sábado, 27 de agosto de 2016

P-095 - Céu Sem Estrelas - Clark Darlton [Parte 3]

Sem dúvida também existia uma para o enigma com que se defrontavam, embora talvez não a encontrassem logo.
Rhodan voltou a comprimir o botão verde e manteve o dedo sobre o mesmo. Por várias vezes sentiu que o botão queria saltar para fora. Finalmente desistiu das experiências.
O conjunto continuou ligado e começou a funcionar.
Rhodan tirou a mão e respirou profundamente.
Não podemos ficar aqui para sempre, ligando constantemente este mecanismo. Além disso não sei o que está havendo com as outras máquinas. Se os desconhecidos perceberem que por aqui não conseguem mais nada, eles interrompem os dutos de energia. Gostaria de saber qual é a finalidade que têm em vista.
Eu... eu — disse Gucky — gostaria de saber quem são e de onde vieram.
Rhodan ignorou o desejo de Gucky e disse:
Ficaremos unidos e prosseguiremos viagem no carro. Gucky, guarde bem o lugar. Se o reator voltar a ser desligado, você terá de saltar para cá e voltar a ligá-lo. Entendido?
Não sou nenhum bobo! — respondeu Gucky em tom um tanto atrevido e caminhou em direção à saída. — Apenas receio que tenha de saltar muitas vezes para cá e para lá. Tomara que não os perca durante um dos saltos.
Basta entrar em contato telepático conosco para localizar-nos — lembrou Rhodan. — Mas é possível que desta vez o reator continue ligado. Vamos andando!
No pavilhão de entrada do túnel, as luzes do teto também estavam acesas. As lâmpadas, instaladas a intervalos regulares, reuniam-se ao longe num só ponto.
Entraram no carro e puseram-no em movimento. Mal haviam andado uns quinhentos metros, as luzes voltaram a apagar-se.
Acho que agora é minha vez — disse Gucky, que começara a instalar-se confortavelmente em seu banco.
Você adivinhou — disse Rhodan em tom lacônico, sem reduzir a velocidade do veículo.
Gucky desapareceu. Dali a dois segundos as luzes voltaram a acender-se e Gucky retornou.
Se eu pego o sujeito que fica apertando esse botãozinho, eu lhe dou uma sova — disse Gucky em tom ameaçador. — Afinal, não sou nenhum saltador.
Rhodan riu com a comparação. Os saltadores, descendentes dos arcônidas, eram robustos e usavam enormes barbas. Com a melhor boa vontade não se encontraria nenhuma semelhança entre eles e Gucky.
Meia hora depois, quando o carro entrou num alargamento do túnel, que se transformou num grande pavilhão, Gucky já tivera de saltar uma dezena de vezes. Era bem verdade que nos últimos cinco segundos não havia acontecido mais nada. As luzes continuavam acesas. O ar era renovado, e a vibração continuava.
O carro parou.
Rhodan apontou para um portão fechado.
É ali que fica a entrada da cidade residencial mais próxima. Foi ao menos o que Regoon me disse. Regoon foi o chefe da equipe de físicos de Bárcon. Elaborou todo o plano e transformou-o em realidade. Gostaria de saber se ainda está vivo.
Não obteve resposta. Seus companheiros sabiam muito pouco a respeito das experiências por que passou em Bárcon, há mais de meio século. Não conheciam Regoon, e nem o especialista atômico Laar, o astrônomo Gorat ou Nex, o fundador do nexialismo. Rhodan estivera em contato com os quatro. Eram os principais dirigentes dos barcônidas.
O portão resistiu a todas as tentativas; não abriu.
Rhodan disse:
O imortal sabia perfeitamente por que mandou que você, Sengu, e você, Gucky, me acompanhassem. Agora vocês têm uma oportunidade de provar quanto vale o trabalho de equipe. Sengu, conte-nos como é a fechadura.
O japonês olhou através do metal e reconheceu o mecanismo da fechadura eletrônica, que só podia ser aberta com determinada chave. Fez um relato tão claro e visual dos detalhes técnicos que tanto Rhodan como Gucky conseguiram imaginar o funcionamento do mecanismo.
Rhodan dirigiu-se ao rato-castor.
Agora é sua vez, baixinho. Abra-a.
Gucky lançou mão de seus dotes telecinéticos. Não tocou na porta. Seus fluxos espirituais atingiram o mecanismo da fechadura, situado atrás da placa de metal, e moveram as peças na seqüência correta. Fez exatamente a mesma coisa que teria sido feita pelos fluxos energéticos.
E o portão abriu-se.
Atrás dele havia luz, uma luz clara e brilhante. Mas o ar que veio ao seu encontro poderia ser tudo, menos puro. Era bem verdade que o fluxo vindo dos poços de ventilação era bem perceptível, mas Rhodan sabia perfeitamente que este só fora iniciado há trinta minutos. As reservas de ar dos gigantescos recintos durariam algumas semanas, mesmo sem renovação. Contudo, num belo momento chegariam ao fim. E, ao que parecia, esse momento já havia chegado.
Um largo corredor parecia levar a uma distância infinita. À direita e à esquerda havia a intervalos regulares portas de aspecto idêntico. Em cada uma delas estava escrito um número.
Rhodan olhou para Gucky.
Ainda não conseguiu captar nenhum impulso mental?
O rato-castor balançou a cabeça. Não captava nenhum pensamento. Se havia alguém ali embaixo, este alguém estava morto, ou então era incapaz de pensar.
Rhodan lançou um olhar pensativo para a primeira porta. Aproximou-se e viu a reentrância destinada à mão. Tratava-se de uma fechadura acionável pelo calor do corpo humano.
Colocou a mão na reentrância e esperou.
Dali a alguns segundos, a porta deslizou para dentro da parede.
Sengu e Gucky encontravam-se ao lado de Rhodan. Não quiseram acreditar no que seus olhos viam, pois o quadro que se lhes oferecia era tão fantástico e pavoroso que não poderia ser real.
Diante deles estendia-se um pavilhão alongado de uns trinta metros de largura e de uns trezentos de comprimento. E esse pavilhão estava abarrotado até o teto com leitos metálicos, nos quais os barcônidas procurados estavam deitados em longas fileiras.
Mortos...?
Rhodan sentiu um susto violento, misturado com a dor provocada pela morte súbita de um povo que amava tanto quanto o imortal. Mas logo surgiram as perguntas: Por que teriam morrido? E por que teriam morrido de forma tão tranqüila e ordeira?
Era evidente que se haviam recolhido aos leitos, como se quisessem dormir. Mas não poderiam estar apenas dormindo, pois nesse caso Gucky não deixaria de captar seus impulsos mentais, que nunca cessariam. Deviam estar mortos ou...
Haveria outra alternativa?
Em hipótese, poderia tratar-se de uma forma de conservação análoga a uma hibernação no gelo, que os velhos arcônidas haviam realizado. Os barcônidas estavam vestidos. Não havia nenhuma instalação que levasse à conclusão de que estavam sendo alimentados artificialmente, ou de que um dispositivo eletrônico automático cuidasse deles.
Estariam mortos...?
No momento em que Rhodan resolveu certificar-se a este respeito, a luz apagou-se. Gucky soltou uma praga impublicável, que aprendera com Bell; e desmaterializou-se. Rhodan percebeu que o fluxo de ar estancara e que a vibração a seus pés cessara. Segundos depois, Gucky voltou e a luz acendeu-se de novo.
Estes apertadores de botões! — exclamou em tom zangado.
Rhodan dirigiu-se ao leito mais próximo e inclinou-se sobre o barcônida imóvel. Tratava-se de um homem que usava roupas de técnico. Sua pele estava pálida. Parecia estar dormindo. Rhodan encostou o ouvido ao peito do homem. Não percebeu nenhuma batida de coração, nem qualquer atividade respiratória.
Mas o corpo do barcônida estava quente.
Se estivesse morto, só poderia ter morrido há poucos minutos.
Rhodan ergueu-se e lançou um olhar indagador para Sengu. O japonês parecia confuso.
A luz apagou-se. Enquanto Gucky foi fazer o reparo, os dois homens examinaram os outros barcônidas. Estavam todos mortos, mas seus corpos ainda não haviam perdido o calor natural. Não respiravam, seu coração não batia, mas o sangue não esfriara.
E seus cérebros não pensavam...
Gucky voltou. Gesticulava furiosamente com os braços.
Lá na central; são impulsos mentais. Consegui captá-los perfeitamente.
São os invisíveis? — perguntou Rhodan em tom de alarma, mas Gucky balançou a cabeça.
Não; é impossível. Trata-se de pensamentos bem diferentes. São pensamentos desesperados e compreensíveis. Provêm de alguém que se admira por ter acordado.
Rhodan refletiu febrilmente. Lançou mais um olhar sobre as longas fileiras de barcônidas imóveis, fez um sinal para Sengu e segurou a mão de Gucky.
Leve-nos à sala de comando. Vamos dar uma olhada na pessoa que acaba de acordar. Talvez consigamos descobrir o que aconteceu por aqui.
Materializaram-se junto ao conhecido bloco semicircular. Gucky abaixou a cabeça e concentrou-se. Mantinha os olhos fechados.
É... foi nesta direção. Não estamos muito longe. Acordou de vez, mas não consigo compreender seus pensamentos. Sim, pensa de verdade, de forma completamente diferente dos invisíveis. Mas só pensa em coisas confusas.
Vamos para lá!
Rhodan caminhou à frente dos outros. Gucky indicou-lhe a direção. Passaram por três ou quatro portas e chegaram a um corredor largo, que parecia levar ao infinito. O rato-castor dirigiu-se a uma das primeiras portas e parou.
Está atrás desta porta. Agora há mais um. Há pouco não pensavam, mas agora pensam... É esquisito.
Sim, realmente esquisito”, mentalizou Rhodan, enquanto se sentia tomado duma alegria incontrolável. “Os outros ‘mortos’ não pensam. Os que se encontram aqui voltaram a viver...
Colocou a mão direita na reentrância e esperou.
A porta abriu-se lentamente.
Surgiu uma sala não muito grande, confortavelmente instalada, que não tinha nada em comum com os pavilhões de máquinas ou com os gigantescos dormitórios dos barcônidas.
O recinto que tinham diante de si era um quarto confortável, no qual estava acesa uma luz mortiça. Nela havia móveis confortáveis. Um calor agradável reinava em seu interior.
Um homem de macacão justo aproximou-se a passos inseguros. Era alto e muito esbelto. Seu rosto revelava uma grande inteligência. Nos fundos do quarto, três homens continuavam deitados nas camas. Um deles começou a levantar-se, lançou um olhar curioso para as pessoas que entravam.
Perry Rhodan! Tivemos de esperar muito tempo pelo senhor... — disse o do macacão justo.
V



