segunda-feira, 22 de agosto de 2016

P-085 - Escola de Guerra Naator - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN



Seus disfarces são perfeitos — porém um cadáver pode pôr tudo a perder...




A descoberta da espaçonave arcônida acidentada na Lua, foi ponto de partida para a unificação política da Humanidade. Hoje, a Terra tornou-se centro de um império... o Império Solar!
O novo império — minúsculo em comparação com as numerosas outras potências cósmicas — subsistiu unicamente devido às inteligentes jogadas de Perry Rhodan e de seus colaboradores. No grande jogo galáctico, impediram que a Terra desaparecesse num inferno de destruição atômica, ou fosse degradada à condição de colônia de Árcon.
E a sorte costuma ser fiel a quem se mostra capaz...
Confiando nesta sorte, Perry Rhodan traça o ousado plano de penetrar, com um grupo de combatentes terranos, até a central de seu maior oponente, o robô regente!
Porém antes que os “Recrutas de Árcon” — designação sob a qual os especialistas terranos foram alistados, após terem se radicado no planeta dos zalitas — possam efetivamente se aproximar do cérebro-robô, a fim de executar sua ação destruidora, espera-os a Escola de Guerra Naator.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Jeremy ToffnerAgente cósmico da Terra.

Roger OsegaValente sargento terrano.

RhogUm zalita que mata o homem errado.

BórisMédico ara.

