Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Os
antepassados foram postos a dormir há dez mil anos —
agora
precisa-se deles para reconstruir o grande império.
Com o
descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram
lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade
terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém
podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de
ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este
Império frente aos ataques internos e externos.
A mais
séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos
druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada
graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna,
provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por
Gucky.
Porém,
um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando
houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver
ainda um longo caminho...
O
próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a
gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro,
com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra
o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan,
agora com o nome de Imperador Gonozal VIII e Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, já por simples instinto de
conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não
faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre
Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar
estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da
Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Atlan
sabe que mais dia, menos dia, Árcon poderá desaparecer, se não
conseguir agrupar um bom número de homens não degenerados...
Será
que os “adormecidos”, descobertos por Gucky nos confins da Via
Láctea, poderão transformar-se em auxiliares de Atlan? Ou serão
esses possíveis auxiliares devorados pelo anão chamejante?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
Bell
e Gucky
— Que passam as férias juntos, nas proximidades de Terrânia.
Wilmar
Lund
— Comandante da Arctic.
D-3,
M-4,
M-7,
C-l
e O-1
— Que fazem uma transição.
Ceshal,
Ekral,
Alos
e Tunuter
— Os antepassados que despertam.
1
A
comunicação entre o universo einsteiniano e a dimensão temporal
dos druufs ainda existia. Porém, a cada dia, a zona de descarga
tornava-se pior. Pelo que se sabia, a “fenda”
constituía a única passagem natural para o império da raça
agressiva dos druufs, mas não continuaria sendo por muito tempo. Era
cada vez mais raro as espaçonaves daquela raça estranha
atravessarem o funil ou zona de descarga, nome que os cientistas
terranos davam à fenda. Ao chegarem lá, defrontavam-se com as
forças do Império Solar, que patrulhavam a área, e as unidades de
Árcon, que ali desempenhavam sua missão de vigilância.
Como já
se disse, era cada vez mais raro que os druufs aparecessem.
Entretanto, quando o faziam, avançavam com um arrojo e uma
obstinação sempre crescente. Sabiam que, dentro em breve, se
fecharia para eles a porta aos imensos tesouros do universo normal
dos homens, e que, depois disso, voltariam a ser prisioneiros de sua
dimensão temporal, até que o acaso fizesse surgir um funil de
descarga em outro ponto. Permaneceriam numa dimensão em que o tempo
fluiria 72 mil vezes mais devagar que no universo einsteiniano.
Nesses
últimos dias e semanas aconteceram coisas estranhas.
De
qualquer maneira, o relatório apresentado pelo Tenente Grenoble dava
o que pensar.
Grenoble
era comandante de uma gazela que realizava vôos de patrulhamento na
periferia do funil de descarga. O veículo de reconhecimento de longa
distância mantinha contato permanente com a nave-mãe. Esta
pertencia a uma poderosa esquadrilha de guerra da Frota Espacial
Solar.
O Tenente
Grenoble estava sentado ao lado do piloto, na sala de comando do
disco, cujo diâmetro era pouco superior a trinta metros. Tinha à
sua frente os controles e não tirava os olhos da tela.
— O que
acha, sargento Raft?
O sargento
Raft era de estatura mediana e chamava a atenção pelo nariz adunco,
que lhe rendera o apelido de índio. Vez por outra chegava mesmo a
afirmar que um dos seus antepassados fora cacique dos apaches. Mas
não era por isso que costumava ser designado para missões nas quais
o “faro”
desempenhava um papel essencial.
— Com
este silêncio fico meio desconfiado — respondeu e corrigiu a rota
do veículo espacial, fazendo-o chegar mais perto do funil de
descarga. — Se nossos instrumentos estiverem funcionando bem, posso
afirmar que a fenda ainda tem dez quilômetros de largura. Se quiser
saber minha opinião, tenente, acho que a situação não oferece
esperanças para os druufs.
— Quanto
mais desesperada a situação deles, mais arrojadas se tornam suas
ações. Gostaria de saber o que vêm fazer em nosso Universo, se não
conseguirão sair daqui. Até parece que procuram alguma coisa que
receiam perder, quando a fenda se fechar completamente.
Raft fez
um gesto de assentimento.
— É
exatamente o que penso. Mas o que estariam procurando?
O Tenente
Grenoble não soube responder.
Os dois
homens voltaram a ficar em silêncio e passaram a dedicar mais
atenção às telas. No lugar em que se encontravam, a mais de seis
mil anos-luz da Terra e num ponto mais próximo ao centro da Via
Láctea, as estrelas eram mais numerosas e ficavam mais próximas
umas às outras. Estranhas constelações destacavam-se contra o
fundo escuro do nada e emitiam um brilho extraordinariamente forte.
Em especial, uma estrela branco-azulada, que ficava à direita da sua
trajetória. Seu fogo ardia tranqüila e constantemente. Apesar da
frieza aparente, tinha-se a impressão de que aquele sol era quente e
chamejante.
Nem
Grenoble nem Raft desconfiavam de que aquele sol azul ainda
desempenharia um papel muito importante, inclusive para os dois. E
mais especialmente para os druufs.
Mas, antes
disso, aconteceu uma coisa bem diferente.
Na
verdade, era impossível que um corpo metálico se mantivesse oculto
nas proximidades de um instrumento de observação do tipo dos que se
encontravam em qualquer nave. Com o avanço da técnica, esses
aparelhos foram aperfeiçoados, fosse qual fosse a raça que os tinha
criado. Por isso os dois homens, que se encontravam na sala de
comando da gazela, não compreenderam por que a frota dos druufs, que
avançou subitamente para seu Universo, não tomou conhecimento de
sua presença.
Eram cerca
de dez naves compridas e cilíndricas que atravessaram a fenda e,
deslocando-se à metade da velocidade da luz, seguiam diretamente em
direção ao sol azul.
Raft
contemplou-as boquiaberto, incapaz de fazer qualquer coisa. Já o
Tenente Grenoble teria feito algo, se fosse necessário.
As dez
naves começaram a aumentar a velocidade e acabaram desaparecendo em
meio à confusão de estrelas.
Grenoble
esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando mais cinco naves
surgiram na fenda. Nesse meio tempo, Raft também recuperara o
autocontrole a ponto de conseguir dominar seus atos. Colocou as mãos
robustas sobre os controles, a fim de poder atirar a gazela para o
hiperespaço de um segundo para o outro. Ali estaria em segurança. A
pequena nave de reconhecimento não estaria em condições de
enfrentar um cruzador dos druufs.
Mas ainda
não havia necessidade de saltar para o hiperespaço.
Uma coisa
estranha aconteceu com as cinco naves.
Pararam
abruptamente e mantiveram-se imóveis. A imagem das telas dava a
impressão de um filme que deixara de correr de repente,
transformando-se numa simples fotografia. Depois disso, seus
contornos se desmancharam, transformando-se em sombras apagadas,
cujas silhuetas mal se destacavam contra as estrelas que ficavam
atrás delas.
Depois de
algum tempo, as estrelas brilharam através das naves.
Por fim,
as cinco se tornaram invisíveis.
Grenoble
respirava pesadamente e contemplava a tela frontal, na qual não se
via nada além do espaço vazio. As mãos de Raft soltaram os
controles. Virou a cabeça e fitou o comandante com uma expressão de
perplexidade.
— O
que... o que aconteceu? — perguntou muito confuso. — Será que
descobriram um meio de se tornarem invisíveis?
O tenente
sacudiu lentamente a cabeça.
— Não
acredito. Se não me engano muito, o desaparecimento não estava
previsto e foi completamente involuntário. Por que iriam parar?
Tenho uma suspeita, mas é fantástica demais para ser verdadeira.
— Fale,
sir — disse Raft em tom insistente. — Será que pode haver alguma
coisa que seja mais fantástica que a realidade?
Grenoble
acenou com a cabeça e voltou a fitar a tela, como se esperasse que
as cinco naves voltassem de um instante para outro.
— É o
funil de descarga, Raft. A abertura fechou no momento exato em que as
cinco naves passavam pela mesma. As naves foram empurradas de volta
para o universo dos druufs, ou atiradas para um espaço que nos é
totalmente desconhecido. Talvez nunca mais consigam voltar e estejam
perdidas. Olhe para o instrumento de observação, Raft. Ele já não
mostra o funil de descarga.
Raft
examinou os instrumentos e fez um gesto de assentimento.
— Tenho
a impressão de que sua suposição é correta, sir. Por aqui não
existe mais nenhuma fenda. Mas... — apontou para o sol azul — o
que aconteceu com as dez naves que conseguiram atravessar a área?
Será que encontrarão o caminho de volta para sua dimensão
temporal? O que querem em nosso Universo? Por que não procuram
destruir nossa gazela? Ou será que aconteceu um milagre e não nos
localizaram?
