quinta-feira, 25 de agosto de 2016

P-091 - O Regresso de Ernst Ellert - Clark Darlton [Parte 3]

Gucky não teve tempo para descobrir a causa do tumulto que se abateu de repente, pois se o fizesse correria perigo de ser descoberto. O que importava era Ellert — ou melhor, Onot, o cientista.
Saltou para dentro da prisão.
No primeiro instante, tudo parecia normal no amplo corredor. Gucky não sabia se fora parar no andar certo. Não descobriu nenhum guarda que pudesse interrogar por via telepática. Havia um silêncio aterrador.
De repente, também aqui o inferno parecia às soltas.
Portas abriram-se e druufs, armados e uniformizados, surgiram no corredor. Gucky compreendeu que saltara para o andar errado. No lugar em que se encontrava, deviam ficar os alojamentos dos guardas e dos policiais. As celas localizavam-se mais embaixo.
Desapareceu e voltou a materializar-se num andar mais baixo. Enfiou-se apressadamente num nicho, quando viu dois druufs parados diante da porta de uma cela. Gesticulavam violentamente. O rato-castor não os ouvia, mas captou-lhes os impulsos mentais. E ainda os viu arrastarem um terceiro druuf para fora da cela.
Onot quase chegou a matar o guarda. — descobriu Gucky.
E isso lhe bastou para que tirasse suas conclusões.
Onot fugira!
Então foi por isso que não consegui mais detectar os pensamentos de Ellert nesse lugar”, pensou.
Naquele instante, Ellert-Onot poderia estar em qualquer lugar desse gigantesco mundo; seria difícil encontrá-lo.
De repente, os dois druufs se viraram. De início, Gucky teve a impressão de que ele mesmo fora imprudente, mas logo percebeu o motivo do interesse deles. Policiais aproximavam-se.
Estava na hora de dar o fora.
Gucky desmaterializou-se e, com isso, cometeu um erro grave.
Onot encontrava-se a menos de quinhentos metros do lugar em que estava. Caso o rato-castor se tivesse dado ao trabalho de classificar os impulsos mentais que o atingiam, provavelmente teria descoberto Ellert.
No entanto, saltou de volta ao local em que Rhodan se encontrava.
5



Onot comprimiu o botão que Ellert lhe indicara.
Ouviu-se um forte zumbido e a grade deslizou para o lado. Quando a abertura media dois metros, parou.
Por um instante Ellert sentiu-se perplexo. Mas, nesse momento, aconteceram três coisas ao mesmo tempo: as luzes da cidade iluminaram-se, uma sereia começou a uivar e o portão voltou a fechar-se.
Ellert compreendeu que havia algo de errado.
Corra, Onot! — ordenou e procurou calcular a distância.
Como um corpo destes é incômodo”, pensou num momento. “Se Onot não tivesse as importantes anotações...
É sua última chance!
Onot saiu correndo. Em comparação com o movimento da grade, Ellert considerava a velocidade do druuf muito reduzida. Eram apenas alguns passos... e Onot conseguiu.
Espremeu-se pela fresta, ainda existente, e viu-se na rua inundada de luz. À sua frente, havia uma larga avenida. Os arcos voltaicos mergulharam a ampla rua numa luz ofuscante.
Não vá para lá! — disse Ellert. — Siga para a direita, em direção ao espaço-porto. Rápido! Já ouço os ruídos dos veículos. Provavelmente, são da polícia. Acho que descobriram nossa fuga. Gostaria de saber como isso pôde acontecer.
Enquanto Onot corria para salvar a vida e a liberdade, Ellert ficou refletindo. Naturalmente poderia deixar Onot entregue a si mesmo e tentar desviar os druufs do seu objetivo. Bastaria fazer com que o oficial, que comandava a operação, fizesse algumas coisas malucas. Mas como poderia reencontrar Onot, caso o cientista não permanecesse no lugar em que ele o abandonara?
O muro alto que cercava a prisão descreveu uma curva para a direita. Onot continuou a correr, para atravessar a rua. Mais adiante apareceu uma luz móvel.
Ali: a entrada de uma casa.
Reunindo as forças que lhe restavam, Onot chegou ao outro lado da rua e comprimiu-se para dentro do nicho, que era muito pequeno para proporcionar um bom esconderijo. O veículo foi-se aproximando. Na parte dianteira, havia um holofote móvel, que girava ininterruptamente para todos os lados. Era claro que o fugitivo já estava sendo procurado nas ruas. Já se sabia que sua fuga fora bem sucedida.
Fique aqui mesmo, aconteça o que acontecer! — ordenou Ellert e desprendeu-se do cientista.
No mesmo instante, viu a viatura policial abaixo de si e pôde reconhecer os uniformes. Seis druufs estavam sentados no carro aberto, com as armas destravadas apoiadas sobre os joelhos.
Ellert penetrou no cérebro do motorista e, dessa forma, assumiu indiretamente o controle do veículo. Desejava, na medida do possível, poupar a vida dos druufs. Mas se quisesse evitar que a luz do holofote giratório atingisse Onot, não lhe restava muito tempo.
De repente, cinco druufs soltaram um grito. O motorista virou a direção e o veículo precipitou-se para o lado direito da rua. Felizmente reduziu a potência do motor, fazendo com que a velocidade diminuísse. A luz do holofote bruxuleou e apagou-se.
Depois disso, seguiu-se o impacto. Ellert viu-o, mas já com os olhos de Onot. Estremeceu ao perceber o poder e a responsabilidade terríveis, que carregaria até o fim dos seus dias. As vidas que colocara em perigo não eram vidas humanas, mas sempre eram vidas. Toda e qualquer forma de vida tinha um direito à existência e não devia ser destruída. Nem mesmo a de um inimigo, caso isso pudesse ser evitado.
Não praticara um ato de legítima defesa?
Ellert percebeu que tentava justificar seu ato, embora ninguém o obrigasse a isso. Teve a satisfação de constatar que, segundo parecia, ninguém, fora morto no desastre. Os druufs saíram dos destroços do veículo e começaram a investir exaltadamente contra o motorista. Ellert achou que estavam cometendo uma injustiça, pois afinal o condutor do veículo, assim que readquiriu a liberdade de decisão, agira corretamente e freara o veículo. Se não tivesse atuado assim, as coisas estariam muito piores para os policiais.
Onot continuou parado no nicho. Os policiais, que se encontravam a menos de duzentos metros de distância, pareciam não se ter esquecido de sua missão. Logo que se certificaram de que escaparam ilesos, pegaram as armas e puseram-se a caminho de seu destino, o edifício da Corte Suprema.
Não demonstraram nenhum interesse por Onot, que suspirou aliviado quando viu que se afastavam.
Vá andando! — ordenou Ellert, cheio de uma nova confiança. — Daqui a pouco, toda a cidade estará acordada. Nunca imaginava que fizessem tamanho estardalhaço por causa de uma fuga...
Acontece que o preso é Onot — respondeu o cientista e Ellert captou a impressão de uma risada irônica. — Evidentemente, imaginam que ainda farei muitas tolices, para vingar-me da vergonha por que passei.
Tomara que não imaginem que você pretende colocá-los no campo de ação de um paralisador do tempo. Se eles pensam assim, o medo e os esforços de voltar a pôr as mãos em você serão redobrados.
Mais duas vezes, tiveram que abrigar-se em vielas a fim de fugir às patrulhas, mas o perigo nunca se tornou tão grave a ponto de Ellert ter de intervir nos acontecimentos. Finalmente avistaram o espaçoporto.
Ali, onde você vê a iluminação de arco voltaico, fica a área de estacionamento dos táxis aéreos — disse Onot, apontando para a luz difusa. — Não vejo polícia por lá.
Ellert ordenou ao druuf que ficasse parado. Pretendia fazer um reconhecimento da situação e queria ter certeza de que ninguém o via. Não havia nenhum inconveniente que Onot permanecesse no lugar em que se encontrava, pois, em caso de necessidade, poderia esconder-se no arco de um portão.
Não saia daqui — disse Ellert, repetindo a advertência de antes. — Não demoro.
A rua foi deslizando embaixo dele à velocidade que desejava. Invisível aos olhos de todos, chegou ao espaçoporto e subiu para o alto, a fim de ter uma visão mais ampla.
As fileiras das naves de guerra, prontas para decolar, lembraram a Ellert que Druufon se encontrava em estado de guerra. Soldados saíram de um quartel, situado do lado oposto do espaçoporto, entraram nos veículos, que estavam parados à frente do tal quartel, e começaram a formar um cordão em torno do espaçoporto. As tropas de infantaria deslocaram-se para as áreas difíceis de serem abrangidas pela vista, situadas entre o espaçoporto e a cidade.
Dali a meia hora”, raciocinou Ellert, “nem mesmo um rato conseguiria passar pelos cordões de isolamento... Quanto menos um druuf.”
Dirigiu-se apressadamente à área de estacionamento. Os planadores não estavam sendo vigiados, pois jamais alguém pensaria em roubar um veículo pertencente ao Governo. No entanto, Ellert notou que um destacamento de soldados já se dirigia à área de estacionamento.
Talvez dispusesse de uns cinco minutos...
O que aconteceria se Onot realmente fugisse num planador? Não voltaria a ser preso imediatamente?
Ellert lembrou-se da viatura policial que batera na fachada de um edifício... e riu em pensamento. Não, Onot não seria preso tão depressa. Em hipótese alguma!
Procurou Onot o mais rápido que pôde.
O druuf permanecia no mesmo lugar. Parecia ter um medo terrível de perder o contato com Ellert. Talvez não conseguisse conformar-se com a idéia de um belo dia voltar a ficar só.
Corra, Onot, o mais depressa que puder. Devemos chegar à área de estacionamento antes dos soldados. Quanto tempo vai levar? Dois minutos?
O druuf avaliou a distância.
Mais ou menos três minutos. Nem um segundo mais.
Naturalmente usavam as unidades de tempo de Druufon. Porém depois de convertidas, as respectivas indicações correspondiam aos valores terranos que acabam de ser mencionados.
Muito bem. Corra! Vou deixá-lo a sós por um minuto. Estarei com você, antes que chegue à área de estacionamento.
Onot respondeu. No seu íntimo, até estava disposto e fugir sem Ellert, se isso fosse necessário e o espírito não voltasse em tempo. Mas dificilmente poderia esperar que isso acontecesse. Começou a correr.
Ellert introduziu-se no corpo de um funcionário da Corte de Justiça que parecia muito nervoso, e estava verificando os controles eletrônicos da prisão. Um druuf de rosto severo estava a seu lado. Ao que tudo indicava, estava esperando o resultado do trabalho.
Então?
A vítima de Ellert moveu uma alavanca e disse:
É verdade! Onot passou sozinho por esta sala. Ninguém o ajudou. Contou apenas com seus próprios recursos.
O guarda golpeado continua inconsciente, tal qual o guarda do portão. Ninguém compreende como Onot conseguiu uma coisa dessas. Até parece que está completamente louco.
É bem possível que esteja mesmo. Mais uma vez, o paisano mostrou-se indignado.
Não nos cabe formular suposições. Ligue-me com o presidente da Corte de Justiça. Preciso de sua licença para iniciar uma busca em escala continental. Isso equivalerá ao estado de guerra.
Tanta coisa por causa de um cientista maluco!
Ellert continuou ali, até que visse, através dos olhos do funcionário, o rosto do presidente da Corte Suprema projetado na tela, e ouvisse a ordem de capturar o fugitivo, custasse o que custasse... e capturá-lo vivo.
Na certeza de ter diante de si uma noite muito longa, abandonou o druuf e, numa espécie de teleportação imaterial, transportou-se de volta ao campo de pouso.
Estava tão alto que podia ver Onot e os soldados ao mesmo tempo. O fugitivo encontrava-se a uns cem passos do planador mais próximo e os soldados a duzentos metros da área de estacionamento.
Onot sentiu-se aliviado ao perceber a presença de Ellert.
Não conseguiremos! — disse fungando e passou a correr mais depressa.
Para o lado, já se viam os contornos dos soldados em marcha. Não se apressaram muito, pois numa oportunidade como esta todos costumam acreditar que o centro dos acontecimentos está sempre mais afastado... E acabavam se enganando.
Pegue o planador mais próximo.
Tratava-se de um veículo pequeno, mas este não devia ser menos veloz e manobrável que os outros.
Com um enorme salto, Onot colocou-se no interior da cabina, isso depois de a porta ter deslizado levemente para o lado. Num movimento quase automático suas mãos encontraram os controles. Enquanto a porta ainda se fechava, o propulsor já zumbia. Depois disso, o planador levantou-se do solo e, acelerando tremendamente, subiu ao céu escuro. A cidade desapareceu que nem um diadema de luzes cintilantes. Alguns tiros de radiações perderam-se à distância. Dali a pouco, só restava a solidão escura em torno deles.

