segunda-feira, 29 de agosto de 2016

P-100 - A Estrela do Destino - K. H. Scheer [Parte 2]

Sir — disse com a voz sibilante. — O conceito de coeficiente é análogo à contagem da grandeza alterada de uma função em matemática, ou idêntica a um número que exprime o coeficiente de dilatação de um determinado material. Por acaso, julga que eu tenha negligenciado o fator segurança?
Os traços fisionômicos de Rhodan não se alteraram.
Eu o conheço bem, meu jovem!
Como assim, jovem? — irrompeu Kalup; seu rosto ficou ainda mais azulado e seu corpanzil balofo estremeceu. — Você disse jovem?
Exatamente, jovem. Venho lidando com geometria e trigonometria desde os tempos em que seu bisavô nem era ainda nascido. Será que isto lhe significa alguma coisa, meu jovem?
Kalup estava desnorteado. Os semblantes risonhos de seus assistentes acabaram de desconcertá-lo, destruindo seu autodomínio. Rhodan contornou a situação, antes que o temperamental físico explodisse num assomo de cólera.
O chefe da expedição e administrador de todo o Império Solar sorriu para o homem nascido em Epsal, que resmungara alguns palavrões.
Bell tapou os ouvidos, dizendo em voz alta:
Ainda acabo colocando-lhe uma mordaça, com toda certeza. Claudrin, eu lhe desejo sinceramente uma dor de garganta, acompanhada de muita irritação nas amídalas. Quem sabe se assim você poupará um pouco mais meus ouvidos?
O comandante sorriu, isto é, explodiu numa gargalhada, que mais parecia o som de uma queda d’água.

