sábado, 27 de agosto de 2016

P-096 - O Mistério do Anti - K. H. Scheer [Parte 3]

Sim, sir. Peço-lhe encarecidamente que conserve a calma. O nervosismo não poderá adiantar muito. Ainda temos uma possibilidade. Mande bombardear as muralhas externas e estenda o fogo até alguns dos edifícios. Procure certificar-se de que não estará alvejando o edifício, onde se encontra o ativador. Faça uma demonstração de sua força, mesmo que outras pessoas possam interpretar isso como um ato de desespero. Suponho que, apesar de todas as faculdades supersensoriais, o supremo sacerdote é também mais uma criatura que gosta de viver. Obrigue-o por meio do ataque a entrar em contato com o senhor. Procure negociar. Ele não está em condições de saber se o senhor tem uma duplicata do ativador ou não. Provavelmente está convencido de que está blefando. No entanto, no fundo de sua consciência deve haver uma centelha de dúvida. Se conseguir fazer com que converse com o senhor pelo rádio, muita coisa estará ganha. Aja logo!
Até parecia que Mercant tinha um computador no lugar do cérebro. Será que jamais se enganaria? Dava mostras de não possuir a fraqueza humana de errar.
Dali a cinco minutos, meus blindados robotizados entraram em posição. Eram as unidades mais pesadas das forças arcônidas transportadas pelo espaço.
Voltei a entrar em contato com o regente, que atendeu à minha ordem e confiou-me o comando direto da operação.
Cinqüenta e duas horas e quarenta e oito minutos após o furto do ativador celular, os canhões de impulsos começaram a trovejar. A noite transformou-se em dia. As superaquecidas ondas de pressão obrigaram-nos a procurar um abrigo.
Mandei que os carros de combate avançassem mais um pouco. As muralhas estáveis começaram a esfacelar-se. Seus restos, transformados em lava, foram atirados para o alto em cascatas luminosas.
A salva seguinte destruiu os alicerces dos edifícios que cercavam o templo.
Quando o quarto e o quinto edifício desmoronaram e o calor começou a tornar-se insuportável, o chefe da estação de rádio móvel transmitiu o sinal pelo qual tanto ansiávamos.
O jovem oficial atirou os braços para cima e acenou-os vigorosamente. Imediatamente mandei suspender o fogo e dirigi-me à viatura.
Um certo Segno Kaata quer falar com o senhor — gritou o tenente. — Faça o favor de usar a tela número três. Kaata está exatamente na nossa freqüência audiovisual.
Rhodan deu uma pancada animadora no meu ombro. Arrancou o revestimento de bioplástico de meu nariz e bochechas. Recuperei meu rosto natural.
Mercant libertou-me da peruca escura. Passei os dedos pelos longos cabelos branco-alourados e peguei a ombreira do imperador, que trouxera por uma questão de cautela.
Coloquei-me diante da objetiva. Na tela via-se o rosto magro e enrugado de um arcônida de cabelos brancos e olhos avermelhados.
Usava o traje amplo e esvoaçante dos cientistas, mas este estava coberto de símbolos que nunca vira. Obriguei-me a permanecer calmo.
Era o momento decisivo!

* * *

O sumo sacerdote riu. Foi uma risada estranha. Ouviam-se os sons, mas o rosto severo com os olhos inteligentes permaneceu imóvel.
Não acredito em vocês — disse com a voz grave e sonora. — Este ataque prova que o senhor precisa do aparelho. Pois bem, não adianta mais negar. Esse aparelho está em meu poder.
O senhor nem poderia negar — disse em voz fria. — Esqueceu-se de que existem aparelhos de localização. A esta hora os traidores, que se encontram no planeta de cristal, já estão sendo presos. Desvendamos completamente o caso. O senhor apenas cometeu dois erros, Segno Kaata.
Em primeiro lugar acreditou nas informações de uma pessoa que só sabe das coisas pela metade. Depois o senhor me subestimou. Ou será que acreditava que eu me conformaria com tamanha desfaçatez? Para mim, a traição cometida pelo terrano Thomas Cardif é um assunto de valor secundário. Não me interesso pelo fato dele ter contado a alguém que importância o ativador celular assume para mim. Sempre possuo um aparelho de reserva.”
Será mesmo?
Tive de controlar-me ao máximo para não cometer um engano.
Ninguém se importa que o senhor acredite ou não — respondi.
Por que está atacando meu templo, alteza?
Para obrigá-lo a entregar o aparelho. Não quero enfrentar as dificuldades ligadas à obtenção de outro aparelho sobressalente.
Foram estas as palavras mais capciosas pronunciadas no curso de uma medonha discussão com um homem que não poderia ser considerado normal, no verdadeiro sentido da palavra. Naturalmente eu teria de fazer alguma coisa para conseguir o que realmente pretendia. Teria de exigir a entrega do ativador, custasse o que custasse. Conforme esperava, o sumo sacerdote reagiu imediatamente.
Quer dizer que a perda lhe causa dificuldades? — disse em tom gentil. — Nesse caso não se atreverão a destruir o edifício principal do templo, pois com isso também destruiriam o aparelho.
Resolvi lançar mão do último recurso que me restava. Não tinha outra alternativa. Meu interlocutor poderia declarar-se disposto a entregar o ativador em troca de certo grau de impunidade, ou então arriscaria a fuga, a fim de salvar a vida em meio à tormenta que se iniciava. Se optasse por esta última alternativa, provavelmente seria capaz de prendê-lo.
Mas havia uma terceira hipótese: ele poderia esperar até o último instante, e destruir o ativador...
Exibi um sorriso irônico e olhei para o relógio.
O senhor deve estar contando com as célebres sessenta horas, não é mesmo?
Isso mesmo, alteza — respondeu em tom tranqüilo.
Aquele homem parecia nem possuir nervos. Apressou-se em acrescentar:
Se depois de decorridas sessenta e cinco horas, o senhor ainda estiver em condições de negociar comigo, convencer-me-ei da existência de um aparelho sobressalente. Nesse caso entregar-lhe-ei o original, a fim de evitar as dificuldades que, conforme diz, teria de enfrentar. Acho que o objeto vale alguma coisa para o senhor, motivo por que exijo salvo-conduto para minha pessoa.
E seus sacerdotes?
Eles são inocentes. Não tiveram a menor participação no ato.
Com exceção de um, cuja entrega exijo.
De acordo — respondeu meu interlocutor depois de ligeira pausa.
Aquele homem evidentemente era frio e calculista. Não tive outra alternativa senão recusar a proposta. Se realmente possuísse uma duplicata do aparelho, a tal proposta seria aceitável.
Obriguei-me a sorrir de novo. Olhei para o relógio com uma atenção exagerada. — Dentro de quinze minutos mandarei abrir fogo. Naturalmente os recintos subterrâneos, onde o senhor pensa sentir-se relativamente seguro, também serão destruídos. Se antes disso entrar em contato para declarar-se disposto a devolver o aparelho furtado, deixarei que se retire livremente, isto é, depois de passar por uma reformulação psíquica operativa. Dessa forma salvará sua vida. Caso não se manifeste, o senhor será destruído na fogueira atômica. É só o que tenho a lhe dizer. Só costumo dar uma chance a pessoas de sua espécie.
Desliguei. Cansado e psiquicamente exausto, olhei para Mercant. O homem baixinho fez um sinal de aprovação.
Excelente, sir! Sua oferta tornou-se plausível a partir do momento em que aludiu à reformulação da psique, a qual sofreu uma modificação patológica. Se tivesse concordado com sua retirada sem quaisquer condições, o castelo de cartas teria desmoronado. Aguardemos.
Para mim teve início o período de espera mais angustiante.
Qual seria a atitude do sumo sacerdote?
Será que acabaria por convencer-se de que realmente possuía um aparelho sobressalente?
Acharia plausível que recuasse diante das dificuldades ligadas à obtenção de mais um exemplar?
As perguntas amontoaram-se em minha mente. Não havia dúvida de que minha situação era pior.
Rhodan comunicou que a Drusus, nave capitania da frota, acabara de pousar no espaçoporto de Torgona. Já o cruzador Togo permanecia no espaço.
Os segundos pareciam transformar-se em eternidades. O sumo sacerdote não deu sinal de vida.
O rosto estreito de Allan D. Mercant estava pálido. As preocupações pesavam em sua mente. Depois de algum tempo, aproximou-se:
Esse Segno Kaata é um homem inteligente. Já compreendo por que fez questão de executar pessoalmente o furto, ou ao menos supervisionar sua execução. Tem conhecimento de sua antifaculdade. Uma vez que o senhor, na qualidade de Almirante da Frota e sobrinho do imperador de então, foi submetido ao processo de ativação celular, seria perfeitamente possível que tivesse desenvolvido faculdades telepáticas ou outras capacidades parapsicológicas. Foi por isso que os antis participaram do assalto.
Compreendo, Mercant.
