Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A Terra
coesa contra a invasão dos
seres
descendentes de insetos!
Uma
espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan,
foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e
a pedra angular do Império Solar.
O fato
de que este Império — minúsculo em comparação com as demais
potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se
transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples
colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas
dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez
das Galáxias — e também à sorte, que, como fato permanente, é
exclusiva dos fortes.
No
entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os
inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a
posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de
ruptura iminente.
O
Império Solar sofreu, nos últimos tempos, uma série de pesados
reveses, embora nenhum deles justificasse a entrada em vigor do CASO
COLUMBUS.
Mas,
agora, a situação atingiu este ponto crítico, este clímax, e
surge então a pergunta angustiante: TERÁ O TÃO JOVEM IMPÉRIO
FORÇA SUFICIENTE PARA RESISTIR A UM ATAQUE DIRETO?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Atlan
— Grande
amigo da Terra e, agora, o REGENTE DE ÁRCON.
Julian
Tifflor
— Intrépido
comandante da Califórnia.
Sargento
Bidge
— Quem
recebeu o hiper-rádio selado de Rhodan.
John
Marshall
— Chefe
do Exército de Mutantes.
Gucky
— O
rato-castor mutante.
1
Com
cuidado especial, o sargento Bidge conferia seu registro no livro de
assentamento dos rádios recebidos, referente ao dia 11 de maio de
2.044.
Tratava-se
de um hiper-rádio 76-Hy-11-5-44, enviado num código em vigor na
época, entre as forças espaciais, com a duração de um décimo de
segundo, num ângulo de incidência do setor espacial M-13, conforme
a medição do raio direcional.
Com esta
constatação, teria normalmente terminado o trabalho de Bidge, se o
aparelho automático de antidistorção não tivesse estampado na
fita perfurada, além dos sinais habituais, um símbolo muito
especial.
Este
sinal, colocado no final do radiograma, foi também assinalado no
corpo do texto. Assim, o sargento Bidge não precisaria esperar pela
demorada interpretação de uma mensagem, cuja gama de chaves de
códigos se estende por 4,6 bilhões de possibilidades.
Reteve a
respiração, quando a máquina, por meio de um tilintar estridente,
denunciou a antidistorção. O que apareceu diante dos olhos
estupefatos de Bidge foi uma fita plástica com um emaranhado,
aparentemente sem sentido, de pontos, traços e figuras geométricas
de miríades de formas diferentes, para cuja interpretação, mesmo
um cérebro eletrônico de alta categoria, precisaria mais de meia
hora.
Assim
sendo, era de todo impossível a Bidge pegar alguma coisa do sentido
do radiograma. Mas o sinal que estava no fim lhe era bem
compreensível:
— “I-Rho-Ad-T”
— repetiu bem baixo.
Estava tão
perplexo que por uns instantes não ouviu mais o zumbido e os
pequenos estalos do aparelho automático em funcionamento. O sargento
Bidge estava a serviço do Departamento de Decifração de Códigos
do Ministério da Defesa Solar.
Uma olhada
para o relógio lhe indicou que havia perdido três preciosos
segundos. Quando o telegrafista percebeu o gesto brusco com que Bidge
pôs a mão no botão de alarme, levou um enorme susto.
— Epa!
Que é isso...
O toque
estridente das sirenes o impediu de terminar a frase. Bidge esperou
até que o oficial de serviço aparecesse na comporta de deslizamento
automático. O Departamento de Decifração do Ministério da Defesa
Solar estava incluído no setor de sigilo de primeiro grau.
Conhecido
por suas maneiras pedantes, o Major Abucot se aproximou com passos
solenes, que não eram nem apressados, nem lentos. Seu rosto não
denotava nenhuma expressão particular.
— Quem
foi que tocou o alarme?
— Eu,
senhor — disse o sargento erguendo a mão.
Abucot o
mediu de alto a baixo, com severidade.
— Quem é
“eu”?
— perguntou friamente.
— Primeiro-sargento
Bidge, senhor.
— Assim
soa melhor. E o que está acontecendo?
“A
pergunta não está bem feita”,
pensou Bidge um tanto irritado. “Abucot
parece estar de novo num de seus dias de superpedantismo.”
Bidge se
levantou, fez posição de sentido e com voz bem acentuada disse:
— O
radiograma captado há poucos instantes, proveniente do Setor
M-13-Hércules, está assinalado com a sigla pessoal do primeiro
mandatário do Império Solar, no texto original.
Estas duas
últimas palavras, Bidge não precisou dizer no mesmo tom marcial das
outras, para fazer com que o Major Abucot desse um pulo de espanto ou
surpresa. Curioso, mas com um sentimento de repentina superioridade,
olhou de novo firme para o oficial, cujos olhos pareciam querer
penetrar nas tiras plásticas.
— Realmente
— disse Abucot tentando reassumir seu porte de homem comedido.
Olhou em volta, como que procurando um apoio em alguém. — Isto não
é uma brincadeira, sargento?
— Pelo
amor de Deus! Jamais faria isto.
O espigado
sargento de serviço deixou escapar um soluço. O major se mostrou
preocupado em voltar ao seu estado de perene serenidade. Seu rosto
estreito voltou de novo à mais completa falta de expressão. Senhor
absoluto de si mesmo.
— Muito
obrigado. O alarme está terminado.
Tocando de
leve na larga pala do boné de serviço, passou empertigado pela
comporta blindada, que já estava aberta. Mas, ainda antes de
desaparecer de todo no corredor, o pessoal do Departamento de
Decifração pôde perceber que os pés do Major Abucot, de repente,
se aceleraram ao máximo.
Bidge
olhou de novo para o relógio. E sorrindo um pouco vagamente, falou:
— O
velho major ficou contente de uma hora para a outra, não é? Até a
comporta ainda conseguiu bancar o homem sereno, dono de si. Aposto
meu salário que ele agora está correndo pelo corredor afora, pelo
menos com a metade da velocidade do som.
— Vamos
dizer com vinte quilômetros por hora — atalhou um outro operador
de rádio. — Aí não haverá nenhum exagero.
— Mas de
qualquer maneira, ainda bem veloz, para sua serenidade — completou
Bidge. — Alguém se recorda de ter algum dia recebido um rádio
direto de Perry Rhodan? Sem passar por uma estação intermediária
ou um transmissor camuflado em qualquer nave no espaço?
Ninguém
respondeu no momento. O homem, sentado a seu lado, passou as costas
da mão na testa, para tirar o suor.
— Sei
apenas que, em todo meu curso de telegrafia, me martelaram na cabeça
que a posição da Terra no espaço devia permanecer tão secreta,
que ninguém poderia se atrever a transmitir diretamente para ela.
— Pois
é! Para evitar que possam descobrir sua posição, não é? E como
pode acontecer então, que exatamente o homem que nos impôs esta
lei, venha a infringir de maneira tão perigosa sua própria
proibição?
Voltou a
reinar o silêncio naquela repartição tão vital para os grandes
interesses do Império Solar. Todos se entreolhavam preocupados.
Sabiam que devia ter acontecido algo muito importante na Via Láctea,
importante e imprevisível. A partir daí, a atenção da equipe do
setor de decifragem se concentrou exclusivamente no aparelhamento
automático de descodificação, que, inclusive, já havia sido
alimentado com a fita, tendo no final a sigla de Rhodan.
Um minuto
mais tarde, era o Major Abucot quem chamava. Exigia a imediata
transmissão do texto decifrado. Bidge concordou.
— Daqui
uns vinte minutos, senhor. O aparelho está trabalhando.
— Apresse
o máximo que puder — respondeu Abucot, nervoso.
É claro
que ele sabia que não havia possibilidade alguma de ir mais
depressa. O aparelhamento eletrônico tinha seu curso certo.
*
* *
— ...permita-me
uma pergunta, meu amigo: você está bêbado?
O Marechal
Allan D. Mercant, Ministro da Segurança Solar, sorriu tranqüilo.
Vagarosamente colocou sobre o porta-folhas da escrivaninha uma
espátula de abrir cartas, toda trabalhada em metal de Luur. Pelas
altas janelas térmicas, entrava uma faixa estreita da luz do sol,
dando um brilho de ouro nos cabelos louros de Mercant.
Continuou
sorrindo, quando o Major Abucot tentava tornar mais exemplar a sua já
correta postura marcial.
— Senhor,
por favor! Vim correndo pelo caminho mais curto para lhe trazer
pessoalmente o radiograma. Por gentileza, senhor.
Abucot deu
uns passos à frente, colocou as folhas de papel na mesa e se afastou
imediatamente.
O rosto
liso de Mercant, sem nenhuma ruga, não deixou transparecer nada do
que lhe ia no íntimo. Descontraído, apanhou as folhas e começou a
ler.
