Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A Kublai
Khan e o Exército de Mutantes em missão suicida —
...é uma
questão de segundos!
O
ano-novo chegou...
Poucos
desconfiam de que tal ano, tão efusivamente comemorado, será um
período importante para os destinos da Humanidade. Será o ano da
grande decisão...
O
Império Solar, que é uma organização minúscula em comparação
com o Império dos arcônidas ou com o Universo dos druufs, vê-se
literalmente entre dois fogos. Bastava uma fagulha para desencadear a
guerra que atingiria o sistema solar. E, por uma falha, esta fagulha
já está acesa há 73 anos... e se chama tópsidas!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Reginald
Bell
— O
melhor amigo de Perry Rhodan.
Gucky
— Toda
vez que o rato-castor é chamado de Tenente Guck, a barra está
pesada.
Atlan
— O
imortal que não tem a menor dificuldade em desempenhar o papel de um
arcônida típico.
Tgex-Go
— Presidente
de Topsid.
Gallus
— Especialista
em campos de ionização.
Joe
Pasgin
— Comandante
da nave Burma, que dá início à missão suicida.
1
Tudo
começou a dois dias, na festa do ano-novo.
A morte de
Thora ainda lançava sua sombra sobre o reduzido número de homens
que comandavam os destinos do Império Solar. No entanto, mesmo estes
celebraram a despedida do ano de 2043, embora não o fizessem nos
moldes usuais.
E foi
durante esses festejos que aconteceu...
Com um
movimento infeliz, Reginald Bell derrubou um cálice de conhaque que
se encontrava sobre a mesa. O conteúdo esparramou-se e o vidro
esfacelou-se no chão. Bell abaixou-se para reunir os cacos e...
sofreu um pequeno corte na ponta do polegar esquerdo.
Todos
esperavam ansiosos pelo ano-novo. Chupando o dedo ensangüentado e
fitando o grande relógio, Bell parecia uma estátua.
— Tomara
que isso não signifique uma desgraça — disse, proferindo as
palavras com certa dificuldade, porque continuava com o dedo na boca.
Perry
Rhodan, Crest, Freyt e Mercant lançaram-lhe um olhar meio alegre,
meio irônico. Mas todos se sentiram tocados por essas palavras, pois
ninguém estava acostumado a ver Bell acreditar nas feitiçarias
astrológicas ou em maus presságios.
A conversa
agradável do pequeno grupo foi interrompida pelo incidente. Perry
Rhodan também olhou para o relógio.
Dali a
três minutos começaria o ano de 2.044; estava na hora de encher os
cálices de champanha.
Finalmente
Bell tirou o dedo da boca, pegou um lenço muito bem dobrado e
enrolou-o.
— Tomara
que isso não...
As outras
palavras foram abafadas pelo barulho infernal vindo de fora. O
ano-novo havia chegado! Para cumprimentá-lo, a cidade de Terrânia,
capital do Império Solar, recorreu a tudo que pudesse produzir
barulho. As sereias uivaram, as buzinas de alarma começaram a
berrar. Os fogos de artifício subiam ao céu límpido, produzindo um
barulho infernal. No mesmo instante foram ligados os propulsores de
impulsos das naves esféricas, cujo trovejar participou do coro de
cumprimentos, enquanto os campos de tração bem regulados mantinham
as naves da frota terrana presas ao campo de pouso.
Em meio à
atmosfera acolhedora da residência de Rhodan, raras vezes utilizada,
cinco homens brindaram a chegada do ano-novo. Não estavam em
condições de conversar sobre os sucessos e os fracassos do passado
e refestelar-se nas recordações, pois a situação geral não
estava para isto. Apesar de tudo, conservavam uma boa dose de
otimismo.
A única
exceção era Bell, do qual nunca se teria esperado uma atitude desse
tipo.
— Você
deu para ficar supersticioso, gorducho? — perguntou Rhodan,
dirigindo-se ao amigo corpulento, cujos cabelos ruivos e curtos mais
uma vez estavam arrepiados.
— Não —
respondeu Bell, descansando o copo. — Mas olhem só!
Apontou
para os cacos de vidro espalhados pelo chão.
— Este
cálice foi feito de vidro inquebrável. E aí estão os cacos de sua
indestrutibilidade. Não sou supersticioso. Acontece que estes cacos,
que em hipótese alguma deveriam provocar cortes, me feriram o dedo.
Isso só pode ser mau sinal.
— E
ainda vem me dizer que não é supersticioso? — perguntou Rhodan,
sorrindo para seus amigos e colaboradores, que se divertiam com a
atitude de Bell.
— Nunca
fui! — afirmou o gorducho em tom enérgico.
Bell
esteve a ponto de começar tudo de novo, mas nessa altura Allan D.
Mercant, chefe do Serviço Solar de Segurança, interveio na
palestra.
— Cadê
sua lógica, Mister Bell?
O gorducho
respondeu prontamente:
— Os
maus presságios nunca tiveram lógica!
Perry
Rhodan deu uma risada.
— Desisto!
— disse. — À saúde do ano de 2.044, gorducho!
Levantou o
cálice de champanha e brindou para seu melhor amigo.
Este
esvaziou o cálice de um só gole. Ao descansá-lo, disse:
— Só
desejo uma coisa: que o ano de 2.044 passe o quanto antes e que
estejamos em condições de festejar a próxima passagem de ano.
— Está
falando isso só por ter machucado o dedo? — perguntou Rhodan em
tom irônico.
Perry usou
de certa aspereza, pois Bell estava prestes a espantar a disposição
alegre dos convidados. Nessas poucas horas em que os homens que
respondiam pelos destinos do Império Solar se reuniam em caráter
particular, não se devia falar dos problemas do dia-a-dia. Perry
Rhodan dera a entender em termos bem claros que desejava mudar de
assunto.
Mas Bell
devia ter cera nos ouvidos.
— Não é
por isso — disse, voltando ao mesmo assunto. — É porque este
copo, que devia ser inquebrável...
— Chega,
gorducho! — interrompeu Rhodan. Pegou a garrafa de conhaque,
colocou-a à sua frente, enquanto com a outra mão trazia outro
cálice, em substituição ao que se quebrara. Depois num tom que
quase chegava a ser de comando: — Sirva-se, meu velho. Tome uns
tragos. Você está precisando!
*
* *
As
primeiras horas do ano foram muito agradáveis a todos.
Mas quando
se separaram, pelas três da madrugada, Bell fez questão de dizer a
última palavra.
— As
coisas irão engrossar, ou então eu não me cortei nestes cacos de
vidro inquebrável... Nesse caso, apenas terei sofrido uma
alucinação.
Ninguém o
contestou. Todos estavam ansiosos por uma boa cama, mas ninguém
conseguiu esquecer o súbito pessimismo de Reginald Bell, cujas
brincadeiras lhes custaram ao menos uma hora de sono.
*
* *
— Devagar!
— gritou O’Keefe, supercansado, para dentro do microfone da
estação de transmissão de matéria número D-18, situada no setor
lunar Han/456. Dirigia-se ao colega, que operava a estação
sincronizada localizada na Terra. — Será que logo no primeiro dia
do ano vocês querem quebrar um recorde? Esperem um minuto para
mandar a peça 762 da fita rolante. Meus robôs estão esquentando e
os campos antigravitacionais começam a transpirar.
É claro
que na Lua não havia robôs que esquentassem ou campos
antigravitacionais que transpirassem, mas O’Keefe não conseguia
acompanhar o ritmo da estação com a qual estava sincronizado.
Apesar do cansaço, proveniente de uma animadíssima festa de
ano-novo, acabara de constatar que, a dois quilômetros dali, acabara
de ocorrer uma pane na montagem da fita rolante número 66. Um espaço
oco situado pouco abaixo da superfície lunar ruíra silenciosamente,
arrastando e, provavelmente, soterrando parte da estrada rolante e
alguns robôs de trabalho.
Naquele
instante, viu o sinal vermelho. A estação transmissora de matéria,
situada na Terra, foi paralisada.
A central
de vigilância positrônica da Lua deu sinal. Esse centro de
computação controlava o processo extremamente complicado de
montagem. Estava em condições de registrar até 250 mil fatos por
segundo, ocorridos nos mais diversos lugares, e compará-los com o
cronograma de montagem introduzido em seu setor de programação.
Cabia ao centro de computação intervir no caso de uma pane,
recorrendo, se fosse o caso, às reservas de robôs de trabalho, a
fim de que o atraso no cronograma pudesse ser compensado dentro de
duas horas.
A velha
lua terrana estava transformada num único canteiro de obras.
E com isso
estava perdendo suas feições.
