segunda-feira, 29 de agosto de 2016

P-100 - A Estrela do Destino - K. H. Scheer [Parte 3]

Eles não sabem de onde nós viemos — disse Bell.
Não há dúvida, mas nós sabemos que eles existem e isto basta. Eu não teria mais um momento de sossego, se ao menos não soubermos com quem estamos tratando. Major Claudrin...!
O homem de Epsal se empertigou na cadeira. Seus olhos encovados brilhavam com os reflexos dos metais do capacete.
Pronto, sir.
Prepare a manobra de aterrissagem. Vamos nos encontrar lá embaixo. Leve a Fantasy para perto daquele fenômeno luminoso esquisito lá no chão. Contamos com a prontidão da nossa artilharia. Comando de aterrissagem pronto para desembarcar. Tenente Mahaut Sikhra...!
O nepalês se apresentou pelo videofone.
Cuide dos armamentos de seus homens. Utilize os uniformes de combate arcônidas. Vou acompanhar vocês. O ar desta lua é respirável e as temperaturas são suportáveis. É tudo. Obrigado.
Sikhra desligou. Numa outra seção da Fantasy, os robôs de combate, prontos para entrarem em ação, recebiam os primeiros impulsos para uma nova programação.
Brazo Alkher sentiu que as palmas das mãos lhe estavam úmidas. Momentos depois, começou um assobio fino na parte externa da nave. Claudrin foi descendo numa curva íngreme, enquanto os envoltórios antichoque desviavam as moléculas de ar.
Os fenômenos luminosos estavam cada vez mais próximos. Pouco antes da aterrissagem descobriram-se os primeiros seres vivos. A ampliação ótica das imagens trouxe para as grandes telas panorâmicas as figuras esbeltas, semelhantes aos homens.
Também isto não seria nada de extraordinário, se ao menos uma daquelas criaturas se dignasse o olhar a nave. O ronco possante dos conjuntos de propulsão não poderia deixar de ser ouvido, até por surdos. No entanto, lá embaixo cada um seguia seu caminho com toda calma, como se nada estivesse acontecendo.
A dois quilômetros de altura, o primeiro-oficial ligou os motores acionadores dos suportes telescópicos que servem de apoio para a nave cilíndrica em terra. Mesmo assim, as estranhas inteligências não tomaram conhecimento da chegada da nave. Agiam como se a Fantasy não existisse.
A quase um quilômetro das enormes e altas construções, que, ao que tudo indicava, eram meramente funcionais, deu-se a aterrissagem. Quando os motores de propulsão pararam e o deslocamento de ar, imanente às manobras de aterrissagem, deixou de agitar a areia e a poeira daquele terreno meio desértico, centenas de terranos se agrupavam nas clarabóias de observação, sem poder compreender o que se passava.
Os rastreadores estruturais continuavam registrando, e agora com tal intensidade que tiveram de ser desligados. Os instrumentos de sondagem energética indicavam a existência de usina geradora tão forte, que o próprio Amo Kalup ficou perplexo. A corrente ali produzida seria suficiente para acionar e prover de força algumas centenas de milhares de gigantes espaciais do tipo Império. As possíveis instalações dessa usina deviam estar nos extensos galpões e edifícios altos da cidade vizinha.
Fora disso, não havia outra novidade. Os seres desconhecidos não se mostravam nem com intenção amigável, nem com aparência hostil. Simplesmente não se mostravam.
Bell pareceu ter compreendido melhor a situação, quando disse com um sorriso irônico:
Para estes senhores, nós devemos dar a impressão de insetos vagabundos com quem não se perde tempo. É o que a gente sente. Mas quem é que vai se preocupar com moscas varejeiras, a não ser quando começarem a morder?
Claudrin soltou uma imprecação bem epsalense que não foi compreendida pelos terranos.
Insetos? — repetiu Rhodan, pensativo. — Quem sabe você não está tão errado assim? Eu acho que nós...
Desculpe, sir!
E assim Rhodan foi bruscamente interrompido pelo médico Gorl Nkolate que, um tanto nervoso, vinha entrando. O rosto moreno do homem esbelto e de boa compleição demonstrava séria preocupação. Atravessou rápido a central de comando. Trazia na mão direita umas grandes folhas que colocou imediatamente na escrivaninha articulada de Rhodan.
São chapas de raios X? — perguntou Rhodan surpreso. — De quem que você as tirou?
Nkolate, que era visto geralmente com um sorriso nos lábios, passou a mão nervosa pelos cabelos em desalinho. Era tido como a maior capacidade em cirurgia de adaptação. Seus transplantes de coração, por exemplo, eram famosos.
Não são dos nossos homens, sir — explicou apressado. — Pouco antes da aterrissagem, fiz algumas tomadas com a teleobjetiva dos tubos de Rõentgen. É tudo, sir. Veja, não está reparando nada? Olhe isto aqui. O esqueleto destes estranhos seres deve lembrar-lhe algo importante.
Bell se aproximou. Oficiais e cientistas logo rodearam a poltrona de Rhodan. Perry, depois de alguns segundos, disse espantado:
Será que estou ficando maluco? São ossos de um esqueleto arcônida, não há dúvida. Só as placas reforçadas do peito e das costas, que estão em lugar das costelas, dizem tudo. Ou será que estou enganado, Gorl?
O grande cirurgião abanou a cabeça.
De maneira alguma, sir. É isto mesmo. Conheço os arcônidas muito bem para poder afirmar de consciência tranqüila que aqui vivem seres inteligentes, que, ao menos do ponto de vista fisiológico, lhes ficam muito próximos. Apenas os seres desta lua não possuem os cabelos brancos dos arcônidas e seus olhos avermelhados. Também a cor da pele não é tão clara, como são os arcônidas que conhecemos. Apesar disso, estes seres desconhecidos são aparentados com os arcônidas.
O Dr. Carlos Riebsam, médico e matemático da equipe de pesquisadores, forçou passagem entre os homens ali agrupados. Sem dizer nada, pegou as chapas de raios X. Enquanto isto, Rhodan baixou os olhos para os instrumentos de bordo. Os olhos de Riebsam ficaram detidos algum tempo numa das chapas, colocando-a depois na escrivaninha de Rhodan.
Então, Riebsam, que pensa de tudo isto?
Aqui não há nada para a gente pensar. Os fatos falam por si. A mim, me interessa a pergunta: “Quem descende de quem?
...e sua inteligência fulminante achou a solução na mesma hora — completou Kalup em tom de caçoada.
Riebsam não se deixou perturbar.
Temos de esclarecer se os arcônidas que conhecemos são descendentes destas inteligências que vivem aqui, ou se esta gente do sistema Azul descende de velhos colonizadores arcônidas. Qual das duas culturas é a mais velha? Qual dos dois povos foi o primeiro a se adaptar biológica e fisicamente às novas condições ecológicas? Os arcônidas ou... estes daqui? Procure chegar a uma conclusão, sir, e seus conhecimentos aumentarão.
Riebsam tinha razão. Não havia nada para pensar. A história era resolver esta questão, o que aliás só tinha interesse meramente teórico. Não se podia ainda prever um valor prático para a questão.
Rhodan pigarreou e depois se ergueu de seu assento.
Bem, procuremos esclarecer o assunto. Se os arcônidas descendem destas inteligências, só isto já é uma grande descoberta.
Pode-se perguntar de que maneira? — interveio Bell.
Oh! De uma maneira pouco agradável para nós — disse Rhodan. — A história da política de expansão galáctica prova que, em todas as ocorrências até hoje, os descendentes dos colonizadores emigrados jamais chegaram ao nível técnico e científico de seus antepassados. Parece ser uma lei da natureza: as inteligências arrancadas do seu primitivo ritmo de vida são mais susceptíveis de manifestações de degenerescência. Olhando deste ponto de vista, gostaria de afirmar que os arcônidas aqui residentes são os antepassados dos nossos conhecidos e não o contrário.
É uma afirmação muito ousada — disse Nkolate. — O senhor tem certeza disso?
