sexta-feira, 26 de agosto de 2016

P-094 - O Sol Chamejante - Clark Darlton [Parte 1]


Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Os antepassados foram postos a dormir há dez mil anos —
agora precisa-se deles para reconstruir o grande império.


Com o descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este Império frente aos ataques internos e externos.
A mais séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna, provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por Gucky.
Porém, um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver ainda um longo caminho...
O próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro, com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan, agora com o nome de Imperador Gonozal VIII e Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, já por simples instinto de conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Atlan sabe que mais dia, menos dia, Árcon poderá desaparecer, se não conseguir agrupar um bom número de homens não degenerados...
Será que os “adormecidos”, descobertos por Gucky nos confins da Via Láctea, poderão transformar-se em auxiliares de Atlan? Ou serão esses possíveis auxiliares devorados pelo anão chamejante?


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Bell e Gucky — Que passam as férias juntos, nas proximidades de Terrânia.

Wilmar Lund — Comandante da Arctic.

D-3, M-4, M-7, C-l e O-1 — Que fazem uma transição.

Ceshal, Ekral, Alos e Tunuter — Os antepassados que despertam.
1



A comunicação entre o universo einsteiniano e a dimensão temporal dos druufs ainda existia. Porém, a cada dia, a zona de descarga tornava-se pior. Pelo que se sabia, a “fenda” constituía a única passagem natural para o império da raça agressiva dos druufs, mas não continuaria sendo por muito tempo. Era cada vez mais raro as espaçonaves daquela raça estranha atravessarem o funil ou zona de descarga, nome que os cientistas terranos davam à fenda. Ao chegarem lá, defrontavam-se com as forças do Império Solar, que patrulhavam a área, e as unidades de Árcon, que ali desempenhavam sua missão de vigilância.
Como já se disse, era cada vez mais raro que os druufs aparecessem. Entretanto, quando o faziam, avançavam com um arrojo e uma obstinação sempre crescente. Sabiam que, dentro em breve, se fecharia para eles a porta aos imensos tesouros do universo normal dos homens, e que, depois disso, voltariam a ser prisioneiros de sua dimensão temporal, até que o acaso fizesse surgir um funil de descarga em outro ponto. Permaneceriam numa dimensão em que o tempo fluiria 72 mil vezes mais devagar que no universo einsteiniano.
Nesses últimos dias e semanas aconteceram coisas estranhas.
De qualquer maneira, o relatório apresentado pelo Tenente Grenoble dava o que pensar.
Grenoble era comandante de uma gazela que realizava vôos de patrulhamento na periferia do funil de descarga. O veículo de reconhecimento de longa distância mantinha contato permanente com a nave-mãe. Esta pertencia a uma poderosa esquadrilha de guerra da Frota Espacial Solar.
O Tenente Grenoble estava sentado ao lado do piloto, na sala de comando do disco, cujo diâmetro era pouco superior a trinta metros. Tinha à sua frente os controles e não tirava os olhos da tela.
O que acha, sargento Raft?
O sargento Raft era de estatura mediana e chamava a atenção pelo nariz adunco, que lhe rendera o apelido de índio. Vez por outra chegava mesmo a afirmar que um dos seus antepassados fora cacique dos apaches. Mas não era por isso que costumava ser designado para missões nas quais o “faro” desempenhava um papel essencial.
Com este silêncio fico meio desconfiado — respondeu e corrigiu a rota do veículo espacial, fazendo-o chegar mais perto do funil de descarga. — Se nossos instrumentos estiverem funcionando bem, posso afirmar que a fenda ainda tem dez quilômetros de largura. Se quiser saber minha opinião, tenente, acho que a situação não oferece esperanças para os druufs.
Quanto mais desesperada a situação deles, mais arrojadas se tornam suas ações. Gostaria de saber o que vêm fazer em nosso Universo, se não conseguirão sair daqui. Até parece que procuram alguma coisa que receiam perder, quando a fenda se fechar completamente.
Raft fez um gesto de assentimento.
É exatamente o que penso. Mas o que estariam procurando?
O Tenente Grenoble não soube responder.
Os dois homens voltaram a ficar em silêncio e passaram a dedicar mais atenção às telas. No lugar em que se encontravam, a mais de seis mil anos-luz da Terra e num ponto mais próximo ao centro da Via Láctea, as estrelas eram mais numerosas e ficavam mais próximas umas às outras. Estranhas constelações destacavam-se contra o fundo escuro do nada e emitiam um brilho extraordinariamente forte. Em especial, uma estrela branco-azulada, que ficava à direita da sua trajetória. Seu fogo ardia tranqüila e constantemente. Apesar da frieza aparente, tinha-se a impressão de que aquele sol era quente e chamejante.
Nem Grenoble nem Raft desconfiavam de que aquele sol azul ainda desempenharia um papel muito importante, inclusive para os dois. E mais especialmente para os druufs.
Mas, antes disso, aconteceu uma coisa bem diferente.
Na verdade, era impossível que um corpo metálico se mantivesse oculto nas proximidades de um instrumento de observação do tipo dos que se encontravam em qualquer nave. Com o avanço da técnica, esses aparelhos foram aperfeiçoados, fosse qual fosse a raça que os tinha criado. Por isso os dois homens, que se encontravam na sala de comando da gazela, não compreenderam por que a frota dos druufs, que avançou subitamente para seu Universo, não tomou conhecimento de sua presença.
Eram cerca de dez naves compridas e cilíndricas que atravessaram a fenda e, deslocando-se à metade da velocidade da luz, seguiam diretamente em direção ao sol azul.
Raft contemplou-as boquiaberto, incapaz de fazer qualquer coisa. Já o Tenente Grenoble teria feito algo, se fosse necessário.
As dez naves começaram a aumentar a velocidade e acabaram desaparecendo em meio à confusão de estrelas.
Grenoble esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando mais cinco naves surgiram na fenda. Nesse meio tempo, Raft também recuperara o autocontrole a ponto de conseguir dominar seus atos. Colocou as mãos robustas sobre os controles, a fim de poder atirar a gazela para o hiperespaço de um segundo para o outro. Ali estaria em segurança. A pequena nave de reconhecimento não estaria em condições de enfrentar um cruzador dos druufs.
Mas ainda não havia necessidade de saltar para o hiperespaço.
Uma coisa estranha aconteceu com as cinco naves.
Pararam abruptamente e mantiveram-se imóveis. A imagem das telas dava a impressão de um filme que deixara de correr de repente, transformando-se numa simples fotografia. Depois disso, seus contornos se desmancharam, transformando-se em sombras apagadas, cujas silhuetas mal se destacavam contra as estrelas que ficavam atrás delas.
Depois de algum tempo, as estrelas brilharam através das naves.
Por fim, as cinco se tornaram invisíveis.
Grenoble respirava pesadamente e contemplava a tela frontal, na qual não se via nada além do espaço vazio. As mãos de Raft soltaram os controles. Virou a cabeça e fitou o comandante com uma expressão de perplexidade.
O que... o que aconteceu? — perguntou muito confuso. — Será que descobriram um meio de se tornarem invisíveis?
O tenente sacudiu lentamente a cabeça.
Não acredito. Se não me engano muito, o desaparecimento não estava previsto e foi completamente involuntário. Por que iriam parar? Tenho uma suspeita, mas é fantástica demais para ser verdadeira.
Fale, sir — disse Raft em tom insistente. — Será que pode haver alguma coisa que seja mais fantástica que a realidade?
Grenoble acenou com a cabeça e voltou a fitar a tela, como se esperasse que as cinco naves voltassem de um instante para outro.
É o funil de descarga, Raft. A abertura fechou no momento exato em que as cinco naves passavam pela mesma. As naves foram empurradas de volta para o universo dos druufs, ou atiradas para um espaço que nos é totalmente desconhecido. Talvez nunca mais consigam voltar e estejam perdidas. Olhe para o instrumento de observação, Raft. Ele já não mostra o funil de descarga.
Raft examinou os instrumentos e fez um gesto de assentimento.
Tenho a impressão de que sua suposição é correta, sir. Por aqui não existe mais nenhuma fenda. Mas... — apontou para o sol azul — o que aconteceu com as dez naves que conseguiram atravessar a área? Será que encontrarão o caminho de volta para sua dimensão temporal? O que querem em nosso Universo? Por que não procuram destruir nossa gazela? Ou será que aconteceu um milagre e não nos localizaram?
Eles nos localizaram — disse Grenoble. — Acontece que não tiveram tempo para se preocupar conosco. Ao que tudo indica, têm uma missão a cumprir. E, se não me engano, esta missão deve ser executada nas proximidades da estrela azul.
Olhou para Raft.
Tome a rota da unidade e salte dentro de trinta segundos. Tenho a impressão de que Perry Rhodan estará muito interessado nas informações que temos para ele.
Neste ponto, o Tenente Grenoble não estava enganado e, talvez, nem mesmo no resto.

