sexta-feira, 26 de agosto de 2016

P-093 - O Inimigo Oculto - Kurt Mahr [Parte 1]


Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
A morte de um robô provoca uma crise
interestelar e uma ação policial da Terra.

Com o descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada foram lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este Império frente aos ataques internos e externos.
A mais séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna, provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif foi removida por Gucky.
Porém, um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver ainda um longo caminho...
O próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro, com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan, agora com o nome de Imperador Gonozal VIII e Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, já por simples instinto de conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Desta vez, é um pedido de socorro — um governador arcônida em perigo de vida — recebido via telecom, que faz com que a Finmark, um cruzador da classe Estado se desloque para o mundo das águas Opghan E o Major Thomea Untcher, com toda a sua tripulação, dá de encontro com O Inimigo Oculto.


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Thomea UntcherMajor da Frota Espacial, cujas qualidades se escondem em sua simplicidade.

Ran LoodeySargento que aceita as ordens do inimigo.

PthalRobô barbaramente assassinado.

Grghaok, Nrrhooch e LchoxHomens-peixe que odeiam os estrangeiros opressores.

Nathael, Echnatal e AktarMercadores galácticos... sempre inescrupulosos.
1



Com a expressão de abstraído num grande pensamento, Pthal fitava a singular formação daquela canácea, da família das gramíneas, que subia elegante até desaparecer no forro do aposento; ocupava tão densamente o orifício por onde passava, que não havia perigo de penetração da água da chuva.
Pthal era um daqueles indivíduos, dos quais se podia esperar que jamais chegassem ao estado de travarem verdadeiros monólogos. Porém, era o que estava fazendo naquele momento:
Planta interessante, esta canácea.
Foi neste exato momento que a porta se abriu, entrando um homem que Pthal jamais havia visto. Sobre suas intenções, não podia pairar dúvida. Empunhava uma pistola de cano curto e logo começou a dispará-la.
Pthal foi atingido. O disparo paralisou seu estranho sistema nervoso. Em estado de completa consciência, sem porém sentir dores, dobrou os joelhos e caiu no chão.
O estranho, parado junto à porta, detonou mais uma vez, mas devido à brusca queda de Pthal, não atingiu o alvo. A parede atrás de Pthal produziu um chiado esquisito e, quase instantaneamente, a matéria plástica derretida escorria no soalho em camadas incandescentes. As hastes da canácea começaram a se contorcer.
Pthal aproveitou o tempo para estudar o estranho invasor e assassino. Sabia que não ia escapar vivo daquele ferimento que, certamente, em pouco tempo o levaria à morte. Não podia fazer outra coisa, do que obedecer aos seus deveres. Captou bem a imagem do estranho com seus grandes olhos, tentando conservar cada detalhe em sua descomunal memória.
O invasor teve tempo de corrigir a pontaria, em compensação levou mais tempo para fixar a fisionomia de Pthal, cujo maior dom era reagir de modo barbaramente rápido. Resolveu então, antes que o estranho adversário pudesse disparar pela terceira vez, que o melhor castigo a ser-lhe imputado devido à agressão insidiosa teria de ser a morte. Escolheu a mais potente de suas armas e abateu o inimigo desconhecido em meio ao clarão ofuscante de uma explosão.
Após isto, Pthal deitou-se de lado. O movimento consumiu boa parte de suas forças e sentiu que lhe restavam poucos instantes de vida. Começou a “lembrar-se” do estranho que matara há pouco. Isto é, evocou em sua memória as impresões ali armazenadas, tentando transmiti-las, sem usar uma só palavra, para o local onde esta mensagem seria recebida com muito interesse e onde seriam iniciadas as providências para se localizar o foco de inquietação em Opghan.
Se lhe fosse possível ter sentimentos, Pthal estaria agora se lamentando pelo fato de não conseguir mais pôr em prática o que pretendia. Seu ferimento foi de gravidade maior do que ele mesmo “pensava”. Não lhe foi possível medir bem as conseqüências do ferimento, exatamente por não possuir os órgãos necessários para isto. Mal iniciou os primeiros sinais de sua mensagem, as forças lhe faltaram. Mas, mesmo neste transe, cumpriu com o seu dever. No derradeiro bruxulear de suas forças, ainda conseguiu transmitir os sinais do código que significavam que nem tudo estava em ordem em Opghan.
Depois, só restou um Pthal inerte — um robô que foi destruído no cumprimento de seu dever.

* * *

Em Árcon III, foram captados não somente os sinais em código, significando anormalidade no ambiente de Opghan, mas também alguns impulsos indecifráveis que os precederam. Sabia-se que Pthal queria iniciar um relatório, mas foi impedido de fazê-lo. A maneira pela qual fora impedido era mais do que evidente, pois os robôs só costumavam emitir este tipo de alarme, no momento em que eram destruídos.
A morte de Pthal provocou muita inquietação, pois era o funcionário mais categorizado do Império, no sistema de Ep-Hog, no seu segundo planeta, Opghan.
Opghan era um mundo situado na periferia da zona de influência arcônida. Não era nada improvável que o inimigo oculto, depois que Sua Majestade Gonozal VIII assumiu o poder, acreditasse que haviam voltado àqueles tempos em que o imperador e seus funcionários eram incapazes de empreender ações que sufocassem rebeliões ou desordens.
Era indispensável um processo criminal para abrir inquérito sobre a morte de Pthal e se poder chegar ao responsável pelo atentado.
Sua Majestade Atlan, que com o nome de Gonozal VIII imperava no Império de Árcon, encaminhou à Terra um pedido de apoio. A seguir, recebeu do Império Solar a promessa de que tudo seria feito de acordo com seus propósitos.

* * *

O sargento Loodey era um homem cuja figura imponente, misturada com a expressão de infinita seriedade em seu semblante carrancudo, impunha respeito a todo mundo. O fato de que o homem, de estatura relativamente baixa, que neste momento se encaminhava na direção de Ran Loodey, não demonstrasse nenhum sinal do costumeiro respeito, irritou profundamente o sargento, fazendo com que este desse um passo à frente, antes da hora conveniente. Estava agora diante da entrada para o patamar que conduzia, quase no mesmo nível, do oitavo andar do edifício da administração para uma nave esférica estacionada no espaçoporto. Tal patamar terminava numa abertura bem iluminada da grande comporta de carga, mais ou menos na altura do primeiro terço inferior da grande nave.
O baixote parecia não haver reparado em Ran Loodey. Olhava simplesmente para a frente, monologando com gestos nervosos. Loodey não tinha a menor idéia de como ele chegara até ali em cima. Estava à paisana e a entrada nos andares mais elevados era estritamente proibida a estranhos ao serviço. A estupefação de Loodey se transformou em cólera, quando viu que o baixo-te, sem olhar para ele, tentou evitá-lo e seguiu na direção do patamar, sem se incomodar com as formalidades obrigatórias.
Pare! — gritou ele, dando um passo à frente no sentido do patamar. — Que está procurando?
O baixote olhou-o, confuso. Fez depois um movimento nervoso com a mão, apontando para o espaçoporto lá embaixo.
Aquilo lá — respondeu afobado. — Aquilo, como é que chama mesmo?
Ran Loodey acenou gravemente com a cabeça.
Ah! Sei, a nave, mas qual delas?
O baixote replicou:
Meu Deus, como há gente boba neste mundo. Aquela ali, naturalmente. Aqui por perto não há outra, ou você está vendo alguma?
Loodey não perdeu a calma.
E o que você pretende fazer naquela nave, meu amigo?
O baixote piscou os olhos.
Primeiramente, não sou seu amigo.
Pelo menos não, enquanto você me tratar assim. Segundo, a pergunta está errada. Eu não pretendo fazer nada naquela nave, eu quero é dormir, estou muito cansado.
Loodey quase perdeu o fôlego. Quando se controlou, gritou para o baixote:
Será que você acredita que as naves da Frota Solar são um asilo para os desabrigados? Vamos parar por aqui, por favor.
O baixote atendeu, protestando; e por mais “desajeitados” que fossem seus movimentos de protesto contra a ira de Ran Loodey, tornaram-se suficientes para obrigá-lo a ficar quieto. O homenzinho tinha algo que deixava Loodey confuso: autoridade.
Pare de gritar — pediu ele com voz muito fraca. — Você me faz sentir mal e eu não sou surdo.
Está certo — disse Loodey, já cedendo um pouco. — Então vou lhe dizer bem baixinho: você deve desaparecer daqui. Entendeu?
Não! — foi a resposta. — Por que tenho que desaparecer?
Porque não tem nada a procurar por aqui, entendeu agora?
Como é que você sabe disso? Meu nome é Thomea Untcher.
Apesar de toda sua ira, Ran Loodey começou a rir.
Não deixa de ser um nome bonito, soa até muito bem, meu caro. Mas, mesmo com um nome tão bonito assim, tenho que...
Seu semblante se transtornou de repente, podia-se ver que sua memória o estava traindo. Nervoso, perguntou em voz baixa:
Como é mesmo seu nome, senhor?
O baixote começou a rir.
Thomea Untcher, sargento.
O rosto de Ran Loodey de vermelho passou a pálido.
Perdão, senhor — disse sem jeito — estou realmente obrigado a pedir sua identificação, o senhor compreende, não é?
Untcher concordou com um sorriso afável. Enfiou a mão no bolso interno do casaco, depois no de fora, sem nada encontrar. Tirou o casaco e recomeçou a operação nos bolsos da jaqueta. Demorou um pouco, até que apareceu o cartão de plástico. Loodey o pegou respeitosamente, introduzindo-o na fenda do aparelho de controle, instalado em sua mesa de trabalho. Sabia agora que tinha perdido a parada, mesmo antes do sinal afirmativo uma luz verde acendeu-se.
O cartão plastificado saltou do aparelho. Loodey o entregou ao baixote com uma saudação sincera e um pedido de desculpa.
Untcher respondeu com um afável, mas distraído aceno de mão.
Não se preocupe. Não foi nada.
E dizendo isto encaminhou-se para o patamar. A esteira rolante o levou, através da densa cortina de ar quente, que isolava o interior do edifício do frio da noite, para o hall da escotilha bem iluminada da Finmark.
Ran Loodey não acreditava mais tornar a ver o rosto daquele homem; ficou surpreso quando, antes de entrar na escotilha da grande nave, o baixote lhe acenou. Loodey olhou contente, até que Untcher sumiu de vista. Sacudiu a cabeça pensativo. Conhecia muita gente notável, mas comandante como Thomea Untcher nunca vira antes.

