Tal qual
Rhodan e Atlan, seus companheiros esperavam que a qualquer instante
tudo aquilo iria desabar, pois aquele estilo arquitetônico
contrariava todas as leis da Estática.
Subitamente
Rhodan exclamou:
— São
estalagmites! Estalactites! Será que isso constitui uma indicação
da procedência dos lagartos?
Por um
instante Atlan fitou o terrano com uma expressão de perplexidade.
As
construções de Kerh-Onf tinham o mesmo aspecto das colunas de
calcário que se formavam no interior das cavernas. Mas nem por isso
se explicava como tudo aquilo não desabava à primeira rajada de
vento.
— Deve
ser um dispositivo antigravitacional que evita o desmoronamento das
construções — afirmou Atlan. — Acho que é a única explicação.
De qualquer maneira, é uma loucura rematada construir assim.
— Talvez
seja o instinto, Atlan. Pode ser uma lembrança inconsciente dos
tempos imemoriais em que os tópsidas viviam em cavernas.
— É uma
pena que não vivam mais — disse Atlan.
Por acaso
o arcônida olhou para baixo através do visor transparente. Seu
planador e os outros preparavam-se para pousar junto ao maior
edifício de Kerh-Onf.
A uma
altura de trinta metros, havia uma plataforma de pouso que circundava
o estranho edifício, como se fosse um prato. Mas os dois canhões de
radiações que se encontravam junto à grande entrada pela qual saía
um grupo de lagartos não poderiam deixar de ser vistos.
Um preciso
mecanismo fez pousar os planadores em fila. O desfile de robôs, que
pelo aspecto exterior eram máquinas de guerra arcônidas, reforçava
o orgulho que Atlan tinha de demonstrar durante sua visita a Topsid.
Em seu vistoso uniforme, Atlan chegava a causar melhor impressão que
Rhodan. Em cada passo, em cada movimento, havia a expressão da
arrogância arcônida. Rhodan teve de forçar sua representação,
enquanto Atlan apenas deixava vir à tona uma disposição natural.
Os
lagartos, cujo número chegava a aproximadamente quarenta, estavam
submetidos à força simbólica, corporificada no representante do
Grande Coordenador. De qualquer maneira, eram bastante inteligentes
para reconhecer que qualquer resistência só poderia resultar na
destruição de seu sistema.
As frases
de cumprimento foram trocadas em intercosmo. Rhodan apenas proferiu
umas poucas palavras. Na terceira frase de sua fala anunciou o motivo
de sua presença em Topsid.
— Exijo
que todos os tópsidas que participaram da batalha espacial no setor
Vega me sejam apresentados. Além disso, quero examinar todos os
documentos relativos ao fato. Agora quero ser conduzido, juntamente
com minha delegação, a um recinto condizente com a importância da
missão que estou desempenhando. Será que os tópsidas ainda não
aprenderam como receber um representante do Grande Coordenador?
Os rostos
indiferentes dos lagartos não traíam a impressão causada pelas
palavras do arcônida Attor. O tópsida Tgex-Go, cujo uniforme
verde-oliva se distinguia dos outros, limitou-se a dizer:
— Queiram
seguir-nos.
Quando
Perry Rhodan, Atlan e os mutantes deram os primeiros passos, os robôs
aproximaram-se e protegeram-nos de todos os lados.
Dali a dez
minutos saíram do poço do elevador central e entraram numa grande
sala de conferências. Tgex-Go e os outros lagartos continuavam a
seguir na frente do grupo. Caminhavam do lado direito do recinto e
pararam diante de poltronas feitas especialmente para humanóides.
— Tgex-Go,
o senhor é presidente ou ditador? — perguntou Rhodan, depois de
sentar-se ao lado de Atlan.
— Altezas
— respondeu o lagarto. — O sistema de Topsid já não é oprimido
por um ditador; o povo...
— Não
quero lições, Tgex-Go — interrompeu Rhodan. — Já que não é o
ditador, exerce as funções de presidente?
Os olhos
do lagarto começaram a chispar fogo. O tom usado por Rhodan
representava uma insolência; no entanto, era este tom que os
arcônidas usavam para comunicar-se com os povos coloniais. Quem não
gostasse, acabaria sentindo o poderio do Grande Império.
— Alteza...
Mais uma
vez, Tgex-Go violara a etiqueta dos arcônidas. Atlan interrompeu-o
em tom áspero:
— Já
expliquei a seu representante Xxal-Ri, no espaçoporto, que eu devo
receber o tratamento de Alteza, e Attor, o representante do Grande
Coordenador, o de Grande Arcônida. Será que esse povo de lagartos
não é capaz de lembrar-se disso?
Pela
primeira vez houve um ligeiro tumulto entre os tópsidas, mas Tgex-Go
fez cessar todos os ruídos com um simples movimento de braço.
— Grande
Arcônida — principiou sem pronunciar-se sobre as palavras de
Atlan. — Não temos nada a esconder perante o Grande Império...
Foi
interrompido por Rhodan, que fazia o papel do arcônida Attor.
— Não
perca tempo com mentiras, Tgex-Go! Por que é que vocês procuram
remover às pressas o novo rastreador capaz de destruir os campos
defensivos das naves? Será que não é para esconder esse aparelho
de nós?
— Isso,
bárbaro! Mostre-lhes! — cochichou Atlan em inglês.
Tgex-Go
estremeceu como se fosse um ser humano. A mesma coisa aconteceu com
seus companheiros.
— Grande
Arcônida...
Mais uma
vez não pôde concluir a frase. O pavor fechou-lhe a boca.
Subitamente um dos acompanhantes do arcônida colocou-se diante de
seu secretário e disse em tom enérgico:
— Durante
a grande batalha travada junto ao mundo dos ferrônios você comandou
uma nave. Venha comigo, tópsida.
No mesmo
instante, dois robôs aproximaram-se. As medonhas máquinas de guerra
estenderam as mãos em direção ao lagarto, que “brincava”
com a idéia de fuga, e seguraram-no.
O tópsida
não se atreveu a fazer o menor movimento.
Os outros
também não.
— Sir —
dizia uma mensagem telepática reforçada por Harno. — Tgex-Go está
pensando num recinto que deve ficar uns cem metros abaixo do lugar em
que o senhor se encontra. É lá que se encontram os principais
registros sobre a batalha do setor de Vega. O tópsida procura
descobrir o motivo do interesse de Árcon por essa velha história. E
está apavorado por estarmos informados sobre o segredo do
rastreador. Tgex-Go reage muito bem aos fenômenos parafísicos...
Naquele
instante, o rádio de pulso de Rhodan começou a chamar. Atlan também
recebeu um chamado. Os dois ligaram para a recepção. Reginald Bell
estava diante da estação transmissora.
— Faz
cinco minutos que John Marshall não consegue entrar em contato com
Gucky. Há cinco minutos aconteceu, junto às duas naves robotizadas,
uma coisa que não conseguimos explicar. Estou chamando para...
— Um
momento! — gritou Atlan para dentro do microfone de pulso.
Entre ele
e os tópsidas o ar começou a tremeluzir ligeiramente e Gucky, o
rato-castor que Reginald Bell procurava localizar, surgiu à sua
frente.
— Que
diabo! — gritou Rhodan, mas sua raiva passou logo. — Por que está
assim?
O
rato-castor, que tinha um metro de altura, procurou ajeitar-se, mas
não conseguiu.
