Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Depois
da longa viagem pela eternidade, o espírito de Ellert revive seu
cadáver.
Com a
descoberta de uma nave exploradora dos arcônidas, pousada na Lua,
foi lançada a base da união da Humanidade terrana e do Império
Solar, que haveria de sair dessa união. Então ninguém, nem mesmo
Perry Rhodan, imaginava quantos esforços e firmeza de ânimo se
tornariam necessários para, no curso dos anos, defender o sistema
solar dos ataques vindos de dentro e de fora.
Graças
ao auxílio dos arcônidas, conseguiu-se vencer a ameaça mais grave
que pesou sobre a Humanidade, e que culminou na invasão dos druufs e
na batalha em defesa do Império Solar.
E o
perigo interno, provocado por Thomas Cardif, o renegado, foi removido
graças à ação isolada de Gucky.
Acontece
que a evolução pacífica da Humanidade só se tornará possível se
a Galáxia estiver em paz — e parece que há um longo caminho a
percorrer até que se chegue lá...
Também
Atlan, o imortal, que há pouco passou a ocupar a máquina
gigantesca, que por meio da atuação implacável das frotas
robotizadas abafava qualquer revolução no nascedouro, quer a paz.
Atlan,
que passou a ser conhecido como Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, apóiam-se mutuamente, nem que seja
pelo simples instinto de autoconservação.
E é
assim que, em princípios de agosto do ano 2.044, quando recebe um
aviso de emergência da Terra, Perry Rhodan, ainda se encontra em
Árcon III. O Marechal Freyt lhe fala pelo telecomunicador. Transmite
uma notícia vinda de Hades, a base terrana secreta, situada no
Universo dos druufs. Trata-se do Regresso de Ernst Ellert...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Ernst
Ellert
— Seu
corpo entra em decadência, e seu espírito ameaça descambar de novo
para a eternidade.
Onot
— Um
cientista que enfrenta uma situação difícil.
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Capitão
Marcel
Rous
— Comandante
da Base de Hades.
Gucky
— O
rato-castor mutante que vai caçar fantasmas.
Tenente
Mundi
— Um
piloto espacial simpático e competente.
Dr.
Eric
Manoli
— Médico
de bordo da velha Stardust.
1
A
superioridade deles era tamanha que preferiu não oferecer a menor
resistência. Os planadores foram chegando às dezenas e pousaram no
chão duro e pedregoso do deserto. Apontaram os canhões energéticos
para a íngreme encosta, atrás da qual estava escondido o
laboratório subterrâneo do cientista.
Por meio
das telas de televisão, observou-os e ficou quebrando a cabeça,
imaginando como fora descoberto. O esconderijo fora muito bem
escolhido, e ninguém, a não ser ele mesmo, sabia de sua existência.
Suas
reflexões foram subitamente interrompidas, quando os microfones
externos levaram as vozes dos atacantes para dentro do laboratório.
Os sons não seriam perceptíveis a qualquer ouvido humano, pois
ficavam acima das freqüências audíveis. Mas ele, que estava sendo
procurado e acabara de ser encontrado, entendia o que diziam.
— Você
está cercado, Onot! Se vier à superfície, sem armas, ouviremos o
que tem a dizer. Caso contrário nós o mataremos e destruiremos seu
laboratório.
Onot
sentia-se abatido. Bem que desconfiara. No passado, sua vida não
correra conforme desejava. Muitas vezes fizera coisas que ele mesmo
julgava incompreensíveis e agira contrariamente às suas convicções.
Às vezes procedera como se fosse inimigo de seu povo e amigo dos
inimigos mais perigosos. Foi exclusivamente por sua culpa que os
robôs de guerra dos atacantes destruíram o grande centro de
computação e, posteriormente, também o centro científico
espacial.
— Irei —
disse para dentro de um microfone e olhou em torno, um pouco triste.
Encontrava-se
num gigantesco recinto de pedra, que há tempos fora aberto na
montanha por meio de grandes armas energéticas. O único caminho que
levava à superfície era um corredor estreito. Ali ficava seu
laboratório secreto, onde costumava trabalhar sempre que precisava
de tranqüilidade e solidão. E, como fosse o cientista mais
competente de seu povo, fizera algumas invenções importantes.
Mas,
naquele momento, tudo isso estaria esquecido. A única coisa que
importava era a traição. A traição cometida por ele.
Passou a
mão pela junta disforme do outro braço. Ali sentiu uma saliência
minúscula, que nenhuma outra pessoa notaria. Com uma ligeira pressão
do dedo, ativou a bateria celular do minúsculo transmissor escondido
sob a pele.
Por um
momento, Onot refletiu sobre o motivo por que possuía esse
transmissor e a pessoa à qual poderia dirigir o pedido de socorro
transmitido. Mas finalmente cobrou ânimo e caminhou em direção à
porta, a fim de entregar-se aos policiais.
Nesse meio
tempo, os ocupantes dos planadores se haviam espalhado a fim de
cercar a encosta. Outros aviões se encontravam no céu colorido,
prontos a apoiar a ação de surpresa contra o cientista rebelde. Não
eram seres humanos. Suas figuras quadráticas e grosseiras erguiam-se
a quase três metros sobre as duas pernas que antes pareciam colunas.
A pele sem pêlos parecia feita de couro grosso e cobria todo o
corpo. A cabeça esférica tinha quase cinqüenta centímetros de
diâmetro, e nela havia quatro olhos que permitiam uma visão de ao
menos trezentos graus. Nariz e orelhas não haviam.
Os druufs
descendiam de insetos, mas não se percebiam muitos sinais disso. De
qualquer maneira, eram ultrafonadores. As ondas que levavam as
mensagens eram transmitidas por emissoras orgânicas e captadas por
receptores do mesmo tipo. O que ainda chamava a atenção eram os
braços disformes, em cujas extremidades se viam dedos finamente
articulados, que não guardavam qualquer proporção com o corpo
gigantesco.
Na rocha
surgiu uma fenda. Onot saiu para o platô. Abriu os braços, para
mostrar que não trazia nenhuma arma. Em seu rosto lia-se certa
perplexidade, misturada talvez com uma pequena dose de curiosidade.
— Aqui
estou. O que querem de mim?
Um tenente
da polícia saiu do abrigo, com a arma de radiações apontada para o
cientista.
— Quer
dizer que está disposto a entregar-se?
— Por
que você acha que estou à sua frente? — respondeu Onot em tom
irônico.
O oficial
fez um sinal para seus homens.
— Revistem-no
— gritou.
Não
encontraram nada; não notaram o pequeno transmissor.
— Poderia
informar de que sou acusado? — perguntou Onot.
O tenente
ficou devendo a resposta.
— Oportunamente
você saberá. Mas desde já posso dizer-lhe uma coisa: será muito
difícil você limpar-se da pecha da traição. Devemos agradecê-lo
pela destruição de nosso centro de computação. Mas isso foi
apenas o primeiro passo. O centro espacial... ora, já basta!
Siga-me.
Onot
parecia querer dizer alguma coisa, mas resolveu ficar quieto. Seguiu
o tenente com a boca triangular firmemente cerrada. Olhou para o céu
e notou que o sol já se encontrava no poente. Dali a pouco, seria
noite.
Era um
gigantesco sol vermelho que se encontrava acima das colinas próximas
e derramava sua luz sobre a paisagem desolada. Mas este sol não
estava só. A seu lado via-se um pequeno companheiro esverdeado,
quase oculto pela luz vermelha.
Depois de
um vôo de pouco menos de uma hora, os planadores policiais pousaram
no espaçoporto da capital. Um veículo blindado levou Onot ao
edifício em que funcionava o Supremo Tribunal.
O
cientista teve oportunidade de observar os arredores através de uma
janela pequena. Ficou espantado ao constatar que a maior parte dos
edifícios apresentava sérios danos. Alguns deles haviam sido
destruídos por completo e desmoronaram. Havia bairros inteiramente
arrasados.