* * *

Fugiu — informou Gucky, depois de ter encontrado Rhodan num ponto mais distante, no fundo de uma pequena depressão. — Ellert deve ter desempenhado um papel importante nisso. Como faremos para encontrá-lo?
Sentado sobre uma grande pedra, Rhodan começava a sentir frio. Já por duas vezes usara sua arma de radiações para aquecer uma pedra do tamanho de uma cabeça humana, que foi usada como fogueira sem brilho. Mas isso não resolveria o problema por muito tempo. De qualquer maneira, a incerteza, onde estaria Ellert? Era mais inquietante que a friagem noturna de um mundo estranho.
Gucky, para onde iria se estivesse no lugar de Ellert? Você deve partir do pressuposto de que seus amigos o procurarão e de que esses amigos dispõem de recursos extraordinários.
O rato-castor sentou-se sobre a larga cauda. Dirigiu os olhos para o céu, como se esperasse que as estrelas lhe dessem uma resposta.
Iria a um lugar facilmente atingível, que meus amigos conhecessem.
Pois bem. E qual é o lugar que tanto Onot, como Ellert e eu conhecemos?
Gucky deixou de interessar-se pelas estrelas.
O antigo laboratório secreto, situado a setecentos quilômetros ao leste da capital! — subitamente levantou-se e, arrastando os pés, caminhou em direção a Rhodan. — Se sabemos disso tão bem, o que estamos esperando?
Ainda estou refletindo para descobrir qual é o objetivo que Ellert pretende atingir com a fuga. Se está em condições de convencer Onot, também deve dispor de bastante energia para adquirir sua independência e sair à nossa procura. Deve saber que estamos a caminho. Por que expõe Onot a um risco sem a menor necessidade e também a si mesmo? Por que está desperdiçando seu tempo?
É verdade. Também tenho a impressão de que há um mistério nisso — confessou Gucky. — Mas estou disposto a apostar minha cabeça contra o chinelo do pé direito de Bell de que Ellert tem um motivo sério para trazer o tal do Onot à nossa presença.
Rhodan fez um gesto quase imperceptível de assentimento. Também já lhe ocorrera isso.
Ellert não é capaz de transportar qualquer tipo de matéria. Para fazê-lo, tem de recorrer a Onot. Suponho que queira trazer-nos algo por intermédio do cientista. De qualquer maneira, não temos nada a perder se dermos uma olhada no laboratório. Acho que serei capaz de encontrá-lo.
Gucky parecia perscrutar a noite.
Uma coisa é certa: Ellert ainda não está no laboratório. Não consigo captar seus impulsos mentais. Ainda se encontra entre a cidade e as montanhas. Tomara que não tenha a intenção de fazer Onot percorrer essa distância a pé. Com a velocidade que esses hipopótamos sabem desenvolver, isso seria uma perspectiva nada agradável.
Vamos ficar nas proximidades do laboratório — respondeu Rhodan. — Ou será que você tem uma sugestão melhor?
Gucky fez seu dente roedor brilhar à luz das estrelas.
No momento não...
Dali a alguns segundos, a pedra, que se desaquecia na depressão junto à montanha, estava abandonada.
A tal pedra passou a constituir o único sinal de que por ali houvera criaturas vivas.

