante em sons audíveis.
Aqui fala Ernst Ellert! Encontro-me no corpo de Onot. Estou chamando Perry Rhodan. Corro o risco de ser descoberto. Estou ficando muito fraco para continuar a resistir ao espírito de Onot. Ele me afasta aos poucos. Onot foi preso e será acusado perante a Corte Suprema. Se não conseguir impedi-lo, ele me trairá. Ele já sabe da existência da base de Hades. Daqui não posso retornar ao meu corpo, que se encontra na Terra. Tragam meu corpo para Hades, ou levem Onot para a Terra. É a única possibilidade que nos resta. Apressem-se para transmitir esta mensagem para Rhodan. Ele sabe o que fazer. Daqui a poucos dias, será tarde. Ajudem-me! Ernst Ellert.
2



O Império Solar acabara de reconhecer o novo imperador de Árcon. Agora Atlan, o arcônida imortal, o fiel amigo de Rhodan, estava por trás do imenso computador. Os dois impérios trabalhavam em conjunto na difícil tarefa de colocar os diversos povos da Via Láctea sob um único cetro, na expressão de Reginald Bell.
Perry Rhodan ainda se encontrava em Árcon III e preparava seu regresso à Terra. O couraçado Drusus estava à sua disposição.
No fundo, Rhodan não atribuía grande importância aos maus pressentimentos, mas nos últimos dias não conseguira livrar-se da impressão de que algum perigo o ameaçava. Falara com Bell a este respeito, mas este tivera o atrevimento de fazer troça.
Você está enxergando fantasmas, Perry. Os últimos acontecimentos o abateram e desgastaram seus nervos. Não consigo compreendê-lo. Afinal, o que deseja? Os druufs sofreram uma derrota da qual não se recuperarão tão depressa. Perderam sua base espacial e, dentro em breve, estarão presos em sua dimensão temporal. Acho que você está exagerando...
Não se esqueça de Ellert — retrucou Rhodan sem dar a menor atenção à tela com belas figuras coloridas e abstratas. Não apreciava os entretenimentos dos arcônidas. — Ele está em Druufon. Devemos fazer alguma coisa para que possa voltar à Terra. Quando o funil de descarga se fechar será tarde.
Por quê? Sempre poderemos trazê-lo...
Mas em condições muito mais difíceis. É o que eu quero evitar.
Bem. Se é assim, o que estamos esperando?
Até mesmo para Rhodan, a mudança de Bell, foi muito rápida. Lançou um olhar de espanto para o gorducho. Depois sorriu e respondeu:
Isso mesmo; o que estamos esperando? Bem que eu gostaria de saber. Partiremos assim que eu receba a notícia de que na Terra tudo está em ordem. Acho que amanhã já teremos condições para isso. Por aqui, Atlan mantém as rédeas bem firmes. É bem verdade que ainda temos de contar com a ocorrência de distúrbios, mas unidos conseguiremos dominá-los. O que mais me preocupa é meu filho.
Bell não respondeu. Imaginava que justamente esse ponto pesava muito na mente de Rhodan. Achou preferível não fazer qualquer comentário. Por alguns segundos fitaram a tela em silêncio. Subitamente, Rhodan levantou-se.
Vou dormir. Quer fazer favor de pedir a Sikermann que me acorde imediatamente, caso chegue alguma mensagem da Terra?
Bell sentiu sua curiosidade aguçada.
Está esperando alguma mensagem? Rhodan percebeu a armadilha. Sorriu.
E claro que não, Bell. Mas sempre pode acontecer que recebamos uma. E é bem possível que, pelo texto da mesma, Sikermann conclua que não é importante. Repito: seja qual for a mensagem, quero que me avisem imediatamente.
Está bem — disse Bell. Ao que parecia, sua desconfiança se desvanecera.
A Drusus estava estacionada sobre o chão duro de granito, numa das extremidades do espaçoporto.
Tratava-se de um veículo espacial esférico com um quilômetro e meio de diâmetro. Uma pessoa que não conhecesse a nave poderia perder-se no interior do gigante e ficar vagando ao acaso por alguns dias.
Rhodan utilizou alguns elevadores e chegou ao corredor que dava para seu camarote.
O que estará acontecendo com Ellert?”, pensou muito preocupado, embora não houvesse nenhum motivo especial para isso.