— Eles
nos localizaram — disse Grenoble. — Acontece que não tiveram
tempo para se preocupar conosco. Ao que tudo indica, têm uma missão
a cumprir. E, se não me engano, esta missão deve ser executada nas
proximidades da estrela azul.
Olhou para
Raft.
— Tome a
rota da unidade e salte dentro de trinta segundos. Tenho a impressão
de que Perry Rhodan estará muito interessado nas informações que
temos para ele.
Neste
ponto, o Tenente Grenoble não estava enganado e, talvez, nem mesmo
no resto.
*
* *
A Drusus
era uma gigantesca esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro.
Pertencia à classe Império e era um couraçado espacial do Império
Solar. Geralmente, tinha por comandante o Coronel Baldur Sikermann,
mas sempre que Perry Rhodan se encontrava a bordo, o coronel passava
a exercer automaticamente as funções de primeiro-oficial.
Em
comparação com a gazela, a sala de comando da Drusus era um
gigantesco compartimento semicircular, recheado com uma quantidade
atordoante de painéis de controle e instrumentos, entre os quais só
as pessoas familiarizadas sabiam orientar-se. Para compreender
perfeitamente os segredos da Drusus, tornava-se necessário não só
um estudo minucioso, mas também um treinamento hipnótico especial.
David
Stern, chefe da equipe de rádio, leu a mensagem do Tenente Grenoble
em voz alta e perguntou:
— O que
devo responder, sir?
Perry
Rhodan encontrava-se ao lado do Coronel Sikermann, à frente da tela
oval de visão global. Comparava a parte da Via Láctea avistada com
um mapa estelar, aberto sobre a estreita mesa encostada à parede.
Olhou para
Stern.
— Quero
que Grenoble traga a gazela para dentro do hangar da Drusus e se
apresente a mim.
Stern fez
continência e dirigiu-se à sala de rádio, a fim de cumprir as
ordens de Rhodan. O Coronel Sikermann mostrava-se um tanto cético.
Em comparação com sua estatura baixa e musculosa, Rhodan quase
chegava a parecer esguio.
— O
senhor acha que as observações feitas por Grenoble têm alguma
importância, sir?
— Dificilmente
existe alguma coisa que não tenha nenhuma importância — respondeu
Rhodan com um leve sorriso. — Nesta guerra contra os druufs,
qualquer observação, por mais insignificante que possa parecer,
talvez assuma a maior importância. A estrela azul parece ser uma
espécie de agouro. O que será que os druufs querem por lá?
— Quem
nos garante que as dez naves realmente pretendam ir à estrela azul?
— Conhecemos
os druufs e os métodos que costumam usar. Quando se dirigem a algum
objetivo nunca mudam de rota para enganar o inimigo. É o que nos diz
a experiência. Portanto, temos certeza de que vão à estrela azul.
Lançou um
olhar para o mapa estelar.
— Trata-se
de um sol muito quente, que fica a menos de três meses-luz daqui e
possui três planetas. São inabitados, mas habitáveis. Os druufs
também respiram o oxigênio. Bem...
— Os
três planetas são habitáveis? — perguntou Sikermann em tom de
perplexidade.
Rhodan
sorriu.
— É
claro que não; apenas o terceiro planeta, o exterior. Tem o tamanho
de nosso Marte. Nele há muitas montanhas e desertos e pouca água. É
muito quente. Acho que vamos dar uma olhada por lá. É possível que
o catálogo estelar, que nos foi legado pelos arcônidas e pelos
saltadores, não esteja atualizado. Providencie tudo que se torna
necessário, assim que Grenoble se encontrar a bordo. Avise as outras
unidades.
Rhodan fez
um sinal para Sikermann e afastou-se. Ao chegar à porta virou-se e
disse:
— Estarei
no meu camarote. Assim que Grenoble se apresentar ao senhor, mande-o
procurar-me.
O Coronel
Sikermann ficou na sala de comando. Tinha uma vaga sensação de não
ter compreendido perfeitamente o raciocínio de Rhodan.
*
* *
A gazela
pousou no interior do hangar da Drusus. O Tenente Grenoble e o
sargento Raft foram conduzidos à presença de Rhodan e apresentaram
seu relatório. O que mais despertou o interesse de Rhodan foram as
cinco naves desaparecidas. Porém Perry também não encontrou
qualquer explicação cabal para o fenômeno. Depois de algum tempo
convocaram o Coronel Sikermann.
— O mais
importante não é localizar e expulsar as dez naves dos druufs —
disse Rhodan. — Devemos raciocinar em termos táticos. De certa
maneira os seres-toco representam um meio para nós atingirmos certo
fim. Queremos provar aos povos auxiliares que não estamos dispostos
a permitir que qualquer intruso escape sem ser molestado. Atlan tem
problemas de sobra no Império. Podemos ajudá-lo, desde que provemos
ser um aliado forte e decidido. Acho que o senhor compreende o que
quero dizer, Sikermann, não compreende?
— O
senhor quer atacar os druufs apenas para dar uma prova de força aos
nossos aliados?
— É
mais ou menos isso — confirmou Rhodan com um sorriso. — Uma lição
desse tipo não fará nenhum mal aos saltadores, isto sem falar nos
aras. Iremos com a Drusus aos três planetas do sol azul e os
revistaremos. Se encontrarmos os druufs por lá, nós os atacaremos e
destruiremos.
— Vamos
destruí-los, sir?
— Isso
mesmo. Não se esqueça de que eles não fazem prisioneiros e
pretendem conquistar nosso Universo. Será um ato de legítima
defesa. Além disso é possível que as dez naves estejam tripuladas
por robôs. O senhor sabe perfeitamente, Sikermann, que os druufs
gostam de usar robôs, em missões perigosas. Será que isto basta
para aliviar sua consciência?
— Sem
dúvida — respondeu Sikermann em tom de alívio. Chegou mesmo a
sorrir. — Quer que avise a frota? Quem nos acompanhará?
— Iremos
sós. No entanto, informe as outras unidades sobre nossas intenções.
Pelo que conheço dos saltadores, eles enviarão um observador
secreto, e não devemos decepcioná-lo. Partiremos dentro de trinta
minutos.
Depois que
Sikermann se tinha retirado, Rhodan prosseguiu:
— Tenente
Grenoble, o senhor permanecerá a bordo da Drusus com sua gazela.
Nos trinta
minutos que se seguiram, as mensagens de rádio se cruzavam.
Sikermann avisou os outros comandantes da frota sobre a missão que
pretendiam levar a efeito e recomendou-lhes que continuassem a manter
sob observação o funil de descarga. Devia-se contar com a
possibilidade de que outras unidades dos druufs tentassem avançar.
Se isso acontecesse, deveriam ser rechaçadas com todos os meios ou,
caso resistissem, serem destruídas.
Tanto os
comandantes terranos como os arcônidas confirmaram o recebimento da
ordem. Apesar de todas as divergências, havia um acordo perfeito em
relação aos druufs. Aqueles seres de três metros de altura, vindos
de outra dimensão temporal, eram tão estranhos que nunca poderiam
ser bons aliados. Por sua própria natureza, eram inimigos comuns que
deviam ser combatidos. Assim que a fenda no espaço se fechasse e a
barreira intransponível do tempo separasse os dois universos,
podia-se voltar a pensar em si mesmo e nos problemas de cada um.
Mas, por
enquanto, o tempo para isso ainda não havia chegado.
Pouco
antes da Drusus, depois de acelerar, dirigir-se ao hiperespaço, as
suposições de Rhodan se confirmaram. Dois cruzadores esguios
seguiram-na. Ao observar o fato, um sorriso de satisfação surgiu no
rosto de Rhodan. Sabia que, com seus instrumentos, os saltadores não
teriam a menor dificuldade em localizar e calcular o salto da Drusus.
Sairiam do hiperespaço e se materializariam perto da estrela azul,
menos de dois minutos depois da Drusus.
A
transição e a desmaterialização.
A
rematerialização.
A menos de
dez minutos-luz da estrela azul, a Drusus surgiu do nada e,
desacelerando fortemente, deslocava-se a grande velocidade em direção
ao sol chamejante. Os cálculos eletrônicos começaram a ser
realizados automaticamente, abrangendo a estrela central e os três
planetas. Os dados foram expelidos sob a forma de estreitas faixas de
plástico. Os oficiais do setor de navegação os examinaram. As
informações constantes do catálogo estelar foram confirmadas.
— É
apenas o terceiro planeta, conforme se supunha, sir. Tem o tamanho de
Marte e as condições são semelhantes, apenas é mais quente. Não
é habitado. A atmosfera só é respirável em determinadas áreas.
