terça-feira, 23 de agosto de 2016

P-087 - As Cavernas do Sono - William Voltz [Parte 1]

Autor
WILLIAM VOLTZ



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN



Dois mil estranhos no Império Solar! Era a cabeça-de-ponte da invasão galáctica...



Uma espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan, foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e a pedra angular do Império Solar.
O fato de que este Império — minúsculo em comparação com as demais potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez das Galáxias — e também à sorte, que como fato permanente é exclusiva dos fortes.
No entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de ruptura iminente...
E qual será o mistério que está por trás, ou melhor, no interior das Cavernas do Sono?





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Maurice DunbeeUm homem fraco, que se transforma num valente lutador.

Richard KennofPara quem a ruína econômica serve de título de legitimação para ser admitido nas cavernas do sono.

Owen CavanaughFundador da Companhia do Sono.

Dr. Le Boeuf e Dr. Fedor PiotrowskiMédicos da CIS.

Shane HardistonAgente do Serviço de Segurança Solar.

Dunc ClinkskateUm homem que traiu a Terra.


1

Bem acima de Dunbee, ouvia-se o burburinho constante e enervante do plasma celular. Se ele quisesse tocar nos recipientes, bastaria estender a mão. Porém, ao tentar, seus dedos cravaram-se no chão arenoso, tatearam trêmulos por cima da terra entrecortada e recuaram assustados, diante da frieza de uma pedra lisa.
Maurice Dunbee gemeu. Esforçou-se em vão para reprimir o sentimento de pavor que dominava sua mente. Mais uma vez procurou tirar o corpo dolorido e cansado de baixo da caixa. A vontade de fugir tornava-se cada vez mais intensa. Respirando com dificuldade, rastejou alguns metros. Em algum lugar — a seu lado ou atrás — ouvia o borbulhar do líquido contido no grande recipiente de plástico.
Haviam desligado a luz; a caverna estava mergulhada na escuridão. Era só uma questão de tempo para que o prendessem e levassem de volta. Sabia que estava muito fraco para lutar. Rastejou mais um pouco, embora estivesse cônscio da inutilidade de seus esforços. Um cheiro forte e corrosivo enchia o ar abafado da caverna. Talvez tivessem introduzido um gás sonífero na mesma, a fim de dominá-lo sem qualquer risco. Dunbee sorriu. Era apenas mais um fracasso na série de insucessos que marcara sua vida.
Aqui está encolhido Maurice Dunbee, o fraco!”, pensou.
Apoiou-se sobre os braços e perscrutou a escuridão.
Será que já estão chegando? Será que o próximo segundo trará o fim? Será que utilizarão armas paralisadoras?”, voltou a refletir.
Subitamente um ruído diferente cortou a escuridão. Dunbee sentiu-se estarrecido. Uma voz metálica, estridente, soou em meio à escuridão:
Dunbee! Qualquer resistência será inútil! Desista, Dunbee! Dois funcionários da CIS irão buscá-lo!
Dunbee levantou-se de um salto. Bateu com o ombro contra a borda do recipiente e cambaleou. Saiu correndo, dominado por um medo selvagem. A caverna parecia tomada pelo barulho. Ouviu as pisadas dos homens que corriam, o arfar de pulmões cansados e vozes que gritavam seu nome, pedindo-lhe que parasse.
Esbarrou numa rocha saliente e recuperou a plena consciência de si mesmo. Exausto, encostou-se à pedra. Não havia ninguém por perto. Seu corpo débil tremia como se estivesse sendo sacudido por uma febre.
Tenha juízo, Dunbee! Viemos para ajudá-lo!
Pois é”, pensou Dunbee. “O problema é justamente este. Durante toda vida deixei que os outros me ajudassem sem nunca fazer nada por minha conta.”
Resignado, fechou os olhos. Seus pensamentos recuaram ao dia em que pela primeira vez solicitara o auxílio da Companhia Intertemporal do Sono.

* * *

Entre, Mr. Dunbee — disse Curteen, dirigindo-se ao homenzinho que se encontrava na ante-sala. — Agora tenho tempo para falar com o senhor.
Um tanto constrangido, Dunbee levantou-se e largou a revista ilustrada tridimensional. Curteen fez um gesto para convidá-lo a entrar no escritório.
Lester Curteen era vice-diretor da S/A Sabonetes de Pó Estelar. Era alto e esbelto. Seus olhos eram cobertos por lentes de aderência.
Faça o favor de sentar-se — disse Curteen, enquanto mexia distraidamente em alguns papéis sobre sua mesa.
Depois de algum tempo, exclamou em tom de satisfação:
Ah, está aqui! O senhor já está trabalhando há mais de dez anos em nossa firma, Mr. Dunbee. Sempre ficamos muito satisfeitos com o senhor. Nunca tivemos problemas.
Dunbee engoliu em seco e acenou com a cabeça. No seu íntimo admirava o desembaraço de Curteen.
Ficamos muito gratos por sua colaboração — afirmou o vice-diretor. — Naturalmente fazemos votos de que conserve seu emprego por muito tempo.
Dunbee esfregou nervosamente as mãos.
Em tom hesitante observou:
Na semana passada, Mr. Vadelange saiu da firma, Mr. Curteen. Foi o chefe da Seção de Recrutamento. Eu... Até agora sempre se adotou o costume de promover o funcionário mais antigo, quando há um cargo vago.
Curteen fitou-o por cima da mesa. Havia em seus olhos uma expressão estranha, um brilho suave que logo se apagou. Finalmente só restou a voz gentil de Curteen.
É verdade, Mr. Dunbee. Normalmente o senhor seria o sucessor de Mr. Vadelange — hesitou um instante. — Mas asseguro-lhe que no momento é totalmente impossível encontrar uma pessoa que possa fazer seu trabalho. Por isso temos de pedir-lhe que continue no mesmo posto. Mr. Priest ocupará o lugar de Vadelange enquanto não encontrarmos um elemento que possa desincumbir-se dos trabalhos que estão sendo realizados pelo senhor.
Compreendo — disse Dunbee em tom amargurado. — Então será Priest!
Curteen levantou-se, contornou a mesa e deu uma palmadinha no ombro de Dunbee.
Naturalmente o senhor passará a receber imediatamente o ordenado de chefe de seção — anunciou.
Naturalmente — repetiu Dunbee em tom automático.
Sabia que poderíamos contar com sua compreensão face à situação em que se encontra nossa Seção de Recrutamento — disse Curteen com um sorriso.
Dunbee levantou-se devagar.
Peço minha demissão — disse em tom inseguro.
No mesmo dia escreveu à Companhia Intertemporal do Sono e formulou uma solicitação para uma sonoterapia de trezentos anos.
A CIS fora fundada cerca de um ano antes pelo comerciante Cavanaugh. Geralmente era conhecida como Companhia do Sono. Cavanaugh, que se intitulava como salvador da vida de pessoas desiludidas, descobrira com o auxílio de vários cientistas um novo método de sonoterapia profunda. Autorizado pelo Ministério do Interior, adquiriu uma área de terras situada em Wyoming, nas proximidades do Parque Nacional de Yellowstone, na qual havia várias cavernas vulcânicas de milhares de anos. Não existia lugar mais adequado para um sono biológico tranqüilo.
Num prazo curtíssimo, Cavanaugh mandou adaptar as cavernas. Instalaram-se gigantescos recipientes, nos quais se guardava o plasma celular dentro do qual mais tarde os “fregueses” de Cavanaugh dormiriam à espera de um futuro melhor. Uma campanha publicitária sem precedentes convenceu outras pessoas a aderirem à idéia de Cavanaugh.
Por que um homem fracassado não poderia atravessar alguns anos mergulhado num sono profundo, a fim de, no futuro, dispor de novas energias para realizar coisas espantosas?
O governo não viu qualquer motivo para intervir nessa atividade, pois Cavanaugh seguia estritamente as normas médicas. A CIS estava em condições de submeter-se a qualquer tipo de fiscalização pelos funcionários do Ministério do Interior. E a imprensa também prestou sua contribuição para popularizar a idéia desse empresário. No dia da inauguração das cavernas do sono, algumas centenas de pretendentes se acotovelaram junto à recepção.
Dunbee estava lembrado de uma entrevista que Cavanaugh concedera a um repórter de televisão. Quando este pediu a Cavanaugh que se manifestasse sobre as críticas formuladas contra suas atividades, o empresário respondeu com a maior tranqüilidade:
Não sei por que criticam minha idéia. Ofereço um futuro feliz a pessoas infelizes. Será que há algum mal nisso?
Dunbee era um homem infeliz. De seu matrimônio com Jeanne não haviam resultado filhos. E com a idade de 48 anos não era de esperar que alcançasse maiores êxitos em sua profissão. Sentiu-se incompreendido pela esposa. O mundo lhe parecia frio e cruel.
Quinze dias depois de ter formulado sua proposta, Dunbee recebeu um convite da CIS para apresentar-se em Wyoming, a fim de ser submetido aos exames preliminares.
E foi assim que Maurice Dunbee desapareceu de Dubose, tão silenciosa e discretamente como havia vivido.

* * *

Seu nome era M'Artois. Os cabelos pretos e ondulados estavam entremeados de fios prateados. Quando ria, inúmeras rugas surgiam nos cantos dos olhos. Sua voz era sonora. Tinha um jeito peculiar de prender o polegar da mão direita no cós das calças. Usava paletó branco, muito bem talhado, com uma camisa colorida por baixo do mesmo.
O senhor sabe por que veio até aqui? — disse, dirigindo-se a Dunbee. — Em sua carta diz que quer ser mantido em sono profundo durante trezentos anos. É o maior tempo admissível. O tempo mínimo de sono por nós proporcionado é de cinqüenta anos. O senhor está em condições de arranjar a soma de três mil solares?
Embora a quantia fosse relativamente reduzida, representava boa parte da poupança de Dunbee. Não fora sem um certo sentimento de culpa que retirara certa quantia de sua conta. A viagem para Wyoming não contribuíra para aumentar seu sentimento de segurança. Tinha a impressão de ter traído Jeanne. Talvez estivesse satisfeita por ele ter saído de sua vida. Na carta de despedida pedira-lhe que tivesse compreensão pela sua atitude.
Tenho o dinheiro comigo — disse. M'Artois — sentado sobre um ridículo artefato de plástico que, sob o peso de seu corpo, ameaçava desmoronar a qualquer momento — acenou com a cabeça.
Sou psicólogo, Mr. Dunbee — disse.
A palestra que estou mantendo com o senhor faz parte de meu trabalho. A empresa não pretende martirizá-lo com perguntas. Porém, temos de adotar certas precauções. Acontece que não podemos assumir qualquer risco.
Dunbee respondeu com certa impaciência:
Estou pronto.
Um sorriso de compreensão surgiu no rosto de M'Artois.
O senhor já relatou minuciosamente a situação em que se encontra — observou. — Acredita que é um indivíduo instável, que falhou na vida. As dificuldades profissionais e os problemas conjugais desgastaram seu corpo e seus nervos. A firma em que trabalhava não deu valor a seu serviço, e sua esposa não demonstrou muita paciência com o senhor. Não tem filhos. Quase não nos contou nada de positivo que tenha feito — o tom de sua voz tornou-se mais insistente. — Apesar de tudo acredito, Mr. Dunbee, que o senhor deveria tentar mais uma vez.
Constantemente procurei controlar esta minha vida com as fracas forças de que disponho — disse Dunbee em tom de desânimo. — Estou no fim.
O colaborador da CIS refletiu por um instante.
Quem sabe se o senhor não é sensível demais? — conjeturou. — Não acha que deveria procurar reconhecer os aspectos positivos de sua existência? Seu padrão de vida não foi nada mau. Procure chegar a um acordo com sua esposa, descubram interesses comuns e façam uma viagem.
A viagem até aqui foi a última — respondeu Dunbee em tom decidido.
M'Artois respondeu em tom preocupado:
Está bem! Parece que sua decisão é definitiva. Levá-lo-ei ao Dr. Waterhome, que cuidará dos exames médicos. O senhor há de compreender que só poderemos aceitá-lo se for fisicamente são.
Saiu do escritório juntamente com Dunbee. Atravessaram uma sala grande e dirigiram-se ao corredor principal do edifício situado em Cheyenne, no qual funcionava a CIS. Encontraram-se com alguns funcionários e um robô, que carregava uma pilha de pastas. Dunbee procurou olhar pela janela. Era um dia chuvoso. As vidraças estavam embaçadas pela chuva e pela neblina.
Subitamente, M'Artois perguntou sem qualquer motivo aparente:
O senhor nunca sofreu nenhuma amputação, Mr. Dunbee?
Dunbee parou.
Não, por quê?
O sorriso de M'Artois, que desaparecera por alguns segundos, voltou.
Uma das normas deste estabelecimento determina que não se aceitam pessoas que tenham sofrido amputações. Esqueci de mencionar isso durante nossa palestra — explicou o psicólogo.
Dunbee perguntou a si mesmo por que motivo um homem ao qual faltasse uma parte do corpo não poderia ser posto a dormir. Mas preferiu não manifestar a indagação.
Isso tem certa relação com as funções orgânicas — comentou ligeiramente o psicólogo, depois de algum tempo. — O Dr. Waterhome poderá explicar melhor, caso esteja interessado.
Abriu uma porta e convidou Dunbee a entrar numa minúscula sala. Uma mulher loura, muito jovem, cumprimentou-os com um gesto de cabeça. Estava sentada atrás de uma mesa redonda e, ao que parecia, não tinha muito o que fazer, pois Dunbee sentiu que ela o fitava intensamente.
Este é Mr. Dunbee — disse M'Artois, fazendo a apresentação. — Por favor anuncie-o ao Dr. Waterhome, Miss Laura.
Apertou o braço de Dunbee.
Desejo-lhe boa sorte.
Antes que Dunbee pudesse responder, o homem desapareceu. A loura disse, falando devagar:
Há alguém na sua frente.
Não tenho pressa — respondeu Dunbee.
Pensou em Jeanne. Sentiu uma angústia interior. Se a CIS o deixasse dormir por trezentos anos, sua esposa estaria morta quando voltasse para Dubose. Para Dubose, aquela cidade miserável, com o pomposo edifício da S/A Sabonetes de Pó Estelar. Como seria dentro de trezentos anos?
Imaginou como teria ficado Jeanne depois de encontrar sua carta. Teve a impressão de ver seus olhos sérios e escuros, e ouvir sua voz: “Oh, Maurice, por que fez isso?
Na verdade, ouvira apenas um zumbido vindo da mesa em que estava sentada a moça. Dunbee levantou os olhos e a jovem apontou para uma porta acolchoada.
Pode entrar para falar com o Dr. Waterhome — disse.
Dunbee tropeçou ao levantar-se e sentiu-se embaraçado ao perceber que, enquanto abria a porta, a moça o seguia com os olhos.

* * *

O exame durou mais de duas horas. O Dr. Waterhome pediu a Maurice que voltasse no dia seguinte. Até lá, os resultados seriam interpretados e então lhe diriam se poderia ser aceito pela CIS.
Dunbee voltou ao hotel e, por meio do álcool, anestesiou os nervos excitados. Pensou em escrever uma carta a Jeanne. Mas acabou não o fazendo. Dormiu completamente vestido.
Acordou muito cedo. Seu corpo parecia entrevado e sentiu um sabor desagradável na boca. Nem mesmo a ducha-massagem o fez sentir-se melhor.
Seu estado só se modificou dali a algumas horas, quando M'Artois lhe comunicou que seria levado para as cavernas da CIS e por lá ficaria durante trezentos anos. Sentiu-se como um morto...

* * *

Todos os pintores do mundo pareciam ter-se reunido a nordeste de Wyoming, a fim de dar um colorido todo especial à paisagem. Bem embaixo de Dunbee, o Yellowstone River corria que nem uma serpente azul, entre os gigantescos desfiladeiros.
O piloto fez o helicóptero descer um pouco.
Daqui a instantes chegaremos ao parque nacional — disse, dirigindo-se a Dunbee. — É lá que ficam as covas da Companhia do Sono.
Dunbee estremeceu ao ouvir a palavra cova. Apenas para dizer alguma coisa perguntou:
O senhor nasceu em Wyoming?
O piloto riu.
O senhor talvez não acredite, mas o fato é que nasci na Lua. É uma coisa espantosa, não acha?
Dunbee concordou em tom amável. Gostaria de conversar sobre seus problemas pessoais, mas receava que aquele homem não fosse demonstrar a necessária compreensão pelos mesmos.
Por que faz isso? — perguntou o outro de repente. — Por que vai deixar que o ponham para dormir?
Agora, que tinha oportunidade para falar sobre isso, Dunbee não soube o que dizer.
Não precisa contar — disse o esbelto acompanhante de Dunbee. — Sempre tenho uma sensação estranha ao levar gente como o senhor.
Que sensação? — perguntou Dunbee.
O condutor do pequeno veículo fitou-o de lado. Estava muito sério.
Acho que há algo de errado com aquilo — disse. — Não pense que quero meter-lhe medo. Afinal, a CIS me paga muito bem. Já notou o preço muito baixo que eles cobram?
O que quer dizer com isso? A sociedade opera racionalmente e calcula seus custos com muito rigor. É perfeitamente normal que pratique preços razoáveis, a fim de conseguir clientes.
Acontece que o tal do Cavanaugh é um negociante muito sagaz — disse o piloto. — Nunca fará um negócio para sair perdendo. Pense bem. Recebo quase quarenta solares por cada vôo. Ainda há o custo dos exames, as despesas administrativas e a manutenção das cavernas. Não vejo como pode sobrar algum lucro. Às vezes chego a pensar que alguém financia Cavanaugh pelas experiências que realiza.
Pelas experiências? — perguntou Dunbee em tom de perplexidade.
Talvez tudo isso não passe de uma experiência que, se for bem sucedida, será ampliada para dar um bom dinheiro.
Dunbee respondeu em tom indignado:
Assinei um contrato cujos termos foram autorizados pelo Ministério do Interior. As cavernas são regularmente inspecionadas por competentes funcionários. É verdade que a responsabilidade por eventuais erros médicos cabe a mim mesmo, mas isso é perfeitamente compreensível.
O piloto preferiu não prosseguir na discussão. Para ele, o assunto parecia liquidado. Dunbee, que gostaria de conversar mais, teve de contentar-se com observações relativas à paisagem. Depois de algum tempo, o piloto da CIS apontou para um grande complexo rochoso.
É ali — disse.
Não vejo nada... nenhum edifício — comentou Dunbee em tom de decepção.
Procurou esticar o pescoço.
Com exceção do campo de pouso, o restante das instalações se encontra no interior das cavernas — explicou o piloto. — O senhor se admirará ao ver quanto espaço existe no interior das escavações.
O helicóptero foi perdendo altura.
À esquerda deles, surgiu o campo de pouso, incrustado na mata. O homem vindo de Dubose viu um caminho que levava do campo até a rocha. Era lá que deviam ficar as câmaras de dormir.
Um nervosismo inexplicável apoderou-se de sua mente. Seu coração começou a bater mais depressa e suas mãos esfregaram-se nervosamente. Logo atrás do mato, uma bandeira vermelha tremulava ao vento. As iniciais da companhia estavam impressas nela em letras amarelas. Dunbee teve a impressão de que se tratava do último cumprimento vindo desse mundo banhado pelo sol. Só retornaria à superfície dali a trezentos anos.
As dúvidas começaram a roê-lo. Será que realmente não haveria outra saída para o dilema?
De repente lembrou-se dos dias de verão, nos quais ficava sentado juntamente com Jeanne sobre a cobertura de sua casa. Uma brisa suave soprava das montanhas, mexendo com o cabelo de sua mulher e trazendo o cheiro da terra molhada. Vez por outra costumava fumar seu cachimbo ou tomar uma cerveja.
São estas as coisas insignificantes do dia-a-dia”, pensou. “Por que só agora compreendo quanto significavam para mim?
Procurou controlar-se e sacudiu as idéias. Não poderia voltar atrás.
O helicóptero pousou com um solavanco. Dunbee teve uma sensação de torpor. O piloto saiu. Dois homens com jalecos azuis vieram correndo pelo campo de pouso. As iniciais CIS haviam sido bordadas na altura do peito.
É seu comitê de recepção que está chegando — disse o piloto.
Dunbee foi cumprimentado com muita cortesia. Mostrou o cartão amarelo que lhe fora entregue por M'Artois. Esse cartão lhe dava o direito de entrar nas cavernas e ocupar um lugar para dormir, uma vez cumpridos todos os requisitos.
Os dois colaboradores da CIS deram a entender que pretendiam levá-lo o quanto antes até as cavernas. Dunbee despediu-se do piloto e seguiu os dois homens.
Dali a pouco, Dunbee constatou que havia três entradas separadas que levavam para os subterrâneos. Mostravam um bom acabamento e estavam bem construídas. O chão era liso e muito limpo. O tamanho das aberturas na rocha variava. Pela menor delas não poderiam entrar mais de quatro pessoas de cada vez. Evidentemente essa circunstância não permitia qualquer conclusão sobre a extensão das cavernas.
A porta do centro leva às câmaras de dormir — explicou um dos homens. — As outras dão para as salas de recepção e o setor administrativo. Nós moramos junto ao setor administrativo, pois durante os exames seríamos apenas um estorvo. Só os médicos costumam ficar nas proximidades dos recipientes.
Dunbee gostaria de obter outras informações, mas naquele instante chegaram à entrada atrás da qual, segundo as explicações que acabavam de ser fornecidas, ficava o setor administrativo. Uma porta automática de correr escorregou para o lado e escondeu-se na rocha trabalhada, deixando livre a vista para um corredor muito bem iluminado. As paredes e o teto eram lisos e estavam revestidos de placas.
O salão de dormir não é tão confortável — disse um dos acompanhantes.
Dunbee ouviu a leve ironia que vibrava em sua voz. Não sabia por quê, mas aquele homem queria gozá-lo.
O corredor desceu ligeiramente até terminar num recinto amplo, apoiado em colunas redondas. Umas trinta pessoas estavam sentadas atrás de escrivaninhas, de máquinas de escrever ou de calcular ou ainda junto a arquivos. Havia várias divisões separadas por paredes de vidro inquebrável. As pessoas podiam trabalhar sem que ninguém as perturbasse. Dunbee teve a impressão de que a temperatura era agradável. O ar puro penetrava incessantemente por alguma abertura invisível.
Suas observações foram interrompidas pelo aparecimento de um homem alto e forte. Era o único que usava jaleco. Dunbee teve a impressão de que a pele de seu rosto tinha algo de murcha. Quase chegava a lembrar uma maquilagem mal sucedida de sua esposa. O homem movia-se muito devagar, como se a cada passo tivesse de refletir sobre o que fazer em seguida. Seus olhinhos quase chegavam a desaparecer atrás das pestanas sem cílios. Dunbee sentiu certa repulsa instintiva diante do aspecto desse homem.
Olá, Mr. Dunbee — disse o homem a título de cumprimento. — Meu nome é Dunc Clinkskate. Sou, por assim dizer, o chefe deste escritório.
Sorriu.
Dunbee teve de esforçar-se para continuar a olhar para ele.
Empurrou delicadamente Dunbee entre duas paredes de vidro e fechou a porta, que também era transparente. Quando pôde sentar-se, Dunbee sentiu-se aliviado. Tinha a impressão de que todos interromperam o trabalho para fitá-lo. Pigarreou de constrangimento.
Clinkskate disse:
É meu dever lembrar-lhe mais uma vez o contrato assinado pelo senhor. Deve ser obedecido por ambas as partes. Espero que tenha lido com a necessária atenção. Quaisquer erros médicos não serão de responsabilidade da CIS. No entanto, garantimos seu bem-estar durante o tempo em que estiver dormindo. O senhor assinou um contrato pelo prazo de trezentos anos. Durante esse tempo as funções de seus órgãos serão reduzidas a um mínimo quase imperceptível. Seu corpo boiará num líquido que costumamos chamar de plasma celular. O efeito desse líquido é duplo.
De um lado garante que, durante o tempo de sono, o senhor não estará sujeito a qualquer influência perturbadora. Além disso tem um efeito rejuvenescedor sobre as células; pode ser considerado um tipo de substância nutritiva. Vários eletrodos serão aplicados em seu corpo, e estes transmitirão a intervalos regulares certos estímulos aos seus órgãos, a fim de que não se debilitem nem atrofiem. Desde logo devo chamar sua atenção para as primeiras semanas que se seguirem ao momento do despertar. Serão muitíssimo desagradáveis, pois seu corpo terá de acostumar-se lentamente ao desempenho das suas funções primitivas. Quando isso acontecer já terei morrido, mas o senhor se lembrará do que estou lhe dizendo. Mesmo então, o senhor poderá contar com a assistência ininterrupta dos nossos médicos.”
Dunbee achou que essas palavras não eram nada consoladoras. Agora, que estava prestes a realizar seu desejo, a vida que até então levara lhe parecia muito atraente.
Clinkskate, que não tomou conhecimento da nova disposição de ânimo de seu interlocutor, abriu os braços, como se quisesse apresentar um país das maravilhas.
O processo de adormecimento virá acompanhado de alguns fenômenos colaterais que lhe poderão parecer absurdos, Mr. Dunbee. Naturalmente seu corpo terá de ser preparado. Inúmeras providências tornam-se necessárias. Não se assuste. Sua cabeça será raspada e o senhor será submetido a alguns testes extremamente desagradáveis. É claro que por ocasião das providências que eventualmente possam provocar dores, o senhor estará inconsciente. E antes do início do adormecimento, propriamente dito, o senhor será anestesiado.
Clinkskate soube formular esses esclarecimentos como se aludisse a favores especiais, que representariam um alívio para Dunbee. No ânimo deste surgiu uma voz de advertência, que a partir da palestra com o piloto se tornava cada vez mais insistente. O antigo técnico de propaganda não conseguiu identificar o mal-estar que sentia. A CIS e seus colaboradores causavam em Dunbee uma impressão que poderia transformar-se em verdadeira desconfiança. Lembrou-se dos funcionários do Ministério do Interior que fiscalizavam a empresa. Sem dúvida as investigações eram dignas de confiança.
Pode mudar de roupa, Mr. Dunbee — disse Clinkskate, interrompendo as reflexões sombrias de seu interlocutor. — Receberá uma vestimenta especial.
Quem dera que eu estivesse em Dubose”, pensou Dunbee.

* * *

O ruído fez com que Dunbee retornasse imediatamente ao presente. Reteve a respiração e aguçou o ouvido. Não havia a menor dúvida. Em algum lugar, no interior da caverna, alguém batera uma porta. Agarrou-se firmemente à rocha e procurou romper a escuridão total com os olhos ardentes. O ruído monótono do líquido no recipiente chegou ao seu ouvido. Alguém entrara na caverna para prendê-lo. A idéia de que uma mão implacável, vinda da escuridão, pudesse agarrá-lo, levou-o a um estado próximo ao pânico.
Alguém não estava tateando nas proximidades? Uma sombra não vinha em sua direção?
Uma lufada de ar passou sobre o rosto de Dunbee. Seu grito de dor refletiu-se num eco múltiplo nas inúmeras curvas da caverna. Estendeu as mãos para a frente, mas não havia ninguém.
Ter-se-ia assustado com uma pedra que rolara? Estendeu as mãos e saiu tateando. Depois que haviam desligado as luzes, só conseguia orientar-se pelos ruídos dos recipientes. Em algum lugar a água pingava do teto. A rocha era fria e áspera. Esforçou-se para não pensar naquilo que vira há algumas horas. Fugira apavorado.
Ploc, um; ploc, dois; ploc, três.
Dunbee descobriu que estava contando os pingos que caíam. Bateu com o queixo numa rocha saliente e o traje disforme em que o haviam metido rasgou-se.
Que dose de medo o homem poderia suportar, antes de enlouquecer?
Dunbee tinha certeza de que estava próximo ao seu limite de tolerância. Pensou em pegar uma pedra grande e abrir um furo no recipiente, mas não dispunha da energia psíquica para um ato dessa espécie.
Teve a impressão de que a luz era uma flecha chamejante. Cambaleou. Estreitou os olhos doloridos e teve de fazer um esforço tremendo para formar esta idéia: “Alguém acendeu uma lanterninha e dirigiu a luz sobre mim!
Caiu de joelhos, choramingando de desapontamento. A luz deslizou sobre seu corpo, sobre aquele montículo indefeso de tragédia humana.
Olá, Dunbee! — disse uma voz indiferente de trás da lanterninha.
Um vulto saiu da escuridão. Era um guarda. A luz girou no espaço, atingiu rochas e pedras cinzentas, tremeu por cima do chão arenoso e voltou para Dunbee.
Vamos! — disse o guarda laconicamente.
Indicou o caminho que tomariam, e que os levaria de volta à sala de preparativos. De repente, a vontade de resistir surgiu na mente de Dunbee. Ao levantar-se, sua mão fechada segurou uma pedra. Precisava tentar! Sabia que sua situação era desesperadora. De qualquer maneira acabariam pondo as mãos nele. Restava saber como e quando isso aconteceria.
Enquanto caminhava junto ao guarda, pensou que já deveria ter voltado bem antes, quando Clinkskate o levou para junto dos médicos que se encontravam na sala de preparativos...
Recordou-se mais uma vez da cena...
Trajava uma vestimenta especial de cor branca, da qual Clinkskate lhe falara. Era feita de duas peças e estava presa ao corpo com faixas largas. Esperara que no caminho para o próximo setor fosse retornar ao ar livre, mas as cavernas estavam ligadas por corredores subterrâneos.
Talvez tenha cometido um erro ao resolver submeter-me ao processo de adormecimento — disse, dirigindo-se a Clinkskate, que caminhava uns cinqüenta centímetros à sua frente.
O homem olhou por cima do ombro e parou.
Em certo momento todos os clientes chegam a este estado — disse. — É antes o medo do desconhecido que saudades ou o desejo de voltar à vida anterior. Não leve isso muito a sério, Dunbee.
Subitamente, um quadro surgiu na mente de Dunbee. Viu Jeanne sorridente, correndo por um prado de flores — em sua direção. Naturalmente nunca a vira assim, mas Dunbee tinha certeza de que ela faria isso, se ele voltasse e lhe comunicasse haver desistido. Aliás, deveria ter conversado muito mais com ela.
Não — disse em tom resoluto. — Quero voltar para Dubose.
Tolice — gritou Clinkskate em tom contrariado. Virou-se e agarrou o braço de Dunbee com força, a fim de arrastá-lo. — O senhor tem de superar isso. Se voltar a Dubose, todo o sofrimento começará de novo.
Dunbee deixou-se arrastar meio a contragosto. Ao que parecia, Clinkskate não estava disposto a aceitar suas ponderações. Talvez estivesse com a razão. Dunbee resolveu não resistir mais.
Pois então — disse Clinkskate. Sacudiu a cabeça de Dunbee, a fim de animá-lo. — Entregá-lo-ei ao Dr. Le Boeuf, que certamente saberá alegrá-lo. E ainda poderá contar com o Dr. Piotrowski e seus ajudantes. Além disso, encontrará algumas enfermeiras...
Dunbee não compreendeu o que havia de tão alegre nisso, mas o fato é que Clinkskate sorriu. Acontece que na CIS todo mundo sorria, sempre que havia oportunidade para isso.
São pessoas muito amáveis”, pensou Dunbee. “Talvez sejam amáveis demais.”
De repente, o corredor terminou. Clinkskate mexeu no fecho de uma grande porta de correr. O recinto abobadado que surgiu atrás da porta era estranho sob todos os pontos de vista. Estendia-se em todas as direções — inclusive para baixo. Havia elevadores que ligavam os diversos pavimentes. Tudo que pudesse fornecer uma indicação de que a pessoa se encontrava embaixo da terra fora cuidadosamente removido.
Nesta sala, as pessoas são preparadas para serem colocadas nos grandes recipientes de plástico onde serão postas a dormir — disse Clinkskate. — É imponente, não acha?
Pelo que Dunbee pôde ver, as instalações eram limpas e modernas. Havia inúmeras máquinas e aparelhos cujas finalidades dificilmente se conseguiria adivinhar.
Dispomos de geradores próprios — disse Clinkskate em tom de orgulho. — O senhor vai constatar que possuímos a mesma autonomia de uma grande cidade. Nós mesmos fornecemos a energia com que trabalhamos. O senhor está vendo todas as instalações técnicas. As cavernas de dormir também são controladas a partir daqui. Julgamos conveniente não colocar perto das pessoas adormecidas qualquer tipo de equipamento que possa perturbá-las. Neste pavimento encontram-se todas as máquinas necessárias ao suprimento energético das câmaras de dormir e outras dependências. Um pouco abaixo do lugar em que nos encontramos trabalha o Dr. Le Boeuf e sua equipe. O senhor logo travará conhecimento com ele. Faça o favor de acompanhar-me até o elevador.
O elevador levou-os para baixo. Dunbee percebeu que por ali havia principalmente instalações médico-sanitárias.
Aí vem o doutor! — exclamou Clinkskate.
Dunbee viu um pequeno homem sardento que se aproximava a passos curtos e rápidos.
Este é o Dr. Le Boeuf — disse Clinkskate a título de apresentação.
Dunbee ficou fascinado ao ver que as sobrancelhas espessas do médico se contraíam.
O senhor não parece nada sonolento — observou Le Boeuf.
Dunbee ficou perguntando a si mesmo se era esse tipo de humor que, na opinião de Clinkskate, deveria alegrá-lo. Clinkskate retirou-se discretamente, deixando Dunbee entregue ao seu destino que, por enquanto, sob a forma do humor grosseiro do Dr. Le Boeuf, ainda se mostrava misericordioso para com o homem de Dubose.

* * *

O guarda sacudiu a lanterna e desviou-se de uma pedra. Dunbee espantou as recordações. Não podia perder mais tempo. A arma primitiva que trazia consigo pesava fortemente em sua mão.
Cuidado! — gritou com a voz rouca. — Lá na frente!
O homem estacou de repente e dirigiu a luz para a frente. Dunbee avançou com o braço levantado e golpeou. Sentiu a resistência, quando o punho fechado atingiu o alvo. Por um momento sentiu-se desesperado, pois pensou que seu plano tivesse fracassado.
Mas o guarda caiu ao chão. Deixou cair a lanterna, que se quebrou. A luz apagou-se. O silêncio voltou a reinar. Dunbee abaixou-se. Seus dedos tateantes sentiram o corpo frouxo do guarda. Dunbee tinha certeza de que aquele homem não ficaria inconsciente por muito tempo. Deveria dar-lhe mais alguns golpes. Mas ao levantar a mão, esta recusou-se a obedecer. Mesmo na situação em que se encontrava, Dunbee, que nunca fora capaz de agir com brutalidade, era um prisioneiro de sua consciência.
Viu o rosto pálido e desconhecido na escuridão. Era um rosto marcado pela brutalidade e pela violência, mas não conseguiu golpear de novo. Procurou imaginar que quem estava à sua frente era Clinkskate. Esforçou-se para retirar aquele rosto do anonimato, a fim de enfileirá-lo entre seus inimigos, mas não conseguiu.
Ao mexer-se e fazer menção de levantar-se, o guarda resolveu todos os problemas. Dunbee não perdeu mais tempo: golpeou.
Depois disso não se sentiu aliviado. Tinha a boca ressequida e a língua inchada. Sua cabeça retumbava. Deixou cair a pedra e saiu às apalpadelas, afastando-se do homem inconsciente.
O que diria Jeanne se me visse assim? Jeanne!”, refletiu e sentiu-se dominado pela amargura.
Encontrou a parede da caverna. A superfície áspera e fria tranqüilizou-o.
Ploc! Um! Ploc! Dois! Ploc! Três! Quatro, cinco, seis...
Eram os pingos de água.
Se conseguisse encontrar o lugar em que caíam os pingos, poderia esfriar o rosto ardente. Não havia mais nada que pudesse fazer.
Apenas esperar.
Não demorariam a impacientar-se e querer saber o que havia acontecido. Chamariam o guarda pelo alto-falante, e a falta de resposta lhes diria o suficiente. Da segunda vez não teriam tanta consideração.
Avançou aos tropeços junto à parede. Era um vulto gigantesco com roupas sujas. As calças rasgadas esvoaçavam em torno de um par de joelhos finos e ossudos.
O que fariam com ele quando conseguissem agarrá-lo de novo? Seria possível que os nervos superexcitados lhe tivessem pregado uma peça? Quem sabe se a CIS não era uma organização correta e decente?
Lembrou-se do que havia visto e sentiu náuseas. Não e não! Fosse qual fosse o jogo, o mesmo era mau e cruel. Quando, durante o exame, sua mente experimentou uma reação instantânea, por certo sentira instintivamente que a CIS não era aquilo que alegava ser...

* * *

Eles o haviam medido e pesado. Examinaram a pressão sangüínea, atividade cardíaca, freqüência das vibrações cerebrais, funcionamento do fígado e dos pulmões. Encheram-no de medicamentos, enquanto estava deitado sobre a mesa, quase inconsciente, com o rosto do médico diante dos olhos. Às vezes era o Dr. Le Boeuf, outras vezes o Dr. Piotrowski. Depois vieram os ajudantes e as enfermeiras. Viraram-no pelo avesso.
Eletrodos foram conectados ao seu corpo, fios e sondas foram introduzidos no mesmo.
Ouviu a voz do Dr. Piotrowski, estridente como a de uma criança:
O que acha, doutor?
Seguiram-se risadas, outras vozes, o ruído de objetos que eram empurrados sobre vidro, o tilintar de instrumentos, o zumbido misterioso de aparelhos desconhecidos.
O Dr. Le Boeuf disse:
O soro K 46!
Uma voz feminina:
Será que ele agüenta?
A risada infantil de Piotrowski. Um carrinho de direção automática zumbiu no chão e aproximou-se deles.
Uma voz de homem:
Pobre idiota!
Dunbee sobressaltou-se. Revirou os olhos. Pretendia perguntar o que estavam fazendo com ele. Sentiu uma picada na coxa. As vozes transformaram-se em ruídos confusos e desapareceram de vez...
De repente despertou. O Dr. Le Boeuf inclinou-se sobre ele. Estava sorrindo.
Muito bem — disse em tom tranqüilizador. — Daqui a pouco estará tudo liquidado.
Dunbee surpreendeu-se ao contorcer o rosto num sorriso amável.
O senhor ainda está um pouco fraco — disse o Dr. Piotrowski, que se encontrava junto ao pé da cama. — Isso logo passará. Daqui a quatro horas o senhor estará dormindo... por trezentos anos.
Mais quatro horas... e depois? As enfermeiras mexiam com alguma coisa nos fundos da sala. Quando estivesse na sua câmara não ouviria mais nenhum barulho. Seria como a morte, mas uma morte a prazo certo. Passaria trezentos anos num esquife, num estado de coma total. Não ouviria nada, não veria nada, não sentiria nenhum cheiro, nenhum sabor, não experimentaria a sensação de tato. Absolutamente nada! Mas, pelo que diziam, de certa maneira estaria vivo, enquanto boiasse no líquido viscoso de que lhe haviam falado.
Mais quatro horas!
Dunbee sentiu certa repugnância pelo lapso de tempo que lhe fora indicado. Seriam apenas quatro horas? Por que não poderiam ser sete, dez ou três dias?
Ergueu-se cautelosamente. Os médicos haviam saído da sala. Duas enfermeiras estavam de pé junto a uma prateleira e limpavam os instrumentos.
Subitamente ouviu que o Dr. Le Boeuf estava voltando. Seus ouvidos perceberam o som de seus passos curtos e apressados no chão de plástico. Parecia que a capacidade auditiva de Dunbee aumentara para várias vezes o nível anterior. O som tateante foi crescendo, retumbava em seu crânio, martirizava seus nervos e lançou-o no pânico.
Arrancou a coberta de cima do corpo. Uma das mulheres gritou. Instrumentos foram atirados para o alto.
Mais ao longe, ouviu-se a voz do Dr. Le Boeuf:
Dunbee! O senhor ficou louco? Pare!
As enfermeiras correram em sua direção. Os aventais abertos esvoaçavam como se fossem asas gigantescas.
Dunbee! — gritou Le Boeuf.
Dunbee fugiu sem pensar em nada. Derrubou uma prateleira. Vasos caíram ao chão. Seus olhos viram uma porta. As mulheres interpuseram-se em seu caminho, já estavam quase no lugar em que se encontrava. Sentiu suas mãos que queriam agarrá-lo, ouviu sua respiração pesada e a voz do médico que não cessava de gritar:
Dunbee! Dunbee! Dunbee!
Parou e empurrou-as para trás. Em seus olhos devia estar escrita a loucura, pois largaram-no com os rostos apavorados. Chegou à porta sem que ninguém o impedisse. Viu-se num corredor estreito. Seus pulmões doíam, mas continuou a correr.
Até então movera as pernas mecanicamente, sem pensar em nada. Mas agora começou a refletir. Prestou atenção ao lugar em que se encontrava. Ao que parecia, penetrava cada vez mais profundamente no interior da terra, pois as paredes e o chão já não traziam nenhum revestimento, mas exibiam seu aspecto natural e grosseiro. A iluminação mostrava-se constante. Fosse qual fosse o lugar ao qual levaria aquele corredor, ele não o conduziria à liberdade.
Em vários lugares havia escoras que seguravam o teto. Provavelmente, o caminho fora aberto à força de explosivos. Dunbee continuou a correr. Passou por cima de um pedestal, esgueirou-se entre duas colunas e prestou atenção às pedras afiadas de ambos os lados.
Não prestara atenção ao chão: Aquela galeria parecia a goela de um monstro voraz. Atirou-se desesperadamente para trás. Os pés perderam o apoio. Escorregou para dentro do buraco. Atirou as mãos para os lados, mas estas só agarraram o vazio. Cascalho e pedras acompanharam-no na queda, sua boca encheu-se de pó. Perdeu totalmente a sensação do tempo. Foi resvalando para baixo e sentiu-se incapaz de fazer qualquer coisa para impedi-lo.
Quando atingiu o solo uma eternidade parecia ter passado. Numa reflexão momentânea pensou que talvez tivesse caído no poço de ventilação de um recinto de grandes dimensões. Abriu os olhos, que ardiam devido à areia e à sujeira. Seu corpo maltratado doía.
Viu-se numa gigantesca caverna escassamente iluminada. O buraco pelo qual tinha descido ficava a seu lado, pouco acima do chão. Subia num ângulo de aproximadamente quarenta e cinco graus.
Foi então que Dunbee viu os recipientes pela primeira vez. Estavam encostados à parede que nem esquifes superdimensionados. Fez um esforço e arrastou-se para junto dos mesmos. As caixas de formato trapezoidal repousavam sobre suportes cônicos. Estavam cheias de um liquido amarelento e oleoso. Estreitas escadas de metal subiam por suas paredes. Inúmeros cabos e contatos terminavam em suas faces longitudinais. E ruídos fantasmagóricos vinham de seu interior.
Dunbee aproximou-se o suficiente de um dos recipientes para olhar para dentro do mesmo. Encostou a palma das mãos ao plástico.
Subitamente estremeceu. Boquiaberto, fitou a massa gordurosa.
O recipiente estava vazio!
Nenhuma pessoa dormia no interior do mesmo.
Onde estavam as pessoas que foram postas a dormir pela CIS? Dunbee esqueceu as dores e continuou a correr. Também no segundo esquife não viu ninguém. Nem se deu ao trabalho de examinar o terceiro.
Provavelmente, em outra caverna também havia recipientes. Deviam estar lá. A garganta de Dunbee estreitou-se. Indeciso, olhou em torno. Percebeu que a cova em que se encontrava também era acessível de maneira normal, pois nos fundos da sala viu portas entalhadas na rocha.
Suas idéias formaram um estranho modelo. Aos poucos foi-se acalmando. Sentou-se numa pedra a fim de descansar. Não poderia ficar ali para sempre. Seria preferível chamar alguém.
Não sabia por quanto tempo estivera sentado, refletindo, quando ouviu o chiado forte e malvado. Levantou os olhos.
Só o viu por um instante, mas esse instante bastou para fazer nascer o pavor em sua alma. Dunbee sentiu-se incapaz de gritar. Sacudiu-se num medo indizível.
No mesmo instante a escuridão envolveu-o. As luzes apagaram-se. Dunbee ficou sentado na pedra, soluçando.
Então é esta a coisa má da CIS! — balbuciou.
Mudo e apático de medo, Dunbee enfiou-se embaixo de um dos recipientes.
Dunbee! O senhor derrubou o guarda — disse a voz em tom de recriminação.
Derrubei, sim — respondeu Dunbee em tom obstinado.
Aqui fala Clinkskate! — disse outra voz. — Seja razoável, Dunbee! A companhia será generosa e esquecerá esse ato de nervosismo. Não haverá qualquer prejuízo para o senhor.
Dunbee soltou uma gargalhada selvagem.
Sabe o que pensei quando coloquei esse sujeito fora de ação? Imaginei que ele tivesse seu rosto, Clinkskate! Pensei que tivesse esse maldito rosto de criminoso!
O senhor está louco — gritou Clinkskate em tom nervoso.
Nada disso! — Dunbee mantinha os punhos cerrados. — Já descobri tudo sobre sua linda companhia. Onde estão as pessoas que deveriam dormir nestes recipientes? Onde estão, Mister Clinkskate?
O senhor representa um perigo para a CIS — disse Clinkskate. — Sua mente está confusa. Não vê que há anteparos de plástico que não permitem que alguém veja as pessoas que dormem nos recipientes?
Dunbee sacudiu ameaçadoramente os punhos.
Venham buscar-me! — disse. — Lutarei, Clinkskate!
Não houve resposta. As luzes débeis voltaram a ser acesas.
Dunbee manteve-se longe dos recipientes.
Quando se aproximaram, encontrava-se no centro da caverna. Segurava uma pedra em cada mão.
Eram seis!
Usavam os jalecos azuis da CIS. A expressão de seus olhos era resoluta e cruel.
Naquele instante, o indivíduo fraco que havia dentro de Dunbee morreu muitos metros abaixo da terra. E nessa hora de derrota nasceu um novo homem: Maurice Dunbee, o lutador!