Vários membros do Exército de Mutantes.
1



O gigantesco sol vermelho estava alto no céu, brilhando sobre a paisagem desértica. Os raros arbustos davam pouca sombra. O solo arenoso elevava-se gradativamente, passando a um trecho pedregoso, de onde se erguia abruptamente a massa montanhosa. Vista do leste, era difícil perceber-se alguma brecha na extensa cordilheira; no entanto, havia vales, pelos quais transitaram em tempos pacíficos as caravanas comerciais.
Caravanas modernas, evidentemente, com tratores de esteira, e pesados transportes de carga.
Porém em Zalit, quarto planeta do sol Voga, não reinava paz. Também não havia guerra. Mas a simples proximidade do sistema Árcon bastava como ameaça. E três anos-luz não eram lá grande distância...
O reino estelar dos arcônidas, governado por um imenso cérebro-robô, necessitava de soldados. Ia buscá-los nos mundos coloniais, que não ousavam opor-se à exigência. E Árcon reforçava sua já poderosa frota bélica, a fim de atacar um planeta distante e desconhecido, a mais de trinta mil anos-luz. Mas o nome deste planeta não era desconhecido: Terra!
Inúmeros esconderijos espalhados pela superfície de Zalit abrigavam os homens válidos, evadidos dos grupos de busca arcônidas. Ali viviam e esperavam. Ignoravam quando lhes seria possível retornar aos lares, mas tinham tempo. Amigos forneciam os alimentos, e o desconforto da prisão voluntária lhes parecia mais aceitável do que os campos de treinamento arcônidas, em algum mundo ignoto.
Não estavam interessados na guerra dos arcônidas.
Nem ousavam rebelar-se abertamente, conscientes de que sua débil frota espacial não tinha chance alguma contra as supernaves de Árcon. Afinal, como combater contra os robôs que as tripulavam? Além disso, não podiam confiar no Zarlt. Privado de outra opção, o regente já idoso procurava entender-se com os arcônidas.
No cume mais elevado, um jovem estava de sentinela. Tinha o habitual cabelo cor de cobre dos zalitas, e a pele vermelha. Suas roupas folgadas pareciam grandes demais para ele. Dali avistava amplo trecho do deserto; à distância, a quinhentos quilômetros, ficava Tagnor, a capital do planeta.
Mas Tagnor estava ocupada pelos arcônidas com seus robôs. No espaçoporto haviam instalado o centro de mobilização dos conscritos para o serviço militar. Dali, os recrutas seriam levados para Árcon, onde era feito o treinamento final.
Em Zalit, o almirante arcônida Calus representava seu povo. Homem capaz e inteligente, mas ao mesmo tempo cruel e implacável, quando se tratava de executar as ordens do cérebro-robô.
Era sobre este arcônida que se concentrava o ódio dos zalitas.
O sentinela solitário no alto da montanha desviou o olhar do horizonte leste, onde ficava sua cidade natal Tagnor. Perscrutou o deserto próximo, sem constatar qualquer movimento suspeito. Alguns animais pastavam ao pé da montanha, onde crescia um pouco de capim.
Encontrava-se num platô circundado por um muro baixo. Uma saliência rochosa acima dele oferecia boa cobertura. Não raramente, planadores arcônidas passavam em vôo rasante por ali, à procura de possíveis desertores.
O zalita sorriu sarcasticamente. Seu grupo tivera muita sorte até então. Compunha-se de cerca de duzentos homens em idade militar. Reunidos pelo acaso, tinham decidido permanecer juntos até os arcônidas abandonarem Zalit.
Estremeceu ao ouvir um ruído na trilha rochosa, mas logo se tranqüilizou. Devia ser o revezamento. Chefe regular não existia no grupo; coesão e atividades eram ditadas pelo senso comum. No entanto, Cagrib, que vinha substituí-lo, teria sido o candidato mais elegível ao posto de chefe, caso pensassem em escolher um.
Satisfeito por me ver? — perguntou Cagrib, surgindo por detrás dá rocha. Com um olhar certificou-se de que tudo estava em ordem. — Espero que o tempo não lhe tenha parecido longo demais, Rhog.
Não a céu aberto — declarou o solitário vigia, sacudindo a cabeça; gesto que em Zalit significava o mesmo que na longínqua Terra. — Enquanto fizer bom tempo...
Temos novas notícias — interrompeu o outro. — Calus acaba de fazer novo pronunciamento.
O almirante dos arcônidas falava quase diariamente, através de todas as estações de televisão de Zalit, anunciando novas e drásticas medidas destinadas a atingir os objetivos desejados.
Dizem que agora até homens maduros devem se apresentar. Ninguém está mais a salvo deles.
Rhog disse, com amargura:
Nós estamos seguros. Mas será que apenas isto nos agrada? Contentar-se em ver nosso povo dominado, e os jovens serem arrastados para a escravidão? Por que não fazemos alguma coisa?
O quê? — perguntou Cagrib, desanimado. — Acha que assassinar o tal Calus resolveria? Mencionou isso certa vez. Mas certamente mandariam outro, ainda mais cruel e impiedoso. Que ganharíamos com a troca?
Rhog debruçou-se sobre o muro.
Não sei, realmente não sei... Mas revolto-me com a inatividade forçada. Algo precisa ser feito, nem que seja apenas para provar a nossos compatriotas que não estão sós.
Cagrib fitou o céu luminoso. Lá longe, no horizonte, formavam-se algumas nuvens, prenunciando chuva.
Calus, então...? É, talvez devêssemos eliminá-lo, realmente. Vou falar com os outros a respeito. Não será difícil enviar um dos nossos a Tagnor...
Eu vou! — ofereceu-se Rhog, prontamente.
Porém Cagrib recusou.
Não, Rhog, você é esquentado demais. Seria preso, e quem passa pelo psicodetector dos arcônidas é incapaz de manter-se calado. Aguarde, precisamos pensar nisso com calma.
Rhog acenou, e encaminhou-se para a trilha que conduzia ao esconderijo nas cavernas. Sabia que uma revolta estava se iniciando. Finalmente, cessara o período de espera ociosa. Iam começar a agir!
No entanto, nem suspeitava de que o grupo se preparava para cometer a espécie de erro que poderia vir a ser responsável por uma ulterior catástrofe.