* * *

No momento em que Nathael viu acender o ponto verde da grande tela de rastreamento, teve plena certeza de que o plano não seria executado como ele pretendia. A chegada daquela nave era a melhor prova de que a morte de Pthal ia dar pano para muita manga.
Nathael, cansado, passou a mão pela testa e, olhando mais uma vez para a grande tela, ligou o aparelho para o registro automático. Ele não estava muito interessado na rota da grande nave. O que ainda se podia fazer para salvar a situação, ele só podia começar depois da aterrissagem.
Nathael se levantou e saiu da sala onde os aparelhos continuavam funcionando. Lá fora, ofuscou-o a luz amarelada do sol, que entrava diretamente pelas grandes janelas. Parou um instante indeciso, virando-se depois para os três homens que estavam sentados comodamente perto da porta, apesar de um deles não dar impressão de pertencer ao grupo que o esperava.
Já estão chegando — disse Nathael, na língua que todos entendiam.
Os homens se assustaram.
Quem é que está chegando?
Nathael fez um gesto com a palma da mão esquerda, como para indicar que não sabia de nada.
Não sei e não tem mesmo nenhuma importância quem sejam eles. Vêm aqui, a fim de sondar as coisas e isto não nos pode interessar muito.
Um deles, parecendo ser o mais jovem, dono de uma barba copiosa, fez um gesto de desprezo.
Nada nos poderá acontecer, pois assim que descerem, nós...
Irritado, Nathael bateu com o pé no chão.
Nem uma palavra mais! — gritou ele. — Tenho impressão de que nossos pequenos sucessos subiram à cabeça de vocês, a ponto de esquecerem as mais primitivas normas de segurança. Parecem crianças inexperientes.
O jovem barbudo não se deixou impressionar com tais palavras.
Estou me perguntando, Nathael, já há algum tempo — disse ele, medindo-o dos pés à cabeça — se o seu sistema nervoso não ficou demasiadamente abalado em conseqüência dos acontecimentos das últimas semanas. Você está preocupado demais com a segurança.
Você acha, é? Então permita-me dizer-lhe — continuou Nathael — que você é um grande garganta, que não tem a mínima noção da capacidade e da riqueza de idéias do serviço secreto do nosso adversário. Basta uma palavra dita sem muita cautela... e Opghan vira uma fogueira.
Nathael tinha nos lábios um sorriso amargo, quando concluiu:
E sua barba postiça será a primeira a pegar fogo.
O jovem não disse nada. Não gostava que tocassem no assunto de sua barba artificial, que realmente lhe dava uma bela aparência. Não podia ter barba natural, pois tinha pele muito frágil. Sua cabeleira também era postiça, mas Nathael sabia que a palavra barba o atingia profundamente.
O segundo homem entrou também na conversa:
Terminaremos tudo a tempo. Quanto tempo gastarão até a aterrissagem?
Nathael queria fazer de novo o gesto de incerteza, interrompeu-se, porém, dizendo:
Três ou quatro dias de décimos, penso eu.
Isto basta para nós. Estaremos prontos, quando descobrirem um local para aterrissar. Não vão ter muita escolha. Depois, em poucas horas...
Dizendo isto, virou-se para o terceiro, que até então permanecera calado.
Já está tudo pronto, não é, Chchaath?
Chchaath apenas fez um gesto afirmativo, acompanhado por um sorriso de seus lábios finos. Depois disse:
Está tudo pronto, sim — falava como se tivesse a boca cheia d’água. — Estamos preparados até para receber uma frota inteira.
Então siga seu caminho! — ordenou-lhe Nathael.
Chchaath se levantou, continuando a sorrir. Depois passou por uma grande janela e contemplou por um instante a superfície das águas que chegavam até aos alicerces do edifício. E com o reflexo das ondas, refulgiam as escamas lisas de sua pele.

* * *

Perplexo, Ran Loodey olhava para a tela do rastreador.
Pelos deuses do espaço! Nada mais do que água, somente água!
Do fundo da central se ouviu a voz do Major Untcher:
O que você queria? Esperava que fosse uísque?
Nada disso, Sir, quase não penso nos meus prazeres... O que quero dizer é que teremos dificuldade em encontrar um lugar para aterrissar.
Untcher sacudiu a cabeça.
A superfície de Opghan se compõe de noventa e nove por cento de água, minto, de noventa e nove vírgula cinco por cento — disse com firmeza. — Neste meio por cento, puxa vida, temos de encontrar um cantinho para aterrissar.
Mas Ran Loodey tinha lá suas dúvidas, isto é, não acreditava na existência deste meio por cento, pois tudo que via da superfície do planeta era somente água.
Uma visão única, talvez impossível em outra parte!
A Finmark já estava tão próxima de Opghan, que a enorme curvatura do planeta começou a ultrapassar os limites da grande tela. Aproximavam-se da metade iluminada, tendo já o sol amarelado pelas costas. Os últimos raios do sol poente se espalhavam num lindo dourado pela imensa face líquida e seus revérberos afogueados davam a Opghan como que uma auréola de glória.
Além dos reflexos do sol, a água parecia tingir-se de um preto denso. Do outro lado do horizonte, porém, brilhava a atmosfera numa coloração de um amarelo quente.
Era mesmo um quadro singular, verdadeiramente impressionante, jamais visto por ninguém da tripulação da Finmark. Com exceção de Thomea Untcher. Este mal olhava para a tela panorâmica, tão preocupado estava com outra coisa que lhe parecia muito mais importante.
A Finmark já havia superado o difícil vôo e já se encontrava na fase das manobras de descida. Não faltava mais nada para descerem em Opghan. A dificuldade, notada de início por Ran Loodey, isto é, a falta de terras, fora superada.
Thomea Untcher pouco se preocupara com as manobras das últimas três horas. Depois de uma viagem de três dias, a tripulação já estava acostumada com seu modo de comandar e não estranhava mais. O próprio oficial da radiogoniometria, cujo trabalho, por razões para ele incompreensíveis, estava sendo feito pelo comandante, ficava até contente com este descanso inesperado.
Thomea Untcher se mantinha em silêncio. Não disse uma palavra sobre se tinha descoberto alguma coisa importante, nas diversas telas e escalas de medição do grande aparelho de rastreamento. Estava tomando nota de tudo e, de vez em quando, sem causar sensação, lembrava o primeiro-oficial de estar atento.
Isso foi tudo. Ninguém supunha que tivesse notado alguma coisa diferente. Até o momento em que se levantou — e isto coincidiu exatamente com a hora em que Ran Loodey percebeu um ponto mínimo de uma ilhota no meio da imensidão das águas — e com uma displicência que estava em contraste com sua fisionomia preocupada, disse:
Fomos localizados, meus senhores. Os instrumentos estão registrando a seqüência dos impulsos que nos localizam no espaço. Considerando que o robô Pthal, na qualidade de primeira autoridade do planeta, era o responsável por todas as instalações positrônicas de Opghan, temos de admitir que, depois da morte de Pthal, alguém se apoderou dos instrumentos e os está usando. Sargento Loodey, qual é sua opinião?
Era um de seus hábitos, perguntar a outras pessoas coisas, sobre as quais já tinha uma idéia formada.
Isto quer dizer que — respondeu Loodey prontamente — que... que... — e começou a gaguejar.
Você tem plena razão — disse-lhe Untcher com benevolência. — Já que os nativos de Opghan estão muito atrasados tecnicamente e, por certo, não estariam em condições de operar com um aparelho de rastreamento, isto significa que em Opghan existe pelo menos um estrangeiro experimentado e... provavelmente este será o homem que motivou nossa vinda para cá.
E antes que alguém compreendesse melhor a seriedade desta conclusão, Thomea Untcher completou a confusão, explicando o seguinte:
A partir deste momento a Finmark está em estado de alarme de grau um. Todos estejam atentos em seus postos. Lenzer, cuide para que todas as torres de artilharia pesada estejam equipadas com dois homens. Vamos ao trabalho, minha gente. Loodey descobriu uma ilhota. Vamos aterrissar. Que estão esperando? Isto aqui não é uma excursão de fim de semana.
E, de uma hora para a outra, aquele baixote franzino se transformou numa fonte de energia e determinação, contaminando beneficamente todos os homens da tripulação, preparando-os moralmente para o que desse e viesse.

