— Eles
não sabem de onde nós viemos — disse Bell.
— Não
há dúvida, mas nós sabemos que eles existem e isto basta. Eu não
teria mais um momento de sossego, se ao menos não soubermos com quem
estamos tratando. Major Claudrin...!
O homem de
Epsal se empertigou na cadeira. Seus olhos encovados brilhavam com os
reflexos dos metais do capacete.
— Pronto,
sir.
— Prepare
a manobra de aterrissagem. Vamos nos encontrar lá embaixo. Leve a
Fantasy para perto daquele fenômeno luminoso esquisito lá no chão.
Contamos com a prontidão da nossa artilharia. Comando de
aterrissagem pronto para desembarcar. Tenente Mahaut Sikhra...!
O nepalês
se apresentou pelo videofone.
— Cuide
dos armamentos de seus homens. Utilize os uniformes de combate
arcônidas. Vou acompanhar vocês. O ar desta lua é respirável e as
temperaturas são suportáveis. É tudo. Obrigado.
Sikhra
desligou. Numa outra seção da Fantasy, os robôs de combate,
prontos para entrarem em ação, recebiam os primeiros impulsos para
uma nova programação.
Brazo
Alkher sentiu que as palmas das mãos lhe estavam úmidas. Momentos
depois, começou um assobio fino na parte externa da nave. Claudrin
foi descendo numa curva íngreme, enquanto os envoltórios antichoque
desviavam as moléculas de ar.
Os
fenômenos luminosos estavam cada vez mais próximos. Pouco antes da
aterrissagem descobriram-se os primeiros seres vivos. A ampliação
ótica das imagens trouxe para as grandes telas panorâmicas as
figuras esbeltas, semelhantes aos homens.
Também
isto não seria nada de extraordinário, se ao menos uma daquelas
criaturas se dignasse o olhar a nave. O ronco possante dos conjuntos
de propulsão não poderia deixar de ser ouvido, até por surdos. No
entanto, lá embaixo cada um seguia seu caminho com toda calma, como
se nada estivesse acontecendo.
A dois
quilômetros de altura, o primeiro-oficial ligou os motores
acionadores dos suportes telescópicos que servem de apoio para a
nave cilíndrica em terra. Mesmo assim, as estranhas inteligências
não tomaram conhecimento da chegada da nave. Agiam como se a Fantasy
não existisse.
A quase um
quilômetro das enormes e altas construções, que, ao que tudo
indicava, eram meramente funcionais, deu-se a aterrissagem. Quando os
motores de propulsão pararam e o deslocamento de ar, imanente às
manobras de aterrissagem, deixou de agitar a areia e a poeira daquele
terreno meio desértico, centenas de terranos se agrupavam nas
clarabóias de observação, sem poder compreender o que se passava.
Os
rastreadores estruturais continuavam registrando, e agora com tal
intensidade que tiveram de ser desligados. Os instrumentos de
sondagem energética indicavam a existência de usina geradora tão
forte, que o próprio Amo Kalup ficou perplexo. A corrente ali
produzida seria suficiente para acionar e prover de força algumas
centenas de milhares de gigantes espaciais do tipo Império. As
possíveis instalações dessa usina deviam estar nos extensos
galpões e edifícios altos da cidade vizinha.
Fora
disso, não havia outra novidade. Os seres desconhecidos não se
mostravam nem com intenção amigável, nem com aparência hostil.
Simplesmente não se mostravam.
Bell
pareceu ter compreendido melhor a situação, quando disse com um
sorriso irônico:
— Para
estes senhores, nós devemos dar a impressão de insetos vagabundos
com quem não se perde tempo. É o que a gente sente. Mas quem é que
vai se preocupar com moscas varejeiras, a não ser quando começarem
a morder?
Claudrin
soltou uma imprecação bem epsalense que não foi compreendida pelos
terranos.
— Insetos?
— repetiu Rhodan, pensativo. — Quem sabe você não está tão
errado assim? Eu acho que nós...
— Desculpe,
sir!
E assim
Rhodan foi bruscamente interrompido pelo médico Gorl Nkolate que, um
tanto nervoso, vinha entrando. O rosto moreno do homem esbelto e de
boa compleição demonstrava séria preocupação. Atravessou rápido
a central de comando. Trazia na mão direita umas grandes folhas que
colocou imediatamente na escrivaninha articulada de Rhodan.
— São
chapas de raios X? — perguntou Rhodan surpreso. — De quem que
você as tirou?
Nkolate,
que era visto geralmente com um sorriso nos lábios, passou a mão
nervosa pelos cabelos em desalinho. Era tido como a maior capacidade
em cirurgia de adaptação. Seus transplantes de coração, por
exemplo, eram famosos.
— Não
são dos nossos homens, sir — explicou apressado. — Pouco antes
da aterrissagem, fiz algumas tomadas com a teleobjetiva dos tubos de
Rõentgen.
É tudo, sir. Veja, não está reparando nada? Olhe isto aqui. O
esqueleto destes estranhos seres deve lembrar-lhe algo importante.
Bell se
aproximou. Oficiais e cientistas logo rodearam a poltrona de Rhodan.
Perry, depois de alguns segundos, disse espantado:
— Será
que estou ficando maluco? São ossos de um esqueleto arcônida, não
há dúvida. Só as placas reforçadas do peito e das costas, que
estão em lugar das costelas, dizem tudo. Ou será que estou
enganado, Gorl?
O grande
cirurgião abanou a cabeça.
— De
maneira alguma, sir. É isto mesmo. Conheço os arcônidas muito bem
para poder afirmar de consciência tranqüila que aqui vivem seres
inteligentes, que, ao menos do ponto de vista fisiológico, lhes
ficam muito próximos. Apenas os seres desta lua não possuem os
cabelos brancos dos arcônidas e seus olhos avermelhados. Também a
cor da pele não é tão clara, como são os arcônidas que
conhecemos. Apesar disso, estes seres desconhecidos são aparentados
com os arcônidas.
O Dr.
Carlos Riebsam, médico e matemático da equipe de pesquisadores,
forçou passagem entre os homens ali agrupados. Sem dizer nada, pegou
as chapas de raios X. Enquanto isto, Rhodan baixou os olhos para os
instrumentos de bordo. Os olhos de Riebsam ficaram detidos algum
tempo numa das chapas, colocando-a depois na escrivaninha de Rhodan.
— Então,
Riebsam, que pensa de tudo isto?
— Aqui
não há nada para a gente pensar. Os fatos falam por si. A mim, me
interessa a pergunta: “Quem
descende de quem?”
— ...e
sua inteligência fulminante achou a solução na mesma hora —
completou Kalup em tom de caçoada.
Riebsam
não se deixou perturbar.
— Temos
de esclarecer se os arcônidas que conhecemos são descendentes
destas inteligências que vivem aqui, ou se esta gente do sistema
Azul descende de velhos colonizadores arcônidas. Qual das duas
culturas é a mais velha? Qual dos dois povos foi o primeiro a se
adaptar biológica e fisicamente às novas condições ecológicas?
Os arcônidas ou... estes daqui? Procure chegar a uma conclusão,
sir, e seus conhecimentos aumentarão.
Riebsam
tinha razão. Não havia nada para pensar. A história era resolver
esta questão, o que aliás só tinha interesse meramente teórico.
Não se podia ainda prever um valor prático para a questão.
Rhodan
pigarreou e depois se ergueu de seu assento.
— Bem,
procuremos esclarecer o assunto. Se os arcônidas descendem destas
inteligências, só isto já é uma grande descoberta.
— Pode-se
perguntar de que maneira? — interveio Bell.
— Oh! De
uma maneira pouco agradável para nós — disse Rhodan. — A
história da política de expansão galáctica prova que, em todas as
ocorrências até hoje, os descendentes dos colonizadores emigrados
jamais chegaram ao nível técnico e científico de seus
antepassados. Parece ser uma lei da natureza: as inteligências
arrancadas do seu primitivo ritmo de vida são mais susceptíveis de
manifestações de degenerescência. Olhando deste ponto de vista,
gostaria de afirmar que os arcônidas aqui residentes são os
antepassados dos nossos conhecidos e não o contrário.
— É uma
afirmação muito ousada — disse Nkolate. — O senhor tem certeza
disso?
— Absoluta.
A tremenda degeneração de todos os arcônidas fala de por si. Os
cabelos brancos, os olhos avermelhados e o corpo mais fraco e, mais
ainda, a indiferença e a falta total de interesse em todas as coisas
práticas da vida, são outra prova. Quando o senhor olha agora a
técnica visivelmente superior desta gente que aqui vive, esta
simples comparação não lhe dá a certeza da decadência dos
arcônidas nossos conhecidos? Creio mesmo que estes seres aqui
chegaram, através dos séculos, a tal ponto de evolução que já
não usam mais naves tripuladas.