Um confuso
sentimento de culpa começou a dominar sua mente. Porém tal
sentimento logo foi superado por uma voz interna, tranqüilizadora.
Tal voz lhe dizia que era totalmente inocente.
A voz
interior...?
Onot
procurou lembrar-se do que sabia dela, mas sua memória falhou por
completo. Havia alguma coisa; tinha uma lembrança confusa, mas por
mais que se esforçasse, não seria capaz de dizer o que era. Alguém
estava com ele, mas não podia vê-lo nem senti-lo.
Parecia
despertar de um sonho, quando mãos rudes agarraram seus braços e o
arrastaram para fora do carro. Encontrava-se numa área cercada por
altos muros.
— Deixe
os sonhos para depois — disse o tenente em tom irônico. Parecia
ter-se esquecido de que o cientista facilitara seu trabalho ao
entregar-se sem oferecer a menor resistência. — As celas são
silenciosas e bastante solitárias.
— Obrigado
— respondeu Onot, ainda distraído.
Levaram-no
por uma série de enormes corredores. Passou por numerosas portas e,
finalmente, desceu ao subsolo. Quando a porta da cela se fechou e ele
se viu só, suspirou aliviado. Talvez lhe dessem tempo para refletir
calmamente.
No teto do
recinto sem janela, havia uma grade; pertencia ao sistema de
condicionamento de ar. Era possível que atrás dela estivesse
escondida uma objetiva de televisão. Num dos cantos havia uma cama
estreita, e, ao lado da mesma, uma mesa e uma cadeira. Era só.
Onot
sentou-se. Apoiou a cabeça nas mãos e procurou recapitular o
passado. Fazia tanto tempo, mais de cem ou duzentos dias. Aliás, já
não tinha uma idéia precisa de nada. Antigamente fora Onot, um
homem afamado, o cientista mais competente dos druufs. Presenteara-os
com numerosas invenções.
Invenções...?
Onot foi
recuperando a esperança. Quer dizer que ainda sabia disso!
Lembrou-se do último trabalho por ele realizado. Montara o
estabilizador estrutural na grande estação espacial. Esta sua
invenção mais recente era um aparelho único. Também poderia ser
designado como paralisador do tempo. Permitia a criação de um campo
em que o tempo ficava parado.
O
paralisador do tempo...? Onot teve a impressão de que a escuridão,
que cercava os acontecimentos pelos quais pretendiam
responsabilizá-lo, estava cedendo. Talvez, se sua memória voltasse
a funcionar, ele conseguisse encontrar a explicação.
Mas quando
de repente tornou a sentir aquelas fortes dores de cabeça, perdeu as
esperanças. Sabia que essa dor de cabeça era seu pior inimigo.
Quando ela surgia, por vezes tinha a impressão de que a voz interior
lhe falava. Lembrou-se de que, certa vez, soubera quem era essa voz,
mas agora não se lembrava mais.
Talvez
mais tarde conseguisse lembrar-se.
*
* *
A rigor, o
Capitão Marcel Rous encontrava-se numa posição perigosa.
Conforme
se depreende do próprio nome, o planeta Hades era um verdadeiro
inferno. Era o décimo terceiro planeta do maior sistema solar visto
por qualquer olho humano. O gigantesco sol gêmeo de Siamed possuía
sessenta e dois planetas, e quase todos eles eram cercados por luas.
O planeta número 16 era Druufon, o mundo dos druufs.
Era este o
motivo pelo qual o Capitão Marcel Rous se encontrava em Hades, que
era o décimo terceiro planeta. A base terrana fora aberta em plena
rocha por meio dos fortes raios energéticos das peças de artilharia
das naves. Ficava bem abaixo da superfície do planeta crepuscular,
no qual a vida era praticamente impossível, com exceção talvez da
estreita zona da penumbra.
De
qualquer maneira, não tinham nada a fazer na superfície, onde
poderiam ser avistados por eventuais unidades de patrulhamento dos
seres quadráticos. Depois da pesada derrota sofrida no Universo
einsteiniano, os druufs se haviam retirado para sua dimensão
temporal e desistiram das tentativas de ampliar seu poder. O inimigo
até aproveitara a boa oportunidade proporcionada pela retirada e
destruirá a estação espacial na qual estava instalada a mais
recente criação de Onot.
De
qualquer maneira, Marcel Rous preferiu agir com cautela. Se os druufs
descobrissem que em seu sistema solar havia uma base da Terra, eles a
atacariam com todo o poder de que dispunham.
A base
tinha agora uma única finalidade: não permitir que a ligação com
Ernst Ellert fosse interrompida.
Há mais
de setenta anos Ernst Ellert se tornara membro do Exército de
Mutantes. Sua capacidade de enviar o espírito para o futuro selara
seu destino. Um acidente separara o espírito do corpo. Dali em
diante, o espírito passou a vagar sem descanso pelo tempo e pelo
espaço, à procura do presente, que nunca encontrou. O que encontrou
foi um novo presente, que, naquele tempo, ainda se situava num futuro
longínquo.
Agora
possuía novamente um corpo, mas não era o seu. A sua verdadeira
matéria encontrava-se num mausoléu nas proximidades de Terrânia.
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, mandara sepultá-lo
naquele lugar.
Ellert
encontrava-se em Druufon. Disse que avisaria quando chegasse o tempo
em que pudesse abandonar o corpo, que o acolhera provisoriamente, e
voltar à Terra.
A um
ano-luz de Hades, havia uma fresta no Universo, que ligava os dois
planos temporais. Graças a isto, tornava-se possível passar de um
plano a outro, sem que houvesse necessidade de recursos técnicos
especiais. Acontece que essa fresta — ou melhor, o chamado funil de
descarga — se deslocava e se estreitava. Não demoraria muito, e
tal abertura seria coisa do passado. Depois disso, os druufs
simplesmente desapareciam do plano existencial dos terranos, a não
ser que conseguissem transpor com seus próprios meios a barreira do
tempo.
Na base de
Hades havia doze transmissores de matéria. Graças a eles, se tornou
possível a construção e a instalação da fortificação secreta.
As armas, os materiais e mantimentos, as provisões e o pessoal foram
transportados das naves para Hades, percorrendo mais de um ano-luz.
Marcel
Rous fazia sua ronda diária pela base. Vez por outra, falava com um
dos homens que a guarneciam e controlava o armamento, o equipamento
de rádio e os aparelhos de alerta.
Ao passar
pela sala de rádio, Rous certificou-se de que o setor de recepção
estava pronto para entrar em ação. Ao menor impulso, as fitas
gravadoras começariam a correr e armazenariam toda e qualquer
mensagem que fosse recebida. Mas por enquanto as luzes de controle
estavam no verde. Não havia chegado nenhuma mensagem.
— O
cruzador Ohio encontra-se junto ao funil de descarga — informou o
operador de rádio. — Não há nada de extraordinário.
Marcel
Rous fez um gesto de assentimento e voltou aos seus alojamentos,
depois de realizar mais uma visita à sala de comando da base.
Tudo calmo
em Hades.
O planeta
infernal parecia viver numa paz absoluta. No entanto, a desgraça
encontrava-se a poucos minutos-luz de distância.
— Quando
nada acontece tão perto da zona de perigo, a gente chega a sentir
tédio — disse Marcel Rous ao deitar-se.
Mais tarde
desejaria que nunca tivesse pensado assim.
*
* *
Onot
passou dois dias e três noites em sua cela, sem que ninguém se
interessasse por ele. Um guarda silencioso trazia-lhe a comida e não
respondia às perguntas que fazia.
A memória
foi voltando lentamente.
Até então
o cientista ainda não se dera conta de que estava atacado de
amnésia. Era bem verdade que se esquecera, apenas, de uma ou outra
coisa. No passado, especialmente quando o centro de computação foi
destruído pelos robôs inimigos, agira de forma estranha. E não
sabia explicar por que agira assim, mas ainda se lembrava de que ele
o fizera.
