sábado, 27 de agosto de 2016

P-095 - Céu Sem Estrelas - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Seres invisíveis atacam o planeta sem sol...

Com o descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este Império frente aos ataques internos e externos.
A mais séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna, provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por Gucky.
Porém, um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver ainda um longo caminho...
O próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro, com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan, agora com o nome de Imperador Gonozal VIII e Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, já por simples instinto de conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Desta vez, Perry Rhodan e seus mutantes recebem um chamado telepático de extraordinária intensidade, vindo das amplidões do espaço. E com esse chamado tem início a viagem ao Céu sem Estrelas.


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Ele ou AquiloO estranho ser do planeta Peregrino.

GuckyO rato-castor que tem um sósia...

Reginald BellO melhor amigo de Perry Rhodan.

Coronel Baldur SikermannComandante da nave Drusus.

Wuriu SenguO espia do Exército de Mutantes.

Nex, Regoon, Laar e GoratCientistas eminentes de Bárcon, um planeta sem sol.
1



Cinco gigantescas e esféricas espaçonaves transportadoras pousaram em Árcon. Formaram um amplo pentágono no campo de pouso do terceiro mundo principal.
A espera, conforme sabia qualquer pessoa que possuísse um treinamento psicológico, era o melhor meio de amolecer e subjugar uma pessoa. E esse meio tornava-se mais eficaz, quando à espera se associava a incerteza.
Perry Rhodan e Atlan, o imperador do reino estelar dos arcônidas, encontraram-se na cantina de luxo da Drusus, que acabara de chegar a Árcon III. Se Rhodan não saiu de sua nave e pediu a Atlan que viesse ter com ele, o motivo disso não residia numa eventual desconfiança. Antes, o terrano estava interessado em voltar o quanto antes ao funil de descarga dos druufs que já se ia apagando, a fim de assistir às últimas fases da luta.
Atlan, que agora passara a ser o Imperador Gonozal VIII, foi ao encontro de Rhodan com as mãos estendidas. Em sua voz vibrava um tom extraordinariamente cordial, quando disse:
Muito obrigado, amigo. Talvez tenha de creditá-lo pelo fato de o Império não ser destruído. Os cem mil arcônidas não degenerados me ajudarão a estabilizar a força de Árcon. Como foi isso?
Rhodan retribuiu o aperto de mão.
Como foi...? Bem, houve dificuldades, conforme você já sabe. Depois de um período de nervosismo, encontramos a nave dos emigrantes arcônidas. Ela havia decolado há cerca de dez mil anos. Por obra do acaso, os antepassados que estavam hibernando foram despertados. Felizmente isso só aconteceu há duas semanas e alguns dias. Quando as gerações adormecidas acordaram, o caos estabeleceu-se a bordo da nave, cujos propulsores estavam falhando. De qualquer maneira, os arcônidas mais velhos, que tinham dormido dez mil anos e conservavam o vigor de antigamente, conseguiram assumir o comando. Nossa intervenção evitou o pior. Deixamos os antepassados adormecidos inconscientes por meio de um gás e os carregamos nas naves transportadoras enviadas por você. Apenas os dirigentes foram recolhidos à Drusus. Bem, acho que foi só isto. Atlan fitou Rhodan.
Foi só isto. E você me conta essa façanha com simplicidade. Até parece que não existe nada mais importante. Acontece que Árcon está prestes a sofrer uma grande mudança. Cem mil arcônidas da velha estirpe, descendentes dos fundadores do Império, não estão degenerados e estão de plena posse de suas energias espirituais. Eles constituirão a base da evolução futura.
Rhodan limitou-se a dizer:
Então você acha que eu lhe fiz um favor por ter encontrado os antepassados e os ter trazido até aqui?
Atlan sacudiu a cabeça, um tanto espantado.
Por que faz essa pergunta? Você sabe tão bem quanto eu que sua ação talvez represente a salvação de Árcon. Estou convencido...
Talvez minha pergunta não tenha sido bem formulada — interrompeu Rhodan. — O que quero dizer é mais que isso. Você acredita que cem mil arcônidas serão suficientes?
São sempre cem mil arcônidas, Perry! Naturalmente é uma pena que nem todos tenham acordados, mas uma experiência deste tipo fatalmente há de acarretar certas perdas. Devemos dar-nos por satisfeitos por ter havido ao menos estes sobreviventes.
Antes de mais nada é você quem deverá dar-se por satisfeito, se bem que o repentino aparecimento destas pessoas, que há muito se acreditava estarem mortas, possa trazer certos problemas. Basta citar um exemplo. Você acredita que os orgulhosos arcônidas o reconhecerão como imperador?
Reconhecerão; não há dúvida! — disse Atlan em tom confiante. — À saída das naves transportadoras, serão recebidos por um exército de robôs. Uma esquadrilha de cruzadores e couraçados está voltando da zona de descarga e deverá pousar no espaçoporto. Não se preocupe, Perry. Providenciarei para que os antepassados se convençam do poderio que Árcon tem hoje. E ainda mantenho escondido um trunfo que nunca poderão superar.
Você se refere...
...ao computador. O gigante positrônico foi construído depois da saída deles, mas não deixará de convencê-los. Afinal, foi o computador-regente que me empossou no cargo. Ele poderá atestar a qualquer momento que descendo diretamente dos primeiros imperadores. É bem verdade que também poderá atestar que tenho, talvez, mais idade do que o mais velho dos antepassados. São, por assim dizer, quase meus contemporâneos. Mas não posso revelar-lhes este fato, caso queira manter em segredo a minha imortalidade.
Não precisam saber disso — observou Rhodan com um sorriso. — Pelo menos por enquanto.
Atlan soltou um suspiro de alívio.
Acho que é suficiente que o computador mencione minha descendência direta. Depois disso os antepassados prestarão seu juramento de fidelidade, Perry! Então estarei preparado para investi-los em suas funções de responsabilidade. Bem, vou apresentar-me aos antepassados.
Rhodan levantou-se e comprimiu um botão situado embaixo da tela do intercomunicador. O rosto marcante de Baldur Sikermann apareceu na tela.
Pois não!
Acompanhado por Atlan, irei ver os antepassados. Está tudo preparado?
Está, sim senhor. Acho que o Marechal Bell tomou todas as providências. Permita-me fazer uma observação, sir?
Pois não, coronel.
Na minha opinião o Marechal Bell está exagerando um pouco. Mandou postar
guardas de honra e dez robôs pesados terão de apresentar as armas, quando Atlan entrar no pavilhão. Além disso, ordenou que as sereias da Drusus funcionem por dez segundos, em todos os corredores e compartimentos da nave. Não me admirarei se ele mandar disparar uma salva energética.
Não se preocupe, coronel. Posso garantir-lhe que isso não será feito. Quanto ao mais, parece que o senhor se esqueceu de que Atlan se tornou imperador de Árcon. Bem, o senhor sabe. Mas os antepassados ainda não. É por isso que estamos apresentando o espetáculo. De acordo?
Sim senhor. Naturalmente estou de acordo. Apenas pensei...
Está bem, Sikermann. Quer dizer que está tudo preparado? Pois mande uivar as sereias.
O rosto de Sikermann exprimiu certa perplexidade, antes de desaparecer da tela. O coronel era um oficial muito competente, mas não entendia muito da “diplomacia das baionetas” — ou não queria entender.
Rhodan e Atlan passaram entre duas fileiras de guardas de honra e entraram no pavilhão em que os dirigentes dos antepassados já os aguardavam. Os robôs fizeram continência. As sereias silenciaram no interior da nave.
Bell, que se encontrava em companhia dos antepassados, adiantou-se e ficou em posição de sentido.
Anunciou que as pessoas despertadas estavam prontas para cumprimentar o imperador.
Depois disso, Atlan passou ladeado por Rhodan à frente dos arcônidas, que há dez mil anos haviam iniciado uma viagem muito longa.
Era tudo muito solene e impressionante.
Em algum recanto do cérebro de Rhodan, ouviu-se uma risadinha telepática muito baixinha. Alguém parecia divertir-se a valer com o espetáculo diplomático. E era alguém que sabia ler os pensamentos de Rhodan, pois a risadinha “silenciou” imediatamente.
Rhodan resolveu que mais tarde falaria com Gucky e lhe pregaria um sermão.
Afinal, se os dirigentes arcônidas se convencessem do poder de Atlan, os demais que se encontravam nas cinco naves de transporte também teriam de convencer-se.