Absoluta. A tremenda degeneração de todos os arcônidas fala de por si. Os cabelos brancos, os olhos avermelhados e o corpo mais fraco e, mais ainda, a indiferença e a falta total de interesse em todas as coisas práticas da vida, são outra prova. Quando o senhor olha agora a técnica visivelmente superior desta gente que aqui vive, esta simples comparação não lhe dá a certeza da decadência dos arcônidas nossos conhecidos? Creio mesmo que estes seres aqui chegaram, através dos séculos, a tal ponto de evolução que já não usam mais naves tripuladas.
Bell foi se aproximando, olhando agora para as telas com olhar bem diferente.
O negócio está ficando interessante — disse ele arrebatado. — Como é que você prova tal teoria? De que maneira podem eles deixar de lado a cosmonáutica? Não estou compreendendo bem.
Carlos Riebsam deu a resposta na hora. Parecia irrefutável.
As centrais elétricas rastreadas deviam bastar para provar isto, como também os tremendos abalos estruturais, que representam um domínio absoluto sobre a quinta dimensão. Temos que investigar melhor os fenômenos luminescentes. Tenho um pressentimento a respeito...
Rhodan mandou que dois homens da tripulação o ajudassem a vestir o pesado e volumoso uniforme de combate e enquanto isto dizia com um sorriso nos lábios:
Ah! Você tem um pressentimento? Eu também, meu caro. Se por acaso você for de opinião que esta grande lua não passa de uma gigantesca estação de transmissor fictício, então podemos nos dar as mãos. Com isso teríamos a melhor explicação para os muitos abalos no espaço.
Sem dizer uma palavra, Riebsam estendeu a mão direita que Rhodan apertou. O professor Kalup saiu correndo dali, pálido de surpresa. Apenas Bell disse com sarcasmo:
Maravilhoso! E sem ninguém nos obrigar, viemos parar num mundo deste. Provavelmente, os desconhecidos, a esta altura, estão pensando: “O que vamos fazer com eles?” Saibam que, ao penetrarmos neste sistema, tivemos que romper uma espécie de proteção energética.
Depois, Bell continuou pensativo:
Bom, ninguém se esqueceu disso, não é? Percebo na fisionomia de vocês. Se eu pertencesse à raça destes legítimos arcônidas, haveria de me perguntar, antes de tudo, o seguinte: como foi que a tripulação desta nave experimental penetrou neste gigantesco envoltório de proteção, principalmente pelo fato de que ninguém até hoje o conseguiu atravessar? Talvez mesmo não iria consentir que estes estranhos entrassem e andassem por aí, como se fossem os donos da casa. Haveria de passar uma descompostura em vocês, bem séria, aliás.
Quando um povo está tão evoluído assim que já não usa mais o transporte aéreo, por tê-lo substituído pelo transmissor fictício, pode também se dar ao luxo de se considerar sem fronteiras. Quem sabe vem daí o total pouco-caso dedicado à nossa nave? Somos apenas insetos incômodos, um desmancha-prazer a quem se mostra o caminho para fora, o mais depressa possível. Os senhores vêem alguma lógica nos meus pensamentos?”
Bell se levantou, meteu as mãos nos bolsos e se dirigiu para Rhodan, que, no momento, estava recebendo a mochila com os microprojetores para os campos de anti-gravidade e deflectores. Assim estava completo o uniforme arcônida.
Quase lógico demais — disse ele, abstraído. — Você se esqueceu de uma coisa, pelo menos não a mencionou.
O que foi?
Por que os chamados ancestrais dos arcônidas ou os pré-arcônidas teriam que ser tão pacientes assim? Se eu tivesse tanta coisa para guardar e proteger, como esta gente, não deixaria esta meia dúzia de terranos aterrissar aqui. Onde está a resposta? Por que nos deixam assim, sem nos dar a mínima importância, ao invés de nos tocar daqui para fora? Se eu fosse chefe aqui, não aconteceria isto. Antes de aterrissar, eu já teria mandado a Fantasy para outros mundos, mas não a deixaria em minha terra.
Bell riu bastante. Parou de repente ao ver o rosto estarrecido de Marshall. Rhodan também percebeu e perguntou:
O que você tem, John? Alguns impulsos?
Levou ainda alguns segundos até que o telepata despertasse de sua imobilidade. Esfregou os olhos, confuso.
Alguém lá fora desligou seu campo de proteção mental — disse apressado. — Recebi vibrações claras e conscientes. Sir, é incrível, mas acham que somos arcônidas, que viemos para visitar a antiga pátria de nossos antepassados. Não posso mais ouvir nada, eles se trancaram de novo.
A tensão nervosa entre os tripulantes estava insuportável. Rhodan, porém, parecia a própria calma personificada. Bell teve então um rompante original:
Se você declarar agora que já havia pensado nisto, eu sou capaz de explodir em mil pedaços.
Rhodan afivelou o cinturão com a pesada pistola energética, controlando exatamente o nível da carga. Depois disse com a maior tranqüilidade:
Então pode explodir, mas não suje muito a sala de comando, pois eu havia Pensado exatamente nisto.
Mentira! Você não é onisciente.
Claro que não, mas sei pensar. Na parte conhecida da Via Láctea há, ou havia até poucos anos, apenas um povo que construía suas espaçonaves em forma de esfera. Eram os arcônidas, meu caro. Atualmente, nós também as construímos. Como então que as inteligências desta lua podem saber que não pertencemos ao sistema arcônida mas sim à Terra? Há quantos séculos não têm contato com seus descendentes emigrados? Também não podem saber o que se passou no mundo de Árcon, que dista daqui mais de quarenta mil anos-luz. Por outro lado, nós também chegamos aqui com uma nave esférica e descobrimos o sistema Azul. Qual é pois a conclusão mais plausível do que sermos nós os descendentes dos pré-arcônidas emigrados há mais de vinte mil anos?
Eu lhe dou plena razão — disse Riebsam. — Vão supor que nós descobrimos em velhos documentos os dados sobre a posição do sistema Azul. É por este motivo que ninguém nos ataca, pois sabem que, de qualquer maneira, somos seus parentes. Por outro lado, dão-nos a compreender quão incômoda é nossa visita.
Estão vendo? Mas já que somos homens, de cabeça mais dura, vamos fingir que não entendemos este outro lado. Major Claudrin, o senhor fica a bordo. Conservar a nave pronta para se defender e deixar as máquinas ligadas para a eventualidade de uma partida de emergência. Não se preocupe conosco. Nós nos veremos em breve. Por quanto mais tempo nos considerarem arcônidas, tanto melhor. Se, porém, perceberem que não temos nada em comum com seus descendentes, a não ser a forma do corpo, daremos meia-volta imediatamente.
Bell solicitou um uniforme de combate. No comando geral dos conjuntos de propulsão, zuniam os campos de defesa e, nas usinas energéticas, funcionavam os reatores novamente.
Os elementos de propulsão estavam com luzes verdes e a Fantasy achava-se preparada para decolar em caso de perigo. Somente no posto de artilharia não havia muita coisa a fazer, já que se encontravam de prontidão.
O pelotão de robôs sob o comando do Tenente Stana Nolinow não chegou a sair da espaçonave. Apenas uma pequena parte da tripulação saiu de bordo. Rhodan se utilizou de três naves auxiliares, aparelhos anfíbios, de fácil locomoção em qualquer terreno, como no ar. Estes aparelhos faziam parte dos equipamentos de emergência da Fantasy.
Apenas trinta homens pisaram no solo do mundo estranho. O mutante de duas cabeças, Ivã Goratchin, permaneceu na Fantasy. Somente Gucky, John Marshall e o telecineta Tama Yokida acompanharam os demais tripulantes.
Alguns homens, que, em virtude de seu temperamento, não podiam deixar de tentar desvendar um mistério que se lhes apresentava, faziam todo esforço para saber tudo a respeito daquela civilização antiqüíssima. Era um empreendimento às vezes perigoso. Mas, os homens da equipe da nave experimental já estavam acostumados a isto.