— Missão
cumprida, chefe. Infelizmente tive problemas com os robôs. Eles
estão mais doidos pelo novo aparelho do que nós. Ao que parece,
sabiam que fiz desaparecer tudo. De repente procuraram pôr as mãos
em mim. Meu aspecto deve ser terrível, Perry. Por pouco não levo a
pior sova da minha vida. Atlan, transmita cumprimentos meus ao seu
computador-regente e pergunte-lhe quando é que ele vai resolver
criar robôs capazes de resistir a uma queda de mil metros. Mandei
para o alto quatorze dos dezesseis robôs e deixei-os cair.
Arrebentaram que nem tomates maduros. Não consegui agarrar os dois
últimos e por isso vim pelo caminho mais rápido. Trata-se de novos
tipos, Perry. Esses robôs são muito espertos. Eles...
Bell
voltou a chamar pelo rádio de pulso.
— Desta
vez, o rato Jerry não contou nenhuma lorota. Lá fora estão oito
robôs e exigem que nós os deixemos entrar na nave. Estão
transmitindo sua exigência ininterruptamente pelo rádio. Epa! Está
chegando outro bando. Quantos são? Uns trinta ou quarenta...
— Deixe
isso por minha conta! — piou o rato-castor que se encontrava ao
lado de Rhodan.
Antes que
Perry tivesse tempo de responder, Gucky teleportou-se. O
desaparecimento de uma criatura, que se dissolvia no ar
instantaneamente, provocou um calafrio nos lagartos. Quem mais se
perturbou foi Tgex-Go, presidente do sistema de sóis gêmeos.
Rhodan, que lia seus pensamentos, aproveitou a chance e deixou
Tgex-Go ainda mais perturbado ao dizer:
— Presidente,
quando chegar a hora você saberá por que o Grande Coordenador de
Árcon está interessado nestes fatos. Eu mesmo levarei meu
colaborador ao arquivo situado uns cem metros abaixo do lugar em que
nos encontramos. No momento, você e seu governo só têm uma coisa a
fazer: reunir todos os tópsidas que participaram ativamente desses
acontecimentos e trazê-los para Kerh-Onf, onde deverão ficar à
minha disposição.
“Exijo,
em nome do Grande Coordenador, que dentro de uma hora o governo
ordenará que todos os tópsidas nos prestem toda ajuda na busca de
documentos e de pessoas que testemunharam os fatos.
“Ainda
quero acrescentar uma coisa, Tgex-Go. Minha missão deve ser
concluída dentro de dois dias. Se tiver de permanecer por mais tempo
em Topsid, cada hora que exceda a esse tempo lhes custará três mil
pilotos espaciais experimentados que serão encaminhados
imediatamente à frente de combate.”
Era uma
ameaça violenta. Rhodan não teve nenhum prazer em proferi-la, mas
não havia outro meio de fazer jus à sua aparência de arcônida.
Um
arcônida nunca pede; exige!
— Grande
Arcônida! — respondeu Tgex-Go, que ainda se sentia abalado pelos
misteriosos fenômenos que acabara de presenciar. — O povo e o
governo dos tópsidas farão tudo para cumprir o mais rapidamente
possível a tarefa que nos foi confiada pelo Grande Coordenador.
Permite que me retire com o Conselho do Povo para tomar as
necessárias providências?
O aceno de
cabeça de Perry Rhodan foi quase imperceptível, mas todos os
lagartos o notaram. Dali a pouco, quando Rhodan se viu a sós com
Atlan e os mutantes, disse:
— Tenho
a impressão de estar sentado em cima de um barril de pólvora!
8
Nas
primeiras vinte e quatro horas parecia que a desesperada operação
em grande escala que Perry Rhodan lançara em Topsid realmente seria
capaz de deter a marcha da história através de uma falsificação
que repararia as conseqüências da omissão que acontecera há
setenta anos.
Durante as
primeiras vinte e quatro horas, tudo correu às mil maravilhas.
Até mesmo
os robôs desembarcados das duas naves arcônidas, que tinham vindo
ao sistema para recrutar astronautas entre os lagartos, pareciam ter
dominado sua curiosidade em relação a isto, mesmo depois de mais
trinta e nove desses robôs serem destruídos.
Durante
vinte e quatro horas, Gucky, o rato-castor, entregou-se ao deleite
indescritível de sentir-se mais forte que as modernas máquinas de
guerra de Árcon. Sua fantasia viva exibia-lhe continuamente o
espetáculo da eliminação dos robôs por meio de suas capacidades
telecinéticas.
Durante
vinte e quatro horas, os especialistas da Kublai Khan, com exceção
daqueles cuja presença a bordo era indispensável, registraram um
êxito após o outro nas ações desenvolvidas sob a direção dos
mutantes.
Dos
tópsidas que haviam participado ativamente e em posições de
destaque da ação no setor de Vega ainda viviam oito. Dois desses
oito lagartos pertenciam à equipe de radiogoniometria que na época
captou o pedido de socorro da nave de exploração arcônida que
realizara um pouso de emergência na Lua.
Mal esses
dois tópsidas foram interrogados pelos mutantes, uma gazela voou em
direção ao pólo sul do planeta. A estação de goniometria ali
localizada foi ocupada numa operação-surpresa e oito terranos
disfarçados de arcônidas deixaram o arquivo e o banco de dados de
pernas para o ar.
A operação
foi dirigida pelo próprio John Marshall.
— Repita
a reprodução! — ordenou com a voz rouca, embora tivesse certeza
absoluta de ter ouvido bem.
Mais uma
vez, o registro foi reproduzido. Uma fita que não media mais de três
milímetros de comprimento correu.
A
tradutora automática acoplada ao aparelho pronunciou todas as
palavras num inglês impecável.
As
palavras foram repetidas:
— Phi
43:72, 6458... Chi 09:79,3852... Psi 18:00, 9851. Freqüência do
hipercomunicador: 4763 0086 a 0999. Faixas das naves exploradoras
galácticas. Tempo: 456,7385.886, tempo padrão de Árcon. Margem de
tolerância astronômica 0,000.031 ± Intensidade do campo na entrada
3d ± 2. Posição em relação a Topsid: 456,735.886 Phi...
— Obrigado
— disse Marshall e o Dr. Benthuys desligou apressadamente.
Além de
detentor da patente de comandante de cruzadores ligeiros e perito em
positrônica dos intervalos, que era uma área fronteiriça da
positrônica geral, Benthuys era astronavegador de primeira classe.
Seu principal hobby era a hipermatemática dos arcônidas. No
entanto, com seu rosto sempre vermelho e a barba malfeita, Benthuys
parecia um campônio simplório que, comedor das maiores batatas,
saía correndo sempre que alguém pretendia exigir alguma coisa de
sua inteligência.
Acontece
que aqui o Dr. Benthuys era gênio da Ciência. Sentado ao lado de
John Marshall, tinha um bloco antiquado sobre os joelhos e segurava
na mão um lápis ainda mais antiquado, com o qual escrevia cifras e
fórmulas.
— Marshall
— disse, enquanto calculava febrilmente. — Preciso conhecer com
urgência a posição da Terra, para...
Antes que
pudesse concluir, Marshall ligou o rádio e o próprio Benthuys
entrou em contato com a sala de comando da Kublai Khan.
Dali a
cinco minutos recebeu os dados que havia solicitado.
— Hum —
dizia constantemente, mas não anotou uma única cifra.