* * *

A solidão não durou muito.
Estamos sendo perseguidos — constatou Onot, depois de lançar um olhar para a tela. — É uma esquadrilha de caças. E são mais velozes que nós.
Não se preocupe — disse Ellert para tranqüilizar o cientista. — Fazem questão de que Onot compareça vivo à frente do juiz, pois desejam descobrir certas coisas. Morto, você não lhes serviria para nada. Quer dizer que não seremos derrubados.
As palavras, pronunciadas de forma inaudível diretamente para dentro do cérebro de Onot, preencheram sua finalidade. Este tornou-se mais tranqüilo, prudente e circunspeto. Os perseguidores aproximavam-se muito depressa, mas Onot nem tentou aumentar a velocidade de seu planador.
A quatrocentos quilômetros da cadeia de montanhas em que ficava o laboratório de Onot, alguns caças alcançaram o planador e colocaram-se à sua frente. Dispararam alguns tiros de advertência, mas Onot nem reagiu aos mesmos. Agiu por livre e espontânea vontade. Ellert permaneceu totalmente neutro.
Você conhece esse tipo de caça? — perguntou. — Sabe como funcionam os propulsores? Será que no painel existe um dispositivo que permite desligar o sistema de propulsão? Talvez seja uma espécie de chave de ignição...
Onot nem teve necessidade de refletir.
Já sabia.
Existe uma fechadura eletrônica igual a qualquer outra. Caso não se possua a chave não se pode fazer o caça decolar.
Ellert recorreu aos olhos de Onot para avaliar a situação. Havia uns dez caças desse tipo à sua frente; deviam ser unidades da força policial. À sua volta, mais alguns corriam à mesma velocidade do táxi aéreo, provavelmente para evitar que o planador escapasse. À retaguarda, outras dez unidades. Havia, portanto, um total de cerca de trinta caças.
A tarefa não seria simples, mas de qualquer maneira poderia ser executada nas circunstâncias em que se encontravam.
Bem abaixo deles deslizava o deserto.
Mantenha o curso em direção ao laboratório, haja o que houver. E não se espante com nada.
Talvez Onot pensasse ligeiramente na viatura policial da cidade. Acenou com a cabeça; tratava-se de um gesto afirmativo que Ellert lhe transmitira.
Confie em mim.
Ellert abandonou Onot e, no mesmo instante, flutuava no nada, ao lado do planador. Ainda não sabia como fazer, mas sentia-se confiante. Talvez fosse esta a primeira função geral de suas capacidades recém-adquiridas. O tempo em que atravessava os fluxos temporais já se fora; não era mais capaz disso. Em compensação, outro campo de atividade abria-se à sua frente.
Escolheu uma vítima entre os caças que voavam a seu lado, entrou na cabina e penetrou no cérebro do piloto, que estava só. Ellert desistiu do trabalho cansativo de criar um bloqueio amnésico, que não serviria para muita coisa. Assumiu pura e simplesmente a substância consciente do druuf e transmitiu-lhe suas ordens.
Foram apenas duas ordens.
Em primeiro lugar, o piloto soltou os controles e abriu a pequena fresta lateral de ventilação. Depois disso, com um movimento rápido, retirou a chave eletrônica e atirou-a pela janela.
O zumbido do propulsor cessou imediatamente. O caça caiu, mas ficou sob controle, assim que Ellert libertou o piloto. Viu o avião descer e preparar-se para o perigoso pouso no deserto. O piloto não tinha outra alternativa, pois não via outra possibilidade de fazer funcionar o propulsor. Por enquanto esse aparelho ficaria fora de ação.
Ellert sentiu-se satisfeito com o resultado da experiência, que não durara mais de vinte segundos. Naturalmente, o piloto estaria curioso para saber onde ficara sua chave e, mais tarde, não saberia explicar por que ele mesmo a atirara pela janela. Mas no momento, isso não importava. Os druufs teriam uma noz muito dura para quebrar. Uma coisa era certa: não encontrariam nenhuma explicação que pudesse parecer lógica.
Numa ação resoluta, Ellert dispôs-se a obrigar o piloto seguinte a realizar um pouso de emergência.
Onot, que prosseguia impassível no seu vôo, sem dar a menor atenção aos disparos de advertência, viu na tela que os perseguidores, um apôs outro, iam ficando para trás, isto é, se dirigiam ao solo do deserto. Dali a pouco, já não havia nenhum perseguidor, mas apenas os dez caças de interceptação que iam à sua frente.
Estes também desapareceram da mesma forma misteriosa que os outros. Um deles chegou a precipitar-se em direção ao solo e só conseguiu controlar-se uns cem metros acima da superfície. Onot não viu nenhuma chama ou explosão, e por isso concluiu que todos os caças conseguiram pousar sãos e salvos. Lá embaixo poderiam esperar tranqüilos pela ação de resgate.
Ao sentir que Ellert regressara, Onot apontou para a escuridão.
Se o presidente da Corte de Justiça tivesse visto isso, talvez, agora estivesse disposto a acreditar nas declarações que prestei ontem. Bem, os pilotos lhe dirão o que aconteceu.
Isso pouco lhe adiantará, pois nenhum dos pilotos sabe que foi ele mesmo quem atirou a chave para fora da cabina. Se tiverem sorte, poderão encontrar algumas das chaves perdidas, mas ninguém saberá dizer como foram retiradas do painel do controle e por que foram parar no deserto. Infelizmente não pudemos evitar essa ação chocante; não havia outra solução. A qualquer momento, eles nos teriam obrigado a pousar. Quantos quilômetros ainda faltam?
Onot olhou para o painel.
Duzentos quilômetros. Dentro de dez minutos estaremos lá. Tomara que não sejamos alcançados por outra esquadrilha.
Tiveram sorte. Ninguém mais os perseguiu. Onot fez baixar o planador e pousou, com um forte solavanco, junto ao paredão de rocha, no qual se via a porta que dava para o laboratório subterrâneo. No momento, a tal porta estava bem aberta. Soltou um suspiro de alívio. Era aquele o lugar em que fora preso, e por certo não acreditariam que ele voltaria justamente para lá. E se pensassem assim...
Ellert cometeu um erro ao julgar-se em segurança. Deixou de realizar o reconhecimento do laboratório e seus arredores. Por isso foi tomado por uma incrível surpresa, quando, no momento em que Onot desceu do veículo aéreo, viu apontadas para si mais de duas dezenas de armas de radiações.
6