* * *

Os telepatas John Marshall, Betty Toufry, Ishy Matsu e o rato-castor Gucky estavam sentados na cantina da Drusus com mais alguns mutantes, a fim de passar o tempo até que chegasse o momento da decolagem, que seria realizada dentro em breve.
Como de costume, houve um duelo renhido de xadrez tridimensional entre John Marshall e Betty Toufry. Os outros ficaram fascinados com o jogo, que representava um espetáculo sem par. Sustentadas por campos antigravitacionais, as duzentas e cinqüenta e seis figuras levitavam no interior do cubo, que tinha o dobro desse número de campos cúbicos. As figuras podiam passar a planos diferentes e até sabiam saltar.
É sua vez, Betty — piou Gucky e escorregou nervosamente de um lado para o outro da poltrona. — Agora está facílimo. Você poderá pôr fora de jogo ao menos um dos reis.
Afinal, o jogo tinha oito reis. Betty contemplou o cubo reluzente e acariciou o pêlo cor de ferrugem de Gucky.
Ah, é? Então você acha que seria uma atitude inteligente conseguir uma vitória num dos planos e perder ao menos duas figuras? Sempre pensei que você fosse um enxadrista melhor, Gucky.
Na verdade, podia-se perder oito vezes em cada jogo. E havia necessidade de refletir oito vezes mais que no xadrez comum. Por isso não era de admirar que o xadrez tridimensional fosse quase exclusivamente um jogo dos mutantes.
Betty deu o lance. Comprimiu uma chave que se encontrava de seu lado. Uma das figuras desceu um plano e escorregou para outro campo.
John Marshall mergulhou em reflexões.
De repente Gucky levantou a cabeça. Olhou para a porta. Dali a alguns segundos, Rhodan entrou.
O administrador do Império Solar cumprimentou os mutantes com um gesto e tomou lugar numa das poltronas desocupadas que estavam colocadas ao acaso em torno do aparelho de xadrez. Ao que parecia, era por puro acaso que seu lugar ficava ao lado do de Gucky.
O rato-castor voltou a afundar na poltrona e passou a interessar-se exclusivamente pelo jogo.
Você deveria ter assistido ao grande desfile — disse Rhodan em voz baixa. — Posso garantir-lhe que foi uma coisa impressionante. Faço qualquer aposta de que todos os cento e dez mil arcônidas prestarão o juramento de fidelidade a Atlan.
Gucky olhou para o teto.
Ele deve isso a mim — disse. — Tomara que Atlan nunca se esqueça de que somos amigos.
Ele nunca se esquecerá, pequenino. Atlan tem mais de terrano que de arcônida. Não pode haver nada que possa transformá-lo em nosso inimigo.
Rhodan nem desconfiava que estava enganado, mas o acontecimento que lhe faria compreender isso ainda se situava num futuro longínquo.
Ao que parecia, Gucky resolveu renunciar ao seu ceticismo e mudou de assunto. Com um olhar de esguelha, convenceu-se de que John Marshall estava prestes a perder a partida de xadrez que disputava com Betty Toufry. Depois dirigiu-se a Rhodan e disse:
Quando decolaremos?
Sikermann já transmitiu suas instruções. Daremos uma pequena volta antes de regressarmos à Terra. Quero fazer uma visita a certos planetas.
Gucky não parecia muito feliz.
Sempre pensei que...
Não conseguiu prosseguir. Aconteceu uma coisa totalmente inesperada e inexplicável.
Rhodan, que ouvia perfeitamente as palavras de Gucky, de repente foi tomado por uma forte dor de cabeça. Uma mão invisível parecia comprimir seu cérebro para esmagá-lo. Num gesto instintivo pôs a mão na cabeça — ou melhor, quis pô-la. Mas seus membros estavam paralisados. Mal conseguia mexer-se.
Com Gucky e os outros telepatas aconteceu a mesma coisa.
Perry Rhodan!
O pensamento desenhou-se de forma nítida e insistente no cérebro de todos. Vinha do nada e era tão intenso que chegava a doer. Nenhum dos mutantes seria capaz de pensar de forma tão avassaladora e sugestiva, a ponto de causar dores por via mental.
Perry Rhodan!
Desta vez o pensamento foi ainda mais insistente e constritor. Parecia que seu autor ainda tateava no escuro, sem saber onde poderia encontrar Rhodan. Talvez, realmente fosse assim...
John Marshall soltou um gemido. Seu corpo amoleceu. Não suportara a dor e desmaiara. Ao que parecia, as duas moças eram mais resistentes. Pálidas e imóveis, continuavam sentadas nas poltronas. Em seus olhos muito arregalados via-se a expressão de espanto e de pavor infinitos.
Perry Rhodan, responda!
Rhodan começou a desconfiar de alguma coisa. Em todo Universo só havia um ser que possuía faculdades telepáticas de tamanha intensidade. Mas esse ser encontrava-se a muitos milhares de anos-luz de Árcon.
Quando a dor no cérebro amainou por alguns segundos, arriscou um olhar para o lado. John Marshall estava deitado na poltrona. Parecia ter perdido os sentidos. Betty Toufry fitava o teto com os olhos muito arregalados, como se esperasse alguma coisa. Ishy Matsu parecia desamparada ao encontrar o olhar de Rhodan. Já Gucky mantinha os olhos fechados e “escutava” seu interior.
Antes que chegasse outra mensagem, Rhodan resolveu responder ao chamado. Mais uma mensagem telepática tão intensa quanto a primeira poderia produzir graves danos psíquicos, ao menos em John Marshall. Além de outras coisas, Rhodan compreendeu o poder de que dispunha o desconhecido. Era capaz de matar um homem que se encontrasse a milhares de anos-luz, desde que o quisesse.
Percebi seu chamado, meu amigo — disse Rhodan em voz alta, pensando num planeta artificial, que àquela hora vagava pela amplidão do espaço, por entre as estrelas. — Por que teve de assustar-nos tanto?
Gucky, que continuava na poltrona ao lado de Rhodan, abriu instantaneamente os olhos. Neles surgiu um brilho de compreensão — e algo como uma mensagem tranqüilizadora. Fez um gesto de satisfação e voltou a mergulhar numa reflexão carregada de expectativa.
John Marshall começou a mexer-se. Gemeu baixinho e endireitou o corpo. Quando abriu os olhos, defrontou-se com um olhar de advertência de Rhodan.
Proteja-se para amortecer os impulsos. Seu cérebro é muito sensível — recomendou Gucky em voz baixa.
Antes que Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, chegou a resposta vinda do nada.
Eu o espero, Perry Rhodan! Imediatamente!
Desta vez, o impulso não fora menos intenso. Porém não era dotado da insistência dolorosa de antes. Rhodan até teve a impressão de que o impulso mental encerrava algo de tranqüilizador. Naturalmente só podia ser sua imaginação.
Onde você me espera? — perguntou Rhodan em meio à incerteza.
Em Peregrino! É muito importante! Venha imediatamente!
Rhodan já sabia do que se tratava.
O ser invisível do planeta Peregrino chamava a ele, Perry Rhodan. E não o chamava por brincadeira. Na voz mental notava-se certa preocupação, até mesmo algum desespero. Será que mais uma vez se via em dificuldade, como já acontecera uma vez, por ocasião do ataque dos druufs?
Indique a posição atual de Peregrino.
Rhodan achou que era boa idéia fazer essa pergunta. O planeta artificial não estava firmemente ancorado no espaço, mas seguia uma rota que o fazia cruzar o Universo em várias direções. Para apurar sua posição, Rhodan teria de consultar o grande centro de computação de Vênus. E isso representaria uma perda de tempo.
Esperou, mas o ser imortal e inacessível não respondeu mais. A voz vinda do nada silenciara.
Marshall recuperou-se a olhos vistos.
A posição de Peregrino! — repetiu Rhodan, em tom mais insistente. — O que aconteceu?
Mais uma vez não houve resposta. O imortal deixara de reagir às mensagens.
Betty Toufry disse:
Ele se retirou. Por que devemos ir a Peregrino? O que estará querendo de nós?
Ele — era assim que chamavam o ser incompreensível, que lhes conferira a imortalidade relativa, por meio da ducha celular do planeta Peregrino. Ele corporificava toda uma raça desaparecida, representava a condensação energética de sua inteligência e de sua substância espiritual imperecível. Haviam-no visto poucas vezes, e quando isso acontecia, só aparecia sob a forma de uma pequena esfera cintilante de energia.
E agora Ele — que por vezes costumava ser cognominado também de Aquilo — os chamara.
E isso, a uma distância superior a trinta mil anos-luz.
John Marshall compreendera a pergunta de Betty.
É possível que ele queira comunicar-nos ou mostrar-nos uma coisa importante. De qualquer maneira, sinto-me satisfeito porque a dor passou. Foi horrível.
Tive a impressão de que uma massa incandescente penetrava em meu cérebro. Talvez minha sensibilidade por impulsos telepáticos seja grande demais, mas esta foi a primeira vez que isso representou uma desvantagem para mim.
Estará precisando de auxílio? — Rhodan fitou Marshall, expressando dúvida e balançando ligeiramente a cabeça. — Não sei se foi um pedido de socorro. Parecia antes uma ordem. Apesar de tudo não sei o que pensar do pedido de comparecer no planeta Peregrino.
Gucky ergueu-se. Seus olhos inteligentes cintilavam.
Não temos outra alternativa senão atender ao desejo do imortal. Vamos decolar?
Rhodan observou:
Quanto a isso não existe a menor dúvida. O que podemos fazer é antecipar a partida. Infelizmente teremos de ir a Vênus, a fim de apurar a posição de Peregrino. Não existe outra possibilidade, a não ser que aquilo resolva ajudar-nos. E parece que não quer.
Levantou-se e foi ao intercomunicador. Acionou uma chave e entrou em contato com a sala de comando. Sikermann respondeu. Naquele momento mandava calcular a rota e as transições que se tornavam necessárias.
Decole imediatamente, coronel. Os cálculos restantes poderão ser feitos em viagem. Irei logo até aí.
Sikermann confirmou. A tela apagou-se. Gucky soltou um suspiro.
Mais uma vez nossas férias foram estragadas — disse em tom de decepção. — Sempre acontece um imprevisto. Bell ficará muito feliz quando souber.
Rhodan olhou para além de Gucky.
Gostaria de saber o que aconteceu em Peregrino.
Todos gostariam de saber.

