terça-feira, 23 de agosto de 2016

P-088 - O Caso Columbus - K. H. Scheer [Parte 1]

Autor
K. H. SCHEER



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN




A Terra coesa contra a invasão dos
seres descendentes de insetos!



Uma espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan, foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e a pedra angular do Império Solar.
O fato de que este Império — minúsculo em comparação com as demais potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez das Galáxias — e também à sorte, que, como fato permanente, é exclusiva dos fortes.
No entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de ruptura iminente.
O Império Solar sofreu, nos últimos tempos, uma série de pesados reveses, embora nenhum deles justificasse a entrada em vigor do CASO COLUMBUS.
Mas, agora, a situação atingiu este ponto crítico, este clímax, e surge então a pergunta angustiante: TERÁ O TÃO JOVEM IMPÉRIO FORÇA SUFICIENTE PARA RESISTIR A UM ATAQUE DIRETO?



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

AtlanGrande amigo da Terra e, agora, o REGENTE DE ÁRCON.

Julian TifflorIntrépido comandante da Califórnia.

Sargento BidgeQuem recebeu o hiper-rádio selado de Rhodan.

John MarshallChefe do Exército de Mutantes.

GuckyO rato-castor mutante.
1



Com cuidado especial, o sargento Bidge conferia seu registro no livro de assentamento dos rádios recebidos, referente ao dia 11 de maio de 2.044.
Tratava-se de um hiper-rádio 76-Hy-11-5-44, enviado num código em vigor na época, entre as forças espaciais, com a duração de um décimo de segundo, num ângulo de incidência do setor espacial M-13, conforme a medição do raio direcional.
Com esta constatação, teria normalmente terminado o trabalho de Bidge, se o aparelho automático de antidistorção não tivesse estampado na fita perfurada, além dos sinais habituais, um símbolo muito especial.
Este sinal, colocado no final do radiograma, foi também assinalado no corpo do texto. Assim, o sargento Bidge não precisaria esperar pela demorada interpretação de uma mensagem, cuja gama de chaves de códigos se estende por 4,6 bilhões de possibilidades.
Reteve a respiração, quando a máquina, por meio de um tilintar estridente, denunciou a antidistorção. O que apareceu diante dos olhos estupefatos de Bidge foi uma fita plástica com um emaranhado, aparentemente sem sentido, de pontos, traços e figuras geométricas de miríades de formas diferentes, para cuja interpretação, mesmo um cérebro eletrônico de alta categoria, precisaria mais de meia hora.
Assim sendo, era de todo impossível a Bidge pegar alguma coisa do sentido do radiograma. Mas o sinal que estava no fim lhe era bem compreensível:
— “I-Rho-Ad-T” — repetiu bem baixo.
Estava tão perplexo que por uns instantes não ouviu mais o zumbido e os pequenos estalos do aparelho automático em funcionamento. O sargento Bidge estava a serviço do Departamento de Decifração de Códigos do Ministério da Defesa Solar.
Uma olhada para o relógio lhe indicou que havia perdido três preciosos segundos. Quando o telegrafista percebeu o gesto brusco com que Bidge pôs a mão no botão de alarme, levou um enorme susto.
Epa! Que é isso...
O toque estridente das sirenes o impediu de terminar a frase. Bidge esperou até que o oficial de serviço aparecesse na comporta de deslizamento automático. O Departamento de Decifração do Ministério da Defesa Solar estava incluído no setor de sigilo de primeiro grau.
Conhecido por suas maneiras pedantes, o Major Abucot se aproximou com passos solenes, que não eram nem apressados, nem lentos. Seu rosto não denotava nenhuma expressão particular.
Quem foi que tocou o alarme?
Eu, senhor — disse o sargento erguendo a mão.
Abucot o mediu de alto a baixo, com severidade.
Quem é “eu”? — perguntou friamente.
Primeiro-sargento Bidge, senhor.
Assim soa melhor. E o que está acontecendo?
A pergunta não está bem feita”, pensou Bidge um tanto irritado. “Abucot parece estar de novo num de seus dias de superpedantismo.
Bidge se levantou, fez posição de sentido e com voz bem acentuada disse:
O radiograma captado há poucos instantes, proveniente do Setor M-13-Hércules, está assinalado com a sigla pessoal do primeiro mandatário do Império Solar, no texto original.
Estas duas últimas palavras, Bidge não precisou dizer no mesmo tom marcial das outras, para fazer com que o Major Abucot desse um pulo de espanto ou surpresa. Curioso, mas com um sentimento de repentina superioridade, olhou de novo firme para o oficial, cujos olhos pareciam querer penetrar nas tiras plásticas.
Realmente — disse Abucot tentando reassumir seu porte de homem comedido. Olhou em volta, como que procurando um apoio em alguém. — Isto não é uma brincadeira, sargento?
Pelo amor de Deus! Jamais faria isto.
O espigado sargento de serviço deixou escapar um soluço. O major se mostrou preocupado em voltar ao seu estado de perene serenidade. Seu rosto estreito voltou de novo à mais completa falta de expressão. Senhor absoluto de si mesmo.
Muito obrigado. O alarme está terminado.
Tocando de leve na larga pala do boné de serviço, passou empertigado pela comporta blindada, que já estava aberta. Mas, ainda antes de desaparecer de todo no corredor, o pessoal do Departamento de Decifração pôde perceber que os pés do Major Abucot, de repente, se aceleraram ao máximo.
Bidge olhou de novo para o relógio. E sorrindo um pouco vagamente, falou:
O velho major ficou contente de uma hora para a outra, não é? Até a comporta ainda conseguiu bancar o homem sereno, dono de si. Aposto meu salário que ele agora está correndo pelo corredor afora, pelo menos com a metade da velocidade do som.
Vamos dizer com vinte quilômetros por hora — atalhou um outro operador de rádio. — Aí não haverá nenhum exagero.
Mas de qualquer maneira, ainda bem veloz, para sua serenidade — completou Bidge. — Alguém se recorda de ter algum dia recebido um rádio direto de Perry Rhodan? Sem passar por uma estação intermediária ou um transmissor camuflado em qualquer nave no espaço?
Ninguém respondeu no momento. O homem, sentado a seu lado, passou as costas da mão na testa, para tirar o suor.
Sei apenas que, em todo meu curso de telegrafia, me martelaram na cabeça que a posição da Terra no espaço devia permanecer tão secreta, que ninguém poderia se atrever a transmitir diretamente para ela.
Pois é! Para evitar que possam descobrir sua posição, não é? E como pode acontecer então, que exatamente o homem que nos impôs esta lei, venha a infringir de maneira tão perigosa sua própria proibição?
Voltou a reinar o silêncio naquela repartição tão vital para os grandes interesses do Império Solar. Todos se entreolhavam preocupados. Sabiam que devia ter acontecido algo muito importante na Via Láctea, importante e imprevisível. A partir daí, a atenção da equipe do setor de decifragem se concentrou exclusivamente no aparelhamento automático de descodificação, que, inclusive, já havia sido alimentado com a fita, tendo no final a sigla de Rhodan.
Um minuto mais tarde, era o Major Abucot quem chamava. Exigia a imediata transmissão do texto decifrado. Bidge concordou.
Daqui uns vinte minutos, senhor. O aparelho está trabalhando.
Apresse o máximo que puder — respondeu Abucot, nervoso.
É claro que ele sabia que não havia possibilidade alguma de ir mais depressa. O aparelhamento eletrônico tinha seu curso certo.