* * *

Com paciência verdadeiramente de Jó, peculiar à sua raça, Chchaath esperava, sentado diante do aparelho, pela última e definitiva mensagem. Quando ela finalmente chegou, fazia mais da metade de um dia de décimo, que estava ali sentado.
No mostrador do instrumento apareceu um número de quatro algarismos da escrita arcônida. Chchaath o leu e o guardou na memória. Depois desligou o aparelho e se levantou.
No fundo do grande aposento, onde se encontrava Chchaath, havia uma espécie de armário. Chchaath abriu uma de suas portas e tirou de uma gaveta, com o máximo de cuidado, um pequeno cilindro de metal brilhante. Pesou-o numa das mãos, dizendo um palavrão.
1358. Não poderiam ter escolhido lugar pior do que este, pois em menos de meio dia de um décimo, o sol se punha sobre 1358. Neste curto espaço de tempo, os homens tinham que dar conta do recado. Quando se conscientizou de que não poderia perder nem um décimo de milésimo de tempo, fechou abruptamente a porta do armário, botou o cilindro metálico debaixo do braço e tratou de sair dali.
Sair de casa era uma das coisas que ainda há uns dez dias atrás, lhe causava medo, ao observar como a gente se movia lá fora. E dez dias era muito pouco tempo, embora Chchaath já estivesse acostumado a grandes mudanças. Tinha se habituado, por exemplo, com os olhares hostis que recebia, ao passar pelas ruas. Não havia nelas mais o movimento de antes, quando Chchaath era um dos muitos que costumavam ficar parados pelas esquinas, batendo um papo com algum conhecido.
Agora, as pessoas permaneciam mais tempo em suas casas. Chchaath sabia como isto lhes devia custar sacrifício. Os habitantes de Ephog sempre cultivaram a sociabilidade em alta escala. Pertenciam a uma pequena comunidade, sendo que nenhuma cidade era tão grande que um habitante não conhecesse bem o outro.
Agora, no entanto, preferiam ficar parados em casa, quando não estavam trabalhando lá fora nas plantações de psimo. Odiavam os estrangeiros e sabiam o porquê.
Chchaath pessoalmente não odiava os estrangeiros e levava vantagem nisso. Mas os olhares, saturados de ódio, de seus velhos amigos o incomodavam muito.
Chchaath estava com muita pressa, andando a passos rápidos, não por saber que, em menos de meio dia de um dia de décimo, o sol estaria desaparecendo sobre 1358. Mas sim porque queria ver-se livre daquelas ruas cheias de olhares rancorosos. Por isso, percorreu o trecho de sua casa até o portão da comporta em quatro vezes menos tempo do que normalmente fazia.
Ao vê-lo, o vigia do portão da comporta o cumprimentou com muita atenção. Chchaath agradeceu e esperou, pacientemente, uma parte da comporta abrir-se para o lado.
Entrou com passos rápidos na grande comporta, bem iluminada. Ali, já fora o ponto de encontro mais importante da vida urbana. Havia constantemente centenas de pessoas que não faziam outra coisa senão olhar o embarque e desembarque de passageiros e de mercadorias, ou trocar idéias sobre a agilidade dos pilotos ou sobre o modo de vestir das pessoas.
Agora tudo era diferente. Os barcos não chegavam nem partiam mais, com exceção dos poucos que levavam ou traziam os trabalhadores para as plantações. Ninguém, fora alguns privilegiados, tinha autorização de penetrar no patamar da comporta. Não havia mais nenhum sinal de vida. O que restava, eram as extensas instalações do cais e a luz penetrante do sol amarelado, que fazia arder a vista.
O estado de espírito de Chchaath, no momento, não era de querer perder tempo com pessimismo. Olhou por toda a comporta e, não achando o que procurava, começou a gritar. Sua voz soava abafada e com sons guturais dentro do grande recinto. Com o eco veio a resposta do fundo de algum barco.
Chchaath virou-se para lá. Já havia caminhado a metade do trecho, quando surgiu na beira do cais a figura de um homem alto e magro. O desconhecido parou para esperar, enquanto Chchaath se aproximava.
Estivemos um pouco sumidos — disse se desculpando — e você esteve muito tempo fora. Enquanto esperávamos, chegou algo dos planetas. Pensávamos que não seria de todo necessário que o pessoal nos visse, mesmo se houvesse vigias por perto.
É sempre a mesma coisa”, pensava Chchaath desanimado. “Agora estão um pouco melhor do que estiveram antes. Possuem tudo o que precisam e se quiserem mais alguma coisa, os estrangeiros lhes darão. Mas têm muito medo de sua própria gente, que eles traíram. E você não tem necessidade de se excluir. Não são eles, somos nós.”
Está bem — respondeu Chchaath, com um movimento indeciso de seu braço coberto de escamas. — O objetivo é treze cinqüenta e oito. Não podemos perder tempo. Num quarto de décimo, a nave deve estar desligada.
Desceu a escada de pedra que levava do cais ao nível da água. O barco ali estava, parecendo uma mancha escura na água tranqüila. Abriu-se uma porta e Chchaath entrou. O homem alto e magro de fisionomia triste, com as escamas escuras que se destacavam da pele, seguiu-o passo a passo.
O interior do barco não era outra coisa senão bancos. Estava escuro e Chchaath sentiu mais o cheiro dos homens do que os viu propriamente.
Vamos embora, piloto! — soou sua voz na escuridão. — O destino é treze cinqüenta e oito. Acelere o máximo que puder.
Sentou-se e levantou com cuidado o braço, sob o qual segurava o cilindro de metal. Os olhos se foram adaptando à escuridão.
Não temos um segundo a perder — explicou, enquanto o motor do barco rugia forte, iniciando o movimento da embarcação. — O sol logo irá pôr-se. Vocês já têm tudo à mão, prontos para entrar em ação?
Ouviu-se um sim abafado, que vinha de todos os cantos. Pegando na mão direita o cilindro de metal, disse:
Aqui está o negócio — disse, passando o objeto metálico para o que estava sentado mais próximo. — Esvaziem-no, mas com cautela.
2