Não há vegetação, com exceção de musgos e cogumelos primitivos.
Pouca água. Bastante montanhoso.
Rhodan
ouvira atentamente. Olhava ininterruptamente para a tela, na qual o
sol azul ia crescendo. O terceiro planeta foi penetrando no campo de
visão. O círculo pálido de sua atmosfera brilhava como uma auréola
de santo.
A três
minutos-luz atrás da Drusus, duas transições abalaram a estrutura
espacial. Os observadores secretos haviam chegado ao seu posto.
Rhodan fez um gesto zangado.
— Vamos
desacelerar mais e circular em torno do terceiro planeta, Sikermann.
Procure localizar os druufs.
— Tomara
que sua teoria seja correta, sir...
— Acha
que os seres da outra dimensão não estão aqui? — Rhodan sacudiu
a cabeça. — Isso me deixaria muito admirado. É possível que
pretendam construir uma base em nosso sistema, tal qual nós fizemos
no sistema deles. Infelizmente perdemos Hades.
O planeta
foi crescendo. Já se distinguiam certos detalhes. Na tela de popa
viam-se dois minúsculos pontos luminosos: eram as duas naves dos
saltadores ou dos aras. Só faltavam os druufs.
O sol azul
era muito quente. Seus raios provocavam estranhos efeitos luminosos
na superfície do pequeno planeta. Felizmente a atmosfera rarefeita
absorvia a maior parte da luz azul, deixando passar a branca.
A Drusus
atravessou as camadas superiores da atmosfera, desenvolvendo apenas
alguns quilômetros por segundo. Os instrumentos de observação
atingiram todos os cantos da superfície. Nos grandes desertos, a
busca era fácil, já que por lá não havia nenhum esconderijo. Mas
nas extensas cadeias de montanhas o trabalho era bem mais difícil.
Os vales e desfiladeiros profundos ofereciam esconderijos de cuja
existência ninguém desconfiaria. Neles poderiam ser escondidas
frotas inteiras, de tal forma que não seriam encontradas
rapidamente. Os raios dos instrumentos de busca só avançavam em
linha reta. Recorreu-se aos refletores de metais, capazes de
localizar quaisquer objetos metálicos bem abaixo da superfície. Era
bem verdade que os mesmos também acusariam a presença de depósitos
de minério de elevado teor metálico. No entanto, o formato destes
permitiria que se percebesse do que realmente se tratava.
O Tenente
Grenoble encontrava-se nos fundos da sala de comando, ao lado do
sargento Raft. A consciência começava a acusá-lo.
— Talvez
nossa suposição não seja correta — disse em voz tão baixa que
só Raft podia ouvi-lo. — É possível que os druufs tenham
modificado a rota e nem venham para cá.
— De
qualquer maneira, éramos obrigados a transmitir nossa observação —
disse Raft a título de consolo. — Se o chefe acredita que a mesma
assume tamanha importância, isso é com ele. Quanto a mim...
Rhodan
virou a cabeça e sorriu.
— Os
senhores se preocupam em vão. Se tivessem sonegado uma informação
tão importante, eu os mandaria prender. Posso garantir-lhes que a
esta hora já estou completamente satisfeito. A certeza de que os
saltadores se grudaram aos nossos calcanhares basta para compensar
nossa excursão...
— Naves
dos druufs à frente! — interrompeu o Coronel Sikermann.
Rhodan
virou-se para a tela; parecia alarmado.
A Drusus
desenvolvia apenas dois quilômetros por segundo e havia descido
mais. Uma cadeia de montanha fortemente entrecortada passava por
eles, baixando para uma planície. E nessa planície, a menos de
vinte quilômetros da cadeia de montanhas, as dez naves procuradas
estavam paradas uma ao lado da outra.
Rhodan
sentiu-se constrangido em atacar os druufs sem aviso, embora fosse
fácil destruir ao menos a metade das naves na primeira investida.
Foi por
isso que a Drusus passou a pequena altura sobre as dez unidades e
voltou numa curva ampla, depois de ter ativado os campos defensivos,
uma medida que se revelou muito necessária.
Três das
naves dos druufs decolaram e subiram vertiginosamente ao céu
azul-escuro do planeta. As outras sete naves abriram um mortífero
fogo energético contra o couraçado terrano, mas não conseguiram
romper os campos defensivos da mesma. Quase ao mesmo tempo Rhodan foi
atacado pelas três naves que haviam decolado, e que agora investiram
de cima. Um dos torpedos passou ao lado da Drusus e foi cair bem em
meio às sete naves estacionadas. A chama da explosão fez com que
Rhodan fechasse os olhos. Quando voltou a abri-los, só restavam
quatro naves, mas seus canhões silenciaram. Dois torpedos detonaram
nos campos defensivos e suas explosões não produziram o menor
efeito.
— Atacar!
— ordenou Rhodan.
Os dois
pontos luminosos só apareciam vagamente na tela de popa.
Sob o
impacto do fogo da Drusus, as quatro naves dos druufs que ainda
restavam transformaram-se em nuvens de gases incandescentes. Era de
supor que só havia robôs a bordo, pois do contrário teriam
decolado juntamente com as outras três...
As outras
três...
Estas se
preparavam para novo ataque, e a maneira como o fizeram constituía
prova evidente de que os controles estavam sendo manipulados por
seres pensantes. Mas Rhodan não tinha a intenção de considerar
esse fato por ocasião do contragolpe que pretendia desfechar. Queria
dar uma mostra de força, pois tanto os druufs como os saltadores só
se impressionavam com a violência.
— Atacar!
— repetiu num espaço de poucos segundos.
Grenoble e
Raft testemunharam um acontecimento que até então só poderiam
imaginar em sonho. Cheios de admiração viram o chefe Perry Rhodan
manipular os controles ao lado do Coronel Sikermann e dar suas
ordens.
O olhar do
administrador tinha algo de extraordinário, mas de resto seu rosto
não traía a menor comoção. No entanto, Rhodan acabara de
pronunciar a sentença de morte de algumas centenas de druufs. Não o
faria sem motivo, porque costumava poupar o inimigo sempre que isso
se tornasse possível. Só os matava para salvar a vida de outros
seres.
A Drusus
mudou de rota e subiu ao céu numa velocidade tresloucada. Seguiu na
direção dos druufs que se mantinham na expectativa e que ainda não
se haviam recuperado da surpresa. Não deixaram que se escoasse em
vão o prazo muito curto de que dispunham para a fuga. Pelo
contrário. Atacaram a Drusus com desprezo pela própria vida.
Duas das
naves precipitaram-se exatamente para dentro do fogo destrutivo do
couraçado espacial e desceram à superfície do planeta, totalmente
desgovernadas. Antes que fosse tarde, a terceira nave mudou de rumo e
acelerou. Rhodan ficou satisfeito ao constatar que seguia na direção
dos dois minúsculos pontos de luz que se destacavam em meio às
estrelas.
— Vamos
persegui-la, mas não destruí-la — disse, dirigindo-se a
Sikermann.
Os dois
observadores — que eram saltadores ou aras — deviam ter percebido
em tempo o perigo que os ameaçava, pois de um instante para outro os
pontinhos luminosos desapareceram. Os rastreadores estruturais da
Drusus registraram dois hiper-saltos de pequena intensidade.
Um sorriso
contrariado surgiu no rosto de Rhodan.
— Não
temos motivo para destruir esses druufs — disse, dirigindo-se a
Sikermann. — Quero que eles voltem ao seu Universo e contem aos
seres de sua raça que eliminamos qualquer intruso que penetre em
nosso Universo. É possível que com isso compreendam que será
inútil tentar construir uma base em nosso mundo.
— Os
druufs estão mudando de rota — disse Sikermann sem a menor
comoção.
Rhodan fez
um gesto de assentimento.
— Estão
seguindo na direção do funil de descarga. Muito bem, coronel.
Prepare a Drusus para o salto. Vamos voltar.
— Será
que não deveríamos examinar as naves destruídas?
— Por
quê?
— É
possível que encontremos alguma indicação. Talvez não sejam as
primeiras. É possível que já tenham uma base.
— Isso é
pouco provável, coronel. Mas se o senhor achar...
As buscas
não deram o menor resultado. Sete naves haviam sido destruídas a
ponto de se tornarem irreconhecíveis e não permitiam qualquer
conclusão sobre sua tripulação ou a missão que deveriam
desempenhar. Além disso, Rhodan não encontrou a menor indicação
de que, antes delas, outras naves dos invasores tivessem pousado no
planeta.
De
qualquer maneira sentia-se satisfeito por não ter negligenciado
nada. Ordenou a Sikermann que voltasse para junto do funil de
descarga.
Sabia que
os comandantes dos saltadores já estavam informados.