* * *

E o grupo tornou a errar quando, após longa confabulação, indicou justamente Rhog para executar o planejado atentado. Era quem melhor conhecia Tagnor, e saberia onde esconder-se. Afirmava, além disso, dispor de boas relações no palácio do Zarlt, onde amigos seus faziam parte da guarda do regente. Através deles, poderia obter valiosas informações acerca da movimentação diária do almirante.
Porém o erro capital residia no fato de quererem eliminar o maior amigo de Zalit.
Coisa que os renitentes ao serviço militar não podiam saber, evidentemente; guiavam-se apenas pela lógica, mas na presente situação o pensamento lógico não era suficiente.
Precisaram de um dia inteiro para modificar a aparência externa de Rhog. Se bem que velhice não garantiria zalita algum das garras da comissão de recrutamento arcônida... No entanto, um homem jovem despertaria muito mais suspeita. Sem mudar o nome, alteraram o passe de Rhog, registrando nele idade e sinais característicos muito mais adequados a seu avô do que a ele próprio.
A viagem para Tagnor representava dificuldade adicional. Inviável usar o trem pneumático subterrâneo, sujeito a controle permanente: Rhog seria fatalmente descoberto. E os rebeldes não dispunham de um único veículo. Portanto, só restava o caminho das caravanas, duzentos quilômetros ao sul. Ali, Rhog teria possibilidade de arranjar carona.
Vai ter que andar! — constatou Cagrib, objetivamente, sacudindo a cabeça. — Será que agüenta o esforço? Infelizmente não podemos arriscar nosso planador; só temos este, e representa a única ligação com as outras cidades.
Podiam deixar-me perto de Tagnor — sugeriu Rhog.
E perder o avião? — Cagrib sacudiu novamente a cabeça. — Além disso, diriam com sua pista mais depressa. Não, tara de seguir mesmo pelo caminho mais árduo. No meio de uma caravana, poderá entrar sem ser notado na cidade. Não vejo outra possibilidade.
Rhog conformou-se. Tinha que conformar-se, ou corria o risco de lhe tirarem o encargo. E ele fazia questão de ser o libertador de Zalit e de seu povo; eliminaria o tirano com suas próprias mãos.
Três dias depois do breve diálogo no cume da montanha, Rhog pôs-se a caminho. Um viajante solitário, com escassas provisões. Rumou para o sul, onde ficava o vale entre as montanhas, ponto de passagem obrigatório das caravanas comerciais. Num raio de duzentos quilômetros, era a única passagem existente.
À direita, a quinhentos quilômetros, ficava Tagnor. À esquerda, por trás dos picos das montanhas, e além do deserto, ficava Larg. Rhog possuía amigos nesta cidade, porém ignorava o atual paradeiro destes confrades. Talvez já estivessem a caminho de Árcon... Ajuda...? Não, não podia contar com ajuda, e era melhor não esperar nem contar com nada neste sentido. Dependia exclusivamente de si mesmo.
O sol avermelhado surgiu por trás das montanhas, e avançou rapidamente pelo firmamento. A sacola de mantimentos pesava. Porém mais ainda pesava a pequena arma em seu bolso. Preferira não indagar a Cagrib como fora parar em seu poder. Fabricação arcônida, provavelmente. O minúsculo depósito energético no cabo bastava para dois ou três mortais disparos. Depois disso, a pistola de raio filiforme se tornava imprestável, caso faltasse cartucho de reposição. E não havia nenhum!
À direita, o deserto se estendia até o horizonte. Parecia interminável. E, no entanto, além dele ficava a maior cidade de Zalit, com trinta milhões de habitantes, e o mais amplo espaçoporto do planeta.
Rhog contornava de perto a montanha, a fim de acobertar-se instantaneamente no caso do aparecimento de uma patrulha aérea arcônida. Com alguns passos, poderia sumir entre as pedras. Teria sido melhor caminhar durante a noite; dificilmente poderia perder-se caso seguisse sempre ao longo da cordilheira. Mas à noite também circulavam por aí os sanguinários haracks, feras carnívoras muito usadas na arena de lutas. Vira, certa vez, um daqueles monstruosos felinos despedaçar um gladiador. Desde então, passou a detestar a arena.
Chegou o meio do dia, depois a tarde.
Rhog escolheu uma das numerosas cavernas para pernoitar. Segundo seus cálculos, percorrera bem quarenta quilômetros naquele dia. Mais quatro — ou três, quem sabe — e alcançaria o objetivo. Então lhe bastaria ir andando pela estrada das caravanas, sempre para o leste, e não tardariam a recolhê-lo. Ninguém lhe perguntaria o que ia fazer em Tagnor. E não precisava recear ataques arcônidas ali, em pleno deserto.
Adormeceu, mas acordava, agitado, diversas vezes. Julgava ouvir ruídos. Por fim o céu clareou diante da boca da caverna. Rhog preparou uma refeição simples, antes de reencetar a caminhada. Fascinava-o a idéia de transformar-se no herói de seu povo, livrando-o do impiedoso almirante arcônida. Mesmo que lhe custasse a própria vida...