* * *

...para Auris de Las-Toor: averiguar de onde vêm estes estranhos e de que maneira conseguiram romper o envoltório de proteção.
A jovem retirou o bilhete do transmissor de notícias, colocou de novo a cápsula na fenda de ejeção e apertou o botão de contato. A cápsula desapareceu com um pequeno clarão, para no mesmo instante rematerializar-se no aparelho receptor da Central de Notícias.
Com muita atenção, Auris leu a ordem escrita do Conselho Regente.
Tomaram coragem — disse um técnico mais idoso, apontando para a tela do vídeo. — Estão saindo da nave. Parece que não conhecem mais boas maneiras e bons costumes. Estão naturalmente degenerados, inferiores. Dê-lhes a entender que não são bem-vindos e faça tudo para que sua nave nos deixe o quanto antes.
Auris de Las-Toor inclinou a cabeça. Com o interesse prático e simples de uma cientista, ela examinou os estranhos que, bem reconhecíveis, acabavam de sobrevoar as primeiras estações dos reatores.
Não apresentam nenhum sintoma de degeneração física — disse o técnico. — Admirável! Mantenha-os dentro de seus limites.
Auris passou a mão nos longos cabelos vermelho-cobre e ligou seu campo de proteção. Depois abotoou seu manto curto e se dirigiu para o portão de segurança que se abriu sem o menor ruído. Do portão ao ponto de condução eram poucos passos. O “ponto de condução” era o campo de ação do transmissor fictício. O técnico observou a dissolução instantânea de seu corpo esbelto. Sem intervalo de tempo, a moça rematerializou-se no aparelho de recepção da maior lua do planeta.
Auris de Las-Toor estava disposta a executar a ordem do Conselho Regente. Olhava descontraída a aterrissagem das três viaturas anfíbias. Já era tempo de fazer alguma coisa.
Estão se dirigindo para os campos estruturais — explicou o técnico da grande estação energética 18-IV-3645. Devem ser tratados como hóspedes?
De maneira alguma — disse Auris categórica. — O comportamento deles não é decente. Você deve ter notado que nós não pensamos em retribuir suas abrutalhadas tentativas de aproximação. Mande-me um deslizador robotizado e informe os que estão viajando. Os degenerados não devem ser tomados em consideração.

8



Pouco antes de deixar a Fantasy, Rhodan havia ordenado que a partir daquele momento só se podia falar a língua arcônida a bordo. Todo membro da tripulação dominava esta língua plenamente.
Sem serem molestados, sobrevoaram os gigantescos armazéns e as enormes cúpulas das centrais, que haviam sido rastreadas da espaçonave. Do outro lado dos edifícios, que vistos de cima, pareciam formar uma grande cidade, já eram visíveis os focos luminescentes, observados já antes da aterrissagem da Fantasy. Eram pistas energéticas com nuances do branco-pálido ao vermelho-escuro, surgindo sem transição do solo, para depois, na altura de cinqüenta a trezentos metros, se unirem em arco.
Desta maneira, formavam-se singulares portões em cujas aberturas o mundo parecia acabar.
Rhodan ia confeccionando seu mapa. Os três aparelhos anfíbios desceram a poucas centenas de metros do grande fenômeno luminescente. Aquela gente desconhecida abrira estradas largas de muitos quilômetros de comprimento, terminando todas diante das gargantas escuras das colunas energéticas, como se as tais estradas ali se interrompessem de repente.
Trinta terranos olhavam boquiabertos para os inúmeros homens estranhos do outro lado, que saíam das grandes galerias existentes em volta, ou que estavam ocupados em outros terrenos, lidando com mercadorias de todos os tipos.
Máquinas gigantescas robotizadas se arrastavam para fora dos silos. Os objetos transportados em campos antigravitacionais eram depositados numa espécie de caminhão sem rodas, construído em forma de concha, que, depois de carregado, era levado como se não tivesse peso nenhum para um dos portões em arco.
Não havia dúvida de que se tratava de transmissores fictícios, mas de uma espécie que não era ainda conhecida nem na Terra, nem no Império Arcônida. Rhodan observava tudo, todos os processos, até poder compreender o significado de todos os aparelhos e instalações.
Aquela enorme região, que não se abrangia com a vista, estava tão saturada de campos de transmissão fictícia, que não era mais o espaçoporto para o despacho de mercadorias e de passageiros. O que ali se passava, não era nada de assustador nem de descomunal, mas tão-somente de uma técnica superapurada e superevoluída.
Os pré-arcônidas — se é que se tratava deles — encontraram uma maneira viável e tecnicamente amadurecida para acabar com as complicadas viagens espaciais até planetas distantes ou superdistantes.
Se fosse realizado em campos em arco, em transmissores para desmaterialização e condução de mercadoria de qualquer tipo, o transporte se faria sem nenhuma perda de tempo e sem as complicadas manobras de carregar e descarregar.
Rhodan sabia agora por que motivo havia ali nas proximidades uma central elétrica de tamanha proporção. Era para alimentar os vários transmissores fictícios. No entanto não se viam em parte alguma as redes de transmissão ou cabos condutores isolados. Não se podia, pois, imaginar de que modo os transmissores recebiam a necessária energia. Também não se viam as chaves de comando ou de sincronização, que, certamente, deviam existir.
Rhodan e seus cientistas já haviam visto bastante para poderem concluir sobre o elevado nível técnico daquelas inteligências.
Olhe uma coisa aqui — disse Bell impressionado, com os olhos claros bem arregalados.
O olhar de Rhodan acompanhava a mão do amigo. Do outro lado, a uns trezentos metros, zunia uma longa e interminável cadeia de gigantescas plataformas flutuantes, sem rodas, na direção de um dos grandes portões do transmissor fictício. As plataformas flutuantes transportavam máquinas monstruosas, mercadorias bem acondicionadas e uma multidão de pré-arcônidas, em fila e em perfeita ordem, estavam sentados nos deslizadores.
Lá onde começava a terrível e tenebrosa garganta do arco de desmaterialização, desapareciam uma por uma as plataformas flutuantes, com um rápido clarão de brilho intenso. Demorou poucos minutos até a interminável cadeia se dissolver, para no mesmo instante, talvez, rematerializar-se, num mundo distante, numa instalação semelhante de transmissor de recepção.
Em comparação com esta gente aqui, nós somos órfãos — disse Bell com um sorriso indeciso. — Provavelmente, poderão facilmente cobrir grandes distâncias.
Devem ter pelo menos um aparelho de recepção em cada uma de suas bases — opinou o Tenente Sikhra. Seu rosto estreito lhe dava uma aparência de tímido. — Sir, pensando bem, não me resta outra opção a não ser admitir que os pré-arcônidas possuem ainda uma navegação espacial tripulada. De outra feita, como poderiam eles transportar para outros mundos os aparelhos de recepção, absolutamente indispensáveis? Ou o senhor acha que haveriam de usar aparelhos que não carecem de receptores? Seria o cúmulo, não acha?
Nada é impossível. O Ser do planeta Peregrino tem este poder. No supercouraçado Drusus, existe um transmissor fictício, oriundo do planeta Peregrino, através do qual se pode enviar qualquer objeto desmaterializado para qualquer lugar.
Estas instalações não parecem deste tipo — disse Bell. — Mas não me olhe assim, que eu fico com cara de bobo. O que você está pensando, Rhodan?
Voltar, voltar o mais depressa possível — disse ele, depois de curto silêncio. — O pessoal desse planeta não nos está dando nenhuma importância. Acho que, para eles, somos ar empesteado, que não se pode respirar. Sikhra, reúna seu pessoal.
Mahaut fez um sinal para um de seus sargentos, Totrin, um homem baixo de cabelos negros, de seu comando de ação. Totrin tentava, há minutos, entrar em conversa com algum dos transeuntes. Era um tipo sempre bem-humorado e, além disso, muito paciente. Assim, respondia sistematicamente com um sorriso neutro, quando simplesmente o deixavam de lado, como se ele não existisse.
Mas Totrin devia ter descoberto alguma coisa. Quando percebeu o sinal de Sikhra, voltou lentamente para o veículo anfíbio mais próximo e saltou por sobre o peitoril mais baixo do bagageiro.
Então? — perguntou Rhodan, com visível inquietação.
Nada feito, sir. Não querem diálogo. Se a gente fica parado no meio da calçada, eles simplesmente se desviam. Continuam conversando como se não ouvissem nada. Tentei umas quinze vezes, com diversos tipos de pessoas. A maioria deles tem cabelos cor de cobre, muitos, no entanto, têm cabelos escuros, com um reflexo azulado. Todos possuem uma pele morena aveludada. Neste ponto não parecem muito com os arcônidas, mas em compensação falam bem o arcônida.
Rhodan se admirou.
Que você está dizendo?!
Falam o arcônida arcaico, sir. Pude compreendê-los muito bem. É mais ou menos a língua que encontramos nos lugares de colonização arcônida. Mais importante é o fato de que chamam o sol azul deste sistema de “Ácon”.
Está aí o negócio — exclamou Bell, agitado. — “Ácon”! Se acrescentarmos a letra “r”, teremos “Árcon”. Está mais do que claro que os arcônidas de hoje se espalharam pelo Universo, saindo daqui. Nosso bom amigo Atlan não devia se gabar tanto do grande passado de seu povo. Os nossos arcônidas não são mais do que um ramo degenerado desta raça.
Um veículo flutuante vem em nossa direção, sir — avisou alguém.
Rhodan virou-se imediatamente.
O deslizador disparava pela ampla pista e parou exatamente em cima das viaturas anfíbias.
Oba! Estão perdendo a paciência, não é? — disse Rhodan como que monologando.
Seus olhos se estreitaram. O sol azul estava até muito camarada: a temperatura média era em torno de 29 graus centígrados.
Esperou uns momentos até que pudesse discernir bem as pessoas que estavam no deslizador.
Estão mandando uma mulher, aliás uma bela mulher — disse John Marshall. — Está pensando em nós e numa determinada missão. Esta gente irradia paravibrações instáveis, distorcidas, sir. É muito difícil pegar o fio de seu pensamento.
É isto mesmo — confirmou Gucky, que desde a fuga da nuvem chamejante não dera mais sinal de si.
Todos sabiam que o rato-castor sofria muito com as conseqüências da sobrecarga dos muitos gravos.
Está pensando numa missão? — repetiu Rhodan. — Sikhra, prepare tudo para a partida. Quando ela se aproximar mais de nós, escaparemos por aí. Quem sabe o que ela está tramando contra nós?
Uma frágil donzela! — exclamou Bell com ironia.
Para mim, não é uma frágil donzela, mas uma representante deste grande povo, que, em dadas circunstâncias, pode perder a paciência e se tornar perigosa. Não preciso dizer o que pode então acontecer.
Ela e sua comitiva vêm de fato na nossa direção — disse Gucky com mais animação. — Está pensando em algo pequeno, que se arrasta com antenas na cabeça, e sente nojo pensando nisto, mas está sempre comparando este animalzinho nojento conosco.
É percevejo! — disse Reginald Bell.
Percevejo não tem antena, sir — corrigiu Mahaut Sikhra sorrindo.
Não tem importância! Quem sabe os percevejos daqui possuem antenas?! Mas isto é o cúmulo! Esta mulher parece estar mais orgulhosa de seu povo do que, em seu tempo, a arcônida Thora. Para ela, nós éramos apenas os habitantes de um inferno, um pouco melhorado.
Rhodan estremeceu e Bell teve remorso do que disse. Desde a morte de Thora, seu nome não era mais pronunciado na presença de Perry Rhodan.
Sikhra, vamos embora! Depressa!
Os três veículos desprenderam-se do solo, movidos por projetores antigravitacionais, exatamente quando a cientista Auris de Las-Toor parara sua viatura deslizante.
Quando um homem de boa estatura, com traços marcantes e irônicos, de olhos escuros, curvou o corpo e a cumprimentou, Auris ficou confusa e pela primeira vez sentiu admiração pelos estranhos.
Consternada, olhava para os aparelhos que, segundos depois, desapareciam atrás das grandes construções da central elétrica.
Nervosa, Auris transmitiu a notícia para sua central. Recebeu a instrução de não molestar mais os aparentemente assustados homens de outros mundos.
Auris não sabia por que começara a duvidar de repente do conceito “assustado”. O homem alto, ponderado, de autodomínio, não dava a impressão de ter ido embora assustado por ela. Tentou refletir sobre a situação com clareza e isenção de ânimo, sem nenhum preconceito. Depois resolveu voltar o mais depressa possível para sua repartição, a fim de obter novas informações sobre a pré-história dos emigrantes acônidas.
Auris de Las-Toor era galato-socióloga. Estava dentro de seu quadro profissional investigar os problemas sócio-políticos dos mundos colonizados pelos acônidas e enquadrá-los dentro das normas das antigas legislações.
Quando, em rápida viagem, voou de volta para a base do transmissor fictício, era de opinião de que ia esclarecer tudo sem nenhuma complicação. Descontente consigo mesma, tentou tirar de sua memória aquela aparição esbelta.
O fato de aquele homem ter olhado sarcástico e sobranceiro para mim foi apenas uma questão de situação, pois ele estava, no momento, em posição mais alta do que eu”, pensava ela, tentando convencer-se. “Mas por que o degenerado tinha que olhar logo assim para mim?