O que me admira é que John Marshall afirme ter acordado em virtude de certos impulsos cerebrais. É impossível que tenha sentido os impulsos dos antis. Provavelmente outras pessoas, que não possuem essa qualidade, participaram do ato. Assim que o caso esteja encerrado, cuidarei disso.
Por precaução conferir-lhe-ei certos poderes — disse, enquanto sentia um acesso de fraqueza.
Isso não é necessário, Atlan! O sumo sacerdote tem que tomar sua decisão. Face a seu grau de inteligência, ele não se deixaria levar a destruir o ativador, sem que houvesse um motivo para isso. Provavelmente estará disposto a aguardar, a fim de verificar se o senhor realmente dispõe de outro aparelho. Em caso afirmativo sentir-se-á ainda mais inseguro em sua concepção já vacilante. A afirmativa da existência de um exemplar sobressalente não é tão inverossímil assim. A esta hora, estará pesando os prós e os contras. Penso que, no último instante, fará a exigência de ser libertado independentemente da lavagem cerebral. Resta saber se dará o devido valor à sua promessa.
Será que ele poderia fugir?
Rhodan acompanhara a palestra em silêncio. E ainda sem dizer uma palavra, apontou para os contingentes de tropas reunidos na área.
Com esta concentração de forças? Sem dúvida ele nos vê numa tela de televisão. Além disso, deve saber que o espaço enxameia de naves de todos os tipos. Então procurará outro caminho.
Também acreditei nisso, mas essa crença foi um erro. Se já possuíssemos maiores experiências com os antis, teríamos tomado outras precauções.
De forma alguma eu teria assumido o risco que aquela pessoa medonha assumiu dali a pouco.
7



Quinze minutos passaram-se e nada aconteceu. Segno Kaata não entrou em contato conosco. Comecei a acreditar que mesmo um homem como o chefe do Serviço de Defesa Solar era capaz de enganar-se.
Há alguns minutos esquivava-se de meus olhares indagadores. Mercant parecia saber que excepcionalmente cometera um erro.
Pensei em aceitar a espera de 65 horas, a fim de apresentar posteriormente ao sumo sacerdote o meu sósia robotizado. A máquina especial já fora chamada de volta.
Estava nas proximidades do lugar em que nos encontrávamos.
Não havia dúvida de que poderíamos enganar Kaata com isso. Mas o que aconteceria comigo durante as cinco horas em que o prazo fatal seria excedido? Estava em condições de viver por sessenta horas, sem apresentar sinais de decadência, muito embora já estivesse sentindo que as células de meu corpo começavam a rebelar-se.
Não; a oferta do baalol não poderia ser aceita, pois isso representaria meu fim.
Fazia dez minutos que entrara na cabina apertada do jato espacial, ao lado de Perry Rhodan e o mutante Ivã Goratchim. A nave em forma de disco, de cerca de 35 metros de diâmetro, pertencia à classe dos modelos mais recentes de fabricação terrana. Podia ser pilotada e controlada por um só homem. Além disso, havia nela um aparelho capaz de medir os saltos de transição executados por outras espaçonaves.
Estávamos sós. À nossa frente, achava-se o localizador de vibrações celulares, preso à mesa de comando em ferradura. Seu chiado agudo provava que o ativador continuava no templo. A localização goniométrica era impecável.
Os aparelhos de radiofonia estavam ligados. Mantínhamos contato com todos os postos de comando. As tropas de robôs do computador-regente podiam ser alcançadas pelo canal 7.
Allan D. Mercant retirara-se há poucos segundos. Ao que parecia, não suportava mais meu visível desespero.
No momento em que se esgotou o prazo por mim fixado, cinqüenta e quatro horas e onze minutos se tinham passado desde o momento do furto. Ainda dispunha de pouco menos de oito horas. Era um prazo angustioso que quase me enlouqueceu.
Havíamos localizado o ladrão e o aparelho num excelente trabalho de investigação. Mas daí para frente, éramos relativamente impotentes. O que me adiantaria atomizar o templo? O ativador celular não resistiria à tormenta atômica.
Os mutantes, nos quais depositara minha confiança, estavam condenados à inatividade. Os antis, com o sumo sacerdote à frente, podiam exultar numa sensação de triunfo.
Era claro que Segno Kaata sabia perfeitamente que eu estava com as mãos atadas. Já tivera de confessar um pequeno ponto fraco. A esta hora, aguardaria calmamente as medidas que seriam tomadas por mim.
Se hesitasse, teria certeza de que não possuía nenhum aparelho sobressalente.
Está na hora — disse Rhodan em tom de desânimo. Fitava as grandes telas, que exibiam com toda nitidez os remanescentes dos edifícios do templo.
Sugiro que, ainda durante o bombardeio, as tropas de robôs iniciem o assalto. Talvez consigam prender o sacerdote.
Já brincara com a idéia de desistir do bombardeio e iniciar um ataque de robôs. Acontece que o sacerdote, que sem dúvida era um homem inteligente, veria nisso uma prova de que não estava disposto a arriscar a destruição do aparelho. As medidas mais simples tinham de ser omitidas já que, ao que tudo indicava, o cérebro desse homem funcionava impecavelmente.
Decidi assumir o único risco. Dali a alguns segundos, dei ordem de abrir fogo. Os canhões de impulsos dos tanques alinhados à frente do templo voltaram a trovejar.
Explicara minuciosamente quais seriam os alvos. Por enquanto pretendíamos poupar o grande edifício central.
Rhodan ativou as máquinas do jato espacial. Não dei a menor atenção ao uivo dos conversores de energia. O campo antigravitacional absorvia a força de gravitação do planeta a que estávamos expostos. Um ligeiro empuxo dos bocais inferiores fez com que subíssemos rapidamente. De cima tínhamos uma melhor visão de conjunto.
Rhodan parou a mil e cem metros de altura. Próximo a nós, rugia a tormenta atômica. Os edifícios entravam em incandescência e desmoronavam. Vários tanques abriram fogo contínuo contra as instalações subterrâneas, dirigindo para baixo os raios de impulsos ofuscantes e quentes.
Profundos desfiladeiros surgiram no chão. Penetrando cada vez mais profundamente, os fluxos energéticos atingiram os alicerces e os fizeram desmoronar.
Sentado diante do videofone, assumi uma postura tensa. Mantinha contato direto com o carro de rádio da tropa.
O sacerdote ainda não chamou — anunciou o oficial de plantão.
Confirmei com um gesto. Não adiantaria perguntar sobre o por quê.
Embaixo de nós, os canhões de impulsos dos blindados abriam suas trajetórias luminosas. Vistas de cima, formavam um anel cintilante, que numa área extensa transformava a noite em dia.
A Drusus daria conta disso num segundo — disse o mutante Goratchim.
Todos permaneceram calados. Sabíamos que não poderíamos utilizar armas pesadas. Os radiadores portáteis dos soldados teriam produzido o mesmo efeito, mas tal efeito demonstrativo seria menor.
Tudo dependia de simularmos um fato inexistente. Os ocupantes do templo deviam ser levados a acreditar que, para mim, a perda da versão original do ativador não assumia maior importância.
Três minutos depois do momento em que mandara abrir fogo, a gigantesca área onde fora levantado o templo parecia um vulcão em erupção. O edifício principal, que até então escapara ao bombardeio, estava balançando. Pedaços de argamassa desprendiam-se da extremidade superior pontuda da construção esférica. Largas fendas abriam-se nas cornijas. O desmoronamento do edifício era apenas uma questão de minutos.
O videofone chamou. Era o oficial que comandava o posto móvel de localização.
Constatamos a presença de emanações energéticas, sir! No interior do templo, devem ter sido ligadas potentes máquinas de fusão de elevado desempenho energético, ou então o bombardeio fez com que alguns reatores nucleares se descontrolassem. As indicações de nossos aparelhos são perfeitas. Alguma coisa aconteceu por lá.
De repente, Rhodan inclinou-se para a frente. O chiado do medidor de vibrações tornara-se irregular. O oscilograma exibido na tela começou a modificar-se.
Cuidado! — gritou Rhodan. — A localização do ativador está sendo modificada. O sacerdote ainda não chamou, Atlan?
Antes que Rhodan concluísse, a extremidade superior do edifício, que ainda continuava de pé, modificou-se. Abriu-se e dela saiu um objeto pequeno, do formato de um pingo de água, que atravessou a luminosidade produzida pelos blindados e desapareceu na escuridão.
Tomados de surpresa, seguimos o fenômeno luminoso com os olhos. Goratchim foi o único a agir imediatamente. Com um movimento da mão, ligou o hiperlocalizador inteiramente automatizado, girou-o na direção aproximada da área a ser rastreada e empurrou o botão vermelho.
Dali a alguns segundos, a nave, que acabara de decolar, apareceu na tela. O pequeno veículo espacial, que não media mais de quinze metros de comprimento, subia verticalmente para o espaço, onde mais de mil naves esperavam o momento em que se verificasse a tentativa de fuga.