*
* *
No momento
em que o Tenente Grenoble e o sargento Raft haviam saído com sua
gazela pela comporta da Drusus, a fim de voltar à sua nave-mãe,
chegou a mensagem de hiper-rádio vinda de Árcon.
As
instalações de hiper-rádio ficavam ao lado da sala de rádio
propriamente dita da Drusus, e eram controladas pelo pessoal de
plantão. O Tenente Stern acabara de ser revezado. Foi por isso que o
cadete Hans-Otto Fabian entrou correndo na sala de comando, dando
mostras de uma tremenda exaltação.
— Temos
um contato com Árcon, sir.
Rhodan,
que estava conversando com Sikermann, perguntou em tom de surpresa:
— Com
Árcon?! É o imperador em pessoa?
— Sim
senhor. Gonozal VIII deseja falar com o senhor.
Rhodan
deixou Sikermann a sós e, passando por Fabian, atravessou a sala de
rádio e parou junto à hipertela oval, de onde o rosto marcante de
Atlan o contemplava.
Atlan, o
arcônida imortal, seguia a tradição e chamava-se de Gonozal VIII,
depois que assumira o governo do Império, em substituição ao
grande computador de Árcon. Ao ver Rhodan, um sorriso fugaz passou
por seu rosto severo.
— Olá,
bárbaro! Espero não estar incomodando.
Rhodan
sorriu e sentou-se. Sabia que Atlan o via, a mais de trinta mil
anos-luz de distância. Aquilo que há cem anos ainda seria
considerado como fantasia sem nexo de um utopista, hoje era um
acontecimento corriqueiro. As comunicações de rádio se
estabeleciam a dezenas de milhares de anos-luz, sem perda de um
segundo.
— Você
nunca é inoportuno, imperador — respondeu Rhodan com ligeira
ironia na voz. — De qualquer maneira, suponho que deve haver algum
motivo, que o faça desejar falar comigo. O carro pegou fogo?
— Não
sei se já pegou fogo, Perry, mas ao menos está soltando fumaça.
— São
os povos do Império Arcônida?
— Exatamente.
Desde o momento em que tomei o lugar do grande computador, as
rebeliões começaram a surgir. Todos temiam o rigor implacável do
robô e obedeciam. Acontece que atualmente o governo é exercido por
um arcônida dotado de sentimentos humanos. E certas inteligências
pretendem tirar proveito desta circunstância. Sem dúvida tenho
tanto poder quanto o computador, mas sinto certos escrúpulos... e
todos sabem disso.
— Em
outras palavras, com você acontece a mesma coisa que comigo. Há
pouco vi-me obrigado a fazer uma demonstração impressionante de
força contra os druufs, para mostrar aos nossos amigos, os
saltadores, que os terranos são muito fortes e decididos. O que é
que você pretende fazer? Quer que transforme um planeta numa
fogueira energética?
— Não
faça drama, Perry — disse Atlan, abafando a irrupção de Perry. —
Isso poderá ser feito mais tarde, se não quiserem criar juízo. O
que me falta são colaboradores capazes, arcônidas competentes. Não
preciso de covardes e idiotas degenerados, pois destes tenho de sobra
em Árcon. Concordo plenamente com você, bárbaro: minha raça está
degenerada. Bastariam uns dez mil arcônidas da velha estirpe para
voltar a fazer do Império aquilo que já foi. Poderia ajudar-me a
conseguir isso?
— Não é
o que estou fazendo? — perguntou Rhodan.
Atlan fez
um gesto de assentimento e sorriu como quem pede desculpas.
— É
claro que você já está ajudando, amigo. Acontece que pensei em
outra possibilidade. Acabo de aludir aos arcônidas da velha estirpe,
que me faltam para dirigir o Império. Preciso de oficiais para
minhas naves, comandantes para minhas escolas militares, diretores
para as hipno-universidades, dirigentes para as fábricas e usinas
automáticas, instrutores para os exércitos de robôs e...
— Um
momento — interrompeu Rhodan, levantando as mãos num gesto de
defesa. — Quem o ouve falar assim pode ter a impressão de que você
pretende criar de uma hora para outra toda uma geração de arcônidas
ativos e competentes. Acontece que onde nada existe, nada se pode
buscar.
— Acontece
que existe — respondeu Atlan em tom insistente. — Será que sua
memória está tão fraca?
Por um
instante Rhodan sentiu-se perplexo. Não sabia a que Atlan estava
aludindo. Por isso a pergunta que fez foi sincera:
— O que
quer dizer?
— Você
realmente não sabe? Muito bem. Nesse caso lembrar-lhe-ei um pequeno
acontecimento que se verificou há oito ou nove meses terranos.
Naquela época, você era considerado morto, e eu ainda não havia
assumido as funções de imperador de Árcon. Foi em fins de 2.043.
Um cruzador ligeiro comandado por Wilmar Lund voltou à Terra,
trazendo Gucky. E este nos forneceu certas informações estranhas.
Já está lembrado?
— A nave
dos antepassados! — exclamou Rhodan em tom de surpresa.
Lembrou-se.
Então era a isso que Atlan estava aludindo.
— Perfeitamente.
— Estou
ouvindo — disse Rhodan em tom tranqüilo.
— Vamos
rememorar os fatos. Preciso de arcônidas da velha estirpe, para
reconstruir o império estelar. Se tiver sorte, talvez consiga
encontrar algumas centenas deles. Acontece que preciso de muito mais.
Alguns milhares. Pois bem: a nave dos antepassados. Durante um vôo
de patrulhamento, Gucky descobriu uma nave da classe Império que ia
à deriva. Essa nave tinha uma tripulação de milhares de pessoas.
Homens e mulheres. Assim que estes atingiam certa idade, os robôs os
colocavam à força num estado de hibernação a frio e os empilhavam
num compartimento especial da nave. O número exato dos arcônidas
conservados ao longo dos milênios não é conhecido. Pelas
indicações de Gucky, devem ser mais de cem mil. Perry Rhodan,
preciso desses cem mil arcônidas para a reconstrução do Império
Arcônida.
Então era
isso!
Rhodan
refletiu prolongadamente, lançou um olhar atento para Atlan e disse:
— Então
você quer que eu procure a nave e a leve para Árcon?
— Isso
mesmo. Será que estou pedindo demais?
— Não,
Atlan, claro que não. Acontece que, com isso, você está
modificando um plano dos seus antepassados. Será que você sabe qual
é a finalidade daquela nave?
— Não
sei qual era sua finalidade primitiva, mas sei perfeitamente qual é
a finalidade que ela pode e deve desempenhar hoje, Perry. A nave dos
antepassados, com sua preciosa carga é um presente dos deuses, como
se costuma dizer. A descoberta de Gucky representa uma indicação
que não podemos deixar de seguir. Neste exato momento estamos
precisando dos arcônidas adormecidos, a fim de salvar o Império.
Talvez não tenha sido por simples acaso que Gucky descobriu essa
nave.
— Acha
que foi uma espécie de ato providencial? — perguntou Rhodan em tom
reticente. — Talvez você tenha razão. Os dados relativos à nave
dos antepassados estão armazenados no computador positrônico do
cruzador ligeiro Arctic. O comandante Lund encontra-se em Vênus,
onde está fazendo um curso. Posso entrar em contato com ele.
Percebia-se
o alívio que estas palavras produziram em Atlan.
— Obrigado,
amigo. O perigo representado pelos druufs logo passará, mas novos
perigos surgirão. Por enquanto a presença dos druufs ainda mantém
unidos os povos do Império. Mas quando os seres-toco
desaparecerem...
Rhodan
sabia o que Atlan queria dizer. Talvez a nave dos antepassados fosse
a solução. O tempo diria.
— Cuide
para que o funil de descarga seja vigiado constantemente — pediu,
dirigindo-se a Atlan. — Por enquanto não retire nenhuma unidade de
lá. Talvez, dentro de algumas semanas, possamos pensar nisso.
— Desejo-lhe
muitas felicidades, no meu próprio interesse — respondeu Atlan. —
Há mais uma coisa que devo dizer-lhe. Tenho inimigos. Em toda parte
surgem forças misteriosas que me combatem. Não se consegue agarrar
o inimigo; até parece que é invisível ou possui forças mágicas.
Não posso explicar em poucas palavras, mas o fato é que eles
recorrem a todos os meios para abalar o poderio de Árcon. É
possível que isso já tenha acontecido antes do meu tempo; não sei.
Mas o inimigo deve ser de opinião que a situação atual é muito
favorável.
— O
inimigo? Você não o conhece? Será que são os saltadores?
— Não
posso garantir nada, Perry. Por enquanto não consegui pegar um único
desses misteriosos sabotadores. Trabalham no escuro e parecem ser a
prudência em pessoa. Mas deixemos disso por ora. Procure encontrar a
nave dos antepassados e a traga até aqui. Prepararei para você e
seus homens uma recepção que nunca nenhum mortal teve igual.
