Sem dúvida
também existia uma para o enigma com que se defrontavam, embora
talvez não a encontrassem logo.
Rhodan
voltou a comprimir o botão verde e manteve o dedo sobre o mesmo. Por
várias vezes sentiu que o botão queria saltar para fora. Finalmente
desistiu das experiências.
O conjunto
continuou ligado e começou a funcionar.
Rhodan
tirou a mão e respirou profundamente.
— Não
podemos ficar aqui para sempre, ligando constantemente este
mecanismo. Além disso não sei o que está havendo com as outras
máquinas. Se os desconhecidos perceberem que por aqui não conseguem
mais nada, eles interrompem os dutos de energia. Gostaria de saber
qual é a finalidade que têm em vista.
— Eu...
eu — disse Gucky — gostaria de saber quem são e de onde vieram.
Rhodan
ignorou o desejo de Gucky e disse:
— Ficaremos
unidos e prosseguiremos viagem no carro. Gucky, guarde bem o lugar.
Se o reator voltar a ser desligado, você terá de saltar para cá e
voltar a ligá-lo. Entendido?
— Não
sou nenhum bobo! — respondeu Gucky em tom um tanto atrevido e
caminhou em direção à saída. — Apenas receio que tenha de
saltar muitas vezes para cá e para lá. Tomara que não os perca
durante um dos saltos.
— Basta
entrar em contato telepático conosco para localizar-nos — lembrou
Rhodan. — Mas é possível que desta vez o reator continue ligado.
Vamos andando!
No
pavilhão de entrada do túnel, as luzes do teto também estavam
acesas. As lâmpadas, instaladas a intervalos regulares, reuniam-se
ao longe num só ponto.
Entraram
no carro e puseram-no em movimento. Mal haviam andado uns quinhentos
metros, as luzes voltaram a apagar-se.
— Acho
que agora é minha vez — disse Gucky, que começara a instalar-se
confortavelmente em seu banco.
— Você
adivinhou — disse Rhodan em tom lacônico, sem reduzir a velocidade
do veículo.
Gucky
desapareceu. Dali a dois segundos as luzes voltaram a acender-se e
Gucky retornou.
— Se eu
pego o sujeito que fica apertando esse botãozinho, eu lhe dou uma
sova — disse Gucky em tom ameaçador. — Afinal, não sou nenhum
saltador.
Rhodan riu
com a comparação. Os saltadores, descendentes dos arcônidas, eram
robustos e usavam enormes barbas. Com a melhor boa vontade não se
encontraria nenhuma semelhança entre eles e Gucky.
Meia hora
depois, quando o carro entrou num alargamento do túnel, que se
transformou num grande pavilhão, Gucky já tivera de saltar uma
dezena de vezes. Era bem verdade que nos últimos cinco segundos não
havia acontecido mais nada. As luzes continuavam acesas. O ar era
renovado, e a vibração continuava.
O carro
parou.
Rhodan
apontou para um portão fechado.
— É ali
que fica a entrada da cidade residencial mais próxima. Foi ao menos
o que Regoon me disse. Regoon foi o chefe da equipe de físicos de
Bárcon. Elaborou todo o plano e transformou-o em realidade. Gostaria
de saber se ainda está vivo.
Não
obteve resposta. Seus companheiros sabiam muito pouco a respeito das
experiências por que passou em Bárcon, há mais de meio século.
Não conheciam Regoon, e nem o especialista atômico Laar, o
astrônomo Gorat ou Nex, o fundador do nexialismo. Rhodan estivera em
contato com os quatro. Eram os principais dirigentes dos barcônidas.
O portão
resistiu a todas as tentativas; não abriu.
Rhodan
disse:
— O
imortal sabia perfeitamente por que mandou que você, Sengu, e você,
Gucky, me acompanhassem. Agora vocês têm uma oportunidade de provar
quanto vale o trabalho de equipe. Sengu, conte-nos como é a
fechadura.
O japonês
olhou através do metal e reconheceu o mecanismo da fechadura
eletrônica, que só podia ser aberta com determinada chave. Fez um
relato tão claro e visual dos detalhes técnicos que tanto Rhodan
como Gucky conseguiram imaginar o funcionamento do mecanismo.
Rhodan
dirigiu-se ao rato-castor.
— Agora
é sua vez, baixinho. Abra-a.
Gucky
lançou mão de seus dotes telecinéticos. Não tocou na porta. Seus
fluxos espirituais atingiram o mecanismo da fechadura, situado atrás
da placa de metal, e moveram as peças na seqüência correta. Fez
exatamente a mesma coisa que teria sido feita pelos fluxos
energéticos.
E o portão
abriu-se.
Atrás
dele havia luz, uma luz clara e brilhante. Mas o ar que veio ao seu
encontro poderia ser tudo, menos puro. Era bem verdade que o fluxo
vindo dos poços de ventilação era bem perceptível, mas Rhodan
sabia perfeitamente que este só fora iniciado há trinta minutos. As
reservas de ar dos gigantescos recintos durariam algumas semanas,
mesmo sem renovação. Contudo, num belo momento chegariam ao fim. E,
ao que parecia, esse momento já havia chegado.
Um largo
corredor parecia levar a uma distância infinita. À direita e à
esquerda havia a intervalos regulares portas de aspecto idêntico. Em
cada uma delas estava escrito um número.
Rhodan
olhou para Gucky.
— Ainda
não conseguiu captar nenhum impulso mental?
O
rato-castor balançou a cabeça. Não captava nenhum pensamento. Se
havia alguém ali embaixo, este alguém estava morto, ou então era
incapaz de pensar.
Rhodan
lançou um olhar pensativo para a primeira porta. Aproximou-se e viu
a reentrância destinada à mão. Tratava-se de uma fechadura
acionável pelo calor do corpo humano.
Colocou a
mão na reentrância e esperou.
Dali a
alguns segundos, a porta deslizou para dentro da parede.
Sengu e
Gucky encontravam-se ao lado de Rhodan. Não quiseram acreditar no
que seus olhos viam, pois o quadro que se lhes oferecia era tão
fantástico e pavoroso que não poderia ser real.
Diante
deles estendia-se um pavilhão alongado de uns trinta metros de
largura e de uns trezentos de comprimento. E esse pavilhão estava
abarrotado até o teto com leitos metálicos, nos quais os barcônidas
procurados estavam deitados em longas fileiras.
Mortos...?
Rhodan
sentiu um susto violento, misturado com a dor provocada pela morte
súbita de um povo que amava tanto quanto o imortal. Mas logo
surgiram as perguntas: Por que teriam morrido? E por que teriam
morrido de forma tão tranqüila e ordeira?
Era
evidente que se haviam recolhido aos leitos, como se quisessem
dormir. Mas não poderiam estar apenas dormindo, pois nesse caso
Gucky não deixaria de captar seus impulsos mentais, que nunca
cessariam. Deviam estar mortos ou...
Haveria
outra alternativa?
Em
hipótese, poderia tratar-se de uma forma de conservação análoga a
uma hibernação no gelo, que os velhos arcônidas haviam realizado.
Os barcônidas estavam vestidos. Não havia nenhuma instalação que
levasse à conclusão de que estavam sendo alimentados
artificialmente, ou de que um dispositivo eletrônico automático
cuidasse deles.
Estariam
mortos...?
No momento
em que Rhodan resolveu certificar-se a este respeito, a luz
apagou-se. Gucky soltou uma praga impublicável, que aprendera com
Bell; e desmaterializou-se. Rhodan percebeu que o fluxo de ar
estancara e que a vibração a seus pés cessara. Segundos depois,
Gucky voltou e a luz acendeu-se de novo.
— Estes
apertadores de botões! — exclamou em tom zangado.
Rhodan
dirigiu-se ao leito mais próximo e inclinou-se sobre o barcônida
imóvel. Tratava-se de um homem que usava roupas de técnico. Sua
pele estava pálida. Parecia estar dormindo. Rhodan encostou o ouvido
ao peito do homem. Não percebeu nenhuma batida de coração, nem
qualquer atividade respiratória.
Mas o
corpo do barcônida estava quente.
