— Sim,
sir. Peço-lhe encarecidamente que conserve a calma. O nervosismo não
poderá adiantar muito. Ainda temos uma possibilidade. Mande
bombardear as muralhas externas e estenda o fogo até alguns dos
edifícios. Procure certificar-se de que não estará alvejando o
edifício, onde se encontra o ativador. Faça uma demonstração de
sua força, mesmo que outras pessoas possam interpretar isso como um
ato de desespero. Suponho que, apesar de todas as faculdades
supersensoriais, o supremo sacerdote é também mais uma criatura que
gosta de viver. Obrigue-o por meio do ataque a entrar em contato com
o senhor. Procure negociar. Ele não está em condições de saber se
o senhor tem uma duplicata do ativador ou não. Provavelmente está
convencido de que está blefando. No entanto, no fundo de sua
consciência deve haver uma centelha de dúvida. Se conseguir fazer
com que converse com o senhor pelo rádio, muita coisa estará ganha.
Aja logo!
Até
parecia que Mercant tinha um computador no lugar do cérebro. Será
que jamais se enganaria? Dava mostras de não possuir a fraqueza
humana de errar.
Dali a
cinco minutos, meus blindados robotizados entraram em posição. Eram
as unidades mais pesadas das forças arcônidas transportadas pelo
espaço.
Voltei a
entrar em contato com o regente, que atendeu à minha ordem e
confiou-me o comando direto da operação.
Cinqüenta
e duas horas e quarenta e oito minutos após o furto do ativador
celular, os canhões de impulsos começaram a trovejar. A noite
transformou-se em dia. As superaquecidas ondas de pressão
obrigaram-nos a procurar um abrigo.
Mandei que
os carros de combate avançassem mais um pouco. As muralhas estáveis
começaram a esfacelar-se. Seus restos, transformados em lava, foram
atirados para o alto em cascatas luminosas.
A salva
seguinte destruiu os alicerces dos edifícios que cercavam o templo.
Quando o
quarto e o quinto edifício desmoronaram e o calor começou a
tornar-se insuportável, o chefe da estação de rádio móvel
transmitiu o sinal pelo qual tanto ansiávamos.
O jovem
oficial atirou os braços para cima e acenou-os vigorosamente.
Imediatamente mandei suspender o fogo e dirigi-me à viatura.
— Um
certo Segno Kaata quer falar com o senhor — gritou o tenente. —
Faça o favor de usar a tela número três. Kaata está exatamente na
nossa freqüência audiovisual.
Rhodan deu
uma pancada animadora no meu ombro. Arrancou o revestimento de
bioplástico de meu nariz e bochechas. Recuperei meu rosto natural.
Mercant
libertou-me da peruca escura. Passei os dedos pelos longos cabelos
branco-alourados e peguei a ombreira do imperador, que trouxera por
uma questão de cautela.
Coloquei-me
diante da objetiva. Na tela via-se o rosto magro e enrugado de um
arcônida de cabelos brancos e olhos avermelhados.
Usava o
traje amplo e esvoaçante dos cientistas, mas este estava coberto de
símbolos que nunca vira. Obriguei-me a permanecer calmo.
Era o
momento decisivo!
*
* *
O sumo
sacerdote riu. Foi uma risada estranha. Ouviam-se os sons, mas o
rosto severo com os olhos inteligentes permaneceu imóvel.
— Não
acredito em vocês — disse com a voz grave e sonora. — Este
ataque prova que o senhor precisa do aparelho. Pois bem, não adianta
mais negar. Esse aparelho está em meu poder.
— O
senhor nem poderia negar — disse em voz fria. — Esqueceu-se de
que existem aparelhos de localização. A esta hora os traidores, que
se encontram no planeta de cristal, já estão sendo presos.
Desvendamos completamente o caso. O senhor apenas cometeu dois erros,
Segno Kaata.
“Em
primeiro lugar acreditou nas informações de uma pessoa que só sabe
das coisas pela metade. Depois o senhor me subestimou. Ou será que
acreditava que eu me conformaria com tamanha desfaçatez? Para mim, a
traição cometida pelo terrano Thomas Cardif é um assunto de valor
secundário. Não me interesso pelo fato dele ter contado a alguém
que importância o ativador celular assume para mim. Sempre possuo um
aparelho de reserva.”
— Será
mesmo?
Tive de
controlar-me ao máximo para não cometer um engano.
— Ninguém
se importa que o senhor acredite ou não — respondi.
— Por
que está atacando meu templo, alteza?
— Para
obrigá-lo a entregar o aparelho. Não quero enfrentar as
dificuldades ligadas à obtenção de outro aparelho sobressalente.
Foram
estas as palavras mais capciosas pronunciadas no curso de uma medonha
discussão com um homem que não poderia ser considerado normal, no
verdadeiro sentido da palavra. Naturalmente eu teria de fazer alguma
coisa para conseguir o que realmente pretendia. Teria de exigir a
entrega do ativador, custasse o que custasse. Conforme esperava, o
sumo sacerdote reagiu imediatamente.
— Quer
dizer que a perda lhe causa dificuldades? — disse em tom gentil. —
Nesse caso não se atreverão a destruir o edifício principal do
templo, pois com isso também destruiriam o aparelho.
Resolvi
lançar mão do último recurso que me restava. Não tinha outra
alternativa. Meu interlocutor poderia declarar-se disposto a entregar
o ativador em troca de certo grau de impunidade, ou então arriscaria
a fuga, a fim de salvar a vida em meio à tormenta que se iniciava.
Se optasse por esta última alternativa, provavelmente seria capaz de
prendê-lo.
Mas havia
uma terceira hipótese: ele poderia esperar até o último instante,
e destruir o ativador...
Exibi um
sorriso irônico e olhei para o relógio.
— O
senhor deve estar contando com as célebres sessenta horas, não é
mesmo?
— Isso
mesmo, alteza — respondeu em tom tranqüilo.
Aquele
homem parecia nem possuir nervos. Apressou-se em acrescentar:
— Se
depois de decorridas sessenta e cinco horas, o senhor ainda estiver
em condições de negociar comigo, convencer-me-ei da existência de
um aparelho sobressalente. Nesse caso entregar-lhe-ei o original, a
fim de evitar as dificuldades que, conforme diz, teria de enfrentar.
Acho que o objeto vale alguma coisa para o senhor, motivo por que
exijo salvo-conduto para minha pessoa.
— E seus
sacerdotes?
— Eles
são inocentes. Não tiveram a menor participação no ato.
— Com
exceção de um, cuja entrega exijo.
— De
acordo — respondeu meu interlocutor depois de ligeira pausa.
Aquele
homem evidentemente era frio e calculista. Não tive outra
alternativa senão recusar a proposta. Se realmente possuísse uma
duplicata do aparelho, a tal proposta seria aceitável.
Obriguei-me
a sorrir de novo. Olhei para o relógio com uma atenção exagerada.
— Dentro de quinze minutos mandarei abrir fogo. Naturalmente os
recintos subterrâneos, onde o senhor pensa sentir-se relativamente
seguro, também serão destruídos. Se antes disso entrar em contato
para declarar-se disposto a devolver o aparelho furtado, deixarei que
se retire livremente, isto é, depois de passar por uma reformulação
psíquica operativa. Dessa forma salvará sua vida. Caso não se
manifeste, o senhor será destruído na fogueira atômica. É só o
que tenho a lhe dizer. Só costumo dar uma chance a pessoas de sua
espécie.
Desliguei.
Cansado e psiquicamente exausto, olhei para Mercant. O homem baixinho
fez um sinal de aprovação.
— Excelente,
sir! Sua oferta tornou-se plausível a partir do momento em que
aludiu à reformulação da psique, a qual sofreu uma modificação
patológica. Se tivesse concordado com sua retirada sem quaisquer
condições, o castelo de cartas teria desmoronado. Aguardemos.
Para mim
teve início o período de espera mais angustiante.
Qual seria
a atitude do sumo sacerdote?
Será que
acabaria por convencer-se de que realmente possuía um aparelho
sobressalente?
Acharia
plausível que recuasse diante das dificuldades ligadas à obtenção
de mais um exemplar?
As
perguntas amontoaram-se em minha mente. Não havia dúvida de que
minha situação era pior.
Rhodan
comunicou que a Drusus, nave capitania da frota, acabara de pousar no
espaçoporto de Torgona. Já o cruzador Togo permanecia no espaço.
Os
segundos pareciam transformar-se em eternidades. O sumo sacerdote não
deu sinal de vida.
O rosto
estreito de Allan D. Mercant estava pálido. As preocupações
pesavam em sua mente. Depois de algum tempo, aproximou-se:
— Esse
Segno Kaata é um homem inteligente. Já compreendo por que fez
questão de executar pessoalmente o furto, ou ao menos supervisionar
sua execução. Tem conhecimento de sua antifaculdade. Uma vez que o
senhor, na qualidade de Almirante da Frota e sobrinho do imperador de
então, foi submetido ao processo de ativação celular, seria
perfeitamente possível que tivesse desenvolvido faculdades
telepáticas ou outras capacidades parapsicológicas. Foi por isso
que os antis participaram do assalto.
— Compreendo,
Mercant.
— O que
me admira é que John Marshall afirme ter acordado em virtude de
certos impulsos cerebrais. É impossível que tenha sentido os
impulsos dos antis. Provavelmente outras pessoas, que não possuem
essa qualidade, participaram do ato. Assim que o caso esteja
encerrado, cuidarei disso.
— Por
precaução conferir-lhe-ei certos poderes — disse, enquanto sentia
um acesso de fraqueza.
— Isso
não é necessário, Atlan! O sumo sacerdote tem que tomar sua
decisão. Face a seu grau de inteligência, ele não se deixaria
levar a destruir o ativador, sem que houvesse um motivo para isso.
Provavelmente estará disposto a aguardar, a fim de verificar se o
senhor realmente dispõe de outro aparelho. Em caso afirmativo
sentir-se-á ainda mais inseguro em sua concepção já vacilante. A
afirmativa da existência de um exemplar sobressalente não é tão
inverossímil assim. A esta hora, estará pesando os prós e os
contras. Penso que, no último instante, fará a exigência de ser
libertado independentemente da lavagem cerebral. Resta saber se dará
o devido valor à sua promessa.
— Será
que ele poderia fugir?
Rhodan
acompanhara a palestra em silêncio. E ainda sem dizer uma palavra,
apontou para os contingentes de tropas reunidos na área.
— Com
esta concentração de forças? Sem dúvida ele nos vê numa tela de
televisão. Além disso, deve saber que o espaço enxameia de naves
de todos os tipos. Então procurará outro caminho.
Também
acreditei nisso, mas essa crença foi um erro. Se já possuíssemos
maiores experiências com os antis, teríamos tomado outras
precauções.
De forma
alguma eu teria assumido o risco que aquela pessoa medonha assumiu
dali a pouco.
7
Quinze
minutos passaram-se e nada aconteceu. Segno Kaata não entrou em
contato conosco. Comecei a acreditar que mesmo um homem como o chefe
do Serviço de Defesa Solar era capaz de enganar-se.
Há alguns
minutos esquivava-se de meus olhares indagadores. Mercant parecia
saber que excepcionalmente cometera um erro.
Pensei em
aceitar a espera de 65 horas, a fim de apresentar posteriormente ao
sumo sacerdote o meu sósia robotizado. A máquina especial já fora
chamada de volta.
Estava nas
proximidades do lugar em que nos encontrávamos.
Não havia
dúvida de que poderíamos enganar Kaata com isso. Mas o que
aconteceria comigo durante as cinco horas em que o prazo fatal seria
excedido? Estava em condições de viver por sessenta horas, sem
apresentar sinais de decadência, muito embora já estivesse sentindo
que as células de meu corpo começavam a rebelar-se.
Não; a
oferta do baalol não poderia ser aceita, pois isso representaria meu
fim.
Fazia dez
minutos que entrara na cabina apertada do jato espacial, ao lado de
Perry Rhodan e o mutante Ivã Goratchim. A nave em forma de disco, de
cerca de 35 metros de diâmetro, pertencia à classe dos modelos mais
recentes de fabricação terrana. Podia ser pilotada e controlada por
um só homem. Além disso, havia nela um aparelho capaz de medir os
saltos de transição executados por outras espaçonaves.
Estávamos
sós. À nossa frente, achava-se o localizador de vibrações
celulares, preso à mesa de comando em ferradura. Seu chiado agudo
provava que o ativador continuava no templo. A localização
goniométrica era impecável.
Os
aparelhos de radiofonia estavam ligados. Mantínhamos contato com
todos os postos de comando. As tropas de robôs do computador-regente
podiam ser alcançadas pelo canal 7.
Allan D.
Mercant retirara-se há poucos segundos. Ao que parecia, não
suportava mais meu visível desespero.
No momento
em que se esgotou o prazo por mim fixado, cinqüenta e quatro horas e
onze minutos se tinham passado desde o momento do furto. Ainda
dispunha de pouco menos de oito horas. Era um prazo angustioso que
quase me enlouqueceu.
Havíamos
localizado o ladrão e o aparelho num excelente trabalho de
investigação. Mas daí para frente, éramos relativamente
impotentes. O que me adiantaria atomizar o templo? O ativador celular
não resistiria à tormenta atômica.
Os
mutantes, nos quais depositara minha confiança, estavam condenados à
inatividade. Os antis, com o sumo sacerdote à frente, podiam exultar
numa sensação de triunfo.
Era claro
que Segno Kaata sabia perfeitamente que eu estava com as mãos
atadas. Já tivera de confessar um pequeno ponto fraco. A esta hora,
aguardaria calmamente as medidas que seriam tomadas por mim.
Se
hesitasse, teria certeza de que não possuía nenhum aparelho
sobressalente.
— Está
na hora — disse Rhodan em tom de desânimo. Fitava as grandes
telas, que exibiam com toda nitidez os remanescentes dos edifícios
do templo.
— Sugiro
que, ainda durante o bombardeio, as tropas de robôs iniciem o
assalto. Talvez consigam prender o sacerdote.
Já
brincara com a idéia de desistir do bombardeio e iniciar um ataque
de robôs. Acontece que o sacerdote, que sem dúvida era um homem
inteligente, veria nisso uma prova de que não estava disposto a
arriscar a destruição do aparelho. As medidas mais simples tinham
de ser omitidas já que, ao que tudo indicava, o cérebro desse homem
funcionava impecavelmente.
Decidi
assumir o único risco. Dali a alguns segundos, dei ordem de abrir
fogo. Os canhões de impulsos dos tanques alinhados à frente do
templo voltaram a trovejar.
Explicara
minuciosamente quais seriam os alvos. Por enquanto pretendíamos
poupar o grande edifício central.
Rhodan
ativou as máquinas do jato espacial. Não dei a menor atenção ao
uivo dos conversores de energia. O campo antigravitacional absorvia a
força de gravitação do planeta a que estávamos expostos. Um
ligeiro empuxo dos bocais inferiores fez com que subíssemos
rapidamente. De cima tínhamos uma melhor visão de conjunto.
Rhodan
parou a mil e cem metros de altura. Próximo a nós, rugia a tormenta
atômica. Os edifícios entravam em incandescência e desmoronavam.
Vários tanques abriram fogo contínuo contra as instalações
subterrâneas, dirigindo para baixo os raios de impulsos ofuscantes e
quentes.
Profundos
desfiladeiros surgiram no chão. Penetrando cada vez mais
profundamente, os fluxos energéticos atingiram os alicerces e os
fizeram desmoronar.
Sentado
diante do videofone, assumi uma postura tensa. Mantinha contato
direto com o carro de rádio da tropa.
— O
sacerdote ainda não chamou — anunciou o oficial de plantão.
Confirmei
com um gesto. Não adiantaria perguntar sobre o por quê.
Embaixo de
nós, os canhões de impulsos dos blindados abriam suas trajetórias
luminosas. Vistas de cima, formavam um anel cintilante, que numa área
extensa transformava a noite em dia.
— A
Drusus daria conta disso num segundo — disse o mutante Goratchim.
Todos
permaneceram calados. Sabíamos que não poderíamos utilizar armas
pesadas. Os radiadores portáteis dos soldados teriam produzido o
mesmo efeito, mas tal efeito demonstrativo seria menor.
Tudo
dependia de simularmos um fato inexistente. Os ocupantes do templo
deviam ser levados a acreditar que, para mim, a perda da versão
original do ativador não assumia maior importância.
Três
minutos depois do momento em que mandara abrir fogo, a gigantesca
área onde fora levantado o templo parecia um vulcão em erupção. O
edifício principal, que até então escapara ao bombardeio, estava
balançando. Pedaços de argamassa desprendiam-se da extremidade
superior pontuda da construção esférica. Largas fendas abriam-se
nas cornijas. O desmoronamento do edifício era apenas uma questão
de minutos.
O
videofone chamou. Era o oficial que comandava o posto móvel de
localização.
— Constatamos
a presença de emanações energéticas, sir! No interior do templo,
devem ter sido ligadas potentes máquinas de fusão de elevado
desempenho energético, ou então o bombardeio fez com que alguns
reatores nucleares se descontrolassem. As indicações de nossos
aparelhos são perfeitas. Alguma coisa aconteceu por lá.
De
repente, Rhodan inclinou-se para a frente. O chiado do medidor de
vibrações tornara-se irregular. O oscilograma exibido na tela
começou a modificar-se.
— Cuidado!
— gritou Rhodan. — A localização do ativador está sendo
modificada. O sacerdote ainda não chamou, Atlan?
Antes que
Rhodan concluísse, a extremidade superior do edifício, que ainda
continuava de pé, modificou-se. Abriu-se e dela saiu um objeto
pequeno, do formato de um pingo de água, que atravessou a
luminosidade produzida pelos blindados e desapareceu na escuridão.
Tomados de
surpresa, seguimos o fenômeno luminoso com os olhos. Goratchim foi o
único a agir imediatamente. Com um movimento da mão, ligou o
hiperlocalizador inteiramente automatizado, girou-o na direção
aproximada da área a ser rastreada e empurrou o botão vermelho.
Dali a
alguns segundos, a nave, que acabara de decolar, apareceu na tela. O
pequeno veículo espacial, que não media mais de quinze metros de
comprimento, subia verticalmente para o espaço, onde mais de mil
naves esperavam o momento em que se verificasse a tentativa de fuga.
— Será
que esse sujeito ficou louco? — gritou Rhodan fora de si. —
Vejam. Como se depreende das indicações do goniômetro, o ativador
encontra-se a bordo da nave. Pelo amor de Deus, Atlan, transmita
imediatamente uma ordem a todas as naves robotizadas para que deixem
passar o fugitivo.
No mesmo
instante, os alto-falantes pareciam estourar. Os plantonistas das
numerosas estações de observação comunicavam-nos aquilo que
acabáramos de ver.
Enquanto
eu entrava em contato com o regente para ordenar que, em hipótese
alguma, ninguém deveria abrir fogo contra o veículo espacial, cuja
rota e posição deveriam ser registradas constantemente, Rhodan deu
partida no jato espacial.
A nave de
tipo supermoderno possuía a capacidade de aceleração dos
cruzadores da classe Estado. Rhodan compreendera imediatamente que
nós mesmos teríamos de iniciar a perseguição.
A Drusus e
a Califórnia estavam estacionadas no espaçoporto de Torgona. A Togo
encontrava-se no espaço, mas longe do sistema. De qualquer maneira,
seria insensato mandar que as grandes naves fizessem a caçada. O
sumo sacerdote ainda levaria certa vantagem, pois voava de posse do
ativador!
Uma
luminosidade branco-avermelhada surgiu nas telas de observação
externa. Tratava-se das massas de ar incandescente produzidas pela
forte compressão, resultante da partida precipitada.
Mal e mal
ouvi o trovejar dos superpotentes propulsores. Instantes depois
atingimos o espaço livre. Dali a mais alguns segundos saímos da
sombra projetada pela face noturna de Árcon II, penetrando na luz
irradiada pelo grande sol de Árcon. Bem à nossa frente, a mais de
três milhões de quilômetros de distância, a nave em forma de
pingo d’água percorria o espaço.
Nosso
dispositivo de localização energética reagiu prontamente aos
impulsos emitidos pelos propulsores da nave fugitiva, o que nos
permitiu continuar em sua pista. Rhodan levou à boca o microfone do
telecomunicador. Enquanto abaixo dos nossos assentos, as máquinas do
jato espacial, ativadas à potência máxima, uivavam fortemente,
fazendo com que o indicador do neutralizador de pressão oscilasse
junto à marca vermelha de advertência, Rhodan chamava as três
naves terranas:
— Rhodan
chamando a formação. A Drusus e a Califórnia decolarão
imediatamente. Procurem captar nossos sinais goniométricos. É de
supor que o fugitivo inicie a transição assim que atingir a
velocidade de salto, a fim de assegurar a fuga. Mantemo-nos em sua
pista por meio do rastreador estrutural. Pouco importa para onde vá.
Provavelmente o sacerdote não terá tempo para fazer um cálculo
preciso do salto. Transitará ao acaso, para escapar à zona de
perigo.
“— Atenção:
as unidades do computador-regente receberam ordem para não abrir
fogo. A situação modificou-se. Enquanto as sessenta horas não
tiverem passado, em hipótese alguma deve-se atirar para destruir a
nave. Atlan e Goratchim estão em minha nave. Procuraremos alcançar
o fugitivo. Ainda não sei o que acontecerá depois disso.”
Os
comandantes das unidades terranas confirmaram o recebimento da
mensagem. No mesmo instante, meu receptor captou um chamado do centro
de computação. As unidades de robôs haviam suspenso o ataque já
iniciado.
Dali a
pouco, Allan D. Mercant chamou. Utilizou o rádio instalado nos
veículos que se encontravam nas proximidades do templo.
— Mercant
falando. Os robôs de guerra tomaram de assalto os restos do templo,
em cujo interior encontraram numerosos sacerdotes. Todos se haviam
reunido no edifício principal, que continuava de pé. É provável
que o sumo sacerdote tenha fugido sozinho, muito embora não tenhamos
ouvido nenhuma declaração nesse sentido. As prisões estão sendo
efetuadas. Pergunta: o ativador está a bordo da nave?
— Sem
dúvida. Neste instante estou captando os primeiros sinais
goniométricos. A nave de Kaata não é muito veloz. Também está
acelerando à razão de quinhentos quilômetros ao quadrado por
segundo. Estou ligando a injeção da massa de apoio. Daqui a três
minutos alcançarei a velocidade da luz. O que acha do procedimento
do sumo sacerdote, Mercant?
Rhodan
baixou o microfone. Quando o chefe do Serviço de Defesa voltou a
falar, a transmissão de imagem também estava funcionando. Seu rosto
apareceu na tela do hipercomunicador, que realizava a transmissão
instantânea, à velocidade superior à da luz.
— Sob o
ponto de vista psicológico, sua conduta é interessante, sir. Age de
forma inesperada. Qualquer homem ou arcônida teria tentado conseguir
salvo-conduto em troca da devolução do produto do furto. O sumo
sacerdote preferiu agir de outra forma, fato que permite certas
conclusões.
— Deixe
para lá — interrompeu Rhodan. — Estes comentários não nos
adiantam muito. Ficaremos grudados nos calcanhares do homem. O certo
é que o ativador encontra-se em seu poder. Uma vez que sabe que
Atlan teme as dificuldades ligadas à obtenção de outro exemplar,
calculou suas chances. Que diabo! Não deveríamos ter aludido a
isso.
— Se não
o fizessem, como poderiam ter fundamentado o pedido de devolução do
aparelho?
— Seria
simples. Poderíamos ter invocado o direito da vítima do furto.
— Nesse
caso Kaata teria dado ainda menos atenção à exigência.
Rhodan
desligou. Um brilho zangado surgiu em seus olhos cinzentos. Parecia
desmaiado no assento do co-piloto. Ivã Goratchim ocupara o lugar do
radioperador de bordo. As duas cabeças capazes de pensar de forma
autônoma habilitavam o mutante bem treinado a desempenhar duas
funções ao mesmo tempo. E como piloto era inigualável.
Os
propulsores de impulsos estavam funcionando a plena potência. Quando
atingimos 75 por cento da velocidade da luz, Rhodan injetou a massa
de apoio. O rugido da máquina tornou-se ainda mais forte e profundo.
Aproximávamo-nos
muito rapidamente. Porém a essa hora, o intervalo de sete minutos
entre a decolagem do sumo sacerdote e a nossa partida tornava-se
perceptível de forma bastante agradável.
Rhodan
fazia seus cálculos. Fitava ininterruptamente o ponto verde que
representava o eco do hiperlocalizador, corrigindo a rota de acordo
com o mesmo. De repente disse:
— Já
nos aproximamos à distância de tiro, mas se abrirmos fogo agora,
aquela casca de nozes arrebentará que nem um ovo de galinha pisado
por um elefante.
Espantei a
apatia que ameaçava apoderar-se de mim. Com os olhos ardentes fitei
a imagem do eco. Já nos aproximáramos o suficiente para que os
contornos da nave se destacassem na tela.
— Como
pretende prendê-lo? — perguntei em voz baixa. — Esta nave não
dispõe de raios de tração.
Rhodan não
respondeu. Ligou o rastreador estrutural e o acoplou ao dispositivo
automático de hipersalto. Tratava-se de um mecanismo recém-criado,
que permitia a perseguição pelo paraespaço, sem obrigar o
perseguidor a esperar que a nave fugitiva iniciasse a transição.
— Ele
saltará antes que nos aproximemos. Já atingiu a marca dos cinco por
cento abaixo da velocidade da luz. Se injetarmos toda a massa de
apoio disponível, poderemos acelerar mais um pouco, mas isso não
representaria qualquer aumento considerável. Não me arriscarei a
dar um tiro bem dirigido tão perto da barreira da luz. E o tiro terá
de ser bem dirigido, a não ser que queiramos esfacelar a nave.
Apenas pretendo atingir a sala de máquinas situada na popa. Depois
disso, veremos se o anti tem amor à vida.
O anti! A
palavra me causou um calafrio.
A cabeça
esquerda de Goratchim virou-se em nossa direção. Ivã disse com uma
calma estranha:
— Atenção!
Ultralocalização. Neste momento está iniciando a transição.
Estamos captando os primeiros hiperimpulsos.
Contorci-me
na minha poltrona. Rhodan voltou a controlar o dispositivo automático
sincronizado que, no momento da transição, faria o mesmo salto da
outra nave, com base nas medições energéticas. Todas as naves
terranas seriam dotadas desse dispositivo, já que as perseguições
pelo paraespaço eram bastante freqüentes.
O
funcionamento do dispositivo automático sincronizado só se tornava
perfeito, se a transição da nave perseguida não era superior a dez
anos-luz. Dali em diante, os dados passavam a ser pouco precisos.
De repente
ouvimos um estalo no rastreador estrutural. O anti desaparecera do
espaço normal.
Nossa
transição foi realizada com um intervalo de 0,3 segundos. Foi o
tempo que o dispositivo automático positronizado gastou em calcular
os ecos energéticos por ele localizados, confrontá-los com a massa
da outra nave e determinar os dados de nosso salto.
Foram
apenas 0,3 segundos, mas estes me pareceram uma eternidade. Seguiu-se
o choque da desmaterialização. Foi breve e pouco doloroso,
tornando-se facilmente suportável, o que constituía um sinal de que
a transição do anti não o levara a grande distância.
Os
contornos do corpo de Rhodan desmancharam-se. Dissolvemo-nos e, por
um instante, transformamo-nos numa componente energética do espaço
de cinco dimensões, no qual um corpo da quarta dimensão não pode
manter a estabilidade de sua configuração.
A última
coisa ouvida por mim foi a exclamação de Goratchim. Não cheguei a
compreender a mensagem que ele ainda pretendia transmitir.
8
Há dez
mil anos da contagem de tempo terrana, quando tomaram a decisão de
ativar meu cérebro, a fim de propiciar o trabalho útil dos centros
ociosos do mesmo, obtive, no curso do respectivo programa, uma
memória fotográfica. Jamais me esquecia de qualquer coisa que
tivesse visto ou experimentado.
Conhecia o
sol que aparecia à minha frente. Era uma pequena estrela amarela,
igual a qualquer outro. Quase chegava a ser um sol anão e possuía
um único planeta.
Tal
planeta era enorme e, em sua atmosfera, imperava o metano. Assim
sendo, tornava-se inabitável para os seres que respiram oxigênio.
Nem mesmo na época de apogeu do Império, chegamos a instalar por lá
uma base da frota.
O pequeno
sol situava-se em ponto um tanto afastado do centro do grupo estelar.
No entanto, a estrela mais próxima ficava a pouco menos de 0,5
anos-luz. No interior do grupo estelar, as transições acarretavam
muitas dificuldades. Nos primórdios da tecnologia do vôo à
velocidade superior à da luz, houvera numerosos acidentes graves.
A
estrela-anã figurava nos catálogos arcônidas com o nome de Gela.
Como de costume, seu planeta único foi designado pelo nome de Gelal.
Uma vez
realizada a manobra de imersão e verificada a rematerialização,
procuramos imediatamente localizar o fugitivo. Enquanto eu ainda me
sentia um tanto nervoso, Goratchim avisou ter conseguido localizar o
pequeno veículo espacial.
Saíramos
do hiperespaço a pouco de meio milhão de quilômetros do barco do
fugitivo. Mas ao contrário deste, conserváramos a velocidade do
salto, que correspondia aproximadamente a 98,76 da velocidade da luz.
O veículo
do anti não era de construção arcônida. Seu formato exterior
levava a essa conclusão. Os cientistas de meu venerável povo sempre
haviam construído os veículos espaciais em formato esférico.
Concluía-se
que havia acentuadas diferenças entre as duas naves, fato que, no
caso, se revelava através da diferença de velocidade, que, no
momento, se tornou bem perceptível.
O anti
desenvolvia apenas metade da velocidade da luz. Uma vez realizada a
localização, o goniômetro especialmente ajustado também voltou a
entrar em funcionamento. Meu ativador continuava a bordo do pequeno
veículo espacial.
Rhodan
resolveu jogar tudo, numa só carta. Espantei-me com minha
indiferença. Meus sentidos pareciam embotados. Nem mesmo a idéia do
fim próximo conseguia abalar minha mente. Demorei algum tempo para
compreender que todas as células de meu organismo já estavam
bastante afetadas.
Sentia-me
tão exausto e abatido que tive de fazer um tremendo esforço ao
olhar para o relógio. Cinqüenta e seis horas e cinqüenta e oito
minutos, ou seja, quase cinqüenta e sete horas já se haviam passado
desde o momento do furto.
O tempo de
que dispunha estava chegando ao fim. Meu interesse pelos
acontecimentos apagara-se quase por completo, embora, antes da
transição, ainda me mantivesse em plena atividade.
Um impulso
débil de meu cérebro adicional informou-me de que isso tinha sua
causa na carga dupla, representada pela desmaterialização e pela
subseqüente rematerialização. Face a meu estado de saúde, essa
tortura representara um veneno para os grupos celulares gravemente
afetados.
Fitei
minhas mãos. A pele já começava a enrugar-se. Nos pulsos apareciam
grandes dobras e rugas. Tive a intenção de rir, mas não consegui
emitir nenhum som. Apenas cheguei a imaginar num recanto obscuro do
cérebro que a temível decadência estava ocorrendo mais cedo do que
se esperava.
O vulto
gigantesco de Goratchim surgiu à minha frente. Lancei um olhar
indiferente para as duas cabeças.
Por que
não me deixavam em paz? Rhodan disse alguma coisa que não entendi
muito bem. Apenas percebi que sua voz era áspera e insistente.
Goratchim
tomou impulso com a mão, como se quisesse arremessar uma pedra.
Senti uma dor aguda, que logo passou. Fitei a parte visível da
grossa agulha que o mutante me introduzira na musculatura do tórax.
Ah, sim, antes disso abrira o uniforme.
Senti a
pressão do líquido injetado. Por que Goratchim teria usado esse
método antiquado? Não apreciava as picadas de agulhas.
Preferi
não protestar. Era indiferente que me picasse ou usasse as modernas
seringas pressurizadas.
Olhei para
seu polegar, que continuava a empurrar o embolo da seringa. O líquido
desapareceu no interior de meu corpo. Quando só restava pequena
quantidade do mesmo, senti náuseas. A sensação tornou-se tão
forte que perdi os sentidos.
Quando
despertei, tive a impressão de que seria capaz de arrancar árvores.
Ergui-me abruptamente na poltrona. Já não me lembrava exatamente do
que acontecera, mas o estado de inconsciência só poderia ter durado
alguns segundos.
— O que
houve? — perguntei em tom mais áspero do que pretendia.
Em atitude
agressiva, olhei em torno. Estava um tanto desconfiado e quase
chegava a sentir-me ofendido. Tive a impressão de que desempenhava
um papel ridículo.
As duas
cabeças de Goratchim sorriam em plena harmonia. Piscavam para mim.
Rhodan concentrou-se sobre a tela do rastreador, na qual se via
nitidamente a imagem da outra nave.
— Não
faça perguntas — disse em tom contrariado. — Você está gasto.
Ivã aplicou-lhe uma dose reforçada de parastimulim. Espero que
ainda agüente algumas horas. Permita-me uma pergunta. Você sabe
atirar, arcônida?
Entendi o
significado irônico de sua pergunta.
— Sei
atirar muito melhor do que você pensa. Nunca errei o alvo.
— O.K.
Era o que eu queria ouvir. Estou ocupado com os controles da nave. O
barco do fugitivo está a menos de quatro mil quilômetros. Numa
batalha espacial, esta distância quase chega a ser ridícula. Na
situação em que nos encontramos, porém, tal distância torna-se
considerável, já que você só poderá atingir a popa de raspão.
Dispomos mais ou menos de dois minutos. Depois disso atingirá uma
velocidade que lhe permitirá realizar outra transição, o que
talvez lhe permitisse escapar. Compreendeu o que deve ser feito?
Nossos
olhares cruzaram-se. Seria agora ou nunca. Não tinha tempo a perder.
Liguei o
suprimento de energia do canhão de impulsos. Tratava-se de uma peça
rigidamente montada na proa, cujas dimensões eram tamanhas que não
faria má figura a bordo de um cruzador de quinhentos metros de
diâmetro.
Todos os
jatos espaciais modernos dos terranos estavam equipados com tal arma
energética.
Face ao
tipo de montagem, a pontaria tinha de ser feita por meio de
movimentos de toda a nave. Isso trazia vantagens quanto à precisão
do tiro. Mas, de outro lado, acarretava desvantagens táticas. Sabia
como atirar com esse canhão.
A tela do
visor de alvos iluminou-se.
Apesar da
reduzida distância, a imagem não era muito boa. Mal e mal consegui
distinguir a popa da outra nave.
O canhão
estava pronto para disparar. A carga catalítica de fusão injetada
na câmara de reação só precisaria do arco luminoso para iniciar o
processo de fusão nuclear.
Os campos
de compensação do cano da arma apresentavam a marca verde. Poderia
irradiar as energias liberadas numa direção única, sem correr o
perigo de que o jato espacial se transformasse numa bomba atômica.
Rhodan
seguiu minhas indicações de correção da rota, a fim de colocar o
alvo na mira. Tratava-se de frações de grau na vertical e na
horizontal.
A ponta
verde da mira caminhava em direção à popa da outra nave, da qual
não sabíamos que seres a haviam construído. De qualquer maneira
não era comparável aos veículos arcônidas e terranos da mesma
ordem de grandeza, embora seus técnicos tivessem conseguido o
milagre de instalar um hiperpropulsor num espaço tão pequeno.
Provavelmente
fora por isso que o sumo sacerdote escolhera um veículo espacial
desse tipo. Em compensação, tivera de contentar-se com um
desempenho medíocre por ocasião do salto. Estava firmemente
decidido a fazer com que essa circunstância representasse sua
desgraça.
Qualquer
produto técnico-científico, seja qual for sua espécie, segue uma
série de leis em sua evolução. Qualquer vantagem evidente e
sedutora só podia ser alcançada por meio de concessões em outras
áreas.
A ponta da
mira cobriu o alvo. O bocal de popa da outra nave estava na linha de
fogo. Desviei-me mais um pouco, para comprimir o botão de disparo
com a maior cautela, a fim de não provocar qualquer abalo.
Diante do
pesado canhão de impulsos, surgiu um anel ofuscante produzido pelas
energias atômicas liberadas. Nossa nave deslocava-se com suficiente
rapidez para comprimir a micromatéria bastante rarefeita do espaço.
Foi assim que surgiram os fenômenos luminosos, muito embora nos
encontrássemos no vácuo, que normalmente não é um meio condutor.
Pudemos
acompanhar o raio energético de aproximadamente dez centímetros de
diâmetro a uma distância de cerca de cem metros. Dali em diante,
desapareceu repentinamente, já que a essa distância não havia mais
nenhuma concentração de matéria.
Antes que
o tiro de radiações, que se deslocava à velocidade da luz,
atingisse a nave que acelerava continuamente, um tempo apavorante
passou-se. Quando isso aconteceu, Goratchim soltou um grito.
Corríamos
vertiginosamente em direção à luz irradiada da popa da nave
perseguida. No momento em que Goratchim constatou a presença da
descarga energética, vimos a mancha luminosa.
O
minúsculo veículo espacial foi arrancado de sua rota. Só então
percebi que Gelal, o planeta de metano, encontrava-se bem na nossa
rota.
Rhodan fez
recuar a alavanca do acelerador. De repente, as máquinas passaram a
trabalhar em ponto morto. Em queda livre seguimos o veículo
espacial, aparentemente desgovernado.
— Excelente!
— disse Rhodan com um sorriso irônico. — Acho que isso fez o
anti empalidecer um pouco. Veja! Seus jatos direcionais ainda estão
funcionando.
Vimos os
feixes de impulsos saídos da proa semi-esférica. A luminosidade
azulada aparecia nitidamente em nossa tela.
— Está
freando — observou Ivanovitch, o jovem, em tom exaltado.
Rhodan
também passou à desaceleração. A velocidade da outra nave
diminuía rapidamente. O anti já não tinha a menor chance de
escapar no hiperespaço. Ao que parecia, o impacto destruíra
mecanismos importantíssimos.
Para nosso
espanto, o sacerdote realizou uma violenta manobra de frenagem e,
ainda em alta velocidade, entrou numa órbita em torno do grande
planeta de metano.
Graças às
nossas máquinas superpotentes, conseguimos reduzir em tempo nossa
velocidade. Reunindo todas as energias disponíveis, Rhodan obrigou o
jato espacial, que parecia gemer, a entrar em órbita.
A nave
fugitiva já desaparecera atrás da curvatura do planeta. Numa
manobra tão rápida, não poderíamos arriscar um segundo tiro.
Acreditávamos
que o anti tivesse escapado, quando vimos um eco anguloso na tela do
rastreador. Compreendemos que o sumo sacerdote estava pousando na
maior das três luas do planeta.
Sua nave
precipitou-se com o bocal de popa em chamas sobre o astro sem nome,
que media pouco menos de mil quilômetros de diâmetro, e cuja
gravitação era de apenas 0,11 G. Não possuía qualquer envoltório
atmosférico. Seu movimento de rotação era extraordinariamente
rápido, já que se completava em cerca de 21 horas.
Mal
havíamos localizado a nave, esta desapareceu atrás do horizonte do
satélite, que se aproximava vertiginosamente. Rhodan voltou a forçar
nossos propulsores. Com a desaceleração máxima de 750 quilômetros
ao quadrado por segundo, entrou numa ampla órbita elíptica. Face à
nossa velocidade, ainda muito elevada, a força centrífuga era tão
grande que a reduzida gravitação da lua praticamente não
apresentava nenhuma compensação.
Assim
vimo-nos obrigados a recorrer aos bocais corretores de rota, a fim de
manter-nos em órbita, até que a velocidade fosse reduzida a ponto
de atingir o nível normal.
— Se
estiver com sorte, seu plano será bem sucedido — disse Rhodan com
uma calma apavorante. — Se eu fosse ele, saltaria da nave que está
caindo, atiraria para longe o ativador celular, que trairia minha
posição, e procuraria um esconderijo bem longe dali. Calcularia que
os perseguidores estão mais interessados no aparelho que em minha
pessoa. Será que é bastante inteligente para raciocinar dessa
forma? Não era!
Durante
nossa terceira circunvolução em torno da luz, localizamos o sumo
sacerdote. Trazia o ativador junto ao corpo. Portanto, sua descoberta
seria inevitável. Naquele momento tive uma idéia. Virei-me num
gesto nervoso.
— É
apenas uma suposição — disse apressadamente. — Ele sabe que no
momento em que iniciou a fuga, nós nos encontrávamos no ar com o
jato espacial. Será que tem motivos para supor que, como encetamos
imediatamente a fuga, não temos a bordo o aparelho de localização
a que aludi? Não tem meios de saber que o goniômetro estava montado
nesta nave.
Rhodan
passou as costas da mão pelo nariz e fitou-me com uma expressão de
dúvida.
— Bem,
com esse sujeito não se pode duvidar de nada. Já descobrimos isso
por experiência própria. É provável que não sabia, pois, do
contrário, teria jogado fora o ativador. O.K. Sinto-me satisfeito em
saber que resolveu ficar com ele.
Naquele
instante vimos uma forte explosão atômica na face noturna do
satélite. Ninguém deixaria de notar a coluna incandescente.
— Foi a
nave dele! — disse Rhodan em tom de desânimo. — Caiu! A perda é
total. Será que ainda se encontrava no interior da mesma?
— Está
vivo — disseram as duas cabeças ao mesmo tempo. — E está
levando consigo o aparelho. Provavelmente saltou com um planador
antigravitacional, depois de constatar que as avarias da nave eram
mais graves do que supusera. Estou captando ecos bem nítidos, sir.
Não. Não prossiga. O anti encontra-se longe do local da queda.
Com um
último empuxo do jato direcional de proa Rhodan fez parar o pequeno
veículo espacial.
Seguindo
as indicações de Ivã, fomos descendo lentamente em direção à
superfície do satélite. Montanhas nuas, sem qualquer vegetação,
surgiram à nossa frente. O anti devia estar por ali.
Nossos
aparelhos de absorção de gravidade regularam-se automaticamente
para o nível de gravitação do satélite. Os jatos especiais eram
excelentes mininaves, com as quais se podia arriscar muita coisa...
Ficamos
planando sobre a superfície, até que Ivã informou que o ativador
se imobilizara. Isso significava que, se o aparelho se encontrava
junto ao corpo de Kaata, o antimutante já devia ter atingido a
superfície.
Rhodan
limitou-se a dar uma risada. O tom áspero da mesma não encerrava
nenhuma cordialidade.
Sem dizer
uma palavra, levantei-me e fui ao depósito para procurar um traje
espacial apropriado. Lembrei-me que o mutante de duas cabeças não
encontraria um artefato apropriado a bordo do jato espacial. Parei à
sua frente, em atitude pensativa.
— O que
vamos fazer com você? Não poderá sair, pois por aqui não há
oxigênio. Goratchim teve uma idéia.
— A
bordo desta nave existe um pequeno planador blindado, um veículo
versátil, para ser mais preciso. Eu me acomodarei em seu interior e
dar-lhes-ei cobertura, usando o canhão energético leve.
No momento
em que a nave parou sobre um extenso complexo de montanhas,
fortemente entrecortado, Rhodan já havia concordado com o mutante. A
superfície da lua oferecia um quadro desolador. No entanto, as
temperaturas ali reinantes pareciam ser suportáveis. O sol pequeno e
débil ficava a grande distância.
Enfiei-me
num traje espacial de fabricação terrana. Era dotado de um
dispositivo antigravitacional, que neutralizava a força da
gravidade. Esse aparelho não permitia propriamente um vôo, mas
possibilitava saltos a grande distância.
Arranjei
um traje destinado a Rhodan. Goratchim trouxe duas grandes armas de
impulsos. Num mundo do tamanho de Árcon seriam muito pesadas para
serem usadas, mas nesta lua de pequenas dimensões poderiam ser
facilmente manipuladas.
Controlei
os pequenos projetores destinados à geração de um campo defensivo
individual. Haviam sido montados perto da mochila, destinada ao
armazenamento do oxigênio.
Os
microrreatores funcionavam a plena potência. Não geravam mais de
oitenta quilowatts. Em virtude disso, os campos defensivos
individuais também não eram muito potentes. Mas, de qualquer
maneira, seriam capazes de repelir tiros energéticos de intensidade
normal.
Goratchim
comunicou que a intensidade dos sinais goniométricos chegara ao
máximo. Isso significava que nos encontrávamos exatamente sobre o
lugar em que o sacerdote saltara. Provavelmente ficaria muito
surpreso ao notar que o descobríramos tão depressa.
Se não
fora privado de seu preciso raciocínio, deveria saber que, contra
todas as expectativas, trazíamos a bordo o goniômetro especialmente
ajustado.
Rhodan
preparou-se para pousar. Fez a nave descer na vertical e teve a
cautela de ativar os campos defensivos.
Pousamos
suavemente, sem o menor solavanco. Os propulsores pararam. O reator
de fusão destinado ao suprimento energético dos diversos aparelhos
permaneceu funcionando.
Rhodan
lançou um olhar sugestivo para meu relógio. Li a indicação do
tempo decorrido a partir do furto. Cinqüenta e oito horas e dezoito
minutos já se haviam passado.
— Ainda
temos uma hora e quarenta e cinco minutos — disse com uma alegria
fingida. — Vocês não acham estranho que a gente se prenda tanto à
vida?
Rhodan
colocou o traje espacial. Goratchim desapareceu no apertado
compartimento de carga, situado atrás da cabina.
A luz
ofuscante do sol amarelo entrava livremente. Nos lugares de sombra
reinava a noite escura. Acabáramos de pousar num astro inóspito,
hostil à vida.
Esperamos
até que Goratchim anunciasse que o veículo versátil estava pronto
para partir. Rhodan abriu a comporta e deixou que o mutante saísse.
No momento em que vimos o veículo achatado, desligamos o reator.
Quando já
nos encontrávamos do lado de fora e a escotilha da comporta se
fechou, Rhodan perguntou:
— Onde
está escondido o setor lógico de sua mente, Atlan?
Fitei o
terrano com uma expressão de perplexidade. E ele mesmo acrescentou
em tom seco:
— Esquecemo-nos
de enviar uma hipermensagem à frota que se mantém à espera. Como
poderão encontrar-nos caso surja alguma emergência?
Estas
palavras fizeram-me soltar uma praga. Tentei abrir a escotilha da
comporta para reparar a falta, Rhodan disse em tom sarcástico:
— Ninguém
é infalível, nem mesmo o anti. Abrigue-se, arcônida.
Num gesto
instintivo atirei-me ao solo. A comporta ficava a uns vinte metros.
Um raio
energético escaldante chiou pouco acima de minha cabeça.
Outros
disparos derreteram o chão à minha direita e à minha esquerda. As
trajetórias de tiro desenvolviam-se em ângulo aberto, motivo por
que cavavam sulcos no solo arenoso.
Dali em
diante limitamo-nos a correr, até alcançarmos a rocha mais próxima.
O anti isolara-nos da nave, e nós nos esquecêramos de transmitir
uma mensagem de rádio.
Simplesmente
esquecêramos, como se esta fosse a primeira vez que viajávamos pelo
espaço.
Era
horrível!
9
Mesmo numa
comunicação pelo rádio a voz sonora do sumo sacerdote era
inconfundível. Parecia mais grave, ao sair dos nossos alto-falantes
de capacete.
Ainda me
sentia disposto e ávido de ação. Naquele momento, o parastimulim
injetado por Goratchim atingia a plenitude do seu efeito.
Sob o
ponto de vista tático, a situação era insustentável. Por ocasião
do primeiro ataque, o anti provara que realmente as inteligências de
sua espécie possuem os melhores campos defensivos da Galáxia.
No momento
em que Segno Kaata mudou de posição, consegui um impacto direto com
minha arma de impulsos superpotente.
O
sacerdote fora atirado violentamente para o lado, mas isso resultará
exclusivamente da força de impacto de seis mil quilogramas por metro
quadrado. O campo energético se conservara impecavelmente,
refletindo as energias atômicas.
Rhodan
também atirara, transformando o solo em torno do sacerdote caído
num lago de lava incandescente. Apesar disso Kaata conseguira
escapar. Ficamos perplexos.
Depois de
algum tempo, Goratchim encontrou a solução do enigma. Afirmou que a
faculdade do anti consistia, entre outras, na capacidade de
fortalecer e estabilizar um campo energético por meio de impulsos
catalíticos individuais.
Era uma
explicação complicada, mas parecia aceitável. Afinal, sabíamos
perfeitamente que o gerador de campo defensivo, usado por Segno
Kaata, não era nem um pouco melhor que os modelos usados por nós.
Estávamos
deitados, atirando sem qualquer efeito. Enquanto isso, o tempo ia
passando. De repente esta concepção, que era a mais relativista de
todas, assumira um caráter muito realista para mim. Envolvia o ser
ou o não ser.
Depois da
última troca de disparos energéticos, subitamente ouvimos a voz de
Kaata. Provavelmente realizara a determinação goniométrica de
nossas comunicações radiofônicas. Utilizou a mesma freqüência.
Detive a
respiração e fiz uma tentativa desesperada de encontrar na voz
daquele homem a solução de meu problema.
— Suponho
que Vossa Alteza se tenha aventurado pessoalmente a esta lua —
começou o sumo sacerdote em tom objetivo — porque não possui
qualquer duplicata do ativador. Peço-lhe, então, encarecidamente
que desista de suas pretensões absurdas. Sou invulnerável.
Lancei um
olhar para Rhodan, que se encontrava deitado atrás de um grande
bloco de pedra, a uns trinta metros de distância. No momento não se
via o menor sinal de Segno Kaata. Ao que parecia, abrigara-se numa
depressão do solo.
Rhodan fez
um sinal insistente. Vi que sacudia a cabeça, sob a semi-esfera do
capacete pressurizado.
Olhei para
o relógio. Dispunha de pouco menos de uma hora. Por quanto tempo
duraria o efeito do parastimulim? Não havia dúvida de que esse
medicamento seria incapaz de evitar a decadência total de meu
organismo.
Tomei a
decisão de falar em tom firme e seguro. Comprimi lentamente a tecla
de transmissão.
— Atlan
chamando Segno Kaata — disse. — O senhor encontra-se cercado.
Atrás do seu abrigo está aparecendo um carro de combate fortemente
armado, cujos campos defensivos nunca poderão ser rompidos por sua
arma. Desista!
Sua risada
me fez estremecer. Comecei a ficar nervoso. Não conseguia reprimir a
lembrança dos minutos que se escoavam, por mais que me esforçasse.
Percebi
que estava perdendo o auto-controle. Quem dera que esse demônio não
tivesse dado essa risada de superioridade!
— Vossa
Alteza acha que minha arma é muito fraca? Trata-se de uma versão
especial. Mesmo um impacto direto não consegue desmoronar meu campo
defensivo. Lembre-se: ainda lhe restam cinqüenta e oito minutos para
aceitar minhas propostas.
Surpreso,
contive a respiração. Lancei um olhar apavorado para o mostrador de
meu relógio.
Kaata
estava muito bem informado. Cometera um engano de apenas três
minutos, pois o prazo de que dispunha terminaria dentro de cinqüenta
e cinco minutos. Tive vontade de gritar. O instinto de
auto-conservação ameaçava tomar conta de minha mente. A capacidade
de raciocínio estava diminuindo. Apesar disso consegui controlar-me
mais uma vez.
— O
senhor já conhece minha proposta — respondi. — Entregue o
aparelho, e deixarei que siga seu caminho, depois de submetê-lo a
uma lavagem cerebral.
Voltou a
rir. Bem ao longe, apareceu o blindado dirigido por Goratchim. Estava
equipado com um desintegrador, que agia por meio da destruição da
estrutura molecular da matéria. Com o impacto dessa arma, qualquer
tipo de matéria dissolvia-se em pó.
Até
parecia que o sumo sacerdote sabia ler os pensamentos. Voltou a
falar:
— Não
podemos cogitar de uma lavagem cerebral, alteza. Exijo livre retirada
e a entrega de sua espaçonave. Prometo que, pouco antes da
decolagem, atirarei o aparelho ao chão, onde Vossa Alteza o
encontrará. Evidentemente não estarei disposto a entregar o
ativador, antes de entrar na nave.
Todo o meu
ser estava ansioso para aceitar a proposta. Quase cheguei a
levantar-me. Rhodan fez um sinal. Repentinamente interveio na
palestra radiofônica.
— Aqui
fala Perry Rhodan, administrador do Império Solar — disse a título
de apresentação.
Sua voz
parecia fria e ameaçadora.
— Rejeitamos
sua proposta, Kaata.
Peço-lhe
encarecidamente que desista de aplicar seus truques em minha
presença. O senhor foi descoberto e será destruído.
— Ora, é
o bárbaro terrano — disse o sacerdote.
Desta vez
foi Rhodan quem riu. Percebi que sabia lidar muito melhor com esse
tipo de gente do que eu. Era a resolução em pessoa. Irradiava um
fluido que fazia com que seus inimigos se conduzissem com cautela.
Assim que Rhodan continuou a falar, o sumo sacerdote também percebeu
este fato.
— Dou-lhe
mais cinco minutos, Kaata. Se até lá não sair de seu esconderijo
com os braços levantados, conhecerá aquilo que nós, os bárbaros,
costumamos chamar de inferno.
— O
senhor está interferindo nos assuntos internos do Império — disse
Kaata, em tom de reprimenda.
— Para
mim, o senhor não passa de um criminoso. Vamos logo; saia da toca.
Exijo que o senhor devolva o ativador.
— Venha
buscá-lo — gritou o sacerdote. Desta vez sua voz já não parecia
tão tranqüila.
Rhodan não
tomou conhecimento das palavras do anti e gritou:
— Ivã,
vá mais pela esquerda. Aumente a velocidade. Ele não poderá
destruir seus campos defensivos.
Goratchim
respondeu. Era claro que Segno Kaata ouvia e entendia cada palavra da
palestra, ao menos até que Rhodan de repente passasse a falar
inglês:
— O.K.,
preste atenção. Esse sujeito não deve entender o inglês. Suponho
que seu campo defensivo tenha um ponto fraco. Deve haver algo de
errado, pois do contrário poderia aguardar tranqüilamente as
medidas que pretendemos tomar. Possivelmente a alteração estrutural
das linhas naturais de força, causada por meios parapsíquicos,
corre algum perigo. Devemos descobrir qual é o ponto fraco. Ele está
interessado em apoderar-se da espaçonave. Se Ivã chegar mais perto,
o sacerdote procurará atingir o jato espacial. Devemos evitar a todo
custo que isso aconteça. Mesmo que não consigamos matá-lo, é
provável que não escape incólume à tremenda força de impacto dos
potentes raios de impulso, ao menos por muito tempo. Poderá ferir-se
em quedas. Talvez chegue a sofrer alguma fratura. É claro que ele
mesmo conta com essa possibilidade.
“Preste
atenção, Ivã. Dificilmente, o campo defensivo reagirá ao seu
desintegra-dor. Por isso você deve atirar contra qualquer coisa que
sirva de abrigo ao sacerdote. Destrua os abrigos, abrindo o campo
para nós.
“Atlan:
depois que o anti estiver à vista, oriente o fogo de tal maneira que
sempre seja tangido em direção oposta à da nave. Dessa forma
evitaremos que abra caminho para lá. Tudo entendido? O.K., Ivã,
pode começar. Você já se aproximou bastante.”
O plano de
Rhodan era perfeitamente compreensível. Talvez, dentro de algumas
horas, conseguíssemos enfraquecer Kaata a tal ponto que se visse
obrigado a desistir. Acontecia que não podíamos dispor dessas
horas.
O sumo
sacerdote compreendera que sua situação se tornara perigosa.
De repente
apareceu atrás da rocha que lhe servia de abrigo, e passou a dar
saltos em direção ao jato espacial, que estava a menos de cem
metros. A reduzida gravitação da lua de Gelai representava uma
vantagem, mas esta foi neutralizada em parte.
O anti mal
conseguia pôr-se de pé depois de cada salto. Não estava acostumado
a essa forma de locomoção.
Rhodan foi
o primeiro a atirar. A trajetória do tiro, ultraluminosa e que se
deslocava quase à velocidade da luz, atingiu o sacerdote quando de
um salto. Face à ausência do meio condutor do som — o ar — tudo
se passou num silêncio total.
Vi o raio
energético de cerca de dois centímetros de diâmetro esbarrar no
campo defensivo do sacerdote, de onde passou a escorrer em cascatas.
O corpo
foi arrancado da trajetória com uma força tremenda, arrastado
alguns metros para o lado e atirado contra uma rocha.
Naturalmente,
o campo defensivo amortecia o choque, mas por certo alguns abalos
haviam atingido o organismo.
Numa
cólera súbita dei vazão a todo meu desespero. Apontei a arma e
abri um tremendo fogo energético contra o sacerdote, que de repente
parecia uma estátua cercada de raios de fogo.
Estava
encostado a uma rocha alta e firme, mas não conseguia fazer qualquer
movimento. Os raios energéticos, que o atingiam ininterruptamente e
com muita precisão, o mantinham pregado ao lugar, em virtude da
tremenda força de impacto das pesadas armas de impulsos.
Atirei até
que a luz vermelha de advertência se acendesse. A arma energética
estava superaquecida. Rhodan pegou um de seus radiadores portáteis,
que evidentemente possuía um desempenho energético muito mais
reduzido.
Atirei a
enorme arma de impulsos para a sombra mais próxima do meu abrigo,
onde o esfriamento seria mais rápido, face à intensa radiação
térmica.
Quando
começamos a disparar com as armas portáteis, Kaata conseguiu
desprender-se da rocha. Cambaleando e caindo constantemente,
retirou-se para trás de uma pequena encosta, onde desapareceu.
Rhodan soltou uma gargalhada. Kaata devia ter ouvido, pois por certo
não desligara seu rádio.
— Ivã,
você o vê? Deve estar do seu lado.
— Está
na minha alça de mira, sir.
— Muito
bem. Fogo! Pulverize a ponta da rocha.
Os
disparos do canhão do blindado eram invisíveis. Em compensação,
seus efeitos eram por demais perceptíveis. De repente a rocha
estável dissolveu-se. Começou a desagregar-se e, de repente,
desmoronou de vez.
Segno
Kaata voltou a tornar-se visível. Estava deitado sobre a montanha de
pó finíssimo que pouco antes fora um bloco de granito. No entanto,
o raio de desintegração não destruíra o campo defensivo
individual de Segno.
Rhodan
voltou a disparar imediatamente, enquanto gritava para nós:
— Não
esmoreçam. Mantenham-no sob fogo.
Dali a
alguns segundos alcançamos um êxito inesperado. Mais uma vez, o
sumo sacerdote foi soprado por cima do terreno. Seus tiros perdiam-se
em vão.
Voltara a
segurar minha arma pesada.
A luz
vermelha apagara-se, de maneira que o radiador estava em condições
de ser usado.
Apontei
para um bloco de pedra esférico, de dois metros de diâmetro que,
segundo parecia, Segno procurava atingir. Sob a ação do fogo
contínuo, a rocha entrou em incandescência e explodiu.
Aconteceu
alguma coisa sobre a qual apenas poderia fazer conjeturas, já que
não vira nada. O microfone de capacete transmitiu um estridente
grito de dor. Com a mão direita, Kaata segurava o braço esquerdo,
que parecia pender, molemente, junto ao corpo.
Esqueci de
atirar. Olhei tensamente para o sacerdote, que naquele momento estava
desaparecendo numa profunda depressão do solo.
— O que
foi isso? — perguntei em tom exaltado. — O que houve com o braço
dele? Você viu? Será que um dos nossos tiros conseguiu romper o
campo defensivo?
— Não —
respondeu Rhodan em tom hesitante. — Nunca. Isso aconteceu no
momento em que a rocha explodiu. Pedaços grandes voaram a uma
velocidade apreciável.
— Será
que ele foi ferido com isso? Rhodan não respondeu. Ao que parecia
estava refletindo. Subitamente, o sumo sacerdote voltou a chamar:
— Se
Vossa Alteza não aceitar imediatamente o acordo destruirei seu
ativador. Depende de Vossa Alteza!
— Entregue
o aparelho e permitiremos que o senhor se retire — disse Rhodan em
tom frio.
Kaata usou
uma expressão ofensiva. Rhodan prosseguiu:
— Se
quiser negociar, fale comigo. Entendido? Mandarei tirá-lo da toca;
não tenha a menor dúvida. Apresento-lhe minha última oferta.
Coloque o ativador sobre a rocha, em lugar bem visível, e
entregue-se. Garanto sua segurança pessoal. Largá-lo-ei em qualquer
planeta que lhe convenha.
— Independentemente
de qualquer intervenção no cérebro?
— Independentemente
de qualquer intervenção no cérebro. Reflita sobre minha proposta.
Saberei cumprir minha palavra.
— O
senhor não tem poder de decisão, terrano.
— Tem,
sim — intervim apressadamente.
Naquela
hora pouco importava que aquele homem continuasse vivo ou não.
Precisava recuperar o aparelho. Ainda dispunha de trinta e um
minutos.
Dali em
diante, o anti teve certeza de que não possuía nenhum exemplar
sobressalente. Momentos depois, Rhodan preferiu não negar mais o
fato.
— Vossa
Alteza está prestes a morrer — disse o sumo sacerdote,
dirigindo-se a mim. — Eu sabia que não existia outro exemplar do
aparelho. As informações que me foram fornecidas eram dignas de
confiança. Exijo a livre retirada e a aceitação de minhas
sugestões, quando da programação do regente.
— Já é
tarde para dizer uma coisa dessas — observou Rhodan. — Sem o
ativador, Atlan morrerá. Se isso acontecer por sua culpa, Kaata, eu
me vingarei. O senhor nunca conseguirá entrar na nave. Mesmo que
Atlan seja colocado fora de ação, o senhor ainda terá de enfrentar
a mim e ao meu mutante. E nós o perseguiremos por toda esta lua.
Reconheci o modelo de seu traje espacial. O senhor dispõe de
oxigênio apenas para dez horas. Já os nossos trajes terranos
possuem regeneradores muito mais aperfeiçoados. Poderemos respirar
por vinte e quatro horas. O que lhe adiantará oferecer resistência?
Tem alguma coisa a ganhar com a morte de Atlan? Faça o favor de
raciocinar. Ofereço-lhe plena liberdade de movimentos. O que mais
pode pedir? De qualquer maneira o senhor já perdeu.
O anti
manteve-se calado por alguns segundos, que aproveitamos para esfriar
as armas. Naquele momento não poderíamos usá-las.
De repente
ouvimos a resposta de Kaata:
— Não
posso confiar em sua promessa nem na de um moribundo. Prefiro
procurar uma chance real. Minhas possibilidades de derrotá-los são
melhores do que os senhores alegam. Não confio nas promessas de um
bárbaro e nem nas de um imperador, que conquistou o cargo por meios
fraudulentos. O senhor morrerá, Atlan!
Sua risada
quase me fez enlouquecer. Rhodan arrastou-se até o lugar onde eu
estava e obrigou-me a continuar abrigado. Um tiro disparado pela arma
de Kaata fez entrar em incandescência a rocha acima de minha cabeça.
Ainda dispunha de vinte e seis minutos.
Os olhos
de Rhodan estavam arregalados de espanto, o que me fez concluir que
meu rosto já sofrerá certas modificações. Provavelmente a pele se
tornava enrugada e mole. Comecei a ser tomado por um cansaço total.
Sentia-me como um ancião prestes a morrer...
Naquele
momento conformei-me definitivamente com a idéia de morte. Até
consegui sorrir.
— Será
que as coisas já chegaram a este ponto? — perguntei em voz baixa e
em inglês.
Sem dizer
uma palavra, Rhodan puxou meu braço esquerdo para junto de seu corpo
e olhou para meu relógio.
— Ainda
temos vinte e cinco minutos. Muito bem. Vou fazer alguma coisas. Não;
nada de objeções — disse em voz mais alta. — Segure sua arma, e
também a minha, e faça exatamente aquilo que eu mandar.
Fiz um
gesto de resignação. Uma estranha tranqüilidade apossou-se de mim.
Estava pronto para desistir. Provavelmente já não tinha mais forças
para quase nada. Se não fosse o auxílio de Rhodan, há muito tempo
estaria perdido. E agora as coisas apenas iriam demorar mais um
pouco, pois o terrano não desistia.
Prestei
atenção às suas instruções, que saíram precipitadamente do
alto-falante.
— Atenção,
Ivã! Saltarei em direção à nave. O anti será encoberto com uma
chuva de fogo. Destrua seu abrigo e aproxime-se cada vez mais.
Procure deixá-lo bastante atrapalhado. Atlan abrirá fogo contínuo
contra o anti. O bombardeio não deverá ser interrompido por um
segundo que seja. Entendido?
Goratchim
confirmou. Eu disse em tom de desânimo:
— Você
pretende usar o armamento pesado da nave, não é? Muito bem.
Provavelmente conseguirá destruir o campo defensivo individual do
sacerdote. O que adiantará isso? O ativador também se volatilizará.
Rhodan
interrompeu-me com um gesto. Dali a alguns segundos, o canhão do
veículo blindado começou a disparar. Esperei até que o sumo
sacerdote se tornasse visível atrás da cobertura pulverizada.
Comecei a disparar tranqüilamente. A trajetória do tiro atingiu o
ladrão e, mais uma vez, arrastou-o pelo solo acidentado. Se não
fosse o campo defensivo já teria sido despedaçado. No entanto, na
situação em que se achava, sempre encontrava outro abrigo, que
tinha de ser pulverizado pelo mutante.
Rhodan
aguardou o momento exato. Quando Segno Kaata se viu em meio a um
bombardeio mais cerrado, saiu correndo. Preferiu não dar saltos
grandes, que só o teriam levado para o alto. Sua técnica consistia
em aproveitar a gravitação reduzida para dar gigantescos saltos
pouco acima da superfície. Praticamente voava por sobre o terreno
tostado pelo sol. Muitas vezes aterrissava de quatro, mas sempre
conseguia manter o corpo sob controle.
Antes que
me desse conta do que estava acontecendo, Rhodan desapareceu sob a
máquina em forma de disco. A escotilha inferior abriu-se.
Dali em
diante não soube mais o que Rhodan estava fazendo. Não o vi sair do
jato espacial. O que mais me admirou foi que não decolou com a
pequena nave, nem tentou um ataque com o canhão pesado.
O jato
jazia calmamente no mesmo lugar.
O anti
encontrara um bom abrigo. Estava deitado numa depressão cercada de
rochas. Até mesmo o desintegrador levaria algum tempo para destruir
esse abrigo. Além disso, minhas duas armas estavam superaquecidas.
Suspendi o fogo.
Um olhar
para o relógio revelou que ainda me restavam oito minutos. Depois
disso, a decadência orgânica seria extremamente rápida. Não
morreria logo. Mas meu corpo murcharia que nem uma flor, quando
exposta subitamente ao calor de um fogão.
Rhodan
continuava desaparecido. Ainda faltavam sete minutos! Tive a
impressão de que meus olhos se grudavam no mostrador que continuava
a avançar inexoravelmente.
Quase tive
a impressão de que estava sonhando, quando de repente ouvi a voz de
Rhodan no alto-falante de capacete.
— Atenção,
não atirem. Estou nas costas do anti.
Ergui-me
abruptamente. Bem atrás da encosta íngreme que cercava a depressão
em que o criminoso se abrigara, surgiu a figura de Rhodan.
Reconheci-o perfeitamente, mas não compreendi qual era o estranho
aparelho que carregava.
Parecia um
bastão. Quando Rhodan parecia usá-lo, o aparelho transformou-se num
semicírculo. Um objeto reluzente cortou o espaço e desapareceu na
depressão. Ouvi um grito pavoroso.
Era a voz
do anti. Rhodan repetiu o movimento, e o sumo sacerdote voltou a
gritar.
Depois do
terceiro movimento de Perry, os gritos terminaram num gemido
profundo. A seguir, tudo ficou em silêncio.
O terrano
manteve-se imóvel sobre o paredão de pedra. Levantei-me lentamente
e cambaleei em sua direção. Imaginava que o anti estivesse morto.
Com isso, seu campo defensivo devia ter-se desligado automaticamente.
O blindado
de Goratchim aproximou-se velozmente. Parou junto à depressão.
Rhodan desaparecera do meu campo de visão. Quando apareceu de novo,
dava largos saltos em minha direção. Sua mão segurava um objeto do
tamanho de um ovo. Era o ativador celular.
Atingiu-me,
atirou-me ao chão e comprimiu o aparelho fortemente contra meu
peito.
*
* *
Parece que
fiquei inconsciente por algum tempo. Ao despertar, senti os impulsos
revitalizantes do meu ativador. Já podia raciocinar claramente e a
fraqueza ia-me abandonando. Só depois fui saber com que aparelho
Rhodan matara o anti...
Goratchim
cumprimentou-me por trás da cúpula transparente do blindado. Suas
duas bocas riam. Rhodan esperou que eu me levantasse. Senti o
ativador em minha mão. Comprimi-o contra o corpo, com uma força
exagerada.
Rhodan foi
o primeiro a começar a falar. Fez como se não tivesse acontecido
nada.
— Quando
lhe dei o ativador, você ainda dispunha de um minuto. Será que
cheguei em tempo para garantir a regeneração de suas células?
— Como
estou? Muito enrugado?
— Um
pouco, mas o aspecto rugoso está diminuindo.
Suspirei.
Com uma sensação de alívio deixei-me cair para trás. Deitado de
costas, fitei o espaço salpicado de estrelas.
— Como
foi que você o matou? — perguntei em voz baixa.
— Resolvi
fazer uma tentativa, que poderia ter falhado. Tive a idéia, quando o
anti foi ferido pelo bloco de pedra. Este rompera o campo defensivo.
Pensei que com uma arma energética não conseguiríamos nada. Nem
com qualquer tipo de projétil, cujo envoltório pudesse ser
influenciado por um campo magnético. Lembrei-me do equipamento
esportivo de nossas naves. Você deve saber que todos os veículos
espaciais levam certos objetos destinados à prática do esporte, a
fim de manter os tripulantes fisicamente em forma.
Limitei-me
a confirmar com um gesto.
Virei a
cabeça. A meu lado, um grande arco de fio de plástico estava jogado
na areia. A aljava com as longas setas ainda pendia sobre o ombro de
Rhodan.
Fitei-o em
cheio. Rhodan sorriu.
— É bom
que você saiba que sou muito bom no arco e flecha. As hastes das
flechas são feitas de plástico não magnético, e as pontas afiadas
de ligas de metal leve, igualmente antimagnéticas. Consegui
colocar-me atrás do abrigo do anti. Antes que ele compreendesse a
situação, disparei a primeira flecha. A seta rompeu, sem a menor
dificuldade, o campo defensivo. Precisei de três flechas para
colocá-lo fora de ação. Foi só!
Foi só,
dissera Rhodan. Parecia que essas palavras ainda ressoavam em meus
ouvidos. Como é que esse homem incompreensível teve a idéia de
romper um dos envoltórios energéticos mais fortes e impenetráveis
da Galáxia por meio de arco e flecha?
Uma
decisão desse tipo só poderia ser tomada por um homem, cujos
antepassados há poucos séculos ainda investiam uns contra os outros
com espada e machados.
Mal
conseguia compreender, mas o resultado provava que o raciocínio de
Rhodan fora correto.
Sua voz
arrancou-me das reflexões. Já me sentia forte e bem-disposto. O
ativador estimulava cada célula do meu corpo.
Rhodan
olhou para a depressão, na qual jazia um cadáver. Nele estavam
espetadas três flechas compridas, que haviam sido fabricadas
exclusivamente para fins esportivos.
— Quer
saber de uma coisa? — disse Rhodan em tom pensativo. — Ele não
deveria ter-me chamado tantas vezes de bárbaro. Acredite se quiser,
mas o fato é que isso me deu a idéia de atirar contra ele de arco e
flecha.
Ajudou-me
a levantar-me. Goratchim ia à frente no carro blindado. Usando o
arco de plástico como bengala, Rhodan caminhava a meu lado.
Era
estranho... Esses bárbaros do planeta Terra tinham cada idéia...
*
* *
*
*
*
O anti
foi derrotado, mas os verdadeiros maquinadores do atentado contra
Atlan, de cuja existência o destino do Império Solar depende em
larga escala, ainda não foram postos fora de ação...
E
qualquer pessoa que queira envolver-se com eles terá de pagar O
Preço do Poder.
Aliás, é este o título do próximo volume.

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