Bell foi
se aproximando, olhando agora para as telas com olhar bem diferente.
— O
negócio está ficando interessante — disse ele arrebatado. —
Como é que você prova tal teoria? De que maneira podem eles deixar
de lado a cosmonáutica? Não estou compreendendo bem.
Carlos
Riebsam deu a resposta na hora. Parecia irrefutável.
— As
centrais elétricas rastreadas deviam bastar para provar isto, como
também os tremendos abalos estruturais, que representam um domínio
absoluto sobre a quinta dimensão. Temos que investigar melhor os
fenômenos luminescentes. Tenho um pressentimento a respeito...
Rhodan
mandou que dois homens da tripulação o ajudassem a vestir o pesado
e volumoso uniforme de combate e enquanto isto dizia com um sorriso
nos lábios:
— Ah!
Você tem um pressentimento? Eu também, meu caro. Se por acaso você
for de opinião que esta grande lua não passa de uma gigantesca
estação de transmissor fictício, então podemos nos dar as mãos.
Com isso teríamos a melhor explicação para os muitos abalos no
espaço.
Sem dizer
uma palavra, Riebsam estendeu a mão direita que Rhodan apertou. O
professor Kalup saiu correndo dali, pálido de surpresa. Apenas Bell
disse com sarcasmo:
— Maravilhoso!
E sem ninguém nos obrigar, viemos parar num mundo deste.
Provavelmente, os desconhecidos, a esta altura, estão pensando: “O
que vamos fazer com eles?”
Saibam que, ao penetrarmos neste sistema, tivemos que romper uma
espécie de proteção energética.
Depois,
Bell continuou pensativo:
— Bom,
ninguém se esqueceu disso, não é? Percebo na fisionomia de vocês.
Se eu pertencesse à raça destes legítimos arcônidas, haveria de
me perguntar, antes de tudo, o seguinte: como foi que a tripulação
desta nave experimental penetrou neste gigantesco envoltório de
proteção, principalmente pelo fato de que ninguém até hoje o
conseguiu atravessar? Talvez mesmo não iria consentir que estes
estranhos entrassem e andassem por aí, como se fossem os donos da
casa. Haveria de passar uma descompostura em vocês, bem séria,
aliás.
“Quando
um povo está tão evoluído assim que já não usa mais o transporte
aéreo, por tê-lo substituído pelo transmissor fictício, pode
também se dar ao luxo de se considerar sem fronteiras. Quem sabe vem
daí o total pouco-caso dedicado à nossa nave? Somos apenas insetos
incômodos, um desmancha-prazer a quem se mostra o caminho para fora,
o mais depressa possível. Os senhores vêem alguma lógica nos meus
pensamentos?”
Bell se
levantou, meteu as mãos nos bolsos e se dirigiu para Rhodan, que, no
momento, estava recebendo a mochila com os microprojetores para os
campos de anti-gravidade e deflectores. Assim estava completo o
uniforme arcônida.
— Quase
lógico demais — disse ele, abstraído. — Você se esqueceu de
uma coisa, pelo menos não a mencionou.
— O que
foi?
— Por
que os chamados ancestrais dos arcônidas ou os pré-arcônidas
teriam que ser tão pacientes assim? Se eu tivesse tanta coisa para
guardar e proteger, como esta gente, não deixaria esta meia dúzia
de terranos aterrissar aqui. Onde está a resposta? Por que nos
deixam assim, sem nos dar a mínima importância, ao invés de nos
tocar daqui para fora? Se eu fosse chefe aqui, não aconteceria isto.
Antes de aterrissar, eu já teria mandado a Fantasy para outros
mundos, mas não a deixaria em minha terra.
Bell riu
bastante. Parou de repente ao ver o rosto estarrecido de Marshall.
Rhodan também percebeu e perguntou:
— O que
você tem, John? Alguns impulsos?
Levou
ainda alguns segundos até que o telepata despertasse de sua
imobilidade. Esfregou os olhos, confuso.
— Alguém
lá fora desligou seu campo de proteção mental — disse apressado.
— Recebi vibrações claras e conscientes. Sir, é incrível, mas
acham que somos arcônidas, que viemos para visitar a antiga pátria
de nossos antepassados. Não posso mais ouvir nada, eles se trancaram
de novo.
A tensão
nervosa entre os tripulantes estava insuportável. Rhodan, porém,
parecia a própria calma personificada. Bell teve então um rompante
original:
— Se
você declarar agora que já havia pensado nisto, eu sou capaz de
explodir em mil pedaços.
Rhodan
afivelou o cinturão com a pesada pistola energética, controlando
exatamente o nível da carga. Depois disse com a maior tranqüilidade:
— Então
pode explodir, mas não suje muito a sala de comando, pois eu havia
Pensado exatamente nisto.
— Mentira!
Você não é onisciente.
— Claro
que não, mas sei pensar. Na parte conhecida da Via Láctea há, ou
havia até poucos anos, apenas um povo que construía suas
espaçonaves em forma de esfera. Eram os arcônidas, meu caro.
Atualmente, nós também as construímos. Como então que as
inteligências desta lua podem saber que não pertencemos ao sistema
arcônida mas sim à Terra? Há quantos séculos não têm contato
com seus descendentes emigrados? Também não podem saber o que se
passou no mundo de Árcon, que dista daqui mais de quarenta mil
anos-luz. Por outro lado, nós também chegamos aqui com uma nave
esférica e descobrimos o sistema Azul. Qual é pois a conclusão
mais plausível do que sermos nós os descendentes dos pré-arcônidas
emigrados há mais de vinte mil anos?
— Eu lhe
dou plena razão — disse Riebsam. — Vão supor que nós
descobrimos em velhos documentos os dados sobre a posição do
sistema Azul. É por este motivo que ninguém nos ataca, pois sabem
que, de qualquer maneira, somos seus parentes. Por outro lado,
dão-nos a compreender quão incômoda é nossa visita.
— Estão
vendo? Mas já que somos homens, de cabeça mais dura, vamos fingir
que não entendemos este outro lado. Major Claudrin, o senhor fica a
bordo. Conservar a nave pronta para se defender e deixar as máquinas
ligadas para a eventualidade de uma partida de emergência. Não se
preocupe conosco. Nós nos veremos em breve. Por quanto mais tempo
nos considerarem arcônidas, tanto melhor. Se, porém, perceberem que
não temos nada em comum com seus descendentes, a não ser a forma do
corpo, daremos meia-volta imediatamente.
Bell
solicitou um uniforme de combate. No comando geral dos conjuntos de
propulsão, zuniam os campos de defesa e, nas usinas energéticas,
funcionavam os reatores novamente.
Os
elementos de propulsão estavam com luzes verdes e a Fantasy
achava-se preparada para decolar em caso de perigo. Somente no posto
de artilharia não havia muita coisa a fazer, já que se encontravam
de prontidão.
O pelotão
de robôs sob o comando do Tenente Stana Nolinow não chegou a sair
da espaçonave. Apenas uma pequena parte da tripulação saiu de
bordo. Rhodan se utilizou de três naves auxiliares, aparelhos
anfíbios, de fácil locomoção em qualquer terreno, como no ar.
Estes aparelhos faziam parte dos equipamentos de emergência da
Fantasy.
Apenas
trinta homens pisaram no solo do mundo estranho. O mutante de duas
cabeças, Ivã Goratchin, permaneceu na Fantasy. Somente Gucky, John
Marshall e o telecineta Tama Yokida acompanharam os demais
tripulantes.
Alguns
homens, que, em virtude de seu temperamento, não podiam deixar de
tentar desvendar um mistério que se lhes apresentava, faziam todo
esforço para saber tudo a respeito daquela civilização
antiqüíssima. Era um empreendimento às vezes perigoso. Mas, os
homens da equipe da nave experimental já estavam acostumados a isto.
*
* *
...para
Auris de Las-Toor: averiguar de onde vêm estes estranhos e de que
maneira conseguiram romper o envoltório de proteção.
A jovem
retirou o bilhete do transmissor de notícias, colocou de novo a
cápsula na fenda de ejeção e apertou o botão de contato. A
cápsula desapareceu com um pequeno clarão, para no mesmo instante
rematerializar-se no aparelho receptor da Central de Notícias.
Com muita
atenção, Auris leu a ordem escrita do Conselho Regente.
— Tomaram
coragem — disse um técnico mais idoso, apontando para a tela do
vídeo. — Estão saindo da nave. Parece que não conhecem mais boas
maneiras e bons costumes. Estão naturalmente degenerados,
inferiores. Dê-lhes a entender que não são bem-vindos e faça tudo
para que sua nave nos deixe o quanto antes.
Auris de
Las-Toor inclinou a cabeça. Com o interesse prático e simples de
uma cientista, ela examinou os estranhos que, bem reconhecíveis,
acabavam de sobrevoar as primeiras estações dos reatores.