Finalmente,
levantou os olhos. Se Abucot estava ali esperando para saber mais
coisas sobre o conteúdo do radiograma, sua decepção devia ser
enorme. Mercant apenas perguntou:
— Pelo
que vejo, você mandou calcular a potência do transmissor
estrangeiro por meio dos dados do receptor. Você tem certeza de que
seus matemáticos não cometeram nenhum erro?
— Absolutamente,
senhor — respondeu o major. — A estação opera com uma potência
de transmissão de, pelo menos, cinqüenta milhões de kilowatts,
numa base de hiper-rádio. Conheço apenas um planeta onde poderia
existir uma instalação tão gigantesca assim.
— E qual
seria este planeta?
— Árcon
III, senhor.
Mercant
concordou pensativo. Seus dedos finos remexiam as folhas de papel com
o texto decifrado.
— Muito
obrigado, major. Pode se retirar.
Atônito,
o major passou por entre os dois robôs de vigilância, atingiu a
comporta blindada e desapareceu.
Só depois
que acendeu a luz vermelha, indicando que a fechadura da porta
externa estava travada, foi que o chefe da Segurança Solar começou
a agir. O dedo indicador da mão direita apertou um botão que tinha
escrito por cima “Comando
Supremo da Armada”.
Na grande tela, ligada por fios de uma rede invisível, surgiu o
rosto estereotípico com o sorriso plástico do robô.
— Marechal
Freyt, ligeiro — disse Mercant em voz alta e apressada. —
Urgência urgentíssima.
— O
marechal será avisado, senhor. Aguarde um instante, por favor.
Mercant
teve de esperar dois minutos, até que o rosto estreito e expressivo
de Freyt aparecesse na tela. Sua respiração estava ofegante.
Certamente veio correndo de onde estava. O chefe supremo da Segurança
Solar não lhe deixou tempo para respirar. Já se conheciam há muito
para perderem tempo com fórmulas de civilidade.
— Um
hiper-rádio de Perry Rhodan, Freyt — disse Mercant sem nenhuma
introdução. — Você está sozinho?
Freyt fez
um gesto que sim.
— Está
bem. Então prepare-se para ouvir a notícia mais sensacional dos
últimos cinqüenta anos. Perry Rhodan acabou de passar um radiograma
diretamente de Árcon. Os dados da medição são absolutamente
claros. Uma estação com cinqüenta milhões de kilowatts existe
somente em Árcon III, a base militar do Grande Império.
Marechal
Freyt, vice-presidente do Império Solar, ainda estava ofegante.
— Quer
dizer que ele se comunicou diretamente conosco, sem se utilizar de
qualquer espaçonave terrana, como estação intermediária de relê?
Se, por este rádio, captarem a direção da Terra, estamos
completamente perdidos.
— Existe
de fato esta possibilidade. No entanto, Rhodan assumiu o risco. A
situação mudou do dia para a noite. — A voz de Mercant tomou,
então, um tom mais imponente: — Freyt, o regente robotizado de
Árcon foi deposto. Nosso movimento, tão bem e com tanto sacrifício
preparado, foi coroado de êxito. Atlan foi reconhecido pelo controle
de segurança do grande cérebro positrônico como o arcônida que
permaneceu ativo e fiel à sua gente, descendente direto de um
célebre imperador da estirpe Gonozal. Daí se deduz uma situação
que, para nós, pode acarretar sérias conseqüências. A partir de
agora, muita coisa vai mudar na política das Galáxias.
— Nosso
chefe menciona isto? — perguntou Freyt preocupado.
— Sim,
com muita clareza. Vou enviar o texto decifrado para o
quartel-general. Perry Rhodan se encontra no momento com seu comando
de ação em Árcon III. Atlan assumiu o governo, no entanto, para o
foro externo, persiste ainda a impressão de que quem está
governando ainda é o gigantesco robô. Desta forma, Atlan se esconde
atrás da máquina eletrônica, considerada poderosa e inflexível e
de cuja autoridade ele se serve inteligentemente. Acho isso muito
certo, pois, se, desde o começo, se espalhasse a notícia de que um
arcônida vivo sucedeu ao cérebro robotizado, poderiam surgir pelo
vasto império colonial desordens de toda espécie. Rhodan diz também
que a situação está tranqüila. O cérebro robotizado continua
atuando independente somente em questões de administração e de
abastecimento. Decisões importantes são tomadas pelo Almirante
Atlan, que nós temos de classificar agora como soberano e imperador.
Depois de
meditar um pouco, o marechal ainda acrescentou:
— Uma
situação que nos pegou de surpresa. Você sabe que Atlan conhece a
posição da Terra melhor do que você e do que eu...
Allan D.
Mercant exibiu de novo seu célebre sorriso.
— Sei
muito bem. Quando ele se indispuser conosco, basta fazer um aceno
para que a Terra seja atacada pela maior frota do Universo. Perry
Rhodan pondera também esta hipótese. No aludido radiograma, você
recebe instruções de enviar imediatamente para Árcon a nave
capitania Drusus. O Coronel Sikermann deverá comandar a Drusus. Ele
receberá a ordem de voar para o planeta Zalit, apanhando lá os
cientistas restantes, técnicos e mutantes, descendo depois em Árcon
III. É mais ou menos tudo que a mensagem contém.
— Realmente
muito pouco, tomando-se em consideração o alcance do fato, que vai
ocasionar muita alteração — concluiu o chefe da frota terrana.
— Para
mim, é o suficiente, por enquanto. Presumo que virão tempos
difíceis, Freyt. O futuro da Humanidade passa a depender agora da
boa vontade arcônida de nome Atlan. Depois de ter afastado o cérebro
de um robotizado, todos os caminhos lhe estão abertos. Em tese, não
duvido de sua amizade com a Terra. Mas, já que não sou psicólogo
de raças estrangeiras, não posso fazer nenhuma previsão, sobre se
a plenitude do poder, agora nas mãos de Atlan, poderá alterar seus
pontos de vista. Esteja preparado para tudo, mesmo para o pior.
Mantenha toda a frota em estado de prontidão. Mande o Coronel
Sikermann visitar-me, antes de partir para o planeta Zalit. Queria
lhe entregar o relatório sobre a malsucedida invasão dos druufs.
Rhodan haverá de se interessar muito em saber que estes descendentes
de insetos, originários de um Universo estranho, conseguiram
construir no Estado norte-americano de Wyoming uma base para seus
transmissores...
De
repente, fez uma pausa. Mas logo prosseguiu:
— Ou
não, espere um pouco, por favor. Eu mesmo vou ter com você. Segure
um pouco o Coronel Sikermann. Até logo mais.
Mercant
desligou. Continuou ainda imóvel, por uns momentos, à sua mesa de
trabalho. Os últimos raios do sol poente davam um brilho vivo nos
metais do quadro de comando.
Quando o
chefe da segurança terrana se levantou, não estava bem certo de sua
ida de... A ducha celular, que recebera no planeta Peregrino, tinha
de ser renovada brevemente, se não quisesse ver em pouco tempo a
decadência total de sua juventude artificial.
Passou
devagar pelos robôs de vigilância que o saudaram. Na sua mão
direita estava o punhado de folhas plásticas com a sensacional
notícia.
O regente
robotizado de Árcon seria desativado e reprogramado. Mercant sabia
que então começaria uma nova era.
*
* *
O Coronel
Baldur Sikermann entregou os papéis com o relatório ultra-secreto
ao seu robô assistente. Havia terminado a discussão da situação
no quartel-general da armada e não havia mais nenhuma pergunta a
fazer.
— Desejo-lhe
uma boa viagem — disse-lhe o Marechal Freyt. — Fique de olhos
abertos e, apesar dos últimos acontecimentos, evite tudo que possa
levar ao conhecimento dos escutas galácticos a posição da Terra.
No espaço há muitas inteligências com bons instrumentos de
orientação. Faça suas transições sempre sob a proteção dos
compensadores estruturais, mantenha-se sempre cauteloso.
Provavelmente vão recebê-lo com muita festa. Abrigue os nossos a
bordo da Drusus e voe depois para Árcon. Se, contra nossa
expectativa, vocês forem atacados, volte imediatamente. Perry Rhodan
haverá de achar uma saída neste caso. Diga ao nosso chefe supremo
que aqui na Terra está tudo em ordem.
— Com
exceção da base de transmissão dos druufs em Wyoming —
acrescentou Mercant, sorrindo.
— Ah! É
verdade, isto você deve dizer pessoalmente a Rhodan. Ele então vai
decidir se comunica isto ao novo imperador Atlan, ou não.
Freyt
olhou para o relógio.