Percorreu mais de sessenta quilômetros durante o dia, e sentiu que necessitaria de um período de descanso mais prolongado. Senão sofreria uma estafa. Conseqüências da inatividade: faltava agora o preparo físico.
Quando se dispôs a procurar uma caverna, já havia escurecido. Mas o trecho era bastante desfavorável, e não aparecia nenhuma. Só rocha a pique, elevando-se a centenas de metros de altura.
Rhog foi tateando a parede, na esperança de dar com alguma cavidade protetora que lhe permitisse dormir, sem correr o risco de ser devorado pelos haracks. À sua direita, os derradeiros reflexos do sol-posto se esvaíam no horizonte. As primeiras estrelas brilhavam debilmente, e não havia lua.
Rhog estacou.
Aquilo não fora um ruído? Certamente não se tratava de nenhum engano. Um rugido abafado, garras arranhando a pedra...? Imóvel, de costas contra a pedra, ficou à escuta. A arma deslizou para sua mão quase automaticamente.
Antes desperdiçar uma das preciosas cargas energéticas do que ser vitimado por alguma fera carniceira”, pensou.
Reinava total silêncio, e a escuridão aumentava. Dentro em pouco, finda a passagem do dia para a noite, a luminosidade aumentaria. Voga, o sol de Zalit, ficava quase no centro da Via-láctea. Incontáveis estrelas constelavam o céu noturno, despendendo luz suficiente para distinguir sombras vagas.
Não se ouvia o menor som. Portanto, devia realmente ter-se enganado.
Rhog seguiu adiante. A mão esquerda corria de leve sobre o paredão, incrivelmente parelho. Nem sinal de caverna. Devia ter procurado abrigo para a noite mais cedo. Sabe-se lá por quanto tempo ainda teria que continuar procurando agora?!
Quando a mão subitamente deixou de encontrar resistência, e tateou no vazio, quase caiu. Transferiu o peso do corpo para a perna direita, conseguindo equilibrar-se.
O paredão sumira, para recomeçar cinco metros adiante, e prosseguir a perder de vista. Mas ali havia uma abertura...
Rhog já nem esperava mais achar alguma caverna, ou pelo menos uma pequena gruta. Ajeitou a mochila, e introduziu-se na estreita fenda. Logo percebeu que não era tão estreita assim, e mais extensa do que esperara. O afastamento inicial, que era de quatro metros entre as paredes laterais, crescia cada vez mais. Dali a instantes, não se via mais parede alguma, apesar da claridade crescente.
Reconheceu então a vasta planície enclausurada entre as montanhas, rodeadas de altos paredões rochosos. Erguendo a cabeça, viu o recorte circular do céu, recamado de milhares de estrelas.
O vale media, aproximadamente, quinhentos metros de diâmetro.
E a pouca distância dele brilhava uma fogueira!
Devia arder dentro de uma caverna, pois podia distinguir apenas vultos imprecisos.
Rebeldes? Zalitas que se recusavam servir na guerra?
Rhog sentiu-se invadido por uma súbita esperança. Esquecendo toda a cautela, encaminhou-se para o fogo crepitante. Sem dúvida, aquela turma achara ótimo esconderijo! Ele próprio só dera com a entrada do vale por puro acaso.
A sua direita, sombras se destacavam das rochas. Pareceram-lhe familiares. Regulares demais para serem confundidas com simples pedras.
E de repente compreendeu de que se tratava.
Veículos que transportavam mercadoria através do deserto, com evidente economia sobre as dispendiosas tarifas aéreas!
Fora parar no acampamento de uma caravana.
Uma caverna aqui, tão ao norte? O grande vale entre a cordilheira ainda fica a cem quilômetros para o sul”, refletia Rhog. “Por que uma caravana se afastaria tanto dele apenas para pernoitar?
Havia algo de estranho com aquela caravana!
Porém precisava acautelar-se apenas contra os arcônidas, e nunca contra as autoridades de Zalit. Se bem que, atualmente, nem estas mereciam confiança total.
Tinha de descobrir do que se tratava, e, para isso, só havia um meio.
Com a mão direita crispada em torno do cabo da pistola, esgueirou-se na direção da fogueira, ainda semi-encoberta pelas saliências rochosas.
Uma ordem enérgica às suas costas, dada em voz alta, fê-lo estremecer e parar.
Quieto, e mãos para cima, meu amigo! É perigoso demais aproximar-se sorrateiramente da fogueira de um acampamento em plena noite, sem primeiro se anunciar.
Lentamente, com muito cuidado, Rhog retirou a mão direita vazia do bolso, e ergueu-a junto com a esquerda.
Alguém se aproximou dele pelas costas, tirando-lhe a pistola.
Muito bem, amigo. E agora gostaríamos de saber quem é que anda passeando pelo deserto durante a noite. Trate de ir preparando uma resposta plausível. Ande, venha comigo!
Aos tropeções, Rhog caminhou para a caverna onde brilhava o fogo.