— Não
apresentam nenhum sintoma de degeneração física — disse o
técnico. — Admirável! Mantenha-os dentro de seus limites.
Auris
passou a mão nos longos cabelos vermelho-cobre e ligou seu campo de
proteção. Depois abotoou seu manto curto e se dirigiu para o portão
de segurança que se abriu sem o menor ruído. Do portão ao ponto de
condução eram poucos passos. O “ponto
de condução”
era o campo de ação do transmissor fictício. O técnico observou a
dissolução instantânea de seu corpo esbelto. Sem intervalo de
tempo, a moça rematerializou-se no aparelho de recepção da maior
lua do planeta.
Auris de
Las-Toor estava disposta a executar a ordem do Conselho Regente.
Olhava descontraída a aterrissagem das três viaturas anfíbias. Já
era tempo de fazer alguma coisa.
— Estão
se dirigindo para os campos estruturais — explicou o técnico da
grande estação energética 18-IV-3645. Devem ser tratados como
hóspedes?
— De
maneira alguma — disse Auris categórica. — O comportamento deles
não é decente. Você deve ter notado que nós não pensamos em
retribuir suas abrutalhadas tentativas de aproximação. Mande-me um
deslizador robotizado e informe os que estão viajando. Os
degenerados não devem ser tomados em consideração.
8
Pouco
antes de deixar a Fantasy, Rhodan havia ordenado que a partir daquele
momento só se podia falar a língua arcônida a bordo. Todo membro
da tripulação dominava esta língua plenamente.
Sem serem
molestados, sobrevoaram os gigantescos armazéns e as enormes cúpulas
das centrais, que haviam sido rastreadas da espaçonave. Do outro
lado dos edifícios, que vistos de cima, pareciam formar uma grande
cidade, já eram visíveis os focos luminescentes, observados já
antes da aterrissagem da Fantasy. Eram pistas energéticas com
nuances do branco-pálido ao vermelho-escuro, surgindo sem transição
do solo, para depois, na altura de cinqüenta a trezentos metros, se
unirem em arco.
Desta
maneira, formavam-se singulares portões em cujas aberturas o mundo
parecia acabar.
Rhodan ia
confeccionando seu mapa. Os três aparelhos anfíbios desceram a
poucas centenas de metros do grande fenômeno luminescente. Aquela
gente desconhecida abrira estradas largas de muitos quilômetros de
comprimento, terminando todas diante das gargantas escuras das
colunas energéticas, como se as tais estradas ali se interrompessem
de repente.
Trinta
terranos olhavam boquiabertos para os inúmeros homens estranhos do
outro lado, que saíam das grandes galerias existentes em volta, ou
que estavam ocupados em outros terrenos, lidando com mercadorias de
todos os tipos.
Máquinas
gigantescas robotizadas se arrastavam para fora dos silos. Os objetos
transportados em campos antigravitacionais eram depositados numa
espécie de caminhão sem rodas, construído em forma de concha, que,
depois de carregado, era levado como se não tivesse peso nenhum para
um dos portões em arco.
Não havia
dúvida de que se tratava de transmissores fictícios, mas de uma
espécie que não era ainda conhecida nem na Terra, nem no Império
Arcônida. Rhodan observava tudo, todos os processos, até poder
compreender o significado de todos os aparelhos e instalações.
Aquela
enorme região, que não se abrangia com a vista, estava tão
saturada de campos de transmissão fictícia, que não era mais o
espaçoporto para o despacho de mercadorias e de passageiros. O que
ali se passava, não era nada de assustador nem de descomunal, mas
tão-somente de uma técnica superapurada e superevoluída.
Os
pré-arcônidas — se é que se tratava deles — encontraram uma
maneira viável e tecnicamente amadurecida para acabar com as
complicadas viagens espaciais até planetas distantes ou
superdistantes.
Se fosse
realizado em campos em arco, em transmissores para desmaterialização
e condução de mercadoria de qualquer tipo, o transporte se faria
sem nenhuma perda de tempo e sem as complicadas manobras de carregar
e descarregar.
Rhodan
sabia agora por que motivo havia ali nas proximidades uma central
elétrica de tamanha proporção. Era para alimentar os vários
transmissores fictícios. No entanto não se viam em parte alguma as
redes de transmissão ou cabos condutores isolados. Não se podia,
pois, imaginar de que modo os transmissores recebiam a necessária
energia. Também não se viam as chaves de comando ou de
sincronização, que, certamente, deviam existir.
Rhodan e
seus cientistas já haviam visto bastante para poderem concluir sobre
o elevado nível técnico daquelas inteligências.
— Olhe
uma coisa aqui — disse Bell impressionado, com os olhos claros bem
arregalados.
O olhar de
Rhodan acompanhava a mão do amigo. Do outro lado, a uns trezentos
metros, zunia uma longa e interminável cadeia de gigantescas
plataformas flutuantes, sem rodas, na direção de um dos grandes
portões do transmissor fictício. As plataformas flutuantes
transportavam máquinas monstruosas, mercadorias bem acondicionadas e
uma multidão de pré-arcônidas, em fila e em perfeita ordem,
estavam sentados nos deslizadores.
Lá onde
começava a terrível e tenebrosa garganta do arco de
desmaterialização, desapareciam uma por uma as plataformas
flutuantes, com um rápido clarão de brilho intenso. Demorou poucos
minutos até a interminável cadeia se dissolver, para no mesmo
instante, talvez, rematerializar-se, num mundo distante, numa
instalação semelhante de transmissor de recepção.
— Em
comparação com esta gente aqui, nós somos órfãos — disse Bell
com um sorriso indeciso. — Provavelmente, poderão facilmente
cobrir grandes distâncias.
— Devem
ter pelo menos um aparelho de recepção em cada uma de suas bases —
opinou o Tenente Sikhra. Seu rosto estreito lhe dava uma aparência
de tímido. — Sir, pensando bem, não me resta outra opção a não
ser admitir que os pré-arcônidas possuem ainda uma navegação
espacial tripulada. De outra feita, como poderiam eles transportar
para outros mundos os aparelhos de recepção, absolutamente
indispensáveis? Ou o senhor acha que haveriam de usar aparelhos que
não carecem de receptores? Seria o cúmulo, não acha?
— Nada é
impossível. O Ser do planeta Peregrino tem este poder. No
supercouraçado Drusus, existe um transmissor fictício, oriundo do
planeta Peregrino, através do qual se pode enviar qualquer objeto
desmaterializado para qualquer lugar.
— Estas
instalações não parecem deste tipo — disse Bell. — Mas não me
olhe assim, que eu fico com cara de bobo. O que você está pensando,
Rhodan?
— Voltar,
voltar o mais depressa possível — disse ele, depois de curto
silêncio. — O pessoal desse planeta não nos está dando nenhuma
importância. Acho que, para eles, somos ar empesteado, que não se
pode respirar. Sikhra, reúna seu pessoal.
Mahaut fez
um sinal para um de seus sargentos, Totrin, um homem baixo de cabelos
negros, de seu comando de ação. Totrin tentava, há minutos, entrar
em conversa com algum dos transeuntes. Era um tipo sempre
bem-humorado e, além disso, muito paciente. Assim, respondia
sistematicamente com um sorriso neutro, quando simplesmente o
deixavam de lado, como se ele não existisse.
Mas Totrin
devia ter descoberto alguma coisa. Quando percebeu o sinal de Sikhra,
voltou lentamente para o veículo anfíbio mais próximo e saltou por
sobre o peitoril mais baixo do bagageiro.
— Então?
— perguntou Rhodan, com visível inquietação.
— Nada
feito, sir. Não querem diálogo. Se a gente fica parado no meio da
calçada, eles simplesmente se desviam. Continuam conversando como se
não ouvissem nada. Tentei umas quinze vezes, com diversos tipos de
pessoas. A maioria deles tem cabelos cor de cobre, muitos, no
entanto, têm cabelos escuros, com um reflexo azulado. Todos possuem
uma pele morena aveludada. Neste ponto não parecem muito com os
arcônidas, mas em compensação falam bem o arcônida.
Rhodan se
admirou.
— Que
você está dizendo?!
— Falam
o arcônida arcaico, sir. Pude compreendê-los muito bem. É mais ou
menos a língua que encontramos nos lugares de colonização
arcônida. Mais importante é o fato de que chamam o sol azul deste
sistema de “Ácon”.
— Está
aí o negócio — exclamou Bell, agitado. — “Ácon”!
Se acrescentarmos a letra “r”,
teremos “Árcon”.
Está mais do que claro que os arcônidas de hoje se espalharam pelo
Universo, saindo daqui. Nosso bom amigo Atlan não devia se gabar
tanto do grande passado de seu povo. Os nossos arcônidas não são
mais do que um ramo degenerado desta raça.
