Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
MARIA
MADALENA WÜRTH TEIXEIRA
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Seus
disfarces são perfeitos — porém um cadáver pode pôr tudo a
perder...
A
descoberta da espaçonave arcônida acidentada na Lua, foi ponto de
partida para a unificação política da Humanidade. Hoje, a Terra
tornou-se centro de um império... o Império Solar!
O novo
império — minúsculo em comparação com as numerosas outras
potências cósmicas — subsistiu unicamente devido às inteligentes
jogadas de Perry Rhodan e de seus colaboradores. No grande jogo
galáctico, impediram que a Terra desaparecesse num inferno de
destruição atômica, ou fosse degradada à condição de colônia
de Árcon.
E a
sorte costuma ser fiel a quem se mostra capaz...
Confiando
nesta sorte, Perry Rhodan traça o ousado plano de penetrar, com um
grupo de combatentes terranos, até a central de seu maior oponente,
o robô regente!
Porém
antes que os “Recrutas de Árcon” — designação sob a qual os
especialistas terranos foram alistados, após terem se radicado no
planeta dos zalitas — possam efetivamente se aproximar do
cérebro-robô, a fim de executar sua ação destruidora, espera-os a
Escola de Guerra Naator.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Jeremy
Toffner
— Agente
cósmico da Terra.
Roger
Osega
— Valente
sargento terrano.
Rhog
— Um
zalita que mata o homem errado.
Bóris
— Médico
ara.
Vários
membros do Exército de Mutantes.
1
O
gigantesco sol vermelho estava alto no céu, brilhando sobre a
paisagem desértica. Os raros arbustos davam pouca sombra. O solo
arenoso elevava-se gradativamente, passando a um trecho pedregoso, de
onde se erguia abruptamente a massa montanhosa. Vista do leste, era
difícil perceber-se alguma brecha na extensa cordilheira; no
entanto, havia vales, pelos quais transitaram em tempos pacíficos as
caravanas comerciais.
Caravanas
modernas, evidentemente, com tratores de esteira, e pesados
transportes de carga.
Porém em
Zalit, quarto planeta do sol Voga, não reinava paz. Também não
havia guerra. Mas a simples proximidade do sistema Árcon bastava
como ameaça. E três anos-luz não eram lá grande distância...
O reino
estelar dos arcônidas, governado por um imenso cérebro-robô,
necessitava de soldados. Ia buscá-los nos mundos coloniais, que não
ousavam opor-se à exigência. E Árcon reforçava sua já poderosa
frota bélica, a fim de atacar um planeta distante e desconhecido, a
mais de trinta mil anos-luz. Mas o nome deste planeta não era
desconhecido: Terra!
Inúmeros
esconderijos espalhados pela superfície de Zalit abrigavam os homens
válidos, evadidos dos grupos de busca arcônidas. Ali viviam e
esperavam. Ignoravam quando lhes seria possível retornar aos lares,
mas tinham tempo. Amigos forneciam os alimentos, e o desconforto da
prisão voluntária lhes parecia mais aceitável do que os campos de
treinamento arcônidas, em algum mundo ignoto.
Não
estavam interessados na guerra dos arcônidas.
Nem
ousavam rebelar-se abertamente, conscientes de que sua débil frota
espacial não tinha chance alguma contra as supernaves de Árcon.
Afinal, como combater contra os robôs que as tripulavam? Além
disso, não podiam confiar no Zarlt. Privado de outra opção, o
regente já idoso procurava entender-se com os arcônidas.
No cume
mais elevado, um jovem estava de sentinela. Tinha o habitual cabelo
cor de cobre dos zalitas, e a pele vermelha. Suas roupas folgadas
pareciam grandes demais para ele. Dali avistava amplo trecho do
deserto; à distância, a quinhentos quilômetros, ficava Tagnor, a
capital do planeta.
Mas Tagnor
estava ocupada pelos arcônidas com seus robôs. No espaçoporto
haviam instalado o centro de mobilização dos conscritos para o
serviço militar. Dali, os recrutas seriam levados para Árcon, onde
era feito o treinamento final.
Em Zalit,
o almirante arcônida Calus representava seu povo. Homem capaz e
inteligente, mas ao mesmo tempo cruel e implacável, quando se
tratava de executar as ordens do cérebro-robô.
Era sobre
este arcônida que se concentrava o ódio dos zalitas.
O
sentinela solitário no alto da montanha desviou o olhar do horizonte
leste, onde ficava sua cidade natal Tagnor. Perscrutou o deserto
próximo, sem constatar qualquer movimento suspeito. Alguns animais
pastavam ao pé da montanha, onde crescia um pouco de capim.
Encontrava-se
num platô circundado por um muro baixo. Uma saliência rochosa acima
dele oferecia boa cobertura. Não raramente, planadores arcônidas
passavam em vôo rasante por ali, à procura de possíveis
desertores.
O zalita
sorriu sarcasticamente. Seu grupo tivera muita sorte até então.
Compunha-se de cerca de duzentos homens em idade militar. Reunidos
pelo acaso, tinham decidido permanecer juntos até os arcônidas
abandonarem Zalit.
Estremeceu
ao ouvir um ruído na trilha rochosa, mas logo se tranqüilizou.
Devia ser o revezamento. Chefe regular não existia no grupo; coesão
e atividades eram ditadas pelo senso comum. No entanto, Cagrib, que
vinha substituí-lo, teria sido o candidato mais elegível ao posto
de chefe, caso pensassem em escolher um.
— Satisfeito
por me ver? — perguntou Cagrib, surgindo por detrás dá rocha. Com
um olhar certificou-se de que tudo estava em ordem. — Espero que o
tempo não lhe tenha parecido longo demais, Rhog.
— Não a
céu aberto — declarou o solitário vigia, sacudindo a cabeça;
gesto que em Zalit significava o mesmo que na longínqua Terra. —
Enquanto fizer bom tempo...
— Temos
novas notícias — interrompeu o outro. — Calus acaba de fazer
novo pronunciamento.
O
almirante dos arcônidas falava quase diariamente, através de todas
as estações de televisão de Zalit, anunciando novas e drásticas
medidas destinadas a atingir os objetivos desejados.
— Dizem
que agora até homens maduros devem se apresentar. Ninguém está
mais a salvo deles.
Rhog
disse, com amargura:
— Nós
estamos seguros. Mas será que apenas isto nos agrada? Contentar-se
em ver nosso povo dominado, e os jovens serem arrastados para a
escravidão? Por que não fazemos alguma coisa?
— O quê?
— perguntou Cagrib, desanimado. — Acha que assassinar o tal Calus
resolveria? Mencionou isso certa vez. Mas certamente mandariam outro,
ainda mais cruel e impiedoso. Que ganharíamos com a troca?
Rhog
debruçou-se sobre o muro.
— Não
sei, realmente não sei... Mas revolto-me com a inatividade forçada.
Algo precisa ser feito, nem que seja apenas para provar a nossos
compatriotas que não estão sós.
Cagrib
fitou o céu luminoso. Lá longe, no horizonte, formavam-se algumas
nuvens, prenunciando chuva.
— Calus,
então...? É, talvez devêssemos eliminá-lo, realmente. Vou falar
com os outros a respeito. Não será difícil enviar um dos nossos a
Tagnor...
— Eu
vou! — ofereceu-se Rhog, prontamente.
Porém
Cagrib recusou.
— Não,
Rhog, você é esquentado demais. Seria preso, e quem passa pelo
psicodetector dos arcônidas é incapaz de manter-se calado. Aguarde,
precisamos pensar nisso com calma.
Rhog
acenou, e encaminhou-se para a trilha que conduzia ao esconderijo nas
cavernas. Sabia que uma revolta estava se iniciando. Finalmente,
cessara o período de espera ociosa. Iam começar a agir!
No
entanto, nem suspeitava de que o grupo se preparava para cometer a
espécie de erro que poderia vir a ser responsável por uma ulterior
catástrofe.
*
* *
E o grupo
tornou a errar quando, após longa confabulação, indicou justamente
Rhog para executar o planejado atentado. Era quem melhor conhecia
Tagnor, e saberia onde esconder-se. Afirmava, além disso, dispor de
boas relações no palácio do Zarlt, onde amigos seus faziam parte
da guarda do regente. Através deles, poderia obter valiosas
informações acerca da movimentação diária do almirante.
Porém o
erro capital residia no fato de quererem eliminar o maior amigo de
Zalit.
Coisa que
os renitentes ao serviço militar não podiam saber, evidentemente;
guiavam-se apenas pela lógica, mas na presente situação o
pensamento lógico não era suficiente.
Precisaram
de um dia inteiro para modificar a aparência externa de Rhog. Se bem
que velhice não garantiria zalita algum das garras da comissão de
recrutamento arcônida... No entanto, um homem jovem despertaria
muito mais suspeita. Sem mudar o nome, alteraram o passe de Rhog,
registrando nele idade e sinais característicos muito mais adequados
a seu avô do que a ele próprio.
