Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A morte de
um robô provoca uma crise
interestelar
e uma ação policial da Terra.
Com o
descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada foram
lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade
terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém
podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de
ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este
Império frente aos ataques internos e externos.
A mais
séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos
druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada
graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna,
provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif foi removida por
Gucky.
Porém,
um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando
houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver
ainda um longo caminho...
O
próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a
gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro,
com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra
o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan,
agora com o nome de Imperador Gonozal VIII e Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, já por simples instinto de
conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não
faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre
Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar
estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da
Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Desta
vez, é um pedido de socorro — um governador arcônida em perigo de
vida — recebido via telecom, que faz com que a Finmark, um cruzador
da classe Estado se desloque para o mundo das águas Opghan E o Major
Thomea Untcher, com toda a sua tripulação, dá de encontro com O
Inimigo Oculto.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Thomea
Untcher
— Major
da Frota Espacial, cujas qualidades se escondem em sua simplicidade.
Ran
Loodey
— Sargento
que aceita as ordens do inimigo.
Pthal
— Robô
barbaramente assassinado.
Grghaok,
Nrrhooch
e Lchox
— Homens-peixe
que odeiam os estrangeiros opressores.
Nathael,
Echnatal
e Aktar
— Mercadores
galácticos... sempre inescrupulosos.
1
Com a
expressão de abstraído num grande pensamento, Pthal fitava a
singular formação daquela canácea, da família das gramíneas, que
subia elegante até desaparecer no forro do aposento; ocupava tão
densamente o orifício por onde passava, que não havia perigo de
penetração da água da chuva.
Pthal era
um daqueles indivíduos, dos quais se podia esperar que jamais
chegassem ao estado de travarem verdadeiros monólogos. Porém, era o
que estava fazendo naquele momento:
— Planta
interessante, esta canácea.
Foi neste
exato momento que a porta se abriu, entrando um homem que Pthal
jamais havia visto. Sobre suas intenções, não podia pairar dúvida.
Empunhava uma pistola de cano curto e logo começou a dispará-la.
Pthal foi
atingido. O disparo paralisou seu estranho sistema nervoso. Em estado
de completa consciência, sem porém sentir dores, dobrou os joelhos
e caiu no chão.
O
estranho, parado junto à porta, detonou mais uma vez, mas devido à
brusca queda de Pthal, não atingiu o alvo. A parede atrás de Pthal
produziu um chiado esquisito e, quase instantaneamente, a matéria
plástica derretida escorria no soalho em camadas incandescentes. As
hastes da canácea começaram a se contorcer.
Pthal
aproveitou o tempo para estudar o estranho invasor e assassino. Sabia
que não ia escapar vivo daquele ferimento que, certamente, em pouco
tempo o levaria à morte. Não podia fazer outra coisa, do que
obedecer aos seus deveres. Captou bem a imagem do estranho com seus
grandes olhos, tentando conservar cada detalhe em sua descomunal
memória.
O invasor
teve tempo de corrigir a pontaria, em compensação levou mais tempo
para fixar a fisionomia de Pthal, cujo maior dom era reagir de modo
barbaramente rápido. Resolveu então, antes que o estranho
adversário pudesse disparar pela terceira vez, que o melhor castigo
a ser-lhe imputado devido à agressão insidiosa teria de ser a
morte. Escolheu a mais potente de suas armas e abateu o inimigo
desconhecido em meio ao clarão ofuscante de uma explosão.
Após
isto, Pthal deitou-se de lado. O movimento consumiu boa parte de suas
forças e sentiu que lhe restavam poucos instantes de vida. Começou
a “lembrar-se”
do estranho que matara há pouco. Isto é, evocou em sua memória as
impresões ali armazenadas, tentando transmiti-las, sem usar uma só
palavra, para o local onde esta mensagem seria recebida com muito
interesse e onde seriam iniciadas as providências para se localizar
o foco de inquietação em Opghan.
Se lhe
fosse possível ter sentimentos, Pthal estaria agora se lamentando
pelo fato de não conseguir mais pôr em prática o que pretendia.
Seu ferimento foi de gravidade maior do que ele mesmo “pensava”.
Não lhe foi possível medir bem as conseqüências do ferimento,
exatamente por não possuir os órgãos necessários para isto. Mal
iniciou os primeiros sinais de sua mensagem, as forças lhe faltaram.
Mas, mesmo neste transe, cumpriu com o seu dever. No derradeiro
bruxulear de suas forças, ainda conseguiu transmitir os sinais do
código que significavam que nem tudo estava em ordem em Opghan.
Depois, só
restou um Pthal inerte — um robô que foi destruído no cumprimento
de seu dever.
*
* *
Em Árcon
III, foram captados não somente os sinais em código, significando
anormalidade no ambiente de Opghan, mas também alguns impulsos
indecifráveis que os precederam. Sabia-se que Pthal queria iniciar
um relatório, mas foi impedido de fazê-lo. A maneira pela qual fora
impedido era mais do que evidente, pois os robôs só costumavam
emitir este tipo de alarme, no momento em que eram destruídos.
A morte de
Pthal provocou muita inquietação, pois era o funcionário mais
categorizado do Império, no sistema de Ep-Hog, no seu segundo
planeta, Opghan.
Opghan era
um mundo situado na periferia da zona de influência arcônida. Não
era nada improvável que o inimigo oculto, depois que Sua Majestade
Gonozal VIII assumiu o poder, acreditasse que haviam voltado àqueles
tempos em que o imperador e seus funcionários eram incapazes de
empreender ações que sufocassem rebeliões ou desordens.
Era
indispensável um processo criminal para abrir inquérito sobre a
morte de Pthal e se poder chegar ao responsável pelo atentado.
Sua
Majestade Atlan, que com o nome de Gonozal VIII imperava no Império
de Árcon, encaminhou à Terra um pedido de apoio. A seguir, recebeu
do Império Solar a promessa de que tudo seria feito de acordo com
seus propósitos.
*
* *
O sargento
Loodey era um homem cuja figura imponente, misturada com a expressão
de infinita seriedade em seu semblante carrancudo, impunha respeito a
todo mundo. O fato de que o homem, de estatura relativamente baixa,
que neste momento se encaminhava na direção de Ran Loodey, não
demonstrasse nenhum sinal do costumeiro respeito, irritou
profundamente o sargento, fazendo com que este desse um passo à
frente, antes da hora conveniente. Estava agora diante da entrada
para o patamar que conduzia, quase no mesmo nível, do oitavo andar
do edifício da administração para uma nave esférica estacionada
no espaçoporto. Tal patamar terminava numa abertura bem iluminada da
grande comporta de carga, mais ou menos na altura do primeiro terço
inferior da grande nave.
O baixote
parecia não haver reparado em Ran Loodey. Olhava simplesmente para a
frente, monologando com gestos nervosos. Loodey não tinha a menor
idéia de como ele chegara até ali em cima. Estava à paisana e a
entrada nos andares mais elevados era estritamente proibida a
estranhos ao serviço. A estupefação de Loodey se transformou em
cólera, quando viu que o baixo-te, sem olhar para ele, tentou
evitá-lo e seguiu na direção do patamar, sem se incomodar com as
formalidades obrigatórias.
— Pare!
— gritou ele, dando um passo à frente no sentido do patamar. —
Que está procurando?
O baixote
olhou-o, confuso. Fez depois um movimento nervoso com a mão,
apontando para o espaçoporto lá embaixo.
— Aquilo
lá — respondeu afobado. — Aquilo, como é que chama mesmo?
Ran Loodey
acenou gravemente com a cabeça.
— Ah!
Sei, a nave, mas qual delas?
O baixote
replicou:
— Meu
Deus, como há gente boba neste mundo. Aquela ali, naturalmente. Aqui
por perto não há outra, ou você está vendo alguma?
Loodey não
perdeu a calma.
— E o
que você pretende fazer naquela nave, meu amigo?
O baixote
piscou os olhos.
— Primeiramente,
não sou seu amigo.
Pelo menos
não, enquanto você me tratar assim. Segundo, a pergunta está
errada. Eu não pretendo fazer nada naquela nave, eu quero é dormir,
estou muito cansado.
Loodey
quase perdeu o fôlego. Quando se controlou, gritou para o baixote:
— Será
que você acredita que as naves da Frota Solar são um asilo para os
desabrigados? Vamos parar por aqui, por favor.
O baixote
atendeu, protestando; e por mais “desajeitados”
que fossem seus movimentos de protesto contra a ira de Ran Loodey,
tornaram-se suficientes para obrigá-lo a ficar quieto. O homenzinho
tinha algo que deixava Loodey confuso: autoridade.
— Pare
de gritar — pediu ele com voz muito fraca. — Você me faz sentir
mal e eu não sou surdo.