O homem,
que habitava a Lua, teve de mudar de residência, pois Perry Rhodan
estava tomando seu lugar. O Administrador-Geral via-se numa situação
de emergência. Na Terra não havia mais lugar para nada. Não havia
onde montar as gigantescas fitas rolantes nas quais se realizava a
produção em série de naves esféricas. Ao lado delas ficavam as
indústrias acessórias de elevado potencial de produção, nas quais
se fabricavam os conjuntos, peças e pecinhas necessárias à
fabricação das naves.
Na Lua
havia espaços imensos. De início, foram instalados no satélite da
Terra grandes estações transmissoras de matéria, sincronizadas com
as respectivas estações da Terra. Uma vez concluída essa tarefa,
teve início um fluxo de materiais da Terra à Lua. Tal fluxo faria
supor que o planeta se privaria de todas as suas indústrias.
O satélite
da Terra transformou-se no grande arsenal do Império Solar. Rhodan
investira nesse grande centro de produção de armamentos mais de cem
milhões de solares.
Naquele
momento surgira uma pequena pane durante a construção da fita
rolante número 66. Os incidentes desse tipo aconteciam cem vezes por
hora e não seriam capazes de perturbar a execução do plano. Mais
de cinqüenta faixas rolantes já estavam completamente instaladas.
Algumas centenas de milhares de robôs especializados cumpriam seus
programas, que previam a construção de naves esféricas destinadas
ao Império Solar.
A idéia
de transformar todo um mundo num arsenal não fora concebida por
Rhodan.
Árcon já
a praticara há mais de 15 mil anos. No entanto, não utilizou
nenhuma lua, mas um planeta, que foi arrancado de sua antiga órbita
e introduzido em outra.
Dezoito
minutos depois que a luz vermelha se acendeu no transmissor de
matéria da D-18 e na estação sincronizada da Terra — ou seja,
dezoito minutos depois do desmoronamento de um espaço oco na altura
da linha de montagem avançada da fita rolante 66 — tudo voltara a
correr como antes. Uma hora e meia depois disso, o atraso no
cronograma foi recuperado, apesar do cansaço de O’Keefe.
Cullins,
que naquele momento tinha a seu cargo a produção de sondas-foguete,
sentiu-se desesperado.
— Por
que é que os druufs e os arcônidas não vão para o inferno? —
disse com a voz martirizada, mas logo se esqueceu tanto dos druufs
como dos arcônidas.
O que lhe
interessava era o pedido lacônico vindo de Terrânia, que solicitava
a remessa imediata, pelo transmissor de matéria, de 4.500
sondas-foguete de determinado número, a serem expedidas para o
espaçoporto da capital do Império Solar.
Cullins
não as tinha. Acontece que junto à zona de descarga havia uma
necessidade desesperada das mesmas. A luta rugia sem cessar:
arcônidas e druufs procuravam forçar uma decisão. Os veículos
espaciais robotizados do Grande Coordenador, o computador-regente de
Árcon, faziam caça às sondas-foguete com a mesma energia que os
druufs.
Os
foguetes-espiões de Perry Rhodan eram derrubados em série. Mas
alguns deles retornavam da área de superposição, trazendo
informações preciosíssimas às naves terranas estacionadas nas
profundezas do espaço, mantendo a Terra cientificada sobre a
movimentação das frotas inimigas e sobre o tipo das tripulações.
As naves incumbidas das observações eram cruzadores ligeiros da
classe Cidade. Tinham uma tripulação bem treinada, mas seu
armamento era bastante débil. Em compensação seus mecanismos
propulsores eram extremamente fortes, permitindo-lhes que, dentro de
cinco minutos, atingissem a velocidade da luz.
Cullins
tamborilou sobre a escrivaninha. Imaginava o que aconteceria quando
informasse a Terra de que dispunha apenas de pouco menos de 3 mil
sondas. A indagação visual só agora lhe trouxe o resultado da
consulta formulada ao computador positrônico.
As 1.500
sondas que faltavam só estariam prontas para serem remetidas dali a
27 horas, 42 minutos e 7 segundos. Com um nervosismo tremendo,
aguardou a ligação radiofônica com a Terra.
O chefe do
depósito H-89, Mister Gibbons, apareceu na tela. Fora ele que pedira
o elevado número de sondas.
Exibiu um
rosto de jogador de pôquer.
— Pois
nesse caso tenho pena do senhor, Cullins, mas não poderei deixar de
informar o chefe...
— Informar
quem? — disse Cullins, interrompendo o tal do Mister Gibbons que se
encontrava na Terra. — Pretende informar Perry Rhodan?
— Quem
poderia ser? Pois foi ele que deu ordem para enviar 4.500
sondas-foguete à zona de descarga. Parece que não se trata de um
pedido rotineiro. Não é sempre que Rhodan cuida desse tipo de
assunto. Ao que parece, o ambiente está “engrossando”
em algum lugar e, ao que supomos, eles precisam das sondas para
verificar quem será atingido por tal ambiente. Prepare-se para ouvir
umas boas, Cullins.
Cullins
estremeceu quando o sinal de identificação da Administração
surgiu na tela, indicando que um personagem muito importante queria
falar com ele.
Mas quando
viu o rosto largo de Reginald Bell suspirou aliviado. Ninguém o
chamava assim. Todos só o conheciam como Bell, mas isso em nada
afetava sua personalidade. Ele mesmo não levava muito a sério as
questões de etiqueta, e não se importava se vez por outra alguém
soltava um palavrão.
— Cullins
— exclamou Bell, sacudindo a cabeça com os cabelos curtos e
arrepiados. — Se daqui a duas horas as duas naves-transportadoras
com as 4.500 sondas não puderem decolar, eu o cortarei em
pedacinhos. Não me venha com desculpas! Não as posso aceitar. Bem
que eu imaginava que uma coisa dessas iria acontecer. Não foi por
nada que cortei o dedo. Repito: esses foguetes estarão aqui embaixo
dentro de uma hora, Cullins!
Cullins
prendeu a respiração e gritou com a coragem do desespero:
— Não
estarão, Bell...
Acabara de
contrariar uma ordem do lugar-tenente de Perry Rhodan, o segundo
homem do Império Solar. Reginald Bell nunca lhe perdoaria tamanho
atrevimento.
Mas Bell
soltou uma gargalhada.
— O que
está acontecendo aí em cima? Por que nossos dados não conferem com
os de vocês?
A Lua
sempre era em cima, onde qualquer homem a via no céu; em
conseqüência, a Terra era embaixo.
Quando
Cullins ouviu a risada de Reginald Bell, o peso de uma lua parecia
cair-lhe em cima. E a pergunta sobre a diferença nos registros
deixou-o ainda mais aliviado.
— Acontece
que modificamos a linha de produção, Mister Bell. Todo o estoque de
sondas foi transformado em sucata, porque eram muito fáceis de serem
localizadas. Eu os informei sobre isso pelos canais competentes. Foi
há três... não, há quatro dias.
— Pelos
canais competentes! — Bell soltou estas palavras num gemido. —
Cullins, não posso culpá-lo por isso. Seu procedimento foi
absolutamente correto. Acontece que sempre que ouço as palavras
“canais
competentes”
lembro-me de uma tremenda surra que levei de meu pai, porque este
soube pelos “canais
competentes”
que seu filho era o “engraçadinho”
que há dois meses fazia aparecer todas as noites um fantasma em
nosso bairro. Na oportunidade, meu pai mandou criar um setor especial
na polícia, a fim de localizar o autor desse fenômeno, que já
provocara a mudança de mais de vinte filhos... Canais competentes!
Quando é que poderemos contar com as sondas, Cullins?
— Dentro
de vinte e oito horas, Sir.
Reginald
Bell fez um gesto de resignação.
— Está
bem. Quero ouvir agora os dados mais importantes sobre as novas
sondas. Então?
— Até
hoje, de cada cem sondas enviadas ao espaço, retornavam na melhor
das hipóteses 7,38 peças. Na nova versão essa proporção mudou
para 21,83.
— Os
engenheiros costumam usar uma linguagem rebuscada — disse Bell,
sacudindo levemente a cabeça. — Quer dizer que, com as
modificações realizadas nas sondas, costumam retornar vinte e duas
de cem, em vez de sete por cem. E o senhor tem em estoque três mil
dessas novas sondas?
— Sim
senhor. São exatamente três mil sondas.
Bell
soltou uma estrondosa gargalhada. Pitou Cullins e sacudiu a cabeça.
— Vocês
são de amargar! — disse subitamente com a voz irônica e
satisfeita. — Para que vamos querer mais de quatro mil sondas, se o
produto novo é três vezes mais eficiente que o antigo? Mande duas
mil sondas cá para baixo, Cullins. Elas equivalem a seis mil peças
do tipo antigo. Se sua previsão não for correta, acho que o senhor
sabe para onde terá de ir, não sabe?