A viagem
para Tagnor representava dificuldade adicional. Inviável usar o trem
pneumático subterrâneo, sujeito a controle permanente: Rhog seria
fatalmente descoberto. E os rebeldes não dispunham de um único
veículo. Portanto, só restava o caminho das caravanas, duzentos
quilômetros ao sul. Ali, Rhog teria possibilidade de arranjar
carona.
— Vai
ter que andar! — constatou Cagrib, objetivamente, sacudindo a
cabeça. — Será que agüenta o esforço? Infelizmente não podemos
arriscar nosso planador; só temos este, e representa a única
ligação com as outras cidades.
— Podiam
deixar-me perto de Tagnor — sugeriu Rhog.
— E
perder o avião? — Cagrib sacudiu novamente a cabeça. — Além
disso, diriam com sua pista mais depressa. Não, tara de seguir mesmo
pelo caminho mais árduo. No meio de uma caravana, poderá entrar sem
ser notado na cidade. Não vejo outra possibilidade.
Rhog
conformou-se. Tinha que conformar-se, ou corria o risco de lhe
tirarem o encargo. E ele fazia questão de ser o libertador de Zalit
e de seu povo; eliminaria o tirano com suas próprias mãos.
Três dias
depois do breve diálogo no cume da montanha, Rhog pôs-se a caminho.
Um viajante solitário, com escassas provisões. Rumou para o sul,
onde ficava o vale entre as montanhas, ponto de passagem obrigatório
das caravanas comerciais. Num raio de duzentos quilômetros, era a
única passagem existente.
À
direita, a quinhentos quilômetros, ficava Tagnor. À esquerda, por
trás dos picos das montanhas, e além do deserto, ficava Larg. Rhog
possuía amigos nesta cidade, porém ignorava o atual paradeiro
destes confrades. Talvez já estivessem a caminho de Árcon...
Ajuda...? Não, não podia contar com ajuda, e era melhor não
esperar nem contar com nada neste sentido. Dependia exclusivamente de
si mesmo.
O sol
avermelhado surgiu por trás das montanhas, e avançou rapidamente
pelo firmamento. A sacola de mantimentos pesava. Porém mais ainda
pesava a pequena arma em seu bolso. Preferira não indagar a Cagrib
como fora parar em seu poder. Fabricação arcônida, provavelmente.
O minúsculo depósito energético no cabo bastava para dois ou três
mortais disparos. Depois disso, a pistola de raio filiforme se
tornava imprestável, caso faltasse cartucho de reposição. E não
havia nenhum!
À
direita, o deserto se estendia até o horizonte. Parecia
interminável. E, no entanto, além dele ficava a maior cidade de
Zalit, com trinta milhões de habitantes, e o mais amplo espaçoporto
do planeta.
Rhog
contornava de perto a montanha, a fim de acobertar-se
instantaneamente no caso do aparecimento de uma patrulha aérea
arcônida. Com alguns passos, poderia sumir entre as pedras. Teria
sido melhor caminhar durante a noite; dificilmente poderia perder-se
caso seguisse sempre ao longo da cordilheira. Mas à noite também
circulavam por aí os sanguinários haracks, feras carnívoras muito
usadas na arena de lutas. Vira, certa vez, um daqueles monstruosos
felinos despedaçar um gladiador. Desde então, passou a detestar a
arena.
Chegou o
meio do dia, depois a tarde.
Rhog
escolheu uma das numerosas cavernas para pernoitar. Segundo seus
cálculos, percorrera bem quarenta quilômetros naquele dia. Mais
quatro — ou três, quem sabe — e alcançaria o objetivo. Então
lhe bastaria ir andando pela estrada das caravanas, sempre para o
leste, e não tardariam a recolhê-lo. Ninguém lhe perguntaria o que
ia fazer em Tagnor. E não precisava recear ataques arcônidas ali,
em pleno deserto.
Adormeceu,
mas acordava, agitado, diversas vezes. Julgava ouvir ruídos. Por fim
o céu clareou diante da boca da caverna. Rhog preparou uma refeição
simples, antes de reencetar a caminhada. Fascinava-o a idéia de
transformar-se no herói de seu povo, livrando-o do impiedoso
almirante arcônida. Mesmo que lhe custasse a própria vida...
Percorreu
mais de sessenta quilômetros durante o dia, e sentiu que
necessitaria de um período de descanso mais prolongado. Senão
sofreria uma estafa. Conseqüências da inatividade: faltava agora o
preparo físico.
Quando se
dispôs a procurar uma caverna, já havia escurecido. Mas o trecho
era bastante desfavorável, e não aparecia nenhuma. Só rocha a
pique, elevando-se a centenas de metros de altura.
Rhog foi
tateando a parede, na esperança de dar com alguma cavidade protetora
que lhe permitisse dormir, sem correr o risco de ser devorado pelos
haracks. À sua direita, os derradeiros reflexos do sol-posto se
esvaíam no horizonte. As primeiras estrelas brilhavam debilmente, e
não havia lua.
Rhog
estacou.
Aquilo não
fora um ruído? Certamente não se tratava de nenhum engano. Um
rugido abafado, garras arranhando a pedra...? Imóvel, de costas
contra a pedra, ficou à escuta. A arma deslizou para sua mão quase
automaticamente.
“Antes
desperdiçar uma das preciosas cargas energéticas do que ser
vitimado por alguma fera carniceira”, pensou.
Reinava
total silêncio, e a escuridão aumentava. Dentro em pouco, finda a
passagem do dia para a noite, a luminosidade aumentaria. Voga, o sol
de Zalit, ficava quase no centro da Via-láctea. Incontáveis
estrelas constelavam o céu noturno, despendendo luz suficiente para
distinguir sombras vagas.
Não se
ouvia o menor som. Portanto, devia realmente ter-se enganado.
Rhog
seguiu adiante. A mão esquerda corria de leve sobre o paredão,
incrivelmente parelho. Nem sinal de caverna. Devia ter procurado
abrigo para a noite mais cedo. Sabe-se lá por quanto tempo ainda
teria que continuar procurando agora?!
Quando a
mão subitamente deixou de encontrar resistência, e tateou no vazio,
quase caiu. Transferiu o peso do corpo para a perna direita,
conseguindo equilibrar-se.
O paredão
sumira, para recomeçar cinco metros adiante, e prosseguir a perder
de vista. Mas ali havia uma abertura...
Rhog já
nem esperava mais achar alguma caverna, ou pelo menos uma pequena
gruta. Ajeitou a mochila, e introduziu-se na estreita fenda. Logo
percebeu que não era tão estreita assim, e mais extensa do que
esperara. O afastamento inicial, que era de quatro metros entre as
paredes laterais, crescia cada vez mais. Dali a instantes, não se
via mais parede alguma, apesar da claridade crescente.
Reconheceu
então a vasta planície enclausurada entre as montanhas, rodeadas de
altos paredões rochosos. Erguendo a cabeça, viu o recorte circular
do céu, recamado de milhares de estrelas.
O vale
media, aproximadamente, quinhentos metros de diâmetro.
E a pouca
distância dele brilhava uma fogueira!
Devia
arder dentro de uma caverna, pois podia distinguir apenas vultos
imprecisos.
Rebeldes?
Zalitas que se recusavam servir na guerra?
Rhog
sentiu-se invadido por uma súbita esperança. Esquecendo toda a
cautela, encaminhou-se para o fogo crepitante. Sem dúvida, aquela
turma achara ótimo esconderijo! Ele próprio só dera com a entrada
do vale por puro acaso.
A sua
direita, sombras se destacavam das rochas. Pareceram-lhe familiares.
Regulares demais para serem confundidas com simples pedras.
E de
repente compreendeu de que se tratava.
Veículos
que transportavam mercadoria através do deserto, com evidente
economia sobre as dispendiosas tarifas aéreas!
Fora parar
no acampamento de uma caravana.
“Uma
caverna aqui, tão ao norte? O grande vale entre a cordilheira ainda
fica a cem quilômetros para o sul”,
refletia Rhog. “Por
que uma caravana se afastaria tanto dele apenas para pernoitar?”
Havia algo
de estranho com aquela caravana!
Porém
precisava acautelar-se apenas contra os arcônidas, e nunca contra as
autoridades de Zalit. Se bem que, atualmente, nem estas mereciam
confiança total.
Tinha de
descobrir do que se tratava, e, para isso, só havia um meio.
Com a mão
direita crispada em torno do cabo da pistola, esgueirou-se na direção
da fogueira, ainda semi-encoberta pelas saliências rochosas.
Uma ordem
enérgica às suas costas, dada em voz alta, fê-lo estremecer e
parar.
— Quieto,
e mãos para cima, meu amigo! É perigoso demais aproximar-se
sorrateiramente da fogueira de um acampamento em plena noite, sem
primeiro se anunciar.
Lentamente,
com muito cuidado, Rhog retirou a mão direita vazia do bolso, e
ergueu-a junto com a esquerda.
Alguém se
aproximou dele pelas costas, tirando-lhe a pistola.
— Muito
bem, amigo. E agora gostaríamos de saber quem é que anda passeando
pelo deserto durante a noite. Trate de ir preparando uma resposta
plausível. Ande, venha comigo!
Aos
tropeções, Rhog caminhou para a caverna onde brilhava o fogo.
*
* *
A cidade
de Tagnor assemelhava-se a um campo de guerra. Por todo lado viam-se
patrulhas-robôs arcônidas. Quem não podia apresentar o certificado
emitido pelas comissões de alistamento era inevitavelmente detido.
Poucos homens circulavam pelas ruas. A maioria de transeuntes era
composta de altas e esbeltas mulheres zalitas.
À direita
da larga rua que levava ao palácio em forma de funil do Zarlt,
ficava a arena. Estava deserta e abandonada. Há muito tempo não se
realizavam espetáculos nela. No entanto, Garak esforçava-se
visivelmente para arranjar animais selvagens e gladiadores para os
jogos.
Acabava de
regressar de Larg, onde tratara de alguns assuntos que certamente
interessariam bastante o Almirante Calus. Inteiramente satisfeito
consigo mesmo e com Zalit, Garak dirigiu-se para seu esconderijo, nas
catacumbas da arena. Examinou os arredores cautelosamente antes de
desaparecer no largo corredor em declive, entrada para seu mundo
subterrâneo.
Estava
escuro, e teve que acender sua lanterna portátil, a fim de não
errar a entrada. Finalmente viu-se diante da porta secreta. Indício
algum na rocha lisa revelava sua existência. Porém, sob a pressão
da mão espalmada, um painel de pedra deslizou para o lado. Uma onda
de luz envolveu Garak, enquanto a porta tornava a cerrar-se às suas
costas.
Encontrava-se
num vasto recinto escavado na pedra, subdividido em nichos por
muretas baixas. Diversos zalitas aguardavam-no com expressão
esperançosa.
— E
então, Toffner...? Que foi que conseguiu?
O homem
não falava o habitual idioma zalita, ligeira variação do arcônida,
e sim o inglês. De repente Garak passou a chamar-se Toffner. E
Toffner era agente cósmico da Terra.
— Tudo
bem até aqui, major. Nosso amigo em Larg, Hhokga, organizou uma
caravana que cruzara o deserto para chegar até a capital. Com nossos
passes, teve facilidade em recrutar voluntários. A caravana partiu
anteontem, e deve alcançar a caverna hoje. Teve de seguir pelo vale
e, depois cem quilômetros para o norte, desviar-se. Espera por nós
no pequeno vale entre as montanhas.
O Major
Rosberg, especialista em transmissores de matéria do serviço de
defesa do Império Solar, acenou, satisfeito.
— Ótimo!
Minha mensagem hiper-radiofônica para a Califórnia seguiu ontem. O
cruzador entregará o material pedido amanhã de manhã, hora da
Terra, que será, casualmente, idêntica à hora de Zalit.
Com estas
poucas palavras, o major sintetizava um amplo programa, não
desprovido de riscos. Apesar de a Califórnia emergir da transição
apenas por um minuto — prazo mais do que suficiente para ligar seus
cinco transmissores de matéria e despachar o material — este único
minuto podia ser catastrófico. O espaço em torno de Zalit estava
bloqueado pelas naves arcônidas.
No fundo
do recinto subterrâneo, “algo”
se moveu e chegou para perto. Este “algo”
media um metro de altura, possuía pêlo marrom, tinha a aparência
de um enorme rato, além de uma larga cauda de castor. O ente
postou-se diante dos dois homens, piando com voz aguda:
— Então
deve estar na hora de ligar a estação receptora do transmissor na
caverna, não é?
O Major
Rosberg e Toffner acenaram simultaneamente.
— Certo,
Gucky — confirmou Rosberg ao estranho ser que falava tão
corretamente o inglês. — Porém podemos esperar até amanhã cedo.
Então você poderá saltar em companhia dos três homens.
Referia-se
às qualidades teleportadoras de Gucky. O rato-castor era ainda
telepata e telecineta. A rigor, vinha a ser o mais versátil mutante
do Império Solar, fato do qual se envaidecia desmedidamente.
Gucky
empinou as enormes orelhas, exibiu o dente roedor num sorriso
amistoso, e voltou com seu andar bamboleante para o canto do recinto
subterrâneo. Toffner acompanhou-o com um olhar divertido.
— Perderíamos
um bocado de tempo se não tivéssemos Gucky — constatou. — E
tudo seria muito mais arriscado.
— Rhodan
devia saber por que deixou Gucky conosco — comentou Rosberg,
aproximando-se de uma mesa, com Toffner. Sentaram-se no banco tosco.
— Betty Toufry acha que nos próximos dias os zalitas recrutados
serão transportados para Árcon. Espero que desta vez eles possam ir
também.
Falava de
Rhodan e de seus cento e cinqüenta homens. Disfarçados de zalitas,
encontravam-se no centro de recrutamento dos arcônidas. Tinham
conseguido apoderar-se dos postos-chave. E agora aguardavam
impacientemente o momento de serem levados para Árcon com os demais
zalitas — estes, aliás, muito a contragosto. O transporte iminente
seria uma verdadeira Tróia para Árcon, pois os terranos seriam os
guerreiros ocultos no ventre do cavalo de pau.
— Por
que não iriam?
— Hoje
levaram cinqüenta mil, Toffner. Rhodan e nossa gente não estavam
entre eles. Quantos zalitas você pensa que os arcônidas já
recrutaram?
Como
Toffner calasse, Rosberg mudou de assunto, e perguntou:
— Que
diz Hhokga de sua sugestão?
— Procurei-o
assim que cheguei a Larg. Primeiro mostrou-se cético, porém
convenceu-se diante de nossos excelentes passes, que trazem até a
assinatura de Calus. A caravana chega à caverna hoje; amanhã já
poderá tomar o caminho de Tagnor. Podemos contar com sua chegada
para daqui a três dias.
— É o
momento crítico! — disse o Major Rosberg. — Temos de estar com
ela, antes que seja detida por robôs na entrada da cidade. Talvez
lancemos mão de um oficial arcônida, para auxiliar-nos. Temos os
meios necessários para administrar-lhe um hipnobloqueio. Então ele
fará apenas o que lhe ordenarmos. Podíamos até escolher aquele
indivíduo pré-preparado que encontrou aí fora no corredor há
alguns dias. Procure localizá-lo em Tagnor amanhã, e traga-o para
cá. Com a ajuda dele, introduziremos a caravana na cidade, sem
qualquer dificuldade. Sob a proteção da noite, vai ser brincadeira
trazê-la para as catacumbas.
Toffner
replicou, pensativo:
— Vivi
três anos em Zalit, como único terrano; apesar de sentir-me meio
isolado, estava em relativa segurança. Agora não estou mais só.
Mas não pense que me sinto mais seguro.
— O
cérebro-robô, regente do império arcônida, trama o aniquilamento
da Terra, Toffner. Rhodan pretende adiantar-se a ele, executando um
ataque de surpresa. É a única oportunidade que tem para salvar a
Terra.
— Sei
disso... — concordou Toffner. Porém, durante o resto do dia,
conservou-se bastante calado.
Na caverna
ardia realmente uma fogueira.
À luz
bruxuleante, Rhog distinguiu nove zalitas. Alguns deles repousavam
sobre cobertores junto à parede, e ergueram-se ao vê-lo tropeçar
na entrada e parar. Outros, sentados diante do fogo, fitaram-no com
curiosidade.
— Vejam
só o que achei aí fora, no escuro! — disse o homem que trazia
Rhog para dentro da caverna. — Quer fazer-me crer que encontrou o
vale por acaso. E está armado, ainda por cima, com uma pistola
arcônida. Bastante suspeito, não acham?
Um zalita
barbado levantou-se, acercando-se vagarosamente do prisioneiro.
— Quem é
você? — indagou.
Rhog olhou
em torno cautelosamente antes de responder. Não conseguia
compreender em que espécie de situação se metera por acaso. Aquela
gente evidentemente não integrava nenhuma caravana normal. No centro
da ampla caverna via-se um objeto estranho, composto de duas partes:
um bloco metálico aparentemente pesado e maciço, e uma gaiola.
Parecia realmente uma gaiola, mas Rhog compreendeu logo que devia
tratar-se de outra coisa. Bastava olhar os brilhantes condutores de
energia entre bloco e gaiola para chegar a tal conclusão.
— Sou
Rhog, de Larg — disse, por fim. — Meu veículo sofreu uma pane, e
andei vinte quilômetros até achar este vale. Não compreendo...
— Larg?
Nós viemos de Larg, e forçosamente o encontraríamos no caminho.
— Podemos
ter-nos desencontrado.
— Hum, é
possível.
O barbudo
parecia refletir. Depois estendeu a mão.
— Tem
documentos?
Rhog
hesitou. Estranho pedirem-lhe os documentos... Mas deviam ter suas
razões, e ele não fazia questão de despertar mais interesse e
desconfiança. Enfiando a mão no bolso, tirou o passe. O barbudo
apanhou-o, e examinou detidamente o papel. Segurou-o contra a luz do
fogo, sacudiu repetidamente a cabeça, e devolveu-o a Rhog.
— Por
que alteraram a data do nascimento, Rhog?
Rhog
assustou-se. Agora tudo estava perdido, caso a caravana tivesse
ligação com os arcônidas. E mentir seria inútil. No entanto, nada
o obrigava a revelar a finalidade de sua ida a Tagnor.
