Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Seres
invisíveis atacam o planeta sem sol...
Com o
descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram
lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade
terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém
podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de
ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este
Império frente aos ataques internos e externos.
A mais
séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos
druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada
graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna,
provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por
Gucky.
Porém,
um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando
houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver
ainda um longo caminho...
O
próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a
gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro,
com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra
o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan,
agora com o nome de Imperador Gonozal VIII e Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, já por simples instinto de
conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não
faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre
Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar
estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da
Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Desta
vez, Perry Rhodan e seus mutantes recebem um chamado telepático de
extraordinária intensidade, vindo das amplidões do espaço. E com
esse chamado tem início a viagem ao Céu sem Estrelas.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Ele
ou Aquilo
— O
estranho ser do planeta Peregrino.
Gucky
— O
rato-castor que tem um sósia...
Reginald
Bell
— O
melhor amigo de Perry Rhodan.
Coronel
Baldur
Sikermann
— Comandante
da nave Drusus.
Wuriu
Sengu
— O
espia do Exército de Mutantes.
Nex,
Regoon,
Laar
e Gorat
— Cientistas
eminentes de Bárcon, um planeta sem sol.
1
Cinco
gigantescas e esféricas espaçonaves transportadoras pousaram em
Árcon. Formaram um amplo pentágono no campo de pouso do terceiro
mundo principal.
A espera,
conforme sabia qualquer pessoa que possuísse um treinamento
psicológico, era o melhor meio de amolecer e subjugar uma pessoa. E
esse meio tornava-se mais eficaz, quando à espera se associava a
incerteza.
Perry
Rhodan e Atlan, o imperador do reino estelar dos arcônidas,
encontraram-se na cantina de luxo da Drusus, que acabara de chegar a
Árcon III. Se Rhodan não saiu de sua nave e pediu a Atlan que
viesse ter com ele, o motivo disso não residia numa eventual
desconfiança. Antes, o terrano estava interessado em voltar o quanto
antes ao funil de descarga dos druufs que já se ia apagando, a fim
de assistir às últimas fases da luta.
Atlan, que
agora passara a ser o Imperador Gonozal VIII, foi ao encontro de
Rhodan com as mãos estendidas. Em sua voz vibrava um tom
extraordinariamente cordial, quando disse:
— Muito
obrigado, amigo. Talvez tenha de creditá-lo pelo fato de o Império
não ser destruído. Os cem mil arcônidas não degenerados me
ajudarão a estabilizar a força de Árcon. Como foi isso?
Rhodan
retribuiu o aperto de mão.
— Como
foi...? Bem, houve dificuldades, conforme você já sabe. Depois de
um período de nervosismo, encontramos a nave dos emigrantes
arcônidas. Ela havia decolado há cerca de dez mil anos. Por obra do
acaso, os antepassados que estavam hibernando foram despertados.
Felizmente isso só aconteceu há duas semanas e alguns dias. Quando
as gerações adormecidas acordaram, o caos estabeleceu-se a bordo da
nave, cujos propulsores estavam falhando. De qualquer maneira, os
arcônidas mais velhos, que tinham dormido dez mil anos e conservavam
o vigor de antigamente, conseguiram assumir o comando. Nossa
intervenção evitou o pior. Deixamos os antepassados adormecidos
inconscientes por meio de um gás e os carregamos nas naves
transportadoras enviadas por você. Apenas os dirigentes foram
recolhidos à Drusus. Bem, acho que foi só isto. Atlan fitou Rhodan.
— Foi só
isto. E você me conta essa façanha com simplicidade. Até parece
que não existe nada mais importante. Acontece que Árcon está
prestes a sofrer uma grande mudança. Cem mil arcônidas da velha
estirpe, descendentes dos fundadores do Império, não estão
degenerados e estão de plena posse de suas energias espirituais.
Eles constituirão a base da evolução futura.
Rhodan
limitou-se a dizer:
— Então
você acha que eu lhe fiz um favor por ter encontrado os antepassados
e os ter trazido até aqui?
Atlan
sacudiu a cabeça, um tanto espantado.
— Por
que faz essa pergunta? Você sabe tão bem quanto eu que sua ação
talvez represente a salvação de Árcon. Estou convencido...
— Talvez
minha pergunta não tenha sido bem formulada — interrompeu Rhodan.
— O que quero dizer é mais que isso. Você acredita que cem mil
arcônidas serão suficientes?
— São
sempre cem mil arcônidas, Perry! Naturalmente é uma pena que nem
todos tenham acordados, mas uma experiência deste tipo fatalmente há
de acarretar certas perdas. Devemos dar-nos por satisfeitos por ter
havido ao menos estes sobreviventes.
— Antes
de mais nada é você quem deverá dar-se por satisfeito, se bem que
o repentino aparecimento destas pessoas, que há muito se acreditava
estarem mortas, possa trazer certos problemas. Basta citar um
exemplo. Você acredita que os orgulhosos arcônidas o reconhecerão
como imperador?
— Reconhecerão;
não há dúvida! — disse Atlan em tom confiante. — À saída das
naves transportadoras, serão recebidos por um exército de robôs.
Uma esquadrilha de cruzadores e couraçados está voltando da zona de
descarga e deverá pousar no espaçoporto. Não se preocupe, Perry.
Providenciarei para que os antepassados se convençam do poderio que
Árcon tem hoje. E ainda mantenho escondido um trunfo que nunca
poderão superar.
— Você
se refere...
— ...ao
computador. O gigante positrônico foi construído depois da saída
deles, mas não deixará de convencê-los. Afinal, foi o
computador-regente que me empossou no cargo. Ele poderá atestar a
qualquer momento que descendo diretamente dos primeiros imperadores.
É bem verdade que também poderá atestar que tenho, talvez, mais
idade do que o mais velho dos antepassados. São, por assim dizer,
quase meus contemporâneos. Mas não posso revelar-lhes este fato,
caso queira manter em segredo a minha imortalidade.
— Não
precisam saber disso — observou Rhodan com um sorriso. — Pelo
menos por enquanto.
Atlan
soltou um suspiro de alívio.
— Acho
que é suficiente que o computador mencione minha descendência
direta. Depois disso os antepassados prestarão seu juramento de
fidelidade, Perry! Então estarei preparado para investi-los em suas
funções de responsabilidade. Bem, vou apresentar-me aos
antepassados.
Rhodan
levantou-se e comprimiu um botão situado embaixo da tela do
intercomunicador. O rosto marcante de Baldur Sikermann apareceu na
tela.
— Pois
não!
— Acompanhado
por Atlan, irei ver os antepassados. Está tudo preparado?
— Está,
sim senhor. Acho que o Marechal Bell tomou todas as providências.
Permita-me fazer uma observação, sir?
— Pois
não, coronel.
— Na
minha opinião o Marechal Bell está exagerando um pouco. Mandou
postar
guardas de
honra e dez robôs pesados terão de apresentar as armas, quando
Atlan entrar no pavilhão. Além disso, ordenou que as sereias da
Drusus funcionem por dez segundos, em todos os corredores e
compartimentos da nave. Não me admirarei se ele mandar disparar uma
salva energética.
— Não
se preocupe, coronel. Posso garantir-lhe que isso não será feito.
Quanto ao mais, parece que o senhor se esqueceu de que Atlan se
tornou imperador de Árcon. Bem, o senhor sabe. Mas os antepassados
ainda não. É por isso que estamos apresentando o espetáculo. De
acordo?
— Sim
senhor. Naturalmente estou de acordo. Apenas pensei...
— Está
bem, Sikermann. Quer dizer que está tudo preparado? Pois mande uivar
as sereias.
O rosto de
Sikermann exprimiu certa perplexidade, antes de desaparecer da tela.
O coronel era um oficial muito competente, mas não entendia muito da
“diplomacia
das baionetas”
— ou não queria entender.
Rhodan e
Atlan passaram entre duas fileiras de guardas de honra e entraram no
pavilhão em que os dirigentes dos antepassados já os aguardavam. Os
robôs fizeram continência. As sereias silenciaram no interior da
nave.
Bell, que
se encontrava em companhia dos antepassados, adiantou-se e ficou em
posição de sentido.
Anunciou
que as pessoas despertadas estavam prontas para cumprimentar o
imperador.
Depois
disso, Atlan passou ladeado por Rhodan à frente dos arcônidas, que
há dez mil anos haviam iniciado uma viagem muito longa.
Era tudo
muito solene e impressionante.
Em algum
recanto do cérebro de Rhodan, ouviu-se uma risadinha telepática
muito baixinha. Alguém parecia divertir-se a valer com o espetáculo
diplomático. E era alguém que sabia ler os pensamentos de Rhodan,
pois a risadinha “silenciou”
imediatamente.
Rhodan
resolveu que mais tarde falaria com Gucky e lhe pregaria um sermão.
Afinal, se
os dirigentes arcônidas se convencessem do poder de Atlan, os demais
que se encontravam nas cinco naves de transporte também teriam de
convencer-se.
*
* *
Os
telepatas John Marshall, Betty Toufry, Ishy Matsu e o rato-castor
Gucky estavam sentados na cantina da Drusus com mais alguns mutantes,
a fim de passar o tempo até que chegasse o momento da decolagem, que
seria realizada dentro em breve.
Como de
costume, houve um duelo renhido de xadrez tridimensional entre John
Marshall e Betty Toufry. Os outros ficaram fascinados com o jogo, que
representava um espetáculo sem par. Sustentadas por campos
antigravitacionais, as duzentas e cinqüenta e seis figuras levitavam
no interior do cubo, que tinha o dobro desse número de campos
cúbicos. As figuras podiam passar a planos diferentes e até sabiam
saltar.
— É sua
vez, Betty — piou Gucky e escorregou nervosamente de um lado para o
outro da poltrona. — Agora está facílimo. Você poderá pôr fora
de jogo ao menos um dos reis.
Afinal, o
jogo tinha oito reis. Betty contemplou o cubo reluzente e acariciou o
pêlo cor de ferrugem de Gucky.
— Ah, é?
Então você acha que seria uma atitude inteligente conseguir uma
vitória num dos planos e perder ao menos duas figuras? Sempre pensei
que você fosse um enxadrista melhor, Gucky.
Na
verdade, podia-se perder oito vezes em cada jogo. E havia necessidade
de refletir oito vezes mais que no xadrez comum. Por isso não era de
admirar que o xadrez tridimensional fosse quase exclusivamente um
jogo dos mutantes.
Betty deu
o lance. Comprimiu uma chave que se encontrava de seu lado. Uma das
figuras desceu um plano e escorregou para outro campo.
John
Marshall mergulhou em reflexões.
De repente
Gucky levantou a cabeça. Olhou para a porta. Dali a alguns segundos,
Rhodan entrou.
O
administrador do Império Solar cumprimentou os mutantes com um gesto
e tomou lugar numa das poltronas desocupadas que estavam colocadas ao
acaso em torno do aparelho de xadrez. Ao que parecia, era por puro
acaso que seu lugar ficava ao lado do de Gucky.
O
rato-castor voltou a afundar na poltrona e passou a interessar-se
exclusivamente pelo jogo.
— Você
deveria ter assistido ao grande desfile — disse Rhodan em voz
baixa. — Posso garantir-lhe que foi uma coisa impressionante. Faço
qualquer aposta de que todos os cento e dez mil arcônidas prestarão
o juramento de fidelidade a Atlan.
Gucky
olhou para o teto.
— Ele
deve isso a mim — disse. — Tomara que Atlan nunca se esqueça de
que somos amigos.
— Ele
nunca se esquecerá, pequenino. Atlan tem mais de terrano que de
arcônida. Não pode haver nada que possa transformá-lo em nosso
inimigo.
Rhodan nem
desconfiava que estava enganado, mas o acontecimento que lhe faria
compreender isso ainda se situava num futuro longínquo.
Ao que
parecia, Gucky resolveu renunciar ao seu ceticismo e mudou de
assunto. Com um olhar de esguelha, convenceu-se de que John Marshall
estava prestes a perder a partida de xadrez que disputava com Betty
Toufry. Depois dirigiu-se a Rhodan e disse:
— Quando
decolaremos?
— Sikermann
já transmitiu suas instruções. Daremos uma pequena volta antes de
regressarmos à Terra. Quero fazer uma visita a certos planetas.
Gucky não
parecia muito feliz.
— Sempre
pensei que...
Não
conseguiu prosseguir. Aconteceu uma coisa totalmente inesperada e
inexplicável.
Rhodan,
que ouvia perfeitamente as palavras de Gucky, de repente foi tomado
por uma forte dor de cabeça. Uma mão invisível parecia comprimir
seu cérebro para esmagá-lo. Num gesto instintivo pôs a mão na
cabeça — ou melhor, quis pô-la. Mas seus membros estavam
paralisados. Mal conseguia mexer-se.
Com Gucky
e os outros telepatas aconteceu a mesma coisa.
— Perry
Rhodan!
O
pensamento desenhou-se de forma nítida e insistente no cérebro de
todos. Vinha do nada e era tão intenso que chegava a doer. Nenhum
dos mutantes seria capaz de pensar de forma tão avassaladora e
sugestiva, a ponto de causar dores por via mental.
— Perry
Rhodan!
Desta vez
o pensamento foi ainda mais insistente e constritor. Parecia que seu
autor ainda tateava no escuro, sem saber onde poderia encontrar
Rhodan. Talvez, realmente fosse assim...
John
Marshall soltou um gemido. Seu corpo amoleceu. Não suportara a dor e
desmaiara. Ao que parecia, as duas moças eram mais resistentes.
Pálidas e imóveis, continuavam sentadas nas poltronas. Em seus
olhos muito arregalados via-se a expressão de espanto e de pavor
infinitos.
— Perry
Rhodan, responda!
Rhodan
começou a desconfiar de alguma coisa. Em todo Universo só havia um
ser que possuía faculdades telepáticas de tamanha intensidade. Mas
esse ser encontrava-se a muitos milhares de anos-luz de Árcon.
Quando a
dor no cérebro amainou por alguns segundos, arriscou um olhar para o
lado. John Marshall estava deitado na poltrona. Parecia ter perdido
os sentidos. Betty Toufry fitava o teto com os olhos muito
arregalados, como se esperasse alguma coisa. Ishy Matsu parecia
desamparada ao encontrar o olhar de Rhodan. Já Gucky mantinha os
olhos fechados e “escutava”
seu interior.
Antes que
chegasse outra mensagem, Rhodan resolveu responder ao chamado. Mais
uma mensagem telepática tão intensa quanto a primeira poderia
produzir graves danos psíquicos, ao menos em John Marshall. Além de
outras coisas, Rhodan compreendeu o poder de que dispunha o
desconhecido. Era capaz de matar um homem que se encontrasse a
milhares de anos-luz, desde que o quisesse.
— Percebi
seu chamado, meu amigo — disse Rhodan em voz alta, pensando num
planeta artificial, que àquela hora vagava pela amplidão do espaço,
por entre as estrelas. — Por que teve de assustar-nos tanto?
Gucky, que
continuava na poltrona ao lado de Rhodan, abriu instantaneamente os
olhos. Neles surgiu um brilho de compreensão — e algo como uma
mensagem tranqüilizadora. Fez um gesto de satisfação e voltou a
mergulhar numa reflexão carregada de expectativa.
John
Marshall começou a mexer-se. Gemeu baixinho e endireitou o corpo.
Quando abriu os olhos, defrontou-se com um olhar de advertência de
Rhodan.
— Proteja-se
para amortecer os impulsos. Seu cérebro é muito sensível —
recomendou Gucky em voz baixa.
Antes que
Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, chegou a resposta vinda do nada.
— Eu
o espero, Perry Rhodan! Imediatamente!
Desta vez,
o impulso não fora menos intenso. Porém não era dotado da
insistência dolorosa de antes. Rhodan até teve a impressão de que
o impulso mental encerrava algo de tranqüilizador. Naturalmente só
podia ser sua imaginação.
— Onde
você me espera? — perguntou Rhodan em meio à incerteza.
— Em
Peregrino! É muito importante! Venha imediatamente!
Rhodan já
sabia do que se tratava.
O ser
invisível do planeta Peregrino chamava a ele, Perry Rhodan. E não o
chamava por brincadeira. Na voz mental notava-se certa preocupação,
até mesmo algum desespero. Será que mais uma vez se via em
dificuldade, como já acontecera uma vez, por ocasião do ataque dos
druufs?
— Indique
a posição atual de Peregrino.
Rhodan
achou que era boa idéia fazer essa pergunta. O planeta artificial
não estava firmemente ancorado no espaço, mas seguia uma rota que o
fazia cruzar o Universo em várias direções. Para apurar sua
posição, Rhodan teria de consultar o grande centro de computação
de Vênus. E isso representaria uma perda de tempo.
Esperou,
mas o ser imortal e inacessível não respondeu mais. A voz vinda do
nada silenciara.
Marshall
recuperou-se a olhos vistos.
— A
posição de Peregrino! — repetiu Rhodan, em tom mais insistente. —
O que aconteceu?
Mais uma
vez não houve resposta. O imortal deixara de reagir às mensagens.
Betty
Toufry disse:
— Ele se
retirou. Por que devemos ir a Peregrino? O que estará querendo de
nós?