Com os diabos! Sei que não há muita coisa para ver, mas gostaria de dar uma olhada lá embaixo. Será que sua cabeça dura pode compreender isto?
Ran Loodey já estava perdendo a mania de se sentir ofendido com as expressões um tanto grosseiras de seu comandante. Piscando o olho, mas com expressão séria no rosto, respondeu:
Talvez, com o correr do tempo, Sir.
Untcher soltou um suspiro e dirigindo-se a seu primeiro-oficial disse, simulando um desespero cômico:
Stowes, preste atenção a este homem aí. Não lhe dê nunca um posto de responsabilidade, pelo amor de Deus, pois ele só vê o inimigo, quando seu pescoço está sendo cortado.
Stowes bateu uma continência brincando:
Às ordens, Sir!
Untcher fez um sinal para o segundo-oficial:
Lenzer, vamos sair. Mantenha a arma de prontidão.
Encaixou e atarraxou o capacete em seu uniforme espacial. Já era um costume para ele, e não esperava que ninguém o imitasse. A atmosfera de Opghan era rarefeita como nas altas montanhas da Terra, mas bem respirável. Não havia realmente nenhuma razão para alguém ter de proteger-se com o uniforme espacial num ambiente daquele. Mas Thomea Untcher tinha como princípio, em qualquer oportunidade, usar de toda garantia, por mais exagerada que parecesse. Por exemplo, quando entrava por uma porta fazia-o lentamente, com toda cautela. E agora lá estava ele, na sua saída de inspeção da minúscula ilha, após a aterrissagem da Finmark, com o pesado uniforme espacial.
Já o Tenente Lenzer se contentava em puxar o capacete só até a testa, de maneira que, mesmo assim, podia se utilizar do micro transmissor e do receptor. Ia bem perto de Untcher e tomou a esteira rolante que passava pelo corredor central até a escotilha menor. Em pensamento, estava caçoando das exageradas medidas de precaução de seu chefe.
Thomea Untcher passou pela pequena abertura, sem parar. Da soleira da escotilha externa, a pouco mais de meio metro do chão, saltou cuidadosamente, como se tivesse medo de levar um tombo. Olhou em volta.
Os raios fortes do sol castigavam o pequeno trecho de terra, com suas plantas exóticas em forma de pequenas touceiras. Do chão fértil, brotavam folhas carnudas de um verde-claro, que rodeavam num círculo protetor uma haste cor-de-rosa, quase tão grossa quanto um galho, que se elevava a uns três metros de altura, tendo no alto uma flor de um amarelo-forte, parecendo muito com o girassol. Mas a planta em seu todo se assemelhava mais a uma gigantesca boca-de-leão.
Que coisa esquisita”, pensava Untcher, “e não se pode esquecer que todas estas plantas exuberantes têm somente cem horas de vida...
Levantou o braço e consultou o relógio.
Têm ainda só quatro horas de vida. Vão morrer de frio durante a noite. E cem horas depois, quando o sol surgir novamente, de suas sementes conservadas pelo frio vingarão novas plantas, que em duas horas atingem o tamanho e a pujança destas que aqui estão — monologou.
Aproximou-se de uma delas, observou-a atentamente de todos os lados e abanou a cabeça:
Coisa singular, como a natureza é pródiga!
Lenzer não estava interessado em ver bocas-de-leão de três metros de altura, mas se sentia no dever de dizer alguma coisa.
Quero saber se quando a gente quebra-lhe uma haste os dedos ficam com uma mancha preta.
Untcher olhou para ele.
Meu jovem, você tem uma pobreza franciscana no tocante à inspiração romântica. Não se preocupe com seus dedos. Ponha as luvas. E agora vamos continuar nosso giro.
Lenzer o seguiu. Untcher esgueirou-se por entre aquelas plantas maravilhosas, procurando atingir a margem. Não poderia ser difícil, tomando-se em consideração as pequenas dimensões da ilhota. Mas devido às enormes e altas folhas das touceiras, podia-se perder a direção.
Assim aconteceu que Thomea Untcher só percebeu o pequeno braço de mar que penetrava ilha adentro, quando seu pé já estava n’água. Assustado, puxou-o para fora, apoiando-se numa das grandes folhas da boca-de-leão, para não perder o equilíbrio.
Lenzer sorriu. Neste momento, Untcher olhou para trás e percebeu a expressão no rosto de Lenzer.
Não há motivo para caçoar, amigo. Acho que você deve saber, não melhor do que eu, que nestas águas estranhas há tão grande quantidade de animais de todos os tipos, que os catálogos arcônidas não são unânimes a respeito.
Lenzer não acreditava que numa água de um palmo de fundura pudesse haver tanta coisa assim. Mas, preferiu calar. Conhecia bem a capacidade de Thomea Untcher de, no seu modo aparentemente distraído e despreocupado de falar, confundir qualquer interlocutor, mormente quando não era da mesma opinião que ele. A pessoa acabava não sabendo mais o que tinha dito antes.
Sem largar a enorme folha, Untcher se inclinou, para poder ver melhor o mar.
Incrível, como pode haver tanta água — comentou sério.
Lenzer concordou com entusiasmo:
Mas isso não é só aqui, é em toda parte.
É verdade — disse Untcher, retirando-se da água com um galeio elegante. — Estou vendo que você é tão inteligente como eu. Um dia você ainda...
Alguma coisa o fez interromper a frase. A água do pequeno braço de mar começou a se movimentar. Naquele trecho, surgiram pequenas ondas que vinham se quebrar na margem. Thomea Untcher contemplava o fenômeno com expressão de perplexidade no rosto.
Neste momento, a superfície líquida se fendeu ao meio e apareceu uma cabeça. Que cabeça! Uma coisa de pele esverdeada, sem pêlos, estranhamente redonda, com dois olhos enormes, cujas pupilas pareciam escondidas atrás de uma cortina meio opaca, comum nariz pequeno demais e com o focinho largo de beiços finos. O animal a quem pertencia a cabeça, se movia muito rapidamente.
Não eram decorridos ainda cinco segundos desde o início das ondas, quando aquele estranho corpo coberto de escamas pulou para fora da água, não deixando nenhuma dúvida de que via os dois terranos como inimigos de sua segurança.
Cuidado, Lenzer! — exclamou Untcher.