— Mister
Bell — disse o homem em sua defesa — as indicações que acabo de
fazer provêm de cálculos positrônicos...
— ...e o
corte que levei no dedo provém de vidro inquebrável. Desligo.
Cullins
suspirou aliviado e enxugou o suor da testa. Lançou um olhar
perturbado para a tela que acabara de apagar-se.
— Por
todas as estrelas e galáxias! — cochichou. — O que é que um
cálculo positrônico tem a ver com uma peça de vidro inquebrável?
Cullins
jamais obteria resposta a essa indagação.
Mas, hora
e meia depois da palestra entre Cullins e o lugar-tenente de Rhodan,
uma moderada nave mercante decolou do espaçoporto de Terrânia,
levando a bordo 2 mil sondas-foguete do novo tipo, destinadas ao
aprovisionamento dos cruzadores ligeiros da classe Cidade,
estacionados nas profundezas da Via Láctea.
A barra
realmente estava pesada em determinado ponto da Galáxia. Dentre as
inúmeras notícias recebidas havia duas que Rhodan passou a Bell e
Atlan, sem dizer uma palavra.
— Acho
que isso é apenas um fenômeno isolado — disse Atlan num assomo de
otimismo.
— É
apenas o começo! — contestou Bell em tom convicto, sem deixar que
os rostos de Rhodan e Atlan o fizessem vacilar em sua opinião. —
Não posso deixar de pensar em meu dedo.
Perry
Rhodan perdeu um pouco de seu admirável autodomínio.
— Deixe-nos
em paz com suas infantilidades. Nem mesmo Gucky engoliria uma bobagem
dessas. Por que acha que esse acaso representa o início de um
processo?
A irrupção
temperamental de Rhodan não abalou o homem maciço de cabelos
cortados à escovinha.
— Representa
um começo porque estamos lidando com o grande Coordenador de Árcon.
Como sabemos, é um computador, e nunca me constou que uma máquina
desse tipo fosse capaz de deixar-se levar por qualquer das inúmeras
fraquezas humanas. Pelo que diz esta notícia, uma das naves do
Império, que até aqui tem sido dirigida por robôs, passou a ser
guiada por três mercadores galácticos. E a outra notícia diz que o
robô-comandante de outra nave foi substituído por um ara. Para mim
isso apenas permite uma conclusão: “Sua
Majestade, o Grande Coordenador”
achou que estava “gastando”
muitos robôs. Esse monstro mecânico julga mais vantajoso contar com
a previsão humana que com a programação dos robôs que leva a luta
até o fim, isto é, até a destruição total da nave. O cérebro
positrônico diz: se minhas naves farejarem os druufs...
— Será
que não poderíamos usar uma expressão mais elegante? — interveio
Rhodan em tom áspero.
Naquela
situação não estava disposto para brincadeiras e, além disso,
tinha verdadeira alergia pelas expressões grosseiras.
— Podemos,
Perry, mas o faro continua a ser um fato. Pois bem. Prossigamos no
raciocínio do computador. O mesmo há de dizer o seguinte: se as
naves dos druufs forem avistadas, os robôs lutarão para vencer ou
perecer, enquanto os condutores humanos, ao perceberem que a situação
se tornou desesperadora, procurarão salvar sua pele e, com isso, a
nave que comandam.
“Por
isso mesmo o conteúdo das duas notícias relativas ao remanejamento
da frota arcônida representa o início de uma evolução muito
inquietante da situação. O desgaste de material causado pelos
autômatos já deixou o computador com o focinho...”
Rhodan
interrompeu-o com a voz áspera; seu rosto enrubesceu ligeiramente.
— Caramba,
Bell, exijo que você se exprima em melhores termos!
— É
claro que você tem razão, Perry — confessou Bell com uma
espantosa rapidez. — Somente porque o computador-gigante de Árcon
não tem focinho...
Enquanto
os dois se digladiavam no duelo verbal, Atlan manteve-se em silêncio.
Naquele
instante sentiu inveja porque Perry Rhodan tinha um amigo como
Reginald Bell.
Rhodan, um
homem disciplinado até a ponta dos dedos e duro para consigo mesmo,
sentia-se dominado pela missão de fazer da Humanidade terrana a
dominadora do Universo. E esse homem tinha a seu lado um amigo que
nunca negligenciava seu dever, mas que sabia recuperar-se das fainas
incessantes, apresentando-se como realmente era: generoso,
desinibido, mas esquentado. Face a seu gênio impulsivo, não se
importava de vez por outra soltar uma expressão pesada. Com isso,
não apenas aliviava sua própria tensão. Também proporcionava a
Rhodan uma válvula que lhe permitia aliviar a carga psíquica, mesmo
que fizesse apenas por meio de uma resposta violenta como a que
acabara de dar.
Nessa
altura, Atlan interveio nos debates:
— Bárbaro,
seu amigo de falas indisciplinadas avaliou a situação melhor que
você e eu...
Bell
observou, falando de propósito com a voz tão alta que Atlan não
poderia deixar de ouvi-lo:
— Um dia
eu retribuirei isso, almirantezinho. Continue a falar. Gosto tanto de
ouvi-lo!
Atlan não
se deixou perturbar pela observação, mas não se esqueceu de
registrar a ameaça de Bell. Se havia alguém que costumava cumprir
uma promessa desse tipo era o amigo de Rhodan.
— Temos
de contar a qualquer momento com a possibilidade de que por alguma
circunstância ou coincidência, cujas conseqüências seriam graves
para nós, o computador-regente fique sabendo que o Império Solar
está por trás dos ataques incessantes dos druufs, e que este
Império os induz aos ininterruptos atos de agressão.
Rhodan
parecia cético.
— Almirante,
não posso concordar com isso porque...
Atlan
respondeu em tom grave:
— No
episódio de Fera Cinzenta minhas advertências não foram levadas a
sério. Se não conservarmos ao menos uma chance de enganar Árcon
com um blefe ou um truque, poderemos ter certeza de que, talvez, seis
meses após a última batalha junto à área de superposição, as
naves de Árcon pousarão neste espaçoporto. Nesse caso, a luz do
sol mal conseguirá chegar à Terra, porque algumas dezenas de
milhares de naves estarão em torno do planeta...
— Até
parece que foi ele que cortou o dedo numa peça de vidro
inquebrável...
Com isso
conseguiu fazer que até mesmo Atlan se descontrolasse:
— Mister
Bell, cale a boca! Caram...
Bell
levantou-se devagar, com um sorriso impertinente no rosto. Fez um
gesto conciliador para Atlan, que se martirizava com
auto-recriminações pelo deslize que acabara de cometer, lançou um
olhar para o administrador-geral e dispôs-se a sair.
— Amigos
— disse num tom irônico e altivo. — Pela disciplina de nossa
linguagem merecemos a nota dez. Porém, se alguém fosse avaliar
nosso desempenho em relação ao receio pelo destino do Império
Solar, todos receberíamos a nota insuficiente.
Já estava
junto à porta. Não ria mais. E também já não falava no dedo
cortado. Limitou-se a dizer:
— Graças
aos ataques dos druufs, o computador-regente de Árcon hoje é mais
forte que nunca. Os povos que compõem o Grande Império, e que são
mais de mil, obedecem-lhe sem restrições. Quantas naves tem na
frente de luta? Oitenta mil? Cem mil? Pouco importa que até o fim da
luta Árcon perca a metade dessas naves. Para nós isso é totalmente
indiferente, pois não temos condições de enfrentar cinqüenta mil
veículos espaciais, ou dez mil.
“Mas não
é isso que me tira o sono. Perry, em certa oportunidade, você e eu
deixamos de considerar um fator muito importante. Desde o primeiro
dia do ano não consigo livrar-me dessa idéia. E, desde então, fico
dando tratos à bola para descobrir o que deixamos de perceber. Ainda
não consegui saber. Apenas sei que tem algo a ver com Árcon. Boa
noite, Império Solar!
“Não
temos motivo para entreter a esperança de dispormos de um prazo de
espera até o fim das lutas junto à zona de descarga. É bem verdade
que vez por outra tenho chamado o computador-regente de montão de
lata. Hoje já sei por que andei fazendo isso. No meu subconsciente
sempre tenho certo receio por esse gênio desalmado. Usei a expressão
difamatória somente para enganar a mim mesmo. Desde o ano-novo, os
dados foram lançados.
“Basta
que, entre as centenas de milhões de conjuntos de processamento de
dados de que dispõe, o computador positrônico ponha em
funcionamento apenas um. Esse conjunto começará a calcular, e todos
sabemos que o faz muito depressa. Também sabemos que nunca se
esquece de qualquer detalhe. O cérebro registrou a identidade de
quem se dispôs a adquirir cem naves esféricas. O cérebro-monstro
não levará mais de um segundo para calcular o tamanho de nossa
frota espacial, e então as coisas começarão a ficar pretas para
nós, mesmo que haja uma guerra galáctica junto à área de
superposição.