* * *

A cidade de Tagnor assemelhava-se a um campo de guerra. Por todo lado viam-se patrulhas-robôs arcônidas. Quem não podia apresentar o certificado emitido pelas comissões de alistamento era inevitavelmente detido. Poucos homens circulavam pelas ruas. A maioria de transeuntes era composta de altas e esbeltas mulheres zalitas.
À direita da larga rua que levava ao palácio em forma de funil do Zarlt, ficava a arena. Estava deserta e abandonada. Há muito tempo não se realizavam espetáculos nela. No entanto, Garak esforçava-se visivelmente para arranjar animais selvagens e gladiadores para os jogos.
Acabava de regressar de Larg, onde tratara de alguns assuntos que certamente interessariam bastante o Almirante Calus. Inteiramente satisfeito consigo mesmo e com Zalit, Garak dirigiu-se para seu esconderijo, nas catacumbas da arena. Examinou os arredores cautelosamente antes de desaparecer no largo corredor em declive, entrada para seu mundo subterrâneo.
Estava escuro, e teve que acender sua lanterna portátil, a fim de não errar a entrada. Finalmente viu-se diante da porta secreta. Indício algum na rocha lisa revelava sua existência. Porém, sob a pressão da mão espalmada, um painel de pedra deslizou para o lado. Uma onda de luz envolveu Garak, enquanto a porta tornava a cerrar-se às suas costas.
Encontrava-se num vasto recinto escavado na pedra, subdividido em nichos por muretas baixas. Diversos zalitas aguardavam-no com expressão esperançosa.
E então, Toffner...? Que foi que conseguiu?
O homem não falava o habitual idioma zalita, ligeira variação do arcônida, e sim o inglês. De repente Garak passou a chamar-se Toffner. E Toffner era agente cósmico da Terra.
Tudo bem até aqui, major. Nosso amigo em Larg, Hhokga, organizou uma caravana que cruzara o deserto para chegar até a capital. Com nossos passes, teve facilidade em recrutar voluntários. A caravana partiu anteontem, e deve alcançar a caverna hoje. Teve de seguir pelo vale e, depois cem quilômetros para o norte, desviar-se. Espera por nós no pequeno vale entre as montanhas.
O Major Rosberg, especialista em transmissores de matéria do serviço de defesa do Império Solar, acenou, satisfeito.
Ótimo! Minha mensagem hiper-radiofônica para a Califórnia seguiu ontem. O cruzador entregará o material pedido amanhã de manhã, hora da Terra, que será, casualmente, idêntica à hora de Zalit.
Com estas poucas palavras, o major sintetizava um amplo programa, não desprovido de riscos. Apesar de a Califórnia emergir da transição apenas por um minuto — prazo mais do que suficiente para ligar seus cinco transmissores de matéria e despachar o material — este único minuto podia ser catastrófico. O espaço em torno de Zalit estava bloqueado pelas naves arcônidas.
No fundo do recinto subterrâneo, “algo” se moveu e chegou para perto. Este “algo” media um metro de altura, possuía pêlo marrom, tinha a aparência de um enorme rato, além de uma larga cauda de castor. O ente postou-se diante dos dois homens, piando com voz aguda:
Então deve estar na hora de ligar a estação receptora do transmissor na caverna, não é?