Rhodan apertou a mão que lhe fora oferecida.
É o senhor, Nex? O que aconteceu?
O nexialista sorriu. Era um sorriso tímido. Cumprimentou Sengu com muita cortesia. Depois lançou um olhar desconfiado para Gucky, mas acabou por inclinar-se sobre o rato-castor e bateu-lhe carinhosamente no ombro. Devia ter reconhecido pelo uniforme que se tratava de um ser inteligente.
O que aconteceu? Ainda saberemos, Rhodan. Contarei tudo. Mas antes de mais nada diga como veio parar aqui e como estão as coisas lá fora, na superfície.
O que houve com os aparelhos de controle? Perderam o contato com a superfície?
Há várias semanas.
Neste meio tempo, o segundo homem também se levantara. Era de estatura imponente e usava barba. Espreguiçou-se e gritou com a voz retumbante:
Quero que os demônios do fogo me levem, se este não é o sujeito daquela maravilhosa navezinha. Será que estou enxergando bem, Perry Rhodan?
O senhor está enxergando bem, físico-chefe Regoon. Quanto tempo passou dormindo?
Mais de três semanas — respondeu Regoon e cumprimentou os homens. Lançou um olhar de espanto para Gucky. — Caramba! Quem é este?
É meu amigo Gucky, um rato-castor natural do planeta Vagabundo, da Via Láctea.
Isso mesmo. Fica à direita do Saco de Carvão — explicou Gucky em tom sério e apertou a mão de Regoon. — Oportunamente você poderia visitar-me.
A testa do barcônida franziu-se.
Ele sabe falar, e ainda por cima em intercosmo! — disse em tom de espanto. — Por certo não descende de nós...
Nem gostaria de descender! — protestou Gucky e caminhou em direção às duas camas.
As pessoas deitadas nas mesmas começavam a mexer-se. Regoon fitou-o com uma expressão de perplexidade e sacudiu a cabeça.
Se as tradições não são falsas, há um milhão de anos não nos encontramos com esta raça.
Nex já se esquecera de Gucky.
Por favor, conte-nos o que viu na superfície — disse, dirigindo-se a Rhodan.
Este contou em ligeiras palavras o que haviam visto na superfície de Bárcon, sem mencionar a incumbência que recebera do imortal. Mas não ocultou os ataques dos invisíveis e o repetido desligamento do reator principal, levado a efeito por algum desconhecido. Por fim disse em tom resoluto:
Agora gostaria de saber o que aconteceu por aqui. Seu plano não deu certo?
Desta vez foi Regoon quem respondeu:
Funcionou muito bem! Todas as máquinas trabalhavam da forma que esperávamos. Desprendemo-nos do campo de gravitação de nosso sol e iniciamos nossa viagem, na direção exata da Galáxia. A vida aqui nas profundezas continuava tal qual havíamos previsto. Meio século passou-se. Depois disso ocorreram os primeiros ataques das inteligências invisíveis. Nex, continue a contar.
O cientista fez um gesto de assentimento.
Observamos coisas estranhas com a câmara de televisão. A superfície do planeta começou a modificar-se. A atmosfera precipitou-se sob a forma de neve e toda a vida lá fora tornou-se impossível. Nosso sol desapareceu no nada. A Via Láctea aproximava-se lentamente. Tudo isso era normal e estava previsto. Mas de repente as máquinas começaram a falhar. Foram desligadas...
Rhodan ouviu atentamente, mas não fez nenhum comentário. Sengu juntou-se a Gucky e ajudou-o a acordar mais dois barcônidas que ainda dormiam.
Conseguimos ligar as máquinas de novo, mas os incidentes se repetiram. Depois de algum tempo, as câmaras que nos mostravam a superfície falharam e não conseguimos fazê-las funcionar de novo. Não encontramos nenhum defeito. Ao que parecia, houve um ataque deliberado contra as mesmas. O ataque não foi desferido com armas visíveis, mas de forma sorrateira, quase imperceptível. Antes que as telas se apagassem vimos, uma única vez, um forte raio energético. A neve derreteu-se e a água evaporou-se. Mas não vimos ninguém, embora as rochas fossem deslocadas. Eles nos procuravam. E acabaram encontrando-nos. A comunicação visual foi interrompida e as máquinas deixaram de funcionar. Voltamos a ligar o reator. Depois de alguns minutos, voltou a desligar-se automaticamente.
Já conhecemos isso — disse Rhodan.
Nex prosseguiu tranqüilamente:
Refletimos sobre o que deveríamos fazer. Por precaução distribuímos comprimidos para dormir. Tais cápsulas foram descobertas por nossos médicos mais competentes. Seu efeito é espantoso. O organismo de quem as toma é parcialmente paralisado. Morre-se para o mundo exterior. O coração deixa de bater, embora o sangue continue a circular, mas muito mais lentamente. Não há necessidade de qualquer forma de alimentação. O consumo de oxigênio é tão reduzido que um homem pode viver por vários anos com um metro cúbico. O sono a quente, que é chamado assim porque o corpo não esfria, representa o melhor meio de superar uma situação desfavorável.
Nossa produção de alimentos foi interrompida, o suprimento de ar ficou em perigo. Por isso ordenamos ao nosso povo que se dirigisse aos dormitórios e tomasse os comprimidos. Quanto a nós, permanecemos nas proximidades da central e também os tomamos. Mas também tomamos o antídoto, que faria com que despertássemos, assim que voltasse a funcionar o suprimento de ar. E isso só aconteceria quando os invisíveis desaparecessem.”
Ou se alguém ligasse o reator, não é? — perguntou Rhodan.
Nex sorriu.
Não. Um dispositivo automático ligava-o de vinte e quatro em vinte e quatro horas. Mas isso não adiantava muito. Os desconhecidos voltavam a desativá-lo. Ao que parece, agora desistiram de suas tentativas.
Rhodan bateu três vezes na mesa. Dali a dois segundos teve de reconhecer que essa superstição não adiantava nada. A luz apagou-se. Gucky praguejou. Dali a pouco, a luz voltou a acender-se. Gucky retornou. Sem dar a menor atenção aos rostos estupefatos dos dois barcônidas, disse:
Eles sempre repetem... Não se poderia prender o botão de tal maneira que fique no lugar?
Nesse caso eles recorreriam a outro meio para paralisar o reator, meu baixotinho. E poderiam fazê-lo de uma forma que não conseguíssemos mais usá-lo.
Se aparecerem, verão o que é bom — profetizou Gucky, em tom furioso. — Aquilo que fazem com o botão é executado por meio de um controle remoto, pois não sinto seus impulsos mentais. Vamos prender o botão. Nesse caso terão de comparecer pessoalmente, e nós lhes prepararemos uma recepção bem quente.
Isso parecia muito convincente. Talvez os invisíveis estivessem na superfície, de onde conduziam a operação. Mas como se poderia prender o botão?
É simples. Soldaremos o botão. A solução é esta! — exclamou Regoon. — Não temos radiadores energéticos de sobra por aqui?
Uma vez tomada a decisão, Gucky ficou mais tranqüilo. Depois, muito envaidecido, anunciou:
Os dois dorminhocos acordaram, Perry. Quer que eu os atire para fora da cama?

* * *

Rhodan, Sengu, Gucky e os quatro barcônidas aproximaram-se cautelosamente da central. Rhodan trocara seu radiador leve por uma pesada pistola energética dos barcônidas. Quando a luz se apagou, Gucky reprimiu a raiva e voltou a ligar o reator. Regoon correu atrás dele e logo se viu junto ao rato-castor, próximo do bloco semicircular.
Dirigiu a arma contra o botão verde que acabara de ser comprimido. O raio fino, feito de energia pura, atingiu-lhe as bordas e derreteu-as. A massa viscosa, que endureceu rapidamente, formava um obstáculo intransponível. Não poderia saltar mais para fora, por mais vezes que o outro botão, o vermelho, fosse comprimido. Rhodan fez uma tentativa. Comprimiu com toda força. O mesmo afundou na base, mas o botão verde permaneceu na posição em que se encontrava. E o reator continuava a funcionar. A luz não se apagou. Nex parecia satisfeito.
Agora estou curioso para ver a reação deles.
Rhodan apontou para o rato-castor, que recuara.
Ele nos dirá quando estiverem chegando. Ele sente.
Nex não perguntou de que forma Gucky sentia os invisíveis. Preferiu destravar a arma. Retiraram-se do controle do reator e distribuíram-se. Sabiam o que estava em jogo. Rhodan explicara minuciosamente o plano. Aquilo que três feixes de raios energéticos fizeram na superfície devia ser conseguido com uma facilidade muito maior por sete feixes de raios muito mais fortes.
Esperaram em silêncio.
Ninguém sabia se os invisíveis podiam vê-los. Talvez não tivessem órgãos de visão propriamente ditos, e apenas tateassem seu caminho. Ninguém poderia saber.
Gucky levantou a mão e fez um sinal.
Alguma coisa se aproximava. Rhodan reforçou sua vigília mental e também sentiu as impressões confusas e ameaçadoras que investiam contra ele. Sua intensidade dependia da distância; e aproximavam-se rapidamente. Muito rapidamente. Rhodan ficou refletindo sobre como os invisíveis poderiam ter conseguido um acesso para o mundo subterrâneo e de que forma se locomoviam no mesmo. Será que eram capazes de atravessar a matéria compacta?
Estão chegando! — cochichou Gucky e lançou um olhar obstinado para o bloco em semicírculo.
Forçosamente, tal bloco teria de ser o destino dos invisíveis. A não ser que resolvessem penetrar diretamente no reator. Mas não era de supor que isso acontecesse, pois já haviam revelado que não eram imunes aos raios energéticos.
Gucky olhou lentamente em torno. Dirigia os olhos para alguma coisa que os outros não viam. Mas embora não fossem telepatas como o rato-castor, também sentiam a pressão no cérebro. E Gucky olhava exatamente na direção da qual vinha essa pressão.
Agora Gucky estava olhando para o semicírculo. Mas ainda não havia disparado.
O botão vermelho desceu.
A mão invisível comprimiu-o! Mas o botão verde continuou onde estava. A luz continuou acesa. O reator não parou de funcionar.
Gucky levantou a cabeça e fitou Rhodan.
Este acenou com a cabeça.
Era o comando dirigido a todos.
Os raios energéticos foram expelidos por sete armas pesadas. Cruzaram-se no lugar exato onde estaria um homem que quisesse comprimir os botões. A concentração de energia mortífera apareceu sob a forma de cascatas que desciam por um corpo invisível. Este corpo assumiu formas humanas e foi-se materializando aos poucos, em meio à luz.
O invisível tornou-se visível.
Possuía formas humanóides, conforme já haviam observado. E contorcia-se como se sentisse dores e quisesse escapar da direção dos disparos. Mas os feixes energéticos mantinham-no preso ao lugar onde se encontrava. Seus contornos tornaram-se cada vez mais nítidos sob a luz ofuscante. Até o rosto apareceu de forma difusa, mas era totalmente inexpressivo. Rhodan reconheceu dois olhos e uma boca estreita e contorcida. Apenas isso.
Deu o sinal.
Os sete lampejos energéticos apagaram-se ao mesmo tempo.
O desconhecido continuou onde estava.
Caíra ao chão e contorcia-se em convulsões.
Rhodan sentiu que os impulsos mentais e a dor ligada aos mesmos haviam diminuído. Saltou para a frente e correu em direção ao estranho ser. Os outros hesitaram em segui-lo. Gucky ficou parado e montou guarda. Perceberia imediatamente a eventual aproximação de outro invisível e avisaria os outros.
A mão de Rhodan segurou o invisível tornado visível. Sentiu uma espécie de tecido e, embaixo do mesmo, a carne daquele ser. Levantou o inimigo à força e colocou-o de pé. Mas o desconhecido fora tão afetado pelo fogo energético concêntrico que pelo menos perdera os sentidos. Voltou a cair molemente.
Rhodan abaixou-se. Não soltou o desconhecido. Procurou estudar-lhe as feições.
O rosto do desconhecido parecia envolto num véu.
Está ficando invisível! — gritou a voz estridente de Gucky. — Seus pensamentos... está morrendo.
Rhodan segurou o corpo com mais força, mas sua mão não encontrou resistência. Atravessou o tecido do estranho traje e penetrou no corpo do ser medonho. Por enquanto ainda se via o moribundo, mas logo se tornou transparente. Rhodan já via o piso metálico através do corpo.
Angústia, susto e dor — foram estas as características principais dos impulsos mentais que penetraram pela última vez no cérebro de Rhodan e logo diminuíram. Finalmente apagaram-se de vez.
No mesmo instante, o desconhecido desapareceu. Além de tornar-se invisível, desmaterializou-se.
Morrera — se dissolvera no nada.

* * *

Estavam sentados no quarto dos barcônidas, junto à central.
Há duas horas o reator funcionava ininterruptamente. Ninguém mais tentara desligá-lo. Gucky, que permanecera na central para montar guarda, não captara mais nenhum impulso. Tudo indicava que os invisíveis haviam desistido do ataque.
Mas era possível que a calma fosse enganadora.
De onde vêm esses seres? — perguntou Rhodan.
No íntimo entretinha a esperança de que ao menos Nex pudesse dar-lhe uma explicação. Mas o cientista também não a possuía.
Vêm do grande vazio intergaláctico. Talvez não tenham nenhum planeta natal e vaguem ao acaso. Um belo dia encontraram-nos. Nosso mundo vaga pelo espaço, aparentemente desabitado. Acreditaram que tinham encontrado um mundo sem vida. Mas depois de algum tempo descobriram a verdade, e atacaram. Acontece que são invisíveis e não têm corpo. No entanto, o corpo do que esteve aqui tornou-se visível. Morreu.
Isso mesmo. E ao morrer voltou a desmaterializar-se. Até parece que seu estado natural é este. Vivem na mesma dimensão que nós. Não conhecem a teleportação, mas conseguem um efeito análogo. Não são apenas invisíveis no sentido usual do termo, mas nem sequer chegam a existir. No entanto, seu cérebro está presente. Não existe qualquer explicação para isso.
Encontraremos uma explicação! — asseverou o nexialista, que defendia a doutrina das ciências unificadas e rejeitava a tendência à especialização. — Um dia saberemos de onde vieram e quem são.
Rhodan sabia que isso era um fraco consolo. Enquanto os desconhecidos se limitassem a atacar Bárcon e não estendessem seu campo de atividade à Via Láctea, eles lhe seriam indiferentes. Mas quem poderia afirmar que sempre seria assim? Não havia nenhuma arma eficaz contra os invisíveis, a não ser o impacto ocasional de uma arma energética.
Regoon entrou. Sua barba ruiva esvoaçava. Em sua cama, estava Gorat. Os dois divertiam-se com o compenetrado cientista atômico Laar. Sentado sobre a cama, Laar tinha uma cartola sobre a cabeça.
Para que essa cartola? — perguntou Regoon em tom de escárnio. — Acho que não estamos na iminência de nenhum ato oficial. Ou será que estamos?
Laar não respondeu. Regoon não repetiu a pergunta. Dirigiu-se a Rhodan.
Todos os setores estão trabalhando a plena potência. O gerador de campo energético está funcionando e cria uma abóbada protetora. Pretendíamos fazer isso apenas quando nos aproximássemos da Galáxia. Mas resolvemos aceitar seu conselho. O senhor é de opinião que os desconhecidos não gostam de raios energéticos e campos de força?
Estou convencido de que é assim — confirmou Rhodan. — Assim que o campo energético tiver uma potência suficiente para proteger todo o planeta, veremos se estou ou não com a razão. A atmosfera será regenerada?
Está se recuperando — asseverou Regoon em tom exaltado. — Dentro de algumas semanas teremos um novo envoltório atmosférico em torno de Bárcon. Ainda fará frio, mas será possível viver na superfície.
Ao menos será possível criar bases fixas por lá, que se dediquem à observação do espaço. Aquilo que aconteceu nunca deverá repetir-se. Vim para cá por acaso. É possível que da próxima vez não chegue em tempo. Pretende despertar a população?
Ainda não — respondeu Nex. — Só o faremos quando tivermos certeza de que os invisíveis não voltarão a atacar.
E quando acredita que tenhamos essa certeza?
Nex levantou as mãos, na atitude tipicamente humana de manifestar a ignorância.
Não sei mesmo!
Sengu disse:
Deveríamos ir à superfície, acompanhados por Gucky e dar uma olhada. Se os invisíveis nos atacarem, saberemos que ainda não desistiram dos seus planos.
Deixemos isso para mais tarde — respondeu Rhodan, em tom hesitante.
Não conseguia livrar-se da impressão de que os invisíveis representavam um tremendo perigo para toda a porção habitada da Via Láctea. Deviam descobrir armas melhores contra eles que o simples acaso. Talvez uma cortina energética...
Regoon fez uma sugestão.
Talvez fosse conveniente despertarmos alguns técnicos. Não poderemos executar a tarefa sós. Os conjuntos energéticos precisam de uma vigilância e manutenção ininterruptas.
Só acordem os elementos mais importantes — disse Nex, dando a necessária permissão. — Como vai a produção de alimentos?
Também está funcionando — informou Regoon.
Rhodan levantou-se.
Ficar-lhes-ei muito grato se puderem colocar uma sala à nossa disposição. Um de nós ficará constantemente junto ao reator. Mas também precisamos de sono. Temos um caminho longo atrás de nós.
Aqui ao lado — Nex também se levantou. — Venha comigo. Eu o levarei para lá.
Deitaram sobre as camas limpas, mas o sono pelo qual tanto ansiavam não vinha. De repente Rhodan não sentiu mais nenhum cansaço. Teve a impressão de que acabara de despertar de um sono prolongado e repousante. Será que o cansaço fora apenas imaginário?
Rhodan começou a desconfiar de que o imortal se mantinha presente a uma distância enorme e lhes dava auxílio. Dava-lhes novas forças. Fazia-o apenas para abreviar a missão salvadora junto aos barcônidas. Rhodan fechou os olhos e disse:
Está vendo Gucky, Sengu?
Está parado diante do semicírculo em atitude sonolenta. Ah, agora está levantando a cabeça. Olha em nossa direção. Será possível...?
Naturalmente captou seus pensamentos, Sengu. Gucky, você me entende?
Está fazendo que sim — disse Sengu, que se sentia feliz com aquela forma singular de comunicação. — Ele compreendeu.
Excelente, Gucky! Há algum sinal dos invisíveis?
Gucky sacudiu a cabeça.
Muito bem. Venha até aqui.
O rato-castor materializou-se no interior do quarto.
Eles já estão cansados de meter o nariz onde não foram chamados... se é que têm nariz — conjeturou. — Não há nenhum impulso, nenhum apertador de botões, absolutamente nada. Vamos partir?
Não tenha tanta pressa, meu pequenino. Os quatro barcônidas acreditam que estamos dormindo. Não notarão sua falta. Sengu ficará aqui, enquanto você e eu fizermos uma excursão.
Lá em cima? — piou Gucky em tom exaltado.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Sengu, vá vez por outra até a central para dar uma olhada. Se os barcônidas perguntarem por nós, informe os cientistas. Entendido?
O japonês fez que sim.
Gucky segurou a mão de Rhodan.
Os dois desapareceram diante dos olhos de Sengu num torvelinho quase imperceptível, formado por espirais energéticas.
6



Dali a três dias o panorama na superfície havia sofrido consideráveis modificações.
Ao contrário do que acontecera na primeira visita, desta vez Rhodan e Gucky não estavam sós. Eram acompanhados por um grupo de especialistas dos barcônidas. Estes levavam instrumentos ultra-sensíveis, destinados a medir as manifestações energéticas. Sem adotar precauções especiais, o veículo que levava o pessoal passou, depois de ter percorrido uma boa distância, pelo portão que dava para a superfície.
Rhodan escolhera de propósito o lugar em que se verificara o primeiro ataque dos invisíveis. O lago de gelo reluzente constituía uma lembrança do mesmo.
Todos estavam bem agasalhados. Os capacetes espaciais achavam-se abertos. Um ar frio, mas não muito rarefeito, penetrou em seus pulmões. Rhodan levantou os olhos para o céu negro e sem estrelas. Sim, o céu continuava a apresentar a cor negra que se constituía na característica dos mundos sem atmosfera. Mas Bárcon já possuía uma atmosfera. A mesma media apenas algumas centenas de metros de espessura e era mantida presa por um campo energético que envolvia todo o planeta. Esse campo irradiava calor. Nos cumes das montanhas a atmosfera congelada já começava a derreter, fornecendo novas quantidades de ar respirável. A neve também continha oxigênio congelado, que, em virtude de uma mistura toda especial, só era liberado a uma temperatura relativamente elevada.
O campo energético tremeluzia ligeiramente. Só se notava sua presença depois de contemplar o céu por algum tempo.
Nex, que chefiava o grupo de especialistas, disse:
Está dando certo. Dentro de uma semana a maior parte da atmosfera voltará a gaseificar-se. Depois disso poderemos instalar as bases.
Gucky, que se mantinha um pouco afastado, aproximou-se.
Sinto um impulso. Ainda estão distantes, mas aproximam-se lentamente.
Rhodan fez um sinal para os homens. Metade deles colocou os aparelhos e instrumentos na nave e tirou as armas. Distribuiu-os segundo um plano bem traçado. Os mecanismos de travamento fizeram um clique.
Então? — perguntou Rhodan, que só sentia impulsos muito débeis, que não se tornavam mais intensos. — O que está acontecendo?
Gucky hesitou.
Pararam. Devem estar com medo de nós.
A outra metade dos especialistas manipulava seus instrumentos. Nex transmitia seus comandos com a voz calma. Confiava plenamente em Rhodan e seus dois auxiliares. Tinha uma simpatia toda especial pelo pequeno rato-castor. Nesses três dias, esses seres tão diferentes haviam travado palestras intermináveis. Rhodan percebeu que o rato-castor se tornara muito pensativo. Resolveu que na primeira oportunidade lhe perguntaria sobre o conteúdo das palestras.
Pronto! — disse Nex depois de algum tempo.
Rhodan sentiu os impulsos diminuírem ainda mais. Não estavam causando dores.
Parecia um cauteloso tatear. Dali a pouco desapareceram de vez.
Gucky lançou-lhe um olhar de espanto.
Terminou! Parece que desistiram de vez de pensar. É estranho!
Duas telas pequenas iluminaram-se. Uma linha entrecortada verde corria por elas como se fosse um oscilógrafo. Dois barcônidas as manipulavam, fazendo girar uma espécie de câmara. As faixas modificaram seu formato, e Nex exaltou-se ligeiramente.
Rhodan continuou tranqüilo.
O que está sendo constatado, Nex?
À nossa frente, a menos de dois quilômetros de distância, existe um obstáculo de natureza energética. Reflete os raios emitidos por este aparelho. Há mais três obstáculos a sete quilômetros. São da mesma espécie.
Qual é seu formato?
Um momento!
Depois de confabular ligeiramente com os técnicos, Nex voltou a dirigir-se a Rhodan:
O formato é alongado. Parecem torpedos. Têm uns vinte metros de espessura e cem de comprimento. Será que são...?
Rhodan fez que sim.
Isso mesmo; são naves espaciais. As espaçonaves dos invisíveis também são invisíveis. Só os instrumentos podem constatar sua presença.
O que devemos fazer?
Esperar — recomendou Rhodan.
Tinha seus pressentimentos, mas preferiu aguardar a confirmação dos mesmos. Desviou os olhos para Gucky, que olhava na direção onde devia estar a nave cuja presença fora constatada pelos instrumentos. Depois de algum tempo, o rato-castor captou a pergunta muda. Respondeu:
Não há mais nenhum impulso. As paredes das naves devem ser um obstáculo para eles.
As linhas verdes passaram a correr loucamente sobre as telas. Nex inclinou-se sobre um dos técnicos e comentou algo com ele em voz baixa. Depois disse em voz alta:
A nave mais próxima acaba de decolar. Atravessou o campo energético, causando-nos uma perda de energia, e avança pelo espaço.
Esperou alguns segundos, durante os quais não tirava os olhos da tela.
Já desapareceu. Está fora do nosso alcance. Pelos seus padrões isso representa cerca de dez horas-luz.
Dez horas-luz em dez segundos! Rhodan soltou um assobio entre os dentes. Era um ótimo desempenho, uma vez que se tratava simplesmente da decolagem. Que velocidade as naves desses seres desconhecidos não deveriam desenvolver no espaço?
As três naves restantes também decolaram! — anunciou Nex. — O campo energético foi rompido, mas volta a fechar-se. Só uma pequena parte da atmosfera conseguiu escapar.
Aproximou-se de Rhodan.
O que significa tudo isso? Será que fugiram?
Parece que sim — respondeu Rhodan, embora tivesse suas dúvidas. — Reconheceram que seu plano fracassou e tiraram suas conclusões, conforme é de esperar-se de seres inteligentes como eles. Acho que pode prosseguir em sua viagem e acordar a população.
Acredita que só havia essas quatro naves?
Acredito. Provavelmente apenas uma expedição de reconhecimento. Pousaram aqui, onde as irradiações eram mais fortes. O reator fica exatamente embaixo de nós. No futuro eles não representarão mais nenhum perigo para os senhores, desde que suas bases externas se mantenham numa vigilância ininterrupta e registrem a presença de qualquer objeto que se aproxime de seu planeta, quer seja visível, quer não.
Qualquer objeto? — repetiu Nex em tom de dúvida. — As quatro naves que acabaram de partir não são objetos, mas apenas impulsos energéticos.
O senhor sabe o que quero dizer — falou Rhodan com um sorriso e saiu andando.
Tudo levava a crer que já havia cumprido a tarefa que lhe fora confiada pelo imortal do planeta Peregrino.

* * *

Esperaram até que os barcônidas acordassem, o que aconteceu dali a dois dias. O preparado que os despertava foi acrescentado ao ar que respiravam e conduzido aos dormitórios. Os barcônidas levantaram; a vida interrompida prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Novas ordens foram emitidas e Rhodan teve certeza de que os invisíveis não seriam bem-sucedidos, se resolvessem lançar outro ataque de surpresa.
Subitamente alguma coisa tateou em seu cérebro. Seguiu-se uma pergunta perfeitamente audível e claramente formulada:
Perry Rhodan...? Os barcônidas estão vivos, não estão?
Era o imortal! Conseguia captar os impulsos mentais da raça que acabara de despertar, embora estes ainda fossem tão fracos que não conseguia identificar seu significado. Nunca o fato de que, para os telepatas, a distância não representa nenhum problema se impôs com tamanha clareza à mente de Rhodan. Para verdadeiros telepatas! Nem mesmo Gucky conseguia superar uma distância de cem mil anos-luz. Ninguém podia... a não ser o imortal do planeta Peregrino.
Acordaram — disse Rhodan em voz alta.
Estava só, numa pequena elevação. Resolvera dar um passeio na superfície, a fim de certificar-se de que as estações de vigilância estavam sendo construídas. O grande portão que ficava no fundo do vale estava bem perto. Num ponto não muito distante dali, alguns técnicos estavam trabalhando. Instalaram seus instrumentos de observação sob uma pequena cúpula de plástico.
Bárcon foi atacado por desconhecidos, que quase conquistaram o planeta. Os barcônidas colocaram-se num estado de sono profundo, a fim de evitar a morte pela fome. Seus cérebros também descansaram.
Então foi por isso que não captei mais impulsos — disse a resposta silenciosa. — Quem foram os atacantes?
Sim, quem foram? Rhodan daria tudo para poder dar uma resposta à pergunta do imortal.
Vieram do grande vazio e são invisíveis. Só pode ter sido uma expedição, pois com os instrumentos especiais conseguimos localizar quatro naves que abandonaram Bárcon. Apesar disso, por pouco não conseguiram conquistar o planeta. Sua técnica...
Invisíveis...? — interrompeu-o o imortal.
Seguiu-se uma ligeira pausa. Depois surgiu a pergunta:
Não têm corpo? Não possuem matéria? Só se tornam visíveis e se materializam quando são expostos a um campo energético excessivamente forte?
Rhodan não disfarçou o espanto. Então o imortal conhecia aquelas criaturas estranhas...?
Os fenômenos que observamos foram exatamente estes. Só se materializam no centro de vários raios energéticos concentrados. Mas logo se desfazem, quando cessa o bombardeio energético... ou quando morrem.
A resposta demorou alguns minutos.
Rhodan continuava parado sob o céu negro de Bárcon e contemplava a mancha difusa da Via Láctea. Metade estava encoberta pela linha do horizonte. A neve já desaparecera dos cumes das montanhas. Também nas planícies passava a derreter. Rios caudalosos abriram caminho para os pontos mais baixos. Lagos começavam a formar-se. A superfície de Bárcon sofria uma modificação.
Depois de algum tempo ouviu a voz silenciosa do imortal. Parecia que falava consigo mesmo, não com Rhodan:
Bárcon será uma pista que levará à nossa Galáxia. E eles seguirão esta pista...
Eles? — perguntou Rhodan, procurando manter-se calmo e esforçando-se para dominar o nervosismo. — Quem são eles?
Teve uma decepção. O imortal não lhe forneceu qualquer esclarecimento.
Sua missão está concluída, Perry Rhodan. Daqui em diante, eu cuidarei dos barcônidas. Dentro em breve terei forças para tomar pessoalmente as providências necessárias, caso volte a surgir uma situação que exija isso. Regresse! Estou à sua espera.
Rhodan sabia que qualquer objeção seria inútil. O imortal era mais poderoso que ele; tinha de submeter-se às suas ordens e desejos. Incondicionalmente.
Voltarei — prometeu. — Ainda hoje.
A nave, que deverá levá-lo, pousará dentro de duas horas no mesmo lugar em que você se encontra neste momento. Não se esqueça disso, a não ser que queira permanecer para sempre em Bárcon. Você não tem muito tempo.
Sei disso — respondeu Rhodan.
Sabia que cada segundo do seu tempo fora dividido em conformidade com um plano perfeitamente delineado. Já agora, o misterioso mecanismo de direção da nave energética recebera suas instruções e as cumpriria rigorosamente. Nem o tempo da decolagem, nem a velocidade ou a rota poderiam ser modificados. Ninguém, a não ser o imortal, tinha qualquer influência sobre o veículo espacial.
Pode esperar por mim.
Não houve mais nenhuma resposta. Nem sequer uma confirmação ou agradecimento.
Rhodan olhou para a planície. A base estava quase concluída. Constataria prontamente a aproximação do que quer que fosse, até mesmo de naves invisíveis e imateriais, e comunicaria sua presença. O campo energético, que envolvia Bárcon, fora fortalecido a tal ponto que até estas naves se tornariam visíveis. Os canhões energéticos automáticos apontariam para o alvo e disparariam.
Rhodan olhou para o relógio. Dispunha apenas de uma hora e cinqüenta minutos. Era pouco. Sem o auxílio de Gucky, dificilmente conseguiria chegar até a nave.
Chamou-o, pensando nele.
O rato-castor materializou-se a seu lado.
Você falou com o imortal; acompanhei a palestra.
Sem o menor constrangimento Gucky confessou sua espionagem telepática.
Não quer dizer quem são os invisíveis, muito embora se lembre perfeitamente deles. Não é uma atitude muito decente.
Ele deve ter seus motivos para agir desta forma — disse Rhodan em defesa do imortal. — Leve-me para baixo. Soou a hora da despedida.
Encontraram Sengu na central de comando. Estava em companhia de Nex e Regoon. Os homens se haviam tornado bons amigos e discutiam, durante horas, sobre as vantagens do nexialismo.
É evidente — estava dizendo Nex — que a especialização pura leva à massificação e reprime o individualismo autêntico. Só a colaboração entre os especialistas pode trazer resultados satisfatórios. Basta que um deles falhe, para que o trabalho dos outros seja inútil. É como se fosse um instrumento hipersensível. Se uma única peça entrar em pane, pode-se jogar fora todo o aparelho, a não ser que se disponha de uma peça sobressalente.
É verdade — concordou Sengu. — Acontece que um nexialista nunca pode substituir plenamente uma equipe de especialistas, pois nunca poderá ter tantos conhecimentos quanto os especialistas em conjunto.
Mas o risco sempre será menor — objetou Nex em tom convicto — pois um nexialista saberá arranjar-se em todas as situações, o que não acontece com um especialista, a não ser que o problema se situe justamente na sua área de especialização. E isso é muito raro.
Não seria impossível estudar e dominar todas as especialidades, a fim de adquirir uma idéia geral de todos os ramos de conhecimento?
Será mais fácil adquirir uma ampla cultura geral do que conhecer todas as áreas de uma única especialidade nos menores detalhes. Acho que isso seria muito enfadonho.
Rhodan e Gucky deram sinal de sua presença. Dirigiram-se aos dois homens.
Não há dúvida de que o nexialismo é uma teoria muito interessante — confessou Rhodan. — Qualquer nave espacial que singre o espaço, dependendo unicamente dos seus recursos, deveria levar a bordo um nexialista capaz de coordenar o trabalho dos especialistas na solução dos problemas mais difíceis — sorriu. — É possível que mais tarde voltemos a conversar sobre isso, Nex. Agora infelizmente não temos tempo. Devemos despedir-nos.
Pretendem deixar-nos? — Nex parecia assustado.
Regoon, que até então acompanhara a palestra em silêncio, adiantou-se. Seu rosto revelou um grande sobressalto.
Já? Não sabemos se os invisíveis...
Eles não voltarão. E se voltarem, vocês estarão preparados. Conhecem a arma com a qual poderão derrotá-los. Mantenham o reator sob bloqueio. Observem a superfície. Prossigam em sua viagem. Lembrem-se de que nunca estarão sós.
Regoon deu-se por satisfeito. Compreendeu que não conseguiria modificar as intenções de Rhodan. Talvez também desconfiasse de que Rhodan não era dono de suas decisões, tendo que obedecer a alguém que ocupava uma posição mais elevada.
Neste caso está na hora de manifestarmos nossos agradecimentos a você e seus amigos. O que teria acontecido conosco se vocês não tivessem vindo?
Ninguém sabe, Regoon. Nem mesmo nós.
Isso acontece porque ninguém conhece as intenções dos atacantes — observou Nex. — E ainda porque ninguém sabe para onde foram. Nunca nos havíamos encontrado com eles. E olhe que nossa história já tem um milhão de anos.
Regoon retirou-se e voltou em companhia de Gorat e Laar. Rhodan sabia que os quatro homens a seu lado representavam o povo dos barcônidas. Sempre que se lembrasse desse povo, enxergaria em sua mente a imagem desses quatro homens.
Laar, o maior cientista atômico de seu povo, também ocupava a posição de chefe do governo. Isso provava que é perfeitamente possível harmonizar a ciência e a política, e que nem sempre um grupo de cientistas politizados representa o fim do mundo.
Voltara a usar a cartola que, segundo parecia, costumava ser exibida sempre que havia uma oportunidade especial. Rhodan voltou a espantar-se com isso. Mas mais uma vez preferiu não fazer perguntas. As relações existentes entre os barcônidas, os arcônidas e os terranos seriam esclarecidas no devido tempo.
Ficamo-lhes eternamente gratos — disse Laar, apertando a mão de Rhodan, de Sengu e finalmente de Gucky. — Talvez possamos retribuir um dia, quando seu povo precisar de auxílio... e quando nos tivermos aproximado bastante. Contem conosco.
Se alguém tem de agradecer, somos nós — respondeu Rhodan. — O que seria de nós se não fossem vocês?
Disse isso para fortalecer a autoconfiança dos barcônidas. Consideravam-se os ancestrais de todas as inteligências da Via Láctea, que fora colonizada por eles há um milhão de anos. E precisariam de uma boa dose de autoconfiança para superar o longo período de tempo que tinham pela frente.
Regoon e Gorat também se despediram. Não fizeram perguntas. Sabiam que, na superfície, uma nave pequena estaria à espera dos terranos, tal qual acontecera há muitos anos.
Eu os acompanharei — disse Nex.
Rhodan olhou para o relógio.
Só dispomos de pouco mais de uma hora. Será que de carro chegaremos em tempo? Olhe que o caminho é longo...
Tomaremos o elevador — respondeu Nex. — Dessa forma estaremos na superfície dentro de dez minutos.

* * *

As escotilhas fecharam-se no momento exato. A colina com a figura solitária do barcônida foi se afastando. Nex acenava com ambos os braços. Rhodan retribuiu até que a figura solitária se transformasse num ponto minúsculo em meio à solidão manchada de branco, e desaparecesse.
A nave rompeu a abóbada energética e atingiu o espaço livre. Aumentou a velocidade. Bárcon caiu num abismo sem fim e transformou-se numa esfera. Era difícil distingui-la, já que a luz muito escassa produzia reflexos pouco intensos.
Depois de algum tempo, Bárcon desapareceu.
A proa da nave apontou para a Via Láctea distante, que se destacava como nuvem luminosa contra o fundo negro.
O vôo de regresso fora iniciado.
7



A Drusus estava pousada no planeta Peregrino.
No pavilhão do fisiotron estavam Rhodan e todos os mutantes que há menos de sessenta anos haviam recebido a ducha revitalizante. Aproveitou a oportunidade para pedir ao imortal que lhe concedesse a ducha celular, e seu pedido fora atendido. Queria que também os mais competentes dentre os homens que os cercavam obtivessem o prolongamento da vida, quer fossem mutantes, quer não.
Uma vez iniciada a ação, Rhodan dirigiu-se a uma sala onde o imortal já o aguardava.
Mais uma vez flutuava pouco abaixo do teto, sob a forma de uma esfera.
Rhodan sentou-se na poltrona e esperou. A esfera desceu até encontrar-se na altura dos olhos de Rhodan.
Seus pensamentos já me revelaram tudo, Perry Rhodan. Não precisa contar-me nada. Apenas quero dizer-lhe alguma coisa.
E minhas perguntas?
Não posso e não devo dar resposta às mesmas. Um saber excessivo influencia o futuro. Para você o futuro deve continuar envolto na escuridão, pois a luz ofuscante do saber o cegaria. Os barcônidas estão salvos. Estão a caminho, e um dia nos alcançarão. Talvez isso aconteça mais cedo do que você acredita. E mais cedo do que você julga possível.
Você conhece o futuro?
O futuro está predeterminado, mas existem muitos caminhos que conduzem ao mesmo. E este é o único segredo: os caminhos do futuro.
Quer dizer que os caminhos podem ser vários, mas o ponto final está previamente determinado e não pode ser modificado.
Quando falo no futuro, refiro-me ao fim de todos os tempos. Tudo teve um começo, situado a bilhões de anos. Conclui-se que o tempo também terá um fim. E é nesse fim que confluem todos os caminhos que conduzem ao futuro. Por mais diferentes que sejam os planos existenciais e as trilhas das possibilidades, tudo conduz a um destino único: o fim de todos os tempos.
O fim do tempo — disse Rhodan e sentiu um calafrio que lhe desceu pela espinha. — Qual é o sentido do passado e do presente, se o futuro apenas pode representar o fim?
Ninguém sabe da existência desse fim, a não ser você e eu — respondeu o imortal. — Você seria capaz de desvendar o mistério?
Rhodan sacudiu a cabeça. Sabia perfeitamente que não falaria a ninguém sobre isso. Só lhe restava uma pergunta, já que avançara tanto.
Formulou a pergunta.
Como será o fim do tempo, amigo? Será o nada? Será a paz eterna ou o caos? O que virá depois do fim? Deve haver alguma coisa. Ou será que o nada realmente existe?
A bola cintilante, que corporificava uma raça desaparecida e englobava sua sabedoria, parecia crescer um pouco. Subiu. Rhodan teve a impressão de que a modificação poderia representar uma alteração do estado de ânimo.
As perguntas que você acaba de formular ultrapassam sua capacidade de compreensão. Será que você nunca pode dar-se por satisfeito? Você sabe mais que qualquer outra inteligência do Universo. Sabe que há muitos caminhos que conduzem ao futuro, e que cada ser pensante escolhe seu caminho. É claro que não sabe como será esse caminho. Mas sabe que leva inexoravelmente ao futuro. Também você trilhará um destes caminhos, mas haverá alguém que o guiará. Seu caminho não é o mais fácil, mas em suas margens existem as maiores riquezas. Sua tarefa consistirá em abaixar-se em tempo, antes que tenha passado pelo lugar em que se encontram as riquezas. O fim do tempo...?
Não, meu caro. Nem mesmo você saberá como é o fim do tempo. Talvez seja o início de uma nova era, talvez seja apenas o nada. Sou o único ser vivo que poderia responder às suas perguntas, mas não o farei. Não há dúvida de que no futuro serão realizadas tentativas de romper a muralha do tempo. Algumas dessas tentativas serão bem-sucedidas. Mas de que adiantará isso? Qualquer máquina do tempo só poderá investigar um único caminho, e quando atingir o fim do tempo, deixará de existir. Como poderíamos conceber uma máquina do tempo sem tempo? Ela nunca voltará. E não é possível nadar transversalmente ao fluxo do tempo. Ao menos no plano material.”
Rhodan reconheceu as limitações. Nunca se esqueceria delas. Seus músculos se descontraíram. Subitamente sentiu-se inundado por uma tranqüilidade que nunca antes conhecera. Por uma fração de segundo enxergou o caminho que iria percorrer. Estava profusamente iluminado e destacava-se nitidamente em meio à escuridão do infinito, até perder-se em algum lugar no oceano do tempo. Dirigia-se a um destino desconhecido.
A visão apagou-se.
Continuava sentado em sua poltrona. A esfera flutuava à sua frente. Era incompreensível em sua sabedoria e onipotência; imortal, conhecia o princípio e o fim do tempo. Se existia, o futuro ainda devia ter um sentido. Do contrário não teria posto fim à própria existência? E, se não fosse assim, continuaria a guiar a ele, Rhodan?
Fico-lhe muito grato — disse Perry, que se sentiu humilde na consciência da própria fraqueza e pequenez.
Não era apenas um homem, embora fosse relativamente imortal? Não havia muitos homens iguais a ele? Não fora apenas por meio do auxílio de outrem que se transformara naquilo que era? O que seria dele se não fossem os amigos e ele...?
Também lhe fico grato — respondeu o imortal. — Você me ajudou numa situação em que até eu estava impossibilitado de prestar auxílio. E se não tivéssemos corrido para ajudar os barcônidas...
O resto da frase deixou de ser pronunciado. Estava na hora de formular a última pergunta.
O que aconteceu com os barcônidas? Quem são realmente? E por que você se interessa tanto pelo seu destino?
Você acha que sinto uma simpatia especial por eles? Não é verdade.
Por que tive de salvá-los?
Porque são importantes! Sem eles o fim do tempo talvez fosse diferente... Não sei.
Pensei que esse fim fosse predeterminado e imutável.
Também acredito que seja assim. Mas como poderia saber?
Rhodan viu que não conseguiria descobrir mais nada.
E os invisíveis? Quem são eles? Você já teve algum encontro com esses seres?
Seguiu-se uma ligeira pausa. Rhodan sabia que seus companheiros encontravam-se recebendo a ducha celular. Não estava perdendo tempo.
Finalmente veio a resposta:
É graças a eles que sou aquilo que sou. É só o que posso dizer.
Foi graças a eles? Não compreendo. Quer dizer que não são inimigos? Por que atacaram os barcônidas?
Seguiu-se outra pausa.
Se você é morto por um inimigo, Perry Rhodan, você tem de lhe ser grato por sua morte. Será que me fiz entendido?
Então era apenas um jogo de palavras?
A esfera reluzente subiu ao teto. Rhodan levantou-se. A poltrona desapareceu como se nunca tivesse estado naquele lugar. Mas isso o deixou tão indiferente quanto o fato de que permanecera quase uma semana em Bárcon, enquanto na Drusus só se haviam passado quatro horas.
Passe bem, amigo — disse o imortal em sua forma silenciosa e sugestiva. — Você terá notícias minhas. Poderei alcançá-lo em qualquer lugar e tempo.
Em qualquer tempo? — perguntou Rhodan com um sorriso e inclinou-se em direção à esfera, que se foi tornando invisível e desapareceu.
Não obteve resposta.

* * *

O planeta artificial Peregrino voltara a mergulhar em sua invisibilidade anônima. O Coronel Sikermann acabara de anunciar a primeira transição.
Estavam reunidos no camarote de Rhodan: Bell, John Marshall, Sengu, Gucky e mais alguns mutantes. O Dr. Manoli estava parado junto à porta.
Da outra vez foi ainda mais louco — disse Bell em tom indiferente, numa alusão patente à primeira excursão que Rhodan fizera a Bárcon. — Você permaneceu em Bárcon por vinte dias, mas em nossa dimensão temporal não perdeu mais que um segundo. Desta vez você esteve fora por uma semana e perdeu quatro horas. Ao que parece, o imortal é capaz de fazer variar as relações temporais.
Isso seria ótimo para certos homens — disse Gucky. — A gente despede-se da esposa, dizendo que vai ao escritório. Na verdade, passa umas férias no Sul, com... bem, com outra pessoa, que não é a esposa. Dali a um mês a gente volta e chega bem na hora do almoço.
Um sorriso irônico surgiu nos lábios de Manoli.
Não sou casado — observou.
Betty Toufry estava acariciando o pêlo de Gucky.
Você não tem uma opinião muito favorável de nossos homens — disse, censurando a fantasia descontrolada do pequeno amigo. — Como é que as faculdades extraordinárias do imortal puderam estimular idéias tão sujas em sua mente?
John Marshall não permitiu que a conversa o distraísse. Ouvira o relato de Rhodan e só conhecia um problema. Formulou, então, uma série de perguntas referentes ao tal problema.
Quem serão os invisíveis? Será que vieram de nossa Galáxia? Por que nunca nos encontramos com eles?
Rhodan sorriu e lançou-lhe um olhar pensativo.
O senhor acaba de formular três perguntas de uma só vez, e não sei responder a nenhuma delas. Uma coisa é certa: o imortal do planeta Peregrino conhece os invisíveis. Já deve ter tido um contato com eles. Não sei mais que isso, e não estou disposto a manifestar minhas conjeturas e especulações. Receio que um dia nos encontremos com os invisíveis. E acho que esse encontro não poderá ser comparado com o que tivemos com os druufs. A diferença é tremenda.
Será que um dia nos encontrarão?
Rhodan não respondeu.
Gucky levantou-se.
Vou deitar um pouco. Quer vir comigo, Bell? Quero contar-lhe uma nova piada. Imagine só: uma das moças que trabalham na sala de rádio contou-a a uma amiga. Naturalmente ouvi-a por acaso. Bem, na verdade, acompanhei-a em pensamento. Não tive a intenção de fazê-lo. Mas trata-se de uma excelente piada. Então?
Bell mal levantou os olhos.
Obrigado. Não estou com vontade. Aliás, já conheço a piada.
Por um segundo Gucky ficou muda de espanto.
Você já a conhece? Como, se nunca lhe contei?
É verdade! — Bell bocejou de enfado. — Acontece que Liane Pepsy contou. Como sabe, é a moça da sala de rádio.
Gucky levantou a sobrancelha e saiu balançando em direção à porta. Abriu-a, parou e virou-se.
Que indecência! — piou em tom indignado. — E sempre pensei que Liane fosse uma boa moça. Que coisa!
Assim que acabou de pronunciar estas palavras, desapareceu.
Bell fechou os olhos. Parecia satisfeito. Mas se acreditava que dali em diante ficaria em paz, estava enganado.
O Dr. Manoli aproximou-se e deu uma pancadinha em seu ombro.
Vamos, Bell. Conte logo! Quer que tenhamos água na boca?
Bell abriu os olhos. Lançou um olhar de esguelha para as mutantes e disse:
Infelizmente não é possível, doutor. Como vê, há senhoras por aqui.
Betty levantou-se e fez um sinal para Ishy Matsu.
Já na porta, disse:
Sentimos muito, Bell, mas acontece que somos telepatas. A piada é muito velha. Divirtam-se.
Só restavam o Dr. Manoli e Rhodan. John Marshall também já conhecia a piada. Soubera-a de Gucky.
Um dia um homem do campo chegou à cidade... — principiou Bell.
Rhodan levantou-se e caminhou em direção à porta. Bell quase ficou sem fôlego.
Você também já a conhece? — perguntou em tom decepcionado.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Não conheço a piada, meu caro. Mas o conheço!
Manoli sorriu.
Sua fama não anda nada boa, seu caçador de estrelas. Mas agora ninguém mais nos perturbará. Conte.
Bell superou a decepção.
Pois bem. Um homem do campo chega à cidade e...
Transição dentro de dez segundos — disse uma voz saída do alto-falante.
Era o Coronel Sikermann. Seu tom era indiferente e objetivo.
Manoli sentiu-se decepcionado.
Nunca ouviria a piada. Ao menos não da boca de Bell, que amoleceu que nem um balão furado. Três interrupções? Não havia ninguém que fosse capaz de agüentar uma coisa dessas.
Mas Manoli procurou consolar-se. Pediria a Liane Pepsy que lhe contasse a piada. Esta ao menos não gostava de fazer figura de estrela. Não era uma moça para isso!
Transição! Silêncio.
Depois a voz de Bell voltou a fazer-se ouvir:
Pois bem... um homem do campo chega à cidade e pergunta a um guarda onde fica a esquina mais próxima...
Pare! — gritou Manoli em tom indignado, cobrindo o rosto com as mãos. — Isso é a piada da mistura das raças de cachorros! Já conheço! Aliás, já a conheço há um século. E nem é indecente. Ora, que piada...
Todos os objetos que se encontravam no camarote de Rhodan eram de uma cor discreta. A harmonia só era rompida por uma mancha vermelha e redonda.
Quem olhasse mais atentamente, descobriria que essa mancha era o rosto de Bell...



* * *
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Em O Mistério do Anti, próximo livro da série, Atlan vai envolver-se numa excitante aventura.

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