Durante sua última estada na Terra, pretendia visitar o mausoléu, mas não tivera tempo para isso. Alguma coisa o inquietava. Não sabia o que era. Os guardas postados diante do mausoléu não haviam notado nada de extraordinário. O corpo de Ellert continuava em seu jazigo, cinqüenta metros abaixo da superfície, aguardando o momento em que o espírito inquieto retornasse.
Rhodan deitou-se.
Qual seria o motivo de todo esse nervosismo? Se algo tivesse acontecido, ele não poderia senti-lo a uma distância de trinta mil anos-luz.
Apesar do cansaço, não adormeceu imediatamente. Os pensamentos não permitiram que tivesse sossego, embora, nas últimas semanas, tivesse conseguido tanta coisa.
A Galáxia tornara-se uma Unidade. Se é que ainda havia algumas raças que não queriam conformar-se com isso, tal fato não assumia maior importância. O tempo faria com que mudassem de idéia — se antes disso as frotas de guerra dos dois impérios cósmicos não as obrigassem a tanto.
Ouviu um ligeiro zumbido acima de sua cabeça. Ao mesmo tempo, uma luz acendeu-se bem embaixo da tela do intercomunicador.
Rhodan levantou-se com uma lentidão proposital.
Meus pressentimentos”, pensou. “Será que eles já estão sendo confirmados?
Apertou o botão e o rosto de um oficial apareceu na tela. Esse rosto demonstrava certo espanto. Ao que parecia, não tinha muita certeza de ter agido acertadamente.
Sir, recebemos um aviso da sala de rádio. Trata-se de uma hipermensagem.
Pode falar, Tompetch. Ou será que ainda não recebeu o texto?
Mike Tompetch fez um gesto afirmativo.
Naturalmente, Sir. A mensagem vem do Marechal Freyt, que se encontra na Terra. Data da expedição: 5 de agosto de 2.044. Tempo terrano: 17 horas e 48 minutos. O texto é o seguinte: Alarma de Hades. Trata-se de Ellert. Pelo que informa o Capitão Rous, o espírito de Ellert está muito fraco para poder retornar a seu corpo e pede que Rhodan o ajude. É necessário agir imediatamente. Peço instruções. Freyt.
Rhodan manteve-se imóvel por alguns segundos, mas logo tomou sua decisão. Quando transmitiu sua ordem ao Tenente Tompetch, as palavras saíram-lhe nítidas:
Mensagem dirigida a Freyt, Terrânia. Texto: Oportunamente forneceremos instruções.
Depois enviou outra, destinada a Hades.
Texto: Ligar o receptor do transmissor de matéria exatamente dentro de cinco horas. Irei pessoalmente. Rhodan.
A seguir, concluiu:
Providencie para que as duas mensagens sejam expedidas o mais rápido possível.
Entendido, Sir...
Um momento. Acorde o Coronel Sikermann. A Drusus partirá dentro de uma hora.
Tompetch arregalou os olhos.
Nós... Está bem, Sir! A tela apagou-se.
Dali a dez minutos, Rhodan entrou na sala de rádio. Seu rosto estava muito sério. Pediu que confirmassem que as duas mensagens haviam sido expedidas e mandou que fizessem uma ligação de telecomunicador com Atlan. Provavelmente o imperador de Árcon se encontrava no palácio dos soberanos. Se não, teriam que dar um jeito para encontrá-lo.
Rhodan esperava, quando Bell entrou e anunciou:
Sikermann manda dizer que a Drusus está em condições de decolar, Perry. Todos os homens estão a postos.
Vamos adiar a partida. Ainda não conseguimos entrar em contato com Atlan.
Deixe um recado para ele — sugeriu Bell. — Quem sabe em que local noturno ele se diverte.
Estas coisas não existem em Árcon III — disse Rhodan, lembrando um fato que os tripulantes da Drusus já haviam lamentado bastante. — Se não conseguir encontrá-lo, não terei outra alternativa senão deixar um recado.
Refletiu um pouco.
Está bem. A decolagem está definitivamente fixada para daqui a quarenta minutos.
Bell confirmou.
Cinco minutos antes dos gigantescos propulsores da Drusus serem ligados, Atlan chamou.
Vai partir, Perry? Para que tanta pressa? O que aconteceu?
Um sorriso quase imperceptível surgiu no rosto de Rhodan.