O Major Rosberg e Toffner acenaram simultaneamente.
Certo, Gucky — confirmou Rosberg ao estranho ser que falava tão corretamente o inglês. — Porém podemos esperar até amanhã cedo. Então você poderá saltar em companhia dos três homens.
Referia-se às qualidades teleportadoras de Gucky. O rato-castor era ainda telepata e telecineta. A rigor, vinha a ser o mais versátil mutante do Império Solar, fato do qual se envaidecia desmedidamente.
Gucky empinou as enormes orelhas, exibiu o dente roedor num sorriso amistoso, e voltou com seu andar bamboleante para o canto do recinto subterrâneo. Toffner acompanhou-o com um olhar divertido.
Perderíamos um bocado de tempo se não tivéssemos Gucky — constatou. — E tudo seria muito mais arriscado.
Rhodan devia saber por que deixou Gucky conosco — comentou Rosberg, aproximando-se de uma mesa, com Toffner. Sentaram-se no banco tosco. — Betty Toufry acha que nos próximos dias os zalitas recrutados serão transportados para Árcon. Espero que desta vez eles possam ir também.
Falava de Rhodan e de seus cento e cinqüenta homens. Disfarçados de zalitas, encontravam-se no centro de recrutamento dos arcônidas. Tinham conseguido apoderar-se dos postos-chave. E agora aguardavam impacientemente o momento de serem levados para Árcon com os demais zalitas — estes, aliás, muito a contragosto. O transporte iminente seria uma verdadeira Tróia para Árcon, pois os terranos seriam os guerreiros ocultos no ventre do cavalo de pau.
Por que não iriam?
Hoje levaram cinqüenta mil, Toffner. Rhodan e nossa gente não estavam entre eles. Quantos zalitas você pensa que os arcônidas já recrutaram?
Como Toffner calasse, Rosberg mudou de assunto, e perguntou:
Que diz Hhokga de sua sugestão?
Procurei-o assim que cheguei a Larg. Primeiro mostrou-se cético, porém convenceu-se diante de nossos excelentes passes, que trazem até a assinatura de Calus. A caravana chega à caverna hoje; amanhã já poderá tomar o caminho de Tagnor. Podemos contar com sua chegada para daqui a três dias.
É o momento crítico! — disse o Major Rosberg. — Temos de estar com ela, antes que seja detida por robôs na entrada da cidade. Talvez lancemos mão de um oficial arcônida, para auxiliar-nos. Temos os meios necessários para administrar-lhe um hipnobloqueio. Então ele fará apenas o que lhe ordenarmos. Podíamos até escolher aquele indivíduo pré-preparado que encontrou aí fora no corredor há alguns dias. Procure localizá-lo em Tagnor amanhã, e traga-o para cá. Com a ajuda dele, introduziremos a caravana na cidade, sem qualquer dificuldade. Sob a proteção da noite, vai ser brincadeira trazê-la para as catacumbas.
Toffner replicou, pensativo:
Vivi três anos em Zalit, como único terrano; apesar de sentir-me meio isolado, estava em relativa segurança. Agora não estou mais só. Mas não pense que me sinto mais seguro.
O cérebro-robô, regente do império arcônida, trama o aniquilamento da Terra, Toffner. Rhodan pretende adiantar-se a ele, executando um ataque de surpresa. É a única oportunidade que tem para salvar a Terra.
Sei disso... — concordou Toffner. Porém, durante o resto do dia, conservou-se bastante calado.