* * *

Bell recolhera-se ao seu camarote e fora dormir. O amigo e representante de Rhodan sabia que ainda faltavam algumas horas para a decolagem. Por isso teve uma surpresa ao sentir a vibração dos aparelhos que foram postos a funcionar. Olhou para o relógio e constatou que dormira menos de dez minutos.
Caramba! — exclamou.
Saiu da cama de um salto e foi ao intercomunicador.
O Coronel Sikermann respondeu ao chamado.
Por que estamos decolando, coronel? O que aconteceu?
A decolagem foi antecipada, sir. Por ordem do chefe. É só o que eu sei.
Bem. Vou verificar o que aconteceu. Obrigado, coronel.
Bell desligou e sentiu que as vibrações se tornavam mais intensas. Dentro de alguns segundos os propulsores começariam a funcionar. A Drusus aceleraria, sem qualquer pressão perceptível, e avançaria para o espaço.
Bell quase se esqueceu de vestir o uniforme, de tão pensativo que estava. Só no último instante deu-se conta de que ainda estava de pijama. Bem, isso representaria um achado para Gucky...!
Dali a cinco minutos, quando entrou na sala de comando, Árcon III estava reduzido a uma esfera reluzente. O sol entrava na tela de imagem pela direita.
Sikermann apenas se virou para o gorducho e, imediatamente, voltou a dedicar-se aos numerosos controles. Rhodan estava sentado numa poltrona e observava as telas.
O que houve, Perry? Qual é o motivo da decolagem precipitada? — perguntou Bell.
Rhodan informou-o e concluiu:
Infelizmente o imortal não nos forneceu a posição, motivo por que teremos de consultar o centro de computação de Vênus. Com isso perderemos quase um dia. Será que um ser onisciente pode esquecer alguma coisa?
Bell não soube responder, pois podia entender de tudo, menos onisciência.
De qualquer maneira, sentiu-se tranqüilizado. Mas ao mesmo tempo uma hesitação insinuou-se em sua mente. Não teve a menor hesitação em pronunciá-la:
O incidente prova que o imortal sabe que pode alcançar-nos a qualquer momento, mas nunca sabe onde estamos. Isso não parece um paradoxo?
Em absoluto, Bell. Uma coisa é certa: seu alcance telepático é ilimitado. Por outro lado, só consegue captar nossos pensamentos, se os concentramos sobre ele. Quando isso acontece, talvez possa determinar a distância e a direção. Agora, que pensamos intensamente nele, provavelmente já sabe que decolamos.
O Coronel Sikermann falou com a voz firme:
A transição será realizada dentro de dez minutos.
Ninguém lhe deu atenção. A transição, ou seja, o salto pelo hiperespaço, era uma coisa tão normal como o movimento de quem comprime o acelerador de um automóvel. Os compensadores de pressão anulariam qualquer tipo de pressão. A dor da distorção, que surgia por ocasião da rematerialização, constituía-se no único sinal de que a pessoa percorrera alguns milhares de anos-luz num segundo.
Acontece que não percebi nada da mensagem do imortal — ponderou Bell.
Sua voz até parecia um tanto ofendida. Rhodan fez um gesto de assentimento.
Também já pensei nisso — confessou. — Os impulsos só foram captados pelos telepatas, nos quais causaram efeitos colaterais bastante desagradáveis. Provavelmente o cérebro dos telepatas é mais sensível. De qualquer maneira, o imortal deve ter feito sua transmissão de tal maneira que só os telepatas conseguiram captar a mensagem. Por certo teve um bom motivo para isso. Não queria que qualquer pessoa o ouvisse. Sabe que sou um telepata muito fraco, e que além de mim, existem bem poucos terranos que sabem ler os pensamentos. Portanto, sentiu haver uma possibilidade, por menor que esta fosse, de que o chamado atingisse o endereço certo. Além disso, suponho que, depois de ter recebido minha resposta, enfeixou seus impulsos. Ninguém os captou, com exceção dos telepatas que se encontram no interior da Drusus.
A uma distância de trinta mil anos-luz, isso representa um ótimo desempenho — disse Bell com um elogio na voz. — E agora?
Ainda saberemos em tempo o que ele quer de nós. Parece que precisa de nosso auxílio. É uma sensação bastante reconfortante sabermos que um ser imortal necessita de ajuda humana.
Quem sabe o que aconteceu em Peregrino? — respondeu Bell.
A voz de Sikermann interrompeu a palestra:
Faltam oito minutos para a transição.
Bell não deixou que seu raciocínio fosse interrompido.
Quem sabe o que aconteceu em Peregrino? — repetiu e fitou a tela sem muito interesse.
Árcon já ficara bem menor. Naquele momento, a Drusus passava pelo anel de fortificações do Império, desenvolvendo três quartos da velocidade da luz. Os sinais de identificação foram irradiados automaticamente.
Uma coisa é certa: o imortal precisa do nosso auxílio. Do contrário não se teria dirigido a nós. Afinal, nunca o fez dessa maneira. Logo, ele precisa do nosso auxílio. Resta saber por quê, e quanto a isso tenho uma idéia bem definida...
Infelizmente ninguém ficou sabendo qual era a idéia que Bell trazia em mente. Enquanto o gorducho falava, Rhodan estremeceu, como se um golpe doloroso, vindo do nada, o tivesse atingido na cabeça. Bell a princípio nada notou, pois contemplava a tela e ordenava os pensamentos. Mas quando proferiu a última frase, voltou a dirigir-se a Rhodan.
Estacou ao perceber a expressão do rosto do chefe.
Este fitou-o.
O que houve? — perguntou Bell, em tom assustado. — Alguma coisa que vem de Peregrino?
Rhodan fez um gesto afirmativo, mas não respondeu.
Faltam cinco minutos para a transição! — anunciou Sikermann, que não notara o incidente, já que dedicava sua atenção exclusivamente aos controles da nave.
Bell manteve-se em silêncio. Observava Rhodan, que continuava sentado em sua poltrona. Apenas se encolhera ligeiramente. Quase no mesmo instante, a porta abriu-se e John Marshall entrou apressadamente na sala de comando. Em meio ao costumeiro torvelinho no ar, o teleportador Gucky materializou-se e saltou para o sofá, que se encontrava ao lado da poltrona de Rhodan.
Desta vez quase não me afetou — gaguejou Marshall, visivelmente espantado por não ter desmaiado. — O senhor também ouviu, sir?
Sim, ouvi a nova mensagem. Espero que o senhor também se lembre dela, para que possamos estabelecer a comparação. A posição do planeta Peregrino foi repetida três vezes. Faça o favor de anotar, Coronel Sikermann: PB-ZH-97H. Certo?
É exatamente isso — piou Gucky e encostou-se à parede.
Marshall também confirmou a indicação.
Sikermann parecia nervoso.
A transição será realizada dentro de três minutos, sir? Ou há outras instruções?
Há. Suspenda a transição. O senhor obterá novos dados — depois de dizer estas palavras, Rhodan dirigiu-se a Bell: — Foi uma ordem que acabou de chegar de Peregrino. Uma verdadeira ordem; não existe a menor dúvida.
Uma ordem? Que ordem foi essa?
Não devemos ir a Vênus, mas diretamente a Peregrino. E a posição do planeta artificial já nos foi fornecida.
Tudo isso aconteceu enquanto eu estava falando?
Marshall e Gucky também captaram a mensagem. Suponho que Betty e Ishy também estejam informadas. É estranho...
Rhodan hesitou. Bell fez uma pergunta:
O que é estranho, Perry? A ordem?
Não é tanto isso. É que a forma da comunicação, que só pode ser captada por telepatas, é extraordinária. Antigamente qualquer pessoa que se encontrasse a bordo da nave era capaz de captar as mensagens do imortal.
O Coronel Sikermann já suspendera a transição e introduzira os novos dados no computador de navegação. Instantes depois, as fitas com os novos cálculos de transição escorregaram para cima da mesa. O coronel pegou-as e as levou adiante. Depois de uns dois minutos anunciou:
Nova transição pode ser realizada dentro de cinco minutos. Serão necessários quatro saltos para levar-nos ao destino. Distância...
Está bem, coronel, não precisamos dos detalhes. Quanto tempo deveremos levar, incluídas as pausas intermediárias?
Vinte horas, sir. Rhodan olhou para o relógio.
Acorde-me daqui a noventa minutos. Estarei no meu camarote.
Bell seguiu-o com os olhos até que a porta se fechasse. Seu rosto exprimia certa perplexidade.
Está muito lacônico hoje — constatou, cutucando Marshall. — Conte com todas as minúcias o que o imortal quer de nós. Qual foi mesmo a ordem que transmitiu? Não forneceu qualquer indicação sobre o que aconteceu?
Gucky, que continuava sobre o sofá, soltou uma risada borbulhante.
Nosso amigo Bell não é nem um pouco curioso. Deveria ter-se tornado um telepata, em vez de espalhar insegurança pelos bares de Terrânia. Não lhe contaremos nada, não é, Marshall?
John Marshall hesitou.
O que poderíamos contar, Gucky? Também não sabemos quase nada. A única coisa que sabemos é que devemos ir imediatamente a Peregrino, aquele misterioso mundo artificial que gira em torno de um centro desconhecido e leva milhões de anos para completar sua órbita. O que nos espera por lá? Será que Rhodan sabe?
Ninguém sabe; infelizmente — disse Gucky e enrodilhou-se.
Sem dizer uma palavra, Bell saiu da sala de comando. Parecia contrariado.
2