* * *

O Tenente Brazo Alkher retirou a ponta dos dedos dos interruptores do quadro de mira dos canhões, assim que o último veículo anfíbio entrou são e salvo na grande comporta equatorial da Fantasy. Stana Nolinow que, no momento, não estava ocupado na direção da nave, apareceu na central de artilharia, a fim de contar a Brazo as últimas novidades.
...ninguém deu bola à nossa gente — disse ele, em voz alta. — Uma ofensa destes orgulhosos! Mas a moça... que classe! — virou os olhos e estalou os dedos.
Brazo sorriu. Nolinow parecia muito sensível a este gênero de fascinação.
Você a viu, meu irmãozinho? Não, naturalmente não, você tinha que olhar para o seu quadro de mira. Mas eu tomei parte na transmissão das imagens para a televisão. Mahaut me havia prometido captar os lances mais importantes com a câmara portátil. Assim, vi tudo, vi principalmente a moça bonita. Imagine só aquela figura esbelta, pneumática...
Como?
Figura pneumática de uma deusa — continuou Stana, arrebatado. — Cabelos compridos, levemente ondulados, da cor de cobre velho, que, dependendo da incisão da luz, tinham reflexos esverdeados. Ainda por cima, o nariz clássico de uma deusa grega, os lábios cheios de uma espanhola, a frieza reservada de uma rainha inglesa. Tinha gelo nos olhos de esfinge, mas, quando viu Perry Rhodan, respirou duas vezes e meia mais rápido.
Por que não três vezes?
Duas vezes e meia, eu contei. Por que haveria de mentir?
Você não acha este tenente um pouco maluco, sargento Enscath? — perguntou Brazo ao velho graduado.
Não compete a mim julgar os oficiais da nave assim abertamente — disse Enscath, sorrindo.
É isto que gostaria de aconselhar a você — ameaçou Stana. — Meus amigos, vocês não têm idéia... que coisas maravilhosas existem nesta lua meio deserta! Vocês estão vendo que estou apaixonado, virado do avesso por ela, pronto para sacrificar minha vida pela Humanidade, com a única condição de que eu pudesse tratar com ela sobre o destino da tripulação da Fantasy. Caminharia sorrindo e bêbado de felicidade para a morte, caminharia, não, pularia... depois, acho que...
Tripulação para os postos de manobra — tonitroou o vozeirão de Claudrin, em todos os alto-falantes. — Prontos para decolagem de emergência. Confirmem.
Stana silenciou, olhando aborrecido em volta.
Que brutamontes! — disse ele. — Interromper-me assim desta maneira. Vocês ouviram? Eu estava falando dela.
Está certo, mas agora, corra para seus robôs, seu poeta de meia-tigela — disse Brazo, com calma.
Sem dizer mais uma palavra, Stana caminhou para a porta blindada. O sargento Enscath disse com cara de sério:
Senhor, estamos preocupados com seu bem-estar. Caso o senhor deseje colocar uma peruca vermelha num dos seus robôs, eu poderia falar com o oficial do almoxarifado.
Stana olhou furioso para Enscath.
Seu maluco!
Depois que ele desapareceu, Brazo Alkher levantou o dedo em tom peremptório:
Gostaria de saber se um oficial da nave tem o direito de ofender os membros da tripulação.
Vamos perdoá-lo, sir — disse o sargento, sorrindo. — Bem, o painel do controle de armas está com luz verde.