— Está
certo — disse Loodey, já cedendo um pouco. — Então vou lhe
dizer bem baixinho: você deve desaparecer daqui. Entendeu?
— Não!
— foi a resposta. — Por que tenho que desaparecer?
— Porque
não tem nada a procurar por aqui, entendeu agora?
— Como é
que você sabe disso? Meu nome é Thomea Untcher.
Apesar de
toda sua ira, Ran Loodey começou a rir.
— Não
deixa de ser um nome bonito, soa até muito bem, meu caro. Mas, mesmo
com um nome tão bonito assim, tenho que...
Seu
semblante se transtornou de repente, podia-se ver que sua memória o
estava traindo. Nervoso, perguntou em voz baixa:
— Como é
mesmo seu nome, senhor?
O baixote
começou a rir.
— Thomea
Untcher, sargento.
O rosto de
Ran Loodey de vermelho passou a pálido.
— Perdão,
senhor — disse sem jeito — estou realmente obrigado a pedir sua
identificação, o senhor compreende, não é?
Untcher
concordou com um sorriso afável. Enfiou a mão no bolso interno do
casaco, depois no de fora, sem nada encontrar. Tirou o casaco e
recomeçou a operação nos bolsos da jaqueta. Demorou um pouco, até
que apareceu o cartão de plástico. Loodey o pegou respeitosamente,
introduzindo-o na fenda do aparelho de controle, instalado em sua
mesa de trabalho. Sabia agora que tinha perdido a parada, mesmo antes
do sinal afirmativo uma luz verde acendeu-se.
O cartão
plastificado saltou do aparelho. Loodey o entregou ao baixote com uma
saudação sincera e um pedido de desculpa.
Untcher
respondeu com um afável, mas distraído aceno de mão.
— Não
se preocupe. Não foi nada.
E dizendo
isto encaminhou-se para o patamar. A esteira rolante o levou, através
da densa cortina de ar quente, que isolava o interior do edifício do
frio da noite, para o hall da escotilha bem iluminada da Finmark.
Ran Loodey
não acreditava mais tornar a ver o rosto daquele homem; ficou
surpreso quando, antes de entrar na escotilha da grande nave, o
baixote lhe acenou. Loodey olhou contente, até que Untcher sumiu de
vista. Sacudiu a cabeça pensativo. Conhecia muita gente notável,
mas comandante como Thomea Untcher nunca vira antes.
*
* *
No momento
em que Nathael viu acender o ponto verde da grande tela de
rastreamento, teve plena certeza de que o plano não seria executado
como ele pretendia. A chegada daquela nave era a melhor prova de que
a morte de Pthal ia dar pano para muita manga.
Nathael,
cansado, passou a mão pela testa e, olhando mais uma vez para a
grande tela, ligou o aparelho para o registro automático. Ele não
estava muito interessado na rota da grande nave. O que ainda se podia
fazer para salvar a situação, ele só podia começar depois da
aterrissagem.
Nathael se
levantou e saiu da sala onde os aparelhos continuavam funcionando. Lá
fora, ofuscou-o a luz amarelada do sol, que entrava diretamente pelas
grandes janelas. Parou um instante indeciso, virando-se depois para
os três homens que estavam sentados comodamente perto da porta,
apesar de um deles não dar impressão de pertencer ao grupo que o
esperava.
— Já
estão chegando — disse Nathael, na língua que todos entendiam.
Os homens
se assustaram.
— Quem é
que está chegando?
Nathael
fez um gesto com a palma da mão esquerda, como para indicar que não
sabia de nada.
— Não
sei e não tem mesmo nenhuma importância quem sejam eles. Vêm aqui,
a fim de sondar as coisas e isto não nos pode interessar muito.
Um deles,
parecendo ser o mais jovem, dono de uma barba copiosa, fez um gesto
de desprezo.
— Nada
nos poderá acontecer, pois assim que descerem, nós...
Irritado,
Nathael bateu com o pé no chão.
— Nem
uma palavra mais! — gritou ele. — Tenho impressão de que nossos
pequenos sucessos subiram à cabeça de vocês, a ponto de esquecerem
as mais primitivas normas de segurança. Parecem crianças
inexperientes.
O jovem
barbudo não se deixou impressionar com tais palavras.
— Estou
me perguntando, Nathael, já há algum tempo — disse ele, medindo-o
dos pés à cabeça — se o seu sistema nervoso não ficou
demasiadamente abalado em conseqüência dos acontecimentos das
últimas semanas. Você está preocupado demais com a segurança.
— Você
acha, é? Então permita-me dizer-lhe — continuou Nathael — que
você é um grande garganta, que não tem a mínima noção da
capacidade e da riqueza de idéias do serviço secreto do nosso
adversário. Basta uma palavra dita sem muita cautela... e Opghan
vira uma fogueira.
Nathael
tinha nos lábios um sorriso amargo, quando concluiu:
— E sua
barba postiça será a primeira a pegar fogo.
O jovem
não disse nada. Não gostava que tocassem no assunto de sua barba
artificial, que realmente lhe dava uma bela aparência. Não podia
ter barba natural, pois tinha pele muito frágil. Sua cabeleira
também era postiça, mas Nathael sabia que a palavra barba o atingia
profundamente.
O segundo
homem entrou também na conversa:
— Terminaremos
tudo a tempo. Quanto tempo gastarão até a aterrissagem?
Nathael
queria fazer de novo o gesto de incerteza, interrompeu-se, porém,
dizendo:
— Três
ou quatro dias de décimos, penso eu.
— Isto
basta para nós. Estaremos prontos, quando descobrirem um local para
aterrissar. Não vão ter muita escolha. Depois, em poucas horas...
Dizendo
isto, virou-se para o terceiro, que até então permanecera calado.
— Já
está tudo pronto, não é, Chchaath?
Chchaath
apenas fez um gesto afirmativo, acompanhado por um sorriso de seus
lábios finos. Depois disse:
— Está
tudo pronto, sim — falava como se tivesse a boca cheia d’água. —
Estamos preparados até para receber uma frota inteira.
— Então
siga seu caminho! — ordenou-lhe Nathael.
Chchaath
se levantou, continuando a sorrir. Depois passou por uma grande
janela e contemplou por um instante a superfície das águas que
chegavam até aos alicerces do edifício. E com o reflexo das ondas,
refulgiam as escamas lisas de sua pele.
*
* *
Perplexo,
Ran Loodey olhava para a tela do rastreador.
— Pelos
deuses do espaço! Nada mais do que água, somente água!
Do fundo
da central se ouviu a voz do Major Untcher:
— O que
você queria? Esperava que fosse uísque?
— Nada
disso, Sir, quase não penso nos meus prazeres... O que quero dizer é
que teremos dificuldade em encontrar um lugar para aterrissar.
Untcher
sacudiu a cabeça.
— A
superfície de Opghan se compõe de noventa e nove por cento de água,
minto, de noventa e nove vírgula cinco por cento — disse com
firmeza. — Neste meio por cento, puxa vida, temos de encontrar um
cantinho para aterrissar.
Mas Ran
Loodey tinha lá suas dúvidas, isto é, não acreditava na
existência deste meio por cento, pois tudo que via da superfície do
planeta era somente água.
Uma visão
única, talvez impossível em outra parte!
A Finmark
já estava tão próxima de Opghan, que a enorme curvatura do planeta
começou a ultrapassar os limites da grande tela. Aproximavam-se da
metade iluminada, tendo já o sol amarelado pelas costas. Os últimos
raios do sol poente se espalhavam num lindo dourado pela imensa face
líquida e seus revérberos afogueados davam a Opghan como que uma
auréola de glória.
Além dos
reflexos do sol, a água parecia tingir-se de um preto denso. Do
outro lado do horizonte, porém, brilhava a atmosfera numa coloração
de um amarelo quente.
Era mesmo
um quadro singular, verdadeiramente impressionante, jamais visto por
ninguém da tripulação da Finmark. Com exceção de Thomea Untcher.
Este mal olhava para a tela panorâmica, tão preocupado estava com
outra coisa que lhe parecia muito mais importante.
A Finmark
já havia superado o difícil vôo e já se encontrava na fase das
manobras de descida. Não faltava mais nada para descerem em Opghan.
A dificuldade, notada de início por Ran Loodey, isto é, a falta de
terras, fora superada.
Thomea
Untcher pouco se preocupara com as manobras das últimas três horas.
Depois de uma viagem de três dias, a tripulação já estava
acostumada com seu modo de comandar e não estranhava mais. O próprio
oficial da radiogoniometria, cujo trabalho, por razões para ele
incompreensíveis, estava sendo feito pelo comandante, ficava até
contente com este descanso inesperado.
Thomea
Untcher se mantinha em silêncio. Não disse uma palavra sobre se
tinha descoberto alguma coisa importante, nas diversas telas e
escalas de medição do grande aparelho de rastreamento. Estava
tomando nota de tudo e, de vez em quando, sem causar sensação,
lembrava o primeiro-oficial de estar atento.