— Agora
você está fazendo drama! — constatou Rhodan com um sorriso e
estendeu a mão em direção à tela. — Dou-lhe minha palavra de
que procurarei a nave. Cuide dos druufs. Acredito que não terá mais
problemas com eles. Desejo-lhe muita sorte, Atlan.
Por alguns
segundos fitaram-se mutuamente. Depois a tela apagou-se. Cada um
desses homens extraordinários sabia que poderia confiar no outro,
acontecesse o que acontecesse.
Quando
Rhodan voltou à sala de comando e mandou que o radioperador Fabian
voltasse ao seu posto, seu rosto voltara a ficar sério. O Coronel
Sikermann notou.
— Más
notícias? — perguntou em tom cauteloso.
Rhodan
levantou a cabeça e fitou-o.
— Não;
não é bem isso. Ao menos as notícias não são más para nós.
Fez uma
ligeira pausa e lançou um olhar ligeiro para as telas coloridas.
— Fixe
as coordenadas do salto, coronel. Vamos voltar à Terra. Antes, quero
dar algumas instruções às unidades que permanecerão aqui. Quer
fazer o favor de tomar as providências necessárias?
O resto
foi rotina.
Dali a
duas horas, a Drusus iniciou a longa viagem à Terra.
Era uma
viagem longa, mas não demorada.
*
* *
Era de
tarde. Domingo de tarde.
Até mesmo
em Terrânia, capital do planeta Terra, costumava-se respeitar o
domingo. O complexo gigantesco daquela cidade, que em tão pouco
tempo se erguera para o céu, parecia morto. As ruas retilíneas
jaziam tranqüilas sob o sol escaldante da Ásia. O edifício da
administração era o único lugar em que se trabalhava. E o
espaçoporto, que ficava próximo do edifício-sede também nunca
ficava desguarnecido do pessoal necessário.
Aquela
área — antigamente tão árida — do deserto de Gobi fora
transformada em certos trechos em terras férteis. Especialmente nas
proximidades do pequeno lago salgado, onde ficavam os bangalôs dos
habitantes da cidade, não havia mais nada que lembrasse o deserto.
Quase todos possuíam um pequeno terreno com uma residência modesta,
onde passavam os fins de semana, só ou com a família. Naquela idade
em que a civilização atingira o máximo de sofisticação, o
retorno espontâneo à natureza primitiva parecia representar o
melhor descanso do cotidiano.
Mas mesmo
ali não se podia dispensar a tecnologia.
O bangalô
baixo ficava em lugar um tanto elevado, junto à superfície lisa do
lago salgado de Goshun. Uma antena alta provava que seu dono mantinha
contato com Terrânia pelo videofone e podia ser chamado a qualquer
momento.
E nem era
possível que Bell conseguisse descansar sem isso.
Reginald
Bell, o melhor amigo de Rhodan e seu representante, já se encontrava
há três dias em sua casa de fim de semana. Não precisava de criado
ou de empregada, pois os robôs cumpriam todos os seus desejos.
O vizinho
do lado direito de Bell era Mercant, que, no momento, não se
encontrava presente. Mas o vizinho da esquerda se achava em sua casa.
Os dois
terrenos eram separados apenas por uma cerca viva, não muito
espessa. Enquanto Bell preferia um gramado pouco cuidado, o vizinho
parecia ser amigo das flores e verduras. O bangalô surpreendia por
ser muito baixo e pequeno. Porém a varanda estava cercada por uma
faixa retangular de lindas tulipas, que brilhavam em cinco cores
diferentes e erguiam suas enormes corolas para o céu azul.
Abaixo da
varanda os canteiros de legumes bem traçados estendiam-se até a
praia. Qualquer conhecedor logo constataria que ali haviam sido
plantadas principalmente as daucus
carota vulgaris,
também conhecidas como cenouras.
E com
isso, qualquer pessoa que conhecesse Bell já não teria a menor
dúvida de quem era seu vizinho da direita.
Gucky, o
rato-castor!
O sujeito
pequenino, que tinha cerca de um metro de altura e pêlos cor de
ferrugem, estava deitado de costas em meio aos canteiros e piscava os
olhos para o sol. O largo rabo de castor servia para espantar as
moscas, que nem mesmo naquele mundo de robôs haviam sido
exterminadas. Os braços estavam cruzados sobre o peito. Gucky era a
imagem perfeita do jardineiro amador, muito satisfeito, que desfruta
de coração alegre as delícias do domingo.
E as
coisas poderiam ter continuado assim...
Entretanto,
além de teleportador e telecineta, Gucky ainda era um dos telepatas
mais competentes do Exército de Mutantes. Mesmo sem querer, captava
os pensamentos mais intensos dos vizinhos próximos. Via de regra
preferia ignorá-los e desligava o setor de recepção de seu
cérebro, mas outras vezes esses pensamentos o divertiam.
— Os
depósitos de energia do robô jardineiro estão quase vazios —
disse alguém que se encontrava ao leste, dirigindo-se à esposa. —
Ele fica se arrastando e leva quase uma hora para regar as flores.
Gucky
sacudiu a cabeça.
— Estes
caras são uns preguiçosos — constatou em tom de desaprovação. —
Eu mesmo costumo regar minhas flores e cenouras.
Seus
pensamentos continuaram a desfilar e chegaram a um homem robusto, que
estava deitado à beira do lago, deixando que o sol lhe esquentasse a
barriga morena. Os cabelos ruivos estavam molhados e grudavam-se à
cabeça. Trazia os olhos fechados, dando a impressão de que aquele
homem em férias dormia.
Mas não
era o que estava acontecendo. Bell não costumava dormir dentro da
água. Mesmo quando a salinidade desta fosse tão elevada que
dificilmente poderia afundar.
“Até
que não está mau”,
pensou numa disposição alegre e indolente. “Tomara
que Rhodan não volte tão depressa. Freyt está cuidando dos
assuntos de governo...”
Gucky
ergueu-se ligeiramente e olhou por cima do jardim descuidado do
vizinho da direita. Viu a margem do lago. Realmente, Bell estava
deitado na água. E, ao que parecia, esta não era tão rasa como
poderia dar a impressão.
— Hum! —
fez o rato-castor.
Gucky
passou a utilizar cautelosamente as suas forças. O mais suavemente
que pôde, foi empurrando Bell lenta e imperceptivelmente para longe
da margem. O homem não percebeu nada. Os fluxos de energia
telecinética atingiram-no e foram-no levantando tão devagar que a
água nem chegou a movimentar-se.
Gucky pôs
à mostra o dente roedor solitário, pois divertia-se a valer. Quando
Bell abrisse os olhos, teria uma surpresa. No lago de Goshun não
havia qualquer correnteza, e o vento não soprava. Por isso ninguém
poderia dar uma boa explicação para o fato de Bell ter-se afastado
da margem.
Face ao
elevado peso específico da água, a mesma tinha um poder incrível
de sustentação. Podia-se ler um jornal sem afundar. Bell já se
encontrava a duzentos metros da margem.
Gucky
sorriu. Soltou Bell e viu que a pressão suave fazia-o descrever
movimentos circulares. Mas Bell continuava tranqüilo, mantendo os
olhos fechados.
Gucky
levantou-se e foi caminhando em direção à margem do lago. Pôs as
mãos à frente da boca em forma de funil e gritou com sua voz forte
e estridente.
— Ei,
Bell! Aonde vai?
Bell abriu
os olhos, olhou em torno, perplexo e assustado. A seguir, soltou um
grito e estendeu os braços para cima, como se quisesse procurar um
apoio. Num movimento automático colocou-se de pé, como se quisesse
atingir o fundo.
Não
encontrou o fundo. Mergulhou como uma pedra, mas logo saltou para
cima que nem uma rolha e ficou de pé, com água até o peito.
— Você
não perde por esperar! — gritou em direção à margem e pôs-se a
nadar. Não foi nada fácil, pois seu corpo saía constantemente da
água e dava braçadas no ar. Mas foi-se aproximando lentamente da
margem, onde Gucky o aguardava com um sorriso.
— Você
acha que é um navio? — perguntou, quando Bell se encontrava a
apenas dez metros da margem. — Se você chegasse a um lugar de água
doce, morreria afogado que nem um rato.
Bell pôs
os pés no fundo do lago e foi andando para a margem. Sacudiu o punho
num gesto ameaçador.
— Você
não vai querer me contar que saí lago afora sem mais nem menos —
gritou em tom indignado, sem que possuísse qualquer prova para a
afirmação que estava fazendo. — Foi você, seu patife.