Marshall
acreditava que os cálculos fossem demorar mais meia hora. Mas
subitamente Benthuys levantou-se, arrastou-o para junto do grande
mapa estelar, apontou com o lápis para o lugar em que ficava o
planeta Topsid e disse:
— É
aqui que nós estamos. O senhor ouviu os dados relativos às
coordenadas. Uma mensagem de hipercomunicação quase nunca permite a
determinação do lugar em que foi expedida, mas esta mensagem
irradiada há setenta anos contém todos os elementos necessários a
tal determinação. Isso acontece porque os tópsidas conseguiram
medir a intensidade do campo de entrada, o que via de regra é
impossível. Basta considerar meia dúzia de movimentos e traçar num
bom mapa estelar uma reta que, partindo de Topsid, siga na direção
correspondente aos dados da goniometria. É isto! Desta forma fomos
parar no sistema de Vega, bem próximo à Terra...
Com isso,
as vinte e quatro horas durante as quais a missão de Rhodan foi
protegida por uma boa estrela chegaram ao fim. Os rádios
transmitiram o sinal de alarma.
O Dr.
Benthuys ficou calado. Marshall sentou à frente do rádio. O chefe
estava junto ao transmissor.
— Quanto
tempo deverá demorar, Marshall? — perguntou laconicamente.
— Umas
quatro ou seis...
O chefe
dos mutantes não conseguiu prosseguir.
— Dou-lhe
duas horas, Marshall. Não dispomos de muito tempo. A gazela foi
camuflada? Todos colocaram os trajes espaciais?
Ao que
parecia, havia um perigo gravíssimo. Se Perry Rhodan falava nestes
termos, a situação estava para lá de ruim. O que teria acontecido?
John
Marshall preferiu não perguntar. Se o chefe não fornecia as
explicações por iniciativa própria era porque não havia tempo
para isso. Marshall lançou um olhar indagador para Benthuys.
Dependeria exclusivamente do doutor a tarefa ser ou não concluída
dentro de duas horas. Benthuys fez que sim.
— O.K.,
chefe, dentro de duas horas modificaremos tudo. O Dr. Benthuys
acredita que conseguirá e...
Mais uma
vez foi interrompido por Rhodan.
— Daqui
a uma hora coloque a gazela em condições de decolar imediatamente.
Repito: coloquem os trajes espaciais. Temos de contar com a
possibilidade de ataques vindos do espaço.
— Ataques
vindos do espaço? — repetiu Benthuys. — O que é que eu tenho
com isso? Meu trabalho consiste em falsificar estes registros. Faça
o favor de me avisar quando a barra ficar pesada por aqui, Marshall.
E agora não me perturbe mais. Dê o fora com seu rádio. Tenho de
concentrar-me. Até logo mais.
*
* *
Mais uma
vez Atlan, o almirante arcônida, admirou o terrano Perry Rhodan,
enquanto Bell não viu nada de extraordinário na atitude do
administrador, pois se estivesse no seu lugar teria agido da mesma
forma.
— Vamos
aguardar! — acabara de decidir Rhodan. — Aguardar e preparar-nos.
É a única coisa que podemos fazer no momento. Daqui a duas horas,
Marshall e sua equipe concluirão o trabalho na estação
goniométrica polar. Fellmer Lloyd, que está trabalhando em
Kerh-Onf, também espera não levar mais de duas horas para destruir
ou falsificar os dados do arquivo. Você está rindo, almirante. Há
alguma coisa que não lhe agrade?
Atlan nem
se dera conta de que estava rindo.
— Ah,
então eu ri? Será mesmo? Mas isso aconteceu apenas por causa da
ingenuidade infantil de vocês. Acreditam realmente que conseguirão
enganar Árcon com suas falsificações grosseiras? Ainda não sabem
de que meios dispõe o Grande Império para verificar a autenticidade
dos documentos e bancos de dados? Vocês nunca deixarão de ser
uns...
Bell
lançou um olhar para Atlan; em seu rosto surgiu um sorriso
malicioso. O arcônida calou-se. Não iria cometer o erro de
subestimar o terrano. Às vezes, essa gente tinha idéias
formidáveis.
— Você
ainda perderá a vontade de rir, gorducho! — gritou Atlan, já que
Reginald Bell não se dispôs a falar. — Será que já se esqueceu
do dedo cortado?
Bell, o
homem impulsivo, não abandonou a atitude reservada que impusera a si
mesmo.
Atlan
constatou que Rhodan também não dizia mais nada.
— O que
houve com vocês? — perguntou em tom de perplexidade.
— Tenho
pena de você, almirante — respondeu Bell. — Apesar dos dez mil
anos que você passou com os terranos, continua a viver nas nuvens.
Arcônida, seu Grande Império não passa de um conjunto podre de
raças e interesses, cuja coesão ainda é mantida em virtude do
perigo representado pelos druufs...
— Esses
argumentos são de quitandeiro! — interrompeu Atlan em tom áspero.
— Não sei qual é a ligação entre seu sorriso não muito
inteligente e...
— É
verdade! Meu sorriso não foi nada inteligente — interrompeu Bell.
— Por ele apenas quis exprimir minha compaixão. Para você, Árcon
é e sempre será um non
plus ultra.
Segundo sua opinião bem fundamentada, nós, os terranos,
evidentemente não poderemos enganar o computador-regente. Nem que
nos próximos dez anos-novos, eu corte o dedo, estou disposto a
apostar, Atlan, que enganaremos seu cérebro positrônico de uma
forma que ninguém jamais o enganou. Qualquer um pode mentir e
tapear. Qualquer pessoa que mente é tola, e quem tapeia também é.
Acontece que nós, os terranos, não queremos fazer nem uma coisa,
nem outra. Apenas queremos impedir que as naves arcônidas usem nossa
linda Terra como alvo para seus exercícios de tiro. Por isso mesmo
neste mundo dos lagartos tudo continuará como antes, com uma
pequenina diferença. Todos os elementos, sejam eles quais forem,
indicarão de forma precisa o lugar em que fica a Terra que Árcon
tanto quer encontrar. Ela fica do outro lado da Via Láctea, dois mil
anos-luz para dentro de um braço secundário da grande espiral. É
lá que plantaremos a boa Terra, e o computador-gigante ficará azul
de tanto procurá-la.
O discurso
de Bell foi interrompido pela sala de rádio.
Joe
Pasgin, que se encontrava a bordo da Burma, estacionada próxima do
hipercampo de interferência, estava chamando.
— Sir,
uma nave-correio acaba de trazer a notícia de que três grandes
grupos de naves dos mercadores galácticos tentam há algumas horas
entrar em contato com Topsid. Uma das naves cilíndricas chamou a
estação arcônida G-98765-0 e pediu que investigasse a causa das
estranhas interferências.
— A
estação G-98765-0 fica a trinta e oito anos-luz deste sistema, na
direção do Pequeno Cavaleiro.
— Há
mais de vinte minutos G-98765-0 vem bloqueando nossos receptores
situados do lado de fora da zona de interferência, usando mais de
cem hiperfreqüências. Por enquanto não houve nada de grave.
Acontece que a estação arcônida informou os mercadores galácticos
de que não havia a menor interferência, e por isso frotas de dois
ou três clãs resolveram dirigir-se ao planeta. Aproximam-se à
velocidade de 0,8 luz; deverão atingir a zona de interferência
dentro de quarenta minutos aproximadamente.
— Quais
são as ordens que o senhor tem para nós?
— Deixe-os
passar, Pasgin. Providencie para que nenhuma das nossas naves seja
descoberta. Mais alguma novidade?
A palestra
com a Burma havia chegado ao fim. Outra pessoa já aguardava o
momento em que Rhodan pudesse receber sua mensagem.
Era Kitai
Ishibashi, o sugestionador, que se encontrava em Din-Kop, a segunda
cidade do planeta dos tópsidas. Ficava nas margens do lago Gun-Ki,
que era o maior mar mediterrâneo desse mundo. Era o maior centro
industrial do sistema.