* * *

Kayne Stowes estava convencido de que não poderia haver nesta ilhota nenhum perigo para a Finmark, mas apesar disso não deixou de cumprir seu dever, com muita atenção. A todo momento, seu olhar parava na tela panorâmica, que mostrava todo o espaço em volta da nave, permitindo-lhe uma visão ampla da ilha. De vez em quando, via a figura franzina de Thomea Untcher ou o alto e espadaúdo Phil Lenzer caminhando entre a densa ramagem.
Uma calma de sono e de solidão se espalhava sobre a tela, que ainda refletia a luz viva do sol. Os minutos iam se passando e Kayne Stowes começou a acreditar que estava ouvindo o zumbir de abelhas. Sentiu então uma vontade irresistível de abandonar seu posto para dar um giro lá fora e deitar um pouco no capim, sob aquele céu de um azul diferente.
A mesma coisa parecia acontecer com Ran Loodey. Estava sentado diante dos aparelhos de rádio e dava a impressão de saber exatamente que nas próximas horas não teria nada para fazer. Kayne ouvia de vez em quando o espreguiçar do colega e tinha a impressão de que Loodey queria despertar sua compaixão, para conseguir uma hora ou mais de descanso lá fora no ar puro.
Mas a Finmark ainda estava em estado de alarme. Nos ninhos de artilharia pesada, com tripulação reforçada, cada um achava-se mais atento que o outro. Havia muita gente acreditando que Thomea Untcher podia expressar sua exagerada mania de segurança de uma maneira mais útil e não sobrecarregar uma tripulação já com estafa, cansada de três dias de viagem ininterrupta, exatamente naquele mundo subdesenvolvido. Ali não havia nenhum perigo, e a primeira preocupação do comandante deveria ser de mandar todos dormirem pelo menos dez horas ininterruptas.
Mas as ordens de Thomea Untcher tinham muito prestígio. Ninguém ousaria abandonar seu posto. Ficavam de olhos fixos na mira automática, nas telas dos rastreadores e nos demais instrumentos de medição, até que a vista lhes começava a arder. Então convocavam seus substitutos, para descansarem um momento, todos, porém, convencidos de que faziam uma prontidão inútil.
Até que viram realmente que acontecia alguma coisa diferente lá fora.
Kayne Stowes acordou repentinamente de seu cismar, quando viu, por trás das grandes touceiras, um movimento quase fantasmagórico. Sabia perfeitamente que Untcher e Lenzer tinham se dirigido para outra direção. O que observara, não podia ser, portanto, nenhum dos dois.
Segundos depois, não tinha mais certeza se avistara mesmo alguma coisa. Fora tudo tão rápido, que podia crer num reflexo de seu esgotado sistema nervoso. Era um movimento de uma única folha da gigantesca boca-de-leão, embora a aerometria confirmasse que não havia vento nenhum lá fora. Mas isto não era propriamente uma prova.
No entanto, estava despertada a curiosidade de Kayne Stowes. Começou a prestar mais atenção nos movimentos em torno da nave, através da tela. Tentou medir a velocidade do objeto desconhecido — fosse o que fosse — e em que lugar haveria de surgir novamente. Constatou-se que ele errara redondamente. O objeto desconhecido era muito mais veloz do que poderia supor. Quando se mostrou pela segunda vez, os efeitos foram tão nítidos que Kayne não pôde deixar de vê-lo.
Lá estava um estranho diante da nave. Saíra de entre as touceiras. Estava agora no espaço livre que o campo de propulsão da Finmark produzira, arrancando da terra e atirando para mais longe os arbustos da tal boca-de-leão.
Kayne Stowes examinava a estranha criatura. Sabia existir em Opghan uma raça muito singular, à primeira vista com a aparência de humanóides. Um exame mais demorado, porém, indicava algumas transformações interessantes, provenientes de um contato permanente com o mar durante muitos milênios. Apesar disso, a primeira impressão foi chocante e o assustou bastante. O homem, de pé diante da nave, era de estatura normal. Como indumentária não trazia no corpo mais do que se esperava de um habitante da África Central há alguns anos. Seu corpo reluzia e a água escorria em pequenos filetes de todos os seus membros. Uma pele, constituída por grandes escamas, completavam a estranha figura.
Kayne Stowes deixou a mão escorregar para frente e apertar o botão de alarme geral, num movimento mecânico, impensado. As sirenes soaram em toda a grande Finmark. Como se tivesse ouvido o forte apito, o estranho desapareceu no mesmo momento, num movimento tão rápido que dava a impressão de poder se dissolver no nada.
O sargento Loodey estava muito assustado.
Prepare um grupo de vinte homens e desçam logo para a ilha — ordenou ele. — Alguma coisa de anormal se passa lá embaixo e eu quero saber exatamente o que é.
Todo o cansaço e sonolência desapareceram de repente de Loodey. Já enquanto estava dando a ordem, escolhia mentalmente os homens que ia levar. Stowes, apenas virou-se para trás e pegou o microfone do intercomunicador para dizer os nomes dos homens.
Kayne Stowes estava a par da situação melindrosa em que se encontravam Thomea Untcher e Phil Lenzer. Havia seres estranhos na ilha e sua atitude não era de gente pacífica. Opghan era uma colônia arcônida. Os éfogos, por mais primitivos que fossem, sabiam o que era uma espaçonave. Portanto, o estranho não se assustara com a aparência da Finmark. Queria esconder-se.
Stowes apanhou o microfone que o ligava diretamente com Untcher e Lenzer. Mas antes de poder dizer as primeiras palavras, ouviu a voz forte de Untcher em tom de comando:
Defenda-se Lenzer, cuidado!
Os pensamentos lhe giravam em remoinho na cabeça. Que havia acontecido com Untcher e Lenzer? Onde estavam? Quem os atacava?
Não teve mais tempo de se preocupar com isto. De um momento para o outro, o local onde a Finmark descera estava lotado de seres com a pele em forma de escamas esverdeadas. Atacavam a espaçonave. Mas era um espetáculo ridículo. Não tinham arma de espécie alguma, carregavam apenas um pequeno cilindro metálico que brilhava no ar. As portas blindadas das comportas estavam tão bem fechadas que nada poderiam fazer, a não ser que dispusessem de um canhão térmico.
Mas na cabeça de Kayne Stowes continuava a suspeita de que os estranhos sabiam o que estavam fazendo. Eram seres primitivos, mas conheciam de sobra uma espaçonave e não iriam atacar um colosso de metal, com apenas um pequeno cilindro metálico. A situação parecia irreal e Kayne Stowes não sabia mesmo o que fazer. Além de tudo, atacavam por baixo a Finmark, escapavam, logo depois, pela parte inferior da curvatura, das objetivas e ninguém mais podia saber o que estavam fazendo.
Na cabeça de Stowes passou o pensamento de se utilizar dos canhões pesados, a fim de livrar as imediações da Finmark de qualquer perigo. Mas o alcance da artilharia era forte demais para a diminuta ilha. E ninguém podia garantir que os disparos não atingiriam também a Untcher e Lenzer.
Neste meio tempo, Ran Loodey reunira seu grupo de ação. Nenhum deles tinha a menor idéia do que acontecera. Loodey os instruiu com poucas palavras:
Vamos prender os estranhos ou expulsá-los daqui.
À frente dos seus, deixou a sala de comando, percorrendo o mesmo caminho até a comporta menor, por onde Thomea Untcher e Phil Lenzer haviam saído.
Ran Loodey era um homem que não conhecia a palavra hesitação. Deram-lhe uma missão — expulsar das imediações da Finmark os seres estranhos com pele escamosa e exatamente isto ele faria.
Seria ridículo acreditar que aqueles estranhos estivessem em condições de resistir. Provavelmente teriam que ferir alguns deles com suas poderosas armas, a fim de assustar os demais e convencê-los da inutilidade de resistir. Depois exigir que se entregassem pacificamente.
Estava tão certo de que liquidaria sua missão em poucos segundos, que nem perdeu tempo de puxar o capacete para frente e atarraxá-lo com a peça do ombro. De arma em punho, o sargento pulou da escotilha externa para o chão macio da ilha e seus homens o imitaram com a mesma agilidade.
O inimigo estava presente em toda parte. Ran Loodey não podia saber o que os estranhos estavam procurando achar nas paredes externas da Finmark e para que serviam as pequenas “garrafas térmicas”, que estavam manejando. Mas foi somente o fato de alguém estar mexendo em qualquer coisa da Finmark, sem a devida autorização, que fez o espírito disciplinado de sargento se revoltar em Loodey. Com uma voz de trovão, comandou:
Atacar, rapaziada!
O pele-escamada mais próxima distava três ou quatro passos de Ran Loodey. Estava ajoelhado no chão, com o corpo apoiado, de tal modo que se adaptava às formas externas da grande nave, tinha na mão o pequeno cilindro de metal, sobre cuja função ninguém estava certo. Aparentemente, o pele-escamada o esfregava nas chapas de aço da Finmark. Viu que Loodey se aproximava, mas não se mexeu. Num movimento muito rápido, o sargento meteu a arma na cintura de novo, esticou os braços e pegou o éfogo pela cabeça. Com forte puxão, botou-o de pé, bem na sua frente e lhe deu um soco tão bem dado no queixo, que não tinha mais dúvida de que este adversário iria descansar ali pelo menos duas horas.
A luta se desenrolava por todos os cantos. Os homens de Loodey se abstiveram de fazer uso de suas pistolas. Os peles-escamadas não possuíam nenhuma arma e era contra a mentalidade terrana lutar contra um adversário desarmado, usando qualquer tipo de arma. Estavam lutando realmente só com as mãos. E como se dedicavam de corpo e alma ao que estavam fazendo, não demorou a se ouvir em toda a ilha os gritos de dor dos éfogos. Os nativos não foram tratados com muita brandura.
Depois que o próprio sargento havia deixado fora de combate quatro adversários, com seus poderosos punhos, não achou mais graça na luta tão fácil.
Parar! — reboou seu forte comando. — Isto não é luta para nós. Deixem que eles fujam.
Demorou uns instantes até que todos obedecessem. Quando os peles-escamadas foram liberados da pancadaria terrana e fugiram, restaram apenas sete ou oito, que não podiam se mover.
Ran Loodey se afastou sem dar maior importância ao adversário ou aos cilindros de metal, que estavam no chão por toda parte. Acudiu-lhe então o pensamento de que Kayne Stowes não procedera corretamente, dando a ele esta missão. De repente começou a ter pena dos nativos. Ficou ali parado, olhando para os pobres coitados. Causava-lhe grande alegria quando um ou outro voltava a si e começava a se mexer. Aos poucos, todos recobrariam os sentidos e haveriam de ir embora.
Ran Loodey resolveu então falar bem francamente com Kayne Stowes sobre aquela desagradável missão que lhe fora confiada.