— Você
vive me acusando — respondeu Gucky como quem se sente muito
ofendido e saltitou para perto de seus canteiros de legumes. — Se
não o tivesse chamado, o representante de Rhodan se teria afogado na
salmoura. Como é que alguém pode tomar banho num caldo como este?
— Antes
isso que não tomar banho de jeito algum — disse Bell numa alusão
evidente e pôs-se a atravessar correndo seu terreno.
— Isto é
comigo? — perguntou o rato-castor em tom de desconfiança.
— Se a
carapuça lhe servir... — respondeu Bell, deixando abertas todas as
alternativas e deitou numa cadeira. Lançou um olhar desconfiado para
Gucky, que num gesto furioso arrancou uma cenoura do chão, limpou-a
e se pôs a devorá-la. — Aliás, estes dias formidáveis não
demorarão a passar.
Gucky
jogou fora o toco.
— Será
que você voltou a sofrer de pressentimentos? — perguntou,
atravessando a cerca viva que separava os dois terrenos. — Ou será
que ouviu falar alguma coisa?
— Ambas
as coisas, meu filho. Freyt diz que Rhodan deverá voltar amanhã.
Segundo consta, o funil de descarga dos druufs está quase no fim.
— Nesse
caso, esses hipopótamos logo nos deixarão em paz — comentou Gucky
em tom de satisfação. — Com Árcon as coisas também estão em
ordem. Gostaria de saber o que poderia acontecer-nos depois disso.
Bell
levantou o dedo num gesto de ameaça.
— Quantas
vezes ainda lhe terei de dizer que você deve bater três vezes num
pedaço de madeira antes de falar uma coisa dessas? Se dependesse de
mim, ficaria mais alguns dias neste bangalô e passaria o tempo
deitado na água.
— Será
que a sujeira que você traz no corpo leva todo esse tempo para
amolecer? — perguntou Gucky.
Bell
esteve a ponto de enfurecer-se, mas quando viu a admiração sincera
que se desenhava nos olhos castanhos de Gucky, não conseguiu ficar
zangado. Como um rato-castor poderia saber que a água não serve
apenas para lavar-se?
— Deixe-me
em paz! — gritou. — Cuide de suas tulipas.
Gucky
aproximou-se e plantou-se à frente de Bell.
— As
tulipas! Você se admiraria se soubesse quantas mudas elas já
produziram. Acho que conseguimos salvar a raça dos sonolentos.
Dentro em breve poderemos fundar uma colônia com eles. Talvez em
Marte.
Os
sonolentos eram uma espécie de plantas inteligentes, as quais
possuíam o dom da telepatia. Há algum tempo Rhodan e Gucky as
haviam salvo da extinção, trazendo-as à Terra. E neste planeta
cresciam em diversos lugares, sob a vigilância de jardineiros
experimentados. Levavam cinqüenta anos para reproduzir-se.
Dividiam-se em cinco sexos, possuíam verdadeiros olhos e sabiam
tirar as raízes finas do solo, a fim de dirigir-se a um lugar
melhor.
As
tulipas, que cercavam a varanda de Gucky, não eram verdadeiras
tulipas, mas seres inteligentes vindos de um planeta estranho.
Antes que
Bell tivesse tempo para responder, uma campainha estridente soou no
bangalô.
Os dois
estremeceram instintivamente.
— Com
todas as trovoadas! — exclamou Bell em tom contrariado e
empalideceu ligeiramente.
Alguns
fios de cabelo que já estavam secos arrepiaram-se em atitude de
protesto.
— Devia
mesmo ter batido na madeira! — disse Gucky e deu três piparotes na
cabeça de Bell. — Vá ver logo quem quer perturbar nossa doce
vida. Quem dera que fosse Mercant perguntando apenas pelo tempo.
Acontece
que não era Mercant.
Era Freyt.
— Arrume
a roupa de banho, Mr. Bell — disse Freyt, um homem magro e muito
parecido com Rhodan, de dentro da tela. — Daqui a uma hora Rhodan
chegará com a Drusus. Ao que parece, não pretende ficar muito tempo
em Terrânia. Pretende colher algumas informações e decolar
imediatamente.
— E daí?
— perguntou Bell laconicamente. Tinha um pressentimento de que sua
ingenuidade fingida não adiantaria muito. — O que é que nós
temos com isso?
O sorriso
de Freyt tornou-se mais intenso.
— Posso
transmitir-lhe uma notícia bastante agradável. Uma das instruções
de Rhodan determina que o senhor e Gucky compareçam a bordo da
Drusus assim que a mesma pousar. Acho que é só o que tenho a lhe
comunicar. Desejo-lhe um domingo muito agradável. A tela apagou-se.
— Um
domingo agradável — repetiu Bell em tom furioso e lançou um olhar
vingativo para o videofone. — Depois de três dias de licença já
posso deixar tudo isto para trás.
Olhou em
torno.
— Vuzi!
— gritou. — Vuzi, onde está você?
Gucky
soltou um gemido e saiu saltitando, para liquidar tudo que tinha que
ser liquidado numa situação como esta. Precisaria programar tanto o
robô jardineiro como o mordomo automático. Além disso, queria
evitar um encontro direto com Vuzi, o porquinho-bassê de Vênus.
Bell se apaixonara por esse animalzinho engraçado e o levava para
tudo quanto era lugar. Pelo menos em Terrânia.
Vuzi
aproximou-se e saltou para cima de Bell. Realmente era parecido com
um cão bassê, mas tinha pernas mais compridas, um rabo encaracolado
e focinho de porco. Os “indivíduos”
de sua espécie viviam nas florestas pantanosas de Vênus e logo
compreenderam que poderiam levar uma vida melhor, se assumissem
atitudes amistosas para com os seres da raça humana.
— Vamos
dar o fora daqui, Vuzi. Nossas férias chegaram ao fim.
Vuzi
compreendeu e esticou o rabo encaracolado de tão alegre que se
sentiu. Logo depois sua pequena cauda voltou abruptamente ao formato
anterior. E tal movimento repetiu-se por várias vezes.
Dali a uma
hora Bell, Gucky e Vuzi estavam sentados no turbocarro, pacificamente
reunidos, e deslizaram a uma velocidade cada vez maior pela pista
lisa da estrada que ia para Terrânia.
Enquanto
se aproximavam da cidade, ouviram acima de suas cabeças o tremendo
trovejar dos propulsores. Os lampejos ofuscantes empalideceram o sol.
Finalmente a gigantesca esfera Drusus destacou-se do azul do céu,
foi crescendo rapidamente e acabou pousando bem ao longe, no
espaçoporto.
As férias
realmente pareciam ter chegado ao fim.
Pelo menos
por ora...
2
O
comandante Wilmar Lund não tinha a menor idéia quanto aos motivos
por que ele e seus tripulantes tiveram de interromper subitamente o
curso que estavam fazendo. Consideravam esse curso uma espécie de
licença a ser passada em Venus City, e por isso não se esforçavam
muito.
No mesmo
dia em que chegou a ordem vinda de Terrânia, Lund e seus homens
subiram a bordo do cruzador Arctic e decolaram em direção à Terra.
Chegaram ao planeta natal sem quaisquer incidentes e pousaram no
espaçoporto de Terrânia, estacionando sua nave junto à gigantesca
Drusus, que geralmente era considerada a nave capitania de Rhodan.
Lund
começou a desconfiar de que não era por acaso que sua chegada
coincidia com a presença da Drusus. Recapitulou os acontecimentos
das últimas semanas e meses o mais rápido que pôde, mas não
encontrou uma explicação. Cometeu um erro ao não recuar nove
meses.
Na sala de
comando recebeu ordens para colocar a Arctic no hangar da Drusus e
dirigir-se o mais rápido possível ao edifício da administração
de Terrânia. Perry Rhodan já o esperava.
Lund
despertou de uma espécie de devaneio. Deu suas instruções e entrou
no turbocarro, que se encontrava estacionado junto à nave. O
veículo, dirigido automaticamente, levou-o à cidade numa velocidade
tremenda. Atravessou as comportas da abóbada energética sem ser
submetido a qualquer controle e subiu os largos degraus do edifício
quadrado, que costumava ser considerado o centro nervoso do sistema
solar.
Foi
recebido pelo Marechal Freyt em pessoa, que o levou ao gabinete de
Rhodan. No corredor encontraram-se com alguns membros do Exército de
Mutantes, que pareciam estar preparados para a partida. Lund
reconhecia essa disposição. Havia alguma coisa no ar.
Assim que
Lund entrou no gabinete, Rhodan levantou-se. Estendeu-lhe a mão como
se fossem velhos amigos. Sabia que, para Rhodan, todo colaborador era
um amigo e que o chefe sempre oferecia um tratamento afetuoso. Era
este um dos motivos por que qualquer um deles enfrentaria o pior dos
perigos, desde que Rhodan o pedisse.