— Um
veículo flutuante vem em nossa direção, sir — avisou alguém.
Rhodan
virou-se imediatamente.
O
deslizador disparava pela ampla pista e parou exatamente em cima das
viaturas anfíbias.
— Oba!
Estão perdendo a paciência, não é? — disse Rhodan como que
monologando.
Seus olhos
se estreitaram. O sol azul estava até muito camarada: a temperatura
média era em torno de 29 graus centígrados.
Esperou
uns momentos até que pudesse discernir bem as pessoas que estavam no
deslizador.
— Estão
mandando uma mulher, aliás uma bela mulher — disse John Marshall.
— Está pensando em nós e numa determinada missão. Esta gente
irradia paravibrações instáveis, distorcidas, sir. É muito
difícil pegar o fio de seu pensamento.
— É
isto mesmo — confirmou Gucky, que desde a fuga da nuvem chamejante
não dera mais sinal de si.
Todos
sabiam que o rato-castor sofria muito com as conseqüências da
sobrecarga dos muitos gravos.
— Está
pensando numa missão? — repetiu Rhodan. — Sikhra, prepare tudo
para a partida. Quando ela se aproximar mais de nós, escaparemos por
aí. Quem sabe o que ela está tramando contra nós?
— Uma
frágil donzela! — exclamou Bell com ironia.
— Para
mim, não é uma frágil donzela, mas uma representante deste grande
povo, que, em dadas circunstâncias, pode perder a paciência e se
tornar perigosa. Não preciso dizer o que pode então acontecer.
— Ela e
sua comitiva vêm de fato na nossa direção — disse Gucky com mais
animação. — Está pensando em algo pequeno, que se arrasta com
antenas na cabeça, e sente nojo pensando nisto, mas está sempre
comparando este animalzinho nojento conosco.
— É
percevejo! — disse Reginald Bell.
— Percevejo
não tem antena, sir — corrigiu Mahaut Sikhra sorrindo.
— Não
tem importância! Quem sabe os percevejos daqui possuem antenas?! Mas
isto é o cúmulo! Esta mulher parece estar mais orgulhosa de seu
povo do que, em seu tempo, a arcônida Thora. Para ela, nós éramos
apenas os habitantes de um inferno, um pouco melhorado.
Rhodan
estremeceu e Bell teve remorso do que disse. Desde a morte de Thora,
seu nome não era mais pronunciado na presença de Perry Rhodan.
— Sikhra,
vamos embora! Depressa!
Os três
veículos desprenderam-se do solo, movidos por projetores
antigravitacionais, exatamente quando a cientista Auris de Las-Toor
parara sua viatura deslizante.
Quando um
homem de boa estatura, com traços marcantes e irônicos, de olhos
escuros, curvou o corpo e a cumprimentou, Auris ficou confusa e pela
primeira vez sentiu admiração pelos estranhos.
Consternada,
olhava para os aparelhos que, segundos depois, desapareciam atrás
das grandes construções da central elétrica.
Nervosa,
Auris transmitiu a notícia para sua central. Recebeu a instrução
de não molestar mais os aparentemente assustados homens de outros
mundos.
Auris não
sabia por que começara a duvidar de repente do conceito “assustado”.
O homem alto, ponderado, de autodomínio, não dava a impressão de
ter ido embora assustado por ela. Tentou refletir sobre a situação
com clareza e isenção de ânimo, sem nenhum preconceito. Depois
resolveu voltar o mais depressa possível para sua repartição, a
fim de obter novas informações sobre a pré-história dos
emigrantes acônidas.
Auris de
Las-Toor era galato-socióloga. Estava dentro de seu quadro
profissional investigar os problemas sócio-políticos dos mundos
colonizados pelos acônidas e enquadrá-los dentro das normas das
antigas legislações.
Quando, em
rápida viagem, voou de volta para a base do transmissor fictício,
era de opinião de que ia esclarecer tudo sem nenhuma complicação.
Descontente consigo mesma, tentou tirar de sua memória aquela
aparição esbelta.
“O
fato de aquele homem ter olhado sarcástico e sobranceiro para mim
foi apenas uma questão de situação, pois ele estava, no momento,
em posição mais alta do que eu”,
pensava ela, tentando convencer-se. “Mas
por que o degenerado tinha que olhar logo assim para mim?”
*
* *
O Tenente
Brazo Alkher retirou a ponta dos dedos dos interruptores do quadro de
mira dos canhões, assim que o último veículo anfíbio entrou são
e salvo na grande comporta equatorial da Fantasy. Stana Nolinow que,
no momento, não estava ocupado na direção da nave, apareceu na
central de artilharia, a fim de contar a Brazo as últimas novidades.
— ...ninguém
deu bola à nossa gente — disse ele, em voz alta. — Uma ofensa
destes orgulhosos! Mas a moça... que classe! — virou os olhos e
estalou os dedos.
Brazo
sorriu. Nolinow parecia muito sensível a este gênero de fascinação.
— Você
a viu, meu irmãozinho? Não, naturalmente não, você tinha que
olhar para o seu quadro de mira. Mas eu tomei parte na transmissão
das imagens para a televisão. Mahaut me havia prometido captar os
lances mais importantes com a câmara portátil. Assim, vi tudo, vi
principalmente a moça bonita. Imagine só aquela figura esbelta,
pneumática...
— Como?
— Figura
pneumática de uma deusa — continuou Stana, arrebatado. — Cabelos
compridos, levemente ondulados, da cor de cobre velho, que,
dependendo da incisão da luz, tinham reflexos esverdeados. Ainda por
cima, o nariz clássico de uma deusa grega, os lábios cheios de uma
espanhola, a frieza reservada de uma rainha inglesa. Tinha gelo nos
olhos de esfinge, mas, quando viu Perry Rhodan, respirou duas vezes e
meia mais rápido.
— Por
que não três vezes?
— Duas
vezes e meia, eu contei. Por que haveria de mentir?
— Você
não acha este tenente um pouco maluco, sargento Enscath? —
perguntou Brazo ao velho graduado.
— Não
compete a mim julgar os oficiais da nave assim abertamente — disse
Enscath, sorrindo.
— É
isto que gostaria de aconselhar a você — ameaçou Stana. — Meus
amigos, vocês não têm idéia... que coisas maravilhosas existem
nesta lua meio deserta! Vocês estão vendo que estou apaixonado,
virado do avesso por ela, pronto para sacrificar minha vida pela
Humanidade, com a única condição de que eu pudesse tratar com ela
sobre o destino da tripulação da Fantasy. Caminharia sorrindo e
bêbado de felicidade para a morte, caminharia, não, pularia...
depois, acho que...
— Tripulação
para os postos de manobra — tonitroou o vozeirão de Claudrin, em
todos os alto-falantes. — Prontos para decolagem de emergência.
Confirmem.
Stana
silenciou, olhando aborrecido em volta.
— Que
brutamontes! — disse ele. — Interromper-me assim desta maneira.
Vocês ouviram? Eu estava falando dela.
— Está
certo, mas agora, corra para seus robôs, seu poeta de meia-tigela —
disse Brazo, com calma.
Sem dizer
mais uma palavra, Stana caminhou para a porta blindada. O sargento
Enscath disse com cara de sério:
— Senhor,
estamos preocupados com seu bem-estar. Caso o senhor deseje colocar
uma peruca vermelha num dos seus robôs, eu poderia falar com o
oficial do almoxarifado.
Stana
olhou furioso para Enscath.
— Seu
maluco!
Depois que
ele desapareceu, Brazo Alkher levantou o dedo em tom peremptório:
— Gostaria
de saber se um oficial da nave tem o direito de ofender os membros da
tripulação.
— Vamos
perdoá-lo, sir — disse o sargento, sorrindo. — Bem, o painel do
controle de armas está com luz verde.
*
* *
— Para
onde você quer voar, para onde? — perguntava Bell, excitado.
Rhodan
apertou o cinturão de sua poltrona. Sob seus pés roncavam os
projetores antigravitacionais, eliminando a forte atração da grande
lua.
— Para o
quinto planeta deste sistema solar, planeta este chamado Sphinx —
disse Rhodan, tranqüilo.
— Você
está caducando? Já vimos coisas demais e minhas vértebras
cervicais superiores estão começando a comichar, o que sabidamente
é um mau presságio.
— Você
está é muito gordo — disse Gucky, em tom de deboche.
— Cala o
bico, garotinho. O assunto é sério. Perry, o que pretende mesmo?
— Não é
muito. Quero dar uma olhada no número cinco para constatar qual é o
jogo que se esconde por lá. Esta lua é apenas uma enorme central
energética com funções já conhecidas. Quero saber de que maneira
os acônidas, daqui em diante os chamaremos assim, levam seus
aparelhos de recepção para os planetas de destino. Para isto
necessitariam de uma frota espacial.