Neste exato momento, o Dr. Eric Manoli estava prestes a fazer uma descoberta.
Acordara há meia hora e conversava um pouco com Ras Tschubai. O Tenente Mundi dormia na poltrona do piloto.
O senhor acredita que eles encontrarão Ellert?
Manoli não sabia o que dizer. Sentia-se cansado e abatido.
Só podemos fazer votos de que isso aconteça. Do contrário não saberei como arranjar um corpo para Ellert. Sob o ponto de vista ético, seria um crime reprimir o intelecto de alguém para dar lugar a Ellert.
Deixaram que Mundi continuasse a roncar suavemente e saíram da sala de comando. O caminho até a enfermaria não era longo. Um minuto depois de terem terminado a palestra entraram no recinto de paredes brancas.
Manoli fechou a porta atrás de si, dirigiu-se à cama em que Ellert estava deitado e levantou o lençol.
Fitou o rosto pálido e imóvel, no qual não se via mais nada da coloração azul.
Levou quase dez segundos para compreender a modificação.
Não é possível! — exclamou.
Depois de algum tempo, soltou o lençol, que voltou a cobrir o corpo imóvel. O rosto ficou à mostra.
Um processo de decomposição biológica não pode ser invertido. O corpo estava morrendo, e agora parece reviver.
Seguindo um súbito impulso, inclinou o corpo e colocou o ouvido sobre o peito de Ellert. Voltou a erguer-se e sacudiu a cabeça.
Não, não está vivo. Ellert ainda não voltou ao corpo que lhe pertence. Com os mil demônios, por que será? Se não encontrar uma explicação, acabarei enlouquecendo.
Ras Tschubai manteve uma calma espantosa.
Não sou médico e por isso não posso dar-me ao luxo de formular um juízo sobre o assunto. Pelo que diz, o processo sofreu uma inversão. Talvez seja possível examinar os dados teóricos também em sentido inverso.
O que quer dizer com isso? — perguntou Manoli em tom de perplexidade.
É isso. Pelo que o senhor disse, a coloração azul do corpo provinha do fato de que o espírito de Ellert estava muito fraco para irradiar certas energias que fornecem impulsos vitais ao corpo separado no tempo e no espaço. Se agora o processo de decomposição foi detido e até se observa uma revitalização, devemos concluir logicamente que o espírito de Ellert voltou a irradiar energias excedentes, talvez sem se dar conta disso.
Manoli parecia adquirir vida. Acenou fortemente com a cabeça, mas não tirou os olhos do rosto de Ellert.
Deve ser isso, Ras. É verdade que a explicação não resolve o problema, mas ao menos ganhamos algum tempo. O mais importante é que Rhodan seja informado da nova situação. Se por acaso Gucky estiver prestando atenção aos nossos pensamentos, Perry será avisado.
É bem provável que o rato-castor ouça nossas palavras e pensamentos, se é que tem tempo — disse Ras com um sorriso. — Ele o faria pela curiosidade que lhe é peculiar.
Manoli concordou com um gesto tranqüilizador.
Nem ele nem Ras Tschubai poderiam imaginar que, naquele momento, Gucky estava sem tempo para ouvir os pensamentos de ambos.

* * *

Onot ergueu os braços disformes e depois deixou-os pender molemente junto ao corpo. Fitou tranqüilamente o policial druuf. Sua autoconfiança, que se apoiava principalmente nas faculdades de Ellert, crescera bastante.
Já fui preso neste lugar — disse em tom irônico. — A vida é uma repetição contínua.
O oficial, que Ellert reconheceu pelo distintivo colorido preso ao uniforme, não parecia ter muito senso de humor. Enfiou a arma no coldre e fez um sinal para seus subordinados.
Seja lá o que ele disser, não lhe dêem atenção. Vocês sabem quais são as ordens do presidente da Corte: levar o prisioneiro vivo até a cidade. E vocês também já conhecem seu poder traiçoeiro, que lhe permite enfeitiçar o cérebro de outras pessoas. Se eu der alguma ordem contrária, se por exemplo mandar que soltem Onot, não me obedeçam. Levem-no para o laboratório e deixem-no preso até que venham buscá-lo.
Onot acompanhou os policiais e soldados, sem oferecer a menor resistência.
Ellert percebeu que desta vez não seria tão fácil enganar os druufs. Só poderia “assumir” uma pessoa de cada vez, e teria de libertá-la, assim que quisesse penetrar no cérebro de outra pessoa. Não tinha possibilidade de exercer uma influência coletiva. E, se influenciasse o oficial, isso não lhe adiantaria nada. Os druufs já estavam prevenidos.
Vá com ele — disse silenciosamente a Onot. — Enquanto isso procurarei uma saída.
Captou o impulso afirmativo de Onot e abandonou-lhe o corpo.
Não teve a menor dificuldade em fazer isso. Bastaria o simples desejo de libertar-se. A resistência que Onot lhe opusera literalmente devorara suas energias. Mas agora estava se recuperando. Não demoraria a readquirir a capacidade de deslocar-se livremente, ao menos dentro dessa dimensão temporal.
Lá fora, na área rochosa que cercava o laboratório, Ellert contou trinta druufs. Deviam estar ali há mais tempo e, ao que tudo indicava, esperavam Onot. Ellert não teve a menor idéia de como o destacamento policial conseguira chegar tão depressa. Será que, já antes da fuga de Onot, o juiz escondera os homens por ali, a fim de surpreender eventuais amigos do cientista que se aproximassem do laboratório?
Ao que parecia, o laboratório propriamente dito fora cuidadosamente revistado. Os papéis e os desenhos estavam bem empilhados num canto. Provavelmente pretendiam buscá-los para que servissem de base às pesquisas de outros cientistas dos druufs. As caixas e os armários haviam sido tombados e seu conteúdo estava espalhado no chão. Ao que parecia, ninguém se interessara pelo mesmo. Algumas máquinas foram arrancadas das bases e preparadas para o transporte.
Onot foi trancado numa pequena sala contígua. Ellert sabia que ali estaria em segurança. Poderia deixá-lo a sós por algum tempo.
Teve vontade de “assumir” o oficial e, no mesmo instante, enxergou através dos olhos deste. Tudo aconteceu sem a menor dificuldade. Apenas pensou na possibilidade, e a mesma realizou-se imediatamente.
O oficial dirigira-se a um veículo bem escondido, atrás de algumas rochas. Por meio de um transmissor avisou o chefe de polícia, na capital, de que Onot fora preso. Prometeram enviar o mais cedo possível um avião planador, a fim de levar o criminoso.
Isso demoraria pelo menos meia hora.
Ellert examinou atentamente o rosto que apareceu na tela, depois pensou na capital, no edifício da Corte de Justiça... e, no mesmo instante, estava no corredor que conhecia tão bem. Mais duas tentativas, e introduziu-se no cérebro do chefe de polícia.
Os oficiais presentes sentiram-se totalmente perplexos, quando subitamente viram seu comandante saltitar numa perna só.
Mas, de repente, parou imediatamente e fitou os outros druufs com os olhos muito arregalados.
Está sentindo alguma dor? — perguntou um dos amigos em tom preocupado.
O oficial sacudiu a cabeça; parecia espantado.
Não; apenas foi uma coisa que me deu de súbito. Senti vontade, e minhas pernas... isso não costuma acontecer com você? Às vezes, a gente sente uma alegria repentina e tem vontade de dançar. Não existe motivo para preocupações. Talvez fosse apenas a alegria de termos prendido Onot.
Não sabia que era apenas a personificação da alegria de Ellert, que não pôde deixar de dar vazão à satisfação que sentia.
Ao que parecia, tudo estava em ordem de novo. Era capaz de vencer grandes distâncias e chegar a um destino previamente fixado. Já não estava condenado a permanecer no corpo de Onot.
Se você se alegrou tanto com a prisão de Onot, envie logo o planador para que possam trazer o traidor para cá.
Ellert apossou-se totalmente do oficial.
Você poderá cuidar disso. Informarei o presidente da Corte sobre o êxito de nossa ação. Ainda bem que mandei colocar soldados junto ao laboratório.
O druuf ao qual ele se dirigira saiu da sala. Ellert deixou de se interessar pelo “seu” oficial. Seguiu apressadamente o emissário, que atravessou os corredores e, uma vez do lado de fora, fez parar um carro na rua, que voltara a ser escurecida, e pediu que o levassem ao espaçoporto.
Mesmo quando entrou em contato com o oficial de plantão, Ellert ainda assim não entrou em ação. Tudo estava correndo conforme previra.
Trago uma ordem do chefe de polícia. Mande imediatamente um planador com a tripulação completa às montanhas de Brasi. Dirijam-se ao laboratório de Onot, ao norte do centro de computação. As coordenadas já são conhecidas. O preso fugido foi recapturado e o planador deverá trazê-lo.
O oficial parecia muito satisfeito.
Irei pessoalmente — respondeu. — Conheço o terreno. Levarei três homens.
O emissário e amigo do chefe de polícia fez continência e voltou ao edifício da Corte.
Ellert deixou que ele se fosse e instalou-se no cérebro do oficial de plantão, que, pelos padrões terranos, ocupava o lugar de tenente. Seu nome era Rambos.
Rambos chamou os homens e designou um piloto e dois sargentos que deveriam acompanhá-lo. Dali a cinco minutos, a veloz máquina subiu ao céu noturno e, acelerando tremendamente, tomou a direção leste.
Pouco antes do pouso, Ellert realizou a segunda experiência.
Permaneceu no cérebro de Rambos e enviou apenas uma pequena fração de seu intelecto para Onot.
Encontrava-se simultaneamente nos cérebros de dois seres!
Eles vêm buscá-lo, Onot. Acompanhe-os. Fugiremos de novo, mas desta vez a fuga será mais bem preparada. Verão que não podem brincar com você e só poderão pegá-lo, caso você se entregue. Você me entende?
Como sempre — foi a resposta silenciosa de Onot. — O que acontecerá?
Teremos um planador à nossa disposição — respondeu Ellert muito bem-humorado e voltou, integrando-se em Rambos.
O planador pousou. Rambos desceu e cumprimentou o oficial que prendera Onot. Este foi retirado do laboratório e entregue a Rambos, que o conduziu para dentro da cabina do planador e o colocou entre os dois sargentos fortemente armados. O piloto pôs as mãos nos controles.
Rambos cumprimentou o oficial e fechou a escotilha. O propulsor começou a zumbir. O planador subiu e disparou na direção oeste.
Mas não chegou à capital.

