— Sir —
disse com a voz sibilante. — O conceito de coeficiente é análogo
à contagem da grandeza alterada de uma função em matemática, ou
idêntica a um número que exprime o coeficiente de dilatação de um
determinado material. Por acaso, julga que eu tenha negligenciado o
fator segurança?
Os traços
fisionômicos de Rhodan não se alteraram.
— Eu o
conheço bem, meu jovem!
— Como
assim, jovem? — irrompeu Kalup; seu rosto ficou ainda mais azulado
e seu corpanzil balofo estremeceu. — Você disse jovem?
— Exatamente,
jovem. Venho lidando com geometria e trigonometria desde os tempos em
que seu bisavô nem era ainda nascido. Será que isto lhe significa
alguma coisa, meu jovem?
Kalup
estava desnorteado. Os semblantes risonhos de seus assistentes
acabaram de desconcertá-lo, destruindo seu autodomínio. Rhodan
contornou a situação, antes que o temperamental físico explodisse
num assomo de cólera.
O chefe da
expedição e administrador de todo o Império Solar sorriu para o
homem nascido em Epsal, que resmungara alguns palavrões.
Bell tapou
os ouvidos, dizendo em voz alta:
— Ainda
acabo colocando-lhe uma mordaça, com toda certeza. Claudrin, eu lhe
desejo sinceramente uma dor de garganta, acompanhada de muita
irritação nas amídalas. Quem sabe se assim você poupará um pouco
mais meus ouvidos?
O
comandante sorriu, isto é, explodiu numa gargalhada, que mais
parecia o som de uma queda d’água.
*
* *
Stana
Nolinow vinha mais caindo pela escotilha blindada do setor de
artilharia do que propriamente andando. Procurando apoio, firmou-se
num aparelho de mira automática, para depois, com muito esforço,
cair sentado num banco. Estava ofegante. Procurou logo pela proteção
do cinturão, afivelando-o bem firme.
Seguindo
as prescrições de seu serviço, Brazo Alkher estava sentado atrás
do “órgão
de tubos”,
como era chamado, na gíria dos tripulantes, o conjunto de canhões.
Achava-se atento, olhando para um adversário que não existia. Olhou
rapidamente em volta, sem compreender o que se passava. Todos que ali
estavam aguçaram os ouvidos, quando Stana Nolinow disse, ainda
ofegante:
— Talvez,
dentro de pouco tempo, vocês todos tenham que apertar os cinturões.
Acho que não podem fazer uma idéia de como são repentinas as
manobras de Kalup.
Foi com
uma sensação de intranqüilidade que Brazo verificou que seus
comandados procuraram imediatamente afivelar os cinturões, com uma
agilidade incrível.
Estava
ainda refletindo sobre as medidas que teria de tomar, quando soou o
videofone de bordo. No aparelho, surgiu o Capitão Slide Narco, cujo
rosto estreito parecia um pouco tenso.
— Alkher,
vou precisar de cada miserável watt que seus conversores de
artilharia possam fornecer. Transfira sua ligação para o circuito
geral quatro.
Os traços
fisionômicos do jovem oficial, quase sempre plácidos, se
enrijeceram numa expressão negativa tão firme, que Nolinow
arregalou os olhos espantado. Sikhra, o oficial de serviço, estirou
os lábios para um assobio mudo, olhando perplexo para o novato,
responsável pelo setor de artilharia.
— Sinto
muito, sir — respondeu Brazo moderadamente. — A ordem que recebi
foi para conservar sempre em condições de fogo as poucas armas que
possuímos.
— Não
seja tão fanático assim — insistiu o capitão mais excitado. —
Os geradores dos seus canhões me fornecem quarenta mil megawatts a
mais.
— Aliás,
quarenta e três mil, sir.
— Seja o
que for, canalize este precioso líquido na minha tubulação. Vamos
lá, rapaz.
— Negativo.
Quem manda aqui sou eu, meus canhões continuam em estado de
prontidão.
— Puxa!
Você se desenvolveu cedo demais, senhor tenente — disse o
marciano.
O rosto de
Brazo continuava impassível.
— É meu
dever, sir. No entanto, estarei à sua disposição, se conseguir do
comandante a permissão para lhe ceder a energia das peças de
artilharia. Se o senhor me permitir uma observação, Capitão Narco:
acho que, se o administrador der tal ordem, muito estará se
arriscando. Enfim, ele é quem deverá saber até que ponto as
exigências do professor Kalup são cabíveis.
Narco
desligou subitamente o videofone.
Levando à
boca a palma da mão e olhando temeroso para Nolinow, disse o oficial
de serviço:
— Meu
irmãozinho, não faça inimigos. Por que você não dá a ele os
megawatts solicitados? Se as massas que apóiam o plasma em expansão
romperem os campos mais fracos de estrangulamento, os seis conjuntos
de propulsão levarão a breca.
— Quer
dizer então que são fabricados com papelão ao invés de aço
temperado, não é? — perguntou Brazo, com calma. — Independente
disso, se a potência do conjunto de emergência não é suficiente,
os conversores dos canhões também não poderão mais fazer milagre.
O perigo continuaria o mesmo, com a única diferença de que, num
caso de ataque de qualquer adversário, estaríamos de mãos atadas.
— Que
nada! Aqui na zona de libração?
— Basta
apenas uma pequena falha de Kalup, para cairmos novamente e
automaticamente no espaço normal, onde podem surgir surpresas
desagradáveis.
Brazo
afivelou o cinturão com o máximo de cuidado. Ninguém notou nada da
grande excitação que lhe ia no íntimo. Era a terceira vez, em toda
a sua carreira de oficial da Frota Espacial, que se recusara a
cumprir uma ordem superior.
“Posso
voltar atrás, quando a ordem do administrador chegar”,
pensava ele, para logo depois se envergonhar do que fizera. “Não,
não vou jamais executar uma ordem desta. Narco não tem o direito de
paralisar todas as possibilidades de defesa da Fantasy, havendo ou
não havendo encontro com adversários.”
Stana ia
dizer alguma coisa, quando as turbinas de propulsão da Fantasy
começaram a roncar muito mais acentuadamente. Havia uma voz fazendo
a contagem regressiva. No zero, o ronco se transformou num barulho
ensurdecedor de provocar dores agudas nos ouvidos.