Encontrava-se
numa tremenda confusão mental. Seus pensamentos esforçavam-se para
traçar uma linha reta, entre o presente e os acontecimentos do
passado, mas não conseguiram. Teve a impressão de que inexplicáveis
véus se interpunham entre os acontecimentos, impedindo-o de olhar
para trás. E as dores de cabeça voltaram a tornar-se insuportáveis.
Sabia
perfeitamente que se encontrava numa armadilha. Seria
responsabilizado por coisas das quais não se lembrava.
Será que
realmente fora ele quem causara a destruição do grande centro de
computação subterrâneo? E, em caso afirmativo, por que teria feito
isso? Por que havia permitido que os robôs inimigos penetrassem no
centro de computação?
De
repente, teve a impressão de que poderia tocar o passado com as
mãos. Mas quando estendeu as mesmas, o passado desapareceu, outra
vez, atrás dos véus. Até parecia que alguém o arrastara para
longe. Alguém...?
De súbito,
Onot lembrou-se de que alguém desempenhara um papel importante.
Alguém que não podia ver, mas ouvir. Alguém que se encontrava
perto dele. Ou melhor, dentro dele.
Isso
mesmo; agora sabia. Ao amanhecer do terceiro dia, Onot começou a
lembrar-se.
Naquela
oportunidade, uma voz lhe dirigira a palavra. Parecia vir do nada,
mas estava falando dentro dele... e para ele. Era uma voz clara e
apavorante. Afirmara que já há anos habitava seu corpo e controlava
seu trabalho. E essa voz ainda lhe dissera que foi só, graças a
ela, que Onot se tornou o maior cientista de seu povo.
Onot
levantou-se e caminhou nervosamente de um lado para outro. Cinco
passos para um lado, cinco passos para outro lado. A voz...
Ela ainda
lhe dissera que teria de fazer o que mandava. Precisava obedecer-lhe,
fossem quais fossem as ordens transmitidas. E lembrou-se de que essa
voz lhe ordenara que cometesse a traição. Sim, foi ele mesmo quem
ligou o receptor do transmissor, a fim de que os robôs inimigos
pudessem penetrar no centro de computação. E fez isso unicamente
porque a voz o exigira.
Onot
voltou a sentar-se.
Quando
falasse a respeito da voz, será que o juiz acreditaria? Ou será que
consideraria aquilo uma desculpa barata, uma elucubração de um
cérebro doentio?
Onot já
parecia ouvir as estrondosas gargalhadas que fariam retumbar a sala
de sessões. Os druufs eram seres frios e calculistas. Não
acreditavam em vozes ou fantasmas.
Onot
continuou a revirar suas recordações.
Aquela voz
não lhe dissera também que, quando ela o abandonasse, teria de
morrer? Pois bem. Ela já o abandonara há muito tempo, mas
continuava vivo. E, além disso, a memória dos acontecimentos estava
voltando aos poucos. Talvez tudo isso acabasse bem, desde que
conseguisse convencer os juizes de que era inocente. Instalaria outro
centro de computação e montaria outro paralisador do tempo. Teria
oportunidade de reparar os erros do passado.
Naquela
oportunidade, a voz lhe dissera ser um espírito que perdera o corpo.
Encontrara um novo abrigo no interior de Onot. O espírito e o
intelecto de Onot, assim prosseguira a voz, não deveriam resistir às
suas ordens, mas deveriam cumpri-las.
Onot
obedecera por ter sido obrigado a isso, e ainda porque, no momento,
não tivera a menor idéia do que estava acontecendo com ele. Sob o
ponto de vista moral não era culpado dos crimes pelos quais o
acusavam. Mas face às leis impiedosas de Druufon as coisas poderiam
ser diferentes.
— Voltei
a recuperar o domínio de meu espírito e, com isso, de meu corpo —
balbuciou Onot. — Ninguém manda em mim. Construirei uma arma para
os druufs, com a qual nós poderemos conquistar o Universo. Afinal,
sou Onot, o cientista! O tempo... quais serão os acontecimentos que
este ainda reserva para mim? Se quiser, posso inverter o fluxo do
tempo. E eu o farei para anular os acontecimentos do passado.
Descobrirei o dono daquela voz e o matarei, antes que seu espírito
abandone meu corpo. A Terra foi sua pátria, e haveremos de descobrir
onde fica esse planeta. Alguns dos nossos já estiveram lá. Se você
me ouve, voz, responda. Confesse que sou mais forte que você...
Suas
reflexões foram interrompidas, quando o guarda abriu a portinhola e
olhou para dentro da cela. Após isso, a portinhola foi fechada de
novo.
Onot
encostou-se à parede.
“A
voz não está mais aqui”,
pensou numa disposição eufórica. “Antigamente
bastava que dedicasse a menor idéia à rebelião, para que ela se
fizesse ouvir e me ameaçasse. Fazia com que ficasse com dor de
cabeça e me martirizava. Afastava meus pensamentos e transformava-me
num escravo. Mas hoje...”
Não; a
voz não estava mais com ele.
Finalmente
chegara a hora pela qual ansiara por tanto tempo. Viu o passado
nitidamente desenhado. Poderia explicar tudo ao juiz... mas seria
necessário que este acreditasse em suas palavras.
Subitamente,
teve a impressão de levar uma forte pancada; tudo parecia desmoronar
em torno dele. A voz falou silenciosamente:
— Você
está enganado, Onot! Ainda estou aqui. Mas é bem possível que,
dentro em breve, você fique só... completamente só. Quando isso
acontecer, você talvez irá desejar que eu volte.
Muito
assustado, Onot prestou atenção à voz. Mas esta encerrou a fala.
*
* *
Por alguns
segundos ou milênios — não havia nenhum ponto de referência
temporal, que lhe permitisse fixar este detalhe — o espírito de
Ernst Ellert, abandonado pelo corpo, turbilhonou no fluxo do tempo,
antes que as ondas o atirassem às margens temporais dos druufs.
Só então
deu-se conta de que não havia apenas um fluxo temporal, que o plano
temporal não era único, mas que havia vários. Atravessara alguns
deles, varando muros geralmente impermeáveis. Mas as frestas
fecharam-se atrás dele, tornando ilusória qualquer idéia de
regresso.
E foi
assim que entrou em Onot. Foi penetrando cautelosamente na mente do
cientista. De início, o druuf se rebelara contra a tutela, mas
depois de algum tempo teve de cessar a resistência. Onot
transformou-se num escravo de Ellert, não mais possuía vontade
própria. Era bem verdade que, vez por outra, procurava livrar-se do
incômodo e perigoso hóspede vindo do nada, mas não conseguia.
Ellert encontrara um novo corpo e, com isso, um novo lar para seu
espírito.
Certa vez
houve um contato com o plano temporal do qual provinha, mas ele não
o percebeu. Foi na época em que Árcon colonizou o planeta Vênus e
a Atlântida mergulhou num dos oceanos do planeta Terra. Foi só dali
a dez mil anos — que para Ellert representaram apenas algumas
semanas — que houve um segundo contato, que se revelaria decisivo.
Perry
Rhodan encontrou o plano temporal dos druufs, e localizou Ellert.
Dali em
diante, Onot passou a trabalhar por ordem de Ellert, a favor de Perry
Rhodan e dos terranos. Ele o fez porque era obrigado a tanto.
Entretanto, um dia rebelou-se e sentiu que estava mais forte. Não
conseguira impedir a traição, mas sabia que o ser que o dominava —
a voz — se tornara mais fraco.
Ellert
também sabia.
Ficou
preocupado ao constatar que a influência que conseguia exercer sobre
o intelecto de Onot tornava-se cada vez mais reduzida. Teve de fazer
um tremendo esforço para não ser expulso do cérebro de Onot. Não
desejava assumir para sempre a identidade de Onot, mas ainda não
havia chegado o momento de regressar. Seu verdadeiro corpo o esperava
— a mais de seis mil anos-luz dali. Será que ainda era capaz de
vencer essa enorme distância?
