segunda-feira, 22 de agosto de 2016

P-085 - Escola de Guerra Naator - Clark Darlton [Parte 3]

O ara Bóris parecia apático ao deixar o recinto, a fim de dirigir-se ao seu quarto. Após a breve pausa do meio-dia, o trabalho recomeçaria. Monótono e sem novidades, como sempre.
Quando Bell lhe informou que o derradeiro grupo passara pelos exames sem dificuldade, Rhodan tranqüilizou-se. A parte mais árdua da “invasão furtiva” fora superada. Dificilmente precisavam recear a descoberta agora.
Até agora, os cálculos de Rhodan tinham sido corretos, porém deixara de levar em consideração determinado ponto.
Ao ouvir o ligeiro zumbido do minúsculo hiper-receptor oculto em seu relógio, lembrou-se do tal ponto.
Ligou o aparelho com um aperto de dedo, e emitiu o sinal de que estava pronto para receber. Podia comunicar-se agora com o Major Rosberg.
Aqui posto avançado V-4, Sir. Aconteceu uma coisa horrível, Sir.
A voz de Rhodan tremia ao dizer:
Conte, major...
E o Major Rosberg contou...
5



Quando se aproximaram de Tagnor, a tempestade de areia amainara.
Sobre o deserto brilhava novamente o céu limpo. O sol vermelho Voga descia inapelavelmente para a linha do horizonte, porém Murgo afirmara que alcançariam a capital antes de escurecer. Aviões isolados passavam a grande altura, sem baixar ou tentar uma aterrissagem.
Talvez nem estejamos sendo controlados — disse Rhog, otimista.
Mas o barbudo chefe da caravana sacudiu a cabeça.
Não podemos contar com isso — discordou. — Pessoa alguma pode entrar ou sair de Tagnor sem ser detida. A linha de controle ainda se encontra à nossa frente.
Prosseguiram em silêncio. Tagnor ficava além do horizonte. A não ser que tivesse a consciência limpa, ninguém ousaria entrar em Tagnor. Porém, dos onze zalitas componentes da caravana, nenhum tinha a consciência limpa.
Os contornos da cidade começaram a delinear-se ao longe. O espaçoporto com as demais instalações à esquerda; as silhuetas de naves esféricas e esbeltos cargueiros zalitas destacavam-se do deserto. Junto a eles, alguns cruzadores.
Chegamos ao ponto crítico — observou Murgo, apontando para a frente.
Na claridade decrescente, Rhog reconheceu os tanques dos robôs. Estavam dispostos a intervalos de cem metros. Totalmente impossível romper aquela barreira!
Com uma das mãos, Rhog segurou o punho de sua arma, que não lhe valeria de muito. Com a outra, apalpou o passe falsificado. Os robôs perceberiam a alteração feita?
Murgo deteve seu veículo ao ver dois robôs encaminhar-se para eles. Desceu desajeitadamente da cabina, e foi ao encontro dos emissários de Árcon. Rhog não entendeu uma só palavra do diálogo, mas sabia que Murgo tentava explicar aos robôs a finalidade da caravana, supostamente vinda de Larg. Talvez conseguisse.
Porém, depois o coração de Rhog quase parou de bater. Sombras emergiam do escuro, na retaguarda. Um oficial arcônida e quatro robôs guerreiros juntaram-se ao grupo.
Um arcônida era mais difícil de ser iludido do que um robô.
Também Murgo sabia disso, e levou tremendo susto. Havia previsto o controle por parte de robôs, mas jamais contara com o aparecimento de um arcônida. A situação se complicava.
Mande seus homens se aproximarem — disse o oficial, secamente. — E que tragam todos os documentos de identificação.
Murgo sentiu a ameaça em potencial, porém dominou-se. Nada de muito sério poderia acontecer a ele, e a seus nove homens, pois tinham os passes especiais do almirante. E, a rigor, a sorte de Rhog lhe era indiferente, apesar de ser constrangedora a presença de um homem com passe falsificado na caravana. No entanto...
Apresse-se!
Murgo ficou nervoso, e correu para os veículos.
Desembarquem! — gritou. — E tragam seus documentos.
Bem, a exigência não é das mais severas”, pensou. “Só espero que o arcônida não queira controlar a carga”.
Mesmo desconhecendo ele próprio o conteúdo dos volumes, era fácil concluir que estes não deveriam conter apenas animais. Suposição mais do que correta, devido às misteriosas operações na caverna.
O oficial examinou minuciosamente cada documento, dedicando evidente interesse aos passes especiais. Rhog procurou eximir-se ao controle, porém os robôs estavam atentos. Quando tentava afastar-se com os zalitas já vistoriados, foi detido.
Ainda não mostrou seu passe — disse um deles, segurando-o pelo braço.
O oficial percebeu o incidente.
Venha cá, zalita! Seu passe!
Rhog pressentiu que sua missão fracassaria!
Na sua pistola havia duas, no máximo três cargas. Poderia liquidar aquele arcônida; mas de que lhe adiantaria? Os quatro robôs — na realidade, eram muitos mais — acabariam imediatamente com ele. E matariam também todos os integrantes da caravana.
Sua mão soltou a coronha da arma. Tirou o passe do bolso, e estendeu-o ao arcônida. Em vão procurou achar uma saída, e teve de reconhecer que não existia nenhuma.
O oficial tomou o passe, e olhou-o atentamente. Por fim ergueu os olhos avermelhados de albino, nos quais se lia surpresa. Como se a presença de Rhog não estivesse em seu programa. O arcônida parecia até um tanto desorientado.
O passe foi falsificado — disse ele, finalmente.
Na sua voz não havia nem triunfo, nem ódio. Também denotava desorientação.
Preciso levá-lo comigo. A caravana pode seguir.
Murgo suspirou de alívio. Pelo visto, não o responsabilizavam pela presença de Rhog. Porém queria prevenir-se, para não tornar a passar mais uma vez por situação semelhante, e talvez pôr em perigo a carga.
Poderia dar-me uma declaração? — pediu.
Para quê?
Para mostrar, caso me detenham novamente. A mim, pouparia novos retardamentos, e os robôs de Árcon não seriam ocupados desnecessariamente, podendo dedicar-se a tarefa mais útil.
O argumento era convincente.
O oficial acenou, e tirou um papel do bolso, estendendo-o a Murgo. O barbudo re-lanceou o olhar por ele, e guardou-o. Acenou quase imperceptivelmente para o pobre Rhog, e retornou a seu veículo. Os demais zalitas já ocupavam seus lugares junto aos respectivos volantes.
Segundos após, a caravana franquearia a linha de controle, seguindo pela rua principal para o centro da cidade.
Porém Rhog ficou para trás...
Siga-me! — ordenou o arcônida, desistindo de revistar o zalita.
Rhog agradeceu mentalmente a displicência do arcônida. Talvez ainda conseguisse evadir-se. E na cidade havia esconderijos em abundância.
Os dois robôs de guarda retornaram às posições originais. Sem hesitar, o oficial tomou Rhog pelo braço e saiu andando. Os quatro robôs acompanharam-nos à retaguarda. Rhog adivinhou que havia oito radiadores apontados para suas costas, sufocando pela raiz qualquer esperança de fuga. Correr agora equivalia a suicídio.
As ruas de Tagnor estavam desertas. Raramente Rhog avistava algum zalita, pois todos tratavam de esconder-se rapidamente ao avistar o grupo. Nenhum zalita livre parecia ter a consciência tranqüila, mesmo quando possuía passe especial.
Quem poderia recriminar-me, caso eu tentasse fugir?”, refletiu. “Tenho uma missão a cumprir, e por ela arriscarei a vida.
Tudo estaria perdido se o enviassem a Árcon.
A oportunidade de fuga chegou antes do que esperava...
A caminho do palácio do Zarlt — onde ficava, também, o quartel-general do almirante arcônida — o grupo passou pela vasta arena de lutas. Rhog já a conhecia, e sabia que, justamente naquele bairro, inúmeras ruelas transversais ofereciam ótimos esconderijos.
Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, foi beneficiado pelo acaso.
Quando o oficial, Rhog e os robôs dobraram a esquina de uma rua lateral, dois zalitas surgiram a vinte metros do oficial. Estacaram surpresos ao dar com a patrulha. Se houvessem prosseguido calmamente em seu caminho, talvez não tivessem despertado suspeitas. Rhog admirou-se, aliás, por ver o arcônida reagir, pois, em diversas ocasiões anteriores, deixara passar sem qualquer observação indivíduos suspeitos. Mas desta vez foi diferente...
Quando giraram sobre os calcanhares, disparando de volta pela rua escura, o arcônida parou, voltou-se e disse:
R-56 e R-763! Perseguir e prender os dois!
Dois dos robôs se puseram imediatamente em movimento, correndo atrás dos dois suspeitos, desapareceram na rua lateral.
Aí Rhog agiu como um raio.
Levava exatamente vinte metros de vantagem; três a quatro segundos, portanto, se andasse depressa...
Rhog saiu em disparada!
Dois metros antes da esquina salvadora, sentiu o calor esbraseante de um tiro energético. Diante dele, bolhas fervilharam nas paredes. Dobrou a esquina, e mergulhou na providencial escuridão. Ouviu lá atrás os pesados passos dos robôs, e a voz estridente do oficial, que reboava pelo labirinto de ruas abandonadas.
Rhog precipitou-se através de um beco...
Quando os dois robôs alcançaram tal viela, não viram mais sinal do fugitivo. Seus holofotes perscrutaram paredes e portas das casas.
O arcônida chegou, ofegante a ponto de mal conseguir respirar.
Onde está ele? — perguntou aos robôs. — Não pode escapar-nos!
Desapareceu!
Revistem as casas... depressa! Enquanto algumas dúzias de zalitas eram indelicadamente arrancados do repouso noturno, Rhog prosseguia na fuga. Esgueirou-se por um porão, saiu pelos fundos dele e acabou num pátio, onde achou um esconderijo seguro. Ali poderia aguardar tranqüilamente até o dia seguinte.
Depois de amanhã, segundo esperava, poderia pôr em execução o plano longamente acalentado.

* * *

Naquela noite, foi Gucky quem saltou para o palácio do Zarlt, a fim de intercambiar informações com o falso Almirante Calus. Também, desta vez, Calus estava sozinho. Porém, por via das dúvidas, trancou a porta, para que nenhuma “visita” inesperada os surpreendesse.
Eram os únicos minutos do dia em que Calus podia tirar a máscara, e voltar a ser o sargento Osega... naturalmente apenas no que se referia à maneira de portar-se.
Ah, é Você! — exclamou, quando viu o rato-castor surgir no meio do quarto, e gingar em direção da cama, aconchegando-se sobre os travesseiros. — Não poderia acomodar-se em outro lugar, a não ser sobre minha cama?
Em primeiro lugar, sou tenente, enquanto você é sargento. Portanto, mereço um pouco mais de respeito quando falar comigo — replicou Gucky, em tom de censura. — Segundo, a cama pertence a Calus, e não a você. E por último, camas são o lugar onde me sinto mais à vontade.
Primeiro — retrucou Osega, imperturbavelmente — acho falta de consideração tratar todos por você, sem diferenciar postos ou nome. Segundo, eu sou Calus, portanto esta cama agora me pertence. Terceiro, não me oponho ao uso de minha cama, desde que venha de patas limpas.
Gucky fungou, furioso.
Trata-se da sobrevivência da Terra, e você se preocupa com algumas manchas em sua cama...
Sou eu quem tenho de dormir sobre as manchas de sujeira — lembrou Osega. — Desembuche agora! Que há de novo?
Gucky suspirou.
Esta mudança de disposição... coisa horrível! Novidades? Ah, sim, chegou a caravana com os suprimentos enviados pela Califórnia. Tudo funcionou às mil maravilhas! Nenhuma pane! Amanhã mesmo o pessoal retornará para buscar a segunda leva.
Poxa, graças a Deus! Não poderia trazer-me algumas conservas da nossa velha Terra? Estou farto da comida artificial arcônida!
Ora, que idéia! — protestou Gucky, indignado. — Já imaginou que alteração produziria aqui o fato de encontrarem em sua cesta de papéis uma lata com a inscrição “Legítimos cogumelos bávaros”?
Ora, eu detesto cogumelos — objetou Osega.
Realmente, poderia ter pensado em desculpa melhor, pois Gucky chiou, furioso:
Cogumelos ou sardinhas, tanto faz! Não vai ganhar coisa nenhuma! Ordens de Rosberg! A menor suspeita contra você pode arruinar todos os nossos planos.
Depois piscou, e exibiu o dente roedor num sorriso.
Mas nada me impede de fazer-lhe um pequeno favor pessoal, meu caro. Amanhã lhe trago alguma coisa.
Isto é o que se chama ser camarada! — louvou Osega, satisfeito, alisando o pêlo de Gucky, depois de ter sentado na cama ao lado dele. — Como estarão se saindo Rhodan e seu pessoal?
Não tenho idéia, Osega. Só podemos pensar que tudo está correndo bem. Caso tivesse havido alguma dificuldade, já nos teriam avisado. Cuidemos, portanto, para que aqui em Zalit tudo se desenrole de acordo com os planos. Ah, agora me lembro de uma coisa! Enviamos ao encontro da caravana um tenente arcônida devidamente hipnobloqueado, acompanhado por quatro robôs também pré-programados. Segundo nos informara Toffner, a caravana se compunha de dez homens; porém contava com onze quando foi detida pelo oficial. Como um deles viajava com um passe muito mal falsificado, o tenente prendeu-o, tencionando conduzi-lo com a maior pressa possível para o interrogatório. Porém o homem escapuliu nos arredores das catacumbas: Bem, não deve ter assim tanta importância, mas achei que devia saber. Caso ouça qualquer comentário a respeito, reaja como se não soubesse de nada. Na certa se trata apenas de algum zalita em fuga diante dos arcônidas.
Coitado — disse Osega, sem adivinhar de quem se compadecia. — Não sei, porém, se poderei fazer algo por ele, caso seja outra vez apanhado. Nada de comprometer-se, é nossa regra de conduta suprema. Tem razão, não deve ter grande importância.
Osega não sabia que estava cometendo o maior erro de sua vida.
Algum recado para levar? — indagou Gucky.
Não, nada de novo. Amanhã farei o costumeiro pronunciamento na televisão, e tenciono frisar mais uma vez a importância da campanha em preparação. Por enquanto Árcon não revelou indício algum acerca do inimigo contra o qual se dirigem os preparativos de guerra. Todos pensam que lutará contra os druufs.
Organizarão novos transportes?
Osega sacudiu a cabeça.
Não, por estranho que pareça. Temos nos nossos alojamentos o número necessário de voluntários, mas Árcon suspendeu os transportes repentinamente. Como se tivesse ocorrido algo inexplicável. Não aqui, no entanto, porém no próprio sistema de Árcon.
O rato-castor começou a rir. Seu dente roedor avançou, exibindo-se em todo seu esplendor.
Rhodan! — pipilou ele, eufórico. — Quem mais?
Osega demonstrou surpresa.
Julga que é obra dele? Fantástico!
Efeito colateral assaz satisfatório de nosso empreendimento, com o qual nem contávamos. Agora os pobres zalitas ainda têm uma chance, apesar de já estarem nos alojamentos.
Osega acenou.
De fato. Talvez nunca sejam levados para Árcon. Lamentável que não possamos comunicar-lhes o esperançoso fato. Terão que continuar a viver amedrontados.
Nada de amolecer agora, “senhor”! — disse Gucky, empregando talvez pela primeira vez em sua longa vida a palavra senhor, se bem que em tom irônico. — Não pode cometer nenhum erro!
Os zalitas tremerão diante de mim — assegurou Osega, estendendo a mão ao rato-castor. — Até amanhã à noite. E não esqueça de cumprir sua promessa. Um naco de presunto, seria fabuloso!
Carnívoro! — disse Gucky, desdenhosamente, e desmaterializou-se.
Assustou-se, talvez, com o manifesto apetite de Osega por um pedaço de carne.
Dez minutos após, Osega dialogou com o oficial arcônida que efetuara o controle da caravana. Foi informado de todos os detalhes da fuga do zalita suspeito, portador de um passe falsificado. Despediu o tenente sem censurá-lo.
Depois foi dormir.
A manhã seguinte foi gasta em trabalhos de rotina, depois almoçou — o cardápio constava de pratos sintéticos — e recebeu alguns oficiais do alojamento de recrutas. Nada teve a dizer-lhes, pois Árcon não dera explicação para a suspensão dos transportes.
À tarde, mandou vir o carro e dirigiu-se à estação de televisão.
O cordão de robôs de guarda abriu-se, dando passagem ao almirante. Alguns zalitas imunes ao recrutamento, devido às funções indispensáveis que exerciam, saudaram o almirante no caminho, com acentuada subserviência.
Na sala de transmissões, tudo estava preparado. Diariamente, à mesma hora, Calus apresentava seu programa de trinta minutos. Quando tomou lugar diante da mesa semicircular, e começou a ordenar seus apontamentos, três câmaras apontavam para ele.
Da porta, o operador zalita de plantão lhe fez sinal.
Zalitas! — começou Osega, de modo frio, mas plenamente consciente do quanto detestava a encenação que era obrigado a fazer. — O regente está insatisfeito com vocês! Por todos os cantos de Zalit escondem-se os refratários, e nossos apelos a eles ficam sem resposta. Então, por ordem do regente, o controle passará a ser mais rígido, e haverá menos exceções. Só em casos verdadeiramente excepcionais serão emitidas dispensas do serviço militar. O regente ordenou ainda que, dentro de no máximo um mês, a totalidade dos zalitas esteja registrada. Quem quer que seja encontrado após esta data sem passe válido, deve esperar severa punição, provavelmente fuzilamento.
Osega fez uma pausa.
O ruído das três câmeras o deixava nervoso; apesar de dispensarem operador, pois trabalhavam automaticamente, hoje havia um. Jamais o vira na central radiofônica.
Cautelosamente, Osega levou a mão à arma enfiada no cinturão. Contava sempre com a possibilidade de algum zalita fanático cometer um atentado. Até ali dentro, literalmente cercado por robôs de guarda.
No entanto, de que forma poderia algum sabotador chegar até ali? Proibiam rigorosamente a entrada de qualquer elemento não pertencente à equipe técnica.
O zalita verificou o bom funcionamento das câmaras, acenou com a cabeça, e desapareceu.
Osega suspirou, aliviado. Junto à porta, um robô imóvel montava guarda. Seus dois braços armados apontavam para baixo. Mas em questão de segundos, os mortíferos raios energéticos poderiam disparar em todas as direções.
Gostaria de frisar mais uma vez — continuou Osega em sua arenga — que Árcon faz questão cerrada de considerar os zalitas como aliados. Enfrentamos unidos um poderoso adversário, que é preciso aniquilar. Talvez o alistamento forçado esteja sendo feito com excessivo rigor, porém Árcon não tem outra escolha.
Neste ponto do discurso, Osega foi interrompido!
Um zalita precipitou-se pela porta guardada pelo robô. Esgueirando-se pelo lado, avançou em direção de Osega. Por trás do falso almirante, ecoavam gritos e brados de alarme.
O robô reagiu prontamente, mas não pôde fazer nada. Caso fizesse uso de suas armas, o Almirante Calus correria perigo sem necessidade. Aproximou-se rapidamente para a mesa na qual Calus estava sentado.
Porém Osega já estava de pé. Reconhecera o perigo.
O invasor zalita encontrava-se agora à sua frente, diante das câmaras. Milhões de zalitas presenciariam a cena em seus televisores.
Queremos que Árcon nos deixe em paz! — berrou Rhog, sacando bruscamente sua arma. — Mande o robô sair daí, Almirante Calus!
Osega deu uma ordem ao robô, mas o colosso não obedeceu. Apesar de estar a três metros deles, não se afastou. O sargento percebeu que precisava agir depressa, caso quisesse sobreviver. Por outro lado, não devia comprometer o plano de Rhodan.
Poderia, naturalmente, dizer ao zalita que ele se enganava, que iria assassinar o melhor amigo de sua pátria. Poderia dizer-lhe que o Almirante Calus fora aprisionado pelos oponentes de Árcon há muito tempo. Porém milhões de zalitas escutariam igualmente suas palavras... assim como os atentos arcônidas.
Ninguém providenciou a interrupção da transmissão. Menos que quaisquer outros, os zalitas. Era uma preciosa oportunidade para mostrar-se superior aos arcônidas. Tamanha derrota, bem diante das câmaras de televisão...
Osega via uma única saída: para continuar vivo, e ao mesmo tempo não revelar os planos de Rhodan, precisava matar o zalita antes que este o alvejasse.
Porém ainda tentou outra solução.
Espere, zalita — disse, com a maior calma possível. — Está cometendo um engano fatal. Não quer escutar-me, antes de agir?
Morra, servo do Império! — gritou Rhog, dramaticamente, e ergueu a arma. — Todos vocês são servos, escravos do cérebro-robô!
Apertou o gatilho antes que Osega tivesse oportunidade para sacar a própria arma. O sargento tombou antes de chegar a sentir dor, e morreu diante dos olhos de um planeta inteiro. Escorregou desamparado ao longo da quina da mesa, e abateu-se no chão.
Mas também Rhog morreu. O robô, agora com toda a liberdade de ação, abriu fogo. Atravessado por três ou quatro raios energéticos, caiu sem um gemido. Seus companheiros, nas longínquas montanhas, presenciaram sua morte, junto com os demais habitantes do planeta. Porém seu sacrifício representava enorme sucesso. Pois também Calus havia perecido.
Os mortíferos raios do robô puseram as câmaras fora de ação. Por toda a parte em Zalit, as telas escureceram, Mas todos sabiam: Calus está morto!
Algo iria acontecer!
E boa porção de zalitas sentiu-se invadida por repentino medo.
Entre eles, Cagrib e seus amigos, reunidos em silêncio, e cheios de dúvidas, diante do televisor na caverna que lhes mostrara o holocausto de Rhog.
6



Quando a voz de Rosberg emudeceu no minúsculo receptor, Rhodan levou quase dois minutos para dizer:
Sinto a morte de Osega, Rosberg. Ele não precisava ter morrido.
Mas não morreu em vão, Sir — replicou Rosberg.
De maneira alguma, a hipermensagem poderia ser captada. Os ondas radiofônicas estavam bem concentradas. Mesmo assim, a cautela era recomendável. Caso alguma nave atravessasse o facho, com o receptor casualmente ligado na mesma freqüência, sempre seria possível...
A vida de uma pessoa é preciosa demais para compensar qualquer utilidade que trouxesse sua morte. Além disso, o desaparecimento de Osega representa muito mais prejuízo e perigo para nós, do que proveito. Que acontecerá se examinarem o cadáver? E Árcon enviará outro almirante para Zalit. Teremos que substituir também este?
Porém Rosberg se fixara apenas numa das perguntas...
Meu Deus... se examinarem o cadáver! Os arcônidas perceberiam imediatamente que este Calus era um farsante! Que devo fazer?
Tire o cadáver da estação radiofônica, Rosberg! Mande Gucky ir buscá-lo.
Seria impraticável. O morto já foi retirado. O Almirante Calus vai ter um enterro oficial em Árcon.
Ainda mais isso! — Rhodan refletia febrilmente. — Impeça-os! De qualquer maneira! Mais alguma coisa?
Rosberg hesitou. Sua voz tinha um tom indeciso.
Precisamos contar com um agravamento da situação em Zalit. O regente anunciou uma expedição punitiva.
Vai ter de resolver isso também, Rosberg. Não posso prestar-lhe ajuda no momento. Avise-me, caso as coisas se tornem críticas. Até mais e boa sorte!
Da mesma forma — veio a resposta, e a comunicação foi cortada.
Se o regente reconhecer um terrano em Calus, estaremos fritos, Perry — comentou Atlan, secamente. — Espero que Rosberg consiga fazer o enterro de Osega.
Esperemos que sim — concordou Rhodan, gravemente.
Por maior que fosse o presente perigo, não tinha meios de contorná-lo de onde estava. Era como uma espécie de destino, sobre o qual não se tinha influência alguma.
Nossa atual preocupação é evitar a ocorrência de falhas aqui. Amanhã, conforme informou Seiko, serão feitas as designações. Vamos ver que espécie de nave nos confiam.
Sem instrução, nem formação? — perguntou Bell, admirado.
O regente não perde tempo. Ordenou que todos os ex-oficiais espaciais zalitas sejam nomeados comandantes provisórios. Receberão uma tripulação à qual deverão ministrar adestramento prático. Durante os vôos de treinamento.
Bastante ortodoxo — disse Atlan, impressionado. — Parecem ter pressa de atacar a Terra. Estranho, levando em conta que o regente nem sabe onde procurá-la.
Calou bruscamente, fitou Rhodan, e acrescentou:
Ou saberá...?
Duvido — respondeu Rhodan. — Provavelmente trama novo ataque aos druufs.
Olhou para fora, através da janela. Além das construções achatadas ficava o pedregoso deserto da lua, que representava um posto avançado de Árcon. Algumas nuvens eram arrastadas pelo vento gelado, encobrindo passageiramente a luz das estrelas. Um mundo inóspito, e, no entanto, em sua superfície se decidiria o ulterior destino da Terra. Pelo menos no que se referia à primeira fase.
Não, não creio, Atlan. Pois se o regente conhecesse a posição da Terra, já o saberíamos por intermédio do Marechal Freyt, em Terrânia. O regente teria atacado imediatamente.
Preocupações e incertezas! — praguejou Bell, impaciente, rumando para sua cama. — Vou é dormir, para acabar com estes irritantes pensamentos. Quem quer minha ração para animais peçonhentos?
Fome todos eles tinham, porém ninguém se candidatou.

* * *

Por volta do meio-dia, tudo estava mais ou menos decidido.
De acordo com os resultados da inspeção, registrados nas fichas dos aras, o Almirante Senekho distribuíra o pessoal. Os zalitas com quociente intelectual elevado foram nomeados oficiais, receberam o posto de comandante e chefe de grupo; cada qual teve igualmente uma tripulação. Felizmente Senekho se preocupara em conservar unidos os vários grupos de treinamento. Unicamente devido a esta circunstância, Rhodan e seu pessoal não foram separados.
Então nossa “banheira” se chama Kon-Velete — comentou Bell, cansado, ao retornarem para o alojamento, depois da exaustiva cerimônia de distribuição de cargos. — E nosso comandante é um tal de Ighur, batizado na vida civil com o nome de Atlan. Senekho nem se dignou levar em consideração os antigos postos militares. O Major Sesete e o Major Roake são agora primeiro e segundo-oficial. E eu sou forçado a obedecer às ordens de um capitão...
Rhodan sorriu.
E que outra alternativa temos? Pelo menos estamos sendo coerentemente comandados por um arcônida, que, além disso, vem a ser almirante legítimo. Que mais poderíamos querer?
Já é um consolo — admitiu Bell.
A situação é muito mais complicada do que imaginamos. — objetou Atlan. — A Kon-Velete é uma nave de guerra novinha em folha, da classe de nossa Stardust, e seu diâmetro é de oitocentos metros. De certa forma, podemos falar em sorte por termos recebido uma tripulação de apenas duzentos homens; no entanto, com isso o Almirante Senekho nos impôs a estreita convivência com cinqüenta zalitas desconhecidos.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Se estivéssemos sozinhos na nave, teríamos que agir com igual cautela. Tenho certeza de que câmaras ocultas informam continuamente o regente e seus oficiais acerca do comportamento dos novos soldados. Em outras palavras: como zalitas, teremos de agir demonstrando claramente que nos sentimos sob observação; como terranos, temos de conscientizar-nos de que somos incessantemente vigiados. Portanto, cada segundo de permanência na Kon-Velete passa a ser de total encenação. Até durante o sono. Espero que ninguém tenha o costume de falar dormindo, arriscando-se a pronunciamentos comprometedores.
Preocupo-me muito mais com a situarão em Zalit — disse Gorlat, hesitante. — Ignoramos o que se passa lá. Aqui ainda temos a possibilidade de viver os acontecimentos, mas em Zalit...
Não concluiu a frase. Antes que Rhodan pudesse replicar, ouviram um estalido no alto-falante. A voz do robô 574 disse:
As tripulações já designadas devem ir para bordo das naves dentro de duas horas. Vôo experimental em condições de batalha simulada. Ordens adicionais posteriormente.
O alto-falante emudeceu.
É, eles estão realmente com pressa — comentou Atlan, de modo sarcástico.

* * *

Sob certos aspectos, a Kon-Velete era decepcionante. Apesar de tratar-se de uma embarcação nova, recém-saída dos estaleiros de Árcon; mas fora planejada originalmente para robôs. Instalações sanitárias improvisadas revelavam a rápida conversão para tripulantes humanos. Os alojamentos sem conforto eram deprimentes.
Atlan sentia-se meio desorientado na central de comando. John Marshall, Gorlat, Bell e Rhodan lhe faziam companhia, depois de terem providenciado a distribuição adequada de todos os membros da tripulação, tanto terranos como zalitas.
A nave estava pronta para decolar.
John Marshall captou telepaticamente a mensagem radiofônica modulada de Atlan.
Poderíamos comunicar-nos desta forma, em caso de necessidade? Pergunte a Rhodan!
O telepata transmitiu silenciosamente o recado. Rhodan acenou. E depois pelo receptor de capacete, Atlan recebeu a resposta:
Sim, mas só em caso de absoluta emergência. A partir de agora, somos zalitas dispostos a servir ao regente. Vamos procurar conquistar a confiança do cérebro-robô.
Atlan parecia tranqüilizado. Reconfortava-o saber que poderia buscar conselho em caso de perigo.
Não puderam evitar que os dois oficiais zalitas Tenente Kecc, e Tenente Hopro, ocupassem posições importantes. Precisavam evitar suspeitas. Ambos possuíam quociente intelectual bastante elevado para justificar encargos de responsabilidade. Por sugestão do Almirante Senekho, o Tenente Kecc fora até nomeado radioperador-chefe da Kon-Velete, enquanto Hopro foi designado para a equipe técnica, entre zalitas e terranos.
Estas camas são apropriadas para robôs, e não para gente de ossos quebráveis — disse Bell em zalita.
Um tantinho de crítica é mais do que insuspeito”, pensou.
Ainda tiveram tempo de mudar a linha de produção em Árcon. Quando é que zarpamos, afinal? — continuou logo depois.
Lembre-se de que até agora as naves de Árcon costumavam ser tripuladas exclusivamente por robôs — disse Rhodan, continuando a conversa destinada aos ouvidos do regente. — Devemos nos considerar honrados, nós os zalitas, por nos permitirem substituir os infalíveis robôs. Por sorte, temos também robôs especiais a bordo para nos amparar, apesar de estarem sujeitos às ordens de nosso Capitão Ighur.
Um pouco afastado, Gorlat contemplava, aparentemente distraído, os controles da central. Na tela ligada, via-se o espaço-porto de Naator. Sabia que existia mais de um espaçoporto na lua do quinto planeta.
Nave alinhava-se ao lado de nave. Uma frota inteira estava pronta para o primeiro exercício. Caso tudo corresse conforme o programa, não estaria longe o dia em que o almirante recebesse a ordem decisiva de conduzir toda a frota para Árcon.
A Kon-Velete diferencia-se enormemente de nossos cruzadores zalitas — constatou Rhodan, com o maior fingimento. — Com tais naves, Árcon vencerá a guerra.
Absolutamente correto, Major Sesete — concordou Bell no mesmo tom, suprimindo até o costumeiro sorriso irônico. — Sinto-me orgulhoso por poder servir ao regente sob o comando do Capitão Ighur.
Atlan decidiu participar também do improvisado jogo de palavras, porém a porta da central foi aberta, deixando entrar um robô. Dirigindo-se para Atlan, disse, em sua voz rascante e impessoal:
O Almirante Senekho me encarregou de dar-lhe apoio em suas funções. Fui comandante da Kon-Velete, e trouxe-a de Árcon para cá. Disponha de mim, capitão.
Vou procurar cumprir minhas obrigações sem sua ajuda — replicou Atlan, respeitosamente.
Era certamente a primeira vez em sua vida que demonstrava tanta consideração a um robô, porém queria provar ao regente — caso ele estivesse escutando secretamente — seu respeito por robôs.
No entanto, ser-lhe-hei grato, evidentemente, se puder evitar que eu cometa erros. Em caso positivo, espero que me alerte a tempo.
É exatamente esta minha obrigação— replicou o robô.
Outra tela se iluminou. A fisionomia de Senekho apareceu nela. O comandante de Naator disse:
A frota decolará dentro de poucos minutos para um vôo de treinamento. Cada comandante estará em contato direto comigo, recebendo de mim as instruções para o curso. Hoje quero constatar unicamente se os diversos comandantes se entrosam bem com as tripulações. Em caso contrário, faremos substituições. Tudo pronto para a decolagem? Solicito confirmação por parte dos comandantes.
O radioperador-chefe entrou na central.
Era um zalita típico, alto e aparentemente muito prestativo.
Comunicação estabelecida, Capitão Ighur. Pode falar com o Almirante Senekho. Vou providenciar para que o rádio permaneça em funcionamento, e possa ser operado da central.
Obrigado, Tenente Kecc — replicou Atlan, tornando a voltar a atenção para a tela que mostrava Senekho. — A Kon-Velete está pronta para decolar, almirante. Aguardamos suas ordens.
7



Gucky não pudera acompanhar Rhodan para Naator porque, nem com a melhor boa vontade, e apesar dos recursos disponíveis, seria possível disfarçá-lo de zalita. Porém não se encontrava só na desgraça. Outro mutante se revelaria por sua figura: o “incendiário” Ivã Ivanovitch Goratchim. Pois Ivã possuía duas cabeças. Não era, no entanto, sua característica mais destacada. Era capaz de transformar em energia pura qualquer espécie de matéria que contivesse um mínimo traço de cálcio ou carbono; e isto a grandes distâncias, e geralmente sob a forma de uma tremenda explosão, de natureza atômica.
Ivã vinha a ser uma arma inimaginavelmente perigosa, quando empregado de maneira adequada. O filho de cientistas russos fora descoberto outrora na Sibéria pelo Supercrânio, um dos grandes adversários de Rhodan, há anos passados. Derrotado o Supercrânio, Ivã passou a integrar o Exército de Mutantes.
O Major Rosberg começou a sentir-se mal com o silêncio. Olhou de relance para Gucky e disse:
Não vejo possibilidade de tirar o cadáver de Osega das garras dos peritos arcônidas. Nem sabemos, presentemente, onde é que ele está. Só sei que vamos passar um mau momento, caso constatem que Calus não é Calus.
Acocorado sobre uma cadeira, o rato-castor deixava Betty Toufry acariciar-lhe o pêlo, como se não houvesse outra preocupação em todo o mundo. À sua frente, sentavam-se Ishy Matsu e o mutante de duas cabeças.
Em Tagnor vivem ainda cerca de vinte milhões de zalitas, sem contar os forasteiros presentes, e os arcônidas. E todos estes vinte milhões pensam, se bem que se ocupem apenas com assuntos tolos e supérfluos. Porém pensam, e isso é decisivo. Cada pensamento representa uma pista, um impulso. E precisam ser investigados um por um. Mas quanto tempo levaremos para examinar todos eles?
Rosberg sabia disso, e nem pensava em recriminar o rato-castor.
Osega não existe mais, senão poderia informar-nos. Mais do que lógico que participassem ao Almirante Calus onde se encontra o cadáver — ora, que bobagem estou dizendo! Mas é para qualquer um perder o juízo!
Gucky riu sardonicamente.
Dê-se por feliz por ter um para perder, Rosberg. Mesmo que soubéssemos onde está o cadáver de Osega, como poderíamos resgatá-lo sem despertar suspeitas? Se algum arcônida puser os olhos sobre mim...
Aí é que está! — concordou Rosberg. — Vamos ter que desistir de seus serviços. O cadáver precisa desaparecer, nem mais, nem menos. Mas de modo algum deve desaparecer em circunstâncias misteriosas. Que problema mais complicado!
O Major Rosberg era militar, habituado à ação direta. Porém surripiar o cadáver de Osega equivalia realmente a um verdadeiro caso policial. Tal ação não era adequada à sua índole.
Quem sabe Toffner consiga alguma coisa — consolou Betty Toufry, interrompendo sua busca telepática. — Perdi-o momentaneamente, assim como seus dois amigos. Rondam os arredores do palácio.
Espero que sim — disse Rosberg. — Além disso, dificilmente descobririam tão depressa a falsa identidade de Calus. O disfarce de Osega é excelente. E por que se lembrariam de radiografar um morto?
Não devemos raciocinar nestes termos — avisou um dos cientistas do departamento bioquímico, destacado para ficar em Tagnor. — As probabilidades de descoberta reduzem-se no máximo a cinco por cento, mas até isso já é demais. Precisamos apossar-nos do cadáver de Osega! Aliás... — acrescentou, com um olhar de relance para os nichos encortinados onde trabalhavam seus colegas — ...que faremos com o verdadeiro Calus? Continua sendo prisioneiro nosso.
Talvez Rhodan o solte algum dia, depois que isso tudo tiver acabado — opinou Rosberg. — De momento, não nos serve de nada.
Betty, que tornara a aprofundar numa espécie de meditação, levantou repentinamente a cabeça.
Creio — disse ela com convicção — que achei uma pista.
Rosberg indagou:
Toffner?
Ela acenou em silêncio, e voltou a escutar o confuso burburinho de milhões de impulsos mentais, dos quais um único os interessava.

* * *

Os três zalitas possuíam os passes especiais assinados por Calus, isentando-os do serviço militar. Mas até quando, naquelas circunstâncias, a assinatura do almirante teria validade? Portanto, continuava sendo perigoso aproximar-se muito dos arcônidas. Porém não lhes restava outra alternativa, caso quisessem prestar ajuda a quem os amparara anteriormente.
Toffner não era zalita, naturalmente, fato do qual nem Kharr, nem Markh suspeitavam. Arranjara passes para ambos, e eles fariam tudo que estivesse ao seu alcance para demonstrar sua gratidão, assim como aos amigos de seu benfeitor.
Um robô encaminhou-se para eles, a passadas firmes; fazia parte do cinturão de controle do palácio. Os arcônidas não gostavam de fiar-se nos soldados do Zarlt, a despeito da aparente fidelidade deste ao regente.
Que procuram aqui? — indagou em sua voz metálica.
Toffner exibiu o passe, e a licença especial.
Sou Garak, o administrador da arena de lutas. Estes dois homens são meus auxiliares. Tentamos organizar novos jogos, a fim de levantar o moral dos zalitas. Solicitamos uma entrevista com o Zarlt.
Por que não se alistaram na frota?
Somos incapazes para o serviço militar, todos os três. Eis os documentos comprobatórios.
O robô examinou conscienciosamente os papéis, mas parecia indeciso se concedia ou não permissão para entrarem no palácio.
Esperem! — ordenou e dirigiu-se para o portão.
De repente parou, sem mais um movimento. Toffner sabia que o fato nada tinha de extraordinário. O robô estava simplesmente pedindo instruções a seus superiores, através do rádio.
O robô voltou.
Meus oficiais acham que o reinício dos jogos atrairá muitos homens para Tagnor. A audiência com o Zarlt foi concedida. Entrem.
Toffner suspirou intimamente, porém ao mesmo tempo, sentiu-se tomado por enorme preocupação. Realmente, veriam Zarlt, e falariam com ele; no entanto, a verdadeira finalidade da entrevista era outra. Talvez viessem a saber algo acerca do paradeiro do cadáver de Calus, se é que o Zarlt fora informado a respeito.
O robô acompanhou-os até a entrada, onde os entregou a dois soldados zalitas, pertencentes à guarda pessoal do Zarlt. Apesar de não serem vistos com bons olhos, continuavam sendo zalitas. E, afinal, não tinham outra escolha: precisavam obedecer ao Zarlt e aos arcônidas, caso não quisessem partilhar o destino dos “voluntários”.
Tiveram que identificar-se por mais duas vezes, antes de penetrar no palácio propriamente dito. Foram recebidos por um zalita vistosamente fardado.
O Zarlt o espera, Garak. Sigam-me.
Kosoka era idoso, e fraco demais para opor-se à vontade dos arcônidas. Ainda estava imbuído da milenar reverência pelos senhores do Império, apesar de o poder já ter passado há muito tempo para um cérebro-robô. O Zarlt Kosoka era servidor do regente — servidor digno de toda a confiança, por seu medo e cansaço.
Ele ocupava uma poltrona elevada na sala de audiências, e recebeu os visitantes com ar indeciso.
É por causa da arena? — perguntou ele, depois de Toffner, Markh e Kharr fazerem suas reverências. — Não temos jogos há muito tempo. Por quê, Garak?
Não há gladiadores, senhor, faltam também as expedições necessárias para capturar animais selvagens. Aqui está Markh, o negociante de animais. Não pode ir sozinho para o deserto, a fim de aprisionar haracks ferozes.
Kosoka acenou.
Compreendo, Garak. Você veio fazer-me uma proposta. Fale!
Toffner percebeu que se desviavam cada vez mais do verdadeiro objetivo de sua visita. Mas talvez fosse necessário.
Existem muitos zalitas considerados incapazes durante as inspeções. Poderíamos convocá-los para apoiar Markh numa expedição pelo deserto, pagando-os bem, claro.
Markh não pode arranjar homens por si próprio?
Toffner admirou-se por encontrar rapidamente uma desculpa.
Não, e bem que ele tentou, Zarlt. O pessoal anda desconfiado. Enxergam ciladas arcônidas por trás de qualquer oferta. Mesmo quando possuem o atestado de isenção, vivem atormentados pela incerteza. Só conseguiríamos homens, caso o Zarlt lhes garantisse a segurança num pronunciamento público.
O homem idoso hesitou. No íntimo, concordava com os argumentos de Garak-Toffner, porém não sabia se deveria aceitá-lo prontamente.
Tenho que aguardar a chegada do sucessor de Calus — disse, numa evidente tentativa de ganhar tempo. — O novo almirante deve chegar nos próximos dias. No entanto, receio que... — involuntariamente sua voz ficou mais baixa — ...Árcon não esteja lá muito satisfeito conosco no momento. O assassinato de Calus...
Uma vergonhosa nódoa em nossa história — lamentou Toffner, falsamente. — O Almirante Calus era grande amigo de Zalit e de seus habitantes. Pena seu assassino ter morrido tão depressa; mereceria uma morte mais lenta.
Pelo menos haviam chegado ao assunto. Talvez pudesse arrancar do Zarlt algum comentário revelador. No entanto, Toffner ignorava que havia sido localizado pela telepata Betty Toufry, que agora escutava toda a conversa. Além disso, era capaz de captar igualmente os pensamentos do Zarlt, e não apenas “ouvir” suas palavras.
O Almirante Calus será substituído por um homem severo — disse Kosoka, sem grande interesse. — Talvez até por alguém que proíba os jogos, e invalide os passes especiais. Ouvi comentários a respeito.
Mais um motivo para amaldiçoar o assassino. Eu venerava Calus, pois livrou-me do serviço militar. Chegou a falar comigo certa vez, quando me encontrou na rua. Gostaria de vê-lo mais uma vez, antes que seja levado para Árcon.
O Zarlt inclinou-se ligeiramente, e fitou Toffner.
O cadáver...?
Sim, o cadáver de Calus! Por que não prestar-lhe minha reverência, se representa um homem que venero?
Kosoka voltou a recostar-se em seu assento.
Infelizmente não vai ser possível, Garak. O cadáver do Almirante Calus já se encontra a bordo da nave que o conduzirá a Árcon. Ser humano algum o acompanhará, pois a nave é tripulada por robôs. O último vôo de Calus será este. O espírito dele pilotará o cruzador-correio.
Toffner sentiu-se como se tivesse recebido um soco no rosto. Era o que queria saber, e as coisas estavam pretas para ele próprio, e para os demais, caso o Zarlt falasse a verdade.
Despediu-se com algumas frases tolas sobre a arena, prometendo voltar assim que o novo almirante tivesse chegado.
Os três homens puderam deixar o palácio sem maiores dificuldades. Rumaram pelo caminho mais curto para o esconderijo nas catacumbas. Para sua surpresa, constataram que o pessoal já estava informado.
Em resposta à pergunta de Toffner, Betty Toufry explicou:
O Zartl não mentiu, falou a verdade. O cadáver de Osega já se encontra numa pequena nave-torpedo, tripulada por dez robôs. As coordenadas foram determinadas. A nave deve decolar assim que o novo almirante chegue, e dê a ordem. Portanto, ainda temos dois dias. Até lá...
A telepata silenciou, desalentada.
Toffner fitou o Major Rosberg.
E agora, Sir? De jeito nenhum poderemos tirar Osega de uma nave arcônida. Caso o retirarmos de lá, as suspeitas se voltarão para o Exército de Mutantes. Tal grupo é conhecido demais para que sua intervenção não se revele flagrantemente. Não podemos apelar para telecinese ou teleportação!
Receio que tenha razão — concordou o major, mergulhando em profunda reflexão.

* * *

Enquanto a mais de três anos-luz, o comandante Ighur empreendia, junto com seus duzentos homens, o segundo vôo experimental, com total satisfação do almirante, a situação, em Zalit, se agravava cada vez mais.
O sucessor de Calus chegara, e trazia terríveis ordens. Dali por diante, todo zalita encontrado com uma arma devia ser fuzilado. Também devia esperar a pena de morte quem não se apresentasse à comissão de recrutamento. Os papéis expedidos por Calus foram declarados sem valor. O portador precisaria submeter-se a nova inspeção.
De um dia para outro, a situação se modificara.
Para Rosberg, não foi fácil aceitá-la. Afinal, o Calus por cuja morte responsabilizavam e puniam os zalitas, ainda estava vivo. Hipnobloqueado, o apático e desmemoriado almirante descansava em seu modesto leito, sem causar o menor problema. Porém não podia ser libertado. Seu aparecimento provaria imediatamente ao regente que seu mais perigoso adversário estava por perto. Em vez de melhorar, a situação pioraria.
Os dois zalitas Markh e Kharr recusavam deixar o esconderijo. Não sabiam que seus amigos eram terranos, porém adivinhavam que seus passes haviam perdido a validade. Caso fossem detidos, iriam parar com toda a certeza no espaçoporto, no acampamento dos conscritos. Toffner mostrou opinião contrária.
Mesmo que a assinatura de Calus não valha mais nada, na certa não começarão a prender ainda hoje todo portador de passe. O processo de reformulação vai durar semanas. Não tenho o menor receio de ser visto em Tagnor. Se me intimarem a comparecer diante da comissão de recrutamento, eu vou.
Com uma risada, concluiu:
Sem dúvida terei permissão para ordenar meus assuntos privados antes da partida para Árcon. O Zarlt me ajudará.
Betty Toufry, que estava de vigília, controlando telepaticamente os arcônidas, disse:
A nave de Osega vai decolar ainda esta noite. Acabei de sabê-lo, escutando a conversa de alguns oficiais.
Rosberg acenou.
Discutimos tudo detalhadamente ontem, e o plano continua de pé. Cada participante conhece sua tarefa. Você é o primeiro, Toffner. Como estação-de-relé, se me permite designá-lo por este nome, sabe o que tem a fazer. Desejo-lhe boa sorte.
Bem que vai precisar dela! — piou Gucky. — Se tiver azar, vou resgatá-lo. “Andando” depressa, ninguém me verá.
Fará o que eu ordenar! — declarou Rosberg, com rispidez fora do comum.
Ainda excitado, dirigiu-se a Toffner:
Vá, agora. Não podemos perder mais um só minuto.
Toffner saiu sem se despedir. Conhecia sua tarefa, e a cumpriria.
Alcançou a primeira zona policiada, diante do aeroporto, sem ser detido. A sensação de estar constantemente em contato com seus amigos, através de Betty Toufry, tranqüilizava-o; apesar de unilateral, porque ele não era telepata. Mas eles estariam sempre a par do que acontecia em torno dele.
Agora vem o primeiro controle — sinalizou ele, quando os dois robôs de guarda lhe barraram o caminho.
Exibindo seus papéis, declarou:
Gostaria de falar com um oficial — sem demonstrar temor continuou, atrevidamente: — Informações importantes.
De que natureza? — quiseram saber os robôs.
Isso não posso revelar. Saibam apenas que se trata de desertores. Sei onde se escondem.
Aquilo causou efeito. Toffner recebeu permissão para entrar na área do espaço-porto. O oficial mais próximo fora avisado, disseram-lhe; podia prosseguir sem receio de ser detido novamente.
Passou livremente pelos controles seguintes. Poucos minutos depois viu-se diante de um jovem tenente, cuja atitude arrogante o identificava como um arcônida autêntico.
Quem é você? — perguntou o oficial.
Toffner deu as explicações exigidas, gastando muito tempo nisso. Impaciente, o tenente insistiu:
Disseram-me que trazia informações importantes para nós.
Sim, creio que são importantes — replicou Toffner, hesitando. — É sobre os desertores. Ontem encontrei um conhecido meu de Larg. Afirma saber onde se escondem os zalitas que recusam servir nosso Império.
A despeito de sua arrogância, o tenente não era nada tolo.
E por que quer delatar seus compatriotas?
Não por motivos egoístas — assegurou Toffner, com fingida sinceridade. — E parece-me que não se trata de delação quando se é fiel ao Império de Árcon.
Surpreso com o argumento, o oficial ficou sem resposta. Porém a arrogância inata logo readquiriu a supremacia.
Não pedi sua opinião. Diga o que sabe, e vá embora.
Que sujeitinho!”, pensou Toffner, furioso, enquanto sorria com suavidade e deferência.
Avistara uma pequena nave em forma de torpedo na orla do espaçoporto. Diante dela, uma guarda de honra formada por robôs arcônidas.
Devia ser aquela! Mas queria ter certeza.
Meu conhecido voltou a Larg, porém tornarei a vê-lo dentro de poucos dias. Então saberei maiores detalhes. Não haveria sentido em iniciar as buscas já agora, e afugentar os desertores. Eu só queria que estivesse informado.
O tenente parecia desapontado.
Não sabe onde eles estão?
Em algum lugar nas montanhas, ao norte do deserto, mas desconheço o local exato — fez uma pausa, e apontou para a nave-torpedo. — Servi outrora num cruzador comercial. Conheço tudo quanto é nave, até as arcônidas, mas nunca vi uma tão pequenina. Alcança a velocidade da luz?
O oficial deixou-se desviar do assunto; ou talvez quisesse apenas estimular Toffner a revelar finalmente seu segredo. Muito afável, disse:
Velocidade da luz? Salta distâncias imensas através do hiperespaço, e conduzirá o cadáver do nosso almirante para Árcon. Ainda lhe falta conhecer muitas das naves de Árcon. Quando o reverei, Garak?
Assim que meu amigo chegar de Larg.
Pois bem. Se você não aparecer, mandarei procurá-lo. E sabe que somos capazes de encontrar quem quer que seja.
Afirmação bastante exagerada, mas Garak não protestou. Enquanto isso, não tirava os olhos da pequena nave. Pensava nela, pensava, pensava, pensava...
E era ótimo que pensasse.
Sob a arena, Betty Toufry via nitidamente a nave, tão intensa era a imagem transmitida por Toffner. Gucky associou-se igualmente à mensagem telepática, e aprontou-se para o salto.
Ontem, ainda, tal idéia teria sido impraticável, porém agora não restava outra alternativa. Osega precisava ser retirado da nave.
Sem deixar pista alguma!
Toffner despede-se agora, mas ainda parou no portão, olhando para trás. Contempla a nave. E pensa nela. Posso saltar agora, Rosberg.
O major acenou.
Salte, Gucky!
E o rato-castor desapareceu diante de seus olhos.

* * *

Toffner deixou o terreno perigoso sem ser detido, e perdeu a nave de vista. Porém já não tinha importância. Betty conhecia sua posição.
E, na pequena nave, o almirante arcônida Calus repousava sobre um amplo leito, em seu pomposo uniforme. Dois robôs montavam guarda de honra. Seus braços não eram armados, porém carregavam espingardas de raios. No teto abobadado da pequena central ardia uma lâmpada mortiça. Os controles automáticos estavam regulados. A qualquer momento, a nave poderia decolar.
Gucky teve sorte. Rematerializou-se às costas dos dois robôs, que não o viram.
O rato-castor fitou a face pálida de Osega. Conhecera bem o sargento, e passara bons momentos em sua companhia. E agora Osega estava morto, estendido no lugar do homem que realmente deveria morrer.
Gucky reprimiu a raiva que o invadia. Não era hora de cismar sobre fatos que já não podiam ser alterados. Osega tinha que ser levado para as catacumbas, a fim de ter um enterro decente. Aqueles dois robôs testemunhariam o inacreditável, porém, se tudo corresse conforme o acertado, não teriam oportunidade para passar adiante a informação.
Tudo era questão de segundos.
Cautelosamente, para economizar o precioso tempo, Gucky inclinou-se, e segurou o braço de Osega. Estava frio e rígido. Ocorreu ao rato-castor que pela primeira vez em sua vida tinha que transportar um cadáver.
O contato físico estava feito; Gucky concentrou-se no esconderijo sob a arena, e desmaterializou-se.
O processo durara menos de dez segundos. Os dois robôs continuavam imóveis e mudos, fazendo guarda de honra ao almirante. Talvez nem dessem por seu desaparecimento, se naquele instante o comandante da nave, igualmente robô, não entrasse na central. Recebera a ordem de partir.
Estacou atônito no umbral da porta. Seus olhos, fulgurantes lentes, fixaram-se no leito em que Calus estivera deitado. Antes que pudesse interpelar os guardas, aconteceu a desgraça.
O mutante de duas cabeças, Ivã Ivanovitch Goratchim, encontrara tempo suficiente, após o retorno de Gucky, de concentrar-se em seu objetivo, seguindo as indicações de Betty Toufry. Suas misteriosas ondas mentais puseram em andamento o processo de desintegração atômica. Cálcio e carbono transformaram-se em energia, no espaço de um único segundo.
Na orla do espaçoporto produziu-se uma explosão atômica. No lugar anteriormente ocupado pela nave levantou-se repentinamente um cogumelo de fumaça, crescendo com rapidez em direção do céu crepuscular de Zalit. Só então a cratera se tornou visível. Da nave, dos dez robôs, e dó cadáver do Almirante Calus não restara o menor vestígio.
Toffner, ainda nas vizinhanças do espaçoporto, encaminhando-se apressadamente para o esconderijo, viu e ouviu a explosão. Soube, então, que o plano funcionara. Em breve, os arcônidas o procurariam, pois fora a última pessoa a ser vista no espaçoporto...
Alcançou as catacumbas sem incidentes, e considerou-se em segurança.

* * *

Prepararam um jazigo para Osega num nicho rochoso afastado, e sepultaram-no com uma singela cerimônia. O Major Rosberg fez uma breve oração, relembrando o morto que dera sua vida não só pela Terra, mas também pela raça alienígena dos zalitas. Era uma ironia do destino, o sargento ter morrido pelas mãos do povo que desejava libertar.
Ainda conversaram um pouco, antes de se recolherem.
Osega era um sujeito bacana — disse Gucky, com tristeza.
Precisamos informar Rhodan — sugeriu Betty Toufry. — Será um alívio para ele saber que a ameaça foi afastada.
Rosberg acenou.
Vou tratar disso mais tarde.
O silêncio caiu sobre o grupo de cinqüenta pessoas. Contingente audaz num posto perigoso, a mais de trinta mil anos-luz da Terra, e a vinte metros sob a superfície de um planeta. Logo os comandos de busca dos arcônidas entrariam em ação.
Porém sabiam que Rhodan já tinha nas mãos a chave para a fortaleza de Árcon. Atlan já comandava uma nave do Império. O regente mal suspeitava que seu mais perigoso adversário estava tão perto.
Não, a situação não era tão negra quanto lhes parecera inicialmente.
A explosão no espaçoporto, por desprezível que pudesse parece diante das explosões de uma verdadeira guerra, abalara os alicerces de um reino estelar.
Árcon encontrava-se diante da hora decisiva de sua milenar existência.
Porém os arcônidas ainda não sabiam disso...






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Os “Recrutas de Árcon” conseguiram contornar ou anular todas as medidas de segurança do regente-robô, graças aos poderes mentais dos mutantes.
Apesar disso, o destino do grupo de combate chegou a ficar por um fio, pois o cadáver do sargento terrano que passava por almirante arcônida, teria revelado tudo, caso o levassem para Árcon...
Em A Chave do Poder, título do próximo volume, o comando alcança Árcon e...

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