Você acaba de formular três perguntas de uma vez, almirante... perdão, imperador. Basta uma única resposta: Ellert está em perigo. Irei a Hades. Está com vontade de ir comigo?
Atlan soltou um suspiro.
Que belos tempos foram estes em que nós dois podíamos vagar pelo espaço! Agora só posso pensar nas minhas obrigações. Devo confessar que a tarefa de governar não é fácil. Deixa-se de ser um homem livre.
Pretende passar o resto dos seus dias em Árcon?
É claro que não, Perry. Mas desta vez tenho de ficar. Tenho problemas diplomáticos urgentes a resolver. Você compreende? Desejo-lhe boa sorte, e faço votos de que volte logo. Passe bem.
Procurarei apressar-me — disse Rhodan com um gesto de despedida.
Depois a tela apagou-se.
A Drusus decolou no momento indicado. Os propulsores começaram a uivar e empurraram a gigantesca nave pelo espaço afora. Os campos antigravitacionais neutralizaram a pressão. Acelerando cada vez mais, o gigante espacial aproximava-se da velocidade da luz e do anel de fortificações de Árcon, enquanto o planeta central mergulhava no infinito.
Depois de duas horas de velocíssima viagem, viram as estações espaciais automáticas passar de ambos os lados da nave e ficar para trás. A palavra-código evitara que essas fortalezas começassem a cuspir fogo e destruíssem a Drusus.
A nave prosseguia livremente em direção ao ponto de transição previamente calculado.

* * *

No momento certo, o Capitão Marcel Rous mandou colocar um dos transmissores em recepção. A essa hora, a Drusus devia estar materializando-se em algum lugar, nas proximidades do funil de descarga, que separava o Universo einsteiniano do plano temporal dos druufs, e Rhodan certamente estaria entrando na estação de remessa do transmissor de matéria.
Parado à frente da porta gradeada, Rous estava aguardando o chefe. A luz verde estava acesa, mas por enquanto não se via o menor sinal de Rhodan.
A luz começou a oscilar. Os primeiros impulsos expedidos pela Drusus estava chegando. O transmissor acabara de ser acionado. E então — subitamente, sem a menor transição — o vulto de um homem surgiu no interior da área cercada pelas grades. Saiu do nada e materializou-se de um instante para outro.
Rhodan abandonou a jaula e apertou a mão do Capitão Rous.
Meteu-me um susto daqueles, capitão. Como foi que o Marechal Freyt acabou recebendo esse aviso?
Estavam caminhando pelo corredor, em direção à cabina em que residia o comandante da base. Antes que chegassem aos aposentos de Rous, este disse:
Assim que recebi o pedido de socorro de Ellert, enviei uma mensagem de emergência à Ohio, que é nossa nave de ligação estacionada junto ao funil. Suponho que esta a tenha transmitido imediatamente ao Marechal Freyt, que por sua vez entrou em contato com o senhor. De qualquer maneira, a rapidez com que hoje em dia as notícias correm pela Via Láctea é verdadeiramente espantosa.
Abriu a porta e deixou que Rhodan passasse à sua frente. Só depois que os dois estavam sentados perto de uma bojuda garrafa colocada sobre a mesa, Rhodan perguntou:
O que aconteceu com Ellert?
Rous enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de papel.
É a primeira mensagem radiofônica que recebemos de Druufon.
Rhodan leu a mensagem de Ellert devagar e com o maior cuidado. Quando colocou o papel na mesa, parecia muito pensativo.
Quer dizer que realmente agarraram Onot, e Ellert já não tem possibilidade de abandonar o corpo em que está hospedado, para voltar à Terra. Não teremos outra alternativa senão levar seu corpo para Druufon. Bem, não será nada fácil. Ainda bem que dispomos de bastante tempo. Alguns dias ainda se passarão, até que o inquérito esteja concluído e o processo contra Onot seja iniciado.
Rous sacudiu a cabeça. Empalidecera um pouco.
Neste meio tempo, recebemos outra mensagem de Ellert, Sir. Receio que o tempo de que podemos dispor seja muito escasso. Já faz duas horas que Onot se encontra diante da Corte Suprema.
Rhodan fitou-o com uma expressão de perplexidade.
E só agora o senhor vem me dizer isso?
O capitão não respondeu. Rhodan inclinou-se para a frente e colocou a mão direita sobre seu braço.
O que diz a segunda mensagem, Rous? Seria capaz de fornecer-me o texto integral?