* * *

Na caverna ardia realmente uma fogueira.
À luz bruxuleante, Rhog distinguiu nove zalitas. Alguns deles repousavam sobre cobertores junto à parede, e ergueram-se ao vê-lo tropeçar na entrada e parar. Outros, sentados diante do fogo, fitaram-no com curiosidade.
Vejam só o que achei aí fora, no escuro! — disse o homem que trazia Rhog para dentro da caverna. — Quer fazer-me crer que encontrou o vale por acaso. E está armado, ainda por cima, com uma pistola arcônida. Bastante suspeito, não acham?
Um zalita barbado levantou-se, acercando-se vagarosamente do prisioneiro.
Quem é você? — indagou.
Rhog olhou em torno cautelosamente antes de responder. Não conseguia compreender em que espécie de situação se metera por acaso. Aquela gente evidentemente não integrava nenhuma caravana normal. No centro da ampla caverna via-se um objeto estranho, composto de duas partes: um bloco metálico aparentemente pesado e maciço, e uma gaiola. Parecia realmente uma gaiola, mas Rhog compreendeu logo que devia tratar-se de outra coisa. Bastava olhar os brilhantes condutores de energia entre bloco e gaiola para chegar a tal conclusão.
Sou Rhog, de Larg — disse, por fim. — Meu veículo sofreu uma pane, e andei vinte quilômetros até achar este vale. Não compreendo...
Larg? Nós viemos de Larg, e forçosamente o encontraríamos no caminho.
Podemos ter-nos desencontrado.
Hum, é possível.
O barbudo parecia refletir. Depois estendeu a mão.
Tem documentos?
Rhog hesitou. Estranho pedirem-lhe os documentos... Mas deviam ter suas razões, e ele não fazia questão de despertar mais interesse e desconfiança. Enfiando a mão no bolso, tirou o passe. O barbudo apanhou-o, e examinou detidamente o papel. Segurou-o contra a luz do fogo, sacudiu repetidamente a cabeça, e devolveu-o a Rhog.
Por que alteraram a data do nascimento, Rhog?
Rhog assustou-se. Agora tudo estava perdido, caso a caravana tivesse ligação com os arcônidas. E mentir seria inútil. No entanto, nada o obrigava a revelar a finalidade de sua ida a Tagnor.
Para evitar o recrutamento — replicou ele, com a maior serenidade que conseguiu aparentar. — Passando por velho, me deixam em paz.
Bem possível — concordou o barbudo, tornando a sentar-se próximo do fogo. — Venha cá, vamos conversar mais um pouco.
O homem que aprisionara Rhog saiu da caverna, a fim de prosseguir em sua ronda.
Rhog tomou lugar ao lado do barbudo. Os demais zalitas deitaram-se outra vez, como se o assunto não lhes dissesse respeito. Apenas três homens permaneceram com ele, em torno da fogueira. Fitando as chamas crepitantes, pareciam esperar que o barbudo tomasse a iniciativa. Talvez fosse o chefe do grupo.
Fale a verdade, faça o favor! — disse o barbudo, em voz seca e autoritária.
Rhog percebeu que não lhe restava outra escolha, caso não quisesse complicar desnecessariamente sua situação.
Posso confiar em vocês?
Dou-lhe minha palavra — declarou seu interlocutor.
Rhog fitou-o nos olhos, e sentiu que podia acreditar no barbudo. Não, não se tratava de nenhum delator.
Estou fugindo dos arcônidas. E só!
Conforme pensei, amigo. No entanto, pergunto-me por que vai de Larg para Tagnor. Ali o perigo é muito maior.