* * *

Quando a dor leve da rematerialização cessou, nem mesmo a posição das estrelas mudou. Era bem verdade que a sombra negra, que se encontrava a seu lado, havia desaparecido. Gucky calculara o salto de tal forma que não pararam junto ao laboratório, mas a algumas centenas de metros, em pleno deserto.
Cuidado! — cochichou o rato-castor, sem fazer o menor movimento com o corpo. — Há uma porção de druufs nas proximidades. São policiais e estão vigiando o laboratório de Onot.
Rhodan compreendeu imediatamente e também se manteve quieto. Em torno deles reinava a escuridão. Mais adiante, ao norte, o horizonte parecia mais elevado; eram as montanhas. Ao pé da encosta, Rhodan viu uma luz débil e movente. Provavelmente pertencia a algum druuf que controlava os guardas.
Gucky confirmou a suposição de Rhodan.
Cercaram o laboratório e querem prender os amigos de Onot.
Enquanto Gucky controlava os impulsos mentais que o atingiam, mantiveram-se em silêncio por algum tempo.
As unidades estacionadas junto ao laboratório ainda não tinham a menor idéia de que Onot se dirigiria justamente para lá, e por isso ninguém pensava nessa possibilidade, nem na fuga já realizada.
Foi por isso que, depois de “ouvir” atentamente por cerca de dez minutos, Gucky disse a Rhodan:
Acho que não adianta ficarmos sentados aqui. Quem sabe quanto tempo Onot levará para chegar até este local. Só mesmo se conseguisse apoderar-se de um avião, e isso me parece pouco provável. De qualquer maneira, ele, ou Ellert, não será tolo a ponto de cair nas mãos desta gente. Ellert fará um reconhecimento do terreno, descobrirá a força policial... e fugirá para outro lugar.
Isso parece bastante lógico — admitiu Rhodan. — O que devemos fazer?
Você faz essa pergunta a mim? — Gucky parecia espantado. — Minha sugestão é a seguinte: levo-o de volta para a gazela e, depois, irei só à cidade para dar uma olhada. Talvez encontre alguma pista.
Rhodan refletiu um pouco e respondeu:
De acordo.
Quando materializaram-se na sala de comando da gazela, só Mundi se encontrava ali.
No corredor, Rhodan encontrou-se com Manoli e Ras Tschubai.
E foi assim que soube da grande novidade.
Infelizmente, isso aconteceu com alguns segundos de atraso, pois Gucky já se encontrava a caminho...

* * *

O planador correu vertiginosamente na direção leste.
Assim que voltou a “assumir” o controle sobre Rambos, Ellert descrevera uma curva de cento e oitenta graus. O piloto levantou os olhos com uma expressão de espanto ao ouvir a ordem do oficial, mas cumpriu-a, sem a menor contradita. Os dois sargentos não tinham o mínimo conhecimento da arte da navegação aérea e interessaram-se exclusivamente pelo prisioneiro.
Até aqui tudo bem. E agora?
Ellert sabia que não poderia voar, eternamente, com o planador roubado por cima de Druufon. Não demorariam a descobrir a nova fuga e o perseguiriam. Alguma coisa teria de ser feita, e depressa, a não ser que quisesse perder as anotações de Onot.
Será que Rhodan já havia enviado alguém? Será que seu pedido de socorro fora recebido?
Ellert lembrou-se da faculdade que acabara de adquirir. Porém, tal faculdade era limitada. Não era nenhum hipno e não tinha capacidade de dar uma ordem pós-hipnótica a quem quer que fosse. Assim que abandonasse Rambos, o tenente voltaria a agir segundo seu critério. Só permanecia sob o controle de Ellert, enquanto este dominasse seu cérebro e seu espírito consciente.
Todavia, agora já era capaz de assumir dois cérebros ao mesmo tempo.
Quando pensou nessa possibilidade, sentiu como que um choque elétrico. Dessa forma seria fácil dominar os quatro druufs que se encontravam no planador, além de Onot.
A primeira experiência bastou para convencê-lo de que isso era possível, mas apenas por pouco tempo e com um grande esforço. No momento, essa nova capacidade não valia muito, mas abria perspectivas nunca antes sonhadas.
Teve a impressão de que, bem ao leste, o dia já começava a raiar. O planador voava na direção do amanhecer. Não demoraria muito e seria dia, se continuassem a voar para o leste. Não havia nenhum motivo para mudar de rumo.

* * *

Neste meio tempo, Gucky saltara para a cidade. Com alguns saltos ligeiros, transportou-se ao edifício da Corte. Encontrou um ótimo esconderijo no gabinete do chefe de polícia. Os druufs eram grandes, e logicamente seus móveis também o eram. Gucky, porém, era de estatura pequena. Ninguém notou sua presença atrás do arquivo.
Descobriu que Onot conseguira fugir pela segunda vez, e soube que se haviam desencontrado por uma questão de segundos. O relato transmitido pelo oficial da tropa, estacionada junto ao laboratório, tornou Gucky ciente de que Onot conseguira por alguma forma inexplicável obrigar Rambos a não voar para a cidade. O planador que levara o prisioneiro desaparecera.
O chefe de polícia voltou a dar o alarma, que desta vez se dirigiu à vigilância aérea do planeta. Em todos os pontos de Druufon, os aparelhos automáticos de rastreamento foram ligados. Esquadrilhas de caças levantaram vôo e começaram a vasculhar sistematicamente a superfície do planeta. Nada lhes escaparia; nem mesmo um planador.
E nem uma gazela!
Gucky reconheceu imediatamente o perigo que os ameaçava. Além disso, já ouvira bastante. Ellert estava fugindo, sem saber que as pessoas que vinham em seu socorro estavam bem próximas.
Teleportou-se de volta para a gazela.
Ora, Gucky. O que aconteceu? — perguntou Rhodan.
Agora, que estamos todos reunidos, posso contar. Quero evitar repetições. Ellert, ou Onot voltou a fugir. Encontra-se no ar com um planador no qual viajam ao lado de quatro druufs. Ninguém sabe que direção tomou. Há um alarma aéreo que atinge todo o planeta, e este está sendo vasculhado. Seremos descobertos.
Rhodan lançou um olhar ligeiro para Manoli.
Ao que parece, Ellert está retomando suas atividades — disse depois de algum tempo e, em breves palavras, explicou a Gucky o que havia acontecido. — Já dispõe de energias excedentes que lhe permitem abastecer seu corpo, embora, talvez, nem desconfie disso. Talvez consiga encontrar-nos.
Eu deveria encontrá-lo! — disse Gucky e lançou um olhar triste para o teto, como se esperasse auxílio de cima. — Se ele não se esforçar, nunca conseguirei encontrá-lo. Por que não deixa Onot de lado e nos procura?
Já conversamos sobre este ponto — observou Rhodan. — Deve ter seus motivos. Além disso... o que está havendo com você, Gucky?
Todo mundo fitou o rato-castor, que continuava a olhar para o teto. Fechou os olhos, como se tivesse de “escutar” atentamente. Depois de algum tempo, piou em tom exaltado:
Nunca mais quero comer uma única cenoura, se esse não for Ellert. Está a menos de três quilômetros acima de nós, voando velozmente para o leste.
É o planador! — exclamou Rhodan.
Isso mesmo; o planador com o qual fugiu. Vou saltar para junto dele.
Antes que Rhodan ou qualquer outra pessoa pudesse dizer alguma coisa, Gucky desapareceu. No mesmo instante, surgiu na cabina do planador, onde Ellert realizava suas experiências com Onot e os outros druufs.
Ellert viu Gucky com vinte olhos ao mesmo tempo, mas enxergou-o uma única vez.
Cinco fluxos mentais dirigiram-se para o rato-castor. Todos eles continham um único pensamento:
Gucky!
Ellert, qual desses hipopótamos é você? Qual deles é Onot?
Mais uma vez, a resposta quintuplicada foi transmitida por via telepática:
Onot é o que está sentado entre os guardas. Agora preciso distribuir-me. Não posso permanecer exclusivamente no interior dele. Os druufs desconfiariam. Mas da forma que estão as coisas, eles o esquecerão. Onde está a nave?
Você se refere à nossa nave? Está lá embaixo, nas montanhas. Os druufs deram o alarma. Temos de dar o fora antes que seja tarde. Você pode vir comigo?
Não posso abandonar Onot — Ellert hesitou um pouco. — Posso, sim. Ponha a mão no bolso direito de Onot, Gucky. Você encontrará uma folha de metal. Sim, é isso. Pegue-a e cuide bem dela. São os dados sobre o hiperpropulsor linear. O que foi que você disse? Alarma?
Isso mesmo: alarma de âmbito planetário. Ninguém atravessará o dia de amanhã, sem ser submetido a um controle. E o que se dirá então de uma nave não registrada junto aos druufs? Saltarei de volta para nossa gazela. Rhodan veio pessoalmente para buscá-lo. Venha comigo!
Aguarde um instante, Gucky. Eu o acompanharei; dentro de você. Apenas quero apagar as lembranças de Onot. Eu lhe prometi que faria isso.
Gucky olhou em torno. O piloto dirigia o veículo aéreo imperturbavelmente para o leste, em direção ao sol que nasceria dali a pouco. Rambos, que estava sentado a seu lado, examinava os controles com os olhos inexpressivos. Foi o que o intelecto remanescente de Ellert lhe ordenou. Os dois sargentos não faziam o menor movimento. Onot também se manteve imóvel. Ficou com os olhos fechados. Quando voltasse a abri-los, não saberia mais nada daquele estranho amigo chamado Ellert.
Salte assim que Onot abrir os olhos — disse Ellert silenciosamente. — Nesse mesmo instante, retirarei meu espírito de dentro de todos os druufs. Não demore, pois o Tenente Rambos é um sujeito muito ágil. Ele o mataria imediatamente.
Gucky concentrou-se. Não tirou os olhos do rosto de Onot. Por mais que se esforçasse para perceber a presença espiritual de Ellert, não notou nada. O teletemporário mantinha-se em atitude neutra.
Finalmente Onot abriu os olhos e viu-o.
Gucky saltou.
7