Sei de cor, Sir. Ellert avisou que foram buscar Onot na prisão e o colocaram diante da Corte. Mal e mal lhe restam forças para obrigar Onot a fazer determinadas declarações. Diz que, no seu íntimo, o quadrático cientista está disposto a revelar toda verdade aos juizes. Ellert tenta impedir que isso aconteça. Não sabe por quanto tempo ainda agüentará. Se for obrigado a abandonar o cérebro e o corpo de Onot, não saberá para onde ir. Para sair de Druufon, precisaria de forças. E estas lhe faltam.
Rhodan fez um gesto de assentimento.
Imagino perfeitamente o que acontecerá se ele for obrigado a abandonar Onot, sem que disponha da necessária energia. É possível que, se isso acontecer, perca o controle direcional do tempo e volte a mergulhar no fluxo temporal que o arrastou até aqui. Face a isso, pelo menos já sabemos que a permanência no presente exige um certo dispêndio de energia. É estranho, mas nunca pensei nisso.
Levantou a cabeça e fitou diretamente os olhos de Rous.
Devemos agir imediatamente. Mais tarde poderemos filosofar. Voltarei para bordo da Drusus, mas permanecerei nas proximidades de Hades. Se houver algum ataque, conte comigo. Se Onot acabar falando...
Levantou-se e esperou que Rous abrisse a porta à sua frente. Enquanto caminhavam em direção aos transmissores, prosseguiu:
Se chegar outra mensagem de Ellert, avise imediatamente.
Certo Sir — prometeu Rous.
Rhodan voltou a virar o rosto para ele antes de desmaterializar-se.
Dali a um segundo, saiu do receptor instalado a bordo da Drusus e, apressado, dirigiu-se à estação de hiper-rádio da nave.
Suas instruções foram rápidas e precisas, como sempre acontecia, quando o destino da Terra ou da Galáxia estava em jogo.

* * *

Até mesmo pelo aspecto exterior, o Marechal Freyt tinha certa semelhança com Perry Rhodan. E, tal qual o administrador, recebera a ducha celular no planeta artificial Peregrino. Esse tratamento prolongava a vida e, por isso, o processo de envelhecimento foi detido. Naquele princípio de tarde, o movimento era enorme na central de emergência de Terrânia. As hipermensagens das naves estacionadas no espaço chegavam quase a cada hora que passava. Agora, que a posição galáctica da Terra já era conhecida, não havia motivo para maiores cuidados.
Acontece que todas as comunicações que iam chegando eram indiferentes para Freyt. Aguardava uma determinada notícia, muito embora apenas pudesse imaginar qual seria o conteúdo. Porém, Rhodan submeteu-o a uma espera prolongada.
Muito nervoso, estava sentado no seu gabinete. Seu corpo magro estava ligeiramente inclinado, mas isso acontecia antes por hábito que por fraqueza. À sua volta, os aparelhos de comunicação ameaçavam esmagá-lo. Em todos os lugares se viam telas, quadros de comando e cabos. A partir daquele recinto, podia controlar não apenas o planeta Terra, mas todo o sistema solar e uma gigantesca frota espacial.
Freyt transmitira para Rhodan, que se encontrava em Árcon, a mensagem radiofônica recebida de Hades. Sabia que uma decisão era iminente. Como sua mente possuísse uma elevada capacidade de combinar os fatos, tomara suas precauções e avisara o Professor Haggard e também o Dr. Jamison. Os dois médicos permaneciam em suas residências, à espera do momento em que teriam de entrar em ação.
Entrar em ação...?
Freyt sacudiu a cabeça e disse, para si mesmo, ser um pessimista.
As coisas não devem estar tão ruins assim para Ellert”, pensou. “O peregrino do tempo acabará encontrando o caminho para a Terra, quando isso se tornar necessário.”
Encontraria mesmo?
Uma luz acendeu-se. Era a sala de rádio.
Era apenas um aviso de um couraçado que fora transferido de posição.
Mais uma vez, nada! A espera começava a tornar-se insuportável.
Porém, no momento em que finalmente a sala de hiper-rádio chamou e transmitiu a mensagem direta de Rhodan para a residência de Freyt, de um instante para outro, o marechal virou a calma em pessoa.