Brazo viu
que Nolinow estava dizendo alguma coisa, mas não se ouvia uma só
sílaba. Dois segundos após a injeção da carga adicional, toda a
estrutura do cruzador pesado começou a vibrar. Momentos depois, a
vibração atingiu tamanha proporção que instrumentos mais
sensíveis se partiram.
Um som
mais profundo de órgão chegou até a encobrir o tonitroar dos
motores de propulsão. O bojo esférico da Fantasy zunia como se
fosse um imenso sino de bronze badalado por mãos ciclópicas. Além
de tudo isto, o alarme automático acrescia ao inferno de ruídos o
ulular agudo das sirenes.
De repente
voltou tudo ao silêncio de antes. Somente as estruturas da grande
nave é que ainda vibravam. As lentas ondas sonoras do sino invisível
também emudeceram. Brazo apertou a cabeça com as duas mãos. Alguém
gritava alguma coisa pelo intercomunicador de bordo, mas ninguém
conseguia entender, pois todos estavam momentaneamente ensurdecidos.
Foi necessário algum tempo até que os homens recuperassem a
audição. Então ouviram a voz abafada de Rhodan. Soava calma e
compassada. Além disso, estava usando termos que fizeram o sorriso
aflorar nos lábios de Brazo.
— Muito
bem, professor, foi isso! As turbinas agüentaram, apesar de terem
recebido pouca corrente. Se fosse no espaço normal, teriam
explodido. Não se preocupe, porém, com o fenômeno das vibrações.
Teriam surgido mesmo que nos utilizássemos das quatro centrais
elétricas para os envoltórios de proteção. O que acha do
resultado geral?
Surgiu na
tela o semblante de Kalup. Estava radiante e eufórico.
— Ótimo,
excelente! Acho que você deve perdoar o jovem do posto de
artilharia. A aceleração foi como eu esperava e seus efeitos ainda
continuam. Com isto conseguimos provar que as demais influências de
campo do espaço quadridimensional podem ser superadas por forças
puramente mecânicas. O que eu vou precisar mesmo é de mais três
fontes energéticas.
— Mas,
não mais na Fantasy.
— Então,
mande construir uma nave especial nas dimensões de um
supercouraçado, e não venha nos falar dos pesados gastos de
construção. Ainda não estou plenamente satisfeito.
Rhodan
desligou. Brazo virou-se para Nolinow. A fisionomia do jovem oficial
da artilharia estava de novo descontraída.
Stana se
levantou e sem dizer nada apalpou-se todo, para depois cocar os
ouvidos com a ponta dos dedos. O oficial de serviço trocou com os
homens do posto de artilharia um olhar significativo. Depois, deixou
seu lugar, meteu a mão no bolso e ficou parado junto de Brazo. As
mãos de Alkher começaram a tremer, quando o sargento Enscath disse
meio tímido:
— Fuma,
tenente?
— Muito
obrigado, não sou fumante, Enscath.
O sargento
de mais idade fez um gesto reverente com a cabeça e voltando para
seu lugar, disse com muita calma:
— Não
se preocupe com o incidente com o Capitão Narco. Não é homem de
guardar rancor e sabe muito bem apreciar a coragem e determinação.
É isso que nós todos lhe desejávamos assegurar.
— Nós...?
— Sim,
todos os rapazes que no momento lhe sorriem reconhecidos, tenente!
Brazo
acompanhou Nolinow até a escotilha de ventilação. Lá chegando
disse baixo e gaguejando:
— Sabe
de uma coisa, Stana, é uma sensação formidável saber que a gente
tem amigos.
— A quem
que você está dizendo isto, meu irmãozinho? Fique sossegado agora
e não se esqueça de que, mesmo na zona de libração e a vinte e
cinco milhões de vezes a velocidade da luz, a gente pode comer
alguma coisa. Vamos nos encontrar daqui a meia hora? Tenho que me
ocupar um pouco com meus robôs de combate. Espero que meus “rapazes”
tenham sido suficientemente espertos ligando na hora certa seus
envoltórios de proteção individual. Estes cérebros eletrônicos
são muito sensíveis a vibrações mais fortes.
— Qual é
propriamente seu setor técnico?
Stana fez
uma reverência mais do que teatral.
— Com
sua permissão: Stana Nolinow, tenente da Frota Solar, nas horas
vagas engenheiro diplomado em hiperfreqüências eletrônicas. Isto é
um setor especializado de outro setor também especializado, que
juntos formam o conceito geral de cibernética. Um pouco confuso, não
é?
E sorrindo
desapareceu atrás da escotilha, de onde ainda gritou:
— Meia
hora! Sua primeira refeição no semi-espaço deve ser comemorada
condignamente.
Brazo
concordou mecanicamente. Ao voltar para seu lugar, estava imaginando
que já pertencia à comunidade seleta dos grandes especialistas,
agora seus amigos.
Na grande
tela que mostrava o que havia à frente da Fantasy, cintilava a
longínqua estrela vermelha, que Rhodan esperava atingir em apenas
quatorze horas de vôo.
V
Rhodan
levou um susto. Bastou-lhe uma fração de segundo para compreender a
situação.
— Claudrin,
desligue o sistema Kalup! — gritou ao comandante.
Também o
homem oriundo de Epsal percebeu imediatamente que seria totalmente
impossível mudar bruscamente de direção naquela velocidade maluca,
como não haveria sentido tentar forçar um desvio na rota linear
daquela massa bruta, que devorava o espaço como um bólide.
Aquela
imensa bola de fogo que surgiu de repente, nada mais era que um
grande sol amarelo, encobrindo e ofuscando a já tão nítida estrela
vermelha do destino. Estava acontecendo um fato que a teoria da
probabilidade classificaria com a proporção de um para trinta e
oito bilhões, portanto, como praticamente impossível de se
concretizar.
E a
Fantasy se aproximava deste sol estranho com aquela velocidade
inimaginável. Antes que Claudrin pudesse desligar, Rhodan já havia
mudado de pensamento. Teve a intuição de que já era muito tarde
para desligar o sistema Kalup.