— Sir —
disse a voz do japonês saída do alto-falante. — Acabamos de
captar uma mensagem. Três técnicos de rádio demonstram seu espanto
por certos fenômenos de interferência; além disso, chegam bem
perto da verdade, pois falam numa interdição do tráfego de
rádio...
— É só
isso, Ishibashi? — interrompeu Rhodan.
— Não
senhor — Ishibashi respirou fortemente. — Não terminaremos
dentro de uma hora. Tama Yokida e sua equipe descobriram mais de
trinta naves de guerra que participaram dos combates no setor de
Vega. Nenhuma dessas naves está em condições de voar. Por outro
lado, porém, elas não foram transformadas em sucata. São trinta e
duas naves com trinta e dois...
— Ras
Tschubai ainda está aí, Ishibashi? — perguntou Rhodan.
Numa
fração de segundo, Perry reconheceu o perigo representado pela
existência dessas naves. Seria impossível que o japonês
“trabalhasse”
todos os bancos de dados com a pequena equipe de que dispunha, a fim
de falsificar os dados astronômicos relativos ao sistema de Vega.
— Sim
senhor; Tschubai está aqui...
— Eu lhe
mandarei Gucky, que deverá chegar dentro de cinco minutos. Tschubai
e Gucky deverão destruir os computadores de bordo das velhas naves.
Você fica encarregado de tomar todas as providências para que
nenhuma das naves que participaram da ação de setenta anos atrás
escape à sua equipe. Sabe perfeitamente quanta coisa depende
disso...
— O
senhor pode confiar em nós.
— Mantenha-se
em recepção. Estou chamando o rato-castor.
Esta
criatura era o único membro do Exército de Mutantes que tomava a
liberdade de transportar-se ao camarote de Rhodan por meio de um
salto de teleportação.
— Chefe
— piou Gucky em tom animado e empertigou o corpo no uniforme
vistoso e colorido que, agora, já lhe assentava muito bem. — Sei o
que fazer. O senhor me dá carta branca?
Não havia
nada que Gucky fizesse com tanto prazer como brincar. Pelo que se
dizia, havia gente que via em suas brincadeiras apenas uma fúria
destrutiva. Mas havia muito mais gente que num aperto desejava um
Gucky brincalhão que, como telepata, teleportador e telecineta era o
“homem”
que possuía maior volume de parafaculdades. Além disso, possuía um
bom coração. Ninguém poderia desejar um parceiro melhor que o
rato-castor.
— Ah, é?
— perguntou Rhodan. — Então você quer carta branca? Olhe que
você desobedeceu mais uma vez as minhas ordens expressas, pois acaba
de ler meus pensamentos, Tenente Guck.
Sempre que
o Y era omitido em seu nome, a barra estava pesada. Mas ao que tudo
indicava, hoje o Tenente Guck não parecia importar-se muito com
isso. Ria descontraidamente com seu único dente roedor.
— Chefe,
a sola dos nossos pés está ardendo. Preciso sair! Está gostando
das minhas botas? E você, gorducho? Têm aquecimento elétrico. Quer
dizer que não terei pés frios. Bem, então tenho carta branca. Até
logo mais.
Mais uma
vez, o ar tremeluziu. No mesmo instante em que Gucky, o rato-castor,
desaparecia do camarote de Perry Rhodan, materializava-se a 12 mil
quilômetros de distância, ao lado do sugestionador japonês Kitai
Ishibashi. Piou para o homem alto e magro:
— Pode
desligar, Kitai! Onde poderei encontrar... Já estou captando seus
pensamentos. Vou...
O último
sinal da presença de Gucky foi um ligeiro tremeluzir do ar, que logo
se desfez numa tênue nuvem de fumaça.
Reginald
Bell levantou-se.
— Que
acha da notícia alarmante vinda do espaço? Três couraçados
arcônidas dirigem-se ao sistema de Topsid. Nossos homens não
costumam enxergar fantasmas...
Esta
notícia, recebida há pouco mais de uma hora, fora transmitida por
um dos dois cruzadores pesados. Trinta minutos depois veio a
retificação, proferida em tom embaraçado, segundo a qual aquilo
que se acreditava serem naves arcônidas deviam ser asteróides com
um elevado teor de ferro.
Mas ainda
não se havia obtido um esclarecimento cem por cento seguro sobre o
que realmente teria sido localizado.
— Nossos
homens estão sobrecarregados de trabalho — disse Rhodan a título
de explicação. — Arcônida, você ainda receia que o computador
possa descobrir que manipulamos os dados relativos a Vega?
— Sim. A
notícia desagradável que acabamos de receber de Kitai Ishibashi não
prova como é fácil negligenciar alguma coisa no curso de uma ação
violenta? Continuo a acreditar que um dia a frota de Árcon aparecerá
sobre a Terra.
— Almirante,
uma pessoa que não está disposta a arriscar alguma coisa jamais
alcança nenhuma vantagem. Desejo até que o computador chegue à
conclusão de que tentamos falsificar alguns dados, mas também quero
que acredite que nos esquecemos de algo importante. Se conseguirmos
isso, a operação desesperada que estamos realizando em Topsid terá
sido bem sucedida. Nesse caso, o regente não terá outra alternativa
senão procurar a Terra em algum lugar na extremidade oposta da Via
Láctea. Quanto aos tópsidas que ocuparam funções de destaque
durante a batalha no sistema de Vega, tomamos as providências
necessárias para que a memória desses fatos fosse apagada em seu
cérebro. Os poucos lagartos, que estão nestas condições, não
guardarão a menor lembrança do setor de Vega; apenas se lembrarão
de urna luta travada com Rhodan há setenta anos, nos confins da
Galáxia.
O
alto-falante do sistema de intercomunicação de bordo transmitiu o
seguinte aviso:
— Sir,
nossa frota informa que houve localizações por meio dos medidores
de abalos estruturais. Uma frota arcônida aproxima-se do sistema de
sóis gêmeos. A chegada está prevista para daqui a trinta e cinco
ou quarenta minutos. O grupo é formado por mil ou mil e quinhentas
naves de guerra de todas as classes.
— Ai,
meu dedo! — observou Bell e fitou o alto-falante como se fosse uma
criatura inimiga.
Atlan quis
dizer alguma coisa, mas não teve tempo. Sem demonstrar a menor
comoção, Perry Rhodan falou para dentro do microfone:
— Alarma
para todos! Alarma para todos! Retirar nossas naves. Evitar o
combate. Chame Pasgin e peça informações precisas.
Face à
atividade febril provocada pelo alarma, a ligação com a sala de
rádio da Kublai Khan foi mantida por mais alguns segundos. Os três
homens do camarote ouviram o que foi falado no grande recinto.
— Santo
Deus, a Via Láctea está conflagrada...! Alô Burma, alô Burma,
entre imediatamente em recepção... Alguns milhares de mensagens de
hiper-rádio estão cortando o espaço!
— ...Veja
só! Os tópsidas já devem ter percebido alguma coisa! São mais de
mil naves arcônidas! Nunca vi tamanha salada de mensagens de
rádio...
Finalmente
a ligação com a sala de rádio foi interrompida. As palavras, que
os três homens haviam ouvido, deixaram-nos preocupados, mas ninguém
disse nada. Saíram em silêncio.
Quando
entraram na enorme sala de comando da Kublai Khan, os preparativos
para a decolagem já haviam sido feitos. Perry Rhodan podia confiar,
em qualquer situação, nos homens da frota. O trovejar, os zumbidos
e os rugidos dos gigantescos mecanismos encheram a nave de mil e
quinhentos metros de diâmetro.