Antes da quarta e última transição, Rhodan entrou na sala de comando. Os últimos preparativos estavam em andamento. Faltavam poucos segundos. Um único pensamento dominava os homens: “Será que desta vez dará certo? Não erraremos Peregrino, como aconteceu daquela vez?
No momento em que o Universo desapareceu do lado de fora e voltava a formar-se de novo, o rosto de Rhodan parecia uma máscara. Naquele segundo a Drusus percorreu mais de cinco mil anos-luz.
As estrelas reapareceram, frias e indiferentes. Mas cada uma delas era a mãe de toda vida existente em seus planetas. Rhodan não conhecia as constelações, mas logo viu Peregrino.
O planeta artificial, formado por uma lâmina achatada com uma abóbada energética em forma de semi-esfera por cima, existia em outro espaço e outro tempo. Só se podia determinar sua posição com o novo aparelho de localização no tempo. Tal qual no radar, os raios refletidos se desenhavam numa tela especial.
As coordenadas estavam certas — constatou Sikermann. — Parece que tudo está em ordem.
Ao menos Peregrino ainda existe — Rhodan parecia sentir-se muito aliviado. — Vamos seguir em sua direção, coronel. Qual é a distância?
Sikermann olhou para os instrumentos.
Doze minutos-luz, sir. A Drusus já está desacelerando.
Quando Rhodan ia dar-lhe as costas, Sikermann disse:
Os propulsores, sir! Eles se desligaram. Não fiz...
Rhodan parou.
Isso não tem nada de extraordinário, se considerarmos que estamos sendo esperados. O imortal quer poupar-nos o trabalho do pouso. Pode desligar os propulsores. Acho que não precisaremos mais deles. E não se preocupe. Daqui em diante alguém pensará por nós.
Bell entrou na sala de comando. Ao que parecia, dormira durante a última transição. Lançou um olhar sobre as telas para orientar-se.
Ah! — disse com uma voz que não admitia qualquer dúvida. — Estamos chegando.
Achamo-nos muito mais próximos do que pensa — confirmou Rhodan e explicou que a Drusus já estava sendo teleguiada. Depois acrescentou: — Apenas me admiro de que ele não tenha podido buscar-nos em Árcon. Será que também já está sujeito a limites?
Aguçaram instintivamente os ouvidos, mas o imortal não esboçou a menor reação.
Pois bem — disse Bell em tom bonachão. — Afinal, uns trinta mil anos-luz já são uma boa distância. Provavelmente ele não pôde realizar tal feito...
Que feito ele não pôde realizar? — perguntou alguém com um pio atrás de Bell.
Bell virou-se abruptamente e fitou Gucky com os olhos estupefatos. O rato-castor aparecera de repente. Ninguém o vira chegar. Para um teleportador, isso não representava nenhum milagre. Gucky simplesmente materializara-se no interior da sala de comando.
Será que você nunca poderá deixar de assustar pessoas inocentes? — gritou Bell em tom furioso. — Qualquer teleportador que tivesse um pouquinho de decência deveria anunciar-se com uma nuvem de enxofre.
Perguntei o que ele não pôde realizar. Então?
O fato de Gucky não reagir ao protesto de Bell era tão extraordinário que até Rhodan ficou desconfiado. Virou-se e examinou atentamente o rato-castor, mas não notou-lhe nada de estranho.
Seu atrevido! — exclamou Bell em tom indignado.
Seu monte de gordura! — soou a resposta.
E ao mesmo tempo aconteceu uma coisa completamente impossível.
Gucky materializou-se a um metro de Gucky!
Houve um pequeno torvelinho, quase invisível, no ar, e o rato-castor surgiu do nada. A visão dos dois ratos-castores, que se pareciam nos mínimos detalhes, era tão espantosa que Bell recuou apavorado até esbarrar numa poltrona.
O quê... o quê...? — gaguejou com o rosto pálido como cera.
Olhava ora para um, ora para o outro Gucky. Acabou ficando sem fala.
Rhodan raciocinou com rapidez e lógica. Por ocasião do surgimento do segundo Gucky, vira o torvelinho no ar. Mas quando apareceu o primeiro, não. Além disso, notou um espanto enorme no rosto do rato-castor que aparecera por último. O verdadeiro Gucky estava tão assustado com seu sósia, que não conseguia dizer uma palavra. Fitou seu irmão gêmeo com os olhos arregalados e o queixo caído.
Bem-vindo a bordo da Drusus, velho amigo — disse Rhodan, fazendo uma ligeira mesura em direção ao primeiro Gucky, que evidentemente não passava de uma materialização mental do ser imortal. — Bem que você poderia ter escolhido outra figura.
Acredito que seu amigo Bell teria preferido a Rallas, mas infelizmente a grande artista terrana morreu há muito tempo. Aliás, isso não seria nenhum obstáculo. Mas vou responder à sua pergunta. Não sou onipotente, Perry Rhodan. Não foi fácil encontrá-lo. O fato é que você chegou, e sinto-me muito feliz com isso. Você terá de ajudar-me.
Ajudá-lo? — Rhodan não disfarçou o espanto. — Como poderia eu ajudar a você, que é um ser imortal?
Rhodan achou estranho ter de falar dessa forma com a imagem perfeita de Gucky, que continuava paralisado, profundamente abalado. Ia compreendendo aos poucos que o imortal se permitira uma brincadeira com ele e com Bell.
Você ainda saberá, amigo.
O sósia de Gucky sorriu, exibindo uma imitação perfeita do tristemente famoso dente roedor.
Você irá à minha presença, acompanhado por este sujeitinho e por Wuriu Sengu, assim que a nave pousar em Peregrino. Há uma tarefa à sua frente, Rhodan. Não será fácil cumpri-la; mas você conseguirá.
Gucky começou a recuperar-se.
A primeira coisa que fez foi fechar a boca. O dente roedor desapareceu. Depois respirou profundamente. Concentrou as energias mentais e disse:
Não falta nem a parte sem pêlo da cauda! — sua voz exprimia admiração. — Certa vez aproximei-me demais de um fogão elétrico. É incompreensível...
O sósia acenou a cabeça da forma que era característica em Gucky.
Eu o copiei exatamente, amiguinho. É claro que também poderia ter escolhido Bell, mas isso teria sido mais cansativo, pois exigiria maior quantidade de matéria. E preciso poupar minhas forças.
Poupar suas forças? — perguntou Rhodan em tom curioso. — Está havendo outros problemas?
Não, mas o semi-espaço...
Rhodan compreendeu. Para o imortal, apenas se haviam passado alguns segundos ou minutos desde o início da aventura em que estava pensando. E já fazia mais de dois anos que haviam passado pela mesma.
O que posso fazer por você?
Deixemos isso para mais tarde — respondeu o imortal que assumira a figura de Gucky. — Você ainda saberá em tempo. Dentro de dez minutos de sua contagem de tempo, a Drusus atingirá a abóbada energética. A nave será ancorada. Depois virei buscar seus dois companheiros e você.
Por que quer justamente Sengu, o espia?
Nada acontece neste Universo sem um motivo — respondeu o falso rato-castor, e desapareceu.
Gucky olhou para o lugar em que estivera seu sósia. Sua voz fina tremia ligeiramente, quando disse:
Fui eu mesmo; não existe a menor dúvida! Cada pêlo era legítimo. É incrível! Será que ele sabe copiar qualquer ser vivo? Isso é materialização de pensamento.
Balançou a cabeça e dirigiu-se a Bell.
Você não pode deixar de reconhecer que eu sou bonito. Poderia passar algumas horas olhando para mim.
Bell pigarreou.
Seria horrível o imortal ter deixado sua imagem por aqui. Neste caso teríamos dois seres do seu tipo a bordo da Drusus. E eu nunca resistiria a uma coisa dessas.