Sem perder
tempo, precipitou-se para frente, caindo nos braços de Claudrin. A
mão larga do epsalense escorregou pelo interruptor de emergência,
batendo contra o invólucro de plástico que se espatifou e atingiu o
rosto de Rhodan. O administrador caiu para trás com um leve gemido,
mas o que veio depois foi ainda pior do que este acidente...
A Fantasy
colidiu com o sol amarelo, em condições físicas que não eram
conhecidas nem mesmo teoricamente. A última sensação de Rhodan,
ante o caos que se iniciava, foi a de que o cruzador, na altura da
linha equatorial, se projetava para dentro do sol amarelo.
O que
aconteceu a seguir, só pôde ser compreendido depois que ficaram
patentes as conseqüências do choque. Por um curtíssimo espaço de
tempo, menor que um milésimo de segundo, houve um estrondo na
Fantasy, como se ela fosse se partir ao meio. Depois, surgiram coisas
estranhas em que ninguém ousaria pensar.
Rhodan
ouviu apenas o ruído e o ranger do material supersolicitado. Cada
emenda de solda parecia receber vida nova! As cinco usinas produtoras
de energia funcionavam com a carga máxima e o conversor de
compensação kalupiano trabalhava produzindo um ronco que dava a
impressão de explosões de armas atômicas!
Ninguém,
fora da espaçonave, podia presenciar o acontecimento mais estranho
que jamais acontecera na história da astronáutica.
Um corpo
extremamente rápido, infinitamente pequeno em comparação com a
massa solar, disparava para o interior daquela atmosfera
incandescente, penetrando-a incólume, atravessando seu centro ígneo,
como se fosse algo inconsistente.
O processo
todo foi rápido demais e sob condições tão estranhas, que o
diminuto corpo esférico de fabricação humana não teve tempo de
ser atingido fatalmente. Antes que o campo de compensação se
desintegrasse, a Fantasy já tinha escapado daquele inferno atômico.
Mas, mesmo assim, aconteceu algo que não foi possível relatar,
depois, com maior exatidão.
Apesar do
avanço rapidíssimo da Fantasy, desprenderam-se pedaços do núcleo
solar que foram arrastados em vôo linear pelo espaço afora. Dando a
impressão do surgimento de novos planetas, cujo núcleo havia sido
um corpo estranho, criado por mãos humanas.
Uma língua
de gás chamejante, ultra-clara, semelhante a uma protuberância
produzida artificialmente, tremulava pelo vácuo infinito e, desta
maneira, um corpo até então protegido pelo campo kalupiano perdia
sua razão de ser nas regiões do semi-espaço. Tornava-se novamente
um componente estável do Universo de Einstein, ao qual também
pertencia o sol amarelo perfurado pela espaçonave.
Um outro
resultado, igualmente imprevisto como o primeiro, era conseqüência
do fator mecânico-gravitacional dos envoltórios normais de
proteção, pelos quais as massas de nuvens provenientes do interior
do sol eram captadas e retidas. Mais de noventa e nove por cento
dessas massas incandescentes ficaram para trás, não podendo assim
ser mais influenciadas. A parte restante, porém, foi arrastada pela
espaçonave Fantasy, voando agora com apenas a metade da velocidade
da luz.
Quando
começou seu movimento de rotação, o sol amarelo varado pela
Fantasy era apenas uma mancha luminosa entre milhares de outras
manchas.
A primeira
espaçonave de propulsão linear foi rápida demais para ser
destruída ou aprisionada pelas forças do sol amarelo. Atravessou-o
como um míssil de velocidade cem vezes ultra-sônica atravessaria
uma cuba com aço líquido, com a diferença de que um projétil
desse tipo teria a desvantagem de não dispor de um eficiente
envoltório de proteção, tal qual o da Fantasy.
Um
fantasma de incandescência esbranquiçada disparava com rotação
própria pelo espaço saturado de estrelas, nas regiões do centro da
Via Láctea.
A estrela
vermelha do destino estava mais para o lado, quase não mais
reconhecível. O terceiro efeito de todo o fenômeno, os tripulantes
da Fantasy só conheceriam muitos meses mais tarde. Não foi
absolutamente um acaso o fato de o pequeno planeta recém-formado
voar em direção a um sol azul, que distava muitos anos-luz do sol
amarelo. Ninguém a bordo da Fantasy desconfiou de que, no momento de
choque, se realizara uma verdadeira transição.
Aliás,
não tinha a menor importância se a tripulação a bordo da
espaçonave acreditava num acaso improvável ou num fenômeno natural
e independente.
O
importante era o fato de que a Fantasy voava diretamente e com
exatidão rumo ao sol azul.
*
* *
Rhodan
tentou em vão atingir o botão de emergência assinalado com a luz
verde. A pressão que comprimia todo o seu corpo devia estar em volta
de cinco gravos. Aliás, a finalidade dos órgãos de controle
automático seria manter a esfera do cruzador em rotação, através
dos fortes motores de propulsão e de estabilização.
Era
evidente que, com o grande impacto, todo o sistema automático fora
prejudicado. Rhodan já havia notado isto, como também estava a par
do fato de que a Fantasy girava em torno de seu eixo polar mediante a
força centrífuga. Um pouco mais difícil de compreender era por que
não funcionavam os maquinismos de absorção de compressão.
Provavelmente, também com o impacto, os conjuntos produtores de
energia entraram em curto e se desligaram com a supressão dos
conversores de compensação. A instalação automática de
emergência não conduzia mais corrente para os neutralizadores de
pressão, impedindo assim seu funcionamento.
Rhodan
sentiu com dolorosa clareza que esta situação se assemelhava muito
aos primeiros vôos espaciais tripulados. Naquele tempo não existiam
ainda os neutralizadores para abrandar a lei da inércia, mas os
astronautas da época tinham outra formação.
A pressão
de apenas cinco gravos quase não teria incomodado os especialistas
da já esquecida “Força
Espacial”,
treinados durante anos e anos nas mais duras condições de trabalho.
Vivia-se, naquela época, em melhores condições para executar
manobras importantes, como também se dominava melhor uma outra
técnica de respiração, que eliminava qualquer ameaça de
sufocamento.
Rhodan
estava encostado na parede abaixo das grandes telas panorâmicas.
Reinava em toda a nave um silêncio angustiante. Dezenas de sinais
vermelhos dos alarmes davam à central de comando um aspecto
apavorante, e os membros da tripulação pendiam como que colados em
suas poltronas automaticamente deslocadas para trás. Rhodan foi o
único que, pouco antes da colisão, deixara sua poltrona giratória.
Lutava agora desesperado contra a força da gravidade gerada pelas
poderosas forças centrífugas. Sabia, naturalmente, que a cada
momento ficava mais debilitado e sem meios de reagir.
Sua visão
estava ficando turva. Os nervos óticos não reagiam mais. Dos seus
lábios não brotavam mais do que sons guturais ininteligíveis, que
a cada esforço o ameaçavam de sufocamento.
Seu
pensamento se voltou para Gucky, que como telecineta estaria em
condições de acionar a chave de emergência. Quem sabe o
rato-castor, de constituição mais fraca, não estaria também
inconsciente? Também não foi possível um contato telepático com
John Marshall.
“É
o fim!”,
pensava Rhodan, quase chegando ao estado de inconsciência. “Tudo
por causa dos cinco gravos de pressão, ridículos cinco gravos que
não conseguimos superar!”
Já quase
sem irrigação sangüínea no cérebro, não conseguia mais
concatenar os pensamentos. Viu confusamente um vulto avantajado, cuja
mão ciclópica muito lentamente se levantou até a altura do peito,
onde pendia um aparelho pouco maior que um punho fechado.
Jefe
Claudrin, o homem nascido em Epsal, ainda lutava. Cinco gravos de
pressão não seria muita coisa para ele.
Rhodan já
havia perdido os sentidos, quando Claudrin conseguiu desligar o
aparelho de aumentar a pressão. O resto foi uma brincadeira para
ele. Vencendo a enorme pressão reinante, estendeu o braço direito e
impulsionou a alavanca verde para baixo.
Na nave
esférica em rotação soaram as sirenes de alarme. A instalação
automática de emergência entrou em ação, registrou a situação e
iniciou o esquema de ligações necessárias. O conjunto de propulsão
III funcionava em plena carga e os neutralizadores de pressão
receberam os primeiros impulsos. Segundos após, desapareceu aquele
peso terrível que oprimia os tripulantes. O ronco dos motores de
correção comprovava que o movimento giroscópico estava sendo
absorvido.
Quando
Rhodan voltou a si, viu o vulto possante de Claudrin na sua frente.
Sem desperdiçar uma palavra, Claudrin ergueu Rhodan e o colocou numa
poltrona giratória.
Em todos
os cantos da Fantasy, os homens voltavam a si. Também Brazo Alkher
se levantou com um leve gemido, sentindo falta de ar. Seu primeiro
olhar foi para a tela da mira automática, onde um clarão amarelado
lhe ofuscou a vista.
Num
esforço sobre-humano, chamou a central de comando. O comandante
atendeu logo e Brazo falou com dificuldade:
— Aqui
na central de artilharia, tudo bem, sir. Que aconteceu? Contra o que
nos chocamos?
— Se não
estou enganado, atravessamos em menos de um milésimo de segundo um
respeitável sol amarelo.
— Santo
Deus!
— Permaneça
atento em seu posto, Alkher. Não sei ainda o que significa esta
incandescência. De qualquer maneira, encontramo-nos de novo no
espaço normal.
— Sir,
talvez eu esteja caducando, mas tenho a impressão de estarmos ainda
dentro deste sol.
Claudrin
queria dizer alguma coisa, mas silenciou de repente.
— Meu
jovem, você me chamou a atenção para outra coisa — disse ele
finalmente e com voz pausada, como quem está com o pensamento longe.
— Olhe um pouco agora para sua gente, mande os feridos para o
hospital e comunique-se com o primeiro-oficial. Fim.
— Fim,
sir — repetiu Brazo mecanicamente.
Estava
ouvindo, sem querer, o ronco dos geradores energéticos que protegiam
o cruzador por meio dos envoltórios de proteção contra os perigos
do espaço.
Alguma
coisa não estava certo a bordo da Fantasy. A visão ótica não era
mais possível. Só se via nas telas o clarão amarelado.
Brazo
procurava respirar profundamente. Levantou-se lentamente de seu
assento. A situação não lhe estava agradando.
6
— ...um
acidente que pode acontecer a qualquer nave de vôo linear — dizia
Kalup com toda calma no intercomunicador de bordo.
Sua
fisionomia pálida, contraída e principalmente as bochechas sulcadas
de veias, agora rígidas, não tinham nada desta calma. Continuou
falando com a maior pachorra:
— A
experiência está terminada. Mandei coletar em toda a nave, através
dos raios de tração, algumas Amostras de matéria. Estamos levando
conosco uma bela porção da massa solar, o que aliás não é um
merecimento da nossa pequena espaçonave, mas apenas do campo de
compensação. Os fenômenos físicos estão de alguma maneira
claros. Foi sorte nossa que, no momento da colisão, o conversor de
proteção estivesse funcionando com a potência máxima. De outra
forma, não estaríamos mais vivos agora. Parece que estou falando
uma grande asneira, mas o fato é que nos encontramos no centro de
uma massa em rotação e em fase de rápido resfriamento, onde não
pode haver mais nenhuma reação atômica. Isto me parece muito
estranho, mas haveremos de descobrir a razão de tudo isto.
Na central
de comando, Jefe Claudrin virou a cabeça para trás. Rhodan estava
sentado na poltrona do co-piloto; parecia muito cansado. Seu rosto
estava um pouco inchado abaixo do olho esquerdo.
— Foi
realmente uma grande sorte o senhor ainda ter conseguido desviar
minha mão da alavanca — disse Claudrin, com a voz mais fraca
possível. — Do contrário teria desligado o sistema de Kalup na
hora da colisão.
Rhodan
trincava os dentes, para dominar as dores que estava sentindo.
Durante o período da forte pressão, foi atirado contra a parede de
aço e talvez tivesse quebrado alguma costela.
— Compreendi
a situação no último momento — disse ele. — Já estávamos
próximos demais. Mas vamos esquecer isto. Kalup, que propõe agora?
— Temos
que varar esta massa enquanto está macia, isto é, antes que esfrie
totalmente. Precisamos estudar os problemas que podem advir daí.
— Exatamente
por isto lhe estou perguntando, meu jovem.
Kalup não
gostou do adjetivo. Seu rosto já estava recuperando a cor.
— Pare
com essa brincadeira, por favor! Temos que nos comportar como o
pintinho que começa por picar a casca do ovo por dentro para poder
sair. Não há outra possibilidade. Para se conseguir isto,
deparam-se-nos dois caminhos.
— Oh!
Dois de uma vez? — acudiu Rhodan.
— Por
favor, não seja irônico. A situação é muito séria para isto. No
momento, não quero ainda me arriscar a desligar os campos normais de
proteção, o que seria necessário com a entrada do conversor de
compensação. É possível, em determinadas circunstâncias, que
ocorram, ainda nesta massa, reações atômicas que dificilmente
agüentaremos sem os campos de defesa.
— Ah! É
isto!
— O
senhor arranjou no comando da Frota Espacial um oficial artilheiro
dotado de qualidades especiais, não é assim?
Rhodan
ficou atento e um rapaz de nome Brazo Alkher ficou nervoso, olhando
assustado para os homens do setor de defesa. O sargento Enscath
apertou as mãos nervosas no espaldar da poltrona.
— Santo
Deus! Era isto que eu estava pensando... — disse ele bem baixo.
— Você
pretende mandar bombardear esta nuvem incandescente, professor? —
soou a voz de Rhodan nos alto-falantes do intercomunicador e todos
ouviram-na.
— Vamos
experimentar. De qualquer maneira é menos arriscado do que desligar
os campos de proteção, assim sem mais nem menos. Alô! O
oficial-chefe da artilharia está me ouvindo?
— Sim,
perfeitamente, senhor! — respondeu Brazo, gaguejando no microfone.
— Fala o Tenente Alkher, senhor.
— Ótimo.
Acho que já nos conhecemos, não é verdade?
Kalup deu
uma daquelas suas gargalhadas estrondosas.
— É
verdade, sir. O senhor foi tão gentil de me proteger de uma grande
queda.
— Lembro-me
disso. Você tem coragem de atirar na nuvem em rotação, produzindo
nela uma espécie de fenda?
Brazo
esqueceu seu nervosismo. Rhodan estava olhando atento para o
videofone. Quando reparou na determinação que havia no rosto
daquele rapaz, ficou feliz.
O cálculo
mental de Brazo tinha terminado. Com um tom de voz completamente
diferente, como quem trata de um negócio friamente, continuou ele:
— Não é
tão fácil assim. O senhor disse que a nuvem está em rotação, não
é verdade? Portanto, se alvejar um determinado ponto com fogo mais
demorado, a Fantasy deve acompanhar o movimento de rotação da
nuvem, para que meu fogo se concentre no lugar alvejado. De outra
forma não alcançaremos o ponto certo, e o fogo se espalhará, não
causando o menor efeito.
— Certo,
era isto que eu ia lhe explicar. Você sabe pensar, meu jovem amigo.
Prepare seus canhões e use tudo que estiver à sua disposição.
Apenas não faça uso de armas que nos possam prejudicar.
— Só
poderemos utilizar canhões de impulsos e desintegradores.
Rhodan deu
as últimas instruções. Apareceu na tela, através dos instrumentos
de rastreamento, a mancha de clarão incandescente. Os
neutralizadores de pressão foram ligados sincronicamente.
Momentos
mais tarde, a Fantasy começou seu movimento de rotação, desta vez,
porém, de maneira planejada. Na tela de mira de Brazo, o clarão
amarelado se tornava cada vez mais visível, até que finalmente
ficou se equilibrando na cruz da mira. Seguiram-se as últimas
correções. O pesado cruzador girava 22.364 vezes por segundo em
torno de seu eixo polar. Os canhões, solidamente afixados nas
cúpulas avançadas, giravam junto. O bombardeio podia começar.
— O
distanciamento do aglomerado de matéria está em relação com o
envoltório de defesa gravitacional — dizia o vozeirão de Claudrin
no alto-falante. — São exatamente dez quilômetros. Dirija seus
canhões de tal forma que cortem pelo menos uma faixa de três
quilômetros.
— Perfeitamente
— respondeu Brazo, mecanicamente.
Estava
concentrado na tela de mira. Seus dedos finos, de grande
sensibilidade, apalpavam de leve as teclas de disparo. Todos os
canhões de frente da Fantasy apontavam para o mesmo ponto.
— Fogo
livre — sentenciou a voz de Rhodan.
Brazo
apertou a tecla mestra de disparo automático de todas as
bocas-de-fogo da frente e o cruzador parecia urrar como um monstro
acuado. Jatos de impulsos chamejantes num tom arroxeado, quentes como
o Sol e quase tão velozes como a luz, eram vomitados com toda fúria.
Os raios desintegradores que destruíam as moléculas eram
invisíveis, mas muito mais velozes que os canhões de impulso ou de
raios térmicos.
Durante
três segundos, Brazo manteve a tecla comprimida. A Fantasy
estremecia em toda sua estrutura. O ponto da massa amarelada,
atingido pelo fogo cerrado, parecia fazer explodir a parte mais fria
do lado de fora. Violentos processos de reação atômica atingiam os
envoltórios de proteção da espaçonave, ameaçando destruí-los.
Fora das paredes resistentes da nave, era um inferno. Línguas de gás
chamejante irrompiam de repente da massa superaquecida para a
escuridão do espaço. Brazo provocara um sol em miniatura que
vomitava no espaço faixas de hidrogênio incandescente.
— Cessar
fogo! — ordenou Rhodan pelo microfone. — Não tem mais sentido. A
fenda obtida com o bombardeio é enchida novamente com massas de gás!
Vamos sair daqui antes que esta nuvem incandescente se transforme em
um novo sol. Kalup, pronto para uma manobra linear. Narco, alimente
os conjuntos de propulsão para velocidade máxima.
— Isto é
uma loucura, pois arrastamos a nuvem chamejante conosco!
— Faça
o que estou dizendo, Kalup. Vamos partir já. Desligar o campo de
proteção normal e instalar os campos de compensação. Se não
conseguirmos isto, seremos queimados vivos. Está compreendendo a
situação?
— Claro
que sim — respondeu Kalup, secamente. — Pois bem, aguarde, porém,
minha mensagem.
Brazo
Alkher retirou o dedo da tecla de disparo geral. Lá fora, o espaço
pegava fogo. Brazo sabia que fora ele quem provocara, por meio dos
raios térmicos, aquela reação nuclear, reação esta tanto
desejada pelo grande físico... Agora, os átomos do hidrogênio, de
fácil fusão, tinham se tornado ativos. Era hora de fugir.
Os
comandos saíam em rápida seqüência. O tonitroar dos conversores
kalupianos superava todos os ruídos.
Dois
minutos mais tarde, o setor de máquinas anunciou o ponto máximo de
aceleração. A matéria solar, cada vez mais aquecida, foi arrastada
pela Fantasy. Assim, tornava-se praticamente impossível ficarem
livres. Além de tudo, o que aconteceria ao se atingir uma velocidade
próxima à da luz?
Rhodan deu
suas últimas instruções. Os membros da tripulação fecharam o
capacete do uniforme espacial. Perry esperou ainda um pouco até que
os instrumentos de correção eliminassem a rápida rotação da
espaçonave.
Quando os
campos de proteção da Fantasy estavam próximos do rompimento, em
virtude do crescimento exagerado das forças nucleares dentro da
nuvem chamejante, Rhodan, com a serenidade que lhe era característica
nos momentos mais críticos, disse:
— Jefe,
faça o seguinte: acelerar cinco segundos no semi-espaço, logo em
seguida desligar o sistema kalupiano. Isto deverá ser suficiente.
Está pronto? Pode começar.
Claudrin
olhou mais uma vez para a lâmpada verde do automático da
sincronização. Desligar os campos normais e ligar a zona kalupiana
tinham que acontecer numa fração de segundo.
Então o
homem nascido em Epsal, num gesto rápido, quase invisível, acionou
o contato de direção manual.
Era como
se o cruzador fosse explodir. Chamas esbranquiçadas pareciam querer
saltar das telas para dentro da espaçonave. O sistema kalupiano
abafava todo outro barulho. O sibilar da parte externa do bojo,
supersolicitada pela velocidade, também não se ouvia mais. Apenas
se sentiam os grandes abalos.
Tudo isto
durou poucos instantes. As chamas desapareceram de uma hora para
outra, e com elas as forças desenfreadas da reação nuclear. Na
grande tela frontal surgiu novamente o espaço coalhado de estrelas
cintilantes.
Rhodan
estava se recostando no espaldar da poltrona, para respirar um pouco,
quando a Fantasy recebeu de repente um solavanco forte, facilmente
perceptível. Os controles de velocidade caíram rapidamente. Era
como se a Fantasy navegasse num mar de algodão que reduzia
grandemente sua velocidade.
O fenômeno
foi muito rápido, no máximo um segundo; no entanto, este curto
espaço foi suficiente para que Claudrin pudesse desligar o sistema
kalupiano antes do prazo de cinco segundos estipulado por Rhodan.
Privado de
seu campo de compensação, o cruzador protótipo mergulhou de novo
no espaço normal, onde continuou voando em queda livre com a
velocidade adquirida durante a manobra de fuga.
Os motores
de propulsão e o sistema kalupiano silenciaram. Nas telas de
observação normal, cintilava um sol gigantesco de coloração
azulada. Os rastreadores funcionavam normalmente e as escalas
cilíndricas em rotação comprovavam que este sol resplandecente
possuía numerosos planetas. Este fato não despertou muito o
interesse da tripulação. Quase ninguém se preocupou com isto, pois
era a coisa mais comum um sol ter um determinado número de planetas.
Rhodan
contemplou fascinado, por uns momentos, as grandes telas da galeria
panorâmica. Cinco dos planetas descobertos apareciam como pontos
minúsculos esverdeados. O próprio Rhodan não se preocupou com a
nova aparição. Muito mais importante lhe parecia o fato de terem
escapado do centro de um novo sol em miniatura e principalmente a
singular redução de velocidade, que possibilitara a Claudrin poder
interromper rapidamente o vôo linear.
— Que
foi isto? — perguntou Rhodan preocupado. — Você deve ter
reparado, não é?
— Evidentemente,
sir!
Reginald
Bell levantou-se de sua cadeira giratória, e aproximou-se das telas
panorâmicas. Com os olhos comprimidos, ficou contemplando o sol
azulado, agora bem nítido. Depois que os olhos dos observadores se
acostumaram com o brilho intenso, Bell constatou que o espaço vazio
em volta do estranho sol tinha uma coloração também azulada.
Faltava, pois, a negridão pronunciada do Universo, apenas
interrompida em geral pelo cintilar multicor das inúmeras estrelas.
— Alguém
me pode explicar onde nós estamos? — perguntou Bell. Meteu as mãos
nos bolsos externos do uniforme e olhou vagarosamente para cada um
ali presente.
Kalup e
alguns outros cientistas da nave experimental penetraram no posto de
comando. Um ponto positivo, comprovando o grande poder de reação de
Kalup, era o fato de que não perdera nenhuma palavra com a fuga
bem-sucedida do sol amarelado. Para ele, já era um fato consumado e
esquecido. Com alguma hesitação, aproximou-se das telas. Ouvira a
pergunta de Bell.
— Onde
nós estamos? Em hipótese alguma no hiperespaço ou em algum
universo estranho ou ilusório. Isto é um sistema solar
absolutamente normal, pertencente à nossa Via Láctea.
— Sistema
solar absolutamente normal? — repetiu Rhodan, com uma ponta de
ironia. — Kalup, você está se desenvolvendo maravilhosamente como
um super-homem sabe-tudo.
O
extraordinário físico balançou a cabeça de um modo insólito,
sério e, ao mesmo tempo, descontraído.
— Simplesmente,
meu cálculo foi mais rápido do que o seu e minha observação
também. Quando a camada de ar, ou a atmosfera de um planeta tem
cintilação azulada, está tudo normal. Mas quando o espaço, que
sabidamente é um vácuo, apresenta esta coloração, então o caso é
totalmente fora do comum. Ou você já viu um vácuo ter qualquer
tipo de reação?
Rhodan
hesitou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Kalup prosseguiu:
— Durante
o vôo linear, fomos detidos por uma força desconhecida. Tenho a
impressão de que atravessamos um envoltório de proteção
magnética, que deve ser um pouco semelhante com o campo de
compensação. De outra forma, seríamos impedidos de passar ou mesmo
seríamos destruídos. Este envoltório protetor produz esta
cintilação. Gostaria de dar a este sistema o nome de sistema Azul.
— Um
campo de proteção... no meio do espaço? — disse Bell confuso. —
Uma ilha de força de tal dimensão que abriga no seu bojo um grande
sistema solar, com, pelo menos, quinze planetas? Professor, o senhor
está consciente do que acaba de afirmar?
Kalup fez
que sim com a cabeça. Seus olhos brilhavam. Para ele, o cientista, o
fenômeno observado era fascinante.
Perry
Rhodan e os principais oficiais da nave protótipo pensavam de modo
essencialmente mais prático.
*
* *
O Major
Hunt Krefenbac, o primeiro-oficial, ativou-se. Mais do que depressa,
puxou o braço do microfone.
— Krefenbac
falando para o oficial-chefe da artilharia: prontidão de fogo
imediata. Estabelecer a ligação do rastreador com o comando
central. Espero confirmação.
Os dedos
ágeis de Brazo começaram a se mover. No alojamento dos sentinelas
soaram os sinais de alarme.
— Posto
central de artilharia, Tenente Alkher: prontidão de fogo já
estabelecida e rastreador já ligado com o circuito central. Fim.
Rhodan
olhou pensativo para o primeiro-oficial do outro lado. Depois se
dirigiu a Kalup:
— Você
viu como os artilheiros pensam a respeito do seu “sistema
Azul”?
Kalup fez
um gesto de descontentamento.
— Bobagem!
Haveremos de descobrir o que se passa aqui.
— Exatamente,
professor, foi por este motivo que Hunt ordenou a prontidão.
Parece-me, meu jovem amigo, que a terceira fase da História da
Humanidade se inicia com toque de tambor exagerada-mente forte.
Krefenbac, o que você sugeria?
Antes que
o primeiro-oficial pudesse expressar seu pensamento, as instalações
de alarme acústico dos rastreadores estruturais começaram a estalar
tão fortemente, no compartimento ao lado, que um segundo mais tarde,
todas as resistências estavam queimadas.
Rhodan não
disse uma palavra. Com um sorriso singular, ficou olhando através da
parede transparente de aço plastificado para a central de
rastreamento do outro lado, onde os técnicos tentavam restabelecer
os automáticos. O oficial de rastreamento ligou os mais fortes
aparelhos de absorção de choque de que dispunha.
Quando os
aparelhos de rastreamento para medição das alterações
estruturais, ocorridas no conjunto do espaço quadridimensional,
estavam em condições de funcionar, o que se ouviu então foi um
ronco estranhíssimo.
— Central
de rastreamento para o comandante — soou dos alto-falantes a voz do
operador de serviço. — Uma frente de ondas estruturais com a
intensidade trinta, do vermelho 14 graus, verde 3,264. Amplitudes
oblíquas, eco de retorno claro. Deve haver aí muitas transições
de espaçonaves, no entanto os aparelhos não acusam suas presenças.
Fim.
Rhodan
perguntou admirado:
— Como?
Estão captando abalos estruturais de transições e não encontram
nenhuma nave?
— Perfeitamente,
sir. A origem dos ecos está a 18,253 horas-luz de distância e,
apesar disso, não se percebe nada das espaçonaves.
— Ah!
Agora chega! — disse Bell, meio desiludido. — Não lhe disse que
íamos viver uma grande surpresa? Nossos rastreadores daqui a pouco
irão rebentar, mas as espaçonaves não aparecem. De onde chegam,
então, estas ondas de impulsos? Quem ou o que as produz? Se eu não
fosse uma pessoa muito curiosa que quer saber todas as coisas com
exatidão, coisas que não têm nada a ver comigo, haveria de propor
agora desaparecer daqui a toda velocidade.
— Infelizmente
você é uma pessoa curiosa — disse Rhodan com um sorriso irônico.
Depois de
olhar em volta, falou secamente:
— Então,
meus senhores, antes que fiquemos com os nossos sistemas nervosos
arrasados, vamos voar para a direção de onde vêm essas ondas de
impulsos e ver in loco quem está provocando este barulho todo. Neste
momento, seria muito mais agradável estar num supercouraçado do
tipo Império. Voaremos com a simples velocidade da luz. Krefenbac,
dê-nos a origem, o ponto de partida destes ecos, e lance os
resultados no automático. Os oficiais da Fantasy devem em... —
Rhodan consultou o relógio — ...em dez minutos se apresentar para
discussão da situação. Tenente Alkher, o senhor não poderá tomar
parte, preciso de sua presença na central de artilharia. Mais tarde
será informado a respeito.
Trezentos
homens, altamente especializados, se entreolharam. Alguém disse:
— Ele
quer saber exatamente, como? Viva o “sistema
Azul”
à beira do centro da Via Láctea, cuja densidade estelar é
fantástica. Lá estaremos como em casa, não é?
— Isto
você tem que perguntar ao seu irmão maior — disse outro técnico
de propulsão linear.
— Ele
não está aqui.
— Bem,
então cale a boca. Eu também gostaria de saber quem é que está
soltando fogos de artifício, aqui, nestas alturas. Permita Deus que
não chamusquemos o nariz.
Abanando a
cabeça, o homem se encaminhou para seu posto de trabalho e ligou a
tela panorâmica para o grupo de propulsão II.
Parece que
ele sabia o que seria resolvido naquela reunião. E realmente, não
se enganou.
Uma hora
mais tarde, eram transmitidas as primeiras ordens. A Fantasy arrancou
com as máquinas a toda carga. Seu objetivo era o quinto planeta do
sistema Azul. Não havia mais dúvida de que os abalos estruturais
provinham daquele mundo ou eram nele provocados.
6
A primeira
providência que Rhodan tomou após a partida foi mandar para a cama
toda sua tripulação, até mesmo os mais simples vigias. Era de
opinião que, com homens descansados se conseguiria muito mais do que
com os maiores gênios tresnoitados.
Já eram
decorridas dezenove horas desde o início do vôo experimental e a
Fantasy agora se encontrava em manobras de frenagem, depois de, há
quinze minutos atrás, ter sobrevoado a órbita do quinto planeta.
Nas telas panorâmicas brilhava um alongado corpo celeste com grandes
mares, montanhas extensas e campinas verdejantes.
Tinha a
gravitação de 1,1 gravo e uma atmosfera de muito oxigênio com um
céu transparente como um cristal, de um tom azul-claro. Neste setor
do espaço, tudo parecia azul, o que já dera ensejo aos tripulantes
de criar novas piadas.
Rhodan
dera a este quinto planeta o nome de Sphinx,
com o que deixava bem à mostra o caráter misterioso deste novo
mundo. Sphinx tinha duas luas, sendo que uma delas possuía mais ou
menos as dimensões de Mercúrio, enquanto que a outra era um corpo
celeste menor e aparentemente desabitado, provavelmente pouco maior
que um meteorito.
Estes
fatos não tinham nada nem de sensacional nem de interessante se, nas
proximidades do quinto planeta, houvesse apenas uma única
espaçonave. Os homens a bordo do cruzador pesado estavam diante de
um enigma.
Os abalos
estruturais ficaram mais brandos, no entanto a freqüência com que
eram registrados deixava supor um intenso tráfego espacial. Apesar
de tudo, não se viam nem espaçonaves, nem aparelhos menores. Era
como se os supostos habitantes do quinto planeta nunca tivessem
ouvido falar de viagens espaciais tripuladas. Mas os aparelhos de
rastreamento não cessavam de registrar certo movimento no espaço. O
mistério perdurava, até que medições mais exatas das estações
de rastreamento clarearam o fenômeno.
A causa
dos constantes estremecimentos espaciais não estava no quinto
planeta, mas em seu satélite de tamanho aproximado de Mercúrio, que
provavelmente também possuía uma camada de ar respirável para os
homens.
Rhodan
resolvera então voar para esta lua.
*
* *
A Fantasy
se deslocava a uma velocidade de 7,6 quilômetros por segundo. O
posto central de artilharia, sob o comando de Alkher, já se achava
há tempo em regime de alarme total. O cruzador pesado estava
preparado para se defender, se bem que parecia não haver nada que
representasse ameaça.
Foram
captados alguns ecos curtos, pelos quais se podia concluir que os
habitantes de Sphinx conheciam a medição por hiper-rádio mais
rápida que a luz. A razão por que não dominavam a cosmonáutica
continuava sendo o mistério número um.
Podia-se
ver Sphinx nitidamente na tela. Mais nítida ainda a superfície
desértica e abandonada da segunda lua, que dava a volta em torno de
seu planeta numa órbita de 53 horas. Rhodan lhe deu o nome de
Ramsés.
Os ecos
estruturais já não se repetiam com tanta freqüência, mas
continuavam com intensidade, às vezes, forte demais.
Rhodan
esperou ainda uma hora e, durante este tempo, deixou que a Fantasy se
aproximasse cada vez mais da lua maior. Não se deu nenhum
rastreamento por parte de alguma estação do solo, isto é, dos
habitantes daquela lua, como também não houve resposta à amável
saudação pelo rádio e nem se levantou algum aparelho para saudar
os recém-chegados ou dar uma salva de tiros em sua homenagem. Foi,
de certo modo, a aproximação mais decepcionante de toda a vida
galáctica de Rhodan.
Os
departamentos de Astronomia e de Galatonáutica transmitiram, neste
meio tempo, as proporções do sistema Azul. O sol possuía dezoito
planetas, entre os quais talvez só o quinto fosse habitado.
Depois de
a Fantasy haver circunvoado quase por duas horas a maior lua do
planeta Sphinx, Rhodan perdeu a paciência. Os homens que o conheciam
de perto, notaram nos seus movimentos mais descontraídos e na
rigidez de seu rosto que ele havia tomado uma resolução. Os
telepatas John Marshall e Gucky se esforçavam em vão para captar os
impulsos mentais dos possíveis habitantes. Não restava, porém, a
menor dúvida de que, tanto em Sphinx como em Ramsés, existiam
muitos milhões de seres que pensavam, cujo consciente, no entanto,
não podia ser captado com a devida clareza.
O
rato-castor já esgotado se retirou para uma cadeira giratória e se
enrolou na macia espuma de borracha. Com a respiração ofegante, o
animalzinho tapou os olhos com as patas. O próprio John Marshall
teve que capitular. Caminhou pálido para junto de Rhodan, que
durante uma hora acompanhou os esforços de seus mais competentes
mutantes. Marshall sentou-se na cadeira ao lado, esticou as pernas e
ficou pensativo olhando a tela panorâmica.
— Então,
John?
Marshall
passou a palma da mão na testa molhada de suor e olhou preocupado
para Gucky no outro lado, cujo corpo fraco e já combalido pela idade
tinha sofrido muito com o descontrolado e longo movimento de rotação
da nave experimental.
— Uma
situação desagradável, sir — disse John cauteloso. — Não
posso fazer nada com os paraimpulsos destas estranhas inteligências.
Tudo é confuso e aos pedaços. Vejo figuras geométricas mal
delineadas, refletindo todas as cores possíveis. Mas isto não é
sinal de acolhimento ou de recepção direta. Gostaria quase de
dizer...
— Dizer
o quê?
— Os
desconhecidos lá embaixo estão se escondendo. Não é nada
impossível que tenham notado os esforços meus e de Gucky.
— Isto
suporia um grande conhecimento sobre assuntos de Parapsicologia, como
também os dons físicos necessários para isto, não é?
— Exatamente,
senhor...!
Marshall
interrompeu o que ia dizer. Olhou para Rhodan um tanto sem jeito.
— Pois
não, John.
— Sir,
se lhe pudesse dar um conselho, iria lhe recomendar uma retirada
imediata. Alguma coisa não está certa aqui. Por que não respondem
ao nosso comunicado pelo rádio? Todos nós temos um padrão elevado
de cultura e de tecnologia para compreender os conceitos básicos de
Matemática. Permita que nos retiremos, sir.
Rhodan
ficou calado por algum tempo e depois falou com calma:
— John,
é tarde demais para isto. O administrador de um império ainda jovem
não tem o direito de deixar de lado inteligências deste gabarito,
somente pelo motivo de que elas lhe parecem assustadoras.

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