Se
estivesse morto, só poderia ter morrido há poucos minutos.
Rhodan
ergueu-se e lançou um olhar indagador para Sengu. O japonês parecia
confuso.
A luz
apagou-se. Enquanto Gucky foi fazer o reparo, os dois homens
examinaram os outros barcônidas. Estavam todos mortos, mas seus
corpos ainda não haviam perdido o calor natural. Não respiravam,
seu coração não batia, mas o sangue não esfriara.
E seus
cérebros não pensavam...
Gucky
voltou. Gesticulava furiosamente com os braços.
— Lá na
central; são impulsos mentais. Consegui captá-los perfeitamente.
— São
os invisíveis? — perguntou Rhodan em tom de alarma, mas Gucky
balançou a cabeça.
— Não;
é impossível. Trata-se de pensamentos bem diferentes. São
pensamentos desesperados e compreensíveis. Provêm de alguém que se
admira por ter acordado.
Rhodan
refletiu febrilmente. Lançou mais um olhar sobre as longas fileiras
de barcônidas imóveis, fez um sinal para Sengu e segurou a mão de
Gucky.
— Leve-nos
à sala de comando. Vamos dar uma olhada na pessoa que acaba de
acordar. Talvez consigamos descobrir o que aconteceu por aqui.
Materializaram-se
junto ao conhecido bloco semicircular. Gucky abaixou a cabeça e
concentrou-se. Mantinha os olhos fechados.
— É...
foi nesta direção. Não estamos muito longe. Acordou de vez, mas
não consigo compreender seus pensamentos. Sim, pensa de verdade, de
forma completamente diferente dos invisíveis. Mas só pensa em
coisas confusas.
— Vamos
para lá!
Rhodan
caminhou à frente dos outros. Gucky indicou-lhe a direção.
Passaram por três ou quatro portas e chegaram a um corredor largo,
que parecia levar ao infinito. O rato-castor dirigiu-se a uma das
primeiras portas e parou.
— Está
atrás desta porta. Agora há mais um. Há pouco não pensavam, mas
agora pensam... É esquisito.
“Sim,
realmente esquisito”,
mentalizou Rhodan, enquanto se sentia tomado duma alegria
incontrolável. “Os
outros ‘mortos’ não pensam. Os que se encontram aqui voltaram a
viver...”
Colocou a
mão direita na reentrância e esperou.
A porta
abriu-se lentamente.
Surgiu uma
sala não muito grande, confortavelmente instalada, que não tinha
nada em comum com os pavilhões de máquinas ou com os gigantescos
dormitórios dos barcônidas.
O recinto
que tinham diante de si era um quarto confortável, no qual estava
acesa uma luz mortiça. Nela havia móveis confortáveis. Um calor
agradável reinava em seu interior.
Um homem
de macacão justo aproximou-se a passos inseguros. Era alto e muito
esbelto. Seu rosto revelava uma grande inteligência. Nos fundos do
quarto, três homens continuavam deitados nas camas. Um deles começou
a levantar-se, lançou um olhar curioso para as pessoas que entravam.
— Perry
Rhodan! Tivemos de esperar muito tempo pelo senhor... — disse o do
macacão justo.
V
Rhodan
apertou a mão que lhe fora oferecida.
— É o
senhor, Nex? O que aconteceu?
O
nexialista sorriu. Era um sorriso tímido. Cumprimentou Sengu com
muita cortesia. Depois lançou um olhar desconfiado para Gucky, mas
acabou por inclinar-se sobre o rato-castor e bateu-lhe carinhosamente
no ombro. Devia ter reconhecido pelo uniforme que se tratava de um
ser inteligente.
— O que
aconteceu? Ainda saberemos, Rhodan. Contarei tudo. Mas antes de mais
nada diga como veio parar aqui e como estão as coisas lá fora, na
superfície.
— O que
houve com os aparelhos de controle? Perderam o contato com a
superfície?
— Há
várias semanas.
Neste meio
tempo, o segundo homem também se levantara. Era de estatura
imponente e usava barba. Espreguiçou-se e gritou com a voz
retumbante:
— Quero
que os demônios do fogo me levem, se este não é o sujeito daquela
maravilhosa navezinha. Será que estou enxergando bem, Perry Rhodan?
— O
senhor está enxergando bem, físico-chefe Regoon. Quanto tempo
passou dormindo?
— Mais
de três semanas — respondeu Regoon e cumprimentou os homens.
Lançou um olhar de espanto para Gucky. — Caramba! Quem é este?
— É meu
amigo Gucky, um rato-castor natural do planeta Vagabundo, da Via
Láctea.
— Isso
mesmo. Fica à direita do Saco de Carvão — explicou Gucky em tom
sério e apertou a mão de Regoon. — Oportunamente você poderia
visitar-me.
A testa do
barcônida franziu-se.
— Ele
sabe falar, e ainda por cima em intercosmo! — disse em tom de
espanto. — Por certo não descende de nós...
— Nem
gostaria de descender! — protestou Gucky e caminhou em direção às
duas camas.
As pessoas
deitadas nas mesmas começavam a mexer-se. Regoon fitou-o com uma
expressão de perplexidade e sacudiu a cabeça.
— Se as
tradições não são falsas, há um milhão de anos não nos
encontramos com esta raça.
Nex já se
esquecera de Gucky.
— Por
favor, conte-nos o que viu na superfície — disse, dirigindo-se a
Rhodan.
Este
contou em ligeiras palavras o que haviam visto na superfície de
Bárcon, sem mencionar a incumbência que recebera do imortal. Mas
não ocultou os ataques dos invisíveis e o repetido desligamento do
reator principal, levado a efeito por algum desconhecido. Por fim
disse em tom resoluto:
— Agora
gostaria de saber o que aconteceu por aqui. Seu plano não deu certo?
Desta vez
foi Regoon quem respondeu:
— Funcionou
muito bem! Todas as máquinas trabalhavam da forma que esperávamos.
Desprendemo-nos do campo de gravitação de nosso sol e iniciamos
nossa viagem, na direção exata da Galáxia. A vida aqui nas
profundezas continuava tal qual havíamos previsto. Meio século
passou-se. Depois disso ocorreram os primeiros ataques das
inteligências invisíveis. Nex, continue a contar.
O
cientista fez um gesto de assentimento.
— Observamos
coisas estranhas com a câmara de televisão. A superfície do
planeta começou a modificar-se. A atmosfera precipitou-se sob a
forma de neve e toda a vida lá fora tornou-se impossível. Nosso sol
desapareceu no nada. A Via Láctea aproximava-se lentamente. Tudo
isso era normal e estava previsto. Mas de repente as máquinas
começaram a falhar. Foram desligadas...
Rhodan
ouviu atentamente, mas não fez nenhum comentário. Sengu juntou-se a
Gucky e ajudou-o a acordar mais dois barcônidas que ainda dormiam.
— Conseguimos
ligar as máquinas de novo, mas os incidentes se repetiram. Depois de
algum tempo, as câmaras que nos mostravam a superfície falharam e
não conseguimos fazê-las funcionar de novo. Não encontramos nenhum
defeito. Ao que parecia, houve um ataque deliberado contra as mesmas.
O ataque não foi desferido com armas visíveis, mas de forma
sorrateira, quase imperceptível. Antes que as telas se apagassem
vimos, uma única vez, um forte raio energético. A neve derreteu-se
e a água evaporou-se. Mas não vimos ninguém, embora as rochas
fossem deslocadas. Eles nos procuravam. E acabaram encontrando-nos. A
comunicação visual foi interrompida e as máquinas deixaram de
funcionar. Voltamos a ligar o reator. Depois de alguns minutos,
voltou a desligar-se automaticamente.
— Já
conhecemos isso — disse Rhodan.
Nex
prosseguiu tranqüilamente:
— Refletimos
sobre o que deveríamos fazer. Por precaução distribuímos
comprimidos para dormir. Tais cápsulas foram descobertas por nossos
médicos mais competentes. Seu efeito é espantoso. O organismo de
quem as toma é parcialmente paralisado. Morre-se para o mundo
exterior. O coração deixa de bater, embora o sangue continue a
circular, mas muito mais lentamente. Não há necessidade de qualquer
forma de alimentação. O consumo de oxigênio é tão reduzido que
um homem pode viver por vários anos com um metro cúbico. O sono a
quente, que é chamado assim porque o corpo não esfria, representa o
melhor meio de superar uma situação desfavorável.