Isso foi
tudo. Ninguém supunha que tivesse notado alguma coisa diferente. Até
o momento em que se levantou — e isto coincidiu exatamente com a
hora em que Ran Loodey percebeu um ponto mínimo de uma ilhota no
meio da imensidão das águas — e com uma displicência que estava
em contraste com sua fisionomia preocupada, disse:
— Fomos
localizados, meus senhores. Os instrumentos estão registrando a
seqüência dos impulsos que nos localizam no espaço. Considerando
que o robô Pthal, na qualidade de primeira autoridade do planeta,
era o responsável por todas as instalações positrônicas de
Opghan, temos de admitir que, depois da morte de Pthal, alguém se
apoderou dos instrumentos e os está usando. Sargento Loodey, qual é
sua opinião?
Era um de
seus hábitos, perguntar a outras pessoas coisas, sobre as quais já
tinha uma idéia formada.
— Isto
quer dizer que — respondeu Loodey prontamente — que... que... —
e começou a gaguejar.
— Você
tem plena razão — disse-lhe Untcher com benevolência. — Já que
os nativos de Opghan estão muito atrasados tecnicamente e, por
certo, não estariam em condições de operar com um aparelho de
rastreamento, isto significa que em Opghan existe pelo menos um
estrangeiro experimentado e... provavelmente este será o homem que
motivou nossa vinda para cá.
E antes
que alguém compreendesse melhor a seriedade desta conclusão, Thomea
Untcher completou a confusão, explicando o seguinte:
— A
partir deste momento a Finmark está em estado de alarme de grau um.
Todos estejam atentos em seus postos. Lenzer, cuide para que todas as
torres de artilharia pesada estejam equipadas com dois homens. Vamos
ao trabalho, minha gente. Loodey descobriu uma ilhota. Vamos
aterrissar. Que estão esperando? Isto aqui não é uma excursão de
fim de semana.
E, de uma
hora para a outra, aquele baixote franzino se transformou numa fonte
de energia e determinação, contaminando beneficamente todos os
homens da tripulação, preparando-os moralmente para o que desse e
viesse.
*
* *
Com
paciência verdadeiramente de Jó, peculiar à sua raça, Chchaath
esperava, sentado diante do aparelho, pela última e definitiva
mensagem. Quando ela finalmente chegou, fazia mais da metade de um
dia de décimo, que estava ali sentado.
No
mostrador do instrumento apareceu um número de quatro algarismos da
escrita arcônida. Chchaath o leu e o guardou na memória. Depois
desligou o aparelho e se levantou.
No fundo
do grande aposento, onde se encontrava Chchaath, havia uma espécie
de armário. Chchaath abriu uma de suas portas e tirou de uma gaveta,
com o máximo de cuidado, um pequeno cilindro de metal brilhante.
Pesou-o numa das mãos, dizendo um palavrão.
1358. Não
poderiam ter escolhido lugar pior do que este, pois em menos de meio
dia de um décimo, o sol se punha sobre 1358. Neste curto espaço de
tempo, os homens tinham que dar conta do recado. Quando se
conscientizou de que não poderia perder nem um décimo de milésimo
de tempo, fechou abruptamente a porta do armário, botou o cilindro
metálico debaixo do braço e tratou de sair dali.
Sair de
casa era uma das coisas que ainda há uns dez dias atrás, lhe
causava medo, ao observar como a gente se movia lá fora. E dez dias
era muito pouco tempo, embora Chchaath já estivesse acostumado a
grandes mudanças. Tinha se habituado, por exemplo, com os olhares
hostis que recebia, ao passar pelas ruas. Não havia nelas mais o
movimento de antes, quando Chchaath era um dos muitos que costumavam
ficar parados pelas esquinas, batendo um papo com algum conhecido.
Agora, as
pessoas permaneciam mais tempo em suas casas. Chchaath sabia como
isto lhes devia custar sacrifício. Os habitantes de Ephog sempre
cultivaram a sociabilidade em alta escala. Pertenciam a uma pequena
comunidade, sendo que nenhuma cidade era tão grande que um habitante
não conhecesse bem o outro.
Agora, no
entanto, preferiam ficar parados em casa, quando não estavam
trabalhando lá fora nas plantações de psimo.
Odiavam os estrangeiros e sabiam o porquê.
Chchaath
pessoalmente não odiava os estrangeiros e levava vantagem nisso. Mas
os olhares, saturados de ódio, de seus velhos amigos o incomodavam
muito.
Chchaath
estava com muita pressa, andando a passos rápidos, não por saber
que, em menos de meio dia de um dia de décimo, o sol estaria
desaparecendo sobre 1358. Mas sim porque queria ver-se livre daquelas
ruas cheias de olhares rancorosos. Por isso, percorreu o trecho de
sua casa até o portão da comporta em quatro vezes menos tempo do
que normalmente fazia.
Ao vê-lo,
o vigia do portão da comporta o cumprimentou com muita atenção.
Chchaath agradeceu e esperou, pacientemente, uma parte da comporta
abrir-se para o lado.
Entrou com
passos rápidos na grande comporta, bem iluminada. Ali, já fora o
ponto de encontro mais importante da vida urbana. Havia
constantemente centenas de pessoas que não faziam outra coisa senão
olhar o embarque e desembarque de passageiros e de mercadorias, ou
trocar idéias sobre a agilidade dos pilotos ou sobre o modo de
vestir das pessoas.
Agora tudo
era diferente. Os barcos não chegavam nem partiam mais, com exceção
dos poucos que levavam ou traziam os trabalhadores para as
plantações. Ninguém, fora alguns privilegiados, tinha autorização
de penetrar no patamar da comporta. Não havia mais nenhum sinal de
vida. O que restava, eram as extensas instalações do cais e a luz
penetrante do sol amarelado, que fazia arder a vista.
O estado
de espírito de Chchaath, no momento, não era de querer perder tempo
com pessimismo. Olhou por toda a comporta e, não achando o que
procurava, começou a gritar. Sua voz soava abafada e com sons
guturais dentro do grande recinto. Com o eco veio a resposta do fundo
de algum barco.
Chchaath
virou-se para lá. Já havia caminhado a metade do trecho, quando
surgiu na beira do cais a figura de um homem alto e magro. O
desconhecido parou para esperar, enquanto Chchaath se aproximava.
— Estivemos
um pouco sumidos — disse se desculpando — e você esteve muito
tempo fora. Enquanto esperávamos, chegou algo dos planetas.
Pensávamos que não seria de todo necessário que o pessoal nos
visse, mesmo se houvesse vigias por perto.
“É
sempre a mesma coisa”,
pensava Chchaath desanimado. “Agora
estão um pouco melhor do que estiveram antes. Possuem tudo o que
precisam e se quiserem mais alguma coisa, os estrangeiros lhes darão.
Mas têm muito medo de sua própria gente, que eles traíram. E você
não tem necessidade de se excluir. Não são eles, somos nós.”
— Está
bem — respondeu Chchaath, com um movimento indeciso de seu braço
coberto de escamas. — O objetivo é treze cinqüenta e oito. Não
podemos perder tempo. Num quarto de décimo, a nave deve estar
desligada.
Desceu a
escada de pedra que levava do cais ao nível da água. O barco ali
estava, parecendo uma mancha escura na água tranqüila. Abriu-se uma
porta e Chchaath entrou. O homem alto e magro de fisionomia triste,
com as escamas escuras que se destacavam da pele, seguiu-o passo a
passo.
O interior
do barco não era outra coisa senão bancos. Estava escuro e Chchaath
sentiu mais o cheiro dos homens do que os viu propriamente.
— Vamos
embora, piloto! — soou sua voz na escuridão. — O destino é
treze cinqüenta e oito. Acelere o máximo que puder.
Sentou-se
e levantou com cuidado o braço, sob o qual segurava o cilindro de
metal. Os olhos se foram adaptando à escuridão.
— Não
temos um segundo a perder — explicou, enquanto o motor do barco
rugia forte, iniciando o movimento da embarcação. — O sol logo
irá pôr-se. Vocês já têm tudo à mão, prontos para entrar em
ação?
Ouviu-se
um sim abafado, que vinha de todos os cantos. Pegando na mão direita
o cilindro de metal, disse:
— Aqui
está o negócio — disse, passando o objeto metálico para o que
estava sentado mais próximo. — Esvaziem-no, mas com cautela.
2
— Com os
diabos! Sei que não há muita coisa para ver, mas gostaria de dar
uma olhada lá embaixo. Será que sua cabeça dura pode compreender
isto?
Ran Loodey
já estava perdendo a mania de se sentir ofendido com as expressões
um tanto grosseiras de seu comandante. Piscando o olho, mas com
expressão séria no rosto, respondeu:
— Talvez,
com o correr do tempo, Sir.