John
Marshall, que ainda se encontrava, juntamente com sua equipe, na
estação goniométrica polar, transmitiu uma mensagem concisa:
— Precisamos
de mais dez minutos, chefe! Pedimos seu consentimento.
— De
acordo, Marshall, desde que esteja aqui cinco minutos depois de
concluído o trabalho. Desligo.
Atlan
esteve a ponto de lançar um protesto exaltado contra a decisão de
Rhodan, mas sentiu a mão de Bell pousada em seu braço. O homem
ruivo lançou-lhe um olhar enérgico, e o arcônida preferiu engolir
o protesto. Mas não conseguiu reprimir estas palavras:
— Esta
leviandade dos terranos é o diabo!
Joe Pasgin
chamou da Burma.
— Sir,
somos a última nave que mantém sua posição mediante um forte
dispositivo protetor contra a localização. A força de Árcon é
composta por duas mil unidades. Procuram bloquear todo o sistema de
Topsid. Até agora constatamos a presença de cento e trinta
supercouraçados. O número dos cruzadores pesados deve chegar a
quinhentos ou seiscentos. Só no verde sessenta e sete e oitenta e
cinco resta um corredor de saída, mas esta... Temos de entrar em
transição, Sir. Há um ataque maciço vindo de...
Depois de
um forte estrondo, as hiper-comunicações entre a Burma e a Kublai
Khan cessaram.
Em
compensação, o couraçado captou um pedido de socorro vindo de
Kerh-Onf. O grupo de vinte homens, que trabalhava no arquivo, estava
sendo impedido de deixar o edifício.
Kitai
Ishibashi chamou de Din-Kop, uma cidade situada a doze mil
quilômetros de distância.
— Iniciaremos
vôo de regresso. Os teleportadores Ras Tschubai e Gucky são os
únicos que não estão aqui. Irão depois.
O Tenente
Gilbert, que estava de serviço no setor de rastreamento, anunciou:
— Um
grupo de couraçados tópsidas aproxima-se do amarelo quarenta e
três. São dezoito naves...
Rhodan
ordenou imediatamente:
— Sala
de comando de artilharia. Faça alguns disparos de advertência para
obrigar os tópsidas a mudar de rumo. Repito: disparos de
advertência.
Bell, que
ocupava o assento do co-piloto, ligou para a estação do transmissor
de matéria.
— TFM
está preparado para entrar em ação?
— Sim
senhor.
— Pois
fique atento. Daqui a pouco terão muito trabalho.
Atlan
sentiu-se como um espectador.
— Estes
bárbaros... — disse várias vezes a si mesmo. — Estes
terranos... — não podia deixar de admirá-los.
Uma frota
arcônida composta de duas mil unidades aproximava-se velozmente,
vinda do espaço, e estes homens, que há alguns segundos estelares
ainda viviam na Idade da Pedra, faziam de conta que poderiam
enfrentar tamanha superioridade de forças ou ao menos enganá-la.
— Seu
dedo não está doendo, gorducho? — Atlan não pôde deixar de
formular esta pergunta.
Uma salva
de advertência dos canhões térmicos da Kublai Khan interpôs-se no
caminho da frota tópsida que se aproximava. Em sua trilha, a
atmosfera do planeta entrou em ebulição.
O
supercouraçado apenas levou uma leve sacudidela. Depois de uma breve
pausa disparou a segunda salva.
As naves
dos tópsidas já apareciam sob a forma de pontinhos reluzentes na
grande tela de visão global da Kublai Khan. Continuavam a demonstrar
a mesma falta de manobrabilidade e de aceleração que já haviam
dado mostras no setor de Vega.
— Sir,
todas as posições de defesa dos tópsidas estão de prontidão —
anunciou o posto de rastreamento energético. — Dei ordem para que
as gazelas se mantenham sempre a menos de trezentos metros de
altitude.
O ar
começou a tremeluzir entre Bell e Atlan. Dois teleportadores
surgiram ao mesmo tempo. Eram Gucky e Ras Tschubai.
— Perry
— disse o rato-castor — os computadores positrônicos dos velhos
calhambeques espaciais foram transformados em sucata. Tem mais algum
serviço para nós?
Bell
dirigiu-se ao rato-castor.
— Entrem
em ação em Kerh-Onf, no arquivo histórico. Dêem apoio ao grupo
que se encontra lá. Os lagartos estão atacando com armas térmicas
e de impulsos. Dentro de dez minutos, o mais tardar, vocês deverão
estar aqui juntamente com todo o grupo. Depois daremos o fora...
— Ótimo,
gorducho.
Mal Gucky
acabou de proferir estas palavras, segurou a mão do africano e
desapareceu.
Os
hangares da Kublai Khan transmitiam seguidamente várias notícias.
As diversas equipes estavam regressando com as gazelas. Faltavam
apenas três grupos: o de John Marshall, o de Kitai Ishibashi e o que
fora destacado para trabalhar no arquivo histórico.
— Daqui
a quinze minutos, a frota arcônida aparecerá nos céus do planeta!
— advertiu Atlan.
— Quando
isso acontecer, não estaremos mais aqui — respondeu Bell, mas sua
voz parecia menos segura e confiante do que costumava ser.
A sala de
rádio transmitiu outra notícia:
— Sir, a
movimentação da frota foi providenciada pela estação G-98765-0.
Neste momento, o computador-regente de Árcon está falando com o
presidente de Topsid. Infelizmente ainda não consegui decifrar a
mensagem...
O oficial
de artilharia Crafford utilizou a linha de emergência e falou em
meio à mensagem:
— Chefe,
preciso de autorização para abrir fogo! A gazela de Ishibashi
poderá ser destruída a qualquer momento. Não conseguirá passar...
— ...mas
não quero nenhum impacto direto! — decidiu Rhodan e lançou um
olhar rápido para o relógio.
O tempo
corria vertiginosamente. A cada segundo que passava, a proximidade da
frota de Árcon tornava-se mais ameaçadora.
Onde
estava John Marshall e sua gazela? Por que não anunciava sua
decolagem da estação polar?
Subitamente,
as posições de artilharia estacionaria dos tópsidas, localizadas
em torno do espaçoporto, dispararam contra um alvo que não aparecia
nas telas de visão global da Kublai Khan.
Outra
mensagem foi transmitida pela linha de emergência da sala de comando
da artilharia:
— Chefe,
estão abrindo fogo.
No mesmo
instante, os gigantescos canhões de impulsos começaram a trovejar.
Alvejavam as posições de artilharia dos tópsidas.
Um traço
reluzente, vindo do alto, atravessou a tela. Seria uma espaçonave
derrubada?
A sala de
rádio transmitiu uma notícia:
— Marshall
anuncia que seu pouso no hangar é iminente, Sir!
Então era
a gazela de Marshall que descia em velocidade tresloucada das camadas
mais tênues da atmosfera e, desenvolvendo o máximo de aceleração,
procurava colocar-se sob a proteção da Kublai Khan.
— A
frota dos tópsidas está mudando de rumo, Sir...
Rhodan
lançou um olhar para o grande cronômetro.
Dentro de
onze minutos, no máximo, as primeiras naves arcônidas apareceriam
nos céus de Topsid.
Um objeto
em forma de disco aproximou-se velozmente da Kublai Khan.
O hangar
18 anunciou:
— John
Marshall e sua equipe acabam de regressar da estação polar!
Dali a
três segundos veio outra mensagem:
— Kitai
Ishibashi acaba de pousar com a equipe de Din-Kop!
Rhodan
limitou-se a olhar para Bell. Este compreendeu. Também não sabia
por que Gucky e Ras Tschubai ainda não haviam voltado.
— Sala
de rádio... — a voz de Rhodan parecia um tanto rouca. — Procure
entrar em contato com o arquivo histórico de Kerh-Onf. Apressem-se.
Nesse
instante, o rato-castor piou às costas de Rhodan:
— Não
há nenhuma pressa, Perry. Daqui a trinta segundos poderemos dar o
fora.
Rhodan
virou-se abruptamente na sua poltrona.
— Tenente
Guck, poderia fazer o favor de dar uma informação em termos
razoáveis?
Seus olhos
cinzentos fitavam o rato-castor com uma expressão enérgica.
No mesmo
instante, o dente roedor de Gucky desapareceu. O rato-castor
esforçou-se para ficar em posição de sentido. A pata direita foi
levada apressadamente ao quepe arcônida.
— O
Tenente Guck, membro do Exército de Mutantes, acaba de regressar de
sua missão. Demos uma boa sova nos tópsidas. Livramos o
grupo-tarefa da fria em que se encontrava. Foi uma brincadeira
bonita...
Para Perry
Rhodan já bastava. Fez um gesto de contrariedade.
Atlan, que
há 10 mil anos já exercia as funções de almirante arcônida, e
que voara num sem-número de missões, já não suportava a
indiferença ostensiva dos terranos.
— Não
se esqueçam — observou em tom mordaz — de que, dentro de dez
minutos, duas mil naves de guerra estarão acima de nossas cabeças!
Perry
Rhodan respondeu com a maior tranqüilidade.
— Acontece
que não decolaremos antes que o último homem esteja a bordo. Há
dez mil anos não se costumava agir assim na frota arcônida?
— O que
acontecerá se durante a decolagem os tópsidas utilizarem o novo
rastreador e eliminarem nossos campos energéticos? — objetou
Atlan.
— Não
poderão fazer isso — piou Gucky. — Os lagartos tinham um único
aparelho, e eu lhes tirei o mesmo, quando tentavam levá-lo a outro
lugar. Aposto que eles poderão procurá-lo em qualquer lugar, menos
nos depósitos da On-Tharu. Afinal, sou um telecineta muito
competente e...
O hangar
18 voltou a chamar.
— O
grupo do arquivo histórico acaba de chegar. A escotilha da comporta
está fechada.
Era o
sinal de decolagem.
Os
propulsores de impulsos situados na protuberância equatorial da
gigantesca Kublai Khan começaram a trabalhar a plena potência. Ao
mesmo tempo, entraram em funcionamento os neutralizadores de pressão,
os campos antigravitacionais e alguns milhões de relês e
dispositivos positrônicos.
De um
instante para outro, a Kublai Khan perdeu todo o peso, graças aos
dispositivos antigravitacionais. O supercouraçado da frota solar
ergueu-se quase imperceptivelmente do espaçoporto de Kerh-Onf. A
potência do empuxo foi crescendo cada vez mais. O indicador de
aceleração subia aos saltos. O planeta Topsid parecia cair num
abismo. A gigantesca nave afastava-se velozmente.
Alguns
segundos depois, verificaram-se os primeiros ataques das posições
de artilharia dos lagartos.
Quantidades
enormes de energia descarregavam-se nos campos defensivos da nave
esférica. Cascatas de fogo e de energia eram lançadas para todos os
lados e provocavam um rugido no interior da nave. Sob a ação das
ondas sonoras, o corpo do supercouraçado começou a trepidar
ligeiramente. Mas as forças controladas, que se desenvolviam no
interior da gigante solar, eram mais intensas e ruidosas que o
inferno crepitante na parte exterior dos campos defensivos.
— As
naves tópsidas nos perseguem!
Foi a
primeira de uma série de notícias alarmantes.
Rhodan
chamou o setor da nave que distinguia a Kublai Khan de todos os
veículos espaciais de tipo arcônida que pertencessem à mesma
classe.
— Caso a
Kublai Khan for atacada, o transmissor de matéria tem permissão
para disparar.
Neste
instante, o rato-castor disse em voz alta ao ouvido de Bell:
— Vou
ligar o aquecimento elétrico das minhas botas. Não quero ficar com
os pés frios...
Perry
Rhodan não ouviu essa observação supérflua do rato-castor, ou
então preferiu fazer de conta que não a ouvira. Sua voz era áspera,
mas controlada, quando disse:
— Colocar
trajes espaciais!
Isso se
aplicava a todos, inclusive a Bell, Atlan e ao rato-castor. Apenas
não se aplicava a Harno, a criatura esférica que se encontrava no
bolso do uniforme de Rhodan.
A Kublai
Khan atravessou as camadas mais elevadas da atmosfera. O uivo
enervante das superaquecidas massas de ar foi diminuindo. Em
compensação vinha da sala de máquinas o rugido cada vez mais forte
dos mecanismos que trabalhavam a toda potência.
De um
instante para outro, a imagem projetada na grande tela de visão
global do supercouraçado modificou-se.
O negrume
do espaço parecia irromper na sala de comando.
Os dois
sóis pareciam olhos ofuscantes, nitidamente desenhados. Topsid, o
mundo central do povo de lagartos, desaparecera na escuridão do
Universo.
— Localização!
As naves
de Árcon deveriam chegar dentro de oito minutos!
Os
aparelhos de rastreamento da Kublai Khan estabeleceram contato com a
frota que se aproximava.
— Localização
com o rastreador estrutural.
Isso
significava que as naves continuavam a emergir do hiperespaço, a fim
de barrar o caminho do misterioso veículo espacial que enganara os
tópsidas.
— O que
diz o controle das mensagens de rádio?
Rhodan
estava interessado em saber se as naves arcônidas que se aproximavam
e os tópsidas ainda não sabiam quem fora o autor do blefe.
Os homens
da sala de rádio da Kublai Khan eram verdadeiros feiticeiros. Em
apenas cinco frases, o Tenente Jouffre forneceu ao administrador do
Império Solar um relato minucioso sobre esta interrogação.
Nas
mensagens até então captadas, não foi mencionado uma única vez
sequer o nome de Perry Rhodan ou o do planeta Terra. O regente de
Árcon acreditava tratar-se de um povo colonial que se revoltara e,
agora, queria tirar proveito de certos conhecimentos que os tópsidas
não vinham utilizando. Mas não foi por isso que o Grande
Coordenador resolveu enviar uma gigantesca frota; foi porque alguém
usou indevidamente sua faixa de hiperfreqüência.
Face a
isso, Árcon não podia deixar de impor ao transgressor um castigo
exemplar. E o computador desalmado de Árcon III já demonstrara por
mais de uma vez com que disposição sabia golpear.
— Senhor
administrador — não era costume usar tal tratamento para com Perry
Rhodan. Na situação em que se encontravam, este fazia prever uma
notícia alarmante. — Mais de vinte supercouraçados aproximam-se
do verde cento e cinqüenta e seis graus.
As torres
de canhões das regiões polares da Kublai Khan começaram a
disparar. Na tela de visão global surgiram raios verdes,
vermelho-pálidos e vermelho-escuros que cortavam o negrume do
espaço.
A Kublai
Khan disparava todos os tipos de radiações.
Um sol
surgiu no céu. Um dos supercouraçados de Árcon foi atingido pelo
fogo concentrado e desmanchou-se numa fogueira atômica.
Naquele
instante, as energias desencadeadas começaram a rugir em torno da
nave terrana. Na sala de comando, as sereias uivaram. Devido ao
tamanho da nave, a capacidade dos campos defensivos tinha proporções
astronômicas. De qualquer maneira, porém, era limitada, e agora que
o campo estava sendo atingido simultaneamente por mais de dez
disparos de radiações, ameaçava entrar em colapso.
— Cadê
o transmissor de matéria? — gritou Bell para dentro do microfone,
dirigindo-se à estação do TFM.
A resposta
não veio em forma de palavras. O fim abrupto do ruído das sereias
respondia a tudo. O campo energético defensivo voltou a
estabilizar-se. O ataque de uma frota de supercouraçados cessou de
um instante para outro.
— Metade
das naves sumiu! — gritou um dos oficiais do posto de localização.
Rhodan e
Bell fizeram um gesto afirmativo. O transmissor de matéria
representava a única chance de romper a frente extensa e profunda de
naves arcônidas.
— Se
estas naves tiverem uma tripulação de robôs, poderemos de qualquer
maneira fazer nosso testamento... — cochichou Bell ao ouvido de
Perry Rhodan.
O
velocímetro da Kublai Khan aproximou-se da marca que indicava metade
da velocidade da luz. Não demoraria muito até que pudessem entrar
em transição.
Os postos
de artilharia de números 35 a 62 começaram a disparar. No interior
da nave, os conversores uivaram e os geradores rugiram. Os campos
defensivos foram banhados por um mar de fogo. Até mesmo os impactos
nesses campos pareciam fazer balançar a Kublai Khan. Evidentemente
isso não passava de uma tolice. De qualquer maneira, Atlan observava
atento o indicador de capacidade do campo. Noventa e sete por
cento...!
— Santo
Deus...!
Era mais
uma expressão de surpresa infinita, vinda do posto de observação.
Os
instrumentos mostravam que algumas das naves inimigas se haviam
dissolvido literalmente no nada.
O
transmissor de matéria, a arma mais terrível, voltara a golpear.
Essa arma
não fora criada por homens. Provinha de Peregrino, um planeta
artificial no qual vivia Ele ou Aquilo. Além da Kublai Khan, o
transmissor de matéria só era encontrado a bordo da Drusus, nave
capitania de Perry Rhodan.
Oitenta e
sete por cento da velocidade de transição!
— Conseguiremos!
— disse Bell a meia voz. Gucky estava de pé a seu lado. O
rato-castor fitava Bell com uma expressão indagadora. Já não
sorria com o dente roedor, mas também não demonstrava medo.
A frota
arcônida lançou um ataque concentrado. O posto de observação já
não conseguia anunciar os grupos que se aproximavam.
Não
parecia o fim; realmente era o fim.
Mais de
duas mil naves, vindas de todas as direções, aproximaram-se
velozmente da rota da Kublai Khan.
Na sala de
comando do supercouraçado terrano, soaram alguns gritos. De repente
surgiram trezentos, quatrocentos, quinhentos raios destruidores e
eliminaram os campos defensivos da Kublai Khan. Assim mesmo a nave de
Perry Rhodan não desapareceu.
Porém
estava girando em torno de seu próprio eixo!
Sofrerá
mais de duas dezenas de impactos.
O posto do
TFM não respondia. O posto de artilharia da região polar superior
deixara de existir. Os canhões de impulsos, situados no verde,
deviam ter desaparecido. Os postos de desintegradores anunciaram uma
perda de vinte por cento.
No
interior da nave, as sereias de alarma uivaram, anunciando uma
situação catastrófica. Os robôs tentavam reparar os gigantescos
vazamentos provocados pelos raios energéticos.
— A
potência dos neutralizadores de pressão está diminuindo...
Era apenas
uma entre cem notícias catastróficas vindas de todos os cantos da
nave.
Até mesmo
Perry Rhodan empalideceu... A velocidade fora reduzida para 0,48 luz!
— Perdas...
Mortos... Feridos... Outra notícia:
— Sir, a
terça parte da protuberância equatorial foi destruída...
A Kublai
Khan sofreu novos impactos.
Oitenta
por cento da sala de máquinas fora destruída por um raio de impulso
de trinta metros de diâmetro.
A Kublai
Khan era apenas um corpo mutilado.
— Abandonar
a nave!
Perry
Rhodan repetiu a ordem.
Será que
alguém conseguiria sair da nave? Será que o próximo impacto não
transformaria a Kublai Khan numa nuvem de gases?
— Abandonar
nave! Usar girinos! Abandonar nave! Usar girinos...
Perry
Rhodan parecia uma máquina, um robô que só soubesse proferir estas
palavras:
— Abandonar
nave! Usar girinos!
A grande
tela de visão global apagou-se no momento em que oito raios
gigantescos fizeram com que a parte inferior da Kublai Khan se
volatilizasse numa fração de segundos.
O
supercouraçado girava que nem um pião. A cada segundo que passava,
os efeitos da força centrífuga se tornavam mais intensos. Dali se
concluía que os neutralizadores de pressão já não funcionavam.
Bell
continuava sentado ao lado de Perry Rhodan. Gucky estava de pé ao
lado de Bell, enquanto na última poltrona estava sentado Atlan, que
há 10 mil anos ocupara o posto de almirante.
Eram as
últimas pessoas que se encontravam na sala de comando.
Só podiam
comunicar-se pelos rádios de capacete. E foi pelos rádios de
capacete que ouviram uma das últimas notícias calamitosas:
— Sir,
só resta um girino em condições de ser usado. Não conseguimos
tirar os outros dos hangares. É impossível abrir as comportas.
Bell gemeu
sob o capacete.
Os girinos
eram naves de sessenta metros de diâmetro. A Kublai Khan tinha uma
tripulação de 2 mil homens. Nem a metade desse número poderia ser
abrigada no único girino que estava em condições de ser usado.
Subitamente
Atlan, Bell e o rato-castor estremeceram. Rhodan gritou para dentro
do microfone de seu rádio de capacete:
— Todos
encontraremos lugar no... Rhodan foi interrompido por alguns gritos
estridentes.
Vinham de
algum lugar no interior do já semidestruído supercouraçado, em
cuja construção a Terra gastara anos e anos. Depois de algum tempo,
os gritos se tornaram compreensíveis.
A Kublai
Khan estava ardendo.
Não se
tratava de um fogo comum. Uma série de ocorrências infelizes devia
ter deflagrado um incêndio atômico no setor de armazenamento de
energia da nave.
— Fora!
— gritou Rhodan para Gucky e os dois amigos. — Não digam nada.
Deixem a faixa desocupada...
Os
elevadores antigravitacionais não estavam funcionando. Tiveram de
fazer um tremendo esforço para descer de um convés a outro,
utilizando as passagens de emergência. Rhodan transmitia
ininterruptamente suas instruções pelo rádio de capacete.
— Não
se preocupem com o incêndio. Acho que é nossa última chance. Se
não fosse o fogo, já teríamos sido transformados numa nuvem de
gases. Deitem no girino que nem sardinhas em lata. Formem uma camada
acima da outra e ponham o campo antigravitacional a funcionar
suavemente, a fim de que os que ficarem embaixo não sejam esmagados.
Tenham cuidado com os feridos!
Gucky
poderia teleportar-se. Era uma criatura que não apreciava os
movimentos normais, mas agora resolveu permanecer ao lado dos amigos.
Nem pensou em adotar outro procedimento. Rhodan, Bell e Atlan acharam
apenas natural que Gucky permanecesse a seu lado.
A luz
apagou-se. Sentiram-se envoltos numa escuridão ameaçadora.
Encontravam-se a oitocentos metros do hangar, no interior do qual
quase dois mil homens procuravam enfiar-se num girino que media
sessenta metros de diâmetro.
Só agora
compreenderem que a Kublai Khan ainda servia de alvo ao fogo do
inimigo. Um impacto após o outro atingiu o supercouraçado, que
balançava que nem um navio desarvorado com mar grosso. Além disso,
girava em torno de seu eixo. Em quase todos os pontos, o grosso
revestimento desprendia-se da nave.