“Nossa
produção de alimentos foi interrompida, o suprimento de ar ficou em
perigo. Por isso ordenamos ao nosso povo que se dirigisse aos
dormitórios e tomasse os comprimidos. Quanto a nós, permanecemos
nas proximidades da central e também os tomamos. Mas também tomamos
o antídoto, que faria com que despertássemos, assim que voltasse a
funcionar o suprimento de ar. E isso só aconteceria quando os
invisíveis desaparecessem.”
— Ou se
alguém ligasse o reator, não é? — perguntou Rhodan.
Nex
sorriu.
— Não.
Um dispositivo automático ligava-o de vinte e quatro em vinte e
quatro horas. Mas isso não adiantava muito. Os desconhecidos
voltavam a desativá-lo. Ao que parece, agora desistiram de suas
tentativas.
Rhodan
bateu três vezes na mesa. Dali a dois segundos teve de reconhecer
que essa superstição não adiantava nada. A luz apagou-se. Gucky
praguejou. Dali a pouco, a luz voltou a acender-se. Gucky retornou.
Sem dar a menor atenção aos rostos estupefatos dos dois barcônidas,
disse:
— Eles
sempre repetem... Não se poderia prender o botão de tal maneira que
fique no lugar?
— Nesse
caso eles recorreriam a outro meio para paralisar o reator, meu
baixotinho. E poderiam fazê-lo de uma forma que não conseguíssemos
mais usá-lo.
— Se
aparecerem, verão o que é bom — profetizou Gucky, em tom furioso.
— Aquilo que fazem com o botão é executado por meio de um
controle remoto, pois não sinto seus impulsos mentais. Vamos prender
o botão. Nesse caso terão de comparecer pessoalmente, e nós lhes
prepararemos uma recepção bem quente.
Isso
parecia muito convincente. Talvez os invisíveis estivessem na
superfície, de onde conduziam a operação. Mas como se poderia
prender o botão?
— É
simples. Soldaremos o botão. A solução é esta! — exclamou
Regoon. — Não temos radiadores energéticos de sobra por aqui?
Uma vez
tomada a decisão, Gucky ficou mais tranqüilo. Depois, muito
envaidecido, anunciou:
— Os
dois dorminhocos acordaram, Perry. Quer que eu os atire para fora da
cama?
*
* *
Rhodan,
Sengu, Gucky e os quatro barcônidas aproximaram-se cautelosamente da
central. Rhodan trocara seu radiador leve por uma pesada pistola
energética dos barcônidas. Quando a luz se apagou, Gucky reprimiu a
raiva e voltou a ligar o reator. Regoon correu atrás dele e logo se
viu junto ao rato-castor, próximo do bloco semicircular.
Dirigiu a
arma contra o botão verde que acabara de ser comprimido. O raio
fino, feito de energia pura, atingiu-lhe as bordas e derreteu-as. A
massa viscosa, que endureceu rapidamente, formava um obstáculo
intransponível. Não poderia saltar mais para fora, por mais vezes
que o outro botão, o vermelho, fosse comprimido. Rhodan fez uma
tentativa. Comprimiu com toda força. O mesmo afundou na base, mas o
botão verde permaneceu na posição em que se encontrava. E o reator
continuava a funcionar. A luz não se apagou. Nex parecia satisfeito.
— Agora
estou curioso para ver a reação deles.
Rhodan
apontou para o rato-castor, que recuara.
— Ele
nos dirá quando estiverem chegando. Ele sente.
Nex não
perguntou de que forma Gucky sentia os invisíveis. Preferiu
destravar a arma. Retiraram-se do controle do reator e
distribuíram-se. Sabiam o que estava em jogo. Rhodan explicara
minuciosamente o plano. Aquilo que três feixes de raios energéticos
fizeram na superfície devia ser conseguido com uma facilidade muito
maior por sete feixes de raios muito mais fortes.
Esperaram
em silêncio.
Ninguém
sabia se os invisíveis podiam vê-los. Talvez não tivessem órgãos
de visão propriamente ditos, e apenas tateassem seu caminho. Ninguém
poderia saber.
Gucky
levantou a mão e fez um sinal.
Alguma
coisa se aproximava. Rhodan reforçou sua vigília mental e também
sentiu as impressões confusas e ameaçadoras que investiam contra
ele. Sua intensidade dependia da distância; e aproximavam-se
rapidamente. Muito rapidamente. Rhodan ficou refletindo sobre como os
invisíveis poderiam ter conseguido um acesso para o mundo
subterrâneo e de que forma se locomoviam no mesmo. Será que eram
capazes de atravessar a matéria compacta?
— Estão
chegando! — cochichou Gucky e lançou um olhar obstinado para o
bloco em semicírculo.
Forçosamente,
tal bloco teria de ser o destino dos invisíveis. A não ser que
resolvessem penetrar diretamente no reator. Mas não era de supor que
isso acontecesse, pois já haviam revelado que não eram imunes aos
raios energéticos.
Gucky
olhou lentamente em torno. Dirigia os olhos para alguma coisa que os
outros não viam. Mas embora não fossem telepatas como o
rato-castor, também sentiam a pressão no cérebro. E Gucky olhava
exatamente na direção da qual vinha essa pressão.
Agora
Gucky estava olhando para o semicírculo. Mas ainda não havia
disparado.
O botão
vermelho desceu.
A mão
invisível comprimiu-o! Mas o botão verde continuou onde estava. A
luz continuou acesa. O reator não parou de funcionar.
Gucky
levantou a cabeça e fitou Rhodan.
Este
acenou com a cabeça.
Era o
comando dirigido a todos.
Os raios
energéticos foram expelidos por sete armas pesadas. Cruzaram-se no
lugar exato onde estaria um homem que quisesse comprimir os botões.
A concentração de energia mortífera apareceu sob a forma de
cascatas que desciam por um corpo invisível. Este corpo assumiu
formas humanas e foi-se materializando aos poucos, em meio à luz.
O
invisível tornou-se visível.
Possuía
formas humanóides, conforme já haviam observado. E contorcia-se
como se sentisse dores e quisesse escapar da direção dos disparos.
Mas os feixes energéticos mantinham-no preso ao lugar onde se
encontrava. Seus contornos tornaram-se cada vez mais nítidos sob a
luz ofuscante. Até o rosto apareceu de forma difusa, mas era
totalmente inexpressivo. Rhodan reconheceu dois olhos e uma boca
estreita e contorcida. Apenas isso.
Deu o
sinal.
Os sete
lampejos energéticos apagaram-se ao mesmo tempo.
O
desconhecido continuou onde estava.
Caíra ao
chão e contorcia-se em convulsões.
Rhodan
sentiu que os impulsos mentais e a dor ligada aos mesmos haviam
diminuído. Saltou para a frente e correu em direção ao estranho
ser. Os outros hesitaram em segui-lo. Gucky ficou parado e montou
guarda. Perceberia imediatamente a eventual aproximação de outro
invisível e avisaria os outros.
A mão de
Rhodan segurou o invisível tornado visível. Sentiu uma espécie de
tecido e, embaixo do mesmo, a carne daquele ser. Levantou o inimigo à
força e colocou-o de pé. Mas o desconhecido fora tão afetado pelo
fogo energético concêntrico que pelo menos perdera os sentidos.
Voltou a cair molemente.
Rhodan
abaixou-se. Não soltou o desconhecido. Procurou estudar-lhe as
feições.
O rosto do
desconhecido parecia envolto num véu.
— Está
ficando invisível! — gritou a voz estridente de Gucky. — Seus
pensamentos... está morrendo.
Rhodan
segurou o corpo com mais força, mas sua mão não encontrou
resistência. Atravessou o tecido do estranho traje e penetrou no
corpo do ser medonho. Por enquanto ainda se via o moribundo, mas logo
se tornou transparente. Rhodan já via o piso metálico através do
corpo.
