Gucky não
teve tempo para descobrir a causa do tumulto que se abateu de
repente, pois se o fizesse correria perigo de ser descoberto. O que
importava era Ellert — ou melhor, Onot, o cientista.
Saltou
para dentro da prisão.
No
primeiro instante, tudo parecia normal no amplo corredor. Gucky não
sabia se fora parar no andar certo. Não descobriu nenhum guarda que
pudesse interrogar por via telepática. Havia um silêncio aterrador.
De
repente, também aqui o inferno parecia às soltas.
Portas
abriram-se e druufs, armados e uniformizados, surgiram no corredor.
Gucky compreendeu que saltara para o andar errado. No lugar em que se
encontrava, deviam ficar os alojamentos dos guardas e dos policiais.
As celas localizavam-se mais embaixo.
Desapareceu
e voltou a materializar-se num andar mais baixo. Enfiou-se
apressadamente num nicho, quando viu dois druufs parados diante da
porta de uma cela. Gesticulavam violentamente. O rato-castor não os
ouvia, mas captou-lhes os impulsos mentais. E ainda os viu arrastarem
um terceiro druuf para fora da cela.
— Onot
quase chegou a matar o guarda. — descobriu Gucky.
E isso lhe
bastou para que tirasse suas conclusões.
Onot
fugira!
“Então
foi por isso que não consegui mais detectar os pensamentos de Ellert
nesse lugar”,
pensou.
Naquele
instante, Ellert-Onot poderia estar em qualquer lugar desse
gigantesco mundo; seria difícil encontrá-lo.
De
repente, os dois druufs se viraram. De início, Gucky teve a
impressão de que ele mesmo fora imprudente, mas logo percebeu o
motivo do interesse deles. Policiais aproximavam-se.
Estava na
hora de dar o fora.
Gucky
desmaterializou-se e, com isso, cometeu um erro grave.
Onot
encontrava-se a menos de quinhentos metros do lugar em que estava.
Caso o rato-castor se tivesse dado ao trabalho de classificar os
impulsos mentais que o atingiam, provavelmente teria descoberto
Ellert.
No
entanto, saltou de volta ao local em que Rhodan se encontrava.
5
Onot
comprimiu o botão que Ellert lhe indicara.
Ouviu-se
um forte zumbido e a grade deslizou para o lado. Quando a abertura
media dois metros, parou.
Por um
instante Ellert sentiu-se perplexo. Mas, nesse momento, aconteceram
três coisas ao mesmo tempo: as luzes da cidade iluminaram-se, uma
sereia começou a uivar e o portão voltou a fechar-se.
Ellert
compreendeu que havia algo de errado.
— Corra,
Onot!
— ordenou e procurou calcular a distância.
“Como
um corpo destes é incômodo”,
pensou num momento. “Se
Onot não tivesse as importantes anotações...”
— É
sua última chance!
Onot saiu
correndo. Em comparação com o movimento da grade, Ellert
considerava a velocidade do druuf muito reduzida. Eram apenas alguns
passos... e Onot conseguiu.
Espremeu-se
pela fresta, ainda existente, e viu-se na rua inundada de luz. À sua
frente, havia uma larga avenida. Os arcos voltaicos mergulharam a
ampla rua numa luz ofuscante.
— Não
vá para lá! — disse Ellert. — Siga para a direita, em direção
ao espaço-porto. Rápido! Já ouço os ruídos dos veículos.
Provavelmente, são da polícia. Acho que descobriram nossa fuga.
Gostaria de saber como isso pôde acontecer.
Enquanto
Onot corria para salvar a vida e a liberdade, Ellert ficou
refletindo. Naturalmente poderia deixar Onot entregue a si mesmo e
tentar desviar os druufs do seu objetivo. Bastaria fazer com que o
oficial, que comandava a operação, fizesse algumas coisas malucas.
Mas como poderia reencontrar Onot, caso o cientista não permanecesse
no lugar em que ele o abandonara?
O muro
alto que cercava a prisão descreveu uma curva para a direita. Onot
continuou a correr, para atravessar a rua. Mais adiante apareceu uma
luz móvel.
— Ali:
a entrada de uma casa.
Reunindo
as forças que lhe restavam, Onot chegou ao outro lado da rua e
comprimiu-se para dentro do nicho, que era muito pequeno para
proporcionar um bom esconderijo. O veículo foi-se aproximando. Na
parte dianteira, havia um holofote móvel, que girava
ininterruptamente para todos os lados. Era claro que o fugitivo já
estava sendo procurado nas ruas. Já se sabia que sua fuga fora bem
sucedida.
— Fique
aqui mesmo, aconteça o que acontecer!
— ordenou Ellert e desprendeu-se do cientista.
No mesmo
instante, viu a viatura policial abaixo de si e pôde reconhecer os
uniformes. Seis druufs estavam sentados no carro aberto, com as armas
destravadas apoiadas sobre os joelhos.
Ellert
penetrou no cérebro do motorista e, dessa forma, assumiu
indiretamente o controle do veículo. Desejava, na medida do
possível, poupar a vida dos druufs. Mas se quisesse evitar que a luz
do holofote giratório atingisse Onot, não lhe restava muito tempo.
De
repente, cinco druufs soltaram um grito. O motorista virou a direção
e o veículo precipitou-se para o lado direito da rua. Felizmente
reduziu a potência do motor, fazendo com que a velocidade
diminuísse. A luz do holofote bruxuleou e apagou-se.
Depois
disso, seguiu-se o impacto. Ellert viu-o, mas já com os olhos de
Onot. Estremeceu ao perceber o poder e a responsabilidade terríveis,
que carregaria até o fim dos seus dias. As vidas que colocara em
perigo não eram vidas humanas, mas sempre eram vidas. Toda e
qualquer forma de vida tinha um direito à existência e não devia
ser destruída. Nem mesmo a de um inimigo, caso isso pudesse ser
evitado.
Não
praticara um ato de legítima defesa?
Ellert
percebeu que tentava justificar seu ato, embora ninguém o obrigasse
a isso. Teve a satisfação de constatar que, segundo parecia,
ninguém, fora morto no desastre. Os druufs saíram dos destroços do
veículo e começaram a investir exaltadamente contra o motorista.
Ellert achou que estavam cometendo uma injustiça, pois afinal o
condutor do veículo, assim que readquiriu a liberdade de decisão,
agira corretamente e freara o veículo. Se não tivesse atuado assim,
as coisas estariam muito piores para os policiais.
Onot
continuou parado no nicho. Os policiais, que se encontravam a menos
de duzentos metros de distância, pareciam não se ter esquecido de
sua missão. Logo que se certificaram de que escaparam ilesos,
pegaram as armas e puseram-se a caminho de seu destino, o edifício
da Corte Suprema.
Não
demonstraram nenhum interesse por Onot, que suspirou aliviado quando
viu que se afastavam.
— Vá
andando!
— ordenou Ellert, cheio de uma nova confiança. — Daqui
a pouco, toda a cidade estará acordada. Nunca imaginava que fizessem
tamanho estardalhaço por causa de uma fuga...
— Acontece
que o preso é Onot — respondeu o cientista e Ellert captou a
impressão de uma risada irônica. — Evidentemente, imaginam que
ainda farei muitas tolices, para vingar-me da vergonha por que
passei.
— Tomara
que não imaginem que você pretende colocá-los no campo de ação
de um paralisador do tempo. Se eles pensam assim, o medo e os
esforços de voltar a pôr as mãos em você serão redobrados.
Mais duas
vezes, tiveram que abrigar-se em vielas a fim de fugir às patrulhas,
mas o perigo nunca se tornou tão grave a ponto de Ellert ter de
intervir nos acontecimentos. Finalmente avistaram o espaçoporto.
— Ali,
onde você vê a iluminação de arco voltaico, fica a área de
estacionamento dos táxis aéreos — disse Onot, apontando para a
luz difusa. — Não vejo polícia por lá.