Contemplou
os arredores através dos quatro olhos de Onot. Viu as paredes nuas e
desoladas da cela em que o cientista se encontrava preso. Talvez
devesse fazer uma tentativa, apesar de tudo. O segredo da propulsão
encontrava-se em suas mãos, em sentido figurado. Seria capaz de
construir espaçonaves capazes de voar a milhões de vezes acima da
velocidade da luz, sem que fossem obrigadas a desmaterializarem-se.
Pretendia presentear Rhodan com esse sistema de propulsão.
Nos
últimos dias preferira não molestar Onot. Só naquela manhã
vira-se obrigado a esclarecer ao druuf que ainda estava presente.
Mas agora
havia outra coisa a fazer. Os documentos relativos ao sistema de
propulsão linear estavam guardados no laboratório, isto é, no
esconderijo escavado na rocha. Era bem verdade que sabia de cor os
detalhes e sentia-se bastante seguro, mas não havia inconveniente em
certificar-se mais uma vez. Mais tarde, talvez, não tivesse tempo
para isso.
Começou a
desprender-se cautelosamente de Onot. O druuf não sentiu nada.
Subitamente Ellert viu-o embaixo dele, sentado na cama. As paredes da
cela começaram a tornar-se confusas e foram recuando. Sua estrutura
molecular não representava qualquer obstáculo para o espírito de
Ellert. Atravessou a matéria sólida e, dali a alguns segundos,
flutuava bem acima do edifício do tribunal.
Concentrou-se
no deserto pedregoso e no laboratório secreto escondido sob a
montanha — e, no mesmo instante, encontrava-se lá. Planava bem em
cima da planície. Alguns veículos estavam parados junto à entrada
do laboratório. Os druufs saíam do corredor de pedra e carregavam
caixas e aparelhos para colocá-los nos veículos. Estavam reunindo
material probatório.
Ellert
assustou-se. Fazia votos de que ainda não tivessem levado os
documentos relativos ao sistema de propulsão. Isso não assumiria
uma importância decisiva. Todavia...
Desceu e
manteve-se suspenso, invisível e desmaterializado, acima das cabeças
dos druufs.
Um
oficial, que pelos distintivos pertencia ao Serviço de Segurança de
Druufon, comandava os homens com a arrogância típica das pessoas
acostumadas a mandar. Ao que parecia, pretendia esvaziar totalmente o
laboratório de Onot.
Se Ellert
possuísse um rosto, qualquer pessoa que o olhasse naquele momento
perceberia que estava sorrindo. Não teve nenhuma dificuldade em
penetrar no cérebro desprevenido do druuf. Não houve a menor
resistência. Mas os esforçados policiais não acreditaram no que
seus superórgãos receptores captavam, quando subitamente receberam
ordem para recolocar tudo no laboratório.
Ellert
obrigou o oficial a dirigir-se ao laboratório. Havia uma confusão
tremenda no interior dos recintos cavados na rocha. As coisas estavam
jogadas por todos os lugares. E o caos aumentou ainda mais quando os
druufs voltaram a trazer os objetos que haviam retirado.
O oficial
atravessou os diversos recintos, como se estivesse procurando alguma
coisa. Folheou grandes pilhas de documentos, contemplou-os com os
olhos perplexos e recolocou-os no mesmo lugar. Levou quase trinta
minutos para encontrar o que estava procurando, sem que o soubesse!
Ellert
teria respirado de alívio, se possuísse pulmões. Achara as
anotações. Estavam escritas numa folha de metal, finíssima e
rabiscada com fórmulas quase ilegíveis. No entanto, o valor dessas
fórmulas era imenso.
O oficial
dobrou a folha e enfiou-a no bolso. No mesmo instante, ordenou aos
homens que prosseguissem com o trabalho, levando tudo novamente para
a superfície.
A ordem
foi cumprida imediatamente. Estavam acostumados a agüentar muita
coisa desse oficial, inclusive as ordens mais absurdas. Sem dizer uma
palavra e sem demonstrar a menor contrariedade, os homens voltaram a
esvaziar aqueles recintos.
O serviço
foi concluído dentro de poucas horas. Ellert permaneceu no corpo do
oficial, que entrou num planador e regressou à cidade, onde informou
às autoridades de que sua missão fora cumprida.
Depois
disso, pediu que lhe permitissem falar com o prisioneiro.
O general
— segundo os padrões terra-nos — lançou-lhe um olhar de
espanto.
— Quer
falar com Onot? O que quer com ele? As investigações ainda não
foram concluídas.
Ellert
colocou a resposta na boca do oficial.
— Tenho
a impressão de que ainda não encontramos tudo que possa servir de
prova contra ele. Se eu o interrogar, talvez consiga algumas novas
indicações.
O general
refletiu por um instante. Finalmente fez um gesto de assentimento.
— Pedirei
ao chefe da Corte de Justiça que lhe conceda uma entrevista.
Ellert
aguardou pacientemente. Só no fim da tarde, sua paciência obteve a
devida recompensa. O oficial conseguiu permissão para falar com o
prisioneiro.
Onot
sobressaltou-se em meio às suas reflexões, quando a porta da cela
foi aberta e um oficial de polícia entrou. Libertado por algumas
horas da presença de Ellert, recuperara a memória em toda plenitude
e sabia o que havia acontecido. Era bem verdade que não poderia
desconfiar de que aquele que o subjugara se encontrava na sua frente,
corporificado na figura do visitante.
— Preciso
falar imediatamente com o juiz — disse antes que o oficial tivesse
tempo para abrir a boca. — Não cometi traição como todo mundo
acredita. Eu...
— Cale-se!
— respondeu o oficial, sob a coação exercida por Ellert. — Faça
o que eu disser. Estive no seu laboratório e trouxe uma coisa que o
senhor tem de esconder junto ao corpo. São estas anotações. As
mesmas não se devem perder.
Entregou a
folha a Onot. O cientista pegou-a. Ficou perplexo ao perceber que a
letra era sua, e que a folha continha os segredos fundamentais da
propulsão linear. Não compreendia a finalidade daquilo. Esse
sistema de propulsão estava sendo usado há muito tempo.
Para que
serviriam aquelas anotações? Para qualquer druuf seriam inúteis.
A não ser
que um ser vindo de outro Universo...
Começou a
compreender.
— Pegue
estas anotações e destrua-as.
Ellert
reconheceu a situação perigosa em que se encontrava. Seria
impossível dominar dois indivíduos ao mesmo tempo. Estava na hora
de apossar-se novamente da personalidade de Onot.
E o
oficial? Não se lembraria do que acabara de acontecer? Será que um
suave bloco amnésico seria suficiente para fazê-lo esquecer tudo?
Precisava
tentar.
O
tratamento durou dez segundos. Depois disso, Ellert abandonou o corpo
do oficial e voltou a penetrar no cérebro de Onot. Sentiu uma
resistência, que afastou implacavelmente. Cada segundo era precioso.
Onot
cedeu.
— Está
bem; farei o que o senhor acaba de pedir — disse em tom
indiferente. — Faça o favor de retirar-se.
O oficial
parecia despertar de um sonho.
Como fora
parar na cela do prisioneiro? O que desejava de Onot, o traidor?
Virou-se
sem dizer uma palavra e saiu da cela. O guarda trancou cuidadosamente
a porta e acompanhou o oficial, quando este se dirigiu para cima.
Caminhava em silêncio e como num transe, até que se visse à frente
do juiz, que indagou sobre o resultado de seu trabalho.
— Então,
conseguiu alguma coisa? O oficial parecia perplexo.
— Nada,
excelência. Absolutamente nada.
— Era o
que eu imaginava — respondeu o juiz e fez um gesto de indiferença.