2




A escada que levava ao escritório estava coberta por grossos tapetes, que abafavam todos os ruídos. Era um dia fresco e límpido do mês de abril do ano de 2.044. Da rua vinha o ruído abafado do tráfego.
Mrs. Jeanne Dunbee viu-se diante da placa cujo dono naquele instante corporificava todas as suas esperanças:

RICHARD D. KENNOF
Detetive Particular

Face ao aspecto exterior da agência, a designação de esnobista ainda seria muito suave. Um puxador de campainha antiquado, feito de cobre trabalhado, encontrava-se junto à porta. Vitrais com figuras grotescas impediam a visão para o interior do escritório. A caixa do correio era uma cabeça entalhada na madeira, cuja boca representava a fenda de entrada.
Qualquer observador só poderia supor que o dono desses objetos deveria ser um louco ou um convencido.
Mrs. Jeanne Dunbee não pensava assim. Sua mente estava ocupada exclusivamente com os problemas que a atormentavam.
Sua figura esguia parecia quebradiça. A maquilagem mal conseguia disfarçar as profundas olheiras. Um grampo de madrepérola muito simples prendia o cabelo levantado em coque. Para o observador objetivo, ela devia ter pouco mais de quarenta anos.
Acionou a campainha e assustou-se com o barulho. Uma morena magra, que usava uma peruca moderna, abriu a porta. Lançou um olhar contrariado para Mrs. Dunbee.
Tenho hora marcada — disse Jeanne.
A senhora deve ser Mrs. Dunbee — constatou a morena. — Faça o favor de entrar. Mr. Kennof deseja falar imediatamente com a senhora. Está muito interessado pelos seus problemas.
Jeanne lembrou-se de que não revelara suas preocupações a Kennof. Apenas lhe perguntara se hoje tinha tempo para ela, pois sabia que Kennof era um homem muito ocupado.
Provavelmente era uma das fórmulas de cortesia que a morena costumava usar.
A falta de gosto do interior do escritório excedia em muito a da escadaria. Três homens e duas mulheres estavam sentados atrás de mesas que imitavam o formato de um rim. Tapetes vermelhos com desenhos horríveis estavam pendurados nas paredes. O teto achava-se coberto de pinturas. Jeanne Dunbee teve a impressão de encontrar-se numa espécie de galeria de pintura. Alguns quadros, que só depois de um exame mais detido eram identificados como tais, desfiguravam a parede dos fundos daquele panorama, que era um misto de conforto e vulgaridade.
O cúmulo de tudo era representado por um vaso monstruoso, de uma feiúra a toda prova. No interior do jarro, as flores pareciam sentir a mesma coisa, pois estavam murchando. Ao menos eram naturais e não de plástico.
Jeanne, que não julgara possível um aumento desses aspectos anormais, teve de rever sua opinião assim que foi introduzida no gabinete de Kennof.
De início, seus olhos caíram sobre o próprio Kennof, vestido com um robe amarelo e refestelado numa poltrona. Depois de tudo que Jeanne ouvira sobre suas façanhas, achou-o decepcionante em toda linha.
Era corpulento, quase inchado. Os olhos quase desapareciam sob as pálpebras de buldogue. O cabelo de Kennof estava cuidadosamente repartido. O detetive era um homem alto. Dava a impressão de ser um tipo esquisitão.
Segundo os boatos que corriam, aquele homem já fora funcionário do governo. Naquele momento, Jeanne estaria disposta a jurar o contrário.
Um gato de orelhas pontudas estava deitado sobre uma almofada florida ao lado de Kennof. O animal estava enrolado e ronronava gostosamente.
A sala era um pesadelo de cores berrantes e mau gosto. Uma atração toda especial era representada por um elefante de bronze, com olhos brilhantes e uma tromba cujo tamanho não guardava a menor proporção com o resto do corpo. O aspecto desse objeto, que provocaria um sorriso irônico em qualquer outra pessoa, deveria constituir um regalo indispensável para Kennof, pois ele o colocara sobre a mesa, bem à sua frente.
Mais tarde, Jeanne constatou que aquela figura era um isqueiro.
Bom dia, Mrs. Dunbee — disse Richard Kennof com uma voz cheia e agradável.
Levantou-se para cumprimentá-la. Ofereceu-lhe uma cadeira que se destacava por certo grau de normalidade.
Kennof apontou com o dedo polegar para o gato.
É Buster, um animal extraordinário — disse em tom amoroso.
Buster espreguiçou-se, fez uma corcova, bocejou e virou ostensivamente as costas. Jeanne esforçou-se em vão para descobrir o que havia de extraordinário em Buster, com exceção de uma coleira de ouro.
O que posso fazer pela senhora? — perguntou o detetive depois que Jeanne se havia acomodado.
Jeanne refletira muito bem sobre o que pretendia dizer. Mas agora, que havia chegado o momento de falar, só conseguiu dizer uma coisa:
Meu marido desapareceu.
Kennof lançou-lhe um olhar cheio de compreensão. Entrelaçou os dedos e fez estalar as juntas.
A senhora quer que eu verifique se existe outra? — disse em tom objetivo:
Pegou uma caixa de cigarros muito enfeitada.
A senhora fuma? — perguntou. Jeanne recusou. O detetive serviu-se e ficou manipulando seu desajeitado isqueiro até que conseguiu pôr fogo no cigarro.
O motivo não tem nada a ver com outra mulher — disse Jeanne em voz baixa.
Foi para Wyoming, para que a CIS o pusesse para dormir por trezentos anos.
Kennof soltou um assobio.
A Companhia do Sono — constatou.
Os amigos dos sofredores.
Jeanne colocou uma folha de papel sobre a mesa.
É uma carta de despedida. Não pretendia mostrá-la a ninguém, mas é bom que conheça os motivos de Maurice.
Kennof leu cuidadosamente a carta, sem dizer uma palavra.
É um homem muito infeliz — disse em tom de compaixão. — Teve aborrecimentos no serviço e sentiu medo de que a senhora não pudesse amá-lo e respeitá-lo, tudo isso misturado com uma boa dose de complexo de inferioridade.
Jeanne passou a mão pelos olhos.
Sempre pensou que tivesse que realizar algo de especial para impressionar-me. Quando não conseguia, muitas vezes ficava por alguns dias num estado em que ninguém podia falar com ele. Pensou que eu ficaria zangada por causa dos seus insucessos. Naturalmente deveria ter feito mais para ajudá-lo a atravessar essas provações.
A senhora ama seu marido, Mrs. Dunbee? — perguntou Kennof em tom sério.
Amo — respondeu Jeanne convicta.
O famoso detetive fez um gesto afirmativo. Inclinou-se para o lado a fim de acariciar as orelhas de Buster.
O que posso fazer pela senhora? — perguntou.
Encontre-o — pediu Jeanne com a voz trêmula. — Vá a Wyoming e tire-o da CIS. Tenho certeza de que a esta hora já está arrependido do que fez.
Kennof deu uma tragada profunda e soprou a fumaça para o teto.
Ajudo qualquer pessoa que me procure, Mrs. Dunbee, mas preciso de alguma base legal para agir. A Terra, que é a célula-máter e uma das componentes do Império Solar, tem um regime democrático. Qualquer cidadão tem o direito de dispor de seu destino da forma que lhe pareça mais adequada. Desde que deseje, qualquer pessoa pode recorrer aos meios bioquímicos para colocar-se num estado de sono profundo. E ninguém pode impedi-lo de agir assim.
Seu marido assinou um contrato. Nada posso fazer pela senhora, pois isso iria contrariar o livre arbítrio de seu marido. Ele pagou à CIS e aceitou as condições formuladas pela mesma. O que posso fazer num caso destes? Só poderia obter esclarecimento, mas este pode ser solicitado à própria Companhia. Será que Mr. Dunbee já foi posto a dormir?”
Fez uma pausa e depois concluiu:
Compreendo seu problema, mas nada posso fazer para ajudar.
Jeanne Dunbee tirou um maço de notas do bolso.
Saquei além de nossa conta — disse. Colocou as notas sobre a mesa. — São mais de mil solares. Será que por essa quantia o senhor não estaria disposto a fazer alguma coisa que contrarie a lei?
Os olhos cinzentos do detetive fitaram o dinheiro com uma expressão pensativa.
Se a senhora fosse um homem, eu a atiraria daqui para fora — asseverou Kennof sem levantar a voz.
Passou a mão pela mesa e afastou o dinheiro.
Jeanne falou com a voz sufocada pelas lágrimas:
Pensei que o senhor talvez pudesse solicitar a aplicação do processo de adormecimento. Assim poderia entrar nas cavernas sem chamar a atenção de ninguém. Não haveria qualquer infração à lei. E o senhor poderia entrar em contato com meu marido.
Kennof parou de alisar o pêlo do gato. Fitou Jeanne como se a visse pela primeira vez. Finalmente bateu com o punho fechado na mesa.
É isso! — gritou em tom de entusiasmo. — É uma ótima idéia!
Buster soltou um miado indignado. A mulher observou o estranho comportamento de Kennof sem compreender nada.
Há três meses um dos meus clientes solicitou a aplicação do tratamento dispensado pela CIS — explicou o detetive em tom mais calmo. — A Companhia recusou, porque ele havia perdido ambas as pernas num acidente. Perguntei a um médico muito conhecido. Trata-se de um especialista nas áreas de prolongamento da vida e sonoterapia futurística. E esse homem afirma que para o processo de adormecimento não tem a menor importância que a pessoa tenha sofrido um processo de amputação ou não. Não compreendo por que a CIS não aceita um pobre coitado como este. E como se explicam os preços baixos cobrados pela organização de Cavanaugh? Acho que são irreais. Será que não são praticados apenas para atrair o maior número possível de pessoas? Por que tudo isso? Tenho certeza absoluta de que Cavanaugh não é nenhum benfeitor.
Apagou o toco de cigarro dentro de um objeto que mais se aproximava da concepção kennofiana de cinzeiro. Depois recostou-se muito satisfeito.
O caso Maurice Dunbee ocupa um lugar prioritário no escritório de detetive de Kennof — observou. — Guarde o dinheiro. O velho Dick — sem dúvida estava aludindo a si mesmo — tem um interesse pessoal no assunto.
Muito obrigada! — um grande peso saiu de cima do coração de Jeanne.
O velho Dick pigarreou fortemente. Pela primeira vez a esposa de Dunbee reconheceu o conteúdo humano que havia sob o disfarce arbitrário daquele homem. Percebeu intuitivamente que não poderia ter encontrado elemento melhor para a tarefa.
Kennof levantou o braço num gesto de advertência.
Tenho uma condição, Mrs. Dunbee!
Aceito qualquer condição — disse Jeanne.
Ninguém poderá saber disso. O assunto tem de ficar em segredo. Não poderei dar início ao jogo se correr perigo de que a senhora dê com a língua nos dentes. Diante das outras pessoas faça de conta que a senhora se conformou com o destino.
Farei isso — prometeu a mulher.
Kennof levantou-se. Buster miou por sentir-se aborrecido com a nova perturbação ao seu sossego.
Existe outro detalhe que o senhor deve conhecer — lembrou Jeanne. — Pouco depois do momento em que meu marido desapareceu para ir a Wyoming, dois indivíduos da CIS andaram em Dubose, fazendo investigações sobre Maurice. Suponho que as informações por ele fornecidas tenham sido conferidas. O senhor terá muito trabalho para enganá-los.
Esse fato é muito interessante — disse Kennof em tom pensativo. — Quando iniciar o jogo, não me esquecerei dele.
Jeanne disse em tom cordial:
Não é por puro egoísmo que lhe desejo boa sorte.
Vou precisar mesmo! — confessou o detetive. — Avisarei assim que tiver descoberto alguma coisa.
Ao despedir-se, Jeanne sentia-se muito grata. A débil esperança reacendeu-se. Sem dúvida haveria uma chance para que Maurice — ou melhor, os dois — se redimissem dos velhos erros. Assim que fechou a porta, Kennof passou a desenvolver uma atividade de que ninguém o julgaria capaz. Inclinou-se sobre o pequeno micro fone:
Benny, desligue o gravador. Quero ter uma conversa particular.
Aguardou a confirmação. Depois pegou o telefone.
O jogo começou. Kennof nem desconfiava de que a taça era a Terra.
3



Demorou algum tempo até que Kennof conseguisse a ligação. Ao contrário de outras pessoas, cujos telefones estavam equipados com uma tela de vídeo, o detetive particular contentava-se com um antiquado aparelho. Não fazia muita questão de ver seus interlocutores.
Aqui fala o velho Dick — disse Kennof.
Acho que ainda acabo enlouquecendo — disse a voz saída do fone. — Será que você já se fartou de sua atividade, que o obriga a rastejar atrás de maridos infiéis? Está arrependido e quer voltar para junto da família? O chefe ainda sonha com você e suas façanhas. Tenho certeza de que o receberá de braços abertos.
Kennof juntou as pontas do robe. Buster parecia entediado; lambia as patas e não deu a menor atenção ao dono.
Nem penso em sujeitar-me novamente a qualquer tipo de disciplina, meu caro Shane — disse Kennof. — Além disso, você logo se convencerá de que, além das investigações familiares, ainda me preocupo com outras coisas.
Shane disse em tom gelado:
Conte logo de que se trata.
Pois não — confirmou Kennof. — Desta vez o alvo do meu trabalho é a Companhia Intertemporal do Sono, também conhecida por CIS ou Companhia do Sono. Por enquanto a operação baseia-se apenas em elementos de suspeita puramente sentimentais. E, para reforçar esses elementos, quero fazer-lhe alguns pedidos...
Um momento! — interrompeu o interlocutor invisível. — O velho Dick já conhece sentimentos quando se trata de suas atividades criminalísticas?
É por causa da vida mole de paisano — disse Kennof.
Ainda há outro detalhe — prosseguiu Shane. — A CIS é um ferro quente no qual você queimará os dedos. Você se lembra do Snyder, um sujeito alto e magro do Ministério do Interior, que nos deu aquela reprimenda por causa da questão dos tóxicos?
Acredito que sim — respondeu o detetive em tom azedo.
Pois foi Snyder em pessoa quem realizou a última inspeção nas cavernas da CIS. Você acredita que, se houvesse alguma falha, a mesma lhe teria escapado?
Quem passará vergonha serei eu — ponderou Kennof. — Apenas gostaria que, quando me apresentar para ser posto a dormir, você me arranjasse certos elementos sem os quais não poderei fazer muita coisa.
O homem que se encontrava do outro lado da linha soltou uma exclamação de surpresa.
Você pretende formular uma proposta para ser posto a dormir?!
Sem dúvida. Será a maneira mais rápida e segura de atingir meu objetivo.
O homem, que Kennof tratava como Shane, manifestou certas dúvidas.
Você não será aceito, Dick — profetizou. — Você não tem problemas psicológicos nem dificuldades financeiras. Você é um homem feliz e satisfeito, e além do mais é um detetive.
Kennof enrolou o fio do telefone em torno do dedo e deixou-o cair sobre Buster.
Você me subestima — disse. — Daqui a algumas horas, terei um encontro com Gaston Hartz, que é o maior gênio financeiro da cidade. Pedirei a ele que prepare imediatamente a ruína econômica do detetive particular Richard Kennof. Requererei minha falência, os concorrentes esfregarão as mãos de contentes e Gaston brincará com meu dinheiro. Não acha que estes problemas bastariam para que uma pessoa desejasse dormir por alguns anos?
Buster procurou atingir o fio telefônico que balançava diante de seus olhos.
Não acredito que seja suficiente — respondeu Shane em tom pensativo.
Sei perfeitamente que não é suficiente — disse Kennof em tom sério. — É por isso que preciso do endereço da Célia.
Não! — a voz de Shane assumiu um tom duro.
Célia, sim! — insistiu Kennof. — Preciso de seu endereço.
Quase parecia que Shane iria desligar, mas depois de uma pausa prolongada Kennof ouviu sua voz:
Célia saiu do negócio, e não vamos mexer com isso. Você encontrará outra pessoa.
Célia é a única que me serve. Está zangada comigo por causa da história do Fainer, porque acredita que eu a tenha denunciado. Shane, não houve ninguém que lamentasse tanto quanto eu a demissão de Célia.
Ela nunca foi demitida — respondeu Shane em tom enfático.
O quê?
Foi reabilitada e saiu espontaneamente.
E qual é seu endereço? — perguntou Kennof.
Acho que se eu não lhe disser onde mora, você farejará sua pista. E estou interessado em evitar que isso aconteça.
Forneceu alguns dados a Kennof.
Obrigado — disse Kennof com um suspiro de alívio. — Prometo-lhe que a tratarei com muito cuidado. Faça o favor de contar isso a seu chefe.
Houve uma interferência na linha, que quase fez desaparecer a voz de Shane quando este indagou:
Deseja mais alguma coisa?
Acredito que conseguirei arranjar-me — disse o grande detetive em tom modesto.
O que me parece mais importante é o micro defletor, pois só com ele poderei andar pelas cavernas sem ser visto. Além disso, você talvez poderia arranjar-me um aparelho de localização. Deve ser uma versão bem discreta, talvez em forma de anel.
Só isso? — gritou Shane em tom de espanto. — Como acha que eu deva fazer isso?
Talvez possa entregar tudo no meu escritório, juntamente com um pequeno aparelho de rádio — disse Kennof sem o menor constrangimento.
Para que o aparelho de rádio? Acha que haverá problemas?
Acho. Pretendo mantê-lo informado sobre a situação, a fim de que eventualmente possa convencer seu nobre chefe a intervir.
Kennof refletiu por alguns segundos.
Naturalmente precisaremos de uma palavra-código.
Qual será? — perguntou Shane em tom curioso.
Whisky — disse Kennof em tom esperançoso. — Whisky puro!

* * *

Foi dali a quatro dias.
Os preparativos de Kennof desenvolviam-se a toda força. Depois de uma palestra com Gaston Hartz, o gênio das finanças aceitara a incumbência de apresentar a situação de Kennof de tal forma que pareceria que o detetive se arruinara em virtude de compras de ações. Hartz fez questão de que os papéis realmente fossem adquiridos, a fim de que a situação parecesse real.
Os possuidores dos títulos sem valor sentiram-se felizes por se verem livres dos mesmos e, em troca do preço, prometeram que se esqueceriam da identidade do comprador. Dessa forma, Kennof transformou-se em acionista de certas empresas, embora o valor de seu investimento fosse igual a zero.
Hartz adotou inúmeras cautelas. Depois de algum tempo, até mesmo Kennof achou perfeitamente crível que ele tivesse adquirido os papéis no curso do tempo por preços absurdos e agora não conseguisse comprador para os mesmos. Depois de um exame confidencial dos livros de Kennof, Hartz descobriu que o detetive costumava desperdiçar grandes somas na compra de antiguidades. Arranjou notas de venda, documentos e recibos. Quando leu as cifras escritas nos papéis, Kennof quase irrompeu em lágrimas.
Hartz — disse, dirigindo-se ao francês. — O senhor é um homem simpático, mas é mais esperto que um armênio. Não gostaria de ser seu inimigo.
Hartz sorriu e “provou” a Kennof que o mesmo teria de pagar uma dívida de 26 mil solares.

* * *

O sol da primavera iluminava os telhados da cidade. Kennof saiu da sombra da grande casa e dirigiu-se para a rua. Do lado oposto ficava o Bar do Tommy, imprensado entre grandes edifícios.
Embora fosse de manhã, o proprietário acendera a propaganda luminosa instalada em cima da vitrine. A mesma realizava uma luta desesperada contra a luz ofuscante do sol.
A fim de ver o carro estacionado junto ao meio-fio, Kennof virou a cabeça. Gostaria de olhar para dentro do bar, mas as cortinas do mesmo estavam fechadas.
O detetive entrou pela porta que se fechou, automaticamente, atrás dele. Em uma das cinco mesas havia um homem que descansava a cabeça nos braços. À sua frente havia uma garrafa pela metade e um copo.
Atrás de um balcão, uma mulher estava fazendo sanduíches. Não percebera a entrada de Kennof.
O detetive tomou lugar numa das grandes banquetas que havia junto ao balcão e tirou o chapéu.
Olá, Célia! — disse.
A mulher largou a faca e levantou a cabeça. Era jovem. Devia ter pouco mais de vinte e cinco anos, mas em seu rosto viam-se ligeiros sinais de cansaço.
Fitou Kennof.
O que é que você quer? — perguntou.
Em sua voz não havia raiva, mas certa indiferença. Seus cabelos compridos estavam amarrados. Célia não era muito bonita, mas não deixava de ser atraente.
Uma cerveja — pediu Kennof. — Não quero muito gelada.
Enquanto a mulher se abaixava para tirar a cerveja da geladeira, disse inesperadamente:
Shane me disse que você viria. Não quis dizer o motivo.
Kennof lançou um olhar para o homem embriagado.
O que houve com ele?
Está dormindo — respondeu, enchendo o copo de Kennof.
O detetive fitou-a calmamente. Depois de algum tempo, falou em tom indiferente:
Estou procurando uma colaboradora.
Os olhos escuros de Célia pousaram nele.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html