* * *

Untcher se adaptou instantaneamente às novas condições. Antes mesmo que Phil Lenzer compreendesse o que estava se passando, Untcher já tinha revidado o primeiro ataque do ser desconhecido. Agora tentava obrigá-lo a voltar para a água. Lenzer queria vir ajudá-lo, mas não foi mais necessário. Com uma agilidade, que ninguém acreditaria existir nele, Untcher foi ao encalço do pele-escamada. Aí então não tinha mais importância alguma que ele entrasse ou não na água. Foi tocando o adversário para longe, até chegar com a água à altura do joelho. Depois armou o braço para um tremendo soco, atingindo em cheio o pele-escamada.
Ainda teve a calma de vê-lo cair na água com os olhos revirando. O éfogo afundou imediatamente, mas Thomea Untcher não tinha intenção de matá-lo ou deixar que se afogasse. Curvou-se e com o braço esticado apalpou o fundo do mar, naquela água turva, à procura do corpo do pobre inconsciente. Ficou surpreso em não encontrá-lo. Procurou mais uma vez, esquadrinhando o lugar. O braço de mar, naquele trecho tinha a largura de apenas um metro e meio. Não havia pois lugar para alguém se esconder, muito menos uma pessoa inconsciente.
Perplexo, Untcher foi andando mar a dentro, mas sem nenhum resultado. O major terrano continuou procurando, até que, de repente, já bem mais afastado da praia, emergiu a mesma cabeça que ele vira, há minutos atrás, surgindo ali no braço de mar. Untcher teve a impressão de que o estranho estava sorrindo. Viu que ele levantou o braço, como se quisesse abanar a mão e ouviu-o balbuciar qualquer som ininteligível. Depois disso, desapareceu e o mar voltou à sua calma de antes.
Em compensação, lá dos fundos, vinha uma grande gritaria. Ouviam-se gemidos e comandos gritados em inglês. Thomea Untcher pisou em terra firme. Voltaria para a Finmark. Tinha já esquecido o singular homem-peixe, que, ao ser projetado na água, recuperara os sentidos. Com uma voz dura, determinada, bem diferente de seu tom brincalhão, perguntou através do micro-rádio do capacete:
Stowes! Que está acontecendo?
Automaticamente, Phil Lenzer puxou o capacete para cobrir toda a cabeça, fechando-o totalmente. Ouviu a voz nervosa de Kayne Stowes responder:
Nativos atacam nossa nave, Sir. O sargento Loodey, com um punhado de homens, está lá fora tentando expulsá-los. Quase não opõem resistência. Loodey, aparentemente...
Untcher o interrompeu:
Dê ordem para que todos vistam o uniforme espacial completo, independente de estar dentro ou fora da nave. Entendido?
Perfeitamente, Sir... — respondeu Stowes hesitante, pois não compreendeu o significado da ordem.
Façam isso depressa, não temos tempo a perder. Fora disso, a situação não parece muito perigosa. Estamos indo para a Finmark. Fim.
Depois, esgueirando-se por entre as touceiras das grandes plantas, caminhava tão depressa, que Phil Lenzer não conseguia acompanhá-lo.
Perdão, Sir. — disse resfolegante, assim que o alcançou. — O senhor tem suspeita de algum perigo iminente... estou perguntando isto devido à ordem de vestirem o uniforme espacial.
Nada de especial — respondeu Untcher em tom seco, sem diminuir o ritmo de seus passos. — Você reparou no ser contra quem lutei?
Claro que reparei.
Bom! Mas que foi que você reparou de estranho nele?
Lenzer gaguejou.
Que sua pele era esverdeada e tinha escamas.
Homem inteligente! — disse irônico. — Nada mais do que isto?
Não, não notei nada, não, senhor.
É o fato de ele trazer sempre um cilindro de metal debaixo do braço esquerdo e por este motivo não o suspendia, pois tinha medo de perder o tal cilindro... percebeu?
Lenzer confessou não ter reparado neste detalhe.
Você tem que desenvolver seu senso de observação, meu jovem — censurou-o Untcher. — Você pensa que os peles-escamadas levam seu café do lanche por aí, principalmente quando atacam uma espaçonave?
Lenzer ouvia meio assustado.
Quem sabe, estes homens-peixe conhecem algum tipo de gás venenoso por meio do qual esperam deixar fora de combate a tripulação da Finmark. É uma possibilidade. De qualquer maneira, temos de estar de olho.
Neste momento, penetraram no recinto de touceiras que circundavam a grande nave. Não havia mais sinal de Ran Loodey e de sua gente. O próprio inimigo também fugira. Apenas o chão muito pisoteado testemunhava a batalha aí travada.
Loodey provavelmente os aprisionou”, pensava ele, “e os levou para dentro da nave. Podia ter se lembrado de outra coisa melhor. Quem sabe os rapazes não estavam preparados para outra coisa...
Pelo micro transmissor do capacete, deu ordem a Kayne Stowes para abrir a escotilha menor e pulou para dentro, assim que a comporta deslizou para o lado.
Loodey já está aí com os prisioneiros? — perguntou a Stowes.
A resposta de Stowes parecia esquisita:
Ele está aqui a meu lado, mas não fez nenhum prisioneiro. E devo dizer-lhe que seu comportamento está meio esquisito.
Esquisito? — perguntou Untcher admirado.
Sim, Sir, ele me está incriminando de...
Está bem — interrompeu-o Untcher. — Já estou chegando.
A passos largos, caminhou na esteira rolante que funcionava no corredor central, para não perder nenhum segundo. Phil Lenzer o seguiu, perguntando a si mesmo de onde o baixote tirava tanta força assim, para andar tão depressa.
O quadro oferecido a Thomea Untcher, quando chegou à sala de comando, era mesmo singular!
Kayne Stowes não exagerara. O próprio Stowes estava de uniforme completo, com o capacete atarraxado, junto da poltrona do piloto. Perto dele, estava Ran Loodey e num grande círculo em volta dele conversavam alguns rapazes que tomaram parte na pancadaria e na expulsão dos homens-peixe. Ninguém do grupo de Loodey, nem mesmo o sargento estava de capacete fechado. Loodey parecia irritado, seu rosto afogueado indicava que a chegada de Untcher interrompera sua frase no meio.
Thomea Untcher foi até ao meio da sala. De um momento para o outro, não era mais o homem nervoso, alquebrado, nem o brincalhão que caçoava de todos e não levava nada a sério. O semblante e os olhos inteligentes inspiravam respeito. Sua voz foi rude, quando se dirigiu a Loodey, perguntando-lhe:
Dei ordem, sargento, para que todos usassem o uniforme corretamente. Por que seu capacete não está fechado?
Ran Loodey piscou os olhos e, por uns instantes, não sabia de que forma ia responder. Finalmente deu um passo à frente, na direção de Untcher, e disse com a maior desfaçatez:
O que eu faço com meu capacete não é da sua conta, Untcher. O senhor, Stowes e Lenzer não vão mais me dar ordem nenhuma. Somente eu é que...
Ia continuar no embalo, mas Untcher, com sua voz tranqüila, lhe cortou a palavra.
Muito bem, sargento, e como é que você chegou a esta resolução tão drástica?
Thomea Untcher estava com os olhos semicerrados, como se quisesse ler os pensamentos do sargento. Phil Lenzer podia observá-lo bem por sobre os ombros dos que o rodeavam. Estava admirado com a mudança que se registrara naquele homem simples e brincalhão. Sabia que, daí para frente, nunca mais iria zombar das atitudes de Untcher, por mais brincalhonas que fossem.
Isto também não é da sua conta, Untcher! — gritou Loodey furioso. — Já estou farto de ser comandado a vida toda. Agora sou eu quem mando em mim mesmo.
Venha aqui, sargento! — ordenou-lhe Untcher.
A ordem foi tão peremptória, tão categórica, que Loodey obedeceu sem se lembrar que antes dissera que seria o dono de si mesmo. Parou a um passo de Untcher, que o ficou observando por uns instantes, olhando diretamente nos seus olhos, como se esperasse descobrir alguma coisa que pudesse explicar o comportamento desconcertante de Ran Loodey.
Depois, com a maior calma deste mundo, disse:
Você está preso, sargento. Deponha suas armas.
Loodey parecia perplexo. Depois começou a rir. Gargalhava tanto, a ponto de arquear o corpo para trás, jogando a cabeça na nuca. Não parava mais de rir.
De repente Thomea Untcher se projetou para frente. Ninguém viu exatamente o que ele fez. Parecia ter atingido o pescoço de Loodey. A gargalhada de Ran Loodey parou num som gutural. Seu corpanzil avantajado bamboleou e se precipitou no chão com um baque surdo. Deu um suspiro e ficou inerte.
Thomea Untcher não se preocupou mais com ele. Agora olhava para os homens, que estavam ali de pé, entre ele e Phil Lenzer. Notou que intencionavam atacá-lo. Leu a irritação na fisionomia deles e sabia que estavam do lado do sargento.
Phil Lenzer ainda não reparara isto. E, se todos aqueles homens atacassem ao mesmo tempo, Untcher iria sofrer um bocado. Untcher sacou a arma e a apontou para o grupo de Loodey, dizendo quase amavelmente:
Sei o que vocês estão pensando, minha gente, mas garanto que não vão chegar a isto.
Sua voz mudou de tom:
Deponham as armas, imediatamente!
Os homens hesitaram. Eram oito e tinham contra si apenas três. Mas Untcher, o mais perigoso dos três, esticou o braço, apontando a arma para o peito do mais próximo do grupo de Loodey.
Vou contar até três... meus amigos.
E começou. Não tinha ainda acabado de pronunciar o dois, quando todas as pistolas foram atiradas no chão e, sem que Untcher o tivesse exigido, todos ergueram os braços.
Enfiou a arma novamente na cintura. Ninguém notou qualquer reação em sua fisionomia. Ordenou a Phil Lenzer que levasse o pessoal para prendê-los num local seguro, bem como o sargento Ran Loodey, que ainda estava sem sentidos.
Depois perguntou a Stowes:
Onde estão os outros homens que se achavam com Loodey lá fora, durante a peleja com os nativos?
Todos voltaram a seus postos, Sir.
Isto você está dizendo, mas quero saber de fato onde estão todos.
E dizendo isto Untcher olhou em volta.
Convoque todos eles — ordenou a Stowes — de convés em convés e em todos os ninhos de artilharia.
Como se estivesse sonhando, Stowes ligou o intercomunicador. Começou pelo convés A, num ninho de metralhadora pesada, equipado com reforço, desde que a Finmark entrara em estado de alarme.
O quadro, oferecido pela tela panorâmica, foi simplesmente assustador. Os homens estavam deitados pelo chão, fumando, em meio a acalorada discussão. Nenhum deles, mas nenhum mesmo, estava sentado no lugar onde devia.
Kayne Stowes levou bom tempo para dominar a algazarra com sua voz estridente, tal era o berreiro lá dentro. Ninguém deles se deu ao trabalho de se levantar. Um deles, depois de compreender a ordem de Stowes, exclamou:
Mais tarde, passaremos por aí, agora temos coisa mais importante para discutir.
Foi tudo. E por mais que Stowes esbravejasse e gritasse, não conseguiu nada com os homens.
Desligou o intercom e virou-se para Untcher, branco como cera e de olhos arregalados. Os lábios se moviam, sem produzir nenhum som, como se Stowes não tivesse mais força para formar palavras. Untcher veio em seu auxílio.
Eu disse “todos” — repetiu com calma — de convés em convés e em todos os ninhos de artilharia...
Stowes se virou de novo para religar o intercom, mas se deteve de repente, interrompendo o que ia fazer. E erguendo os braços na direção de Untcher, gritou com voz histérica:
Que é isto, Sir? Será que o diabo entrou no corpo desta gente?
Thomea Untcher apenas sorriu.
Não lhe posso dizer, Stowes — respondeu ele. — Há uma coisa estranha, misteriosa. Temos de descobri-la.