— Pode retirar-se.
O oficial
saiu da sala.
Esforçou-se
em vão para recordar o que acontecera a partir do momento em que
haviam esvaziado o laboratório.
Mais uma
vez, Ellert conseguiu dominar Onot. O druuf, que já se sentira
livre, estava disposto a revelar os segredos perigosos que trazia na
mente. Se isso acontecesse, os demais seres quadráticos estariam
prevenidos. Jamais deveriam descobrir que Perry Rhodan dispunha de
uma arma tão estonteante como era Ellert. E nem deve- riam descobrir
que Rhodan estava atrás de todos os atentados cometidos contra
Druufon, e, muito menos, perceberem que havia uma base dos terranos
no planeta Hades.
— Para
você, isso é uma questão de vida ou morte, Onot!
— comunicou ao cientista. — Enquanto
eu não o abandonar, nada lhe acontecerá. Você me ajudou e, por
isso eu o ajudarei.
— Você
não tem forças para isso — respondeu o cientista em tom
exultante.
— Posso
matá-lo
— retrucou Ellert.
— Pois
mate-me! — pediu o druuf.
— Ainda
existe outra alternativa.
— Qual
é?
— Abandoná-lo-ei
assim que chegue o momento adequado. Prometo-lhe que nunca mais
voltarei. Você será livre.
— O que
você exige em troca? — indagou o druuf, que não seria capaz de
imaginar que a liberdade lhe poderia ser restituída de graça. — O
que devo fazer?
Ellert
sentiu-se aliviado.
— Você
pode sentir uma ligeira saliência sob a pele do braço esquerdo.
Aperte-a com o dedo. É só o que tem que fazer. Isso mesmo; aperte
com mais força.
Onot não
estava disposto a submeter-se às ordens daquela voz, mas a simples
curiosidade levou-o a procurar o objeto oculto sob sua pele. Não
teve a menor dificuldade em encontrá-lo.
— O que
é isto?
— Não
faça perguntas, Onot. Aperte com mais força. Isso; assim está bom.
Agora já lhe posso dizer. Isso é um pequeno transmissor, que me põe
em contato- com bons amigos. Perto deles, nesse instante, uma luz
vermelha se acendeu. Meus impulsos mentais, ou também os seus, são
convertidos em vibrações elétricas, e estas são transformadas em
palavras da minha língua por um aparelho especial. Agora, assuma por
alguns minutos uma atitude inteiramente passiva. Já não estou em
condições de obrigá-lo a fazer isso, mas peço-lhe que acredite
que esta é sua última e única chance de continuar vivo.
*
* *
O alarma
arrancou o Capitão Marcel Rous de um sono profundo.
Colocou,
ao mesmo tempo, os dois pés sobre o frio chão metálico de seu
camarote e, nu da cintura para cima, saiu em disparada pelo corredor,
em direção à sala de rádio da qual viera o alarma. Devia
tratar-se de uma mensagem extremamente importante. Se o alarma
tivesse vindo da sala de comando poderia tratar-se de um ataque
direto dos seres-toco.
— Então
não são os druufs — disse Rous em tom tranqüilizador para si
mesmo.
Entrou
esbaforido na sala de rádio e viu o sargento Masters desligar os
receptores. Na pressa não pôde verificar se o aparelho havia
captado uma hipermensagem da Ohio ou outro tipo de transmissão. A
última coisa de que se lembrou foi o minúsculo receptor especial
que ligava a base com o transmissor de Ellert.
— O que
houve, Masters?
O sargento
fez mais um movimento com a mão e levantou-se.
— Uma
mensagem de Ellert, expedida de Druufon. A decifração está em
andamento, Sir.
Rous fez
um gesto de assentimento e começou a caminhar nervosamente pela sala
de comando. Sabia que qualquer mensagem de Ellert seria importante e
urgente.
O mutante
só chamava em casos graves.
Sabia por
experiência própria que o autômato não levaria mais de dez
minutos para decifrar a mensagem. Pouco importava que a mensagem
fosse breve ou longa.
O sargento
Masters manteve-se em silêncio. Impaciente, olhava a fita, que se
desenrolava, e ouvia os cliques da máquina decodificadora.
Finalmente, a fita voltou a correr para trás.
— Pronto!
— anunciou Masters.
O Capitão
Rous fez um gesto afirmativo.
— Deixe
correr!
Mais
alguns movimentos com a mão, e no interior do recinto surgiu uma voz
que pertencia, certamente, a um homem chamado Ellert. O receptor
especial convertera os impulsos mentais do mutante em sons audíveis.
— Aqui
fala Ernst Ellert! Encontro-me no corpo de Onot. Estou chamando Perry
Rhodan. Corro o risco de ser descoberto. Estou ficando muito fraco
para continuar a resistir ao espírito de Onot. Ele me afasta aos
poucos. Onot foi preso e será acusado perante a Corte Suprema. Se
não conseguir impedi-lo, ele me trairá. Ele já sabe da existência
da base de Hades. Daqui não posso retornar ao meu corpo, que se
encontra na Terra. Tragam meu corpo para Hades, ou levem Onot para a
Terra. É a única possibilidade que nos resta. Apressem-se para
transmitir esta mensagem para Rhodan. Ele sabe o que fazer. Daqui a
poucos dias, será tarde. Ajudem-me! Ernst Ellert.
2
O Império
Solar acabara de reconhecer o novo imperador de Árcon. Agora Atlan,
o arcônida imortal, o fiel amigo de Rhodan, estava por trás do
imenso computador. Os dois impérios trabalhavam em conjunto na
difícil tarefa de colocar os diversos povos da Via Láctea sob um
único cetro, na expressão de Reginald Bell.
Perry
Rhodan ainda se encontrava em Árcon III e preparava seu regresso à
Terra. O couraçado Drusus estava à sua disposição.
No fundo,
Rhodan não atribuía grande importância aos maus pressentimentos,
mas nos últimos dias não conseguira livrar-se da impressão de que
algum perigo o ameaçava. Falara com Bell a este respeito, mas este
tivera o atrevimento de fazer troça.
— Você
está enxergando fantasmas, Perry. Os últimos acontecimentos o
abateram e desgastaram seus nervos. Não consigo compreendê-lo.
Afinal, o que deseja? Os druufs sofreram uma derrota da qual não se
recuperarão tão depressa. Perderam sua base espacial e, dentro em
breve, estarão presos em sua dimensão temporal. Acho que você está
exagerando...
— Não
se esqueça de Ellert — retrucou Rhodan sem dar a menor atenção à
tela com belas figuras coloridas e abstratas. Não apreciava os
entretenimentos dos arcônidas. — Ele está em Druufon. Devemos
fazer alguma coisa para que possa voltar à Terra. Quando o funil de
descarga se fechar será tarde.
— Por
quê? Sempre poderemos trazê-lo...
— Mas em
condições muito mais difíceis. É o que eu quero evitar.
— Bem.
Se é assim, o que estamos esperando?
Até mesmo
para Rhodan, a mudança de Bell, foi muito rápida. Lançou um olhar
de espanto para o gorducho. Depois sorriu e respondeu:
— Isso
mesmo; o que estamos esperando? Bem que eu gostaria de saber.
Partiremos assim que eu receba a notícia de que na Terra tudo está
em ordem. Acho que amanhã já teremos condições para isso. Por
aqui, Atlan mantém as rédeas bem firmes. É bem verdade que ainda
temos de contar com a ocorrência de distúrbios, mas unidos
conseguiremos dominá-los. O que mais me preocupa é meu filho.
Bell não
respondeu. Imaginava que justamente esse ponto pesava muito na mente
de Rhodan. Achou preferível não fazer qualquer comentário. Por
alguns segundos fitaram a tela em silêncio. Subitamente, Rhodan
levantou-se.
— Vou
dormir. Quer fazer favor de pedir a Sikermann que me acorde
imediatamente, caso chegue alguma mensagem da Terra?