O Coronel Sikermann, que enfrentara o incidente com uma calma admirável, livrou Gucky da obrigação de responder.
Aproximamo-nos de Peregrino. Nossa velocidade diminuiu bastante. Ainda não se vê nada, mas se os instrumentos não nos enganam, devemos tocar a qualquer instante na abóbada energética.
Mal acabou de pronunciar estas palavras, um ligeiro solavanco sacudiu a nave. No mesmo instante, todos os indicadores das escalas desceram para a posição zero. A tela do localizador especial tornou-se negra. Enquanto isso as telas normais mostravam as estrelas do Universo em todas as direções.
Vá buscar Sengu — pediu Rhodan, dirigindo-se a Gucky.
Depois que o rato-castor saiu da sala de comando, prosseguiu:
Não sei o que acontecerá agora, mas devemos confiar nele. Coronel Sikermann, o senhor pode ter certeza de que a Drusus permanecerá no espaço em posição estacionaria em relação a Peregrino. Basta esperar até que eu volte. Ignoro quando isso acontecerá. Bell, você infelizmente terá de ficar aqui. O imortal quer que seja assim.
Ele não gosta de mim — disse Bell, em tom de decepção.
Porém tal decepção não parecia muito sincera, pois o amigo de Rhodan não conseguiu disfarçar a alegria. Sentia-se aliviado por poder ficar na Drusus.
Perry sorriu como quem compreende.
Não acredito que ele se deixe levar pelos sentimentos, embora os tenha. Gucky possui um dom parapsicológico triplo, motivo por que reúne condições especiais para dominar as situações difíceis, e proteger-me em caso de perigo. Sengu é um espia. Pode enxergar através da matéria compacta. Esta circunstância leva-me a supor que ele me reserva uma tarefa que não deverá ser cumprida em Peregrino, pois neste planeta não haveria necessidade de um espia. Portanto, tudo não passa do mais puro pragmatismo. Está satisfeito, gorducho?
Bell limitou-se a confirmar com um gesto. Não se sentia muito à vontade. Não teve tempo para refletir sobre o problema, pois, nesse instante, Gucky entrou na sala de comando, ao lado de Wuriu Sengu, o japonês. A ducha celular mantivera-o jovem. Seu corpo maciço era a expressão da força, e os cabelos curtos se pareciam com as cerdas vermelhas de Bell. E esta era a única semelhança entre os dois. Os olhos de Sengu não revelavam muito sobre suas capacidades, mas neles brilhava algo da qualidade atemporal que constitui uma característica de todas as pessoas relativamente imortais. E tratava-se de olhos para os quais não existia qualquer obstáculo material. Enxergavam através de qualquer coisa.
Acho que devemos dirigir-nos à comporta principal — disse Rhodan. — Ele nos irá buscar lá, ou mandará buscar-nos. Vamos vestir o traje espacial leve, para qualquer eventualidade... Você também, Gucky.
Parou na porta.
Se possível, permaneceremos em contato. Não sei se o telecomunicador funcionará. Não se preocupem caso não tenham notícias nossas. Estaremos em boas mãos.
Calados, Sikermann e Bell seguiram-nos com os olhos.
Os trajes espaciais eram guardados no interior da comporta. Escolheram os tipos mais leves, que não eram tão resistentes como os outros. Entretanto um complicado aparelho, produto da micro mecânica, regulava a temperatura e renovava o ar, dando ao traje confortabilidade.
Gucky possuía um traje especialmente talhado. Enfiou-se no mesmo e não deu a menor atenção ao sorriso do japonês, enquanto se esforçava para encontrar o buraco situado na parte traseira. Tal abertura servia para acolher seu rabo de castor, que muitas vezes o embaraçava. O traje, feito segundo o princípio de um traje de mergulhador, compunha-se de uma única peça. O rabo de castor de Gucky encontrava-se numa espécie de bolsa, onde estava protegido contra todas as influências nocivas.
Oferecia um quadro engraçado e sabia disso.
Perry Rhodan!
Os três “ouviram” a voz. O significado das palavras formou-se diretamente em seus cérebros. Até parecia que aquilo se encontrava próximo a eles.
Estamos esperando na comporta. O que devemos fazer?
Saiam!
Rhodan comprimiu um botão que punha em funcionamento o sistema de intercomunicação. O rosto preocupado de Sikermann apareceu na pequena tela embutida na parede.
Pois não.
Abra a comporta principal e volte a fechá-la, assim que tivermos saído da nave.
Está bem, sir.
A voz não era tão segura como costumava ser. Evidentemente o coronel estava preocupado. Mas não fez perguntas supérfluas.
Os dois homens e o rato-castor viram mãos invisíveis selar a escotilha interna. Depois o ar começou a ser aspirado. Assim que a pressão baixou suficientemente, os aparelhos correspondentes dos trajes espaciais entraram em ação. O transmissor ligou-se automaticamente, para possibilitar a comunicação.
Quando todo o ar no interior da comporta foi aspirado a escotilha externa abriu-se.
Rhodan avançou até o limiar e parou. Esperou até que Sengu e Gucky se encontrassem a seu lado. Enquanto aguardavam as instruções do imortal, mantiveram-se em silêncio.
Tinham diante de si o Universo. Por cima de um abismo infinito, miríades de estrelas brilhavam num esplendor total. Quase todas possuíam planetas, mais poucos deles eram habitados. Apenas sua quantidade era suficiente para fazer com que qualquer idéia que concebesse a solidão dos cosmos parecesse absurda.
Peregrino deveria ficar em algum lugar. Rhodan procurou em vão por um sinal da presença do planeta artificial. Bem embaixo de seus pés, viu uma nebulosa em espiral entre as estrelas. Esta podia ficar a dois ou a cinco milhões de anos-luz. Era uma via láctea igual àquela à qual pertenciam, e da qual só conheciam uma parte diminuta. Qual era realmente o tamanho do Universo?
Saiam da comporta!
A ordem veio de repente e sem o menor aviso. Sengu e Gucky lançaram um olhar de dúvida para Rhodan. Depois olharam para a eternidade borbulhante.
Rhodan fez um sinal e empurrou-se. A reduzida força gravitacional da Drusus libertou-o imediatamente, e Rhodan flutuou em meio à profusão de estrelas. Gucky seguiu-o, arrastando Sengu, a fim de facilitar-lhe a decisão. Numa reação instantânea o rato-castor calculara seu impulso de forma a alcançar lentamente o chefe. A uns trezentos metros da nave, os três se encontraram e seguraram-se uns nos outros. Já estava na hora de o imortal acolhê-los.
Até parecia que este ouvira seu desejo, já que “disse”:
Irei buscá-los agora. Dentro de alguns segundos vocês romperão a abóbada energética. Depois disso poderão ver meu planeta.
Desta vez a mensagem era tão clara que não se distinguia da palavra falada.
De repente, a Drusus parecia acelerar. Seu tamanho diminuía rapidamente. Mas isso não passava de mera ilusão. Na verdade os corpos de Rhodan, Sengu e Gucky acompanharam um campo gravitacional que se formou imediatamente. Voltara a haver o lado de cima e um lado de baixo...
De repente romperam a cobertura energética neutralizada.
De um instante para outro todo o Universo modificou-se.
O sol começou a brilhar. Não era um sol natural, mas uma estrela artificial, feita especialmente para Peregrino. Ficava bem no centro do céu energético e iluminava a paisagem ondulada de um mundo que parecia o sonho materializado de um idealista. Rios azuis serpeavam entre florestas e colinas, correndo em direção a um mar distante.
