domingo, 21 de agosto de 2016

P-083 - Planeta Topsid, Favor Responder - Kurt Brand [Parte 3]

Tal qual Rhodan e Atlan, seus companheiros esperavam que a qualquer instante tudo aquilo iria desabar, pois aquele estilo arquitetônico contrariava todas as leis da Estática.
Subitamente Rhodan exclamou:
São estalagmites! Estalactites! Será que isso constitui uma indicação da procedência dos lagartos?
Por um instante Atlan fitou o terrano com uma expressão de perplexidade.
As construções de Kerh-Onf tinham o mesmo aspecto das colunas de calcário que se formavam no interior das cavernas. Mas nem por isso se explicava como tudo aquilo não desabava à primeira rajada de vento.
Deve ser um dispositivo antigravitacional que evita o desmoronamento das construções — afirmou Atlan. — Acho que é a única explicação. De qualquer maneira, é uma loucura rematada construir assim.
Talvez seja o instinto, Atlan. Pode ser uma lembrança inconsciente dos tempos imemoriais em que os tópsidas viviam em cavernas.
É uma pena que não vivam mais — disse Atlan.
Por acaso o arcônida olhou para baixo através do visor transparente. Seu planador e os outros preparavam-se para pousar junto ao maior edifício de Kerh-Onf.
A uma altura de trinta metros, havia uma plataforma de pouso que circundava o estranho edifício, como se fosse um prato. Mas os dois canhões de radiações que se encontravam junto à grande entrada pela qual saía um grupo de lagartos não poderiam deixar de ser vistos.
Um preciso mecanismo fez pousar os planadores em fila. O desfile de robôs, que pelo aspecto exterior eram máquinas de guerra arcônidas, reforçava o orgulho que Atlan tinha de demonstrar durante sua visita a Topsid. Em seu vistoso uniforme, Atlan chegava a causar melhor impressão que Rhodan. Em cada passo, em cada movimento, havia a expressão da arrogância arcônida. Rhodan teve de forçar sua representação, enquanto Atlan apenas deixava vir à tona uma disposição natural.
Os lagartos, cujo número chegava a aproximadamente quarenta, estavam submetidos à força simbólica, corporificada no representante do Grande Coordenador. De qualquer maneira, eram bastante inteligentes para reconhecer que qualquer resistência só poderia resultar na destruição de seu sistema.
As frases de cumprimento foram trocadas em intercosmo. Rhodan apenas proferiu umas poucas palavras. Na terceira frase de sua fala anunciou o motivo de sua presença em Topsid.
Exijo que todos os tópsidas que participaram da batalha espacial no setor Vega me sejam apresentados. Além disso, quero examinar todos os documentos relativos ao fato. Agora quero ser conduzido, juntamente com minha delegação, a um recinto condizente com a importância da missão que estou desempenhando. Será que os tópsidas ainda não aprenderam como receber um representante do Grande Coordenador?
Os rostos indiferentes dos lagartos não traíam a impressão causada pelas palavras do arcônida Attor. O tópsida Tgex-Go, cujo uniforme verde-oliva se distinguia dos outros, limitou-se a dizer:
Queiram seguir-nos.
Quando Perry Rhodan, Atlan e os mutantes deram os primeiros passos, os robôs aproximaram-se e protegeram-nos de todos os lados.
Dali a dez minutos saíram do poço do elevador central e entraram numa grande sala de conferências. Tgex-Go e os outros lagartos continuavam a seguir na frente do grupo. Caminhavam do lado direito do recinto e pararam diante de poltronas feitas especialmente para humanóides.
Tgex-Go, o senhor é presidente ou ditador? — perguntou Rhodan, depois de sentar-se ao lado de Atlan.
Altezas — respondeu o lagarto. — O sistema de Topsid já não é oprimido por um ditador; o povo...
Não quero lições, Tgex-Go — interrompeu Rhodan. — Já que não é o ditador, exerce as funções de presidente?
Os olhos do lagarto começaram a chispar fogo. O tom usado por Rhodan representava uma insolência; no entanto, era este tom que os arcônidas usavam para comunicar-se com os povos coloniais. Quem não gostasse, acabaria sentindo o poderio do Grande Império.
Alteza...
Mais uma vez, Tgex-Go violara a etiqueta dos arcônidas. Atlan interrompeu-o em tom áspero:
Já expliquei a seu representante Xxal-Ri, no espaçoporto, que eu devo receber o tratamento de Alteza, e Attor, o representante do Grande Coordenador, o de Grande Arcônida. Será que esse povo de lagartos não é capaz de lembrar-se disso?
Pela primeira vez houve um ligeiro tumulto entre os tópsidas, mas Tgex-Go fez cessar todos os ruídos com um simples movimento de braço.
Grande Arcônida — principiou sem pronunciar-se sobre as palavras de Atlan. — Não temos nada a esconder perante o Grande Império...
Foi interrompido por Rhodan, que fazia o papel do arcônida Attor.
Não perca tempo com mentiras, Tgex-Go! Por que é que vocês procuram remover às pressas o novo rastreador capaz de destruir os campos defensivos das naves? Será que não é para esconder esse aparelho de nós?
Isso, bárbaro! Mostre-lhes! — cochichou Atlan em inglês.
Tgex-Go estremeceu como se fosse um ser humano. A mesma coisa aconteceu com seus companheiros.
Grande Arcônida...
Mais uma vez não pôde concluir a frase. O pavor fechou-lhe a boca. Subitamente um dos acompanhantes do arcônida colocou-se diante de seu secretário e disse em tom enérgico:
Durante a grande batalha travada junto ao mundo dos ferrônios você comandou uma nave. Venha comigo, tópsida.
No mesmo instante, dois robôs aproximaram-se. As medonhas máquinas de guerra estenderam as mãos em direção ao lagarto, que “brincava” com a idéia de fuga, e seguraram-no.
O tópsida não se atreveu a fazer o menor movimento.
Os outros também não.
Sir — dizia uma mensagem telepática reforçada por Harno. — Tgex-Go está pensando num recinto que deve ficar uns cem metros abaixo do lugar em que o senhor se encontra. É lá que se encontram os principais registros sobre a batalha do setor de Vega. O tópsida procura descobrir o motivo do interesse de Árcon por essa velha história. E está apavorado por estarmos informados sobre o segredo do rastreador. Tgex-Go reage muito bem aos fenômenos parafísicos...
Naquele instante, o rádio de pulso de Rhodan começou a chamar. Atlan também recebeu um chamado. Os dois ligaram para a recepção. Reginald Bell estava diante da estação transmissora.
Faz cinco minutos que John Marshall não consegue entrar em contato com Gucky. Há cinco minutos aconteceu, junto às duas naves robotizadas, uma coisa que não conseguimos explicar. Estou chamando para...
Um momento! — gritou Atlan para dentro do microfone de pulso.
Entre ele e os tópsidas o ar começou a tremeluzir ligeiramente e Gucky, o rato-castor que Reginald Bell procurava localizar, surgiu à sua frente.
Que diabo! — gritou Rhodan, mas sua raiva passou logo. — Por que está assim?
O rato-castor, que tinha um metro de altura, procurou ajeitar-se, mas não conseguiu.