* * *

Para onde você quer voar, para onde? — perguntava Bell, excitado.
Rhodan apertou o cinturão de sua poltrona. Sob seus pés roncavam os projetores antigravitacionais, eliminando a forte atração da grande lua.
Para o quinto planeta deste sistema solar, planeta este chamado Sphinx — disse Rhodan, tranqüilo.
Você está caducando? Já vimos coisas demais e minhas vértebras cervicais superiores estão começando a comichar, o que sabidamente é um mau presságio.
Você está é muito gordo — disse Gucky, em tom de deboche.
Cala o bico, garotinho. O assunto é sério. Perry, o que pretende mesmo?
Não é muito. Quero dar uma olhada no número cinco para constatar qual é o jogo que se esconde por lá. Esta lua é apenas uma enorme central energética com funções já conhecidas. Quero saber de que maneira os acônidas, daqui em diante os chamaremos assim, levam seus aparelhos de recepção para os planetas de destino. Para isto necessitariam de uma frota espacial.
Onde estão estas espaçonaves? Qual é sua velocidade? Que tipo de propulsão usam os acônidas? E o que é mais importante: o que há nesta raça no tocante à vontade de fazer novas conquistas?
Não seria nada agradável encontrar um dia na Terra uma enorme instalação de transmissor fictício, de onde surgissem milhões de robôs de combate. Se levarmos em conta a tremenda ambição despótica dos velhos arcônidas, não podemos fugir da seguinte pergunta: de que maneira se comporta o povo de onde se originaram os arcônidas? Voaremos lá para o planeta Sphinx. Pronto, Jefe, pode partir.”
As palavras de Bell se perderam no tonitroar dos conjuntos de tração. A Fantasy avançava com tanta força para o espaço que poucos segundos depois não podia ser mais vista pela gente da lua. Apenas uma onda de ar superaquecido invadiu as imensas instalações do singular espaçoporto do transmissor fictício.
Um técnico dos acônidas gritou zangado:
Que gente sem-educação. Não mereciam pisar aqui. A gente devia destruí-los.
Destruir era uma palavra que não cabia no dicionário de Rhodan. Sempre aproveitava a ocasião que se lhe oferecia, a fim de garantir os interesses da Terra.
A viagem durou poucos minutos. Foi uma alegria para o homem de Epsal poder executar uma estonteante aterrissagem.
O cruzador pesado disparava a toda e só começou as manobras de frenagem nas camadas mais baixas da atmosfera do quinto planeta.
Foi por isso que o comandante disse:
De qualquer maneira, já fomos rastreados. Não há mais motivos para cautela exagerada. Ao menos ficarão cientes de que os terranos sabem lidar com grandes naves.
O Major Krefenbac olhou admirado para as costas de suas mãos, com que limpara o suor do rosto. A pele estava úmida.
É uma miséria! — resmungou o primeiro-oficial.
Seu rosto melancólico e enrugado estava ainda mais inexpressivo do que de costume. Lembrou-se de que fazia mais de dez anos que não suava assim. Já que o fenômeno veio de repente, Krefenbac resolveu, por medida de segurança, colocar o cinturão com a pistola térmica, o que aliás já há tempo não fazia, apesar das prescrições a respeito.
Santo Deus! — disse Bell. — O monstro comprido pega em arma. Quem ia pensar nisso? Miséria! Por que estes acônidas cruzam os braços assim? Claudrin, arranque as florestas deles com as ondas de compressão. Estou curioso para saber quando esta gente disciplinada vai perder a paciência...
Eu também — disse Rhodan. — E pode não demorar muito. Jefe, lá na frente estão aparecendo cidades. Vamos aterrissar no primeiro espaçoporto que encontrarmos. A nave continuará preparada para decolagem de emergência. Central energética, apresente-se...!
O engenheiro de serviço apareceu no videofone.
Vamos aterrissar logo — disse Rhodan, tranqüilo. — Com seus rastreadores de energia e de massa, tente localizar as possíveis espaçonaves. Suponha que os aparelhos acônidas voem também com propulsão linear. Regule seus rastreadores pelo impulso correspondente. Está tudo claro?
Entendido, sir. Faremos o melhor possível.
O que você disse mesmo? — soou a voz de Kalup, nos alto-falantes. Ouvira a conversa. — Você pensa, por acaso, que estas inteligências chegaram a desenvolver o vôo linear de supertração sem os saltos de transição?
Estou até convencido disto. Não tem que ser uma cópia direta do nosso conversor de compensação, mas o sistema deve funcionar de maneira idêntica.
Exijo uma comprovação objetiva — gritou Kalup, como nos momentos de cólera.
Você não tem nada para exigir, meu jovem. Mas assim mesmo quero satisfazê-lo.
Atrevimento!
Está bem. Fique sabendo que nós passamos incólumes pelo singular campo energético, porque voávamos com o sistema kalup. Quando os acônidas têm que atravessar este gigantesco envoltório que envolve todo o sistema Azul, devem se utilizar também de um campo de compensação semelhante, de outra forma não conseguiriam sair de seu sistema. Não seria compreensível que, à passagem de cada espaçonave, tivessem que desligar estas instalações extensas e muito complicadas. Assim, temos de admitir que os acônidas não usam mais a transição, mas viajam com a visão paraótica do objetivo, em vôo linear. Basta isto?
Somente depois que eu calcular as várias hipóteses.
Faça isto, professor. Estou curioso pelos seus resultados.
Momentos depois, Hunt Krefenbac estava soltando os apoios telescópicos para o pouso da Fantasy. O engenheiro-chefe, o marciano Slide Narco, dirigia a operação.
Como um monstro assustador, pronto para o ataque, a Fantasy pousou suave no meio de uma grande planície, que possivelmente podia ser um espaçoporto.
9