Angústia,
susto e dor — foram estas as características principais dos
impulsos mentais que penetraram pela última vez no cérebro de
Rhodan e logo diminuíram. Finalmente apagaram-se de vez.
No mesmo
instante, o desconhecido desapareceu. Além de tornar-se invisível,
desmaterializou-se.
Morrera —
se dissolvera no nada.
*
* *
Estavam
sentados no quarto dos barcônidas, junto à central.
Há duas
horas o reator funcionava ininterruptamente. Ninguém mais tentara
desligá-lo. Gucky, que permanecera na central para montar guarda,
não captara mais nenhum impulso. Tudo indicava que os invisíveis
haviam desistido do ataque.
Mas era
possível que a calma fosse enganadora.
— De
onde vêm esses seres? — perguntou Rhodan.
No íntimo
entretinha a esperança de que ao menos Nex pudesse dar-lhe uma
explicação. Mas o cientista também não a possuía.
— Vêm
do grande vazio intergaláctico. Talvez não tenham nenhum planeta
natal e vaguem ao acaso. Um belo dia encontraram-nos. Nosso mundo
vaga pelo espaço, aparentemente desabitado. Acreditaram que tinham
encontrado um mundo sem vida. Mas depois de algum tempo descobriram a
verdade, e atacaram. Acontece que são invisíveis e não têm corpo.
No entanto, o corpo do que esteve aqui tornou-se visível. Morreu.
— Isso
mesmo. E ao morrer voltou a desmaterializar-se. Até parece que seu
estado natural é este. Vivem na mesma dimensão que nós. Não
conhecem a teleportação, mas conseguem um efeito análogo. Não são
apenas invisíveis no sentido usual do termo, mas nem sequer chegam a
existir. No entanto, seu cérebro está presente. Não existe
qualquer explicação para isso.
— Encontraremos
uma explicação! — asseverou o nexialista, que defendia a doutrina
das ciências unificadas e rejeitava a tendência à especialização.
— Um dia saberemos de onde vieram e quem são.
Rhodan
sabia que isso era um fraco consolo. Enquanto os desconhecidos se
limitassem a atacar Bárcon e não estendessem seu campo de atividade
à Via Láctea, eles lhe seriam indiferentes. Mas quem poderia
afirmar que sempre seria assim? Não havia nenhuma arma eficaz contra
os invisíveis, a não ser o impacto ocasional de uma arma
energética.
Regoon
entrou. Sua barba ruiva esvoaçava. Em sua cama, estava Gorat. Os
dois divertiam-se com o compenetrado cientista atômico Laar. Sentado
sobre a cama, Laar tinha uma cartola sobre a cabeça.
— Para
que essa cartola? — perguntou Regoon em tom de escárnio. — Acho
que não estamos na iminência de nenhum ato oficial. Ou será que
estamos?
Laar não
respondeu. Regoon não repetiu a pergunta. Dirigiu-se a Rhodan.
— Todos
os setores estão trabalhando a plena potência. O gerador de campo
energético está funcionando e cria uma abóbada protetora.
Pretendíamos fazer isso apenas quando nos aproximássemos da
Galáxia. Mas resolvemos aceitar seu conselho. O senhor é de opinião
que os desconhecidos não gostam de raios energéticos e campos de
força?
— Estou
convencido de que é assim — confirmou Rhodan. — Assim que o
campo energético tiver uma potência suficiente para proteger todo o
planeta, veremos se estou ou não com a razão. A atmosfera será
regenerada?
— Está
se recuperando — asseverou Regoon em tom exaltado. — Dentro de
algumas semanas teremos um novo envoltório atmosférico em torno de
Bárcon. Ainda fará frio, mas será possível viver na superfície.
— Ao
menos será possível criar bases fixas por lá, que se dediquem à
observação do espaço. Aquilo que aconteceu nunca deverá
repetir-se. Vim para cá por acaso. É possível que da próxima vez
não chegue em tempo. Pretende despertar a população?
— Ainda
não — respondeu Nex. — Só o faremos quando tivermos certeza de
que os invisíveis não voltarão a atacar.
— E
quando acredita que tenhamos essa certeza?
Nex
levantou as mãos, na atitude tipicamente humana de manifestar a
ignorância.
— Não
sei mesmo!
Sengu
disse:
— Deveríamos
ir à superfície, acompanhados por Gucky e dar uma olhada. Se os
invisíveis nos atacarem, saberemos que ainda não desistiram dos
seus planos.
— Deixemos
isso para mais tarde — respondeu Rhodan, em tom hesitante.
Não
conseguia livrar-se da impressão de que os invisíveis representavam
um tremendo perigo para toda a porção habitada da Via Láctea.
Deviam descobrir armas melhores contra eles que o simples acaso.
Talvez uma cortina energética...
Regoon fez
uma sugestão.
— Talvez
fosse conveniente despertarmos alguns técnicos. Não poderemos
executar a tarefa sós. Os conjuntos energéticos precisam de uma
vigilância e manutenção ininterruptas.
— Só
acordem os elementos mais importantes — disse Nex, dando a
necessária permissão. — Como vai a produção de alimentos?
— Também
está funcionando — informou Regoon.
Rhodan
levantou-se.
— Ficar-lhes-ei
muito grato se puderem colocar uma sala à nossa disposição. Um de
nós ficará constantemente junto ao reator. Mas também precisamos
de sono. Temos um caminho longo atrás de nós.
— Aqui
ao lado — Nex também se levantou. — Venha comigo. Eu o levarei
para lá.
Deitaram
sobre as camas limpas, mas o sono pelo qual tanto ansiavam não
vinha. De repente Rhodan não sentiu mais nenhum cansaço. Teve a
impressão de que acabara de despertar de um sono prolongado e
repousante. Será que o cansaço fora apenas imaginário?
Rhodan
começou a desconfiar de que o imortal se mantinha presente a uma
distância enorme e lhes dava auxílio. Dava-lhes novas forças.
Fazia-o apenas para abreviar a missão salvadora junto aos
barcônidas. Rhodan fechou os olhos e disse:
— Está
vendo Gucky, Sengu?
— Está
parado diante do semicírculo em atitude sonolenta. Ah, agora está
levantando a cabeça. Olha em nossa direção. Será possível...?
— Naturalmente
captou seus pensamentos, Sengu. Gucky, você me entende?
— Está
fazendo que sim — disse Sengu, que se sentia feliz com aquela forma
singular de comunicação. — Ele compreendeu.
— Excelente,
Gucky! Há algum sinal dos invisíveis?
Gucky
sacudiu a cabeça.
— Muito
bem. Venha até aqui.
O
rato-castor materializou-se no interior do quarto.
— Eles
já estão cansados de meter o nariz onde não foram chamados... se é
que têm nariz — conjeturou. — Não há nenhum impulso, nenhum
apertador de botões, absolutamente nada. Vamos partir?
— Não
tenha tanta pressa, meu pequenino. Os quatro barcônidas acreditam
que estamos dormindo. Não notarão sua falta. Sengu ficará aqui,
enquanto você e eu fizermos uma excursão.
— Lá em
cima? — piou Gucky em tom exaltado.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Sengu,
vá vez por outra até a central para dar uma olhada. Se os
barcônidas perguntarem por nós, informe os cientistas. Entendido?
O japonês
fez que sim.
Gucky
segurou a mão de Rhodan.
Os dois
desapareceram diante dos olhos de Sengu num torvelinho quase
imperceptível, formado por espirais energéticas.
6
Dali a
três dias o panorama na superfície havia sofrido consideráveis
modificações.
Ao
contrário do que acontecera na primeira visita, desta vez Rhodan e
Gucky não estavam sós. Eram acompanhados por um grupo de
especialistas dos barcônidas. Estes levavam instrumentos
ultra-sensíveis, destinados a medir as manifestações energéticas.
Sem adotar precauções especiais, o veículo que levava o pessoal
passou, depois de ter percorrido uma boa distância, pelo portão que
dava para a superfície.