Será que esse sujeito ficou louco? — gritou Rhodan fora de si. — Vejam. Como se depreende das indicações do goniômetro, o ativador encontra-se a bordo da nave. Pelo amor de Deus, Atlan, transmita imediatamente uma ordem a todas as naves robotizadas para que deixem passar o fugitivo.
No mesmo instante, os alto-falantes pareciam estourar. Os plantonistas das numerosas estações de observação comunicavam-nos aquilo que acabáramos de ver.
Enquanto eu entrava em contato com o regente para ordenar que, em hipótese alguma, ninguém deveria abrir fogo contra o veículo espacial, cuja rota e posição deveriam ser registradas constantemente, Rhodan deu partida no jato espacial.
A nave de tipo supermoderno possuía a capacidade de aceleração dos cruzadores da classe Estado. Rhodan compreendera imediatamente que nós mesmos teríamos de iniciar a perseguição.
A Drusus e a Califórnia estavam estacionadas no espaçoporto de Torgona. A Togo encontrava-se no espaço, mas longe do sistema. De qualquer maneira, seria insensato mandar que as grandes naves fizessem a caçada. O sumo sacerdote ainda levaria certa vantagem, pois voava de posse do ativador!
Uma luminosidade branco-avermelhada surgiu nas telas de observação externa. Tratava-se das massas de ar incandescente produzidas pela forte compressão, resultante da partida precipitada.
Mal e mal ouvi o trovejar dos superpotentes propulsores. Instantes depois atingimos o espaço livre. Dali a mais alguns segundos saímos da sombra projetada pela face noturna de Árcon II, penetrando na luz irradiada pelo grande sol de Árcon. Bem à nossa frente, a mais de três milhões de quilômetros de distância, a nave em forma de pingo d’água percorria o espaço.
Nosso dispositivo de localização energética reagiu prontamente aos impulsos emitidos pelos propulsores da nave fugitiva, o que nos permitiu continuar em sua pista. Rhodan levou à boca o microfone do telecomunicador. Enquanto abaixo dos nossos assentos, as máquinas do jato espacial, ativadas à potência máxima, uivavam fortemente, fazendo com que o indicador do neutralizador de pressão oscilasse junto à marca vermelha de advertência, Rhodan chamava as três naves terranas:
Rhodan chamando a formação. A Drusus e a Califórnia decolarão imediatamente. Procurem captar nossos sinais goniométricos. É de supor que o fugitivo inicie a transição assim que atingir a velocidade de salto, a fim de assegurar a fuga. Mantemo-nos em sua pista por meio do rastreador estrutural. Pouco importa para onde vá. Provavelmente o sacerdote não terá tempo para fazer um cálculo preciso do salto. Transitará ao acaso, para escapar à zona de perigo.
“— Atenção: as unidades do computador-regente receberam ordem para não abrir fogo. A situação modificou-se. Enquanto as sessenta horas não tiverem passado, em hipótese alguma deve-se atirar para destruir a nave. Atlan e Goratchim estão em minha nave. Procuraremos alcançar o fugitivo. Ainda não sei o que acontecerá depois disso.”
Os comandantes das unidades terranas confirmaram o recebimento da mensagem. No mesmo instante, meu receptor captou um chamado do centro de computação. As unidades de robôs haviam suspenso o ataque já iniciado.
Dali a pouco, Allan D. Mercant chamou. Utilizou o rádio instalado nos veículos que se encontravam nas proximidades do templo.
Mercant falando. Os robôs de guerra tomaram de assalto os restos do templo, em cujo interior encontraram numerosos sacerdotes. Todos se haviam reunido no edifício principal, que continuava de pé. É provável que o sumo sacerdote tenha fugido sozinho, muito embora não tenhamos ouvido nenhuma declaração nesse sentido. As prisões estão sendo efetuadas. Pergunta: o ativador está a bordo da nave?
Sem dúvida. Neste instante estou captando os primeiros sinais goniométricos. A nave de Kaata não é muito veloz. Também está acelerando à razão de quinhentos quilômetros ao quadrado por segundo. Estou ligando a injeção da massa de apoio. Daqui a três minutos alcançarei a velocidade da luz. O que acha do procedimento do sumo sacerdote, Mercant?
Rhodan baixou o microfone. Quando o chefe do Serviço de Defesa voltou a falar, a transmissão de imagem também estava funcionando. Seu rosto apareceu na tela do hipercomunicador, que realizava a transmissão instantânea, à velocidade superior à da luz.
Sob o ponto de vista psicológico, sua conduta é interessante, sir. Age de forma inesperada. Qualquer homem ou arcônida teria tentado conseguir salvo-conduto em troca da devolução do produto do furto. O sumo sacerdote preferiu agir de outra forma, fato que permite certas conclusões.
Deixe para lá — interrompeu Rhodan. — Estes comentários não nos adiantam muito. Ficaremos grudados nos calcanhares do homem. O certo é que o ativador encontra-se em seu poder. Uma vez que sabe que Atlan teme as dificuldades ligadas à obtenção de outro exemplar, calculou suas chances. Que diabo! Não deveríamos ter aludido a isso.
Se não o fizessem, como poderiam ter fundamentado o pedido de devolução do aparelho?
Seria simples. Poderíamos ter invocado o direito da vítima do furto.
Nesse caso Kaata teria dado ainda menos atenção à exigência.
Rhodan desligou. Um brilho zangado surgiu em seus olhos cinzentos. Parecia desmaiado no assento do co-piloto. Ivã Goratchim ocupara o lugar do radioperador de bordo. As duas cabeças capazes de pensar de forma autônoma habilitavam o mutante bem treinado a desempenhar duas funções ao mesmo tempo. E como piloto era inigualável.
Os propulsores de impulsos estavam funcionando a plena potência. Quando atingimos 75 por cento da velocidade da luz, Rhodan injetou a massa de apoio. O rugido da máquina tornou-se ainda mais forte e profundo.
Aproximávamo-nos muito rapidamente. Porém a essa hora, o intervalo de sete minutos entre a decolagem do sumo sacerdote e a nossa partida tornava-se perceptível de forma bastante agradável.
Rhodan fazia seus cálculos. Fitava ininterruptamente o ponto verde que representava o eco do hiperlocalizador, corrigindo a rota de acordo com o mesmo. De repente disse:
Já nos aproximamos à distância de tiro, mas se abrirmos fogo agora, aquela casca de nozes arrebentará que nem um ovo de galinha pisado por um elefante.
Espantei a apatia que ameaçava apoderar-se de mim. Com os olhos ardentes fitei a imagem do eco. Já nos aproximáramos o suficiente para que os contornos da nave se destacassem na tela.
Como pretende prendê-lo? — perguntei em voz baixa. — Esta nave não dispõe de raios de tração.
Rhodan não respondeu. Ligou o rastreador estrutural e o acoplou ao dispositivo automático de hipersalto. Tratava-se de um mecanismo recém-criado, que permitia a perseguição pelo paraespaço, sem obrigar o perseguidor a esperar que a nave fugitiva iniciasse a transição.
Ele saltará antes que nos aproximemos. Já atingiu a marca dos cinco por cento abaixo da velocidade da luz. Se injetarmos toda a massa de apoio disponível, poderemos acelerar mais um pouco, mas isso não representaria qualquer aumento considerável. Não me arriscarei a dar um tiro bem dirigido tão perto da barreira da luz. E o tiro terá de ser bem dirigido, a não ser que queiramos esfacelar a nave. Apenas pretendo atingir a sala de máquinas situada na popa. Depois disso, veremos se o anti tem amor à vida.
O anti! A palavra me causou um calafrio.
A cabeça esquerda de Goratchim virou-se em nossa direção. Ivã disse com uma calma estranha:
Atenção! Ultralocalização. Neste momento está iniciando a transição. Estamos captando os primeiros hiperimpulsos.
Contorci-me na minha poltrona. Rhodan voltou a controlar o dispositivo automático sincronizado que, no momento da transição, faria o mesmo salto da outra nave, com base nas medições energéticas. Todas as naves terranas seriam dotadas desse dispositivo, já que as perseguições pelo paraespaço eram bastante freqüentes.
O funcionamento do dispositivo automático sincronizado só se tornava perfeito, se a transição da nave perseguida não era superior a dez anos-luz. Dali em diante, os dados passavam a ser pouco precisos.
De repente ouvimos um estalo no rastreador estrutural. O anti desaparecera do espaço normal.
Nossa transição foi realizada com um intervalo de 0,3 segundos. Foi o tempo que o dispositivo automático positronizado gastou em calcular os ecos energéticos por ele localizados, confrontá-los com a massa da outra nave e determinar os dados de nosso salto.
Foram apenas 0,3 segundos, mas estes me pareceram uma eternidade. Seguiu-se o choque da desmaterialização. Foi breve e pouco doloroso, tornando-se facilmente suportável, o que constituía um sinal de que a transição do anti não o levara a grande distância.