“Onde
estão estas espaçonaves? Qual é sua velocidade? Que tipo de
propulsão usam os acônidas? E o que é mais importante: o que há
nesta raça no tocante à vontade de fazer novas conquistas?
“Não
seria nada agradável encontrar um dia na Terra uma enorme instalação
de transmissor fictício, de onde surgissem milhões de robôs de
combate. Se levarmos em conta a tremenda ambição despótica dos
velhos arcônidas, não podemos fugir da seguinte pergunta: de que
maneira se comporta o povo de onde se originaram os arcônidas?
Voaremos lá para o planeta Sphinx. Pronto, Jefe, pode partir.”
As
palavras de Bell se perderam no tonitroar dos conjuntos de tração.
A Fantasy avançava com tanta força para o espaço que poucos
segundos depois não podia ser mais vista pela gente da lua. Apenas
uma onda de ar superaquecido invadiu as imensas instalações do
singular espaçoporto do transmissor fictício.
Um técnico
dos acônidas gritou zangado:
— Que
gente sem-educação. Não mereciam pisar aqui. A gente devia
destruí-los.
Destruir
era uma palavra que não cabia no dicionário de Rhodan. Sempre
aproveitava a ocasião que se lhe oferecia, a fim de garantir os
interesses da Terra.
A viagem
durou poucos minutos. Foi uma alegria para o homem de Epsal poder
executar uma estonteante aterrissagem.
O cruzador
pesado disparava a toda e só começou as manobras de frenagem nas
camadas mais baixas da atmosfera do quinto planeta.
Foi por
isso que o comandante disse:
— De
qualquer maneira, já fomos rastreados. Não há mais motivos para
cautela exagerada. Ao menos ficarão cientes de que os terranos sabem
lidar com grandes naves.
O Major
Krefenbac olhou admirado para as costas de suas mãos, com que
limpara o suor do rosto. A pele estava úmida.
— É uma
miséria! — resmungou o primeiro-oficial.
Seu rosto
melancólico e enrugado estava ainda mais inexpressivo do que de
costume. Lembrou-se de que fazia mais de dez anos que não suava
assim. Já que o fenômeno veio de repente, Krefenbac resolveu, por
medida de segurança, colocar o cinturão com a pistola térmica, o
que aliás já há tempo não fazia, apesar das prescrições a
respeito.
— Santo
Deus! — disse Bell. — O monstro comprido pega em arma. Quem ia
pensar nisso? Miséria! Por que estes acônidas cruzam os braços
assim? Claudrin, arranque as florestas deles com as ondas de
compressão. Estou curioso para saber quando esta gente disciplinada
vai perder a paciência...
— Eu
também — disse Rhodan. — E pode não demorar muito. Jefe, lá na
frente estão aparecendo cidades. Vamos aterrissar no primeiro
espaçoporto que encontrarmos. A nave continuará preparada para
decolagem de emergência. Central energética, apresente-se...!
O
engenheiro de serviço apareceu no videofone.
— Vamos
aterrissar logo — disse Rhodan, tranqüilo. — Com seus
rastreadores de energia e de massa, tente localizar as possíveis
espaçonaves. Suponha que os aparelhos acônidas voem também com
propulsão linear. Regule seus rastreadores pelo impulso
correspondente. Está tudo claro?
— Entendido,
sir. Faremos o melhor possível.
— O que
você disse mesmo? — soou a voz de Kalup, nos alto-falantes. Ouvira
a conversa. — Você pensa, por acaso, que estas inteligências
chegaram a desenvolver o vôo linear de supertração sem os saltos
de transição?
— Estou
até convencido disto. Não tem que ser uma cópia direta do nosso
conversor de compensação, mas o sistema deve funcionar de maneira
idêntica.
— Exijo
uma comprovação objetiva — gritou Kalup, como nos momentos de
cólera.
— Você
não tem nada para exigir, meu jovem. Mas assim mesmo quero
satisfazê-lo.
— Atrevimento!
— Está
bem. Fique sabendo que nós passamos incólumes pelo singular campo
energético, porque voávamos com o sistema kalup. Quando os acônidas
têm que atravessar este gigantesco envoltório que envolve todo o
sistema Azul, devem se utilizar também de um campo de compensação
semelhante, de outra forma não conseguiriam sair de seu sistema. Não
seria compreensível que, à passagem de cada espaçonave, tivessem
que desligar estas instalações extensas e muito complicadas. Assim,
temos de admitir que os acônidas não usam mais a transição, mas
viajam com a visão paraótica do objetivo, em vôo linear. Basta
isto?
— Somente
depois que eu calcular as várias hipóteses.
— Faça
isto, professor. Estou curioso pelos seus resultados.
Momentos
depois, Hunt Krefenbac estava soltando os apoios telescópicos para o
pouso da Fantasy. O engenheiro-chefe, o marciano Slide Narco, dirigia
a operação.
Como um
monstro assustador, pronto para o ataque, a Fantasy pousou suave no
meio de uma grande planície, que possivelmente podia ser um
espaçoporto.
9
Os homens
do comando de ação, sob a direção do Tenente Mahaut Sikhra, já
estavam de volta. Rhodan acompanhara o pequeno grupo de exploração
através dos transmissores de capacete. Constatara que não fora
possível entrarem em contato com ninguém.
Vinte
minutos após a aterrissagem, os primeiros resultados das estações
de rastreamento foram conhecidos. Havia espaçonaves no campo de
pouso, das quais se ouviam os impulsos dos conjuntos de propulsão.
Depois dos
estudos meticulosos destes resultados pelo setor de Matemática e sob
a rigorosa fiscalização pessoal de Kalup, constatou-se que os
acônidas, como já se supunha, dominavam o vôo linear. Trabalhavam
com um campo de proteção quase idêntico ao do compensador, que, em
muito, se aproximava do conversor kalupiano, aliás bem mais
desenvolvido.
Arno Kalup
estava fora de si. Delineavam-se no horizonte possibilidades
ilimitadas de uma evolução perene da nova tecnologia terrana. No
entanto, não havia nenhuma esperança de conseguir que os acônidas
revelassem espontaneamente seus segredos.
O comando
de Mahaut Sikhra não fora enviado apenas para tentar contatos. Seus
membros portavam instrumentos especiais com os quais se podia
constatar se as espaçonaves detectadas eram um aglomerado de peças
velhas ou aparelhos prontos para o uso imediato.
Gucky
desaparecera já há alguns minutos. Provavelmente conseguira
penetrar numa das galerias isoladas por fortes campos de proteção
magnética.
Bem mais
para longe, quase sumindo no horizonte, erguiam-se as típicas
construções arcônidas de teto afunilado. Já esta forma
arquitetônica provava que os arcônidas provinham deste mundo
distante. Conservaram os costumes e usos de seus antepassados, mas
com o correr dos séculos desenvolveram uma cultura que se
distanciava sempre mais de sua origem.
Rhodan não
se atreveu a sobrevoar a grande metrópole. Tinha a impressão de ter
atingido um ponto crítico. Além do mais, tudo indicava que aquela
tranqüilidade se assemelhava muito à calma que precede à
tempestade.
No amplo
espaçoporto, já haviam recolhido todos os aparelhos. Não se via
nem um acônida. Não havia melhor forma para se exprimir a
desconfiança, talvez mesmo o desprezo.
— Vai
acontecer qualquer coisa dentro de pouco — afirmava Bell inquieto.
— Ou vão nos transformar numa nuvem radiativa ou usarão uma
“novidade”
de que não temos conhecimento.
Mahaut
Sikhra acabou de entrar. Estava apenas de uniforme, pois Rhodan dera
a ordem para não usarem mais os trajes arcônidas de combate, que
podiam dar impressão de provocação. Mas era o caso de se perguntar
o que era mais provocante: a aterrissagem feita sem mais nem menos,
sem nenhuma comunicação, ou o simples uso de um uniforme com
equipamentos que eventualmente serviriam para combate. Tudo por tudo,
a atuação dos terranos não deixava de ser um atrevimento, o que
Rhodan bem sabia.
Sikhra fez
uma continência perfeita. Seu rosto estava encharcado de suor, pois
o sol azulado Ácon irradiava um calor desagradável.
— O que
você descobriu?
Mahaut
tirou o boné. Seu rosto revelava desânimo.
— Não
muita coisa. Nas proximidades das galerias, instalaram campos
energéticos que não pudemos atravessar. Mas não há dúvida de que
as espaçonaves detectadas possuem eficientes motores de propulsão.
Não são peças de museu, mas aparelhos prontos para entrar em ação
a qualquer momento. Acônidas, não encontramos nenhum. Dois homens
se retiraram assim que nos viram no campo de pouso. Não querem falar
conosco, parecem não se preocupar com nossa presença. É
praticamente tudo, sir.