Missão cumprida, chefe. Infelizmente tive problemas com os robôs. Eles estão mais doidos pelo novo aparelho do que nós. Ao que parece, sabiam que fiz desaparecer tudo. De repente procuraram pôr as mãos em mim. Meu aspecto deve ser terrível, Perry. Por pouco não levo a pior sova da minha vida. Atlan, transmita cumprimentos meus ao seu computador-regente e pergunte-lhe quando é que ele vai resolver criar robôs capazes de resistir a uma queda de mil metros. Mandei para o alto quatorze dos dezesseis robôs e deixei-os cair. Arrebentaram que nem tomates maduros. Não consegui agarrar os dois últimos e por isso vim pelo caminho mais rápido. Trata-se de novos tipos, Perry. Esses robôs são muito espertos. Eles...
Bell voltou a chamar pelo rádio de pulso.
Desta vez, o rato Jerry não contou nenhuma lorota. Lá fora estão oito robôs e exigem que nós os deixemos entrar na nave. Estão transmitindo sua exigência ininterruptamente pelo rádio. Epa! Está chegando outro bando. Quantos são? Uns trinta ou quarenta...
Deixe isso por minha conta! — piou o rato-castor que se encontrava ao lado de Rhodan.
Antes que Perry tivesse tempo de responder, Gucky teleportou-se. O desaparecimento de uma criatura, que se dissolvia no ar instantaneamente, provocou um calafrio nos lagartos. Quem mais se perturbou foi Tgex-Go, presidente do sistema de sóis gêmeos. Rhodan, que lia seus pensamentos, aproveitou a chance e deixou Tgex-Go ainda mais perturbado ao dizer:
Presidente, quando chegar a hora você saberá por que o Grande Coordenador de Árcon está interessado nestes fatos. Eu mesmo levarei meu colaborador ao arquivo situado uns cem metros abaixo do lugar em que nos encontramos. No momento, você e seu governo só têm uma coisa a fazer: reunir todos os tópsidas que participaram ativamente desses acontecimentos e trazê-los para Kerh-Onf, onde deverão ficar à minha disposição.
Exijo, em nome do Grande Coordenador, que dentro de uma hora o governo ordenará que todos os tópsidas nos prestem toda ajuda na busca de documentos e de pessoas que testemunharam os fatos.
Ainda quero acrescentar uma coisa, Tgex-Go. Minha missão deve ser concluída dentro de dois dias. Se tiver de permanecer por mais tempo em Topsid, cada hora que exceda a esse tempo lhes custará três mil pilotos espaciais experimentados que serão encaminhados imediatamente à frente de combate.”
Era uma ameaça violenta. Rhodan não teve nenhum prazer em proferi-la, mas não havia outro meio de fazer jus à sua aparência de arcônida.
Um arcônida nunca pede; exige!
Grande Arcônida! — respondeu Tgex-Go, que ainda se sentia abalado pelos misteriosos fenômenos que acabara de presenciar. — O povo e o governo dos tópsidas farão tudo para cumprir o mais rapidamente possível a tarefa que nos foi confiada pelo Grande Coordenador. Permite que me retire com o Conselho do Povo para tomar as necessárias providências?
O aceno de cabeça de Perry Rhodan foi quase imperceptível, mas todos os lagartos o notaram. Dali a pouco, quando Rhodan se viu a sós com Atlan e os mutantes, disse:
Tenho a impressão de estar sentado em cima de um barril de pólvora!
8



Nas primeiras vinte e quatro horas parecia que a desesperada operação em grande escala que Perry Rhodan lançara em Topsid realmente seria capaz de deter a marcha da história através de uma falsificação que repararia as conseqüências da omissão que acontecera há setenta anos.
Durante as primeiras vinte e quatro horas, tudo correu às mil maravilhas.
Até mesmo os robôs desembarcados das duas naves arcônidas, que tinham vindo ao sistema para recrutar astronautas entre os lagartos, pareciam ter dominado sua curiosidade em relação a isto, mesmo depois de mais trinta e nove desses robôs serem destruídos.
Durante vinte e quatro horas, Gucky, o rato-castor, entregou-se ao deleite indescritível de sentir-se mais forte que as modernas máquinas de guerra de Árcon. Sua fantasia viva exibia-lhe continuamente o espetáculo da eliminação dos robôs por meio de suas capacidades telecinéticas.
Durante vinte e quatro horas, os especialistas da Kublai Khan, com exceção daqueles cuja presença a bordo era indispensável, registraram um êxito após o outro nas ações desenvolvidas sob a direção dos mutantes.
Dos tópsidas que haviam participado ativamente e em posições de destaque da ação no setor de Vega ainda viviam oito. Dois desses oito lagartos pertenciam à equipe de radiogoniometria que na época captou o pedido de socorro da nave de exploração arcônida que realizara um pouso de emergência na Lua.
Mal esses dois tópsidas foram interrogados pelos mutantes, uma gazela voou em direção ao pólo sul do planeta. A estação de goniometria ali localizada foi ocupada numa operação-surpresa e oito terranos disfarçados de arcônidas deixaram o arquivo e o banco de dados de pernas para o ar.
A operação foi dirigida pelo próprio John Marshall.
Repita a reprodução! — ordenou com a voz rouca, embora tivesse certeza absoluta de ter ouvido bem.
Mais uma vez, o registro foi reproduzido. Uma fita que não media mais de três milímetros de comprimento correu.
A tradutora automática acoplada ao aparelho pronunciou todas as palavras num inglês impecável.
As palavras foram repetidas:

Phi 43:72, 6458... Chi 09:79,3852... Psi 18:00, 9851. Freqüência do hipercomunicador: 4763 0086 a 0999. Faixas das naves exploradoras galácticas. Tempo: 456,7385.886, tempo padrão de Árcon. Margem de tolerância astronômica 0,000.031 ± Intensidade do campo na entrada 3d ± 2. Posição em relação a Topsid: 456,735.886 Phi...

Obrigado — disse Marshall e o Dr. Benthuys desligou apressadamente.
Além de detentor da patente de comandante de cruzadores ligeiros e perito em positrônica dos intervalos, que era uma área fronteiriça da positrônica geral, Benthuys era astronavegador de primeira classe. Seu principal hobby era a hipermatemática dos arcônidas. No entanto, com seu rosto sempre vermelho e a barba malfeita, Benthuys parecia um campônio simplório que, comedor das maiores batatas, saía correndo sempre que alguém pretendia exigir alguma coisa de sua inteligência.
Acontece que aqui o Dr. Benthuys era gênio da Ciência. Sentado ao lado de John Marshall, tinha um bloco antiquado sobre os joelhos e segurava na mão um lápis ainda mais antiquado, com o qual escrevia cifras e fórmulas.
Marshall — disse, enquanto calculava febrilmente. — Preciso conhecer com urgência a posição da Terra, para...
Antes que pudesse concluir, Marshall ligou o rádio e o próprio Benthuys entrou em contato com a sala de comando da Kublai Khan.
Dali a cinco minutos recebeu os dados que havia solicitado.
Hum — dizia constantemente, mas não anotou uma única cifra.