Os homens do comando de ação, sob a direção do Tenente Mahaut Sikhra, já estavam de volta. Rhodan acompanhara o pequeno grupo de exploração através dos transmissores de capacete. Constatara que não fora possível entrarem em contato com ninguém.
Vinte minutos após a aterrissagem, os primeiros resultados das estações de rastreamento foram conhecidos. Havia espaçonaves no campo de pouso, das quais se ouviam os impulsos dos conjuntos de propulsão.
Depois dos estudos meticulosos destes resultados pelo setor de Matemática e sob a rigorosa fiscalização pessoal de Kalup, constatou-se que os acônidas, como já se supunha, dominavam o vôo linear. Trabalhavam com um campo de proteção quase idêntico ao do compensador, que, em muito, se aproximava do conversor kalupiano, aliás bem mais desenvolvido.
Arno Kalup estava fora de si. Delineavam-se no horizonte possibilidades ilimitadas de uma evolução perene da nova tecnologia terrana. No entanto, não havia nenhuma esperança de conseguir que os acônidas revelassem espontaneamente seus segredos.
O comando de Mahaut Sikhra não fora enviado apenas para tentar contatos. Seus membros portavam instrumentos especiais com os quais se podia constatar se as espaçonaves detectadas eram um aglomerado de peças velhas ou aparelhos prontos para o uso imediato.
Gucky desaparecera já há alguns minutos. Provavelmente conseguira penetrar numa das galerias isoladas por fortes campos de proteção magnética.
Bem mais para longe, quase sumindo no horizonte, erguiam-se as típicas construções arcônidas de teto afunilado. Já esta forma arquitetônica provava que os arcônidas provinham deste mundo distante. Conservaram os costumes e usos de seus antepassados, mas com o correr dos séculos desenvolveram uma cultura que se distanciava sempre mais de sua origem.
Rhodan não se atreveu a sobrevoar a grande metrópole. Tinha a impressão de ter atingido um ponto crítico. Além do mais, tudo indicava que aquela tranqüilidade se assemelhava muito à calma que precede à tempestade.
No amplo espaçoporto, já haviam recolhido todos os aparelhos. Não se via nem um acônida. Não havia melhor forma para se exprimir a desconfiança, talvez mesmo o desprezo.
Vai acontecer qualquer coisa dentro de pouco — afirmava Bell inquieto. — Ou vão nos transformar numa nuvem radiativa ou usarão uma “novidade” de que não temos conhecimento.
Mahaut Sikhra acabou de entrar. Estava apenas de uniforme, pois Rhodan dera a ordem para não usarem mais os trajes arcônidas de combate, que podiam dar impressão de provocação. Mas era o caso de se perguntar o que era mais provocante: a aterrissagem feita sem mais nem menos, sem nenhuma comunicação, ou o simples uso de um uniforme com equipamentos que eventualmente serviriam para combate. Tudo por tudo, a atuação dos terranos não deixava de ser um atrevimento, o que Rhodan bem sabia.
Sikhra fez uma continência perfeita. Seu rosto estava encharcado de suor, pois o sol azulado Ácon irradiava um calor desagradável.
O que você descobriu?
Mahaut tirou o boné. Seu rosto revelava desânimo.
Não muita coisa. Nas proximidades das galerias, instalaram campos energéticos que não pudemos atravessar. Mas não há dúvida de que as espaçonaves detectadas possuem eficientes motores de propulsão. Não são peças de museu, mas aparelhos prontos para entrar em ação a qualquer momento. Acônidas, não encontramos nenhum. Dois homens se retiraram assim que nos viram no campo de pouso. Não querem falar conosco, parecem não se preocupar com nossa presença. É praticamente tudo, sir.
Basta — disse Rhodan desanimado. — Meus senhores, todos prontos para partir? Esperaremos apenas por Gucky.
Três minutos depois, o rato-castor se materializou no posto de comando. Estava de novo esgotado. Marshall o apanhou nos braços e o levou para a cama mais próxima. Foi daí que o habitante de Vagabundo deu algumas informações:
O envoltório de proteção era quase impenetrável, mas consegui rompê-lo. Custou-me um esforço terrível. Cheguei a ver as espaçonaves que também são protegidas por um campo especial.
Tente descrevê-las. São cilíndricas?
perguntou Rhodan com cara de quem tivesse acabado de acordar naquele instante.
Bell começou a ficar nervoso, pois conhecia o amigo. Esta acentuada sonolência era um sinal certo do nervosismo reinante em Rhodan.
Claro que eram cilíndricas, apenas os dois pólos são planos, dando impressão de que alguém serrou bem certinho o arredondamento superior e inferior. Possuem, porém, o rebordo central, mas muito reduzido. O maior diâmetro será talvez de cento e cinqüenta metros.
São o transporte para a instalação das contra-estações — afirmou Claudrin. — Então, que estamos esperando? Já sabemos o suficiente sobre esta gente.
Central de rastreamento: dois aparelhos apareceram de repente sob a Fantasy — disse uma voz excitada.
Rhodan se assustou. Pulou para os controles do outro lado e ligou os campos protetores da parte inferior da nave.
Dois grandes flutuadores, de construção muito elegante, com cobertura transparente, pararam a poucos metros da escotilha do pólo inferior.
Como foi que eles chegaram até aqui? — perguntou Rhodan. — Alguém os viu se aproximar?
Não, sir. Não houve nenhum rastreamento anterior. Simplesmente apareceram aí.
Fala a central de rádio — disse um outro oficial. — Estamos sendo chamados. Falam o velho arcônida, sir. O senhor é solicitado a sair da nave para uma entrevista.
Solicitado?
Perfeitamente, sir. Devo transferir a ligação para seus alto-falantes?
Não é necessário, já esperava por isso. Comunique-lhes que eu não demoro. Fim.
Rhodan apanhou o boné e Claudrin levantou-se devagar. Reinava silêncio na central, até que Bell indagou:
Como foi que eles chegaram à parte inferior da nave? A Fantasy tem duzentos metros de diâmetro. Assim sendo, devem ter percorrido cem metros por baixo dela, para poderem chegar à escotilha do fundo.
Houve outra interrupção. O posto de rastreamento estava falando:
Estamos recebendo ecos indefinidos, que aparentemente vêm do interior da Fantasy, dando a impressão de serem impulsos de ondas curtas.
São novamente sinais de rádio?
Não, de maneira alguma. Parecem mais grupos de números e símbolos, sir. Não sei como julgar isto.
Rhodan desligou.
Claudrin, Bell, Marshall e Tenente Nolinow, os senhores vão me acompanhar. Vamos.
Loucura — disse Bell. — Loucura rasgada. Você devia ter notado que a senhora que nos espera é muito parecida com aquela de quem nós fugimos quando estávamos próximos do transmissor fictício da lua.
O sorriso de Rhodan era mais do que enigmático.
Quanta bobagem você diz. Você pensa que eu não notei aquela criatura?
Balançou a cabeça, quase que criticando seu amigo. Dois andares para baixo, Stana Nolinow corria ofegante para o elevador central. Quando pulou no elevador antigravitacional e foi descendo, tentou ajeitar a gola do uniforme. Nolinow seria, assim, o primeiro tripulante a alcançar a escotilha inferior.
Segundos depois, chegaram Rhodan e os oficiais do comando da Fantasy.