Untcher
soltou um suspiro e dirigindo-se a seu primeiro-oficial disse,
simulando um desespero cômico:
— Stowes,
preste atenção a este homem aí. Não lhe dê nunca um posto de
responsabilidade, pelo amor de Deus, pois ele só vê o inimigo,
quando seu pescoço está sendo cortado.
Stowes
bateu uma continência brincando:
— Às
ordens, Sir!
Untcher
fez um sinal para o segundo-oficial:
— Lenzer,
vamos sair. Mantenha a arma de prontidão.
Encaixou e
atarraxou o capacete em seu uniforme espacial. Já era um costume
para ele, e não esperava que ninguém o imitasse. A atmosfera de
Opghan era rarefeita como nas altas montanhas da Terra, mas bem
respirável. Não havia realmente nenhuma razão para alguém ter de
proteger-se com o uniforme espacial num ambiente daquele. Mas Thomea
Untcher tinha como princípio, em qualquer oportunidade, usar de toda
garantia, por mais exagerada que parecesse. Por exemplo, quando
entrava por uma porta fazia-o lentamente, com toda cautela. E agora
lá estava ele, na sua saída de inspeção da minúscula ilha, após
a aterrissagem da Finmark, com o pesado uniforme espacial.
Já o
Tenente Lenzer se contentava em puxar o capacete só até a testa, de
maneira que, mesmo assim, podia se utilizar do micro transmissor e do
receptor. Ia bem perto de Untcher e tomou a esteira rolante que
passava pelo corredor central até a escotilha menor. Em pensamento,
estava caçoando das exageradas medidas de precaução de seu chefe.
Thomea
Untcher passou pela pequena abertura, sem parar. Da soleira da
escotilha externa, a pouco mais de meio metro do chão, saltou
cuidadosamente, como se tivesse medo de levar um tombo. Olhou em
volta.
Os raios
fortes do sol castigavam o pequeno trecho de terra, com suas plantas
exóticas em forma de pequenas touceiras. Do chão fértil, brotavam
folhas carnudas de um verde-claro, que rodeavam num círculo protetor
uma haste cor-de-rosa, quase tão grossa quanto um galho, que se
elevava a uns três metros de altura, tendo no alto uma flor de um
amarelo-forte, parecendo muito com o girassol. Mas a planta em seu
todo se assemelhava mais a uma gigantesca boca-de-leão.
“Que
coisa esquisita”,
pensava Untcher, “e
não se pode esquecer que todas estas plantas exuberantes têm
somente cem horas de vida...”
Levantou o
braço e consultou o relógio.
— Têm
ainda só quatro horas de vida. Vão morrer de frio durante a noite.
E cem horas depois, quando o sol surgir novamente, de suas sementes
conservadas pelo frio vingarão novas plantas, que em duas horas
atingem o tamanho e a pujança destas que aqui estão — monologou.
Aproximou-se
de uma delas, observou-a atentamente de todos os lados e abanou a
cabeça:
— Coisa
singular, como a natureza é pródiga!
Lenzer não
estava interessado em ver bocas-de-leão de três metros de altura,
mas se sentia no dever de dizer alguma coisa.
— Quero
saber se quando a gente quebra-lhe uma haste os dedos ficam com uma
mancha preta.
Untcher
olhou para ele.
— Meu
jovem, você tem uma pobreza franciscana no tocante à inspiração
romântica. Não se preocupe com seus dedos. Ponha as luvas. E agora
vamos continuar nosso giro.
Lenzer o
seguiu. Untcher esgueirou-se por entre aquelas plantas maravilhosas,
procurando atingir a margem. Não poderia ser difícil, tomando-se em
consideração as pequenas dimensões da ilhota. Mas devido às
enormes e altas folhas das touceiras, podia-se perder a direção.
Assim
aconteceu que Thomea Untcher só percebeu o pequeno braço de mar que
penetrava ilha adentro, quando seu pé já estava n’água.
Assustado, puxou-o para fora, apoiando-se numa das grandes folhas da
boca-de-leão, para não perder o equilíbrio.
Lenzer
sorriu. Neste momento, Untcher olhou para trás e percebeu a
expressão no rosto de Lenzer.
— Não
há motivo para caçoar, amigo. Acho que você deve saber, não
melhor do que eu, que nestas águas estranhas há tão grande
quantidade de animais de todos os tipos, que os catálogos arcônidas
não são unânimes a respeito.
Lenzer não
acreditava que numa água de um palmo de fundura pudesse haver tanta
coisa assim. Mas, preferiu calar. Conhecia bem a capacidade de Thomea
Untcher de, no seu modo aparentemente distraído e despreocupado de
falar, confundir qualquer interlocutor, mormente quando não era da
mesma opinião que ele. A pessoa acabava não sabendo mais o que
tinha dito antes.
Sem largar
a enorme folha, Untcher se inclinou, para poder ver melhor o mar.
— Incrível,
como pode haver tanta água — comentou sério.
Lenzer
concordou com entusiasmo:
— Mas
isso não é só aqui, é em toda parte.
— É
verdade — disse Untcher, retirando-se da água com um galeio
elegante. — Estou vendo que você é tão inteligente como eu. Um
dia você ainda...
Alguma
coisa o fez interromper a frase. A água do pequeno braço de mar
começou a se movimentar. Naquele trecho, surgiram pequenas ondas que
vinham se quebrar na margem. Thomea Untcher contemplava o fenômeno
com expressão de perplexidade no rosto.
Neste
momento, a superfície líquida se fendeu ao meio e apareceu uma
cabeça. Que cabeça! Uma coisa de pele esverdeada, sem pêlos,
estranhamente redonda, com dois olhos enormes, cujas pupilas pareciam
escondidas atrás de uma cortina meio opaca, comum nariz pequeno
demais e com o focinho largo de beiços finos. O animal a quem
pertencia a cabeça, se movia muito rapidamente.
Não eram
decorridos ainda cinco segundos desde o início das ondas, quando
aquele estranho corpo coberto de escamas pulou para fora da água,
não deixando nenhuma dúvida de que via os dois terranos como
inimigos de sua segurança.
— Cuidado,
Lenzer! — exclamou Untcher.
*
* *
Kayne
Stowes estava convencido de que não poderia haver nesta ilhota
nenhum perigo para a Finmark, mas apesar disso não deixou de cumprir
seu dever, com muita atenção. A todo momento, seu olhar parava na
tela panorâmica, que mostrava todo o espaço em volta da nave,
permitindo-lhe uma visão ampla da ilha. De vez em quando, via a
figura franzina de Thomea Untcher ou o alto e espadaúdo Phil Lenzer
caminhando entre a densa ramagem.
Uma calma
de sono e de solidão se espalhava sobre a tela, que ainda refletia a
luz viva do sol. Os minutos iam se passando e Kayne Stowes começou a
acreditar que estava ouvindo o zumbir de abelhas. Sentiu então uma
vontade irresistível de abandonar seu posto para dar um giro lá
fora e deitar um pouco no capim, sob aquele céu de um azul
diferente.
A mesma
coisa parecia acontecer com Ran Loodey. Estava sentado diante dos
aparelhos de rádio e dava a impressão de saber exatamente que nas
próximas horas não teria nada para fazer. Kayne ouvia de vez em
quando o espreguiçar do colega e tinha a impressão de que Loodey
queria despertar sua compaixão, para conseguir uma hora ou mais de
descanso lá fora no ar puro.
Mas a
Finmark ainda estava em estado de alarme. Nos ninhos de artilharia
pesada, com tripulação reforçada, cada um achava-se mais atento
que o outro. Havia muita gente acreditando que Thomea Untcher podia
expressar sua exagerada mania de segurança de uma maneira mais útil
e não sobrecarregar uma tripulação já com estafa, cansada de três
dias de viagem ininterrupta, exatamente naquele mundo
subdesenvolvido. Ali não havia nenhum perigo, e a primeira
preocupação do comandante deveria ser de mandar todos dormirem pelo
menos dez horas ininterruptas.
Mas as
ordens de Thomea Untcher tinham muito prestígio. Ninguém ousaria
abandonar seu posto. Ficavam de olhos fixos na mira automática, nas
telas dos rastreadores e nos demais instrumentos de medição, até
que a vista lhes começava a arder. Então convocavam seus
substitutos, para descansarem um momento, todos, porém, convencidos
de que faziam uma prontidão inútil.
Até que
viram realmente que acontecia alguma coisa diferente lá fora.
Kayne
Stowes acordou repentinamente de seu cismar, quando viu, por trás
das grandes touceiras, um movimento quase fantasmagórico. Sabia
perfeitamente que Untcher e Lenzer tinham se dirigido para outra
direção. O que observara, não podia ser, portanto, nenhum dos
dois.