Ellert
ordenou ao druuf que ficasse parado. Pretendia fazer um
reconhecimento da situação e queria ter certeza de que ninguém o
via. Não havia nenhum inconveniente que Onot permanecesse no lugar
em que se encontrava, pois, em caso de necessidade, poderia
esconder-se no arco de um portão.
— Não
saia daqui
— disse Ellert, repetindo a advertência de antes. — Não
demoro.
A rua foi
deslizando embaixo dele à velocidade que desejava. Invisível aos
olhos de todos, chegou ao espaçoporto e subiu para o alto, a fim de
ter uma visão mais ampla.
As
fileiras das naves de guerra, prontas para decolar, lembraram a
Ellert que Druufon se encontrava em estado de guerra. Soldados saíram
de um quartel, situado do lado oposto do espaçoporto, entraram nos
veículos, que estavam parados à frente do tal quartel, e começaram
a formar um cordão em torno do espaçoporto. As tropas de infantaria
deslocaram-se para as áreas difíceis de serem abrangidas pela
vista, situadas entre o espaçoporto e a cidade.
“Dali
a meia hora”,
raciocinou Ellert, “nem
mesmo um rato conseguiria passar pelos cordões de isolamento...
Quanto menos um druuf.”
Dirigiu-se
apressadamente à área de estacionamento. Os planadores não estavam
sendo vigiados, pois jamais alguém pensaria em roubar um veículo
pertencente ao Governo. No entanto, Ellert notou que um destacamento
de soldados já se dirigia à área de estacionamento.
Talvez
dispusesse de uns cinco minutos...
O que
aconteceria se Onot realmente fugisse num planador? Não voltaria a
ser preso imediatamente?
Ellert
lembrou-se da viatura policial que batera na fachada de um
edifício... e riu em pensamento. Não, Onot não seria preso tão
depressa. Em hipótese alguma!
Procurou
Onot o mais rápido que pôde.
O druuf
permanecia no mesmo lugar. Parecia ter um medo terrível de perder o
contato com Ellert. Talvez não conseguisse conformar-se com a idéia
de um belo dia voltar a ficar só.
— Corra,
Onot, o mais depressa que puder. Devemos chegar à área de
estacionamento antes dos soldados. Quanto tempo vai levar? Dois
minutos?
O druuf
avaliou a distância.
— Mais
ou menos três minutos. Nem um segundo mais.
Naturalmente
usavam as unidades de tempo de Druufon. Porém depois de convertidas,
as respectivas indicações correspondiam aos valores terranos que
acabam de ser mencionados.
— Muito
bem. Corra! Vou deixá-lo a sós por um minuto. Estarei com você,
antes que chegue à área de estacionamento.
Onot
respondeu. No seu íntimo, até estava disposto e fugir sem Ellert,
se isso fosse necessário e o espírito não voltasse em tempo. Mas
dificilmente poderia esperar que isso acontecesse. Começou a correr.
Ellert
introduziu-se no corpo de um funcionário da Corte de Justiça que
parecia muito nervoso, e estava verificando os controles eletrônicos
da prisão. Um druuf de rosto severo estava a seu lado. Ao que tudo
indicava, estava esperando o resultado do trabalho.
— Então?
A vítima
de Ellert moveu uma alavanca e disse:
— É
verdade! Onot passou sozinho por esta sala. Ninguém o ajudou. Contou
apenas com seus próprios recursos.
— O
guarda golpeado continua inconsciente, tal qual o guarda do portão.
Ninguém compreende como Onot conseguiu uma coisa dessas. Até parece
que está completamente louco.
— É bem
possível que esteja mesmo. Mais uma vez, o paisano mostrou-se
indignado.
— Não
nos cabe formular suposições. Ligue-me com o presidente da Corte de
Justiça. Preciso de sua licença para iniciar uma busca em escala
continental. Isso equivalerá ao estado de guerra.
— Tanta
coisa por causa de um cientista maluco!
Ellert
continuou ali, até que visse, através dos olhos do funcionário, o
rosto do presidente da Corte Suprema projetado na tela, e ouvisse a
ordem de capturar o fugitivo, custasse o que custasse... e capturá-lo
vivo.
Na certeza
de ter diante de si uma noite muito longa, abandonou o druuf e, numa
espécie de teleportação imaterial, transportou-se de volta ao
campo de pouso.
Estava tão
alto que podia ver Onot e os soldados ao mesmo tempo. O fugitivo
encontrava-se a uns cem passos do planador mais próximo e os
soldados a duzentos metros da área de estacionamento.
Onot
sentiu-se aliviado ao perceber a presença de Ellert.
— Não
conseguiremos! — disse fungando e passou a correr mais depressa.
Para o
lado, já se viam os contornos dos soldados em marcha. Não se
apressaram muito, pois numa oportunidade como esta todos costumam
acreditar que o centro dos acontecimentos está sempre mais
afastado... E acabavam se enganando.
— Pegue
o planador mais próximo.
Tratava-se
de um veículo pequeno, mas este não devia ser menos veloz e
manobrável que os outros.
Com um
enorme salto, Onot colocou-se no interior da cabina, isso depois de a
porta ter deslizado levemente para o lado. Num movimento quase
automático suas mãos encontraram os controles. Enquanto a porta
ainda se fechava, o propulsor já zumbia. Depois disso, o planador
levantou-se do solo e, acelerando tremendamente, subiu ao céu
escuro. A cidade desapareceu que nem um diadema de luzes cintilantes.
Alguns tiros de radiações perderam-se à distância. Dali a pouco,
só restava a solidão escura em torno deles.
*
* *
— Fugiu
— informou Gucky, depois de ter encontrado Rhodan num ponto mais
distante, no fundo de uma pequena depressão. — Ellert deve ter
desempenhado um papel importante nisso. Como faremos para
encontrá-lo?
Sentado
sobre uma grande pedra, Rhodan começava a sentir frio. Já por duas
vezes usara sua arma de radiações para aquecer uma pedra do tamanho
de uma cabeça humana, que foi usada como fogueira sem brilho. Mas
isso não resolveria o problema por muito tempo. De qualquer maneira,
a incerteza, onde estaria Ellert? Era mais inquietante que a friagem
noturna de um mundo estranho.
— Gucky,
para onde iria se estivesse no lugar de Ellert? Você deve partir do
pressuposto de que seus amigos o procurarão e de que esses amigos
dispõem de recursos extraordinários.
O
rato-castor sentou-se sobre a larga cauda. Dirigiu os olhos para o
céu, como se esperasse que as estrelas lhe dessem uma resposta.
— Iria a
um lugar facilmente atingível, que meus amigos conhecessem.
— Pois
bem. E qual é o lugar que tanto Onot, como Ellert e eu conhecemos?
Gucky
deixou de interessar-se pelas estrelas.
— O
antigo laboratório secreto, situado a setecentos quilômetros ao
leste da capital! — subitamente levantou-se e, arrastando os pés,
caminhou em direção a Rhodan. — Se sabemos disso tão bem, o que
estamos esperando?
— Ainda
estou refletindo para descobrir qual é o objetivo que Ellert
pretende atingir com a fuga. Se está em condições de convencer
Onot, também deve dispor de bastante energia para adquirir sua
independência e sair à nossa procura. Deve saber que estamos a
caminho. Por que expõe Onot a um risco sem a menor necessidade e
também a si mesmo? Por que está desperdiçando seu tempo?
— É
verdade. Também tenho a impressão de que há um mistério nisso —
confessou Gucky. — Mas estou disposto a apostar minha cabeça
contra o chinelo do pé direito de Bell de que Ellert tem um motivo
sério para trazer o tal do Onot à nossa presença.
Rhodan fez
um gesto quase imperceptível de assentimento. Também já lhe
ocorrera isso.
— Ellert
não é capaz de transportar qualquer tipo de matéria. Para fazê-lo,
tem de recorrer a Onot. Suponho que queira trazer-nos algo por
intermédio do cientista. De qualquer maneira, não temos nada a
perder se dermos uma olhada no laboratório. Acho que serei capaz de
encontrá-lo.
Gucky
parecia perscrutar a noite.
— Uma
coisa é certa: Ellert ainda não está no laboratório. Não consigo
captar seus impulsos mentais. Ainda se encontra entre a cidade e as
montanhas. Tomara que não tenha a intenção de fazer Onot percorrer
essa distância a pé. Com a velocidade que esses hipopótamos sabem
desenvolver, isso seria uma perspectiva nada agradável.
— Vamos
ficar nas proximidades do laboratório — respondeu Rhodan. — Ou
será que você tem uma sugestão melhor?
Gucky fez
seu dente roedor brilhar à luz das estrelas.
— No
momento não...
Dali a
alguns segundos, a pedra, que se desaquecia na depressão junto à
montanha, estava abandonada.
A tal
pedra passou a constituir o único sinal de que por ali houvera
criaturas vivas.
*
* *
A solidão
não durou muito.
— Estamos
sendo perseguidos — constatou Onot, depois de lançar um olhar para
a tela. — É uma esquadrilha de caças. E são mais velozes que
nós.
— Não
se preocupe
— disse Ellert para tranqüilizar o cientista. — Fazem
questão de que Onot compareça vivo à frente do juiz, pois desejam
descobrir certas coisas. Morto, você não lhes serviria para nada.
Quer dizer que não seremos derrubados.
As
palavras, pronunciadas de forma inaudível diretamente para dentro do
cérebro de Onot, preencheram sua finalidade. Este tornou-se mais
tranqüilo, prudente e circunspeto. Os perseguidores aproximavam-se
muito depressa, mas Onot nem tentou aumentar a velocidade de seu
planador.
A
quatrocentos quilômetros da cadeia de montanhas em que ficava o
laboratório de Onot, alguns caças alcançaram o planador e
colocaram-se à sua frente. Dispararam alguns tiros de advertência,
mas Onot nem reagiu aos mesmos. Agiu por livre e espontânea vontade.
Ellert permaneceu totalmente neutro.
— Você
conhece esse tipo de caça?
— perguntou. — Sabe
como funcionam os propulsores? Será que no painel existe um
dispositivo que permite desligar o sistema de propulsão? Talvez seja
uma espécie de chave de ignição...
Onot nem
teve necessidade de refletir.
Já sabia.
— Existe
uma fechadura eletrônica igual a qualquer outra. Caso não se possua
a chave não se pode fazer o caça decolar.
Ellert
recorreu aos olhos de Onot para avaliar a situação. Havia uns dez
caças desse tipo à sua frente; deviam ser unidades da força
policial. À sua volta, mais alguns corriam à mesma velocidade do
táxi aéreo, provavelmente para evitar que o planador escapasse. À
retaguarda, outras dez unidades. Havia, portanto, um total de cerca
de trinta caças.
A tarefa
não seria simples, mas de qualquer maneira poderia ser executada nas
circunstâncias em que se encontravam.
Bem abaixo
deles deslizava o deserto.
— Mantenha
o curso em direção ao laboratório, haja o que houver. E não se
espante com nada.
Talvez
Onot pensasse ligeiramente na viatura policial da cidade. Acenou com
a cabeça; tratava-se de um gesto afirmativo que Ellert lhe
transmitira.
— Confie
em mim.
Ellert
abandonou Onot e, no mesmo instante, flutuava no nada, ao lado do
planador. Ainda não sabia como fazer, mas sentia-se confiante.
Talvez fosse esta a primeira função geral de suas capacidades
recém-adquiridas. O tempo em que atravessava os fluxos temporais já
se fora; não era mais capaz disso. Em compensação, outro campo de
atividade abria-se à sua frente.
Escolheu
uma vítima entre os caças que voavam a seu lado, entrou na cabina e
penetrou no cérebro do piloto, que estava só. Ellert desistiu do
trabalho cansativo de criar um bloqueio amnésico, que não serviria
para muita coisa. Assumiu pura e simplesmente a substância
consciente do druuf e transmitiu-lhe suas ordens.
Foram
apenas duas ordens.
Em
primeiro lugar, o piloto soltou os controles e abriu a pequena fresta
lateral de ventilação. Depois disso, com um movimento rápido,
retirou a chave eletrônica e atirou-a pela janela.
O zumbido
do propulsor cessou imediatamente. O caça caiu, mas ficou sob
controle, assim que Ellert libertou o piloto. Viu o avião descer e
preparar-se para o perigoso pouso no deserto. O piloto não tinha
outra alternativa, pois não via outra possibilidade de fazer
funcionar o propulsor. Por enquanto esse aparelho ficaria fora de
ação.
Ellert
sentiu-se satisfeito com o resultado da experiência, que não durara
mais de vinte segundos. Naturalmente, o piloto estaria curioso para
saber onde ficara sua chave e, mais tarde, não saberia explicar por
que ele mesmo a atirara pela janela. Mas no momento, isso não
importava. Os druufs teriam uma noz muito dura para quebrar. Uma
coisa era certa: não encontrariam nenhuma explicação que pudesse
parecer lógica.
Numa ação
resoluta, Ellert dispôs-se a obrigar o piloto seguinte a realizar um
pouso de emergência.
Onot, que
prosseguia impassível no seu vôo, sem dar a menor atenção aos
disparos de advertência, viu na tela que os perseguidores, um apôs
outro, iam ficando para trás, isto é, se dirigiam ao solo do
deserto. Dali a pouco, já não havia nenhum perseguidor, mas apenas
os dez caças de interceptação que iam à sua frente.
Estes
também desapareceram da mesma forma misteriosa que os outros. Um
deles chegou a precipitar-se em direção ao solo e só conseguiu
controlar-se uns cem metros acima da superfície. Onot não viu
nenhuma chama ou explosão, e por isso concluiu que todos os caças
conseguiram pousar sãos e salvos. Lá embaixo poderiam esperar
tranqüilos pela ação de resgate.
Ao sentir
que Ellert regressara, Onot apontou para a escuridão.
— Se o
presidente da Corte de Justiça tivesse visto isso, talvez, agora
estivesse disposto a acreditar nas declarações que prestei ontem.
Bem, os pilotos lhe dirão o que aconteceu.
— Isso
pouco lhe adiantará, pois nenhum dos pilotos sabe que foi ele mesmo
quem atirou a chave para fora da cabina. Se tiverem sorte, poderão
encontrar algumas das chaves perdidas, mas ninguém saberá dizer
como foram retiradas do painel do controle e por que foram parar no
deserto. Infelizmente não pudemos evitar essa ação chocante; não
havia outra solução. A qualquer momento, eles nos teriam obrigado a
pousar. Quantos quilômetros ainda faltam?
Onot olhou
para o painel.
— Duzentos
quilômetros. Dentro de dez minutos estaremos lá. Tomara que não
sejamos alcançados por outra esquadrilha.
Tiveram
sorte. Ninguém mais os perseguiu. Onot fez baixar o planador e
pousou, com um forte solavanco, junto ao paredão de rocha, no qual
se via a porta que dava para o laboratório subterrâneo. No momento,
a tal porta estava bem aberta. Soltou um suspiro de alívio. Era
aquele o lugar em que fora preso, e por certo não acreditariam que
ele voltaria justamente para lá. E se pensassem assim...
Ellert
cometeu um erro ao julgar-se em segurança. Deixou de realizar o
reconhecimento do laboratório e seus arredores. Por isso foi tomado
por uma incrível surpresa, quando, no momento em que Onot desceu do
veículo aéreo, viu apontadas para si mais de duas dezenas de armas
de radiações.
6
Neste
exato momento, o Dr. Eric Manoli estava prestes a fazer uma
descoberta.
Acordara
há meia hora e conversava um pouco com Ras Tschubai. O Tenente Mundi
dormia na poltrona do piloto.
— O
senhor acredita que eles encontrarão Ellert?
Manoli não
sabia o que dizer. Sentia-se cansado e abatido.
— Só
podemos fazer votos de que isso aconteça. Do contrário não saberei
como arranjar um corpo para Ellert. Sob o ponto de vista ético,
seria um crime reprimir o intelecto de alguém para dar lugar a
Ellert.
Deixaram
que Mundi continuasse a roncar suavemente e saíram da sala de
comando. O caminho até a enfermaria não era longo. Um minuto depois
de terem terminado a palestra entraram no recinto de paredes brancas.
Manoli
fechou a porta atrás de si, dirigiu-se à cama em que Ellert estava
deitado e levantou o lençol.
Fitou o
rosto pálido e imóvel, no qual não se via mais nada da coloração
azul.
Levou
quase dez segundos para compreender a modificação.
— Não é
possível! — exclamou.
Depois de
algum tempo, soltou o lençol, que voltou a cobrir o corpo imóvel. O
rosto ficou à mostra.
— Um
processo de decomposição biológica não pode ser invertido. O
corpo estava morrendo, e agora parece reviver.
Seguindo
um súbito impulso, inclinou o corpo e colocou o ouvido sobre o peito
de Ellert. Voltou a erguer-se e sacudiu a cabeça.
— Não,
não está vivo. Ellert ainda não voltou ao corpo que lhe pertence.
Com os mil demônios, por que será? Se não encontrar uma
explicação, acabarei enlouquecendo.
Ras
Tschubai manteve uma calma espantosa.
— Não
sou médico e por isso não posso dar-me ao luxo de formular um juízo
sobre o assunto. Pelo que diz, o processo sofreu uma inversão.
Talvez seja possível examinar os dados teóricos também em sentido
inverso.
— O que
quer dizer com isso? — perguntou Manoli em tom de perplexidade.
— É
isso. Pelo que o senhor disse, a coloração azul do corpo provinha
do fato de que o espírito de Ellert estava muito fraco para irradiar
certas energias que fornecem impulsos vitais ao corpo separado no
tempo e no espaço. Se agora o processo de decomposição foi detido
e até se observa uma revitalização, devemos concluir logicamente
que o espírito de Ellert voltou a irradiar energias excedentes,
talvez sem se dar conta disso.
Manoli
parecia adquirir vida. Acenou fortemente com a cabeça, mas não
tirou os olhos do rosto de Ellert.
— Deve
ser isso, Ras. É verdade que a explicação não resolve o problema,
mas ao menos ganhamos algum tempo. O mais importante é que Rhodan
seja informado da nova situação. Se por acaso Gucky estiver
prestando atenção aos nossos pensamentos, Perry será avisado.
— É bem
provável que o rato-castor ouça nossas palavras e pensamentos, se é
que tem tempo — disse Ras com um sorriso. — Ele o faria pela
curiosidade que lhe é peculiar.
Manoli
concordou com um gesto tranqüilizador.
Nem ele
nem Ras Tschubai poderiam imaginar que, naquele momento, Gucky estava
sem tempo para ouvir os pensamentos de ambos.
*
* *
Onot
ergueu os braços disformes e depois deixou-os pender molemente junto
ao corpo. Fitou tranqüilamente o policial druuf. Sua autoconfiança,
que se apoiava principalmente nas faculdades de Ellert, crescera
bastante.
— Já
fui preso neste lugar — disse em tom irônico. — A vida é uma
repetição contínua.
O oficial,
que Ellert reconheceu pelo distintivo colorido preso ao uniforme, não
parecia ter muito senso de humor. Enfiou a arma no coldre e fez um
sinal para seus subordinados.
— Seja
lá o que ele disser, não lhe dêem atenção. Vocês sabem quais
são as ordens do presidente da Corte: levar o prisioneiro vivo até
a cidade. E vocês também já conhecem seu poder traiçoeiro, que
lhe permite enfeitiçar o cérebro de outras pessoas. Se eu der
alguma ordem contrária, se por exemplo mandar que soltem Onot, não
me obedeçam. Levem-no para o laboratório e deixem-no preso até que
venham buscá-lo.
Onot
acompanhou os policiais e soldados, sem oferecer a menor resistência.
Ellert
percebeu que desta vez não seria tão fácil enganar os druufs. Só
poderia “assumir”
uma pessoa de cada vez, e teria de libertá-la, assim que quisesse
penetrar no cérebro de outra pessoa. Não tinha possibilidade de
exercer uma influência coletiva. E, se influenciasse o oficial, isso
não lhe adiantaria nada. Os druufs já estavam prevenidos.
— Vá
com ele
— disse silenciosamente a Onot. — Enquanto
isso procurarei uma saída.
Captou o
impulso afirmativo de Onot e abandonou-lhe o corpo.
Não teve
a menor dificuldade em fazer isso. Bastaria o simples desejo de
libertar-se. A resistência que Onot lhe opusera literalmente
devorara suas energias. Mas agora estava se recuperando. Não
demoraria a readquirir a capacidade de deslocar-se livremente, ao
menos dentro dessa dimensão temporal.
Lá fora,
na área rochosa que cercava o laboratório, Ellert contou trinta
druufs. Deviam estar ali há mais tempo e, ao que tudo indicava,
esperavam Onot. Ellert não teve a menor idéia de como o
destacamento policial conseguira chegar tão depressa. Será que, já
antes da fuga de Onot, o juiz escondera os homens por ali, a fim de
surpreender eventuais amigos do cientista que se aproximassem do
laboratório?
Ao que
parecia, o laboratório propriamente dito fora cuidadosamente
revistado. Os papéis e os desenhos estavam bem empilhados num canto.
Provavelmente pretendiam buscá-los para que servissem de base às
pesquisas de outros cientistas dos druufs. As caixas e os armários
haviam sido tombados e seu conteúdo estava espalhado no chão. Ao
que parecia, ninguém se interessara pelo mesmo. Algumas máquinas
foram arrancadas das bases e preparadas para o transporte.
Onot foi
trancado numa pequena sala contígua. Ellert sabia que ali estaria em
segurança. Poderia deixá-lo a sós por algum tempo.
Teve
vontade de “assumir”
o oficial e, no mesmo instante, enxergou através dos olhos deste.
Tudo aconteceu sem a menor dificuldade. Apenas pensou na
possibilidade, e a mesma realizou-se imediatamente.
O oficial
dirigira-se a um veículo bem escondido, atrás de algumas rochas.
Por meio de um transmissor avisou o chefe de polícia, na capital, de
que Onot fora preso. Prometeram enviar o mais cedo possível um avião
planador, a fim de levar o criminoso.
Isso
demoraria pelo menos meia hora.
Ellert
examinou atentamente o rosto que apareceu na tela, depois pensou na
capital, no edifício da Corte de Justiça... e, no mesmo instante,
estava no corredor que conhecia tão bem. Mais duas tentativas, e
introduziu-se no cérebro do chefe de polícia.
Os
oficiais presentes sentiram-se totalmente perplexos, quando
subitamente viram seu comandante saltitar numa perna só.
Mas, de
repente, parou imediatamente e fitou os outros druufs com os olhos
muito arregalados.
— Está
sentindo alguma dor? — perguntou um dos amigos em tom preocupado.
O oficial
sacudiu a cabeça; parecia espantado.
— Não;
apenas foi uma coisa que me deu de súbito. Senti vontade, e minhas
pernas... isso não costuma acontecer com você? Às vezes, a gente
sente uma alegria repentina e tem vontade de dançar. Não existe
motivo para preocupações. Talvez fosse apenas a alegria de termos
prendido Onot.
Não sabia
que era apenas a personificação da alegria de Ellert, que não pôde
deixar de dar vazão à satisfação que sentia.
Ao que
parecia, tudo estava em ordem de novo. Era capaz de vencer grandes
distâncias e chegar a um destino previamente fixado. Já não estava
condenado a permanecer no corpo de Onot.
— Se
você se alegrou tanto com a prisão de Onot, envie logo o planador
para que possam trazer o traidor para cá.
Ellert
apossou-se totalmente do oficial.