“De uma
hora para outra, as naves arcônidas estarão aqui, e então você e
eu, Perry, poderemos fazer continência para os robôs, enquanto uma
dessas máquinas transformará o almirante numa nuvem de gás por ver
nele um traidor. Isso será inevitável, a não ser que hoje ou
amanha descubramos o que nos passou despercebido há certo tempo.
“Até
logo mais.”
Perry
Rhodan fitou-o pensativo. Atlan não disse uma única palavra. As
advertências e as previsões sombrias de Reginald Bell o haviam
atingido mais fortemente do que queria dar a perceber.
Depois de
algum tempo, Rhodan disse:
— Então
este é Bell! Desde a festa de ano-novo transformou-se num
pessimista.
— Será
que isso realmente não passa de pessimismo?
Rhodan
lançou um olhar de surpresa para o arcônida.
— O que
quer dizer com isso?
— O que
eu quero dizer, Perry, é que sem Reginald Bell você nunca teria
criado o Império Solar. Ele tem a sensibilidade correta no momento
adequado, e, além disso, tem coragem de dizer que está com medo.
Perry, será que um homem que prevê as nossas futuras dificuldades é
um pessimista? Ou será um realista?
O
administrador-geral refletiu intensamente. Os traços de seu rosto
estavam fortemente desenhados. As mãos pousavam suaves sobre as
braçadeiras de sua poltrona.
— Por
enquanto ainda não sei dizer se ele é um pessimista ou um realista,
arcônida. Tenho que dormir sobre isso.
Atlan
parecia satisfeito com essa decisão, pois acenou com a cabeça. Mas
depois de algum tempo perguntou:
— Perry,
será que poderia dizer o que vocês esqueceram ou deixaram de
considerar?
O rosto de
Rhodan demonstrou uma leve surpresa.
— Será
que você também já se impressionou com esse dedo ridículo de
Bell? — perguntou em tom indignado.
O arcônida
respondeu com a maior calma:
— Ora,
bárbaro, acho que essa pergunta ficará sem resposta. Mas não quero
fazer pouco das previsões algo confusas de Bell. Devemos
preparar-nos para podermos reagir com uma extrema rapidez a qualquer
surpresa desagradável com que nos deparemos. Isso se torna
necessário à segurança do Império Solar.
— Hum —
fez Rhodan. — Sei a que está aludindo: a Fera Cinzenta. Antes da
destruição desse mundo, eu deveria ter dado mais importância a
seus avisos. Caso dissesse que ninguém poderia prever que uma pane
num neutralizador de vibrações fosse apontar o caminho às naves de
Árcon, apenas estaria apresentando hoje uma desculpa barata. O.K.?
Bell não é nenhum pessimista, mas um realista.
— Seu
zombador! — respondeu Atlan.
2
A situação
estratégica da Terra piorava a cada dia que passava. Rhodan e seus
homens estavam perdendo o controle da situação.
Em virtude
da colisão de dois Universos que se distinguiam pela diversidade das
dimensões temporais, o Império de Árcon se tornara mais forte que
nunca, apesar de toda decadência e dos movimentos de independência
das centenas de raças que o compunham. Os ataques incessantes da
frota dos druufs, que lançava mão de todos os recursos disponíveis
para forçar a penetração no Universo einsteiniano, fizeram com
que, depois de cinco mil anos de decadência ininterrupta, o Grande
Império governado por um computador positrônico voltasse a alcançar
a união.
A frota de
guerra de Árcon, até então separada em centenas de pequenos grupos
que operavam em todos os setores da Via Láctea, voltara a constituir
uma força compacta, que realizava o bloqueio junto à zona de
descarga, onde dois Universos se tocavam e se sobrepunham em pequena
extensão.
Enquanto
duravam as batalhas entre os druufs e os arcônidas, nas quais os
gastos eram astronômicos, não havia um perigo imediato para o
Império Solar. Acontece que, segundo os cálculos dos peritos em
tempo e espaço de Rhodan, a zona de descarga se tornaria instável
dentro de uns doze meses. Então a passagem de um Universo para outro
seria fechada. Isso representava o alarma máximo para a Terra e uma
liberdade de ação absoluta para o Grande Coordenador, que poderia
lançar 80 mil naves de guerra para vasculhar a Galáxia à procura
do tal Império Solar, que, segundo os cálculos do gigantesco
computador, representava uma ameaça mais forte para Árcon que a
luta feroz contra os druufs.
Rhodan,
que esperara tirar proveito da luta entre os dois gigantes, já se
convencera, depois da destruição de Fera Cinzenta, de que isso
jamais poderia acontecer.
Todas as
precauções destinadas a manter oculta a posição galáctica da
Terra já haviam sido tomadas. Depois do episódio da pane do
neutralizador de vibrações, ocorrida nas proximidades de Fera
Cinzenta, o intercâmbio comercial com outros mundos, que vinha se
tornando cada vez mais intenso, fora reduzido a um mínimo. No
entanto, Rhodan, Bell e Atlan estavam convencidos de que essas
medidas apenas lhes proporcionariam um ganho de tempo. Um belo dia,
Árcon descobriria a Terra.
O Marechal
Allan D. Mercant, chefe do Serviço Solar de Segurança, que se
conservara jovem graças à ducha celular aplicada no planeta
artificial Peregrino, estava reunido com John Marshall, chefe do
Exército de Mutantes, Perry Rhodan e Atlan.
Allan D.
Mercant comparecera à entrevista sem levar qualquer anotação.
Neste ponto assemelhava-se a Perry Rhodan, que raramente recorria a
dados fixados por escrito, pois preferia buscar, em reuniões como
esta, soluções obtidas de improviso.
Apesar dos
grandes méritos alcançados nas ações empreendidas a favor da
Galáxia, Allan D. Mercant era um homem modesto. Criara um serviço
de comunicações que dificilmente encontraria par. Seus agentes
estavam espalhados pelos planetas mais importantes do Grande Império,
e as mensagens de rádio transmitidas por tais especialistas
refletiam a verdadeira situação do Império Arcônida.
Enquanto
Mercant apresentava seu relatório, Rhodan e Atlan mantiveram-se em
silêncio.
John
Marshall parecia distraído. Mas os homens, ali reunidos, já o
conheciam bastante para não se deixar iludir pela expressão de seu
rosto.
Naquele
momento, John Marshall estava captando os pensamentos de Reginald
Bell. Ficou sabendo de que forma este se cortara durante a festa de
passagem de ano.
Marshall
levou o incidente a sério. Lembrou-se da oportunidade em que Bell
manifestou ruidosamente sua antipatia instintiva contra o planeta
Honur, bloqueado pelos arcônidas. Daquela vez, ninguém, nem mesmo
Rhodan, o levara a sério. E, quando a catástrofe desabou sobre a
tripulação da Titan, e oitocentas pessoas, entre elas Thora, Crest
e Bell tiveram a vida ameaçada por um estado de hipereuforia, já
era tarde para dar atenção às advertências de Bell.
Enquanto
Mercant prosseguia no seu relatório, Marshall continuava a “ouvir”.
“Corremos
à velocidade da luz para uma situação que ameaça devorar-nos. Os
mutantes devem ser chamados de volta à Terra o mais cedo possível,
a fim de que possam intervir nos acontecimentos”,
pensava Reginald.
Depois
Bell, a alguns andares abaixo do lugar em que estava Mercant, passou
a dedicar sua atenção a outros problemas, e o chefe do Exército de
Mutantes voltou a participar integralmente da palestra.
A visão
do futuro deixava evidente que o Império Solar se encontrava em
situação defensiva.
— Se nos
limitarmos a esperar, estaremos praticando a política do avestruz —
disse Rhodan. — O grande computador deve ser posto fora de ação
antes que sejam travadas as últimas batalhas espaciais entre os
arcônidas e os druufs...
— Ora,
bárbaro! — interrompeu Atlan em tom enérgico. — Justamente isso
é impossível. Deixar o Grande Império sem o computador-regente
seria a mesma coisa que detonar no grupo estelar M-13 uma bomba de
fusão de dimensões galácticas. Assim não é possível. Aliás,
seria ocioso discutimos este ponto, pois ainda não encontramos
nenhum meio que nos pudesse levar a Árcon III. Estamos... Olhe, o
interfone está chamando.
A tela
cinzenta tremeluziu ligeiramente e mostrou o rosto do chefe de uma
das grandes estações de hiper-rádio de Terrânia.
— Sir,
não consegui entrar em contato com Mister Bell. Recebi certas
notícias vindas do espaço que, no meu entender, devem ser
consideradas imedia...