— Para
evitar o recrutamento — replicou ele, com a maior serenidade que
conseguiu aparentar. — Passando por velho, me deixam em paz.
— Bem
possível — concordou o barbudo, tornando a sentar-se próximo do
fogo. — Venha cá, vamos conversar mais um pouco.
O homem
que aprisionara Rhog saiu da caverna, a fim de prosseguir em sua
ronda.
Rhog tomou
lugar ao lado do barbudo. Os demais zalitas deitaram-se outra vez,
como se o assunto não lhes dissesse respeito. Apenas três homens
permaneceram com ele, em torno da fogueira. Fitando as chamas
crepitantes, pareciam esperar que o barbudo tomasse a iniciativa.
Talvez fosse o chefe do grupo.
— Fale a
verdade, faça o favor! — disse o barbudo, em voz seca e
autoritária.
Rhog
percebeu que não lhe restava outra escolha, caso não quisesse
complicar desnecessariamente sua situação.
— Posso
confiar em vocês?
— Dou-lhe
minha palavra — declarou seu interlocutor.
Rhog
fitou-o nos olhos, e sentiu que podia acreditar no barbudo. Não, não
se tratava de nenhum delator.
— Estou
fugindo dos arcônidas. E só!
— Conforme
pensei, amigo. No entanto, pergunto-me por que vai de Larg para
Tagnor. Ali o perigo é muito maior.
— Em
Tagnor possuo amigos; em Larg, não. Posso esconder-me em casa deles.
Algum dia os arcônidas terão soldados suficientes, e deixarão
Zalit novamente. Posso fazer uma pergunta também?
O barbudo
concordou com um aceno.
— Quem
são vocês? Apenas uma caravana comum? Por que não receiam ser
detidos pelos arcônidas, e serem forçados a servir na frota
espacial?
— Quem
diz que não corremos este risco?
— Dirigem-se
a Tagnor?
— Sim,
vamos para Tagnor.
— Pois
então, correm tal risco! — constatou Rhog. — Ou julgam que os
arcônidas deixarão de perceber um tão numeroso grupo de homens
sadios?
O barbudo
refletiu por instantes, e concordou:
— Claro
que perceberão, porém temos ótimos documentos. Melhores do que o
seu, por exemplo. Atestam que já passamos pela comissão de
recrutamento, e fomos considerados inaptos. Nada pode nos acontecer.
Rhog
inclinou-se para a frente, interessado.
— Quer
dizer que pertencem igualmente a um movimento de resistência? — em
seus olhos brilhou uma centelha de ânimo. Não estava mais sozinho.
— Vocês estão acobertados por uma organização que está em
condições de fornecer papéis falsos?
O barbudo
sacudiu a cabeça, remexeu no bolso e tirou um documento
repetidamente carimbado.
— Esta
assinatura aqui... — e apontou para um nome abaixo do carimbo
principal — ...não é falsa. É do Almirante Calus, feita por seu
próprio punho.
— Não
compreendo... — disse Rhog, totalmente confuso.
— Nem
precisa compreender — tranqüilizou-o o zalita barbudo. — O
importante é que seguirá para Tagnor em nossa companhia, amanhã.
No entanto, ainda depende de três homens que se reunirão conosco
aqui, amanhã. Caso não oponham objeções, poderá viajar com a
caravana.
— Três
homens? Quem são eles...?
— Não
devia fazer tantas perguntas — censurou delicadamente o barbudo. —
Quem muito pergunta, muita mentira escuta. E agora procure um canto
para dormir. O dia de amanhã será cansativo. Temos que carregar
nossos veículos, e você poderá ajudar.
Rhog
examinou a caverna. A não ser a esquisita armação, semelhante a
uma gaiola, nada via para ser carregado. E lá fora no escuro vira
apenas veículos. Se estavam vazios e descarregados, onde estaria a
carga a transportar?
Algo não
fazia sentido em tudo aquilo. Mas o quê? E por que devia
preocupar-se com isso?
O barbudo
parecia adivinhar suas dúvidas, e sorriu.
— Não
quebre a cabeça, meu amigo. Vai precisar dela ainda, especialmente
amanhã. Pois para ficar espantado, a gente precisa ter cabeça.
Rhog
reconheceu a irrespondível lógica daquele argumento, e procurou um
lugar para dormir no chão rochoso.
Fosse qual
fosse a aventura que o esperava, pelo menos estava seguro na caverna,
e nenhum harack viria despedaçá-lo.
*
* *
Aproximadamente
à mesma hora, seis homens sentados em torno de uma mesa, num recinto
bem iluminado, conversavam em voz baixa. As palavras murmuradas se
tornavam inaudíveis a uma pessoa que estivesse a dois metros. A
cautela era justificada, pois o recinto fazia parte de um edifício
situado no espaçoporto de Tagnor. E ambos se encontravam em mãos
arcônidas.
Todos
tinham aparência de zalitas. No entanto eram terranos.
Os cabelos
de Perry Rhodan apresentavam reflexos acobreados à luz da lâmpada.
Sua pele era a de um índio. Os bioquímicos de seu comando especial
haviam executado tarefa de mestre. Rhodan e seus companheiros viraram
autênticos representantes da linhagem arcônida, pois os zalitas
descendiam de antigos colonizadores do Império. E era,
primordialmente, graças aos conhecimentos de seus bioquímicos que
Rhodan podia misturar-se agora com os zalitas.
À sua
direita, achava-se Reginald Bell; a despeito do físico um tanto
atarracado, e da estatura baixa, passava por verdadeiro zalita. À
esquerda, encontrava-se o Capitão Hubert Gorlat. Era agora um
capitão zalita, que se apresentara voluntariamente para servir na
frota do regente-robô.
Os outros
três homens eram o teleportador africano Ras Tschubai, o telepata
John Marshall e o professor Eric Manoli.
Rhodan
dizia no momento:
— ...não
pode demorar muito. O regente faz muita questão de que os soldados
sejam treinados, e não os deixaria ficar ociosos em Zalit. No
próximo transporte, no máximo na segunda leva, iremos com certeza.
— É
chato Calus não poder fazer nada — comentou Bell, piscando com os
olhos. — Em todas as nossas ações, ele nos ajudou.
Rhodan
lançou-lhe um olhar de censura. Totalmente sem razão, aliás, pois
se um único de seus numerosos segredos fosse revelado, estariam
perdidos. Porém o segredo sobre a personalidade de Calus era o maior
e o mais valioso que possuíam.
— Osega
não pode despertar suspeitas — sussurrou Rhodan. — É nossa
figura-chave nesta partida de xadrez galáctico. O rei, por assim
dizer, se sofrer xeque-mate, fará nossa missão fracassar.
— Estamos
sem contato com ele desde ontem — objetou Gorlat. — Sua fala de
hoje na televisão foi áspera. Calou fundo nos ânimos.
— Osega
representa muito bem o papel de almirante arcônida! — concordou
Rhodan. — O verdadeiro Calus deve estar suando sangue debaixo da
arena, neste tempo. Aposto que jamais lhe passou pela cabeça a idéia
de ser substituído por um sósia.
— Não
passaria pela cabeça de ninguém — disse Bell. — Nem zalitas,
nem arcônidas. O que é ótimo...
— Algum
dia os zalitas vão compreender uma porção de coisas, depois de
saberem disso — declarou Gorlat. — Acho que é hora de ir, Ras.
Rhodan
olhou para o relógio e acenou.
— De
fato, chegou a hora combinada. Pode ir visitar Calus agora, Ras.
Gostaria de saber quando seremos transportados. A comunicação não
pode ficar interrompida. Ele deve estar só em seu quarto agora, no
palácio do Zarlt. Bem... você está mais do que familiarizado com o
local.
O
teleportador ergueu-se.
— Mais
alguma instrução, Sir? — perguntou a Rhodan.
— Não,
nenhuma. Ou melhor, talvez possa perguntar a Osega se o regente
continua mantendo sigilo acerca de seus planos. Afinal, devia
abrir-se ao menos com os oficiais dirigentes de sua frota. Isso é
tudo.
Ras
Tschubai acenou, procurou um canto da peça, e concentrou-se no
salto. Os demais observavam-no atentamente. Sempre se sentiam
fascinados pelo espetáculo proporcionado pelo salto de um
teleportador. Para Ras, o processo nada tinha de impossível, porque
conhecia bem seu alvo. Imaginou o quarto de Calus, visualizando-o com
tal nitidez que parecia ao alcance da mão, enquanto se
desmaterializava. E quase no mesmo instante, a visão se tornou
realidade. Paredes, mesa, cama, o próprio Calus materializaram-se
diante dele. Chegara, e no preciso segundo em que desaparecia do raio
de visão de Rhodan.
Calus
estremeceu ligeiramente, mas depois sorriu. Os bioquímicos tinham
transformado o sargento terrano Roger Osega em autêntico arcônida.
Pessoa alguma o reconheceria debaixo daquela máscara. O verdadeiro
Calus passara por um susto mortal na ocasião em que defrontara-se
com seu sósia, antes de ser seqüestrado e encerrado nas catacumbas.
— É
pontual, Ras — disse Osega, consultando o relógio. — No entanto,
podia ter poupado o esforço. Nada de novo.
— O
transporte? Quando vai?
— Mas
que ânsia de chegar a Árcon! E nem sabem o que os espera lá.
Talvez venham a lamentar esta pressa algum dia.
— Ora,
deixe de dizer tolices! — respondeu o africano, em tom rude. — O
empreendimento está em andamento, e nada seria capaz de detê-lo
agora. Sabe disso tão bem quanto eu. Que temos de novo, além disso?
O chefe gostaria de saber se o regente deixou escapar alguma
informação.
— Não,
nenhuma, Ras. Nos próximos dias devem chegar numerosas naves
cargueiras, a fim de conduzir os recrutas para Árcon. As listas
virão com elas. Não tenho influência sobre as relações. Nosso
grupo deve seguir ainda esta semana, pelo que sei.
— Obrigado
— replicou Ras, sorrindo satisfeito. — Alguma coisa, pelo menos.
Aliás, os passes com sua assinatura obram milagres; oh, desculpe!
Afinal, a assinatura é do verdadeiro Calus. Ele trabalha
espontaneamente, sem se opor a nada. O Dr. Linkmann deve ter-lhe
administrado um medicamento bem eficiente. Calus assinaria até sua
própria sentença de morte no atual estado.
— Sem
dúvida! — concordou Osega. — E eu seria o único Calus.
O africano
caiu na gargalhada.
— Que
bem lhe fica a dignidade de almirante, sargento! — caçoou. — Dá
licença de retirar-me? Até amanhã, à mesma hora. Passe bem,
Almirante Calus, nobre arcônida por obra e graça do cérebro-robô...
E o falso
Calus, que ajudava a aplainar o caminho de Rhodan para Árcon, estava
novamente sozinho. Era um cordeiro em pele de lobo... pelo menos para
os zalitas, que nem suspeitavam de que seu maior inimigo era na
realidade seu melhor amigo.
2
O novo dia
raiava ao leste. Imenso e rubro, o sol subiu no horizonte, tomando
conta do céu claro. Dentro da caverna, o fogo se extinguira,
exigindo que o vigia reavivasse as brasas. Logo após, a água ferveu
na caçarola, e o estimulante odor do kagarak invadiu o ambiente.
Rhog só
acordou quando foi sacudido.
— De pé,
meu amigo! — disse o barbudo, indicando o fogo. — Desjejum!
Rhog
sentiu alívio. Sabia que estava em segurança, e que chegaria são e
salvo a Tagnor. Só faltava lhe devolverem a pistola de raios. Sem
arma, não haveria meio de realizar seu plano.
No
decorrer do desjejum, Rhog não percebeu sinal algum da partida
iminente.
Onde
estariam as mercadorias que deviam carregar? Haveria assim tanto
tempo disponível, pra não apressarem a refeição?
Pensou nos
três homens ainda por chegar. De onde viriam, ali no meio do deserto
entre as duas cidades?
Partilharam
a comida com ele, para que não precisasse sacrificar suas parcas
provisões. Aliás, todos o tratavam com extrema amabilidade. Atitude
que não se modificou quando o barbudo lhe fez o convite de
acompanhá-lo numa volta pelo acampamento, após terem comido. Os
demais homens permaneceram na caverna.
Dirigiram-se
para os veículos estacionados, cobertos com lonas. Pelas marcas no
chão, Rhog reconheceu que estavam ali há menos de um dia. Portanto,
as declarações do barbudo eram corretas. Porém os três homens
anunciados continuavam a despertar o interesse de Rhog.
— Quando
chegam os três homens de que falou? — perguntou. — Virão num
planador?
O barbudo
olhou para o relógio.
— Compreendo
sua curiosidade, mas não posso dizer-lhe nada. E, para ser franco,
sei tanto quanto você. Mandaram-me apenas aguardar os três homens
aqui nesta caverna. Viu, sem dúvida, a esquisita máquina guardada
lá dentro, não? Sabe o que é aquilo?
— Não
tenho a menor idéia — disse Rhog, esperando ver sua curiosidade
ser satisfeita, finalmente. Porém sofreu nova decepção.
— Também
não sei, Rhog. Avisaram-nos de que ela estaria aqui. E que traria os
três homens, e as mercadorias que deverão ser levadas a Tagnor.
— Virão
pela máquina? — perguntou Rhog, incrédulo. — Como é que alguém
pode viajar numa máquina firmemente presa no piso da caverna?
O barbudo
sorriu.
— Pagaram-me
bem para fazer o transporte, e além disso me forneceram documentos
de vital importância para a sobrevivência. Por isso não faço
tantas perguntas como você. Quando retornar a Larg, poderei aguardar
sossegadamente a retirada dos arcônidas. Portanto, para que
preocupar-me com a tal máquina?
Rhog
percebeu que o empreendimento era patrocinado por uma organização
bem maior do que supusera de início. Devia considerar-se feliz por
ter topado com o grupo. Porém decidiu não revelar a ninguém seus
planos pessoais.
— Minha
arma? — indagou. — Será devolvida quando atingirmos Tagnor?
O barbudo
olhou-o de esguelha.
— Para
que precisa dela?
— Para
defender-me, mais nada. Meus papéis não são tão bons quanto os de
vocês. Quero morrer lutando, caso os arcônidas me peguem, e não
ser fuzilado por eles como prisioneiro indefeso. Pode compreender
isso?
— Sim,
posso compreendê-lo — concordou o barbudo, enfiando a mão no
bolso. Retirou-a com a pequena pistola de raios e passou-a a Rhog. —
Aqui está ela. Mas nada de tolices, entendido? Como vê, confio em
você.
— Não
somos todos zalitas, e, como tal, aliados?
O barbudo
acenou. Tinham se distanciado quase duzentos metros da entrada da
caverna, e estavam bem perto da estreita fenda que levava ao deserto.
Rhog pensou consigo mesmo que os tratores de esteira teriam
dificuldade em passar por ela.
Um grito
prolongado ecoou pelas paredes rochosas. O barbudo estacou
abruptamente, e olhou para trás. Diante da caverna, um homem lhes
acenava freneticamente com os braços. O gesto era óbvio.
— Vamos,
Rhog. Creio que nossos amigos chegaram.
Rhog
seguiu-o sem uma palavra. Não entendia coisa alguma. Como é que os
três homens tinham ido parar na caverna sem passar por eles?
Três
zalitas desconhecidos já estavam à espera do chefe da caravana. A
despeito da aparência zalita, eram originários da Terra, e
pertenciam a um dos comandos especiais de Rhodan. Gucky os
teleportara individualmente até ali. Tinham surgido repentinamente
no meio dos homens abrigados na caverna, deixando-os aterrorizados.
Um por um, materializaram-se do nada. Ninguém chegou a ver Gucky,
que tornava a saltar de volta para Tagnor, logo após ter depositado
a respectiva “carga”.
O barbudo
estendeu-lhe a mão.
— Vim a
mando de Hhokga, a fim de escoltá-los para Tagnor — disse ele,
dando a senha combinada. — Onde estão os aparelhos que devemos
transportar?
O sargento
Miller retribuiu o aperto de mão.
— Sou
Thar, amigo. Estes são meus companheiros, Regul e Prezl — apontou
para os cadetes Rodolfo e Kranolte. — Dentro de meia hora, segundo
espero, podemos dar início ao carregamento.
O barbudo
fitou-o espantado. Miller acenou.
— Sim,
ouviu bem, mas parece desconhecer o que seja um transmissor de
matéria. No entanto, são bastante comuns em vários mundos. Lá na
caverna encontra-se um exemplar deles, pronto para receber. A função
deveria ter início dentro de alguns minutos...
Não
existiam transmissores de matéria em Zalit, mas sabia-se de sua
existência. O barbudo começou a compreender que gente poderosa se
encontrava por trás de Hhokga. Transmissores de matéria...!
Alguém
saiu correndo da caverna, aos gritos:
— Bruxaria!
O demônio está solto...! A máquina...!
O sargento
Miller sorriu e olhou para o relógio.
— Danados
de pontuais, nossos amigos. No minuto cravado!
Passando
pelo barbudo, encaminhou-se para a caverna. Seus dois companheiros
seguiram-no.
Rhog
apalpou o metal duro da arma no bolso. Transmissores de matéria ou
não — sabia o que devia fazer. Daqui a três dias chegaria sua
vez...
*
* *
O General
Deringhouse verificou que tudo estava em ordem.
Hora
certa, coordenadas de salto, velocidade — tudo conforme o
computador calculara. Faltava apenas acionar a derradeira alavanca. E
esta tarefa fora reservada a Deringhouse.
A
Califórnia captara as mensagens radiofônicas de Zalit. O material
pedido já se encontrava nas cabinas dos cinco transmissores
dispostos no porão de carga da Califórnia. Também ali um aperto de
botão seria o suficiente — assim que materializassem sobre Zalit.
O cruzador
ligeiro saltou e desapareceu do Universo normal; porém todo o
processo de saltar através do hiperespaço durou apenas frações de
segundo. Quando o General Deringhouse tornou a avistar o espaço que
o rodeava, muitos anos-luz o distanciavam do ponto onde estivera há
alguns segundos.
A frota de
bloqueio dos arcônidas não dormia, mas faltou-lhe agilidade para
obstar Deringhouse no cumprimento da tarefa. Ainda enquanto a nave
esférica entrava, em alucinante velocidade, nas camadas superiores
da atmosfera de Zalit, os cinco transmissores começaram a trabalhar.
De um segundo para outro, as mercadorias acumuladas em seu interior
desapareceram. Simultaneamente, a Califórnia tornou a disparar
espaço a fora, em direção do ponto de transição previamente
determinado pelo computador.
Quando as
naves arcônidas perseguidoras abriram fogo, os robôs miravam apenas
contra o vazio. A Califórnia desmaterializara, com os
neutralizadores de freqüência ligados. Sem ter deixado qualquer
pista, nunca poderia ser detectada.
O regente
de Árcon recebeu apenas a lacônica comunicação de que uma nave de
identidade ignorada havia sido avistada e perseguida.
Na caverna
de Zalit, entretanto, o equipamento remetido chegou ao receptor em
perfeitas condições. O processo fez o zalita pensar em bruxaria e
artes do diabo!
De pé na
entrada da caverna, Rhog contemplava o espetáculo boquiaberto.
A porta
aberta da cabina despejava caixas e pacotes, como se mãos invisíveis
as empurrassem para fora. Os três homens desconhecidos apreciavam
sem fazer nada. Um deles exibia um largo sorriso. O barbudo preferiu
calar-se.
Por fim, o
porta-voz do grupo recém-chegado voltou-se.
— Podem
começar a carregar. Estejam de volta dentro de exatamente uma
semana, ou enviem outros homens. Vamos precisar de uma segunda
caravana.
O barbudo
fez sinal a seus homens. Eles puseram mãos à obra.
— Daqui
a uma semana?
Miller
acenou.
— Sim,
segunda etapa, meu caro. Serão bem pagos pelo trabalho.
Enquanto o
barbudo dirigia o embarque, os três terranos se retiraram para um
canto da caverna.
— Não
adianta — disse Miller aos dois subordinados. — A caravana não
vai dar conta do recado. Temos de ficar aqui, e nos revezar na
guarda. É melhor do que ir com Rhodan para Árcon.
— Pois
eu preferiria a aventura — declarou o cadete Kranolte, sentando com
um gemido sobre uma pedra. Esta evidentemente já fora usada com
finalidade idêntica por outros. — Ficar empoleirado aqui como a
galinha cega do provérbio.
— Cada
qual em seu lugar — disse o cadete Rodolfo, maliciosamente. —
Talvez você acerte com o famoso grão.
— Que
tal de grão é este? — perguntou Kranolte, desconfiado. Não era
muito versado em provérbios. — E o que faria eu com ele?
O sargento
Miller sabia que tinha se desencadeado um daqueles intermináveis
debates, durante os quais muito se falava mas pouco se dizia. Antes
que pudesse interrompê-los, Rodolfo disse:
— Uma
galinha sem grão? Mas Kranolte...!
— Faça
o favor de usar meu nome de guerra. Chamo-me Prezl!
— Não
me soa mais atraente do que o verdadeiro — observou Rodolfo,
sarcasticamente.
— Calem
a boca! — gritou Miller, encerrando a discussão. — Depois
teremos uma semana inteirinha para bater papo.
Aguardem
pelo menos até nossos amigos partirem com a caravana.
Repentinamente
Rodolfo lembrou-se de algo.
— Perceberam,
aliás, que o grupo conta com onze zalitas, e não dez, conforme nos
disse Toffner? Quem será o décimo primeiro?
— Sabe
contar muito bem, Rodolfo — louvou Miller. — Mas dez ou onze, que
bem nos importa? Algum homem desejoso de viajar até Tagnor com a
caravana... Hhokga deve ter tido a cautela de admitir apenas gente de
confiança no grupo. Acho que não devemos preocupar-nos com isso.
No fundo,
ele tinha razão. Mas se o sargento Miller tivesse podido adivinhar a
desgraça resultante de seu descaso, não falaria com tanta
tranqüilidade.
Porém nas
circunstâncias dadas, a caravana se pôs em marcha três horas
depois, deixando os três terranos na caverna. Ainda havia nela boa
quantidade de material.
E Rhog
seguiu com a caravana para Tagnor.
*
* *
Dois dias
mais tarde, enquanto a caravana ainda fazia a travessia do deserto,
uma frota de carga aterrissou no espaçoporto de Tagnor. Seu
comandante trazia o encargo de levar para Árcon todos os
“voluntários”
ainda à espera em Zalit. A hora decisiva chegara para Rhodan.
Em
colaboração com seu pessoal, conseguira ocupar ultimamente muitas
posições-chave. Os mutantes haviam desempenhado papel destacado
nesta excelente operação. A maioria dos oficiais arcônidas sofrera
hipnobloqueio, e já não representavam perigo. Além disso, o
bloqueio fora condicionado de maneira a desaparecer espontaneamente
assim que o grupo de terranos pousasse em algum planeta do sol Árcon.
No
entanto, fora impossível prever que novos oficiais, com ordens
diversas, viessem com a frota de carga. Não haveria tempo para
influenciar igualmente estes arcônidas. Tinham sido destacados pelo
regente, e vinham munidos com suas instruções. Não havia meio de
rebelar-se contra estas instruções, sem despertar suspeitas. O
próprio Almirante Calus era impotente no caso. E, nestas condições,
de pouco valia a Rhodan o fato de que Calus era na verdade o sargento
Osega.
A julgar
pelos preparativos em andamento, era de supor que o transporte dos
zalitas seria iniciado naquele mesmo dia. Os oficiais recém-chegados,
arcônidas dos mais ativos, começaram imediatamente a fazer a
distribuição dos recrutas, não admitindo que ninguém influísse
em suas decisões. Porém, com muita habilidade, Rhodan conseguiu que
seus cento e cinqüenta homens ficassem num só bloco, e fossem
alojados num cargueiro esférico. No entanto, não pôde evitar que
mais três mil zalitas autênticos viajassem na mesma nave. Portanto,
continuava a possibilidade de serem descobertos.
Até o
embarque, ainda lhes restavam algumas horas. O equipamento tinha sido
completado, e os recrutas aguardavam nos alojamentos a ordem de ir
para bordo do cargueiro.
Os ânimos
estavam um tanto deprimidos. Diante deles estava a grande incerteza.
Ninguém saberia dizer se por acaso o cérebro-robô já tomara
conhecimento do ardil planejado, e os atraía para uma armadilha
fatal. Certo, as máscaras eram perfeitas. Por obra de seus
bioquímicos, Rhodan e seus homens eram agora zalitas genuínos; seus
papéis estavam em ordem, e falavam sem o menor sotaque. No entanto,
um acidente qualquer poderia delatá-los.
Rhodan
acenou para o Capitão Hubert Gorlat.
— Tome o
meu lugar, capitão. Ainda pretendo fazer uma breve visita a Rosberg,
em companhia de Ras. Marshall, mantenha-se em contato telepático
constante comigo. Avise-me assim que a coisa começar por aqui, e
voltarei instantaneamente.
O
teleportador africano segurou a mão de Rhodan, a fim de estabelecer
o contato físico indispensável a um salto daquela natureza. Com um
gesto, John Marshall deu a entender que compreendera a ordem de
Rhodan. Gorlat evidenciava na fisionomia sua preocupação. Apesar de
ser pouco provável, a aparição de algum arcônida no recinto onde
esperavam, não era de todo impossível. Suspirou aliviado ao ver Ras
Tschubai desaparecer com Rhodan.
Sob a
arena, no esconderijo subterrâneo das catacumbas, a visita de Rhodan
provocou grande alegria, apesar de representar a despedida
definitiva. Gucky tentou mais uma vez, inutilmente, fazer o amigo
mudar de opinião. Queria, por força, acompanhá-lo. Mas Rhodan foi
inflexível.
— Fora
de cogitação, Gucky! Nem mesmo como animal doméstico! Os zalitas
têm permissão apenas para levar alguns artigos de uso pessoal.
Lembre-se também de que você não é totalmente desconhecido para
alguns arcônidas. Caso tivesse desistido, em ocasiões passadas, de
querer estar sempre em primeiro plano, o reconhecimento seria menos
provável. Mas assim... Além disso, seus serviços vão ser muito
necessários aqui. Que seria do Major Rosberg sem você?
— Realmente,
não podemos passar sem um teleportador — confirmou o major,
gravemente. — Jamais poderíamos ter enviado o sargento Miller e
seus dois acompanhantes para a caverna, se não contássemos com
Gucky.
— Viu? —
disse Rhodan, sorrindo encorajadoramente para o rato-castor.
Depois
mudou de assunto.
— Ficaremos
fora de contato, daqui por diante. Os arcônidas não nos proibiram o
uso de nossos relógios, portanto levarei comigo o minúsculo
transmissor de impulsos embutido na pulseira. Em caso de extrema
necessidade, poderemos comunicar-nos por meio dele. Devido ao risco
de uma possível detecção, devemos evitar ao máximo tal contato;
porém é tranqüilizador para ambas as partes saber que existe a
possibilidade de uma troca de mensagens. A freqüência é a
habitual. Bem, a rigor, é tudo o que eu tinha a dizer. Como foi a
ação da Califórnia?
— Conseguiram
depositar o material pedido na caverna anteontem, e escapar
incólumes. Toffner organizou a caravana, que deve chegar aqui
amanhã. Enviaremos um oficial ao encontro dela, para que possa
entrar na cidade sem controles adicionais. Pode ficar tranqüilo,
pois, Sir.
— É o
que desejo — replicou Rhodan. — Creio que seguiremos para Árcon
ainda hoje. Boa sorte, Major Rosberg. Confio no senhor!
— Boa
sorte, igualmente, Sir! Que todos retornem a salvo.
— Não
esqueça de dar lembranças minhas ao cérebro-robô. E ele que se dê
por satisfeito por eu não poder ter ido junto com vocês! — na voz
de Gucky percebia-se nitidamente sua irritação. Parecia
responsabilizar pessoalmente o regente por ter que ficar em Zalit. —
Pouco a pouco vou me habituando a servir na retaguarda.
— Sabe
lá quanta coisa ainda pode vir a acontecer na retaguarda —
replicou Rhodan, displicentemente, sem suspeitar que suas palavras
eram proféticas. — Saltemos, Ras. O pessoal nos espera.
Acenou
mais uma vez para os presentes, antes de segurar a mão do
teleportador, e dar o sinal para a partida.
Gucky
ficou olhando demoradamente para o ponto no qual os dois homens
desmaterializaram-se. Depois voltou-se bruscamente, e foi para seu
canto. No que lhe dizia respeito, a operação “Destruir
Árcon”
estava encerrada.
*
* *
Mas ela
mal começara! Oficiais e robôs arcônidas — ainda não
reprogramados secretamente por especialistas de Rhodan — comboiaram
os zalitas para as naves que os transportariam para Árcon. Os homens
do grupo suicida não se sentiam nada bem em seu disfarce zalita,
apesar de não precisarem recear uma descoberta iminente.
Antes de
entrar na nave, cumpria exibir mais uma vez os passes. Os nomes eram
conferidos numa lista. Medida esta que mal poderia preocupar Rhodan e
sua gente. Os passes eram trabalhos precisos de técnicos terranos.
Porém
permanecer juntos dali por diante seria mais difícil. Cada
alojamento comportava cem homens. Então, o grupo dos 150 foi
dividido. Acompanhado por 49 terranos, Rhodan entrou num
compartimento. Durante as próximas horas, não haveria possibilidade
de conversarem livremente. Podia existir algum espião ou delator
entre eles, pronto a levar aos arcônidas qualquer palavrinha
suspeita, a fim de amenizar a própria sina...
Atlan teve
mais sorte. Ficou no compartimento vizinho, com noventa e nove
terranos. Com isso, podiam conversar em voz baixa, sem o perigo de
serem escutados. Como John Marshall fazia parte do grupo, estava
sempre a par do que se passava com Rhodan; este, por sua vez, possuía
capacidade telepática suficiente para compreender o sentido das
mensagens de Marshall.
Portanto,
a separação não implicava em interrupção das comunicações.
No
entanto, nenhum deles podia constatar o que se passava lá fora. O
que, porém, não lhes parecia tão importante no momento.
Três
horas após, passos apressados no corredor denotavam o início dos
preparativos para a decolagem. John Marshall informou telepaticamente
a Rhodan que o comandante da nave tivera uma derradeira entrevista
com o Almirante Calus, transmitindo-lhe a ordem do regente de
recrutar nas semanas vindouras novo contingentes de zalitas — à
força, caso fosse necessário. E Calus divulgaria as novas
disposições em seu discurso diário.
Dez
minutos depois, levantavam vôo.
A pressão
foi devidamente compensada, e não sentiram o efeito da tremenda
aceleração. Rhodan verificou que os zalitas aparentavam estar
conformados com seu irremediável destino. Isolados ou em grupos,
recostavam-se nas paredes, com olhar ausente. Certamente já se viam
a bordo de alguma nave de guerra, rumando vertiginosamente ao
encontro de um feroz inimigo que os esperava em lugar ignorado. De
boa vontade, Rhodan lhes diria palavras de conforto, porém seria por
demais perigoso. Ninguém devia saber que era terrano — membro
justamente da raça que Árcon pretendia combater.
A
transição durou apenas segundos, e retomaram a velocidade normal.
Da central de comando já se devia avistar o sistema Árcon, centro
de um poderoso reino estelar que se precipitava ao encontro de seu
imutável destino. Os três planetas principais contornavam seu sol
em órbita idêntica, formando um triângulo eqüilátero. Rhodan
acreditava firmemente que pousariam num destes planetas, se bem que
não no principal. Pois era nele que se encontrava o cérebro-robô,
regente de Árcon, objeto da arriscada ação dos terranos.
Três
horas depois da partida de Zalit, nova movimentação na nave
demonstrou que se aproximavam do local de chegada. Deviam ter saído
da transição, já no interior da linha fortificada; não havia
outra maneira de justificar o breve espaço de tempo percorrido à
velocidade da luz.
A porta do
compartimento foi aberta com um empurrão. Um robô anunciou com voz
fria e metálica:
— Deixarão
a nave dentro de trinta minutos. Reúnam seus pertences, e aguardem a
ordem do alto-falante.
Depois a
porta foi novamente fechada. Rhodan estava sentado num canto.
— John
Marshall? Tudo bem com vocês?
A resposta
foi imediata, e igualmente silenciosa:
— Tudo
bem. Procuraremos ficar juntos depois do desembarque.
— Claro!
— emitiu Rhodan.
No íntimo,
sentia-se bem mais intranqüilo do que aparentava exteriormente. A
tensão chegava ao auge agora. Certamente passariam por mais um
controle, antes de pisar em Árcon. Rhodan ignorava que métodos
seriam usados neste controle, Seria de natureza pessoal ou técnica?
Ou médica...? Nesta hipótese, corriam grave perigo.
O
cargueiro pousou com um leve solavanco. Quase ao mesmo tempo, o
alto-falante ordenava estridentemente que permanecessem nos
alojamentos, e obedecessem à risca às determinações dos robôs.
Rhodan
sentiu-se invadido por estranha sensação. Não a conhecia, porém
tratava-se de uma reação completamente normal. Via-se diante do
desconhecido, sem ter influência alguma sobre os acontecimentos. Não
tinha poder decisório algum sobre as decorrências dos próximos
minutos; não poderia impedi-las, nem acelerá-las. Outros se
encontravam no comando da situação. Por minutos ou horas, Rhodan se
via isento de qualquer responsabilidade...
E era uma
sensação que ele desconhecia!
Sobressaltou-se
quando um robô irrompeu pela porta, ordenando:
— Para
fora, todos! Em fila, um por um!
Rhodan
esperou a vez tranqüilamente. Primeiro os zalitas verdadeiros
deixaram o alojamento, alinhando-se no corredor em filas de cinco. O
robô começou a contar. Quando Rhodan saiu, ainda chegou a ver os
outros cem integrantes do comando marchar em frente. Seu grupo foi o
próximo a ser movimentado. Seguiram por extensos corredores até um
amplo compartimento de carga. Os diversos grupos foram entregues a si
mesmos, e Rhodan conseguiu reunir novamente seus homens. Formaram um
bloco cerrado, firmemente dispostos a não se deixarem separar mais.
Vagarosamente
o portão de carga abriu. Ar frio, não muito agradável, invadiu o
recinto. Divisaram uma série de construções baixas, sob um céu
azul-escuro, quase violeta.
Alguém
tossiu.
Junto de
Rhodan, Gorlat sussurrou em idioma zalita:
— Este
ar é muito seco... e pobre em oxigênio. Confere com o que sabe
sobre os três planetas principais de Árcon?
Rhodan não
respondeu. Refletia febrilmente. Nos três planetas de Árcon, a
atmosfera era semelhante à da Terra. No entanto, o que respirava no
momento mais parecia uma versão melhorada da atmosfera marciana.
Será...?
Seus
pensamentos foram bruscamente Interrompidos. Da porta, um robô
berrava:
— Em
fila de cinco, marchem!
Rhodan não
viu motivo para maiores hesitações. Fazendo sinal para seus homens,
o grupo foi o primeiro a desembarcar.
Uma larga
rampa levava à superfície do planeta. À direita e à esquerda da
porta, robôs faziam a contagem.
Rhodan
avistou então um sol no firmamento, no setor direito. Devia
tratar-se de Árcon, sem sombra de dúvida. Porém era menor do que a
estrela da qual se recordava. Suas derradeiras dúvidas se dissiparam
ao ver imensa esfera, de brilho opaco, um pouco à esquerda dos
prédios — um planeta!
Como uma
mão gélida, a decepção apossou-se de seu coração.
Não
tinham aterrissado em nenhum dos três planetas.
Aliás,
não haviam pousado em planeta algum, e sim numa lua com atmosfera no
limite do respirável.
“O
cérebro-robô”,
pensou Rhodan consternado, “se
acautelou contra qualquer risco.”
Antes de
admitir alguém no solo arcônida, examinava-o de ponta a ponta.
Restava saber se os terranos resistiriam a esta nova prova. E tudo
dependia do resultado dela.
*
* *
Laboriosamente
a caravana enfrentava a tempestade. O vento surgira repentinamente,
soprando do oeste. Impelia a areia seca à sua frente, formando novas
dunas. Os onze zalitas haviam amarrado panos no rosto, a fim de
protegerem-se da poeira que penetrava pelas menores frestas das
cabinas dos veículos.
Rhog
viajava com o barbudo, que dirigia um dos carros.
— Espero
que não nos desviemos da estrada, Murgo.
— Ora,
que diferença faria? — replicou o chefe da caravana. — De
qualquer forma, ela mal se diferencia do deserto. Além disso, temos
ótimos instrumentos de orientação. Rumando sempre para o oeste,
acabaremos infalivelmente em Tagnor.
Depois de
uma pausa, Rhog disse:
— Quanto
falta ainda?
O barbudo
fitou-o com ar inquisitivo.
— Por
que tem tanta pressa em chegar à capital? Aqui no deserto, você não
corre perigo, mas em Tagnor sim. Não compreendo sua afobação, meu
amigo.
Rhog
prometeu a si mesmo ser mais prudente, a fim de não despertar
suspeitas. Tanto fazia Calus morrer um dia mais cedo, ou mais tarde.
— O
temporal me preocupa — alegou ele, tentando simultaneamente
explicar sua inquietude. — Se ficarmos presos aqui na areia...
— Totalmente
impossível! — Murgo apontou, rindo, para as esteiras do veículo
imediatamente atrás. Como as cabinas eram envidraçadas por todos os
lados, tinha-se ampla visão circular. — Nem as mais altas dunas
representam obstáculo para nós. E saiba que nenhum avião de
patrulha arcônida levanta vôo com este tempo, fato que deveria
contribuir bastante para sentir-se mais calmo. Viajaremos sem
perturbações.
Rhog
concordou com as suposições de Murgo. Pensou nos companheiros que
deixara lá nas montanhas.
Que
estariam fazendo naquele momento? Esperando? Aguardando a sensacional
notícia que talvez não viesse nunca? Para Rhog, era fácil imaginar
que os arcônidas mantivessem em segredo a morte de Calus, caso
conviesse a seus planos.
Percebeu
que Calus teria que ser assassinado em público, para todo mundo
saber do fato. O que implicava em aumento do risco para ele próprio.
A ponto, até, de cortar-lhe qualquer possibilidade de fuga.
— Em que
pensa? — perguntou Murgo. — Se pinta imagens róseas do futuro,
saiba, Rhog, que não temos grandes chances. Para os arcônidas,
nossa sorte é indiferente. Necessitam de soldados, e tomam-nos. Uma
grande guerra está para ser desencadeada, ignoro contra quem. Porém
o inimigo que ameaça Árcon deve ser poderoso. Até o presente,
mesmo sem nossa ajuda, o regente foi capaz de enfrentar qualquer
adversário. De repente, seus exércitos-robôs já não lhe bastam.
Passou a usar gente.
— Talvez
possamos encarar isso como fato reconfortante, Murgo. Existe alguém
mais forte do que os robôs de Árcon. Devíamos pensar nisso, quando
nos preocupamos com o futuro. Há esperança.
— Para
nosso povo, sim! Mas para nós mesmos? Pessoalmente, o que podemos
esperar? Mais dia, menos dia, seremos descobertos e recrutados. E
Zalit não ficará semidespovoado antes que o reino arcônida desabe?
Rhog
sorriu.
— As
montanhas e ermos de Zalit ocultam muitos homens, todos eles
dispostos a reconstruir algum dia seu mundo. Os arcônidas não
permanecerão entre nós por muito tempo mais.
Murgo
seguiu com os olhos um turbilhonante pé-de-vento, carregado de
areia, que dançava diante deles.
— E por
que acha isso, Rhog? Tem alguma razão especial para supor que Árcon
desistirá em breve de nossa ajuda?
— Não,
claro que não. É apenas uma esperança que alimento.
Murgo
fixou o olhar em frente, para as nuvens de areia.
— Pois
é... — disse apenas, calando-se depois.
Para Rhog,
estava ótimo. O monótono zumbido dos motores parecia querer
ajudá-lo a disfarçar seus pensamentos. Estava preocupado. Seu
intento, aparentemente tão simples lá na caverna rochosa,
transformava-se gradualmente em problema insolúvel. O Almirante
Calus devia cercar-se de uma guarda poderosa, e talvez fosse
impossível aproximar-se dele. Robôs deviam guardar a vida de seu
senhor, não permitindo que ninguém rompesse a cadeia protetora.
Porém
durante a tarde, quando Murgo ligou o televisor para escutar a fala
diária do almirante arcônida, Rhog teve uma idéia. Olhando para o
lado, fitou na pequena tela a fisionomia cruel e altiva de Calus.
E com seu
ódio cresceu a certeza de ter achado um meio de eliminar o tirano.
*
* *
O frio era
cortante.
Formados
diante das naves pousadas, os homens aguardavam as ordens dos robôs
de guarda. Agora os arcônidas tinham deixado de lado qualquer
consideração, dando a entender claramente aos zalitas que deviam
considerar-se prisioneiros. Nenhum dos oficiais arcônidas postados
em Zalit viera junto. Além do ambiente opressivo, Rhodan e seus
homens se defrontavam também com adversários completamente
desconhecidos.
Rhodan
estava entre Atlan e Bell. Na ala esquerda da fileira de cinco,
encontrava-se Gorlat; John Marshall ocupava a extremidade direita.
— Onde
estamos? — perguntou Rhodan, que desejava ver confirmada sua
suposição. Duas opiniões iguais talvez representassem a verdade. —
Bell, você conhece o sistema tão bem quanto eu. O tamanho de
Árcon...
— Eu
diria... quinto planeta — replicou Bell, em voz igualmente abafada.
— Numa lua do quinto planeta. De acordo com nossas informações, o
planeta se chama...
— Sei
qual é — cortou Rhodan. — E pousamos em sua lua. O número cinco
é um mundo gigante. Sua lua chama-se Naator. É quase do tamanho da
Terra, atmosfera rarefeita, ambiente desértico, montanhas... Em
suma, lugar nada hospitaleiro. Mas claro! Daqui ninguém sai sem
naves ou sem consentimento do regente. Bela armadilha!
— Eu não
diria isso, Perry. Trampolim para Árcon soa muito melhor. Se pelo
menos não fizesse tanto frio!
Atlan
observou, baixinho:
— Ali
adiante estão os alojamentos. Se não me engano, Naator vem a ser
uma espécie de campo de treinamento para soldados. Árcon possui uma
academia de guerra cósmica para suas raças colonizadas. As turmas
são treinadas aqui. Acho que acertamos em cheio, vindo para Naator.
— O
quinto planeta não é habitado? — perguntou Bell.
Rhodan
acenou imperceptivelmente.
— Os
naats são ciclopes dotados de três olhos. De natureza completamente
inofensiva, e submissos a Árcon. Os aras usam-nos como cobaias em
suas experiências médicas.
Os aras —
descendentes dos primitivos colonizadores arcônidas — eram uma
raça bastante peculiar. Viviam da arte de curar os outros. E viviam
excepcionalmente bem desta arte. Houvera até certa época em que
provocaram a contaminação de planetas inteiros, a fim de tirar
proveito das curas posteriormente efetuadas. Os aras eram magros,
inteligentes e de disposição nada amistosa.
— Os
naats possuem inteligência?
— Escassa,
Bell. Da parte deles, dificilmente temos o que temer. Apesar de terem
engajado alguns deles como oficiais de bordo.
No
gigantesco espaçoporto estavam formados agora mais de cinqüenta mil
zalitas, vigiados por patrulhas de robôs. O diminuto e distante sol
Árcon fornecia luz escassa, e nenhum calor. Do lado do deserto
sopravam ventos gélidos; secos e cortantes, que atravessavam pele e
ossos. Rhodan felicitou-se pela circunstância de estar entalado na
massa humana. Os zalitas das fileiras externas já deviam estar
semicongelados.
Repentinamente
se ouviu um murmúrio percorrendo a multidão. Na parede longitudinal
do prédio maior, flamejou uma imensa tela de imagem. Um rosto surgiu
— a face de um arcônida em uniforme de almirante. Ao mesmo tempo,
uma bateria de alto-falantes entrou em ação, difundindo sonoramente
a voz do arcônida, em volume bastante alto para ser ouvido por todos
os presentes.
— Zalitas!
Por
instantes, Rhodan deteve-se em considerações acerca do comodismo
dos arcônidas. Confortavelmente instalado em seu gabinete aquecido,
o almirante se dirigia aos recrutas recém-chegados. Talvez fosse uma
de suas obrigações diárias, e se transformara em hábito
rotineiro. Mas pelo menos não sentia frio, sentado à sua mesa,
diante do microfone e das câmaras de imagem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário