Autor
WILLIAM
VOLTZ
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Dois mil
estranhos no Império Solar! Era a cabeça-de-ponte da invasão
galáctica...
Uma
espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan,
foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e
a pedra angular do Império Solar.
O fato
de que este Império — minúsculo em comparação com as demais
potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se
transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples
colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas
dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez
das Galáxias — e também à sorte, que como fato permanente é
exclusiva dos fortes.
No
entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os
inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a
posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de
ruptura iminente...
E qual
será o mistério que está por trás, ou melhor, no interior das
Cavernas do Sono?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Maurice
Dunbee
— Um
homem fraco, que se transforma num valente lutador.
Richard
Kennof
— Para
quem a ruína econômica serve de título de legitimação para ser
admitido nas cavernas do sono.
Owen
Cavanaugh
— Fundador
da Companhia do Sono.
Dr. Le
Boeuf
e Dr.
Fedor Piotrowski
— Médicos
da CIS.
Shane
Hardiston
— Agente
do Serviço de Segurança Solar.
Dunc
Clinkskate
— Um
homem que traiu a Terra.
1
Bem acima
de Dunbee, ouvia-se o burburinho constante e enervante do plasma
celular. Se ele quisesse tocar nos recipientes, bastaria estender a
mão. Porém, ao tentar, seus dedos cravaram-se no chão arenoso,
tatearam trêmulos por cima da terra entrecortada e recuaram
assustados, diante da frieza de uma pedra lisa.
Maurice
Dunbee gemeu. Esforçou-se em vão para reprimir o sentimento de
pavor que dominava sua mente. Mais uma vez procurou tirar o corpo
dolorido e cansado de baixo da caixa. A vontade de fugir tornava-se
cada vez mais intensa. Respirando com dificuldade, rastejou alguns
metros. Em algum lugar — a seu lado ou atrás — ouvia o borbulhar
do líquido contido no grande recipiente de plástico.
Haviam
desligado a luz; a caverna estava mergulhada na escuridão. Era só
uma questão de tempo para que o prendessem e levassem de volta.
Sabia que estava muito fraco para lutar. Rastejou mais um pouco,
embora estivesse cônscio da inutilidade de seus esforços. Um cheiro
forte e corrosivo enchia o ar abafado da caverna. Talvez tivessem
introduzido um gás sonífero na mesma, a fim de dominá-lo sem
qualquer risco. Dunbee sorriu. Era apenas mais um fracasso na série
de insucessos que marcara sua vida.
“Aqui
está encolhido Maurice Dunbee, o fraco!”,
pensou.
Apoiou-se
sobre os braços e perscrutou a escuridão.
“Será
que já estão chegando? Será que o próximo segundo trará o fim?
Será que utilizarão armas paralisadoras?”,
voltou a refletir.
Subitamente
um ruído diferente cortou a escuridão. Dunbee sentiu-se
estarrecido. Uma voz metálica, estridente, soou em meio à
escuridão:
— Dunbee!
Qualquer resistência será inútil! Desista, Dunbee! Dois
funcionários da CIS irão buscá-lo!
Dunbee
levantou-se de um salto. Bateu com o ombro contra a borda do
recipiente e cambaleou. Saiu correndo, dominado por um medo selvagem.
A caverna parecia tomada pelo barulho. Ouviu as pisadas dos homens
que corriam, o arfar de pulmões cansados e vozes que gritavam seu
nome, pedindo-lhe que parasse.
Esbarrou
numa rocha saliente e recuperou a plena consciência de si mesmo.
Exausto, encostou-se à pedra. Não havia ninguém por perto. Seu
corpo débil tremia como se estivesse sendo sacudido por uma febre.
— Tenha
juízo, Dunbee! Viemos para ajudá-lo!
“Pois
é”,
pensou Dunbee. “O
problema é justamente este. Durante toda vida deixei que os outros
me ajudassem sem nunca fazer nada por minha conta.”
Resignado,
fechou os olhos. Seus pensamentos recuaram ao dia em que pela
primeira vez solicitara o auxílio da Companhia Intertemporal do
Sono.
*
* *
— Entre,
Mr. Dunbee — disse Curteen, dirigindo-se ao homenzinho que se
encontrava na ante-sala. — Agora tenho tempo para falar com o
senhor.
Um tanto
constrangido, Dunbee levantou-se e largou a revista ilustrada
tridimensional. Curteen fez um gesto para convidá-lo a entrar no
escritório.
Lester
Curteen era vice-diretor da S/A Sabonetes de Pó Estelar. Era alto e
esbelto. Seus olhos eram cobertos por lentes de aderência.
— Faça
o favor de sentar-se — disse Curteen, enquanto mexia distraidamente
em alguns papéis sobre sua mesa.
Depois de
algum tempo, exclamou em tom de satisfação:
— Ah,
está aqui! O senhor já está trabalhando há mais de dez anos em
nossa firma, Mr. Dunbee. Sempre ficamos muito satisfeitos com o
senhor. Nunca tivemos problemas.
Dunbee
engoliu em seco e acenou com a cabeça. No seu íntimo admirava o
desembaraço de Curteen.
— Ficamos
muito gratos por sua colaboração — afirmou o vice-diretor. —
Naturalmente fazemos votos de que conserve seu emprego por muito
tempo.
Dunbee
esfregou nervosamente as mãos.
Em tom
hesitante observou:
— Na
semana passada, Mr. Vadelange saiu da firma, Mr. Curteen. Foi o chefe
da Seção de Recrutamento. Eu... Até agora sempre se adotou o
costume de promover o funcionário mais antigo, quando há um cargo
vago.
Curteen
fitou-o por cima da mesa. Havia em seus olhos uma expressão
estranha, um brilho suave que logo se apagou. Finalmente só restou a
voz gentil de Curteen.
— É
verdade, Mr. Dunbee. Normalmente o senhor seria o sucessor de Mr.
Vadelange — hesitou um instante. — Mas asseguro-lhe que no
momento é totalmente impossível encontrar uma pessoa que possa
fazer seu trabalho. Por isso temos de pedir-lhe que continue no mesmo
posto. Mr. Priest ocupará o lugar de Vadelange enquanto não
encontrarmos um elemento que possa desincumbir-se dos trabalhos que
estão sendo realizados pelo senhor.
— Compreendo
— disse Dunbee em tom amargurado. — Então será Priest!
Curteen
levantou-se, contornou a mesa e deu uma palmadinha no ombro de
Dunbee.
— Naturalmente
o senhor passará a receber imediatamente o ordenado de chefe de
seção — anunciou.
— Naturalmente
— repetiu Dunbee em tom automático.
— Sabia
que poderíamos contar com sua compreensão face à situação em que
se encontra nossa Seção de Recrutamento — disse Curteen com um
sorriso.
Dunbee
levantou-se devagar.
— Peço
minha demissão — disse em tom inseguro.
No mesmo
dia escreveu à Companhia Intertemporal do Sono e formulou uma
solicitação para uma sonoterapia de trezentos anos.
A CIS fora
fundada cerca de um ano antes pelo comerciante Cavanaugh. Geralmente
era conhecida como Companhia do Sono. Cavanaugh, que se intitulava
como salvador da vida de pessoas desiludidas, descobrira com o
auxílio de vários cientistas um novo método de sonoterapia
profunda. Autorizado pelo Ministério do Interior, adquiriu uma área
de terras situada em Wyoming, nas proximidades do Parque Nacional de
Yellowstone, na qual havia várias cavernas vulcânicas de milhares
de anos. Não existia lugar mais adequado para um sono biológico
tranqüilo.
Num prazo
curtíssimo, Cavanaugh mandou adaptar as cavernas. Instalaram-se
gigantescos recipientes, nos quais se guardava o plasma celular
dentro do qual mais tarde os “fregueses”
de Cavanaugh dormiriam à espera de um futuro melhor. Uma campanha
publicitária sem precedentes convenceu outras pessoas a aderirem à
idéia de Cavanaugh.
Por que um
homem fracassado não poderia atravessar alguns anos mergulhado num
sono profundo, a fim de, no futuro, dispor de novas energias para
realizar coisas espantosas?
O governo
não viu qualquer motivo para intervir nessa atividade, pois
Cavanaugh seguia estritamente as normas médicas. A CIS estava em
condições de submeter-se a qualquer tipo de fiscalização pelos
funcionários do Ministério do Interior. E a imprensa também
prestou sua contribuição para popularizar a idéia desse
empresário. No dia da inauguração das cavernas do sono, algumas
centenas de pretendentes se acotovelaram junto à recepção.
Dunbee
estava lembrado de uma entrevista que Cavanaugh concedera a um
repórter de televisão. Quando este pediu a Cavanaugh que se
manifestasse sobre as críticas formuladas contra suas atividades, o
empresário respondeu com a maior tranqüilidade:
— Não
sei por que criticam minha idéia. Ofereço um futuro feliz a pessoas
infelizes. Será que há algum mal nisso?
Dunbee era
um homem infeliz. De seu matrimônio com Jeanne não haviam resultado
filhos. E com a idade de 48 anos não era de esperar que alcançasse
maiores êxitos em sua profissão. Sentiu-se incompreendido pela
esposa. O mundo lhe parecia frio e cruel.
Quinze
dias depois de ter formulado sua proposta, Dunbee recebeu um convite
da CIS para apresentar-se em Wyoming, a fim de ser submetido aos
exames preliminares.
E foi
assim que Maurice Dunbee desapareceu de Dubose, tão silenciosa e
discretamente como havia vivido.
*
* *
Seu nome
era M'Artois. Os cabelos pretos e ondulados estavam entremeados de
fios prateados. Quando ria, inúmeras rugas surgiam nos cantos dos
olhos. Sua voz era sonora. Tinha um jeito peculiar de prender o
polegar da mão direita no cós das calças. Usava paletó branco,
muito bem talhado, com uma camisa colorida por baixo do mesmo.
— O
senhor sabe por que veio até aqui? — disse, dirigindo-se a Dunbee.
— Em sua carta diz que quer ser mantido em sono profundo durante
trezentos anos. É o maior tempo admissível. O tempo mínimo de sono
por nós proporcionado é de cinqüenta anos. O senhor está em
condições de arranjar a soma de três mil solares?
Embora a
quantia fosse relativamente reduzida, representava boa parte da
poupança de Dunbee. Não fora sem um certo sentimento de culpa que
retirara certa quantia de sua conta. A viagem para Wyoming não
contribuíra para aumentar seu sentimento de segurança. Tinha a
impressão de ter traído Jeanne. Talvez estivesse satisfeita por ele
ter saído de sua vida. Na carta de despedida pedira-lhe que tivesse
compreensão pela sua atitude.
— Tenho
o dinheiro comigo — disse. M'Artois — sentado sobre um ridículo
artefato de plástico que, sob o peso de seu corpo, ameaçava
desmoronar a qualquer momento — acenou com a cabeça.
— Sou
psicólogo, Mr. Dunbee — disse.
— A
palestra que estou mantendo com o senhor faz parte de meu trabalho. A
empresa não pretende martirizá-lo com perguntas. Porém, temos de
adotar certas precauções. Acontece que não podemos assumir
qualquer risco.
Dunbee
respondeu com certa impaciência:
— Estou
pronto.
Um sorriso
de compreensão surgiu no rosto de M'Artois.
— O
senhor já relatou minuciosamente a situação em que se encontra —
observou. — Acredita que é um indivíduo instável, que falhou na
vida. As dificuldades profissionais e os problemas conjugais
desgastaram seu corpo e seus nervos. A firma em que trabalhava não
deu valor a seu serviço, e sua esposa não demonstrou muita
paciência com o senhor. Não tem filhos. Quase não nos contou nada
de positivo que tenha feito — o tom de sua voz tornou-se mais
insistente. — Apesar de tudo acredito, Mr. Dunbee, que o senhor
deveria tentar mais uma vez.
— Constantemente
procurei controlar esta minha vida com as fracas forças de que
disponho — disse Dunbee em tom de desânimo. — Estou no fim.
O
colaborador da CIS refletiu por um instante.
— Quem
sabe se o senhor não é sensível demais? — conjeturou. — Não
acha que deveria procurar reconhecer os aspectos positivos de sua
existência? Seu padrão de vida não foi nada mau. Procure chegar a
um acordo com sua esposa, descubram interesses comuns e façam uma
viagem.
— A
viagem até aqui foi a última — respondeu Dunbee em tom decidido.
M'Artois
respondeu em tom preocupado:
— Está
bem! Parece que sua decisão é definitiva. Levá-lo-ei ao Dr.
Waterhome, que cuidará dos exames médicos. O senhor há de
compreender que só poderemos aceitá-lo se for fisicamente são.
Saiu do
escritório juntamente com Dunbee. Atravessaram uma sala grande e
dirigiram-se ao corredor principal do edifício situado em Cheyenne,
no qual funcionava a CIS. Encontraram-se com alguns funcionários e
um robô, que carregava uma pilha de pastas. Dunbee procurou olhar
pela janela. Era um dia chuvoso. As vidraças estavam embaçadas pela
chuva e pela neblina.
Subitamente,
M'Artois perguntou sem qualquer motivo aparente:
— O
senhor nunca sofreu nenhuma amputação, Mr. Dunbee?
Dunbee
parou.
— Não,
por quê?
O sorriso
de M'Artois, que desaparecera por alguns segundos, voltou.
— Uma
das normas deste estabelecimento determina que não se aceitam
pessoas que tenham sofrido amputações. Esqueci de mencionar isso
durante nossa palestra — explicou o psicólogo.
Dunbee
perguntou a si mesmo por que motivo um homem ao qual faltasse uma
parte do corpo não poderia ser posto a dormir. Mas preferiu não
manifestar a indagação.
— Isso
tem certa relação com as funções orgânicas — comentou
ligeiramente o psicólogo, depois de algum tempo. — O Dr. Waterhome
poderá explicar melhor, caso esteja interessado.
Abriu uma
porta e convidou Dunbee a entrar numa minúscula sala. Uma mulher
loura, muito jovem, cumprimentou-os com um gesto de cabeça. Estava
sentada atrás de uma mesa redonda e, ao que parecia, não tinha
muito o que fazer, pois Dunbee sentiu que ela o fitava intensamente.
— Este é
Mr. Dunbee — disse M'Artois, fazendo a apresentação. — Por
favor anuncie-o ao Dr. Waterhome, Miss Laura.
Apertou o
braço de Dunbee.
— Desejo-lhe
boa sorte.
Antes que
Dunbee pudesse responder, o homem desapareceu. A loura disse, falando
devagar:
— Há
alguém na sua frente.
— Não
tenho pressa — respondeu Dunbee.
Pensou em
Jeanne. Sentiu uma angústia interior. Se a CIS o deixasse dormir por
trezentos anos, sua esposa estaria morta quando voltasse para Dubose.
Para Dubose, aquela cidade miserável, com o pomposo edifício da S/A
Sabonetes de Pó Estelar. Como seria dentro de trezentos anos?
Imaginou
como teria ficado Jeanne depois de encontrar sua carta. Teve a
impressão de ver seus olhos sérios e escuros, e ouvir sua voz: “Oh,
Maurice, por que fez isso?”
Na
verdade, ouvira apenas um zumbido vindo da mesa em que estava sentada
a moça. Dunbee levantou os olhos e a jovem apontou para uma porta
acolchoada.
— Pode
entrar para falar com o Dr. Waterhome — disse.
Dunbee
tropeçou ao levantar-se e sentiu-se embaraçado ao perceber que,
enquanto abria a porta, a moça o seguia com os olhos.
*
* *
O exame
durou mais de duas horas. O Dr. Waterhome pediu a Maurice que
voltasse no dia seguinte. Até lá, os resultados seriam
interpretados e então lhe diriam se poderia ser aceito pela CIS.
Dunbee
voltou ao hotel e, por meio do álcool, anestesiou os nervos
excitados. Pensou em escrever uma carta a Jeanne. Mas acabou não o
fazendo. Dormiu completamente vestido.
Acordou
muito cedo. Seu corpo parecia entrevado e sentiu um sabor
desagradável na boca. Nem mesmo a ducha-massagem o fez sentir-se
melhor.
Seu estado
só se modificou dali a algumas horas, quando M'Artois lhe comunicou
que seria levado para as cavernas da CIS e por lá ficaria durante
trezentos anos. Sentiu-se como um morto...
*
* *
Todos os
pintores do mundo pareciam ter-se reunido a nordeste de Wyoming, a
fim de dar um colorido todo especial à paisagem. Bem embaixo de
Dunbee, o Yellowstone River corria que nem uma serpente azul, entre
os gigantescos desfiladeiros.
O piloto
fez o helicóptero descer um pouco.
— Daqui
a instantes chegaremos ao parque nacional — disse, dirigindo-se a
Dunbee. — É lá que ficam as covas da Companhia do Sono.
Dunbee
estremeceu ao ouvir a palavra cova. Apenas para dizer alguma coisa
perguntou:
— O
senhor nasceu em Wyoming?
O piloto
riu.
— O
senhor talvez não acredite, mas o fato é que nasci na Lua. É uma
coisa espantosa, não acha?
Dunbee
concordou em tom amável. Gostaria de conversar sobre seus problemas
pessoais, mas receava que aquele homem não fosse demonstrar a
necessária compreensão pelos mesmos.
— Por
que faz isso? — perguntou o outro de repente. — Por que vai
deixar que o ponham para dormir?
Agora, que
tinha oportunidade para falar sobre isso, Dunbee não soube o que
dizer.
— Não
precisa contar — disse o esbelto acompanhante de Dunbee. — Sempre
tenho uma sensação estranha ao levar gente como o senhor.
— Que
sensação? — perguntou Dunbee.
O condutor
do pequeno veículo fitou-o de lado. Estava muito sério.
— Acho
que há algo de errado com aquilo — disse. — Não pense que quero
meter-lhe medo. Afinal, a CIS me paga muito bem. Já notou o preço
muito baixo que eles cobram?
— O que
quer dizer com isso? A sociedade opera racionalmente e calcula seus
custos com muito rigor. É perfeitamente normal que pratique preços
razoáveis, a fim de conseguir clientes.
— Acontece
que o tal do Cavanaugh é um negociante muito sagaz — disse o
piloto. — Nunca fará um negócio para sair perdendo. Pense bem.
Recebo quase quarenta solares por cada vôo. Ainda há o custo dos
exames, as despesas administrativas e a manutenção das cavernas.
Não vejo como pode sobrar algum lucro. Às vezes chego a pensar que
alguém financia Cavanaugh pelas experiências que realiza.
— Pelas
experiências? — perguntou Dunbee em tom de perplexidade.
— Talvez
tudo isso não passe de uma experiência que, se for bem sucedida,
será ampliada para dar um bom dinheiro.
Dunbee
respondeu em tom indignado:
— Assinei
um contrato cujos termos foram autorizados pelo Ministério do
Interior. As cavernas são regularmente inspecionadas por competentes
funcionários. É verdade que a responsabilidade por eventuais erros
médicos cabe a mim mesmo, mas isso é perfeitamente compreensível.
O piloto
preferiu não prosseguir na discussão. Para ele, o assunto parecia
liquidado. Dunbee, que gostaria de conversar mais, teve de
contentar-se com observações relativas à paisagem. Depois de algum
tempo, o piloto da CIS apontou para um grande complexo rochoso.
— É ali
— disse.
— Não
vejo nada... nenhum edifício — comentou Dunbee em tom de decepção.
Procurou
esticar o pescoço.
— Com
exceção do campo de pouso, o restante das instalações se encontra
no interior das cavernas — explicou o piloto. — O senhor se
admirará ao ver quanto espaço existe no interior das escavações.
O
helicóptero foi perdendo altura.
À
esquerda deles, surgiu o campo de pouso, incrustado na mata. O homem
vindo de Dubose viu um caminho que levava do campo até a rocha. Era
lá que deviam ficar as câmaras de dormir.
Um
nervosismo inexplicável apoderou-se de sua mente. Seu coração
começou a bater mais depressa e suas mãos esfregaram-se
nervosamente. Logo atrás do mato, uma bandeira vermelha tremulava ao
vento. As iniciais da companhia estavam impressas nela em letras
amarelas. Dunbee teve a impressão de que se tratava do último
cumprimento vindo desse mundo banhado pelo sol. Só retornaria à
superfície dali a trezentos anos.
As dúvidas
começaram a roê-lo. Será que realmente não haveria outra saída
para o dilema?
De repente
lembrou-se dos dias de verão, nos quais ficava sentado juntamente
com Jeanne sobre a cobertura de sua casa. Uma brisa suave soprava das
montanhas, mexendo com o cabelo de sua mulher e trazendo o cheiro da
terra molhada. Vez por outra costumava fumar seu cachimbo ou tomar
uma cerveja.
“São
estas as coisas insignificantes do dia-a-dia”,
pensou. “Por
que só agora compreendo quanto significavam para mim?”
Procurou
controlar-se e sacudiu as idéias. Não poderia voltar atrás.
O
helicóptero pousou com um solavanco. Dunbee teve uma sensação de
torpor. O piloto saiu. Dois homens com jalecos azuis vieram correndo
pelo campo de pouso. As iniciais CIS haviam sido bordadas na altura
do peito.
— É seu
comitê de recepção que está chegando — disse o piloto.
Dunbee foi
cumprimentado com muita cortesia. Mostrou o cartão amarelo que lhe
fora entregue por M'Artois. Esse cartão lhe dava o direito de entrar
nas cavernas e ocupar um lugar para dormir, uma vez cumpridos todos
os requisitos.
Os dois
colaboradores da CIS deram a entender que pretendiam levá-lo o
quanto antes até as cavernas. Dunbee despediu-se do piloto e seguiu
os dois homens.
Dali a
pouco, Dunbee constatou que havia três entradas separadas que
levavam para os subterrâneos. Mostravam um bom acabamento e estavam
bem construídas. O chão era liso e muito limpo. O tamanho das
aberturas na rocha variava. Pela menor delas não poderiam entrar
mais de quatro pessoas de cada vez. Evidentemente essa circunstância
não permitia qualquer conclusão sobre a extensão das cavernas.
— A
porta do centro leva às câmaras de dormir — explicou um dos
homens. — As outras dão para as salas de recepção e o setor
administrativo. Nós moramos junto ao setor administrativo, pois
durante os exames seríamos apenas um estorvo. Só os médicos
costumam ficar nas proximidades dos recipientes.
Dunbee
gostaria de obter outras informações, mas naquele instante chegaram
à entrada atrás da qual, segundo as explicações que acabavam de
ser fornecidas, ficava o setor administrativo. Uma porta automática
de correr escorregou para o lado e escondeu-se na rocha trabalhada,
deixando livre a vista para um corredor muito bem iluminado. As
paredes e o teto eram lisos e estavam revestidos de placas.
— O
salão de dormir não é tão confortável — disse um dos
acompanhantes.
Dunbee
ouviu a leve ironia que vibrava em sua voz. Não sabia por quê, mas
aquele homem queria gozá-lo.
O corredor
desceu ligeiramente até terminar num recinto amplo, apoiado em
colunas redondas. Umas trinta pessoas estavam sentadas atrás de
escrivaninhas, de máquinas de escrever ou de calcular ou ainda junto
a arquivos. Havia várias divisões separadas por paredes de vidro
inquebrável. As pessoas podiam trabalhar sem que ninguém as
perturbasse. Dunbee teve a impressão de que a temperatura era
agradável. O ar puro penetrava incessantemente por alguma abertura
invisível.
Suas
observações foram interrompidas pelo aparecimento de um homem alto
e forte. Era o único que usava jaleco. Dunbee teve a impressão de
que a pele de seu rosto tinha algo de murcha. Quase chegava a lembrar
uma maquilagem mal sucedida de sua esposa. O homem movia-se muito
devagar, como se a cada passo tivesse de refletir sobre o que fazer
em seguida. Seus olhinhos quase chegavam a desaparecer atrás das
pestanas sem cílios. Dunbee sentiu certa repulsa instintiva diante
do aspecto desse homem.
— Olá,
Mr. Dunbee — disse o homem a título de cumprimento. — Meu nome é
Dunc Clinkskate. Sou, por assim dizer, o chefe deste escritório.
Sorriu.
Dunbee
teve de esforçar-se para continuar a olhar para ele.
Empurrou
delicadamente Dunbee entre duas paredes de vidro e fechou a porta,
que também era transparente. Quando pôde sentar-se, Dunbee
sentiu-se aliviado. Tinha a impressão de que todos interromperam o
trabalho para fitá-lo. Pigarreou de constrangimento.
Clinkskate
disse:
— É meu
dever lembrar-lhe mais uma vez o contrato assinado pelo senhor. Deve
ser obedecido por ambas as partes. Espero que tenha lido com a
necessária atenção. Quaisquer erros médicos não serão de
responsabilidade da CIS. No entanto, garantimos seu bem-estar durante
o tempo em que estiver dormindo. O senhor assinou um contrato pelo
prazo de trezentos anos. Durante esse tempo as funções de seus
órgãos serão reduzidas a um mínimo quase imperceptível. Seu
corpo boiará num líquido que costumamos chamar de plasma celular. O
efeito desse líquido é duplo.
“De um
lado garante que, durante o tempo de sono, o senhor não estará
sujeito a qualquer influência perturbadora. Além disso tem um
efeito rejuvenescedor sobre as células; pode ser considerado um tipo
de substância nutritiva. Vários eletrodos serão aplicados em seu
corpo, e estes transmitirão a intervalos regulares certos estímulos
aos seus órgãos, a fim de que não se debilitem nem atrofiem. Desde
logo devo chamar sua atenção para as primeiras semanas que se
seguirem ao momento do despertar. Serão muitíssimo desagradáveis,
pois seu corpo terá de acostumar-se lentamente ao desempenho das
suas funções primitivas. Quando isso acontecer já terei morrido,
mas o senhor se lembrará do que estou lhe dizendo. Mesmo então, o
senhor poderá contar com a assistência ininterrupta dos nossos
médicos.”
Dunbee
achou que essas palavras não eram nada consoladoras. Agora, que
estava prestes a realizar seu desejo, a vida que até então levara
lhe parecia muito atraente.
Clinkskate,
que não tomou conhecimento da nova disposição de ânimo de seu
interlocutor, abriu os braços, como se quisesse apresentar um país
das maravilhas.
— O
processo de adormecimento virá acompanhado de alguns fenômenos
colaterais que lhe poderão parecer absurdos, Mr. Dunbee.
Naturalmente seu corpo terá de ser preparado. Inúmeras providências
tornam-se necessárias. Não se assuste. Sua cabeça será raspada e
o senhor será submetido a alguns testes extremamente desagradáveis.
É claro que por ocasião das providências que eventualmente possam
provocar dores, o senhor estará inconsciente. E antes do início do
adormecimento, propriamente dito, o senhor será anestesiado.
Clinkskate
soube formular esses esclarecimentos como se aludisse a favores
especiais, que representariam um alívio para Dunbee. No ânimo deste
surgiu uma voz de advertência, que a partir da palestra com o piloto
se tornava cada vez mais insistente. O antigo técnico de propaganda
não conseguiu identificar o mal-estar que sentia. A CIS e seus
colaboradores causavam em Dunbee uma impressão que poderia
transformar-se em verdadeira desconfiança. Lembrou-se dos
funcionários do Ministério do Interior que fiscalizavam a empresa.
Sem dúvida as investigações eram dignas de confiança.
— Pode
mudar de roupa, Mr. Dunbee — disse Clinkskate, interrompendo as
reflexões sombrias de seu interlocutor. — Receberá uma vestimenta
especial.
“Quem
dera que eu estivesse em Dubose”,
pensou Dunbee.
*
* *
O ruído
fez com que Dunbee retornasse imediatamente ao presente. Reteve a
respiração e aguçou o ouvido. Não havia a menor dúvida. Em algum
lugar, no interior da caverna, alguém batera uma porta. Agarrou-se
firmemente à rocha e procurou romper a escuridão total com os olhos
ardentes. O ruído monótono do líquido no recipiente chegou ao seu
ouvido. Alguém entrara na caverna para prendê-lo. A idéia de que
uma mão implacável, vinda da escuridão, pudesse agarrá-lo,
levou-o a um estado próximo ao pânico.
Alguém
não estava tateando nas proximidades? Uma sombra não vinha em sua
direção?
Uma lufada
de ar passou sobre o rosto de Dunbee. Seu grito de dor refletiu-se
num eco múltiplo nas inúmeras curvas da caverna. Estendeu as mãos
para a frente, mas não havia ninguém.
Ter-se-ia
assustado com uma pedra que rolara? Estendeu as mãos e saiu
tateando. Depois que haviam desligado as luzes, só conseguia
orientar-se pelos ruídos dos recipientes. Em algum lugar a água
pingava do teto. A rocha era fria e áspera. Esforçou-se para não
pensar naquilo que vira há algumas horas. Fugira apavorado.
— Ploc,
um; ploc, dois; ploc, três.
Dunbee
descobriu que estava contando os pingos que caíam. Bateu com o
queixo numa rocha saliente e o traje disforme em que o haviam metido
rasgou-se.
Que dose
de medo o homem poderia suportar, antes de enlouquecer?
Dunbee
tinha certeza de que estava próximo ao seu limite de tolerância.
Pensou em pegar uma pedra grande e abrir um furo no recipiente, mas
não dispunha da energia psíquica para um ato dessa espécie.
Teve a
impressão de que a luz era uma flecha chamejante. Cambaleou.
Estreitou os olhos doloridos e teve de fazer um esforço tremendo
para formar esta idéia: “Alguém
acendeu uma lanterninha e dirigiu a luz sobre mim!”
Caiu de
joelhos, choramingando de desapontamento. A luz deslizou sobre seu
corpo, sobre aquele montículo indefeso de tragédia humana.
— Olá,
Dunbee! — disse uma voz indiferente de trás da lanterninha.
Um vulto
saiu da escuridão. Era um guarda. A luz girou no espaço, atingiu
rochas e pedras cinzentas, tremeu por cima do chão arenoso e voltou
para Dunbee.
— Vamos!
— disse o guarda laconicamente.
Indicou o
caminho que tomariam, e que os levaria de volta à sala de
preparativos. De repente, a vontade de resistir surgiu na mente de
Dunbee. Ao levantar-se, sua mão fechada segurou uma pedra. Precisava
tentar! Sabia que sua situação era desesperadora. De qualquer
maneira acabariam pondo as mãos nele. Restava saber como e quando
isso aconteceria.
Enquanto
caminhava junto ao guarda, pensou que já deveria ter voltado bem
antes, quando Clinkskate o levou para junto dos médicos que se
encontravam na sala de preparativos...
Recordou-se
mais uma vez da cena...
Trajava
uma vestimenta especial de cor branca, da qual Clinkskate lhe falara.
Era feita de duas peças e estava presa ao corpo com faixas largas.
Esperara que no caminho para o próximo setor fosse retornar ao ar
livre, mas as cavernas estavam ligadas por corredores subterrâneos.
— Talvez
tenha cometido um erro ao resolver submeter-me ao processo de
adormecimento — disse, dirigindo-se a Clinkskate, que caminhava uns
cinqüenta centímetros à sua frente.
O homem
olhou por cima do ombro e parou.
— Em
certo momento todos os clientes chegam a este estado — disse. — É
antes o medo do desconhecido que saudades ou o desejo de voltar à
vida anterior. Não leve isso muito a sério, Dunbee.
Subitamente,
um quadro surgiu na mente de Dunbee. Viu Jeanne sorridente, correndo
por um prado de flores — em sua direção. Naturalmente nunca a
vira assim, mas Dunbee tinha certeza de que ela faria isso, se ele
voltasse e lhe comunicasse haver desistido. Aliás, deveria ter
conversado muito mais com ela.
— Não —
disse em tom resoluto. — Quero voltar para Dubose.
— Tolice
— gritou Clinkskate em tom contrariado. Virou-se e agarrou o braço
de Dunbee com força, a fim de arrastá-lo. — O senhor tem de
superar isso. Se voltar a Dubose, todo o sofrimento começará de
novo.
Dunbee
deixou-se arrastar meio a contragosto. Ao que parecia, Clinkskate não
estava disposto a aceitar suas ponderações. Talvez estivesse com a
razão. Dunbee resolveu não resistir mais.
— Pois
então — disse Clinkskate. Sacudiu a cabeça de Dunbee, a fim de
animá-lo. — Entregá-lo-ei ao Dr. Le Boeuf, que certamente saberá
alegrá-lo. E ainda poderá contar com o Dr. Piotrowski e seus
ajudantes. Além disso, encontrará algumas enfermeiras...
Dunbee não
compreendeu o que havia de tão alegre nisso, mas o fato é que
Clinkskate sorriu. Acontece que na CIS todo mundo sorria, sempre que
havia oportunidade para isso.
“São
pessoas muito amáveis”,
pensou Dunbee. “Talvez
sejam amáveis demais.”
De
repente, o corredor terminou. Clinkskate mexeu no fecho de uma grande
porta de correr. O recinto abobadado que surgiu atrás da porta era
estranho sob todos os pontos de vista. Estendia-se em todas as
direções — inclusive para baixo. Havia elevadores que ligavam os
diversos pavimentes. Tudo que pudesse fornecer uma indicação de que
a pessoa se encontrava embaixo da terra fora cuidadosamente removido.
— Nesta
sala, as pessoas são preparadas para serem colocadas nos grandes
recipientes de plástico onde serão postas a dormir — disse
Clinkskate. — É imponente, não acha?
Pelo que
Dunbee pôde ver, as instalações eram limpas e modernas. Havia
inúmeras máquinas e aparelhos cujas finalidades dificilmente se
conseguiria adivinhar.
— Dispomos
de geradores próprios — disse Clinkskate em tom de orgulho. — O
senhor vai constatar que possuímos a mesma autonomia de uma grande
cidade. Nós mesmos fornecemos a energia com que trabalhamos. O
senhor está vendo todas as instalações técnicas. As cavernas de
dormir também são controladas a partir daqui. Julgamos conveniente
não colocar perto das pessoas adormecidas qualquer tipo de
equipamento que possa perturbá-las. Neste pavimento encontram-se
todas as máquinas necessárias ao suprimento energético das câmaras
de dormir e outras dependências. Um pouco abaixo do lugar em que nos
encontramos trabalha o Dr. Le Boeuf e sua equipe. O senhor logo
travará conhecimento com ele. Faça o favor de acompanhar-me até o
elevador.
O elevador
levou-os para baixo. Dunbee percebeu que por ali havia principalmente
instalações médico-sanitárias.
— Aí
vem o doutor! — exclamou Clinkskate.
Dunbee viu
um pequeno homem sardento que se aproximava a passos curtos e
rápidos.
— Este é
o Dr. Le Boeuf — disse Clinkskate a título de apresentação.
Dunbee
ficou fascinado ao ver que as sobrancelhas espessas do médico se
contraíam.
— O
senhor não parece nada sonolento — observou Le Boeuf.
Dunbee
ficou perguntando a si mesmo se era esse tipo de humor que, na
opinião de Clinkskate, deveria alegrá-lo. Clinkskate retirou-se
discretamente, deixando Dunbee entregue ao seu destino que, por
enquanto, sob a forma do humor grosseiro do Dr. Le Boeuf, ainda se
mostrava misericordioso para com o homem de Dubose.
*
* *
O guarda
sacudiu a lanterna e desviou-se de uma pedra. Dunbee espantou as
recordações. Não podia perder mais tempo. A arma primitiva que
trazia consigo pesava fortemente em sua mão.
— Cuidado!
— gritou com a voz rouca. — Lá na frente!
O homem
estacou de repente e dirigiu a luz para a frente. Dunbee avançou com
o braço levantado e golpeou. Sentiu a resistência, quando o punho
fechado atingiu o alvo. Por um momento sentiu-se desesperado, pois
pensou que seu plano tivesse fracassado.
Mas o
guarda caiu ao chão. Deixou cair a lanterna, que se quebrou. A luz
apagou-se. O silêncio voltou a reinar. Dunbee abaixou-se. Seus dedos
tateantes sentiram o corpo frouxo do guarda. Dunbee tinha certeza de
que aquele homem não ficaria inconsciente por muito tempo. Deveria
dar-lhe mais alguns golpes. Mas ao levantar a mão, esta recusou-se a
obedecer. Mesmo na situação em que se encontrava, Dunbee, que nunca
fora capaz de agir com brutalidade, era um prisioneiro de sua
consciência.
Viu o
rosto pálido e desconhecido na escuridão. Era um rosto marcado pela
brutalidade e pela violência, mas não conseguiu golpear de novo.
Procurou imaginar que quem estava à sua frente era Clinkskate.
Esforçou-se para retirar aquele rosto do anonimato, a fim de
enfileirá-lo entre seus inimigos, mas não conseguiu.
Ao
mexer-se e fazer menção de levantar-se, o guarda resolveu todos os
problemas. Dunbee não perdeu mais tempo: golpeou.
Depois
disso não se sentiu aliviado. Tinha a boca ressequida e a língua
inchada. Sua cabeça retumbava. Deixou cair a pedra e saiu às
apalpadelas, afastando-se do homem inconsciente.
“O
que diria Jeanne se me visse assim? Jeanne!”,
refletiu e sentiu-se dominado pela amargura.
Encontrou
a parede da caverna. A superfície áspera e fria tranqüilizou-o.
— Ploc!
Um! Ploc! Dois! Ploc! Três! Quatro, cinco, seis...
Eram os
pingos de água.
Se
conseguisse encontrar o lugar em que caíam os pingos, poderia
esfriar o rosto ardente. Não havia mais nada que pudesse fazer.
Apenas
esperar.
Não
demorariam a impacientar-se e querer saber o que havia acontecido.
Chamariam o guarda pelo alto-falante, e a falta de resposta lhes
diria o suficiente. Da segunda vez não teriam tanta consideração.
Avançou
aos tropeços junto à parede. Era um vulto gigantesco com roupas
sujas. As calças rasgadas esvoaçavam em torno de um par de joelhos
finos e ossudos.
O que
fariam com ele quando conseguissem agarrá-lo de novo? Seria possível
que os nervos superexcitados lhe tivessem pregado uma peça? Quem
sabe se a CIS não era uma organização correta e decente?
Lembrou-se
do que havia visto e sentiu náuseas. Não e não! Fosse qual fosse o
jogo, o mesmo era mau e cruel. Quando, durante o exame, sua mente
experimentou uma reação instantânea, por certo sentira
instintivamente que a CIS não era aquilo que alegava ser...
*
* *
Eles o
haviam medido e pesado. Examinaram a pressão sangüínea, atividade
cardíaca, freqüência das vibrações cerebrais, funcionamento do
fígado e dos pulmões. Encheram-no de medicamentos, enquanto estava
deitado sobre a mesa, quase inconsciente, com o rosto do médico
diante dos olhos. Às vezes era o Dr. Le Boeuf, outras vezes o Dr.
Piotrowski. Depois vieram os ajudantes e as enfermeiras. Viraram-no
pelo avesso.
Eletrodos
foram conectados ao seu corpo, fios e sondas foram introduzidos no
mesmo.
Ouviu a
voz do Dr. Piotrowski, estridente como a de uma criança:
— O que
acha, doutor?
Seguiram-se
risadas, outras vozes, o ruído de objetos que eram empurrados sobre
vidro, o tilintar de instrumentos, o zumbido misterioso de aparelhos
desconhecidos.
O Dr. Le
Boeuf disse:
— O soro
K 46!
Uma voz
feminina:
— Será
que ele agüenta?
A risada
infantil de Piotrowski. Um carrinho de direção automática zumbiu
no chão e aproximou-se deles.
Uma voz de
homem:
— Pobre
idiota!
Dunbee
sobressaltou-se. Revirou os olhos. Pretendia perguntar o que estavam
fazendo com ele. Sentiu uma picada na coxa. As vozes transformaram-se
em ruídos confusos e desapareceram de vez...
De repente
despertou. O Dr. Le Boeuf inclinou-se sobre ele. Estava sorrindo.
— Muito
bem — disse em tom tranqüilizador. — Daqui a pouco estará tudo
liquidado.
Dunbee
surpreendeu-se ao contorcer o rosto num sorriso amável.
— O
senhor ainda está um pouco fraco — disse o Dr. Piotrowski, que se
encontrava junto ao pé da cama. — Isso logo passará. Daqui a
quatro horas o senhor estará dormindo... por trezentos anos.
Mais
quatro horas... e depois? As enfermeiras mexiam com alguma coisa nos
fundos da sala. Quando estivesse na sua câmara não ouviria mais
nenhum barulho. Seria como a morte, mas uma morte a prazo certo.
Passaria trezentos anos num esquife, num estado de coma total. Não
ouviria nada, não veria nada, não sentiria nenhum cheiro, nenhum
sabor, não experimentaria a sensação de tato. Absolutamente nada!
Mas, pelo que diziam, de certa maneira estaria vivo, enquanto boiasse
no líquido viscoso de que lhe haviam falado.
Mais
quatro horas!
Dunbee
sentiu certa repugnância pelo lapso de tempo que lhe fora indicado.
Seriam apenas quatro horas? Por que não poderiam ser sete, dez ou
três dias?
Ergueu-se
cautelosamente. Os médicos haviam saído da sala. Duas enfermeiras
estavam de pé junto a uma prateleira e limpavam os instrumentos.
Subitamente
ouviu que o Dr. Le Boeuf estava voltando. Seus ouvidos perceberam o
som de seus passos curtos e apressados no chão de plástico. Parecia
que a capacidade auditiva de Dunbee aumentara para várias vezes o
nível anterior. O som tateante foi crescendo, retumbava em seu
crânio, martirizava seus nervos e lançou-o no pânico.
Arrancou a
coberta de cima do corpo. Uma das mulheres gritou. Instrumentos foram
atirados para o alto.
Mais ao
longe, ouviu-se a voz do Dr. Le Boeuf:
— Dunbee!
O senhor ficou louco? Pare!
As
enfermeiras correram em sua direção. Os aventais abertos esvoaçavam
como se fossem asas gigantescas.
— Dunbee!
— gritou Le Boeuf.
Dunbee
fugiu sem pensar em nada. Derrubou uma prateleira. Vasos caíram ao
chão. Seus olhos viram uma porta. As mulheres interpuseram-se em seu
caminho, já estavam quase no lugar em que se encontrava. Sentiu suas
mãos que queriam agarrá-lo, ouviu sua respiração pesada e a voz
do médico que não cessava de gritar:
— Dunbee!
Dunbee! Dunbee!
Parou e
empurrou-as para trás. Em seus olhos devia estar escrita a loucura,
pois largaram-no com os rostos apavorados. Chegou à porta sem que
ninguém o impedisse. Viu-se num corredor estreito. Seus pulmões
doíam, mas continuou a correr.
Até então
movera as pernas mecanicamente, sem pensar em nada. Mas agora começou
a refletir. Prestou atenção ao lugar em que se encontrava. Ao que
parecia, penetrava cada vez mais profundamente no interior da terra,
pois as paredes e o chão já não traziam nenhum revestimento, mas
exibiam seu aspecto natural e grosseiro. A iluminação mostrava-se
constante. Fosse qual fosse o lugar ao qual levaria aquele corredor,
ele não o conduziria à liberdade.
Em vários
lugares havia escoras que seguravam o teto. Provavelmente, o caminho
fora aberto à força de explosivos. Dunbee continuou a correr.
Passou por cima de um pedestal, esgueirou-se entre duas colunas e
prestou atenção às pedras afiadas de ambos os lados.
Não
prestara atenção ao chão: Aquela galeria parecia a goela de um
monstro voraz. Atirou-se desesperadamente para trás. Os pés
perderam o apoio. Escorregou para dentro do buraco. Atirou as mãos
para os lados, mas estas só agarraram o vazio. Cascalho e pedras
acompanharam-no na queda, sua boca encheu-se de pó. Perdeu
totalmente a sensação do tempo. Foi resvalando para baixo e
sentiu-se incapaz de fazer qualquer coisa para impedi-lo.
Quando
atingiu o solo uma eternidade parecia ter passado. Numa reflexão
momentânea pensou que talvez tivesse caído no poço de ventilação
de um recinto de grandes dimensões. Abriu os olhos, que ardiam
devido à areia e à sujeira. Seu corpo maltratado doía.
Viu-se
numa gigantesca caverna escassamente iluminada. O buraco pelo qual
tinha descido ficava a seu lado, pouco acima do chão. Subia num
ângulo de aproximadamente quarenta e cinco graus.
Foi então
que Dunbee viu os recipientes pela primeira vez. Estavam encostados à
parede que nem esquifes superdimensionados. Fez um esforço e
arrastou-se para junto dos mesmos. As caixas de formato trapezoidal
repousavam sobre suportes cônicos. Estavam cheias de um liquido
amarelento e oleoso. Estreitas escadas de metal subiam por suas
paredes. Inúmeros cabos e contatos terminavam em suas faces
longitudinais. E ruídos fantasmagóricos vinham de seu interior.
Dunbee
aproximou-se o suficiente de um dos recipientes para olhar para
dentro do mesmo. Encostou a palma das mãos ao plástico.
Subitamente
estremeceu. Boquiaberto, fitou a massa gordurosa.
O
recipiente estava vazio!
Nenhuma
pessoa dormia no interior do mesmo.
Onde
estavam as pessoas que foram postas a dormir pela CIS? Dunbee
esqueceu as dores e continuou a correr. Também no segundo esquife
não viu ninguém. Nem se deu ao trabalho de examinar o terceiro.
Provavelmente,
em outra caverna também havia recipientes. Deviam estar lá. A
garganta de Dunbee estreitou-se. Indeciso, olhou em torno. Percebeu
que a cova em que se encontrava também era acessível de maneira
normal, pois nos fundos da sala viu portas entalhadas na rocha.
Suas
idéias formaram um estranho modelo. Aos poucos foi-se acalmando.
Sentou-se numa pedra a fim de descansar. Não poderia ficar ali para
sempre. Seria preferível chamar alguém.
Não sabia
por quanto tempo estivera sentado, refletindo, quando ouviu o chiado
forte e malvado. Levantou os olhos.
Só o viu
por um instante, mas esse instante bastou para fazer nascer o pavor
em sua alma. Dunbee sentiu-se incapaz de gritar. Sacudiu-se num medo
indizível.
No mesmo
instante a escuridão envolveu-o. As luzes apagaram-se. Dunbee ficou
sentado na pedra, soluçando.
— Então
é esta a coisa má da CIS! — balbuciou.
Mudo e
apático de medo, Dunbee enfiou-se embaixo de um dos recipientes.
— Dunbee!
O senhor derrubou o guarda — disse a voz em tom de recriminação.
— Derrubei,
sim — respondeu Dunbee em tom obstinado.
— Aqui
fala Clinkskate! — disse outra voz. — Seja razoável, Dunbee! A
companhia será generosa e esquecerá esse ato de nervosismo. Não
haverá qualquer prejuízo para o senhor.
Dunbee
soltou uma gargalhada selvagem.
— Sabe o
que pensei quando coloquei esse sujeito fora de ação? Imaginei que
ele tivesse seu rosto, Clinkskate! Pensei que tivesse esse maldito
rosto de criminoso!
— O
senhor está louco — gritou Clinkskate em tom nervoso.
— Nada
disso! — Dunbee mantinha os punhos cerrados. — Já descobri tudo
sobre sua linda companhia. Onde estão as pessoas que deveriam dormir
nestes recipientes? Onde estão, Mister Clinkskate?
— O
senhor representa um perigo para a CIS — disse Clinkskate. — Sua
mente está confusa. Não vê que há anteparos de plástico que não
permitem que alguém veja as pessoas que dormem nos recipientes?
Dunbee
sacudiu ameaçadoramente os punhos.
— Venham
buscar-me! — disse. — Lutarei, Clinkskate!
Não houve
resposta. As luzes débeis voltaram a ser acesas.
Dunbee
manteve-se longe dos recipientes.
Quando se
aproximaram, encontrava-se no centro da caverna. Segurava uma pedra
em cada mão.
Eram seis!
Usavam os
jalecos azuis da CIS. A expressão de seus olhos era resoluta e
cruel.
Naquele
instante, o indivíduo fraco que havia dentro de Dunbee morreu muitos
metros abaixo da terra. E nessa hora de derrota nasceu um novo homem:
Maurice Dunbee, o lutador!
2
A escada
que levava ao escritório estava coberta por grossos tapetes, que
abafavam todos os ruídos. Era um dia fresco e límpido do mês de
abril do ano de 2.044. Da rua vinha o ruído abafado do tráfego.
Mrs.
Jeanne Dunbee viu-se diante da placa cujo dono naquele instante
corporificava todas as suas esperanças:
RICHARD
D. KENNOF
Detetive
Particular
Face ao
aspecto exterior da agência, a designação de esnobista ainda seria
muito suave. Um puxador de campainha antiquado, feito de cobre
trabalhado, encontrava-se junto à porta. Vitrais com figuras
grotescas impediam a visão para o interior do escritório. A caixa
do correio era uma cabeça entalhada na madeira, cuja boca
representava a fenda de entrada.
Qualquer
observador só poderia supor que o dono desses objetos deveria ser um
louco ou um convencido.
Mrs.
Jeanne Dunbee não pensava assim. Sua mente estava ocupada
exclusivamente com os problemas que a atormentavam.
Sua figura
esguia parecia quebradiça. A maquilagem mal conseguia disfarçar as
profundas olheiras. Um grampo de madrepérola muito simples prendia o
cabelo levantado em coque. Para o observador objetivo, ela devia ter
pouco mais de quarenta anos.
Acionou a
campainha e assustou-se com o barulho. Uma morena magra, que usava
uma peruca moderna, abriu a porta. Lançou um olhar contrariado para
Mrs. Dunbee.
— Tenho
hora marcada — disse Jeanne.
— A
senhora deve ser Mrs. Dunbee — constatou a morena. — Faça o
favor de entrar. Mr. Kennof deseja falar imediatamente com a senhora.
Está muito interessado pelos seus problemas.
Jeanne
lembrou-se de que não revelara suas preocupações a Kennof. Apenas
lhe perguntara se hoje tinha tempo para ela, pois sabia que Kennof
era um homem muito ocupado.
Provavelmente
era uma das fórmulas de cortesia que a morena costumava usar.
A falta de
gosto do interior do escritório excedia em muito a da escadaria.
Três homens e duas mulheres estavam sentados atrás de mesas que
imitavam o formato de um rim. Tapetes vermelhos com desenhos
horríveis estavam pendurados nas paredes. O teto achava-se coberto
de pinturas. Jeanne Dunbee teve a impressão de encontrar-se numa
espécie de galeria de pintura. Alguns quadros, que só depois de um
exame mais detido eram identificados como tais, desfiguravam a parede
dos fundos daquele panorama, que era um misto de conforto e
vulgaridade.
O cúmulo
de tudo era representado por um vaso monstruoso, de uma feiúra a
toda prova. No interior do jarro, as flores pareciam sentir a mesma
coisa, pois estavam murchando. Ao menos eram naturais e não de
plástico.
Jeanne,
que não julgara possível um aumento desses aspectos anormais, teve
de rever sua opinião assim que foi introduzida no gabinete de
Kennof.
De início,
seus olhos caíram sobre o próprio Kennof, vestido com um robe
amarelo e refestelado numa poltrona. Depois de tudo que Jeanne ouvira
sobre suas façanhas, achou-o decepcionante em toda linha.
Era
corpulento, quase inchado. Os olhos quase desapareciam sob as
pálpebras de buldogue. O cabelo de Kennof estava cuidadosamente
repartido. O detetive era um homem alto. Dava a impressão de ser um
tipo esquisitão.
Segundo os
boatos que corriam, aquele homem já fora funcionário do governo.
Naquele momento, Jeanne estaria disposta a jurar o contrário.
Um gato de
orelhas pontudas estava deitado sobre uma almofada florida ao lado de
Kennof. O animal estava enrolado e ronronava gostosamente.
A sala era
um pesadelo de cores berrantes e mau gosto. Uma atração toda
especial era representada por um elefante de bronze, com olhos
brilhantes e uma tromba cujo tamanho não guardava a menor proporção
com o resto do corpo. O aspecto desse objeto, que provocaria um
sorriso irônico em qualquer outra pessoa, deveria constituir um
regalo indispensável para Kennof, pois ele o colocara sobre a mesa,
bem à sua frente.
Mais
tarde, Jeanne constatou que aquela figura era um isqueiro.
— Bom
dia, Mrs. Dunbee — disse Richard Kennof com uma voz cheia e
agradável.
Levantou-se
para cumprimentá-la. Ofereceu-lhe uma cadeira que se destacava por
certo grau de normalidade.
Kennof
apontou com o dedo polegar para o gato.
— É
Buster, um animal extraordinário — disse em tom amoroso.
Buster
espreguiçou-se, fez uma corcova, bocejou e virou ostensivamente as
costas. Jeanne esforçou-se em vão para descobrir o que havia de
extraordinário em Buster, com exceção de uma coleira de ouro.
— O que
posso fazer pela senhora? — perguntou o detetive depois que Jeanne
se havia acomodado.
Jeanne
refletira muito bem sobre o que pretendia dizer. Mas agora, que havia
chegado o momento de falar, só conseguiu dizer uma coisa:
— Meu
marido desapareceu.
Kennof
lançou-lhe um olhar cheio de compreensão. Entrelaçou os dedos e
fez estalar as juntas.
— A
senhora quer que eu verifique se existe outra? — disse em tom
objetivo:
Pegou uma
caixa de cigarros muito enfeitada.
— A
senhora fuma? — perguntou. Jeanne recusou. O detetive serviu-se e
ficou manipulando seu desajeitado isqueiro até que conseguiu pôr
fogo no cigarro.
— O
motivo não tem nada a ver com outra mulher — disse Jeanne em voz
baixa.
— Foi
para Wyoming, para que a CIS o pusesse para dormir por trezentos
anos.
Kennof
soltou um assobio.
— A
Companhia do Sono — constatou.
— Os
amigos dos sofredores.
Jeanne
colocou uma folha de papel sobre a mesa.
— É uma
carta de despedida. Não pretendia mostrá-la a ninguém, mas é bom
que conheça os motivos de Maurice.
Kennof leu
cuidadosamente a carta, sem dizer uma palavra.
— É um
homem muito infeliz — disse em tom de compaixão. — Teve
aborrecimentos no serviço e sentiu medo de que a senhora não
pudesse amá-lo e respeitá-lo, tudo isso misturado com uma boa dose
de complexo de inferioridade.
Jeanne
passou a mão pelos olhos.
— Sempre
pensou que tivesse que realizar algo de especial para
impressionar-me. Quando não conseguia, muitas vezes ficava por
alguns dias num estado em que ninguém podia falar com ele. Pensou
que eu ficaria zangada por causa dos seus insucessos. Naturalmente
deveria ter feito mais para ajudá-lo a atravessar essas provações.
— A
senhora ama seu marido, Mrs. Dunbee? — perguntou Kennof em tom
sério.
— Amo —
respondeu Jeanne convicta.
O famoso
detetive fez um gesto afirmativo. Inclinou-se para o lado a fim de
acariciar as orelhas de Buster.
— O que
posso fazer pela senhora? — perguntou.
— Encontre-o
— pediu Jeanne com a voz trêmula. — Vá a Wyoming e tire-o da
CIS. Tenho certeza de que a esta hora já está arrependido do que
fez.
Kennof deu
uma tragada profunda e soprou a fumaça para o teto.
— Ajudo
qualquer pessoa que me procure, Mrs. Dunbee, mas preciso de alguma
base legal para agir. A Terra, que é a célula-máter e uma das
componentes do Império Solar, tem um regime democrático. Qualquer
cidadão tem o direito de dispor de seu destino da forma que lhe
pareça mais adequada. Desde que deseje, qualquer pessoa pode
recorrer aos meios bioquímicos para colocar-se num estado de sono
profundo. E ninguém pode impedi-lo de agir assim.
“Seu
marido assinou um contrato. Nada posso fazer pela senhora, pois isso
iria contrariar o livre arbítrio de seu marido. Ele pagou à CIS e
aceitou as condições formuladas pela mesma. O que posso fazer num
caso destes? Só poderia obter esclarecimento, mas este pode ser
solicitado à própria Companhia. Será que Mr. Dunbee já foi posto
a dormir?”
Fez uma
pausa e depois concluiu:
— Compreendo
seu problema, mas nada posso fazer para ajudar.
Jeanne
Dunbee tirou um maço de notas do bolso.
— Saquei
além de nossa conta — disse. Colocou as notas sobre a mesa. —
São mais de mil solares. Será que por essa quantia o senhor não
estaria disposto a fazer alguma coisa que contrarie a lei?
Os olhos
cinzentos do detetive fitaram o dinheiro com uma expressão
pensativa.
— Se a
senhora fosse um homem, eu a atiraria daqui para fora — asseverou
Kennof sem levantar a voz.
Passou a
mão pela mesa e afastou o dinheiro.
Jeanne
falou com a voz sufocada pelas lágrimas:
— Pensei
que o senhor talvez pudesse solicitar a aplicação do processo de
adormecimento. Assim poderia entrar nas cavernas sem chamar a atenção
de ninguém. Não haveria qualquer infração à lei. E o senhor
poderia entrar em contato com meu marido.
Kennof
parou de alisar o pêlo do gato. Fitou Jeanne como se a visse pela
primeira vez. Finalmente bateu com o punho fechado na mesa.
— É
isso! — gritou em tom de entusiasmo. — É uma ótima idéia!
Buster
soltou um miado indignado. A mulher observou o estranho comportamento
de Kennof sem compreender nada.
— Há
três meses um dos meus clientes solicitou a aplicação do
tratamento dispensado pela CIS — explicou o detetive em tom mais
calmo. — A Companhia recusou, porque ele havia perdido ambas as
pernas num acidente. Perguntei a um médico muito conhecido. Trata-se
de um especialista nas áreas de prolongamento da vida e sonoterapia
futurística. E esse homem afirma que para o processo de
adormecimento não tem a menor importância que a pessoa tenha
sofrido um processo de amputação ou não. Não compreendo por que a
CIS não aceita um pobre coitado como este. E como se explicam os
preços baixos cobrados pela organização de Cavanaugh? Acho que são
irreais. Será que não são praticados apenas para atrair o maior
número possível de pessoas? Por que tudo isso? Tenho certeza
absoluta de que Cavanaugh não é nenhum benfeitor.
Apagou o
toco de cigarro dentro de um objeto que mais se aproximava da
concepção kennofiana de cinzeiro. Depois recostou-se muito
satisfeito.
— O caso
Maurice Dunbee ocupa um lugar prioritário no escritório de detetive
de Kennof — observou. — Guarde o dinheiro. O velho Dick — sem
dúvida estava aludindo a si mesmo — tem um interesse pessoal no
assunto.
— Muito
obrigada! — um grande peso saiu de cima do coração de Jeanne.
O velho
Dick pigarreou fortemente. Pela primeira vez a esposa de Dunbee
reconheceu o conteúdo humano que havia sob o disfarce arbitrário
daquele homem. Percebeu intuitivamente que não poderia ter
encontrado elemento melhor para a tarefa.
Kennof
levantou o braço num gesto de advertência.
— Tenho
uma condição, Mrs. Dunbee!
— Aceito
qualquer condição — disse Jeanne.
— Ninguém
poderá saber disso. O assunto tem de ficar em segredo. Não poderei
dar início ao jogo se correr perigo de que a senhora dê com a
língua nos dentes. Diante das outras pessoas faça de conta que a
senhora se conformou com o destino.
— Farei
isso — prometeu a mulher.
Kennof
levantou-se. Buster miou por sentir-se aborrecido com a nova
perturbação ao seu sossego.
— Existe
outro detalhe que o senhor deve conhecer — lembrou Jeanne. —
Pouco depois do momento em que meu marido desapareceu para ir a
Wyoming, dois indivíduos da CIS andaram em Dubose, fazendo
investigações sobre Maurice. Suponho que as informações por ele
fornecidas tenham sido conferidas. O senhor terá muito trabalho para
enganá-los.
— Esse
fato é muito interessante — disse Kennof em tom pensativo. —
Quando iniciar o jogo, não me esquecerei dele.
Jeanne
disse em tom cordial:
— Não é
por puro egoísmo que lhe desejo boa sorte.
— Vou
precisar mesmo! — confessou o detetive. — Avisarei assim que
tiver descoberto alguma coisa.
Ao
despedir-se, Jeanne sentia-se muito grata. A débil esperança
reacendeu-se. Sem dúvida haveria uma chance para que Maurice — ou
melhor, os dois — se redimissem dos velhos erros. Assim que fechou
a porta, Kennof passou a desenvolver uma atividade de que ninguém o
julgaria capaz. Inclinou-se sobre o pequeno micro fone:
— Benny,
desligue o gravador. Quero ter uma conversa particular.
Aguardou a
confirmação. Depois pegou o telefone.
O jogo
começou. Kennof nem desconfiava de que a taça era a Terra.
3
Demorou
algum tempo até que Kennof conseguisse a ligação. Ao contrário de
outras pessoas, cujos telefones estavam equipados com uma tela de
vídeo, o detetive particular contentava-se com um antiquado
aparelho. Não fazia muita questão de ver seus interlocutores.
— Aqui
fala o velho Dick — disse Kennof.
— Acho
que ainda acabo enlouquecendo — disse a voz saída do fone. —
Será que você já se fartou de sua atividade, que o obriga a
rastejar atrás de maridos infiéis? Está arrependido e quer voltar
para junto da família? O chefe ainda sonha com você e suas
façanhas. Tenho certeza de que o receberá de braços abertos.