— Você
poderá cuidar disso. Informarei o presidente da Corte sobre o êxito
de nossa ação. Ainda bem que mandei colocar soldados junto ao
laboratório.
O druuf ao
qual ele se dirigira saiu da sala. Ellert deixou de se interessar
pelo “seu”
oficial. Seguiu apressadamente o emissário, que atravessou os
corredores e, uma vez do lado de fora, fez parar um carro na rua, que
voltara a ser escurecida, e pediu que o levassem ao espaçoporto.
Mesmo
quando entrou em contato com o oficial de plantão, Ellert ainda
assim não entrou em ação. Tudo estava correndo conforme previra.
— Trago
uma ordem do chefe de polícia. Mande imediatamente um planador com a
tripulação completa às montanhas de Brasi. Dirijam-se ao
laboratório de Onot, ao norte do centro de computação. As
coordenadas já são conhecidas. O preso fugido foi recapturado e o
planador deverá trazê-lo.
O oficial
parecia muito satisfeito.
— Irei
pessoalmente — respondeu. — Conheço o terreno. Levarei três
homens.
O
emissário e amigo do chefe de polícia fez continência e voltou ao
edifício da Corte.
Ellert
deixou que ele se fosse e instalou-se no cérebro do oficial de
plantão, que, pelos padrões terranos, ocupava o lugar de tenente.
Seu nome era Rambos.
Rambos
chamou os homens e designou um piloto e dois sargentos que deveriam
acompanhá-lo. Dali a cinco minutos, a veloz máquina subiu ao céu
noturno e, acelerando tremendamente, tomou a direção leste.
Pouco
antes do pouso, Ellert realizou a segunda experiência.
Permaneceu
no cérebro de Rambos e enviou apenas uma pequena fração de seu
intelecto para Onot.
Encontrava-se
simultaneamente nos cérebros de dois seres!
— Eles
vêm buscá-lo, Onot. Acompanhe-os. Fugiremos de novo, mas desta vez
a fuga será mais bem preparada. Verão que não podem brincar com
você e só poderão pegá-lo, caso você se entregue. Você me
entende?
— Como
sempre — foi a resposta silenciosa de Onot. — O que acontecerá?
— Teremos
um planador à nossa disposição
— respondeu Ellert muito bem-humorado e voltou, integrando-se em
Rambos.
O planador
pousou. Rambos desceu e cumprimentou o oficial que prendera Onot.
Este foi retirado do laboratório e entregue a Rambos, que o conduziu
para dentro da cabina do planador e o colocou entre os dois sargentos
fortemente armados. O piloto pôs as mãos nos controles.
Rambos
cumprimentou o oficial e fechou a escotilha. O propulsor começou a
zumbir. O planador subiu e disparou na direção oeste.
Mas não
chegou à capital.
*
* *
Quando a
dor leve da rematerialização cessou, nem mesmo a posição das
estrelas mudou. Era bem verdade que a sombra negra, que se encontrava
a seu lado, havia desaparecido. Gucky calculara o salto de tal forma
que não pararam junto ao laboratório, mas a algumas centenas de
metros, em pleno deserto.
— Cuidado!
— cochichou o rato-castor, sem fazer o menor movimento com o corpo.
— Há uma porção de druufs nas proximidades. São policiais e
estão vigiando o laboratório de Onot.
Rhodan
compreendeu imediatamente e também se manteve quieto. Em torno deles
reinava a escuridão. Mais adiante, ao norte, o horizonte parecia
mais elevado; eram as montanhas. Ao pé da encosta, Rhodan viu uma
luz débil e movente. Provavelmente pertencia a algum druuf que
controlava os guardas.
Gucky
confirmou a suposição de Rhodan.
— Cercaram
o laboratório e querem prender os amigos de Onot.
Enquanto
Gucky controlava os impulsos mentais que o atingiam, mantiveram-se em
silêncio por algum tempo.
As
unidades estacionadas junto ao laboratório ainda não tinham a menor
idéia de que Onot se dirigiria justamente para lá, e por isso
ninguém pensava nessa possibilidade, nem na fuga já realizada.
Foi por
isso que, depois de “ouvir”
atentamente por cerca de dez minutos, Gucky disse a Rhodan:
— Acho
que não adianta ficarmos sentados aqui. Quem sabe quanto tempo Onot
levará para chegar até este local. Só mesmo se conseguisse
apoderar-se de um avião, e isso me parece pouco provável. De
qualquer maneira, ele, ou Ellert, não será tolo a ponto de cair nas
mãos desta gente. Ellert fará um reconhecimento do terreno,
descobrirá a força policial... e fugirá para outro lugar.
— Isso
parece bastante lógico — admitiu Rhodan. — O que devemos fazer?
— Você
faz essa pergunta a mim? — Gucky parecia espantado. — Minha
sugestão é a seguinte: levo-o de volta para a gazela e, depois,
irei só à cidade para dar uma olhada. Talvez encontre alguma pista.
Rhodan
refletiu um pouco e respondeu:
— De
acordo.
Quando
materializaram-se na sala de comando da gazela, só Mundi se
encontrava ali.
No
corredor, Rhodan encontrou-se com Manoli e Ras Tschubai.
E foi
assim que soube da grande novidade.
Infelizmente,
isso aconteceu com alguns segundos de atraso, pois Gucky já se
encontrava a caminho...
*
* *
O planador
correu vertiginosamente na direção leste.
Assim que
voltou a “assumir”
o controle sobre Rambos, Ellert descrevera uma curva de cento e
oitenta graus. O piloto levantou os olhos com uma expressão de
espanto ao ouvir a ordem do oficial, mas cumpriu-a, sem a menor
contradita. Os dois sargentos não tinham o mínimo conhecimento da
arte da navegação aérea e interessaram-se exclusivamente pelo
prisioneiro.
— Até
aqui tudo bem. E agora?
Ellert
sabia que não poderia voar, eternamente, com o planador roubado por
cima de Druufon. Não demorariam a descobrir a nova fuga e o
perseguiriam. Alguma coisa teria de ser feita, e depressa, a não ser
que quisesse perder as anotações de Onot.
Será que
Rhodan já havia enviado alguém? Será que seu pedido de socorro
fora recebido?
Ellert
lembrou-se da faculdade que acabara de adquirir. Porém, tal
faculdade era limitada. Não era nenhum hipno e não tinha capacidade
de dar uma ordem pós-hipnótica a quem quer que fosse. Assim que
abandonasse Rambos, o tenente voltaria a agir segundo seu critério.
Só permanecia sob o controle de Ellert, enquanto este dominasse seu
cérebro e seu espírito consciente.
Todavia,
agora já era capaz de assumir dois cérebros ao mesmo tempo.
Quando
pensou nessa possibilidade, sentiu como que um choque elétrico.
Dessa forma seria fácil dominar os quatro druufs que se encontravam
no planador, além de Onot.
A primeira
experiência bastou para convencê-lo de que isso era possível, mas
apenas por pouco tempo e com um grande esforço. No momento, essa
nova capacidade não valia muito, mas abria perspectivas nunca antes
sonhadas.
Teve a
impressão de que, bem ao leste, o dia já começava a raiar. O
planador voava na direção do amanhecer. Não demoraria muito e
seria dia, se continuassem a voar para o leste. Não havia nenhum
motivo para mudar de rumo.
*
* *
Neste meio
tempo, Gucky saltara para a cidade. Com alguns saltos ligeiros,
transportou-se ao edifício da Corte. Encontrou um ótimo esconderijo
no gabinete do chefe de polícia. Os druufs eram grandes, e
logicamente seus móveis também o eram. Gucky, porém, era de
estatura pequena. Ninguém notou sua presença atrás do arquivo.
Descobriu
que Onot conseguira fugir pela segunda vez, e soube que se haviam
desencontrado por uma questão de segundos. O relato transmitido pelo
oficial da tropa, estacionada junto ao laboratório, tornou Gucky
ciente de que Onot conseguira por alguma forma inexplicável obrigar
Rambos a não voar para a cidade. O planador que levara o prisioneiro
desaparecera.
O chefe de
polícia voltou a dar o alarma, que desta vez se dirigiu à
vigilância aérea do planeta. Em todos os pontos de Druufon, os
aparelhos automáticos de rastreamento foram ligados. Esquadrilhas de
caças levantaram vôo e começaram a vasculhar sistematicamente a
superfície do planeta. Nada lhes escaparia; nem mesmo um planador.
E nem uma
gazela!
Gucky
reconheceu imediatamente o perigo que os ameaçava. Além disso, já
ouvira bastante. Ellert estava fugindo, sem saber que as pessoas que
vinham em seu socorro estavam bem próximas.
Teleportou-se
de volta para a gazela.
— Ora,
Gucky. O que aconteceu? — perguntou Rhodan.
— Agora,
que estamos todos reunidos, posso contar. Quero evitar repetições.
Ellert, ou Onot voltou a fugir. Encontra-se no ar com um planador no
qual viajam ao lado de quatro druufs. Ninguém sabe que direção
tomou. Há um alarma aéreo que atinge todo o planeta, e este está
sendo vasculhado. Seremos descobertos.
Rhodan
lançou um olhar ligeiro para Manoli.
— Ao que
parece, Ellert está retomando suas atividades — disse depois de
algum tempo e, em breves palavras, explicou a Gucky o que havia
acontecido. — Já dispõe de energias excedentes que lhe permitem
abastecer seu corpo, embora, talvez, nem desconfie disso. Talvez
consiga encontrar-nos.
— Eu
deveria encontrá-lo! — disse Gucky e lançou um olhar triste para
o teto, como se esperasse auxílio de cima. — Se ele não se
esforçar, nunca conseguirei encontrá-lo. Por que não deixa Onot de
lado e nos procura?
— Já
conversamos sobre este ponto — observou Rhodan. — Deve ter seus
motivos. Além disso... o que está havendo com você, Gucky?
Todo mundo
fitou o rato-castor, que continuava a olhar para o teto. Fechou os
olhos, como se tivesse de “escutar”
atentamente. Depois de algum tempo, piou em tom exaltado:
— Nunca
mais quero comer uma única cenoura, se esse não for Ellert. Está a
menos de três quilômetros acima de nós, voando velozmente para o
leste.
— É o
planador! — exclamou Rhodan.
— Isso
mesmo; o planador com o qual fugiu. Vou saltar para junto dele.
Antes que
Rhodan ou qualquer outra pessoa pudesse dizer alguma coisa, Gucky
desapareceu. No mesmo instante, surgiu na cabina do planador, onde
Ellert realizava suas experiências com Onot e os outros druufs.
Ellert viu
Gucky com vinte olhos ao mesmo tempo, mas enxergou-o uma única vez.
Cinco
fluxos mentais dirigiram-se para o rato-castor. Todos eles continham
um único pensamento:
— Gucky!
— Ellert,
qual desses hipopótamos é você? Qual deles é Onot?
Mais uma
vez, a resposta quintuplicada foi transmitida por via telepática:
— Onot
é o que está sentado entre os guardas. Agora preciso distribuir-me.
Não posso permanecer exclusivamente no interior dele. Os druufs
desconfiariam. Mas da forma que estão as coisas, eles o esquecerão.
Onde está a nave?
— Você
se refere à nossa nave? Está lá embaixo, nas montanhas. Os druufs
deram o alarma. Temos de dar o fora antes que seja tarde. Você pode
vir comigo?
— Não
posso abandonar Onot
— Ellert hesitou um pouco. — Posso,
sim. Ponha a mão no bolso direito de Onot, Gucky. Você encontrará
uma folha de metal. Sim, é isso. Pegue-a e cuide bem dela. São os
dados sobre o hiperpropulsor linear. O que foi que você disse?
Alarma?
— Isso
mesmo: alarma de âmbito planetário. Ninguém atravessará o dia de
amanhã, sem ser submetido a um controle. E o que se dirá então de
uma nave não registrada junto aos druufs? Saltarei de volta para
nossa gazela. Rhodan veio pessoalmente para buscá-lo. Venha comigo!
— Aguarde
um instante, Gucky. Eu o acompanharei; dentro de você. Apenas quero
apagar as lembranças de Onot. Eu lhe prometi que faria isso.
Gucky
olhou em torno. O piloto dirigia o veículo aéreo imperturbavelmente
para o leste, em direção ao sol que nasceria dali a pouco. Rambos,
que estava sentado a seu lado, examinava os controles com os olhos
inexpressivos. Foi o que o intelecto remanescente de Ellert lhe
ordenou. Os dois sargentos não faziam o menor movimento. Onot também
se manteve imóvel. Ficou com os olhos fechados. Quando voltasse a
abri-los, não saberia mais nada daquele estranho amigo chamado
Ellert.
— Salte
assim que Onot abrir os olhos
— disse Ellert silenciosamente. — Nesse
mesmo instante, retirarei meu espírito de dentro de todos os druufs.
Não demore, pois o Tenente Rambos é um sujeito muito ágil. Ele o
mataria imediatamente.
Gucky
concentrou-se. Não tirou os olhos do rosto de Onot. Por mais que se
esforçasse para perceber a presença espiritual de Ellert, não
notou nada. O teletemporário mantinha-se em atitude neutra.
Finalmente
Onot abriu os olhos e viu-o.
Gucky
saltou.
7
O
gigantesco sol geminado de Siamed despontava ao leste. Naquele
instante, Mundi moveu os controles. O propulsor da gazela uivou e
impeliu-a vertiginosamente em direção ao céu colorido, mas a
velocidade ainda não era a máxima.
Os
aparelhos de rastreamento dos druufs funcionavam muito bem, mas sua
velocidade operacional era apenas metade da que seria necessária
para descobrir a gazela.
— Passamos!
— Rhodan soltou um suspiro de alívio.
Viu na
tela a esquadrilha de caças que controlava o espaço aéreo de
Druufon.
Os caças
foram ficando para trás. A gazela já ultrapassara a velocidade
máxima dos veículos atmosféricos e seguia para o espaço. Mas era
lá que se encontrava o maior perigo: a frota espacial dos druufs.
— Entre
em transição assim que apareçam as primeiras unidades — ordenou.
O Tenente
Mundi confirmou com uma expressão obstinada. Finalmente chegara o
momento em que poderia mostrar ao chefe quanto ele valia.
O Dr. Eric
Manoli, que se encontrava na enfermaria, não notou os perigos que
cercavam aquela fuga arriscada. Seu problema era o corpo de Ellert,
que jazia numa cama. Há uma hora, quando Gucky materializou-se na
sala de comando, todos pensaram que a missão tivesse fracassado. Mas
Ellert logo deu sinal de sua presença. Há setenta anos fora atirado
à eternidade, reduzido a um espírito sem corpo; e agora acabara de
voltar no corpo de Gucky.
Manoli
controlava o pulso, que era lento, mas firme. A transfusão de sangue
fizera a pele ficar corada. Ellert começou a viver.
— Você
me ouve, Ellert?
Sem que o
quisesse, Manoli deu o tratamento íntimo ao teletemporário. Acharia
esquisito se tivesse que dar outro tratamento àquele corpo,
subitamente revitalizado, que conhecia tão bem.
— Quero
saber se me ouve — acrescentou.
Os lábios
de Ellert começaram a tremer. Via-se que fazia um grande esforço
para responder por meio das cordas vocais. Mas não era fácil.
— Ouço.
O que
atingiu o ouvido de Manoli parecia um sopro.
Era a
primeira vez, há exatamente setenta e três anos, que Ellert falava
pela própria boca.
Enquanto
isso, Rhodan e Mundi, que se encontravam na sala de comando,
enfrentavam sérios problemas. Um grupo de couraçados dos druufs
fechava-lhes o caminho para o espaço. A velocidade ainda não era
suficiente para uma transição normal. Teriam de “escorregar”
pelo espaço intermediário.
— Transição!
— ordenou Rhodan, quando os primeiros disparos energéticos
passaram perto dos campos protetores da gazela.
Mundi não
perdeu tempo: moveu a alavanca.
As naves
inimigas tornaram-se confusas e foram recuando. Rhodan viu que
continuavam a segui-los. A ligeira transição, dentro do sistema,
não bastara para afastar os druufs.
À sua
frente, o planeta Hades surgiu em meio ao oceano de estrelas.
— Pousar!
Irradiar o código! Dar o alarma! — ordenou Rhodan.
A gazela
precipitava-se velozmente em direção ao mundo da penumbra,
desacelerou ao máximo e mergulhou no hangar. As estrelas
desapareceram em cima de suas cabeças. Enquanto pousava, o alarma
começou a soar no interior da base.
O Capitão
Rous entrou correndo no hangar. Rhodan saiu pela escotilha da gazela.
— Evacuar
a base! — gritou para o oficial, que não acreditou no que estava
ouvindo. — Se os druufs raciocinarem corretamente, estarão aqui
dentro de trinta minutos e transformarão Hades num inferno. O
material terá de ser deixado para trás. Todos para dentro dos
transmissores! Avisem a Drusus! Rápido! Não podemos perder um
segundo.
Agiram com
uma rapidez extraordinária.
Manoli
cuidou de Ellert, cujo corpo ainda estava tão duro que não poderia
mover-se sem ser ajudado. Não havia tempo para trazer o veículo de
tráfego interno. Por isso, Ras e Gucky teleportaram o médico e seu
paciente para dentro do transmissor mais próximo, que já fora
ativado. Uma mensagem de rádio, dirigida à Drusus, fizera com que
esta ficasse de prontidão e imediatamente colocasse seus
transmissores de matéria em recepção.
— Uma
grande frota dos druufs se aproxima — disse um operador de rádio,
antes de ligar a carga explosiva ao mecanismo-relógio. Provavelmente
a medida seria supérflua, mas ninguém poderia dizer se os druufs
pretendiam destruir Hades ou se prefeririam pousar no planeta.
Os homens
correram para dentro das grades dos transmissores. Só levaram seus
pertences pessoais. Desapareceram em grupos, para rematerializarem-se
no interior da Drusus, que se encontrava a quase um ano-luz de
distância.
Rhodan e
Marcel Rous foram os últimos. Aguardaram a decolagem das gazelas,
cuja destruição queriam evitar. Cada uma dessa naves era dirigida
por dois homens, a fim de não aumentar o risco. Tentariam chegar à
nave retransmissora que se mantinha à espera junto ao funil de
descarga e dali fugiriam por meio de uma série de transições quase
que impossíveis.
As telas
da sala de comando continuavam a funcionar. Mas, nos fundos, os
mecanismos-relógio já tiquetaqueavam.
— Ainda
dispomos de trinta minutos — disse Rous.
— Os
druufs não levarão tanto tempo para chegar — respondeu Rhodan.
A seu
lado, a porta do transmissor de matéria estava aberta. Caso a
situação o exigisse, os dois homens poderiam colocar-se em
segurança por meio de uns três ou quatro saltos.
Milhares
de estrelas brilhavam no céu escuro de Hades. De repente novas
estrelas surgiram, moveram-se lentamente, aumentaram de tamanho e
transformaram-se em espaçonaves.
As gazelas
que fugiram lhes haviam mostrado o caminho.
— Se não
houver nenhuma resistência... — principiou Marcel Rous.
Rhodan fez
um gesto afirmativo. Adivinhara seus pensamentos.
— Nós
os enganaremos. Hades tem de ser destruído; não deve cair nas mãos
deles. Ligue a defesa automática, capitão. Quero que eles pensem
que nos encontramos na armadilha.
Foi muito
rápido. Mal as primeiras naves dos druufs se aproximaram o bastante
da base, os canhões energéticos da fortaleza começaram a disparar.
Atiravam seus raios mortíferos para o espaço, na direção em que
se encontrava a frota.
Rhodan viu
na tela que os campos defensivos das naves dos druufs desmoronaram.
As outras
unidades retiraram-se imediatamente. Entraram na formação conhecida
como cunha de bombardeio, o que constituía indicação evidente de
que pretendiam destruir o planeta. Era o que Rhodan queria.
— Está
na hora — disse sem tirar os olhos da tela. — Dentro de poucos
minutos, suas bombas e torpedos transformarão a crosta de Hades em
lava liquefeita. Depois disso, ficará bem quente por aqui.
Rous
continuou impassível. Com um simples movimento da mão regulou as
defesas para uma distância maior. Os raios energéticos saíam das
bocas dos canhões ocultos e penetravam na frota dos druufs, mas não
produziram maiores danos. Mas isso bastaria para o inimigo perceber
que a base dos desconhecidos estava sendo defendida.
Passaram
ao ataque final!
As
primeiras bombas caíram bem longe, mas causaram uma tremenda
devastação. A segunda onda de torpedos atingiu as rochas mais
próximas, transformando-as em figuras bizarras, derretendo-as.
Finalmente, a primeira bomba de reação atingiu a superfície.
Um
incêndio atômico, que ninguém conseguiria extinguir, foi
desencadeado.
Hades
estava irremediavelmente perdido.
— Agora
já temos certeza de que ninguém porá os pés nesta base — disse
o Capitão Rous com a voz triste.
Olhou em
torno, como se procurasse alguma coisa.
— Vamos
perder uma quantidade enorme de material precioso. Só os doze
transmissores...
— Ora,
material! — disse Rhodan, enquanto caminhava na direção do
transmissor. — O senhor tem razão, Rous. Estamos trocando material
por vidas humanas. Acho que a escolha não é difícil.
Sem dizer
uma palavra, entraram no transmissor. Rhodan moveu a alavanca e, no
mesmo instante, viu-se ao lado de Rous, no compartimento de carga da
Drusus.
A primeira
coisa que observaram foi o rosto preocupado de Bell, que se iluminou
de repente.
— Já
estava na hora, cavalheiros. Mais um minuto, e eu teria ido a Hades
para buscá-los.
— Você
teria queimado os dedos — respondeu Rhodan. — Tudo pronto para
partir? Onde está Ellert?
— Manoli
levou-o à enfermaria. O General Deringhouse aguarda instruções,
Perry.
— Você
poderá cuidar disso. Entraremos imediatamente em transição.
Devemos voltar o mais depressa possível ao Universo einsteiniano e à
Terra. Tenha cuidado! Vamos realizar várias transições em direções
diferentes.
— Você
não vai à sala de comando?
— Daqui
a pouco. Primeiro preciso ver como vai Ellert.
Bell fez
um gesto de assentimento e saiu correndo. Marcel Rous teve trabalho
de sobra em reunir seus homens e indicar-lhes os alojamentos.
Perry
Rhodan abandonou o compartimento de carga, onde estavam instalados os
transmissores, e pôs-se a caminho da enfermaria. Já fazia tempo que
o Marechal Freyt voltara para Terrânia. Sem dúvida, preparara tudo.
Ellert teria uma surpresa.
Ellert...?
Rhodan
sentiu-se dominado por um sentimento de profunda afeição.
Finalmente reencontrara o amigo que morrera há setenta anos. Na
verdade, permanecera vivo durante todo esse tempo, apenas em outro
lugar, em outro tempo e em outro corpo.
O elevador
deixou-o no pavimento em que ficava a enfermaria.
Ernst
Ellert acabara de voltar! Era bem verdade que perdera a capacidade de
enviar seu espírito para o futuro, mas talvez isso fosse bom. A
simples idéia de uma viagem pelo tempo bastava para criar confusão
e trazer complicações praticamente insolúveis.
“O
que aconteceria”,
pensou Rhodan, enquanto encostava a mão à porta da enfermaria para
acionar a fechadura, “se
eu pudesse ver o futuro? Será que o conhecimento dos fatos que
estavam para vir não me roubaria a capacidade de agir no presente?”
Quando
entrou, viu os rostos de Haggard e Jamison. No fundo da sala, Manoli
estava inclinado sobre o corpo estendido de Ellert. Ao ver Rhodan,
ergueu-se.
— O
senhor não voltou à Terra com Freyt? — perguntou Rhodan, em tom
de espanto.
Subitamente,
sentiu um medo terrível.
— O que
houve, Eric? Algo de errado com Ellert?
— Tudo
bem, Perry. Ellert está descansando. Seu espírito também descansa.
O corpo apresenta todos os sinais de rápida recuperação.
Acreditamos que dentro de poucas semanas, esteja em perfeitas
condições.
Rhodan
sentiu um profundo alívio. Haggard e Jamison afirmaram que apenas
pretendiam ajudar Manoli. Foi por isso que Freyt não os levara.
Foi até a
cama e olhou para Ellert. O rosto, que ainda há pouco tempo era
pálido e sem vida, voltara a viver. O sangue pulsava sob a pele. As
pestanas tremeram, e subitamente Ellert fitou-o.
Era uma
sensação estranha ver vida num corpo que estivera morto por alguns
decênios.
— Como
se sente, Ernst Ellert?
A boca
mexeu, mas os sons eram quase incompreensíveis.
— É tão
bom saber que o espírito e o corpo estão unidos de novo — ouviu
Rhodan num sopro.
Ellert
prosseguiu em voz um pouco mais alta:
— Muita
gente gostaria de ser outra pessoa, mas não sabem como são tolos. É
só nossa própria vida que nos satisfaz. Você compreende, Perry?
— Compreendo
perfeitamente — respondeu Rhodan e colocou a mão sobre a testa de
Ellert. — Daqui por diante você poderá voltar a ser Ernst Ellert.
Ellert
sorriu.
— Serei
feliz, mesmo que tenha apenas um braço.
Rhodan
lançou um olhar expressivo para os médicos. Depois de algum tempo
também sorriu.
— Você
não demorará a ter dois braços, Ellert. O professor Haggard andou
refletindo muito. Quando soubemos que faculdades maravilhosas você
trouxe do passado, tivemos uma idéia. Na verdade, devemos a mesma a
Onot. A conversa não o cansa?
— Não;
entendo perfeitamente o que você diz. Continue.
— Você
teve dificuldade em subjugar Onot, porque o cientista resistiu. Você
perdeu muita energia e ficou fraco; a fraqueza chegou a um nível
perigoso. Por isso receberá não só um braço novo, mas também uma
arma hipnotécnica. A mesma constitui um aperfeiçoamento dos velhos
projetores hipnóticos. Ela lhe conferirá o poder de, mediante a
simples aplicação da tecnologia, submeter qualquer ser vivo a seu
controle. Nós já conseguimos isso, mas o controle se tornava
ineficaz assim que o projetor hipnótico era desligado. Com você, a
coisa será diferente. Poderá assumir o intelecto paralisado do
inimigo enquanto dura a projeção hipnótica, sem fazer o menor
esforço. E ninguém resistirá a esse tipo de controle.
Ellert
voltou a sorrir.
— Acho
que você pensou em tudo. Será que com esse novo braço também
poderei fazer outras coisas, como trabalhar e comer?
— Você
poderá usá-lo como se fosse seu braço natural. Ninguém poderá
dizer se é o verdadeiro ou não. Seu segredo ficará oculto em seu
interior.
Manoli
aproximou-se.
— Ele
precisa repousar, Perry. A conversa ainda o deixa muito cansado.
Ellert não
era da mesma opinião.
— Isto
não me cansa, Manoli. Pelo contrário. É bom que vocês saibam que
a felicidade nunca cansa. Durante minhas viagens, vi muitos planetas
e muitos seres vivos. Vivi com eles e os conheci, mas nunca encontrei
um povo que se possa comparar à raça humana. Teria sido uma pena se
há setenta anos tivessem destruído meu próprio ser. Sinto-me feliz
por ser um homem de novo.
Rhodan fez
um gesto de assentimento, esboçou um sorriso gentil e colocou o dedo
sobre os lábios.
— A
felicidade também cansa, amigo. Por isso, neste instante, lhe dou
minha primeira ordem como administrador do Império Solar. Não diga
mais uma única palavra e procure dormir. Na Terra, ainda poderemos
conversar muito. Recupere a saúde, Ernst, pois o futuro da
Humanidade exige um Ellert capaz de entrar em ação com as forças
renovadas. Acho que você compreende, não compreende?
Ellert fez
que sim.
— Compreendo,
sim. Mas é bem possível que um belo dia eu vá visitar um velho e
bom amigo: Onot. A esta hora não queria estar na sua pele, no
sentido literal da expressão. Mas ele conseguirá... Acabará sendo
libertado.
Ellert
fechou os olhos e logo sua respiração regular revelou que estava
dormindo. Os quatro homens saíram da enfermaria.
Uma vez no
corredor, Haggard perguntou:
— Será
que os druufs descobrirão de quem era a base de Hades? Será que nos
julgarão responsáveis por isso?
— Apagamos
todos os vestígios. Pelo menos não poderão provar nada contra nós.
Não acredito que venhamos a ter problemas. Eles também têm
inimigos em seu próprio Universo. Seria perfeitamente possível que
algum deles se tivesse instalado no sistema do sol geminado.
— O que
acontecerá com o tal do Onot? — indagou Jamison.
— Ellert
privou-o da memória — disse Rhodan. — Declarará perante os
juizes que não cometeu nenhuma traição. E os detectores de
mentiras revelarão que diz a verdade. Será posto em liberdade.
— E o
que acontecerá com...
Foi
interrompido. Gucky materializou-se à sua frente, no corredor.
— Vocês
falam sem parar e, daqui a dois minutos, será realizada a primeira
transição — ajustou o cinto estreito do uniforme espacial,
talhado especialmente para ele. — Que tal se nos retirássemos para
um camarote?
— Meu
camarote fica aqui — disse Manoli e abriu uma porta. — Façam o
favor de entrar — quando estavam sentados, lembrou-se da pergunta
que fora interrompida por Gucky. — O que acontecerá com o sistema
de hiperpropulsão dos druufs? Ellert não se referiu a isso?
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Não
lhe perguntei nada sobre isso.
Tomara que
ainda se lembre dos detalhes técnicos, para que estejamos em
condições...
— Quase
que eu me esqueço! — exclamou Gucky e escorregou do sofá para o
chão, a fim de poder revirar melhor os bolsos.
No último
bolso em que enfiou a mão encontrou o que estava procurando.
Entregou a placa amassada a Rhodan.
— Tirei
isto do bolso de Onot. São os dados relativos ao hiperpropulsor.
Rhodan
pegou a lâmina e desdobrou-a. Era claro que não compreendia os
detalhes. Porém bastou um relance de olhos para convencê-lo que se
tratava de um sistema de propulsão igual ao dos druufs. Aquilo que
Gucky acabara de lhe entregar, sem a menor dramaticidade, como se
fosse um papel de sanduíche, representava uma nova chave para a
conquista das estrelas.
Rhodan
bateu no ombro de Gucky.
— Obrigado,
meu pequenino. Você acaba de nos entregar o melhor presente trazido
por Ellert. Em compensação nós lhe restituímos a vida.
— E o
aparelho de hipnochoque — prometeu Haggard.
Quando
começou a sentir a dor típica da transição, Rhodan ainda segurava
as anotações de Onot.
A luz dos
sóis galácticos lhes apontaria o caminho, da mesma forma que
antigamente os faróis orientavam os navios que singravam os oceanos
do planeta Terra.
*
* *
*
*
*
Com o
regresso de Ernst Ellert, uma nova era da navegação vai
iniciar-se...
O
próximo livro Missão
Secreta: Moluque,
conta a fascinante história da busca dos deformadores da matéria.

Nenhum comentário:
Postar um comentário