* * *

Mas o que acharam foi coisa bem diferente.
De toda a tripulação da Finmark, apenas quatorze homens estavam dispostos a obedecer às ordens de seus oficiais superiores. Os demais, a maioria, apresentavam uma atitude de renitência, até mesmo de rebeldia, de tal maneira que Thomea Untcher receava, com razão, que, dentro de pouco tempo, chegariam à idéia de se apossarem da nave.
Já que, pelo menos no momento, ainda não estava bem claro sobre o que pretendiam fazer, Untcher aproveitou a ocasião e travou, por meio da ligação de emergência, todas as escotilhas da Finmark. Em seguida, mandou injetar, através dos tubos de aeração, dióxido de carbono nos aposentos onde se encontravam os amotinados. Assim, em poucos minutos, conseguiu afastar o perigo iminente. Mas com a testa banhada em suor, Untcher não se esquecia de que, nestes minutos, a Finmark estava quase indefesa e de que o inimigo desconhecido teria tempo para atacar uma segunda vez.
Porém os minutos se passavam, sem que nada acontecesse. Num trabalho cansativo e paciente, os homens que causaram perturbações foram abrigados um por um na sala dos oficiais, e ali aprisionados com todo conforto. Untcher lhes deixou a possibilidade de entrarem em contato com a sala de comando, pelo intercom, e isto tinha sua importância, caso mudassem de idéia e resolvessem portarem-se como soldados responsáveis.
Depois mandou investigar quantos médicos havia entre os quatorze. Havia apenas o Dr. Dunyan. O comandante encarregou-o de fazer um exame no sargento Loodey. Dunyan era muito competente e Untcher podia se dar por feliz pelo fato de o médico não estar entre as vítimas do estranho fenômeno.
Dunyan começou seu trabalho, primeiramente examinando o ar a bordo da Finmark. Abstraindo-se, porém, da elevada concentração de dióxido de carbono, não se constatou nenhum elemento estranho. Estava então quase certo de que os amotinados tinham sido de fato vítimas de um gás desconhecido, pois os dezessete restantes, que, cumprindo as normas gerais e as ordens expressas do comandante, usaram o uniforme com o capacete fechado, achavam-se livres do mal, exatamente pelo uso do capacete atarraxado ao uniforme espacial.
No entanto, as medições do Dr. Dunyan pareciam querer refutar esta teoria.
O exame minucioso procedido em Ran Loodey também não apresentou resultados sensacionais. O sargento estava sem sentidos e não apresentava outros sintomas, a não ser os que são normais num homem atingido por uma forte e bem centrada cutilada. A única coisa que Dunyan podia dizer de positivo era que Loodey, quando voltasse a si, teria dificuldade para engolir.
Quanto tempo o senhor leva para fazer um exame profundo, doutor? — foi a pergunta de Untcher, depois de ouvir o seu relatório. — Digo “profundo”, no sentido de que o senhor possa indicar o que corre nas veias do sargento e qual a razão de seu procedimento maluco.
Dunyan fez um cálculo de quatro para cinco horas. Untcher ordenou-lhe que começasse imediatamente, mas reduzisse o prazo para duas ou três horas. Dos quatorze homens que restavam, selecionou dois para auxiliar Dunyan. Os outros, ele os reuniu na sala de comando, para trocar idéias.
Lá fora o sol se punha. A temperatura começou a cair assustadoramente. A fina atmosfera de Opghan fazia o calor, que fora acumulado durante o dia pelo imenso oceano, desaparecer. A água do oceano era extremamente pobre em sal. Uma hora após o pôr do sol, o oceano, que cobria 99,5% de todo o planeta, começava a gelar e a ilhota, onde estava a Finmark, ficava então cercada por gelo.
3