* * *

...permita-me uma pergunta, meu amigo: você está bêbado?
O Marechal Allan D. Mercant, Ministro da Segurança Solar, sorriu tranqüilo. Vagarosamente colocou sobre o porta-folhas da escrivaninha uma espátula de abrir cartas, toda trabalhada em metal de Luur. Pelas altas janelas térmicas, entrava uma faixa estreita da luz do sol, dando um brilho de ouro nos cabelos louros de Mercant.
Continuou sorrindo, quando o Major Abucot tentava tornar mais exemplar a sua já correta postura marcial.
Senhor, por favor! Vim correndo pelo caminho mais curto para lhe trazer pessoalmente o radiograma. Por gentileza, senhor.
Abucot deu uns passos à frente, colocou as folhas de papel na mesa e se afastou imediatamente.
O rosto liso de Mercant, sem nenhuma ruga, não deixou transparecer nada do que lhe ia no íntimo. Descontraído, apanhou as folhas e começou a ler.
Finalmente, levantou os olhos. Se Abucot estava ali esperando para saber mais coisas sobre o conteúdo do radiograma, sua decepção devia ser enorme. Mercant apenas perguntou:
Pelo que vejo, você mandou calcular a potência do transmissor estrangeiro por meio dos dados do receptor. Você tem certeza de que seus matemáticos não cometeram nenhum erro?
Absolutamente, senhor — respondeu o major. — A estação opera com uma potência de transmissão de, pelo menos, cinqüenta milhões de kilowatts, numa base de hiper-rádio. Conheço apenas um planeta onde poderia existir uma instalação tão gigantesca assim.
E qual seria este planeta?
Árcon III, senhor.
Mercant concordou pensativo. Seus dedos finos remexiam as folhas de papel com o texto decifrado.
Muito obrigado, major. Pode se retirar.
Atônito, o major passou por entre os dois robôs de vigilância, atingiu a comporta blindada e desapareceu.
Só depois que acendeu a luz vermelha, indicando que a fechadura da porta externa estava travada, foi que o chefe da Segurança Solar começou a agir. O dedo indicador da mão direita apertou um botão que tinha escrito por cima “Comando Supremo da Armada”. Na grande tela, ligada por fios de uma rede invisível, surgiu o rosto estereotípico com o sorriso plástico do robô.
Marechal Freyt, ligeiro — disse Mercant em voz alta e apressada. — Urgência urgentíssima.
O marechal será avisado, senhor. Aguarde um instante, por favor.
Mercant teve de esperar dois minutos, até que o rosto estreito e expressivo de Freyt aparecesse na tela. Sua respiração estava ofegante. Certamente veio correndo de onde estava. O chefe supremo da Segurança Solar não lhe deixou tempo para respirar. Já se conheciam há muito para perderem tempo com fórmulas de civilidade.
Um hiper-rádio de Perry Rhodan, Freyt — disse Mercant sem nenhuma introdução. — Você está sozinho?
Freyt fez um gesto que sim.
Está bem. Então prepare-se para ouvir a notícia mais sensacional dos últimos cinqüenta anos. Perry Rhodan acabou de passar um radiograma diretamente de Árcon. Os dados da medição são absolutamente claros. Uma estação com cinqüenta milhões de kilowatts existe somente em Árcon III, a base militar do Grande Império.
Marechal Freyt, vice-presidente do Império Solar, ainda estava ofegante.
Quer dizer que ele se comunicou diretamente conosco, sem se utilizar de qualquer espaçonave terrana, como estação intermediária de relê? Se, por este rádio, captarem a direção da Terra, estamos completamente perdidos.
Existe de fato esta possibilidade. No entanto, Rhodan assumiu o risco. A situação mudou do dia para a noite. — A voz de Mercant tomou, então, um tom mais imponente: — Freyt, o regente robotizado de Árcon foi deposto. Nosso movimento, tão bem e com tanto sacrifício preparado, foi coroado de êxito. Atlan foi reconhecido pelo controle de segurança do grande cérebro positrônico como o arcônida que permaneceu ativo e fiel à sua gente, descendente direto de um célebre imperador da estirpe Gonozal. Daí se deduz uma situação que, para nós, pode acarretar sérias conseqüências. A partir de agora, muita coisa vai mudar na política das Galáxias.
Nosso chefe menciona isto? — perguntou Freyt preocupado.
Sim, com muita clareza. Vou enviar o texto decifrado para o quartel-general. Perry Rhodan se encontra no momento com seu comando de ação em Árcon III. Atlan assumiu o governo, no entanto, para o foro externo, persiste ainda a impressão de que quem está governando ainda é o gigantesco robô. Desta forma, Atlan se esconde atrás da máquina eletrônica, considerada poderosa e inflexível e de cuja autoridade ele se serve inteligentemente. Acho isso muito certo, pois, se, desde o começo, se espalhasse a notícia de que um arcônida vivo sucedeu ao cérebro robotizado, poderiam surgir pelo vasto império colonial desordens de toda espécie. Rhodan diz também que a situação está tranqüila. O cérebro robotizado continua atuando independente somente em questões de administração e de abastecimento. Decisões importantes são tomadas pelo Almirante Atlan, que nós temos de classificar agora como soberano e imperador.
Depois de meditar um pouco, o marechal ainda acrescentou:
Uma situação que nos pegou de surpresa. Você sabe que Atlan conhece a posição da Terra melhor do que você e do que eu...
Allan D. Mercant exibiu de novo seu célebre sorriso.
Sei muito bem. Quando ele se indispuser conosco, basta fazer um aceno para que a Terra seja atacada pela maior frota do Universo. Perry Rhodan pondera também esta hipótese. No aludido radiograma, você recebe instruções de enviar imediatamente para Árcon a nave capitania Drusus. O Coronel Sikermann deverá comandar a Drusus. Ele receberá a ordem de voar para o planeta Zalit, apanhando lá os cientistas restantes, técnicos e mutantes, descendo depois em Árcon III. É mais ou menos tudo que a mensagem contém.
Realmente muito pouco, tomando-se em consideração o alcance do fato, que vai ocasionar muita alteração — concluiu o chefe da frota terrana.
Para mim, é o suficiente, por enquanto. Presumo que virão tempos difíceis, Freyt. O futuro da Humanidade passa a depender agora da boa vontade arcônida de nome Atlan. Depois de ter afastado o cérebro de um robotizado, todos os caminhos lhe estão abertos. Em tese, não duvido de sua amizade com a Terra. Mas, já que não sou psicólogo de raças estrangeiras, não posso fazer nenhuma previsão, sobre se a plenitude do poder, agora nas mãos de Atlan, poderá alterar seus pontos de vista. Esteja preparado para tudo, mesmo para o pior. Mantenha toda a frota em estado de prontidão. Mande o Coronel Sikermann visitar-me, antes de partir para o planeta Zalit. Queria lhe entregar o relatório sobre a malsucedida invasão dos druufs. Rhodan haverá de se interessar muito em saber que estes descendentes de insetos, originários de um Universo estranho, conseguiram construir no Estado norte-americano de Wyoming uma base para seus transmissores...
De repente, fez uma pausa. Mas logo prosseguiu:
Ou não, espere um pouco, por favor. Eu mesmo vou ter com você. Segure um pouco o Coronel Sikermann. Até logo mais.
Mercant desligou. Continuou ainda imóvel, por uns momentos, à sua mesa de trabalho. Os últimos raios do sol poente davam um brilho vivo nos metais do quadro de comando.
Quando o chefe da segurança terrana se levantou, não estava bem certo de sua ida de... A ducha celular, que recebera no planeta Peregrino, tinha de ser renovada brevemente, se não quisesse ver em pouco tempo a decadência total de sua juventude artificial.
Passou devagar pelos robôs de vigilância que o saudaram. Na sua mão direita estava o punhado de folhas plásticas com a sensacional notícia.
O regente robotizado de Árcon seria desativado e reprogramado. Mercant sabia que então começaria uma nova era.

* * *

O Coronel Baldur Sikermann entregou os papéis com o relatório ultra-secreto ao seu robô assistente. Havia terminado a discussão da situação no quartel-general da armada e não havia mais nenhuma pergunta a fazer.
Desejo-lhe uma boa viagem — disse-lhe o Marechal Freyt. — Fique de olhos abertos e, apesar dos últimos acontecimentos, evite tudo que possa levar ao conhecimento dos escutas galácticos a posição da Terra. No espaço há muitas inteligências com bons instrumentos de orientação. Faça suas transições sempre sob a proteção dos compensadores estruturais, mantenha-se sempre cauteloso. Provavelmente vão recebê-lo com muita festa. Abrigue os nossos a bordo da Drusus e voe depois para Árcon. Se, contra nossa expectativa, vocês forem atacados, volte imediatamente. Perry Rhodan haverá de achar uma saída neste caso. Diga ao nosso chefe supremo que aqui na Terra está tudo em ordem.
Com exceção da base de transmissão dos druufs em Wyoming — acrescentou Mercant, sorrindo.
Ah! É verdade, isto você deve dizer pessoalmente a Rhodan. Ele então vai decidir se comunica isto ao novo imperador Atlan, ou não.
Freyt olhou para o relógio.
Está chegando a hora. Não se arrisque demais nas transições. Fazemos questão de vê-lo chegar com saúde e boa disposição ao grande aglomerado de estrelas M-13.
O supercouraçado Drusus, último lançamento das grandes naves de combate da Frota Solar, partiu no dia 12 de maio de 2.044, às cinco horas e 13 minutos.
Com o impulso gigantesco das turbinas para a arrancada, o espaçoporto de Terrânia foi inundado por intenso clarão amarelado. E antes que o cavernoso trovejar das máquinas chegasse aos ouvidos dos habitantes de Terrânia, que ainda dormiam, a gigantesca esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro já estava em pleno espaço, onde Sikermann, com a velocidade de 500 km por segundo, estava em vias de fazer a primeira transição. Obtivera permissão especial para dar o primeiro salto espacial ainda dentro do sistema solar.

* * *

O Coronel Poskanow, de estatura descomunal e notório como grande estrategista espacial, foi o primeiro a receber o comunicado de posicionamento do chefe do Quarto Grupo de Caças Espaciais, o Major Untcher. Poskanow exercia o cargo de comandante do Grupo de Caça Espacial 16 no setor da faixa dos planetóides, entre Marte e Júpiter, Região de Vigilância 12-14A-3746.
De sua nave capitania, o couraçado Osage, captou o radiograma de Untcher, quando a Drusus estava atingindo quase a velocidade da luz.
Como homem inteligente, Poskanow deu ordem para que todas as estações energéticas de suas naves fossem ser aplicadas nos envoltórios de proteção e ordenou também que se abstivessem, no momento, de qualquer alteração de rota.
Nas unidades sob seu comando os mecanismos de propulsão foram desligados, enquanto que o bojo cintilante das grandes naves recebia uma camada invisível de proteção energética. Desta feita, todos os grandes aparelhos estavam bem protegidos, quando a gigantesca Drusus, nas proximidades da órbita de Marte, iniciou sua transição.
Apesar de terem sido desligados os compensadores estruturais, os aparelhos de absorção de quase todas as naves foram danificados. O Coronel Poskanow sentiu como sua Osage de quinhentos metros de diâmetro estremeceu. Os abalos estruturais, produzidos pela supertransição no conjunto do espaço quadridimensional estável, equivaliam a uma sucessão de choques de uma violência fantástica. Terminado o fenômeno, os comandantes das pequenas unidades davam notícia dos danos nas partes externas e mesmo nas instalações das naves. Quatro gazelas, rápidas naves auxiliares dos pequenos cruzadores, já haviam pedido reboque para reparos nos estaleiros.
O Coronel Poskanow não achou razões para se opor a isso. A nave auxiliar G-275 avisou que o envoltório energético de proteção contra a sobrecarga térmica não estava funcionando.
Poskanow resolveu então reunir as gazelas danificadas e, a bordo do cruzador Kongo, levá-las para a base na Lua. Enquanto estava tomando as providências atinentes ao reparo, chegou-lhe às mãos uma importante mensagem cifrada, diretamente do alto comando da Frota Solar. A decodificação durou exatamente trinta e seis minutos.
Neste meio tempo, o comandante da Kongo executava uma manobra dificílima para colocar sua nave numa posição que pudesse, por meio dos raios de tração, aparar as naves auxiliares em sua queda livre pelo espaço. Dois minutos antes do início desta fase da operação, o Coronel Poskanow recebeu o texto decifrado. Assim que terminou a leitura, a primeira medida que tomou foi chamar o cruzador Kongo. Extremamente mal-humorado, o comandante da Kongo recebeu ordem de interromper imediatamente o trabalho de pôr a bordo as pequenas naves danificadas e de voltar, incontinenti e a toda velocidade, para seu setor de caças.
O Tenente Nafroth, comandante de uma das gazelas danificadas, assistiu com espanto, pela tela de sua nave, ao rápido desaparecimento da Kongo, tão rápido que quase não poderia ser localizada.
Dez segundos depois, entravam em ação os receptores de rádio. O chefe do grupo fez uso do telecomunicador. Nafroth recebeu instruções de deixar sua nave flutuando, tendo apenas o cuidado de evitar colisões com fragmentos cósmicos que existem no espaço.
A nova base da frota espacial na Lua, no momento mais próxima do que Marte, que se achava então do outro lado do Sol, mandou uma nave de salvamento, que, sete horas depois, estava rebocando para dentro de suas comportas a pequena gazela, cuja velocidade era de apenas um décimo da velocidade da luz. Assim, ao menos para o Tenente Nafroth, o assunto gazela havia terminado. Não podia realmente supor que o hipersalto da Drusus, realizado tão perto deles, seria o início de episódios em que sua participação seria quase nula.
Quando a nave de salvamento iniciou o vôo de regresso, o Coronel Poskanow já havia reunido o Grupo de Caças Espaciais 16 no setor 12-14A. As naves seguiam em queda livre e com velocidade reduzida pelo espaço intersolar. O controle da situação por parte de Poskanow se dava, tanto na telefonia como na transmissão da imagem, simplesmente por aparelhos de videofone, que tinham apenas a velocidade da luz. Não havia, pois, nenhum perigo de serem descobertos, ainda mais que a potência de sua estação transmissora na nave capitania não passava de 250 watts.
Os comandantes das diversas unidades tinham se dirigido para suas respectivas centrais de radiofonia. A figura de Poskanow podia ser vista em todos os aparelhos.
Meus senhores, a partir deste momento passa a vigorar o estado de alerta de operações bélicas — explicou ele de maneira sucinta. — Na nebulosa esférica M-13 estão acontecendo coisas que podem levar a um rápido descobrimento da posição da Terra. Assim que os dados a respeito chegarem às minhas mãos, os senhores receberão mais informações. Por enquanto, recebi ordens de reequipar nossas forças, de manter nossas tripulações no nível previsto e, a seguir, rumarmos para o Grupo de Segurança Plutão, sob as ordens do General Deringhouse. Somente depois é que deixaremos nosso atual posto de vigilância. Voaremos juntos para a Base Ganimedes, faremos provisão de água e de alimentos, bem como de munição e de peças de reposição, de acordo com o Plano de Equipamento Columbus. Comuniquem a suas tripulações que a entrega da correspondência será feita no máximo na Base Ganimedes. Ficam automaticamente canceladas as licenças. Não haverá necessidade de uma censura postal mais rigorosa; no entanto, é bom advertir seus subordinados de que não podem fazer nenhuma menção das medidas que estão sendo tomadas. Obrigado. É tudo que tenho a dizer por enquanto. Desliguem agora e sintonizem para receberem os dados concretos da nave capitania. Eu os irei guiando.
As telas se apagaram. Os comandantes retornaram pensativos para suas cabinas de comando.
Poskanow estava de novo no meio dos oficiais de seu estado-maior. A nave Osage iniciou o vôo. O chefe do grupo estava atento ao ronco característico do mecanismo de propulsão, quando, perdido em seus pensamentos, falou:
Um velho provérbio russo diz que o urso lambe tanto o mel que as abelhas entram pela sua garganta adentro. Tenho a impressão de que a Humanidade vai receber agora as primeiras picadas de abelha. Infelizmente, aqui no nosso caso, não se trata de abelhas, mas de uma infinidade de belonaves das profundezas do espaço. Teremos uns dias quentes, meus amigos.
Poskanow fez um sinal ao comandante da Osage, que, meio abatido e um tanto recurvado, se dirigiu para a poltrona do piloto. Na sua frente luziam as muitas telas de observação, formando uma verdadeira galeria resplandecente.
Ali, o espaço estava, como sempre, indiferente a tudo. Bilhões de estrelas cintilavam na negridão do nada. Muitas delas possuíam planetas e de um destes planetas, de qualquer sistema solar das Galáxias, surgiria um dia uma frota estrangeira. Então, seria quase que o fim...
Poskanow resolveu escrever uma carta para sua esposa. Sim, e também outra para Sergej, que, nestes dias, estaria nos exames finais do segundo ciclo. Os estudos eram puxados e Sergej não era muito forte em assuntos de ecologia e colonização espacial. Talvez, porém, conseguisse equilibrar esta pequena falha com boas notas em outras disciplinas. Nenhum cadete da Academia Espacial de Terrânia podia tirar menos de cinco em nenhuma matéria. Poskanow estava mesmo preocupado, pensando se valia a pena que seu filho único cursasse o estabelecimento de ensino mais cobiçado da Terra, para vestir um dia o glorioso uniforme de oficial do espaço.
Angustiado, pulou para fora da poltrona. Não tinha mais a calma necessária para ficar sentado.
Para qualquer coisa, você me encontra no meu camarote — disse para o primeiro-oficial da belonave. — Se chegarem notícias, traga-as imediatamente para mim.
2



Gostaria de sair daqui, se você o permite. Estas moradias muito abaixo da superfície podem ser práticas em caso de um ataque aéreo, mas para o meu gosto são muito abafadas e escuras. Há mais de trinta minutos que a Drusus aterrissou. Que estamos esperando?
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, empertigou-se todo, tentando atingir com a vista toda a grande tela. Mas não o conseguiu. Estava demasiadamente próximo da tela ovalada.
A figura em três dimensões, vista na tela, era verdadeiramente espetacular. Rhodan tinha a sensação de estar sentado ao lado do Almirante Atlan. Também a voz do arcônida, ampliada por um aparelho de som estereofônico 3-D, era absolutamente fiel.
Por um momento, os dois homens se olharam fixamente. O longínquo interlocutor era espadaúdo e musculoso, visivelmente mais forte que Rhodan, cuja estatura esbelta mal deixava perceber sua grande resistência física.
Atlan esboçou um sorriso irônico.
Rhodan notou-o com visível desagrado, olhando de alto a baixo o sorridente arcônida, de olhos albinos, avermelhados.
Eu lhe perguntei alguma coisa!
Sei disso — soou dos alto-falantes.
A entonação não deixava dúvidas de que Atlan estava compenetrado da importância decisiva de suas relações com Perry Rhodan, exatamente neste momento.
Então...?
Bárbaro, parece que você me considera um monstro terrível. Qual a razão de sua pergunta? Se você quer ir para sua nave capitania, então vá. Você não é meu prisioneiro.
Rhodan fez como se não tivesse ouvido a admoestação. Ficou examinando a figura do arcônida no vídeo. Aquele homem, depois da queda do todo-poderoso regente robotizado, se transformara na figura-chave de toda a Galáxia. Apenas alguns iniciados nos “grandes segredos” podiam supor que as ordens irradiadas em seqüência contínua das antenas-ciclópicas do planeta da guerra não provinham mais da gigantesca máquina positrônica, fria e impiedosa, mas de uma arcônida relativamente imortal, de alta estirpe.
Atlan foi suficientemente inteligente em não abandonar de uma hora para outra a maravilhosa sala central do cérebro eletrônico. Ele — após uma ação ousada, onde a morte o cercava de todos os lados — foi oficialmente reconhecido pelo setor de segurança do imenso computador como mentalmente capaz. Atlan estava há poucos dias de posse do governo.
A grandiosidade do grande cérebro robotizado eram os conhecimentos nele armazenados. A história do Império Arcônida era de um passado quase pré-histórico, de muitas dezenas de milênios. No entanto, não havia nada que escapasse ao imenso repositório de dados da descomunal máquina.
Este fato foi de grande utilidade para Atlan — ex-almirante do Grande Império e sobrinho do Imperador Gonozal VII, que governara há dez mil anos — para dar base mais sólida às suas pretensões. Por enquanto estava tomando suas decisões ainda escondido no anonimato. Os muitos povos de raças diferentes, que viviam como colonos do Grande Império Arcônida, ainda eram de opinião de que se achavam sob o poder de um ditador, de um robô conhecido como frio e impiedoso.
Rhodan ainda estava com as recordações vivas dos últimos acontecimentos da semana. Lembrava-se da aterrissagem em Zalit, dos ataques infrutíferos dos mutantes contra o formidável envoltório de proteção do cérebro robotizado e, finalmente, do começo da derrocada, que só se transformou em vitória depois que Atlan interveio, descobrindo a chave do poder.
Como é? Você perdeu a fala? O que houve, meu amigo?
Rhodan levou um susto. Nervoso e incerto, olhou em torno de si, naquele recinto totalmente fechado. Já estava fora do misterioso envoltório energético, cujas forças foram erroneamente tão subestimadas. Por detrás das portas blindadas, fechadas e vigiadas por robôs altamente armados, esperavam seus companheiros. O ingresso só fora permitido a Rhodan.
Esta sala hexagonal era usada antigamente para proporcionar aos cientistas do Grande Conselho de Árcon uma consulta tranqüila ao supercérebro eletrônico que eles mesmos criaram.
O rosto expressivo de Atlan ocupava quase toda a tela.
Para eu perder a fala, seria necessário que o mundo acabasse — afirmou o intrépido terrano. — Atlan, há dois dias, pedi a assinatura do pacto de aliança e de assistência mútua, lavrado por meus especialistas. Desde quando você começou a menosprezar os homens?
Não os menosprezo mais desde que se uniram sob sua direção, desde que aprenderam a assimilar o imenso saber técnico-científico de minha veneranda raça, usando-o para seus próprios fins. Você não deve se esquecer de que eu conheci seus antepassados, quando...
...eles ainda moravam em cavernas e se combatiam atirando pedras uns nos outros — disse Rhodan completando a frase.
Não havia nenhum ressaibo de amargura em sua voz.
Atlan sorriu de novo.
Oh! Já mencionei isto alguma vez?
Mais de mil vezes.
Então, peço-lhe desculpas.
Mas como fica mesmo o tratado de aliança entre o Grande Império e o Império Solar?
Com este nome tão pomposo, você designa naturalmente a sua estrelazinha diminuta, cujos nove planetas juntos não dariam um volume suficiente para formar um único corpo celeste digno deste nome.
Exatamente — confirmou Rhodan indiferente.
Atlan sorria de modo franco. Nos dois homens não se notava mais nenhuma tensão. Há uns instantes, o ar parecia saturado de animosidade.
Amigo, você deveria compreender minha situação. Por ora, sinto-me ainda numa imensa cabina de comando, cujos instrumentos mirabolantes não conheço bem. Quando o cérebro eletrônico foi montado, eu já era considerado há muitos milhares de anos, anos da Terra, como morto. Não costumo assinar tratados, quando não sei se os posso cumprir. Você acha que eu devo subscrever um convênio para sua própria e exclusiva segurança, convênio, este cujo teor satisfaça o formalismo de vocês terranos. Você me exige uma garantia de segurança para a Terra, com palavras sonoras e bonitas.
E estou, com isto, exigindo demais? Até o presente momento, a posição da Terra era um segredo. Somente você é quem sabe dele.
E daí? Haverá por isso um motivo para você desconfiar de mim? Ou você acha que daqui para frente todo meu trabalho consistirá em tentar destruir vocês, bárbaro? Perry, conserve sua tranqüilidade. Se eu quisesse traí-los, teria tido inúmeras ocasiões nos últimos anos, com todos os meios à minha disposição, para, com um simples rádio, enviar toda a frota robotizada de Árcon contra a Terra. Será que sua cabeça ficou tão confusa assim? Não posso assinar este tratado. Minha posição ainda não está bem segura.
Sirvo-me do pretexto da validade do cérebro eletrônico, para fazer com que minhas ordens sejam cumpridas. Se eu aparecer perante o público como Imperador Atlan, teríamos que contar nos próximos dias com revoltas e desordem por toda parte. Você sabe qual é o tamanho do Império Arcônida? Quantas inteligências estranhas e quantos descendentes de antigos colonizadores arcônidas vivem por aí? Como poderei eu, em nome deles, assinar um tratado, se eles nem sabem se eu existo? Ou você é capaz de pensar que eu, mal acabo de chegar de volta à minha pátria, já quero passar por traidor?
Você poderia assinar o tratado em nome do regente robotizado, não é?
Bárbaro sabido! — disse Atlan de modo brusco. Seus olhos demonstravam irritação. — Sempre foram assim e mesmo você não é melhor, quando está em jogo o bem de sua raça.
Acho que isto não tem nada de incorreto — retrucou Rhodan.
Atlan desatou num riso sarcástico. Seu rosto foi diminuindo de tamanho e a parte superior do tronco apareceu na tela. Vestia ainda o mesmo uniforme com as insígnias de almirante da frota arcônida. Este uniforme tinha sido confeccionado na Terra, conforme seu desejo.
Para você não tem nada de indecente, mas tem para meus conceitos. Para mim, já basta ter que continuar na situação meio clandestina em que estou. Se pudesse seguir minha consciência, ordenaria ao cérebro eletrônico que me proclamasse imediatamente o soberano legítimo. Mas eu me abstenho disto, justamente porque olho para o bem de muitos povos. Tenho que agir com muita cautela. Contente-se, pois, com a minha palavra de que a Terra não será nem traída nem atacada. Será assim tão difícil de acreditar em mim?
Rhodan pigarreou.
Nem parecem mais palavras de um arcônida, Atlan.
Quando um homem, durante milênios e milênios, procura ensinar boas maneiras e um pouco de ciência aos habitantes da Terra, pode acontecer que, sem querer, adote uma ou outra de suas expressões selvagens ou bárbaras — respondeu Atlan aliviado.
Rhodan cerrou os olhos. Atlan sabia ser mordaz. A leve risada do arcônida o arrancou de seus pensamentos.
Está certo, aceito — disse hesitante. — Você não nos vai trair, nem nos atacar. Mas quem me dá a garantia de que o poder não lhe vai subir à cabeça? A Terra é perigosa, você sabe disso.
Tão perigosa, que para vocês saírem um pouco da obscuridade, lhes é necessário andar se arrastando e se escondendo por aí. É realmente uma tática estranha.
São apenas atitudes do instinto de autoconservação. Eu lhe venho oferecer o que vocês não possuem mais, isto é, especialistas competentíssimos para suas espaçonaves, já há muito com deficiência de tripulação. Dez milhões de soldados de ótima formação lhe podem ser fornecidos prontamente. Juntos poderemos dominar todas as insurreições, inclusive o ataque dos druufs nas proximidades da zona de descarga. Eu lhe forneço o pessoal e você entra com as naves necessárias.
Combinado, mas sem contrato. Não posso assinar nada com um nome, que ninguém, fora você, conhece. Quando eu chegar um dia abertamente em público, você receberá seu tratado assinado. Há mais alguma coisa a tratar?
Rhodan percebeu que estava na hora de encerrar o diálogo.
Nada mais? Então vou me retirar e você volta com sua gente para a Drusus. Você vai deixar Árcon?
Só depois que o tratado for assinado.
Cabeça-dura — disse Atlan. — Você não aprende nunca. Ah! Sim, ainda me lembro de uma coisa.
Rhodan olhou de novo para a tela. As últimas palavras de Atlan foram ditas bem destacadas.
Faça esta criatura com cara de rato, que tem o nome de Gucky, compreender que, daqui para frente, tem que acabar com estas brincadeiras bobas.
Como? — perguntou Rhodan surpreso. — Não faz meia hora que Gucky chegou de Zalit, com o pessoal que lá estava. Que aconteceu com ele?
O malandro tentou, desde que chegou aqui, destruir, por meio de seus dons de teleportador, o envoltório de proteção do cérebro robotizado. Provavelmente este fanfarrão extraterreno é de opinião que seus dons são infinitamente superiores aos dos mutantes humanos. É claro que, ao saltar, foi preso pelo campo hexagonal transdimensional do cérebro e lançado para trás violentamente, sofrendo muito com isto. Recebi uma mensagem do alerta automático. Tome providências para que tais brincadeiras não se repitam. Acho que expus a você e aos seus, bem claramente, que o alerta automático construído por meus antepassados não tolera a entrada de seres vivos estranhos nos domínios do robô. A programação está feita e eu não posso alterá-la em nada. Será que estamos entendidos?
As últimas palavras foram duras e frias.
Rhodan notou que estava chegando aos limites da paciência de Atlan. Concordou, sem dizer uma palavra, para, instantes depois, continuar:
Isto é um assunto que também não me agrada. Ao menos nos podiam permitir, uma vez, visitar esta maravilha da técnica.
O movimento rápido da cabeça deixou brilhar por um momento os cabelos claros de Atlan. Era como se houvesse uma advertência nos seus olhos cor de ouro.
Perry, você é inteligente demais para compreender perfeitamente o que estou dizendo. Digo-lhe mais uma vez que não posso mudar nada na instalação de segurança do robô. Meus antepassados já sabiam por que tinham de garantir assim o insubstituível cérebro positrônico. Além disso, neste particular, não confio muito em você. Você conseguiria, por meio de uma microbomba trazida “por engano”, mandar pelos ares as instalações do grande cérebro. Conheço vocês muito bem. Primeiro vocês chegam, não fazem nada, depois se mostram dispostos a oferecer aos outros sua benévola amizade, mas somente quando esses outros não lhes parecerem mais perigosos.
Você fica no seu canto e eu no meu. Depois de se cancelar o regente, ele se transformará num autômato inócuo, aliás, com características singulares. Mas antes de destruí-lo, teríamos de destruir primeiro você e seu sistema solar. E isso não está nos meus planos. Mas quando se pensa com uma visão galáctica, como eu realmente penso, então cinqüenta mil mundos povoados parecem muito mais importantes do que sua pequena Terra. Portanto, acautele-se de atacar nossa grande máquina. Aí, todas as minhas promessas cairiam por terra. Estamos entendidos, Perry Rhodan?
Totalmente entendidos, obrigado.
Pode poupar um pouco de sua ironia. Mas, me desculpe agora, tenho muito que fazer. Na zona de descarga se inicia agora um ataque monstro.
Atlan levantou a mão em cumprimento. O brilho da tela esmaeceu e atrás de Rhodan se moveram as pesadas portas corrediças de aço blindado. E a luz clara do dia iluminou a sala hexagonal.
Rhodan caminhava empertigado. As últimas palavras de Atlan o atingiram em cheio. Não havia mais dúvidas de que o almirante arcônida, apesar de sua mui longa permanência na Terra, se transformara no maior político do grande Universo galáctico.
Manter-se prudente e tolerante”, pensava Rhodan, “e nunca haverá uma desgraça.”
Com este propósito, Rhodan penetrou na ante-sala.
Reginald Bell, braço direito de Rhodan, estava sentado no canto de um sofá de módulos. Olhou preocupado para o administrador do Império Solar.
Rhodan ficou parado ao lado dele, olhando para o relógio. Não disse nada. Quando o silêncio se tornou incômodo, Bell comentou, com uma frase mais murmurada do que falada:
A julgar pela sua expressão, Sua Excelência não se deixou convencer, não é?
Não houve resposta de imediato. pensativo, Rhodan olhava para as portas blindadas, já novamente fechadas, da sala hexagonal de consultas.
Era de se esperar. Os argumentos também não me convenceriam, caso eu estivesse no lugar dele. O tratado de não-agressão e de assistência mútua, puramente do ponto de vista estratégico, não tem nenhum sentido. Quem é que o poderia impedir em dado momento de mudar de idéia, apesar do papelucho assinado e tal? Chamou-me de um selvagem sabido...!
Bell começou a rir.
É, ele nos conhece bem.
O fato de ele nos conhecer bem é a minha grande esperança. Deve saber que estamos a seu lado. O Grande Império sob a tutela de Árcon é pobre em pessoas inteligentes e de maiores iniciativas. A degeneração do atual Império é tão profunda que não será alterada de um dia para o outro. Atlan terá de contar não com esta geração, mas com a que vier depois, iniciando um amplo programa de reeducação, que será capaz de arrancar os jovens da decadência moral, da letargia e dos passatempos idiotas e absurdos. Acho que, em sessenta anos, ele conseguirá erguer esta imensa nação. Mas, até lá, muita coisa mudará na Terra.
Bell se levantou. Ele e Rhodan eram os únicos homens aqui nesta descomunal cidade subterrânea, junto do cérebro positrônico. Nas amplas galerias, havia intenso movimento. Eram principalmente homens do planeta-colônia Zalit convocados para o serviço militar, que, aqui embaixo, aguardavam o momento de embarque.
Os dois não foram molestados por ninguém, quando em passos rápidos se dirigiam para os elevadores antigravitacionais. Mesmo os inúmeros robôs de vigilância deixavam-nos passar tranqüilamente.
Como os tempos estão mudados — disse Bell com ironia. — Ainda há poucos dias atrás, eles nos teriam reduzido a cinza, se aparecêssemos por aqui. Acho que a fase de governo de Atlan começa muito bem.
Um oficial da força aérea zalita parou para admirar o uniforme dos terranos. Era evidente que nada entendia das insígnias de hierarquia. Assim, resolveu por prudência fazer uma saudação muito cerimoniosa.
Rhodan agradeceu. Nesta ocasião se lembrou dos dias pouco agradáveis em que foi obrigado a passar por um habitante de Zalit, tendo o cuidado de dar uma coloração avermelhada aos olhos. Era o único meio de chegar são e salvo ao planeta da força aérea e de todos os armamentos do Império.
Já bem próximos do elevador, Bell perguntou:
Você já está mais calmo? Ou melhor, sua indignação já acabou?
Rhodan diminuiu o passo e acabou parando. Virou a cabeça lentamente. Bell mantinha um sorriso enigmático.
O que há?
Bell olhou rapidamente para cima, onde um sol artificial seguia sua órbita fictícia. A conversa constante dos muitos zalitas enchia o ar e pesava nos ouvidos.
Mas, o que há? — perguntou de novo Rhodan, mais alto do que pretendia.
Bell passou a mão na testa para limpar o suor.
Faz calor demais aqui nesta caverna — disse ele, depois de pigarrear. — Está certo, eu vou falar. Perry, não podemos ficar esperando por este contrato ou tratado. Sikermann veio com notícias alarmantes. Os druufs conseguiram instalar na Terra uma base de transmissão.
Rhodan parecia perplexo, procurando palavras. Bell o tranqüilizou:
Não se assuste. O caso já está liquidado. Os druufs foram descobertos por um ex-agente do Serviço de Segurança Solar e logo postos fora de combate. Constatou-se depois que os monstros souberam de nossas freqüências de transmissão por mero acaso. Foi por ocasião do reforço que se enviou para a base da Lua. Calcularam os efeitos 5-D e chegaram às nossas hiperfreqüências. Com isto não está dito que eles conhecem a posição galáctica da Terra. Nossa investigação provisória já constatou que, entre um vôo direto para uma base normal e um salto de transmissor superestrutural, há uma distância enorme.
Rhodan já estava mais senhor de si.
Houve interferência dos órgãos de defesa?
Graças a um detetive, cujo nome esqueci. Alguns traidores estavam de um canto para o outro, para proporcionar aos druufs um ponto de apoio inicial. Fundaram uma entidade chamada Companhia do Sono, unicamente para dar cobertura aos invasores. Mercant teme novas complicações.
É só o que me faltava! — exclamou Rhodan. — Aqui as dificuldades com Atlan e em casa uma invasão. Sikermann trouxe dados mais exatos?
Tudo que Mercant pôde averiguar.
E quais são as conseqüências disso?
Já foram calculados os fatores de possibilidade no computador?
Parcialmente. O tempo não deu para uma observação completa. Chegou nosso radiograma cifrado e Mercant resolveu enviar Sikermann para trazer as notícias e poder ajudar em qualquer coisa.
Bell se pôs a caminho para conseguir acompanhar o amigo que já ia a passos rápidos. Conseguiu pegar o elevador antigravitacional, pulou para o campo quase invisível. Sem peso nenhum, foram flutuando para cima.
Alcançaram a saída perto da cúpula externa, que haviam parcialmente destruído alguns dias atrás, quando, depois de uma luta desesperada, se retiravam das profundezas de Árcon. Ainda estavam ali vários robôs trabalhando para consertar o grande elevador do estaleiro.
A luz esbranquiçada do sol de Árcon os veio receber. Rhodan pulou para o vagonete deslizante, dando algumas instruções ao robô piloto.
A três quilômetros dali — ainda perto do envoltório de proteção invisível — estava parada a nave capitania da Frota Solar. A Drusus era de construção gigantesca, mas neste ambiente com mais de cinqüenta couraçados arcônidas das mesmas dimensões, ela não sobressaía.
Rhodan chegou à comporta inferior de passageiros da gigantesca esfera de 1.500 metros de diâmetro, exatamente quando, a poucos quilômetros dela, uma frota de couraçados arcônidas rumava para o espaço, num estrondo ensurdecedor. As ondas de compressão das enormes belonaves foram totalmente absorvidas pelos campos de defesa de funcionamento automático. Em Árcon III nada acontecia sem o controle planificado do grande cérebro robotizado.
Rhodan parou pensativo para olhar as naves que, em poucos segundos, tornaram-se pontos minúsculos no céu sem nuvens de Árcon. Eram aparelhos novos, recém-saídos das linhas de produção contínua. Era seu primeiro batismo de fogo.
Se tivéssemos uma capacidade de produção assim, eu me sentiria melhor — disse Rhodan. — Onde está Sikermann?
A figura espadaúda do comandante surgiu na porta. Cumprimentou cheio de respeito.
Nossos amigos do outro plano temporal tencionavam nos surpreender, não é verdade? Gostaria de ver logo os documentos. Como foi sua viagem? — interrogou Rhodan.
Excelente, Sir, obrigado. Voamos em estado de alerta para o sistema Volat, mas não tivemos nenhuma dificuldade. Nossa gente, que estava esperando em Zalit, também não teve dificuldade alguma para embarcar. Depois de uma permanência de duas horas, prosseguimos viagem. Também não fomos incomodados com o círculo de proteção do sistema arcônida. Não houve nem os costumeiros aparelhos de escolta. Em seguida, fomos teleconduzidos com toda exatidão para este espaçoporto pelo regente.
Atlan manteve a palavra — declarou peremptório Bell. — Será que nós não cometemos um erro ao desconfiarmos dele?
É uma coisa que em pouco tempo virá à luz — observou Rhodan. — Sikermann, você acredita que os druufs não encontrarão a Terra? Você acha que estes seres inteligentes não conseguirão um contato razoável através de um transmissor? Estão num estágio de grande evolução científica. Será que nós, por exemplo, conseguiríamos, por meio de componentes supermatemáticos, atingir um ponto de referência estabilizado de quatro dimensões, apenas com um coeficiente de, no máximo, mais ou menos 0,5 por cento? Conseguiríamos?
A equipe de cientistas da nave capitania, que viera para dar boas-vindas ao mandatário supremo do sistema solar, continuava parada nos fundos da grande comporta, olhando calada para o homem de olhos castanhos.
O porte gigantesco de Sikermann encobria a porta de compressão, próxima da qual os robôs estavam parados. Era como se pretendesse impedir a entrada de pessoas estranhas.
Sir, com toda certeza, nós haveríamos de conseguir.
Rhodan deu um sorriso convencional.
Então os outros também o podem — disse ele em voz mais baixa. — Sikermann, prepare a Drusus para a partida. Onde estão os documentos?
Na central de comando, Sir.
Dez minutos depois, já havia estudado todos os relatórios. Enquanto os homens fatigados pela sua missão se dirigiam a seus alojamentos e iniciavam uma conversa animada com os membros da tripulação do supercouraçado, Perry Rhodan solicitou um contato direto com o regente arcônida.
Trinta minutos depois de ter entrado na Drusus, chegou à comporta inferior da grande nave um comando robotizado, altamente armado. Simultaneamente, ouviu-se a voz de Atlan, na freqüência especial do regente.
Alguma dificuldade, amigo? Fui informado de seu pedido. Que há de novo?
Rhodan chegou mais perto da tela do videofone.
Sinto muito incomodá-lo novamente. Sikermann me comunicou... você se lembra de Sikermann? Baldur Sikermann?
Naturalmente.
Sikermann me trouxe notícias inquietadoras. Os druufs descobriram a posição da Terra.
O quê...?
Meu pessoal não teve o tempo necessário para estudar melhor os dados. Você pode fazer isto para mim? Gostaria de saber qual a porcentagem de probabilidade que há nisto.
Atlan percebeu logo o alcance do novo fato. Quarenta e cinco minutos após a chegada de Rhodan na Drusus, o comando robotizado estava saindo. Começava então para o supercouraçado um período de espera.
Não houve, neste meio tempo, fato de maior importância. Só agora, Rhodan teve tempo para cumprimentar seus auxiliares, que acabavam de chegar do planeta Zalit. Os mutantes contaram como foi a morte repentina do falso almirante arcônida. Gucky, cujas experiências com o misterioso campo de segurança hexagonal haviam fracassado, ainda estava desacordado na clínica de bordo.
O Capitão Hubert Gorlat, que até então nutria esperança de penetrar na campânula energética do grande cérebro, usando o transmissor fictício, acabou desistindo de propor a Rhodan seus planos a respeito. Desiludido, deu ordem à equipe responsável pelo aparelho, para desarmá-lo.
Gorlat estava agora mais do que convencido de que seria um erro grave causar aborrecimentos a um aliado. A maneira de agir de Atlan estava até então corretíssima. Árcon abria os braços para os terranos.
O Major Art Rosberg, o maior especialista em transmissor fictício do Império Solar, estava debruçado sobre os documentos do Serviço Secreto. Os originais de Mercant já estavam há muito em mãos de Atlan.
O que foi que colocou os druufs em nossas pegadas? — perguntou Rosberg meio confuso. — Será que o pessoal da defesa ficou maluco?
O biólogo Costara mostrou-se meio desanimado.
Não sei bem o que pensar a respeito. Confesso que a mim interessa muito mais a conservação bioquímica desta gente de Druufon.
Rosberg passou as duas mãos por entre os cabelos grisalhos. Irritado, empurrou para o lado o catatau de documentos, a fim de olhar somente os desenhos e fotografias anexados. Mas não precisou de muito tempo para perceber que não poderia fazer nada com aquilo. Os dados principais não estavam completos.
O senhor deveria assistir a equipe dos matemáticos — aconselhou o biólogo. — Acho que a metade da tripulação deveria estar no departamento de cálculos, embora não creia que, com os parcos recursos de que dispomos, possamos ter um resultado definitivo.
A quem você está dizendo isto? — interrompeu-o o Major Rosberg, com seu jeito rude. — Se dependesse de mim, já estaríamos bem próximos da primeira transição. Quanta coisa pode estar acontecendo em nossa pátria, se realmente estes monstros resolveram chegar até lá!? Você já chegou a ver pessoalmente as gigantescas frotas dos druufs? Já esteve alguma vez na assim chamada zona de descarga?
Fez uma pausa, depois prosseguiu:
Primeiramente, as quarenta mil naves pesadas dos druufs devem ter tentado romper a linha de bloqueio dos arcônidas. Se formos atacados com esta avalanche descomunal, nossos poucos supercouraçados serão destroçados em alguns instantes.
Rosberg pôs o boné de serviço e caminhou pesadamente para a porta. O Dr. Miguel Costara olhou pensativo para ele. Sentia ecoar em sua cabeça o que dissera há pouco tempo seu colega Rosberg.
A Pátria”, pensava o cientista, “a Pátria!
Já estava sentindo o cheiro suave das florestas de pinheiros, ouvindo o suave sussurro dos regatos cristalinos. Tanta coisa bonita havia em sua Pátria.... na verdadeira Terra.

* * *

...mando em quinze minutos a interpretação escrita aí para a Drusus — soou a voz firme de Atlan nos alto-falantes. — Aqui está o resultado, que você poderá ir estudando desde já.
Como é ele, bom ou ruim? — perguntou Rhodan.
Ruim para a Terra e, com isso, também ruim para todas as raças humanóides das Galáxias. Ninguém deseja a aproximação destes completamente estranhos descendentes de insetos, que devem ter espaço suficiente para viver em seu Universo. O computador declara, com noventa e nove por cento de probabilidade, que o descobrimento da Terra está iminente. Examinei bem os resultados da pesquisa do grande cérebro. O material é novo, proveniente das últimas batalhas e refregas da defesa. Portanto, de plena garantia.
O cérebro partiu das constatações objetivas que os comandos arcônidas realizaram com suas equipes de pesquisadores especializados a bordo das naves druufs conquistadas. Daí se depreende que a ciência destes seres inteligentes, mormente sua matemática, está tão desenvolvida que podem tirar as necessárias conclusões, através das transmissões já realizadas na Terra. Não há mais dúvida de que acharão a Terra assim que tentarem. Outras coisas mais não lhe posso dizer.
Rhodan ficou olhando por muito tempo para a tela. Atlan esperava com paciência. Sabia o que ia no íntimo do amigo.
Que pretende fazer, Perry?
Rhodan estremeceu em seus sonhos. Deu um sorriso incerto.
Voar para casa e ficar atento. Não vejo outra alternativa no momento. O cérebro positrônico dá ainda alguma informação sobre como os druufs pretendem realizar a invasão do espaço de Einstein?
Este é o fator desconhecido que o robô assinalou apenas com um por cento de probabilidade. Não fosse isso, os cálculos estariam perfeitos. O que eu puder fazer para manter firme a frota de bloqueio, será feito. É o que posso prometer à Terra.
Rhodan fez apenas um gesto com a cabeça. Palavras seriam supérfluas.
Talvez o plano dos druufs jamais se concretize — disse o arcônida tranqüilizando. — Ainda é problemática a existência de um tal plano. Acho que você devia entrar em contato com seus agentes no Universo dos druufs. Este... este...
Ernst Ellert — acudiu Rhodan.
Exato, Ernst Ellert! Pode ser que ele saiba de coisas importantes.
Novamente Rhodan fez um aceno com a cabeça.
Neste momento, chegou o comando robotizado com a interpretação escrita dos documentos. A comunicação foi feita diretamente do oficial de vigilância para a sala de comando.
Seus enviados estão aqui. Muito obrigado, amigo — Rhodan estava exausto. — Vou partir agora. Não se esqueça de nós. A temporada que passamos juntos foi muito agradável, embora um dia, você esteve convencido da necessidade de me eliminar.
Atlan sorriu de leve.
Perry, tenho um pedido para lhe fazer. Em Vênus, vive uma moça que se chama Marlis Gentner. Ajudou-me muito, quando os seus especialistas estavam atrás de mim. Quer dar a ela um grande abraço em meu nome? Diga-lhe que eu nunca me esqueci dela, mas que, por motivos de sua louca caçada, não tive tempo de visitá-la aí em Vênus. Você se recorda da jovem estudante de cosmobiologia, de cabelos pretos, com um sentimento pronunciado de justiça?
O sorriso de Rhodan ganhou em calor.
Não haverei de esquecer. Ela já deve estar com o diploma de doutorado nas mãos. Devo-lhe transmitir o abraço, mesmo se ela já estiver casada?
Atlan hesitou um pouco antes de responder:
Sim, mesmo neste caso. Passe bem, meu amigo. Não esqueça que, atrás do regente de Árcon, está Atlan, da dinastia dos Gonozal e não esqueça também que a raça humana tem nas veias uma gota de sangue arcônida. Quando eu, há dez mil anos atrás, cheguei à Terra, houve muitos casamentos entre meus homens e as mulheres nativas daquela região. Inkar, comandante do couraçado Paito, é um nome que nunca foi esquecido na América do Sul. Seu filho se tornou o primeiro inca, o primeiro rei-deus sob o signo do Sol de minha veneranda família. Bárbaro, desejo-lhe boa viagem.
A Drusus decolou sob a escolta de dez cruzadores rápidos da Frota Imperial. Nos confins do sistema arcônida, os dez cruzadores fizeram uma meia-volta e o gigante terrano se preparou para a primeira transição. Atlan não se apresentou mais.
O ambiente a bordo era de tristeza.
Descobriram, de repente, que estavam deixando para trás um grande amigo.
3



Coube ao Major Untcher, chefe do Quarto Grupo de Caças Espaciais, no 16o Distrito dos Caças Espaciais, o privilégio de ser o primeiro a captar os sinais energéticos. Seu grupo se compunha do cruzador leve Áustria e de 27 pequenas espaçonaves de formato lenticular, do tipo ultra-rápido space-jet. O cruzador Áustria era também a nave capitania do Quarto Grupo de Caças Espaciais.
Untcher havia recebido do responsável pelo almoxarifado a quota de 32 litros de água fresca para sua ducha. Quando estava sob o jato relativamente fraco do chuveiro, veio o sinal de alarme da central de radiogoniometria.
Uma tela panorâmica se acendeu. Viu-se o rosto do oficial telegrafista de serviço. Neste momento, o Grupo de Segurança e todas as suas unidades achavam-se a 102 horas-luz além da órbita de Plutão, no espaço interestelar. Por razões de camuflagem, este trecho estava sendo percorrido à velocidade da luz. A partir do alarme de prontidão bélica dentro do sistema solar, era ordem expressa se abster de qualquer transição que não fosse absolutamente indispensável.
O Major Untcher, um homem de boa estatura, porém de rosto precocemente envelhecido, fechou a torneira do chuveiro resmungando. O relógio registrava um consumo de apenas 23 litros de água, até então.
Não se tem sossego nem para tomar banho — gritou Untcher na direção dos microfones. — Provavelmente estão me vendo também, neste estado, na tela deles.
Perfeitamente, major — confirmou o primeiro-tenente completamente indiferente ao fato. — Peço-lhe desculpas. Acabamos de descobrir na constelação Auriga, ou como o povo diz, do Cocheiro, nas proximidades do gigantesco sol Capela, um foco energético muito esquisito. Na tela panorâmica ainda não se distingue nada, em compensação, os rastreadores estruturais estão em plena atividade.
Untcher não quis saber de perder tempo com mais comentários. De um só pulo, entrou no jato quente do secador e apanhou suas roupas.
Dez minutos depois, Untcher estava entrando na central do cruzador. Podia-se ver nas telas os pontos esverdeados dos 27 aparelhos menores. A distância média entre as diversas naves era de apenas cinco milhões de quilômetros, estando bem no centro da linha de reconhecimento a imponente Áustria.
Na cabina de goniometria, bem perto da radiotelegrafia, parecia que um vulcão havia entrado em erupção. O barulho dos dois rastreadores estruturais, que se achavam medindo um deslocamento de um contínuo quadridimensional, superava tudo. Estava, porém, claro que não se tratava da captação de uma onda de superchoques. Os abalos energéticos, provocados pelas transições das supernaves, eram completamente diferentes.
Untcher ouvia, meio atônito, ao trovão ininterrupto. O aparelho automático de interpretação já havia constatado a origem de todo aquele estrondo esquisito. Nas proximidades do grande sol Capela, a mais ou menos 42 anos-luz de distância, formava-se algo que nem Untcher, nem os mais qualificados radiorastreadores eram capazes de explicar. Até que o Primeiro-Tenente Fynkus teve uma idéia diferente.
Está parecendo, major, como se estivéssemos bem perto da zona de descarga, no setor do sistema Mirta — disse ele, pensativo.
Ah! Não diga bobagem. A zona de descarga está a mais de seis mil e quinhentos anos-luz.
Isto não quer dizer nada, pois eu conheço bem este barulho, major. Estive muito tempo por lá. Há alguma coisa errada no setor da constelação Auriga. Olhe bem este dentilhado esquisito. É muito característico da região de superposição. O negócio parece que está se estabilizando. O senhor se lembra dos resultados do rastreamento durante o último ataque dos druufs?
Untcher tinha consciência suficiente para respeitar a opinião do experimentado oficial. O barulho ensurdecedor dos rastreadores estruturais continuava o mesmo. Fynkus foi para o rastreador de matéria. O sargento que lá estava apenas meneou a cabeça. Fynkus fez o mesmo.
Corpos estranhos ainda não se manifestaram, senhor — constatou ele com objetividade. — O fenômeno energético, porém, continua inalterado.
Untcher parecia indeciso. O acaso lhe havia colocado nos ombros um fardo de responsabilidade.
Podia... ou devia se comunicar pelo rádio?
A situação em Plutão era favorável. Mas para se poder operar com ondas normais, a distância não era boa. Com toda certeza, os demais aparelhos do Grupo de Caça Espacial 16 teriam constatado o mesmo fenômeno.
E por que então o chefe ainda não se havia manifestado? Seria tão perigoso assim, apesar de poderem se utilizar dos raios direcionais rigorosamente concentrados, entrarem em contato com uma espaçonave voando fora do sistema solar? Se fosse assim, era sinal de que os matemáticos da nave capitania da frota tinham chegado às mesmas conclusões que o Primeiro-Tenente Fynkus.
O que o Major Untcher está esperando de mim?”, pensou, indagando-se.
Apesar das pequenas dimensões da cabina de rastreamentos, Untcher caminhava nervoso de um lado para outro. Estava numa situação desesperadora.
O que poderia fazer apenas com suas pequenas espaçonaves?
Esperar, no espaço vazio, a 102 horas-luz da órbita de Plutão? Caso a situação ficasse difícil, não poderia fazer muita coisa.
Em compensação, os 27 space-jets e o veloz cruzador Áustria, numa ação conjunta, podiam fazer muita coisa.
Além de tudo, se não voltasse imediatamente, correria o risco de ser descoberto por espaçonaves estrangeiras que aparecessem. No espaço, não dispunha da cortina de camuflagem do sistema solar, percorrido por milhões e milhões de linhas de força magnética, cuja massa planetária fornecia ainda uma proteção extra contra a possibilidade de serem rastreados.
Depois de três minutos de muita concentração, Untcher tomou uma decisão.
Radiograma para todos os jatos, mas através de ondas simples, não acima da velocidade da luz — ordenou ele. — Dissolver a linha de vigilância. Iniciar o vôo de regresso sob o comando do grupo. Iremos nos reunir nas proximidades de Plutão. Proibido o hiper-rádio. Velocidade máxima durante a viagem: cem quilômetros por segundo. Perigo de sermos rastreados no setor Capela. Ligar o aparelho de absorção de freqüências no máximo.
O gravador automático havia registrado as palavras ditadas. O Primeiro-Tenente Fynkus olhava para o chefe do grupo, querendo perguntar alguma coisa.
É tudo — declarou Untcher. — As ondas extras já há muito estão a caminho. Seguiremos somente a rota da Terra, depois que o último aparelho sair comprovadamente de nossas telas de ultra-som.
Untcher levou a mão para a ponta do boné, que ensombreava um pouco seu rosto cheio de rugas. Ao passar pela eclusa de segurança, teve de encolher as pernas e nenhum dos homens da tripulação se atreveu a rir.
Os rastreadores estruturais continuavam roncando, como antes. O fenômeno, que se formara a uma distância de quarenta e dois anos-luz, não podia deixar ninguém tranqüilo.
Fynkus transmitiu a ordem, que, daqui a dezessete segundos, alcançaria os space-jets mais próximos. Mais difíceis seriam os aparelhos de asas.
No momento de maior aceleração, o maquinismo de propulsão da Áustria estremeceu por uns instantes.
Se os tripulantes dos jatos forem espertos, já terão notado alguma coisa diferente no ar — balbuciou Fynkus.
O ar faz bem... — disse um radiotelegrafista para seu colega.

* * *

Graças a Deus! — exclamou o Coronel Poskanow, aliviado. — Untcher acabou compreendendo. Suas naves já estão em movimento. E elas vêm separadas. Isto é muito bom. Foi muito inteligente, pois absteve-se de uma transição. Está tudo bem. Deve ter chegado à conclusão de que, por lá, estaria muito mais exposto e nada conseguiria.
Poskanow se levantou. Ainda há poucos instantes, sentia-se apreensivo, dando a impressão de querer atravessar a tela panorâmica com seus olhos. Com um leve movimento da mão, enxugou as gotas de suor da testa. Depois se concentrou de novo nos rastreadores estruturais da Osage.
O que o Major Untcher não podia ver, foi facilmente reconhecido pelos instrumentos especiais na gigantesca nave.
A típica freqüência estrutural de um também típico funil de descarga deixou ver na tela seus claros contornos. Parecia como se um gigante invisível tivesse perdido no meio do espaço interestelar uma flor muito longa com uma corola imensa. Fossem como fossem os contornos, não havia dúvida de que se tratava de uma fenda de superposição, surgida de repente, através da qual se realizava uma violenta permuta energética entre o campo magnético do Universo de Einstein e o do plano druuf.
De respiração presa, Poskanow observava como a curvatura superior se adensava cada vez mais. Ele tivera oportunidade de conhecer in loco, durante muitos meses, a grande zona de descarga, de origem natural, nas redondezas do sistema Mirta. Assim ninguém lhe precisaria dizer que as ordens do comandante da frota, a respeito do arcônida Atlan, já estavam superadas.
Este fenômeno não tinha nada a ver nem com o regente de Árcon, nem com o Grande Império. A equipe científica da Osage não estava dormindo, e os primeiros resultados de suas pesquisas foram apresentados ao chefe do grupo. Ao reconhecer que estava simplesmente diante de um funil de descarga, e não diante de espaçonaves estranhas, Poskanow resolveu enviar um radiograma elucidativo ao comando supremo da frota.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html