Ele
— era assim que chamavam o ser incompreensível, que lhes conferira
a imortalidade relativa, por meio da ducha celular do planeta
Peregrino. Ele
corporificava toda uma raça desaparecida, representava a condensação
energética de sua inteligência e de sua substância espiritual
imperecível. Haviam-no visto poucas vezes, e quando isso acontecia,
só aparecia sob a forma de uma pequena esfera cintilante de energia.
E agora
Ele
— que por vezes costumava ser cognominado também de Aquilo
— os chamara.
E isso, a
uma distância superior a trinta mil anos-luz.
John
Marshall compreendera a pergunta de Betty.
— É
possível que ele queira comunicar-nos ou mostrar-nos uma coisa
importante. De qualquer maneira, sinto-me satisfeito porque a dor
passou. Foi horrível.
Tive a
impressão de que uma massa incandescente penetrava em meu cérebro.
Talvez minha sensibilidade por impulsos telepáticos seja grande
demais, mas esta foi a primeira vez que isso representou uma
desvantagem para mim.
— Estará
precisando de auxílio? — Rhodan fitou Marshall, expressando dúvida
e balançando ligeiramente a cabeça. — Não sei se foi um pedido
de socorro. Parecia antes uma ordem. Apesar de tudo não sei o que
pensar do pedido de comparecer no planeta Peregrino.
Gucky
ergueu-se. Seus olhos inteligentes cintilavam.
— Não
temos outra alternativa senão atender ao desejo do imortal. Vamos
decolar?
Rhodan
observou:
— Quanto
a isso não existe a menor dúvida. O que podemos fazer é antecipar
a partida. Infelizmente teremos de ir a Vênus, a fim de apurar a
posição de Peregrino. Não existe outra possibilidade, a não ser
que aquilo resolva ajudar-nos. E parece que não quer.
Levantou-se
e foi ao intercomunicador. Acionou uma chave e entrou em contato com
a sala de comando. Sikermann respondeu. Naquele momento mandava
calcular a rota e as transições que se tornavam necessárias.
— Decole
imediatamente, coronel. Os cálculos restantes poderão ser feitos em
viagem. Irei logo até aí.
Sikermann
confirmou. A tela apagou-se. Gucky soltou um suspiro.
— Mais
uma vez nossas férias foram estragadas — disse em tom de decepção.
— Sempre acontece um imprevisto. Bell ficará muito feliz quando
souber.
Rhodan
olhou para além de Gucky.
— Gostaria
de saber o que aconteceu em Peregrino.
Todos
gostariam de saber.
*
* *
Bell
recolhera-se ao seu camarote e fora dormir. O amigo e representante
de Rhodan sabia que ainda faltavam algumas horas para a decolagem.
Por isso teve uma surpresa ao sentir a vibração dos aparelhos que
foram postos a funcionar. Olhou para o relógio e constatou que
dormira menos de dez minutos.
— Caramba!
— exclamou.
Saiu da
cama de um salto e foi ao intercomunicador.
O Coronel
Sikermann respondeu ao chamado.
— Por
que estamos decolando, coronel? O que aconteceu?
— A
decolagem foi antecipada, sir. Por ordem do chefe. É só o que eu
sei.
— Bem.
Vou verificar o que aconteceu. Obrigado, coronel.
Bell
desligou e sentiu que as vibrações se tornavam mais intensas.
Dentro de alguns segundos os propulsores começariam a funcionar. A
Drusus aceleraria, sem qualquer pressão perceptível, e avançaria
para o espaço.
Bell quase
se esqueceu de vestir o uniforme, de tão pensativo que estava. Só
no último instante deu-se conta de que ainda estava de pijama. Bem,
isso representaria um achado para Gucky...!
Dali a
cinco minutos, quando entrou na sala de comando, Árcon III estava
reduzido a uma esfera reluzente. O sol entrava na tela de imagem pela
direita.
Sikermann
apenas se virou para o gorducho e, imediatamente, voltou a dedicar-se
aos numerosos controles. Rhodan estava sentado numa poltrona e
observava as telas.
— O que
houve, Perry? Qual é o motivo da decolagem precipitada? —
perguntou Bell.
Rhodan
informou-o e concluiu:
— Infelizmente
o imortal não nos forneceu a posição, motivo por que teremos de
consultar o centro de computação de Vênus. Com isso perderemos
quase um dia. Será que um ser onisciente pode esquecer alguma coisa?
Bell não
soube responder, pois podia entender de tudo, menos onisciência.
De
qualquer maneira, sentiu-se tranqüilizado. Mas ao mesmo tempo uma
hesitação insinuou-se em sua mente. Não teve a menor hesitação
em pronunciá-la:
— O
incidente prova que o imortal sabe que pode alcançar-nos a qualquer
momento, mas nunca sabe onde estamos. Isso não parece um paradoxo?
— Em
absoluto, Bell. Uma coisa é certa: seu alcance telepático é
ilimitado. Por outro lado, só consegue captar nossos pensamentos, se
os concentramos sobre ele. Quando isso acontece, talvez possa
determinar a distância e a direção. Agora, que pensamos
intensamente nele, provavelmente já sabe que decolamos.
O Coronel
Sikermann falou com a voz firme:
— A
transição será realizada dentro de dez minutos.
Ninguém
lhe deu atenção. A transição, ou seja, o salto pelo hiperespaço,
era uma coisa tão normal como o movimento de quem comprime o
acelerador de um automóvel. Os compensadores de pressão anulariam
qualquer tipo de pressão. A dor da distorção, que surgia por
ocasião da rematerialização, constituía-se no único sinal de que
a pessoa percorrera alguns milhares de anos-luz num segundo.
— Acontece
que não percebi nada da mensagem do imortal — ponderou Bell.
Sua voz
até parecia um tanto ofendida. Rhodan fez um gesto de assentimento.
— Também
já pensei nisso — confessou. — Os impulsos só foram captados
pelos telepatas, nos quais causaram efeitos colaterais bastante
desagradáveis. Provavelmente o cérebro dos telepatas é mais
sensível. De qualquer maneira, o imortal deve ter feito sua
transmissão de tal maneira que só os telepatas conseguiram captar a
mensagem. Por certo teve um bom motivo para isso. Não queria que
qualquer pessoa o ouvisse. Sabe que sou um telepata muito fraco, e
que além de mim, existem bem poucos terranos que sabem ler os
pensamentos. Portanto, sentiu haver uma possibilidade, por menor que
esta fosse, de que o chamado atingisse o endereço certo. Além
disso, suponho que, depois de ter recebido minha resposta, enfeixou
seus impulsos. Ninguém os captou, com exceção dos telepatas que se
encontram no interior da Drusus.
— A uma
distância de trinta mil anos-luz, isso representa um ótimo
desempenho — disse Bell com um elogio na voz. — E agora?
— Ainda
saberemos em tempo o que ele quer de nós. Parece que precisa de
nosso auxílio. É uma sensação bastante reconfortante sabermos que
um ser imortal necessita de ajuda humana.
— Quem
sabe o que aconteceu em Peregrino? — respondeu Bell.
A voz de
Sikermann interrompeu a palestra:
— Faltam
oito minutos para a transição.
Bell não
deixou que seu raciocínio fosse interrompido.
— Quem
sabe o que aconteceu em Peregrino? — repetiu e fitou a tela sem
muito interesse.
Árcon já
ficara bem menor. Naquele momento, a Drusus passava pelo anel de
fortificações do Império, desenvolvendo três quartos da
velocidade da luz. Os sinais de identificação foram irradiados
automaticamente.
— Uma
coisa é certa: o imortal precisa do nosso auxílio. Do contrário
não se teria dirigido a nós. Afinal, nunca o fez dessa maneira.
Logo, ele precisa do nosso auxílio. Resta saber por quê, e quanto a
isso tenho uma idéia bem definida...
Infelizmente
ninguém ficou sabendo qual era a idéia que Bell trazia em mente.
Enquanto o gorducho falava, Rhodan estremeceu, como se um golpe
doloroso, vindo do nada, o tivesse atingido na cabeça. Bell a
princípio nada notou, pois contemplava a tela e ordenava os
pensamentos. Mas quando proferiu a última frase, voltou a dirigir-se
a Rhodan.
Estacou ao
perceber a expressão do rosto do chefe.
Este
fitou-o.
— O que
houve? — perguntou Bell, em tom assustado. — Alguma coisa que vem
de Peregrino?
Rhodan fez
um gesto afirmativo, mas não respondeu.
— Faltam
cinco minutos para a transição! — anunciou Sikermann, que não
notara o incidente, já que dedicava sua atenção exclusivamente aos
controles da nave.
Bell
manteve-se em silêncio. Observava Rhodan, que continuava sentado em
sua poltrona. Apenas se encolhera ligeiramente. Quase no mesmo
instante, a porta abriu-se e John Marshall entrou apressadamente na
sala de comando. Em meio ao costumeiro torvelinho no ar, o
teleportador Gucky materializou-se e saltou para o sofá, que se
encontrava ao lado da poltrona de Rhodan.
— Desta
vez quase não me afetou — gaguejou Marshall, visivelmente
espantado por não ter desmaiado. — O senhor também ouviu, sir?
— Sim,
ouvi a nova mensagem. Espero que o senhor também se lembre dela,
para que possamos estabelecer a comparação. A posição do planeta
Peregrino foi repetida três vezes. Faça o favor de anotar, Coronel
Sikermann: PB-ZH-97H. Certo?
— É
exatamente isso — piou Gucky e encostou-se à parede.
Marshall
também confirmou a indicação.
Sikermann
parecia nervoso.
— A
transição será realizada dentro de três minutos, sir? Ou há
outras instruções?
— Há.
Suspenda a transição. O senhor obterá novos dados — depois de
dizer estas palavras, Rhodan dirigiu-se a Bell: — Foi uma ordem que
acabou de chegar de Peregrino. Uma verdadeira ordem; não existe a
menor dúvida.
— Uma
ordem? Que ordem foi essa?
— Não
devemos ir a Vênus, mas diretamente a Peregrino. E a posição do
planeta artificial já nos foi fornecida.
— Tudo
isso aconteceu enquanto eu estava falando?
— Marshall
e Gucky também captaram a mensagem. Suponho que Betty e Ishy também
estejam informadas. É estranho...
Rhodan
hesitou. Bell fez uma pergunta:
— O que
é estranho, Perry? A ordem?
— Não é
tanto isso. É que a forma da comunicação, que só pode ser captada
por telepatas, é extraordinária. Antigamente qualquer pessoa que se
encontrasse a bordo da nave era capaz de captar as mensagens do
imortal.
O Coronel
Sikermann já suspendera a transição e introduzira os novos dados
no computador de navegação. Instantes depois, as fitas com os novos
cálculos de transição escorregaram para cima da mesa. O coronel
pegou-as e as levou adiante. Depois de uns dois minutos anunciou:
— Nova
transição pode ser realizada dentro de cinco minutos. Serão
necessários quatro saltos para levar-nos ao destino. Distância...
— Está
bem, coronel, não precisamos dos detalhes. Quanto tempo deveremos
levar, incluídas as pausas intermediárias?
— Vinte
horas, sir. Rhodan olhou para o relógio.
— Acorde-me
daqui a noventa minutos. Estarei no meu camarote.
Bell
seguiu-o com os olhos até que a porta se fechasse. Seu rosto
exprimia certa perplexidade.
— Está
muito lacônico hoje — constatou, cutucando Marshall. — Conte com
todas as minúcias o que o imortal quer de nós. Qual foi mesmo a
ordem que transmitiu? Não forneceu qualquer indicação sobre o que
aconteceu?
Gucky, que
continuava sobre o sofá, soltou uma risada borbulhante.
— Nosso
amigo Bell não é nem um pouco curioso. Deveria ter-se tornado um
telepata, em vez de espalhar insegurança pelos bares de Terrânia.
Não lhe contaremos nada, não é, Marshall?
John
Marshall hesitou.
— O que
poderíamos contar, Gucky? Também não sabemos quase nada. A única
coisa que sabemos é que devemos ir imediatamente a Peregrino, aquele
misterioso mundo artificial que gira em torno de um centro
desconhecido e leva milhões de anos para completar sua órbita. O
que nos espera por lá? Será que Rhodan sabe?
— Ninguém
sabe; infelizmente — disse Gucky e enrodilhou-se.
Sem dizer
uma palavra, Bell saiu da sala de comando. Parecia contrariado.
2
Antes da
quarta e última transição, Rhodan entrou na sala de comando. Os
últimos preparativos estavam em andamento. Faltavam poucos segundos.
Um único pensamento dominava os homens: “Será
que desta vez dará certo? Não erraremos Peregrino, como aconteceu
daquela vez?”
No momento
em que o Universo desapareceu do lado de fora e voltava a formar-se
de novo, o rosto de Rhodan parecia uma máscara. Naquele segundo a
Drusus percorreu mais de cinco mil anos-luz.
As
estrelas reapareceram, frias e indiferentes. Mas cada uma delas era a
mãe de toda vida existente em seus planetas. Rhodan não conhecia as
constelações, mas logo viu Peregrino.
O planeta
artificial, formado por uma lâmina achatada com uma abóbada
energética em forma de semi-esfera por cima, existia em outro espaço
e outro tempo. Só se podia determinar sua posição com o novo
aparelho de localização no tempo. Tal qual no radar, os raios
refletidos se desenhavam numa tela especial.
— As
coordenadas estavam certas — constatou Sikermann. — Parece que
tudo está em ordem.
— Ao
menos Peregrino ainda existe — Rhodan parecia sentir-se muito
aliviado. — Vamos seguir em sua direção, coronel. Qual é a
distância?
Sikermann
olhou para os instrumentos.
— Doze
minutos-luz, sir. A Drusus já está desacelerando.
Quando
Rhodan ia dar-lhe as costas, Sikermann disse:
— Os
propulsores, sir! Eles se desligaram. Não fiz...
Rhodan
parou.
— Isso
não tem nada de extraordinário, se considerarmos que estamos sendo
esperados. O imortal quer poupar-nos o trabalho do pouso. Pode
desligar os propulsores. Acho que não precisaremos mais deles. E não
se preocupe. Daqui em diante alguém pensará por nós.
Bell
entrou na sala de comando. Ao que parecia, dormira durante a última
transição. Lançou um olhar sobre as telas para orientar-se.
— Ah! —
disse com uma voz que não admitia qualquer dúvida. — Estamos
chegando.
— Achamo-nos
muito mais próximos do que pensa — confirmou Rhodan e explicou que
a Drusus já estava sendo teleguiada. Depois acrescentou: — Apenas
me admiro de que ele não tenha podido buscar-nos em Árcon. Será
que também já está sujeito a limites?
Aguçaram
instintivamente os ouvidos, mas o imortal não esboçou a menor
reação.
— Pois
bem — disse Bell em tom bonachão. — Afinal, uns trinta mil
anos-luz já são uma boa distância. Provavelmente ele não pôde
realizar tal feito...
— Que
feito ele não pôde realizar? — perguntou alguém com um pio atrás
de Bell.
Bell
virou-se abruptamente e fitou Gucky com os olhos estupefatos. O
rato-castor aparecera de repente. Ninguém o vira chegar. Para um
teleportador, isso não representava nenhum milagre. Gucky
simplesmente materializara-se no interior da sala de comando.
— Será
que você nunca poderá deixar de assustar pessoas inocentes? —
gritou Bell em tom furioso. — Qualquer teleportador que tivesse um
pouquinho de decência deveria anunciar-se com uma nuvem de enxofre.
— Perguntei
o que ele não pôde realizar. Então?
O fato de
Gucky não reagir ao protesto de Bell era tão extraordinário que
até Rhodan ficou desconfiado. Virou-se e examinou atentamente o
rato-castor, mas não notou-lhe nada de estranho.
— Seu
atrevido! — exclamou Bell em tom indignado.
— Seu
monte de gordura! — soou a resposta.
E ao mesmo
tempo aconteceu uma coisa completamente impossível.
Gucky
materializou-se a um metro de Gucky!
Houve um
pequeno torvelinho, quase invisível, no ar, e o rato-castor surgiu
do nada. A visão dos dois ratos-castores, que se pareciam nos
mínimos detalhes, era tão espantosa que Bell recuou apavorado até
esbarrar numa poltrona.
— O
quê... o quê...? — gaguejou com o rosto pálido como cera.
Olhava ora
para um, ora para o outro Gucky. Acabou ficando sem fala.
Rhodan
raciocinou com rapidez e lógica. Por ocasião do surgimento do
segundo Gucky, vira o torvelinho no ar. Mas quando apareceu o
primeiro, não. Além disso, notou um espanto enorme no rosto do
rato-castor que aparecera por último. O verdadeiro Gucky estava tão
assustado com seu sósia, que não conseguia dizer uma palavra. Fitou
seu irmão gêmeo com os olhos arregalados e o queixo caído.
— Bem-vindo
a bordo da Drusus, velho amigo — disse Rhodan, fazendo uma ligeira
mesura em direção ao primeiro Gucky, que evidentemente não passava
de uma materialização mental do ser imortal. — Bem que você
poderia ter escolhido outra figura.
— Acredito
que seu amigo Bell teria preferido a Rallas, mas infelizmente a
grande artista terrana morreu há muito tempo. Aliás, isso não
seria nenhum obstáculo. Mas vou responder à sua pergunta. Não sou
onipotente, Perry Rhodan. Não foi fácil encontrá-lo. O fato é que
você chegou, e sinto-me muito feliz com isso. Você terá de
ajudar-me.
— Ajudá-lo?
— Rhodan não disfarçou o espanto. — Como poderia eu ajudar a
você, que é um ser imortal?
Rhodan
achou estranho ter de falar dessa forma com a imagem perfeita de
Gucky, que continuava paralisado, profundamente abalado. Ia
compreendendo aos poucos que o imortal se permitira uma brincadeira
com ele e com Bell.
— Você
ainda saberá, amigo.
O sósia
de Gucky sorriu, exibindo uma imitação perfeita do tristemente
famoso dente roedor.
— Você
irá à minha presença, acompanhado por este sujeitinho e por Wuriu
Sengu, assim que a nave pousar em Peregrino. Há uma tarefa à sua
frente, Rhodan. Não será fácil cumpri-la; mas você conseguirá.
Gucky
começou a recuperar-se.
A primeira
coisa que fez foi fechar a boca. O dente roedor desapareceu. Depois
respirou profundamente. Concentrou as energias mentais e disse:
— Não
falta nem a parte sem pêlo da cauda! — sua voz exprimia admiração.
— Certa vez aproximei-me demais de um fogão elétrico. É
incompreensível...
O sósia
acenou a cabeça da forma que era característica em Gucky.
— Eu o
copiei exatamente, amiguinho. É claro que também poderia ter
escolhido Bell, mas isso teria sido mais cansativo, pois exigiria
maior quantidade de matéria. E preciso poupar minhas forças.
— Poupar
suas forças? — perguntou Rhodan em tom curioso. — Está havendo
outros problemas?
— Não,
mas o semi-espaço...
Rhodan
compreendeu. Para o imortal, apenas se haviam passado alguns segundos
ou minutos desde o início da aventura em que estava pensando. E já
fazia mais de dois anos que haviam passado pela mesma.
— O que
posso fazer por você?
— Deixemos
isso para mais tarde — respondeu o imortal que assumira a figura de
Gucky. — Você ainda saberá em tempo. Dentro de dez minutos de sua
contagem de tempo, a Drusus atingirá a abóbada energética. A nave
será ancorada. Depois virei buscar seus dois companheiros e você.
— Por
que quer justamente Sengu, o espia?
— Nada
acontece neste Universo sem um motivo — respondeu o falso
rato-castor, e desapareceu.
Gucky
olhou para o lugar em que estivera seu sósia. Sua voz fina tremia
ligeiramente, quando disse:
— Fui eu
mesmo; não existe a menor dúvida! Cada pêlo era legítimo. É
incrível! Será que ele sabe copiar qualquer ser vivo? Isso é
materialização de pensamento.
Balançou
a cabeça e dirigiu-se a Bell.
— Você
não pode deixar de reconhecer que eu sou bonito. Poderia passar
algumas horas olhando para mim.
Bell
pigarreou.
— Seria
horrível o imortal ter deixado sua imagem por aqui. Neste caso
teríamos dois seres do seu tipo a bordo da Drusus. E eu nunca
resistiria a uma coisa dessas.
O Coronel
Sikermann, que enfrentara o incidente com uma calma admirável,
livrou Gucky da obrigação de responder.
— Aproximamo-nos
de Peregrino. Nossa velocidade diminuiu bastante. Ainda não se vê
nada, mas se os instrumentos não nos enganam, devemos tocar a
qualquer instante na abóbada energética.
Mal acabou
de pronunciar estas palavras, um ligeiro solavanco sacudiu a nave. No
mesmo instante, todos os indicadores das escalas desceram para a
posição zero. A tela do localizador especial tornou-se negra.
Enquanto isso as telas normais mostravam as estrelas do Universo em
todas as direções.
— Vá
buscar Sengu — pediu Rhodan, dirigindo-se a Gucky.
Depois que
o rato-castor saiu da sala de comando, prosseguiu:
— Não
sei o que acontecerá agora, mas devemos confiar nele. Coronel
Sikermann, o senhor pode ter certeza de que a Drusus permanecerá no
espaço em posição estacionaria em relação a Peregrino. Basta
esperar até que eu volte. Ignoro quando isso acontecerá. Bell, você
infelizmente terá de ficar aqui. O imortal quer que seja assim.
— Ele
não gosta de mim — disse Bell, em tom de decepção.
Porém tal
decepção não parecia muito sincera, pois o amigo de Rhodan não
conseguiu disfarçar a alegria. Sentia-se aliviado por poder ficar na
Drusus.
Perry
sorriu como quem compreende.
— Não
acredito que ele se deixe levar pelos sentimentos, embora os tenha.
Gucky possui um dom parapsicológico triplo, motivo por que reúne
condições especiais para dominar as situações difíceis, e
proteger-me em caso de perigo. Sengu é um espia. Pode enxergar
através da matéria compacta. Esta circunstância leva-me a supor
que ele me reserva uma tarefa que não deverá ser cumprida em
Peregrino, pois neste planeta não haveria necessidade de um espia.
Portanto, tudo não passa do mais puro pragmatismo. Está satisfeito,
gorducho?
Bell
limitou-se a confirmar com um gesto. Não se sentia muito à vontade.
Não teve tempo para refletir sobre o problema, pois, nesse instante,
Gucky entrou na sala de comando, ao lado de Wuriu Sengu, o japonês.
A ducha celular mantivera-o jovem. Seu corpo maciço era a expressão
da força, e os cabelos curtos se pareciam com as cerdas vermelhas de
Bell. E esta era a única semelhança entre os dois. Os olhos de
Sengu não revelavam muito sobre suas capacidades, mas neles brilhava
algo da qualidade atemporal que constitui uma característica de
todas as pessoas relativamente imortais. E tratava-se de olhos para
os quais não existia qualquer obstáculo material. Enxergavam
através de qualquer coisa.
— Acho
que devemos dirigir-nos à comporta principal — disse Rhodan. —
Ele nos irá buscar lá, ou mandará buscar-nos. Vamos vestir o traje
espacial leve, para qualquer eventualidade... Você também, Gucky.
Parou na
porta.
— Se
possível, permaneceremos em contato. Não sei se o telecomunicador
funcionará. Não se preocupem caso não tenham notícias nossas.
Estaremos em boas mãos.
Calados,
Sikermann e Bell seguiram-nos com os olhos.
Os trajes
espaciais eram guardados no interior da comporta. Escolheram os tipos
mais leves, que não eram tão resistentes como os outros. Entretanto
um complicado aparelho, produto da micro mecânica, regulava a
temperatura e renovava o ar, dando ao traje confortabilidade.
Gucky
possuía um traje especialmente talhado. Enfiou-se no mesmo e não
deu a menor atenção ao sorriso do japonês, enquanto se esforçava
para encontrar o buraco situado na parte traseira. Tal abertura
servia para acolher seu rabo de castor, que muitas vezes o
embaraçava. O traje, feito segundo o princípio de um traje de
mergulhador, compunha-se de uma única peça. O rabo de castor de
Gucky encontrava-se numa espécie de bolsa, onde estava protegido
contra todas as influências nocivas.
Oferecia
um quadro engraçado e sabia disso.
— Perry
Rhodan!
Os três
“ouviram”
a voz. O significado das palavras formou-se diretamente em seus
cérebros. Até parecia que aquilo se encontrava próximo a eles.
— Estamos
esperando na comporta. O que devemos fazer?
— Saiam!
Rhodan
comprimiu um botão que punha em funcionamento o sistema de
intercomunicação. O rosto preocupado de Sikermann apareceu na
pequena tela embutida na parede.
— Pois
não.
— Abra a
comporta principal e volte a fechá-la, assim que tivermos saído da
nave.
— Está
bem, sir.
A voz não
era tão segura como costumava ser. Evidentemente o coronel estava
preocupado. Mas não fez perguntas supérfluas.
Os dois
homens e o rato-castor viram mãos invisíveis selar a escotilha
interna. Depois o ar começou a ser aspirado. Assim que a pressão
baixou suficientemente, os aparelhos correspondentes dos trajes
espaciais entraram em ação. O transmissor ligou-se automaticamente,
para possibilitar a comunicação.
Quando
todo o ar no interior da comporta foi aspirado a escotilha externa
abriu-se.
Rhodan
avançou até o limiar e parou. Esperou até que Sengu e Gucky se
encontrassem a seu lado. Enquanto aguardavam as instruções do
imortal, mantiveram-se em silêncio.
Tinham
diante de si o Universo. Por cima de um abismo infinito, miríades de
estrelas brilhavam num esplendor total. Quase todas possuíam
planetas, mais poucos deles eram habitados. Apenas sua quantidade era
suficiente para fazer com que qualquer idéia que concebesse a
solidão dos cosmos parecesse absurda.
Peregrino
deveria ficar em algum lugar. Rhodan procurou em vão por um sinal da
presença do planeta artificial. Bem embaixo de seus pés, viu uma
nebulosa em espiral entre as estrelas. Esta podia ficar a dois ou a
cinco milhões de anos-luz. Era uma via láctea igual àquela à qual
pertenciam, e da qual só conheciam uma parte diminuta. Qual era
realmente o tamanho do Universo?
— Saiam
da comporta!
A ordem
veio de repente e sem o menor aviso. Sengu e Gucky lançaram um olhar
de dúvida para Rhodan. Depois olharam para a eternidade borbulhante.
Rhodan fez
um sinal e empurrou-se. A reduzida força gravitacional da Drusus
libertou-o imediatamente, e Rhodan flutuou em meio à profusão de
estrelas. Gucky seguiu-o, arrastando Sengu, a fim de facilitar-lhe a
decisão. Numa reação instantânea o rato-castor calculara seu
impulso de forma a alcançar lentamente o chefe. A uns trezentos
metros da nave, os três se encontraram e seguraram-se uns nos
outros. Já estava na hora de o imortal acolhê-los.
Até
parecia que este ouvira seu desejo, já que “disse”:
— Irei
buscá-los agora. Dentro de alguns segundos vocês romperão a
abóbada energética. Depois disso poderão ver meu planeta.
Desta vez
a mensagem era tão clara que não se distinguia da palavra falada.
De
repente, a Drusus parecia acelerar. Seu tamanho diminuía
rapidamente. Mas isso não passava de mera ilusão. Na verdade os
corpos de Rhodan, Sengu e Gucky acompanharam um campo gravitacional
que se formou imediatamente. Voltara a haver o lado de cima e um lado
de baixo...
De repente
romperam a cobertura energética neutralizada.
De um
instante para outro todo o Universo modificou-se.
O sol
começou a brilhar. Não era um sol natural, mas uma estrela
artificial, feita especialmente para Peregrino. Ficava bem no centro
do céu energético e iluminava a paisagem ondulada de um mundo que
parecia o sonho materializado de um idealista. Rios azuis serpeavam
entre florestas e colinas, correndo em direção a um mar distante.
Os três
caíram lentamente para a superfície de Peregrino. De repente o
ângulo da queda foi reduzido, e, depois de algum tempo, passaram a
voar paralelamente à planície infinita com o horizonte amplo.
Depois de
algum tempo avistaram a cidade.
Rhodan
sabia que esta não era habitada por verdadeiros seres vivos, mas
apenas pelas fantasias materializadas pelo imortal. Porém era
possível que desta vez estivesse vazia. Alguns edifícios estavam
modificados. Aliás, Rhodan teve a impressão de que em Peregrino
nada era como antes. Aquele mundo do sonho estava sujeito
incessantemente às mudanças nas concepções e nos desejos de seu
criador.
Ainda
planavam a pequena altura sobre as colinas e aproximaram-se da
cidade. Depois voltaram a descer. Aterrissaram num campo amplo, junto
à cidade. No mesmo instante, a mão invisível do imortal os soltou,
e os três recuperaram seu peso natural. Rhodan calculou que a
gravitação devia corresponder aproximadamente à da Terra.
— Perry
Rhodan!
Estremeceram
de susto e olharam para trás. De início não viram ninguém. Mas
depois de algum tempo, Rhodan reconheceu uma pequena esfera, quase
transparente, de uns dez centímetros de diâmetro, que se destacava
contra o céu límpido. Lembrava Harno, o ser televisor. Porém Harno
encontrava-se na Terra, em companhia do Marechal Freyt, que se
mantinha constantemente informado sobre o paradeiro de Rhodan.
— Assumi
esta figura porque é fácil de ser mantida e formada. Minhas
energias são limitadas. Siga-me, Perry Rhodan. Mande seus amigos
esperarem aqui.
Rhodan fez
um sinal para Sengu e Gucky, e acompanhou a esfera, que flutuava a
pequena altura, bem à sua frente, dirigindo-se ao edifício encimado
por uma cúpula. Esta lembrava longinquamente o pavilhão do
fisiotron.
— Devo
confessar que já começo a ficar curioso — disse com certa ironia
na voz, mas sem a menor tonalidade ofensiva. — Por que tanto
segredo?
— Só
aquilo que a gente não sabe parece misterioso, meu amigo
— foi a resposta, da qual Rhodan não poderia dizer se foi falada
ou apenas pensada.
De
qualquer maneira “ouvira”
a voz do ser incompreensível com tamanha nitidez que até parecia
que o mesmo se encontrava a seu lado, em carne e osso.
— Direi
tudo que sei. Mas se soubesse tudo, não precisaria incomodá-lo. No
Universo acontecem coisas para as quais não existem nenhuma
explicação lógica. Você tem de ajudar-me a encontrá-las.
— No
Universo? — perguntou Rhodan, enquanto um amplo portão se abria à
sua frente.
A esfera
flutuou para dentro do recinto situado atrás do tal portão. Rhodan
seguiu-a e penetrou no pavilhão.
— Será
que você não se refere apenas à Galáxia?
Acima
deles, a cúpula brilhava numa luz prateada. O pavilhão estava
vazio. Depois de algum tempo, Rhodan percebeu que no centro deste
havia uma única poltrona, bem embaixo da fonte de luz difusa. A
esfera energética, que era a corporificação do imortal, flutuou em
direção à poltrona e parou no ar, bem em frente da mesma.
— Estou
aludindo ao Universo
— disse ele com sua voz silenciosa, mas insistente. — Sente,
Perry Rhodan! Preciso falar com você.
Rhodan
obedeceu. A poltrona era larga e imediatamente assumiu a posição
que era mais confortável para ele. Até parecia que estava viva e
reagia ao menor movimento do corpo.
— Você
providencia para que a palestra não seja muito cansativa para mim.
Mas o que houve com você? A forma esférica tem alguma vantagem?
— Ela
tem todas as vantagens existentes, amigo. Foi por isso que eu a
escolhi.
Rhodan
lembrou-se de que em certa oportunidade Harno lhe dissera algo
semelhante.
— Preciso
poupar minhas forças
— prosseguiu. — Estou
muito debilitado. Foi por puro acaso que soube da existência do
perigo tremendo que nos cerca. Não me pergunte pela natureza desse
perigo, pois não saberia o que responder. Só sei de uma coisa: os
barcônidas já parecem ter sucumbido ao mesmo.
— Os
barcônidas?
Rhodan
teve a impressão de sofrer um choque elétrico. Os barcônidas!
Daquela
vez em que o imortal o levara numa excursão ao infinito, tudo
parecera um sonho. Tomaram uma nave que desenvolvia bilhões de vezes
a velocidade da luz e avançaram por entre as galáxias. Encontraram
os barcônidas e salvaram-nos da destruição fatal. E agora...
— Os
barcônidas sucumbiram a um perigo desconhecido? — disse Rhodan,
repetindo a suposição do imortal. — Como é que você pode saber
disso, se nem sequer tem um conhecimento exato desse perigo?
— Não
me pergunte pelos meus meios de observação, pois você nunca seria
capaz de compreender sua natureza. De qualquer maneira, os impulsos
mentais dos barcônidas cessaram. Dali se conclui que não podem
possuir mais qualquer forma de consciência. E um ser vivo que não
possui consciência está morto.
Rhodan
contemplou a esfera cintilante. Quando imaginava que a mesma
corporificava o ser mais poderoso e incompreensível de todos os
tempos, achou que tudo isso era ainda mais fantástico.
— E seu
planeta peregrino? Bárcon? O que houve com ele?
— Não
tenho notícias dele, Rhodan. Sou capaz de encontrar um ser vivo e
pensante, onde quer que ele se encontre. Mas um planeta...
— Quer
dizer que você também perdeu Bárcon. Como é que nós poderíamos
reencontrar Bárcon, se você o perdeu? Trata-se de um planeta
solitário, sem sol, perdido nas amplidões infinitas do espaço
intergaláctico.
— Vocês
encontrarão Bárcon, pois eu lhes darei uma nave, Rhodan. Uma nave
como nunca existiu igual. É tão veloz quanto você desejar. E na
proa existe um instrumento de localização que automaticamente passa
a funcionar no espaço situado entre as galáxias. É ele que vai
encontrar o planeta solitário que vagueia entre as mesmas. Embora eu
não saiba onde se encontra Bárcon, a nave o achará.
— E se
nós nos perdermos no infinito? — ponderou Rhodan.
Mas o
imortal respondeu imediatamente.
— Eu
não acabei de lhe dizer que sempre sou capaz de localizar um ser
pensante? Seria capaz de descobrir a nave a qualquer momento,
enquanto vocês viverem e pensarem. Por isso sua preocupação de
perder-se no infinito é totalmente supérflua. Seus impulsos mentais
só cessarão quando vocês estiverem mortos, e então nada mais
importará.
— É
verdade — confirmou Rhodan em tom tranqüilo. — Quer dizer que a
nave será teleguiada?
— Só
até certo ponto, meu caro. Eu a colocarei na rota aproximada e
depois a libertarei. O instrumento de busca se ligará e corrigirá a
rota de tal forma que vocês se dirigirão a Bárcon e pousarão
nesse planeta. Dali em diante vocês dependerão exclusivamente da
própria habilidade. Assim que tiverem descido da nave, ela partirá
e esperará no espaço até que você a chame de volta. Mas não
desperdice essa ordem, pois só a poderá dar uma vez. Depois que
pousar, a nave terá de decolar dentro de dez minutos. Se não
estiverem a bordo, deixará Bárcon sem vocês. Nunca se esqueça
disso, Perry Rhodan.
Rhodan
lançou um olhar pensativo para a esfera cintilante.
— É só
o que você me pode dizer? Eu mesmo terei de verificar o que há de
errado em Bárcon?
— Isso
mesmo. E se possível você também deverá prestar auxílio. Espero
que não seja tarde para isso. Não há mais nenhum impulso mental;
estou preocupado. Não é possível que todos estejam mortos.
— Se for
assim, qualquer auxílio chegará tarde. Mas permita uma pergunta.
Naquela oportunidade, quando fomos a Bárcon e salvamos a
experiência, a fim de evitar a destruição dos barcônidas, você
já demonstrava uma simpatia toda especial por esse povo. Por que
acontece isso? Você não costuma preocupar-se com o destino das
inteligências que habitam a Via Láctea. Por que se interessa tanto
pelos barcônidas? Existe algum motivo especial para isso?
O imortal
respondeu:
— Os
barcônidas são uma raça extraordinária sob todos os pontos de
vista. Sua tentativa de conduzir um planeta através do mar do espaço
infinito sem estrelas faz com que mereçam nossa simpatia.
Rhodan
comentou:
— Sua
resposta foi muito diplomática. Sei tanto quanto antes.
— Geralmente
compete aos diplomatas conseguir isso.
No cérebro
de Rhodan surgiu a impressão de uma alegre ironia, que logo foi
substituída pela preocupação.
— Não
vamos perder mais tempo, pois na situação em que nos encontramos
não tenho o controle do caso. Do contrário seria fácil visitar os
barcônidas no passado e afastar o futuro possivelmente fatal. Seus
amigos o esperam, meu caro... e a nave.
A esfera
parecia mudar de cor. Subiu lentamente em direção ao teto abaulado,
cresceu e tornou-se mais transparente — e de repente desapareceu
por completo.
Rhodan
levantou-se da poltrona e caminhou em direção à entrada, que se
abriu à sua frente. Antes de sair do pavilhão, virou-se mais uma
vez.
A poltrona
tinha desaparecido. O lugar em que se encontrara estava vazio.
O imortal
não desperdiçava energia. Cada porção de matéria que criava com
seu espírito imortal era energia. E, para não desperdiçá-la,
voltava a transformar a matéria.
O portão
fechou-se atrás dele.
Prosseguiu.
À luz do sol artificial de Peregrino, reconheceu do lado de fora,
onde Gucky e Sengu o esperavam, um cilindro brilhante. Tinha uns dez
metros de comprimento e seu diâmetro era de três metros. A proa era
ligeiramente arredondada e consistia em material transparente. A
popa, pontuda. Uma pequena escotilha, que mal dava passagem a um
homem, estava aberta. Atrás dela ficava uma pequena comporta.
Junto à
nave, Rhodan reconheceu as figuras de Sengu e Gucky. Os dois mutantes
pareciam indecisos, sem saber o que deveriam fazer.
Quando
Rhodan chegou ao lugar em que se encontravam, Gucky disse:
— Primeiro
ele coloca um sósia bem à frente do meu nariz e diverte-se porque
levo um tremendo susto, e depois faz uma magia e cria uma navezinha,
vinda do nada. De início pensei que fosse um teleportador que
pretendia materializar-se, mas por fim acabou surgindo esta nave. O
que vem a ser isto? Um presente?
— Conforme
se queira encará-lo — respondeu Rhodan e passou a mão pelo metal
frio e liso. — De qualquer maneira vamos entrar e fazer uma
excursão. Depois explicarei tudo.
Gucky
lançou-lhe um olhar desconfiado. Parecia ignorar os pensamentos de
Rhodan.
— Vamos
entrar? Aonde iremos?
— Para
onde estão os barcônidas, baixinho. Estão em dificuldades, e ele
quer que nós os ajudemos. Então; o que houve? Está com medo da
nave-fantasma?
Gucky, que
tirara o pequeno capacete de plástico, tal qual Rhodan e Sengu,
sacudiu-se.
— Medo?
— piou em tom de recriminação. — Não; não estou com medo.
Talvez sinto um pouco de...
Sengu não
fez nenhuma pergunta. Sabia que poderia entrar tranqüilamente na
nave, se Rhodan o fizesse. E não demorou vinte segundos até que os
três se encontrassem no seu interior. Enquanto a escotilha externa
se fechava lentamente, a interna abriu-se. Passaram por um corredor
estreito e chegaram à sala de comando, que era o único recinto para
o qual havia um acesso. Ocupava mais de metade do espaço existente
no interior da nave. Se o resto era ocupado pelo sistema de
propulsão, este deveria ser de um tipo que Rhodan não conseguia
imaginar.
A parte
dianteira da sala de comando era transparente. Podia-se enxergar para
todos os lados, exceto na direção da popa. Gucky soltou um assobio
alegre, quando viu um sofá largo junto à porta que dava para a sala
de comando. Tinha exatamente o aspecto do tipo de móvel de sua
preferência. De um salto subiu para as almofadas macias e estendeu o
corpo.
— É
assim que eu gosto — disse, elogiando o trabalho do imortal. —
Mais uma vez alguém adivinhou os meus desejos.
Rhodan e
Sengu encontraram duas poltronas confortáveis à frente da lâmina
semi-abaulada que fechava a proa. Quando sentaram nas mesmas, tiveram
a impressão de se encontrarem ao ar livre. Não puderam constatar de
que era feito o material invisível. Ao tato dava a impressão do
vidro, mas parecia ser muito fino e de uma resistência
inacreditável.
Sem que
sentissem qualquer coisa, o campo e a cidade subitamente foram caindo
para trás. Parecia que era o planeta Peregrino que se deslocava, e
não eles. O horizonte baixo e redondo, como um círculo, foi-se
ampliando. Antes que pudessem ver toda a lâmina do planeta,
atravessaram a abóbada energética.
O terreno
coberto de colinas, pequenos rios e vales amplos, desapareceu,
cedendo lugar ao espaço cósmico. Naquele momento tornou-se evidente
que Peregrino estava cercado por um campo de reflexão que tornava o
planeta invisível para qualquer pessoa vinda de fora. Em vez do
planeta, os três visitantes viram apenas as figuras frias e
estranhas formadas pelas estrelas de um setor desconhecido da Via
Láctea.
À sua
direita, uma estrela luminosa passou rapidamente e desapareceu no
sem-fim das profundezas que haviam surgido no lugar onde antes se
encontrara o planeta artificial. Viram-na apenas pelo canto dos
olhos, mas Rhodan a reconhecera.
— É a
Drusus! Está reduzida a uma pequena mancha luminosa. Fica pelo menos
a vinte quilômetros. Estamos acelerando.
Foi Wuriu
Sengu, o japonês muito ponderado, que formulou a primeira objeção.
— Sir,
estamos voando sem nenhum mapa estelar e não sabemos qual é o
sistema de propulsão desta nave. Nem sequer sabemos qual é nosso
destino. Dependemos inteiramente dos caprichos do imortal. E sabemos
por experiência própria que ele gosta de brincadeiras rudes.
— Desta
vez ele não está brincando, meu caro Sengu, pois não deve.
Confiou-nos uma missão que lhe parece ser muito importante. Tenho
certeza de que nesta pequena nave estamos tão seguros como no
interior da Drusus. Talvez até mais seguros.
— Acontece
que não se lembrou de que precisamos ser alimentados! — disse
Gucky em tom de triunfo, mas com uma ligeira tristeza na voz. —
Será que você acredita que ele também sabe criar estas coisas
através do pensamento materializado?
— Acredito.
Se você der uma olhada por aí, encontrará tudo de que precisamos
para viver. Faço qualquer aposta.
Gucky
escorregou imediatamente para baixo do sofá e pôs-se a revistar
todos os cantos da nave. Rhodan deixou-o à vontade e voltou a
dedicar-se à observação do espaço.
No caso,
isso não era tão simples. Estava acostumado a determinar a rota e a
velocidade das naves em que viajava e levá-las a um destino bem
definido. Mas agora encontrava-se sentado na proa de uma minúscula
nave, separado apenas por uma lâmina delgada do vácuo mortal, e
tinha de confiar exclusivamente na capacidade do imortal. Além
disso, não tinha a menor idéia das medidas de segurança que ele
tomara para proteger sua vida e a de seus companheiros. Se tivesse
esquecido qualquer detalhe...
Não havia
aparelhos de rádio a bordo, nenhum controle. Pareciam prisioneiros
no interior da cabina, quase inteiramente transparente, e eram
levados e dirigidos por forças que, até mesmo para Rhodan,
representavam um estonteante segredo.
— Olhe!
— exclamou Sengu de repente, apontando para a frente. — O que é
isso, sir? As estrelas...
Rhodan já
vira o movimento pelo canto dos olhos.
O
movimento das estrelas.
— Acabamos
de ultrapassar a velocidade da luz — disse, procurando dominar o
nervosismo. — É a primeira vez que passo por isto. Daquela vez em
que visitei os barcônidas, também voei à velocidade superior à da
luz. Porém o imortal estava comigo. Parecia antes um sonho. Mas
desta vez...
— Se as
estrelas se deslocam, devemos desenvolver várias vezes a velocidade
da luz — disse Sengu em tom pensativo. — Será que assistiremos a
efeitos colaterais? Um deslocamento do tempo? A massa infinita...?
— Não
acredito que devamos preocupar-nos com isso. Esta nave... bem, acho
que a expressão não é bem esta. Acredito antes que estejamos
sentados no interior de um pensamento do imortal, transformado em
matéria, que por sua vez está sendo impelido por um outro
pensamento. É um fenômeno inconcebível, desde que se queira
analisá-lo sob o ponto de vista científico. Não deveríamos
quebrar a cabeça com isto, mas desfrutar o espetáculo. É uma pena
que não tenhamos velocímetro. Seria interessante sabermos a
velocidade do nosso vôo.
Durante a
breve palestra, as estrelas tornaram-se cada vez mais velozes. As
constelações sofriam deslocamentos. Modificaram-se e
transformaram-se em estranhas figuras, nunca antes vistas. Os dois
homens ainda notaram que as estrelas se tornavam cada vez mais raras
no espaço que se estendia à sua frente.
Na direção
da popa, os sóis pareciam comprimir-se e, instantes depois, formaram
uma nuvem branca e reluzente, que só em alguns pontos era
interrompida por manchas escuras.
— É
realmente inconcebível! — piou Gucky ao voltar à sala de comando.
Não se
referia ao espetáculo maravilhoso que os dois homens contemplavam,
mudos e fascinados. As palavras proferidas a seguir davam prova
evidente disso.
— Ele
até se lembrou das cenouras.
Rhodan
virou-se.
Gucky
estava de pé à sua frente e segurava um molho de cenouras, que
pareciam ter sido colhidas naquele instante. Na outra mão, algumas
latas de conserva. Seu dente roedor brilhava de alegria.
— Aqui
há carne para vocês... e uma lata de cerveja.
Rhodan
olhou para Sengu.
— O
senhor pensou em cerveja? — perguntou em tom alegre. — Quando?
— Agora
mesmo, sir. Quando estávamos falando em comida.
— Era o
que eu imaginava. Vejo que não estamos tão sós como acreditávamos.
Ele está conosco, embora não nos dirija a palavra.
Ao fazer
essa constatação, Rhodan ficou tranqüilo. Não podia deixar de
confessar que a idéia de depender exclusivamente do acaso não lhe
agradava muito.
— Aqui
está sua cerveja, homem profano — disse Gucky e entregou a lata ao
japonês. — Bem que deveria ter imaginado que foi você quem pensou
numa coisa destas.
— Você
receberá cenouras, e eu cerveja! — retrucou Sengu e pegou a lata.
Com um
olhar de esguelha, Rhodan constatou que as conservas que Gucky
colocara sobre o sofá eram de origem terrana... ou ao menos pareciam
ser.
— Santo
Deus! — disse Gucky de repente, quase sem fôlego, e saltou sobre
os pés.
Chegou
mesmo a deixar cair as cenouras.
— O que
aconteceu com as estrelas? Será que estamos num carrossel?
Realmente
era espantoso!
Nos
últimos minutos, sua velocidade devia ter aumentado tanto que os
anos-luz se tornavam uma insignificância. Era possível que
estivessem percorrendo um ano-luz por segundo. Isso não seria
possível com os meios técnicos normais, mas essa nave não era
apenas um artefato técnico!
À sua
direita e à sua esquerda, as estrelas transformavam-se em traços
fugazes. E a cada minuto que passava seu número se tornava menor.
Bem na linha de sua trajetória, havia uma mancha escura, quase
circular. Suas bordas eram irregulares e formadas por estrelas que se
mantinham imóveis no Universo. Isso acontecia porque a nave voava em
sua direção. Quanto mais lateral fosse a posição de uma estrela,
mais veloz era seu movimento. Bem à esquerda e à direita, ficavam
reduzidas a traços luminosos.
No centro
da abertura vazia e escura, havia uma manchinha clara. Rhodan a
conhecia.
Era a
nebulosa de Andrômeda!
Estavam
chegando à periferia de sua Galáxia e aproximavam-se a uma
velocidade inconcebível do gigantesco abismo que separava as duas
galáxias vizinhas.
— Não
estamos andando de carrossel, Gucky — disse Rhodan. — Pelo
contrário. Estamos voando em linha reta, que nem um raio de luz,
apenas muito mais depressa que este. Muitíssimo mais depressa! Um
raio de luz se arrastaria lentamente atrás de nós. E as ondas de
rádio também.
“O
propulsor linear deve funcionar mais ou menos nesta base.
“O
espaço com suas estrelas permanece visível aos nossos olhos; não
mergulhamos no hiperespaço. Mas não sei se o sistema de propulsão
linear nos permitirá alcançar a velocidade que agora estamos
desenvolvendo. Quando a nave-protótipo estiver pronta, saberemos.
Mas isso ainda pode demorar alguns decênios.”
Gucky
abandonara o sofá e as cenouras. Muito pequeno, abalado pela visão
direta da Eternidade, mantinha-se de pé junto à poltrona de Rhodan,
contemplando o singular espetáculo das estrelas que desfilavam por
ele.
— Quando
fiz a primeira visita a Bárcon, foi quase a mesma coisa — disse
Rhodan. — Apenas, daquela vez tínhamos uma verdadeira navezinha.
Mas isto aqui até parece ser uma cápsula energética.
— Agora
quase não se vê mais nenhuma estrela — disse Gucky, em tom
queixoso. — São cada vez menos. O que acontecerá quando tivermos
deixado para trás as últimas?
— Quando
isso acontecer, estaremos no espaço intergaláctico, meu baixinho.
Seremos uma partícula de pó no infinito entre as vias lácteas, um
pinguinho num oceano. Não existe qualquer termo de comparação.
— Um
universo sem estrelas... que espetáculo! — Wuriu Sengu não
disfarçou o medo que o torturava. — Veremos um céu sem estrelas.
Será um céu totalmente negro, sem a menor luz.
Rhodan
olhou para a frente. Um ligeiro sorriso surgiu em seu rosto.
— Não,
Sengu. Veremos luzes. A luz de bilhões de estrelas, concentradas
numa partícula minúscula, que terá o aspecto de uma mancha
confusa. Será uma galáxia desconhecida. E não veremos apenas uma
galáxia, mas centenas delas. Sua luz leva milhões de anos para
atingir-nos, às vezes até bilhões de anos. As distâncias, que
delas nos separam, são inconcebíveis. Trata-se de aglomerações de
estrelas idênticas à nossa Via Láctea. Por lá também devem
existir seres inteligentes, que talvez estejam dirigindo seus
instrumentos sobre nossa Galáxia. Mas apenas enxergam uma pequena
mancha luminosa, formada por bilhões de sóis, que iluminam milhares
de planetas habitados.
— O
Universo é muito grande — disse Sengu, em tom compenetrado.
— É
pena que só tenhamos esta palavra — observou Rhodan. — Ela nem
de longe exprime o que queremos dizer. Um planeta é grande, um sol
também. E também dizemos que o Universo é grande...

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