Marshall acreditava que os cálculos fossem demorar mais meia hora. Mas subitamente Benthuys levantou-se, arrastou-o para junto do grande mapa estelar, apontou com o lápis para o lugar em que ficava o planeta Topsid e disse:
É aqui que nós estamos. O senhor ouviu os dados relativos às coordenadas. Uma mensagem de hipercomunicação quase nunca permite a determinação do lugar em que foi expedida, mas esta mensagem irradiada há setenta anos contém todos os elementos necessários a tal determinação. Isso acontece porque os tópsidas conseguiram medir a intensidade do campo de entrada, o que via de regra é impossível. Basta considerar meia dúzia de movimentos e traçar num bom mapa estelar uma reta que, partindo de Topsid, siga na direção correspondente aos dados da goniometria. É isto! Desta forma fomos parar no sistema de Vega, bem próximo à Terra...
Com isso, as vinte e quatro horas durante as quais a missão de Rhodan foi protegida por uma boa estrela chegaram ao fim. Os rádios transmitiram o sinal de alarma.
O Dr. Benthuys ficou calado. Marshall sentou à frente do rádio. O chefe estava junto ao transmissor.
Quanto tempo deverá demorar, Marshall? — perguntou laconicamente.
Umas quatro ou seis...
O chefe dos mutantes não conseguiu prosseguir.
Dou-lhe duas horas, Marshall. Não dispomos de muito tempo. A gazela foi camuflada? Todos colocaram os trajes espaciais?
Ao que parecia, havia um perigo gravíssimo. Se Perry Rhodan falava nestes termos, a situação estava para lá de ruim. O que teria acontecido?
John Marshall preferiu não perguntar. Se o chefe não fornecia as explicações por iniciativa própria era porque não havia tempo para isso. Marshall lançou um olhar indagador para Benthuys. Dependeria exclusivamente do doutor a tarefa ser ou não concluída dentro de duas horas. Benthuys fez que sim.
O.K., chefe, dentro de duas horas modificaremos tudo. O Dr. Benthuys acredita que conseguirá e...
Mais uma vez foi interrompido por Rhodan.
Daqui a uma hora coloque a gazela em condições de decolar imediatamente. Repito: coloquem os trajes espaciais. Temos de contar com a possibilidade de ataques vindos do espaço.
Ataques vindos do espaço? — repetiu Benthuys. — O que é que eu tenho com isso? Meu trabalho consiste em falsificar estes registros. Faça o favor de me avisar quando a barra ficar pesada por aqui, Marshall. E agora não me perturbe mais. Dê o fora com seu rádio. Tenho de concentrar-me. Até logo mais.

* * *

Mais uma vez Atlan, o almirante arcônida, admirou o terrano Perry Rhodan, enquanto Bell não viu nada de extraordinário na atitude do administrador, pois se estivesse no seu lugar teria agido da mesma forma.
Vamos aguardar! — acabara de decidir Rhodan. — Aguardar e preparar-nos. É a única coisa que podemos fazer no momento. Daqui a duas horas, Marshall e sua equipe concluirão o trabalho na estação goniométrica polar. Fellmer Lloyd, que está trabalhando em Kerh-Onf, também espera não levar mais de duas horas para destruir ou falsificar os dados do arquivo. Você está rindo, almirante. Há alguma coisa que não lhe agrade?
Atlan nem se dera conta de que estava rindo.
Ah, então eu ri? Será mesmo? Mas isso aconteceu apenas por causa da ingenuidade infantil de vocês. Acreditam realmente que conseguirão enganar Árcon com suas falsificações grosseiras? Ainda não sabem de que meios dispõe o Grande Império para verificar a autenticidade dos documentos e bancos de dados? Vocês nunca deixarão de ser uns...
Bell lançou um olhar para Atlan; em seu rosto surgiu um sorriso malicioso. O arcônida calou-se. Não iria cometer o erro de subestimar o terrano. Às vezes, essa gente tinha idéias formidáveis.
Você ainda perderá a vontade de rir, gorducho! — gritou Atlan, já que Reginald Bell não se dispôs a falar. — Será que já se esqueceu do dedo cortado?
Bell, o homem impulsivo, não abandonou a atitude reservada que impusera a si mesmo.
Atlan constatou que Rhodan também não dizia mais nada.
O que houve com vocês? — perguntou em tom de perplexidade.
Tenho pena de você, almirante — respondeu Bell. — Apesar dos dez mil anos que você passou com os terranos, continua a viver nas nuvens. Arcônida, seu Grande Império não passa de um conjunto podre de raças e interesses, cuja coesão ainda é mantida em virtude do perigo representado pelos druufs...
Esses argumentos são de quitandeiro! — interrompeu Atlan em tom áspero. — Não sei qual é a ligação entre seu sorriso não muito inteligente e...
É verdade! Meu sorriso não foi nada inteligente — interrompeu Bell. — Por ele apenas quis exprimir minha compaixão. Para você, Árcon é e sempre será um non plus ultra. Segundo sua opinião bem fundamentada, nós, os terranos, evidentemente não poderemos enganar o computador-regente. Nem que nos próximos dez anos-novos, eu corte o dedo, estou disposto a apostar, Atlan, que enganaremos seu cérebro positrônico de uma forma que ninguém jamais o enganou. Qualquer um pode mentir e tapear. Qualquer pessoa que mente é tola, e quem tapeia também é. Acontece que nós, os terranos, não queremos fazer nem uma coisa, nem outra. Apenas queremos impedir que as naves arcônidas usem nossa linda Terra como alvo para seus exercícios de tiro. Por isso mesmo neste mundo dos lagartos tudo continuará como antes, com uma pequenina diferença. Todos os elementos, sejam eles quais forem, indicarão de forma precisa o lugar em que fica a Terra que Árcon tanto quer encontrar. Ela fica do outro lado da Via Láctea, dois mil anos-luz para dentro de um braço secundário da grande espiral. É lá que plantaremos a boa Terra, e o computador-gigante ficará azul de tanto procurá-la.
O discurso de Bell foi interrompido pela sala de rádio.
Joe Pasgin, que se encontrava a bordo da Burma, estacionada próxima do hipercampo de interferência, estava chamando.
Sir, uma nave-correio acaba de trazer a notícia de que três grandes grupos de naves dos mercadores galácticos tentam há algumas horas entrar em contato com Topsid. Uma das naves cilíndricas chamou a estação arcônida G-98765-0 e pediu que investigasse a causa das estranhas interferências.
A estação G-98765-0 fica a trinta e oito anos-luz deste sistema, na direção do Pequeno Cavaleiro.
Há mais de vinte minutos G-98765-0 vem bloqueando nossos receptores situados do lado de fora da zona de interferência, usando mais de cem hiperfreqüências. Por enquanto não houve nada de grave. Acontece que a estação arcônida informou os mercadores galácticos de que não havia a menor interferência, e por isso frotas de dois ou três clãs resolveram dirigir-se ao planeta. Aproximam-se à velocidade de 0,8 luz; deverão atingir a zona de interferência dentro de quarenta minutos aproximadamente.
Quais são as ordens que o senhor tem para nós?
Deixe-os passar, Pasgin. Providencie para que nenhuma das nossas naves seja descoberta. Mais alguma novidade?
A palestra com a Burma havia chegado ao fim. Outra pessoa já aguardava o momento em que Rhodan pudesse receber sua mensagem.
Era Kitai Ishibashi, o sugestionador, que se encontrava em Din-Kop, a segunda cidade do planeta dos tópsidas. Ficava nas margens do lago Gun-Ki, que era o maior mar mediterrâneo desse mundo. Era o maior centro industrial do sistema.