* * *

Stana Nolinow vinha mais caindo pela escotilha blindada do setor de artilharia do que propriamente andando. Procurando apoio, firmou-se num aparelho de mira automática, para depois, com muito esforço, cair sentado num banco. Estava ofegante. Procurou logo pela proteção do cinturão, afivelando-o bem firme.
Seguindo as prescrições de seu serviço, Brazo Alkher estava sentado atrás do “órgão de tubos”, como era chamado, na gíria dos tripulantes, o conjunto de canhões. Achava-se atento, olhando para um adversário que não existia. Olhou rapidamente em volta, sem compreender o que se passava. Todos que ali estavam aguçaram os ouvidos, quando Stana Nolinow disse, ainda ofegante:
Talvez, dentro de pouco tempo, vocês todos tenham que apertar os cinturões. Acho que não podem fazer uma idéia de como são repentinas as manobras de Kalup.
Foi com uma sensação de intranqüilidade que Brazo verificou que seus comandados procuraram imediatamente afivelar os cinturões, com uma agilidade incrível.
Estava ainda refletindo sobre as medidas que teria de tomar, quando soou o videofone de bordo. No aparelho, surgiu o Capitão Slide Narco, cujo rosto estreito parecia um pouco tenso.
Alkher, vou precisar de cada miserável watt que seus conversores de artilharia possam fornecer. Transfira sua ligação para o circuito geral quatro.
Os traços fisionômicos do jovem oficial, quase sempre plácidos, se enrijeceram numa expressão negativa tão firme, que Nolinow arregalou os olhos espantado. Sikhra, o oficial de serviço, estirou os lábios para um assobio mudo, olhando perplexo para o novato, responsável pelo setor de artilharia.
Sinto muito, sir — respondeu Brazo moderadamente. — A ordem que recebi foi para conservar sempre em condições de fogo as poucas armas que possuímos.
Não seja tão fanático assim — insistiu o capitão mais excitado. — Os geradores dos seus canhões me fornecem quarenta mil megawatts a mais.
Aliás, quarenta e três mil, sir.
Seja o que for, canalize este precioso líquido na minha tubulação. Vamos lá, rapaz.
Negativo. Quem manda aqui sou eu, meus canhões continuam em estado de prontidão.
Puxa! Você se desenvolveu cedo demais, senhor tenente — disse o marciano.
O rosto de Brazo continuava impassível.
É meu dever, sir. No entanto, estarei à sua disposição, se conseguir do comandante a permissão para lhe ceder a energia das peças de artilharia. Se o senhor me permitir uma observação, Capitão Narco: acho que, se o administrador der tal ordem, muito estará se arriscando. Enfim, ele é quem deverá saber até que ponto as exigências do professor Kalup são cabíveis.
Narco desligou subitamente o videofone.
Levando à boca a palma da mão e olhando temeroso para Nolinow, disse o oficial de serviço:
Meu irmãozinho, não faça inimigos. Por que você não dá a ele os megawatts solicitados? Se as massas que apóiam o plasma em expansão romperem os campos mais fracos de estrangulamento, os seis conjuntos de propulsão levarão a breca.
Quer dizer então que são fabricados com papelão ao invés de aço temperado, não é? — perguntou Brazo, com calma. — Independente disso, se a potência do conjunto de emergência não é suficiente, os conversores dos canhões também não poderão mais fazer milagre. O perigo continuaria o mesmo, com a única diferença de que, num caso de ataque de qualquer adversário, estaríamos de mãos atadas.
Que nada! Aqui na zona de libração?
Basta apenas uma pequena falha de Kalup, para cairmos novamente e automaticamente no espaço normal, onde podem surgir surpresas desagradáveis.
Brazo afivelou o cinturão com o máximo de cuidado. Ninguém notou nada da grande excitação que lhe ia no íntimo. Era a terceira vez, em toda a sua carreira de oficial da Frota Espacial, que se recusara a cumprir uma ordem superior.
Posso voltar atrás, quando a ordem do administrador chegar”, pensava ele, para logo depois se envergonhar do que fizera. “Não, não vou jamais executar uma ordem desta. Narco não tem o direito de paralisar todas as possibilidades de defesa da Fantasy, havendo ou não havendo encontro com adversários.”
Stana ia dizer alguma coisa, quando as turbinas de propulsão da Fantasy começaram a roncar muito mais acentuadamente. Havia uma voz fazendo a contagem regressiva. No zero, o ronco se transformou num barulho ensurdecedor de provocar dores agudas nos ouvidos.
Brazo viu que Nolinow estava dizendo alguma coisa, mas não se ouvia uma só sílaba. Dois segundos após a injeção da carga adicional, toda a estrutura do cruzador pesado começou a vibrar. Momentos depois, a vibração atingiu tamanha proporção que instrumentos mais sensíveis se partiram.
Um som mais profundo de órgão chegou até a encobrir o tonitroar dos motores de propulsão. O bojo esférico da Fantasy zunia como se fosse um imenso sino de bronze badalado por mãos ciclópicas. Além de tudo isto, o alarme automático acrescia ao inferno de ruídos o ulular agudo das sirenes.
De repente voltou tudo ao silêncio de antes. Somente as estruturas da grande nave é que ainda vibravam. As lentas ondas sonoras do sino invisível também emudeceram. Brazo apertou a cabeça com as duas mãos. Alguém gritava alguma coisa pelo intercomunicador de bordo, mas ninguém conseguia entender, pois todos estavam momentaneamente ensurdecidos. Foi necessário algum tempo até que os homens recuperassem a audição. Então ouviram a voz abafada de Rhodan. Soava calma e compassada. Além disso, estava usando termos que fizeram o sorriso aflorar nos lábios de Brazo.
Muito bem, professor, foi isso! As turbinas agüentaram, apesar de terem recebido pouca corrente. Se fosse no espaço normal, teriam explodido. Não se preocupe, porém, com o fenômeno das vibrações. Teriam surgido mesmo que nos utilizássemos das quatro centrais elétricas para os envoltórios de proteção. O que acha do resultado geral?
Surgiu na tela o semblante de Kalup. Estava radiante e eufórico.
Ótimo, excelente! Acho que você deve perdoar o jovem do posto de artilharia. A aceleração foi como eu esperava e seus efeitos ainda continuam. Com isto conseguimos provar que as demais influências de campo do espaço quadridimensional podem ser superadas por forças puramente mecânicas. O que eu vou precisar mesmo é de mais três fontes energéticas.
Mas, não mais na Fantasy.
Então, mande construir uma nave especial nas dimensões de um supercouraçado, e não venha nos falar dos pesados gastos de construção. Ainda não estou plenamente satisfeito.
Rhodan desligou. Brazo virou-se para Nolinow. A fisionomia do jovem oficial da artilharia estava de novo descontraída.
Stana se levantou e sem dizer nada apalpou-se todo, para depois cocar os ouvidos com a ponta dos dedos. O oficial de serviço trocou com os homens do posto de artilharia um olhar significativo. Depois, deixou seu lugar, meteu a mão no bolso e ficou parado junto de Brazo. As mãos de Alkher começaram a tremer, quando o sargento Enscath disse meio tímido:
Fuma, tenente?
Muito obrigado, não sou fumante, Enscath.
O sargento de mais idade fez um gesto reverente com a cabeça e voltando para seu lugar, disse com muita calma:
Não se preocupe com o incidente com o Capitão Narco. Não é homem de guardar rancor e sabe muito bem apreciar a coragem e determinação. É isso que nós todos lhe desejávamos assegurar.
Nós...?
Sim, todos os rapazes que no momento lhe sorriem reconhecidos, tenente!
Brazo acompanhou Nolinow até a escotilha de ventilação. Lá chegando disse baixo e gaguejando:
Sabe de uma coisa, Stana, é uma sensação formidável saber que a gente tem amigos.
A quem que você está dizendo isto, meu irmãozinho? Fique sossegado agora e não se esqueça de que, mesmo na zona de libração e a vinte e cinco milhões de vezes a velocidade da luz, a gente pode comer alguma coisa. Vamos nos encontrar daqui a meia hora? Tenho que me ocupar um pouco com meus robôs de combate. Espero que meus “rapazes” tenham sido suficientemente espertos ligando na hora certa seus envoltórios de proteção individual. Estes cérebros eletrônicos são muito sensíveis a vibrações mais fortes.
Qual é propriamente seu setor técnico?
Stana fez uma reverência mais do que teatral.
Com sua permissão: Stana Nolinow, tenente da Frota Solar, nas horas vagas engenheiro diplomado em hiperfreqüências eletrônicas. Isto é um setor especializado de outro setor também especializado, que juntos formam o conceito geral de cibernética. Um pouco confuso, não é?
E sorrindo desapareceu atrás da escotilha, de onde ainda gritou:
Meia hora! Sua primeira refeição no semi-espaço deve ser comemorada condignamente.
Brazo concordou mecanicamente. Ao voltar para seu lugar, estava imaginando que já pertencia à comunidade seleta dos grandes especialistas, agora seus amigos.
Na grande tela que mostrava o que havia à frente da Fantasy, cintilava a longínqua estrela vermelha, que Rhodan esperava atingir em apenas quatorze horas de vôo.
V