Segundos
depois, não tinha mais certeza se avistara mesmo alguma coisa. Fora
tudo tão rápido, que podia crer num reflexo de seu esgotado sistema
nervoso. Era um movimento de uma única folha da gigantesca
boca-de-leão, embora a aerometria confirmasse que não havia vento
nenhum lá fora. Mas isto não era propriamente uma prova.
No
entanto, estava despertada a curiosidade de Kayne Stowes. Começou a
prestar mais atenção nos movimentos em torno da nave, através da
tela. Tentou medir a velocidade do objeto desconhecido — fosse o
que fosse — e em que lugar haveria de surgir novamente.
Constatou-se que ele errara redondamente. O objeto desconhecido era
muito mais veloz do que poderia supor. Quando se mostrou pela segunda
vez, os efeitos foram tão nítidos que Kayne não pôde deixar de
vê-lo.
Lá estava
um estranho diante da nave. Saíra de entre as touceiras. Estava
agora no espaço livre que o campo de propulsão da Finmark
produzira, arrancando da terra e atirando para mais longe os arbustos
da tal boca-de-leão.
Kayne
Stowes examinava a estranha criatura. Sabia existir em Opghan uma
raça muito singular, à primeira vista com a aparência de
humanóides. Um exame mais demorado, porém, indicava algumas
transformações interessantes, provenientes de um contato permanente
com o mar durante muitos milênios. Apesar disso, a primeira
impressão foi chocante e o assustou bastante. O homem, de pé diante
da nave, era de estatura normal. Como indumentária não trazia no
corpo mais do que se esperava de um habitante da África Central há
alguns anos. Seu corpo reluzia e a água escorria em pequenos filetes
de todos os seus membros. Uma pele, constituída por grandes escamas,
completavam a estranha figura.
Kayne
Stowes deixou a mão escorregar para frente e apertar o botão de
alarme geral, num movimento mecânico, impensado. As sirenes soaram
em toda a grande Finmark. Como se tivesse ouvido o forte apito, o
estranho desapareceu no mesmo momento, num movimento tão rápido que
dava a impressão de poder se dissolver no nada.
O sargento
Loodey estava muito assustado.
— Prepare
um grupo de vinte homens e desçam logo para a ilha — ordenou ele.
— Alguma coisa de anormal se passa lá embaixo e eu quero saber
exatamente o que é.
Todo o
cansaço e sonolência desapareceram de repente de Loodey. Já
enquanto estava dando a ordem, escolhia mentalmente os homens que ia
levar. Stowes, apenas virou-se para trás e pegou o microfone do
intercomunicador para dizer os nomes dos homens.
Kayne
Stowes estava a par da situação melindrosa em que se encontravam
Thomea Untcher e Phil Lenzer. Havia seres estranhos na ilha e sua
atitude não era de gente pacífica. Opghan era uma colônia
arcônida. Os éfogos,
por mais primitivos que fossem, sabiam o que era uma espaçonave.
Portanto, o estranho não se assustara com a aparência da Finmark.
Queria esconder-se.
Stowes
apanhou o microfone que o ligava diretamente com Untcher e Lenzer.
Mas antes de poder dizer as primeiras palavras, ouviu a voz forte de
Untcher em tom de comando:
— Defenda-se
Lenzer, cuidado!
Os
pensamentos lhe giravam em remoinho na cabeça. Que havia acontecido
com Untcher e Lenzer? Onde estavam? Quem os atacava?
Não teve
mais tempo de se preocupar com isto. De um momento para o outro, o
local onde a Finmark descera estava lotado de seres com a pele em
forma de escamas esverdeadas. Atacavam a espaçonave. Mas era um
espetáculo ridículo. Não tinham arma de espécie alguma,
carregavam apenas um pequeno cilindro metálico que brilhava no ar.
As portas blindadas das comportas estavam tão bem fechadas que nada
poderiam fazer, a não ser que dispusessem de um canhão térmico.
Mas na
cabeça de Kayne Stowes continuava a suspeita de que os estranhos
sabiam o que estavam fazendo. Eram seres primitivos, mas conheciam de
sobra uma espaçonave e não iriam atacar um colosso de metal, com
apenas um pequeno cilindro metálico. A situação parecia irreal e
Kayne Stowes não sabia mesmo o que fazer. Além de tudo, atacavam
por baixo a Finmark, escapavam, logo depois, pela parte inferior da
curvatura, das objetivas e ninguém mais podia saber o que estavam
fazendo.
Na cabeça
de Stowes passou o pensamento de se utilizar dos canhões pesados, a
fim de livrar as imediações da Finmark de qualquer perigo. Mas o
alcance da artilharia era forte demais para a diminuta ilha. E
ninguém podia garantir que os disparos não atingiriam também a
Untcher e Lenzer.
Neste meio
tempo, Ran Loodey reunira seu grupo de ação. Nenhum deles tinha a
menor idéia do que acontecera. Loodey os instruiu com poucas
palavras:
— Vamos
prender os estranhos ou expulsá-los daqui.
À frente
dos seus, deixou a sala de comando, percorrendo o mesmo caminho até
a comporta menor, por onde Thomea Untcher e Phil Lenzer haviam saído.
Ran Loodey
era um homem que não conhecia a palavra hesitação. Deram-lhe uma
missão — expulsar das imediações da Finmark os seres estranhos
com pele escamosa e exatamente isto ele faria.
Seria
ridículo acreditar que aqueles estranhos estivessem em condições
de resistir. Provavelmente teriam que ferir alguns deles com suas
poderosas armas, a fim de assustar os demais e convencê-los da
inutilidade de resistir. Depois exigir que se entregassem
pacificamente.
Estava tão
certo de que liquidaria sua missão em poucos segundos, que nem
perdeu tempo de puxar o capacete para frente e atarraxá-lo com a
peça do ombro. De arma em punho, o sargento pulou da escotilha
externa para o chão macio da ilha e seus homens o imitaram com a
mesma agilidade.
O inimigo
estava presente em toda parte. Ran Loodey não podia saber o que os
estranhos estavam procurando achar nas paredes externas da Finmark e
para que serviam as pequenas “garrafas
térmicas”,
que estavam manejando. Mas foi somente o fato de alguém estar
mexendo em qualquer coisa da Finmark, sem a devida autorização, que
fez o espírito disciplinado de sargento se revoltar em Loodey. Com
uma voz de trovão, comandou:
— Atacar,
rapaziada!
O
pele-escamada mais próxima distava três ou quatro passos de Ran
Loodey. Estava ajoelhado no chão, com o corpo apoiado, de tal modo
que se adaptava às formas externas da grande nave, tinha na mão o
pequeno cilindro de metal, sobre cuja função ninguém estava certo.
Aparentemente, o pele-escamada o esfregava nas chapas de aço da
Finmark. Viu que Loodey se aproximava, mas não se mexeu. Num
movimento muito rápido, o sargento meteu a arma na cintura de novo,
esticou os braços e pegou o éfogo pela cabeça. Com forte puxão,
botou-o de pé, bem na sua frente e lhe deu um soco tão bem dado no
queixo, que não tinha mais dúvida de que este adversário iria
descansar ali pelo menos duas horas.
A luta se
desenrolava por todos os cantos. Os homens de Loodey se abstiveram de
fazer uso de suas pistolas. Os peles-escamadas não possuíam nenhuma
arma e era contra a mentalidade terrana lutar contra um adversário
desarmado, usando qualquer tipo de arma. Estavam lutando realmente só
com as mãos. E como se dedicavam de corpo e alma ao que estavam
fazendo, não demorou a se ouvir em toda a ilha os gritos de dor dos
éfogos. Os nativos não foram tratados com muita brandura.
Depois que
o próprio sargento havia deixado fora de combate quatro adversários,
com seus poderosos punhos, não achou mais graça na luta tão fácil.
— Parar!
— reboou seu forte comando. — Isto não é luta para nós. Deixem
que eles fujam.
Demorou
uns instantes até que todos obedecessem. Quando os peles-escamadas
foram liberados da pancadaria terrana e fugiram, restaram apenas sete
ou oito, que não podiam se mover.
Ran Loodey
se afastou sem dar maior importância ao adversário ou aos cilindros
de metal, que estavam no chão por toda parte. Acudiu-lhe então o
pensamento de que Kayne Stowes não procedera corretamente, dando a
ele esta missão. De repente começou a ter pena dos nativos. Ficou
ali parado, olhando para os pobres coitados. Causava-lhe grande
alegria quando um ou outro voltava a si e começava a se mexer. Aos
poucos, todos recobrariam os sentidos e haveriam de ir embora.
Ran Loodey
resolveu então falar bem francamente com Kayne Stowes sobre aquela
desagradável missão que lhe fora confiada.
*
* *
Untcher se
adaptou instantaneamente às novas condições. Antes mesmo que Phil
Lenzer compreendesse o que estava se passando, Untcher já tinha
revidado o primeiro ataque do ser desconhecido. Agora tentava
obrigá-lo a voltar para a água. Lenzer queria vir ajudá-lo, mas
não foi mais necessário. Com uma agilidade, que ninguém
acreditaria existir nele, Untcher foi ao encalço do pele-escamada.