— Não
conseguiremos... — fungou Bell de repente.
Colocou-se
ao lado de Rhodan e apontou para baixo.
Encontravam-se
junto a um poço de elevador. Três homens e um rato-castor lançaram
os olhos para as profundidades. Lá embaixo rugia o inferno atômico,
que prosseguia implacavelmente na sua faina destruidora.
— Vamos
andando! Acho que é só por isso que ainda estamos vivos.
Provavelmente os arcônidas pensam que a nave foi transformada num
mar de chamas.
— Quando
você estiver morto, bárbaro — começou Atlan — alguém terá de
matar seu otimismo, senão ele continuará a viver. Naquele instante,
Gucky parecia adquirir vida.
— Os
últimos homens estão entrando no girino, Perry. Vou teleportar-me
com Atlan. Depois voltarei para levar o gorducho e, por fim, você.
O.K., chefe?
Com estas
palavras, Gucky deu a entender que, durante todo o tempo, estivera em
contato com um telepata, que se encontrava ao lado do girino. Antes
que Atlan tivesse tempo para esboçar um protesto, Gucky agarrou-se
nele e “saltou”.
Dali a
três minutos, Rhodan já se achava no assento do piloto do girino.
Viu na tela à sua frente a escotilha bem aberta da comporta do
hangar, que fornecia um recorte do preto aveludado do espaço e dos
pontos luminosos nitidamente desenhados. Pela primeira vez teve a
impressão de que estes o fitavam com uma expressão de ódio.
No momento
em que um impacto esfacelava ainda mais a Kublai Khan, Rhodan fez o
girino sair ruidosamente do hangar, acelerando ao máximo. Naquele
instante, só desejava uma coisa: que os postos de observação das
naves arcônidas o identificassem como sendo um pedaço da nave
destroçada, e não como um veículo espacial que se afastava.
Os
propulsores, situados na pequena protuberância equatorial, uivavam,
dando o máximo de si. Porém Rhodan teve a impressão de que a nave
auxiliar se arrastava preguiçosamente.
De súbito
surgiram quatro raios, que dividiram o negrume do espaço em
compartimentos distintos e passaram a alguns milhares de quilômetros
do girino. Atingiram os destroços da Kublai Khan, que se transformou
numa bola de fogo alaranjada, passando a emitir um brilho cada vez
mais intenso.
— Você
estava com a razão, bárbaro — disse o arcônida, sacudindo a
cabeça sob o capacete. — Meus patrícios só não nos deram o tiro
de misericórdia porque a Kublai Khan parecia um inferno. Caramba,
Perry! Onde é que você arranja a sabedoria e o otimismo numa
situação infernal como esta?
Rhodan
teve tempo para dar uma resposta bem pensada:
— Um ser
humano só desiste depois de morto...
E a morte
voltara a rondá-los...
Uma
espaçonave arcônida localizou o girino e disparou todas as peças
de seu costado.
Rhodan
praguejou, coisa que não costumava fazer.
Desviou a
nave da rota. Pouco importava a direção que tomava, pois o inimigo
estaria à espreita em qualquer lugar.
— Chefe!
— exclamou John Marshall, que se encontrava junto ao rádio. —
Acabo de captar uma mensagem interessante. O computador-regente
ordenou à sua frota que capturasse a nave desconhecida e a levasse
para Árcon, a fim de descobrir quem está atrás desta operação.
Bell
soltou uma risada amarga.
— Um a
zero a nosso favor, regente! A ordem chegou tarde!
Atrás
deles, o produto de dezesseis anos de trabalho duro dos terranos
desmanchou-se numa cascata de fogo.
Com isso
queimou-se o único sinal que poderia revelar ao regente quem se
atrevera a utilizar sua faixa de hiperfreqüência para pescar em
águas turvas.
— Zero
vírgula nove! — piou Gucky, que não tirava os olhos do
velocímetro. — Faltam...
Um
terrível raio de desintegração passou à frente do girino,
perdendo-se nas profundezas do espaço.
— Chefe,
parece que fomos localizados por dois cruzadores ligeiros, que seguem
em...
A suspeita
de Marshall transformou-se em certeza.
Subitamente,
a nave auxiliar foi atacada de ambos os lados. Perry Rhodan colocou a
chave do piloto positrônico na posição “desligado”.
Passou à pilotagem manual.
Mais uma
vez jogava tudo numa só cartada, como já fizera várias vezes,
desde o início da operação. Se não conseguisse escapar, seria o
fim...
Os
neutralizadores de pressão do girino uivaram, quando arrancou a nave
de sua rota. O girino descreveu uma curva fechada. O piloto
positrônico foi ligado e pôs em funcionamento o mecanismo de
contagem regressiva para a transição.
A morte
tentava agarrá-los com seus dedos de radiações. Abriu o campo
defensivo do girino e fê-lo desmoronar por alguns segundos!
Mas logo
se seguiu a transição.
Com o
neutralizador de vibrações ligado, pouco mais de 1.700
sobreviventes transferiram-se para o hiperespaço, que representava a
salvação.
*
* *
A operação
Topsid custara a vida de duzentos e quarenta e três homens da frota
solar. Em comparação com isso, a perda da Kublai Khan e do
insubstituível transmissor de matéria não representava nada.
O material
sempre é substituível, os homens nunca!
E Atlan
respondeu a esta observação.
— Se não
nos tivéssemos esquecido tão depressa que o homem é mais
importante que a máquina, Árcon hoje dominaria o Universo. Nós
mesmos fabricamos nosso destino e não merecemos outra coisa:
acabamos dominados pela máquina desalmada... Perry, você tem
certeza absoluta de que em Topsid seus homens não se esqueceram de
nenhum detalhe?
Lançou-lhe
um olhar de expectativa; Rhodan retribuiu com um olhar sério.
— Sim,
Almirante, tenho certeza absoluta de que em Topsid não existe mais
nenhuma indicação de que o computador possa deduzir o caminho à
Terra. Daqui a pouco continuaremos a conversar. Passarei à última
transição, que nos levará ao sistema solar. Pronto, Bell?
Bell se
encontrava junto ao pequeno computador de bordo, no qual acabara de
introduzir os dados para a transição.
— Pronto,
Perry... A luz verde já se acendeu!
Mais uma
vez, a voz metálica do mecanismo de contagem regressiva começou a
desfiar os segundos, em direção ao zero.
Transição
e rematerialização!
O choque e
o lento despertar de um estado indescritível.
Ouviu-se
uma praga.
Foi Bell
quem soltou a praga.
Gucky
levantou-se, perplexo. Atlan fitou o homem baixo e ruivo com uma
expressão de espanto. Rhodan examinou o amigo da cabeça aos pés.
Todos tiveram uma sensação desagradável, embora a pequena tela de
visão global mostrasse o sol terrano.
Tinham
todos os motivos para suspirar aliviados.
Mas
ninguém o fez.
Atlan
chegou mesmo a dizer:
— Isso
ainda pode ficar muito divertido...
Foi o
único que abriu a boca. Os outros contentaram-se em olhar o polegar
direito de Bell.
Ele o
cortara de novo. E estava sangrando...
*
* *
*
*
*
A
missão foi cumprida. O último indício, que poderia levar à
localização correta da Terra, foi removido. Falta eliminar a fonte
de todos os males: o computador-regente de Árcon!
Em
Recrutas
de Árcon,
título do próximo volume, técnicos e mutantes do Império Solar
vivem momentos de extremo perigo.

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