— Basta
— disse Rhodan desanimado. — Meus senhores, todos prontos para
partir? Esperaremos apenas por Gucky.
Três
minutos depois, o rato-castor se materializou no posto de comando.
Estava de novo esgotado. Marshall o apanhou nos braços e o levou
para a cama mais próxima. Foi daí que o habitante de Vagabundo deu
algumas informações:
— O
envoltório de proteção era quase impenetrável, mas consegui
rompê-lo. Custou-me um esforço terrível. Cheguei a ver as
espaçonaves que também são protegidas por um campo especial.
— Tente
descrevê-las. São cilíndricas?
— perguntou
Rhodan com cara de quem tivesse acabado de acordar naquele instante.
Bell
começou a ficar nervoso, pois conhecia o amigo. Esta acentuada
sonolência era um sinal certo do nervosismo reinante em Rhodan.
— Claro
que eram cilíndricas, apenas os dois pólos são planos, dando
impressão de que alguém serrou bem certinho o arredondamento
superior e inferior. Possuem, porém, o rebordo central, mas muito
reduzido. O maior diâmetro será talvez de cento e cinqüenta
metros.
— São o
transporte para a instalação das contra-estações — afirmou
Claudrin. — Então, que estamos esperando? Já sabemos o suficiente
sobre esta gente.
— Central
de rastreamento: dois aparelhos apareceram de repente sob a Fantasy —
disse uma voz excitada.
Rhodan se
assustou. Pulou para os controles do outro lado e ligou os campos
protetores da parte inferior da nave.
Dois
grandes flutuadores, de construção muito elegante, com cobertura
transparente, pararam a poucos metros da escotilha do pólo inferior.
— Como
foi que eles chegaram até aqui? — perguntou Rhodan. — Alguém os
viu se aproximar?
— Não,
sir. Não houve nenhum rastreamento anterior. Simplesmente apareceram
aí.
— Fala a
central de rádio — disse um outro oficial. — Estamos sendo
chamados. Falam o velho arcônida, sir. O senhor é solicitado a sair
da nave para uma entrevista.
— Solicitado?
— Perfeitamente,
sir. Devo transferir a ligação para seus alto-falantes?
— Não é
necessário, já esperava por isso. Comunique-lhes que eu não
demoro. Fim.
Rhodan
apanhou o boné e Claudrin levantou-se devagar. Reinava silêncio na
central, até que Bell indagou:
— Como
foi que eles chegaram à parte inferior da nave? A Fantasy tem
duzentos metros de diâmetro. Assim sendo, devem ter percorrido cem
metros por baixo dela, para poderem chegar à escotilha do fundo.
Houve
outra interrupção. O posto de rastreamento estava falando:
— Estamos
recebendo ecos indefinidos, que aparentemente vêm do interior da
Fantasy, dando a impressão de serem impulsos de ondas curtas.
— São
novamente sinais de rádio?
— Não,
de maneira alguma. Parecem mais grupos de números e símbolos, sir.
Não sei como julgar isto.
Rhodan
desligou.
— Claudrin,
Bell, Marshall e Tenente Nolinow, os senhores vão me acompanhar.
Vamos.
— Loucura
— disse Bell. — Loucura rasgada. Você devia ter notado que a
senhora que nos espera é muito parecida com aquela de quem nós
fugimos quando estávamos próximos do transmissor fictício da lua.
O sorriso
de Rhodan era mais do que enigmático.
— Quanta
bobagem você diz. Você pensa que eu não notei aquela criatura?
Balançou
a cabeça, quase que criticando seu amigo. Dois andares para baixo,
Stana Nolinow corria ofegante para o elevador central. Quando pulou
no elevador antigravitacional e foi descendo, tentou ajeitar a gola
do uniforme. Nolinow seria, assim, o primeiro tripulante a alcançar
a escotilha inferior.
Segundos
depois, chegaram Rhodan e os oficiais do comando da Fantasy.
*
* *
Ela estava
de pé, ereta como uma coluna grega, diante de sua viatura. A luz que
irrompia pela escotilha aberta se refletia nos seus cabelos com
fulgores metálicos. Auris de Las-Toor sabia, desde alguns minutos,
que o rastreador de imagens instalado no segundo deslizador estava
funcionando com perfeição.
Depois da
surpreendente aterrissagem dos estrangeiros, recebera ela a
incumbência de descobrir a todo custo de onde vinham estes intrusos.
O rastreador de imagem acônida era um instrumento que produzia e
captava os impulsos acumulados nos computadores de bordo, sem
necessidade de fios. Ninguém na Fantasy suspeitava de que, no posto
de computação, todos os dados referentes à posição do planeta
Terra e do sistema solar estavam sendo transmitidos para fora.
Auris
comunicou tais dados imediatamente ao Conselho Regente.
Quando o
primeiro homem surgiu na escotilha, já as máquinas calculadoras
estavam em atividade numa cidade distante. Cientistas e especialistas
do Conselho Energético Acônida estavam evocando e concatenando
todos os dados, acumulados há mais de vinte mil anos, sobre a
colonização de um mundo muito distante, para confrontá-los com as
indicações conseguidas por Auris a respeito de seu posicionamento.
O último
a aparecer foi Rhodan. Parado na escotilha, olhou firme para baixo,
bateu de leve com as pontas dos dedos na aba do boné, para em
seguida, com toda calma, dar instruções completamente supérfluas
para o interior da nave.
John
Marshall captava todos os pensamentos do administrador do Império
Solar. Era norma geral de Rhodan, quando se deparava com
inteligências desconhecidas, dar a entender claramente que ele não
se sentia inferiorizado.
Auris, que
já tinha vindo com o propósito expresso de não se deixar
influenciar pelo fluido pessoal do desconhecido, surpreendeu a si
mesma olhando fascinada para o alto.
Rhodan
desceu pelo elevador antigravitacional, encaminhou-se sereno e
elegantemente para a bela jovem. Seus olhares se cruzaram pela
primeira vez. Notou que aqueles olhos de um castanho-claro pareciam
dissecá-la. Numa reação inconsciente de defesa, seu corpo se
empertigou.
Major Jefe
Claudrin desempenhou de modo magnífico seu papel. Com sua voz, já
agora um pouco mais domada, apresentou Rhodan. Ela estremeceu
levemente, mas se dominou num instante. Foi exatamente neste momento
que se apercebeu de que estes homens tão esquisitos não poderiam
ser descendentes dos velhos emigrantes acônidas. Intranqüila e
pensando nas conseqüências provenientes deste raciocínio, deteve o
olhar mais tempo no espadaúdo epsalense.
— Sinto-me
honrado por perguntar seu nome, gentil senhorita?
Auris
olhou-o com frieza.
— Cabe a
mim usar da palavra — retorquiu um tanto ríspida.
Por um
momento, Perry pensou em sua falecida esposa. Um sorriso leve e
saudoso brincou nos seus lábios. Como esta linguagem altiva lhe era
familiar!
— Suponho
que a senhora já o tenha feito — respondeu ele. — A senhora vai
me proporcionar hospitalidade, ou por que motivo voltou?
Sentiu-se
chocada.
“Este
degenerado esqueceu-se das boas maneiras”,
pensou.
Tentou
insistir na sua frieza.
— Os
senhores aterrissaram sem receberem permissão. Tenho que pedir que
abandonem o planeta imediatamente. Fui encarregada de lhes transmitir
as desculpas do Conselho Regente, que se sentiu obrigado a uma tal
atitude. Aparentemente, os senhores não sabem mais honrar as boas
maneiras de seus antigos antepassados.
Rhodan
curvou a cabeça, num gesto de aceitação. Esperava por uma frase
desta. Esta raça lhe parecia exageradamente cortês.
— Por
nossa parte, lamento muito termos sido recebidos com tanta
indiferença. Será que se tornou costume do sistema de Ácon tratar
os representantes da própria raça como parentes pobres e mendigos?
As notícias de nossos antepassados falavam do povo bom e generoso de
Ácon.
— Os
senhores podem estar certos de que debatemos muito sua inesperada
vinda. Porém não parecem saber como as velhas guerras coloniais
dividiram tremendamente o vosso e o nosso povo. Não possuem mais
documentos a respeito em seus arquivos?
— Provavelmente
devem ter se perdido — disse Rhodan evasivo.
John
Marshall reteve a respiração.
Rhodan
meditou: “Aí
está a razão de tudo. Quer dizer que entre os primitivos emigrantes
colonizadores, que são os arcônidas de hoje, e os representantes da
velha pátria, chegou a haver coisa mais séria!”
— Estava
imaginando — disse Auris mais afável. — Volte para sua terra,
Rhodan de Árcon! Ou será que o devo tratar de outra forma?
O telepata
Marshall transmitiu uma mensagem a Rhodan. O administrador logo a
compreendeu. A moça suspeitava de algo. Esta indireta fora seu
primeiro ataque.