Bell
sentiu sua curiosidade aguçada.
— Está
esperando alguma mensagem? Rhodan percebeu a armadilha. Sorriu.
— E
claro que não, Bell. Mas sempre pode acontecer que recebamos uma. E
é bem possível que, pelo texto da mesma, Sikermann conclua que não
é importante. Repito: seja qual for a mensagem, quero que me avisem
imediatamente.
— Está
bem — disse Bell. Ao que parecia, sua desconfiança se desvanecera.
A Drusus
estava estacionada sobre o chão duro de granito, numa das
extremidades do espaçoporto.
Tratava-se
de um veículo espacial esférico com um quilômetro e meio de
diâmetro. Uma pessoa que não conhecesse a nave poderia perder-se no
interior do gigante e ficar vagando ao acaso por alguns dias.
Rhodan
utilizou alguns elevadores e chegou ao corredor que dava para seu
camarote.
“O
que estará acontecendo com Ellert?”,
pensou muito preocupado, embora não houvesse nenhum motivo especial
para isso.
Durante
sua última estada na Terra, pretendia visitar o mausoléu, mas não
tivera tempo para isso. Alguma coisa o inquietava. Não sabia o que
era. Os guardas postados diante do mausoléu não haviam notado nada
de extraordinário. O corpo de Ellert continuava em seu jazigo,
cinqüenta metros abaixo da superfície, aguardando o momento em que
o espírito inquieto retornasse.
Rhodan
deitou-se.
Qual seria
o motivo de todo esse nervosismo? Se algo tivesse acontecido, ele não
poderia senti-lo a uma distância de trinta mil anos-luz.
Apesar do
cansaço, não adormeceu imediatamente. Os pensamentos não
permitiram que tivesse sossego, embora, nas últimas semanas, tivesse
conseguido tanta coisa.
A Galáxia
tornara-se uma Unidade. Se é que ainda havia algumas raças que não
queriam conformar-se com isso, tal fato não assumia maior
importância. O tempo faria com que mudassem de idéia — se antes
disso as frotas de guerra dos dois impérios cósmicos não as
obrigassem a tanto.
Ouviu um
ligeiro zumbido acima de sua cabeça. Ao mesmo tempo, uma luz
acendeu-se bem embaixo da tela do intercomunicador.
Rhodan
levantou-se com uma lentidão proposital.
“Meus
pressentimentos”,
pensou. “Será
que eles já estão sendo confirmados?”
Apertou o
botão e o rosto de um oficial apareceu na tela. Esse rosto
demonstrava certo espanto. Ao que parecia, não tinha muita certeza
de ter agido acertadamente.
— Sir,
recebemos um aviso da sala de rádio. Trata-se de uma hipermensagem.
— Pode
falar, Tompetch. Ou será que ainda não recebeu o texto?
Mike
Tompetch fez um gesto afirmativo.
— Naturalmente,
Sir. A mensagem vem do Marechal Freyt, que se encontra na Terra. Data
da expedição: 5 de agosto de 2.044. Tempo terrano: 17 horas e 48
minutos. O texto é o seguinte: Alarma de Hades. Trata-se de Ellert.
Pelo que informa o Capitão Rous, o espírito de Ellert está muito
fraco para poder retornar a seu corpo e pede que Rhodan o ajude. É
necessário agir imediatamente. Peço instruções. Freyt.
Rhodan
manteve-se imóvel por alguns segundos, mas logo tomou sua decisão.
Quando transmitiu sua ordem ao Tenente Tompetch, as palavras
saíram-lhe nítidas:
— Mensagem
dirigida a Freyt, Terrânia. Texto: Oportunamente forneceremos
instruções.
Depois
enviou outra, destinada a Hades.
— Texto:
Ligar o receptor do transmissor de matéria exatamente dentro de
cinco horas. Irei pessoalmente. Rhodan.
A seguir,
concluiu:
— Providencie
para que as duas mensagens sejam expedidas o mais rápido possível.
— Entendido,
Sir...
— Um
momento. Acorde o Coronel Sikermann. A Drusus partirá dentro de uma
hora.
Tompetch
arregalou os olhos.
— Nós...
Está bem, Sir! A tela apagou-se.
Dali a dez
minutos, Rhodan entrou na sala de rádio. Seu rosto estava muito
sério. Pediu que confirmassem que as duas mensagens haviam sido
expedidas e mandou que fizessem uma ligação de telecomunicador com
Atlan. Provavelmente o imperador de Árcon se encontrava no palácio
dos soberanos. Se não, teriam que dar um jeito para encontrá-lo.
Rhodan
esperava, quando Bell entrou e anunciou:
— Sikermann
manda dizer que a Drusus está em condições de decolar, Perry.
Todos os homens estão a postos.
— Vamos
adiar a partida. Ainda não conseguimos entrar em contato com Atlan.
— Deixe
um recado para ele — sugeriu Bell. — Quem sabe em que local
noturno ele se diverte.
— Estas
coisas não existem em Árcon III — disse Rhodan, lembrando um fato
que os tripulantes da Drusus já haviam lamentado bastante. — Se
não conseguir encontrá-lo, não terei outra alternativa senão
deixar um recado.
Refletiu
um pouco.
— Está
bem. A decolagem está definitivamente fixada para daqui a quarenta
minutos.
Bell
confirmou.
Cinco
minutos antes dos gigantescos propulsores da Drusus serem ligados,
Atlan chamou.
— Vai
partir, Perry? Para que tanta pressa? O que aconteceu?
Um sorriso
quase imperceptível surgiu no rosto de Rhodan.
— Você
acaba de formular três perguntas de uma vez, almirante... perdão,
imperador. Basta uma única resposta: Ellert está em perigo. Irei a
Hades. Está com vontade de ir comigo?
Atlan
soltou um suspiro.
— Que
belos tempos foram estes em que nós dois podíamos vagar pelo
espaço! Agora só posso pensar nas minhas obrigações. Devo
confessar que a tarefa de governar não é fácil. Deixa-se de ser um
homem livre.
— Pretende
passar o resto dos seus dias em Árcon?
— É
claro que não, Perry. Mas desta vez tenho de ficar. Tenho problemas
diplomáticos urgentes a resolver. Você compreende? Desejo-lhe boa
sorte, e faço votos de que volte logo. Passe bem.
— Procurarei
apressar-me — disse Rhodan com um gesto de despedida.
Depois a
tela apagou-se.
A Drusus
decolou no momento indicado. Os propulsores começaram a uivar e
empurraram a gigantesca nave pelo espaço afora. Os campos
antigravitacionais neutralizaram a pressão. Acelerando cada vez
mais, o gigante espacial aproximava-se da velocidade da luz e do anel
de fortificações de Árcon, enquanto o planeta central mergulhava
no infinito.
Depois de
duas horas de velocíssima viagem, viram as estações espaciais
automáticas passar de ambos os lados da nave e ficar para trás. A
palavra-código evitara que essas fortalezas começassem a cuspir
fogo e destruíssem a Drusus.
A nave
prosseguia livremente em direção ao ponto de transição
previamente calculado.
*
* *
No momento
certo, o Capitão Marcel Rous mandou colocar um dos transmissores em
recepção. A essa hora, a Drusus devia estar materializando-se em
algum lugar, nas proximidades do funil de descarga, que separava o
Universo einsteiniano do plano temporal dos druufs, e Rhodan
certamente estaria entrando na estação de remessa do transmissor de
matéria.
Parado à
frente da porta gradeada, Rous estava aguardando o chefe. A luz verde
estava acesa, mas por enquanto não se via o menor sinal de Rhodan.
A luz
começou a oscilar. Os primeiros impulsos expedidos pela Drusus
estava chegando. O transmissor acabara de ser acionado. E então —
subitamente, sem a menor transição — o vulto de um homem surgiu
no interior da área cercada pelas grades. Saiu do nada e
materializou-se de um instante para outro.