— Agradeço-lhe
por ter vindo tão depressa, Lund. O senhor já conhece mister Bell,
e não tenho necessidade de apresentar Gucky. Ele esteve presente
naquela oportunidade; pertenceu ao grupo.
Alguma
coisa remexeu na memória de Lund.
“Gucky
estava com eles?”,
indagou-se, tentando rememorar-se.
Depois de
cumprimentar Bell e Gucky, acomodou-se na poltrona que lhe foi
oferecida. Aguardou em silêncio. Não teve de esperar muito tempo.
— Daquela
vez em que o senhor foi buscar Gucky, que retornava de uma missão, e
o trouxe de volta à Terra, o senhor se encontrou com uma nave
arcônida que ia à deriva — principiou Rhodan com um sorriso de
quem sabe de tudo. — Conforme constava do diário de bordo, tal
nave parecia ter sido abandonada pela tripulação e ia à deriva. Já
se lembra? Lund fez que sim.
— Muito
bem. O senhor registrou a velocidade e a rota?
Lund
voltou a fazer um gesto afirmativo. Não tinha a menor idéia do
porquê da pergunta.
“Será
que me esqueci de alguma coisa?”,
pensou apreensivo?
Mas Rhodan
tranqüilizou-o ao prosseguir:
— Os
dados estão armazenados no computador positrônico da Arctic?
— Estão,
sim senhor. Era meu dever armazená-los e, além disso, Gucky o
exigiu expressamente. Seria possível que, mais tarde, se desejasse
voltar a examinar aquela velha nave. Sua posição pode ser
determinada a qualquer momento, se é nisso que o senhor está
interessado.
Rhodan fez
que sim.
— É
exatamente isso, Lund. Ainda bem que o senhor se lembra. Acho que
está na hora de Gucky lhe contar a verdade. Há nove meses ele o
enganou.
Gucky
escorregou para fora da poltrona, que lhe era muito grande.
Aproximou-se e saltou para cima do colo de Lund.
— Você
não está zangado comigo, não é, Lundizinho? — perguntou num pio
e fez o conhecido jogo de olhos, ao qual ninguém conseguia resistir.
— Levei quatro horas examinando aquela nave misteriosa, e você
ficou muito admirado. Quatro horas para examinar uma nave vazia! Bem,
na verdade não estava vazia. Ela abriga dez mil arcônidas vivos.
Lund
respirava nervosamente.
— Ah, é?
E você não me disse nada? Por quê?
— Porque
além desses dez mil havia mais cem mil arcônidas guardados num
frigorífico, esperando que alguém os acordasse. Como são tantos,
isso só poderia ser feito num planeta adequado, pois, do contrário,
haveria uma catástrofe. É este um dos motivos por que guardei o
segredo para mim. Talvez o senhor insistisse em querer examinar a
nave...
Lund
acenou lentamente com a cabeça. Estava compreendendo.
— Você
tem razão, Gucky. Eu teria insistido num exame rigoroso; não
poderia agir de outra forma. E agora? O que vamos fazer?
Quem
respondeu foi Rhodan.
— Árcon
precisa de gente capaz, que fortaleça seu império. Quem melhor para
isso que os arcônidas adormecidos na nave dos antepassados? Trata-se
de homens e mulheres da velha estirpe. Uma vez que estão hibernando,
conservaram sua capacidade física e psicológica. Atlan pediu-me que
levasse a nave para Árcon. Foi por isso que mandei chamá-lo,
comandante.
Lund
levantou-se.
— Quer
que lhe forneça imediatamente as coordenadas? Providenciarei para
que...
— Iremos
com o senhor, Lund — interrompeu-o Rhodan. — A Arctic já está
guardada no hangar da Drusus. Decolaremos e calcularemos as
coordenadas, enquanto estivermos saindo do sistema solar. Não temos
um minuto a perder. Está preparado?
— Naturalmente,
sir. Acontece que o senhor tinha pouco tempo.
— Tenho
bastante tempo — tranqüilizou-o Rhodan. — Bell e Gucky estão
ansiosos para descobrir a nave. Andaram vadiando por bastante tempo
junto ao lago de Goshun.
Bell
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas resolveu ficar calado e
lançou um olhar de súplica a Gucky.
O
rato-castor falou, demonstrando alegria.
— Isso
mesmo. Não existe nada mais enjoado que um período de férias junto
ao lago de Goshun. Estou satisfeito por estarmos novamente... ora,
não adianta. Perry, você pode ser um telepata muito bom, mas...
Era
verdade, embora a capacidade telepática de Rhodan tivesse seus
limites. O chefe soltou uma risada bonachona.
— Não
se preocupe com as tulipas e as cenouras. É possível que amanhã ou
depois já tenhamos rebocado a nave dos antepassados até Árcon, e
você esteja de volta para sua casa. Até lá suas plantas prediletas
não deverão morrer de sede.
A última
afirmativa era verdadeira. Mas as outras não.
*
* *
O sistema
solar foi desaparecendo atrás da Drusus à velocidade da luz. Todos
aguardavam a transição que estava iminente.
Lund,
Rhodan, Bell e Gucky encontravam-se diante do computador de
navegação, no interior da pequena sala de comando da Arctic. O
banco de dados forneceu as informações desejadas. As faixas de
plástico caíam por cima da mesa e Lund as empurrava para dentro do
dispositivo de processamento.
— A
distância é de aproximadamente vinte mil anos-luz — constatou
Bell. — É uma bela distância para um salto preciso. O essencial é
que os cálculos constantes dos dados armazenados no computador sejam
corretos. Se for assim, deveremos localizar imediatamente a nave que
segue à deriva.
— Por
que não a encontraríamos? — perguntou Rhodan. — Os instrumentos
funcionam perfeitamente e não é de supor que Lund tenha cometido um
erro.
— Posso
garantir a exatidão das informações, sir — disse Lund um tanto
surpreso.
Rhodan
colocou a mão sobre seu ombro.
— Ninguém
duvida disso.
Realmente,
ninguém duvidava. Acontece que a alma humana se alimenta de
ceticismo. Sem este, sente-se vazia e abandonada. Além disso...
— É
possível que a nave tenha modificado a velocidade ou a rota —
conjeturou Bell.
Gucky
pisou fortemente nos seus pés.
— Você
já está agourando de novo, gorducho? Encontraremos a nave
exatamente no lugar calculado, ou eu...
Calou-se
de repente. Bell lançou-lhe um olhar de desafio.
— Ou o
quê?
Não
obteve resposta, pois nesse momento o setor de processamento de dados
começou a emitir seus estalidos. As informações interpretadas
chegaram em forma de uma finíssima folha perfurada. Rhodan pegou-a e
leu:
— Setor
BV-37-C-99,19-997,983 AL. Era só.
Lund
sentiu-se aliviado.
— Quer
dizer que até aí está tudo claro. Estamos preparados.
Rhodan
enfiou o cartão perfurado no bolso. Dirigiu-se a Lund.
— Mantenha
a Arctic pronta para decolar, Lund. É possível que mais tarde
venhamos precisar do cruzador como nave-reboque. Sua proa possui os
raios de rastreamento que nos permitirão abrir as escotilhas de
carga da nave arcônida, se é que esta as tem.
Rhodan e
Bell atravessaram o corredor do cruzador e passaram pelo hangar. O
elevador levou-os em poucos minutos à sala de comando da Drusus,
onde o Coronel Sikermann já os esperava impaciente. O rato-castor,
que se teleportara para esse lugar, estava sentado sobre o sofá.
Negara-se a prestar quaisquer informações, e foi por isso que
Sikermann quase chocou-se com os homens que entravam, quando
perguntou:
— Então?
Tem todos os dados, sir?
— Sim,
temos os dados — respondeu Rhodan e entregou-lhe o cartão
perfurado. — O resto depende do senhor, que é o comandante.
O coronel
pegou o cartão, examinou-o e sem dizer uma palavra passou-o ao
primeiro-oficial, que o colocou no computador. Os cálculos foram
iniciados automaticamente. Os dados já processados, transformados em
faixas de plástico coloridas, foram introduzidos no autômato que
controlava o hipersalto.
Sikermann
acomodou-se no assento do piloto.
O sol já
se transformara numa estrela amarela. Rhodan e Lund conversavam
baixinho nos fundos da sala de comando. Provavelmente o administrador
estava respondendo a algumas perguntas do comandante do cruzador, a
fim de satisfazer-lhe a curiosidade. Bell estava sentado no sofá, ao
lado de Gucky. Os dois amigos mostravam-se extraordinariamente
pacatos e silenciosos.
Quando viu
algumas lâmpadas se acenderem, Sikermann olhou para os controles.