— Desculpe,
podia se explicar melhor?
— Não
tem maior importância, foi apenas uma pergunta.
Novamente
seus olhares se encontraram. Sentia algo daquele fluido eterno, que a
tornava ainda mais insegura. Rhodan resolveu pôr um fim ao perigoso
diálogo.
— Vou
seguir seu conselho. Poderia ter o prazer de ouvir seu nome?
— Auris
de Las-Toor.
— Muito
obrigado. Meu nome é realmente Rhodan. Com toda sinceridade, do
fundo do meu coração, desejava mesmo manter boas relações de
amizade com seu povo. Os mundos que constituem nossa pátria são
ricos e jamais pensamos em subjugar outros povos.
— Como
os senhores se tornaram diferentes de seus antepassados — observou
com malícia.
— Cometeram-se
muitos erros — continuou Perry.
Os avisos
irradiados por Marshall, “acautele-se,
acautele-se”,
estavam mais insistentes. O telepata não podia compreender por que a
desconfiança de Auris era cada vez mais forte.
Segundos
mais tarde, aconteceu algo com que ninguém contava. A lâmpada
instalada na capota do deslizador começou a piscar, e Auris notou.
Sem dar nenhuma explicação, dirigiu-se para a viatura, onde estavam
sentados, como estátuas, dois acônidas. Rhodan reparou que o
semblante delicado da donzela se contraíra. Segundos mais tarde, ela
se dominou. Quando a beldade se virou para os terranos, Marshall
avisou telepaticamente:
— Cuidado!
Ela abriu por uns instantes a guarda de seus pensamentos; está muito
nervosa. Agora protege de novo seus pensamentos. Deve ter recebido
uma notícia importante. Parece que conseguiram ler alguma coisa em
nossos computadores de bordo. Os cientistas de Ácon devem ter
conferido os dados da localização da Terra com os do sistema
Arcônida. Sabem agora que não somos arcônidas, mas um povo
estrangeiro.
Rhodan
esperou ainda um pouco. Os avisos de Marshall chegaram até Gucky,
que os transmitiu para o primeiro-oficial. Os conjuntos de propulsão
que, até então, trabalhavam em ponto morto, começaram a estrugir.
As bocas-de-fogo da cúpula inferior apontavam para uma certa
direção. Um jovem oficial estava preparado para tocar na tecla de
disparo.
Auris
achava-se parada diante de Rhodan. Seus lábios cheios estremeceram.
— Quem é
o senhor? — perguntou em voz baixa e apressada. — Parta, parta o
quanto antes, o senhor me faz mal. Não volte nunca mais e se esqueça
de que encontrou minha pátria. Maluco, imprudente, como pôde se
atrever a enganar o Conselho Regente?
— Nada
mais do que curiosidade — explicou Rhodan, também em voz baixa. —
Auris, eu ainda venho vê-la um dia.
— Nunca!
Correu uns
metros para trás, e seu corpo esbelto de repente se dissolveu.
Também as duas viaturas desapareceram num forte clarão colorido.
Ficou para trás apenas um transmissor fictício. Foi então que
Rhodan percebeu de que modo as viaturas penetraram sob a Fantasy, sem
serem notadas. Segundos depois, o transmissor disparou a alta
velocidade, quase rente ao chão...
Neste
instante, os alto-falantes externos começaram a roncar. Ouvia-se bem
a voz do Major Hunt Krefenbac, que gritava:
— Sir,
volte para a nave! Cuidado! Começamos a ficar entorpecidos, estamos
sendo cercados por uma cintilação esverdeada. Alguém está nos
atacando com uma arma desconhecida. Sir, não consigo mais falar.
Minhas mãos parecem de vidro, chefe...
Claudrin
pulou num grande galeio diretamente para a escotilha. Bell, Marshall,
Nolinow e Rhodan o seguiram. A escotilha se fechou, mas o barulho do
funcionamento dos motores de tração não se alterou. Ainda não
notavam a cintilação esverdeada. Um soldado, que devia ser o vigia
da comporta, gritou perturbado:
— Sir,
olhe isto aqui. Os homens da sala de comando foram os primeiros a
serem paralisados e, logo depois, o pessoal das máquinas.
Rhodan
afastou o vigia e olhou para a pequena tela de controle. Krefenbac,
Slide Narco e todos os cientistas mais importantes da Fantasy estavam
sentados ou de pé nos seus postos como se fossem estátuas de pedra.
Apenas alguns homens tentavam ainda escapar da zona de perigo,
arrastando-se com dificuldade.
— Gucky!
— disse Rhodan, chamando o rato-castor com impulsos mentais. —
Gucky, você está bem?
— Consigo
ainda pensar, nada mais. Não consigo mover-me.
— A
cintilação está chegando, agora, aqui embaixo. E, se formos até
você, ficaremos também entorpecidos. Consegue se concentrar para um
salto telecinético?
Rhodan viu
quando o homem de Epsal pulou no elevador que o conduziria até a
casa de máquinas.
— Estou
procurando chegar até as máquinas — disse ele.
Depois
ouviu-se um grito. Claudrin tornava-se mais uma vítima da cintilação
esverdeada.
Bell puxou
Rhodan de volta para o corredor lateral. A cintilação se espalhava
lentamente, mas quando atingia uma pessoa, o corpo desta sofria
reações misteriosas. Rhodan, intuitivamente, chegou à conclusão
de que se tratava de uma transformação molecular dos organismos.
Porém, neste momento, tal conclusão nada valia.
O silêncio
foi tomando conta cada vez mais da nave experimental Fantasy. Os
chamados cessaram e os gritos dos homens pegos de surpresa quase não
se ouviam mais nos alto-falantes do videofone. Nem Gucky se
manifestou mais, se bem que os impulsos de sua consciência ainda
continuassem nítidos. Provavelmente, era um misto de torpor e
cãibra, que paralisava o corpo completamente, mas não atingia o
cérebro, isto é, as faculdades mentais.
Rhodan,
Bell e Marshall se abrigaram no ponto mais baixo da nave esférica.
Era evidente que a misteriosa radiação se iniciara no rebordo
central da nave. Os acônidas pareciam saber muito bem que ali
estavam os mais importantes elementos de comando.
Mais para
frente deles estava Stana Nolinow paralisado, agachado sobre um
instrumento. Parecia não ter conseguido tirar, a tempo, da zona de
perigo, o guarda da escotilha caído no chão.
Rhodan
tinha em mente procurar alguma arma que anulasse a cintilação. Mas
acabou deixando esta idéia de lado. Jamais conseguiria encontrá-la.
Bell também já estava mais dono de si. Achava-se parado num canto,
olhando para frente, onde a cintilação parecia se aproximar. Disse
com certa preocupação:
— Agora
sabemos como é a situação, quando eles perdem a paciência. Seria
muito melhor se eles tivessem percebido que nós não éramos
arcônidas, logo de início. Não têm mesmo dó de ninguém, quando
se sentem ameaçados.
— E quem
não agiria desta maneira? — perguntou Rhodan, fechando as mãos em
punho.
Não havia
mais ruído nenhum na parte superior da nave. Todos que lá estavam
teriam sido atingidos pela cintilação. A enorme Fantasy se
transformara num museu de figuras de cera, onde só se moviam os
conjuntos de propulsão, prontos para a decolagem. Bastava só um
impulso para fazer entrar em ação a decolagem automática,
anteriormente programada.
— Marshall,
entre em contato com meus impulsos mentais e procure reforçá-los.
Vamos chamar Gucky, que está no posto de comando. Se ele, de fato,
não conseguir fazer mais nada, estaremos então perdidos. Os
acônidas irão nos pegar daqui um pouco como passarinhos de asas
cortadas. Gucky tem apenas que puxar a alavanca da decolagem de
emergência automática.
— Se ele
não a puder ver mais, de nada adiantarão suas forças telecinéticas
— disse Marshall.
Recuaram
uns metros, tentando se afastar o máximo da cintilação esverdeada.
— Acho
que ele não está nem podendo mais mover a cabeça — acrescentou
Marshall.
Rhodan
começou a chamar telepaticamente pelo rato-castor.
— Gucky,
está ouvindo? Diga alguma coisa! Se você pode ainda pensar,
responda!
Veio um
impulso nítido.
— Estou
ouvindo, acho que fiquei desacordado por algum tempo. Sinto muitas
dores.
— Esqueça
isso um pouco. Meu amigo, você consegue ver a alavanca vermelha de
decolagem?
— Não,
estou virado de cabeça para baixo na poltrona giratória e não
posso mover-me.
— Então
procure mudar de posição com uma curta teleportação. A alavanca
está em cima, na estante inclinada dos controles manuais. Você deve
conhecê-la. Quando estou sentado na minha poltrona, fica a uns dez
centímetros da minha mão direita. Lembra-se?