Rhodan
escolhera de propósito o lugar em que se verificara o primeiro
ataque dos invisíveis. O lago de gelo reluzente constituía uma
lembrança do mesmo.
Todos
estavam bem agasalhados. Os capacetes espaciais achavam-se abertos.
Um ar frio, mas não muito rarefeito, penetrou em seus pulmões.
Rhodan levantou os olhos para o céu negro e sem estrelas. Sim, o céu
continuava a apresentar a cor negra que se constituía na
característica dos mundos sem atmosfera. Mas Bárcon já possuía
uma atmosfera. A mesma media apenas algumas centenas de metros de
espessura e era mantida presa por um campo energético que envolvia
todo o planeta. Esse campo irradiava calor. Nos cumes das montanhas a
atmosfera congelada já começava a derreter, fornecendo novas
quantidades de ar respirável. A neve também continha oxigênio
congelado, que, em virtude de uma mistura toda especial, só era
liberado a uma temperatura relativamente elevada.
O campo
energético tremeluzia ligeiramente. Só se notava sua presença
depois de contemplar o céu por algum tempo.
Nex, que
chefiava o grupo de especialistas, disse:
— Está
dando certo. Dentro de uma semana a maior parte da atmosfera voltará
a gaseificar-se. Depois disso poderemos instalar as bases.
Gucky, que
se mantinha um pouco afastado, aproximou-se.
— Sinto
um impulso. Ainda estão distantes, mas aproximam-se lentamente.
Rhodan fez
um sinal para os homens. Metade deles colocou os aparelhos e
instrumentos na nave e tirou as armas. Distribuiu-os segundo um plano
bem traçado. Os mecanismos de travamento fizeram um clique.
— Então?
— perguntou Rhodan, que só sentia impulsos muito débeis, que não
se tornavam mais intensos. — O que está acontecendo?
Gucky
hesitou.
— Pararam.
Devem estar com medo de nós.
A outra
metade dos especialistas manipulava seus instrumentos. Nex transmitia
seus comandos com a voz calma. Confiava plenamente em Rhodan e seus
dois auxiliares. Tinha uma simpatia toda especial pelo pequeno
rato-castor. Nesses três dias, esses seres tão diferentes haviam
travado palestras intermináveis. Rhodan percebeu que o rato-castor
se tornara muito pensativo. Resolveu que na primeira oportunidade lhe
perguntaria sobre o conteúdo das palestras.
— Pronto!
— disse Nex depois de algum tempo.
Rhodan
sentiu os impulsos diminuírem ainda mais. Não estavam causando
dores.
Parecia um
cauteloso tatear. Dali a pouco desapareceram de vez.
Gucky
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Terminou!
Parece que desistiram de vez de pensar. É estranho!
Duas telas
pequenas iluminaram-se. Uma linha entrecortada verde corria por elas
como se fosse um oscilógrafo. Dois barcônidas as manipulavam,
fazendo girar uma espécie de câmara. As faixas modificaram seu
formato, e Nex exaltou-se ligeiramente.
Rhodan
continuou tranqüilo.
— O que
está sendo constatado, Nex?
— À
nossa frente, a menos de dois quilômetros de distância, existe um
obstáculo de natureza energética. Reflete os raios emitidos por
este aparelho. Há mais três obstáculos a sete quilômetros. São
da mesma espécie.
— Qual é
seu formato?
— Um
momento!
Depois de
confabular ligeiramente com os técnicos, Nex voltou a dirigir-se a
Rhodan:
— O
formato é alongado. Parecem torpedos. Têm uns vinte metros de
espessura e cem de comprimento. Será que são...?
Rhodan fez
que sim.
— Isso
mesmo; são naves espaciais. As espaçonaves dos invisíveis também
são invisíveis. Só os instrumentos podem constatar sua presença.
— O que
devemos fazer?
— Esperar
— recomendou Rhodan.
Tinha seus
pressentimentos, mas preferiu aguardar a confirmação dos mesmos.
Desviou os olhos para Gucky, que olhava na direção onde devia estar
a nave cuja presença fora constatada pelos instrumentos. Depois de
algum tempo, o rato-castor captou a pergunta muda. Respondeu:
— Não
há mais nenhum impulso. As paredes das naves devem ser um obstáculo
para eles.
As linhas
verdes passaram a correr loucamente sobre as telas. Nex inclinou-se
sobre um dos técnicos e comentou algo com ele em voz baixa. Depois
disse em voz alta:
— A nave
mais próxima acaba de decolar. Atravessou o campo energético,
causando-nos uma perda de energia, e avança pelo espaço.
Esperou
alguns segundos, durante os quais não tirava os olhos da tela.
— Já
desapareceu. Está fora do nosso alcance. Pelos seus padrões isso
representa cerca de dez horas-luz.
Dez
horas-luz em dez segundos! Rhodan soltou um assobio entre os dentes.
Era um ótimo desempenho, uma vez que se tratava simplesmente da
decolagem. Que velocidade as naves desses seres desconhecidos não
deveriam desenvolver no espaço?
— As
três naves restantes também decolaram! — anunciou Nex. — O
campo energético foi rompido, mas volta a fechar-se. Só uma pequena
parte da atmosfera conseguiu escapar.
Aproximou-se
de Rhodan.
— O que
significa tudo isso? Será que fugiram?
— Parece
que sim — respondeu Rhodan, embora tivesse suas dúvidas. —
Reconheceram que seu plano fracassou e tiraram suas conclusões,
conforme é de esperar-se de seres inteligentes como eles. Acho que
pode prosseguir em sua viagem e acordar a população.
— Acredita
que só havia essas quatro naves?
— Acredito.
Provavelmente apenas uma expedição de reconhecimento. Pousaram
aqui, onde as irradiações eram mais fortes. O reator fica
exatamente embaixo de nós. No futuro eles não representarão mais
nenhum perigo para os senhores, desde que suas bases externas se
mantenham numa vigilância ininterrupta e registrem a presença de
qualquer objeto que se aproxime de seu planeta, quer seja visível,
quer não.
— Qualquer
objeto? — repetiu Nex em tom de dúvida. — As quatro naves que
acabaram de partir não são objetos, mas apenas impulsos
energéticos.
— O
senhor sabe o que quero dizer — falou Rhodan com um sorriso e saiu
andando.
Tudo
levava a crer que já havia cumprido a tarefa que lhe fora confiada
pelo imortal do planeta Peregrino.
*
* *
Esperaram
até que os barcônidas acordassem, o que aconteceu dali a dois dias.
O preparado que os despertava foi acrescentado ao ar que respiravam e
conduzido aos dormitórios. Os barcônidas levantaram; a vida
interrompida prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Novas ordens
foram emitidas e Rhodan teve certeza de que os invisíveis não
seriam bem-sucedidos, se resolvessem lançar outro ataque de
surpresa.
Subitamente
alguma coisa tateou em seu cérebro. Seguiu-se uma pergunta
perfeitamente audível e claramente formulada:
— Perry
Rhodan...? Os barcônidas estão vivos, não estão?
Era o
imortal! Conseguia captar os impulsos mentais da raça que acabara de
despertar, embora estes ainda fossem tão fracos que não conseguia
identificar seu significado. Nunca o fato de que, para os telepatas,
a distância não representa nenhum problema se impôs com tamanha
clareza à mente de Rhodan. Para verdadeiros telepatas! Nem mesmo
Gucky conseguia superar uma distância de cem mil anos-luz. Ninguém
podia... a não ser o imortal do planeta Peregrino.
— Acordaram
— disse Rhodan em voz alta.
Estava só,
numa pequena elevação. Resolvera dar um passeio na superfície, a
fim de certificar-se de que as estações de vigilância estavam
sendo construídas. O grande portão que ficava no fundo do vale
estava bem perto. Num ponto não muito distante dali, alguns técnicos
estavam trabalhando. Instalaram seus instrumentos de observação sob
uma pequena cúpula de plástico.
— Bárcon
foi atacado por desconhecidos, que quase conquistaram o planeta. Os
barcônidas colocaram-se num estado de sono profundo, a fim de evitar
a morte pela fome. Seus cérebros também descansaram.