Aí então não tinha mais importância alguma que ele entrasse ou
não na água. Foi tocando o adversário para longe, até chegar com
a água à altura do joelho. Depois armou o braço para um tremendo
soco, atingindo em cheio o pele-escamada.
Ainda teve
a calma de vê-lo cair na água com os olhos revirando. O éfogo
afundou imediatamente, mas Thomea Untcher não tinha intenção de
matá-lo ou deixar que se afogasse. Curvou-se e com o braço esticado
apalpou o fundo do mar, naquela água turva, à procura do corpo do
pobre inconsciente. Ficou surpreso em não encontrá-lo. Procurou
mais uma vez, esquadrinhando o lugar. O braço de mar, naquele trecho
tinha a largura de apenas um metro e meio. Não havia pois lugar para
alguém se esconder, muito menos uma pessoa inconsciente.
Perplexo,
Untcher foi andando mar a dentro, mas sem nenhum resultado. O major
terrano continuou procurando, até que, de repente, já bem mais
afastado da praia, emergiu a mesma cabeça que ele vira, há minutos
atrás, surgindo ali no braço de mar. Untcher teve a impressão de
que o estranho estava sorrindo. Viu que ele levantou o braço, como
se quisesse abanar a mão e ouviu-o balbuciar qualquer som
ininteligível. Depois disso, desapareceu e o mar voltou à sua calma
de antes.
Em
compensação, lá dos fundos, vinha uma grande gritaria. Ouviam-se
gemidos e comandos gritados em inglês. Thomea Untcher pisou em terra
firme. Voltaria para a Finmark. Tinha já esquecido o singular
homem-peixe, que, ao ser projetado na água, recuperara os sentidos.
Com uma voz dura, determinada, bem diferente de seu tom brincalhão,
perguntou através do micro-rádio do capacete:
— Stowes!
Que está acontecendo?
Automaticamente,
Phil Lenzer puxou o capacete para cobrir toda a cabeça, fechando-o
totalmente. Ouviu a voz nervosa de Kayne Stowes responder:
— Nativos
atacam nossa nave, Sir. O sargento Loodey, com um punhado de homens,
está lá fora tentando expulsá-los. Quase não opõem resistência.
Loodey, aparentemente...
Untcher o
interrompeu:
— Dê
ordem para que todos vistam o uniforme espacial completo,
independente de estar dentro ou fora da nave. Entendido?
— Perfeitamente,
Sir... — respondeu Stowes hesitante, pois não compreendeu o
significado da ordem.
— Façam
isso depressa, não temos tempo a perder. Fora disso, a situação
não parece muito perigosa. Estamos indo para a Finmark. Fim.
Depois,
esgueirando-se por entre as touceiras das grandes plantas, caminhava
tão depressa, que Phil Lenzer não conseguia acompanhá-lo.
— Perdão,
Sir. — disse resfolegante, assim que o alcançou. — O senhor tem
suspeita de algum perigo iminente... estou perguntando isto devido à
ordem de vestirem o uniforme espacial.
— Nada
de especial — respondeu Untcher em tom seco, sem diminuir o ritmo
de seus passos. — Você reparou no ser contra quem lutei?
— Claro
que reparei.
— Bom!
Mas que foi que você reparou de estranho nele?
Lenzer
gaguejou.
— Que
sua pele era esverdeada e tinha escamas.
— Homem
inteligente! — disse irônico. — Nada mais do que isto?
— Não,
não notei nada, não, senhor.
— É o
fato de ele trazer sempre um cilindro de metal debaixo do braço
esquerdo e por este motivo não o suspendia, pois tinha medo de
perder o tal cilindro... percebeu?
Lenzer
confessou não ter reparado neste detalhe.
— Você
tem que desenvolver seu senso de observação, meu jovem —
censurou-o Untcher. — Você pensa que os peles-escamadas levam seu
café do lanche por aí, principalmente quando atacam uma espaçonave?
Lenzer
ouvia meio assustado.
— Quem
sabe, estes homens-peixe conhecem algum tipo de gás venenoso por
meio do qual esperam deixar fora de combate a tripulação da
Finmark. É uma possibilidade. De qualquer maneira, temos de estar de
olho.
Neste
momento, penetraram no recinto de touceiras que circundavam a grande
nave. Não havia mais sinal de Ran Loodey e de sua gente. O próprio
inimigo também fugira. Apenas o chão muito pisoteado testemunhava a
batalha aí travada.
“Loodey
provavelmente os aprisionou”,
pensava ele, “e
os levou para dentro da nave. Podia ter se lembrado de outra coisa
melhor. Quem sabe os rapazes não estavam preparados para outra
coisa...”
Pelo micro
transmissor do capacete, deu ordem a Kayne Stowes para abrir a
escotilha menor e pulou para dentro, assim que a comporta deslizou
para o lado.
— Loodey
já está aí com os prisioneiros? — perguntou a Stowes.
A resposta
de Stowes parecia esquisita:
— Ele
está aqui a meu lado, mas não fez nenhum prisioneiro. E devo
dizer-lhe que seu comportamento está meio esquisito.
— Esquisito?
— perguntou Untcher admirado.
— Sim,
Sir, ele me está incriminando de...
— Está
bem — interrompeu-o Untcher. — Já estou chegando.
A passos
largos, caminhou na esteira rolante que funcionava no corredor
central, para não perder nenhum segundo. Phil Lenzer o seguiu,
perguntando a si mesmo de onde o baixote tirava tanta força assim,
para andar tão depressa.
O quadro
oferecido a Thomea Untcher, quando chegou à sala de comando, era
mesmo singular!
Kayne
Stowes não exagerara. O próprio Stowes estava de uniforme completo,
com o capacete atarraxado, junto da poltrona do piloto. Perto dele,
estava Ran Loodey e num grande círculo em volta dele conversavam
alguns rapazes que tomaram parte na pancadaria e na expulsão dos
homens-peixe. Ninguém do grupo de Loodey, nem mesmo o sargento
estava de capacete fechado. Loodey parecia irritado, seu rosto
afogueado indicava que a chegada de Untcher interrompera sua frase no
meio.
Thomea
Untcher foi até ao meio da sala. De um momento para o outro, não
era mais o homem nervoso, alquebrado, nem o brincalhão que caçoava
de todos e não levava nada a sério. O semblante e os olhos
inteligentes inspiravam respeito. Sua voz foi rude, quando se dirigiu
a Loodey, perguntando-lhe:
— Dei
ordem, sargento, para que todos usassem o uniforme corretamente. Por
que seu capacete não está fechado?
Ran Loodey
piscou os olhos e, por uns instantes, não sabia de que forma ia
responder. Finalmente deu um passo à frente, na direção de
Untcher, e disse com a maior desfaçatez:
— O que
eu faço com meu capacete não é da sua conta, Untcher. O senhor,
Stowes e Lenzer não vão mais me dar ordem nenhuma. Somente eu é
que...
Ia
continuar no embalo, mas Untcher, com sua voz tranqüila, lhe cortou
a palavra.
— Muito
bem, sargento, e como é que você chegou a esta resolução tão
drástica?
Thomea
Untcher estava com os olhos semicerrados, como se quisesse ler os
pensamentos do sargento. Phil Lenzer podia observá-lo bem por sobre
os ombros dos que o rodeavam. Estava admirado com a mudança que se
registrara naquele homem simples e brincalhão. Sabia que, daí para
frente, nunca mais iria zombar das atitudes de Untcher, por mais
brincalhonas que fossem.
— Isto
também não é da sua conta, Untcher! — gritou Loodey furioso. —
Já estou farto de ser comandado a vida toda. Agora sou eu quem mando
em mim mesmo.
— Venha
aqui, sargento! — ordenou-lhe Untcher.
A ordem
foi tão peremptória, tão categórica, que Loodey obedeceu sem se
lembrar que antes dissera que seria o dono de si mesmo. Parou a um
passo de Untcher, que o ficou observando por uns instantes, olhando
diretamente nos seus olhos, como se esperasse descobrir alguma coisa
que pudesse explicar o comportamento desconcertante de Ran Loodey.
Depois,
com a maior calma deste mundo, disse:
— Você
está preso, sargento. Deponha suas armas.
Loodey
parecia perplexo. Depois começou a rir. Gargalhava tanto, a ponto de
arquear o corpo para trás, jogando a cabeça na nuca. Não parava
mais de rir.
De repente
Thomea Untcher se projetou para frente. Ninguém viu exatamente o que
ele fez. Parecia ter atingido o pescoço de Loodey. A gargalhada de
Ran Loodey parou num som gutural. Seu corpanzil avantajado bamboleou
e se precipitou no chão com um baque surdo. Deu um suspiro e ficou
inerte.