Os três caíram lentamente para a superfície de Peregrino. De repente o ângulo da queda foi reduzido, e, depois de algum tempo, passaram a voar paralelamente à planície infinita com o horizonte amplo.
Depois de algum tempo avistaram a cidade.
Rhodan sabia que esta não era habitada por verdadeiros seres vivos, mas apenas pelas fantasias materializadas pelo imortal. Porém era possível que desta vez estivesse vazia. Alguns edifícios estavam modificados. Aliás, Rhodan teve a impressão de que em Peregrino nada era como antes. Aquele mundo do sonho estava sujeito incessantemente às mudanças nas concepções e nos desejos de seu criador.
Ainda planavam a pequena altura sobre as colinas e aproximaram-se da cidade. Depois voltaram a descer. Aterrissaram num campo amplo, junto à cidade. No mesmo instante, a mão invisível do imortal os soltou, e os três recuperaram seu peso natural. Rhodan calculou que a gravitação devia corresponder aproximadamente à da Terra.
Perry Rhodan!
Estremeceram de susto e olharam para trás. De início não viram ninguém. Mas depois de algum tempo, Rhodan reconheceu uma pequena esfera, quase transparente, de uns dez centímetros de diâmetro, que se destacava contra o céu límpido. Lembrava Harno, o ser televisor. Porém Harno encontrava-se na Terra, em companhia do Marechal Freyt, que se mantinha constantemente informado sobre o paradeiro de Rhodan.
Assumi esta figura porque é fácil de ser mantida e formada. Minhas energias são limitadas. Siga-me, Perry Rhodan. Mande seus amigos esperarem aqui.
Rhodan fez um sinal para Sengu e Gucky, e acompanhou a esfera, que flutuava a pequena altura, bem à sua frente, dirigindo-se ao edifício encimado por uma cúpula. Esta lembrava longinquamente o pavilhão do fisiotron.
Devo confessar que já começo a ficar curioso — disse com certa ironia na voz, mas sem a menor tonalidade ofensiva. — Por que tanto segredo?
Só aquilo que a gente não sabe parece misterioso, meu amigo — foi a resposta, da qual Rhodan não poderia dizer se foi falada ou apenas pensada.
De qualquer maneira “ouvira” a voz do ser incompreensível com tamanha nitidez que até parecia que o mesmo se encontrava a seu lado, em carne e osso.
Direi tudo que sei. Mas se soubesse tudo, não precisaria incomodá-lo. No Universo acontecem coisas para as quais não existem nenhuma explicação lógica. Você tem de ajudar-me a encontrá-las.
No Universo? — perguntou Rhodan, enquanto um amplo portão se abria à sua frente.
A esfera flutuou para dentro do recinto situado atrás do tal portão. Rhodan seguiu-a e penetrou no pavilhão.
Será que você não se refere apenas à Galáxia?
Acima deles, a cúpula brilhava numa luz prateada. O pavilhão estava vazio. Depois de algum tempo, Rhodan percebeu que no centro deste havia uma única poltrona, bem embaixo da fonte de luz difusa. A esfera energética, que era a corporificação do imortal, flutuou em direção à poltrona e parou no ar, bem em frente da mesma.
Estou aludindo ao Universo — disse ele com sua voz silenciosa, mas insistente. — Sente, Perry Rhodan! Preciso falar com você.
Rhodan obedeceu. A poltrona era larga e imediatamente assumiu a posição que era mais confortável para ele. Até parecia que estava viva e reagia ao menor movimento do corpo.
Você providencia para que a palestra não seja muito cansativa para mim. Mas o que houve com você? A forma esférica tem alguma vantagem?
Ela tem todas as vantagens existentes, amigo. Foi por isso que eu a escolhi.
Rhodan lembrou-se de que em certa oportunidade Harno lhe dissera algo semelhante.
Preciso poupar minhas forças — prosseguiu. — Estou muito debilitado. Foi por puro acaso que soube da existência do perigo tremendo que nos cerca. Não me pergunte pela natureza desse perigo, pois não saberia o que responder. Só sei de uma coisa: os barcônidas já parecem ter sucumbido ao mesmo.
Os barcônidas?
Rhodan teve a impressão de sofrer um choque elétrico. Os barcônidas!
Daquela vez em que o imortal o levara numa excursão ao infinito, tudo parecera um sonho. Tomaram uma nave que desenvolvia bilhões de vezes a velocidade da luz e avançaram por entre as galáxias. Encontraram os barcônidas e salvaram-nos da destruição fatal. E agora...
Os barcônidas sucumbiram a um perigo desconhecido? — disse Rhodan, repetindo a suposição do imortal. — Como é que você pode saber disso, se nem sequer tem um conhecimento exato desse perigo?
Não me pergunte pelos meus meios de observação, pois você nunca seria capaz de compreender sua natureza. De qualquer maneira, os impulsos mentais dos barcônidas cessaram. Dali se conclui que não podem possuir mais qualquer forma de consciência. E um ser vivo que não possui consciência está morto.
Rhodan contemplou a esfera cintilante. Quando imaginava que a mesma corporificava o ser mais poderoso e incompreensível de todos os tempos, achou que tudo isso era ainda mais fantástico.
E seu planeta peregrino? Bárcon? O que houve com ele?
Não tenho notícias dele, Rhodan. Sou capaz de encontrar um ser vivo e pensante, onde quer que ele se encontre. Mas um planeta...
Quer dizer que você também perdeu Bárcon. Como é que nós poderíamos reencontrar Bárcon, se você o perdeu? Trata-se de um planeta solitário, sem sol, perdido nas amplidões infinitas do espaço intergaláctico.
Vocês encontrarão Bárcon, pois eu lhes darei uma nave, Rhodan. Uma nave como nunca existiu igual. É tão veloz quanto você desejar. E na proa existe um instrumento de localização que automaticamente passa a funcionar no espaço situado entre as galáxias. É ele que vai encontrar o planeta solitário que vagueia entre as mesmas. Embora eu não saiba onde se encontra Bárcon, a nave o achará.
E se nós nos perdermos no infinito? — ponderou Rhodan.
Mas o imortal respondeu imediatamente.
Eu não acabei de lhe dizer que sempre sou capaz de localizar um ser pensante? Seria capaz de descobrir a nave a qualquer momento, enquanto vocês viverem e pensarem. Por isso sua preocupação de perder-se no infinito é totalmente supérflua. Seus impulsos mentais só cessarão quando vocês estiverem mortos, e então nada mais importará.
É verdade — confirmou Rhodan em tom tranqüilo. — Quer dizer que a nave será teleguiada?
Só até certo ponto, meu caro. Eu a colocarei na rota aproximada e depois a libertarei. O instrumento de busca se ligará e corrigirá a rota de tal forma que vocês se dirigirão a Bárcon e pousarão nesse planeta. Dali em diante vocês dependerão exclusivamente da própria habilidade. Assim que tiverem descido da nave, ela partirá e esperará no espaço até que você a chame de volta. Mas não desperdice essa ordem, pois só a poderá dar uma vez. Depois que pousar, a nave terá de decolar dentro de dez minutos. Se não estiverem a bordo, deixará Bárcon sem vocês. Nunca se esqueça disso, Perry Rhodan.
Rhodan lançou um olhar pensativo para a esfera cintilante.
É só o que você me pode dizer? Eu mesmo terei de verificar o que há de errado em Bárcon?
Isso mesmo. E se possível você também deverá prestar auxílio. Espero que não seja tarde para isso. Não há mais nenhum impulso mental; estou preocupado. Não é possível que todos estejam mortos.
Se for assim, qualquer auxílio chegará tarde. Mas permita uma pergunta. Naquela oportunidade, quando fomos a Bárcon e salvamos a experiência, a fim de evitar a destruição dos barcônidas, você já demonstrava uma simpatia toda especial por esse povo. Por que acontece isso? Você não costuma preocupar-se com o destino das inteligências que habitam a Via Láctea. Por que se interessa tanto pelos barcônidas? Existe algum motivo especial para isso?
O imortal respondeu:
Os barcônidas são uma raça extraordinária sob todos os pontos de vista. Sua tentativa de conduzir um planeta através do mar do espaço infinito sem estrelas faz com que mereçam nossa simpatia.
Rhodan comentou:
Sua resposta foi muito diplomática. Sei tanto quanto antes.
Geralmente compete aos diplomatas conseguir isso.
No cérebro de Rhodan surgiu a impressão de uma alegre ironia, que logo foi substituída pela preocupação.
Não vamos perder mais tempo, pois na situação em que nos encontramos não tenho o controle do caso. Do contrário seria fácil visitar os barcônidas no passado e afastar o futuro possivelmente fatal. Seus amigos o esperam, meu caro... e a nave.
A esfera parecia mudar de cor. Subiu lentamente em direção ao teto abaulado, cresceu e tornou-se mais transparente — e de repente desapareceu por completo.
Rhodan levantou-se da poltrona e caminhou em direção à entrada, que se abriu à sua frente. Antes de sair do pavilhão, virou-se mais uma vez.
A poltrona tinha desaparecido. O lugar em que se encontrara estava vazio.
O imortal não desperdiçava energia. Cada porção de matéria que criava com seu espírito imortal era energia. E, para não desperdiçá-la, voltava a transformar a matéria.
O portão fechou-se atrás dele.
Prosseguiu. À luz do sol artificial de Peregrino, reconheceu do lado de fora, onde Gucky e Sengu o esperavam, um cilindro brilhante. Tinha uns dez metros de comprimento e seu diâmetro era de três metros. A proa era ligeiramente arredondada e consistia em material transparente. A popa, pontuda. Uma pequena escotilha, que mal dava passagem a um homem, estava aberta. Atrás dela ficava uma pequena comporta.
Junto à nave, Rhodan reconheceu as figuras de Sengu e Gucky. Os dois mutantes pareciam indecisos, sem saber o que deveriam fazer.
Quando Rhodan chegou ao lugar em que se encontravam, Gucky disse:
Primeiro ele coloca um sósia bem à frente do meu nariz e diverte-se porque levo um tremendo susto, e depois faz uma magia e cria uma navezinha, vinda do nada. De início pensei que fosse um teleportador que pretendia materializar-se, mas por fim acabou surgindo esta nave. O que vem a ser isto? Um presente?
Conforme se queira encará-lo — respondeu Rhodan e passou a mão pelo metal frio e liso. — De qualquer maneira vamos entrar e fazer uma excursão. Depois explicarei tudo.
Gucky lançou-lhe um olhar desconfiado. Parecia ignorar os pensamentos de Rhodan.
Vamos entrar? Aonde iremos?
Para onde estão os barcônidas, baixinho. Estão em dificuldades, e ele quer que nós os ajudemos. Então; o que houve? Está com medo da nave-fantasma?
Gucky, que tirara o pequeno capacete de plástico, tal qual Rhodan e Sengu, sacudiu-se.
Medo? — piou em tom de recriminação. — Não; não estou com medo. Talvez sinto um pouco de...
Sengu não fez nenhuma pergunta. Sabia que poderia entrar tranqüilamente na nave, se Rhodan o fizesse. E não demorou vinte segundos até que os três se encontrassem no seu interior. Enquanto a escotilha externa se fechava lentamente, a interna abriu-se. Passaram por um corredor estreito e chegaram à sala de comando, que era o único recinto para o qual havia um acesso. Ocupava mais de metade do espaço existente no interior da nave. Se o resto era ocupado pelo sistema de propulsão, este deveria ser de um tipo que Rhodan não conseguia imaginar.
A parte dianteira da sala de comando era transparente. Podia-se enxergar para todos os lados, exceto na direção da popa. Gucky soltou um assobio alegre, quando viu um sofá largo junto à porta que dava para a sala de comando. Tinha exatamente o aspecto do tipo de móvel de sua preferência. De um salto subiu para as almofadas macias e estendeu o corpo.
É assim que eu gosto — disse, elogiando o trabalho do imortal. — Mais uma vez alguém adivinhou os meus desejos.
Rhodan e Sengu encontraram duas poltronas confortáveis à frente da lâmina semi-abaulada que fechava a proa. Quando sentaram nas mesmas, tiveram a impressão de se encontrarem ao ar livre. Não puderam constatar de que era feito o material invisível. Ao tato dava a impressão do vidro, mas parecia ser muito fino e de uma resistência inacreditável.
Sem que sentissem qualquer coisa, o campo e a cidade subitamente foram caindo para trás. Parecia que era o planeta Peregrino que se deslocava, e não eles. O horizonte baixo e redondo, como um círculo, foi-se ampliando. Antes que pudessem ver toda a lâmina do planeta, atravessaram a abóbada energética.
O terreno coberto de colinas, pequenos rios e vales amplos, desapareceu, cedendo lugar ao espaço cósmico. Naquele momento tornou-se evidente que Peregrino estava cercado por um campo de reflexão que tornava o planeta invisível para qualquer pessoa vinda de fora. Em vez do planeta, os três visitantes viram apenas as figuras frias e estranhas formadas pelas estrelas de um setor desconhecido da Via Láctea.
À sua direita, uma estrela luminosa passou rapidamente e desapareceu no sem-fim das profundezas que haviam surgido no lugar onde antes se encontrara o planeta artificial. Viram-na apenas pelo canto dos olhos, mas Rhodan a reconhecera.
É a Drusus! Está reduzida a uma pequena mancha luminosa. Fica pelo menos a vinte quilômetros. Estamos acelerando.
Foi Wuriu Sengu, o japonês muito ponderado, que formulou a primeira objeção.
Sir, estamos voando sem nenhum mapa estelar e não sabemos qual é o sistema de propulsão desta nave. Nem sequer sabemos qual é nosso destino. Dependemos inteiramente dos caprichos do imortal. E sabemos por experiência própria que ele gosta de brincadeiras rudes.
Desta vez ele não está brincando, meu caro Sengu, pois não deve. Confiou-nos uma missão que lhe parece ser muito importante. Tenho certeza de que nesta pequena nave estamos tão seguros como no interior da Drusus. Talvez até mais seguros.
Acontece que não se lembrou de que precisamos ser alimentados! — disse Gucky em tom de triunfo, mas com uma ligeira tristeza na voz. — Será que você acredita que ele também sabe criar estas coisas através do pensamento materializado?
Acredito. Se você der uma olhada por aí, encontrará tudo de que precisamos para viver. Faço qualquer aposta.
Gucky escorregou imediatamente para baixo do sofá e pôs-se a revistar todos os cantos da nave. Rhodan deixou-o à vontade e voltou a dedicar-se à observação do espaço.
No caso, isso não era tão simples. Estava acostumado a determinar a rota e a velocidade das naves em que viajava e levá-las a um destino bem definido. Mas agora encontrava-se sentado na proa de uma minúscula nave, separado apenas por uma lâmina delgada do vácuo mortal, e tinha de confiar exclusivamente na capacidade do imortal. Além disso, não tinha a menor idéia das medidas de segurança que ele tomara para proteger sua vida e a de seus companheiros. Se tivesse esquecido qualquer detalhe...