— Então
foi por isso que não captei mais impulsos
— disse a resposta silenciosa. — Quem
foram os atacantes?
Sim, quem
foram? Rhodan daria tudo para poder dar uma resposta à pergunta do
imortal.
— Vieram
do grande vazio e são invisíveis. Só pode ter sido uma expedição,
pois com os instrumentos especiais conseguimos localizar quatro naves
que abandonaram Bárcon. Apesar disso, por pouco não conseguiram
conquistar o planeta. Sua técnica...
— Invisíveis...?
— interrompeu-o o imortal.
Seguiu-se
uma ligeira pausa. Depois surgiu a pergunta:
— Não
têm corpo? Não possuem matéria? Só se tornam visíveis e se
materializam quando são expostos a um campo energético
excessivamente forte?
Rhodan não
disfarçou o espanto. Então o imortal conhecia aquelas criaturas
estranhas...?
— Os
fenômenos que observamos foram exatamente estes. Só se materializam
no centro de vários raios energéticos concentrados. Mas logo se
desfazem, quando cessa o bombardeio energético... ou quando morrem.
A resposta
demorou alguns minutos.
Rhodan
continuava parado sob o céu negro de Bárcon e contemplava a mancha
difusa da Via Láctea. Metade estava encoberta pela linha do
horizonte. A neve já desaparecera dos cumes das montanhas. Também
nas planícies passava a derreter. Rios caudalosos abriram caminho
para os pontos mais baixos. Lagos começavam a formar-se. A
superfície de Bárcon sofria uma modificação.
Depois de
algum tempo ouviu a voz silenciosa do imortal. Parecia que falava
consigo mesmo, não com Rhodan:
— Bárcon
será uma pista que levará à nossa Galáxia. E eles seguirão esta
pista...
— Eles?
— perguntou Rhodan, procurando manter-se calmo e esforçando-se
para dominar o nervosismo. — Quem são eles?
Teve uma
decepção. O imortal não lhe forneceu qualquer esclarecimento.
— Sua
missão está concluída, Perry Rhodan. Daqui em diante, eu cuidarei
dos barcônidas. Dentro em breve terei forças para tomar
pessoalmente as providências necessárias, caso volte a surgir uma
situação que exija isso. Regresse! Estou à sua espera.
Rhodan
sabia que qualquer objeção seria inútil. O imortal era mais
poderoso que ele; tinha de submeter-se às suas ordens e desejos.
Incondicionalmente.
— Voltarei
— prometeu. — Ainda hoje.
— A
nave, que deverá levá-lo, pousará dentro de duas horas no mesmo
lugar em que você se encontra neste momento. Não se esqueça disso,
a não ser que queira permanecer para sempre em Bárcon. Você não
tem muito tempo.
— Sei
disso — respondeu Rhodan.
Sabia que
cada segundo do seu tempo fora dividido em conformidade com um plano
perfeitamente delineado. Já agora, o misterioso mecanismo de direção
da nave energética recebera suas instruções e as cumpriria
rigorosamente. Nem o tempo da decolagem, nem a velocidade ou a rota
poderiam ser modificados. Ninguém, a não ser o imortal, tinha
qualquer influência sobre o veículo espacial.
— Pode
esperar por mim.
Não houve
mais nenhuma resposta. Nem sequer uma confirmação ou agradecimento.
Rhodan
olhou para a planície. A base estava quase concluída. Constataria
prontamente a aproximação do que quer que fosse, até mesmo de
naves invisíveis e imateriais, e comunicaria sua presença. O campo
energético, que envolvia Bárcon, fora fortalecido a tal ponto que
até estas naves se tornariam visíveis. Os canhões energéticos
automáticos apontariam para o alvo e disparariam.
Rhodan
olhou para o relógio. Dispunha apenas de uma hora e cinqüenta
minutos. Era pouco. Sem o auxílio de Gucky, dificilmente conseguiria
chegar até a nave.
Chamou-o,
pensando nele.
O
rato-castor materializou-se a seu lado.
— Você
falou com o imortal; acompanhei a palestra.
Sem o
menor constrangimento Gucky confessou sua espionagem telepática.
— Não
quer dizer quem são os invisíveis, muito embora se lembre
perfeitamente deles. Não é uma atitude muito decente.
— Ele
deve ter seus motivos para agir desta forma — disse Rhodan em
defesa do imortal. — Leve-me para baixo. Soou a hora da despedida.
Encontraram
Sengu na central de comando. Estava em companhia de Nex e Regoon. Os
homens se haviam tornado bons amigos e discutiam, durante horas,
sobre as vantagens do nexialismo.
— É
evidente — estava dizendo Nex — que a especialização pura leva
à massificação e reprime o individualismo autêntico. Só a
colaboração entre os especialistas pode trazer resultados
satisfatórios. Basta que um deles falhe, para que o trabalho dos
outros seja inútil. É como se fosse um instrumento hipersensível.
Se uma única peça entrar em pane, pode-se jogar fora todo o
aparelho, a não ser que se disponha de uma peça sobressalente.
— É
verdade — concordou Sengu. — Acontece que um nexialista nunca
pode substituir plenamente uma equipe de especialistas, pois nunca
poderá ter tantos conhecimentos quanto os especialistas em conjunto.
— Mas o
risco sempre será menor — objetou Nex em tom convicto — pois um
nexialista saberá arranjar-se em todas as situações, o que não
acontece com um especialista, a não ser que o problema se situe
justamente na sua área de especialização. E isso é muito raro.
— Não
seria impossível estudar e dominar todas as especialidades, a fim de
adquirir uma idéia geral de todos os ramos de conhecimento?
— Será
mais fácil adquirir uma ampla cultura geral do que conhecer todas as
áreas de uma única especialidade nos menores detalhes. Acho que
isso seria muito enfadonho.
Rhodan e
Gucky deram sinal de sua presença. Dirigiram-se aos dois homens.
— Não
há dúvida de que o nexialismo é uma teoria muito interessante —
confessou Rhodan. — Qualquer nave espacial que singre o espaço,
dependendo unicamente dos seus recursos, deveria levar a bordo um
nexialista capaz de coordenar o trabalho dos especialistas na solução
dos problemas mais difíceis — sorriu. — É possível que mais
tarde voltemos a conversar sobre isso, Nex. Agora infelizmente não
temos tempo. Devemos despedir-nos.
— Pretendem
deixar-nos? — Nex parecia assustado.
Regoon,
que até então acompanhara a palestra em silêncio, adiantou-se. Seu
rosto revelou um grande sobressalto.
— Já?
Não sabemos se os invisíveis...
— Eles
não voltarão. E se voltarem, vocês estarão preparados. Conhecem a
arma com a qual poderão derrotá-los. Mantenham o reator sob
bloqueio. Observem a superfície. Prossigam em sua viagem. Lembrem-se
de que nunca estarão sós.
Regoon
deu-se por satisfeito. Compreendeu que não conseguiria modificar as
intenções de Rhodan. Talvez também desconfiasse de que Rhodan não
era dono de suas decisões, tendo que obedecer a alguém que ocupava
uma posição mais elevada.
— Neste
caso está na hora de manifestarmos nossos agradecimentos a você e
seus amigos. O que teria acontecido conosco se vocês não tivessem
vindo?
— Ninguém
sabe, Regoon. Nem mesmo nós.
— Isso
acontece porque ninguém conhece as intenções dos atacantes —
observou Nex. — E ainda porque ninguém sabe para onde foram. Nunca
nos havíamos encontrado com eles. E olhe que nossa história já tem
um milhão de anos.
Regoon
retirou-se e voltou em companhia de Gorat e Laar. Rhodan sabia que os
quatro homens a seu lado representavam o povo dos barcônidas. Sempre
que se lembrasse desse povo, enxergaria em sua mente a imagem desses
quatro homens.
Laar, o
maior cientista atômico de seu povo, também ocupava a posição de
chefe do governo. Isso provava que é perfeitamente possível
harmonizar a ciência e a política, e que nem sempre um grupo de
cientistas politizados representa o fim do mundo.