* * *

A Drusus era uma gigantesca esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro. Pertencia à classe Império e era um couraçado espacial do Império Solar. Geralmente, tinha por comandante o Coronel Baldur Sikermann, mas sempre que Perry Rhodan se encontrava a bordo, o coronel passava a exercer automaticamente as funções de primeiro-oficial.
Em comparação com a gazela, a sala de comando da Drusus era um gigantesco compartimento semicircular, recheado com uma quantidade atordoante de painéis de controle e instrumentos, entre os quais só as pessoas familiarizadas sabiam orientar-se. Para compreender perfeitamente os segredos da Drusus, tornava-se necessário não só um estudo minucioso, mas também um treinamento hipnótico especial.
David Stern, chefe da equipe de rádio, leu a mensagem do Tenente Grenoble em voz alta e perguntou:
O que devo responder, sir?
Perry Rhodan encontrava-se ao lado do Coronel Sikermann, à frente da tela oval de visão global. Comparava a parte da Via Láctea avistada com um mapa estelar, aberto sobre a estreita mesa encostada à parede.
Olhou para Stern.
Quero que Grenoble traga a gazela para dentro do hangar da Drusus e se apresente a mim.
Stern fez continência e dirigiu-se à sala de rádio, a fim de cumprir as ordens de Rhodan. O Coronel Sikermann mostrava-se um tanto cético. Em comparação com sua estatura baixa e musculosa, Rhodan quase chegava a parecer esguio.
O senhor acha que as observações feitas por Grenoble têm alguma importância, sir?
Dificilmente existe alguma coisa que não tenha nenhuma importância — respondeu Rhodan com um leve sorriso. — Nesta guerra contra os druufs, qualquer observação, por mais insignificante que possa parecer, talvez assuma a maior importância. A estrela azul parece ser uma espécie de agouro. O que será que os druufs querem por lá?
Quem nos garante que as dez naves realmente pretendam ir à estrela azul?
Conhecemos os druufs e os métodos que costumam usar. Quando se dirigem a algum objetivo nunca mudam de rota para enganar o inimigo. É o que nos diz a experiência. Portanto, temos certeza de que vão à estrela azul.
Lançou um olhar para o mapa estelar.
Trata-se de um sol muito quente, que fica a menos de três meses-luz daqui e possui três planetas. São inabitados, mas habitáveis. Os druufs também respiram o oxigênio. Bem...
Os três planetas são habitáveis? — perguntou Sikermann em tom de perplexidade.
Rhodan sorriu.
É claro que não; apenas o terceiro planeta, o exterior. Tem o tamanho de nosso Marte. Nele há muitas montanhas e desertos e pouca água. É muito quente. Acho que vamos dar uma olhada por lá. É possível que o catálogo estelar, que nos foi legado pelos arcônidas e pelos saltadores, não esteja atualizado. Providencie tudo que se torna necessário, assim que Grenoble se encontrar a bordo. Avise as outras unidades.
Rhodan fez um sinal para Sikermann e afastou-se. Ao chegar à porta virou-se e disse:
Estarei no meu camarote. Assim que Grenoble se apresentar ao senhor, mande-o procurar-me.
O Coronel Sikermann ficou na sala de comando. Tinha uma vaga sensação de não ter compreendido perfeitamente o raciocínio de Rhodan.