— Conheço-a
perfeitamente. O que devo fazer? Vamos depressa, que não estou
agüentando mais.
A
cintilação esverdeada já estava atingindo também os três homens.
Primeiro sentia-se dor. A seguir, esta dava lugar a uma
insensibilidade total, começando pelas pernas. Assim Rhodan notou
que, instantes depois, seu corpo ia ficando rígido e insensível.
Tocou no braço esquerdo e constatou que os tecidos endureciam cada
vez mais. Começavam ficando como cartilagem, para terminarem
consistentes como vidro.
Apesar de
tudo, podia pensar, ver e ouvir com clareza. Depois que não podia
movimentar a boca e a língua se transformara num pedaço de chumbo,
seu pensamento mais se aguçou:
— Gucky,
você tem que se obrigar afazer um salto. Tem de conseguir. É
totalmente indiferente que você se desmaterialize neste estado ou em
condições normais de saúde. O processo é o mesmo, em qualquer
hipótese.
Os
sentidos de Rhodan captaram um indistinto lamento, e o administrador
insistiu nos seus apelos a Gucky:
— Gucky,
você tem que conseguir. Imagine bem claramente a alavanca, sua
posição exata e se lembre de que ela se move de cima para baixo.
Sobressai horizontalmente do conjunto de interruptores. Quando você
se rematerializar a um pouco mais de meio metro da alavanca, talvez
nela resvale, arriando-a. Será que você não consegue?
— Vou
tentar, chefe. Não me perturbe mais; preciso de todas as forças
para me concentrar.
Rhodan
quedou esgotado. Em toda nave não se percebia um sinal de vida.
Apenas as máquinas funcionavam.
*
* *
Auris de
Las-Toor não tirava seus olhos assustados das telas de sua central.
Sabia o que se passava dentro daquela nave estrangeira, já agora
completamente envolta pelo campo de irradiação. Ouvia pelo mesmo
videofone as instruções que eram transmitidas. Um pelotão de robôs
já estava em marcha para a Fantasy. Estes monstros de aço receberam
a instrução de colocar os terranos entorpecidos nos flutuadores, e
aguardar ordens posteriores.
Auris não
podia deixar de pensar no homem esbelto, de olhar fascinante e
irônico. Pensava, neste momento, que devia tê-lo avisado do que
aconteceria. Não podia explicar o que a atraía para o estranho, mas
tinha um pressentimento de que seu destino estava concatenado com o
dele. Não podia ser um selvagem e mesmo a curiosidade do estranho
lhe parecia natural.
Quando
alguns membros do Conselho Regente passaram triunfantes por ela,
procurou ficar de lado. Lá fora os robôs pareciam uma muralha de
aço em movimento ritmado.
*
* *
Gucky
conseguiu se aprumar um pouco. Concentrou seus pensamentos na
alavanca descrita por Rhodan, fazendo dela uma representação cada
vez mais viva. Depois de ter bem nítido na mente o quadro dos
controles manuais, saltou...
O pequeno
corpo, coberto de um pêlo marrom-avermelhado, desapareceu da
poltrona giratória, para no mesmo momento materializar-se em cima do
quadro de controles.
Gucky não
pôde ver onde estava. Sabia apenas que agora iria escorregar quase
um metro até bater na chapa de aço do chão. Ao cair, seu corpo
Amortecido, isto é, totalmente insensibilizado, passou raspando pelo
revestimento da prateleira. Não sentiu nada da queda, que
normalmente lhe devia causar muita dor. Antes de cair sobre a chapa,
seu corpo raspou na alavanca. E foi o bastante!
Gucky não
ouviu mais o ronco cavernoso das turbinas, pois desmaiara de novo.
O
computador passou a trabalhar com a maior precisão, seguindo a
programação que lhe fora feita, fazendo com que o cruzador
decolasse com a velocidade de vinte quilômetros por segundo e depois
de atingir o espaço livre passasse para maior aceleração.
Os
impulsos da sincronização automática se irradiaram em fração de
segundo. Os aparelhos de absorção de pressão começaram a zunir e
os campos antigravitacionais livraram a Fantasy da atração do
grande quinto planeta. Das turbinas do rebordo central saíam línguas
de fogo e os robôs, que naquele momento se aproximavam, foram
atingidos por elas e reduzidos a pó. Com um bramido descomunal, o
cruzador deu um salto no ar e iniciou sua rápida ascensão.
Já estava
livre da zona de influência da cintilação esverdeada e mal
decorridos quatro segundos havia ultrapassado a camada de ar que
envolvia o planeta, atirando-se para o espaço.
Um raio
energético, grosso e arrasador, procurou atingir a Fantasy,
passando, porém, a quase um quilômetro da nave. A aceleração
automática atingia agora o máximo.
Antes que,
lá embaixo, os acônidas pudessem compreender o que acontecera, a
nave dos terranos desaparecera. As máquinas roncavam a toda e tudo
estava em ordem, apenas os homens não era capazes de mover um
dedo...
*
* *
A
automática deu o alarme. O impulso para injeção de combustível
adicional achava-se em sobrecarga e o piloto automático não estava
programado para cumprir tal tarefa.
Rhodan
ouviu o ruído do alarme. Aos poucos, seus membros foram recuperando
a agilidade motora. Antes de poder entender claramente o que se
passava, sentindo ainda dores agudas, soou de repente uma voz
profunda e forte:
— Comandante
falando para todos. Já estou de novo na central. Tenham um pouco de
paciência, o entorpecimento já vai passar. Eu também não estou
cem por cento. Vou usar o comando manual, e ativar o sistema
kalupiano.
Com a
sensação de um grande alívio, que o ajudou a se desfazer das dores
do desentorpecimento, Rhodan ouviu o ronco do compensador. Claudrin
era mesmo um homem insubstituível. Seu corpo ciclópico conseguira
romper mais rápido que os demais o entorpecimento. E, antes que os
outros homens se pudessem mexer, o Major Jefe Claudrin já havia
ligado o vôo linear.
“Salvos”,
pensou Rhodan visivelmente mais contente.
Logo
depois captou um impulso telepático de Marshall:
— Ninguém
mais nos pode alcançar, sir. Para onde que Claudrin nos está
levando?
— Isto
não tem importância, pode ir para qualquer lugar, contanto que
fujamos daqui deste quinto planeta. Estes acônidas não nos foram
muito simpáticos, não é?
John não
respondeu mais. Alguns minutos depois, Rhodan já podia
movimentar-se. Cambaleando um pouco, foi para o elevador
antigravitacional, onde se encontrou com outros membros da
tripulação. Quando penetrou, ainda com dores, na central de
comando, o homem nascido em Epsal achava-se sentado calmamente em sua
poltrona feita sob medida.
Enquanto
conversava, não desviou a cabeça das telas dos rastreadores. O sol
amarelo surgiu na tela maior.
— Cuidado!
Aí vem o solavanco!
Sem estar
apoiado em nada, Rhodan caiu, quando a Fantasy penetrou no misterioso
envoltório de proteção do sistema Azul, perdendo boa parte de sua
velocidade. O interior da nave escureceu, apenas as luzes dos painéis
piscavam.
Segundos
depois, um setor após o outro, foi se manifestando. Apareceu o Dr.
Gorl Nkolate. Sem dizer nada, auscultou o corpo adormecido de Gucky,
para colocá-lo depois numa cama.
— Ele o
conseguiu, não foi?
Rhodan fez
que sim com a cabeça.
— Ponha-o
novamente de pé, doutor.
Sem ele,
estaríamos perdidos. Claudrin, para que tanta velocidade? Por
enquanto basta que consigamos escapar dos acônidas.
Depois
voltou novamente o silêncio sobre a Fantasy, que voava com uma
velocidade milhões de vezes superior à da luz, rumo a um sol que
Claudrin escolhera ao acaso.
— Já
havia pensado que não deixaríamos de encontrar dificuldades —
disse Bell, que chegara naquele momento à sua poltrona.
Seu rosto
dava mostras de preocupação.
Rhodan lhe
ficou devendo a resposta. Estava pensando na jovem Auris e na
exortação que fizera e que acabou se realizando. No fundo, ela
queria ajudar os terranos e só isto era o que importava.
A Operação
Estrela do Destino havia terminado. Tratava-se agora de saber o que
esta casual descoberta do sistema Azul iria representar para o futuro
da Humanidade.
“Haveremos
de dar conta do recado”,
pensava Rhodan. “Ninguém
pode duvidar disso.”
Agora, a
Fantasy disparava pelas regiões do semi-espaço. Nem o misterioso
sistema Azul conseguira detê-la.
*
* *
*
*
*
A
Estrela do Destino foi o pórtico de entrada para uma nova época da
cosmonáutica. Mas cada conquista nova tem sempre um preço.
Em O
Globetrotter das Estrelas,
próximo livro da série, tal preço será cobrado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário