domingo, 21 de agosto de 2016

P-083 - Planeta Topsid, Favor Responder - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN



A Kublai Khan e o Exército de Mutantes em missão suicida —
...é uma questão de segundos!


O ano-novo chegou...
Poucos desconfiam de que tal ano, tão efusivamente comemorado, será um período importante para os destinos da Humanidade. Será o ano da grande decisão...
O Império Solar, que é uma organização minúscula em comparação com o Império dos arcônidas ou com o Universo dos druufs, vê-se literalmente entre dois fogos. Bastava uma fagulha para desencadear a guerra que atingiria o sistema solar. E, por uma falha, esta fagulha já está acesa há 73 anos... e se chama tópsidas!







= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Reginald BellO melhor amigo de Perry Rhodan.

GuckyToda vez que o rato-castor é chamado de Tenente Guck, a barra está pesada.

AtlanO imortal que não tem a menor dificuldade em desempenhar o papel de um arcônida típico.

Tgex-GoPresidente de Topsid.

GallusEspecialista em campos de ionização.

Joe PasginComandante da nave Burma, que dá início à missão suicida.

1



Tudo começou a dois dias, na festa do ano-novo.
A morte de Thora ainda lançava sua sombra sobre o reduzido número de homens que comandavam os destinos do Império Solar. No entanto, mesmo estes celebraram a despedida do ano de 2043, embora não o fizessem nos moldes usuais.
E foi durante esses festejos que aconteceu...
Com um movimento infeliz, Reginald Bell derrubou um cálice de conhaque que se encontrava sobre a mesa. O conteúdo esparramou-se e o vidro esfacelou-se no chão. Bell abaixou-se para reunir os cacos e... sofreu um pequeno corte na ponta do polegar esquerdo.
Todos esperavam ansiosos pelo ano-novo. Chupando o dedo ensangüentado e fitando o grande relógio, Bell parecia uma estátua.
Tomara que isso não signifique uma desgraça — disse, proferindo as palavras com certa dificuldade, porque continuava com o dedo na boca.
Perry Rhodan, Crest, Freyt e Mercant lançaram-lhe um olhar meio alegre, meio irônico. Mas todos se sentiram tocados por essas palavras, pois ninguém estava acostumado a ver Bell acreditar nas feitiçarias astrológicas ou em maus presságios.
A conversa agradável do pequeno grupo foi interrompida pelo incidente. Perry Rhodan também olhou para o relógio.
Dali a três minutos começaria o ano de 2.044; estava na hora de encher os cálices de champanha.
Finalmente Bell tirou o dedo da boca, pegou um lenço muito bem dobrado e enrolou-o.
Tomara que isso não...
As outras palavras foram abafadas pelo barulho infernal vindo de fora. O ano-novo havia chegado! Para cumprimentá-lo, a cidade de Terrânia, capital do Império Solar, recorreu a tudo que pudesse produzir barulho. As sereias uivaram, as buzinas de alarma começaram a berrar. Os fogos de artifício subiam ao céu límpido, produzindo um barulho infernal. No mesmo instante foram ligados os propulsores de impulsos das naves esféricas, cujo trovejar participou do coro de cumprimentos, enquanto os campos de tração bem regulados mantinham as naves da frota terrana presas ao campo de pouso.
Em meio à atmosfera acolhedora da residência de Rhodan, raras vezes utilizada, cinco homens brindaram a chegada do ano-novo. Não estavam em condições de conversar sobre os sucessos e os fracassos do passado e refestelar-se nas recordações, pois a situação geral não estava para isto. Apesar de tudo, conservavam uma boa dose de otimismo.
A única exceção era Bell, do qual nunca se teria esperado uma atitude desse tipo.
Você deu para ficar supersticioso, gorducho? — perguntou Rhodan, dirigindo-se ao amigo corpulento, cujos cabelos ruivos e curtos mais uma vez estavam arrepiados.
Não — respondeu Bell, descansando o copo. — Mas olhem só!
Apontou para os cacos de vidro espalhados pelo chão.
Este cálice foi feito de vidro inquebrável. E aí estão os cacos de sua indestrutibilidade. Não sou supersticioso. Acontece que estes cacos, que em hipótese alguma deveriam provocar cortes, me feriram o dedo. Isso só pode ser mau sinal.
E ainda vem me dizer que não é supersticioso? — perguntou Rhodan, sorrindo para seus amigos e colaboradores, que se divertiam com a atitude de Bell.
Nunca fui! — afirmou o gorducho em tom enérgico.
Bell esteve a ponto de começar tudo de novo, mas nessa altura Allan D. Mercant, chefe do Serviço Solar de Segurança, interveio na palestra.
Cadê sua lógica, Mister Bell?
O gorducho respondeu prontamente:
Os maus presságios nunca tiveram lógica!
Perry Rhodan deu uma risada.
Desisto! — disse. — À saúde do ano de 2.044, gorducho!
Levantou o cálice de champanha e brindou para seu melhor amigo.
Este esvaziou o cálice de um só gole. Ao descansá-lo, disse:
Só desejo uma coisa: que o ano de 2.044 passe o quanto antes e que estejamos em condições de festejar a próxima passagem de ano.
Está falando isso só por ter machucado o dedo? — perguntou Rhodan em tom irônico.
Perry usou de certa aspereza, pois Bell estava prestes a espantar a disposição alegre dos convidados. Nessas poucas horas em que os homens que respondiam pelos destinos do Império Solar se reuniam em caráter particular, não se devia falar dos problemas do dia-a-dia. Perry Rhodan dera a entender em termos bem claros que desejava mudar de assunto.
Mas Bell devia ter cera nos ouvidos.
Não é por isso — disse, voltando ao mesmo assunto. — É porque este copo, que devia ser inquebrável...
Chega, gorducho! — interrompeu Rhodan. Pegou a garrafa de conhaque, colocou-a à sua frente, enquanto com a outra mão trazia outro cálice, em substituição ao que se quebrara. Depois num tom que quase chegava a ser de comando: — Sirva-se, meu velho. Tome uns tragos. Você está precisando!

* * *

As primeiras horas do ano foram muito agradáveis a todos.
Mas quando se separaram, pelas três da madrugada, Bell fez questão de dizer a última palavra.
As coisas irão engrossar, ou então eu não me cortei nestes cacos de vidro inquebrável... Nesse caso, apenas terei sofrido uma alucinação.
Ninguém o contestou. Todos estavam ansiosos por uma boa cama, mas ninguém conseguiu esquecer o súbito pessimismo de Reginald Bell, cujas brincadeiras lhes custaram ao menos uma hora de sono.

* * *

Devagar! — gritou O’Keefe, supercansado, para dentro do microfone da estação de transmissão de matéria número D-18, situada no setor lunar Han/456. Dirigia-se ao colega, que operava a estação sincronizada localizada na Terra. — Será que logo no primeiro dia do ano vocês querem quebrar um recorde? Esperem um minuto para mandar a peça 762 da fita rolante. Meus robôs estão esquentando e os campos antigravitacionais começam a transpirar.
É claro que na Lua não havia robôs que esquentassem ou campos antigravitacionais que transpirassem, mas O’Keefe não conseguia acompanhar o ritmo da estação com a qual estava sincronizado. Apesar do cansaço, proveniente de uma animadíssima festa de ano-novo, acabara de constatar que, a dois quilômetros dali, acabara de ocorrer uma pane na montagem da fita rolante número 66. Um espaço oco situado pouco abaixo da superfície lunar ruíra silenciosamente, arrastando e, provavelmente, soterrando parte da estrada rolante e alguns robôs de trabalho.
Naquele instante, viu o sinal vermelho. A estação transmissora de matéria, situada na Terra, foi paralisada.
A central de vigilância positrônica da Lua deu sinal. Esse centro de computação controlava o processo extremamente complicado de montagem. Estava em condições de registrar até 250 mil fatos por segundo, ocorridos nos mais diversos lugares, e compará-los com o cronograma de montagem introduzido em seu setor de programação. Cabia ao centro de computação intervir no caso de uma pane, recorrendo, se fosse o caso, às reservas de robôs de trabalho, a fim de que o atraso no cronograma pudesse ser compensado dentro de duas horas.
A velha lua terrana estava transformada num único canteiro de obras.
E com isso estava perdendo suas feições.
O homem, que habitava a Lua, teve de mudar de residência, pois Perry Rhodan estava tomando seu lugar. O Administrador-Geral via-se numa situação de emergência. Na Terra não havia mais lugar para nada. Não havia onde montar as gigantescas fitas rolantes nas quais se realizava a produção em série de naves esféricas. Ao lado delas ficavam as indústrias acessórias de elevado potencial de produção, nas quais se fabricavam os conjuntos, peças e pecinhas necessárias à fabricação das naves.
Na Lua havia espaços imensos. De início, foram instalados no satélite da Terra grandes estações transmissoras de matéria, sincronizadas com as respectivas estações da Terra. Uma vez concluída essa tarefa, teve início um fluxo de materiais da Terra à Lua. Tal fluxo faria supor que o planeta se privaria de todas as suas indústrias.
O satélite da Terra transformou-se no grande arsenal do Império Solar. Rhodan investira nesse grande centro de produção de armamentos mais de cem milhões de solares.
Naquele momento surgira uma pequena pane durante a construção da fita rolante número 66. Os incidentes desse tipo aconteciam cem vezes por hora e não seriam capazes de perturbar a execução do plano. Mais de cinqüenta faixas rolantes já estavam completamente instaladas. Algumas centenas de milhares de robôs especializados cumpriam seus programas, que previam a construção de naves esféricas destinadas ao Império Solar.
A idéia de transformar todo um mundo num arsenal não fora concebida por Rhodan.
Árcon já a praticara há mais de 15 mil anos. No entanto, não utilizou nenhuma lua, mas um planeta, que foi arrancado de sua antiga órbita e introduzido em outra.
Dezoito minutos depois que a luz vermelha se acendeu no transmissor de matéria da D-18 e na estação sincronizada da Terra — ou seja, dezoito minutos depois do desmoronamento de um espaço oco na altura da linha de montagem avançada da fita rolante 66 — tudo voltara a correr como antes. Uma hora e meia depois disso, o atraso no cronograma foi recuperado, apesar do cansaço de O’Keefe.
Cullins, que naquele momento tinha a seu cargo a produção de sondas-foguete, sentiu-se desesperado.
Por que é que os druufs e os arcônidas não vão para o inferno? — disse com a voz martirizada, mas logo se esqueceu tanto dos druufs como dos arcônidas.
O que lhe interessava era o pedido lacônico vindo de Terrânia, que solicitava a remessa imediata, pelo transmissor de matéria, de 4.500 sondas-foguete de determinado número, a serem expedidas para o espaçoporto da capital do Império Solar.
Cullins não as tinha. Acontece que junto à zona de descarga havia uma necessidade desesperada das mesmas. A luta rugia sem cessar: arcônidas e druufs procuravam forçar uma decisão. Os veículos espaciais robotizados do Grande Coordenador, o computador-regente de Árcon, faziam caça às sondas-foguete com a mesma energia que os druufs.
Os foguetes-espiões de Perry Rhodan eram derrubados em série. Mas alguns deles retornavam da área de superposição, trazendo informações preciosíssimas às naves terranas estacionadas nas profundezas do espaço, mantendo a Terra cientificada sobre a movimentação das frotas inimigas e sobre o tipo das tripulações. As naves incumbidas das observações eram cruzadores ligeiros da classe Cidade. Tinham uma tripulação bem treinada, mas seu armamento era bastante débil. Em compensação seus mecanismos propulsores eram extremamente fortes, permitindo-lhes que, dentro de cinco minutos, atingissem a velocidade da luz.
Cullins tamborilou sobre a escrivaninha. Imaginava o que aconteceria quando informasse a Terra de que dispunha apenas de pouco menos de 3 mil sondas. A indagação visual só agora lhe trouxe o resultado da consulta formulada ao computador positrônico.
As 1.500 sondas que faltavam só estariam prontas para serem remetidas dali a 27 horas, 42 minutos e 7 segundos. Com um nervosismo tremendo, aguardou a ligação radiofônica com a Terra.
O chefe do depósito H-89, Mister Gibbons, apareceu na tela. Fora ele que pedira o elevado número de sondas.
Exibiu um rosto de jogador de pôquer.
Pois nesse caso tenho pena do senhor, Cullins, mas não poderei deixar de informar o chefe...
Informar quem? — disse Cullins, interrompendo o tal do Mister Gibbons que se encontrava na Terra. — Pretende informar Perry Rhodan?
Quem poderia ser? Pois foi ele que deu ordem para enviar 4.500 sondas-foguete à zona de descarga. Parece que não se trata de um pedido rotineiro. Não é sempre que Rhodan cuida desse tipo de assunto. Ao que parece, o ambiente está “engrossando” em algum lugar e, ao que supomos, eles precisam das sondas para verificar quem será atingido por tal ambiente. Prepare-se para ouvir umas boas, Cullins.
Cullins estremeceu quando o sinal de identificação da Administração surgiu na tela, indicando que um personagem muito importante queria falar com ele.
Mas quando viu o rosto largo de Reginald Bell suspirou aliviado. Ninguém o chamava assim. Todos só o conheciam como Bell, mas isso em nada afetava sua personalidade. Ele mesmo não levava muito a sério as questões de etiqueta, e não se importava se vez por outra alguém soltava um palavrão.
Cullins — exclamou Bell, sacudindo a cabeça com os cabelos curtos e arrepiados. — Se daqui a duas horas as duas naves-transportadoras com as 4.500 sondas não puderem decolar, eu o cortarei em pedacinhos. Não me venha com desculpas! Não as posso aceitar. Bem que eu imaginava que uma coisa dessas iria acontecer. Não foi por nada que cortei o dedo. Repito: esses foguetes estarão aqui embaixo dentro de uma hora, Cullins!
Cullins prendeu a respiração e gritou com a coragem do desespero:
Não estarão, Bell...
Acabara de contrariar uma ordem do lugar-tenente de Perry Rhodan, o segundo homem do Império Solar. Reginald Bell nunca lhe perdoaria tamanho atrevimento.
Mas Bell soltou uma gargalhada.
O que está acontecendo aí em cima? Por que nossos dados não conferem com os de vocês?
A Lua sempre era em cima, onde qualquer homem a via no céu; em conseqüência, a Terra era embaixo.
Quando Cullins ouviu a risada de Reginald Bell, o peso de uma lua parecia cair-lhe em cima. E a pergunta sobre a diferença nos registros deixou-o ainda mais aliviado.
Acontece que modificamos a linha de produção, Mister Bell. Todo o estoque de sondas foi transformado em sucata, porque eram muito fáceis de serem localizadas. Eu os informei sobre isso pelos canais competentes. Foi há três... não, há quatro dias.
Pelos canais competentes! — Bell soltou estas palavras num gemido. — Cullins, não posso culpá-lo por isso. Seu procedimento foi absolutamente correto. Acontece que sempre que ouço as palavras “canais competentes” lembro-me de uma tremenda surra que levei de meu pai, porque este soube pelos “canais competentes” que seu filho era o “engraçadinho” que há dois meses fazia aparecer todas as noites um fantasma em nosso bairro. Na oportunidade, meu pai mandou criar um setor especial na polícia, a fim de localizar o autor desse fenômeno, que já provocara a mudança de mais de vinte filhos... Canais competentes! Quando é que poderemos contar com as sondas, Cullins?
Dentro de vinte e oito horas, Sir.
Reginald Bell fez um gesto de resignação.
Está bem. Quero ouvir agora os dados mais importantes sobre as novas sondas. Então?
Até hoje, de cada cem sondas enviadas ao espaço, retornavam na melhor das hipóteses 7,38 peças. Na nova versão essa proporção mudou para 21,83.
Os engenheiros costumam usar uma linguagem rebuscada — disse Bell, sacudindo levemente a cabeça. — Quer dizer que, com as modificações realizadas nas sondas, costumam retornar vinte e duas de cem, em vez de sete por cem. E o senhor tem em estoque três mil dessas novas sondas?
Sim senhor. São exatamente três mil sondas.
Bell soltou uma estrondosa gargalhada. Pitou Cullins e sacudiu a cabeça.
Vocês são de amargar! — disse subitamente com a voz irônica e satisfeita. — Para que vamos querer mais de quatro mil sondas, se o produto novo é três vezes mais eficiente que o antigo? Mande duas mil sondas cá para baixo, Cullins. Elas equivalem a seis mil peças do tipo antigo. Se sua previsão não for correta, acho que o senhor sabe para onde terá de ir, não sabe?
Mister Bell — disse o homem em sua defesa — as indicações que acabo de fazer provêm de cálculos positrônicos...
...e o corte que levei no dedo provém de vidro inquebrável. Desligo.
Cullins suspirou aliviado e enxugou o suor da testa. Lançou um olhar perturbado para a tela que acabara de apagar-se.
Por todas as estrelas e galáxias! — cochichou. — O que é que um cálculo positrônico tem a ver com uma peça de vidro inquebrável?