Os contornos do corpo de Rhodan desmancharam-se. Dissolvemo-nos e, por um instante, transformamo-nos numa componente energética do espaço de cinco dimensões, no qual um corpo da quarta dimensão não pode manter a estabilidade de sua configuração.
A última coisa ouvida por mim foi a exclamação de Goratchim. Não cheguei a compreender a mensagem que ele ainda pretendia transmitir.
8



Há dez mil anos da contagem de tempo terrana, quando tomaram a decisão de ativar meu cérebro, a fim de propiciar o trabalho útil dos centros ociosos do mesmo, obtive, no curso do respectivo programa, uma memória fotográfica. Jamais me esquecia de qualquer coisa que tivesse visto ou experimentado.
Conhecia o sol que aparecia à minha frente. Era uma pequena estrela amarela, igual a qualquer outro. Quase chegava a ser um sol anão e possuía um único planeta.
Tal planeta era enorme e, em sua atmosfera, imperava o metano. Assim sendo, tornava-se inabitável para os seres que respiram oxigênio. Nem mesmo na época de apogeu do Império, chegamos a instalar por lá uma base da frota.
O pequeno sol situava-se em ponto um tanto afastado do centro do grupo estelar. No entanto, a estrela mais próxima ficava a pouco menos de 0,5 anos-luz. No interior do grupo estelar, as transições acarretavam muitas dificuldades. Nos primórdios da tecnologia do vôo à velocidade superior à da luz, houvera numerosos acidentes graves.
A estrela-anã figurava nos catálogos arcônidas com o nome de Gela. Como de costume, seu planeta único foi designado pelo nome de Gelal.
Uma vez realizada a manobra de imersão e verificada a rematerialização, procuramos imediatamente localizar o fugitivo. Enquanto eu ainda me sentia um tanto nervoso, Goratchim avisou ter conseguido localizar o pequeno veículo espacial.
Saíramos do hiperespaço a pouco de meio milhão de quilômetros do barco do fugitivo. Mas ao contrário deste, conserváramos a velocidade do salto, que correspondia aproximadamente a 98,76 da velocidade da luz.
O veículo do anti não era de construção arcônida. Seu formato exterior levava a essa conclusão. Os cientistas de meu venerável povo sempre haviam construído os veículos espaciais em formato esférico.
Concluía-se que havia acentuadas diferenças entre as duas naves, fato que, no caso, se revelava através da diferença de velocidade, que, no momento, se tornou bem perceptível.
O anti desenvolvia apenas metade da velocidade da luz. Uma vez realizada a localização, o goniômetro especialmente ajustado também voltou a entrar em funcionamento. Meu ativador continuava a bordo do pequeno veículo espacial.
Rhodan resolveu jogar tudo, numa só carta. Espantei-me com minha indiferença. Meus sentidos pareciam embotados. Nem mesmo a idéia do fim próximo conseguia abalar minha mente. Demorei algum tempo para compreender que todas as células de meu organismo já estavam bastante afetadas.
Sentia-me tão exausto e abatido que tive de fazer um tremendo esforço ao olhar para o relógio. Cinqüenta e seis horas e cinqüenta e oito minutos, ou seja, quase cinqüenta e sete horas já se haviam passado desde o momento do furto.
O tempo de que dispunha estava chegando ao fim. Meu interesse pelos acontecimentos apagara-se quase por completo, embora, antes da transição, ainda me mantivesse em plena atividade.
Um impulso débil de meu cérebro adicional informou-me de que isso tinha sua causa na carga dupla, representada pela desmaterialização e pela subseqüente rematerialização. Face a meu estado de saúde, essa tortura representara um veneno para os grupos celulares gravemente afetados.
Fitei minhas mãos. A pele já começava a enrugar-se. Nos pulsos apareciam grandes dobras e rugas. Tive a intenção de rir, mas não consegui emitir nenhum som. Apenas cheguei a imaginar num recanto obscuro do cérebro que a temível decadência estava ocorrendo mais cedo do que se esperava.
O vulto gigantesco de Goratchim surgiu à minha frente. Lancei um olhar indiferente para as duas cabeças.
Por que não me deixavam em paz? Rhodan disse alguma coisa que não entendi muito bem. Apenas percebi que sua voz era áspera e insistente.
Goratchim tomou impulso com a mão, como se quisesse arremessar uma pedra. Senti uma dor aguda, que logo passou. Fitei a parte visível da grossa agulha que o mutante me introduzira na musculatura do tórax. Ah, sim, antes disso abrira o uniforme.
Senti a pressão do líquido injetado. Por que Goratchim teria usado esse método antiquado? Não apreciava as picadas de agulhas.
Preferi não protestar. Era indiferente que me picasse ou usasse as modernas seringas pressurizadas.
Olhei para seu polegar, que continuava a empurrar o embolo da seringa. O líquido desapareceu no interior de meu corpo. Quando só restava pequena quantidade do mesmo, senti náuseas. A sensação tornou-se tão forte que perdi os sentidos.
Quando despertei, tive a impressão de que seria capaz de arrancar árvores. Ergui-me abruptamente na poltrona. Já não me lembrava exatamente do que acontecera, mas o estado de inconsciência só poderia ter durado alguns segundos.
O que houve? — perguntei em tom mais áspero do que pretendia.
Em atitude agressiva, olhei em torno. Estava um tanto desconfiado e quase chegava a sentir-me ofendido. Tive a impressão de que desempenhava um papel ridículo.
As duas cabeças de Goratchim sorriam em plena harmonia. Piscavam para mim. Rhodan concentrou-se sobre a tela do rastreador, na qual se via nitidamente a imagem da outra nave.
Não faça perguntas — disse em tom contrariado. — Você está gasto. Ivã aplicou-lhe uma dose reforçada de parastimulim. Espero que ainda agüente algumas horas. Permita-me uma pergunta. Você sabe atirar, arcônida?
Entendi o significado irônico de sua pergunta.
Sei atirar muito melhor do que você pensa. Nunca errei o alvo.
O.K. Era o que eu queria ouvir. Estou ocupado com os controles da nave. O barco do fugitivo está a menos de quatro mil quilômetros. Numa batalha espacial, esta distância quase chega a ser ridícula. Na situação em que nos encontramos, porém, tal distância torna-se considerável, já que você só poderá atingir a popa de raspão. Dispomos mais ou menos de dois minutos. Depois disso atingirá uma velocidade que lhe permitirá realizar outra transição, o que talvez lhe permitisse escapar. Compreendeu o que deve ser feito?
Nossos olhares cruzaram-se. Seria agora ou nunca. Não tinha tempo a perder.
Liguei o suprimento de energia do canhão de impulsos. Tratava-se de uma peça rigidamente montada na proa, cujas dimensões eram tamanhas que não faria má figura a bordo de um cruzador de quinhentos metros de diâmetro.
Todos os jatos espaciais modernos dos terranos estavam equipados com tal arma energética.
Face ao tipo de montagem, a pontaria tinha de ser feita por meio de movimentos de toda a nave. Isso trazia vantagens quanto à precisão do tiro. Mas, de outro lado, acarretava desvantagens táticas. Sabia como atirar com esse canhão.
A tela do visor de alvos iluminou-se.
Apesar da reduzida distância, a imagem não era muito boa. Mal e mal consegui distinguir a popa da outra nave.
O canhão estava pronto para disparar. A carga catalítica de fusão injetada na câmara de reação só precisaria do arco luminoso para iniciar o processo de fusão nuclear.
Os campos de compensação do cano da arma apresentavam a marca verde. Poderia irradiar as energias liberadas numa direção única, sem correr o perigo de que o jato espacial se transformasse numa bomba atômica.
Rhodan seguiu minhas indicações de correção da rota, a fim de colocar o alvo na mira. Tratava-se de frações de grau na vertical e na horizontal.
A ponta verde da mira caminhava em direção à popa da outra nave, da qual não sabíamos que seres a haviam construído. De qualquer maneira não era comparável aos veículos arcônidas e terranos da mesma ordem de grandeza, embora seus técnicos tivessem conseguido o milagre de instalar um hiperpropulsor num espaço tão pequeno.
Provavelmente fora por isso que o sumo sacerdote escolhera um veículo espacial desse tipo. Em compensação, tivera de contentar-se com um desempenho medíocre por ocasião do salto. Estava firmemente decidido a fazer com que essa circunstância representasse sua desgraça.
Qualquer produto técnico-científico, seja qual for sua espécie, segue uma série de leis em sua evolução. Qualquer vantagem evidente e sedutora só podia ser alcançada por meio de concessões em outras áreas.
A ponta da mira cobriu o alvo. O bocal de popa da outra nave estava na linha de fogo. Desviei-me mais um pouco, para comprimir o botão de disparo com a maior cautela, a fim de não provocar qualquer abalo.
Diante do pesado canhão de impulsos, surgiu um anel ofuscante produzido pelas energias atômicas liberadas. Nossa nave deslocava-se com suficiente rapidez para comprimir a micromatéria bastante rarefeita do espaço. Foi assim que surgiram os fenômenos luminosos, muito embora nos encontrássemos no vácuo, que normalmente não é um meio condutor.
Pudemos acompanhar o raio energético de aproximadamente dez centímetros de diâmetro a uma distância de cerca de cem metros. Dali em diante, desapareceu repentinamente, já que a essa distância não havia mais nenhuma concentração de matéria.
Antes que o tiro de radiações, que se deslocava à velocidade da luz, atingisse a nave que acelerava continuamente, um tempo apavorante passou-se. Quando isso aconteceu, Goratchim soltou um grito.
Corríamos vertiginosamente em direção à luz irradiada da popa da nave perseguida. No momento em que Goratchim constatou a presença da descarga energética, vimos a mancha luminosa.
O minúsculo veículo espacial foi arrancado de sua rota. Só então percebi que Gelal, o planeta de metano, encontrava-se bem na nossa rota.
Rhodan fez recuar a alavanca do acelerador. De repente, as máquinas passaram a trabalhar em ponto morto. Em queda livre seguimos o veículo espacial, aparentemente desgovernado.
Excelente! — disse Rhodan com um sorriso irônico. — Acho que isso fez o anti empalidecer um pouco. Veja! Seus jatos direcionais ainda estão funcionando.
Vimos os feixes de impulsos saídos da proa semi-esférica. A luminosidade azulada aparecia nitidamente em nossa tela.
Está freando — observou Ivanovitch, o jovem, em tom exaltado.
Rhodan também passou à desaceleração. A velocidade da outra nave diminuía rapidamente. O anti já não tinha a menor chance de escapar no hiperespaço. Ao que parecia, o impacto destruíra mecanismos importantíssimos.
Para nosso espanto, o sacerdote realizou uma violenta manobra de frenagem e, ainda em alta velocidade, entrou numa órbita em torno do grande planeta de metano.
Graças às nossas máquinas superpotentes, conseguimos reduzir em tempo nossa velocidade. Reunindo todas as energias disponíveis, Rhodan obrigou o jato espacial, que parecia gemer, a entrar em órbita.
A nave fugitiva já desaparecera atrás da curvatura do planeta. Numa manobra tão rápida, não poderíamos arriscar um segundo tiro.
Acreditávamos que o anti tivesse escapado, quando vimos um eco anguloso na tela do rastreador. Compreendemos que o sumo sacerdote estava pousando na maior das três luas do planeta.
Sua nave precipitou-se com o bocal de popa em chamas sobre o astro sem nome, que media pouco menos de mil quilômetros de diâmetro, e cuja gravitação era de apenas 0,11 G. Não possuía qualquer envoltório atmosférico. Seu movimento de rotação era extraordinariamente rápido, já que se completava em cerca de 21 horas.
Mal havíamos localizado a nave, esta desapareceu atrás do horizonte do satélite, que se aproximava vertiginosamente. Rhodan voltou a forçar nossos propulsores. Com a desaceleração máxima de 750 quilômetros ao quadrado por segundo, entrou numa ampla órbita elíptica. Face à nossa velocidade, ainda muito elevada, a força centrífuga era tão grande que a reduzida gravitação da lua praticamente não apresentava nenhuma compensação.
Assim vimo-nos obrigados a recorrer aos bocais corretores de rota, a fim de manter-nos em órbita, até que a velocidade fosse reduzida a ponto de atingir o nível normal.
Se estiver com sorte, seu plano será bem sucedido — disse Rhodan com uma calma apavorante. — Se eu fosse ele, saltaria da nave que está caindo, atiraria para longe o ativador celular, que trairia minha posição, e procuraria um esconderijo bem longe dali. Calcularia que os perseguidores estão mais interessados no aparelho que em minha pessoa. Será que é bastante inteligente para raciocinar dessa forma? Não era!
Durante nossa terceira circunvolução em torno da luz, localizamos o sumo sacerdote. Trazia o ativador junto ao corpo. Portanto, sua descoberta seria inevitável. Naquele momento tive uma idéia. Virei-me num gesto nervoso.
É apenas uma suposição — disse apressadamente. — Ele sabe que no momento em que iniciou a fuga, nós nos encontrávamos no ar com o jato espacial. Será que tem motivos para supor que, como encetamos imediatamente a fuga, não temos a bordo o aparelho de localização a que aludi? Não tem meios de saber que o goniômetro estava montado nesta nave.
Rhodan passou as costas da mão pelo nariz e fitou-me com uma expressão de dúvida.
Bem, com esse sujeito não se pode duvidar de nada. Já descobrimos isso por experiência própria. É provável que não sabia, pois, do contrário, teria jogado fora o ativador. O.K. Sinto-me satisfeito em saber que resolveu ficar com ele.
Naquele instante vimos uma forte explosão atômica na face noturna do satélite. Ninguém deixaria de notar a coluna incandescente.
Foi a nave dele! — disse Rhodan em tom de desânimo. — Caiu! A perda é total. Será que ainda se encontrava no interior da mesma?
Está vivo — disseram as duas cabeças ao mesmo tempo. — E está levando consigo o aparelho. Provavelmente saltou com um planador antigravitacional, depois de constatar que as avarias da nave eram mais graves do que supusera. Estou captando ecos bem nítidos, sir. Não. Não prossiga. O anti encontra-se longe do local da queda.
Com um último empuxo do jato direcional de proa Rhodan fez parar o pequeno veículo espacial.
Seguindo as indicações de Ivã, fomos descendo lentamente em direção à superfície do satélite. Montanhas nuas, sem qualquer vegetação, surgiram à nossa frente. O anti devia estar por ali.
Nossos aparelhos de absorção de gravidade regularam-se automaticamente para o nível de gravitação do satélite. Os jatos especiais eram excelentes mininaves, com as quais se podia arriscar muita coisa...
Ficamos planando sobre a superfície, até que Ivã informou que o ativador se imobilizara. Isso significava que, se o aparelho se encontrava junto ao corpo de Kaata, o antimutante já devia ter atingido a superfície.
Rhodan limitou-se a dar uma risada. O tom áspero da mesma não encerrava nenhuma cordialidade.
Sem dizer uma palavra, levantei-me e fui ao depósito para procurar um traje espacial apropriado. Lembrei-me que o mutante de duas cabeças não encontraria um artefato apropriado a bordo do jato espacial. Parei à sua frente, em atitude pensativa.
O que vamos fazer com você? Não poderá sair, pois por aqui não há oxigênio. Goratchim teve uma idéia.
A bordo desta nave existe um pequeno planador blindado, um veículo versátil, para ser mais preciso. Eu me acomodarei em seu interior e dar-lhes-ei cobertura, usando o canhão energético leve.
No momento em que a nave parou sobre um extenso complexo de montanhas, fortemente entrecortado, Rhodan já havia concordado com o mutante. A superfície da lua oferecia um quadro desolador. No entanto, as temperaturas ali reinantes pareciam ser suportáveis. O sol pequeno e débil ficava a grande distância.
Enfiei-me num traje espacial de fabricação terrana. Era dotado de um dispositivo antigravitacional, que neutralizava a força da gravidade. Esse aparelho não permitia propriamente um vôo, mas possibilitava saltos a grande distância.
Arranjei um traje destinado a Rhodan. Goratchim trouxe duas grandes armas de impulsos. Num mundo do tamanho de Árcon seriam muito pesadas para serem usadas, mas nesta lua de pequenas dimensões poderiam ser facilmente manipuladas.
Controlei os pequenos projetores destinados à geração de um campo defensivo individual. Haviam sido montados perto da mochila, destinada ao armazenamento do oxigênio.
Os microrreatores funcionavam a plena potência. Não geravam mais de oitenta quilowatts. Em virtude disso, os campos defensivos individuais também não eram muito potentes. Mas, de qualquer maneira, seriam capazes de repelir tiros energéticos de intensidade normal.
Goratchim comunicou que a intensidade dos sinais goniométricos chegara ao máximo. Isso significava que nos encontrávamos exatamente sobre o lugar em que o sacerdote saltara. Provavelmente ficaria muito surpreso ao notar que o descobríramos tão depressa.
Se não fora privado de seu preciso raciocínio, deveria saber que, contra todas as expectativas, trazíamos a bordo o goniômetro especialmente ajustado.
Rhodan preparou-se para pousar. Fez a nave descer na vertical e teve a cautela de ativar os campos defensivos.
Pousamos suavemente, sem o menor solavanco. Os propulsores pararam. O reator de fusão destinado ao suprimento energético dos diversos aparelhos permaneceu funcionando.
Rhodan lançou um olhar sugestivo para meu relógio. Li a indicação do tempo decorrido a partir do furto. Cinqüenta e oito horas e dezoito minutos já se haviam passado.
Ainda temos uma hora e quarenta e cinco minutos — disse com uma alegria fingida. — Vocês não acham estranho que a gente se prenda tanto à vida?
Rhodan colocou o traje espacial. Goratchim desapareceu no apertado compartimento de carga, situado atrás da cabina.
A luz ofuscante do sol amarelo entrava livremente. Nos lugares de sombra reinava a noite escura. Acabáramos de pousar num astro inóspito, hostil à vida.
Esperamos até que Goratchim anunciasse que o veículo versátil estava pronto para partir. Rhodan abriu a comporta e deixou que o mutante saísse. No momento em que vimos o veículo achatado, desligamos o reator.
Quando já nos encontrávamos do lado de fora e a escotilha da comporta se fechou, Rhodan perguntou:
Onde está escondido o setor lógico de sua mente, Atlan?
Fitei o terrano com uma expressão de perplexidade. E ele mesmo acrescentou em tom seco:
Esquecemo-nos de enviar uma hipermensagem à frota que se mantém à espera. Como poderão encontrar-nos caso surja alguma emergência?
Estas palavras fizeram-me soltar uma praga. Tentei abrir a escotilha da comporta para reparar a falta, Rhodan disse em tom sarcástico:
Ninguém é infalível, nem mesmo o anti. Abrigue-se, arcônida.
Num gesto instintivo atirei-me ao solo. A comporta ficava a uns vinte metros.
Um raio energético escaldante chiou pouco acima de minha cabeça.
Outros disparos derreteram o chão à minha direita e à minha esquerda. As trajetórias de tiro desenvolviam-se em ângulo aberto, motivo por que cavavam sulcos no solo arenoso.
Dali em diante limitamo-nos a correr, até alcançarmos a rocha mais próxima. O anti isolara-nos da nave, e nós nos esquecêramos de transmitir uma mensagem de rádio.
Simplesmente esquecêramos, como se esta fosse a primeira vez que viajávamos pelo espaço.
Era horrível!

9



Mesmo numa comunicação pelo rádio a voz sonora do sumo sacerdote era inconfundível. Parecia mais grave, ao sair dos nossos alto-falantes de capacete.
Ainda me sentia disposto e ávido de ação. Naquele momento, o parastimulim injetado por Goratchim atingia a plenitude do seu efeito.
Sob o ponto de vista tático, a situação era insustentável. Por ocasião do primeiro ataque, o anti provara que realmente as inteligências de sua espécie possuem os melhores campos defensivos da Galáxia.
No momento em que Segno Kaata mudou de posição, consegui um impacto direto com minha arma de impulsos superpotente.
O sacerdote fora atirado violentamente para o lado, mas isso resultará exclusivamente da força de impacto de seis mil quilogramas por metro quadrado. O campo energético se conservara impecavelmente, refletindo as energias atômicas.
Rhodan também atirara, transformando o solo em torno do sacerdote caído num lago de lava incandescente. Apesar disso Kaata conseguira escapar. Ficamos perplexos.
Depois de algum tempo, Goratchim encontrou a solução do enigma. Afirmou que a faculdade do anti consistia, entre outras, na capacidade de fortalecer e estabilizar um campo energético por meio de impulsos catalíticos individuais.
Era uma explicação complicada, mas parecia aceitável. Afinal, sabíamos perfeitamente que o gerador de campo defensivo, usado por Segno Kaata, não era nem um pouco melhor que os modelos usados por nós.
Estávamos deitados, atirando sem qualquer efeito. Enquanto isso, o tempo ia passando. De repente esta concepção, que era a mais relativista de todas, assumira um caráter muito realista para mim. Envolvia o ser ou o não ser.
Depois da última troca de disparos energéticos, subitamente ouvimos a voz de Kaata. Provavelmente realizara a determinação goniométrica de nossas comunicações radiofônicas. Utilizou a mesma freqüência.
Detive a respiração e fiz uma tentativa desesperada de encontrar na voz daquele homem a solução de meu problema.
Suponho que Vossa Alteza se tenha aventurado pessoalmente a esta lua — começou o sumo sacerdote em tom objetivo — porque não possui qualquer duplicata do ativador. Peço-lhe, então, encarecidamente que desista de suas pretensões absurdas. Sou invulnerável.
Lancei um olhar para Rhodan, que se encontrava deitado atrás de um grande bloco de pedra, a uns trinta metros de distância. No momento não se via o menor sinal de Segno Kaata. Ao que parecia, abrigara-se numa depressão do solo.
Rhodan fez um sinal insistente. Vi que sacudia a cabeça, sob a semi-esfera do capacete pressurizado.
Olhei para o relógio. Dispunha de pouco menos de uma hora. Por quanto tempo duraria o efeito do parastimulim? Não havia dúvida de que esse medicamento seria incapaz de evitar a decadência total de meu organismo.
Tomei a decisão de falar em tom firme e seguro. Comprimi lentamente a tecla de transmissão.
Atlan chamando Segno Kaata — disse. — O senhor encontra-se cercado. Atrás do seu abrigo está aparecendo um carro de combate fortemente armado, cujos campos defensivos nunca poderão ser rompidos por sua arma. Desista!
Sua risada me fez estremecer. Comecei a ficar nervoso. Não conseguia reprimir a lembrança dos minutos que se escoavam, por mais que me esforçasse.
Percebi que estava perdendo o auto-controle. Quem dera que esse demônio não tivesse dado essa risada de superioridade!
Vossa Alteza acha que minha arma é muito fraca? Trata-se de uma versão especial. Mesmo um impacto direto não consegue desmoronar meu campo defensivo. Lembre-se: ainda lhe restam cinqüenta e oito minutos para aceitar minhas propostas.
Surpreso, contive a respiração. Lancei um olhar apavorado para o mostrador de meu relógio.
Kaata estava muito bem informado. Cometera um engano de apenas três minutos, pois o prazo de que dispunha terminaria dentro de cinqüenta e cinco minutos. Tive vontade de gritar. O instinto de auto-conservação ameaçava tomar conta de minha mente. A capacidade de raciocínio estava diminuindo. Apesar disso consegui controlar-me mais uma vez.
O senhor já conhece minha proposta — respondi. — Entregue o aparelho, e deixarei que siga seu caminho, depois de submetê-lo a uma lavagem cerebral.
Voltou a rir. Bem ao longe, apareceu o blindado dirigido por Goratchim. Estava equipado com um desintegrador, que agia por meio da destruição da estrutura molecular da matéria. Com o impacto dessa arma, qualquer tipo de matéria dissolvia-se em pó.
Até parecia que o sumo sacerdote sabia ler os pensamentos. Voltou a falar:
Não podemos cogitar de uma lavagem cerebral, alteza. Exijo livre retirada e a entrega de sua espaçonave. Prometo que, pouco antes da decolagem, atirarei o aparelho ao chão, onde Vossa Alteza o encontrará. Evidentemente não estarei disposto a entregar o ativador, antes de entrar na nave.
Todo o meu ser estava ansioso para aceitar a proposta. Quase cheguei a levantar-me. Rhodan fez um sinal. Repentinamente interveio na palestra radiofônica.
Aqui fala Perry Rhodan, administrador do Império Solar — disse a título de apresentação.
Sua voz parecia fria e ameaçadora.
Rejeitamos sua proposta, Kaata.
Peço-lhe encarecidamente que desista de aplicar seus truques em minha presença. O senhor foi descoberto e será destruído.
Ora, é o bárbaro terrano — disse o sacerdote.
Desta vez foi Rhodan quem riu. Percebi que sabia lidar muito melhor com esse tipo de gente do que eu. Era a resolução em pessoa. Irradiava um fluido que fazia com que seus inimigos se conduzissem com cautela. Assim que Rhodan continuou a falar, o sumo sacerdote também percebeu este fato.
Dou-lhe mais cinco minutos, Kaata. Se até lá não sair de seu esconderijo com os braços levantados, conhecerá aquilo que nós, os bárbaros, costumamos chamar de inferno.
O senhor está interferindo nos assuntos internos do Império — disse Kaata, em tom de reprimenda.
Para mim, o senhor não passa de um criminoso. Vamos logo; saia da toca. Exijo que o senhor devolva o ativador.
Venha buscá-lo — gritou o sacerdote. Desta vez sua voz já não parecia tão tranqüila.
Rhodan não tomou conhecimento das palavras do anti e gritou:
Ivã, vá mais pela esquerda. Aumente a velocidade. Ele não poderá destruir seus campos defensivos.
Goratchim respondeu. Era claro que Segno Kaata ouvia e entendia cada palavra da palestra, ao menos até que Rhodan de repente passasse a falar inglês:
O.K., preste atenção. Esse sujeito não deve entender o inglês. Suponho que seu campo defensivo tenha um ponto fraco. Deve haver algo de errado, pois do contrário poderia aguardar tranqüilamente as medidas que pretendemos tomar. Possivelmente a alteração estrutural das linhas naturais de força, causada por meios parapsíquicos, corre algum perigo. Devemos descobrir qual é o ponto fraco. Ele está interessado em apoderar-se da espaçonave. Se Ivã chegar mais perto, o sacerdote procurará atingir o jato espacial. Devemos evitar a todo custo que isso aconteça. Mesmo que não consigamos matá-lo, é provável que não escape incólume à tremenda força de impacto dos potentes raios de impulso, ao menos por muito tempo. Poderá ferir-se em quedas. Talvez chegue a sofrer alguma fratura. É claro que ele mesmo conta com essa possibilidade.
Preste atenção, Ivã. Dificilmente, o campo defensivo reagirá ao seu desintegra-dor. Por isso você deve atirar contra qualquer coisa que sirva de abrigo ao sacerdote. Destrua os abrigos, abrindo o campo para nós.
Atlan: depois que o anti estiver à vista, oriente o fogo de tal maneira que sempre seja tangido em direção oposta à da nave. Dessa forma evitaremos que abra caminho para lá. Tudo entendido? O.K., Ivã, pode começar. Você já se aproximou bastante.”
O plano de Rhodan era perfeitamente compreensível. Talvez, dentro de algumas horas, conseguíssemos enfraquecer Kaata a tal ponto que se visse obrigado a desistir. Acontecia que não podíamos dispor dessas horas.
O sumo sacerdote compreendera que sua situação se tornara perigosa.
De repente apareceu atrás da rocha que lhe servia de abrigo, e passou a dar saltos em direção ao jato espacial, que estava a menos de cem metros. A reduzida gravitação da lua de Gelai representava uma vantagem, mas esta foi neutralizada em parte.
O anti mal conseguia pôr-se de pé depois de cada salto. Não estava acostumado a essa forma de locomoção.
Rhodan foi o primeiro a atirar. A trajetória do tiro, ultraluminosa e que se deslocava quase à velocidade da luz, atingiu o sacerdote quando de um salto. Face à ausência do meio condutor do som — o ar — tudo se passou num silêncio total.
Vi o raio energético de cerca de dois centímetros de diâmetro esbarrar no campo defensivo do sacerdote, de onde passou a escorrer em cascatas.
O corpo foi arrancado da trajetória com uma força tremenda, arrastado alguns metros para o lado e atirado contra uma rocha.
Naturalmente, o campo defensivo amortecia o choque, mas por certo alguns abalos haviam atingido o organismo.
Numa cólera súbita dei vazão a todo meu desespero. Apontei a arma e abri um tremendo fogo energético contra o sacerdote, que de repente parecia uma estátua cercada de raios de fogo.
Estava encostado a uma rocha alta e firme, mas não conseguia fazer qualquer movimento. Os raios energéticos, que o atingiam ininterruptamente e com muita precisão, o mantinham pregado ao lugar, em virtude da tremenda força de impacto das pesadas armas de impulsos.
Atirei até que a luz vermelha de advertência se acendesse. A arma energética estava superaquecida. Rhodan pegou um de seus radiadores portáteis, que evidentemente possuía um desempenho energético muito mais reduzido.
Atirei a enorme arma de impulsos para a sombra mais próxima do meu abrigo, onde o esfriamento seria mais rápido, face à intensa radiação térmica.
Quando começamos a disparar com as armas portáteis, Kaata conseguiu desprender-se da rocha. Cambaleando e caindo constantemente, retirou-se para trás de uma pequena encosta, onde desapareceu. Rhodan soltou uma gargalhada. Kaata devia ter ouvido, pois por certo não desligara seu rádio.
Ivã, você o vê? Deve estar do seu lado.
Está na minha alça de mira, sir.
Muito bem. Fogo! Pulverize a ponta da rocha.
Os disparos do canhão do blindado eram invisíveis. Em compensação, seus efeitos eram por demais perceptíveis. De repente a rocha estável dissolveu-se. Começou a desagregar-se e, de repente, desmoronou de vez.
Segno Kaata voltou a tornar-se visível. Estava deitado sobre a montanha de pó finíssimo que pouco antes fora um bloco de granito. No entanto, o raio de desintegração não destruíra o campo defensivo individual de Segno.
Rhodan voltou a disparar imediatamente, enquanto gritava para nós:
Não esmoreçam. Mantenham-no sob fogo.
Dali a alguns segundos alcançamos um êxito inesperado. Mais uma vez, o sumo sacerdote foi soprado por cima do terreno. Seus tiros perdiam-se em vão.
Voltara a segurar minha arma pesada.
A luz vermelha apagara-se, de maneira que o radiador estava em condições de ser usado.
Apontei para um bloco de pedra esférico, de dois metros de diâmetro que, segundo parecia, Segno procurava atingir. Sob a ação do fogo contínuo, a rocha entrou em incandescência e explodiu.
Aconteceu alguma coisa sobre a qual apenas poderia fazer conjeturas, já que não vira nada. O microfone de capacete transmitiu um estridente grito de dor. Com a mão direita, Kaata segurava o braço esquerdo, que parecia pender, molemente, junto ao corpo.
Esqueci de atirar. Olhei tensamente para o sacerdote, que naquele momento estava desaparecendo numa profunda depressão do solo.
O que foi isso? — perguntei em tom exaltado. — O que houve com o braço dele? Você viu? Será que um dos nossos tiros conseguiu romper o campo defensivo?
Não — respondeu Rhodan em tom hesitante. — Nunca. Isso aconteceu no momento em que a rocha explodiu. Pedaços grandes voaram a uma velocidade apreciável.
Será que ele foi ferido com isso? Rhodan não respondeu. Ao que parecia estava refletindo. Subitamente, o sumo sacerdote voltou a chamar:
Se Vossa Alteza não aceitar imediatamente o acordo destruirei seu ativador. Depende de Vossa Alteza!
Entregue o aparelho e permitiremos que o senhor se retire — disse Rhodan em tom frio.
Kaata usou uma expressão ofensiva. Rhodan prosseguiu:
Se quiser negociar, fale comigo. Entendido? Mandarei tirá-lo da toca; não tenha a menor dúvida. Apresento-lhe minha última oferta. Coloque o ativador sobre a rocha, em lugar bem visível, e entregue-se. Garanto sua segurança pessoal. Largá-lo-ei em qualquer planeta que lhe convenha.
Independentemente de qualquer intervenção no cérebro?
Independentemente de qualquer intervenção no cérebro. Reflita sobre minha proposta. Saberei cumprir minha palavra.
O senhor não tem poder de decisão, terrano.
Tem, sim — intervim apressadamente.
Naquela hora pouco importava que aquele homem continuasse vivo ou não. Precisava recuperar o aparelho. Ainda dispunha de trinta e um minutos.
Dali em diante, o anti teve certeza de que não possuía nenhum exemplar sobressalente. Momentos depois, Rhodan preferiu não negar mais o fato.
Vossa Alteza está prestes a morrer — disse o sumo sacerdote, dirigindo-se a mim. — Eu sabia que não existia outro exemplar do aparelho. As informações que me foram fornecidas eram dignas de confiança. Exijo a livre retirada e a aceitação de minhas sugestões, quando da programação do regente.
Já é tarde para dizer uma coisa dessas — observou Rhodan. — Sem o ativador, Atlan morrerá. Se isso acontecer por sua culpa, Kaata, eu me vingarei. O senhor nunca conseguirá entrar na nave. Mesmo que Atlan seja colocado fora de ação, o senhor ainda terá de enfrentar a mim e ao meu mutante. E nós o perseguiremos por toda esta lua. Reconheci o modelo de seu traje espacial. O senhor dispõe de oxigênio apenas para dez horas. Já os nossos trajes terranos possuem regeneradores muito mais aperfeiçoados. Poderemos respirar por vinte e quatro horas. O que lhe adiantará oferecer resistência? Tem alguma coisa a ganhar com a morte de Atlan? Faça o favor de raciocinar. Ofereço-lhe plena liberdade de movimentos. O que mais pode pedir? De qualquer maneira o senhor já perdeu.
O anti manteve-se calado por alguns segundos, que aproveitamos para esfriar as armas. Naquele momento não poderíamos usá-las.
De repente ouvimos a resposta de Kaata:
Não posso confiar em sua promessa nem na de um moribundo. Prefiro procurar uma chance real. Minhas possibilidades de derrotá-los são melhores do que os senhores alegam. Não confio nas promessas de um bárbaro e nem nas de um imperador, que conquistou o cargo por meios fraudulentos. O senhor morrerá, Atlan!
Sua risada quase me fez enlouquecer. Rhodan arrastou-se até o lugar onde eu estava e obrigou-me a continuar abrigado. Um tiro disparado pela arma de Kaata fez entrar em incandescência a rocha acima de minha cabeça. Ainda dispunha de vinte e seis minutos.
Os olhos de Rhodan estavam arregalados de espanto, o que me fez concluir que meu rosto já sofrerá certas modificações. Provavelmente a pele se tornava enrugada e mole. Comecei a ser tomado por um cansaço total. Sentia-me como um ancião prestes a morrer...
Naquele momento conformei-me definitivamente com a idéia de morte. Até consegui sorrir.
Será que as coisas já chegaram a este ponto? — perguntei em voz baixa e em inglês.
Sem dizer uma palavra, Rhodan puxou meu braço esquerdo para junto de seu corpo e olhou para meu relógio.
Ainda temos vinte e cinco minutos. Muito bem. Vou fazer alguma coisas. Não; nada de objeções — disse em voz mais alta. — Segure sua arma, e também a minha, e faça exatamente aquilo que eu mandar.
Fiz um gesto de resignação. Uma estranha tranqüilidade apossou-se de mim. Estava pronto para desistir. Provavelmente já não tinha mais forças para quase nada. Se não fosse o auxílio de Rhodan, há muito tempo estaria perdido. E agora as coisas apenas iriam demorar mais um pouco, pois o terrano não desistia.
Prestei atenção às suas instruções, que saíram precipitadamente do alto-falante.
Atenção, Ivã! Saltarei em direção à nave. O anti será encoberto com uma chuva de fogo. Destrua seu abrigo e aproxime-se cada vez mais. Procure deixá-lo bastante atrapalhado. Atlan abrirá fogo contínuo contra o anti. O bombardeio não deverá ser interrompido por um segundo que seja. Entendido?
Goratchim confirmou. Eu disse em tom de desânimo:
Você pretende usar o armamento pesado da nave, não é? Muito bem. Provavelmente conseguirá destruir o campo defensivo individual do sacerdote. O que adiantará isso? O ativador também se volatilizará.
Rhodan interrompeu-me com um gesto. Dali a alguns segundos, o canhão do veículo blindado começou a disparar. Esperei até que o sumo sacerdote se tornasse visível atrás da cobertura pulverizada. Comecei a disparar tranqüilamente. A trajetória do tiro atingiu o ladrão e, mais uma vez, arrastou-o pelo solo acidentado. Se não fosse o campo defensivo já teria sido despedaçado. No entanto, na situação em que se achava, sempre encontrava outro abrigo, que tinha de ser pulverizado pelo mutante.
Rhodan aguardou o momento exato. Quando Segno Kaata se viu em meio a um bombardeio mais cerrado, saiu correndo. Preferiu não dar saltos grandes, que só o teriam levado para o alto. Sua técnica consistia em aproveitar a gravitação reduzida para dar gigantescos saltos pouco acima da superfície. Praticamente voava por sobre o terreno tostado pelo sol. Muitas vezes aterrissava de quatro, mas sempre conseguia manter o corpo sob controle.
Antes que me desse conta do que estava acontecendo, Rhodan desapareceu sob a máquina em forma de disco. A escotilha inferior abriu-se.
Dali em diante não soube mais o que Rhodan estava fazendo. Não o vi sair do jato espacial. O que mais me admirou foi que não decolou com a pequena nave, nem tentou um ataque com o canhão pesado.
O jato jazia calmamente no mesmo lugar.
O anti encontrara um bom abrigo. Estava deitado numa depressão cercada de rochas. Até mesmo o desintegrador levaria algum tempo para destruir esse abrigo. Além disso, minhas duas armas estavam superaquecidas. Suspendi o fogo.
Um olhar para o relógio revelou que ainda me restavam oito minutos. Depois disso, a decadência orgânica seria extremamente rápida. Não morreria logo. Mas meu corpo murcharia que nem uma flor, quando exposta subitamente ao calor de um fogão.
Rhodan continuava desaparecido. Ainda faltavam sete minutos! Tive a impressão de que meus olhos se grudavam no mostrador que continuava a avançar inexoravelmente.
Quase tive a impressão de que estava sonhando, quando de repente ouvi a voz de Rhodan no alto-falante de capacete.
Atenção, não atirem. Estou nas costas do anti.
Ergui-me abruptamente. Bem atrás da encosta íngreme que cercava a depressão em que o criminoso se abrigara, surgiu a figura de Rhodan. Reconheci-o perfeitamente, mas não compreendi qual era o estranho aparelho que carregava.
Parecia um bastão. Quando Rhodan parecia usá-lo, o aparelho transformou-se num semicírculo. Um objeto reluzente cortou o espaço e desapareceu na depressão. Ouvi um grito pavoroso.
Era a voz do anti. Rhodan repetiu o movimento, e o sumo sacerdote voltou a gritar.
Depois do terceiro movimento de Perry, os gritos terminaram num gemido profundo. A seguir, tudo ficou em silêncio.
O terrano manteve-se imóvel sobre o paredão de pedra. Levantei-me lentamente e cambaleei em sua direção. Imaginava que o anti estivesse morto. Com isso, seu campo defensivo devia ter-se desligado automaticamente.
O blindado de Goratchim aproximou-se velozmente. Parou junto à depressão. Rhodan desaparecera do meu campo de visão. Quando apareceu de novo, dava largos saltos em minha direção. Sua mão segurava um objeto do tamanho de um ovo. Era o ativador celular.
Atingiu-me, atirou-me ao chão e comprimiu o aparelho fortemente contra meu peito.

* * *

Parece que fiquei inconsciente por algum tempo. Ao despertar, senti os impulsos revitalizantes do meu ativador. Já podia raciocinar claramente e a fraqueza ia-me abandonando. Só depois fui saber com que aparelho Rhodan matara o anti...
Goratchim cumprimentou-me por trás da cúpula transparente do blindado. Suas duas bocas riam. Rhodan esperou que eu me levantasse. Senti o ativador em minha mão. Comprimi-o contra o corpo, com uma força exagerada.
Rhodan foi o primeiro a começar a falar. Fez como se não tivesse acontecido nada.
Quando lhe dei o ativador, você ainda dispunha de um minuto. Será que cheguei em tempo para garantir a regeneração de suas células?
Como estou? Muito enrugado?
Um pouco, mas o aspecto rugoso está diminuindo.
Suspirei. Com uma sensação de alívio deixei-me cair para trás. Deitado de costas, fitei o espaço salpicado de estrelas.
Como foi que você o matou? — perguntei em voz baixa.
Resolvi fazer uma tentativa, que poderia ter falhado. Tive a idéia, quando o anti foi ferido pelo bloco de pedra. Este rompera o campo defensivo. Pensei que com uma arma energética não conseguiríamos nada. Nem com qualquer tipo de projétil, cujo envoltório pudesse ser influenciado por um campo magnético. Lembrei-me do equipamento esportivo de nossas naves. Você deve saber que todos os veículos espaciais levam certos objetos destinados à prática do esporte, a fim de manter os tripulantes fisicamente em forma.
Limitei-me a confirmar com um gesto.
Virei a cabeça. A meu lado, um grande arco de fio de plástico estava jogado na areia. A aljava com as longas setas ainda pendia sobre o ombro de Rhodan.
Fitei-o em cheio. Rhodan sorriu.
É bom que você saiba que sou muito bom no arco e flecha. As hastes das flechas são feitas de plástico não magnético, e as pontas afiadas de ligas de metal leve, igualmente antimagnéticas. Consegui colocar-me atrás do abrigo do anti. Antes que ele compreendesse a situação, disparei a primeira flecha. A seta rompeu, sem a menor dificuldade, o campo defensivo. Precisei de três flechas para colocá-lo fora de ação. Foi só!
Foi só, dissera Rhodan. Parecia que essas palavras ainda ressoavam em meus ouvidos. Como é que esse homem incompreensível teve a idéia de romper um dos envoltórios energéticos mais fortes e impenetráveis da Galáxia por meio de arco e flecha?
Uma decisão desse tipo só poderia ser tomada por um homem, cujos antepassados há poucos séculos ainda investiam uns contra os outros com espada e machados.
Mal conseguia compreender, mas o resultado provava que o raciocínio de Rhodan fora correto.
Sua voz arrancou-me das reflexões. Já me sentia forte e bem-disposto. O ativador estimulava cada célula do meu corpo.
Rhodan olhou para a depressão, na qual jazia um cadáver. Nele estavam espetadas três flechas compridas, que haviam sido fabricadas exclusivamente para fins esportivos.
Quer saber de uma coisa? — disse Rhodan em tom pensativo. — Ele não deveria ter-me chamado tantas vezes de bárbaro. Acredite se quiser, mas o fato é que isso me deu a idéia de atirar contra ele de arco e flecha.
Ajudou-me a levantar-me. Goratchim ia à frente no carro blindado. Usando o arco de plástico como bengala, Rhodan caminhava a meu lado.
Era estranho... Esses bárbaros do planeta Terra tinham cada idéia...



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O anti foi derrotado, mas os verdadeiros maquinadores do atentado contra Atlan, de cuja existência o destino do Império Solar depende em larga escala, ainda não foram postos fora de ação...
E qualquer pessoa que queira envolver-se com eles terá de pagar O Preço do Poder. Aliás, é este o título do próximo volume.

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