— Está
chegando a hora. Não se arrisque demais nas transições. Fazemos
questão de vê-lo chegar com saúde e boa disposição ao grande
aglomerado de estrelas M-13.
O
supercouraçado Drusus, último lançamento das grandes naves de
combate da Frota Solar, partiu no dia 12 de maio de 2.044, às cinco
horas e 13 minutos.
Com o
impulso gigantesco das turbinas para a arrancada, o espaçoporto de
Terrânia foi inundado por intenso clarão amarelado. E antes que o
cavernoso trovejar das máquinas chegasse aos ouvidos dos habitantes
de Terrânia, que ainda dormiam, a gigantesca esfera de mil e
quinhentos metros de diâmetro já estava em pleno espaço, onde
Sikermann, com a velocidade de 500 km por segundo, estava em vias de
fazer a primeira transição. Obtivera permissão especial para dar o
primeiro salto espacial ainda dentro do sistema solar.
*
* *
O Coronel
Poskanow, de estatura descomunal e notório como grande estrategista
espacial, foi o primeiro a receber o comunicado de posicionamento do
chefe do Quarto Grupo de Caças Espaciais, o Major Untcher. Poskanow
exercia o cargo de comandante do Grupo de Caça Espacial 16 no setor
da faixa dos planetóides, entre Marte e Júpiter, Região de
Vigilância 12-14A-3746.
De sua
nave capitania, o couraçado Osage, captou o radiograma de Untcher,
quando a Drusus estava atingindo quase a velocidade da luz.
Como homem
inteligente, Poskanow deu ordem para que todas as estações
energéticas de suas naves fossem ser aplicadas nos envoltórios de
proteção e ordenou também que se abstivessem, no momento, de
qualquer alteração de rota.
Nas
unidades sob seu comando os mecanismos de propulsão foram
desligados, enquanto que o bojo cintilante das grandes naves recebia
uma camada invisível de proteção energética. Desta feita, todos
os grandes aparelhos estavam bem protegidos, quando a gigantesca
Drusus, nas proximidades da órbita de Marte, iniciou sua transição.
Apesar de
terem sido desligados os compensadores estruturais, os aparelhos de
absorção de quase todas as naves foram danificados. O Coronel
Poskanow sentiu como sua Osage de quinhentos metros de diâmetro
estremeceu. Os abalos estruturais, produzidos pela supertransição
no conjunto do espaço quadridimensional estável, equivaliam a uma
sucessão de choques de uma violência fantástica. Terminado o
fenômeno, os comandantes das pequenas unidades davam notícia dos
danos nas partes externas e mesmo nas instalações das naves. Quatro
gazelas, rápidas naves auxiliares dos pequenos cruzadores, já
haviam pedido reboque para reparos nos estaleiros.
O Coronel
Poskanow não achou razões para se opor a isso. A nave auxiliar
G-275 avisou que o envoltório energético de proteção contra a
sobrecarga térmica não estava funcionando.
Poskanow
resolveu então reunir as gazelas danificadas e, a bordo do cruzador
Kongo, levá-las para a base na Lua. Enquanto estava tomando as
providências atinentes ao reparo, chegou-lhe às mãos uma
importante mensagem cifrada, diretamente do alto comando da Frota
Solar. A decodificação durou exatamente trinta e seis minutos.
Neste meio
tempo, o comandante da Kongo executava uma manobra dificílima para
colocar sua nave numa posição que pudesse, por meio dos raios de
tração, aparar as naves auxiliares em sua queda livre pelo espaço.
Dois minutos antes do início desta fase da operação, o Coronel
Poskanow recebeu o texto decifrado. Assim que terminou a leitura, a
primeira medida que tomou foi chamar o cruzador Kongo. Extremamente
mal-humorado, o comandante da Kongo recebeu ordem de interromper
imediatamente o trabalho de pôr a bordo as pequenas naves
danificadas e de voltar, incontinenti e a toda velocidade, para seu
setor de caças.
O Tenente
Nafroth, comandante de uma das gazelas danificadas, assistiu com
espanto, pela tela de sua nave, ao rápido desaparecimento da Kongo,
tão rápido que quase não poderia ser localizada.
Dez
segundos depois, entravam em ação os receptores de rádio. O chefe
do grupo fez uso do telecomunicador. Nafroth recebeu instruções de
deixar sua nave flutuando, tendo apenas o cuidado de evitar colisões
com fragmentos cósmicos que existem no espaço.
A nova
base da frota espacial na Lua, no momento mais próxima do que Marte,
que se achava então do outro lado do Sol, mandou uma nave de
salvamento, que, sete horas depois, estava rebocando para dentro de
suas comportas a pequena gazela, cuja velocidade era de apenas um
décimo da velocidade da luz. Assim, ao menos para o Tenente Nafroth,
o assunto gazela havia terminado. Não podia realmente supor que o
hipersalto da Drusus, realizado tão perto deles, seria o início de
episódios em que sua participação seria quase nula.
Quando a
nave de salvamento iniciou o vôo de regresso, o Coronel Poskanow já
havia reunido o Grupo de Caças Espaciais 16 no setor 12-14A. As
naves seguiam em queda livre e com velocidade reduzida pelo espaço
intersolar. O controle da situação por parte de Poskanow se dava,
tanto na telefonia como na transmissão da imagem, simplesmente por
aparelhos de videofone, que tinham apenas a velocidade da luz. Não
havia, pois, nenhum perigo de serem descobertos, ainda mais que a
potência de sua estação transmissora na nave capitania não
passava de 250 watts.
Os
comandantes das diversas unidades tinham se dirigido para suas
respectivas centrais de radiofonia. A figura de Poskanow podia ser
vista em todos os aparelhos.
— Meus
senhores, a partir deste momento passa a vigorar o estado de alerta
de operações bélicas — explicou ele de maneira sucinta. — Na
nebulosa esférica M-13 estão acontecendo coisas que podem levar a
um rápido descobrimento da posição da Terra. Assim que os dados a
respeito chegarem às minhas mãos, os senhores receberão mais
informações. Por enquanto, recebi ordens de reequipar nossas
forças, de manter nossas tripulações no nível previsto e, a
seguir, rumarmos para o Grupo de Segurança Plutão, sob as ordens do
General Deringhouse. Somente depois é que deixaremos nosso atual
posto de vigilância. Voaremos juntos para a Base Ganimedes, faremos
provisão de água e de alimentos, bem como de munição e de peças
de reposição, de acordo com o Plano de Equipamento Columbus.
Comuniquem a suas tripulações que a entrega da correspondência
será feita no máximo na Base Ganimedes. Ficam automaticamente
canceladas as licenças. Não haverá necessidade de uma censura
postal mais rigorosa; no entanto, é bom advertir seus subordinados
de que não podem fazer nenhuma menção das medidas que estão sendo
tomadas. Obrigado. É tudo que tenho a dizer por enquanto. Desliguem
agora e sintonizem para receberem os dados concretos da nave
capitania. Eu os irei guiando.
As telas
se apagaram. Os comandantes retornaram pensativos para suas cabinas
de comando.
Poskanow
estava de novo no meio dos oficiais de seu estado-maior. A nave Osage
iniciou o vôo. O chefe do grupo estava atento ao ronco
característico do mecanismo de propulsão, quando, perdido em seus
pensamentos, falou:
— Um
velho provérbio russo diz que o urso lambe tanto o mel que as
abelhas entram pela sua garganta adentro. Tenho a impressão de que a
Humanidade vai receber agora as primeiras picadas de abelha.
Infelizmente, aqui no nosso caso, não se trata de abelhas, mas de
uma infinidade de belonaves das profundezas do espaço. Teremos uns
dias quentes, meus amigos.
Poskanow
fez um sinal ao comandante da Osage, que, meio abatido e um tanto
recurvado, se dirigiu para a poltrona do piloto. Na sua frente luziam
as muitas telas de observação, formando uma verdadeira galeria
resplandecente.
Ali, o
espaço estava, como sempre, indiferente a tudo. Bilhões de estrelas
cintilavam na negridão do nada. Muitas delas possuíam planetas e de
um destes planetas, de qualquer sistema solar das Galáxias, surgiria
um dia uma frota estrangeira. Então, seria quase que o fim...
Poskanow
resolveu escrever uma carta para sua esposa. Sim, e também outra
para Sergej, que, nestes dias, estaria nos exames finais do segundo
ciclo. Os estudos eram puxados e Sergej não era muito forte em
assuntos de ecologia e colonização espacial. Talvez, porém,
conseguisse equilibrar esta pequena falha com boas notas em outras
disciplinas. Nenhum cadete da Academia Espacial de Terrânia podia
tirar menos de cinco em nenhuma matéria. Poskanow estava mesmo
preocupado, pensando se valia a pena que seu filho único cursasse o
estabelecimento de ensino mais cobiçado da Terra, para vestir um dia
o glorioso uniforme de oficial do espaço.
Angustiado,
pulou para fora da poltrona. Não tinha mais a calma necessária para
ficar sentado.
— Para
qualquer coisa, você me encontra no meu camarote — disse para o
primeiro-oficial da belonave. — Se chegarem notícias, traga-as
imediatamente para mim.
2
— Gostaria
de sair daqui, se você o permite. Estas moradias muito abaixo da
superfície podem ser práticas em caso de um ataque aéreo, mas para
o meu gosto são muito abafadas e escuras. Há mais de trinta minutos
que a Drusus aterrissou. Que estamos esperando?
Perry
Rhodan, administrador do Império Solar, empertigou-se todo, tentando
atingir com a vista toda a grande tela. Mas não o conseguiu. Estava
demasiadamente próximo da tela ovalada.
A figura
em três dimensões, vista na tela, era verdadeiramente espetacular.
Rhodan tinha a sensação de estar sentado ao lado do Almirante
Atlan. Também a voz do arcônida, ampliada por um aparelho de som
estereofônico 3-D, era absolutamente fiel.
Por um
momento, os dois homens se olharam fixamente. O longínquo
interlocutor era espadaúdo e musculoso, visivelmente mais forte que
Rhodan, cuja estatura esbelta mal deixava perceber sua grande
resistência física.
Atlan
esboçou um sorriso irônico.
Rhodan
notou-o com visível desagrado, olhando de alto a baixo o sorridente
arcônida, de olhos albinos, avermelhados.
— Eu lhe
perguntei alguma coisa!
— Sei
disso — soou dos alto-falantes.
A
entonação não deixava dúvidas de que Atlan estava compenetrado da
importância decisiva de suas relações com Perry Rhodan, exatamente
neste momento.
— Então...?
— Bárbaro,
parece que você me considera um monstro terrível. Qual a razão de
sua pergunta? Se você quer ir para sua nave capitania, então vá.
Você não é meu prisioneiro.
Rhodan fez
como se não tivesse ouvido a admoestação. Ficou examinando a
figura do arcônida no vídeo. Aquele homem, depois da queda do
todo-poderoso regente robotizado, se transformara na figura-chave de
toda a Galáxia. Apenas alguns iniciados nos “grandes
segredos”
podiam supor que as ordens irradiadas em seqüência contínua das
antenas-ciclópicas do planeta da guerra não provinham mais da
gigantesca máquina positrônica, fria e impiedosa, mas de uma
arcônida relativamente imortal, de alta estirpe.
Atlan foi
suficientemente inteligente em não abandonar de uma hora para outra
a maravilhosa sala central do cérebro eletrônico. Ele — após uma
ação ousada, onde a morte o cercava de todos os lados — foi
oficialmente reconhecido pelo setor de segurança do imenso
computador como mentalmente capaz. Atlan estava há poucos dias de
posse do governo.
A
grandiosidade do grande cérebro robotizado eram os conhecimentos
nele armazenados. A história do Império Arcônida era de um passado
quase pré-histórico, de muitas dezenas de milênios. No entanto,
não havia nada que escapasse ao imenso repositório de dados da
descomunal máquina.
Este fato
foi de grande utilidade para Atlan — ex-almirante do Grande Império
e sobrinho do Imperador Gonozal VII, que governara há dez mil anos —
para dar base mais sólida às suas pretensões. Por enquanto estava
tomando suas decisões ainda escondido no anonimato. Os muitos povos
de raças diferentes, que viviam como colonos do Grande Império
Arcônida, ainda eram de opinião de que se achavam sob o poder de um
ditador, de um robô conhecido como frio e impiedoso.
Rhodan
ainda estava com as recordações vivas dos últimos acontecimentos
da semana. Lembrava-se da aterrissagem em Zalit, dos ataques
infrutíferos dos mutantes contra o formidável envoltório de
proteção do cérebro robotizado e, finalmente, do começo da
derrocada, que só se transformou em vitória depois que Atlan
interveio, descobrindo a chave do poder.
— Como
é? Você perdeu a fala? O que houve, meu amigo?
Rhodan
levou um susto. Nervoso e incerto, olhou em torno de si, naquele
recinto totalmente fechado. Já estava fora do misterioso envoltório
energético, cujas forças foram erroneamente tão subestimadas. Por
detrás das portas blindadas, fechadas e vigiadas por robôs
altamente armados, esperavam seus companheiros. O ingresso só fora
permitido a Rhodan.
Esta sala
hexagonal era usada antigamente para proporcionar aos cientistas do
Grande Conselho de Árcon uma consulta tranqüila ao supercérebro
eletrônico que eles mesmos criaram.
O rosto
expressivo de Atlan ocupava quase toda a tela.
— Para
eu perder a fala, seria necessário que o mundo acabasse — afirmou
o intrépido terrano. — Atlan, há dois dias, pedi a assinatura do
pacto de aliança e de assistência mútua, lavrado por meus
especialistas. Desde quando você começou a menosprezar os homens?
— Não
os menosprezo mais desde que se uniram sob sua direção, desde que
aprenderam a assimilar o imenso saber técnico-científico de minha
veneranda raça, usando-o para seus próprios fins. Você não deve
se esquecer de que eu conheci seus antepassados, quando...
— ...eles
ainda moravam em cavernas e se combatiam atirando pedras uns nos
outros — disse Rhodan completando a frase.
Não havia
nenhum ressaibo de amargura em sua voz.
Atlan
sorriu de novo.
— Oh! Já
mencionei isto alguma vez?
— Mais
de mil vezes.
— Então,
peço-lhe desculpas.
— Mas
como fica mesmo o tratado de aliança entre o Grande Império e o
Império Solar?
— Com
este nome tão pomposo, você designa naturalmente a sua estrelazinha
diminuta, cujos nove planetas juntos não dariam um volume suficiente
para formar um único corpo celeste digno deste nome.
— Exatamente
— confirmou Rhodan indiferente.
Atlan
sorria de modo franco. Nos dois homens não se notava mais nenhuma
tensão. Há uns instantes, o ar parecia saturado de animosidade.
— Amigo,
você deveria compreender minha situação. Por ora, sinto-me ainda
numa imensa cabina de comando, cujos instrumentos mirabolantes não
conheço bem. Quando o cérebro eletrônico foi montado, eu já era
considerado há muitos milhares de anos, anos da Terra, como morto.
Não costumo assinar tratados, quando não sei se os posso cumprir.
Você acha que eu devo subscrever um convênio para sua própria e
exclusiva segurança, convênio, este cujo teor satisfaça o
formalismo de vocês terranos. Você me exige uma garantia de
segurança para a Terra, com palavras sonoras e bonitas.
— E
estou, com isto, exigindo demais? Até o presente momento, a posição
da Terra era um segredo. Somente você é quem sabe dele.
— E daí?
Haverá por isso um motivo para você desconfiar de mim? Ou você
acha que daqui para frente todo meu trabalho consistirá em tentar
destruir vocês, bárbaro? Perry, conserve sua tranqüilidade. Se eu
quisesse traí-los, teria tido inúmeras ocasiões nos últimos anos,
com todos os meios à minha disposição, para, com um simples rádio,
enviar toda a frota robotizada de Árcon contra a Terra. Será que
sua cabeça ficou tão confusa assim? Não posso assinar este
tratado. Minha posição ainda não está bem segura.
“Sirvo-me
do pretexto da validade do cérebro eletrônico, para fazer com que
minhas ordens sejam cumpridas. Se eu aparecer perante o público como
Imperador Atlan, teríamos que contar nos próximos dias com revoltas
e desordem por toda parte. Você sabe qual é o tamanho do Império
Arcônida? Quantas inteligências estranhas e quantos descendentes de
antigos colonizadores arcônidas vivem por aí? Como poderei eu, em
nome deles, assinar um tratado, se eles nem sabem se eu existo? Ou
você é capaz de pensar que eu, mal acabo de chegar de volta à
minha pátria, já quero passar por traidor?
— Você
poderia assinar o tratado em nome do regente robotizado, não é?
— Bárbaro
sabido! — disse Atlan de modo brusco. Seus olhos demonstravam
irritação. — Sempre foram assim e mesmo você não é melhor,
quando está em jogo o bem de sua raça.
— Acho
que isto não tem nada de incorreto — retrucou Rhodan.
Atlan
desatou num riso sarcástico. Seu rosto foi diminuindo de tamanho e a
parte superior do tronco apareceu na tela. Vestia ainda o mesmo
uniforme com as insígnias de almirante da frota arcônida. Este
uniforme tinha sido confeccionado na Terra, conforme seu desejo.
— Para
você não tem nada de indecente, mas tem para meus conceitos. Para
mim, já basta ter que continuar na situação meio clandestina em
que estou. Se pudesse seguir minha consciência, ordenaria ao cérebro
eletrônico que me proclamasse imediatamente o soberano legítimo.
Mas eu me abstenho disto, justamente porque olho para o bem de muitos
povos. Tenho que agir com muita cautela. Contente-se, pois, com a
minha palavra de que a Terra não será nem traída nem atacada. Será
assim tão difícil de acreditar em mim?
Rhodan
pigarreou.
— Nem
parecem mais palavras de um arcônida, Atlan.
— Quando
um homem, durante milênios e milênios, procura ensinar boas
maneiras e um pouco de ciência aos habitantes da Terra, pode
acontecer que, sem querer, adote uma ou outra de suas expressões
selvagens ou bárbaras — respondeu Atlan aliviado.
Rhodan
cerrou os olhos. Atlan sabia ser mordaz. A leve risada do arcônida o
arrancou de seus pensamentos.
— Está
certo, aceito — disse hesitante. — Você não nos vai trair, nem
nos atacar. Mas quem me dá a garantia de que o poder não lhe vai
subir à cabeça? A Terra é perigosa, você sabe disso.
— Tão
perigosa, que para vocês saírem um pouco da obscuridade, lhes é
necessário andar se arrastando e se escondendo por aí. É realmente
uma tática estranha.
— São
apenas atitudes do instinto de autoconservação. Eu lhe venho
oferecer o que vocês não possuem mais, isto é, especialistas
competentíssimos para suas espaçonaves, já há muito com
deficiência de tripulação. Dez milhões de soldados de ótima
formação lhe podem ser fornecidos prontamente. Juntos poderemos
dominar todas as insurreições, inclusive o ataque dos druufs nas
proximidades da zona de descarga. Eu lhe forneço o pessoal e você
entra com as naves necessárias.
— Combinado,
mas sem contrato. Não posso assinar nada com um nome, que ninguém,
fora você, conhece. Quando eu chegar um dia abertamente em público,
você receberá seu tratado assinado. Há mais alguma coisa a tratar?
Rhodan
percebeu que estava na hora de encerrar o diálogo.
— Nada
mais? Então vou me retirar e você volta com sua gente para a
Drusus. Você vai deixar Árcon?
— Só
depois que o tratado for assinado.
— Cabeça-dura
— disse Atlan. — Você não aprende nunca. Ah! Sim, ainda me
lembro de uma coisa.
Rhodan
olhou de novo para a tela. As últimas palavras de Atlan foram ditas
bem destacadas.
— Faça
esta criatura com cara de rato, que tem o nome de Gucky, compreender
que, daqui para frente, tem que acabar com estas brincadeiras bobas.
— Como?
— perguntou Rhodan surpreso. — Não faz meia hora que Gucky
chegou de Zalit, com o pessoal que lá estava. Que aconteceu com ele?
— O
malandro tentou, desde que chegou aqui, destruir, por meio de seus
dons de teleportador, o envoltório de proteção do cérebro
robotizado. Provavelmente este fanfarrão extraterreno é de opinião
que seus dons são infinitamente superiores aos dos mutantes humanos.
É claro que, ao saltar, foi preso pelo campo hexagonal
transdimensional do cérebro e lançado para trás violentamente,
sofrendo muito com isto. Recebi uma mensagem do alerta automático.
Tome providências para que tais brincadeiras não se repitam. Acho
que expus a você e aos seus, bem claramente, que o alerta automático
construído por meus antepassados não tolera a entrada de seres
vivos estranhos nos domínios do robô. A programação está feita e
eu não posso alterá-la em nada. Será que estamos entendidos?
As últimas
palavras foram duras e frias.
Rhodan
notou que estava chegando aos limites da paciência de Atlan.
Concordou, sem dizer uma palavra, para, instantes depois, continuar:
— Isto é
um assunto que também não me agrada. Ao menos nos podiam permitir,
uma vez, visitar esta maravilha da técnica.
O
movimento rápido da cabeça deixou brilhar por um momento os cabelos
claros de Atlan. Era como se houvesse uma advertência nos seus olhos
cor de ouro.
— Perry,
você é inteligente demais para compreender perfeitamente o que
estou dizendo. Digo-lhe mais uma vez que não posso mudar nada na
instalação de segurança do robô. Meus antepassados já sabiam por
que tinham de garantir assim o insubstituível cérebro positrônico.
Além disso, neste particular, não confio muito em você. Você
conseguiria, por meio de uma microbomba trazida “por
engano”,
mandar pelos ares as instalações do grande cérebro. Conheço vocês
muito bem. Primeiro vocês chegam, não fazem nada, depois se mostram
dispostos a oferecer aos outros sua benévola amizade, mas somente
quando esses outros não lhes parecerem mais perigosos.
“Você
fica no seu canto e eu no meu. Depois de se cancelar o regente, ele
se transformará num autômato inócuo, aliás, com características
singulares. Mas antes de destruí-lo, teríamos de destruir primeiro
você e seu sistema solar. E isso não está nos meus planos. Mas
quando se pensa com uma visão galáctica, como eu realmente penso,
então cinqüenta mil mundos povoados parecem muito mais importantes
do que sua pequena Terra. Portanto, acautele-se de atacar nossa
grande máquina. Aí, todas as minhas promessas cairiam por terra.
Estamos entendidos, Perry Rhodan?
— Totalmente
entendidos, obrigado.
— Pode
poupar um pouco de sua ironia. Mas, me desculpe agora, tenho muito
que fazer. Na zona de descarga se inicia agora um ataque monstro.
Atlan
levantou a mão em cumprimento. O brilho da tela esmaeceu e atrás de
Rhodan se moveram as pesadas portas corrediças de aço blindado. E a
luz clara do dia iluminou a sala hexagonal.
Rhodan
caminhava empertigado. As últimas palavras de Atlan o atingiram em
cheio. Não havia mais dúvidas de que o almirante arcônida, apesar
de sua mui longa permanência na Terra, se transformara no maior
político do grande Universo galáctico.
“Manter-se
prudente e tolerante”,
pensava Rhodan, “e
nunca haverá uma desgraça.”
Com este
propósito, Rhodan penetrou na ante-sala.
Reginald
Bell, braço direito de Rhodan, estava sentado no canto de um sofá
de módulos. Olhou preocupado para o administrador do Império Solar.
Rhodan
ficou parado ao lado dele, olhando para o relógio. Não disse nada.
Quando o silêncio se tornou incômodo, Bell comentou, com uma frase
mais murmurada do que falada:
— A
julgar pela sua expressão, Sua Excelência não se deixou convencer,
não é?
Não houve
resposta de imediato. pensativo, Rhodan olhava para as portas
blindadas, já novamente fechadas, da sala hexagonal de consultas.
— Era de
se esperar. Os argumentos também não me convenceriam, caso eu
estivesse no lugar dele. O tratado de não-agressão e de assistência
mútua, puramente do ponto de vista estratégico, não tem nenhum
sentido. Quem é que o poderia impedir em dado momento de mudar de
idéia, apesar do papelucho assinado e tal? Chamou-me de um selvagem
sabido...!
Bell
começou a rir.
— É,
ele nos conhece bem.
— O fato
de ele nos conhecer bem é a minha grande esperança. Deve saber que
estamos a seu lado. O Grande Império sob a tutela de Árcon é pobre
em pessoas inteligentes e de maiores iniciativas. A degeneração do
atual Império é tão profunda que não será alterada de um dia
para o outro. Atlan terá de contar não com esta geração, mas com
a que vier depois, iniciando um amplo programa de reeducação, que
será capaz de arrancar os jovens da decadência moral, da letargia e
dos passatempos idiotas e absurdos. Acho que, em sessenta anos, ele
conseguirá erguer esta imensa nação. Mas, até lá, muita coisa
mudará na Terra.
Bell se
levantou. Ele e Rhodan eram os únicos homens aqui nesta descomunal
cidade subterrânea, junto do cérebro positrônico. Nas amplas
galerias, havia intenso movimento. Eram principalmente homens do
planeta-colônia Zalit convocados para o serviço militar, que, aqui
embaixo, aguardavam o momento de embarque.
Os dois
não foram molestados por ninguém, quando em passos rápidos se
dirigiam para os elevadores antigravitacionais. Mesmo os inúmeros
robôs de vigilância deixavam-nos passar tranqüilamente.
— Como
os tempos estão mudados — disse Bell com ironia. — Ainda há
poucos dias atrás, eles nos teriam reduzido a cinza, se
aparecêssemos por aqui. Acho que a fase de governo de Atlan começa
muito bem.
Um oficial
da força aérea zalita parou para admirar o uniforme dos terranos.
Era evidente que nada entendia das insígnias de hierarquia. Assim,
resolveu por prudência fazer uma saudação muito cerimoniosa.
Rhodan
agradeceu. Nesta ocasião se lembrou dos dias pouco agradáveis em
que foi obrigado a passar por um habitante de Zalit, tendo o cuidado
de dar uma coloração avermelhada aos olhos. Era o único meio de
chegar são e salvo ao planeta da força aérea e de todos os
armamentos do Império.
Já bem
próximos do elevador, Bell perguntou:
— Você
já está mais calmo? Ou melhor, sua indignação já acabou?
Rhodan
diminuiu o passo e acabou parando. Virou a cabeça lentamente. Bell
mantinha um sorriso enigmático.
— O que
há?
Bell olhou
rapidamente para cima, onde um sol artificial seguia sua órbita
fictícia. A conversa constante dos muitos zalitas enchia o ar e
pesava nos ouvidos.
— Mas, o
que há? — perguntou de novo Rhodan, mais alto do que pretendia.
Bell
passou a mão na testa para limpar o suor.
— Faz
calor demais aqui nesta caverna — disse ele, depois de pigarrear. —
Está certo, eu vou falar. Perry, não podemos ficar esperando por
este contrato ou tratado. Sikermann veio com notícias alarmantes. Os
druufs conseguiram instalar na Terra uma base de transmissão.
Rhodan
parecia perplexo, procurando palavras. Bell o tranqüilizou:
— Não
se assuste. O caso já está liquidado. Os druufs foram descobertos
por um ex-agente do Serviço de Segurança Solar e logo postos fora
de combate. Constatou-se depois que os monstros souberam de nossas
freqüências de transmissão por mero acaso. Foi por ocasião do
reforço que se enviou para a base da Lua. Calcularam os efeitos 5-D
e chegaram às nossas hiperfreqüências. Com isto não está dito
que eles conhecem a posição galáctica da Terra. Nossa investigação
provisória já constatou que, entre um vôo direto para uma base
normal e um salto de transmissor superestrutural, há uma distância
enorme.
Rhodan já
estava mais senhor de si.
— Houve
interferência dos órgãos de defesa?
— Graças
a um detetive, cujo nome esqueci. Alguns traidores estavam de um
canto para o outro, para proporcionar aos druufs um ponto de apoio
inicial. Fundaram uma entidade chamada Companhia do Sono, unicamente
para dar cobertura aos invasores. Mercant teme novas complicações.
— É só
o que me faltava! — exclamou Rhodan. — Aqui as dificuldades com
Atlan e em casa uma invasão. Sikermann trouxe dados mais exatos?
— Tudo
que Mercant pôde averiguar.
— E
quais são as conseqüências disso?
Já foram
calculados os fatores de possibilidade no computador?
— Parcialmente.
O tempo não deu para uma observação completa. Chegou nosso
radiograma cifrado e Mercant resolveu enviar Sikermann para trazer as
notícias e poder ajudar em qualquer coisa.
Bell se
pôs a caminho para conseguir acompanhar o amigo que já ia a passos
rápidos. Conseguiu pegar o elevador antigravitacional, pulou para o
campo quase invisível. Sem peso nenhum, foram flutuando para cima.
Alcançaram
a saída perto da cúpula externa, que haviam parcialmente destruído
alguns dias atrás, quando, depois de uma luta desesperada, se
retiravam das profundezas de Árcon. Ainda estavam ali vários robôs
trabalhando para consertar o grande elevador do estaleiro.
A luz
esbranquiçada do sol de Árcon os veio receber. Rhodan pulou para o
vagonete deslizante, dando algumas instruções ao robô piloto.
A três
quilômetros dali — ainda perto do envoltório de proteção
invisível — estava parada a nave capitania da Frota Solar. A
Drusus era de construção gigantesca, mas neste ambiente com mais de
cinqüenta couraçados arcônidas das mesmas dimensões, ela não
sobressaía.
Rhodan
chegou à comporta inferior de passageiros da gigantesca esfera de
1.500 metros de diâmetro, exatamente quando, a poucos quilômetros
dela, uma frota de couraçados arcônidas rumava para o espaço, num
estrondo ensurdecedor. As ondas de compressão das enormes belonaves
foram totalmente absorvidas pelos campos de defesa de funcionamento
automático. Em Árcon III nada acontecia sem o controle planificado
do grande cérebro robotizado.
Rhodan
parou pensativo para olhar as naves que, em poucos segundos,
tornaram-se pontos minúsculos no céu sem nuvens de Árcon. Eram
aparelhos novos, recém-saídos das linhas de produção contínua.
Era seu primeiro batismo de fogo.
— Se
tivéssemos uma capacidade de produção assim, eu me sentiria melhor
— disse Rhodan. — Onde está Sikermann?
A figura
espadaúda do comandante surgiu na porta. Cumprimentou cheio de
respeito.
— Nossos
amigos do outro plano temporal tencionavam nos surpreender, não é
verdade? Gostaria de ver logo os documentos. Como foi sua viagem? —
interrogou Rhodan.
— Excelente,
Sir, obrigado. Voamos em estado de alerta para o sistema Volat, mas
não tivemos nenhuma dificuldade. Nossa gente, que estava esperando
em Zalit, também não teve dificuldade alguma para embarcar. Depois
de uma permanência de duas horas, prosseguimos viagem. Também não
fomos incomodados com o círculo de proteção do sistema arcônida.
Não houve nem os costumeiros aparelhos de escolta. Em seguida, fomos
teleconduzidos com toda exatidão para este espaçoporto pelo
regente.
— Atlan
manteve a palavra — declarou peremptório Bell. — Será que nós
não cometemos um erro ao desconfiarmos dele?
— É uma
coisa que em pouco tempo virá à luz — observou Rhodan. —
Sikermann, você acredita que os druufs não encontrarão a Terra?
Você acha que estes seres inteligentes não conseguirão um contato
razoável através de um transmissor? Estão num estágio de grande
evolução científica. Será que nós, por exemplo, conseguiríamos,
por meio de componentes supermatemáticos, atingir um ponto de
referência estabilizado de quatro dimensões, apenas com um
coeficiente de, no máximo, mais ou menos 0,5 por cento?
Conseguiríamos?
A equipe
de cientistas da nave capitania, que viera para dar boas-vindas ao
mandatário supremo do sistema solar, continuava parada nos fundos da
grande comporta, olhando calada para o homem de olhos castanhos.
O porte
gigantesco de Sikermann encobria a porta de compressão, próxima da
qual os robôs estavam parados. Era como se pretendesse impedir a
entrada de pessoas estranhas.
— Sir,
com toda certeza, nós haveríamos de conseguir.
Rhodan deu
um sorriso convencional.
— Então
os outros também o podem — disse ele em voz mais baixa. —
Sikermann, prepare a Drusus para a partida. Onde estão os
documentos?
— Na
central de comando, Sir.
Dez
minutos depois, já havia estudado todos os relatórios. Enquanto os
homens fatigados pela sua missão se dirigiam a seus alojamentos e
iniciavam uma conversa animada com os membros da tripulação do
supercouraçado, Perry Rhodan solicitou um contato direto com o
regente arcônida.
Trinta
minutos depois de ter entrado na Drusus, chegou à comporta inferior
da grande nave um comando robotizado, altamente armado.
Simultaneamente, ouviu-se a voz de Atlan, na freqüência especial do
regente.
— Alguma
dificuldade, amigo? Fui informado de seu pedido. Que há de novo?
Rhodan
chegou mais perto da tela do videofone.
— Sinto
muito incomodá-lo novamente. Sikermann me comunicou... você se
lembra de Sikermann? Baldur Sikermann?
— Naturalmente.
— Sikermann
me trouxe notícias inquietadoras. Os druufs descobriram a posição
da Terra.
— O
quê...?
— Meu
pessoal não teve o tempo necessário para estudar melhor os dados.
Você pode fazer isto para mim? Gostaria de saber qual a porcentagem
de probabilidade que há nisto.
Atlan
percebeu logo o alcance do novo fato. Quarenta e cinco minutos após
a chegada de Rhodan na Drusus, o comando robotizado estava saindo.
Começava então para o supercouraçado um período de espera.
Não
houve, neste meio tempo, fato de maior importância. Só agora,
Rhodan teve tempo para cumprimentar seus auxiliares, que acabavam de
chegar do planeta Zalit. Os mutantes contaram como foi a morte
repentina do falso almirante arcônida. Gucky, cujas experiências
com o misterioso campo de segurança hexagonal haviam fracassado,
ainda estava desacordado na clínica de bordo.
O Capitão
Hubert Gorlat, que até então nutria esperança de penetrar na
campânula energética do grande cérebro, usando o transmissor
fictício, acabou desistindo de propor a Rhodan seus planos a
respeito. Desiludido, deu ordem à equipe responsável pelo aparelho,
para desarmá-lo.
Gorlat
estava agora mais do que convencido de que seria um erro grave causar
aborrecimentos a um aliado. A maneira de agir de Atlan estava até
então corretíssima. Árcon abria os braços para os terranos.
O Major
Art Rosberg, o maior especialista em transmissor fictício do Império
Solar, estava debruçado sobre os documentos do Serviço Secreto. Os
originais de Mercant já estavam há muito em mãos de Atlan.
— O que
foi que colocou os druufs em nossas pegadas? — perguntou Rosberg
meio confuso. — Será que o pessoal da defesa ficou maluco?
O biólogo
Costara mostrou-se meio desanimado.
— Não
sei bem o que pensar a respeito. Confesso que a mim interessa muito
mais a conservação bioquímica desta gente de Druufon.
Rosberg
passou as duas mãos por entre os cabelos grisalhos. Irritado,
empurrou para o lado o catatau de documentos, a fim de olhar somente
os desenhos e fotografias anexados. Mas não precisou de muito tempo
para perceber que não poderia fazer nada com aquilo. Os dados
principais não estavam completos.
— O
senhor deveria assistir a equipe dos matemáticos — aconselhou o
biólogo. — Acho que a metade da tripulação deveria estar no
departamento de cálculos, embora não creia que, com os parcos
recursos de que dispomos, possamos ter um resultado definitivo.
— A quem
você está dizendo isto? — interrompeu-o o Major Rosberg, com seu
jeito rude. — Se dependesse de mim, já estaríamos bem próximos
da primeira transição. Quanta coisa pode estar acontecendo em nossa
pátria, se realmente estes monstros resolveram chegar até lá!?
Você já chegou a ver pessoalmente as gigantescas frotas dos druufs?
Já esteve alguma vez na assim chamada zona de descarga?
Fez uma
pausa, depois prosseguiu:
— Primeiramente,
as quarenta mil naves pesadas dos druufs devem ter tentado romper a
linha de bloqueio dos arcônidas. Se formos atacados com esta
avalanche descomunal, nossos poucos supercouraçados serão
destroçados em alguns instantes.
Rosberg
pôs o boné de serviço e caminhou pesadamente para a porta. O Dr.
Miguel Costara olhou pensativo para ele. Sentia ecoar em sua cabeça
o que dissera há pouco tempo seu colega Rosberg.
“A
Pátria”,
pensava o cientista, “a
Pátria!”
Já estava
sentindo o cheiro suave das florestas de pinheiros, ouvindo o suave
sussurro dos regatos cristalinos. Tanta coisa bonita havia em sua
Pátria.... na verdadeira Terra.
*
* *
— ...mando
em quinze minutos a interpretação escrita aí para a Drusus —
soou a voz firme de Atlan nos alto-falantes. — Aqui está o
resultado, que você poderá ir estudando desde já.
— Como é
ele, bom ou ruim? — perguntou Rhodan.
— Ruim
para a Terra e, com isso, também ruim para todas as raças
humanóides das Galáxias. Ninguém deseja a aproximação destes
completamente estranhos descendentes de insetos, que devem ter espaço
suficiente para viver em seu Universo. O computador declara, com
noventa e nove por cento de probabilidade, que o descobrimento da
Terra está iminente. Examinei bem os resultados da pesquisa do
grande cérebro. O material é novo, proveniente das últimas
batalhas e refregas da defesa. Portanto, de plena garantia.
“O
cérebro partiu das constatações objetivas que os comandos
arcônidas realizaram com suas equipes de pesquisadores
especializados a bordo das naves druufs conquistadas. Daí se
depreende que a ciência destes seres inteligentes, mormente sua
matemática, está tão desenvolvida que podem tirar as necessárias
conclusões, através das transmissões já realizadas na Terra. Não
há mais dúvida de que acharão a Terra assim que tentarem. Outras
coisas mais não lhe posso dizer.
Rhodan
ficou olhando por muito tempo para a tela. Atlan esperava com
paciência. Sabia o que ia no íntimo do amigo.
— Que
pretende fazer, Perry?
Rhodan
estremeceu em seus sonhos. Deu um sorriso incerto.
— Voar
para casa e ficar atento. Não vejo outra alternativa no momento. O
cérebro positrônico dá ainda alguma informação sobre como os
druufs pretendem realizar a invasão do espaço de Einstein?
— Este é
o fator desconhecido que o robô assinalou apenas com um por cento de
probabilidade. Não fosse isso, os cálculos estariam perfeitos. O
que eu puder fazer para manter firme a frota de bloqueio, será
feito. É o que posso prometer à Terra.
Rhodan fez
apenas um gesto com a cabeça. Palavras seriam supérfluas.
— Talvez
o plano dos druufs jamais se concretize — disse o arcônida
tranqüilizando. — Ainda é problemática a existência de um tal
plano. Acho que você devia entrar em contato com seus agentes no
Universo dos druufs. Este... este...
— Ernst
Ellert — acudiu Rhodan.
— Exato,
Ernst Ellert! Pode ser que ele saiba de coisas importantes.
Novamente
Rhodan fez um aceno com a cabeça.
Neste
momento, chegou o comando robotizado com a interpretação escrita
dos documentos. A comunicação foi feita diretamente do oficial de
vigilância para a sala de comando.
— Seus
enviados estão aqui. Muito obrigado, amigo — Rhodan estava
exausto. — Vou partir agora. Não se esqueça de nós. A temporada
que passamos juntos foi muito agradável, embora um dia, você esteve
convencido da necessidade de me eliminar.
Atlan
sorriu de leve.
— Perry,
tenho um pedido para lhe fazer. Em Vênus, vive uma moça que se
chama Marlis Gentner. Ajudou-me muito, quando os seus especialistas
estavam atrás de mim. Quer dar a ela um grande abraço em meu nome?
Diga-lhe que eu nunca me esqueci dela, mas que, por motivos de sua
louca caçada, não tive tempo de visitá-la aí em Vênus. Você se
recorda da jovem estudante de cosmobiologia, de cabelos pretos, com
um sentimento pronunciado de justiça?
O sorriso
de Rhodan ganhou em calor.
— Não
haverei de esquecer. Ela já deve estar com o diploma de doutorado
nas mãos. Devo-lhe transmitir o abraço, mesmo se ela já estiver
casada?
Atlan
hesitou um pouco antes de responder:
— Sim,
mesmo neste caso. Passe bem, meu amigo. Não esqueça que, atrás do
regente de Árcon, está Atlan, da dinastia dos Gonozal e não
esqueça também que a raça humana tem nas veias uma gota de sangue
arcônida. Quando eu, há dez mil anos atrás, cheguei à Terra,
houve muitos casamentos entre meus homens e as mulheres nativas
daquela região. Inkar, comandante do couraçado Paito, é um nome
que nunca foi esquecido na América do Sul. Seu filho se tornou o
primeiro inca, o primeiro rei-deus sob o signo do Sol de minha
veneranda família. Bárbaro, desejo-lhe boa viagem.
A Drusus
decolou sob a escolta de dez cruzadores rápidos da Frota Imperial.
Nos confins do sistema arcônida, os dez cruzadores fizeram uma
meia-volta e o gigante terrano se preparou para a primeira transição.
Atlan não se apresentou mais.
O ambiente
a bordo era de tristeza.
Descobriram,
de repente, que estavam deixando para trás um grande amigo.
3
Coube ao
Major Untcher, chefe do Quarto Grupo de Caças Espaciais, no 16o
Distrito dos Caças Espaciais, o privilégio de ser o primeiro a
captar os sinais energéticos. Seu grupo se compunha do cruzador leve
Áustria e de 27 pequenas espaçonaves de formato lenticular, do tipo
ultra-rápido space-jet.
O cruzador Áustria era também a nave capitania do Quarto Grupo de
Caças Espaciais.
Untcher
havia recebido do responsável pelo almoxarifado a quota de 32 litros
de água fresca para sua ducha. Quando estava sob o jato
relativamente fraco do chuveiro, veio o sinal de alarme da central de
radiogoniometria.
Uma tela
panorâmica se acendeu. Viu-se o rosto do oficial telegrafista de
serviço. Neste momento, o Grupo de Segurança e todas as suas
unidades achavam-se a 102 horas-luz além da órbita de Plutão, no
espaço interestelar. Por razões de camuflagem, este trecho estava
sendo percorrido à velocidade da luz. A partir do alarme de
prontidão bélica dentro do sistema solar, era ordem expressa se
abster de qualquer transição que não fosse absolutamente
indispensável.
O Major
Untcher, um homem de boa estatura, porém de rosto precocemente
envelhecido, fechou a torneira do chuveiro resmungando. O relógio
registrava um consumo de apenas 23 litros de água, até então.
— Não
se tem sossego nem para tomar banho — gritou Untcher na direção
dos microfones. — Provavelmente estão me vendo também, neste
estado, na tela deles.
— Perfeitamente,
major — confirmou o primeiro-tenente completamente indiferente ao
fato. — Peço-lhe desculpas. Acabamos de descobrir na constelação
Auriga, ou como o povo diz, do Cocheiro, nas proximidades do
gigantesco sol Capela, um foco energético muito esquisito. Na tela
panorâmica ainda não se distingue nada, em compensação, os
rastreadores estruturais estão em plena atividade.
Untcher
não quis saber de perder tempo com mais comentários. De um só
pulo, entrou no jato quente do secador e apanhou suas roupas.
Dez
minutos depois, Untcher estava entrando na central do cruzador.
Podia-se ver nas telas os pontos esverdeados dos 27 aparelhos
menores. A distância média entre as diversas naves era de apenas
cinco milhões de quilômetros, estando bem no centro da linha de
reconhecimento a imponente Áustria.
Na cabina
de goniometria, bem perto da radiotelegrafia, parecia que um vulcão
havia entrado em erupção. O barulho dos dois rastreadores
estruturais, que se achavam medindo um deslocamento de um contínuo
quadridimensional, superava tudo. Estava, porém, claro que não se
tratava da captação de uma onda de superchoques. Os abalos
energéticos, provocados pelas transições das supernaves, eram
completamente diferentes.
Untcher
ouvia, meio atônito, ao trovão ininterrupto. O aparelho automático
de interpretação já havia constatado a origem de todo aquele
estrondo esquisito. Nas proximidades do grande sol Capela, a mais ou
menos 42 anos-luz de distância, formava-se algo que nem Untcher, nem
os mais qualificados radiorastreadores eram capazes de explicar. Até
que o Primeiro-Tenente Fynkus teve uma idéia diferente.
— Está
parecendo, major, como se estivéssemos bem perto da zona de
descarga, no setor do sistema Mirta — disse ele, pensativo.
— Ah!
Não diga bobagem. A zona de descarga está a mais de seis mil e
quinhentos anos-luz.
— Isto
não quer dizer nada, pois eu conheço bem este barulho, major.
Estive muito tempo por lá. Há alguma coisa errada no setor da
constelação Auriga. Olhe bem este dentilhado esquisito. É muito
característico da região de superposição. O negócio parece que
está se estabilizando. O senhor se lembra dos resultados do
rastreamento durante o último ataque dos druufs?
Untcher
tinha consciência suficiente para respeitar a opinião do
experimentado oficial. O barulho ensurdecedor dos rastreadores
estruturais continuava o mesmo. Fynkus foi para o rastreador de
matéria. O sargento que lá estava apenas meneou a cabeça. Fynkus
fez o mesmo.
— Corpos
estranhos ainda não se manifestaram, senhor — constatou ele com
objetividade. — O fenômeno energético, porém, continua
inalterado.
Untcher
parecia indeciso. O acaso lhe havia colocado nos ombros um fardo de
responsabilidade.
Podia...
ou devia se comunicar pelo rádio?
A situação
em Plutão era favorável. Mas para se poder operar com ondas
normais, a distância não era boa. Com toda certeza, os demais
aparelhos do Grupo de Caça Espacial 16 teriam constatado o mesmo
fenômeno.
E por que
então o chefe ainda não se havia manifestado? Seria tão perigoso
assim, apesar de poderem se utilizar dos raios direcionais
rigorosamente concentrados, entrarem em contato com uma espaçonave
voando fora do sistema solar? Se fosse assim, era sinal de que os
matemáticos da nave capitania da frota tinham chegado às mesmas
conclusões que o Primeiro-Tenente Fynkus.
“O
que o Major Untcher está esperando de mim?”,
pensou, indagando-se.
Apesar das
pequenas dimensões da cabina de rastreamentos, Untcher caminhava
nervoso de um lado para outro. Estava numa situação desesperadora.
O que
poderia fazer apenas com suas pequenas espaçonaves?
Esperar,
no espaço vazio, a 102 horas-luz da órbita de Plutão? Caso a
situação ficasse difícil, não poderia fazer muita coisa.
Em
compensação, os 27 space-jets
e o veloz cruzador Áustria, numa ação conjunta, podiam fazer muita
coisa.
Além de
tudo, se não voltasse imediatamente, correria o risco de ser
descoberto por espaçonaves estrangeiras que aparecessem. No espaço,
não dispunha da cortina de camuflagem do sistema solar, percorrido
por milhões e milhões de linhas de força magnética, cuja massa
planetária fornecia ainda uma proteção extra contra a
possibilidade de serem rastreados.
Depois de
três minutos de muita concentração, Untcher tomou uma decisão.
— Radiograma
para todos os jatos, mas através de ondas simples, não acima da
velocidade da luz — ordenou ele. — Dissolver a linha de
vigilância. Iniciar o vôo de regresso sob o comando do grupo.
Iremos nos reunir nas proximidades de Plutão. Proibido o
hiper-rádio. Velocidade máxima durante a viagem: cem quilômetros
por segundo. Perigo de sermos rastreados no setor Capela. Ligar o
aparelho de absorção de freqüências no máximo.
O gravador
automático havia registrado as palavras ditadas. O Primeiro-Tenente
Fynkus olhava para o chefe do grupo, querendo perguntar alguma coisa.
— É
tudo — declarou Untcher. — As ondas extras já há muito estão a
caminho. Seguiremos somente a rota da Terra, depois que o último
aparelho sair comprovadamente de nossas telas de ultra-som.
Untcher
levou a mão para a ponta do boné, que ensombreava um pouco seu
rosto cheio de rugas. Ao passar pela eclusa de segurança, teve de
encolher as pernas e nenhum dos homens da tripulação se atreveu a
rir.
Os
rastreadores estruturais continuavam roncando, como antes. O
fenômeno, que se formara a uma distância de quarenta e dois
anos-luz, não podia deixar ninguém tranqüilo.
Fynkus
transmitiu a ordem, que, daqui a dezessete segundos, alcançaria os
space-jets mais próximos. Mais difíceis seriam os aparelhos de
asas.
No momento
de maior aceleração, o maquinismo de propulsão da Áustria
estremeceu por uns instantes.
— Se os
tripulantes dos jatos forem espertos, já terão notado alguma coisa
diferente no ar — balbuciou Fynkus.
— O ar
faz bem... — disse um radiotelegrafista para seu colega.
*
* *
— Graças
a Deus! — exclamou o Coronel Poskanow, aliviado. — Untcher acabou
compreendendo. Suas naves já estão em movimento. E elas vêm
separadas. Isto é muito bom. Foi muito inteligente, pois absteve-se
de uma transição. Está tudo bem. Deve ter chegado à conclusão de
que, por lá, estaria muito mais exposto e nada conseguiria.
Poskanow
se levantou. Ainda há poucos instantes, sentia-se apreensivo, dando
a impressão de querer atravessar a tela panorâmica com seus olhos.
Com um leve movimento da mão, enxugou as gotas de suor da testa.
Depois se concentrou de novo nos rastreadores estruturais da Osage.
O que o
Major Untcher não podia ver, foi facilmente reconhecido pelos
instrumentos especiais na gigantesca nave.
A típica
freqüência estrutural de um também típico funil de descarga
deixou ver na tela seus claros contornos. Parecia como se um gigante
invisível tivesse perdido no meio do espaço interestelar uma flor
muito longa com uma corola imensa. Fossem como fossem os contornos,
não havia dúvida de que se tratava de uma fenda de superposição,
surgida de repente, através da qual se realizava uma violenta
permuta energética entre o campo magnético do Universo de Einstein
e o do plano druuf.
De
respiração presa, Poskanow observava como a curvatura superior se
adensava cada vez mais. Ele tivera oportunidade de conhecer in
loco,
durante muitos meses, a grande zona de descarga, de origem natural,
nas redondezas do sistema Mirta. Assim ninguém lhe precisaria dizer
que as ordens do comandante da frota, a respeito do arcônida Atlan,
já estavam superadas.
Este
fenômeno não tinha nada a ver nem com o regente de Árcon, nem com
o Grande Império. A equipe científica da Osage não estava
dormindo, e os primeiros resultados de suas pesquisas foram
apresentados ao chefe do grupo. Ao reconhecer que estava simplesmente
diante de um funil de descarga, e não diante de espaçonaves
estranhas, Poskanow resolveu enviar um radiograma elucidativo ao
comando supremo da frota.

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