* * *

Ela estava de pé, ereta como uma coluna grega, diante de sua viatura. A luz que irrompia pela escotilha aberta se refletia nos seus cabelos com fulgores metálicos. Auris de Las-Toor sabia, desde alguns minutos, que o rastreador de imagens instalado no segundo deslizador estava funcionando com perfeição.
Depois da surpreendente aterrissagem dos estrangeiros, recebera ela a incumbência de descobrir a todo custo de onde vinham estes intrusos. O rastreador de imagem acônida era um instrumento que produzia e captava os impulsos acumulados nos computadores de bordo, sem necessidade de fios. Ninguém na Fantasy suspeitava de que, no posto de computação, todos os dados referentes à posição do planeta Terra e do sistema solar estavam sendo transmitidos para fora.
Auris comunicou tais dados imediatamente ao Conselho Regente.
Quando o primeiro homem surgiu na escotilha, já as máquinas calculadoras estavam em atividade numa cidade distante. Cientistas e especialistas do Conselho Energético Acônida estavam evocando e concatenando todos os dados, acumulados há mais de vinte mil anos, sobre a colonização de um mundo muito distante, para confrontá-los com as indicações conseguidas por Auris a respeito de seu posicionamento.
O último a aparecer foi Rhodan. Parado na escotilha, olhou firme para baixo, bateu de leve com as pontas dos dedos na aba do boné, para em seguida, com toda calma, dar instruções completamente supérfluas para o interior da nave.
John Marshall captava todos os pensamentos do administrador do Império Solar. Era norma geral de Rhodan, quando se deparava com inteligências desconhecidas, dar a entender claramente que ele não se sentia inferiorizado.
Auris, que já tinha vindo com o propósito expresso de não se deixar influenciar pelo fluido pessoal do desconhecido, surpreendeu a si mesma olhando fascinada para o alto.
Rhodan desceu pelo elevador antigravitacional, encaminhou-se sereno e elegantemente para a bela jovem. Seus olhares se cruzaram pela primeira vez. Notou que aqueles olhos de um castanho-claro pareciam dissecá-la. Numa reação inconsciente de defesa, seu corpo se empertigou.
Major Jefe Claudrin desempenhou de modo magnífico seu papel. Com sua voz, já agora um pouco mais domada, apresentou Rhodan. Ela estremeceu levemente, mas se dominou num instante. Foi exatamente neste momento que se apercebeu de que estes homens tão esquisitos não poderiam ser descendentes dos velhos emigrantes acônidas. Intranqüila e pensando nas conseqüências provenientes deste raciocínio, deteve o olhar mais tempo no espadaúdo epsalense.
Sinto-me honrado por perguntar seu nome, gentil senhorita?
Auris olhou-o com frieza.
Cabe a mim usar da palavra — retorquiu um tanto ríspida.
Por um momento, Perry pensou em sua falecida esposa. Um sorriso leve e saudoso brincou nos seus lábios. Como esta linguagem altiva lhe era familiar!
Suponho que a senhora já o tenha feito — respondeu ele. — A senhora vai me proporcionar hospitalidade, ou por que motivo voltou?
Sentiu-se chocada.
Este degenerado esqueceu-se das boas maneiras”, pensou.
Tentou insistir na sua frieza.
Os senhores aterrissaram sem receberem permissão. Tenho que pedir que abandonem o planeta imediatamente. Fui encarregada de lhes transmitir as desculpas do Conselho Regente, que se sentiu obrigado a uma tal atitude. Aparentemente, os senhores não sabem mais honrar as boas maneiras de seus antigos antepassados.
Rhodan curvou a cabeça, num gesto de aceitação. Esperava por uma frase desta. Esta raça lhe parecia exageradamente cortês.
Por nossa parte, lamento muito termos sido recebidos com tanta indiferença. Será que se tornou costume do sistema de Ácon tratar os representantes da própria raça como parentes pobres e mendigos? As notícias de nossos antepassados falavam do povo bom e generoso de Ácon.
Os senhores podem estar certos de que debatemos muito sua inesperada vinda. Porém não parecem saber como as velhas guerras coloniais dividiram tremendamente o vosso e o nosso povo. Não possuem mais documentos a respeito em seus arquivos?
Provavelmente devem ter se perdido — disse Rhodan evasivo.
John Marshall reteve a respiração.
Rhodan meditou: “Aí está a razão de tudo. Quer dizer que entre os primitivos emigrantes colonizadores, que são os arcônidas de hoje, e os representantes da velha pátria, chegou a haver coisa mais séria!
Estava imaginando — disse Auris mais afável. — Volte para sua terra, Rhodan de Árcon! Ou será que o devo tratar de outra forma?
O telepata Marshall transmitiu uma mensagem a Rhodan. O administrador logo a compreendeu. A moça suspeitava de algo. Esta indireta fora seu primeiro ataque.
Desculpe, podia se explicar melhor?
Não tem maior importância, foi apenas uma pergunta.
Novamente seus olhares se encontraram. Sentia algo daquele fluido eterno, que a tornava ainda mais insegura. Rhodan resolveu pôr um fim ao perigoso diálogo.
Vou seguir seu conselho. Poderia ter o prazer de ouvir seu nome?
Auris de Las-Toor.
Muito obrigado. Meu nome é realmente Rhodan. Com toda sinceridade, do fundo do meu coração, desejava mesmo manter boas relações de amizade com seu povo. Os mundos que constituem nossa pátria são ricos e jamais pensamos em subjugar outros povos.
Como os senhores se tornaram diferentes de seus antepassados — observou com malícia.
Cometeram-se muitos erros — continuou Perry.
Os avisos irradiados por Marshall, “acautele-se, acautele-se”, estavam mais insistentes. O telepata não podia compreender por que a desconfiança de Auris era cada vez mais forte.
Segundos mais tarde, aconteceu algo com que ninguém contava. A lâmpada instalada na capota do deslizador começou a piscar, e Auris notou. Sem dar nenhuma explicação, dirigiu-se para a viatura, onde estavam sentados, como estátuas, dois acônidas. Rhodan reparou que o semblante delicado da donzela se contraíra. Segundos mais tarde, ela se dominou. Quando a beldade se virou para os terranos, Marshall avisou telepaticamente:
Cuidado! Ela abriu por uns instantes a guarda de seus pensamentos; está muito nervosa. Agora protege de novo seus pensamentos. Deve ter recebido uma notícia importante. Parece que conseguiram ler alguma coisa em nossos computadores de bordo. Os cientistas de Ácon devem ter conferido os dados da localização da Terra com os do sistema Arcônida. Sabem agora que não somos arcônidas, mas um povo estrangeiro.
Rhodan esperou ainda um pouco. Os avisos de Marshall chegaram até Gucky, que os transmitiu para o primeiro-oficial. Os conjuntos de propulsão que, até então, trabalhavam em ponto morto, começaram a estrugir. As bocas-de-fogo da cúpula inferior apontavam para uma certa direção. Um jovem oficial estava preparado para tocar na tecla de disparo.
Auris achava-se parada diante de Rhodan. Seus lábios cheios estremeceram.
Quem é o senhor? — perguntou em voz baixa e apressada. — Parta, parta o quanto antes, o senhor me faz mal. Não volte nunca mais e se esqueça de que encontrou minha pátria. Maluco, imprudente, como pôde se atrever a enganar o Conselho Regente?
Nada mais do que curiosidade — explicou Rhodan, também em voz baixa. — Auris, eu ainda venho vê-la um dia.
Nunca!
Correu uns metros para trás, e seu corpo esbelto de repente se dissolveu. Também as duas viaturas desapareceram num forte clarão colorido. Ficou para trás apenas um transmissor fictício. Foi então que Rhodan percebeu de que modo as viaturas penetraram sob a Fantasy, sem serem notadas. Segundos depois, o transmissor disparou a alta velocidade, quase rente ao chão...
Neste instante, os alto-falantes externos começaram a roncar. Ouvia-se bem a voz do Major Hunt Krefenbac, que gritava:
Sir, volte para a nave! Cuidado! Começamos a ficar entorpecidos, estamos sendo cercados por uma cintilação esverdeada. Alguém está nos atacando com uma arma desconhecida. Sir, não consigo mais falar. Minhas mãos parecem de vidro, chefe...
Claudrin pulou num grande galeio diretamente para a escotilha. Bell, Marshall, Nolinow e Rhodan o seguiram. A escotilha se fechou, mas o barulho do funcionamento dos motores de tração não se alterou. Ainda não notavam a cintilação esverdeada. Um soldado, que devia ser o vigia da comporta, gritou perturbado:
Sir, olhe isto aqui. Os homens da sala de comando foram os primeiros a serem paralisados e, logo depois, o pessoal das máquinas.
Rhodan afastou o vigia e olhou para a pequena tela de controle. Krefenbac, Slide Narco e todos os cientistas mais importantes da Fantasy estavam sentados ou de pé nos seus postos como se fossem estátuas de pedra. Apenas alguns homens tentavam ainda escapar da zona de perigo, arrastando-se com dificuldade.
Gucky! — disse Rhodan, chamando o rato-castor com impulsos mentais. — Gucky, você está bem?
Consigo ainda pensar, nada mais. Não consigo mover-me.
A cintilação está chegando, agora, aqui embaixo. E, se formos até você, ficaremos também entorpecidos. Consegue se concentrar para um salto telecinético?
Rhodan viu quando o homem de Epsal pulou no elevador que o conduziria até a casa de máquinas.
Estou procurando chegar até as máquinas — disse ele.
Depois ouviu-se um grito. Claudrin tornava-se mais uma vítima da cintilação esverdeada.
Bell puxou Rhodan de volta para o corredor lateral. A cintilação se espalhava lentamente, mas quando atingia uma pessoa, o corpo desta sofria reações misteriosas. Rhodan, intuitivamente, chegou à conclusão de que se tratava de uma transformação molecular dos organismos. Porém, neste momento, tal conclusão nada valia.
O silêncio foi tomando conta cada vez mais da nave experimental Fantasy. Os chamados cessaram e os gritos dos homens pegos de surpresa quase não se ouviam mais nos alto-falantes do videofone. Nem Gucky se manifestou mais, se bem que os impulsos de sua consciência ainda continuassem nítidos. Provavelmente, era um misto de torpor e cãibra, que paralisava o corpo completamente, mas não atingia o cérebro, isto é, as faculdades mentais.
Rhodan, Bell e Marshall se abrigaram no ponto mais baixo da nave esférica. Era evidente que a misteriosa radiação se iniciara no rebordo central da nave. Os acônidas pareciam saber muito bem que ali estavam os mais importantes elementos de comando.
Mais para frente deles estava Stana Nolinow paralisado, agachado sobre um instrumento. Parecia não ter conseguido tirar, a tempo, da zona de perigo, o guarda da escotilha caído no chão.
Rhodan tinha em mente procurar alguma arma que anulasse a cintilação. Mas acabou deixando esta idéia de lado. Jamais conseguiria encontrá-la. Bell também já estava mais dono de si. Achava-se parado num canto, olhando para frente, onde a cintilação parecia se aproximar. Disse com certa preocupação:
Agora sabemos como é a situação, quando eles perdem a paciência. Seria muito melhor se eles tivessem percebido que nós não éramos arcônidas, logo de início. Não têm mesmo dó de ninguém, quando se sentem ameaçados.
E quem não agiria desta maneira? — perguntou Rhodan, fechando as mãos em punho.
Não havia mais ruído nenhum na parte superior da nave. Todos que lá estavam teriam sido atingidos pela cintilação. A enorme Fantasy se transformara num museu de figuras de cera, onde só se moviam os conjuntos de propulsão, prontos para a decolagem. Bastava só um impulso para fazer entrar em ação a decolagem automática, anteriormente programada.
Marshall, entre em contato com meus impulsos mentais e procure reforçá-los. Vamos chamar Gucky, que está no posto de comando. Se ele, de fato, não conseguir fazer mais nada, estaremos então perdidos. Os acônidas irão nos pegar daqui um pouco como passarinhos de asas cortadas. Gucky tem apenas que puxar a alavanca da decolagem de emergência automática.
Se ele não a puder ver mais, de nada adiantarão suas forças telecinéticas — disse Marshall.
Recuaram uns metros, tentando se afastar o máximo da cintilação esverdeada.
Acho que ele não está nem podendo mais mover a cabeça — acrescentou Marshall.
Rhodan começou a chamar telepaticamente pelo rato-castor.
Gucky, está ouvindo? Diga alguma coisa! Se você pode ainda pensar, responda!
Veio um impulso nítido.
Estou ouvindo, acho que fiquei desacordado por algum tempo. Sinto muitas dores.
Esqueça isso um pouco. Meu amigo, você consegue ver a alavanca vermelha de decolagem?
Não, estou virado de cabeça para baixo na poltrona giratória e não posso mover-me.
Então procure mudar de posição com uma curta teleportação. A alavanca está em cima, na estante inclinada dos controles manuais. Você deve conhecê-la. Quando estou sentado na minha poltrona, fica a uns dez centímetros da minha mão direita. Lembra-se?
Conheço-a perfeitamente. O que devo fazer? Vamos depressa, que não estou agüentando mais.
A cintilação esverdeada já estava atingindo também os três homens. Primeiro sentia-se dor. A seguir, esta dava lugar a uma insensibilidade total, começando pelas pernas. Assim Rhodan notou que, instantes depois, seu corpo ia ficando rígido e insensível. Tocou no braço esquerdo e constatou que os tecidos endureciam cada vez mais. Começavam ficando como cartilagem, para terminarem consistentes como vidro.
Apesar de tudo, podia pensar, ver e ouvir com clareza. Depois que não podia movimentar a boca e a língua se transformara num pedaço de chumbo, seu pensamento mais se aguçou:
Gucky, você tem que se obrigar afazer um salto. Tem de conseguir. É totalmente indiferente que você se desmaterialize neste estado ou em condições normais de saúde. O processo é o mesmo, em qualquer hipótese.
Os sentidos de Rhodan captaram um indistinto lamento, e o administrador insistiu nos seus apelos a Gucky:
Gucky, você tem que conseguir. Imagine bem claramente a alavanca, sua posição exata e se lembre de que ela se move de cima para baixo. Sobressai horizontalmente do conjunto de interruptores. Quando você se rematerializar a um pouco mais de meio metro da alavanca, talvez nela resvale, arriando-a. Será que você não consegue?
Vou tentar, chefe. Não me perturbe mais; preciso de todas as forças para me concentrar.
Rhodan quedou esgotado. Em toda nave não se percebia um sinal de vida. Apenas as máquinas funcionavam.