A tela oval iluminou-se. Nos primeiros segundos, os contornos do rosto de Rhodan eram um pouco apagados, mas logo tornaram-se nítidos. Reconhecia-se perfeitamente todas as linhas. As hiperondas possibilitavam o contato direto e imediato a uma distância de vários anos-luz.
Até parece que tanto o senhor como eu esperávamos esta palestra, marechal.
É verdade, Perry.
Numa ligação direta desse tipo, tinha-se a impressão de estar sentado à frente do interlocutor, na mesma sala. Se não fosse assim, Freyt não chamaria Perry de você. Quando se encontravam em público, até mesmo os velhos amigos costumavam resguardar a imagem da disciplina.
Qual é sua posição? Ainda Árcon?
Não. Hades. Encontro-me na Drusus, a um ano-luz do sistema dos druufs. Ellert enviou outra mensagem. Não está em condições de abandonar o corpo de Onot por um tempo mais prolongado, sem que corra um grave perigo. Onot encontra-se diante da Corte de Justiça, onde está sendo processado por traição. Ellert se esforça para evitar que faça uma confissão, cujas conseqüências poderão ser desastrosas a todos nós. Só vejo uma salda para esse impasse. O cadáver de Ellert deve ser retirado imediatamente do mausoléu e levado para Hades. O resto poderá ser arranjado depois.
Era o que eu imaginava! — exclamou Freyt. — Haggard e Jamison estão de prontidão. Quando será?
Um sorriso surgiu no rosto de Rhodan.
A semelhança entre nós não se limita ao aspecto exterior, Micha — seu rosto voltou a tornar-se sério. — Será imediatamente! Tome todas as providências para que tenham o maior cuidado quando estiverem lidando com o corpo. Ambos os médicos deverão acompanhá-lo e não tirarão os olhos do mesmo. Você vai providenciar tudo?
Eu mesmo levarei Ellert, Perry. Rhodan fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Você é meu representante. Quem...?
Em poucas horas, tudo estará resolvido. Mercant cuidará dos assuntos mais importantes. Acho que tem capacidade para isso.
Também acho. Está bem, Micha. Espero-o.
Conte comigo — disse Freyt e fez um sinal para o amigo.
A tela escureceu de um instante para o outro quando, depois das últimas instruções de Rhodan, a ligação foi interrompida.
Por um segundo, Freyt manteve-se imóvel em sua poltrona, mas logo seu corpo adquiriu vida. Mercant foi informado sobre a situação, os dois médicos receberam ordem para dirigir-se ao mausoléu, deram-se instruções para que o cruzador ligeiro C-13 fosse preparado para a decolagem e solicitaram-se vários planadores.
Dali a dez minutos, Freyt pousou no deserto, junto à pirâmide erguida sobre o túmulo de Ellert. Haggard a Jamison já o esperavam. As sentinelas, que mantinham guarda ininterruptamente no local, mantiveram-se imóveis. Seus rostos continuaram impassíveis.
O professor Haggard, um dos amigos mais antigos de Rhodan e que também recebera a ducha celular, foi ao encontro de Freyt a passos largos.
O que houve? O cadáver de Ellert pegou um resfriado?
Haggard era conhecido por suas brincadeiras grosseiras mas todo mundo sabia que, com elas não pretendia ofender ninguém.
Ou será que quer praticar a ressurreição? — prosseguiu.
Talvez sejam ambas as coisas, em certo sentido — respondeu Freyt e apertou a mão do amigo. Cumprimentou o Dr. Jamison numa atitude um pouco mais reservada, mas não menos amável. — Acabo de receber instruções de Perry Rhodan para retirar o corpo de Ellert do mausoléu e levá-lo para Hades. No caso, o termo cadáver não me parece adequado, meu caro Haggard.
Hein? — fez o professor. — Para Hades? Por quê?
Porque Ellert já não está em condições de percorrer o longo caminho para a Terra. Só por isso. Sei perfeitamente como entrar no túmulo. Será que os senhores médicos poderiam ter a gentileza de acompanhar-me?
Passou entre as duas sentinelas, tocou a parede lisa da pirâmide com a mão espalmada, empurrou-a de um lado para o outro, como se estivesse procurando alguma coisa... e de repente ouviu-se um ruído.
O solo do deserto abriu-se, pondo à mostra uma escada, que conduzia para as profundidades.
É por aqui que temos de descer — explicou o marechal. Caminhou à frente dos outros.