— A
transição foi marcada — disse. — O salto será realizado dentro
de dois minutos.
Num gesto
instintivo Rhodan passou a mão pela nuca. Lembrou-se da dor da
transição, que era o único aspecto desagradável do hipersalto, e
da desmaterialização ligada ao mesmo.
“Não
demorará muito, e essa dor não mais acontecerá”,
pensou. “Os
planos do sistema de hiperpropulsão linear, que Ernst Ellert roubou
em Druufon, já se encontram nas mãos dos cientistas terranos. Eles
trabalham na construção do novo propulsor. Não demorará muito, e
a primeira nave capaz de desenvolver velocidade superior à da luz,
independentemente de qualquer transição, estará apta para realizar
seu vôo experimental em Terrânia.”
— Falta
um minuto!
Para Perry
Rhodan, o método do hipersalto fora, durante vários decênios, o
único meio de atingir sistemas estelares situados a vários
anos-luz. Mas, subitamente, os druufs apareceram com suas naves que
não se desmaterializavam, mas ultrapassavam simplesmente a
velocidade da luz e prosseguiam no seu vôo. Não ficavam sujeitas a
qualquer dilatação temporal, o que contrariava todas as leis de
Einstein.
Embora
Rhodan considerasse o hipersalto como o melhor método, sempre
sonhara com a possibilidade de, durante o salto, continuar enxergando
todo o espaço... Ansiava pelo momento que pudesse ver as estrelas
passarem pelas escotilhas, em vez de mergulhar no nada invisível da
desmaterialização.
— Dez
segundos! Nove... oito... sete...
O salto
foi realizado com a maior precisão e sem incidentes. Quando a Drusus
voltou a materializar-se com tudo que se encontrava em seu interior,
a hipernave se encontrava exatamente no local previsto. As estrelas
eram mais numerosas que as vistas da Terra e estavam mais próximas
umas das outras. A ausência de qualquer matéria reduzida a pó
nesse setor do Universo fazia com que algumas das manchas luminosas
das galáxias afastadas se transformassem em brilhantes espirais
perfeitamente visíveis, que pareciam girar lentamente. Era uma visão
que o homem preso à Terra nunca conseguia imaginar perfeitamente,
por mais fantasia que possuísse. Era uma visão que tornava ridícula
a idéia da presença exclusiva do homem no Universo e fazia com que
sentisse a presença de Deus. A Terra poderia ser um produto da
natureza, resultante do acaso. Mas o Universo, com todos os sóis
chamejantes, era uma criação bem meditada.
Rhodan
desprendeu-se da visão que sempre o fascinava. Sua voz estava um
pouco rouca, quando disse:
— Ligue
os instrumentos de observação, coronel. Pelos cálculos a nave não
pode estar a mais de zero vírgula cinco anos-luz do ponto em que nos
encontramos.
Os
instrumentos começaram a funcionar. Num raio de meio ano-luz. Isso
era fácil de dizer, mas significava uma coisa tão imensa. Uma área
de um ano-luz de diâmetro tinha de ser revistada em busca de um
ponto que media um quilômetro e meio. E a busca tinha de ser
realizada nas três dimensões.
Dali a
cinco horas tiveram certeza. Num raio de meio ano-luz não havia
qualquer porção de matéria sólida que fosse maior que um grão de
ervilha.
O Coronel
Sikermann parecia um tanto perplexo.
— Não
compreendo, sir. Os instrumentos estão funcionando perfeitamente.
Quem sabe se o computador positrônico da Arctic não cometeu algum
erro?
— Impossível!
— protestou Lund em tom enérgico. — As observações que
realizamos em dezembro de 2.043 foram exatas. Gucky poderá confirmar
o fato a qualquer momento.
— Sem
dúvida posso confirmar! — disse o rato-castor, empertigando o
corpo e fitando Sikermann com um olhar de recriminação. — Será
que o senhor quer dizer que eu e Lund somos irresponsáveis?
— Ninguém
nem ao menos pensou numa coisa dessas, Gucky! — disse o chefe, em
tom áspero. — Devemos continuar serenos e procurar resolver o
enigma. Se nossos cálculos forem todos corretos e a nave dos
arcônidas não puder ser encontrada neste setor, só pode haver uma
explicação. E devemos encarar a mesma com o espírito realista.
Lund
manteve-se em silêncio. Seu raciocínio recusava-se a aceitar a
terrível conclusão.
Um tanto
apreensivo, Sikermann indagou:
— O
senhor acredita que a nave dos antepassados modificou a velocidade ou
a rota? Isso seria...
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Sim, é
isso mesmo. As coisas estão muito ruins. Como poderemos encontrá-la
na imensidão do espaço? Não há pistas, pois ninguém pode deixar
uma pista no nada.
Um
silêncio constrangedor espalhou-se entre os presentes. Cada um
seguia seus próprios pensamentos e suposições. Evidentemente seria
inútil repetir as buscas no mesmo setor, porque os instrumentos de
observação eram praticamente infalíveis. Não poderiam ter
cometido qualquer engano. E os dados armazenados na Arctic também
eram corretos; não havia a menor dúvida.
Concluía-se
que a nave dos antepassados se havia desviado da rota e aumentara
consideravelmente a sua velocidade.
Talvez
possuísse um hiperpropulsor?
Rhodan
dirigiu-se a Gucky.
— Gucky,
você esteve naquela nave. Pôde constatar se seria possível ela
possuir um aparelho de hipersalto?
O
rato-castor lamentou-se.
— Sinto
muito, Perry. Não pude realizar um exame minucioso do interior da
nave. Tive muito o que fazer para libertar os passageiros do domínio
dos robôs. Encontrei os antepassados em estado de hibernação e
esclareci os acontecimentos aos que estavam acordados. Não posso
afirmar com certeza se existe um hiperpropulsor. Sei que os oficiais
nunca pensaram em tal aparelho. Ao que suponho, eles também não
sabiam.
— Nesse
caso devemos concluir que só o descobriram depois de você ter
deixado a nave. Talvez quisessem dirigir-se ao sistema solar mais
próximo, para poderem sair da nave.
— Estavam
voando à velocidade inferior à da luz — disse Gucky. — Se
tivessem mantido a rota, só alcançariam um sistema solar dali a
duzentos anos. Talvez a demora lhes parecesse excessiva. Afinal, já
estavam voando há dez mil anos.
Lund
levantou os olhos. Via-se que refletia intensamente. Parecia ter uma
idéia.
— O
senhor não acaba de dizer que ninguém pode deixar uma pista no
nada? Tem tanta certeza disso?
Rhodan
retribuiu o olhar de Lund e um sorriso fugaz passou por seu rosto
severo.
— Veja
só! Quase que me esqueço! Os rastreadores estruturais registram
todo e qualquer hipersalto e introduzem os respectivos dados no
arquivo positrônico central de Terrânia. Se a nave dos antepassados
executou um hipersalto no ano passado, este deve constar desse
arquivo. E não é só isso. Também poderemos saber a que distância
saltou a nave, talvez em que direção, e se o salto foi repetido.
Obrigado, Lund. Como vê, também sou apenas um homem.
— Ainda
bem — piou Gucky, que se encontrava em ponto mais afastado, e
enrolou-se gostosamente. — Imagine se fosse um rato-castor...
*
* *
Quando a
Drusus pousou em Terrânia, a atividade febril do dia-a-dia já
voltara a reinar na grande metrópole. Os veículos e pedestres
percorriam apressadamente as ruas. Os táxis planadores passavam a
pequena altura acima dos telhados, conduzindo passageiros aos
subúrbios ou às fábricas.
O arquivo
positrônico ficava embaixo da abóbada energética.
Rhodan
entrou no edifício ao lado de Lund e Bell. Pegou o elevador e subiu
ao respectivo pavimento. Um homem de capa branca comprida recebeu-os.
— Já
preparamos tudo, sir — disse o arquivista em tom solícito. —
Queiram acompanhar-me.
— Vá à
frente, Dirscherl. O senhor conhece isto aqui melhor que eu. Afinal,
seu trabalho consiste em neutralizar os erros dos outros por meio da
manipulação de cifras.
— Não
apenas os erros sir.
O técnico
em cibernética ganhou um corredor. À esquerda e à direita, os
armários achavam-se abarrotados de folhas plásticas de informações.
Dirscherl
parou. Apontou para um dos armários.
— Aqui
se encontram os registros relativos à distância de 19-997 a 19-998
anos-luz. Acho que a direção BV-37-C é a que o senhor está
procurando.
— Pode
dar uma olhada — animou-o Bell, em tom sarcástico.
Rhodan
aguardou tranqüilo, mas Lund parecia bastante nervoso. Esperava
ansiosamente que o fichário confirmasse a hipótese da mudança de
rota da nave dos antepassados.

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