Voltara a
usar a cartola que, segundo parecia, costumava ser exibida sempre que
havia uma oportunidade especial. Rhodan voltou a espantar-se com
isso. Mas mais uma vez preferiu não fazer perguntas. As relações
existentes entre os barcônidas, os arcônidas e os terranos seriam
esclarecidas no devido tempo.
— Ficamo-lhes
eternamente gratos — disse Laar, apertando a mão de Rhodan, de
Sengu e finalmente de Gucky. — Talvez possamos retribuir um dia,
quando seu povo precisar de auxílio... e quando nos tivermos
aproximado bastante. Contem conosco.
— Se
alguém tem de agradecer, somos nós — respondeu Rhodan. — O que
seria de nós se não fossem vocês?
Disse isso
para fortalecer a autoconfiança dos barcônidas. Consideravam-se os
ancestrais de todas as inteligências da Via Láctea, que fora
colonizada por eles há um milhão de anos. E precisariam de uma boa
dose de autoconfiança para superar o longo período de tempo que
tinham pela frente.
Regoon e
Gorat também se despediram. Não fizeram perguntas. Sabiam que, na
superfície, uma nave pequena estaria à espera dos terranos, tal
qual acontecera há muitos anos.
— Eu os
acompanharei — disse Nex.
Rhodan
olhou para o relógio.
— Só
dispomos de pouco mais de uma hora. Será que de carro chegaremos em
tempo? Olhe que o caminho é longo...
— Tomaremos
o elevador — respondeu Nex. — Dessa forma estaremos na superfície
dentro de dez minutos.
*
* *
As
escotilhas fecharam-se no momento exato. A colina com a figura
solitária do barcônida foi se afastando. Nex acenava com ambos os
braços. Rhodan retribuiu até que a figura solitária se
transformasse num ponto minúsculo em meio à solidão manchada de
branco, e desaparecesse.
A nave
rompeu a abóbada energética e atingiu o espaço livre. Aumentou a
velocidade. Bárcon caiu num abismo sem fim e transformou-se numa
esfera. Era difícil distingui-la, já que a luz muito escassa
produzia reflexos pouco intensos.
Depois de
algum tempo, Bárcon desapareceu.
A proa da
nave apontou para a Via Láctea distante, que se destacava como nuvem
luminosa contra o fundo negro.
O vôo de
regresso fora iniciado.
7
A Drusus
estava pousada no planeta Peregrino.
No
pavilhão do fisiotron estavam Rhodan e todos os mutantes que há
menos de sessenta anos haviam recebido a ducha revitalizante.
Aproveitou a oportunidade para pedir ao imortal que lhe concedesse a
ducha celular, e seu pedido fora atendido. Queria que também os mais
competentes dentre os homens que os cercavam obtivessem o
prolongamento da vida, quer fossem mutantes, quer não.
Uma vez
iniciada a ação, Rhodan dirigiu-se a uma sala onde o imortal já o
aguardava.
Mais uma
vez flutuava pouco abaixo do teto, sob a forma de uma esfera.
Rhodan
sentou-se na poltrona e esperou. A esfera desceu até encontrar-se na
altura dos olhos de Rhodan.
— Seus
pensamentos já me revelaram tudo, Perry Rhodan. Não precisa
contar-me nada. Apenas quero dizer-lhe alguma coisa.
— E
minhas perguntas?
— Não
posso e não devo dar resposta às mesmas. Um saber excessivo
influencia o futuro. Para você o futuro deve continuar envolto na
escuridão, pois a luz ofuscante do saber o cegaria. Os barcônidas
estão salvos. Estão a caminho, e um dia nos alcançarão. Talvez
isso aconteça mais cedo do que você acredita. E mais cedo do que
você julga possível.
— Você
conhece o futuro?
— O
futuro está predeterminado, mas existem muitos caminhos que conduzem
ao mesmo. E este é o único segredo: os caminhos do futuro.
— Quer
dizer que os caminhos podem ser vários, mas o ponto final está
previamente determinado e não pode ser modificado.
— Quando
falo no futuro, refiro-me ao fim de todos os tempos. Tudo teve um
começo, situado a bilhões de anos. Conclui-se que o tempo também
terá um fim. E é nesse fim que confluem todos os caminhos que
conduzem ao futuro. Por mais diferentes que sejam os planos
existenciais e as trilhas das possibilidades, tudo conduz a um
destino único: o fim de todos os tempos.
— O fim
do tempo — disse Rhodan e sentiu um calafrio que lhe desceu pela
espinha. — Qual é o sentido do passado e do presente, se o futuro
apenas pode representar o fim?
— Ninguém
sabe da existência desse fim, a não ser você e eu — respondeu o
imortal. — Você seria capaz de desvendar o mistério?
Rhodan
sacudiu a cabeça. Sabia perfeitamente que não falaria a ninguém
sobre isso. Só lhe restava uma pergunta, já que avançara tanto.
Formulou a
pergunta.
— Como
será o fim do tempo, amigo? Será o nada? Será a paz eterna ou o
caos? O que virá depois do fim? Deve haver alguma coisa. Ou será
que o nada realmente existe?
A bola
cintilante, que corporificava uma raça desaparecida e englobava sua
sabedoria, parecia crescer um pouco. Subiu. Rhodan teve a impressão
de que a modificação poderia representar uma alteração do estado
de ânimo.
— As
perguntas que você acaba de formular ultrapassam sua capacidade de
compreensão. Será que você nunca pode dar-se por satisfeito? Você
sabe mais que qualquer outra inteligência do Universo. Sabe que há
muitos caminhos que conduzem ao futuro, e que cada ser pensante
escolhe seu caminho. É claro que não sabe como será esse caminho.
Mas sabe que leva inexoravelmente ao futuro. Também você trilhará
um destes caminhos, mas haverá alguém que o guiará. Seu caminho
não é o mais fácil, mas em suas margens existem as maiores
riquezas. Sua tarefa consistirá em abaixar-se em tempo, antes que
tenha passado pelo lugar em que se encontram as riquezas. O fim do
tempo...?
“Não,
meu caro. Nem mesmo você saberá como é o fim do tempo. Talvez seja
o início de uma nova era, talvez seja apenas o nada. Sou o único
ser vivo que poderia responder às suas perguntas, mas não o farei.
Não há dúvida de que no futuro serão realizadas tentativas de
romper a muralha do tempo. Algumas dessas tentativas serão
bem-sucedidas. Mas de que adiantará isso? Qualquer máquina do tempo
só poderá investigar um único caminho, e quando atingir o fim do
tempo, deixará de existir. Como poderíamos conceber uma máquina do
tempo sem tempo? Ela nunca voltará. E não é possível nadar
transversalmente ao fluxo do tempo. Ao menos no plano material.”
Rhodan
reconheceu as limitações. Nunca se esqueceria delas. Seus músculos
se descontraíram. Subitamente sentiu-se inundado por uma
tranqüilidade que nunca antes conhecera. Por uma fração de segundo
enxergou o caminho que iria percorrer. Estava profusamente iluminado
e destacava-se nitidamente em meio à escuridão do infinito, até
perder-se em algum lugar no oceano do tempo. Dirigia-se a um destino
desconhecido.
A visão
apagou-se.
Continuava
sentado em sua poltrona. A esfera flutuava à sua frente. Era
incompreensível em sua sabedoria e onipotência; imortal, conhecia o
princípio e o fim do tempo. Se existia, o futuro ainda devia ter um
sentido. Do contrário não teria posto fim à própria existência?
E, se não fosse assim, continuaria a guiar a ele, Rhodan?
— Fico-lhe
muito grato — disse Perry, que se sentiu humilde na consciência da
própria fraqueza e pequenez.
Não era
apenas um homem, embora fosse relativamente imortal? Não havia
muitos homens iguais a ele? Não fora apenas por meio do auxílio de
outrem que se transformara naquilo que era? O que seria dele se não
fossem os amigos e ele...?
— Também
lhe fico grato — respondeu o imortal. — Você me ajudou numa
situação em que até eu estava impossibilitado de prestar auxílio.
E se não tivéssemos corrido para ajudar os barcônidas...
O resto da
frase deixou de ser pronunciado. Estava na hora de formular a última
pergunta.