Sir — disse a voz do japonês saída do alto-falante. — Acabamos de captar uma mensagem. Três técnicos de rádio demonstram seu espanto por certos fenômenos de interferência; além disso, chegam bem perto da verdade, pois falam numa interdição do tráfego de rádio...
É só isso, Ishibashi? — interrompeu Rhodan.
Não senhor — Ishibashi respirou fortemente. — Não terminaremos dentro de uma hora. Tama Yokida e sua equipe descobriram mais de trinta naves de guerra que participaram dos combates no setor de Vega. Nenhuma dessas naves está em condições de voar. Por outro lado, porém, elas não foram transformadas em sucata. São trinta e duas naves com trinta e dois...
Ras Tschubai ainda está aí, Ishibashi? — perguntou Rhodan.
Numa fração de segundo, Perry reconheceu o perigo representado pela existência dessas naves. Seria impossível que o japonês “trabalhasse” todos os bancos de dados com a pequena equipe de que dispunha, a fim de falsificar os dados astronômicos relativos ao sistema de Vega.
Sim senhor; Tschubai está aqui...
Eu lhe mandarei Gucky, que deverá chegar dentro de cinco minutos. Tschubai e Gucky deverão destruir os computadores de bordo das velhas naves. Você fica encarregado de tomar todas as providências para que nenhuma das naves que participaram da ação de setenta anos atrás escape à sua equipe. Sabe perfeitamente quanta coisa depende disso...
O senhor pode confiar em nós.
Mantenha-se em recepção. Estou chamando o rato-castor.
Esta criatura era o único membro do Exército de Mutantes que tomava a liberdade de transportar-se ao camarote de Rhodan por meio de um salto de teleportação.
Chefe — piou Gucky em tom animado e empertigou o corpo no uniforme vistoso e colorido que, agora, já lhe assentava muito bem. — Sei o que fazer. O senhor me dá carta branca?
Não havia nada que Gucky fizesse com tanto prazer como brincar. Pelo que se dizia, havia gente que via em suas brincadeiras apenas uma fúria destrutiva. Mas havia muito mais gente que num aperto desejava um Gucky brincalhão que, como telepata, teleportador e telecineta era o “homem” que possuía maior volume de parafaculdades. Além disso, possuía um bom coração. Ninguém poderia desejar um parceiro melhor que o rato-castor.
Ah, é? — perguntou Rhodan. — Então você quer carta branca? Olhe que você desobedeceu mais uma vez as minhas ordens expressas, pois acaba de ler meus pensamentos, Tenente Guck.
Sempre que o Y era omitido em seu nome, a barra estava pesada. Mas ao que tudo indicava, hoje o Tenente Guck não parecia importar-se muito com isso. Ria descontraidamente com seu único dente roedor.
Chefe, a sola dos nossos pés está ardendo. Preciso sair! Está gostando das minhas botas? E você, gorducho? Têm aquecimento elétrico. Quer dizer que não terei pés frios. Bem, então tenho carta branca. Até logo mais.
Mais uma vez, o ar tremeluziu. No mesmo instante em que Gucky, o rato-castor, desaparecia do camarote de Perry Rhodan, materializava-se a 12 mil quilômetros de distância, ao lado do sugestionador japonês Kitai Ishibashi. Piou para o homem alto e magro:
Pode desligar, Kitai! Onde poderei encontrar... Já estou captando seus pensamentos. Vou...
O último sinal da presença de Gucky foi um ligeiro tremeluzir do ar, que logo se desfez numa tênue nuvem de fumaça.
Reginald Bell levantou-se.
Que acha da notícia alarmante vinda do espaço? Três couraçados arcônidas dirigem-se ao sistema de Topsid. Nossos homens não costumam enxergar fantasmas...
Esta notícia, recebida há pouco mais de uma hora, fora transmitida por um dos dois cruzadores pesados. Trinta minutos depois veio a retificação, proferida em tom embaraçado, segundo a qual aquilo que se acreditava serem naves arcônidas deviam ser asteróides com um elevado teor de ferro.
Mas ainda não se havia obtido um esclarecimento cem por cento seguro sobre o que realmente teria sido localizado.
Nossos homens estão sobrecarregados de trabalho — disse Rhodan a título de explicação. — Arcônida, você ainda receia que o computador possa descobrir que manipulamos os dados relativos a Vega?
Sim. A notícia desagradável que acabamos de receber de Kitai Ishibashi não prova como é fácil negligenciar alguma coisa no curso de uma ação violenta? Continuo a acreditar que um dia a frota de Árcon aparecerá sobre a Terra.
Almirante, uma pessoa que não está disposta a arriscar alguma coisa jamais alcança nenhuma vantagem. Desejo até que o computador chegue à conclusão de que tentamos falsificar alguns dados, mas também quero que acredite que nos esquecemos de algo importante. Se conseguirmos isso, a operação desesperada que estamos realizando em Topsid terá sido bem sucedida. Nesse caso, o regente não terá outra alternativa senão procurar a Terra em algum lugar na extremidade oposta da Via Láctea. Quanto aos tópsidas que ocuparam funções de destaque durante a batalha no sistema de Vega, tomamos as providências necessárias para que a memória desses fatos fosse apagada em seu cérebro. Os poucos lagartos, que estão nestas condições, não guardarão a menor lembrança do setor de Vega; apenas se lembrarão de urna luta travada com Rhodan há setenta anos, nos confins da Galáxia.
O alto-falante do sistema de intercomunicação de bordo transmitiu o seguinte aviso:
Sir, nossa frota informa que houve localizações por meio dos medidores de abalos estruturais. Uma frota arcônida aproxima-se do sistema de sóis gêmeos. A chegada está prevista para daqui a trinta e cinco ou quarenta minutos. O grupo é formado por mil ou mil e quinhentas naves de guerra de todas as classes.
Ai, meu dedo! — observou Bell e fitou o alto-falante como se fosse uma criatura inimiga.
Atlan quis dizer alguma coisa, mas não teve tempo. Sem demonstrar a menor comoção, Perry Rhodan falou para dentro do microfone:
Alarma para todos! Alarma para todos! Retirar nossas naves. Evitar o combate. Chame Pasgin e peça informações precisas.
Face à atividade febril provocada pelo alarma, a ligação com a sala de rádio da Kublai Khan foi mantida por mais alguns segundos. Os três homens do camarote ouviram o que foi falado no grande recinto.
Santo Deus, a Via Láctea está conflagrada...! Alô Burma, alô Burma, entre imediatamente em recepção... Alguns milhares de mensagens de hiper-rádio estão cortando o espaço!
...Veja só! Os tópsidas já devem ter percebido alguma coisa! São mais de mil naves arcônidas! Nunca vi tamanha salada de mensagens de rádio...
Finalmente a ligação com a sala de rádio foi interrompida. As palavras, que os três homens haviam ouvido, deixaram-nos preocupados, mas ninguém disse nada. Saíram em silêncio.
Quando entraram na enorme sala de comando da Kublai Khan, os preparativos para a decolagem já haviam sido feitos. Perry Rhodan podia confiar, em qualquer situação, nos homens da frota. O trovejar, os zumbidos e os rugidos dos gigantescos mecanismos encheram a nave de mil e quinhentos metros de diâmetro.