A segunda porta foi mais fácil de ser aberta e, depois disso, surgiu à frente deles a câmara mortuária propriamente dita, na qual o corpo imorredouro do teletemporário jazia há setenta anos, aguardando o momento em que o espírito retornasse a ele.
O Marechal Freyt fitou os complicados instrumentos que desencadeariam o alarma ao menor sinal de vida de Ellert. O espelho à frente da boca do “morto” não estava embaçado. O ar daquele recinto quadrático parecia abafado, muito embora tivesse sido renovado ininterruptamente nos últimos sete decênios.
Os três homens levaram algum tempo para perceber que o rosto de Ellert estava mudado. As faces estavam encovadas, os olhos jaziam no fundo das órbitas negras e a pele brilhava numa tonalidade azulada.
O professor Haggard apontou com a mão trêmula para o vulto magro, cujos contornos se desenhavam abaixo do tecido.
É o início da decomposição...!
O Marechal Freyt teve a impressão de que seu coração ia parar.
Será que tudo fora em vão? Há setenta anos Ellert procurava seu corpo, e agora, que finalmente o tinha encontrado, talvez já fosse tarde. Era bem verdade que Ellert poderia assumir outro corpo, mas...
Temos de apressar-nos! — disse com a voz apagada e virou-se para a parede, a fim de desligar os instrumentos que Rhodan lhe descrevera. — Jamison, ajude Haggard a levar Ellert para cima.
Tomara que não estejam carregando realmente um cadáver”, pensou um tanto desesperado.
3



Vários pares de olhos frios e implacáveis fitavam Onot.
Atrás de uma mesa alta e comprida estavam sentados os juizes, em número de doze, envoltos em becas vermelhas. Mais ao fundo, o presidente da Corte estava sentado num pedestal, em posição mais elevada. Exercia também as funções de promotor e chefe do Ministério Público.
Ao contemplar os rostos impiedosos que tinha à frente, Onot sentiu-se pequeno e insignificante. Teve de ficar de pé e estava sendo vigiado por dois druufs que o fitavam com uma expressão zangada. Ouviu atrás de si o murmúrio da assistência, formada por cientistas e políticos. O processo provocara grande sensação.
Pergunto — disse o presidente numa voz penetrante, mas inaudível aos ouvidos humanos. — O que tem a dizer sobre a acusação que acaba de ser apresentada? Reconhece sua culpa?
Não — respondeu Onot, agindo de sua livre e espontânea vontade.
Ellert não fez qualquer tipo de pressão, muito embora se mantivesse de guarda. Não conseguira evitar que seu espírito consciente tivesse descoberto alguns dos seus segredos, que, em hipótese alguma, deveriam ser revelados.
Não me sinto culpado pelos atos de que sou acusado.
O presidente da Corte acenou com a cabeça, como se não tivesse esperado outra coisa.
Se é assim, chamo a testemunha Brodak.
Onot tinha uma vaga lembrança de Brodak. Fora um dos assistentes que trabalhara no centro de computação secundário, nas proximidades de seu laboratório secreto.
O que é que ele poderia saber?
Um druuf foi introduzido na sala e colocado à frente do juiz. Ao que parecia, estava disposto a aniquilar Onot, custasse o que custasse.
No dia em que o centro de computação da capital foi destruído, vi Onot junto ao nosso computador, nas proximidades do deserto — declarou Brodak. — Estava saindo do metrô e tinha muita pressa. Uma hora antes, os robôs inimigos haviam penetrado e destruído o centro de computação. Onot foi o único que teve tempo para fugir. Ninguém mais conseguiu; a surpresa foi muito grande. Como já disse, Onot fugiu. E isso prova que sabia do ataque.
Houve um movimento na assistência. Os juizes puseram-se a confabular. Brodak prosseguiu em tom de triunfo:
Hoje já sabemos que a invasão dos robôs foi realizada através do transmissor de matéria. O aparelho foi ligado exatamente no momento apropriado. E foi ligado por Onot!
Houve um tumulto indescritível. Onot ouviu gritos ameaçadores e estremeceu. Se dependesse da vontade dos assistentes, seria morto ali mesmo.
O presidente da Corte fez com que a calma se restabelecesse.
O que tem a dizer, Onot?
Ellert concentrou suas forças e obrigou Onot a dar esta resposta:
Isso é uma mentira infame! É pura intriga! Não fiz nada disso.

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