Rhodan
abandonou a jaula e apertou a mão do Capitão Rous.
— Meteu-me
um susto daqueles, capitão. Como foi que o Marechal Freyt acabou
recebendo esse aviso?
Estavam
caminhando pelo corredor, em direção à cabina em que residia o
comandante da base. Antes que chegassem aos aposentos de Rous, este
disse:
— Assim
que recebi o pedido de socorro de Ellert, enviei uma mensagem de
emergência à Ohio, que é nossa nave de ligação estacionada junto
ao funil. Suponho que esta a tenha transmitido imediatamente ao
Marechal Freyt, que por sua vez entrou em contato com o senhor. De
qualquer maneira, a rapidez com que hoje em dia as notícias correm
pela Via Láctea é verdadeiramente espantosa.
Abriu a
porta e deixou que Rhodan passasse à sua frente. Só depois que os
dois estavam sentados perto de uma bojuda garrafa colocada sobre a
mesa, Rhodan perguntou:
— O que
aconteceu com Ellert?
Rous
enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de papel.
— É a
primeira mensagem radiofônica que recebemos de Druufon.
Rhodan leu
a mensagem de Ellert devagar e com o maior cuidado. Quando colocou o
papel na mesa, parecia muito pensativo.
— Quer
dizer que realmente agarraram Onot, e Ellert já não tem
possibilidade de abandonar o corpo em que está hospedado, para
voltar à Terra. Não teremos outra alternativa senão levar seu
corpo para Druufon. Bem, não será nada fácil. Ainda bem que
dispomos de bastante tempo. Alguns dias ainda se passarão, até que
o inquérito esteja concluído e o processo contra Onot seja
iniciado.
Rous
sacudiu a cabeça. Empalidecera um pouco.
— Neste
meio tempo, recebemos outra mensagem de Ellert, Sir. Receio que o
tempo de que podemos dispor seja muito escasso. Já faz duas horas
que Onot se encontra diante da Corte Suprema.
Rhodan
fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— E só
agora o senhor vem me dizer isso?
O capitão
não respondeu. Rhodan inclinou-se para a frente e colocou a mão
direita sobre seu braço.
— O que
diz a segunda mensagem, Rous? Seria capaz de fornecer-me o texto
integral?
— Sei de
cor, Sir. Ellert avisou que foram buscar Onot na prisão e o
colocaram diante da Corte. Mal e mal lhe restam forças para obrigar
Onot a fazer determinadas declarações. Diz que, no seu íntimo, o
quadrático cientista está disposto a revelar toda verdade aos
juizes. Ellert tenta impedir que isso aconteça. Não sabe por quanto
tempo ainda agüentará. Se for obrigado a abandonar o cérebro e o
corpo de Onot, não saberá para onde ir. Para sair de Druufon,
precisaria de forças. E estas lhe faltam.
Rhodan fez
um gesto de assentimento.
— Imagino
perfeitamente o que acontecerá se ele for obrigado a abandonar Onot,
sem que disponha da necessária energia. É possível que, se isso
acontecer, perca o controle direcional do tempo e volte a mergulhar
no fluxo temporal que o arrastou até aqui. Face a isso, pelo menos
já sabemos que a permanência no presente exige um certo dispêndio
de energia. É estranho, mas nunca pensei nisso.
Levantou a
cabeça e fitou diretamente os olhos de Rous.
— Devemos
agir imediatamente. Mais tarde poderemos filosofar. Voltarei para
bordo da Drusus, mas permanecerei nas proximidades de Hades. Se
houver algum ataque, conte comigo. Se Onot acabar falando...
Levantou-se
e esperou que Rous abrisse a porta à sua frente. Enquanto caminhavam
em direção aos transmissores, prosseguiu:
— Se
chegar outra mensagem de Ellert, avise imediatamente.
— Certo
Sir — prometeu Rous.
Rhodan
voltou a virar o rosto para ele antes de desmaterializar-se.
Dali a um
segundo, saiu do receptor instalado a bordo da Drusus e, apressado,
dirigiu-se à estação de hiper-rádio da nave.
Suas
instruções foram rápidas e precisas, como sempre acontecia, quando
o destino da Terra ou da Galáxia estava em jogo.
*
* *
Até mesmo
pelo aspecto exterior, o Marechal Freyt tinha certa semelhança com
Perry Rhodan. E, tal qual o administrador, recebera a ducha celular
no planeta artificial Peregrino. Esse tratamento prolongava a vida e,
por isso, o processo de envelhecimento foi detido. Naquele princípio
de tarde, o movimento era enorme na central de emergência de
Terrânia. As hipermensagens das naves estacionadas no espaço
chegavam quase a cada hora que passava. Agora, que a posição
galáctica da Terra já era conhecida, não havia motivo para maiores
cuidados.
Acontece
que todas as comunicações que iam chegando eram indiferentes para
Freyt. Aguardava uma determinada notícia, muito embora apenas
pudesse imaginar qual seria o conteúdo. Porém, Rhodan submeteu-o a
uma espera prolongada.
Muito
nervoso, estava sentado no seu gabinete. Seu corpo magro estava
ligeiramente inclinado, mas isso acontecia antes por hábito que por
fraqueza. À sua volta, os aparelhos de comunicação ameaçavam
esmagá-lo. Em todos os lugares se viam telas, quadros de comando e
cabos. A partir daquele recinto, podia controlar não apenas o
planeta Terra, mas todo o sistema solar e uma gigantesca frota
espacial.
Freyt
transmitira para Rhodan, que se encontrava em Árcon, a mensagem
radiofônica recebida de Hades. Sabia que uma decisão era iminente.
Como sua mente possuísse uma elevada capacidade de combinar os
fatos, tomara suas precauções e avisara o Professor Haggard e
também o Dr. Jamison. Os dois médicos permaneciam em suas
residências, à espera do momento em que teriam de entrar em ação.
Entrar em
ação...?
Freyt
sacudiu a cabeça e disse, para si mesmo, ser um pessimista.
“As
coisas não devem estar tão ruins assim para Ellert”,
pensou. “O
peregrino do tempo acabará encontrando o caminho para a Terra,
quando isso se tornar necessário.”
Encontraria
mesmo?
Uma luz
acendeu-se. Era a sala de rádio.
Era apenas
um aviso de um couraçado que fora transferido de posição.
Mais uma
vez, nada! A espera começava a tornar-se insuportável.
Porém, no
momento em que finalmente a sala de hiper-rádio chamou e transmitiu
a mensagem direta de Rhodan para a residência de Freyt, de um
instante para outro, o marechal virou a calma em pessoa.
A tela
oval iluminou-se. Nos primeiros segundos, os contornos do rosto de
Rhodan eram um pouco apagados, mas logo tornaram-se nítidos.
Reconhecia-se perfeitamente todas as linhas. As hiperondas
possibilitavam o contato direto e imediato a uma distância de vários
anos-luz.
— Até
parece que tanto o senhor como eu esperávamos esta palestra,
marechal.
— É
verdade, Perry.
Numa
ligação direta desse tipo, tinha-se a impressão de estar sentado à
frente do interlocutor, na mesma sala. Se não fosse assim, Freyt não
chamaria Perry de você. Quando se encontravam em público, até
mesmo os velhos amigos costumavam resguardar a imagem da disciplina.
— Qual é
sua posição? Ainda Árcon?
— Não.
Hades. Encontro-me na Drusus, a um ano-luz do sistema dos druufs.
Ellert enviou outra mensagem. Não está em condições de abandonar
o corpo de Onot por um tempo mais prolongado, sem que corra um grave
perigo. Onot encontra-se diante da Corte de Justiça, onde está
sendo processado por traição. Ellert se esforça para evitar que
faça uma confissão, cujas conseqüências poderão ser desastrosas
a todos nós. Só vejo uma salda para esse impasse. O cadáver de
Ellert deve ser retirado imediatamente do mausoléu e levado para
Hades. O resto poderá ser arranjado depois.