John Marshall, que ainda se encontrava, juntamente com sua equipe, na estação goniométrica polar, transmitiu uma mensagem concisa:
Precisamos de mais dez minutos, chefe! Pedimos seu consentimento.
De acordo, Marshall, desde que esteja aqui cinco minutos depois de concluído o trabalho. Desligo.
Atlan esteve a ponto de lançar um protesto exaltado contra a decisão de Rhodan, mas sentiu a mão de Bell pousada em seu braço. O homem ruivo lançou-lhe um olhar enérgico, e o arcônida preferiu engolir o protesto. Mas não conseguiu reprimir estas palavras:
Esta leviandade dos terranos é o diabo!
Joe Pasgin chamou da Burma.
Sir, somos a última nave que mantém sua posição mediante um forte dispositivo protetor contra a localização. A força de Árcon é composta por duas mil unidades. Procuram bloquear todo o sistema de Topsid. Até agora constatamos a presença de cento e trinta supercouraçados. O número dos cruzadores pesados deve chegar a quinhentos ou seiscentos. Só no verde sessenta e sete e oitenta e cinco resta um corredor de saída, mas esta... Temos de entrar em transição, Sir. Há um ataque maciço vindo de...
Depois de um forte estrondo, as hiper-comunicações entre a Burma e a Kublai Khan cessaram.
Em compensação, o couraçado captou um pedido de socorro vindo de Kerh-Onf. O grupo de vinte homens, que trabalhava no arquivo, estava sendo impedido de deixar o edifício.
Kitai Ishibashi chamou de Din-Kop, uma cidade situada a doze mil quilômetros de distância.
Iniciaremos vôo de regresso. Os teleportadores Ras Tschubai e Gucky são os únicos que não estão aqui. Irão depois.
O Tenente Gilbert, que estava de serviço no setor de rastreamento, anunciou:
Um grupo de couraçados tópsidas aproxima-se do amarelo quarenta e três. São dezoito naves...
Rhodan ordenou imediatamente:
Sala de comando de artilharia. Faça alguns disparos de advertência para obrigar os tópsidas a mudar de rumo. Repito: disparos de advertência.
Bell, que ocupava o assento do co-piloto, ligou para a estação do transmissor de matéria.
TFM está preparado para entrar em ação?
Sim senhor.
Pois fique atento. Daqui a pouco terão muito trabalho.
Atlan sentiu-se como um espectador.
Estes bárbaros... — disse várias vezes a si mesmo. — Estes terranos... — não podia deixar de admirá-los.
Uma frota arcônida composta de duas mil unidades aproximava-se velozmente, vinda do espaço, e estes homens, que há alguns segundos estelares ainda viviam na Idade da Pedra, faziam de conta que poderiam enfrentar tamanha superioridade de forças ou ao menos enganá-la.
Seu dedo não está doendo, gorducho? — Atlan não pôde deixar de formular esta pergunta.
Uma salva de advertência dos canhões térmicos da Kublai Khan interpôs-se no caminho da frota tópsida que se aproximava. Em sua trilha, a atmosfera do planeta entrou em ebulição.
O supercouraçado apenas levou uma leve sacudidela. Depois de uma breve pausa disparou a segunda salva.
As naves dos tópsidas já apareciam sob a forma de pontinhos reluzentes na grande tela de visão global da Kublai Khan. Continuavam a demonstrar a mesma falta de manobrabilidade e de aceleração que já haviam dado mostras no setor de Vega.
Sir, todas as posições de defesa dos tópsidas estão de prontidão — anunciou o posto de rastreamento energético. — Dei ordem para que as gazelas se mantenham sempre a menos de trezentos metros de altitude.
O ar começou a tremeluzir entre Bell e Atlan. Dois teleportadores surgiram ao mesmo tempo. Eram Gucky e Ras Tschubai.
Perry — disse o rato-castor — os computadores positrônicos dos velhos calhambeques espaciais foram transformados em sucata. Tem mais algum serviço para nós?
Bell dirigiu-se ao rato-castor.
Entrem em ação em Kerh-Onf, no arquivo histórico. Dêem apoio ao grupo que se encontra lá. Os lagartos estão atacando com armas térmicas e de impulsos. Dentro de dez minutos, o mais tardar, vocês deverão estar aqui juntamente com todo o grupo. Depois daremos o fora...
Ótimo, gorducho.
Mal Gucky acabou de proferir estas palavras, segurou a mão do africano e desapareceu.
Os hangares da Kublai Khan transmitiam seguidamente várias notícias. As diversas equipes estavam regressando com as gazelas. Faltavam apenas três grupos: o de John Marshall, o de Kitai Ishibashi e o que fora destacado para trabalhar no arquivo histórico.
Daqui a quinze minutos, a frota arcônida aparecerá nos céus do planeta! — advertiu Atlan.
Quando isso acontecer, não estaremos mais aqui — respondeu Bell, mas sua voz parecia menos segura e confiante do que costumava ser.
A sala de rádio transmitiu outra notícia:
Sir, a movimentação da frota foi providenciada pela estação G-98765-0. Neste momento, o computador-regente de Árcon está falando com o presidente de Topsid. Infelizmente ainda não consegui decifrar a mensagem...
O oficial de artilharia Crafford utilizou a linha de emergência e falou em meio à mensagem:
Chefe, preciso de autorização para abrir fogo! A gazela de Ishibashi poderá ser destruída a qualquer momento. Não conseguirá passar...
...mas não quero nenhum impacto direto! — decidiu Rhodan e lançou um olhar rápido para o relógio.
O tempo corria vertiginosamente. A cada segundo que passava, a proximidade da frota de Árcon tornava-se mais ameaçadora.
Onde estava John Marshall e sua gazela? Por que não anunciava sua decolagem da estação polar?
Subitamente, as posições de artilharia estacionaria dos tópsidas, localizadas em torno do espaçoporto, dispararam contra um alvo que não aparecia nas telas de visão global da Kublai Khan.
Outra mensagem foi transmitida pela linha de emergência da sala de comando da artilharia:
Chefe, estão abrindo fogo.
No mesmo instante, os gigantescos canhões de impulsos começaram a trovejar. Alvejavam as posições de artilharia dos tópsidas.
Um traço reluzente, vindo do alto, atravessou a tela. Seria uma espaçonave derrubada?
A sala de rádio transmitiu uma notícia:
Marshall anuncia que seu pouso no hangar é iminente, Sir!
Então era a gazela de Marshall que descia em velocidade tresloucada das camadas mais tênues da atmosfera e, desenvolvendo o máximo de aceleração, procurava colocar-se sob a proteção da Kublai Khan.
A frota dos tópsidas está mudando de rumo, Sir...
Rhodan lançou um olhar para o grande cronômetro.
Dentro de onze minutos, no máximo, as primeiras naves arcônidas apareceriam nos céus de Topsid.
Um objeto em forma de disco aproximou-se velozmente da Kublai Khan.
O hangar 18 anunciou:
John Marshall e sua equipe acabam de regressar da estação polar!
Dali a três segundos veio outra mensagem:
Kitai Ishibashi acaba de pousar com a equipe de Din-Kop!
Rhodan limitou-se a olhar para Bell. Este compreendeu. Também não sabia por que Gucky e Ras Tschubai ainda não haviam voltado.
Sala de rádio... — a voz de Rhodan parecia um tanto rouca. — Procure entrar em contato com o arquivo histórico de Kerh-Onf. Apressem-se.
Nesse instante, o rato-castor piou às costas de Rhodan:
Não há nenhuma pressa, Perry. Daqui a trinta segundos poderemos dar o fora.
Rhodan virou-se abruptamente na sua poltrona.
Tenente Guck, poderia fazer o favor de dar uma informação em termos razoáveis?
Seus olhos cinzentos fitavam o rato-castor com uma expressão enérgica.
No mesmo instante, o dente roedor de Gucky desapareceu. O rato-castor esforçou-se para ficar em posição de sentido. A pata direita foi levada apressadamente ao quepe arcônida.
O Tenente Guck, membro do Exército de Mutantes, acaba de regressar de sua missão. Demos uma boa sova nos tópsidas. Livramos o grupo-tarefa da fria em que se encontrava. Foi uma brincadeira bonita...
Para Perry Rhodan já bastava. Fez um gesto de contrariedade.
Atlan, que há 10 mil anos já exercia as funções de almirante arcônida, e que voara num sem-número de missões, já não suportava a indiferença ostensiva dos terranos.
Não se esqueçam — observou em tom mordaz — de que, dentro de dez minutos, duas mil naves de guerra estarão acima de nossas cabeças!
Perry Rhodan respondeu com a maior tranqüilidade.
Acontece que não decolaremos antes que o último homem esteja a bordo. Há dez mil anos não se costumava agir assim na frota arcônida?
O que acontecerá se durante a decolagem os tópsidas utilizarem o novo rastreador e eliminarem nossos campos energéticos? — objetou Atlan.
Não poderão fazer isso — piou Gucky. — Os lagartos tinham um único aparelho, e eu lhes tirei o mesmo, quando tentavam levá-lo a outro lugar. Aposto que eles poderão procurá-lo em qualquer lugar, menos nos depósitos da On-Tharu. Afinal, sou um telecineta muito competente e...
O hangar 18 voltou a chamar.
O grupo do arquivo histórico acaba de chegar. A escotilha da comporta está fechada.
Era o sinal de decolagem.
Os propulsores de impulsos situados na protuberância equatorial da gigantesca Kublai Khan começaram a trabalhar a plena potência. Ao mesmo tempo, entraram em funcionamento os neutralizadores de pressão, os campos antigravitacionais e alguns milhões de relês e dispositivos positrônicos.
De um instante para outro, a Kublai Khan perdeu todo o peso, graças aos dispositivos antigravitacionais. O supercouraçado da frota solar ergueu-se quase imperceptivelmente do espaçoporto de Kerh-Onf. A potência do empuxo foi crescendo cada vez mais. O indicador de aceleração subia aos saltos. O planeta Topsid parecia cair num abismo. A gigantesca nave afastava-se velozmente.
Alguns segundos depois, verificaram-se os primeiros ataques das posições de artilharia dos lagartos.
Quantidades enormes de energia descarregavam-se nos campos defensivos da nave esférica. Cascatas de fogo e de energia eram lançadas para todos os lados e provocavam um rugido no interior da nave. Sob a ação das ondas sonoras, o corpo do supercouraçado começou a trepidar ligeiramente. Mas as forças controladas, que se desenvolviam no interior da gigante solar, eram mais intensas e ruidosas que o inferno crepitante na parte exterior dos campos defensivos.
As naves tópsidas nos perseguem!
Foi a primeira de uma série de notícias alarmantes.
Rhodan chamou o setor da nave que distinguia a Kublai Khan de todos os veículos espaciais de tipo arcônida que pertencessem à mesma classe.
Caso a Kublai Khan for atacada, o transmissor de matéria tem permissão para disparar.
Neste instante, o rato-castor disse em voz alta ao ouvido de Bell:
Vou ligar o aquecimento elétrico das minhas botas. Não quero ficar com os pés frios...
Perry Rhodan não ouviu essa observação supérflua do rato-castor, ou então preferiu fazer de conta que não a ouvira. Sua voz era áspera, mas controlada, quando disse:
Colocar trajes espaciais!
Isso se aplicava a todos, inclusive a Bell, Atlan e ao rato-castor. Apenas não se aplicava a Harno, a criatura esférica que se encontrava no bolso do uniforme de Rhodan.
A Kublai Khan atravessou as camadas mais elevadas da atmosfera. O uivo enervante das superaquecidas massas de ar foi diminuindo. Em compensação vinha da sala de máquinas o rugido cada vez mais forte dos mecanismos que trabalhavam a toda potência.
De um instante para outro, a imagem projetada na grande tela de visão global do supercouraçado modificou-se.
O negrume do espaço parecia irromper na sala de comando.
Os dois sóis pareciam olhos ofuscantes, nitidamente desenhados. Topsid, o mundo central do povo de lagartos, desaparecera na escuridão do Universo.
Localização!
As naves de Árcon deveriam chegar dentro de oito minutos!
Os aparelhos de rastreamento da Kublai Khan estabeleceram contato com a frota que se aproximava.
Localização com o rastreador estrutural.
Isso significava que as naves continuavam a emergir do hiperespaço, a fim de barrar o caminho do misterioso veículo espacial que enganara os tópsidas.
O que diz o controle das mensagens de rádio?
Rhodan estava interessado em saber se as naves arcônidas que se aproximavam e os tópsidas ainda não sabiam quem fora o autor do blefe.
Os homens da sala de rádio da Kublai Khan eram verdadeiros feiticeiros. Em apenas cinco frases, o Tenente Jouffre forneceu ao administrador do Império Solar um relato minucioso sobre esta interrogação.
Nas mensagens até então captadas, não foi mencionado uma única vez sequer o nome de Perry Rhodan ou o do planeta Terra. O regente de Árcon acreditava tratar-se de um povo colonial que se revoltara e, agora, queria tirar proveito de certos conhecimentos que os tópsidas não vinham utilizando. Mas não foi por isso que o Grande Coordenador resolveu enviar uma gigantesca frota; foi porque alguém usou indevidamente sua faixa de hiperfreqüência.
Face a isso, Árcon não podia deixar de impor ao transgressor um castigo exemplar. E o computador desalmado de Árcon III já demonstrara por mais de uma vez com que disposição sabia golpear.
Senhor administrador — não era costume usar tal tratamento para com Perry Rhodan. Na situação em que se encontravam, este fazia prever uma notícia alarmante. — Mais de vinte supercouraçados aproximam-se do verde cento e cinqüenta e seis graus.
As torres de canhões das regiões polares da Kublai Khan começaram a disparar. Na tela de visão global surgiram raios verdes, vermelho-pálidos e vermelho-escuros que cortavam o negrume do espaço.
A Kublai Khan disparava todos os tipos de radiações.
Um sol surgiu no céu. Um dos supercouraçados de Árcon foi atingido pelo fogo concentrado e desmanchou-se numa fogueira atômica.
Naquele instante, as energias desencadeadas começaram a rugir em torno da nave terrana. Na sala de comando, as sereias uivaram. Devido ao tamanho da nave, a capacidade dos campos defensivos tinha proporções astronômicas. De qualquer maneira, porém, era limitada, e agora que o campo estava sendo atingido simultaneamente por mais de dez disparos de radiações, ameaçava entrar em colapso.