Kennof
juntou as pontas do robe. Buster parecia entediado; lambia as patas e
não deu a menor atenção ao dono.
— Nem
penso em sujeitar-me novamente a qualquer tipo de disciplina, meu
caro Shane — disse Kennof. — Além disso, você logo se
convencerá de que, além das investigações familiares, ainda me
preocupo com outras coisas.
Shane
disse em tom gelado:
— Conte
logo de que se trata.
— Pois
não — confirmou Kennof. — Desta vez o alvo do meu trabalho é a
Companhia Intertemporal do Sono, também conhecida por CIS ou
Companhia do Sono. Por enquanto a operação baseia-se apenas em
elementos de suspeita puramente sentimentais. E, para reforçar esses
elementos, quero fazer-lhe alguns pedidos...
— Um
momento! — interrompeu o interlocutor invisível. — O velho Dick
já conhece sentimentos quando se trata de suas atividades
criminalísticas?
— É por
causa da vida mole de paisano — disse Kennof.
— Ainda
há outro detalhe — prosseguiu Shane. — A CIS é um ferro quente
no qual você queimará os dedos. Você se lembra do Snyder, um
sujeito alto e magro do Ministério do Interior, que nos deu aquela
reprimenda por causa da questão dos tóxicos?
— Acredito
que sim — respondeu o detetive em tom azedo.
— Pois
foi Snyder em pessoa quem realizou a última inspeção nas cavernas
da CIS. Você acredita que, se houvesse alguma falha, a mesma lhe
teria escapado?
— Quem
passará vergonha serei eu — ponderou Kennof. — Apenas gostaria
que, quando me apresentar para ser posto a dormir, você me
arranjasse certos elementos sem os quais não poderei fazer muita
coisa.
O homem
que se encontrava do outro lado da linha soltou uma exclamação de
surpresa.
— Você
pretende formular uma proposta para ser posto a dormir?!
— Sem
dúvida. Será a maneira mais rápida e segura de atingir meu
objetivo.
O homem,
que Kennof tratava como Shane, manifestou certas dúvidas.
— Você
não será aceito, Dick — profetizou. — Você não tem problemas
psicológicos nem dificuldades financeiras. Você é um homem feliz e
satisfeito, e além do mais é um detetive.
Kennof
enrolou o fio do telefone em torno do dedo e deixou-o cair sobre
Buster.
— Você
me subestima — disse. — Daqui a algumas horas, terei um encontro
com Gaston Hartz, que é o maior gênio financeiro da cidade. Pedirei
a ele que prepare imediatamente a ruína econômica do detetive
particular Richard Kennof. Requererei minha falência, os
concorrentes esfregarão as mãos de contentes e Gaston brincará com
meu dinheiro. Não acha que estes problemas bastariam para que uma
pessoa desejasse dormir por alguns anos?
Buster
procurou atingir o fio telefônico que balançava diante de seus
olhos.
— Não
acredito que seja suficiente — respondeu Shane em tom pensativo.
— Sei
perfeitamente que não é suficiente — disse Kennof em tom sério.
— É por isso que preciso do endereço da Célia.
— Não!
— a voz de Shane assumiu um tom duro.
— Célia,
sim! — insistiu Kennof. — Preciso de seu endereço.
Quase
parecia que Shane iria desligar, mas depois de uma pausa prolongada
Kennof ouviu sua voz:
— Célia
saiu do negócio, e não vamos mexer com isso. Você encontrará
outra pessoa.
— Célia
é a única que me serve. Está zangada comigo por causa da história
do Fainer, porque acredita que eu a tenha denunciado. Shane, não
houve ninguém que lamentasse tanto quanto eu a demissão de Célia.
— Ela
nunca foi demitida — respondeu Shane em tom enfático.
— O quê?
— Foi
reabilitada e saiu espontaneamente.
— E qual
é seu endereço? — perguntou Kennof.
— Acho
que se eu não lhe disser onde mora, você farejará sua pista. E
estou interessado em evitar que isso aconteça.
Forneceu
alguns dados a Kennof.
— Obrigado
— disse Kennof com um suspiro de alívio. — Prometo-lhe que a
tratarei com muito cuidado. Faça o favor de contar isso a seu chefe.
Houve uma
interferência na linha, que quase fez desaparecer a voz de Shane
quando este indagou:
— Deseja
mais alguma coisa?
— Acredito
que conseguirei arranjar-me — disse o grande detetive em tom
modesto.
— O que
me parece mais importante é o micro defletor, pois só com ele
poderei andar pelas cavernas sem ser visto. Além disso, você talvez
poderia arranjar-me um aparelho de localização. Deve ser uma versão
bem discreta, talvez em forma de anel.
— Só
isso? — gritou Shane em tom de espanto. — Como acha que eu deva
fazer isso?
— Talvez
possa entregar tudo no meu escritório, juntamente com um pequeno
aparelho de rádio — disse Kennof sem o menor constrangimento.
— Para
que o aparelho de rádio? Acha que haverá problemas?
— Acho.
Pretendo mantê-lo informado sobre a situação, a fim de que
eventualmente possa convencer seu nobre chefe a intervir.
Kennof
refletiu por alguns segundos.
— Naturalmente
precisaremos de uma palavra-código.
— Qual
será? — perguntou Shane em tom curioso.
— Whisky
— disse Kennof em tom esperançoso. — Whisky puro!
*
* *
Foi dali a
quatro dias.
Os
preparativos de Kennof desenvolviam-se a toda força. Depois de uma
palestra com Gaston Hartz, o gênio das finanças aceitara a
incumbência de apresentar a situação de Kennof de tal forma que
pareceria que o detetive se arruinara em virtude de compras de ações.
Hartz fez questão de que os papéis realmente fossem adquiridos, a
fim de que a situação parecesse real.
Os
possuidores dos títulos sem valor sentiram-se felizes por se verem
livres dos mesmos e, em troca do preço, prometeram que se
esqueceriam da identidade do comprador. Dessa forma, Kennof
transformou-se em acionista de certas empresas, embora o valor de seu
investimento fosse igual a zero.
Hartz
adotou inúmeras cautelas. Depois de algum tempo, até mesmo Kennof
achou perfeitamente crível que ele tivesse adquirido os papéis no
curso do tempo por preços absurdos e agora não conseguisse
comprador para os mesmos. Depois de um exame confidencial dos livros
de Kennof, Hartz descobriu que o detetive costumava desperdiçar
grandes somas na compra de antiguidades. Arranjou notas de venda,
documentos e recibos. Quando leu as cifras escritas nos papéis,
Kennof quase irrompeu em lágrimas.
— Hartz
— disse, dirigindo-se ao francês. — O senhor é um homem
simpático, mas é mais esperto que um armênio. Não gostaria de ser
seu inimigo.
Hartz
sorriu e “provou”
a Kennof que o mesmo teria de pagar uma dívida de 26 mil solares.
*
* *
O sol da
primavera iluminava os telhados da cidade. Kennof saiu da sombra da
grande casa e dirigiu-se para a rua. Do lado oposto ficava o Bar do
Tommy, imprensado entre grandes edifícios.
Embora
fosse de manhã, o proprietário acendera a propaganda luminosa
instalada em cima da vitrine. A mesma realizava uma luta desesperada
contra a luz ofuscante do sol.
A fim de
ver o carro estacionado junto ao meio-fio, Kennof virou a cabeça.
Gostaria de olhar para dentro do bar, mas as cortinas do mesmo
estavam fechadas.
O detetive
entrou pela porta que se fechou, automaticamente, atrás dele. Em uma
das cinco mesas havia um homem que descansava a cabeça nos braços.
À sua frente havia uma garrafa pela metade e um copo.
Atrás de
um balcão, uma mulher estava fazendo sanduíches. Não percebera a
entrada de Kennof.
O detetive
tomou lugar numa das grandes banquetas que havia junto ao balcão e
tirou o chapéu.
— Olá,
Célia! — disse.
A mulher
largou a faca e levantou a cabeça. Era jovem. Devia ter pouco mais
de vinte e cinco anos, mas em seu rosto viam-se ligeiros sinais de
cansaço.
Fitou
Kennof.
— O que
é que você quer? — perguntou.
Em sua voz
não havia raiva, mas certa indiferença. Seus cabelos compridos
estavam amarrados. Célia não era muito bonita, mas não deixava de
ser atraente.
— Uma
cerveja — pediu Kennof. — Não quero muito gelada.
Enquanto a
mulher se abaixava para tirar a cerveja da geladeira, disse
inesperadamente:
— Shane
me disse que você viria. Não quis dizer o motivo.
Kennof
lançou um olhar para o homem embriagado.
— O que
houve com ele?
— Está
dormindo — respondeu, enchendo o copo de Kennof.
O detetive
fitou-a calmamente. Depois de algum tempo, falou em tom indiferente:
— Estou
procurando uma colaboradora.
Os olhos
escuros de Célia pousaram nele.

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