— O que
aconteceu com os barcônidas? Quem são realmente? E por que você se
interessa tanto pelo seu destino?
— Você
acha que sinto uma simpatia especial por eles? Não é verdade.
— Por
que tive de salvá-los?
— Porque
são importantes! Sem eles o fim do tempo talvez fosse diferente...
Não sei.
— Pensei
que esse fim fosse predeterminado e imutável.
— Também
acredito que seja assim. Mas como poderia saber?
Rhodan viu
que não conseguiria descobrir mais nada.
— E os
invisíveis? Quem são eles? Você já teve algum encontro com esses
seres?
Seguiu-se
uma ligeira pausa. Rhodan sabia que seus companheiros encontravam-se
recebendo a ducha celular. Não estava perdendo tempo.
Finalmente
veio a resposta:
— É
graças a eles que sou aquilo que sou. É só o que posso dizer.
— Foi
graças a eles? Não compreendo. Quer dizer que não são inimigos?
Por que atacaram os barcônidas?
Seguiu-se
outra pausa.
— Se
você é morto por um inimigo, Perry Rhodan, você tem de lhe ser
grato por sua morte. Será que me fiz entendido?
Então era
apenas um jogo de palavras?
A esfera
reluzente subiu ao teto. Rhodan levantou-se. A poltrona desapareceu
como se nunca tivesse estado naquele lugar. Mas isso o deixou tão
indiferente quanto o fato de que permanecera quase uma semana em
Bárcon, enquanto na Drusus só se haviam passado quatro horas.
— Passe
bem, amigo — disse o imortal em sua forma silenciosa e sugestiva. —
Você terá notícias minhas. Poderei alcançá-lo em qualquer lugar
e tempo.
— Em
qualquer tempo? — perguntou Rhodan com um sorriso e inclinou-se em
direção à esfera, que se foi tornando invisível e desapareceu.
Não
obteve resposta.
*
* *
O planeta
artificial Peregrino voltara a mergulhar em sua invisibilidade
anônima. O Coronel Sikermann acabara de anunciar a primeira
transição.
Estavam
reunidos no camarote de Rhodan: Bell, John Marshall, Sengu, Gucky e
mais alguns mutantes. O Dr. Manoli estava parado junto à porta.
— Da
outra vez foi ainda mais louco — disse Bell em tom indiferente,
numa alusão patente à primeira excursão que Rhodan fizera a
Bárcon. — Você permaneceu em Bárcon por vinte dias, mas em nossa
dimensão temporal não perdeu mais que um segundo. Desta vez você
esteve fora por uma semana e perdeu quatro horas. Ao que parece, o
imortal é capaz de fazer variar as relações temporais.
— Isso
seria ótimo para certos homens — disse Gucky. — A gente
despede-se da esposa, dizendo que vai ao escritório. Na verdade,
passa umas férias no Sul, com... bem, com outra pessoa, que não é
a esposa. Dali a um mês a gente volta e chega bem na hora do almoço.
Um sorriso
irônico surgiu nos lábios de Manoli.
— Não
sou casado — observou.
Betty
Toufry estava acariciando o pêlo de Gucky.
— Você
não tem uma opinião muito favorável de nossos homens — disse,
censurando a fantasia descontrolada do pequeno amigo. — Como é que
as faculdades extraordinárias do imortal puderam estimular idéias
tão sujas em sua mente?
John
Marshall não permitiu que a conversa o distraísse. Ouvira o relato
de Rhodan e só conhecia um problema. Formulou, então, uma série de
perguntas referentes ao tal problema.
— Quem
serão os invisíveis? Será que vieram de nossa Galáxia? Por que
nunca nos encontramos com eles?
Rhodan
sorriu e lançou-lhe um olhar pensativo.
— O
senhor acaba de formular três perguntas de uma só vez, e não sei
responder a nenhuma delas. Uma coisa é certa: o imortal do planeta
Peregrino conhece os invisíveis. Já deve ter tido um contato com
eles. Não sei mais que isso, e não estou disposto a manifestar
minhas conjeturas e especulações. Receio que um dia nos encontremos
com os invisíveis. E acho que esse encontro não poderá ser
comparado com o que tivemos com os druufs. A diferença é tremenda.
— Será
que um dia nos encontrarão?
Rhodan não
respondeu.
Gucky
levantou-se.
— Vou
deitar um pouco. Quer vir comigo, Bell? Quero contar-lhe uma nova
piada. Imagine só: uma das moças que trabalham na sala de rádio
contou-a a uma amiga. Naturalmente ouvi-a por acaso. Bem, na verdade,
acompanhei-a em pensamento. Não tive a intenção de fazê-lo. Mas
trata-se de uma excelente piada. Então?
Bell mal
levantou os olhos.
— Obrigado.
Não estou com vontade. Aliás, já conheço a piada.
Por um
segundo Gucky ficou muda de espanto.
— Você
já a conhece? Como, se nunca lhe contei?
— É
verdade! — Bell bocejou de enfado. — Acontece que Liane Pepsy
contou. Como sabe, é a moça da sala de rádio.
Gucky
levantou a sobrancelha e saiu balançando em direção à porta.
Abriu-a, parou e virou-se.
— Que
indecência! — piou em tom indignado. — E sempre pensei que Liane
fosse uma boa moça. Que coisa!
Assim que
acabou de pronunciar estas palavras, desapareceu.
Bell
fechou os olhos. Parecia satisfeito. Mas se acreditava que dali em
diante ficaria em paz, estava enganado.
O Dr.
Manoli aproximou-se e deu uma pancadinha em seu ombro.
— Vamos,
Bell. Conte logo! Quer que tenhamos água na boca?
Bell abriu
os olhos. Lançou um olhar de esguelha para as mutantes e disse:
— Infelizmente
não é possível, doutor. Como vê, há senhoras por aqui.
Betty
levantou-se e fez um sinal para Ishy Matsu.
Já na
porta, disse:
— Sentimos
muito, Bell, mas acontece que somos telepatas. A piada é muito
velha. Divirtam-se.
Só
restavam o Dr. Manoli e Rhodan. John Marshall também já conhecia a
piada. Soubera-a de Gucky.
— Um dia
um homem do campo chegou à cidade... — principiou Bell.
Rhodan
levantou-se e caminhou em direção à porta. Bell quase ficou sem
fôlego.
— Você
também já a conhece? — perguntou em tom decepcionado.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não
conheço a piada, meu caro. Mas o conheço!
Manoli
sorriu.
— Sua
fama não anda nada boa, seu caçador de estrelas. Mas agora ninguém
mais nos perturbará. Conte.
Bell
superou a decepção.
— Pois
bem. Um homem do campo chega à cidade e...
— Transição
dentro de dez segundos — disse uma voz saída do alto-falante.
Era o
Coronel Sikermann. Seu tom era indiferente e objetivo.
Manoli
sentiu-se decepcionado.
Nunca
ouviria a piada. Ao menos não da boca de Bell, que amoleceu que nem
um balão furado. Três interrupções? Não havia ninguém que fosse
capaz de agüentar uma coisa dessas.
Mas Manoli
procurou consolar-se. Pediria a Liane Pepsy que lhe contasse a piada.
Esta ao menos não gostava de fazer figura de estrela. Não era uma
moça para isso!
— Transição!
Silêncio.
Depois a
voz de Bell voltou a fazer-se ouvir:
— Pois
bem... um homem do campo chega à cidade e pergunta a um guarda onde
fica a esquina mais próxima...
— Pare!
— gritou Manoli em tom indignado, cobrindo o rosto com as mãos. —
Isso é a piada da mistura das raças de cachorros! Já conheço!
Aliás, já a conheço há um século. E nem é indecente. Ora, que
piada...
Todos os
objetos que se encontravam no camarote de Rhodan eram de uma cor
discreta. A harmonia só era rompida por uma mancha vermelha e
redonda.
Quem
olhasse mais atentamente, descobriria que essa mancha era o rosto de
Bell...
*
* *
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*
*
Em O
Mistério do Anti,
próximo livro da série, Atlan vai envolver-se numa excitante
aventura.

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