Cadê o transmissor de matéria? — gritou Bell para dentro do microfone, dirigindo-se à estação do TFM.
A resposta não veio em forma de palavras. O fim abrupto do ruído das sereias respondia a tudo. O campo energético defensivo voltou a estabilizar-se. O ataque de uma frota de supercouraçados cessou de um instante para outro.
Metade das naves sumiu! — gritou um dos oficiais do posto de localização.
Rhodan e Bell fizeram um gesto afirmativo. O transmissor de matéria representava a única chance de romper a frente extensa e profunda de naves arcônidas.
Se estas naves tiverem uma tripulação de robôs, poderemos de qualquer maneira fazer nosso testamento... — cochichou Bell ao ouvido de Perry Rhodan.
O velocímetro da Kublai Khan aproximou-se da marca que indicava metade da velocidade da luz. Não demoraria muito até que pudessem entrar em transição.
Os postos de artilharia de números 35 a 62 começaram a disparar. No interior da nave, os conversores uivaram e os geradores rugiram. Os campos defensivos foram banhados por um mar de fogo. Até mesmo os impactos nesses campos pareciam fazer balançar a Kublai Khan. Evidentemente isso não passava de uma tolice. De qualquer maneira, Atlan observava atento o indicador de capacidade do campo. Noventa e sete por cento...!
Santo Deus...!
Era mais uma expressão de surpresa infinita, vinda do posto de observação.
Os instrumentos mostravam que algumas das naves inimigas se haviam dissolvido literalmente no nada.
O transmissor de matéria, a arma mais terrível, voltara a golpear.
Essa arma não fora criada por homens. Provinha de Peregrino, um planeta artificial no qual vivia Ele ou Aquilo. Além da Kublai Khan, o transmissor de matéria só era encontrado a bordo da Drusus, nave capitania de Perry Rhodan.
Oitenta e sete por cento da velocidade de transição!
Conseguiremos! — disse Bell a meia voz. Gucky estava de pé a seu lado. O rato-castor fitava Bell com uma expressão indagadora. Já não sorria com o dente roedor, mas também não demonstrava medo.
A frota arcônida lançou um ataque concentrado. O posto de observação já não conseguia anunciar os grupos que se aproximavam.
Não parecia o fim; realmente era o fim.
Mais de duas mil naves, vindas de todas as direções, aproximaram-se velozmente da rota da Kublai Khan.
Na sala de comando do supercouraçado terrano, soaram alguns gritos. De repente surgiram trezentos, quatrocentos, quinhentos raios destruidores e eliminaram os campos defensivos da Kublai Khan. Assim mesmo a nave de Perry Rhodan não desapareceu.
Porém estava girando em torno de seu próprio eixo!
Sofrerá mais de duas dezenas de impactos.
O posto do TFM não respondia. O posto de artilharia da região polar superior deixara de existir. Os canhões de impulsos, situados no verde, deviam ter desaparecido. Os postos de desintegradores anunciaram uma perda de vinte por cento.
No interior da nave, as sereias de alarma uivaram, anunciando uma situação catastrófica. Os robôs tentavam reparar os gigantescos vazamentos provocados pelos raios energéticos.
A potência dos neutralizadores de pressão está diminuindo...
Era apenas uma entre cem notícias catastróficas vindas de todos os cantos da nave.
Até mesmo Perry Rhodan empalideceu... A velocidade fora reduzida para 0,48 luz!
Perdas... Mortos... Feridos... Outra notícia:
Sir, a terça parte da protuberância equatorial foi destruída...
A Kublai Khan sofreu novos impactos.
Oitenta por cento da sala de máquinas fora destruída por um raio de impulso de trinta metros de diâmetro.
A Kublai Khan era apenas um corpo mutilado.
Abandonar a nave!
Perry Rhodan repetiu a ordem.
Será que alguém conseguiria sair da nave? Será que o próximo impacto não transformaria a Kublai Khan numa nuvem de gases?
Abandonar nave! Usar girinos! Abandonar nave! Usar girinos...
Perry Rhodan parecia uma máquina, um robô que só soubesse proferir estas palavras:
Abandonar nave! Usar girinos!
A grande tela de visão global apagou-se no momento em que oito raios gigantescos fizeram com que a parte inferior da Kublai Khan se volatilizasse numa fração de segundos.
O supercouraçado girava que nem um pião. A cada segundo que passava, os efeitos da força centrífuga se tornavam mais intensos. Dali se concluía que os neutralizadores de pressão já não funcionavam.
Bell continuava sentado ao lado de Perry Rhodan. Gucky estava de pé ao lado de Bell, enquanto na última poltrona estava sentado Atlan, que há 10 mil anos ocupara o posto de almirante.
Eram as últimas pessoas que se encontravam na sala de comando.
Só podiam comunicar-se pelos rádios de capacete. E foi pelos rádios de capacete que ouviram uma das últimas notícias calamitosas:
Sir, só resta um girino em condições de ser usado. Não conseguimos tirar os outros dos hangares. É impossível abrir as comportas.
Bell gemeu sob o capacete.
Os girinos eram naves de sessenta metros de diâmetro. A Kublai Khan tinha uma tripulação de 2 mil homens. Nem a metade desse número poderia ser abrigada no único girino que estava em condições de ser usado.
Subitamente Atlan, Bell e o rato-castor estremeceram. Rhodan gritou para dentro do microfone de seu rádio de capacete:
Todos encontraremos lugar no... Rhodan foi interrompido por alguns gritos estridentes.
Vinham de algum lugar no interior do já semidestruído supercouraçado, em cuja construção a Terra gastara anos e anos. Depois de algum tempo, os gritos se tornaram compreensíveis.
A Kublai Khan estava ardendo.
Não se tratava de um fogo comum. Uma série de ocorrências infelizes devia ter deflagrado um incêndio atômico no setor de armazenamento de energia da nave.
Fora! — gritou Rhodan para Gucky e os dois amigos. — Não digam nada. Deixem a faixa desocupada...
Os elevadores antigravitacionais não estavam funcionando. Tiveram de fazer um tremendo esforço para descer de um convés a outro, utilizando as passagens de emergência. Rhodan transmitia ininterruptamente suas instruções pelo rádio de capacete.
Não se preocupem com o incêndio. Acho que é nossa última chance. Se não fosse o fogo, já teríamos sido transformados numa nuvem de gases. Deitem no girino que nem sardinhas em lata. Formem uma camada acima da outra e ponham o campo antigravitacional a funcionar suavemente, a fim de que os que ficarem embaixo não sejam esmagados. Tenham cuidado com os feridos!
Gucky poderia teleportar-se. Era uma criatura que não apreciava os movimentos normais, mas agora resolveu permanecer ao lado dos amigos. Nem pensou em adotar outro procedimento. Rhodan, Bell e Atlan acharam apenas natural que Gucky permanecesse a seu lado.
A luz apagou-se. Sentiram-se envoltos numa escuridão ameaçadora. Encontravam-se a oitocentos metros do hangar, no interior do qual quase dois mil homens procuravam enfiar-se num girino que media sessenta metros de diâmetro.
Só agora compreenderem que a Kublai Khan ainda servia de alvo ao fogo do inimigo. Um impacto após o outro atingiu o supercouraçado, que balançava que nem um navio desarvorado com mar grosso. Além disso, girava em torno de seu eixo. Em quase todos os pontos, o grosso revestimento desprendia-se da nave.
Não conseguiremos... — fungou Bell de repente.
Colocou-se ao lado de Rhodan e apontou para baixo.
Encontravam-se junto a um poço de elevador. Três homens e um rato-castor lançaram os olhos para as profundidades. Lá embaixo rugia o inferno atômico, que prosseguia implacavelmente na sua faina destruidora.
Vamos andando! Acho que é só por isso que ainda estamos vivos. Provavelmente os arcônidas pensam que a nave foi transformada num mar de chamas.
Quando você estiver morto, bárbaro — começou Atlan — alguém terá de matar seu otimismo, senão ele continuará a viver. Naquele instante, Gucky parecia adquirir vida.
Os últimos homens estão entrando no girino, Perry. Vou teleportar-me com Atlan. Depois voltarei para levar o gorducho e, por fim, você. O.K., chefe?
Com estas palavras, Gucky deu a entender que, durante todo o tempo, estivera em contato com um telepata, que se encontrava ao lado do girino. Antes que Atlan tivesse tempo para esboçar um protesto, Gucky agarrou-se nele e “saltou”.
Dali a três minutos, Rhodan já se achava no assento do piloto do girino. Viu na tela à sua frente a escotilha bem aberta da comporta do hangar, que fornecia um recorte do preto aveludado do espaço e dos pontos luminosos nitidamente desenhados. Pela primeira vez teve a impressão de que estes o fitavam com uma expressão de ódio.
No momento em que um impacto esfacelava ainda mais a Kublai Khan, Rhodan fez o girino sair ruidosamente do hangar, acelerando ao máximo. Naquele instante, só desejava uma coisa: que os postos de observação das naves arcônidas o identificassem como sendo um pedaço da nave destroçada, e não como um veículo espacial que se afastava.
Os propulsores, situados na pequena protuberância equatorial, uivavam, dando o máximo de si. Porém Rhodan teve a impressão de que a nave auxiliar se arrastava preguiçosamente.
De súbito surgiram quatro raios, que dividiram o negrume do espaço em compartimentos distintos e passaram a alguns milhares de quilômetros do girino. Atingiram os destroços da Kublai Khan, que se transformou numa bola de fogo alaranjada, passando a emitir um brilho cada vez mais intenso.
Você estava com a razão, bárbaro — disse o arcônida, sacudindo a cabeça sob o capacete. — Meus patrícios só não nos deram o tiro de misericórdia porque a Kublai Khan parecia um inferno. Caramba, Perry! Onde é que você arranja a sabedoria e o otimismo numa situação infernal como esta?
Rhodan teve tempo para dar uma resposta bem pensada:
Um ser humano só desiste depois de morto...
E a morte voltara a rondá-los...
Uma espaçonave arcônida localizou o girino e disparou todas as peças de seu costado.
Rhodan praguejou, coisa que não costumava fazer.
Desviou a nave da rota. Pouco importava a direção que tomava, pois o inimigo estaria à espreita em qualquer lugar.
Chefe! — exclamou John Marshall, que se encontrava junto ao rádio. — Acabo de captar uma mensagem interessante. O computador-regente ordenou à sua frota que capturasse a nave desconhecida e a levasse para Árcon, a fim de descobrir quem está atrás desta operação.
Bell soltou uma risada amarga.
Um a zero a nosso favor, regente! A ordem chegou tarde!
Atrás deles, o produto de dezesseis anos de trabalho duro dos terranos desmanchou-se numa cascata de fogo.
Com isso queimou-se o único sinal que poderia revelar ao regente quem se atrevera a utilizar sua faixa de hiperfreqüência para pescar em águas turvas.
Zero vírgula nove! — piou Gucky, que não tirava os olhos do velocímetro. — Faltam...
Um terrível raio de desintegração passou à frente do girino, perdendo-se nas profundezas do espaço.
Chefe, parece que fomos localizados por dois cruzadores ligeiros, que seguem em...
A suspeita de Marshall transformou-se em certeza.
Subitamente, a nave auxiliar foi atacada de ambos os lados. Perry Rhodan colocou a chave do piloto positrônico na posição “desligado”. Passou à pilotagem manual.
Mais uma vez jogava tudo numa só cartada, como já fizera várias vezes, desde o início da operação. Se não conseguisse escapar, seria o fim...
Os neutralizadores de pressão do girino uivaram, quando arrancou a nave de sua rota. O girino descreveu uma curva fechada. O piloto positrônico foi ligado e pôs em funcionamento o mecanismo de contagem regressiva para a transição.
A morte tentava agarrá-los com seus dedos de radiações. Abriu o campo defensivo do girino e fê-lo desmoronar por alguns segundos!
Mas logo se seguiu a transição.
Com o neutralizador de vibrações ligado, pouco mais de 1.700 sobreviventes transferiram-se para o hiperespaço, que representava a salvação.

* * *

A operação Topsid custara a vida de duzentos e quarenta e três homens da frota solar. Em comparação com isso, a perda da Kublai Khan e do insubstituível transmissor de matéria não representava nada.
O material sempre é substituível, os homens nunca!
E Atlan respondeu a esta observação.
Se não nos tivéssemos esquecido tão depressa que o homem é mais importante que a máquina, Árcon hoje dominaria o Universo. Nós mesmos fabricamos nosso destino e não merecemos outra coisa: acabamos dominados pela máquina desalmada... Perry, você tem certeza absoluta de que em Topsid seus homens não se esqueceram de nenhum detalhe?
Lançou-lhe um olhar de expectativa; Rhodan retribuiu com um olhar sério.
Sim, Almirante, tenho certeza absoluta de que em Topsid não existe mais nenhuma indicação de que o computador possa deduzir o caminho à Terra. Daqui a pouco continuaremos a conversar. Passarei à última transição, que nos levará ao sistema solar. Pronto, Bell?
Bell se encontrava junto ao pequeno computador de bordo, no qual acabara de introduzir os dados para a transição.
Pronto, Perry... A luz verde já se acendeu!
Mais uma vez, a voz metálica do mecanismo de contagem regressiva começou a desfiar os segundos, em direção ao zero.
Transição e rematerialização!
O choque e o lento despertar de um estado indescritível.
Ouviu-se uma praga.
Foi Bell quem soltou a praga.
Gucky levantou-se, perplexo. Atlan fitou o homem baixo e ruivo com uma expressão de espanto. Rhodan examinou o amigo da cabeça aos pés. Todos tiveram uma sensação desagradável, embora a pequena tela de visão global mostrasse o sol terrano.
Tinham todos os motivos para suspirar aliviados.
Mas ninguém o fez.
Atlan chegou mesmo a dizer:
Isso ainda pode ficar muito divertido...
Foi o único que abriu a boca. Os outros contentaram-se em olhar o polegar direito de Bell.
Ele o cortara de novo. E estava sangrando...





* * *
* *
*






A missão foi cumprida. O último indício, que poderia levar à localização correta da Terra, foi removido. Falta eliminar a fonte de todos os males: o computador-regente de Árcon!
Em Recrutas de Árcon, título do próximo volume, técnicos e mutantes do Império Solar vivem momentos de extremo perigo.

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