Durante a noite, o medo se apoderava dos seres cobertos de escamas esverdeadas, no fundo do mar. Há muitos séculos atrás, nos primórdios de sua história, não conheciam cidades fixas e fugiam assim da noite, quando esta se abatia sobre o mar. Corriam sempre para o oeste, atrás do sol. Quem ficasse para trás, morreria, pois o éfogo, por natureza, não tinha condições de descer para as profundezas do oceano, onde não haveria mais a grande diferença de temperatura e a água não congelaria.
A princípio eram eternos nômades.
Num período de sua existência um éfogo dava, pelo menos, dez voltas em torno de seu planeta. A primeira, no cesto flutuante de sua mãe; as outras, com as próprias forças. As minúsculas ilhas pelo gigantesco mar — ao todo, três mil seiscentas e trinta e quatro — eram o ponto de encontro e de repouso, na contínua marcha atrás do sol.
Depois chegou o tempo em que apareceu o motor. A partir daí, os éfogos não precisavam mais fugir do frio nadando na direção do poente. Atravessavam o mar em grandes barcos e sua vida estava livre de tantos perigos. No seu subconsciente, porém, persistia o fantasma do medo. Quando o sol iniciava sua retirada, começavam a tremer, com pavor de ficarem para trás e morrerem congelados. O éfogo podia suportar uma forte pressão da água em mar fundo, não suportava, porém, temperaturas abaixo de duzentos e cinqüenta graus absolutos.
A época dos barcos a motor não foi muito longa, como se podia imaginar, porque os éfogos fizeram a maior descoberta de toda a sua história. Vieram a conhecer as canáceas, plantas semi-inteligentes da família das gramíneas, cujas hastes ocas penetravam até as profundezas do oceano. Constataram que estas canáceas misteriosas estavam dispostas a viverem em harmonia com os éfogos, podendo lhes ser muito úteis, com a condição de que os nativos se comprometessem a não permitir que suas raízes fossem vítimas das poderosas mandíbulas dos hchour, peixes selvagens do mar.
A cooperação mútua se desenvolveu para o bem dos dois lados. Os ferozes hchour eram, também, inimigos dos navegantes éfogos, pois não havia salvação para quem fosse vítima de seus dentes afiados.
Os éfogos começaram a construir suas cidades no fundo do mar e as canáceas lhes forneciam o ar necessário. Estas gramíneas maravilhosas faziam um sinal especial, sempre que surgisse por perto um peixe hchour, e os éfogos saíam logo em grupo para matá-lo ou afugentá-lo. Por cinco longos anos de Opghan, esta operação se repetiu com tal eficiência, que estes peixes selvagens não mais se atreviam a chegar perto das cidades submarinas. Descreviam uma grande volta, assim que vissem o grupo de nativos.
Continuava, porém, uma fobia quase que hereditária nos éfogos, era o medo da escuridão. As canáceas, cujos talos e raízes penetravam bem para o fundo do mar, e sentiam os efeitos da mudança radical do dia para a noite, trocavam de cor, assim que o sol desaparecia. Os éfogos logo compreenderam o motivo desta alteração: a planta passava para um outro tipo de metabolismo que lhe permitia suportar, nas partes mais elevadas de sua vegetação, o frio horrível da noite ou a forte pressão do gelo, sem se prejudicar.
Quando os talos das plantas, que através dos tetos, penetravam nas moradias dos éfogos, passavam do verde para o azul-turquesa e, finalmente, para o roxo, os homens-peixe sabiam, sem consultar o relógio, que lá em cima, na superfície, o sol descambara no poente e a água do mar começava a gelar. Era nesta hora que lhes sobrevinha o medo, o velho e invencível pavor da criatura inteligente diante das forças da natureza. Medo este que perdura, até hoje, nos mais elevados estágios da civilização.
Naquela tarde, a situação não era diferente.
Grghaok, o ancião que os estranhos peles-escamadas não quiseram receber, por lhes parecer demasiadamente alquebrado, estava sentado em seu diminuto aposento. Observava, com medo, a grossa haste da canácea que se tornava cada vez mais escura, até que, devido à deficiente iluminação do quarto, parecia completamente preta. Nos tempos de sua juventude, havia presenciado e tomado parte nos grupos de éfogos que nadavam, tentando acompanhar a direção que o sol tomava. Lembrava-se mesmo de ter dado volta pelo planeta no cesto flutuante de sua mãe. Mais tarde, vieram os barcos a motor e ele, já crescido, não teve mais de cansar os músculos.
Grghaok acendeu uma outra luz e teve medo. Olhou para a haste da planta, no trecho em que varava o teto, esperando que o talo preenchesse todo o espaço da abertura. Assim não sentiria frio e nem veria a escuridão, que reinava lá fora.
Grghaok lembrou-se da observação que fizera na tarde daquele dia.
Coisa estranha”, pensava ele, “quando me lembro de Chchaath, me vem à cabeça a idéia de escuridão.
Vira-o, quando este passava pela rua com o cilindro metálico debaixo do braço, dirigindo-se para a grande comporta. Grghaok possuía a curiosidade infantil, característica dos anciãos. Interessava-se loucamente por saber o que pretendia Chchaath com aquele cilindro. Tinha, porém, plena certeza de que o vigia o impediria de entrar.
A esperança do velho era que Nrrhooch soubesse de alguma coisa, embora não pudesse compreender bem de que maneira Nrrhooch podia receber estas informações. Seu amigo trabalhava nas plantações lá fora, onde as novidades custam a chegar.
Com o passar do tempo, a curiosidade do ancião aumentava incrivelmente. Nervoso, começou a andar no quarto de um lado para o outro, soltando umas palavras um tanto pesadas, quando tropeçou numa cadeira. No momento em que Nrrhooch chegou, estava tremendo de ansiedade.
Que Nrrhooch estava muito cansado, via-se facilmente em seus traços fisionômicos. As escamas estavam tão separadas umas das outras, que pareciam poder cair a qualquer momento. Jogou-se na cama com um suspiro de cansaço, cruzou os braços sobre o peito, fechando os olhos, ainda com a respiração apressada.
Grghaok sabia que lhe teria de dar uns minutos, até poder iniciar qualquer conversa. Os estrangeiros obrigavam os homens a um trabalho muito duro e, ai daquele que não desse a um homem como Nrrhooch ocasião de distender um pouco os músculos e os nervos, depois de tantas horas de trabalho.
Após alguns minutos, quando Nrrhooch levantou-se e espreguiçou-se para preparar sua refeição, Grghaok lhe perguntou:
Você ouviu alguma coisa sobre Chchaath?
Nrrhooch se irritou com a pergunta.
Que os peixes carnívoros, os hchour, o devorem inteirinho. Não, não sei de nada. Será que há alguma coisa para se comer?
Grghaok sorriu.
Não se preocupe com sua refeição, meu jovem. Já deixei pronta para você. Está aí atrás no fogão. Tire e coma. Vai se admirar de que...
Surpreso, encaminhou-se para o fogão. Abriu a tampa do forno, que impedia a saída do calor e puxou com os dedos o recipiente metálico, abrindo-o em seguida. Cheirou antes e arregalou os olhos de admiração.
Barbatana de lkhregh! — disse surpreso. — Couve-flor! Grghaok, você está gastando demais nosso pouco dinheiro, hein?
Parecia não estar preocupado com o lado da economia. Seu rosto indicava grande contentamento. Grghaok se defendeu:
Não custou tanto assim, não. Arranjei isto bem barato. Sabia que você ia gostar muito.
...e assim concordar mais facilmente com você, não é? — disse rindo. — Não é isso? O que você está querendo, hein?
Grghaok sentou-se na cama, onde Nrrhooch estivera deitado há pouco.
Está para acontecer alguma coisa, Nrrhooch — disse em voz mais baixa. — Muito raramente, Chchaath aparece aqui na cidade. Se quisermos fazer alguma coisa para recuperarmos a liberdade, temos de fazê-lo agora, antes que Chchaath fique para sempre na cidade, com intuito de observar todos os nossos passos.
Nrrhooch não se deixou interromper e continuou gulosamente a saborear o bom prato, quase sem mastigar. De repente fez um gesto com a mão e disse:
Você sabe, tão bem como eu, Grghaok, que não podemos fazer simplesmente nada. Enquanto não possuirmos as armas dos estrangeiros e morrermos de medo por qualquer coisinha, como uma porta que se abre automaticamente ou uma lâmpada que acende, sem que se aperte o interruptor, não teremos nenhuma chance.
Grghaok inclinou o corpo mais para frente.
É isto mesmo, Chchaath não está aqui. Pelo que sei, vai ficar muito tempo fora. Podemos penetrar em sua casa e olhar o que há lá dentro.
Nrrhooch arregalou os olhos.
Entrar na casa de Chchaath? Você está maluco? Se o guarda perceber, seremos expulsos da cidade e nenhum outro lugar vai nos querer aceitar.
Grghaok fez um gesto com a mão.
Se perceber!? Mas isto não vai acontecer.
E, como é que sabe disso? Grghaok virou-se para trás, dizendo:
Lchox, saia daí!
Moveu-se alguma coisa na parede. Uma chapa de material plástico soltou-se e bateu no chão com barulho. Surgiu uma abertura.
Um homem-peixe de rosto enrugado e amarelado, da mesma idade de Grghaok, olhava-os.
Nrrhooch deu um pulo.
Que é isto? Vocês dois estão loucos? Se...
Lchox saiu do esconderijo e alisou as escamas.
Se... Se... — interrompeu Grghaok com desdém. — Se no nosso tempo de jovens tivéssemos repetido tantas vezes o “se”, ainda estaríamos nadando atrás do sol, ao invés de morarmos em cidades quentes e seguras.
Com gesto autoritário, que parecia não combinar com sua figura pequena, quase raquítica, apontou para a abertura na parede.

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