Rhodan levou um susto. Bastou-lhe uma fração de segundo para compreender a situação.
Claudrin, desligue o sistema Kalup! — gritou ao comandante.
Também o homem oriundo de Epsal percebeu imediatamente que seria totalmente impossível mudar bruscamente de direção naquela velocidade maluca, como não haveria sentido tentar forçar um desvio na rota linear daquela massa bruta, que devorava o espaço como um bólide.
Aquela imensa bola de fogo que surgiu de repente, nada mais era que um grande sol amarelo, encobrindo e ofuscando a já tão nítida estrela vermelha do destino. Estava acontecendo um fato que a teoria da probabilidade classificaria com a proporção de um para trinta e oito bilhões, portanto, como praticamente impossível de se concretizar.
E a Fantasy se aproximava deste sol estranho com aquela velocidade inimaginável. Antes que Claudrin pudesse desligar, Rhodan já havia mudado de pensamento. Teve a intuição de que já era muito tarde para desligar o sistema Kalup.
Sem perder tempo, precipitou-se para frente, caindo nos braços de Claudrin. A mão larga do epsalense escorregou pelo interruptor de emergência, batendo contra o invólucro de plástico que se espatifou e atingiu o rosto de Rhodan. O administrador caiu para trás com um leve gemido, mas o que veio depois foi ainda pior do que este acidente...
A Fantasy colidiu com o sol amarelo, em condições físicas que não eram conhecidas nem mesmo teoricamente. A última sensação de Rhodan, ante o caos que se iniciava, foi a de que o cruzador, na altura da linha equatorial, se projetava para dentro do sol amarelo.
O que aconteceu a seguir, só pôde ser compreendido depois que ficaram patentes as conseqüências do choque. Por um curtíssimo espaço de tempo, menor que um milésimo de segundo, houve um estrondo na Fantasy, como se ela fosse se partir ao meio. Depois, surgiram coisas estranhas em que ninguém ousaria pensar.
Rhodan ouviu apenas o ruído e o ranger do material supersolicitado. Cada emenda de solda parecia receber vida nova! As cinco usinas produtoras de energia funcionavam com a carga máxima e o conversor de compensação kalupiano trabalhava produzindo um ronco que dava a impressão de explosões de armas atômicas!
Ninguém, fora da espaçonave, podia presenciar o acontecimento mais estranho que jamais acontecera na história da astronáutica.
Um corpo extremamente rápido, infinitamente pequeno em comparação com a massa solar, disparava para o interior daquela atmosfera incandescente, penetrando-a incólume, atravessando seu centro ígneo, como se fosse algo inconsistente.
O processo todo foi rápido demais e sob condições tão estranhas, que o diminuto corpo esférico de fabricação humana não teve tempo de ser atingido fatalmente. Antes que o campo de compensação se desintegrasse, a Fantasy já tinha escapado daquele inferno atômico. Mas, mesmo assim, aconteceu algo que não foi possível relatar, depois, com maior exatidão.
Apesar do avanço rapidíssimo da Fantasy, desprenderam-se pedaços do núcleo solar que foram arrastados em vôo linear pelo espaço afora. Dando a impressão do surgimento de novos planetas, cujo núcleo havia sido um corpo estranho, criado por mãos humanas.
Uma língua de gás chamejante, ultra-clara, semelhante a uma protuberância produzida artificialmente, tremulava pelo vácuo infinito e, desta maneira, um corpo até então protegido pelo campo kalupiano perdia sua razão de ser nas regiões do semi-espaço. Tornava-se novamente um componente estável do Universo de Einstein, ao qual também pertencia o sol amarelo perfurado pela espaçonave.
Um outro resultado, igualmente imprevisto como o primeiro, era conseqüência do fator mecânico-gravitacional dos envoltórios normais de proteção, pelos quais as massas de nuvens provenientes do interior do sol eram captadas e retidas. Mais de noventa e nove por cento dessas massas incandescentes ficaram para trás, não podendo assim ser mais influenciadas. A parte restante, porém, foi arrastada pela espaçonave Fantasy, voando agora com apenas a metade da velocidade da luz.
Quando começou seu movimento de rotação, o sol amarelo varado pela Fantasy era apenas uma mancha luminosa entre milhares de outras manchas.
A primeira espaçonave de propulsão linear foi rápida demais para ser destruída ou aprisionada pelas forças do sol amarelo. Atravessou-o como um míssil de velocidade cem vezes ultra-sônica atravessaria uma cuba com aço líquido, com a diferença de que um projétil desse tipo teria a desvantagem de não dispor de um eficiente envoltório de proteção, tal qual o da Fantasy.
Um fantasma de incandescência esbranquiçada disparava com rotação própria pelo espaço saturado de estrelas, nas regiões do centro da Via Láctea.
A estrela vermelha do destino estava mais para o lado, quase não mais reconhecível. O terceiro efeito de todo o fenômeno, os tripulantes da Fantasy só conheceriam muitos meses mais tarde. Não foi absolutamente um acaso o fato de o pequeno planeta recém-formado voar em direção a um sol azul, que distava muitos anos-luz do sol amarelo. Ninguém a bordo da Fantasy desconfiou de que, no momento de choque, se realizara uma verdadeira transição.
Aliás, não tinha a menor importância se a tripulação a bordo da espaçonave acreditava num acaso improvável ou num fenômeno natural e independente.
O importante era o fato de que a Fantasy voava diretamente e com exatidão rumo ao sol azul.

* * *

Rhodan tentou em vão atingir o botão de emergência assinalado com a luz verde. A pressão que comprimia todo o seu corpo devia estar em volta de cinco gravos. Aliás, a finalidade dos órgãos de controle automático seria manter a esfera do cruzador em rotação, através dos fortes motores de propulsão e de estabilização.
Era evidente que, com o grande impacto, todo o sistema automático fora prejudicado. Rhodan já havia notado isto, como também estava a par do fato de que a Fantasy girava em torno de seu eixo polar mediante a força centrífuga. Um pouco mais difícil de compreender era por que não funcionavam os maquinismos de absorção de compressão. Provavelmente, também com o impacto, os conjuntos produtores de energia entraram em curto e se desligaram com a supressão dos conversores de compensação. A instalação automática de emergência não conduzia mais corrente para os neutralizadores de pressão, impedindo assim seu funcionamento.
Rhodan sentiu com dolorosa clareza que esta situação se assemelhava muito aos primeiros vôos espaciais tripulados. Naquele tempo não existiam ainda os neutralizadores para abrandar a lei da inércia, mas os astronautas da época tinham outra formação.
A pressão de apenas cinco gravos quase não teria incomodado os especialistas da já esquecida “Força Espacial”, treinados durante anos e anos nas mais duras condições de trabalho. Vivia-se, naquela época, em melhores condições para executar manobras importantes, como também se dominava melhor uma outra técnica de respiração, que eliminava qualquer ameaça de sufocamento.
Rhodan estava encostado na parede abaixo das grandes telas panorâmicas. Reinava em toda a nave um silêncio angustiante. Dezenas de sinais vermelhos dos alarmes davam à central de comando um aspecto apavorante, e os membros da tripulação pendiam como que colados em suas poltronas automaticamente deslocadas para trás. Rhodan foi o único que, pouco antes da colisão, deixara sua poltrona giratória. Lutava agora desesperado contra a força da gravidade gerada pelas poderosas forças centrífugas. Sabia, naturalmente, que a cada momento ficava mais debilitado e sem meios de reagir.
Sua visão estava ficando turva. Os nervos óticos não reagiam mais. Dos seus lábios não brotavam mais do que sons guturais ininteligíveis, que a cada esforço o ameaçavam de sufocamento.
Seu pensamento se voltou para Gucky, que como telecineta estaria em condições de acionar a chave de emergência. Quem sabe o rato-castor, de constituição mais fraca, não estaria também inconsciente? Também não foi possível um contato telepático com John Marshall.
É o fim!”, pensava Rhodan, quase chegando ao estado de inconsciência. “Tudo por causa dos cinco gravos de pressão, ridículos cinco gravos que não conseguimos superar!
Já quase sem irrigação sangüínea no cérebro, não conseguia mais concatenar os pensamentos. Viu confusamente um vulto avantajado, cuja mão ciclópica muito lentamente se levantou até a altura do peito, onde pendia um aparelho pouco maior que um punho fechado.
Jefe Claudrin, o homem nascido em Epsal, ainda lutava. Cinco gravos de pressão não seria muita coisa para ele.
Rhodan já havia perdido os sentidos, quando Claudrin conseguiu desligar o aparelho de aumentar a pressão. O resto foi uma brincadeira para ele. Vencendo a enorme pressão reinante, estendeu o braço direito e impulsionou a alavanca verde para baixo.
Na nave esférica em rotação soaram as sirenes de alarme. A instalação automática de emergência entrou em ação, registrou a situação e iniciou o esquema de ligações necessárias. O conjunto de propulsão III funcionava em plena carga e os neutralizadores de pressão receberam os primeiros impulsos. Segundos após, desapareceu aquele peso terrível que oprimia os tripulantes. O ronco dos motores de correção comprovava que o movimento giroscópico estava sendo absorvido.
Quando Rhodan voltou a si, viu o vulto possante de Claudrin na sua frente. Sem desperdiçar uma palavra, Claudrin ergueu Rhodan e o colocou numa poltrona giratória.
Em todos os cantos da Fantasy, os homens voltavam a si. Também Brazo Alkher se levantou com um leve gemido, sentindo falta de ar. Seu primeiro olhar foi para a tela da mira automática, onde um clarão amarelado lhe ofuscou a vista.
Num esforço sobre-humano, chamou a central de comando. O comandante atendeu logo e Brazo falou com dificuldade:
Aqui na central de artilharia, tudo bem, sir. Que aconteceu? Contra o que nos chocamos?
Se não estou enganado, atravessamos em menos de um milésimo de segundo um respeitável sol amarelo.
Santo Deus!
Permaneça atento em seu posto, Alkher. Não sei ainda o que significa esta incandescência. De qualquer maneira, encontramo-nos de novo no espaço normal.
Sir, talvez eu esteja caducando, mas tenho a impressão de estarmos ainda dentro deste sol.
Claudrin queria dizer alguma coisa, mas silenciou de repente.
Meu jovem, você me chamou a atenção para outra coisa — disse ele finalmente e com voz pausada, como quem está com o pensamento longe. — Olhe um pouco agora para sua gente, mande os feridos para o hospital e comunique-se com o primeiro-oficial. Fim.
Fim, sir — repetiu Brazo mecanicamente.
Estava ouvindo, sem querer, o ronco dos geradores energéticos que protegiam o cruzador por meio dos envoltórios de proteção contra os perigos do espaço.
Alguma coisa não estava certo a bordo da Fantasy. A visão ótica não era mais possível. Só se via nas telas o clarão amarelado.
Brazo procurava respirar profundamente. Levantou-se lentamente de seu assento. A situação não lhe estava agradando.
6



...um acidente que pode acontecer a qualquer nave de vôo linear — dizia Kalup com toda calma no intercomunicador de bordo.
Sua fisionomia pálida, contraída e principalmente as bochechas sulcadas de veias, agora rígidas, não tinham nada desta calma. Continuou falando com a maior pachorra:
A experiência está terminada. Mandei coletar em toda a nave, através dos raios de tração, algumas Amostras de matéria. Estamos levando conosco uma bela porção da massa solar, o que aliás não é um merecimento da nossa pequena espaçonave, mas apenas do campo de compensação. Os fenômenos físicos estão de alguma maneira claros. Foi sorte nossa que, no momento da colisão, o conversor de proteção estivesse funcionando com a potência máxima. De outra forma, não estaríamos mais vivos agora. Parece que estou falando uma grande asneira, mas o fato é que nos encontramos no centro de uma massa em rotação e em fase de rápido resfriamento, onde não pode haver mais nenhuma reação atômica. Isto me parece muito estranho, mas haveremos de descobrir a razão de tudo isto.
Na central de comando, Jefe Claudrin virou a cabeça para trás. Rhodan estava sentado na poltrona do co-piloto; parecia muito cansado. Seu rosto estava um pouco inchado abaixo do olho esquerdo.
Foi realmente uma grande sorte o senhor ainda ter conseguido desviar minha mão da alavanca — disse Claudrin, com a voz mais fraca possível. — Do contrário teria desligado o sistema de Kalup na hora da colisão.
Rhodan trincava os dentes, para dominar as dores que estava sentindo. Durante o período da forte pressão, foi atirado contra a parede de aço e talvez tivesse quebrado alguma costela.
Compreendi a situação no último momento — disse ele. — Já estávamos próximos demais. Mas vamos esquecer isto. Kalup, que propõe agora?
Temos que varar esta massa enquanto está macia, isto é, antes que esfrie totalmente. Precisamos estudar os problemas que podem advir daí.
Exatamente por isto lhe estou perguntando, meu jovem.
Kalup não gostou do adjetivo. Seu rosto já estava recuperando a cor.
Pare com essa brincadeira, por favor! Temos que nos comportar como o pintinho que começa por picar a casca do ovo por dentro para poder sair. Não há outra possibilidade. Para se conseguir isto, deparam-se-nos dois caminhos.
Oh! Dois de uma vez? — acudiu Rhodan.
Por favor, não seja irônico. A situação é muito séria para isto. No momento, não quero ainda me arriscar a desligar os campos normais de proteção, o que seria necessário com a entrada do conversor de compensação. É possível, em determinadas circunstâncias, que ocorram, ainda nesta massa, reações atômicas que dificilmente agüentaremos sem os campos de defesa.
Ah! É isto!
O senhor arranjou no comando da Frota Espacial um oficial artilheiro dotado de qualidades especiais, não é assim?
Rhodan ficou atento e um rapaz de nome Brazo Alkher ficou nervoso, olhando assustado para os homens do setor de defesa. O sargento Enscath apertou as mãos nervosas no espaldar da poltrona.
Santo Deus! Era isto que eu estava pensando... — disse ele bem baixo.
Você pretende mandar bombardear esta nuvem incandescente, professor? — soou a voz de Rhodan nos alto-falantes do intercomunicador e todos ouviram-na.
Vamos experimentar. De qualquer maneira é menos arriscado do que desligar os campos de proteção, assim sem mais nem menos. Alô! O oficial-chefe da artilharia está me ouvindo?
Sim, perfeitamente, senhor! — respondeu Brazo, gaguejando no microfone. — Fala o Tenente Alkher, senhor.
Ótimo. Acho que já nos conhecemos, não é verdade?
Kalup deu uma daquelas suas gargalhadas estrondosas.
É verdade, sir. O senhor foi tão gentil de me proteger de uma grande queda.
Lembro-me disso. Você tem coragem de atirar na nuvem em rotação, produzindo nela uma espécie de fenda?
Brazo esqueceu seu nervosismo. Rhodan estava olhando atento para o videofone. Quando reparou na determinação que havia no rosto daquele rapaz, ficou feliz.
O cálculo mental de Brazo tinha terminado. Com um tom de voz completamente diferente, como quem trata de um negócio friamente, continuou ele:
Não é tão fácil assim. O senhor disse que a nuvem está em rotação, não é verdade? Portanto, se alvejar um determinado ponto com fogo mais demorado, a Fantasy deve acompanhar o movimento de rotação da nuvem, para que meu fogo se concentre no lugar alvejado. De outra forma não alcançaremos o ponto certo, e o fogo se espalhará, não causando o menor efeito.
Certo, era isto que eu ia lhe explicar. Você sabe pensar, meu jovem amigo. Prepare seus canhões e use tudo que estiver à sua disposição. Apenas não faça uso de armas que nos possam prejudicar.
Só poderemos utilizar canhões de impulsos e desintegradores.
Rhodan deu as últimas instruções. Apareceu na tela, através dos instrumentos de rastreamento, a mancha de clarão incandescente. Os neutralizadores de pressão foram ligados sincronicamente.
Momentos mais tarde, a Fantasy começou seu movimento de rotação, desta vez, porém, de maneira planejada. Na tela de mira de Brazo, o clarão amarelado se tornava cada vez mais visível, até que finalmente ficou se equilibrando na cruz da mira. Seguiram-se as últimas correções. O pesado cruzador girava 22.364 vezes por segundo em torno de seu eixo polar. Os canhões, solidamente afixados nas cúpulas avançadas, giravam junto. O bombardeio podia começar.
O distanciamento do aglomerado de matéria está em relação com o envoltório de defesa gravitacional — dizia o vozeirão de Claudrin no alto-falante. — São exatamente dez quilômetros. Dirija seus canhões de tal forma que cortem pelo menos uma faixa de três quilômetros.
Perfeitamente — respondeu Brazo, mecanicamente.
Estava concentrado na tela de mira. Seus dedos finos, de grande sensibilidade, apalpavam de leve as teclas de disparo. Todos os canhões de frente da Fantasy apontavam para o mesmo ponto.
Fogo livre — sentenciou a voz de Rhodan.
Brazo apertou a tecla mestra de disparo automático de todas as bocas-de-fogo da frente e o cruzador parecia urrar como um monstro acuado. Jatos de impulsos chamejantes num tom arroxeado, quentes como o Sol e quase tão velozes como a luz, eram vomitados com toda fúria. Os raios desintegradores que destruíam as moléculas eram invisíveis, mas muito mais velozes que os canhões de impulso ou de raios térmicos.
Durante três segundos, Brazo manteve a tecla comprimida. A Fantasy estremecia em toda sua estrutura. O ponto da massa amarelada, atingido pelo fogo cerrado, parecia fazer explodir a parte mais fria do lado de fora. Violentos processos de reação atômica atingiam os envoltórios de proteção da espaçonave, ameaçando destruí-los. Fora das paredes resistentes da nave, era um inferno. Línguas de gás chamejante irrompiam de repente da massa superaquecida para a escuridão do espaço. Brazo provocara um sol em miniatura que vomitava no espaço faixas de hidrogênio incandescente.
Cessar fogo! — ordenou Rhodan pelo microfone. — Não tem mais sentido. A fenda obtida com o bombardeio é enchida novamente com massas de gás! Vamos sair daqui antes que esta nuvem incandescente se transforme em um novo sol. Kalup, pronto para uma manobra linear. Narco, alimente os conjuntos de propulsão para velocidade máxima.