Thomea
Untcher não se preocupou mais com ele. Agora olhava para os homens,
que estavam ali de pé, entre ele e Phil Lenzer. Notou que
intencionavam atacá-lo. Leu a irritação na fisionomia deles e
sabia que estavam do lado do sargento.
Phil
Lenzer ainda não reparara isto. E, se todos aqueles homens atacassem
ao mesmo tempo, Untcher iria sofrer um bocado. Untcher sacou a arma e
a apontou para o grupo de Loodey, dizendo quase amavelmente:
— Sei o
que vocês estão pensando, minha gente, mas garanto que não vão
chegar a isto.
Sua voz
mudou de tom:
— Deponham
as armas, imediatamente!
Os homens
hesitaram. Eram oito e tinham contra si apenas três. Mas Untcher, o
mais perigoso dos três, esticou o braço, apontando a arma para o
peito do mais próximo do grupo de Loodey.
— Vou
contar até três... meus amigos.
E começou.
Não tinha ainda acabado de pronunciar o dois, quando todas as
pistolas foram atiradas no chão e, sem que Untcher o tivesse
exigido, todos ergueram os braços.
Enfiou a
arma novamente na cintura. Ninguém notou qualquer reação em sua
fisionomia. Ordenou a Phil Lenzer que levasse o pessoal para
prendê-los num local seguro, bem como o sargento Ran Loodey, que
ainda estava sem sentidos.
Depois
perguntou a Stowes:
— Onde
estão os outros homens que se achavam com Loodey lá fora, durante a
peleja com os nativos?
— Todos
voltaram a seus postos, Sir.
— Isto
você está dizendo, mas quero saber de fato onde estão todos.
E dizendo
isto Untcher olhou em volta.
— Convoque
todos eles — ordenou a Stowes — de convés em convés e em todos
os ninhos de artilharia.
Como se
estivesse sonhando, Stowes ligou o intercomunicador. Começou pelo
convés A, num ninho de metralhadora pesada, equipado com reforço,
desde que a Finmark entrara em estado de alarme.
O quadro,
oferecido pela tela panorâmica, foi simplesmente assustador. Os
homens estavam deitados pelo chão, fumando, em meio a acalorada
discussão. Nenhum deles, mas nenhum mesmo, estava sentado no lugar
onde devia.
Kayne
Stowes levou bom tempo para dominar a algazarra com sua voz
estridente, tal era o berreiro lá dentro. Ninguém deles se deu ao
trabalho de se levantar. Um deles, depois de compreender a ordem de
Stowes, exclamou:
— Mais
tarde, passaremos por aí, agora temos coisa mais importante para
discutir.
Foi tudo.
E por mais que Stowes esbravejasse e gritasse, não conseguiu nada
com os homens.
Desligou o
intercom e virou-se para Untcher, branco como cera e de olhos
arregalados. Os lábios se moviam, sem produzir nenhum som, como se
Stowes não tivesse mais força para formar palavras. Untcher veio em
seu auxílio.
— Eu
disse “todos”
— repetiu com calma — de convés em convés e em todos os ninhos
de artilharia...
Stowes se
virou de novo para religar o intercom, mas se deteve de repente,
interrompendo o que ia fazer. E erguendo os braços na direção de
Untcher, gritou com voz histérica:
— Que é
isto, Sir? Será que o diabo entrou no corpo desta gente?
Thomea
Untcher apenas sorriu.
— Não
lhe posso dizer, Stowes — respondeu ele. — Há uma coisa
estranha, misteriosa. Temos de descobri-la.
*
* *
Mas o que
acharam foi coisa bem diferente.
De toda a
tripulação da Finmark, apenas quatorze homens estavam dispostos a
obedecer às ordens de seus oficiais superiores. Os demais, a
maioria, apresentavam uma atitude de renitência, até mesmo de
rebeldia, de tal maneira que Thomea Untcher receava, com razão, que,
dentro de pouco tempo, chegariam à idéia de se apossarem da nave.
Já que,
pelo menos no momento, ainda não estava bem claro sobre o que
pretendiam fazer, Untcher aproveitou a ocasião e travou, por meio da
ligação de emergência, todas as escotilhas da Finmark. Em seguida,
mandou injetar, através dos tubos de aeração, dióxido de carbono
nos aposentos onde se encontravam os amotinados. Assim, em poucos
minutos, conseguiu afastar o perigo iminente. Mas com a testa banhada
em suor, Untcher não se esquecia de que, nestes minutos, a Finmark
estava quase indefesa e de que o inimigo desconhecido teria tempo
para atacar uma segunda vez.
Porém os
minutos se passavam, sem que nada acontecesse. Num trabalho cansativo
e paciente, os homens que causaram perturbações foram abrigados um
por um na sala dos oficiais, e ali aprisionados com todo conforto.
Untcher lhes deixou a possibilidade de entrarem em contato com a sala
de comando, pelo intercom, e isto tinha sua importância, caso
mudassem de idéia e resolvessem portarem-se como soldados
responsáveis.
Depois
mandou investigar quantos médicos havia entre os quatorze. Havia
apenas o Dr. Dunyan. O comandante encarregou-o de fazer um exame no
sargento Loodey. Dunyan era muito competente e Untcher podia se dar
por feliz pelo fato de o médico não estar entre as vítimas do
estranho fenômeno.
Dunyan
começou seu trabalho, primeiramente examinando o ar a bordo da
Finmark. Abstraindo-se, porém, da elevada concentração de dióxido
de carbono, não se constatou nenhum elemento estranho. Estava então
quase certo de que os amotinados tinham sido de fato vítimas de um
gás desconhecido, pois os dezessete restantes, que, cumprindo as
normas gerais e as ordens expressas do comandante, usaram o uniforme
com o capacete fechado, achavam-se livres do mal, exatamente pelo uso
do capacete atarraxado ao uniforme espacial.
No
entanto, as medições do Dr. Dunyan pareciam querer refutar esta
teoria.
O exame
minucioso procedido em Ran Loodey também não apresentou resultados
sensacionais. O sargento estava sem sentidos e não apresentava
outros sintomas, a não ser os que são normais num homem atingido
por uma forte e bem centrada cutilada. A única coisa que Dunyan
podia dizer de positivo era que Loodey, quando voltasse a si, teria
dificuldade para engolir.
— Quanto
tempo o senhor leva para fazer um exame profundo, doutor? — foi a
pergunta de Untcher, depois de ouvir o seu relatório. — Digo
“profundo”,
no sentido de que o senhor possa indicar o que corre nas veias do
sargento e qual a razão de seu procedimento maluco.
Dunyan fez
um cálculo de quatro para cinco horas. Untcher ordenou-lhe que
começasse imediatamente, mas reduzisse o prazo para duas ou três
horas. Dos quatorze homens que restavam, selecionou dois para
auxiliar Dunyan. Os outros, ele os reuniu na sala de comando, para
trocar idéias.
Lá fora o
sol se punha. A temperatura começou a cair assustadoramente. A fina
atmosfera de Opghan fazia o calor, que fora acumulado durante o dia
pelo imenso oceano, desaparecer. A água do oceano era extremamente
pobre em sal. Uma hora após o pôr do sol, o oceano, que cobria
99,5% de todo o planeta, começava a gelar e a ilhota, onde estava a
Finmark, ficava então cercada por gelo.
3
Durante a
noite, o medo se apoderava dos seres cobertos de escamas esverdeadas,
no fundo do mar. Há muitos séculos atrás, nos primórdios de sua
história, não conheciam cidades fixas e fugiam assim da noite,
quando esta se abatia sobre o mar. Corriam sempre para o oeste, atrás
do sol. Quem ficasse para trás, morreria, pois o éfogo, por
natureza, não tinha condições de descer para as profundezas do
oceano, onde não haveria mais a grande diferença de temperatura e a
água não congelaria.
A
princípio eram eternos nômades.
Num
período de sua existência um éfogo dava, pelo menos, dez voltas em
torno de seu planeta. A primeira, no cesto flutuante de sua mãe; as
outras, com as próprias forças. As minúsculas ilhas pelo
gigantesco mar — ao todo, três mil seiscentas e trinta e quatro —
eram o ponto de encontro e de repouso, na contínua marcha atrás do
sol.
Depois
chegou o tempo em que apareceu o motor. A partir daí, os éfogos não
precisavam mais fugir do frio nadando na direção do poente.
Atravessavam o mar em grandes barcos e sua vida estava livre de
tantos perigos. No seu subconsciente, porém, persistia o fantasma do
medo. Quando o sol iniciava sua retirada, começavam a tremer, com
pavor de ficarem para trás e morrerem congelados. O éfogo podia
suportar uma forte pressão da água em mar fundo, não suportava,
porém, temperaturas abaixo de duzentos e cinqüenta graus absolutos.