* * *

A gazela pousou no interior do hangar da Drusus. O Tenente Grenoble e o sargento Raft foram conduzidos à presença de Rhodan e apresentaram seu relatório. O que mais despertou o interesse de Rhodan foram as cinco naves desaparecidas. Porém Perry também não encontrou qualquer explicação cabal para o fenômeno. Depois de algum tempo convocaram o Coronel Sikermann.
O mais importante não é localizar e expulsar as dez naves dos druufs — disse Rhodan. — Devemos raciocinar em termos táticos. De certa maneira os seres-toco representam um meio para nós atingirmos certo fim. Queremos provar aos povos auxiliares que não estamos dispostos a permitir que qualquer intruso escape sem ser molestado. Atlan tem problemas de sobra no Império. Podemos ajudá-lo, desde que provemos ser um aliado forte e decidido. Acho que o senhor compreende o que quero dizer, Sikermann, não compreende?
O senhor quer atacar os druufs apenas para dar uma prova de força aos nossos aliados?
É mais ou menos isso — confirmou Rhodan com um sorriso. — Uma lição desse tipo não fará nenhum mal aos saltadores, isto sem falar nos aras. Iremos com a Drusus aos três planetas do sol azul e os revistaremos. Se encontrarmos os druufs por lá, nós os atacaremos e destruiremos.
Vamos destruí-los, sir?
Isso mesmo. Não se esqueça de que eles não fazem prisioneiros e pretendem conquistar nosso Universo. Será um ato de legítima defesa. Além disso é possível que as dez naves estejam tripuladas por robôs. O senhor sabe perfeitamente, Sikermann, que os druufs gostam de usar robôs, em missões perigosas. Será que isto basta para aliviar sua consciência?
Sem dúvida — respondeu Sikermann em tom de alívio. Chegou mesmo a sorrir. — Quer que avise a frota? Quem nos acompanhará?
Iremos sós. No entanto, informe as outras unidades sobre nossas intenções. Pelo que conheço dos saltadores, eles enviarão um observador secreto, e não devemos decepcioná-lo. Partiremos dentro de trinta minutos.
Depois que Sikermann se tinha retirado, Rhodan prosseguiu:
Tenente Grenoble, o senhor permanecerá a bordo da Drusus com sua gazela.
Nos trinta minutos que se seguiram, as mensagens de rádio se cruzavam. Sikermann avisou os outros comandantes da frota sobre a missão que pretendiam levar a efeito e recomendou-lhes que continuassem a manter sob observação o funil de descarga. Devia-se contar com a possibilidade de que outras unidades dos druufs tentassem avançar. Se isso acontecesse, deveriam ser rechaçadas com todos os meios ou, caso resistissem, serem destruídas.
Tanto os comandantes terranos como os arcônidas confirmaram o recebimento da ordem. Apesar de todas as divergências, havia um acordo perfeito em relação aos druufs. Aqueles seres de três metros de altura, vindos de outra dimensão temporal, eram tão estranhos que nunca poderiam ser bons aliados. Por sua própria natureza, eram inimigos comuns que deviam ser combatidos. Assim que a fenda no espaço se fechasse e a barreira intransponível do tempo separasse os dois universos, podia-se voltar a pensar em si mesmo e nos problemas de cada um.
Mas, por enquanto, o tempo para isso ainda não havia chegado.
Pouco antes da Drusus, depois de acelerar, dirigir-se ao hiperespaço, as suposições de Rhodan se confirmaram. Dois cruzadores esguios seguiram-na. Ao observar o fato, um sorriso de satisfação surgiu no rosto de Rhodan. Sabia que, com seus instrumentos, os saltadores não teriam a menor dificuldade em localizar e calcular o salto da Drusus. Sairiam do hiperespaço e se materializariam perto da estrela azul, menos de dois minutos depois da Drusus.
A transição e a desmaterialização.
A rematerialização.
A menos de dez minutos-luz da estrela azul, a Drusus surgiu do nada e, desacelerando fortemente, deslocava-se a grande velocidade em direção ao sol chamejante. Os cálculos eletrônicos começaram a ser realizados automaticamente, abrangendo a estrela central e os três planetas. Os dados foram expelidos sob a forma de estreitas faixas de plástico. Os oficiais do setor de navegação os examinaram. As informações constantes do catálogo estelar foram confirmadas.
É apenas o terceiro planeta, conforme se supunha, sir. Tem o tamanho de Marte e as condições são semelhantes, apenas é mais quente. Não é habitado. A atmosfera só é respirável em determinadas áreas. Não há vegetação, com exceção de musgos e cogumelos primitivos. Pouca água. Bastante montanhoso.
Rhodan ouvira atentamente. Olhava ininterruptamente para a tela, na qual o sol azul ia crescendo. O terceiro planeta foi penetrando no campo de visão. O círculo pálido de sua atmosfera brilhava como uma auréola de santo.
A três minutos-luz atrás da Drusus, duas transições abalaram a estrutura espacial. Os observadores secretos haviam chegado ao seu posto. Rhodan fez um gesto zangado.
Vamos desacelerar mais e circular em torno do terceiro planeta, Sikermann. Procure localizar os druufs.
Tomara que sua teoria seja correta, sir...
Acha que os seres da outra dimensão não estão aqui? — Rhodan sacudiu a cabeça. — Isso me deixaria muito admirado. É possível que pretendam construir uma base em nosso sistema, tal qual nós fizemos no sistema deles. Infelizmente perdemos Hades.
O planeta foi crescendo. Já se distinguiam certos detalhes. Na tela de popa viam-se dois minúsculos pontos luminosos: eram as duas naves dos saltadores ou dos aras. Só faltavam os druufs.
O sol azul era muito quente. Seus raios provocavam estranhos efeitos luminosos na superfície do pequeno planeta. Felizmente a atmosfera rarefeita absorvia a maior parte da luz azul, deixando passar a branca.
A Drusus atravessou as camadas superiores da atmosfera, desenvolvendo apenas alguns quilômetros por segundo. Os instrumentos de observação atingiram todos os cantos da superfície. Nos grandes desertos, a busca era fácil, já que por lá não havia nenhum esconderijo. Mas nas extensas cadeias de montanhas o trabalho era bem mais difícil. Os vales e desfiladeiros profundos ofereciam esconderijos de cuja existência ninguém desconfiaria. Neles poderiam ser escondidas frotas inteiras, de tal forma que não seriam encontradas rapidamente. Os raios dos instrumentos de busca só avançavam em linha reta. Recorreu-se aos refletores de metais, capazes de localizar quaisquer objetos metálicos bem abaixo da superfície. Era bem verdade que os mesmos também acusariam a presença de depósitos de minério de elevado teor metálico. No entanto, o formato destes permitiria que se percebesse do que realmente se tratava.
O Tenente Grenoble encontrava-se nos fundos da sala de comando, ao lado do sargento Raft. A consciência começava a acusá-lo.
Talvez nossa suposição não seja correta — disse em voz tão baixa que só Raft podia ouvi-lo. — É possível que os druufs tenham modificado a rota e nem venham para cá.
De qualquer maneira, éramos obrigados a transmitir nossa observação — disse Raft a título de consolo. — Se o chefe acredita que a mesma assume tamanha importância, isso é com ele. Quanto a mim...
Rhodan virou a cabeça e sorriu.
Os senhores se preocupam em vão. Se tivessem sonegado uma informação tão importante, eu os mandaria prender. Posso garantir-lhes que a esta hora já estou completamente satisfeito. A certeza de que os saltadores se grudaram aos nossos calcanhares basta para compensar nossa excursão...
Naves dos druufs à frente! — interrompeu o Coronel Sikermann.
Rhodan virou-se para a tela; parecia alarmado.
A Drusus desenvolvia apenas dois quilômetros por segundo e havia descido mais. Uma cadeia de montanha fortemente entrecortada passava por eles, baixando para uma planície. E nessa planície, a menos de vinte quilômetros da cadeia de montanhas, as dez naves procuradas estavam paradas uma ao lado da outra.
Rhodan sentiu-se constrangido em atacar os druufs sem aviso, embora fosse fácil destruir ao menos a metade das naves na primeira investida.
Foi por isso que a Drusus passou a pequena altura sobre as dez unidades e voltou numa curva ampla, depois de ter ativado os campos defensivos, uma medida que se revelou muito necessária.
Três das naves dos druufs decolaram e subiram vertiginosamente ao céu azul-escuro do planeta. As outras sete naves abriram um mortífero fogo energético contra o couraçado terrano, mas não conseguiram romper os campos defensivos da mesma. Quase ao mesmo tempo Rhodan foi atacado pelas três naves que haviam decolado, e que agora investiram de cima. Um dos torpedos passou ao lado da Drusus e foi cair bem em meio às sete naves estacionadas. A chama da explosão fez com que Rhodan fechasse os olhos. Quando voltou a abri-los, só restavam quatro naves, mas seus canhões silenciaram. Dois torpedos detonaram nos campos defensivos e suas explosões não produziram o menor efeito.
Atacar! — ordenou Rhodan.
Os dois pontos luminosos só apareciam vagamente na tela de popa.
Sob o impacto do fogo da Drusus, as quatro naves dos druufs que ainda restavam transformaram-se em nuvens de gases incandescentes. Era de supor que só havia robôs a bordo, pois do contrário teriam decolado juntamente com as outras três...
As outras três...
Estas se preparavam para novo ataque, e a maneira como o fizeram constituía prova evidente de que os controles estavam sendo manipulados por seres pensantes. Mas Rhodan não tinha a intenção de considerar esse fato por ocasião do contragolpe que pretendia desfechar. Queria dar uma mostra de força, pois tanto os druufs como os saltadores só se impressionavam com a violência.
Atacar! — repetiu num espaço de poucos segundos.
Grenoble e Raft testemunharam um acontecimento que até então só poderiam imaginar em sonho. Cheios de admiração viram o chefe Perry Rhodan manipular os controles ao lado do Coronel Sikermann e dar suas ordens.
O olhar do administrador tinha algo de extraordinário, mas de resto seu rosto não traía a menor comoção. No entanto, Rhodan acabara de pronunciar a sentença de morte de algumas centenas de druufs. Não o faria sem motivo, porque costumava poupar o inimigo sempre que isso se tornasse possível. Só os matava para salvar a vida de outros seres.
A Drusus mudou de rota e subiu ao céu numa velocidade tresloucada. Seguiu na direção dos druufs que se mantinham na expectativa e que ainda não se haviam recuperado da surpresa. Não deixaram que se escoasse em vão o prazo muito curto de que dispunham para a fuga. Pelo contrário. Atacaram a Drusus com desprezo pela própria vida.
Duas das naves precipitaram-se exatamente para dentro do fogo destrutivo do couraçado espacial e desceram à superfície do planeta, totalmente desgovernadas. Antes que fosse tarde, a terceira nave mudou de rumo e acelerou. Rhodan ficou satisfeito ao constatar que seguia na direção dos dois minúsculos pontos de luz que se destacavam em meio às estrelas.
Vamos persegui-la, mas não destruí-la — disse, dirigindo-se a Sikermann.
Os dois observadores — que eram saltadores ou aras — deviam ter percebido em tempo o perigo que os ameaçava, pois de um instante para outro os pontinhos luminosos desapareceram. Os rastreadores estruturais da Drusus registraram dois hiper-saltos de pequena intensidade.
Um sorriso contrariado surgiu no rosto de Rhodan.
Não temos motivo para destruir esses druufs — disse, dirigindo-se a Sikermann. — Quero que eles voltem ao seu Universo e contem aos seres de sua raça que eliminamos qualquer intruso que penetre em nosso Universo. É possível que com isso compreendam que será inútil tentar construir uma base em nosso mundo.
Os druufs estão mudando de rota — disse Sikermann sem a menor comoção.
Rhodan fez um gesto de assentimento.
Estão seguindo na direção do funil de descarga. Muito bem, coronel. Prepare a Drusus para o salto. Vamos voltar.
Será que não deveríamos examinar as naves destruídas?
Por quê?
É possível que encontremos alguma indicação. Talvez não sejam as primeiras. É possível que já tenham uma base.
Isso é pouco provável, coronel. Mas se o senhor achar...
As buscas não deram o menor resultado. Sete naves haviam sido destruídas a ponto de se tornarem irreconhecíveis e não permitiam qualquer conclusão sobre sua tripulação ou a missão que deveriam desempenhar. Além disso, Rhodan não encontrou a menor indicação de que, antes delas, outras naves dos invasores tivessem pousado no planeta.
De qualquer maneira sentia-se satisfeito por não ter negligenciado nada. Ordenou a Sikermann que voltasse para junto do funil de descarga.
Sabia que os comandantes dos saltadores já estavam informados.

* * *

No momento em que o Tenente Grenoble e o sargento Raft haviam saído com sua gazela pela comporta da Drusus, a fim de voltar à sua nave-mãe, chegou a mensagem de hiper-rádio vinda de Árcon.
As instalações de hiper-rádio ficavam ao lado da sala de rádio propriamente dita da Drusus, e eram controladas pelo pessoal de plantão. O Tenente Stern acabara de ser revezado. Foi por isso que o cadete Hans-Otto Fabian entrou correndo na sala de comando, dando mostras de uma tremenda exaltação.
Temos um contato com Árcon, sir.
Rhodan, que estava conversando com Sikermann, perguntou em tom de surpresa:
Com Árcon?! É o imperador em pessoa?
Sim senhor. Gonozal VIII deseja falar com o senhor.
Rhodan deixou Sikermann a sós e, passando por Fabian, atravessou a sala de rádio e parou junto à hipertela oval, de onde o rosto marcante de Atlan o contemplava.
Atlan, o arcônida imortal, seguia a tradição e chamava-se de Gonozal VIII, depois que assumira o governo do Império, em substituição ao grande computador de Árcon. Ao ver Rhodan, um sorriso fugaz passou por seu rosto severo.
Olá, bárbaro! Espero não estar incomodando.
Rhodan sorriu e sentou-se. Sabia que Atlan o via, a mais de trinta mil anos-luz de distância. Aquilo que há cem anos ainda seria considerado como fantasia sem nexo de um utopista, hoje era um acontecimento corriqueiro. As comunicações de rádio se estabeleciam a dezenas de milhares de anos-luz, sem perda de um segundo.
Você nunca é inoportuno, imperador — respondeu Rhodan com ligeira ironia na voz. — De qualquer maneira, suponho que deve haver algum motivo, que o faça desejar falar comigo. O carro pegou fogo?
Não sei se já pegou fogo, Perry, mas ao menos está soltando fumaça.
São os povos do Império Arcônida?
Exatamente. Desde o momento em que tomei o lugar do grande computador, as rebeliões começaram a surgir. Todos temiam o rigor implacável do robô e obedeciam. Acontece que atualmente o governo é exercido por um arcônida dotado de sentimentos humanos. E certas inteligências pretendem tirar proveito desta circunstância. Sem dúvida tenho tanto poder quanto o computador, mas sinto certos escrúpulos... e todos sabem disso.
Em outras palavras, com você acontece a mesma coisa que comigo. Há pouco vi-me obrigado a fazer uma demonstração impressionante de força contra os druufs, para mostrar aos nossos amigos, os saltadores, que os terranos são muito fortes e decididos. O que é que você pretende fazer? Quer que transforme um planeta numa fogueira energética?
Não faça drama, Perry — disse Atlan, abafando a irrupção de Perry. — Isso poderá ser feito mais tarde, se não quiserem criar juízo. O que me falta são colaboradores capazes, arcônidas competentes. Não preciso de covardes e idiotas degenerados, pois destes tenho de sobra em Árcon. Concordo plenamente com você, bárbaro: minha raça está degenerada. Bastariam uns dez mil arcônidas da velha estirpe para voltar a fazer do Império aquilo que já foi. Poderia ajudar-me a conseguir isso?
Não é o que estou fazendo? — perguntou Rhodan.
Atlan fez um gesto de assentimento e sorriu como quem pede desculpas.
É claro que você já está ajudando, amigo. Acontece que pensei em outra possibilidade. Acabo de aludir aos arcônidas da velha estirpe, que me faltam para dirigir o Império. Preciso de oficiais para minhas naves, comandantes para minhas escolas militares, diretores para as hipno-universidades, dirigentes para as fábricas e usinas automáticas, instrutores para os exércitos de robôs e...
Um momento — interrompeu Rhodan, levantando as mãos num gesto de defesa. — Quem o ouve falar assim pode ter a impressão de que você pretende criar de uma hora para outra toda uma geração de arcônidas ativos e competentes. Acontece que onde nada existe, nada se pode buscar.
Acontece que existe — respondeu Atlan em tom insistente. — Será que sua memória está tão fraca?
Por um instante Rhodan sentiu-se perplexo. Não sabia a que Atlan estava aludindo. Por isso a pergunta que fez foi sincera:
O que quer dizer?
Você realmente não sabe? Muito bem. Nesse caso lembrar-lhe-ei um pequeno acontecimento que se verificou há oito ou nove meses terranos. Naquela época, você era considerado morto, e eu ainda não havia assumido as funções de imperador de Árcon. Foi em fins de 2.043. Um cruzador ligeiro comandado por Wilmar Lund voltou à Terra, trazendo Gucky. E este nos forneceu certas informações estranhas. Já está lembrado?
A nave dos antepassados! — exclamou Rhodan em tom de surpresa.
Lembrou-se. Então era a isso que Atlan estava aludindo.
Perfeitamente.
Estou ouvindo — disse Rhodan em tom tranqüilo.
Vamos rememorar os fatos. Preciso de arcônidas da velha estirpe, para reconstruir o império estelar. Se tiver sorte, talvez consiga encontrar algumas centenas deles. Acontece que preciso de muito mais. Alguns milhares. Pois bem: a nave dos antepassados. Durante um vôo de patrulhamento, Gucky descobriu uma nave da classe Império que ia à deriva. Essa nave tinha uma tripulação de milhares de pessoas. Homens e mulheres. Assim que estes atingiam certa idade, os robôs os colocavam à força num estado de hibernação a frio e os empilhavam num compartimento especial da nave. O número exato dos arcônidas conservados ao longo dos milênios não é conhecido. Pelas indicações de Gucky, devem ser mais de cem mil. Perry Rhodan, preciso desses cem mil arcônidas para a reconstrução do Império Arcônida.
Então era isso!
Rhodan refletiu prolongadamente, lançou um olhar atento para Atlan e disse:
Então você quer que eu procure a nave e a leve para Árcon?
Isso mesmo. Será que estou pedindo demais?
Não, Atlan, claro que não. Acontece que, com isso, você está modificando um plano dos seus antepassados. Será que você sabe qual é a finalidade daquela nave?
Não sei qual era sua finalidade primitiva, mas sei perfeitamente qual é a finalidade que ela pode e deve desempenhar hoje, Perry. A nave dos antepassados, com sua preciosa carga é um presente dos deuses, como se costuma dizer. A descoberta de Gucky representa uma indicação que não podemos deixar de seguir. Neste exato momento estamos precisando dos arcônidas adormecidos, a fim de salvar o Império. Talvez não tenha sido por simples acaso que Gucky descobriu essa nave.
Acha que foi uma espécie de ato providencial? — perguntou Rhodan em tom reticente. — Talvez você tenha razão. Os dados relativos à nave dos antepassados estão armazenados no computador positrônico do cruzador ligeiro Arctic. O comandante Lund encontra-se em Vênus, onde está fazendo um curso. Posso entrar em contato com ele.
Percebia-se o alívio que estas palavras produziram em Atlan.
Obrigado, amigo. O perigo representado pelos druufs logo passará, mas novos perigos surgirão. Por enquanto a presença dos druufs ainda mantém unidos os povos do Império. Mas quando os seres-toco desaparecerem...
Rhodan sabia o que Atlan queria dizer. Talvez a nave dos antepassados fosse a solução. O tempo diria.
Cuide para que o funil de descarga seja vigiado constantemente — pediu, dirigindo-se a Atlan. — Por enquanto não retire nenhuma unidade de lá. Talvez, dentro de algumas semanas, possamos pensar nisso.
Desejo-lhe muitas felicidades, no meu próprio interesse — respondeu Atlan. — Há mais uma coisa que devo dizer-lhe. Tenho inimigos. Em toda parte surgem forças misteriosas que me combatem. Não se consegue agarrar o inimigo; até parece que é invisível ou possui forças mágicas. Não posso explicar em poucas palavras, mas o fato é que eles recorrem a todos os meios para abalar o poderio de Árcon. É possível que isso já tenha acontecido antes do meu tempo; não sei. Mas o inimigo deve ser de opinião que a situação atual é muito favorável.
O inimigo? Você não o conhece? Será que são os saltadores?
Não posso garantir nada, Perry. Por enquanto não consegui pegar um único desses misteriosos sabotadores. Trabalham no escuro e parecem ser a prudência em pessoa. Mas deixemos disso por ora. Procure encontrar a nave dos antepassados e a traga até aqui. Prepararei para você e seus homens uma recepção que nunca nenhum mortal teve igual.
Agora você está fazendo drama! — constatou Rhodan com um sorriso e estendeu a mão em direção à tela. — Dou-lhe minha palavra de que procurarei a nave. Cuide dos druufs. Acredito que não terá mais problemas com eles. Desejo-lhe muita sorte, Atlan.
Por alguns segundos fitaram-se mutuamente. Depois a tela apagou-se. Cada um desses homens extraordinários sabia que poderia confiar no outro, acontecesse o que acontecesse.
Quando Rhodan voltou à sala de comando e mandou que o radioperador Fabian voltasse ao seu posto, seu rosto voltara a ficar sério. O Coronel Sikermann notou.
Más notícias? — perguntou em tom cauteloso.
Rhodan levantou a cabeça e fitou-o.
Não; não é bem isso. Ao menos as notícias não são más para nós.
Fez uma ligeira pausa e lançou um olhar ligeiro para as telas coloridas.
Fixe as coordenadas do salto, coronel. Vamos voltar à Terra. Antes, quero dar algumas instruções às unidades que permanecerão aqui. Quer fazer o favor de tomar as providências necessárias?
O resto foi rotina.
Dali a duas horas, a Drusus iniciou a longa viagem à Terra.
Era uma viagem longa, mas não demorada.

* * *

Era de tarde. Domingo de tarde.
Até mesmo em Terrânia, capital do planeta Terra, costumava-se respeitar o domingo. O complexo gigantesco daquela cidade, que em tão pouco tempo se erguera para o céu, parecia morto. As ruas retilíneas jaziam tranqüilas sob o sol escaldante da Ásia. O edifício da administração era o único lugar em que se trabalhava. E o espaçoporto, que ficava próximo do edifício-sede também nunca ficava desguarnecido do pessoal necessário.
Aquela área — antigamente tão árida — do deserto de Gobi fora transformada em certos trechos em terras férteis. Especialmente nas proximidades do pequeno lago salgado, onde ficavam os bangalôs dos habitantes da cidade, não havia mais nada que lembrasse o deserto. Quase todos possuíam um pequeno terreno com uma residência modesta, onde passavam os fins de semana, só ou com a família. Naquela idade em que a civilização atingira o máximo de sofisticação, o retorno espontâneo à natureza primitiva parecia representar o melhor descanso do cotidiano.
Mas mesmo ali não se podia dispensar a tecnologia.
O bangalô baixo ficava em lugar um tanto elevado, junto à superfície lisa do lago salgado de Goshun. Uma antena alta provava que seu dono mantinha contato com Terrânia pelo videofone e podia ser chamado a qualquer momento.
E nem era possível que Bell conseguisse descansar sem isso.
Reginald Bell, o melhor amigo de Rhodan e seu representante, já se encontrava há três dias em sua casa de fim de semana. Não precisava de criado ou de empregada, pois os robôs cumpriam todos os seus desejos.
O vizinho do lado direito de Bell era Mercant, que, no momento, não se encontrava presente. Mas o vizinho da esquerda se achava em sua casa.
Os dois terrenos eram separados apenas por uma cerca viva, não muito espessa. Enquanto Bell preferia um gramado pouco cuidado, o vizinho parecia ser amigo das flores e verduras. O bangalô surpreendia por ser muito baixo e pequeno. Porém a varanda estava cercada por uma faixa retangular de lindas tulipas, que brilhavam em cinco cores diferentes e erguiam suas enormes corolas para o céu azul.
Abaixo da varanda os canteiros de legumes bem traçados estendiam-se até a praia. Qualquer conhecedor logo constataria que ali haviam sido plantadas principalmente as daucus carota vulgaris, também conhecidas como cenouras.
E com isso, qualquer pessoa que conhecesse Bell já não teria a menor dúvida de quem era seu vizinho da direita.
Gucky, o rato-castor!
O sujeito pequenino, que tinha cerca de um metro de altura e pêlos cor de ferrugem, estava deitado de costas em meio aos canteiros e piscava os olhos para o sol. O largo rabo de castor servia para espantar as moscas, que nem mesmo naquele mundo de robôs haviam sido exterminadas. Os braços estavam cruzados sobre o peito. Gucky era a imagem perfeita do jardineiro amador, muito satisfeito, que desfruta de coração alegre as delícias do domingo.
E as coisas poderiam ter continuado assim...
Entretanto, além de teleportador e telecineta, Gucky ainda era um dos telepatas mais competentes do Exército de Mutantes. Mesmo sem querer, captava os pensamentos mais intensos dos vizinhos próximos. Via de regra preferia ignorá-los e desligava o setor de recepção de seu cérebro, mas outras vezes esses pensamentos o divertiam.
Os depósitos de energia do robô jardineiro estão quase vazios — disse alguém que se encontrava ao leste, dirigindo-se à esposa. — Ele fica se arrastando e leva quase uma hora para regar as flores.
Gucky sacudiu a cabeça.
Estes caras são uns preguiçosos — constatou em tom de desaprovação. — Eu mesmo costumo regar minhas flores e cenouras.
Seus pensamentos continuaram a desfilar e chegaram a um homem robusto, que estava deitado à beira do lago, deixando que o sol lhe esquentasse a barriga morena. Os cabelos ruivos estavam molhados e grudavam-se à cabeça. Trazia os olhos fechados, dando a impressão de que aquele homem em férias dormia.
Mas não era o que estava acontecendo. Bell não costumava dormir dentro da água. Mesmo quando a salinidade desta fosse tão elevada que dificilmente poderia afundar.
Até que não está mau”, pensou numa disposição alegre e indolente. “Tomara que Rhodan não volte tão depressa. Freyt está cuidando dos assuntos de governo...”
Gucky ergueu-se ligeiramente e olhou por cima do jardim descuidado do vizinho da direita. Viu a margem do lago. Realmente, Bell estava deitado na água. E, ao que parecia, esta não era tão rasa como poderia dar a impressão.
Hum! — fez o rato-castor.
Gucky passou a utilizar cautelosamente as suas forças. O mais suavemente que pôde, foi empurrando Bell lenta e imperceptivelmente para longe da margem. O homem não percebeu nada. Os fluxos de energia telecinética atingiram-no e foram-no levantando tão devagar que a água nem chegou a movimentar-se.
Gucky pôs à mostra o dente roedor solitário, pois divertia-se a valer. Quando Bell abrisse os olhos, teria uma surpresa. No lago de Goshun não havia qualquer correnteza, e o vento não soprava. Por isso ninguém poderia dar uma boa explicação para o fato de Bell ter-se afastado da margem.
Face ao elevado peso específico da água, a mesma tinha um poder incrível de sustentação. Podia-se ler um jornal sem afundar. Bell já se encontrava a duzentos metros da margem.
Gucky sorriu. Soltou Bell e viu que a pressão suave fazia-o descrever movimentos circulares. Mas Bell continuava tranqüilo, mantendo os olhos fechados.
Gucky levantou-se e foi caminhando em direção à margem do lago. Pôs as mãos à frente da boca em forma de funil e gritou com sua voz forte e estridente.
Ei, Bell! Aonde vai?
Bell abriu os olhos, olhou em torno, perplexo e assustado. A seguir, soltou um grito e estendeu os braços para cima, como se quisesse procurar um apoio. Num movimento automático colocou-se de pé, como se quisesse atingir o fundo.
Não encontrou o fundo. Mergulhou como uma pedra, mas logo saltou para cima que nem uma rolha e ficou de pé, com água até o peito.
Você não perde por esperar! — gritou em direção à margem e pôs-se a nadar. Não foi nada fácil, pois seu corpo saía constantemente da água e dava braçadas no ar. Mas foi-se aproximando lentamente da margem, onde Gucky o aguardava com um sorriso.
Você acha que é um navio? — perguntou, quando Bell se encontrava a apenas dez metros da margem. — Se você chegasse a um lugar de água doce, morreria afogado que nem um rato.
Bell pôs os pés no fundo do lago e foi andando para a margem. Sacudiu o punho num gesto ameaçador.
Você não vai querer me contar que saí lago afora sem mais nem menos — gritou em tom indignado, sem que possuísse qualquer prova para a afirmação que estava fazendo. — Foi você, seu patife.
Você vive me acusando — respondeu Gucky como quem se sente muito ofendido e saltitou para perto de seus canteiros de legumes. — Se não o tivesse chamado, o representante de Rhodan se teria afogado na salmoura. Como é que alguém pode tomar banho num caldo como este?
Antes isso que não tomar banho de jeito algum — disse Bell numa alusão evidente e pôs-se a atravessar correndo seu terreno.
Isto é comigo? — perguntou o rato-castor em tom de desconfiança.
Se a carapuça lhe servir... — respondeu Bell, deixando abertas todas as alternativas e deitou numa cadeira. Lançou um olhar desconfiado para Gucky, que num gesto furioso arrancou uma cenoura do chão, limpou-a e se pôs a devorá-la. — Aliás, estes dias formidáveis não demorarão a passar.
Gucky jogou fora o toco.
Será que você voltou a sofrer de pressentimentos? — perguntou, atravessando a cerca viva que separava os dois terrenos. — Ou será que ouviu falar alguma coisa?
Ambas as coisas, meu filho. Freyt diz que Rhodan deverá voltar amanhã. Segundo consta, o funil de descarga dos druufs está quase no fim.
Nesse caso, esses hipopótamos logo nos deixarão em paz — comentou Gucky em tom de satisfação. — Com Árcon as coisas também estão em ordem. Gostaria de saber o que poderia acontecer-nos depois disso.
Bell levantou o dedo num gesto de ameaça.
Quantas vezes ainda lhe terei de dizer que você deve bater três vezes num pedaço de madeira antes de falar uma coisa dessas? Se dependesse de mim, ficaria mais alguns dias neste bangalô e passaria o tempo deitado na água.
Será que a sujeira que você traz no corpo leva todo esse tempo para amolecer? — perguntou Gucky.
Bell esteve a ponto de enfurecer-se, mas quando viu a admiração sincera que se desenhava nos olhos castanhos de Gucky, não conseguiu ficar zangado. Como um rato-castor poderia saber que a água não serve apenas para lavar-se?
Deixe-me em paz! — gritou. — Cuide de suas tulipas.
Gucky aproximou-se e plantou-se à frente de Bell.
As tulipas! Você se admiraria se soubesse quantas mudas elas já produziram. Acho que conseguimos salvar a raça dos sonolentos. Dentro em breve poderemos fundar uma colônia com eles. Talvez em Marte.
Os sonolentos eram uma espécie de plantas inteligentes, as quais possuíam o dom da telepatia. Há algum tempo Rhodan e Gucky as haviam salvo da extinção, trazendo-as à Terra. E neste planeta cresciam em diversos lugares, sob a vigilância de jardineiros experimentados. Levavam cinqüenta anos para reproduzir-se. Dividiam-se em cinco sexos, possuíam verdadeiros olhos e sabiam tirar as raízes finas do solo, a fim de dirigir-se a um lugar melhor.
As tulipas, que cercavam a varanda de Gucky, não eram verdadeiras tulipas, mas seres inteligentes vindos de um planeta estranho.
Antes que Bell tivesse tempo para responder, uma campainha estridente soou no bangalô.
Os dois estremeceram instintivamente.
Com todas as trovoadas! — exclamou Bell em tom contrariado e empalideceu ligeiramente.
Alguns fios de cabelo que já estavam secos arrepiaram-se em atitude de protesto.
Devia mesmo ter batido na madeira! — disse Gucky e deu três piparotes na cabeça de Bell. — Vá ver logo quem quer perturbar nossa doce vida. Quem dera que fosse Mercant perguntando apenas pelo tempo.
Acontece que não era Mercant.
Era Freyt.
Arrume a roupa de banho, Mr. Bell — disse Freyt, um homem magro e muito parecido com Rhodan, de dentro da tela. — Daqui a uma hora Rhodan chegará com a Drusus. Ao que parece, não pretende ficar muito tempo em Terrânia. Pretende colher algumas informações e decolar imediatamente.
E daí? — perguntou Bell laconicamente. Tinha um pressentimento de que sua ingenuidade fingida não adiantaria muito. — O que é que nós temos com isso?
O sorriso de Freyt tornou-se mais intenso.
Posso transmitir-lhe uma notícia bastante agradável. Uma das instruções de Rhodan determina que o senhor e Gucky compareçam a bordo da Drusus assim que a mesma pousar. Acho que é só o que tenho a lhe comunicar. Desejo-lhe um domingo muito agradável. A tela apagou-se.
Um domingo agradável — repetiu Bell em tom furioso e lançou um olhar vingativo para o videofone. — Depois de três dias de licença já posso deixar tudo isto para trás.
Olhou em torno.
Vuzi! — gritou. — Vuzi, onde está você?
Gucky soltou um gemido e saiu saltitando, para liquidar tudo que tinha que ser liquidado numa situação como esta. Precisaria programar tanto o robô jardineiro como o mordomo automático. Além disso, queria evitar um encontro direto com Vuzi, o porquinho-bassê de Vênus. Bell se apaixonara por esse animalzinho engraçado e o levava para tudo quanto era lugar. Pelo menos em Terrânia.
Vuzi aproximou-se e saltou para cima de Bell. Realmente era parecido com um cão bassê, mas tinha pernas mais compridas, um rabo encaracolado e focinho de porco. Os “indivíduos” de sua espécie viviam nas florestas pantanosas de Vênus e logo compreenderam que poderiam levar uma vida melhor, se assumissem atitudes amistosas para com os seres da raça humana.
Vamos dar o fora daqui, Vuzi. Nossas férias chegaram ao fim.
Vuzi compreendeu e esticou o rabo encaracolado de tão alegre que se sentiu. Logo depois sua pequena cauda voltou abruptamente ao formato anterior. E tal movimento repetiu-se por várias vezes.
Dali a uma hora Bell, Gucky e Vuzi estavam sentados no turbocarro, pacificamente reunidos, e deslizaram a uma velocidade cada vez maior pela pista lisa da estrada que ia para Terrânia.
Enquanto se aproximavam da cidade, ouviram acima de suas cabeças o tremendo trovejar dos propulsores. Os lampejos ofuscantes empalideceram o sol. Finalmente a gigantesca esfera Drusus destacou-se do azul do céu, foi crescendo rapidamente e acabou pousando bem ao longe, no espaçoporto.
As férias realmente pareciam ter chegado ao fim.
Pelo menos por ora...
2



O comandante Wilmar Lund não tinha a menor idéia quanto aos motivos por que ele e seus tripulantes tiveram de interromper subitamente o curso que estavam fazendo. Consideravam esse curso uma espécie de licença a ser passada em Venus City, e por isso não se esforçavam muito.
No mesmo dia em que chegou a ordem vinda de Terrânia, Lund e seus homens subiram a bordo do cruzador Arctic e decolaram em direção à Terra. Chegaram ao planeta natal sem quaisquer incidentes e pousaram no espaçoporto de Terrânia, estacionando sua nave junto à gigantesca Drusus, que geralmente era considerada a nave capitania de Rhodan.
Lund começou a desconfiar de que não era por acaso que sua chegada coincidia com a presença da Drusus. Recapitulou os acontecimentos das últimas semanas e meses o mais rápido que pôde, mas não encontrou uma explicação. Cometeu um erro ao não recuar nove meses.
Na sala de comando recebeu ordens para colocar a Arctic no hangar da Drusus e dirigir-se o mais rápido possível ao edifício da administração de Terrânia. Perry Rhodan já o esperava.
Lund despertou de uma espécie de devaneio. Deu suas instruções e entrou no turbocarro, que se encontrava estacionado junto à nave. O veículo, dirigido automaticamente, levou-o à cidade numa velocidade tremenda. Atravessou as comportas da abóbada energética sem ser submetido a qualquer controle e subiu os largos degraus do edifício quadrado, que costumava ser considerado o centro nervoso do sistema solar.
Foi recebido pelo Marechal Freyt em pessoa, que o levou ao gabinete de Rhodan. No corredor encontraram-se com alguns membros do Exército de Mutantes, que pareciam estar preparados para a partida. Lund reconhecia essa disposição. Havia alguma coisa no ar.
Assim que Lund entrou no gabinete, Rhodan levantou-se. Estendeu-lhe a mão como se fossem velhos amigos. Sabia que, para Rhodan, todo colaborador era um amigo e que o chefe sempre oferecia um tratamento afetuoso. Era este um dos motivos por que qualquer um deles enfrentaria o pior dos perigos, desde que Rhodan o pedisse.
Agradeço-lhe por ter vindo tão depressa, Lund. O senhor já conhece mister Bell, e não tenho necessidade de apresentar Gucky. Ele esteve presente naquela oportunidade; pertenceu ao grupo.
Alguma coisa remexeu na memória de Lund.
Gucky estava com eles?”, indagou-se, tentando rememorar-se.
Depois de cumprimentar Bell e Gucky, acomodou-se na poltrona que lhe foi oferecida. Aguardou em silêncio. Não teve de esperar muito tempo.
Daquela vez em que o senhor foi buscar Gucky, que retornava de uma missão, e o trouxe de volta à Terra, o senhor se encontrou com uma nave arcônida que ia à deriva — principiou Rhodan com um sorriso de quem sabe de tudo. — Conforme constava do diário de bordo, tal nave parecia ter sido abandonada pela tripulação e ia à deriva. Já se lembra? Lund fez que sim.
Muito bem. O senhor registrou a velocidade e a rota?
Lund voltou a fazer um gesto afirmativo. Não tinha a menor idéia do porquê da pergunta.
Será que me esqueci de alguma coisa?”, pensou apreensivo?
Mas Rhodan tranqüilizou-o ao prosseguir:
Os dados estão armazenados no computador positrônico da Arctic?
Estão, sim senhor. Era meu dever armazená-los e, além disso, Gucky o exigiu expressamente. Seria possível que, mais tarde, se desejasse voltar a examinar aquela velha nave. Sua posição pode ser determinada a qualquer momento, se é nisso que o senhor está interessado.
Rhodan fez que sim.
É exatamente isso, Lund. Ainda bem que o senhor se lembra. Acho que está na hora de Gucky lhe contar a verdade. Há nove meses ele o enganou.
Gucky escorregou para fora da poltrona, que lhe era muito grande. Aproximou-se e saltou para cima do colo de Lund.
Você não está zangado comigo, não é, Lundizinho? — perguntou num pio e fez o conhecido jogo de olhos, ao qual ninguém conseguia resistir. — Levei quatro horas examinando aquela nave misteriosa, e você ficou muito admirado. Quatro horas para examinar uma nave vazia! Bem, na verdade não estava vazia. Ela abriga dez mil arcônidas vivos.
Lund respirava nervosamente.
Ah, é? E você não me disse nada? Por quê?
Porque além desses dez mil havia mais cem mil arcônidas guardados num frigorífico, esperando que alguém os acordasse. Como são tantos, isso só poderia ser feito num planeta adequado, pois, do contrário, haveria uma catástrofe. É este um dos motivos por que guardei o segredo para mim. Talvez o senhor insistisse em querer examinar a nave...
Lund acenou lentamente com a cabeça. Estava compreendendo.
Você tem razão, Gucky. Eu teria insistido num exame rigoroso; não poderia agir de outra forma. E agora? O que vamos fazer?
Quem respondeu foi Rhodan.
Árcon precisa de gente capaz, que fortaleça seu império. Quem melhor para isso que os arcônidas adormecidos na nave dos antepassados? Trata-se de homens e mulheres da velha estirpe. Uma vez que estão hibernando, conservaram sua capacidade física e psicológica. Atlan pediu-me que levasse a nave para Árcon. Foi por isso que mandei chamá-lo, comandante.
Lund levantou-se.
Quer que lhe forneça imediatamente as coordenadas? Providenciarei para que...
Iremos com o senhor, Lund — interrompeu-o Rhodan. — A Arctic já está guardada no hangar da Drusus. Decolaremos e calcularemos as coordenadas, enquanto estivermos saindo do sistema solar. Não temos um minuto a perder. Está preparado?
Naturalmente, sir. Acontece que o senhor tinha pouco tempo.
Tenho bastante tempo — tranqüilizou-o Rhodan. — Bell e Gucky estão ansiosos para descobrir a nave. Andaram vadiando por bastante tempo junto ao lago de Goshun.
Bell esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas resolveu ficar calado e lançou um olhar de súplica a Gucky.
O rato-castor falou, demonstrando alegria.
Isso mesmo. Não existe nada mais enjoado que um período de férias junto ao lago de Goshun. Estou satisfeito por estarmos novamente... ora, não adianta. Perry, você pode ser um telepata muito bom, mas...
Era verdade, embora a capacidade telepática de Rhodan tivesse seus limites. O chefe soltou uma risada bonachona.
Não se preocupe com as tulipas e as cenouras. É possível que amanhã ou depois já tenhamos rebocado a nave dos antepassados até Árcon, e você esteja de volta para sua casa. Até lá suas plantas prediletas não deverão morrer de sede.
A última afirmativa era verdadeira. Mas as outras não.