— Transmita
pelo vídeo! — ordenou Rhodan.
O rosto do
chefe da estação de hiper-rádio desapareceu da tela. Em seu lugar
surgiu um texto.
0005-1
ao chefe.
Resumo
das observações, após o retorno das sondas-foguete 456-18, 19, 34
e 65. O 82o
grupo de naves ligeiras da frota CCDXII de Árcon foi retirado das
linhas de combate hoje, às 5h54m34seg tempo de Terrânia. Todos os
oficiais robotizados abandonaram suas unidades e foram colocados a
bordo da nave de carga H-56 874.
Às
11h3m21seg, tempo de Terrânia, o comando das unidades do 82o
grupo de naves ligeiras foi assumido por tópsidas.
Às
14h33m06seg, o grupo voltou à frente de combate.
0005-1
ao chefe.
Naquele
instante, Perry Rhodan teve a impressão de ver seu Império Solar
esfacelar-se sob os golpes de fogo das gigantescas naves de Árcon.
— Obrigado!
— disse para dentro do microfone.
— E as
outras notícias, Perry? — perguntou o arcônida, um tanto
contrariado.
Allan D.
Mercant e John Marshall não conseguiram ler a mensagem projetada na
tela. Não sabiam do que se tratava.
Rhodan não
tomou conhecimento da pergunta de Atlan. Pálido e nervoso,
dirigiu-se a Mercant e Marshall.
— O 82o
grupo de naves ligeiras da frota CCDXII de Árcon passou a ser
tripulado por tópsidas.
O Marechal
Allan D. Mercant, que era um exemplo de autocontrole, levantou-se de
um salto. A reação de John Marshall não foi tão forte. Pôs as
mãos na cabeça e murmurou:
— Tópsidas...
tópsidas...!
Atlan fez
soar sua voz forte.
— Será
que também posso ser informado? Como é que esses lagartos podem
tangê-los para dentro das tocas?
Perry
Rhodan levou apenas alguns segundos para recuperar sua calma
proverbial. Fitou Atlan, que lhe lançava um olhar provocador.
— Os
lagartos do planeta Topsid não nos tangerão para as tocas. Mas, com
o auxílio de Árcon, que lhes será prestado de boa vontade, eles
nos obrigarão a sair do nosso esconderijo. É que os tópsidas
conhecem a posição da Terra há mais de setenta anos, com um erro
de medição de apenas vinte e sete anos-luz.
— Ora,
bárbaro! — revidou Atlan em tom penetrante. — Vocês têm um
certo humor grosseiro. Acontece que desta vez minha inteligência
arcônida não consegue compreender. Esta piada...
— É uma
piada da história, Atlan — completou Rhodan em tom amargurado.
— Será
que vocês não me poderiam dizer logo onde está a graça? —
perguntou o arcônida em tom áspero. Em seus olhos amarelentos havia
um perigoso brilho. — Como é que os lagartos têm conhecimento da
posição da Terra, com um erro de apenas vinte e sete anos-luz? Por
que ainda estão sentados em seus lugares? Rhodan, será que o que
você acaba de dizer não é nenhuma piada? Será que vocês
realmente se esqueceram de que os tópsidas conhecem o local
aproximado em que a Terra gira em torno do Sol?
— Isso
mesmo — confessou Perry Rhodan. — Nestes últimos setenta anos
ninguém se lembrou disso. E agora o computador-regente fez dos
tópsidas os comandantes de alguns dos couraçados arcônidas. Basta
que alguém cite meu nome, para que uma certa lembrança seja
despertada. E, com toda certeza, três horas depois, alguns milhares
de naves arcônidas vasculharão este setor da Via Láctea, partindo
da fixação goniométrica de um ponto situado a vinte e sete
anos-luz daqui.
Perry
Rhodan apresentou um relato resumido dos acontecimentos anteriores.
Tudo
começou quando a nave exploradora de Thora foi obrigada a realizar
um pouso de emergência na lua terrana, isso porque os tripulantes
degenerados se haviam esquecido de levar certos acessórios.
Uma
mensagem de hiper-rádio foi dirigida ao sistema estelar M-13, a fim
de informar Árcon, naquele tempo ainda não governado por um
computador. Mas Árcon não prestou atenção à mensagem, ou então
esta não chegou ao destino, em virtude de um dos raríssimos
fenômenos de interferência. Acontece que a raça inteligente de
lagartos, que vivia no planeta Topsid, no sistema de Orion-Delta,
realizou a localização goniométrica do ponto de expedição da
mensagem. No entanto, tal raça não se deu conta de que, em virtude
de um erro na determinação da coordenada chi,
havia uma divergência de vinte e sete anos-luz.
Logo
depois, os lagartos de Topsid foram procurar a Terra e o cruzador
arcônida no sistema de Vega, onde encontraram uma raça semelhante
aos humanos e aos arcônidas, que eram os ferrônios. Este povo
adorável e inofensivo não conseguiu defender-se da invasão vinda
de uma distância de cerca de oitocentos anos-luz. Mas Perry Rhodan
conseguiu, com uma força extremamente reduzida, infligir uma derrota
arrasadora aos tópsidas que se encontravam no setor de Vega. Isso
representou um de seus primeiros triunfos, que parecia abrir o
caminho à realização do grande objetivo, isto é, um dia
transformar-se no soberano do Universo.
— O
planeta Topsid fica a oitocentos e quinze anos-luz da Terra, Atlan. O
erro de medição que os tópsidas cometeram na coordenada chi
é de apenas 3,4 por cento. Bem, no sistema de Betelgeuze tivemos
mais um confronto com esses lagartos...
— Isso
mesmo — confirmou Atlan. — Naquela oportunidade Árcon, os
saltadores e os médicos galácticos acreditaram que a Terra tivesse
sido devorada pelo fogo infernal das reações atômicas. Tratava-se
de uma Terra que, numa manobra hábil, você “transferiu”
para esse lugar. Mas quando chegou a hora de fazer isso, você
deveria ter-se lembrado do resultado das medições realizadas pelos
tópsidas. Como é que você pôde esquecer uma coisa dessas? É
difícil de compreender.
— Acontece
que os humanos não são como os arcônidas, almirante — respondeu
Perry Rhodan com a voz tranqüila e voltou a dirigir-se ao chefe do
Exército de Mutantes. — Chame seu pessoal de volta, John!
— O que
pretende fazer? — perguntou Atlan em tom curioso.
— Quero
aproveitar a última chance de apagar as conseqüências de nossa
omissão, desde que o tempo ainda seja suficiente para isso.
— Quer
ir a Topsid, onde estão os lagartos? — perguntou Atlan em tom de
surpresa.
Mais uma
vez sentiu admiração por esses terranos obstinados, cuja audácia
muitas vezes lhes permitia enfrentar problemas que um intelecto
arcônida não conseguia compreender.
— Não
quero, Atlan, preciso
ir para onde estão os tópsidas.
— Hoje
em dia, Topsid pertence ao Grande Império — ponderou o arcônida.
— Você
também pertence, não pertence? — perguntou Rhodan sem a menor
comoção.
Mais uma
vez Rhodan não aguardou resposta. Dirigiu-se a Allan D. Mercant.
— Quantos
agentes se encontram em Topsid?
— Dois —
respondeu Mercant imediatamente. — Ho Kwanto e F. C. Curtiss. O
fato de Topsid pertencer ao Império Arcônida é de importância
secundária. Os lagartos podem sentir tudo, menos contentamento,
quando alguém lhes fala em Árcon. Gostariam de desligar-se o quanto
antes do Grande Império.
— Será
que é por isso que fornecem os comandantes para um grupo de naves? —
perguntou Atlan em tom irônico.
— Não
posso contestar o que o senhor acaba de dizer — disse Mercant com
um gesto de cortesia. — Acontece que minha afirmativa não envolve
qualquer contradição. Caso os tópsidas se tivessem atrevido a não
atender à solicitação do regente, que desejava o fornecimento de
tripulantes para as naves, o planeta não mais existiria.
Perry
Rhodan não participou da discussão.
— Mercant,
mande verificar se em Topsid já existem arcônidas. Preciso dessa
informação dentro de cinco horas. Mais alguma coisa a discutir,
senhores?
Essas
palavras representavam o sinal de que a conferência estava
terminada.
O
administrador-geral viu-se a sós com Atlan.
— Bem —
começou Atlan usando, sem que o percebesse, uma expressão a que
Bell costumava recorrer. — Até eu já não sei o que dizer. Mas
gostaria de repetir a pergunta que acabo de formular. Como foi que
todos vocês se esqueceram que os lagartos conheciam,
aproximadamente, a posição galáctica da Terra?