Isto é uma loucura, pois arrastamos a nuvem chamejante conosco!
Faça o que estou dizendo, Kalup. Vamos partir já. Desligar o campo de proteção normal e instalar os campos de compensação. Se não conseguirmos isto, seremos queimados vivos. Está compreendendo a situação?
Claro que sim — respondeu Kalup, secamente. — Pois bem, aguarde, porém, minha mensagem.
Brazo Alkher retirou o dedo da tecla de disparo geral. Lá fora, o espaço pegava fogo. Brazo sabia que fora ele quem provocara, por meio dos raios térmicos, aquela reação nuclear, reação esta tanto desejada pelo grande físico... Agora, os átomos do hidrogênio, de fácil fusão, tinham se tornado ativos. Era hora de fugir.
Os comandos saíam em rápida seqüência. O tonitroar dos conversores kalupianos superava todos os ruídos.
Dois minutos mais tarde, o setor de máquinas anunciou o ponto máximo de aceleração. A matéria solar, cada vez mais aquecida, foi arrastada pela Fantasy. Assim, tornava-se praticamente impossível ficarem livres. Além de tudo, o que aconteceria ao se atingir uma velocidade próxima à da luz?
Rhodan deu suas últimas instruções. Os membros da tripulação fecharam o capacete do uniforme espacial. Perry esperou ainda um pouco até que os instrumentos de correção eliminassem a rápida rotação da espaçonave.
Quando os campos de proteção da Fantasy estavam próximos do rompimento, em virtude do crescimento exagerado das forças nucleares dentro da nuvem chamejante, Rhodan, com a serenidade que lhe era característica nos momentos mais críticos, disse:
Jefe, faça o seguinte: acelerar cinco segundos no semi-espaço, logo em seguida desligar o sistema kalupiano. Isto deverá ser suficiente. Está pronto? Pode começar.
Claudrin olhou mais uma vez para a lâmpada verde do automático da sincronização. Desligar os campos normais e ligar a zona kalupiana tinham que acontecer numa fração de segundo.
Então o homem nascido em Epsal, num gesto rápido, quase invisível, acionou o contato de direção manual.
Era como se o cruzador fosse explodir. Chamas esbranquiçadas pareciam querer saltar das telas para dentro da espaçonave. O sistema kalupiano abafava todo outro barulho. O sibilar da parte externa do bojo, supersolicitada pela velocidade, também não se ouvia mais. Apenas se sentiam os grandes abalos.
Tudo isto durou poucos instantes. As chamas desapareceram de uma hora para outra, e com elas as forças desenfreadas da reação nuclear. Na grande tela frontal surgiu novamente o espaço coalhado de estrelas cintilantes.
Rhodan estava se recostando no espaldar da poltrona, para respirar um pouco, quando a Fantasy recebeu de repente um solavanco forte, facilmente perceptível. Os controles de velocidade caíram rapidamente. Era como se a Fantasy navegasse num mar de algodão que reduzia grandemente sua velocidade.
O fenômeno foi muito rápido, no máximo um segundo; no entanto, este curto espaço foi suficiente para que Claudrin pudesse desligar o sistema kalupiano antes do prazo de cinco segundos estipulado por Rhodan.
Privado de seu campo de compensação, o cruzador protótipo mergulhou de novo no espaço normal, onde continuou voando em queda livre com a velocidade adquirida durante a manobra de fuga.
Os motores de propulsão e o sistema kalupiano silenciaram. Nas telas de observação normal, cintilava um sol gigantesco de coloração azulada. Os rastreadores funcionavam normalmente e as escalas cilíndricas em rotação comprovavam que este sol resplandecente possuía numerosos planetas. Este fato não despertou muito o interesse da tripulação. Quase ninguém se preocupou com isto, pois era a coisa mais comum um sol ter um determinado número de planetas.
Rhodan contemplou fascinado, por uns momentos, as grandes telas da galeria panorâmica. Cinco dos planetas descobertos apareciam como pontos minúsculos esverdeados. O próprio Rhodan não se preocupou com a nova aparição. Muito mais importante lhe parecia o fato de terem escapado do centro de um novo sol em miniatura e principalmente a singular redução de velocidade, que possibilitara a Claudrin poder interromper rapidamente o vôo linear.
Que foi isto? — perguntou Rhodan preocupado. — Você deve ter reparado, não é?
Evidentemente, sir!
Reginald Bell levantou-se de sua cadeira giratória, e aproximou-se das telas panorâmicas. Com os olhos comprimidos, ficou contemplando o sol azulado, agora bem nítido. Depois que os olhos dos observadores se acostumaram com o brilho intenso, Bell constatou que o espaço vazio em volta do estranho sol tinha uma coloração também azulada. Faltava, pois, a negridão pronunciada do Universo, apenas interrompida em geral pelo cintilar multicor das inúmeras estrelas.
Alguém me pode explicar onde nós estamos? — perguntou Bell. Meteu as mãos nos bolsos externos do uniforme e olhou vagarosamente para cada um ali presente.
Kalup e alguns outros cientistas da nave experimental penetraram no posto de comando. Um ponto positivo, comprovando o grande poder de reação de Kalup, era o fato de que não perdera nenhuma palavra com a fuga bem-sucedida do sol amarelado. Para ele, já era um fato consumado e esquecido. Com alguma hesitação, aproximou-se das telas. Ouvira a pergunta de Bell.
Onde nós estamos? Em hipótese alguma no hiperespaço ou em algum universo estranho ou ilusório. Isto é um sistema solar absolutamente normal, pertencente à nossa Via Láctea.
Sistema solar absolutamente normal? — repetiu Rhodan, com uma ponta de ironia. — Kalup, você está se desenvolvendo maravilhosamente como um super-homem sabe-tudo.
O extraordinário físico balançou a cabeça de um modo insólito, sério e, ao mesmo tempo, descontraído.
Simplesmente, meu cálculo foi mais rápido do que o seu e minha observação também. Quando a camada de ar, ou a atmosfera de um planeta tem cintilação azulada, está tudo normal. Mas quando o espaço, que sabidamente é um vácuo, apresenta esta coloração, então o caso é totalmente fora do comum. Ou você já viu um vácuo ter qualquer tipo de reação?
Rhodan hesitou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Kalup prosseguiu:
Durante o vôo linear, fomos detidos por uma força desconhecida. Tenho a impressão de que atravessamos um envoltório de proteção magnética, que deve ser um pouco semelhante com o campo de compensação. De outra forma, seríamos impedidos de passar ou mesmo seríamos destruídos. Este envoltório protetor produz esta cintilação. Gostaria de dar a este sistema o nome de sistema Azul.
Um campo de proteção... no meio do espaço? — disse Bell confuso. — Uma ilha de força de tal dimensão que abriga no seu bojo um grande sistema solar, com, pelo menos, quinze planetas? Professor, o senhor está consciente do que acaba de afirmar?
Kalup fez que sim com a cabeça. Seus olhos brilhavam. Para ele, o cientista, o fenômeno observado era fascinante.
Perry Rhodan e os principais oficiais da nave protótipo pensavam de modo essencialmente mais prático.

* * *

O Major Hunt Krefenbac, o primeiro-oficial, ativou-se. Mais do que depressa, puxou o braço do microfone.
Krefenbac falando para o oficial-chefe da artilharia: prontidão de fogo imediata. Estabelecer a ligação do rastreador com o comando central. Espero confirmação.
Os dedos ágeis de Brazo começaram a se mover. No alojamento dos sentinelas soaram os sinais de alarme.
Posto central de artilharia, Tenente Alkher: prontidão de fogo já estabelecida e rastreador já ligado com o circuito central. Fim.
Rhodan olhou pensativo para o primeiro-oficial do outro lado. Depois se dirigiu a Kalup:
Você viu como os artilheiros pensam a respeito do seu “sistema Azul”?
Kalup fez um gesto de descontentamento.
Bobagem! Haveremos de descobrir o que se passa aqui.
Exatamente, professor, foi por este motivo que Hunt ordenou a prontidão. Parece-me, meu jovem amigo, que a terceira fase da História da Humanidade se inicia com toque de tambor exagerada-mente forte. Krefenbac, o que você sugeria?
Antes que o primeiro-oficial pudesse expressar seu pensamento, as instalações de alarme acústico dos rastreadores estruturais começaram a estalar tão fortemente, no compartimento ao lado, que um segundo mais tarde, todas as resistências estavam queimadas.

Rhodan não disse uma palavra. Com um sorriso singular, ficou olhando através da parede transparente de aço plastificado para a central de rastreamento do outro lado, onde os técnicos tentavam restabelecer os automáticos. O oficial de rastreamento ligou os mais fortes aparelhos de absorção de choque de que dispunha.
Quando os aparelhos de rastreamento para medição das alterações estruturais, ocorridas no conjunto do espaço quadridimensional, estavam em condições de funcionar, o que se ouviu então foi um ronco estranhíssimo.
Central de rastreamento para o comandante — soou dos alto-falantes a voz do operador de serviço. — Uma frente de ondas estruturais com a intensidade trinta, do vermelho 14 graus, verde 3,264. Amplitudes oblíquas, eco de retorno claro. Deve haver aí muitas transições de espaçonaves, no entanto os aparelhos não acusam suas presenças. Fim.
Rhodan perguntou admirado:
Como? Estão captando abalos estruturais de transições e não encontram nenhuma nave?
Perfeitamente, sir. A origem dos ecos está a 18,253 horas-luz de distância e, apesar disso, não se percebe nada das espaçonaves.
Ah! Agora chega! — disse Bell, meio desiludido. — Não lhe disse que íamos viver uma grande surpresa? Nossos rastreadores daqui a pouco irão rebentar, mas as espaçonaves não aparecem. De onde chegam, então, estas ondas de impulsos? Quem ou o que as produz? Se eu não fosse uma pessoa muito curiosa que quer saber todas as coisas com exatidão, coisas que não têm nada a ver comigo, haveria de propor agora desaparecer daqui a toda velocidade.
Infelizmente você é uma pessoa curiosa — disse Rhodan com um sorriso irônico.
Depois de olhar em volta, falou secamente:
Então, meus senhores, antes que fiquemos com os nossos sistemas nervosos arrasados, vamos voar para a direção de onde vêm essas ondas de impulsos e ver in loco quem está provocando este barulho todo. Neste momento, seria muito mais agradável estar num supercouraçado do tipo Império. Voaremos com a simples velocidade da luz. Krefenbac, dê-nos a origem, o ponto de partida destes ecos, e lance os resultados no automático. Os oficiais da Fantasy devem em... — Rhodan consultou o relógio — ...em dez minutos se apresentar para discussão da situação. Tenente Alkher, o senhor não poderá tomar parte, preciso de sua presença na central de artilharia. Mais tarde será informado a respeito.
Trezentos homens, altamente especializados, se entreolharam. Alguém disse:
Ele quer saber exatamente, como? Viva o “sistema Azul” à beira do centro da Via Láctea, cuja densidade estelar é fantástica. Lá estaremos como em casa, não é?
Isto você tem que perguntar ao seu irmão maior — disse outro técnico de propulsão linear.
Ele não está aqui.
Bem, então cale a boca. Eu também gostaria de saber quem é que está soltando fogos de artifício, aqui, nestas alturas. Permita Deus que não chamusquemos o nariz.
Abanando a cabeça, o homem se encaminhou para seu posto de trabalho e ligou a tela panorâmica para o grupo de propulsão II.
Parece que ele sabia o que seria resolvido naquela reunião. E realmente, não se enganou.
Uma hora mais tarde, eram transmitidas as primeiras ordens. A Fantasy arrancou com as máquinas a toda carga. Seu objetivo era o quinto planeta do sistema Azul. Não havia mais dúvida de que os abalos estruturais provinham daquele mundo ou eram nele provocados.

6



A primeira providência que Rhodan tomou após a partida foi mandar para a cama toda sua tripulação, até mesmo os mais simples vigias. Era de opinião que, com homens descansados se conseguiria muito mais do que com os maiores gênios tresnoitados.
Já eram decorridas dezenove horas desde o início do vôo experimental e a Fantasy agora se encontrava em manobras de frenagem, depois de, há quinze minutos atrás, ter sobrevoado a órbita do quinto planeta. Nas telas panorâmicas brilhava um alongado corpo celeste com grandes mares, montanhas extensas e campinas verdejantes.
Tinha a gravitação de 1,1 gravo e uma atmosfera de muito oxigênio com um céu transparente como um cristal, de um tom azul-claro. Neste setor do espaço, tudo parecia azul, o que já dera ensejo aos tripulantes de criar novas piadas.
Rhodan dera a este quinto planeta o nome de Sphinx, com o que deixava bem à mostra o caráter misterioso deste novo mundo. Sphinx tinha duas luas, sendo que uma delas possuía mais ou menos as dimensões de Mercúrio, enquanto que a outra era um corpo celeste menor e aparentemente desabitado, provavelmente pouco maior que um meteorito.
Estes fatos não tinham nada nem de sensacional nem de interessante se, nas proximidades do quinto planeta, houvesse apenas uma única espaçonave. Os homens a bordo do cruzador pesado estavam diante de um enigma.
Os abalos estruturais ficaram mais brandos, no entanto a freqüência com que eram registrados deixava supor um intenso tráfego espacial. Apesar de tudo, não se viam nem espaçonaves, nem aparelhos menores. Era como se os supostos habitantes do quinto planeta nunca tivessem ouvido falar de viagens espaciais tripuladas. Mas os aparelhos de rastreamento não cessavam de registrar certo movimento no espaço. O mistério perdurava, até que medições mais exatas das estações de rastreamento clarearam o fenômeno.
A causa dos constantes estremecimentos espaciais não estava no quinto planeta, mas em seu satélite de tamanho aproximado de Mercúrio, que provavelmente também possuía uma camada de ar respirável para os homens.
Rhodan resolvera então voar para esta lua.

* * *

A Fantasy se deslocava a uma velocidade de 7,6 quilômetros por segundo. O posto central de artilharia, sob o comando de Alkher, já se achava há tempo em regime de alarme total. O cruzador pesado estava preparado para se defender, se bem que parecia não haver nada que representasse ameaça.
Foram captados alguns ecos curtos, pelos quais se podia concluir que os habitantes de Sphinx conheciam a medição por hiper-rádio mais rápida que a luz. A razão por que não dominavam a cosmonáutica continuava sendo o mistério número um.
Podia-se ver Sphinx nitidamente na tela. Mais nítida ainda a superfície desértica e abandonada da segunda lua, que dava a volta em torno de seu planeta numa órbita de 53 horas. Rhodan lhe deu o nome de Ramsés.
Os ecos estruturais já não se repetiam com tanta freqüência, mas continuavam com intensidade, às vezes, forte demais.
Rhodan esperou ainda uma hora e, durante este tempo, deixou que a Fantasy se aproximasse cada vez mais da lua maior. Não se deu nenhum rastreamento por parte de alguma estação do solo, isto é, dos habitantes daquela lua, como também não houve resposta à amável saudação pelo rádio e nem se levantou algum aparelho para saudar os recém-chegados ou dar uma salva de tiros em sua homenagem. Foi, de certo modo, a aproximação mais decepcionante de toda a vida galáctica de Rhodan.
Os departamentos de Astronomia e de Galatonáutica transmitiram, neste meio tempo, as proporções do sistema Azul. O sol possuía dezoito planetas, entre os quais talvez só o quinto fosse habitado.
Depois de a Fantasy haver circunvoado quase por duas horas a maior lua do planeta Sphinx, Rhodan perdeu a paciência. Os homens que o conheciam de perto, notaram nos seus movimentos mais descontraídos e na rigidez de seu rosto que ele havia tomado uma resolução. Os telepatas John Marshall e Gucky se esforçavam em vão para captar os impulsos mentais dos possíveis habitantes. Não restava, porém, a menor dúvida de que, tanto em Sphinx como em Ramsés, existiam muitos milhões de seres que pensavam, cujo consciente, no entanto, não podia ser captado com a devida clareza.
O rato-castor já esgotado se retirou para uma cadeira giratória e se enrolou na macia espuma de borracha. Com a respiração ofegante, o animalzinho tapou os olhos com as patas. O próprio John Marshall teve que capitular. Caminhou pálido para junto de Rhodan, que durante uma hora acompanhou os esforços de seus mais competentes mutantes. Marshall sentou-se na cadeira ao lado, esticou as pernas e ficou pensativo olhando a tela panorâmica.
Então, John?
Marshall passou a palma da mão na testa molhada de suor e olhou preocupado para Gucky no outro lado, cujo corpo fraco e já combalido pela idade tinha sofrido muito com o descontrolado e longo movimento de rotação da nave experimental.
Uma situação desagradável, sir — disse John cauteloso. — Não posso fazer nada com os paraimpulsos destas estranhas inteligências. Tudo é confuso e aos pedaços. Vejo figuras geométricas mal delineadas, refletindo todas as cores possíveis. Mas isto não é sinal de acolhimento ou de recepção direta. Gostaria quase de dizer...
Dizer o quê?
Os desconhecidos lá embaixo estão se escondendo. Não é nada impossível que tenham notado os esforços meus e de Gucky.
Isto suporia um grande conhecimento sobre assuntos de Parapsicologia, como também os dons físicos necessários para isto, não é?
Exatamente, senhor...!
Marshall interrompeu o que ia dizer. Olhou para Rhodan um tanto sem jeito.
Pois não, John.
Sir, se lhe pudesse dar um conselho, iria lhe recomendar uma retirada imediata. Alguma coisa não está certa aqui. Por que não respondem ao nosso comunicado pelo rádio? Todos nós temos um padrão elevado de cultura e de tecnologia para compreender os conceitos básicos de Matemática. Permita que nos retiremos, sir.
Rhodan ficou calado por algum tempo e depois falou com calma:
John, é tarde demais para isto. O administrador de um império ainda jovem não tem o direito de deixar de lado inteligências deste gabarito, somente pelo motivo de que elas lhe parecem assustadoras.

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