* * *

Auris de Las-Toor não tirava seus olhos assustados das telas de sua central. Sabia o que se passava dentro daquela nave estrangeira, já agora completamente envolta pelo campo de irradiação. Ouvia pelo mesmo videofone as instruções que eram transmitidas. Um pelotão de robôs já estava em marcha para a Fantasy. Estes monstros de aço receberam a instrução de colocar os terranos entorpecidos nos flutuadores, e aguardar ordens posteriores.
Auris não podia deixar de pensar no homem esbelto, de olhar fascinante e irônico. Pensava, neste momento, que devia tê-lo avisado do que aconteceria. Não podia explicar o que a atraía para o estranho, mas tinha um pressentimento de que seu destino estava concatenado com o dele. Não podia ser um selvagem e mesmo a curiosidade do estranho lhe parecia natural.
Quando alguns membros do Conselho Regente passaram triunfantes por ela, procurou ficar de lado. Lá fora os robôs pareciam uma muralha de aço em movimento ritmado.

* * *

Gucky conseguiu se aprumar um pouco. Concentrou seus pensamentos na alavanca descrita por Rhodan, fazendo dela uma representação cada vez mais viva. Depois de ter bem nítido na mente o quadro dos controles manuais, saltou...
O pequeno corpo, coberto de um pêlo marrom-avermelhado, desapareceu da poltrona giratória, para no mesmo momento materializar-se em cima do quadro de controles.
Gucky não pôde ver onde estava. Sabia apenas que agora iria escorregar quase um metro até bater na chapa de aço do chão. Ao cair, seu corpo Amortecido, isto é, totalmente insensibilizado, passou raspando pelo revestimento da prateleira. Não sentiu nada da queda, que normalmente lhe devia causar muita dor. Antes de cair sobre a chapa, seu corpo raspou na alavanca. E foi o bastante!
Gucky não ouviu mais o ronco cavernoso das turbinas, pois desmaiara de novo.
O computador passou a trabalhar com a maior precisão, seguindo a programação que lhe fora feita, fazendo com que o cruzador decolasse com a velocidade de vinte quilômetros por segundo e depois de atingir o espaço livre passasse para maior aceleração.
Os impulsos da sincronização automática se irradiaram em fração de segundo. Os aparelhos de absorção de pressão começaram a zunir e os campos antigravitacionais livraram a Fantasy da atração do grande quinto planeta. Das turbinas do rebordo central saíam línguas de fogo e os robôs, que naquele momento se aproximavam, foram atingidos por elas e reduzidos a pó. Com um bramido descomunal, o cruzador deu um salto no ar e iniciou sua rápida ascensão.
Já estava livre da zona de influência da cintilação esverdeada e mal decorridos quatro segundos havia ultrapassado a camada de ar que envolvia o planeta, atirando-se para o espaço.
Um raio energético, grosso e arrasador, procurou atingir a Fantasy, passando, porém, a quase um quilômetro da nave. A aceleração automática atingia agora o máximo.
Antes que, lá embaixo, os acônidas pudessem compreender o que acontecera, a nave dos terranos desaparecera. As máquinas roncavam a toda e tudo estava em ordem, apenas os homens não era capazes de mover um dedo...

* * *

A automática deu o alarme. O impulso para injeção de combustível adicional achava-se em sobrecarga e o piloto automático não estava programado para cumprir tal tarefa.
Rhodan ouviu o ruído do alarme. Aos poucos, seus membros foram recuperando a agilidade motora. Antes de poder entender claramente o que se passava, sentindo ainda dores agudas, soou de repente uma voz profunda e forte:
Comandante falando para todos. Já estou de novo na central. Tenham um pouco de paciência, o entorpecimento já vai passar. Eu também não estou cem por cento. Vou usar o comando manual, e ativar o sistema kalupiano.
Com a sensação de um grande alívio, que o ajudou a se desfazer das dores do desentorpecimento, Rhodan ouviu o ronco do compensador. Claudrin era mesmo um homem insubstituível. Seu corpo ciclópico conseguira romper mais rápido que os demais o entorpecimento. E, antes que os outros homens se pudessem mexer, o Major Jefe Claudrin já havia ligado o vôo linear.
Salvos”, pensou Rhodan visivelmente mais contente.
Logo depois captou um impulso telepático de Marshall:
Ninguém mais nos pode alcançar, sir. Para onde que Claudrin nos está levando?
Isto não tem importância, pode ir para qualquer lugar, contanto que fujamos daqui deste quinto planeta. Estes acônidas não nos foram muito simpáticos, não é?
John não respondeu mais. Alguns minutos depois, Rhodan já podia movimentar-se. Cambaleando um pouco, foi para o elevador antigravitacional, onde se encontrou com outros membros da tripulação. Quando penetrou, ainda com dores, na central de comando, o homem nascido em Epsal achava-se sentado calmamente em sua poltrona feita sob medida.
Enquanto conversava, não desviou a cabeça das telas dos rastreadores. O sol amarelo surgiu na tela maior.
Cuidado! Aí vem o solavanco!
Sem estar apoiado em nada, Rhodan caiu, quando a Fantasy penetrou no misterioso envoltório de proteção do sistema Azul, perdendo boa parte de sua velocidade. O interior da nave escureceu, apenas as luzes dos painéis piscavam.
Segundos depois, um setor após o outro, foi se manifestando. Apareceu o Dr. Gorl Nkolate. Sem dizer nada, auscultou o corpo adormecido de Gucky, para colocá-lo depois numa cama.
Ele o conseguiu, não foi?
Rhodan fez que sim com a cabeça.
Ponha-o novamente de pé, doutor.
Sem ele, estaríamos perdidos. Claudrin, para que tanta velocidade? Por enquanto basta que consigamos escapar dos acônidas.
Depois voltou novamente o silêncio sobre a Fantasy, que voava com uma velocidade milhões de vezes superior à da luz, rumo a um sol que Claudrin escolhera ao acaso.
Já havia pensado que não deixaríamos de encontrar dificuldades — disse Bell, que chegara naquele momento à sua poltrona.
Seu rosto dava mostras de preocupação.
Rhodan lhe ficou devendo a resposta. Estava pensando na jovem Auris e na exortação que fizera e que acabou se realizando. No fundo, ela queria ajudar os terranos e só isto era o que importava.
A Operação Estrela do Destino havia terminado. Tratava-se agora de saber o que esta casual descoberta do sistema Azul iria representar para o futuro da Humanidade.
Haveremos de dar conta do recado”, pensava Rhodan. “Ninguém pode duvidar disso.
Agora, a Fantasy disparava pelas regiões do semi-espaço. Nem o misterioso sistema Azul conseguira detê-la.






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A Estrela do Destino foi o pórtico de entrada para uma nova época da cosmonáutica. Mas cada conquista nova tem sempre um preço.
Em O Globetrotter das Estrelas, próximo livro da série, tal preço será cobrado.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html