A época
dos barcos a motor não foi muito longa, como se podia imaginar,
porque os éfogos fizeram a maior descoberta de toda a sua história.
Vieram a conhecer as canáceas, plantas semi-inteligentes da família
das gramíneas, cujas hastes ocas penetravam até as profundezas do
oceano. Constataram que estas canáceas misteriosas estavam dispostas
a viverem em harmonia com os éfogos, podendo lhes ser muito úteis,
com a condição de que os nativos se comprometessem a não permitir
que suas raízes fossem vítimas das poderosas mandíbulas dos
hchour, peixes selvagens do mar.
A
cooperação mútua se desenvolveu para o bem dos dois lados. Os
ferozes hchour eram, também, inimigos dos navegantes éfogos, pois
não havia salvação para quem fosse vítima de seus dentes afiados.
Os éfogos
começaram a construir suas cidades no fundo do mar e as canáceas
lhes forneciam o ar necessário. Estas gramíneas maravilhosas faziam
um sinal especial, sempre que surgisse por perto um peixe hchour, e
os éfogos saíam logo em grupo para matá-lo ou afugentá-lo. Por
cinco longos anos de Opghan, esta operação se repetiu com tal
eficiência, que estes peixes selvagens não mais se atreviam a
chegar perto das cidades submarinas. Descreviam uma grande volta,
assim que vissem o grupo de nativos.
Continuava,
porém, uma fobia quase que hereditária nos éfogos, era o medo da
escuridão. As canáceas, cujos talos e raízes penetravam bem para o
fundo do mar, e sentiam os efeitos da mudança radical do dia para a
noite, trocavam de cor, assim que o sol desaparecia. Os éfogos logo
compreenderam o motivo desta alteração: a planta passava para um
outro tipo de metabolismo que lhe permitia suportar, nas partes mais
elevadas de sua vegetação, o frio horrível da noite ou a forte
pressão do gelo, sem se prejudicar.
Quando os
talos das plantas, que através dos tetos, penetravam nas moradias
dos éfogos, passavam do verde para o azul-turquesa e, finalmente,
para o roxo, os homens-peixe sabiam, sem consultar o relógio, que lá
em cima, na superfície, o sol descambara no poente e a água do mar
começava a gelar. Era nesta hora que lhes sobrevinha o medo, o velho
e invencível pavor da criatura inteligente diante das forças da
natureza. Medo este que perdura, até hoje, nos mais elevados
estágios da civilização.
Naquela
tarde, a situação não era diferente.
Grghaok, o
ancião que os estranhos peles-escamadas não quiseram receber, por
lhes parecer demasiadamente alquebrado, estava sentado em seu
diminuto aposento. Observava, com medo, a grossa haste da canácea
que se tornava cada vez mais escura, até que, devido à deficiente
iluminação do quarto, parecia completamente preta. Nos tempos de
sua juventude, havia presenciado e tomado parte nos grupos de éfogos
que nadavam, tentando acompanhar a direção que o sol tomava.
Lembrava-se mesmo de ter dado volta pelo planeta no cesto flutuante
de sua mãe. Mais tarde, vieram os barcos a motor e ele, já
crescido, não teve mais de cansar os músculos.
Grghaok
acendeu uma outra luz e teve medo. Olhou para a haste da planta, no
trecho em que varava o teto, esperando que o talo preenchesse todo o
espaço da abertura. Assim não sentiria frio e nem veria a
escuridão, que reinava lá fora.
Grghaok
lembrou-se da observação que fizera na tarde daquele dia.
“Coisa
estranha”,
pensava ele, “quando
me lembro de Chchaath, me vem à cabeça a idéia de escuridão.”
Vira-o,
quando este passava pela rua com o cilindro metálico debaixo do
braço, dirigindo-se para a grande comporta. Grghaok possuía a
curiosidade infantil, característica dos anciãos. Interessava-se
loucamente por saber o que pretendia Chchaath com aquele cilindro.
Tinha, porém, plena certeza de que o vigia o impediria de entrar.
A
esperança do velho era que Nrrhooch soubesse de alguma coisa, embora
não pudesse compreender bem de que maneira Nrrhooch podia receber
estas informações. Seu amigo trabalhava nas plantações lá fora,
onde as novidades custam a chegar.
Com o
passar do tempo, a curiosidade do ancião aumentava incrivelmente.
Nervoso, começou a andar no quarto de um lado para o outro, soltando
umas palavras um tanto pesadas, quando tropeçou numa cadeira. No
momento em que Nrrhooch chegou, estava tremendo de ansiedade.
Que
Nrrhooch estava muito cansado, via-se facilmente em seus traços
fisionômicos. As escamas estavam tão separadas umas das outras, que
pareciam poder cair a qualquer momento. Jogou-se na cama com um
suspiro de cansaço, cruzou os braços sobre o peito, fechando os
olhos, ainda com a respiração apressada.
Grghaok
sabia que lhe teria de dar uns minutos, até poder iniciar qualquer
conversa. Os estrangeiros obrigavam os homens a um trabalho muito
duro e, ai daquele que não desse a um homem como Nrrhooch ocasião
de distender um pouco os músculos e os nervos, depois de tantas
horas de trabalho.
Após
alguns minutos, quando Nrrhooch levantou-se e espreguiçou-se para
preparar sua refeição, Grghaok lhe perguntou:
— Você
ouviu alguma coisa sobre Chchaath?
Nrrhooch
se irritou com a pergunta.
— Que os
peixes carnívoros, os hchour, o devorem inteirinho. Não, não sei
de nada. Será que há alguma coisa para se comer?
Grghaok
sorriu.
— Não
se preocupe com sua refeição, meu jovem. Já deixei pronta para
você. Está aí atrás no fogão. Tire e coma. Vai se admirar de
que...
Surpreso,
encaminhou-se para o fogão. Abriu a tampa do forno, que impedia a
saída do calor e puxou com os dedos o recipiente metálico,
abrindo-o em seguida. Cheirou antes e arregalou os olhos de
admiração.
— Barbatana
de lkhregh! — disse surpreso. — Couve-flor! Grghaok, você está
gastando demais nosso pouco dinheiro, hein?
Parecia
não estar preocupado com o lado da economia. Seu rosto indicava
grande contentamento. Grghaok se defendeu:
— Não
custou tanto assim, não. Arranjei isto bem barato. Sabia que você
ia gostar muito.
— ...e
assim concordar mais facilmente com você, não é? — disse rindo.
— Não é isso? O que você está querendo, hein?
Grghaok
sentou-se na cama, onde Nrrhooch estivera deitado há pouco.
— Está
para acontecer alguma coisa, Nrrhooch — disse em voz mais baixa. —
Muito raramente, Chchaath aparece aqui na cidade. Se quisermos fazer
alguma coisa para recuperarmos a liberdade, temos de fazê-lo agora,
antes que Chchaath fique para sempre na cidade, com intuito de
observar todos os nossos passos.
Nrrhooch
não se deixou interromper e continuou gulosamente a saborear o bom
prato, quase sem mastigar. De repente fez um gesto com a mão e
disse:
— Você
sabe, tão bem como eu, Grghaok, que não podemos fazer simplesmente
nada. Enquanto não possuirmos as armas dos estrangeiros e morrermos
de medo por qualquer coisinha, como uma porta que se abre
automaticamente ou uma lâmpada que acende, sem que se aperte o
interruptor, não teremos nenhuma chance.
Grghaok
inclinou o corpo mais para frente.
— É
isto mesmo, Chchaath não está aqui. Pelo que sei, vai ficar muito
tempo fora. Podemos penetrar em sua casa e olhar o que há lá
dentro.
Nrrhooch
arregalou os olhos.
— Entrar
na casa de Chchaath? Você está maluco? Se o guarda perceber,
seremos expulsos da cidade e nenhum outro lugar vai nos querer
aceitar.
Grghaok
fez um gesto com a mão.
— Se
perceber!? Mas isto não vai acontecer.
— E,
como é que sabe disso? Grghaok virou-se para trás, dizendo:
— Lchox,
saia daí!
Moveu-se
alguma coisa na parede. Uma chapa de material plástico soltou-se e
bateu no chão com barulho. Surgiu uma abertura.
Um
homem-peixe de rosto enrugado e amarelado, da mesma idade de Grghaok,
olhava-os.
Nrrhooch
deu um pulo.
— Que é
isto? Vocês dois estão loucos? Se...
Lchox saiu
do esconderijo e alisou as escamas.
— Se...
Se... — interrompeu Grghaok com desdém. — Se no nosso tempo de
jovens tivéssemos repetido tantas vezes o “se”, ainda estaríamos
nadando atrás do sol, ao invés de morarmos em cidades quentes e
seguras.
Com gesto
autoritário, que parecia não combinar com sua figura pequena, quase
raquítica, apontou para a abertura na parede.

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