Perry
Rhodan manteve-se em silêncio.
O arcônida
nunca obteria uma resposta.
O fato
fora esquecido, e agora os homens do Império Solar teriam de arcar
com as conseqüências.
3
Desde o
momento em que foi travada a palestra memorável, vinte e quatro
horas já se haviam passado. E nessas vinte e quatro horas os
mutantes chegavam ininterruptamente a Terrânia.
John
Marshall chamou seu pessoal de volta. Quando viram que não eram os
únicos que estavam sendo convocados, compreenderam que em algum
lugar havia um perigo gravíssimo.
Bell
preferiu não falar mais em seu dedo. Nem teve tempo para isso. Na
última noite não vira a cama, mas em compensação elaborara um
plano detalhado, que provocou uma expressão de perplexidade e pavor
em Atlan:
— O quê?
Vocês pretendem ir a Topsid disfarçados de arcônidas?
— Será
que é tão difícil fazer o papel de um arcônida sonolento e
arrogante? — perguntou Bell em tom zombeteiro.
Atlan
preferiu não dizer nada; estudou o plano.
Na sala
contígua, Rhodan conferenciava com John Marshall. O chefe do
Exército de Mutantes anunciou ao administrador do Império Solar que
todos os mutantes já se encontravam em Terrânia, com exceção de
alguns que não podiam sair do lugar em que se encontravam.
— Harno
veio?
— Sim
senhor.
— Gucky
ainda não se apresentou a mim. Será que não veio?
— Veio.
Acontece que há algumas horas está a bordo da Kublai Khan. Ao que
parece, o rato-castor mais uma vez anda espionando os pensamentos de
alguém.
— Como
chegou a essa conclusão, Marshall? — perguntou Rhodan em tom
curioso.
Perry
fazia questão de que fosse cumprida sua ordem de que, com exceção
de John Marshall, ninguém devia ler os pensamentos dos personagens
mais importantes de Terrânia. E essa ordem também se aplicava a
Gucky.
— Faz
uma hora que me encontrei com ele na sala de comando da Kublai Khan.
Estava deitado numa poltrona e contemplava suas botas especiais.
Quando me viu, disse com a cara mais inocente deste mundo: “John,
será que estas botas quadráticas não deveriam ser substituídas
por botas aquecidas? Não acredita que depois de concluída esta
missão todos estaremos com os pés frios?”
Quando ouvi estas palavras da boca de Gucky, compreendi que ele havia
arranjado certas informações.
— Quer
dizer que descobriu que pretendemos utilizar a Kublai Khan — disse
Rhodan em tom pensativo. — Marshall, o senhor estava a sós com
Gucky na sala de comando ou...
— Estávamos
a sós, Sir.
— Qual
foi a resposta que você lhe deu, John?
— Fiquei
contrariado, Sir. O pessimismo do rato-castor foi a célebre gota que
entornou o caldo. Eu lhe disse em tom indignado: “Se
quiser, mande fazer uma calça especial para certas emergências!”
Acontece que, com isso, admiti de forma indireta que tínhamos pela
frente uma missão arriscada. Gucky sorriu com seu dente roedor e
disse: “A
barra será pesada como nunca. Quando me lembro do dedo cortado do
gorducho, meus pés esfriam logo.”
Depois indaguei junto a Mister Bell se havia comentado algo com
Gucky, mas ele me disse que não lhe contou nada do dedo machucado.
Logo...
Nesse
momento, Gucky chamou pelo telecomunicador. Encontrava-se a bordo da
Kublai Khan e anunciou, com um atrevimento a toda prova, que escutara
a conversa entre Rhodan e Marshall.
— E daí?
Muito pior que isso é a porcaria que estão fazendo aqui. Se a
Kublai Khan tem de ser transformada num supergigante arcônida,
poderíamos esperar ao menos que essa gente dominasse a ortografia
arcônida... On-Tharu é escrito com th.
É claro que disse umas boas a esses cabeças de minhoca...
Eram as
expressões de Reginald Bell, que o rato-castor usava com uma alegria
infernal. Mas ao ouvir a expressão “cabeças
de minhoca”,
Perry Rhodan interrompeu-o em tom áspero.
— Tenente
Guck, a situação é séria demais para...
— Bem —
interrompeu o rato-castor. — Se você me chama de tenente, a barra
realmente deve estar pesada. Mas não acho nada bonito que Marshall
tenha feito minha caveira junto a você. Posso ir até aí, Perry?
— Venha
imediatamente. Isto é uma ordem.
John
Marshall e Perry Rhodan perceberam que o rato-castor não estava mais
presente na tela. Já devia estar a caminho num salto de
teleportação.
Mas não
viram Gucky sair em meio a um tremeluzir do ar. Rhodan mandou que
Marshall o procurasse, isto é, que captasse seus impulsos mentais.
Depois de alguns minutos, o chefe do Exército de Mutantes teve de
confessar que não conseguia encontrá-lo.
— Um dia
destes preciso ter uma conversa com Gucky! Desta vez não o tratarei
com luvas de pelica — disse o Administrador-Geral em tom
contrariado.
Esforçou-se
para voltar ao assunto. Ele e John Marshall voltaram a discutir o
plano elaborado por Bell, cujo ponto principal residia na utilização
dos mutantes.
Marshall
teve suas objeções.
— Essa
concentração de mutantes não representaria um risco
extraordinário? Se alguma coisa nos acontecer, e o senhor não pode
desprezar esta possibilidade, poderá ver-se na contingência de ser
privado de todo o Exército de Mutantes.
— John —
respondeu Perry Rhodan, sacudindo levemente a cabeça. — Acho que
você ainda não compreendeu que o pecado que cometemos por omissão
nos obriga a adotar este procedimento. Faz apenas setenta anos que se
verificou a invasão dos lagartos no setor de Vega. Isso não basta
para demonstrar que o perigo de sermos localizados por eles ou pelo
computador-regente é muito grande?
“É bem
verdade que o ditador que então exercia o governo e os membros de
sua junta militar provavelmente já terão morrido. Em compensação
deve haver alguns milhares de tópsidas que guardam uma lembrança
muito viva dos acontecimentos por que passaram. Além disso, não nos
devemos esquecer dos registros. Mesmo que a memória dos tópsidas
não represente nenhum perigo, os registros poderão representar
nossa desgraça. Para remover esse perigo iminente, temos de lançar
mão de todos os recursos, a fim de desenvolvermos em Topsid uma ação
que não conste de nenhum documento histórico.
“Sei que
estou assumindo um risco muito grande, Marshall. Também sei que o
senhor e seu Exército de Mutantes terão uma tarefa muito difícil.
Caso apenas um homem falhe, todo o Império Solar estará
irremediavelmente perdido. Pois, nesse caso, os arcônidas virão o
mais depressa possível.”
Acontece
que John Marshall tinha outras objeções contra a utilização
maciça dos mutantes. E, graças ao seu senso de responsabilidade,
ele as formulou. Perry Rhodan tinha todos os motivos para
felicitar-se por ter um comandante do Exército de Mutantes que era
incômodo, porém honesto.
— Sir,
acaba de dizer que todos os tripulantes da nave serão escolhidos
pelo aspecto exterior. Quer dizer que todos devem ser homens cujo
corpo se pareça com o dos arcônidas. Acontece que o tamanho da
maioria dos mutantes é inferior à média. Peço-lhe que considere
este ponto.
— O
senhor tem outro plano que seja mais fácil e tenha iguais chances de
êxito, Marshall?
— Acho
que não seria difícil instalar em Topsid uma rede de emissoras
hipnóticos que influencie os lagartos até o momento em que o
computador-regente não represente mais nenhum perigo para nós.
— Ora,
Marshall! — respondeu Perry Rhodan com certa perplexidade,
lançando-lhe um olhar de recriminação. — O senhor sabe
perfeitamente qual é minha opinião sobre esse tipo de influência
em massa. Só recorro a esse recurso quando não tenho outra
alternativa, e mesmo então o faço a contragosto. No presente caso,
ainda acontece que nossos dados a respeito dos lagartos são muito
escassos. Não sabemos se uma hipnose, que dure algumas semanas ou
meses, provocará algum dano em seus cérebros. Será que mais tarde
terei de recriminar-me por ser responsável pela doença mental de
cem mil lagartos? Afinal, não sou nenhum computador desalmado.
Perry
Rhodan nem se deu conta de que, com estas palavras, acabara de passar
por uma prova através da qual alcançaria a consagração dos
desejos de domínio do Império Solar, enquanto certa construção
artificial existente em Árcon III nunca poderia passar de um
fenômeno transitório, condenado a desaparecer em pouco tempo.
Antes que
Marshall pudesse dar uma resposta, a porta abriu-se e Allan D.
Mercant entrou ao lado do rato-castor.