Cullins jamais obteria resposta a essa indagação.
Mas, hora e meia depois da palestra entre Cullins e o lugar-tenente de Rhodan, uma moderada nave mercante decolou do espaçoporto de Terrânia, levando a bordo 2 mil sondas-foguete do novo tipo, destinadas ao aprovisionamento dos cruzadores ligeiros da classe Cidade, estacionados nas profundezas da Via Láctea.
A barra realmente estava pesada em determinado ponto da Galáxia. Dentre as inúmeras notícias recebidas havia duas que Rhodan passou a Bell e Atlan, sem dizer uma palavra.
Acho que isso é apenas um fenômeno isolado — disse Atlan num assomo de otimismo.
É apenas o começo! — contestou Bell em tom convicto, sem deixar que os rostos de Rhodan e Atlan o fizessem vacilar em sua opinião. — Não posso deixar de pensar em meu dedo.
Perry Rhodan perdeu um pouco de seu admirável autodomínio.
Deixe-nos em paz com suas infantilidades. Nem mesmo Gucky engoliria uma bobagem dessas. Por que acha que esse acaso representa o início de um processo?
A irrupção temperamental de Rhodan não abalou o homem maciço de cabelos cortados à escovinha.
Representa um começo porque estamos lidando com o grande Coordenador de Árcon. Como sabemos, é um computador, e nunca me constou que uma máquina desse tipo fosse capaz de deixar-se levar por qualquer das inúmeras fraquezas humanas. Pelo que diz esta notícia, uma das naves do Império, que até aqui tem sido dirigida por robôs, passou a ser guiada por três mercadores galácticos. E a outra notícia diz que o robô-comandante de outra nave foi substituído por um ara. Para mim isso apenas permite uma conclusão: “Sua Majestade, o Grande Coordenador” achou que estava “gastando” muitos robôs. Esse monstro mecânico julga mais vantajoso contar com a previsão humana que com a programação dos robôs que leva a luta até o fim, isto é, até a destruição total da nave. O cérebro positrônico diz: se minhas naves farejarem os druufs...
Será que não poderíamos usar uma expressão mais elegante? — interveio Rhodan em tom áspero.
Naquela situação não estava disposto para brincadeiras e, além disso, tinha verdadeira alergia pelas expressões grosseiras.
Podemos, Perry, mas o faro continua a ser um fato. Pois bem. Prossigamos no raciocínio do computador. O mesmo há de dizer o seguinte: se as naves dos druufs forem avistadas, os robôs lutarão para vencer ou perecer, enquanto os condutores humanos, ao perceberem que a situação se tornou desesperadora, procurarão salvar sua pele e, com isso, a nave que comandam.
Por isso mesmo o conteúdo das duas notícias relativas ao remanejamento da frota arcônida representa o início de uma evolução muito inquietante da situação. O desgaste de material causado pelos autômatos já deixou o computador com o focinho...”
Rhodan interrompeu-o com a voz áspera; seu rosto enrubesceu ligeiramente.
Caramba, Bell, exijo que você se exprima em melhores termos!
É claro que você tem razão, Perry — confessou Bell com uma espantosa rapidez. — Somente porque o computador-gigante de Árcon não tem focinho...
Enquanto os dois se digladiavam no duelo verbal, Atlan manteve-se em silêncio.
Naquele instante sentiu inveja porque Perry Rhodan tinha um amigo como Reginald Bell.
Rhodan, um homem disciplinado até a ponta dos dedos e duro para consigo mesmo, sentia-se dominado pela missão de fazer da Humanidade terrana a dominadora do Universo. E esse homem tinha a seu lado um amigo que nunca negligenciava seu dever, mas que sabia recuperar-se das fainas incessantes, apresentando-se como realmente era: generoso, desinibido, mas esquentado. Face a seu gênio impulsivo, não se importava de vez por outra soltar uma expressão pesada. Com isso, não apenas aliviava sua própria tensão. Também proporcionava a Rhodan uma válvula que lhe permitia aliviar a carga psíquica, mesmo que fizesse apenas por meio de uma resposta violenta como a que acabara de dar.
Nessa altura, Atlan interveio nos debates:
Bárbaro, seu amigo de falas indisciplinadas avaliou a situação melhor que você e eu...
Bell observou, falando de propósito com a voz tão alta que Atlan não poderia deixar de ouvi-lo:
Um dia eu retribuirei isso, almirantezinho. Continue a falar. Gosto tanto de ouvi-lo!
Atlan não se deixou perturbar pela observação, mas não se esqueceu de registrar a ameaça de Bell. Se havia alguém que costumava cumprir uma promessa desse tipo era o amigo de Rhodan.
Temos de contar a qualquer momento com a possibilidade de que por alguma circunstância ou coincidência, cujas conseqüências seriam graves para nós, o computador-regente fique sabendo que o Império Solar está por trás dos ataques incessantes dos druufs, e que este Império os induz aos ininterruptos atos de agressão.
Rhodan parecia cético.
Almirante, não posso concordar com isso porque...
Atlan respondeu em tom grave:
No episódio de Fera Cinzenta minhas advertências não foram levadas a sério. Se não conservarmos ao menos uma chance de enganar Árcon com um blefe ou um truque, poderemos ter certeza de que, talvez, seis meses após a última batalha junto à área de superposição, as naves de Árcon pousarão neste espaçoporto. Nesse caso, a luz do sol mal conseguirá chegar à Terra, porque algumas dezenas de milhares de naves estarão em torno do planeta...
Até parece que foi ele que cortou o dedo numa peça de vidro inquebrável...
Com isso conseguiu fazer que até mesmo Atlan se descontrolasse:
Mister Bell, cale a boca! Caram...
Bell levantou-se devagar, com um sorriso impertinente no rosto. Fez um gesto conciliador para Atlan, que se martirizava com auto-recriminações pelo deslize que acabara de cometer, lançou um olhar para o administrador-geral e dispôs-se a sair.
Amigos — disse num tom irônico e altivo. — Pela disciplina de nossa linguagem merecemos a nota dez. Porém, se alguém fosse avaliar nosso desempenho em relação ao receio pelo destino do Império Solar, todos receberíamos a nota insuficiente.
Já estava junto à porta. Não ria mais. E também já não falava no dedo cortado. Limitou-se a dizer:
Graças aos ataques dos druufs, o computador-regente de Árcon hoje é mais forte que nunca. Os povos que compõem o Grande Império, e que são mais de mil, obedecem-lhe sem restrições. Quantas naves tem na frente de luta? Oitenta mil? Cem mil? Pouco importa que até o fim da luta Árcon perca a metade dessas naves. Para nós isso é totalmente indiferente, pois não temos condições de enfrentar cinqüenta mil veículos espaciais, ou dez mil.
Mas não é isso que me tira o sono. Perry, em certa oportunidade, você e eu deixamos de considerar um fator muito importante. Desde o primeiro dia do ano não consigo livrar-me dessa idéia. E, desde então, fico dando tratos à bola para descobrir o que deixamos de perceber. Ainda não consegui saber. Apenas sei que tem algo a ver com Árcon. Boa noite, Império Solar!
Não temos motivo para entreter a esperança de dispormos de um prazo de espera até o fim das lutas junto à zona de descarga. É bem verdade que vez por outra tenho chamado o computador-regente de montão de lata. Hoje já sei por que andei fazendo isso. No meu subconsciente sempre tenho certo receio por esse gênio desalmado. Usei a expressão difamatória somente para enganar a mim mesmo. Desde o ano-novo, os dados foram lançados.
Basta que, entre as centenas de milhões de conjuntos de processamento de dados de que dispõe, o computador positrônico ponha em funcionamento apenas um. Esse conjunto começará a calcular, e todos sabemos que o faz muito depressa. Também sabemos que nunca se esquece de qualquer detalhe. O cérebro registrou a identidade de quem se dispôs a adquirir cem naves esféricas. O cérebro-monstro não levará mais de um segundo para calcular o tamanho de nossa frota espacial, e então as coisas começarão a ficar pretas para nós, mesmo que haja uma guerra galáctica junto à área de superposição.
De uma hora para outra, as naves arcônidas estarão aqui, e então você e eu, Perry, poderemos fazer continência para os robôs, enquanto uma dessas máquinas transformará o almirante numa nuvem de gás por ver nele um traidor. Isso será inevitável, a não ser que hoje ou amanha descubramos o que nos passou despercebido há certo tempo.
Até logo mais.”
Perry Rhodan fitou-o pensativo. Atlan não disse uma única palavra. As advertências e as previsões sombrias de Reginald Bell o haviam atingido mais fortemente do que queria dar a perceber.
Depois de algum tempo, Rhodan disse:
Então este é Bell! Desde a festa de ano-novo transformou-se num pessimista.
Será que isso realmente não passa de pessimismo?
Rhodan lançou um olhar de surpresa para o arcônida.
O que quer dizer com isso?
O que eu quero dizer, Perry, é que sem Reginald Bell você nunca teria criado o Império Solar. Ele tem a sensibilidade correta no momento adequado, e, além disso, tem coragem de dizer que está com medo. Perry, será que um homem que prevê as nossas futuras dificuldades é um pessimista? Ou será um realista?
O administrador-geral refletiu intensamente. Os traços de seu rosto estavam fortemente desenhados. As mãos pousavam suaves sobre as braçadeiras de sua poltrona.
Por enquanto ainda não sei dizer se ele é um pessimista ou um realista, arcônida. Tenho que dormir sobre isso.
Atlan parecia satisfeito com essa decisão, pois acenou com a cabeça. Mas depois de algum tempo perguntou:
Perry, será que poderia dizer o que vocês esqueceram ou deixaram de considerar?
O rosto de Rhodan demonstrou uma leve surpresa.
Será que você também já se impressionou com esse dedo ridículo de Bell? — perguntou em tom indignado.
O arcônida respondeu com a maior calma:
Ora, bárbaro, acho que essa pergunta ficará sem resposta. Mas não quero fazer pouco das previsões algo confusas de Bell. Devemos preparar-nos para podermos reagir com uma extrema rapidez a qualquer surpresa desagradável com que nos deparemos. Isso se torna necessário à segurança do Império Solar.
Hum — fez Rhodan. — Sei a que está aludindo: a Fera Cinzenta. Antes da destruição desse mundo, eu deveria ter dado mais importância a seus avisos. Caso dissesse que ninguém poderia prever que uma pane num neutralizador de vibrações fosse apontar o caminho às naves de Árcon, apenas estaria apresentando hoje uma desculpa barata. O.K.? Bell não é nenhum pessimista, mas um realista.
Seu zombador! — respondeu Atlan.
2



A situação estratégica da Terra piorava a cada dia que passava. Rhodan e seus homens estavam perdendo o controle da situação.
Em virtude da colisão de dois Universos que se distinguiam pela diversidade das dimensões temporais, o Império de Árcon se tornara mais forte que nunca, apesar de toda decadência e dos movimentos de independência das centenas de raças que o compunham. Os ataques incessantes da frota dos druufs, que lançava mão de todos os recursos disponíveis para forçar a penetração no Universo einsteiniano, fizeram com que, depois de cinco mil anos de decadência ininterrupta, o Grande Império governado por um computador positrônico voltasse a alcançar a união.
A frota de guerra de Árcon, até então separada em centenas de pequenos grupos que operavam em todos os setores da Via Láctea, voltara a constituir uma força compacta, que realizava o bloqueio junto à zona de descarga, onde dois Universos se tocavam e se sobrepunham em pequena extensão.
Enquanto duravam as batalhas entre os druufs e os arcônidas, nas quais os gastos eram astronômicos, não havia um perigo imediato para o Império Solar. Acontece que, segundo os cálculos dos peritos em tempo e espaço de Rhodan, a zona de descarga se tornaria instável dentro de uns doze meses. Então a passagem de um Universo para outro seria fechada. Isso representava o alarma máximo para a Terra e uma liberdade de ação absoluta para o Grande Coordenador, que poderia lançar 80 mil naves de guerra para vasculhar a Galáxia à procura do tal Império Solar, que, segundo os cálculos do gigantesco computador, representava uma ameaça mais forte para Árcon que a luta feroz contra os druufs.
Rhodan, que esperara tirar proveito da luta entre os dois gigantes, já se convencera, depois da destruição de Fera Cinzenta, de que isso jamais poderia acontecer.
Todas as precauções destinadas a manter oculta a posição galáctica da Terra já haviam sido tomadas. Depois do episódio da pane do neutralizador de vibrações, ocorrida nas proximidades de Fera Cinzenta, o intercâmbio comercial com outros mundos, que vinha se tornando cada vez mais intenso, fora reduzido a um mínimo. No entanto, Rhodan, Bell e Atlan estavam convencidos de que essas medidas apenas lhes proporcionariam um ganho de tempo. Um belo dia, Árcon descobriria a Terra.
O Marechal Allan D. Mercant, chefe do Serviço Solar de Segurança, que se conservara jovem graças à ducha celular aplicada no planeta artificial Peregrino, estava reunido com John Marshall, chefe do Exército de Mutantes, Perry Rhodan e Atlan.
Allan D. Mercant comparecera à entrevista sem levar qualquer anotação. Neste ponto assemelhava-se a Perry Rhodan, que raramente recorria a dados fixados por escrito, pois preferia buscar, em reuniões como esta, soluções obtidas de improviso.
Apesar dos grandes méritos alcançados nas ações empreendidas a favor da Galáxia, Allan D. Mercant era um homem modesto. Criara um serviço de comunicações que dificilmente encontraria par. Seus agentes estavam espalhados pelos planetas mais importantes do Grande Império, e as mensagens de rádio transmitidas por tais especialistas refletiam a verdadeira situação do Império Arcônida.
Enquanto Mercant apresentava seu relatório, Rhodan e Atlan mantiveram-se em silêncio.
John Marshall parecia distraído. Mas os homens, ali reunidos, já o conheciam bastante para não se deixar iludir pela expressão de seu rosto.
Naquele momento, John Marshall estava captando os pensamentos de Reginald Bell. Ficou sabendo de que forma este se cortara durante a festa de passagem de ano.
Marshall levou o incidente a sério. Lembrou-se da oportunidade em que Bell manifestou ruidosamente sua antipatia instintiva contra o planeta Honur, bloqueado pelos arcônidas. Daquela vez, ninguém, nem mesmo Rhodan, o levara a sério. E, quando a catástrofe desabou sobre a tripulação da Titan, e oitocentas pessoas, entre elas Thora, Crest e Bell tiveram a vida ameaçada por um estado de hipereuforia, já era tarde para dar atenção às advertências de Bell.
Enquanto Mercant prosseguia no seu relatório, Marshall continuava a “ouvir”. “Corremos à velocidade da luz para uma situação que ameaça devorar-nos. Os mutantes devem ser chamados de volta à Terra o mais cedo possível, a fim de que possam intervir nos acontecimentos”, pensava Reginald.
Depois Bell, a alguns andares abaixo do lugar em que estava Mercant, passou a dedicar sua atenção a outros problemas, e o chefe do Exército de Mutantes voltou a participar integralmente da palestra.
A visão do futuro deixava evidente que o Império Solar se encontrava em situação defensiva.
Se nos limitarmos a esperar, estaremos praticando a política do avestruz — disse Rhodan. — O grande computador deve ser posto fora de ação antes que sejam travadas as últimas batalhas espaciais entre os arcônidas e os druufs...
Ora, bárbaro! — interrompeu Atlan em tom enérgico. — Justamente isso é impossível. Deixar o Grande Império sem o computador-regente seria a mesma coisa que detonar no grupo estelar M-13 uma bomba de fusão de dimensões galácticas. Assim não é possível. Aliás, seria ocioso discutimos este ponto, pois ainda não encontramos nenhum meio que nos pudesse levar a Árcon III. Estamos... Olhe, o interfone está chamando.
A tela cinzenta tremeluziu ligeiramente e mostrou o rosto do chefe de uma das grandes estações de hiper-rádio de Terrânia.
Sir, não consegui entrar em contato com Mister Bell. Recebi certas notícias vindas do espaço que, no meu entender, devem ser consideradas imedia...
Transmita pelo vídeo! — ordenou Rhodan.
O rosto do chefe da estação de hiper-rádio desapareceu da tela. Em seu lugar surgiu um texto.

0005-1 ao chefe.
Resumo das observações, após o retorno das sondas-foguete 456-18, 19, 34 e 65. O 82o grupo de naves ligeiras da frota CCDXII de Árcon foi retirado das linhas de combate hoje, às 5h54m34seg tempo de Terrânia. Todos os oficiais robotizados abandonaram suas unidades e foram colocados a bordo da nave de carga H-56 874.
Às 11h3m21seg, tempo de Terrânia, o comando das unidades do 82o grupo de naves ligeiras foi assumido por tópsidas.
Às 14h33m06seg, o grupo voltou à frente de combate.
0005-1 ao chefe.

Naquele instante, Perry Rhodan teve a impressão de ver seu Império Solar esfacelar-se sob os golpes de fogo das gigantescas naves de Árcon.
Obrigado! — disse para dentro do microfone.
E as outras notícias, Perry? — perguntou o arcônida, um tanto contrariado.
Allan D. Mercant e John Marshall não conseguiram ler a mensagem projetada na tela. Não sabiam do que se tratava.
Rhodan não tomou conhecimento da pergunta de Atlan. Pálido e nervoso, dirigiu-se a Mercant e Marshall.
O 82o grupo de naves ligeiras da frota CCDXII de Árcon passou a ser tripulado por tópsidas.
O Marechal Allan D. Mercant, que era um exemplo de autocontrole, levantou-se de um salto. A reação de John Marshall não foi tão forte. Pôs as mãos na cabeça e murmurou:
Tópsidas... tópsidas...!
Atlan fez soar sua voz forte.
Será que também posso ser informado? Como é que esses lagartos podem tangê-los para dentro das tocas?
Perry Rhodan levou apenas alguns segundos para recuperar sua calma proverbial. Fitou Atlan, que lhe lançava um olhar provocador.
Os lagartos do planeta Topsid não nos tangerão para as tocas. Mas, com o auxílio de Árcon, que lhes será prestado de boa vontade, eles nos obrigarão a sair do nosso esconderijo. É que os tópsidas conhecem a posição da Terra há mais de setenta anos, com um erro de medição de apenas vinte e sete anos-luz.
Ora, bárbaro! — revidou Atlan em tom penetrante. — Vocês têm um certo humor grosseiro. Acontece que desta vez minha inteligência arcônida não consegue compreender. Esta piada...
É uma piada da história, Atlan — completou Rhodan em tom amargurado.
Será que vocês não me poderiam dizer logo onde está a graça? — perguntou o arcônida em tom áspero. Em seus olhos amarelentos havia um perigoso brilho. — Como é que os lagartos têm conhecimento da posição da Terra, com um erro de apenas vinte e sete anos-luz? Por que ainda estão sentados em seus lugares? Rhodan, será que o que você acaba de dizer não é nenhuma piada? Será que vocês realmente se esqueceram de que os tópsidas conhecem o local aproximado em que a Terra gira em torno do Sol?
Isso mesmo — confessou Perry Rhodan. — Nestes últimos setenta anos ninguém se lembrou disso. E agora o computador-regente fez dos tópsidas os comandantes de alguns dos couraçados arcônidas. Basta que alguém cite meu nome, para que uma certa lembrança seja despertada. E, com toda certeza, três horas depois, alguns milhares de naves arcônidas vasculharão este setor da Via Láctea, partindo da fixação goniométrica de um ponto situado a vinte e sete anos-luz daqui.
Perry Rhodan apresentou um relato resumido dos acontecimentos anteriores.
Tudo começou quando a nave exploradora de Thora foi obrigada a realizar um pouso de emergência na lua terrana, isso porque os tripulantes degenerados se haviam esquecido de levar certos acessórios.
Uma mensagem de hiper-rádio foi dirigida ao sistema estelar M-13, a fim de informar Árcon, naquele tempo ainda não governado por um computador. Mas Árcon não prestou atenção à mensagem, ou então esta não chegou ao destino, em virtude de um dos raríssimos fenômenos de interferência. Acontece que a raça inteligente de lagartos, que vivia no planeta Topsid, no sistema de Orion-Delta, realizou a localização goniométrica do ponto de expedição da mensagem. No entanto, tal raça não se deu conta de que, em virtude de um erro na determinação da coordenada chi, havia uma divergência de vinte e sete anos-luz.
Logo depois, os lagartos de Topsid foram procurar a Terra e o cruzador arcônida no sistema de Vega, onde encontraram uma raça semelhante aos humanos e aos arcônidas, que eram os ferrônios. Este povo adorável e inofensivo não conseguiu defender-se da invasão vinda de uma distância de cerca de oitocentos anos-luz. Mas Perry Rhodan conseguiu, com uma força extremamente reduzida, infligir uma derrota arrasadora aos tópsidas que se encontravam no setor de Vega. Isso representou um de seus primeiros triunfos, que parecia abrir o caminho à realização do grande objetivo, isto é, um dia transformar-se no soberano do Universo.
O planeta Topsid fica a oitocentos e quinze anos-luz da Terra, Atlan. O erro de medição que os tópsidas cometeram na coordenada chi é de apenas 3,4 por cento. Bem, no sistema de Betelgeuze tivemos mais um confronto com esses lagartos...
Isso mesmo — confirmou Atlan. — Naquela oportunidade Árcon, os saltadores e os médicos galácticos acreditaram que a Terra tivesse sido devorada pelo fogo infernal das reações atômicas. Tratava-se de uma Terra que, numa manobra hábil, você “transferiu” para esse lugar. Mas quando chegou a hora de fazer isso, você deveria ter-se lembrado do resultado das medições realizadas pelos tópsidas. Como é que você pôde esquecer uma coisa dessas? É difícil de compreender.
Acontece que os humanos não são como os arcônidas, almirante — respondeu Perry Rhodan com a voz tranqüila e voltou a dirigir-se ao chefe do Exército de Mutantes. — Chame seu pessoal de volta, John!
O que pretende fazer? — perguntou Atlan em tom curioso.
Quero aproveitar a última chance de apagar as conseqüências de nossa omissão, desde que o tempo ainda seja suficiente para isso.
Quer ir a Topsid, onde estão os lagartos? — perguntou Atlan em tom de surpresa.
Mais uma vez sentiu admiração por esses terranos obstinados, cuja audácia muitas vezes lhes permitia enfrentar problemas que um intelecto arcônida não conseguia compreender.
Não quero, Atlan, preciso ir para onde estão os tópsidas.
Hoje em dia, Topsid pertence ao Grande Império — ponderou o arcônida.
Você também pertence, não pertence? — perguntou Rhodan sem a menor comoção.
Mais uma vez Rhodan não aguardou resposta. Dirigiu-se a Allan D. Mercant.
Quantos agentes se encontram em Topsid?
Dois — respondeu Mercant imediatamente. — Ho Kwanto e F. C. Curtiss. O fato de Topsid pertencer ao Império Arcônida é de importância secundária. Os lagartos podem sentir tudo, menos contentamento, quando alguém lhes fala em Árcon. Gostariam de desligar-se o quanto antes do Grande Império.
Será que é por isso que fornecem os comandantes para um grupo de naves? — perguntou Atlan em tom irônico.
Não posso contestar o que o senhor acaba de dizer — disse Mercant com um gesto de cortesia. — Acontece que minha afirmativa não envolve qualquer contradição. Caso os tópsidas se tivessem atrevido a não atender à solicitação do regente, que desejava o fornecimento de tripulantes para as naves, o planeta não mais existiria.
Perry Rhodan não participou da discussão.
Mercant, mande verificar se em Topsid já existem arcônidas. Preciso dessa informação dentro de cinco horas. Mais alguma coisa a discutir, senhores?
Essas palavras representavam o sinal de que a conferência estava terminada.
O administrador-geral viu-se a sós com Atlan.
Bem — começou Atlan usando, sem que o percebesse, uma expressão a que Bell costumava recorrer. — Até eu já não sei o que dizer. Mas gostaria de repetir a pergunta que acabo de formular. Como foi que todos vocês se esqueceram que os lagartos conheciam, aproximadamente, a posição galáctica da Terra?
Perry Rhodan manteve-se em silêncio.
O arcônida nunca obteria uma resposta.
O fato fora esquecido, e agora os homens do Império Solar teriam de arcar com as conseqüências.
3



Desde o momento em que foi travada a palestra memorável, vinte e quatro horas já se haviam passado. E nessas vinte e quatro horas os mutantes chegavam ininterruptamente a Terrânia.
John Marshall chamou seu pessoal de volta. Quando viram que não eram os únicos que estavam sendo convocados, compreenderam que em algum lugar havia um perigo gravíssimo.
Bell preferiu não falar mais em seu dedo. Nem teve tempo para isso. Na última noite não vira a cama, mas em compensação elaborara um plano detalhado, que provocou uma expressão de perplexidade e pavor em Atlan:
O quê? Vocês pretendem ir a Topsid disfarçados de arcônidas?
Será que é tão difícil fazer o papel de um arcônida sonolento e arrogante? — perguntou Bell em tom zombeteiro.
Atlan preferiu não dizer nada; estudou o plano.
Na sala contígua, Rhodan conferenciava com John Marshall. O chefe do Exército de Mutantes anunciou ao administrador do Império Solar que todos os mutantes já se encontravam em Terrânia, com exceção de alguns que não podiam sair do lugar em que se encontravam.
Harno veio?
Sim senhor.
Gucky ainda não se apresentou a mim. Será que não veio?
Veio. Acontece que há algumas horas está a bordo da Kublai Khan. Ao que parece, o rato-castor mais uma vez anda espionando os pensamentos de alguém.
Como chegou a essa conclusão, Marshall? — perguntou Rhodan em tom curioso.
Perry fazia questão de que fosse cumprida sua ordem de que, com exceção de John Marshall, ninguém devia ler os pensamentos dos personagens mais importantes de Terrânia. E essa ordem também se aplicava a Gucky.
Faz uma hora que me encontrei com ele na sala de comando da Kublai Khan. Estava deitado numa poltrona e contemplava suas botas especiais. Quando me viu, disse com a cara mais inocente deste mundo: “John, será que estas botas quadráticas não deveriam ser substituídas por botas aquecidas? Não acredita que depois de concluída esta missão todos estaremos com os pés frios?” Quando ouvi estas palavras da boca de Gucky, compreendi que ele havia arranjado certas informações.
Quer dizer que descobriu que pretendemos utilizar a Kublai Khan — disse Rhodan em tom pensativo. — Marshall, o senhor estava a sós com Gucky na sala de comando ou...
Estávamos a sós, Sir.
Qual foi a resposta que você lhe deu, John?
Fiquei contrariado, Sir. O pessimismo do rato-castor foi a célebre gota que entornou o caldo. Eu lhe disse em tom indignado: “Se quiser, mande fazer uma calça especial para certas emergências!” Acontece que, com isso, admiti de forma indireta que tínhamos pela frente uma missão arriscada. Gucky sorriu com seu dente roedor e disse: “A barra será pesada como nunca. Quando me lembro do dedo cortado do gorducho, meus pés esfriam logo.” Depois indaguei junto a Mister Bell se havia comentado algo com Gucky, mas ele me disse que não lhe contou nada do dedo machucado. Logo...
Nesse momento, Gucky chamou pelo telecomunicador. Encontrava-se a bordo da Kublai Khan e anunciou, com um atrevimento a toda prova, que escutara a conversa entre Rhodan e Marshall.
E daí? Muito pior que isso é a porcaria que estão fazendo aqui. Se a Kublai Khan tem de ser transformada num supergigante arcônida, poderíamos esperar ao menos que essa gente dominasse a ortografia arcônida... On-Tharu é escrito com th. É claro que disse umas boas a esses cabeças de minhoca...
Eram as expressões de Reginald Bell, que o rato-castor usava com uma alegria infernal. Mas ao ouvir a expressão “cabeças de minhoca”, Perry Rhodan interrompeu-o em tom áspero.
Tenente Guck, a situação é séria demais para...
Bem — interrompeu o rato-castor. — Se você me chama de tenente, a barra realmente deve estar pesada. Mas não acho nada bonito que Marshall tenha feito minha caveira junto a você. Posso ir até aí, Perry?
Venha imediatamente. Isto é uma ordem.
John Marshall e Perry Rhodan perceberam que o rato-castor não estava mais presente na tela. Já devia estar a caminho num salto de teleportação.
Mas não viram Gucky sair em meio a um tremeluzir do ar. Rhodan mandou que Marshall o procurasse, isto é, que captasse seus impulsos mentais. Depois de alguns minutos, o chefe do Exército de Mutantes teve de confessar que não conseguia encontrá-lo.
Um dia destes preciso ter uma conversa com Gucky! Desta vez não o tratarei com luvas de pelica — disse o Administrador-Geral em tom contrariado.
Esforçou-se para voltar ao assunto. Ele e John Marshall voltaram a discutir o plano elaborado por Bell, cujo ponto principal residia na utilização dos mutantes.
Marshall teve suas objeções.
Essa concentração de mutantes não representaria um risco extraordinário? Se alguma coisa nos acontecer, e o senhor não pode desprezar esta possibilidade, poderá ver-se na contingência de ser privado de todo o Exército de Mutantes.
John — respondeu Perry Rhodan, sacudindo levemente a cabeça. — Acho que você ainda não compreendeu que o pecado que cometemos por omissão nos obriga a adotar este procedimento. Faz apenas setenta anos que se verificou a invasão dos lagartos no setor de Vega. Isso não basta para demonstrar que o perigo de sermos localizados por eles ou pelo computador-regente é muito grande?
É bem verdade que o ditador que então exercia o governo e os membros de sua junta militar provavelmente já terão morrido. Em compensação deve haver alguns milhares de tópsidas que guardam uma lembrança muito viva dos acontecimentos por que passaram. Além disso, não nos devemos esquecer dos registros. Mesmo que a memória dos tópsidas não represente nenhum perigo, os registros poderão representar nossa desgraça. Para remover esse perigo iminente, temos de lançar mão de todos os recursos, a fim de desenvolvermos em Topsid uma ação que não conste de nenhum documento histórico.
Sei que estou assumindo um risco muito grande, Marshall. Também sei que o senhor e seu Exército de Mutantes terão uma tarefa muito difícil. Caso apenas um homem falhe, todo o Império Solar estará irremediavelmente perdido. Pois, nesse caso, os arcônidas virão o mais depressa possível.”
Acontece que John Marshall tinha outras objeções contra a utilização maciça dos mutantes. E, graças ao seu senso de responsabilidade, ele as formulou. Perry Rhodan tinha todos os motivos para felicitar-se por ter um comandante do Exército de Mutantes que era incômodo, porém honesto.
Sir, acaba de dizer que todos os tripulantes da nave serão escolhidos pelo aspecto exterior. Quer dizer que todos devem ser homens cujo corpo se pareça com o dos arcônidas. Acontece que o tamanho da maioria dos mutantes é inferior à média. Peço-lhe que considere este ponto.
O senhor tem outro plano que seja mais fácil e tenha iguais chances de êxito, Marshall?
Acho que não seria difícil instalar em Topsid uma rede de emissoras hipnóticos que influencie os lagartos até o momento em que o computador-regente não represente mais nenhum perigo para nós.
Ora, Marshall! — respondeu Perry Rhodan com certa perplexidade, lançando-lhe um olhar de recriminação. — O senhor sabe perfeitamente qual é minha opinião sobre esse tipo de influência em massa. Só recorro a esse recurso quando não tenho outra alternativa, e mesmo então o faço a contragosto. No presente caso, ainda acontece que nossos dados a respeito dos lagartos são muito escassos. Não sabemos se uma hipnose, que dure algumas semanas ou meses, provocará algum dano em seus cérebros. Será que mais tarde terei de recriminar-me por ser responsável pela doença mental de cem mil lagartos? Afinal, não sou nenhum computador desalmado.
Perry Rhodan nem se deu conta de que, com estas palavras, acabara de passar por uma prova através da qual alcançaria a consagração dos desejos de domínio do Império Solar, enquanto certa construção artificial existente em Árcon III nunca poderia passar de um fenômeno transitório, condenado a desaparecer em pouco tempo.
Antes que Marshall pudesse dar uma resposta, a porta abriu-se e Allan D. Mercant entrou ao lado do rato-castor.
A rigor, Gucky deveria esperar algumas repreensões extremamente duras. No entanto, sorria amavelmente com o dente roedor. Foi saltitando pela sala sobre os pezinhos enfiados em botas especiais e apoiando-se levemente sobre a cauda larga. Com um gesto grandiloqüente, deixou-se cair numa das poltronas.
Rhodan, que recorreu à sua capacidade telepática pouco desenvolvida para ler os pensamentos do rato-castor, encontrou um forte bloqueio. Gucky não permitiria que qualquer espia atingisse seus pensamentos.
Sinto incomodá-lo, Sir — disse Allan D. Mercant ao entrar. — Gucky me procurou depois de pôr em alarma o Serviço de Segurança. A ação por mim desencadeada ainda está em andamento. Mas espero que seja concluída em breve.
Gucky impediu Ulbers, o especialista em telecomunicações, e Huang-Lu, o técnico em mecanismos de propulsão, de transmitirem ao grupo estacionado na Lua o sinal convencionado para o lançamento de uma sonda. O Serviço de Segurança já apreendeu essa sonda. Tal aparelho levaria um emissor de hiper-rádio programado para começar a transmitir, cinco minutos após o lançamento, a posição galáctica da Terra.”
Allan D. Mercant, que costumava ser a calma em pessoa, forneceu estas explicações com a voz trêmula. Por um instante Perry Rhodan empalideceu, e John Marshall estremeceu visivelmente.
O rato-castor refestelou-se na poltrona, deixou girar os olhos inteligentes e exibiu o dente roedor num sorriso ainda mais gentil. Encostara a pata dianteira esquerda à braçadeira da poltrona e mantinha a cabeça apoiada na mesma. Estava de olhos fixos no administrador.
Mas Rhodan olhava para além de Gucky. Levou apenas um segundo para absorver a notícia chocante.
Mercant, por que o senhor supõe que a ação estará concluída dentro de pouco tempo? — perguntou.
Gucky forneceu ao Serviço Solar de Segurança os nomes de todas as pessoas ligadas à conspiração contra o Império Solar. Ulbers e Huang-Lu haviam sido destacados para servir na Kublai Khan e encontravam-se na nave, mais precisamente na sala de rádio, quando Gucky interveio e os segurou por meio da telecinese. Depois pôs o Serviço de Segurança em alarma e providenciou para que Ulbers e Huang-Lu fossem “recepcionados” pelo pessoal de bordo. Após isso voltou a aparecer à minha frente.
O interfone chamou. A imagem da tela estabilizou-se e um homem, que trazia na lapela do uniforme o pequeno distintivo do Serviço Solar de Segurança, disse em tom lacônico:
Sir, operação Flauta Mágica concluída. Os dezoito conspiradores estão presos. Fim da mensagem. Alguma pergunta, Sir?
Q chefe do Serviço Solar de Segurança não teve mais nenhuma pergunta, mas Rhodan indagou com certa admiração na voz:
Por que deu esse nome ao caso?
Não faço a menor idéia — respondeu Mercant meio embaraçado. — Por que será mesmo?
O rato-castor, que continuava em sua poltrona, piou:
Por que não iríamos chamar a operação de Flauta Mágica? É claro que, numa questão dessas, devemos dar asas à fantasia. Afinal, essa gente queria chamar os arcônidas com sua flauta. Foi por isso que mobilizei tão depressa seu Serviço de Segurança, Allan. No momento em que berrei para dentro do microfone que a operação Flauta Mágica iria ter início, os sujeitos saíram correndo. Ninguém fez perguntas. Absorveram que nem umas esponjas os endereços que lhes forneci, e a coisa começou a rolar. Acontece que não havia nada de especial em tudo aquilo. Você, John, fez minha caveira junto a Perry. Por isso fiquei com uma tremenda raiva e, para acalmar-me, soltei minha telepatia. Fiz uma visita à sala de rádio e peguei Ulbers e Huang-Lu, quando estes pretendiam levar avante seu plano infame. Foi só isso. Depois os homens da Kublai Khan cuidaram desses porcalhões e...
Gucky! — interrompeu Perry Rhodan em tom de recriminação e esteve a ponto de dizer mais. Porém o rato-castor retificou-se no mesmo instante e prosseguiu:
Depois os homens da Kublai Khan cuidaram desses cavalheiros. Eu os coloquei num estado favorável às confissões e retirei de suas vibrações cerebrais os nomes dos cúmplices.
O que foi que você fez com eles? — perguntou Rhodan.
Gucky continuou acomodado em sua posição. Falando num tom imponente, disse:
Perry, você é o administrador do Império Solar. Deixe essas ninharias por nossa conta. Não se preocupe com isso. Quando terá início a operação Dentista?
O que é isso? — perguntou Rhodan com uma contrariedade perceptível.
Será que essa palavra não é clara, Perry? — perguntou o rato-castor com uma ingenuidade fingida. — Não resolvemos arrancar todos os dentes desses lagartos de Topsid, para que eles não nos possam machucar mais?
Ponha-se daqui para fora, seu fingido...
O ar começou a tremer em redor da poltrona onde Gucky estava sentado. No mesmo instante, este desapareceu da poltrona e da sala. Ele, que chamava todo mundo de você, sem fazer exceção com relação a Perry Rhodan, percebeu imediatamente que as condições atmosféricas no interior do gabinete de Rhodan pioraram para ele, e então saiu sem despedir-se.
O instrumento de Allan D. Mercant, ou seja, o Serviço Solar de Segurança trabalhou com a precisão de um computador positrônico.
Poucos minutos depois de Gucky ter-se retirado, chegou um relatório pelo interfone, que esclareceu inclusive os motivos da conspiração.
Nos últimos três anos, os dezoito conspiradores haviam sido advertidos, e, em alguns casos, até mesmo punidos por infrações disciplinares dos tipos mais variados. Nunca houve qualquer queixa quanto à eficiência do trabalho deles.
Ulbers chegava mesmo a gozar da fama de ser um dos melhores especialistas em hipercomunicações, e os três aperfeiçoamentos introduzidos por ele no estágio final do aparelho provavam que essa fama tinha sua razão de ser.
Com o correr do tempo sua disposição oposicionista face à política de Rhodan transformara-se em ódio, que o levou a conceber a revelação da posição da Terra aos arcônidas por meio de uma hipermensagem permanente, que seria irradiada por uma sonda disparada para o espaço.
Uma desgraça quase nunca vem só — disse Rhodan em tom deprimido assim que leu a mensagem. — O que vamos fazer com Gucky? Não posso puni-lo, por ter evitado uma terrível catástrofe. Por outro lado, uma pequena lição não lhe faria mal, pois assim talvez no futuro tenha cuidado e não volte a exorbitar. Por que está rindo, Marshall?
Sir — disse o telepata. — Gucky sempre vive nos enganando. Isso faz parte de sua personalidade; no dia em que não o fizer mais, deixará de ser Gucky, o rato-castor.
4



Rhodan destacou três mil swoons e igual número de criaturas humanas para a tarefa de, no menor prazo possível, criarem um aparelho que permitisse manter estáveis no hiperespaço gigantescos campos ionizados.
Bell, que também elaborara esta parte do plano contra Topsid, mais uma vez deu prova de que sabia lidar muito bem com gente — ou, se necessário, com os swoons, também conhecidos como homens-pepino.
De início só colheu olhares de perplexidade. Sempre que falava no seu plano de criar gigantescos campos ionizados, defrontava-se com palavras de incompreensão.
Deixou que se divertissem, não se indignou, não fez nenhuma alusão irônica, mas dentro de duas ou três horas voltava a falar com os peritos, debatendo sempre o mesmo problema.
Preciso de hipercampos de interferência de dimensões astronômicas. Preciso de campos desse tipo que não entrem em colapso em uma hora, nem em cem horas, e nem mesmo em mil horas. Em outras palavras, preciso de aparelhos que me permitam paralisar o tráfego de hiper-rádio de todo um planeta. É bem possível que, se estes aparelhos não forem fornecidos, dentro de um prazo muito curto, os senhores mudem de patrão. É só por isso que acredito que dentro de três dias terei uma série de aparelhos aptos a entrar em funcionamento. Afinal, não há nenhum obstáculo teórico à construção de um aparelho desse tipo.
Até mesmo os swoons, os micromecânicos — verdadeiros gênios em suas especialidades — disseram que a exigência de Bell era impossível de ser atendida. Mas, por isso, tiveram de travar conhecimento com outra faceta da personalidade de Bell: sua teimosia insuperável.
Meus caros — disse em tom condescendente — não sou nenhum leigo no assunto e sei que minha ordem é quase inexeqüível. Quase... Esta palavrinha deveria servir-lhes de estímulo para procurarem tornar possível o impossível.
Se partirmos do pressuposto de que, no hiperoscilógrafo, a constante hy e as curvas formam...
Reginald Bell obrigava os peritos a falar de assuntos profissionais. Entendia do assunto, menos que eles, mas o suficiente para estimulá-los. Mas nunca conversava mais de meia hora, pois sabia perfeitamente que o tempo urgia, e que a qualquer momento a desgraça poderia surgir sob a forma de várias esquadrilhas arcônidas que sobrevoassem a Terra.
Terrânia, que, para o observador superficial, era apenas uma metrópole agitada, passou a ser um verdadeiro inferno de apressados preparativos.
As panes surgiam em todos os lugares. Havia incidentes com os quais ninguém contara. Planos detalhados tinham de ser modificados. As ordens eram substituídas por contra-ordens. Um item, que há meia hora ainda figurava da agenda com um grau máximo de urgência, era abruptamente retirado das linhas de produção.
Um pequeno exército de robôs obteve um aspecto arcônida. Toda a programação dos mesmos teve de ser reformulada. A nova programação baseava-se no fato de que o orgulho e a arrogância constituem características fundamentais dos arcônidas.
Os dois mil tripulantes da Kublai Khan foram submetidos a um processo intensivo de aprendizado hipnótico. Apresentar-se-iam como arcônidas no planeta de Topsid, e por isso deveriam ser arcônidas, não só pelo aspecto exterior, mas também pelo gênio e pelas atitudes.
A Kublai Khan, rebatizada com o nome de On-Tharu — o erro de ortografia foi corrigido — não seria a única nave que participaria da operação. Seria acompanhada por oito naves da classe Estado, com cem metros de diâmetro e tripuladas com cento e cinqüenta homens, além de dois cruzadores pesados. Em seus envoltórios esféricos havia letras e cifras arcônidas. Embora não devessem pousar em Topsid, Rhodan não desejava que, na hipótese de um encontro casual com uma nave do Grande Império, algum erro mínimo representasse o princípio do fim.
O plano de Bell, que nas linhas gerais merecera a aprovação de Rhodan, previa quatro dias para os preparativos. Mas quando o segundo dia chegou ao fim, teve-se a impressão de que, nem dali a uma semana, as naves poderiam decolar em direção ao planeta de Topsid, situado no sistema de Orion.
Uma pane sucedia-se à outra.
Novas notícias alarmantes surgiram da zona de descarga, onde as lutas entre os druufs e os arcônidas continuavam a consumir quantidades enormes de materiais.
O computador-regente de Árcon estava mobilizando todos os povos auxiliares do Grande Império e os obrigava a enviar ao front os comandantes espaciais e os oficiais mais competentes.
Só os tópsidas estavam guarnecendo nada menos de dezenove esquadrilhas!
Perry Rhodan avisou Bell, que acabara de suspirar aliviado porque conseguira desatar em três horas de lutas um nó cego de incidentes imprevistos.
Ah, é? Dezenove esquadrilhas? Todas estão guarnecidas com oficiais tópsidas! Você está só, Perry?
Estou — respondeu Rhodan.
Pois então faça-me o favor de não me contar mais nada. Estou com medo. Não sei o que houve comigo. Alguma coisa vem em nossa direção e nos atropelará. Santo Deus, Perry, será que negligenciamos ou esquecemos mais alguma coisa?
Rhodan lembrou-se da pergunta de Atlan, sobre se os pressentimentos desastrosos de Reginald Bell representavam uma atitude pessimista ou realista. Acontece que nunca vira Bell nesse estado. Era bem verdade que, antes do pouso no planeta de Honur, Bell também desempenhara o papel do homem das advertências incessantes, mas as coisas não chegaram ao ponto em que agora estavam alcançando.
Para a operação especial a ser realizada em Topsid não foi esquecida ou negligenciada coisa alguma — respondeu Rhodan com a voz firme. — O centro de computação de Vênus também realizou seus cálculos a este respeito e, em todos os pontos importantes, chegou à conclusão de que as chances de êxito eram de 85 a 97,5 por cento.
Ora, o computador — disse Bell fungando. — Minha aversão por esses monstros positrônicos cresce a cada dia que passa. Como instrumentos de cálculos são formidáveis, mas como profetas... Perry, neste ponto eu preferiria que eles fossem para o inferno. Prometi a mim mesmo que durante esta operação seguiria o meu instinto, sem dar qualquer atenção às recomendações do computador positrônico.
Provavelmente você não terá tempo de desenvolver qualquer atuação positiva, Bell — exclamou Perry Rhodan pelo videofone. — Seu plano sofreu uma única modificação. Nem você, nem Atlan, nem eu dirigiremos oficialmente a operação a ser desenvolvida em Topsid. Isso ficará a cargo de nossos técnicos e mutantes.
Bell soltou um assobio.
O que restará para nós, Perry?
Apenas o trabalho miúdo, as filigranas. Temos diante de nós uma tarefa quase insolúvel: devemos tomar todos os preparativos para enganar o computador-regente de Árcon. Você já imaginou o que significa fornecer dados falsos ao gigantesco computador positrônico? Quero ajudá-lo a recuperar a autoconfiança que, pelo que vejo, está profundamente abalada. É bom que saiba o que o centro de computação de Vênus acha de nossos planos. Quando trouxe o resultado, Atlan estava bastante deprimido.

É impossível falsificar uma série de fatos incorporados à história, e que o povo tenha vivido em toda a extensão. Os cálculos de probabilidade produziram uma série de resultados situados entre 78 e 98,46 por cento, o que equivale à negativa de uma possibilidade de êxito.

Se admitirmos que a corda bamba pela qual teremos de andar durante a operação Topsid deve ter uma espessura de cem, tal corda em certos lugares está reduzida a 1,54 por cento desse valor. E a esses 1,53 por cento se contrapõem esses 98,46 por cento.”
Perry — interrompeu Bell em tom enérgico — você nunca se admirou de que no curso dos decênios nós, do Império Solar, nunca sofremos um revés de verdade? E olhe que já o merecemos. Sim, é isso mesmo. Não adianta olhar-me com esse ar de espanto. O que é que costumamos fazer antes de qualquer ação? Procuramos a Pítia moderna e pedimos que ela nos diga em números e frações decimais se nossas chances são boas. Estamos no melhor caminho para transformar-nos em arcônidas. Engolimos sem a menor resistência tudo que um computador construído, segundo a mentalidade arcônida, joga à nossa frente e nos esquecemos de que somos homens, seres pensantes, sensíveis.
Faça-me o favor de não me vir com o argumento de que a operação de Topsid poderá trazer certas conseqüências graves, e que foi este o motivo de ter sido formulada a consulta ao cérebro positrônico montado em Vênus. Qualquer ato traz suas conseqüências. Está na hora de deixarmos de aceitar o papel de escravos do computador, para voltarmos a ser homens que aproveitam integralmente sua capacidade de agir. Assim seremos superiores a qualquer cérebro positrônico e conseguiremos vencer o desafio que nos espera em Topsid.
A preguiça mental e a degenerescência dos arcônidas é devido principalmente aos cérebros positrônicos. Será que nossos netos e bisnetos deverão ser tão indolentes como eles? Por isso pouco me interessa o que o grande centro de computação de Vênus tenha dito a respeito da ação que planejamos. Caramba, Perry! Não somos arcônidas, mas homens. E devemos saber agir como seres humanos.”
Perry Rhodan não deu qualquer resposta. Limitou-se a levantar uma folha e colocá-la à frente da lente da objetiva.
Bell leu ao lado da percentagem de 98,47 a seguinte observação manuscrita de Perry Rhodan: “Resultado incorreto. Valores humanos não foram considerados. PR.”
Por que deixou que eu falasse tanto? — disse Bell com um sorriso largo.
Porque gostei de ouvi-lo, Bell. Acho que vez por outra temos de chamar à lembrança esse tipo de verdade. Aliás, como vai o projeto de criação de campos de ionização?

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html