Não havia aparelhos de rádio a bordo, nenhum controle. Pareciam prisioneiros no interior da cabina, quase inteiramente transparente, e eram levados e dirigidos por forças que, até mesmo para Rhodan, representavam um estonteante segredo.
Olhe! — exclamou Sengu de repente, apontando para a frente. — O que é isso, sir? As estrelas...
Rhodan já vira o movimento pelo canto dos olhos.
O movimento das estrelas.
Acabamos de ultrapassar a velocidade da luz — disse, procurando dominar o nervosismo. — É a primeira vez que passo por isto. Daquela vez em que visitei os barcônidas, também voei à velocidade superior à da luz. Porém o imortal estava comigo. Parecia antes um sonho. Mas desta vez...
Se as estrelas se deslocam, devemos desenvolver várias vezes a velocidade da luz — disse Sengu em tom pensativo. — Será que assistiremos a efeitos colaterais? Um deslocamento do tempo? A massa infinita...?
Não acredito que devamos preocupar-nos com isso. Esta nave... bem, acho que a expressão não é bem esta. Acredito antes que estejamos sentados no interior de um pensamento do imortal, transformado em matéria, que por sua vez está sendo impelido por um outro pensamento. É um fenômeno inconcebível, desde que se queira analisá-lo sob o ponto de vista científico. Não deveríamos quebrar a cabeça com isto, mas desfrutar o espetáculo. É uma pena que não tenhamos velocímetro. Seria interessante sabermos a velocidade do nosso vôo.
Durante a breve palestra, as estrelas tornaram-se cada vez mais velozes. As constelações sofriam deslocamentos. Modificaram-se e transformaram-se em estranhas figuras, nunca antes vistas. Os dois homens ainda notaram que as estrelas se tornavam cada vez mais raras no espaço que se estendia à sua frente.
Na direção da popa, os sóis pareciam comprimir-se e, instantes depois, formaram uma nuvem branca e reluzente, que só em alguns pontos era interrompida por manchas escuras.
É realmente inconcebível! — piou Gucky ao voltar à sala de comando.
Não se referia ao espetáculo maravilhoso que os dois homens contemplavam, mudos e fascinados. As palavras proferidas a seguir davam prova evidente disso.
Ele até se lembrou das cenouras.
Rhodan virou-se.
Gucky estava de pé à sua frente e segurava um molho de cenouras, que pareciam ter sido colhidas naquele instante. Na outra mão, algumas latas de conserva. Seu dente roedor brilhava de alegria.
Aqui há carne para vocês... e uma lata de cerveja.
Rhodan olhou para Sengu.
O senhor pensou em cerveja? — perguntou em tom alegre. — Quando?
Agora mesmo, sir. Quando estávamos falando em comida.
Era o que eu imaginava. Vejo que não estamos tão sós como acreditávamos. Ele está conosco, embora não nos dirija a palavra.
Ao fazer essa constatação, Rhodan ficou tranqüilo. Não podia deixar de confessar que a idéia de depender exclusivamente do acaso não lhe agradava muito.
Aqui está sua cerveja, homem profano — disse Gucky e entregou a lata ao japonês. — Bem que deveria ter imaginado que foi você quem pensou numa coisa destas.
Você receberá cenouras, e eu cerveja! — retrucou Sengu e pegou a lata.
Com um olhar de esguelha, Rhodan constatou que as conservas que Gucky colocara sobre o sofá eram de origem terrana... ou ao menos pareciam ser.
Santo Deus! — disse Gucky de repente, quase sem fôlego, e saltou sobre os pés.
Chegou mesmo a deixar cair as cenouras.
O que aconteceu com as estrelas? Será que estamos num carrossel?
Realmente era espantoso!
Nos últimos minutos, sua velocidade devia ter aumentado tanto que os anos-luz se tornavam uma insignificância. Era possível que estivessem percorrendo um ano-luz por segundo. Isso não seria possível com os meios técnicos normais, mas essa nave não era apenas um artefato técnico!
À sua direita e à sua esquerda, as estrelas transformavam-se em traços fugazes. E a cada minuto que passava seu número se tornava menor. Bem na linha de sua trajetória, havia uma mancha escura, quase circular. Suas bordas eram irregulares e formadas por estrelas que se mantinham imóveis no Universo. Isso acontecia porque a nave voava em sua direção. Quanto mais lateral fosse a posição de uma estrela, mais veloz era seu movimento. Bem à esquerda e à direita, ficavam reduzidas a traços luminosos.
No centro da abertura vazia e escura, havia uma manchinha clara. Rhodan a conhecia.
Era a nebulosa de Andrômeda!
Estavam chegando à periferia de sua Galáxia e aproximavam-se a uma velocidade inconcebível do gigantesco abismo que separava as duas galáxias vizinhas.
Não estamos andando de carrossel, Gucky — disse Rhodan. — Pelo contrário. Estamos voando em linha reta, que nem um raio de luz, apenas muito mais depressa que este. Muitíssimo mais depressa! Um raio de luz se arrastaria lentamente atrás de nós. E as ondas de rádio também.
O propulsor linear deve funcionar mais ou menos nesta base.
O espaço com suas estrelas permanece visível aos nossos olhos; não mergulhamos no hiperespaço. Mas não sei se o sistema de propulsão linear nos permitirá alcançar a velocidade que agora estamos desenvolvendo. Quando a nave-protótipo estiver pronta, saberemos. Mas isso ainda pode demorar alguns decênios.”
Gucky abandonara o sofá e as cenouras. Muito pequeno, abalado pela visão direta da Eternidade, mantinha-se de pé junto à poltrona de Rhodan, contemplando o singular espetáculo das estrelas que desfilavam por ele.
Quando fiz a primeira visita a Bárcon, foi quase a mesma coisa — disse Rhodan. — Apenas, daquela vez tínhamos uma verdadeira navezinha. Mas isto aqui até parece ser uma cápsula energética.
Agora quase não se vê mais nenhuma estrela — disse Gucky, em tom queixoso. — São cada vez menos. O que acontecerá quando tivermos deixado para trás as últimas?
Quando isso acontecer, estaremos no espaço intergaláctico, meu baixinho. Seremos uma partícula de pó no infinito entre as vias lácteas, um pinguinho num oceano. Não existe qualquer termo de comparação.
Um universo sem estrelas... que espetáculo! — Wuriu Sengu não disfarçou o medo que o torturava. — Veremos um céu sem estrelas. Será um céu totalmente negro, sem a menor luz.
Rhodan olhou para a frente. Um ligeiro sorriso surgiu em seu rosto.
Não, Sengu. Veremos luzes. A luz de bilhões de estrelas, concentradas numa partícula minúscula, que terá o aspecto de uma mancha confusa. Será uma galáxia desconhecida. E não veremos apenas uma galáxia, mas centenas delas. Sua luz leva milhões de anos para atingir-nos, às vezes até bilhões de anos. As distâncias, que delas nos separam, são inconcebíveis. Trata-se de aglomerações de estrelas idênticas à nossa Via Láctea. Por lá também devem existir seres inteligentes, que talvez estejam dirigindo seus instrumentos sobre nossa Galáxia. Mas apenas enxergam uma pequena mancha luminosa, formada por bilhões de sóis, que iluminam milhares de planetas habitados.
O Universo é muito grande — disse Sengu, em tom compenetrado.
É pena que só tenhamos esta palavra — observou Rhodan. — Ela nem de longe exprime o que queremos dizer. Um planeta é grande, um sol também. E também dizemos que o Universo é grande...

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html