A rigor,
Gucky deveria esperar algumas repreensões extremamente duras. No
entanto, sorria amavelmente com o dente roedor. Foi saltitando pela
sala sobre os pezinhos enfiados em botas especiais e apoiando-se
levemente sobre a cauda larga. Com um gesto grandiloqüente,
deixou-se cair numa das poltronas.
Rhodan,
que recorreu à sua capacidade telepática pouco desenvolvida para
ler os pensamentos do rato-castor, encontrou um forte bloqueio. Gucky
não permitiria que qualquer espia atingisse seus pensamentos.
— Sinto
incomodá-lo, Sir — disse Allan D. Mercant ao entrar. — Gucky me
procurou depois de pôr em alarma o Serviço de Segurança. A ação
por mim desencadeada ainda está em andamento. Mas espero que seja
concluída em breve.
“Gucky
impediu Ulbers, o especialista em telecomunicações, e Huang-Lu, o
técnico em mecanismos de propulsão, de transmitirem ao grupo
estacionado na Lua o sinal convencionado para o lançamento de uma
sonda. O Serviço de Segurança já apreendeu essa sonda. Tal
aparelho levaria um emissor de hiper-rádio programado para começar
a transmitir, cinco minutos após o lançamento, a posição
galáctica da Terra.”
Allan D.
Mercant, que costumava ser a calma em pessoa, forneceu estas
explicações com a voz trêmula. Por um instante Perry Rhodan
empalideceu, e John Marshall estremeceu visivelmente.
O
rato-castor refestelou-se na poltrona, deixou girar os olhos
inteligentes e exibiu o dente roedor num sorriso ainda mais gentil.
Encostara a pata dianteira esquerda à braçadeira da poltrona e
mantinha a cabeça apoiada na mesma. Estava de olhos fixos no
administrador.
Mas Rhodan
olhava para além de Gucky. Levou apenas um segundo para absorver a
notícia chocante.
— Mercant,
por que o senhor supõe que a ação estará concluída dentro de
pouco tempo? — perguntou.
— Gucky
forneceu ao Serviço Solar de Segurança os nomes de todas as pessoas
ligadas à conspiração contra o Império Solar. Ulbers e Huang-Lu
haviam sido destacados para servir na Kublai Khan e encontravam-se na
nave, mais precisamente na sala de rádio, quando Gucky interveio e
os segurou por meio da telecinese. Depois pôs o Serviço de
Segurança em alarma e providenciou para que Ulbers e Huang-Lu fossem
“recepcionados”
pelo pessoal de bordo. Após isso voltou a aparecer à minha frente.
O
interfone chamou. A imagem da tela estabilizou-se e um homem, que
trazia na lapela do uniforme o pequeno distintivo do Serviço Solar
de Segurança, disse em tom lacônico:
— Sir,
operação Flauta Mágica concluída. Os dezoito conspiradores estão
presos. Fim da mensagem. Alguma pergunta,
Sir?
Q chefe do
Serviço Solar de Segurança não teve mais nenhuma pergunta, mas
Rhodan indagou com certa admiração na voz:
— Por
que deu esse nome ao caso?
— Não
faço a menor idéia — respondeu Mercant meio embaraçado. — Por
que será mesmo?
O
rato-castor, que continuava em sua poltrona, piou:
— Por
que não iríamos chamar a operação de Flauta Mágica? É claro
que, numa questão dessas, devemos dar asas à fantasia. Afinal, essa
gente queria chamar os arcônidas com sua flauta. Foi por isso que
mobilizei tão depressa seu Serviço de Segurança, Allan. No momento
em que berrei para dentro do microfone que a operação Flauta Mágica
iria ter início, os sujeitos saíram correndo. Ninguém fez
perguntas. Absorveram que nem umas esponjas os endereços que lhes
forneci, e a coisa começou a rolar. Acontece que não havia nada de
especial em tudo aquilo. Você, John, fez minha caveira junto a
Perry. Por isso fiquei com uma tremenda raiva e, para acalmar-me,
soltei minha telepatia. Fiz uma visita à sala de rádio e peguei
Ulbers e Huang-Lu, quando estes pretendiam levar avante seu plano
infame. Foi só isso. Depois os homens da Kublai Khan cuidaram desses
porcalhões e...
— Gucky!
— interrompeu Perry Rhodan em tom de recriminação e esteve a
ponto de dizer mais. Porém o rato-castor retificou-se no mesmo
instante e prosseguiu:
— Depois
os homens da Kublai Khan cuidaram desses cavalheiros. Eu os coloquei
num estado favorável às confissões e retirei de suas vibrações
cerebrais os nomes dos cúmplices.
— O que
foi que você fez com eles? — perguntou Rhodan.
Gucky
continuou acomodado em sua posição. Falando num tom imponente,
disse:
— Perry,
você é o administrador do Império Solar. Deixe essas ninharias por
nossa conta. Não se preocupe com isso. Quando terá início a
operação Dentista?
— O que
é isso? — perguntou Rhodan com uma contrariedade perceptível.
— Será
que essa palavra não é clara, Perry? — perguntou o rato-castor
com uma ingenuidade fingida. — Não resolvemos arrancar todos os
dentes desses lagartos de Topsid, para que eles não nos possam
machucar mais?
— Ponha-se
daqui para fora, seu fingido...
O ar
começou a tremer em redor da poltrona onde Gucky estava sentado. No
mesmo instante, este desapareceu da poltrona e da sala. Ele, que
chamava todo mundo de você, sem fazer exceção com relação a
Perry Rhodan, percebeu imediatamente que as condições atmosféricas
no interior do gabinete de Rhodan pioraram para ele, e então saiu
sem despedir-se.
O
instrumento de Allan D. Mercant, ou seja, o Serviço Solar de
Segurança trabalhou com a precisão de um computador positrônico.
Poucos
minutos depois de Gucky ter-se retirado, chegou um relatório pelo
interfone, que esclareceu inclusive os motivos da conspiração.
Nos
últimos três anos, os dezoito conspiradores haviam sido advertidos,
e, em alguns casos, até mesmo punidos por infrações disciplinares
dos tipos mais variados. Nunca houve qualquer queixa quanto à
eficiência do trabalho deles.
Ulbers
chegava mesmo a gozar da fama de ser um dos melhores especialistas em
hipercomunicações, e os três aperfeiçoamentos introduzidos por
ele no estágio final do aparelho provavam que essa fama tinha sua
razão de ser.
Com o
correr do tempo sua disposição oposicionista face à política de
Rhodan transformara-se em ódio, que o levou a conceber a revelação
da posição da Terra aos arcônidas por meio de uma hipermensagem
permanente, que seria irradiada por uma sonda disparada para o
espaço.
— Uma
desgraça quase nunca vem só — disse Rhodan em tom deprimido assim
que leu a mensagem. — O que vamos fazer com Gucky? Não posso
puni-lo, por ter evitado uma terrível catástrofe. Por outro lado,
uma pequena lição não lhe faria mal, pois assim talvez no futuro
tenha cuidado e não volte a exorbitar. Por que está rindo,
Marshall?
— Sir —
disse o telepata. — Gucky sempre vive nos enganando. Isso faz parte
de sua personalidade; no dia em que não o fizer mais, deixará de
ser Gucky, o rato-castor.
4
Rhodan
destacou três mil swoons e igual número de criaturas humanas para a
tarefa de, no menor prazo possível, criarem um aparelho que
permitisse manter estáveis no hiperespaço gigantescos campos
ionizados.
Bell, que
também elaborara esta parte do plano contra Topsid, mais uma vez deu
prova de que sabia lidar muito bem com gente — ou, se necessário,
com os swoons, também conhecidos como homens-pepino.
De início
só colheu olhares de perplexidade. Sempre que falava no seu plano de
criar gigantescos campos ionizados, defrontava-se com palavras de
incompreensão.
Deixou que
se divertissem, não se indignou, não fez nenhuma alusão irônica,
mas dentro de duas ou três horas voltava a falar com os peritos,
debatendo sempre o mesmo problema.
— Preciso
de hipercampos de interferência de dimensões astronômicas. Preciso
de campos desse tipo que não entrem em colapso em uma hora, nem em
cem horas, e nem mesmo em mil horas. Em outras palavras, preciso de
aparelhos que me permitam paralisar o tráfego de hiper-rádio de
todo um planeta. É bem possível que, se estes aparelhos não forem
fornecidos, dentro de um prazo muito curto, os senhores mudem de
patrão. É só por isso que acredito que dentro de três dias terei
uma série de aparelhos aptos a entrar em funcionamento. Afinal, não
há nenhum obstáculo teórico à construção de um aparelho desse
tipo.