O gigantesco sol geminado de Siamed despontava ao leste. Naquele instante, Mundi moveu os controles. O propulsor da gazela uivou e impeliu-a vertiginosamente em direção ao céu colorido, mas a velocidade ainda não era a máxima.
Os aparelhos de rastreamento dos druufs funcionavam muito bem, mas sua velocidade operacional era apenas metade da que seria necessária para descobrir a gazela.
Passamos! — Rhodan soltou um suspiro de alívio.
Viu na tela a esquadrilha de caças que controlava o espaço aéreo de Druufon.
Os caças foram ficando para trás. A gazela já ultrapassara a velocidade máxima dos veículos atmosféricos e seguia para o espaço. Mas era lá que se encontrava o maior perigo: a frota espacial dos druufs.
Entre em transição assim que apareçam as primeiras unidades — ordenou.
O Tenente Mundi confirmou com uma expressão obstinada. Finalmente chegara o momento em que poderia mostrar ao chefe quanto ele valia.
O Dr. Eric Manoli, que se encontrava na enfermaria, não notou os perigos que cercavam aquela fuga arriscada. Seu problema era o corpo de Ellert, que jazia numa cama. Há uma hora, quando Gucky materializou-se na sala de comando, todos pensaram que a missão tivesse fracassado. Mas Ellert logo deu sinal de sua presença. Há setenta anos fora atirado à eternidade, reduzido a um espírito sem corpo; e agora acabara de voltar no corpo de Gucky.
Manoli controlava o pulso, que era lento, mas firme. A transfusão de sangue fizera a pele ficar corada. Ellert começou a viver.
Você me ouve, Ellert?
Sem que o quisesse, Manoli deu o tratamento íntimo ao teletemporário. Acharia esquisito se tivesse que dar outro tratamento àquele corpo, subitamente revitalizado, que conhecia tão bem.
Quero saber se me ouve — acrescentou.
Os lábios de Ellert começaram a tremer. Via-se que fazia um grande esforço para responder por meio das cordas vocais. Mas não era fácil.
Ouço.
O que atingiu o ouvido de Manoli parecia um sopro.
Era a primeira vez, há exatamente setenta e três anos, que Ellert falava pela própria boca.
Enquanto isso, Rhodan e Mundi, que se encontravam na sala de comando, enfrentavam sérios problemas. Um grupo de couraçados dos druufs fechava-lhes o caminho para o espaço. A velocidade ainda não era suficiente para uma transição normal. Teriam de “escorregar” pelo espaço intermediário.
Transição! — ordenou Rhodan, quando os primeiros disparos energéticos passaram perto dos campos protetores da gazela.
Mundi não perdeu tempo: moveu a alavanca.
As naves inimigas tornaram-se confusas e foram recuando. Rhodan viu que continuavam a segui-los. A ligeira transição, dentro do sistema, não bastara para afastar os druufs.
À sua frente, o planeta Hades surgiu em meio ao oceano de estrelas.
Pousar! Irradiar o código! Dar o alarma! — ordenou Rhodan.
A gazela precipitava-se velozmente em direção ao mundo da penumbra, desacelerou ao máximo e mergulhou no hangar. As estrelas desapareceram em cima de suas cabeças. Enquanto pousava, o alarma começou a soar no interior da base.
O Capitão Rous entrou correndo no hangar. Rhodan saiu pela escotilha da gazela.
Evacuar a base! — gritou para o oficial, que não acreditou no que estava ouvindo. — Se os druufs raciocinarem corretamente, estarão aqui dentro de trinta minutos e transformarão Hades num inferno. O material terá de ser deixado para trás. Todos para dentro dos transmissores! Avisem a Drusus! Rápido! Não podemos perder um segundo.
Agiram com uma rapidez extraordinária.
Manoli cuidou de Ellert, cujo corpo ainda estava tão duro que não poderia mover-se sem ser ajudado. Não havia tempo para trazer o veículo de tráfego interno. Por isso, Ras e Gucky teleportaram o médico e seu paciente para dentro do transmissor mais próximo, que já fora ativado. Uma mensagem de rádio, dirigida à Drusus, fizera com que esta ficasse de prontidão e imediatamente colocasse seus transmissores de matéria em recepção.
Uma grande frota dos druufs se aproxima — disse um operador de rádio, antes de ligar a carga explosiva ao mecanismo-relógio. Provavelmente a medida seria supérflua, mas ninguém poderia dizer se os druufs pretendiam destruir Hades ou se prefeririam pousar no planeta.
Os homens correram para dentro das grades dos transmissores. Só levaram seus pertences pessoais. Desapareceram em grupos, para rematerializarem-se no interior da Drusus, que se encontrava a quase um ano-luz de distância.
Rhodan e Marcel Rous foram os últimos. Aguardaram a decolagem das gazelas, cuja destruição queriam evitar. Cada uma dessa naves era dirigida por dois homens, a fim de não aumentar o risco. Tentariam chegar à nave retransmissora que se mantinha à espera junto ao funil de descarga e dali fugiriam por meio de uma série de transições quase que impossíveis.
As telas da sala de comando continuavam a funcionar. Mas, nos fundos, os mecanismos-relógio já tiquetaqueavam.
Ainda dispomos de trinta minutos — disse Rous.
Os druufs não levarão tanto tempo para chegar — respondeu Rhodan.
A seu lado, a porta do transmissor de matéria estava aberta. Caso a situação o exigisse, os dois homens poderiam colocar-se em segurança por meio de uns três ou quatro saltos.
Milhares de estrelas brilhavam no céu escuro de Hades. De repente novas estrelas surgiram, moveram-se lentamente, aumentaram de tamanho e transformaram-se em espaçonaves.
As gazelas que fugiram lhes haviam mostrado o caminho.
Se não houver nenhuma resistência... — principiou Marcel Rous.
Rhodan fez um gesto afirmativo. Adivinhara seus pensamentos.
Nós os enganaremos. Hades tem de ser destruído; não deve cair nas mãos deles. Ligue a defesa automática, capitão. Quero que eles pensem que nos encontramos na armadilha.
Foi muito rápido. Mal as primeiras naves dos druufs se aproximaram o bastante da base, os canhões energéticos da fortaleza começaram a disparar. Atiravam seus raios mortíferos para o espaço, na direção em que se encontrava a frota.
Rhodan viu na tela que os campos defensivos das naves dos druufs desmoronaram.
As outras unidades retiraram-se imediatamente. Entraram na formação conhecida como cunha de bombardeio, o que constituía indicação evidente de que pretendiam destruir o planeta. Era o que Rhodan queria.
Está na hora — disse sem tirar os olhos da tela. — Dentro de poucos minutos, suas bombas e torpedos transformarão a crosta de Hades em lava liquefeita. Depois disso, ficará bem quente por aqui.
Rous continuou impassível. Com um simples movimento da mão regulou as defesas para uma distância maior. Os raios energéticos saíam das bocas dos canhões ocultos e penetravam na frota dos druufs, mas não produziram maiores danos. Mas isso bastaria para o inimigo perceber que a base dos desconhecidos estava sendo defendida.
Passaram ao ataque final!
As primeiras bombas caíram bem longe, mas causaram uma tremenda devastação. A segunda onda de torpedos atingiu as rochas mais próximas, transformando-as em figuras bizarras, derretendo-as. Finalmente, a primeira bomba de reação atingiu a superfície.
Um incêndio atômico, que ninguém conseguiria extinguir, foi desencadeado.
Hades estava irremediavelmente perdido.
Agora já temos certeza de que ninguém porá os pés nesta base — disse o Capitão Rous com a voz triste.
Olhou em torno, como se procurasse alguma coisa.
Vamos perder uma quantidade enorme de material precioso. Só os doze transmissores...
Ora, material! — disse Rhodan, enquanto caminhava na direção do transmissor. — O senhor tem razão, Rous. Estamos trocando material por vidas humanas. Acho que a escolha não é difícil.
Sem dizer uma palavra, entraram no transmissor. Rhodan moveu a alavanca e, no mesmo instante, viu-se ao lado de Rous, no compartimento de carga da Drusus.
A primeira coisa que observaram foi o rosto preocupado de Bell, que se iluminou de repente.
Já estava na hora, cavalheiros. Mais um minuto, e eu teria ido a Hades para buscá-los.
Você teria queimado os dedos — respondeu Rhodan. — Tudo pronto para partir? Onde está Ellert?
Manoli levou-o à enfermaria. O General Deringhouse aguarda instruções, Perry.
Você poderá cuidar disso. Entraremos imediatamente em transição. Devemos voltar o mais depressa possível ao Universo einsteiniano e à Terra. Tenha cuidado! Vamos realizar várias transições em direções diferentes.
Você não vai à sala de comando?