* * *

O sistema solar foi desaparecendo atrás da Drusus à velocidade da luz. Todos aguardavam a transição que estava iminente.
Lund, Rhodan, Bell e Gucky encontravam-se diante do computador de navegação, no interior da pequena sala de comando da Arctic. O banco de dados forneceu as informações desejadas. As faixas de plástico caíam por cima da mesa e Lund as empurrava para dentro do dispositivo de processamento.
A distância é de aproximadamente vinte mil anos-luz — constatou Bell. — É uma bela distância para um salto preciso. O essencial é que os cálculos constantes dos dados armazenados no computador sejam corretos. Se for assim, deveremos localizar imediatamente a nave que segue à deriva.
Por que não a encontraríamos? — perguntou Rhodan. — Os instrumentos funcionam perfeitamente e não é de supor que Lund tenha cometido um erro.
Posso garantir a exatidão das informações, sir — disse Lund um tanto surpreso.
Rhodan colocou a mão sobre seu ombro.
Ninguém duvida disso.
Realmente, ninguém duvidava. Acontece que a alma humana se alimenta de ceticismo. Sem este, sente-se vazia e abandonada. Além disso...
É possível que a nave tenha modificado a velocidade ou a rota — conjeturou Bell.
Gucky pisou fortemente nos seus pés.
Você já está agourando de novo, gorducho? Encontraremos a nave exatamente no lugar calculado, ou eu...
Calou-se de repente. Bell lançou-lhe um olhar de desafio.
Ou o quê?
Não obteve resposta, pois nesse momento o setor de processamento de dados começou a emitir seus estalidos. As informações interpretadas chegaram em forma de uma finíssima folha perfurada. Rhodan pegou-a e leu:
Setor BV-37-C-99,19-997,983 AL. Era só.
Lund sentiu-se aliviado.
Quer dizer que até aí está tudo claro. Estamos preparados.
Rhodan enfiou o cartão perfurado no bolso. Dirigiu-se a Lund.
Mantenha a Arctic pronta para decolar, Lund. É possível que mais tarde venhamos precisar do cruzador como nave-reboque. Sua proa possui os raios de rastreamento que nos permitirão abrir as escotilhas de carga da nave arcônida, se é que esta as tem.
Rhodan e Bell atravessaram o corredor do cruzador e passaram pelo hangar. O elevador levou-os em poucos minutos à sala de comando da Drusus, onde o Coronel Sikermann já os esperava impaciente. O rato-castor, que se teleportara para esse lugar, estava sentado sobre o sofá. Negara-se a prestar quaisquer informações, e foi por isso que Sikermann quase chocou-se com os homens que entravam, quando perguntou:
Então? Tem todos os dados, sir?
Sim, temos os dados — respondeu Rhodan e entregou-lhe o cartão perfurado. — O resto depende do senhor, que é o comandante.
O coronel pegou o cartão, examinou-o e sem dizer uma palavra passou-o ao primeiro-oficial, que o colocou no computador. Os cálculos foram iniciados automaticamente. Os dados já processados, transformados em faixas de plástico coloridas, foram introduzidos no autômato que controlava o hipersalto.
Sikermann acomodou-se no assento do piloto.
O sol já se transformara numa estrela amarela. Rhodan e Lund conversavam baixinho nos fundos da sala de comando. Provavelmente o administrador estava respondendo a algumas perguntas do comandante do cruzador, a fim de satisfazer-lhe a curiosidade. Bell estava sentado no sofá, ao lado de Gucky. Os dois amigos mostravam-se extraordinariamente pacatos e silenciosos.
Quando viu algumas lâmpadas se acenderem, Sikermann olhou para os controles.
A transição foi marcada — disse. — O salto será realizado dentro de dois minutos.
Num gesto instintivo Rhodan passou a mão pela nuca. Lembrou-se da dor da transição, que era o único aspecto desagradável do hipersalto, e da desmaterialização ligada ao mesmo.
Não demorará muito, e essa dor não mais acontecerá”, pensou. “Os planos do sistema de hiperpropulsão linear, que Ernst Ellert roubou em Druufon, já se encontram nas mãos dos cientistas terranos. Eles trabalham na construção do novo propulsor. Não demorará muito, e a primeira nave capaz de desenvolver velocidade superior à da luz, independentemente de qualquer transição, estará apta para realizar seu vôo experimental em Terrânia.”
Falta um minuto!
Para Perry Rhodan, o método do hipersalto fora, durante vários decênios, o único meio de atingir sistemas estelares situados a vários anos-luz. Mas, subitamente, os druufs apareceram com suas naves que não se desmaterializavam, mas ultrapassavam simplesmente a velocidade da luz e prosseguiam no seu vôo. Não ficavam sujeitas a qualquer dilatação temporal, o que contrariava todas as leis de Einstein.
Embora Rhodan considerasse o hipersalto como o melhor método, sempre sonhara com a possibilidade de, durante o salto, continuar enxergando todo o espaço... Ansiava pelo momento que pudesse ver as estrelas passarem pelas escotilhas, em vez de mergulhar no nada invisível da desmaterialização.
Dez segundos! Nove... oito... sete...
O salto foi realizado com a maior precisão e sem incidentes. Quando a Drusus voltou a materializar-se com tudo que se encontrava em seu interior, a hipernave se encontrava exatamente no local previsto. As estrelas eram mais numerosas que as vistas da Terra e estavam mais próximas umas das outras. A ausência de qualquer matéria reduzida a pó nesse setor do Universo fazia com que algumas das manchas luminosas das galáxias afastadas se transformassem em brilhantes espirais perfeitamente visíveis, que pareciam girar lentamente. Era uma visão que o homem preso à Terra nunca conseguia imaginar perfeitamente, por mais fantasia que possuísse. Era uma visão que tornava ridícula a idéia da presença exclusiva do homem no Universo e fazia com que sentisse a presença de Deus. A Terra poderia ser um produto da natureza, resultante do acaso. Mas o Universo, com todos os sóis chamejantes, era uma criação bem meditada.
Rhodan desprendeu-se da visão que sempre o fascinava. Sua voz estava um pouco rouca, quando disse:
Ligue os instrumentos de observação, coronel. Pelos cálculos a nave não pode estar a mais de zero vírgula cinco anos-luz do ponto em que nos encontramos.
Os instrumentos começaram a funcionar. Num raio de meio ano-luz. Isso era fácil de dizer, mas significava uma coisa tão imensa. Uma área de um ano-luz de diâmetro tinha de ser revistada em busca de um ponto que media um quilômetro e meio. E a busca tinha de ser realizada nas três dimensões.
Dali a cinco horas tiveram certeza. Num raio de meio ano-luz não havia qualquer porção de matéria sólida que fosse maior que um grão de ervilha.
O Coronel Sikermann parecia um tanto perplexo.
Não compreendo, sir. Os instrumentos estão funcionando perfeitamente. Quem sabe se o computador positrônico da Arctic não cometeu algum erro?
Impossível! — protestou Lund em tom enérgico. — As observações que realizamos em dezembro de 2.043 foram exatas. Gucky poderá confirmar o fato a qualquer momento.
Sem dúvida posso confirmar! — disse o rato-castor, empertigando o corpo e fitando Sikermann com um olhar de recriminação. — Será que o senhor quer dizer que eu e Lund somos irresponsáveis?
Ninguém nem ao menos pensou numa coisa dessas, Gucky! — disse o chefe, em tom áspero. — Devemos continuar serenos e procurar resolver o enigma. Se nossos cálculos forem todos corretos e a nave dos arcônidas não puder ser encontrada neste setor, só pode haver uma explicação. E devemos encarar a mesma com o espírito realista.
Lund manteve-se em silêncio. Seu raciocínio recusava-se a aceitar a terrível conclusão.
Um tanto apreensivo, Sikermann indagou:
O senhor acredita que a nave dos antepassados modificou a velocidade ou a rota? Isso seria...
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Sim, é isso mesmo. As coisas estão muito ruins. Como poderemos encontrá-la na imensidão do espaço? Não há pistas, pois ninguém pode deixar uma pista no nada.
Um silêncio constrangedor espalhou-se entre os presentes. Cada um seguia seus próprios pensamentos e suposições. Evidentemente seria inútil repetir as buscas no mesmo setor, porque os instrumentos de observação eram praticamente infalíveis. Não poderiam ter cometido qualquer engano. E os dados armazenados na Arctic também eram corretos; não havia a menor dúvida.
Concluía-se que a nave dos antepassados se havia desviado da rota e aumentara consideravelmente a sua velocidade.
Talvez possuísse um hiperpropulsor?
Rhodan dirigiu-se a Gucky.
Gucky, você esteve naquela nave. Pôde constatar se seria possível ela possuir um aparelho de hipersalto?
O rato-castor lamentou-se.
Sinto muito, Perry. Não pude realizar um exame minucioso do interior da nave. Tive muito o que fazer para libertar os passageiros do domínio dos robôs. Encontrei os antepassados em estado de hibernação e esclareci os acontecimentos aos que estavam acordados. Não posso afirmar com certeza se existe um hiperpropulsor. Sei que os oficiais nunca pensaram em tal aparelho. Ao que suponho, eles também não sabiam.
Nesse caso devemos concluir que só o descobriram depois de você ter deixado a nave. Talvez quisessem dirigir-se ao sistema solar mais próximo, para poderem sair da nave.
Estavam voando à velocidade inferior à da luz — disse Gucky. — Se tivessem mantido a rota, só alcançariam um sistema solar dali a duzentos anos. Talvez a demora lhes parecesse excessiva. Afinal, já estavam voando há dez mil anos.
Lund levantou os olhos. Via-se que refletia intensamente. Parecia ter uma idéia.
O senhor não acaba de dizer que ninguém pode deixar uma pista no nada? Tem tanta certeza disso?
Rhodan retribuiu o olhar de Lund e um sorriso fugaz passou por seu rosto severo.
Veja só! Quase que me esqueço! Os rastreadores estruturais registram todo e qualquer hipersalto e introduzem os respectivos dados no arquivo positrônico central de Terrânia. Se a nave dos antepassados executou um hipersalto no ano passado, este deve constar desse arquivo. E não é só isso. Também poderemos saber a que distância saltou a nave, talvez em que direção, e se o salto foi repetido. Obrigado, Lund. Como vê, também sou apenas um homem.
Ainda bem — piou Gucky, que se encontrava em ponto mais afastado, e enrolou-se gostosamente. — Imagine se fosse um rato-castor...

* * *

Quando a Drusus pousou em Terrânia, a atividade febril do dia-a-dia já voltara a reinar na grande metrópole. Os veículos e pedestres percorriam apressadamente as ruas. Os táxis planadores passavam a pequena altura acima dos telhados, conduzindo passageiros aos subúrbios ou às fábricas.
O arquivo positrônico ficava embaixo da abóbada energética.
Rhodan entrou no edifício ao lado de Lund e Bell. Pegou o elevador e subiu ao respectivo pavimento. Um homem de capa branca comprida recebeu-os.
Já preparamos tudo, sir — disse o arquivista em tom solícito. — Queiram acompanhar-me.
Vá à frente, Dirscherl. O senhor conhece isto aqui melhor que eu. Afinal, seu trabalho consiste em neutralizar os erros dos outros por meio da manipulação de cifras.
Não apenas os erros sir.
O técnico em cibernética ganhou um corredor. À esquerda e à direita, os armários achavam-se abarrotados de folhas plásticas de informações.
Dirscherl parou. Apontou para um dos armários.
Aqui se encontram os registros relativos à distância de 19-997 a 19-998 anos-luz. Acho que a direção BV-37-C é a que o senhor está procurando.
Pode dar uma olhada — animou-o Bell, em tom sarcástico.
Rhodan aguardou tranqüilo, mas Lund parecia bastante nervoso. Esperava ansiosamente que o fichário confirmasse a hipótese da mudança de rota da nave dos antepassados.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html