O ara
Bóris parecia apático ao deixar o recinto, a fim de dirigir-se ao
seu quarto. Após a breve pausa do meio-dia, o trabalho recomeçaria.
Monótono e sem novidades, como sempre.
Quando
Bell lhe informou que o derradeiro grupo passara pelos exames sem
dificuldade, Rhodan tranqüilizou-se. A parte mais árdua da “invasão
furtiva”
fora superada. Dificilmente precisavam recear a descoberta agora.
Até
agora, os cálculos de Rhodan tinham sido corretos, porém deixara de
levar em consideração determinado ponto.
Ao ouvir o
ligeiro zumbido do minúsculo hiper-receptor oculto em seu relógio,
lembrou-se do tal ponto.
Ligou o
aparelho com um aperto de dedo, e emitiu o sinal de que estava pronto
para receber. Podia comunicar-se agora com o Major Rosberg.
— Aqui
posto avançado V-4, Sir. Aconteceu uma coisa horrível, Sir.
A voz de
Rhodan tremia ao dizer:
— Conte,
major...
E o Major
Rosberg contou...
5
Quando se
aproximaram de Tagnor, a tempestade de areia amainara.
Sobre o
deserto brilhava novamente o céu limpo. O sol vermelho Voga descia
inapelavelmente para a linha do horizonte, porém Murgo afirmara que
alcançariam a capital antes de escurecer. Aviões isolados passavam
a grande altura, sem baixar ou tentar uma aterrissagem.
— Talvez
nem estejamos sendo controlados — disse Rhog, otimista.
Mas o
barbudo chefe da caravana sacudiu a cabeça.
— Não
podemos contar com isso — discordou. — Pessoa alguma pode entrar
ou sair de Tagnor sem ser detida. A linha de controle ainda se
encontra à nossa frente.
Prosseguiram
em silêncio. Tagnor ficava além do horizonte. A não ser que
tivesse a consciência limpa, ninguém ousaria entrar em Tagnor.
Porém, dos onze zalitas componentes da caravana, nenhum tinha a
consciência limpa.
Os
contornos da cidade começaram a delinear-se ao longe. O espaçoporto
com as demais instalações à esquerda; as silhuetas de naves
esféricas e esbeltos cargueiros zalitas destacavam-se do deserto.
Junto a eles, alguns cruzadores.
— Chegamos
ao ponto crítico — observou Murgo, apontando para a frente.
Na
claridade decrescente, Rhog reconheceu os tanques dos robôs. Estavam
dispostos a intervalos de cem metros. Totalmente impossível romper
aquela barreira!
Com uma
das mãos, Rhog segurou o punho de sua arma, que não lhe valeria de
muito. Com a outra, apalpou o passe falsificado. Os robôs
perceberiam a alteração feita?
Murgo
deteve seu veículo ao ver dois robôs encaminhar-se para eles.
Desceu desajeitadamente da cabina, e foi ao encontro dos emissários
de Árcon. Rhog não entendeu uma só palavra do diálogo, mas sabia
que Murgo tentava explicar aos robôs a finalidade da caravana,
supostamente vinda de Larg. Talvez conseguisse.
Porém,
depois o coração de Rhog quase parou de bater. Sombras emergiam do
escuro, na retaguarda. Um oficial arcônida e quatro robôs
guerreiros juntaram-se ao grupo.
Um
arcônida era mais difícil de ser iludido do que um robô.
Também
Murgo sabia disso, e levou tremendo susto. Havia previsto o controle
por parte de robôs, mas jamais contara com o aparecimento de um
arcônida. A situação se complicava.
— Mande
seus homens se aproximarem — disse o oficial, secamente. — E que
tragam todos os documentos de identificação.
Murgo
sentiu a ameaça em potencial, porém dominou-se. Nada de muito sério
poderia acontecer a ele, e a seus nove homens, pois tinham os passes
especiais do almirante. E, a rigor, a sorte de Rhog lhe era
indiferente, apesar de ser constrangedora a presença de um homem com
passe falsificado na caravana. No entanto...
— Apresse-se!
Murgo
ficou nervoso, e correu para os veículos.
— Desembarquem!
— gritou. — E tragam seus documentos.
“Bem,
a exigência não é das mais severas”,
pensou. “Só
espero que o arcônida não queira controlar a carga”.
Mesmo
desconhecendo ele próprio o conteúdo dos volumes, era fácil
concluir que estes não deveriam conter apenas animais. Suposição
mais do que correta, devido às misteriosas operações na caverna.
O oficial
examinou minuciosamente cada documento, dedicando evidente interesse
aos passes especiais. Rhog procurou eximir-se ao controle, porém os
robôs estavam atentos. Quando tentava afastar-se com os zalitas já
vistoriados, foi detido.
— Ainda
não mostrou seu passe — disse um deles, segurando-o pelo braço.
O oficial
percebeu o incidente.
— Venha
cá, zalita! Seu passe!
Rhog
pressentiu que sua missão fracassaria!
Na sua
pistola havia duas, no máximo três cargas. Poderia liquidar aquele
arcônida; mas de que lhe adiantaria? Os quatro robôs — na
realidade, eram muitos mais — acabariam imediatamente com ele. E
matariam também todos os integrantes da caravana.
Sua mão
soltou a coronha da arma. Tirou o passe do bolso, e estendeu-o ao
arcônida. Em vão procurou achar uma saída, e teve de reconhecer
que não existia nenhuma.
O oficial
tomou o passe, e olhou-o atentamente. Por fim ergueu os olhos
avermelhados de albino, nos quais se lia surpresa. Como se a presença
de Rhog não estivesse em seu programa. O arcônida parecia até um
tanto desorientado.
— O
passe foi falsificado — disse ele, finalmente.
Na sua voz
não havia nem triunfo, nem ódio. Também denotava desorientação.
— Preciso
levá-lo comigo. A caravana pode seguir.
Murgo
suspirou de alívio. Pelo visto, não o responsabilizavam pela
presença de Rhog. Porém queria prevenir-se, para não tornar a
passar mais uma vez por situação semelhante, e talvez pôr em
perigo a carga.
— Poderia
dar-me uma declaração? — pediu.
— Para
quê?
— Para
mostrar, caso me detenham novamente. A mim, pouparia novos
retardamentos, e os robôs de Árcon não seriam ocupados
desnecessariamente, podendo dedicar-se a tarefa mais útil.
O
argumento era convincente.
O oficial
acenou, e tirou um papel do bolso, estendendo-o a Murgo. O barbudo
re-lanceou o olhar por ele, e guardou-o. Acenou quase
imperceptivelmente para o pobre Rhog, e retornou a seu veículo. Os
demais zalitas já ocupavam seus lugares junto aos respectivos
volantes.
Segundos
após, a caravana franquearia a linha de controle, seguindo pela rua
principal para o centro da cidade.
Porém
Rhog ficou para trás...
— Siga-me!
— ordenou o arcônida, desistindo de revistar o zalita.
Rhog
agradeceu mentalmente a displicência do arcônida. Talvez ainda
conseguisse evadir-se. E na cidade havia esconderijos em abundância.
Os dois
robôs de guarda retornaram às posições originais. Sem hesitar, o
oficial tomou Rhog pelo braço e saiu andando. Os quatro robôs
acompanharam-nos à retaguarda. Rhog adivinhou que havia oito
radiadores apontados para suas costas, sufocando pela raiz qualquer
esperança de fuga. Correr agora equivalia a suicídio.
As ruas de
Tagnor estavam desertas. Raramente Rhog avistava algum zalita, pois
todos tratavam de esconder-se rapidamente ao avistar o grupo. Nenhum
zalita livre parecia ter a consciência tranqüila, mesmo quando
possuía passe especial.