Até mesmo
os swoons, os micromecânicos — verdadeiros gênios em suas
especialidades — disseram que a exigência de Bell era impossível
de ser atendida. Mas, por isso, tiveram de travar conhecimento com
outra faceta da personalidade de Bell: sua teimosia insuperável.
— Meus
caros — disse em tom condescendente — não sou nenhum leigo no
assunto e sei que minha ordem é quase inexeqüível. Quase... Esta
palavrinha deveria servir-lhes de estímulo para procurarem tornar
possível o impossível.
“Se
partirmos do pressuposto de que, no hiperoscilógrafo, a constante hy
e as curvas formam...
Reginald
Bell obrigava os peritos a falar de assuntos profissionais. Entendia
do assunto, menos que eles, mas o suficiente para estimulá-los. Mas
nunca conversava mais de meia hora, pois sabia perfeitamente que o
tempo urgia, e que a qualquer momento a desgraça poderia surgir sob
a forma de várias esquadrilhas arcônidas que sobrevoassem a Terra.
Terrânia,
que, para o observador superficial, era apenas uma metrópole
agitada, passou a ser um verdadeiro inferno de apressados
preparativos.
As panes
surgiam em todos os lugares. Havia incidentes com os quais ninguém
contara. Planos detalhados tinham de ser modificados. As ordens eram
substituídas por contra-ordens. Um item, que há meia hora ainda
figurava da agenda com um grau máximo de urgência, era abruptamente
retirado das linhas de produção.
Um pequeno
exército de robôs obteve um aspecto arcônida. Toda a programação
dos mesmos teve de ser reformulada. A nova programação baseava-se
no fato de que o orgulho e a arrogância constituem características
fundamentais dos arcônidas.
Os dois
mil tripulantes da Kublai Khan foram submetidos a um processo
intensivo de aprendizado hipnótico. Apresentar-se-iam como arcônidas
no planeta de Topsid, e por isso deveriam ser arcônidas, não só
pelo aspecto exterior, mas também pelo gênio e pelas atitudes.
A Kublai
Khan, rebatizada com o nome de On-Tharu — o erro de ortografia foi
corrigido — não seria a única nave que participaria da operação.
Seria acompanhada por oito naves da classe Estado, com cem metros de
diâmetro e tripuladas com cento e cinqüenta homens, além de dois
cruzadores pesados. Em seus envoltórios esféricos havia letras e
cifras arcônidas. Embora não devessem pousar em Topsid, Rhodan não
desejava que, na hipótese de um encontro casual com uma nave do
Grande Império, algum erro mínimo representasse o princípio do
fim.
O plano de
Bell, que nas linhas gerais merecera a aprovação de Rhodan, previa
quatro dias para os preparativos. Mas quando o segundo dia chegou ao
fim, teve-se a impressão de que, nem dali a uma semana, as naves
poderiam decolar em direção ao planeta de Topsid, situado no
sistema de Orion.
Uma pane
sucedia-se à outra.
Novas
notícias alarmantes surgiram da zona de descarga, onde as lutas
entre os druufs e os arcônidas continuavam a consumir quantidades
enormes de materiais.
O
computador-regente de Árcon estava mobilizando todos os povos
auxiliares do Grande Império e os obrigava a enviar ao front os
comandantes espaciais e os oficiais mais competentes.
Só os
tópsidas estavam guarnecendo nada menos de dezenove esquadrilhas!
Perry
Rhodan avisou Bell, que acabara de suspirar aliviado porque
conseguira desatar em três horas de lutas um nó cego de incidentes
imprevistos.
— Ah, é?
Dezenove esquadrilhas? Todas estão guarnecidas com oficiais
tópsidas! Você está só, Perry?
— Estou
— respondeu Rhodan.
— Pois
então faça-me o favor de não me contar mais nada. Estou com medo.
Não sei o que houve comigo. Alguma coisa vem em nossa direção e
nos atropelará. Santo Deus, Perry, será que negligenciamos ou
esquecemos mais alguma coisa?
Rhodan
lembrou-se da pergunta de Atlan, sobre se os pressentimentos
desastrosos de Reginald Bell representavam uma atitude pessimista ou
realista. Acontece que nunca vira Bell nesse estado. Era bem verdade
que, antes do pouso no planeta de Honur, Bell também desempenhara o
papel do homem das advertências incessantes, mas as coisas não
chegaram ao ponto em que agora estavam alcançando.
— Para a
operação especial a ser realizada em Topsid não foi esquecida ou
negligenciada coisa alguma — respondeu Rhodan com a voz firme. —
O centro de computação de Vênus também realizou seus cálculos a
este respeito e, em todos os pontos importantes, chegou à conclusão
de que as chances de êxito eram de 85 a 97,5 por cento.
— Ora, o
computador — disse Bell fungando. — Minha aversão por esses
monstros positrônicos cresce a cada dia que passa. Como instrumentos
de cálculos são formidáveis, mas como profetas... Perry, neste
ponto eu preferiria que eles fossem para o inferno. Prometi a mim
mesmo que durante esta operação seguiria o meu instinto, sem dar
qualquer atenção às recomendações do computador positrônico.
— Provavelmente
você não terá tempo de desenvolver qualquer atuação positiva,
Bell — exclamou Perry Rhodan pelo videofone. — Seu plano sofreu
uma única modificação. Nem você, nem Atlan, nem eu dirigiremos
oficialmente a operação a ser desenvolvida em Topsid. Isso ficará
a cargo de nossos técnicos e mutantes.
Bell
soltou um assobio.
— O que
restará para nós, Perry?
— Apenas
o trabalho miúdo, as filigranas. Temos diante de nós uma tarefa
quase insolúvel: devemos tomar todos os preparativos para enganar o
computador-regente de Árcon. Você já imaginou o que significa
fornecer dados falsos ao gigantesco computador positrônico? Quero
ajudá-lo a recuperar a autoconfiança que, pelo que vejo, está
profundamente abalada. É bom que saiba o que o centro de computação
de Vênus acha de nossos planos. Quando trouxe o resultado, Atlan
estava bastante deprimido.
É
impossível falsificar uma série de fatos incorporados à história,
e que o povo tenha vivido em toda a extensão. Os cálculos de
probabilidade produziram uma série de resultados situados entre 78 e
98,46 por cento, o que equivale à negativa de uma possibilidade de
êxito.
“Se
admitirmos que a corda bamba pela qual teremos de andar durante a
operação Topsid deve ter uma espessura de cem, tal corda em certos
lugares está reduzida a 1,54 por cento desse valor. E a esses 1,53
por cento se contrapõem esses 98,46 por cento.”
— Perry
— interrompeu Bell em tom enérgico — você nunca se admirou de
que no curso dos decênios nós, do Império Solar, nunca sofremos um
revés de verdade? E olhe que já o merecemos. Sim, é isso mesmo.
Não adianta olhar-me com esse ar de espanto. O que é que costumamos
fazer antes de qualquer ação? Procuramos a Pítia moderna e pedimos
que ela nos diga em números e frações decimais se nossas chances
são boas. Estamos no melhor caminho para transformar-nos em
arcônidas. Engolimos sem a menor resistência tudo que um computador
construído, segundo a mentalidade arcônida, joga à nossa frente e
nos esquecemos de que somos homens, seres pensantes, sensíveis.
“Faça-me
o favor de não me vir com o argumento de que a operação de Topsid
poderá trazer certas conseqüências graves, e que foi este o motivo
de ter sido formulada a consulta ao cérebro positrônico montado em
Vênus. Qualquer ato traz suas conseqüências. Está na hora de
deixarmos de aceitar o papel de escravos do computador, para
voltarmos a ser homens que aproveitam integralmente sua capacidade de
agir. Assim seremos superiores a qualquer cérebro positrônico e
conseguiremos vencer o desafio que nos espera em Topsid.
“A
preguiça mental e a degenerescência dos arcônidas é devido
principalmente aos cérebros positrônicos. Será que nossos netos e
bisnetos deverão ser tão indolentes como eles? Por isso pouco me
interessa o que o grande centro de computação de Vênus tenha dito
a respeito da ação que planejamos. Caramba, Perry! Não somos
arcônidas, mas homens. E devemos saber agir como seres humanos.”
Perry
Rhodan não deu qualquer resposta. Limitou-se a levantar uma folha e
colocá-la à frente da lente da objetiva.
Bell leu
ao lado da percentagem de 98,47 a seguinte observação manuscrita de
Perry Rhodan: “Resultado
incorreto. Valores humanos não foram considerados. PR.”
— Por
que deixou que eu falasse tanto? — disse Bell com um sorriso largo.
— Porque
gostei de ouvi-lo, Bell. Acho que vez por outra temos de chamar à
lembrança esse tipo de verdade. Aliás, como vai o projeto de
criação de campos de ionização?

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