Daqui a pouco. Primeiro preciso ver como vai Ellert.
Bell fez um gesto de assentimento e saiu correndo. Marcel Rous teve trabalho de sobra em reunir seus homens e indicar-lhes os alojamentos.
Perry Rhodan abandonou o compartimento de carga, onde estavam instalados os transmissores, e pôs-se a caminho da enfermaria. Já fazia tempo que o Marechal Freyt voltara para Terrânia. Sem dúvida, preparara tudo. Ellert teria uma surpresa.
Ellert...?
Rhodan sentiu-se dominado por um sentimento de profunda afeição. Finalmente reencontrara o amigo que morrera há setenta anos. Na verdade, permanecera vivo durante todo esse tempo, apenas em outro lugar, em outro tempo e em outro corpo.
O elevador deixou-o no pavimento em que ficava a enfermaria.
Ernst Ellert acabara de voltar! Era bem verdade que perdera a capacidade de enviar seu espírito para o futuro, mas talvez isso fosse bom. A simples idéia de uma viagem pelo tempo bastava para criar confusão e trazer complicações praticamente insolúveis.
O que aconteceria”, pensou Rhodan, enquanto encostava a mão à porta da enfermaria para acionar a fechadura, “se eu pudesse ver o futuro? Será que o conhecimento dos fatos que estavam para vir não me roubaria a capacidade de agir no presente?
Quando entrou, viu os rostos de Haggard e Jamison. No fundo da sala, Manoli estava inclinado sobre o corpo estendido de Ellert. Ao ver Rhodan, ergueu-se.
O senhor não voltou à Terra com Freyt? — perguntou Rhodan, em tom de espanto.
Subitamente, sentiu um medo terrível.
O que houve, Eric? Algo de errado com Ellert?
Tudo bem, Perry. Ellert está descansando. Seu espírito também descansa. O corpo apresenta todos os sinais de rápida recuperação. Acreditamos que dentro de poucas semanas, esteja em perfeitas condições.
Rhodan sentiu um profundo alívio. Haggard e Jamison afirmaram que apenas pretendiam ajudar Manoli. Foi por isso que Freyt não os levara.
Foi até a cama e olhou para Ellert. O rosto, que ainda há pouco tempo era pálido e sem vida, voltara a viver. O sangue pulsava sob a pele. As pestanas tremeram, e subitamente Ellert fitou-o.
Era uma sensação estranha ver vida num corpo que estivera morto por alguns decênios.
Como se sente, Ernst Ellert?
A boca mexeu, mas os sons eram quase incompreensíveis.
É tão bom saber que o espírito e o corpo estão unidos de novo — ouviu Rhodan num sopro.
Ellert prosseguiu em voz um pouco mais alta:
Muita gente gostaria de ser outra pessoa, mas não sabem como são tolos. É só nossa própria vida que nos satisfaz. Você compreende, Perry?
Compreendo perfeitamente — respondeu Rhodan e colocou a mão sobre a testa de Ellert. — Daqui por diante você poderá voltar a ser Ernst Ellert.
Ellert sorriu.
Serei feliz, mesmo que tenha apenas um braço.
Rhodan lançou um olhar expressivo para os médicos. Depois de algum tempo também sorriu.
Você não demorará a ter dois braços, Ellert. O professor Haggard andou refletindo muito. Quando soubemos que faculdades maravilhosas você trouxe do passado, tivemos uma idéia. Na verdade, devemos a mesma a Onot. A conversa não o cansa?
Não; entendo perfeitamente o que você diz. Continue.
Você teve dificuldade em subjugar Onot, porque o cientista resistiu. Você perdeu muita energia e ficou fraco; a fraqueza chegou a um nível perigoso. Por isso receberá não só um braço novo, mas também uma arma hipnotécnica. A mesma constitui um aperfeiçoamento dos velhos projetores hipnóticos. Ela lhe conferirá o poder de, mediante a simples aplicação da tecnologia, submeter qualquer ser vivo a seu controle. Nós já conseguimos isso, mas o controle se tornava ineficaz assim que o projetor hipnótico era desligado. Com você, a coisa será diferente. Poderá assumir o intelecto paralisado do inimigo enquanto dura a projeção hipnótica, sem fazer o menor esforço. E ninguém resistirá a esse tipo de controle.
Ellert voltou a sorrir.
Acho que você pensou em tudo. Será que com esse novo braço também poderei fazer outras coisas, como trabalhar e comer?
Você poderá usá-lo como se fosse seu braço natural. Ninguém poderá dizer se é o verdadeiro ou não. Seu segredo ficará oculto em seu interior.
Manoli aproximou-se.
Ele precisa repousar, Perry. A conversa ainda o deixa muito cansado.
Ellert não era da mesma opinião.
Isto não me cansa, Manoli. Pelo contrário. É bom que vocês saibam que a felicidade nunca cansa. Durante minhas viagens, vi muitos planetas e muitos seres vivos. Vivi com eles e os conheci, mas nunca encontrei um povo que se possa comparar à raça humana. Teria sido uma pena se há setenta anos tivessem destruído meu próprio ser. Sinto-me feliz por ser um homem de novo.
Rhodan fez um gesto de assentimento, esboçou um sorriso gentil e colocou o dedo sobre os lábios.
A felicidade também cansa, amigo. Por isso, neste instante, lhe dou minha primeira ordem como administrador do Império Solar. Não diga mais uma única palavra e procure dormir. Na Terra, ainda poderemos conversar muito. Recupere a saúde, Ernst, pois o futuro da Humanidade exige um Ellert capaz de entrar em ação com as forças renovadas. Acho que você compreende, não compreende?
Ellert fez que sim.
Compreendo, sim. Mas é bem possível que um belo dia eu vá visitar um velho e bom amigo: Onot. A esta hora não queria estar na sua pele, no sentido literal da expressão. Mas ele conseguirá... Acabará sendo libertado.
Ellert fechou os olhos e logo sua respiração regular revelou que estava dormindo. Os quatro homens saíram da enfermaria.
Uma vez no corredor, Haggard perguntou:
Será que os druufs descobrirão de quem era a base de Hades? Será que nos julgarão responsáveis por isso?
Apagamos todos os vestígios. Pelo menos não poderão provar nada contra nós. Não acredito que venhamos a ter problemas. Eles também têm inimigos em seu próprio Universo. Seria perfeitamente possível que algum deles se tivesse instalado no sistema do sol geminado.
O que acontecerá com o tal do Onot? — indagou Jamison.
Ellert privou-o da memória — disse Rhodan. — Declarará perante os juizes que não cometeu nenhuma traição. E os detectores de mentiras revelarão que diz a verdade. Será posto em liberdade.
E o que acontecerá com...
Foi interrompido. Gucky materializou-se à sua frente, no corredor.
Vocês falam sem parar e, daqui a dois minutos, será realizada a primeira transição — ajustou o cinto estreito do uniforme espacial, talhado especialmente para ele. — Que tal se nos retirássemos para um camarote?
Meu camarote fica aqui — disse Manoli e abriu uma porta. — Façam o favor de entrar — quando estavam sentados, lembrou-se da pergunta que fora interrompida por Gucky. — O que acontecerá com o sistema de hiperpropulsão dos druufs? Ellert não se referiu a isso?
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Não lhe perguntei nada sobre isso.
Tomara que ainda se lembre dos detalhes técnicos, para que estejamos em condições...
Quase que eu me esqueço! — exclamou Gucky e escorregou do sofá para o chão, a fim de poder revirar melhor os bolsos.
No último bolso em que enfiou a mão encontrou o que estava procurando. Entregou a placa amassada a Rhodan.
Tirei isto do bolso de Onot. São os dados relativos ao hiperpropulsor.
Rhodan pegou a lâmina e desdobrou-a. Era claro que não compreendia os detalhes. Porém bastou um relance de olhos para convencê-lo que se tratava de um sistema de propulsão igual ao dos druufs. Aquilo que Gucky acabara de lhe entregar, sem a menor dramaticidade, como se fosse um papel de sanduíche, representava uma nova chave para a conquista das estrelas.
Rhodan bateu no ombro de Gucky.
Obrigado, meu pequenino. Você acaba de nos entregar o melhor presente trazido por Ellert. Em compensação nós lhe restituímos a vida.
E o aparelho de hipnochoque — prometeu Haggard.
Quando começou a sentir a dor típica da transição, Rhodan ainda segurava as anotações de Onot.
A luz dos sóis galácticos lhes apontaria o caminho, da mesma forma que antigamente os faróis orientavam os navios que singravam os oceanos do planeta Terra.





* * *
* *
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Com o regresso de Ernst Ellert, uma nova era da navegação vai iniciar-se...
O próximo livro Missão Secreta: Moluque, conta a fascinante história da busca dos deformadores da matéria.




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