— Era o
que eu imaginava! — exclamou Freyt. — Haggard e Jamison estão de
prontidão. Quando será?
Um sorriso
surgiu no rosto de Rhodan.
— A
semelhança entre nós não se limita ao aspecto exterior, Micha —
seu rosto voltou a tornar-se sério. — Será imediatamente! Tome
todas as providências para que tenham o maior cuidado quando
estiverem lidando com o corpo. Ambos os médicos deverão
acompanhá-lo e não tirarão os olhos do mesmo. Você vai
providenciar tudo?
— Eu
mesmo levarei Ellert, Perry. Rhodan fitou-o com uma expressão de
perplexidade.
— Você
é meu representante. Quem...?
— Em
poucas horas, tudo estará resolvido. Mercant cuidará dos assuntos
mais importantes. Acho que tem capacidade para isso.
— Também
acho. Está bem, Micha. Espero-o.
— Conte
comigo — disse Freyt e fez um sinal para o amigo.
A tela
escureceu de um instante para o outro quando, depois das últimas
instruções de Rhodan, a ligação foi interrompida.
Por um
segundo, Freyt manteve-se imóvel em sua poltrona, mas logo seu corpo
adquiriu vida. Mercant foi informado sobre a situação, os dois
médicos receberam ordem para dirigir-se ao mausoléu, deram-se
instruções para que o cruzador ligeiro C-13 fosse preparado para a
decolagem e solicitaram-se vários planadores.
Dali a dez
minutos, Freyt pousou no deserto, junto à pirâmide erguida sobre o
túmulo de Ellert. Haggard a Jamison já o esperavam. As sentinelas,
que mantinham guarda ininterruptamente no local, mantiveram-se
imóveis. Seus rostos continuaram impassíveis.
O
professor Haggard, um dos amigos mais antigos de Rhodan e que também
recebera a ducha celular, foi ao encontro de Freyt a passos largos.
— O que
houve? O cadáver de Ellert pegou um resfriado?
Haggard
era conhecido por suas brincadeiras grosseiras mas todo mundo sabia
que, com elas não pretendia ofender ninguém.
— Ou
será que quer praticar a ressurreição? — prosseguiu.
— Talvez
sejam ambas as coisas, em certo sentido — respondeu Freyt e apertou
a mão do amigo. Cumprimentou o Dr. Jamison numa atitude um pouco
mais reservada, mas não menos amável. — Acabo de receber
instruções de Perry Rhodan para retirar o corpo de Ellert do
mausoléu e levá-lo para Hades. No caso, o termo cadáver não me
parece adequado, meu caro Haggard.
— Hein?
— fez o professor. — Para Hades? Por quê?
— Porque
Ellert já não está em condições de percorrer o longo caminho
para a Terra. Só por isso. Sei perfeitamente como entrar no túmulo.
Será que os senhores médicos poderiam ter a gentileza de
acompanhar-me?
Passou
entre as duas sentinelas, tocou a parede lisa da pirâmide com a mão
espalmada, empurrou-a de um lado para o outro, como se estivesse
procurando alguma coisa... e de repente ouviu-se um ruído.
O solo do
deserto abriu-se, pondo à mostra uma escada, que conduzia para as
profundidades.
— É por
aqui que temos de descer — explicou o marechal. Caminhou à frente
dos outros.
A segunda
porta foi mais fácil de ser aberta e, depois disso, surgiu à frente
deles a câmara mortuária propriamente dita, na qual o corpo
imorredouro do teletemporário jazia há setenta anos, aguardando o
momento em que o espírito retornasse a ele.
O Marechal
Freyt fitou os complicados instrumentos que desencadeariam o alarma
ao menor sinal de vida de Ellert. O espelho à frente da boca do
“morto”
não estava embaçado. O ar daquele recinto quadrático parecia
abafado, muito embora tivesse sido renovado ininterruptamente nos
últimos sete decênios.
Os três
homens levaram algum tempo para perceber que o rosto de Ellert estava
mudado. As faces estavam encovadas, os olhos jaziam no fundo das
órbitas negras e a pele brilhava numa tonalidade azulada.
O
professor Haggard apontou com a mão trêmula para o vulto magro,
cujos contornos se desenhavam abaixo do tecido.
— É o
início da decomposição...!
O Marechal
Freyt teve a impressão de que seu coração ia parar.
Será que
tudo fora em vão? Há setenta anos Ellert procurava seu corpo, e
agora, que finalmente o tinha encontrado, talvez já fosse tarde. Era
bem verdade que Ellert poderia assumir outro corpo, mas...
— Temos
de apressar-nos! — disse com a voz apagada e virou-se para a
parede, a fim de desligar os instrumentos que Rhodan lhe descrevera.
— Jamison, ajude Haggard a levar Ellert para cima.
“Tomara
que não estejam carregando realmente um cadáver”,
pensou um tanto desesperado.
3
Vários
pares de olhos frios e implacáveis fitavam Onot.
Atrás de
uma mesa alta e comprida estavam sentados os juizes, em número de
doze, envoltos em becas vermelhas. Mais ao fundo, o presidente da
Corte estava sentado num pedestal, em posição mais elevada. Exercia
também as funções de promotor e chefe do Ministério Público.
Ao
contemplar os rostos impiedosos que tinha à frente, Onot sentiu-se
pequeno e insignificante. Teve de ficar de pé e estava sendo vigiado
por dois druufs que o fitavam com uma expressão zangada. Ouviu atrás
de si o murmúrio da assistência, formada por cientistas e
políticos. O processo provocara grande sensação.
— Pergunto
— disse o presidente numa voz penetrante, mas inaudível aos
ouvidos humanos. — O que tem a dizer sobre a acusação que acaba
de ser apresentada? Reconhece sua culpa?
— Não —
respondeu Onot, agindo de sua livre e espontânea vontade.
Ellert não
fez qualquer tipo de pressão, muito embora se mantivesse de guarda.
Não conseguira evitar que seu espírito consciente tivesse
descoberto alguns dos seus segredos, que, em hipótese alguma,
deveriam ser revelados.
— Não
me sinto culpado pelos atos de que sou acusado.
O
presidente da Corte acenou com a cabeça, como se não tivesse
esperado outra coisa.
— Se é
assim, chamo a testemunha Brodak.
Onot tinha
uma vaga lembrança de Brodak. Fora um dos assistentes que trabalhara
no centro de computação secundário, nas proximidades de seu
laboratório secreto.
O que é
que ele poderia saber?
Um druuf
foi introduzido na sala e colocado à frente do juiz. Ao que parecia,
estava disposto a aniquilar Onot, custasse o que custasse.
— No dia
em que o centro de computação da capital foi destruído, vi Onot
junto ao nosso computador, nas proximidades do deserto — declarou
Brodak. — Estava saindo do metrô e tinha muita pressa. Uma hora
antes, os robôs inimigos haviam penetrado e destruído o centro de
computação. Onot foi o único que teve tempo para fugir. Ninguém
mais conseguiu; a surpresa foi muito grande. Como já disse, Onot
fugiu. E isso prova que sabia do ataque.
Houve um
movimento na assistência. Os juizes puseram-se a confabular. Brodak
prosseguiu em tom de triunfo:
— Hoje
já sabemos que a invasão dos robôs foi realizada através do
transmissor de matéria. O aparelho foi ligado exatamente no momento
apropriado. E foi ligado por Onot!
Houve um
tumulto indescritível. Onot ouviu gritos ameaçadores e estremeceu.
Se dependesse da vontade dos assistentes, seria morto ali mesmo.
O
presidente da Corte fez com que a calma se restabelecesse.
— O que
tem a dizer, Onot?
Ellert
concentrou suas forças e obrigou Onot a dar esta resposta:
— Isso é
uma mentira infame! É pura intriga! Não fiz nada disso.

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