“Quem
poderia recriminar-me, caso eu tentasse fugir?”,
refletiu. “Tenho
uma missão a cumprir, e por ela arriscarei a vida.”
Tudo
estaria perdido se o enviassem a Árcon.
A
oportunidade de fuga chegou antes do que esperava...
A caminho
do palácio do Zarlt — onde ficava, também, o quartel-general do
almirante arcônida — o grupo passou pela vasta arena de lutas.
Rhog já a conhecia, e sabia que, justamente naquele bairro, inúmeras
ruelas transversais ofereciam ótimos esconderijos.
Antes que
pudesse tomar qualquer iniciativa, foi beneficiado pelo acaso.
Quando o
oficial, Rhog e os robôs dobraram a esquina de uma rua lateral, dois
zalitas surgiram a vinte metros do oficial. Estacaram surpresos ao
dar com a patrulha. Se houvessem prosseguido calmamente em seu
caminho, talvez não tivessem despertado suspeitas. Rhog admirou-se,
aliás, por ver o arcônida reagir, pois, em diversas ocasiões
anteriores, deixara passar sem qualquer observação indivíduos
suspeitos. Mas desta vez foi diferente...
Quando
giraram sobre os calcanhares, disparando de volta pela rua escura, o
arcônida parou, voltou-se e disse:
— R-56 e
R-763! Perseguir e prender os dois!
Dois dos
robôs se puseram imediatamente em movimento, correndo atrás dos
dois suspeitos, desapareceram na rua lateral.
Aí Rhog
agiu como um raio.
Levava
exatamente vinte metros de vantagem; três a quatro segundos,
portanto, se andasse depressa...
Rhog saiu
em disparada!
Dois
metros antes da esquina salvadora, sentiu o calor esbraseante de um
tiro energético. Diante dele, bolhas fervilharam nas paredes. Dobrou
a esquina, e mergulhou na providencial escuridão. Ouviu lá atrás
os pesados passos dos robôs, e a voz estridente do oficial, que
reboava pelo labirinto de ruas abandonadas.
Rhog
precipitou-se através de um beco...
Quando os
dois robôs alcançaram tal viela, não viram mais sinal do fugitivo.
Seus holofotes perscrutaram paredes e portas das casas.
O arcônida
chegou, ofegante a ponto de mal conseguir respirar.
— Onde
está ele? — perguntou aos robôs. — Não pode escapar-nos!
— Desapareceu!
— Revistem
as casas... depressa! Enquanto algumas dúzias de zalitas eram
indelicadamente arrancados do repouso noturno, Rhog prosseguia na
fuga. Esgueirou-se por um porão, saiu pelos fundos dele e acabou num
pátio, onde achou um esconderijo seguro. Ali poderia aguardar
tranqüilamente até o dia seguinte.
Depois de
amanhã, segundo esperava, poderia pôr em execução o plano
longamente acalentado.
*
* *
Naquela
noite, foi Gucky quem saltou para o palácio do Zarlt, a fim de
intercambiar informações com o falso Almirante Calus. Também,
desta vez, Calus estava sozinho. Porém, por via das dúvidas,
trancou a porta, para que nenhuma “visita”
inesperada os surpreendesse.
Eram os
únicos minutos do dia em que Calus podia tirar a máscara, e voltar
a ser o sargento Osega... naturalmente apenas no que se referia à
maneira de portar-se.
— Ah, é
Você! — exclamou, quando viu o rato-castor surgir no meio do
quarto, e gingar em direção da cama, aconchegando-se sobre os
travesseiros. — Não poderia acomodar-se em outro lugar, a não ser
sobre minha cama?
— Em
primeiro lugar, sou tenente, enquanto você é sargento. Portanto,
mereço um pouco mais de respeito quando falar comigo — replicou
Gucky, em tom de censura. — Segundo, a cama pertence a Calus, e não
a você. E por último, camas são o lugar onde me sinto mais à
vontade.
— Primeiro
— retrucou Osega, imperturbavelmente — acho falta de consideração
tratar todos por você, sem diferenciar postos ou nome. Segundo, eu
sou Calus, portanto esta cama agora me pertence. Terceiro, não me
oponho ao uso de minha cama, desde que venha de patas limpas.
Gucky
fungou, furioso.
— Trata-se
da sobrevivência da Terra, e você se preocupa com algumas manchas
em sua cama...
— Sou eu
quem tenho de dormir sobre as manchas de sujeira — lembrou Osega. —
Desembuche agora! Que há de novo?
Gucky
suspirou.
— Esta
mudança de disposição... coisa horrível! Novidades? Ah, sim,
chegou a caravana com os suprimentos enviados pela Califórnia. Tudo
funcionou às mil maravilhas! Nenhuma pane! Amanhã mesmo o pessoal
retornará para buscar a segunda leva.
— Poxa,
graças a Deus! Não poderia trazer-me algumas conservas da nossa
velha Terra? Estou farto da comida artificial arcônida!
— Ora,
que idéia! — protestou Gucky, indignado. — Já imaginou que
alteração produziria aqui o fato de encontrarem em sua cesta de
papéis uma lata com a inscrição “Legítimos
cogumelos bávaros”?
— Ora,
eu detesto cogumelos — objetou Osega.
Realmente,
poderia ter pensado em desculpa melhor, pois Gucky chiou, furioso:
— Cogumelos
ou sardinhas, tanto faz! Não vai ganhar coisa nenhuma! Ordens de
Rosberg! A menor suspeita contra você pode arruinar todos os nossos
planos.
Depois
piscou, e exibiu o dente roedor num sorriso.
— Mas
nada me impede de fazer-lhe um pequeno favor pessoal, meu caro.
Amanhã lhe trago alguma coisa.
— Isto é
o que se chama ser camarada! — louvou Osega, satisfeito, alisando o
pêlo de Gucky, depois de ter sentado na cama ao lado dele. — Como
estarão se saindo Rhodan e seu pessoal?
— Não
tenho idéia, Osega. Só podemos pensar que tudo está correndo bem.
Caso tivesse havido alguma dificuldade, já nos teriam avisado.
Cuidemos, portanto, para que aqui em Zalit tudo se desenrole de
acordo com os planos. Ah, agora me lembro de uma coisa! Enviamos ao
encontro da caravana um tenente arcônida devidamente hipnobloqueado,
acompanhado por quatro robôs também pré-programados. Segundo nos
informara Toffner, a caravana se compunha de dez homens; porém
contava com onze quando foi detida pelo oficial. Como um deles
viajava com um passe muito mal falsificado, o tenente prendeu-o,
tencionando conduzi-lo com a maior pressa possível para o
interrogatório. Porém o homem escapuliu nos arredores das
catacumbas: Bem, não deve ter assim tanta importância, mas achei
que devia saber. Caso ouça qualquer comentário a respeito, reaja
como se não soubesse de nada. Na certa se trata apenas de algum
zalita em fuga diante dos arcônidas.
— Coitado
— disse Osega, sem adivinhar de quem se compadecia. — Não sei,
porém, se poderei fazer algo por ele, caso seja outra vez apanhado.
Nada de comprometer-se, é nossa regra de conduta suprema. Tem razão,
não deve ter grande importância.
Osega não
sabia que estava cometendo o maior erro de sua vida.
— Algum
recado para levar? — indagou Gucky.
— Não,
nada de novo. Amanhã farei o costumeiro pronunciamento na televisão,
e tenciono frisar mais uma vez a importância da campanha em
preparação. Por enquanto Árcon não revelou indício algum acerca
do inimigo contra o qual se dirigem os preparativos de guerra. Todos
pensam que lutará contra os druufs.
— Organizarão
novos transportes?
Osega
sacudiu a cabeça.
— Não,
por estranho que pareça. Temos nos nossos alojamentos o número
necessário de voluntários, mas Árcon suspendeu os transportes
repentinamente. Como se tivesse ocorrido algo inexplicável. Não
aqui, no entanto, porém no próprio sistema de Árcon.
O
rato-castor começou a rir. Seu dente roedor avançou, exibindo-se em
todo seu esplendor.
— Rhodan!
— pipilou ele, eufórico. — Quem mais?
Osega
demonstrou surpresa.
— Julga
que é obra dele? Fantástico!
— Efeito
colateral assaz satisfatório de nosso empreendimento, com o qual nem
contávamos. Agora os pobres zalitas ainda têm uma chance, apesar de
já estarem nos alojamentos.
Osega
acenou.
— De
fato. Talvez nunca sejam levados para Árcon. Lamentável que não
possamos comunicar-lhes o esperançoso fato. Terão que continuar a
viver amedrontados.
— Nada
de amolecer agora, “senhor”!
— disse Gucky, empregando talvez pela primeira vez em sua longa
vida a palavra senhor, se bem que em tom irônico. — Não pode
cometer nenhum erro!
— Os
zalitas tremerão diante de mim — assegurou Osega, estendendo a mão
ao rato-castor. — Até amanhã à noite. E não esqueça de cumprir
sua promessa. Um naco de presunto, seria fabuloso!
— Carnívoro!
— disse Gucky, desdenhosamente, e desmaterializou-se.
Assustou-se,
talvez, com o manifesto apetite de Osega por um pedaço de carne.
Dez
minutos após, Osega dialogou com o oficial arcônida que efetuara o
controle da caravana. Foi informado de todos os detalhes da fuga do
zalita suspeito, portador de um passe falsificado. Despediu o tenente
sem censurá-lo.
Depois foi
dormir.
A manhã
seguinte foi gasta em trabalhos de rotina, depois almoçou — o
cardápio constava de pratos sintéticos — e recebeu alguns
oficiais do alojamento de recrutas. Nada teve a dizer-lhes, pois
Árcon não dera explicação para a suspensão dos transportes.
À tarde,
mandou vir o carro e dirigiu-se à estação de televisão.
O cordão
de robôs de guarda abriu-se, dando passagem ao almirante. Alguns
zalitas imunes ao recrutamento, devido às funções indispensáveis
que exerciam, saudaram o almirante no caminho, com acentuada
subserviência.
Na sala de
transmissões, tudo estava preparado. Diariamente, à mesma hora,
Calus apresentava seu programa de trinta minutos. Quando tomou lugar
diante da mesa semicircular, e começou a ordenar seus apontamentos,
três câmaras apontavam para ele.
Da porta,
o operador zalita de plantão lhe fez sinal.
— Zalitas!
— começou Osega, de modo frio, mas plenamente consciente do quanto
detestava a encenação que era obrigado a fazer. — O regente está
insatisfeito com vocês! Por todos os cantos de Zalit escondem-se os
refratários, e nossos apelos a eles ficam sem resposta. Então, por
ordem do regente, o controle passará a ser mais rígido, e haverá
menos exceções. Só em casos verdadeiramente excepcionais serão
emitidas dispensas do serviço militar. O regente ordenou ainda que,
dentro de no máximo um mês, a totalidade dos zalitas esteja
registrada. Quem quer que seja encontrado após esta data sem passe
válido, deve esperar severa punição, provavelmente fuzilamento.
Osega fez
uma pausa.
O ruído
das três câmeras o deixava nervoso; apesar de dispensarem operador,
pois trabalhavam automaticamente, hoje havia um. Jamais o vira na
central radiofônica.
Cautelosamente,
Osega levou a mão à arma enfiada no cinturão. Contava sempre com a
possibilidade de algum zalita fanático cometer um atentado. Até ali
dentro, literalmente cercado por robôs de guarda.
No
entanto, de que forma poderia algum sabotador chegar até ali?
Proibiam rigorosamente a entrada de qualquer elemento não
pertencente à equipe técnica.
O zalita
verificou o bom funcionamento das câmaras, acenou com a cabeça, e
desapareceu.
Osega
suspirou, aliviado. Junto à porta, um robô imóvel montava guarda.
Seus dois braços armados apontavam para baixo. Mas em questão de
segundos, os mortíferos raios energéticos poderiam disparar em
todas as direções.
— Gostaria
de frisar mais uma vez — continuou Osega em sua arenga — que
Árcon faz questão cerrada de considerar os zalitas como aliados.
Enfrentamos unidos um poderoso adversário, que é preciso aniquilar.
Talvez o alistamento forçado esteja sendo feito com excessivo rigor,
porém Árcon não tem outra escolha.
Neste
ponto do discurso, Osega foi interrompido!
Um zalita
precipitou-se pela porta guardada pelo robô. Esgueirando-se pelo
lado, avançou em direção de Osega. Por trás do falso almirante,
ecoavam gritos e brados de alarme.
O robô
reagiu prontamente, mas não pôde fazer nada. Caso fizesse uso de
suas armas, o Almirante Calus correria perigo sem necessidade.
Aproximou-se rapidamente para a mesa na qual Calus estava sentado.
Porém
Osega já estava de pé. Reconhecera o perigo.
O invasor
zalita encontrava-se agora à sua frente, diante das câmaras.
Milhões de zalitas presenciariam a cena em seus televisores.
— Queremos
que Árcon nos deixe em paz! — berrou Rhog, sacando bruscamente sua
arma. — Mande o robô sair daí, Almirante Calus!
Osega deu
uma ordem ao robô, mas o colosso não obedeceu. Apesar de estar a
três metros deles, não se afastou. O sargento percebeu que
precisava agir depressa, caso quisesse sobreviver. Por outro lado,
não devia comprometer o plano de Rhodan.
Poderia,
naturalmente, dizer ao zalita que ele se enganava, que iria
assassinar o melhor amigo de sua pátria. Poderia dizer-lhe que o
Almirante Calus fora aprisionado pelos oponentes de Árcon há muito
tempo. Porém milhões de zalitas escutariam igualmente suas
palavras... assim como os atentos arcônidas.
Ninguém
providenciou a interrupção da transmissão. Menos que quaisquer
outros, os zalitas. Era uma preciosa oportunidade para mostrar-se
superior aos arcônidas. Tamanha derrota, bem diante das câmaras de
televisão...
Osega via
uma única saída: para continuar vivo, e ao mesmo tempo não revelar
os planos de Rhodan, precisava matar o zalita antes que este o
alvejasse.
Porém
ainda tentou outra solução.
— Espere,
zalita — disse, com a maior calma possível. — Está cometendo um
engano fatal. Não quer escutar-me, antes de agir?
— Morra,
servo do Império! — gritou Rhog, dramaticamente, e ergueu a arma.
— Todos vocês são servos, escravos do cérebro-robô!
Apertou o
gatilho antes que Osega tivesse oportunidade para sacar a própria
arma. O sargento tombou antes de chegar a sentir dor, e morreu diante
dos olhos de um planeta inteiro. Escorregou desamparado ao longo da
quina da mesa, e abateu-se no chão.
Mas também
Rhog morreu. O robô, agora com toda a liberdade de ação, abriu
fogo. Atravessado por três ou quatro raios energéticos, caiu sem um
gemido. Seus companheiros, nas longínquas montanhas, presenciaram
sua morte, junto com os demais habitantes do planeta. Porém seu
sacrifício representava enorme sucesso. Pois também Calus havia
perecido.
Os
mortíferos raios do robô puseram as câmaras fora de ação. Por
toda a parte em Zalit, as telas escureceram, Mas todos sabiam: Calus
está morto!
Algo iria
acontecer!
E boa
porção de zalitas sentiu-se invadida por repentino medo.
Entre
eles, Cagrib e seus amigos, reunidos em silêncio, e cheios de
dúvidas, diante do televisor na caverna que lhes mostrara o
holocausto de Rhog.
6
Quando a
voz de Rosberg emudeceu no minúsculo receptor, Rhodan levou quase
dois minutos para dizer:
— Sinto
a morte de Osega, Rosberg. Ele não precisava ter morrido.
— Mas
não morreu em vão, Sir — replicou Rosberg.
De maneira
alguma, a hipermensagem poderia ser captada. Os ondas radiofônicas
estavam bem concentradas. Mesmo assim, a cautela era recomendável.
Caso alguma nave atravessasse o facho, com o receptor casualmente
ligado na mesma freqüência, sempre seria possível...
— A vida
de uma pessoa é preciosa demais para compensar qualquer utilidade
que trouxesse sua morte. Além disso, o desaparecimento de Osega
representa muito mais prejuízo e perigo para nós, do que proveito.
Que acontecerá se examinarem o cadáver? E Árcon enviará outro
almirante para Zalit. Teremos que substituir também este?
Porém
Rosberg se fixara apenas numa das perguntas...
— Meu
Deus... se examinarem o cadáver! Os arcônidas perceberiam
imediatamente que este Calus era um farsante! Que devo fazer?
— Tire o
cadáver da estação radiofônica, Rosberg! Mande Gucky ir buscá-lo.
— Seria
impraticável. O morto já foi retirado. O Almirante Calus vai ter um
enterro oficial em Árcon.
— Ainda
mais isso! — Rhodan refletia febrilmente. — Impeça-os! De
qualquer maneira! Mais alguma coisa?
Rosberg
hesitou. Sua voz tinha um tom indeciso.
— Precisamos
contar com um agravamento da situação em Zalit. O regente anunciou
uma expedição punitiva.
— Vai
ter de resolver isso também, Rosberg. Não posso prestar-lhe ajuda
no momento. Avise-me, caso as coisas se tornem críticas. Até mais e
boa sorte!
— Da
mesma forma — veio a resposta, e a comunicação foi cortada.
— Se o
regente reconhecer um terrano em Calus, estaremos fritos, Perry —
comentou Atlan, secamente. — Espero que Rosberg consiga fazer o
enterro de Osega.
— Esperemos
que sim — concordou Rhodan, gravemente.
Por maior
que fosse o presente perigo, não tinha meios de contorná-lo de onde
estava. Era como uma espécie de destino, sobre o qual não se tinha
influência alguma.
— Nossa
atual preocupação é evitar a ocorrência de falhas aqui. Amanhã,
conforme informou Seiko, serão feitas as designações. Vamos ver
que espécie de nave nos confiam.
— Sem
instrução, nem formação? — perguntou Bell, admirado.
— O
regente não perde tempo. Ordenou que todos os ex-oficiais espaciais
zalitas sejam nomeados comandantes provisórios. Receberão uma
tripulação à qual deverão ministrar adestramento prático.
Durante os vôos de treinamento.
— Bastante
ortodoxo — disse Atlan, impressionado. — Parecem ter pressa de
atacar a Terra. Estranho, levando em conta que o regente nem sabe
onde procurá-la.
Calou
bruscamente, fitou Rhodan, e acrescentou:
— Ou
saberá...?
— Duvido
— respondeu Rhodan. — Provavelmente trama novo ataque aos druufs.
Olhou para
fora, através da janela. Além das construções achatadas ficava o
pedregoso deserto da lua, que representava um posto avançado de
Árcon. Algumas nuvens eram arrastadas pelo vento gelado, encobrindo
passageiramente a luz das estrelas. Um mundo inóspito, e, no
entanto, em sua superfície se decidiria o ulterior destino da Terra.
Pelo menos no que se referia à primeira fase.
— Não,
não creio, Atlan. Pois se o regente conhecesse a posição da Terra,
já o saberíamos por intermédio do Marechal Freyt, em Terrânia. O
regente teria atacado imediatamente.
— Preocupações
e incertezas! — praguejou Bell, impaciente, rumando para sua cama.
— Vou é dormir, para acabar com estes irritantes pensamentos. Quem
quer minha ração para animais peçonhentos?
Fome todos
eles tinham, porém ninguém se candidatou.
*
* *
Por volta
do meio-dia, tudo estava mais ou menos decidido.
De acordo
com os resultados da inspeção, registrados nas fichas dos aras, o
Almirante Senekho distribuíra o pessoal. Os zalitas com quociente
intelectual elevado foram nomeados oficiais, receberam o posto de
comandante e chefe de grupo; cada qual teve igualmente uma
tripulação. Felizmente Senekho se preocupara em conservar unidos os
vários grupos de treinamento. Unicamente devido a esta
circunstância, Rhodan e seu pessoal não foram separados.
— Então
nossa “banheira”
se chama Kon-Velete — comentou Bell, cansado, ao retornarem para o
alojamento, depois da exaustiva cerimônia de distribuição de
cargos. — E nosso comandante é um tal de Ighur, batizado na vida
civil com o nome de Atlan. Senekho nem se dignou levar em
consideração os antigos postos militares. O Major Sesete e o Major
Roake são agora primeiro e segundo-oficial. E eu sou forçado a
obedecer às ordens de um capitão...
Rhodan
sorriu.
— E que
outra alternativa temos? Pelo menos estamos sendo coerentemente
comandados por um arcônida, que, além disso, vem a ser almirante
legítimo. Que mais poderíamos querer?
— Já é
um consolo — admitiu Bell.
— A
situação é muito mais complicada do que imaginamos. — objetou
Atlan. — A Kon-Velete é uma nave de guerra novinha em folha, da
classe de nossa Stardust, e seu diâmetro é de oitocentos metros. De
certa forma, podemos falar em sorte por termos recebido uma
tripulação de apenas duzentos homens; no entanto, com isso o
Almirante Senekho nos impôs a estreita convivência com cinqüenta
zalitas desconhecidos.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Se
estivéssemos sozinhos na nave, teríamos que agir com igual cautela.
Tenho certeza de que câmaras ocultas informam continuamente o
regente e seus oficiais acerca do comportamento dos novos soldados.
Em outras palavras: como zalitas, teremos de agir demonstrando
claramente que nos sentimos sob observação; como terranos, temos de
conscientizar-nos de que somos incessantemente vigiados. Portanto,
cada segundo de permanência na Kon-Velete passa a ser de total
encenação. Até durante o sono. Espero que ninguém tenha o costume
de falar dormindo, arriscando-se a pronunciamentos comprometedores.
— Preocupo-me
muito mais com a situarão em Zalit — disse Gorlat, hesitante. —
Ignoramos o que se passa lá. Aqui ainda temos a possibilidade de
viver os acontecimentos, mas em Zalit...
Não
concluiu a frase. Antes que Rhodan pudesse replicar, ouviram um
estalido no alto-falante. A voz do robô 574 disse:
— As
tripulações já designadas devem ir para bordo das naves dentro de
duas horas. Vôo experimental em condições de batalha simulada.
Ordens adicionais posteriormente.
O
alto-falante emudeceu.
— É,
eles estão realmente com pressa — comentou Atlan, de modo
sarcástico.
*
* *
Sob certos
aspectos, a Kon-Velete era decepcionante. Apesar de tratar-se de uma
embarcação nova, recém-saída dos estaleiros de Árcon; mas fora
planejada originalmente para robôs. Instalações sanitárias
improvisadas revelavam a rápida conversão para tripulantes humanos.
Os alojamentos sem conforto eram deprimentes.
Atlan
sentia-se meio desorientado na central de comando. John Marshall,
Gorlat, Bell e Rhodan lhe faziam companhia, depois de terem
providenciado a distribuição adequada de todos os membros da
tripulação, tanto terranos como zalitas.
A nave
estava pronta para decolar.
John
Marshall captou telepaticamente a mensagem radiofônica modulada de
Atlan.
— Poderíamos
comunicar-nos desta forma, em caso de necessidade? Pergunte a Rhodan!
O telepata
transmitiu silenciosamente o recado. Rhodan acenou. E depois pelo
receptor de capacete, Atlan recebeu a resposta:
— Sim,
mas só em caso de absoluta emergência. A partir de agora, somos
zalitas dispostos a servir ao regente. Vamos procurar conquistar a
confiança do cérebro-robô.
Atlan
parecia tranqüilizado. Reconfortava-o saber que poderia buscar
conselho em caso de perigo.
Não
puderam evitar que os dois oficiais zalitas Tenente Kecc, e Tenente
Hopro, ocupassem posições importantes. Precisavam evitar suspeitas.
Ambos possuíam quociente intelectual bastante elevado para
justificar encargos de responsabilidade. Por sugestão do Almirante
Senekho, o Tenente Kecc fora até nomeado radioperador-chefe da
Kon-Velete, enquanto Hopro foi designado para a equipe técnica,
entre zalitas e terranos.
— Estas
camas são apropriadas para robôs, e não para gente de ossos
quebráveis — disse Bell em zalita.
“Um
tantinho de crítica é mais do que insuspeito”,
pensou.
— Ainda
tiveram tempo de mudar a linha de produção em Árcon. Quando é que
zarpamos, afinal? — continuou logo depois.
— Lembre-se
de que até agora as naves de Árcon costumavam ser tripuladas
exclusivamente por robôs — disse Rhodan, continuando a conversa
destinada aos ouvidos do regente. — Devemos nos considerar
honrados, nós os zalitas, por nos permitirem substituir os
infalíveis robôs. Por sorte, temos também robôs especiais a bordo
para nos amparar, apesar de estarem sujeitos às ordens de nosso
Capitão Ighur.
Um pouco
afastado, Gorlat contemplava, aparentemente distraído, os controles
da central. Na tela ligada, via-se o espaço-porto de Naator. Sabia
que existia mais de um espaçoporto na lua do quinto planeta.
Nave
alinhava-se ao lado de nave. Uma frota inteira estava pronta para o
primeiro exercício. Caso tudo corresse conforme o programa, não
estaria longe o dia em que o almirante recebesse a ordem decisiva de
conduzir toda a frota para Árcon.
— A
Kon-Velete diferencia-se enormemente de nossos cruzadores zalitas —
constatou Rhodan, com o maior fingimento. — Com tais naves, Árcon
vencerá a guerra.
— Absolutamente
correto, Major Sesete — concordou Bell no mesmo tom, suprimindo até
o costumeiro sorriso irônico. — Sinto-me orgulhoso por poder
servir ao regente sob o comando do Capitão Ighur.
Atlan
decidiu participar também do improvisado jogo de palavras, porém a
porta da central foi aberta, deixando entrar um robô. Dirigindo-se
para Atlan, disse, em sua voz rascante e impessoal:
— O
Almirante Senekho me encarregou de dar-lhe apoio em suas funções.
Fui comandante da Kon-Velete, e trouxe-a de Árcon para cá. Disponha
de mim, capitão.
— Vou
procurar cumprir minhas obrigações sem sua ajuda — replicou
Atlan, respeitosamente.
Era
certamente a primeira vez em sua vida que demonstrava tanta
consideração a um robô, porém queria provar ao regente — caso
ele estivesse escutando secretamente — seu respeito por robôs.
— No
entanto, ser-lhe-hei grato, evidentemente, se puder evitar que eu
cometa erros. Em caso positivo, espero que me alerte a tempo.
— É
exatamente esta minha obrigação— replicou o robô.
Outra tela
se iluminou. A fisionomia de Senekho apareceu nela. O comandante de
Naator disse:
— A
frota decolará dentro de poucos minutos para um vôo de treinamento.
Cada comandante estará em contato direto comigo, recebendo de mim as
instruções para o curso. Hoje quero constatar unicamente se os
diversos comandantes se entrosam bem com as tripulações. Em caso
contrário, faremos substituições. Tudo pronto para a decolagem?
Solicito confirmação por parte dos comandantes.
O
radioperador-chefe entrou na central.
Era um
zalita típico, alto e aparentemente muito prestativo.
— Comunicação
estabelecida, Capitão Ighur. Pode falar com o Almirante Senekho. Vou
providenciar para que o rádio permaneça em funcionamento, e possa
ser operado da central.
— Obrigado,
Tenente Kecc — replicou Atlan, tornando a voltar a atenção para a
tela que mostrava Senekho. — A Kon-Velete está pronta para
decolar, almirante. Aguardamos suas ordens.
7
Gucky não
pudera acompanhar Rhodan para Naator porque, nem com a melhor boa
vontade, e apesar dos recursos disponíveis, seria possível
disfarçá-lo de zalita. Porém não se encontrava só na desgraça.
Outro mutante se revelaria por sua figura: o “incendiário”
Ivã Ivanovitch Goratchim. Pois Ivã possuía duas cabeças. Não
era, no entanto, sua característica mais destacada. Era capaz de
transformar em energia pura qualquer espécie de matéria que
contivesse um mínimo traço de cálcio ou carbono; e isto a grandes
distâncias, e geralmente sob a forma de uma tremenda explosão, de
natureza atômica.
Ivã vinha
a ser uma arma inimaginavelmente perigosa, quando empregado de
maneira adequada. O filho de cientistas russos fora descoberto
outrora na Sibéria pelo Supercrânio, um dos grandes adversários de
Rhodan, há anos passados. Derrotado o Supercrânio, Ivã passou a
integrar o Exército de Mutantes.
O Major
Rosberg começou a sentir-se mal com o silêncio. Olhou de relance
para Gucky e disse:
— Não
vejo possibilidade de tirar o cadáver de Osega das garras dos
peritos arcônidas. Nem sabemos, presentemente, onde é que ele está.
Só sei que vamos passar um mau momento, caso constatem que Calus não
é Calus.
Acocorado
sobre uma cadeira, o rato-castor deixava Betty Toufry acariciar-lhe o
pêlo, como se não houvesse outra preocupação em todo o mundo. À
sua frente, sentavam-se Ishy Matsu e o mutante de duas cabeças.
— Em
Tagnor vivem ainda cerca de vinte milhões de zalitas, sem contar os
forasteiros presentes, e os arcônidas. E todos estes vinte milhões
pensam, se bem que se ocupem apenas com assuntos tolos e supérfluos.
Porém pensam, e isso é decisivo. Cada pensamento representa uma
pista, um impulso. E precisam ser investigados um por um. Mas quanto
tempo levaremos para examinar todos eles?
Rosberg
sabia disso, e nem pensava em recriminar o rato-castor.
— Osega
não existe mais, senão poderia informar-nos. Mais do que lógico
que participassem ao Almirante Calus onde se encontra o cadáver —
ora, que bobagem estou dizendo! Mas é para qualquer um perder o
juízo!
Gucky riu
sardonicamente.
— Dê-se
por feliz por ter um para perder, Rosberg. Mesmo que soubéssemos
onde está o cadáver de Osega, como poderíamos resgatá-lo sem
despertar suspeitas? Se algum arcônida puser os olhos sobre mim...
— Aí é
que está! — concordou Rosberg. — Vamos ter que desistir de seus
serviços. O cadáver precisa desaparecer, nem mais, nem menos. Mas
de modo algum deve desaparecer em circunstâncias misteriosas. Que
problema mais complicado!
O Major
Rosberg era militar, habituado à ação direta. Porém surripiar o
cadáver de Osega equivalia realmente a um verdadeiro caso policial.
Tal ação não era adequada à sua índole.
— Quem
sabe Toffner consiga alguma coisa — consolou Betty Toufry,
interrompendo sua busca telepática. — Perdi-o momentaneamente,
assim como seus dois amigos. Rondam os arredores do palácio.
— Espero
que sim — disse Rosberg. — Além disso, dificilmente descobririam
tão depressa a falsa identidade de Calus. O disfarce de Osega é
excelente. E por que se lembrariam de radiografar um morto?
— Não
devemos raciocinar nestes termos — avisou um dos cientistas do
departamento bioquímico, destacado para ficar em Tagnor. — As
probabilidades de descoberta reduzem-se no máximo a cinco por cento,
mas até isso já é demais. Precisamos apossar-nos do cadáver de
Osega! Aliás... — acrescentou, com um olhar de relance para os
nichos encortinados onde trabalhavam seus colegas — ...que faremos
com o verdadeiro Calus? Continua sendo prisioneiro nosso.
— Talvez
Rhodan o solte algum dia, depois que isso tudo tiver acabado —
opinou Rosberg. — De momento, não nos serve de nada.
Betty, que
tornara a aprofundar numa espécie de meditação, levantou
repentinamente a cabeça.
— Creio
— disse ela com convicção — que achei uma pista.
Rosberg
indagou:
— Toffner?
Ela acenou
em silêncio, e voltou a escutar o confuso burburinho de milhões de
impulsos mentais, dos quais um único os interessava.
*
* *
Os três
zalitas possuíam os passes especiais assinados por Calus,
isentando-os do serviço militar. Mas até quando, naquelas
circunstâncias, a assinatura do almirante teria validade? Portanto,
continuava sendo perigoso aproximar-se muito dos arcônidas. Porém
não lhes restava outra alternativa, caso quisessem prestar ajuda a
quem os amparara anteriormente.
Toffner
não era zalita, naturalmente, fato do qual nem Kharr, nem Markh
suspeitavam. Arranjara passes para ambos, e eles fariam tudo que
estivesse ao seu alcance para demonstrar sua gratidão, assim como
aos amigos de seu benfeitor.
Um robô
encaminhou-se para eles, a passadas firmes; fazia parte do cinturão
de controle do palácio. Os arcônidas não gostavam de fiar-se nos
soldados do Zarlt, a despeito da aparente fidelidade deste ao
regente.
— Que
procuram aqui? — indagou em sua voz metálica.
Toffner
exibiu o passe, e a licença especial.
— Sou
Garak, o administrador da arena de lutas. Estes dois homens são meus
auxiliares. Tentamos organizar novos jogos, a fim de levantar o moral
dos zalitas. Solicitamos uma entrevista com o Zarlt.
— Por
que não se alistaram na frota?
— Somos
incapazes para o serviço militar, todos os três. Eis os documentos
comprobatórios.
O robô
examinou conscienciosamente os papéis, mas parecia indeciso se
concedia ou não permissão para entrarem no palácio.
— Esperem!
— ordenou e dirigiu-se para o portão.
De repente
parou, sem mais um movimento. Toffner sabia que o fato nada tinha de
extraordinário. O robô estava simplesmente pedindo instruções a
seus superiores, através do rádio.
O robô
voltou.
— Meus
oficiais acham que o reinício dos jogos atrairá muitos homens para
Tagnor. A audiência com o Zarlt foi concedida. Entrem.
Toffner
suspirou intimamente, porém ao mesmo tempo, sentiu-se tomado por
enorme preocupação. Realmente, veriam Zarlt, e falariam com ele; no
entanto, a verdadeira finalidade da entrevista era outra. Talvez
viessem a saber algo acerca do paradeiro do cadáver de Calus, se é
que o Zarlt fora informado a respeito.
O robô
acompanhou-os até a entrada, onde os entregou a dois soldados
zalitas, pertencentes à guarda pessoal do Zarlt. Apesar de não
serem vistos com bons olhos, continuavam sendo zalitas. E, afinal,
não tinham outra escolha: precisavam obedecer ao Zarlt e aos
arcônidas, caso não quisessem partilhar o destino dos
“voluntários”.
Tiveram
que identificar-se por mais duas vezes, antes de penetrar no palácio
propriamente dito. Foram recebidos por um zalita vistosamente
fardado.
— O
Zarlt o espera, Garak. Sigam-me.
Kosoka era
idoso, e fraco demais para opor-se à vontade dos arcônidas. Ainda
estava imbuído da milenar reverência pelos senhores do Império,
apesar de o poder já ter passado há muito tempo para um
cérebro-robô. O Zarlt Kosoka era servidor do regente — servidor
digno de toda a confiança, por seu medo e cansaço.
Ele
ocupava uma poltrona elevada na sala de audiências, e recebeu os
visitantes com ar indeciso.
— É por
causa da arena? — perguntou ele, depois de Toffner, Markh e Kharr
fazerem suas reverências. — Não temos jogos há muito tempo. Por
quê, Garak?
— Não
há gladiadores, senhor, faltam também as expedições necessárias
para capturar animais selvagens. Aqui está Markh, o negociante de
animais. Não pode ir sozinho para o deserto, a fim de aprisionar
haracks ferozes.
Kosoka
acenou.
— Compreendo,
Garak. Você veio fazer-me uma proposta. Fale!
Toffner
percebeu que se desviavam cada vez mais do verdadeiro objetivo de sua
visita. Mas talvez fosse necessário.
— Existem
muitos zalitas considerados incapazes durante as inspeções.
Poderíamos convocá-los para apoiar Markh numa expedição pelo
deserto, pagando-os bem, claro.
— Markh
não pode arranjar homens por si próprio?
Toffner
admirou-se por encontrar rapidamente uma desculpa.
— Não,
e bem que ele tentou, Zarlt. O pessoal anda desconfiado. Enxergam
ciladas arcônidas por trás de qualquer oferta. Mesmo quando possuem
o atestado de isenção, vivem atormentados pela incerteza. Só
conseguiríamos homens, caso o Zarlt lhes garantisse a segurança num
pronunciamento público.
O homem
idoso hesitou. No íntimo, concordava com os argumentos de
Garak-Toffner, porém não sabia se deveria aceitá-lo prontamente.
— Tenho
que aguardar a chegada do sucessor de Calus — disse, numa evidente
tentativa de ganhar tempo. — O novo almirante deve chegar nos
próximos dias. No entanto, receio que... — involuntariamente sua
voz ficou mais baixa — ...Árcon não esteja lá muito satisfeito
conosco no momento. O assassinato de Calus...
— Uma
vergonhosa nódoa em nossa história — lamentou Toffner,
falsamente. — O Almirante Calus era grande amigo de Zalit e de seus
habitantes. Pena seu assassino ter morrido tão depressa; mereceria
uma morte mais lenta.
Pelo menos
haviam chegado ao assunto. Talvez pudesse arrancar do Zarlt algum
comentário revelador. No entanto, Toffner ignorava que havia sido
localizado pela telepata Betty Toufry, que agora escutava toda a
conversa. Além disso, era capaz de captar igualmente os pensamentos
do Zarlt, e não apenas “ouvir”
suas palavras.
— O
Almirante Calus será substituído por um homem severo — disse
Kosoka, sem grande interesse. — Talvez até por alguém que proíba
os jogos, e invalide os passes especiais. Ouvi comentários a
respeito.
— Mais
um motivo para amaldiçoar o assassino. Eu venerava Calus, pois
livrou-me do serviço militar. Chegou a falar comigo certa vez,
quando me encontrou na rua. Gostaria de vê-lo mais uma vez, antes
que seja levado para Árcon.
O Zarlt
inclinou-se ligeiramente, e fitou Toffner.
— O
cadáver...?
— Sim, o
cadáver de Calus! Por que não prestar-lhe minha reverência, se
representa um homem que venero?
Kosoka
voltou a recostar-se em seu assento.
— Infelizmente
não vai ser possível, Garak. O cadáver do Almirante Calus já se
encontra a bordo da nave que o conduzirá a Árcon. Ser humano algum
o acompanhará, pois a nave é tripulada por robôs. O último vôo
de Calus será este. O espírito dele pilotará o cruzador-correio.
Toffner
sentiu-se como se tivesse recebido um soco no rosto. Era o que queria
saber, e as coisas estavam pretas para ele próprio, e para os
demais, caso o Zarlt falasse a verdade.
Despediu-se
com algumas frases tolas sobre a arena, prometendo voltar assim que o
novo almirante tivesse chegado.
Os três
homens puderam deixar o palácio sem maiores dificuldades. Rumaram
pelo caminho mais curto para o esconderijo nas catacumbas. Para sua
surpresa, constataram que o pessoal já estava informado.
Em
resposta à pergunta de Toffner, Betty Toufry explicou:
— O
Zartl não mentiu, falou a verdade. O cadáver de Osega já se
encontra numa pequena nave-torpedo, tripulada por dez robôs. As
coordenadas foram determinadas. A nave deve decolar assim que o novo
almirante chegue, e dê a ordem. Portanto, ainda temos dois dias. Até
lá...
A telepata
silenciou, desalentada.
Toffner
fitou o Major Rosberg.
— E
agora, Sir? De jeito nenhum poderemos tirar Osega de uma nave
arcônida. Caso o retirarmos de lá, as suspeitas se voltarão para o
Exército de Mutantes. Tal grupo é conhecido demais para que sua
intervenção não se revele flagrantemente. Não podemos apelar para
telecinese ou teleportação!
— Receio
que tenha razão — concordou o major, mergulhando em profunda
reflexão.
*
* *
Enquanto a
mais de três anos-luz, o comandante Ighur empreendia, junto com seus
duzentos homens, o segundo vôo experimental, com total satisfação
do almirante, a situação, em Zalit, se agravava cada vez mais.
O sucessor
de Calus chegara, e trazia terríveis ordens. Dali por diante, todo
zalita encontrado com uma arma devia ser fuzilado. Também devia
esperar a pena de morte quem não se apresentasse à comissão de
recrutamento. Os papéis expedidos por Calus foram declarados sem
valor. O portador precisaria submeter-se a nova inspeção.
De um dia
para outro, a situação se modificara.
Para
Rosberg, não foi fácil aceitá-la. Afinal, o Calus por cuja morte
responsabilizavam e puniam os zalitas, ainda estava vivo.
Hipnobloqueado, o apático e desmemoriado almirante descansava em seu
modesto leito, sem causar o menor problema. Porém não podia ser
libertado. Seu aparecimento provaria imediatamente ao regente que seu
mais perigoso adversário estava por perto. Em vez de melhorar, a
situação pioraria.
Os dois
zalitas Markh e Kharr recusavam deixar o esconderijo. Não sabiam que
seus amigos eram terranos, porém adivinhavam que seus passes haviam
perdido a validade. Caso fossem detidos, iriam parar com toda a
certeza no espaçoporto, no acampamento dos conscritos. Toffner
mostrou opinião contrária.
— Mesmo
que a assinatura de Calus não valha mais nada, na certa não
começarão a prender ainda hoje todo portador de passe. O processo
de reformulação vai durar semanas. Não tenho o menor receio de ser
visto em Tagnor. Se me intimarem a comparecer diante da comissão de
recrutamento, eu vou.
Com uma
risada, concluiu:
— Sem
dúvida terei permissão para ordenar meus assuntos privados antes da
partida para Árcon. O Zarlt me ajudará.
Betty
Toufry, que estava de vigília, controlando telepaticamente os
arcônidas, disse:
— A nave
de Osega vai decolar ainda esta noite. Acabei de sabê-lo, escutando
a conversa de alguns oficiais.
Rosberg
acenou.
— Discutimos
tudo detalhadamente ontem, e o plano continua de pé. Cada
participante conhece sua tarefa. Você é o primeiro, Toffner. Como
estação-de-relé, se me permite designá-lo por este nome, sabe o
que tem a fazer. Desejo-lhe boa sorte.
— Bem
que vai precisar dela! — piou Gucky. — Se tiver azar, vou
resgatá-lo. “Andando”
depressa, ninguém me verá.
— Fará
o que eu ordenar! — declarou Rosberg, com rispidez fora do comum.
Ainda
excitado, dirigiu-se a Toffner:
— Vá,
agora. Não podemos perder mais um só minuto.
Toffner
saiu sem se despedir. Conhecia sua tarefa, e a cumpriria.
Alcançou
a primeira zona policiada, diante do aeroporto, sem ser detido. A
sensação de estar constantemente em contato com seus amigos,
através de Betty Toufry, tranqüilizava-o; apesar de unilateral,
porque ele não era telepata. Mas eles estariam sempre a par do que
acontecia em torno dele.
— Agora
vem o primeiro controle — sinalizou ele, quando os dois robôs de
guarda lhe barraram o caminho.
Exibindo
seus papéis, declarou:
— Gostaria
de falar com um oficial — sem demonstrar temor continuou,
atrevidamente: — Informações importantes.
— De que
natureza? — quiseram saber os robôs.
— Isso
não posso revelar. Saibam apenas que se trata de desertores. Sei
onde se escondem.
Aquilo
causou efeito. Toffner recebeu permissão para entrar na área do
espaço-porto. O oficial mais próximo fora avisado, disseram-lhe;
podia prosseguir sem receio de ser detido novamente.
Passou
livremente pelos controles seguintes. Poucos minutos depois viu-se
diante de um jovem tenente, cuja atitude arrogante o identificava
como um arcônida autêntico.
— Quem é
você? — perguntou o oficial.
Toffner
deu as explicações exigidas, gastando muito tempo nisso.
Impaciente, o tenente insistiu:
— Disseram-me
que trazia informações importantes para nós.
— Sim,
creio que são importantes — replicou Toffner, hesitando. — É
sobre os desertores. Ontem encontrei um conhecido meu de Larg. Afirma
saber onde se escondem os zalitas que recusam servir nosso Império.
A despeito
de sua arrogância, o tenente não era nada tolo.
— E por
que quer delatar seus compatriotas?
— Não
por motivos egoístas — assegurou Toffner, com fingida sinceridade.
— E parece-me que não se trata de delação quando se é fiel ao
Império de Árcon.
Surpreso
com o argumento, o oficial ficou sem resposta. Porém a arrogância
inata logo readquiriu a supremacia.
— Não
pedi sua opinião. Diga o que sabe, e vá embora.
“Que
sujeitinho!”,
pensou Toffner, furioso, enquanto sorria com suavidade e deferência.
Avistara
uma pequena nave em forma de torpedo na orla do espaçoporto. Diante
dela, uma guarda de honra formada por robôs arcônidas.
Devia ser
aquela! Mas queria ter certeza.
— Meu
conhecido voltou a Larg, porém tornarei a vê-lo dentro de poucos
dias. Então saberei maiores detalhes. Não haveria sentido em
iniciar as buscas já agora, e afugentar os desertores. Eu só queria
que estivesse informado.
O tenente
parecia desapontado.
— Não
sabe onde eles estão?
— Em
algum lugar nas montanhas, ao norte do deserto, mas desconheço o
local exato — fez uma pausa, e apontou para a nave-torpedo. —
Servi outrora num cruzador comercial. Conheço tudo quanto é nave,
até as arcônidas, mas nunca vi uma tão pequenina. Alcança a
velocidade da luz?
O oficial
deixou-se desviar do assunto; ou talvez quisesse apenas estimular
Toffner a revelar finalmente seu segredo. Muito afável, disse:
— Velocidade
da luz? Salta distâncias imensas através do hiperespaço, e
conduzirá o cadáver do nosso almirante para Árcon. Ainda lhe falta
conhecer muitas das naves de Árcon. Quando o reverei, Garak?
— Assim
que meu amigo chegar de Larg.
— Pois
bem. Se você não aparecer, mandarei procurá-lo. E sabe que somos
capazes de encontrar quem quer que seja.
Afirmação
bastante exagerada, mas Garak não protestou. Enquanto isso, não
tirava os olhos da pequena nave. Pensava nela, pensava, pensava,
pensava...
E era
ótimo que pensasse.
Sob a
arena, Betty Toufry via nitidamente a nave, tão intensa era a imagem
transmitida por Toffner. Gucky associou-se igualmente à mensagem
telepática, e aprontou-se para o salto.
Ontem,
ainda, tal idéia teria sido impraticável, porém agora não restava
outra alternativa. Osega precisava ser retirado da nave.
Sem deixar
pista alguma!
— Toffner
despede-se agora, mas ainda parou no portão, olhando para trás.
Contempla a nave. E pensa nela. Posso saltar agora, Rosberg.
O major
acenou.
— Salte,
Gucky!
E o
rato-castor desapareceu diante de seus olhos.
*
* *
Toffner
deixou o terreno perigoso sem ser detido, e perdeu a nave de vista.
Porém já não tinha importância. Betty conhecia sua posição.
E, na
pequena nave, o almirante arcônida Calus repousava sobre um amplo
leito, em seu pomposo uniforme. Dois robôs montavam guarda de honra.
Seus braços não eram armados, porém carregavam espingardas de
raios. No teto abobadado da pequena central ardia uma lâmpada
mortiça. Os controles automáticos estavam regulados. A qualquer
momento, a nave poderia decolar.
Gucky teve
sorte. Rematerializou-se às costas dos dois robôs, que não o
viram.
O
rato-castor fitou a face pálida de Osega. Conhecera bem o sargento,
e passara bons momentos em sua companhia. E agora Osega estava morto,
estendido no lugar do homem que realmente deveria morrer.
Gucky
reprimiu a raiva que o invadia. Não era hora de cismar sobre fatos
que já não podiam ser alterados. Osega tinha que ser levado para as
catacumbas, a fim de ter um enterro decente. Aqueles dois robôs
testemunhariam o inacreditável, porém, se tudo corresse conforme o
acertado, não teriam oportunidade para passar adiante a informação.
Tudo era
questão de segundos.
Cautelosamente,
para economizar o precioso tempo, Gucky inclinou-se, e segurou o
braço de Osega. Estava frio e rígido. Ocorreu ao rato-castor que
pela primeira vez em sua vida tinha que transportar um cadáver.
O contato
físico estava feito; Gucky concentrou-se no esconderijo sob a arena,
e desmaterializou-se.
O processo
durara menos de dez segundos. Os dois robôs continuavam imóveis e
mudos, fazendo guarda de honra ao almirante. Talvez nem dessem por
seu desaparecimento, se naquele instante o comandante da nave,
igualmente robô, não entrasse na central. Recebera a ordem de
partir.
Estacou
atônito no umbral da porta. Seus olhos, fulgurantes lentes,
fixaram-se no leito em que Calus estivera deitado. Antes que pudesse
interpelar os guardas, aconteceu a desgraça.
O mutante
de duas cabeças, Ivã Ivanovitch Goratchim, encontrara tempo
suficiente, após o retorno de Gucky, de concentrar-se em seu
objetivo, seguindo as indicações de Betty Toufry. Suas misteriosas
ondas mentais puseram em andamento o processo de desintegração
atômica. Cálcio e carbono transformaram-se em energia, no espaço
de um único segundo.
Na orla do
espaçoporto produziu-se uma explosão atômica. No lugar
anteriormente ocupado pela nave levantou-se repentinamente um
cogumelo de fumaça, crescendo com rapidez em direção do céu
crepuscular de Zalit. Só então a cratera se tornou visível. Da
nave, dos dez robôs, e dó cadáver do Almirante Calus não restara
o menor vestígio.
Toffner,
ainda nas vizinhanças do espaçoporto, encaminhando-se
apressadamente para o esconderijo, viu e ouviu a explosão. Soube,
então, que o plano funcionara. Em breve, os arcônidas o
procurariam, pois fora a última pessoa a ser vista no espaçoporto...
Alcançou
as catacumbas sem incidentes, e considerou-se em segurança.
*
* *
Prepararam
um jazigo para Osega num nicho rochoso afastado, e sepultaram-no com
uma singela cerimônia. O Major Rosberg fez uma breve oração,
relembrando o morto que dera sua vida não só pela Terra, mas também
pela raça alienígena dos zalitas. Era uma ironia do destino, o
sargento ter morrido pelas mãos do povo que desejava libertar.
Ainda
conversaram um pouco, antes de se recolherem.
— Osega
era um sujeito bacana — disse Gucky, com tristeza.
— Precisamos
informar Rhodan — sugeriu Betty Toufry. — Será um alívio para
ele saber que a ameaça foi afastada.
Rosberg
acenou.
— Vou
tratar disso mais tarde.
O silêncio
caiu sobre o grupo de cinqüenta pessoas. Contingente audaz num posto
perigoso, a mais de trinta mil anos-luz da Terra, e a vinte metros
sob a superfície de um planeta. Logo os comandos de busca dos
arcônidas entrariam em ação.
Porém
sabiam que Rhodan já tinha nas mãos a chave para a fortaleza de
Árcon. Atlan já comandava uma nave do Império. O regente mal
suspeitava que seu mais perigoso adversário estava tão perto.
Não, a
situação não era tão negra quanto lhes parecera inicialmente.
A explosão
no espaçoporto, por desprezível que pudesse parece diante das
explosões de uma verdadeira guerra, abalara os alicerces de um reino
estelar.
Árcon
encontrava-se diante da hora decisiva de sua milenar existência.
Porém os
arcônidas ainda não sabiam disso...
*
* *
*
*
*
Os
“Recrutas de Árcon” conseguiram contornar ou anular todas as
medidas de segurança do regente-robô, graças aos poderes mentais
dos mutantes.
Apesar
disso, o destino do grupo de combate chegou a ficar por um fio, pois
o cadáver do sargento terrano que passava por almirante arcônida,
teria revelado tudo, caso o levassem para Árcon...
Em A
Chave do Poder,
título do próximo volume, o comando alcança Árcon e...

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