Em Tagnor possuo amigos; em Larg, não. Posso esconder-me em casa deles. Algum dia os arcônidas terão soldados suficientes, e deixarão Zalit novamente. Posso fazer uma pergunta também?
O barbudo concordou com um aceno.
Quem são vocês? Apenas uma caravana comum? Por que não receiam ser detidos pelos arcônidas, e serem forçados a servir na frota espacial?
Quem diz que não corremos este risco?
Dirigem-se a Tagnor?
Sim, vamos para Tagnor.
Pois então, correm tal risco! — constatou Rhog. — Ou julgam que os arcônidas deixarão de perceber um tão numeroso grupo de homens sadios?
O barbudo refletiu por instantes, e concordou:
Claro que perceberão, porém temos ótimos documentos. Melhores do que o seu, por exemplo. Atestam que já passamos pela comissão de recrutamento, e fomos considerados inaptos. Nada pode nos acontecer.
Rhog inclinou-se para a frente, interessado.
Quer dizer que pertencem igualmente a um movimento de resistência? — em seus olhos brilhou uma centelha de ânimo. Não estava mais sozinho. — Vocês estão acobertados por uma organização que está em condições de fornecer papéis falsos?
O barbudo sacudiu a cabeça, remexeu no bolso e tirou um documento repetidamente carimbado.
Esta assinatura aqui... — e apontou para um nome abaixo do carimbo principal — ...não é falsa. É do Almirante Calus, feita por seu próprio punho.
Não compreendo... — disse Rhog, totalmente confuso.
Nem precisa compreender — tranqüilizou-o o zalita barbudo. — O importante é que seguirá para Tagnor em nossa companhia, amanhã. No entanto, ainda depende de três homens que se reunirão conosco aqui, amanhã. Caso não oponham objeções, poderá viajar com a caravana.
Três homens? Quem são eles...?
Não devia fazer tantas perguntas — censurou delicadamente o barbudo. — Quem muito pergunta, muita mentira escuta. E agora procure um canto para dormir. O dia de amanhã será cansativo. Temos que carregar nossos veículos, e você poderá ajudar.
Rhog examinou a caverna. A não ser a esquisita armação, semelhante a uma gaiola, nada via para ser carregado. E lá fora no escuro vira apenas veículos. Se estavam vazios e descarregados, onde estaria a carga a transportar?
Algo não fazia sentido em tudo aquilo. Mas o quê? E por que devia preocupar-se com isso?
O barbudo parecia adivinhar suas dúvidas, e sorriu.
Não quebre a cabeça, meu amigo. Vai precisar dela ainda, especialmente amanhã. Pois para ficar espantado, a gente precisa ter cabeça.
Rhog reconheceu a irrespondível lógica daquele argumento, e procurou um lugar para dormir no chão rochoso.
Fosse qual fosse a aventura que o esperava, pelo menos estava seguro na caverna, e nenhum harack viria despedaçá-lo.

* * *

Aproximadamente à mesma hora, seis homens sentados em torno de uma mesa, num recinto bem iluminado, conversavam em voz baixa. As palavras murmuradas se tornavam inaudíveis a uma pessoa que estivesse a dois metros. A cautela era justificada, pois o recinto fazia parte de um edifício situado no espaçoporto de Tagnor. E ambos se encontravam em mãos arcônidas.
Todos tinham aparência de zalitas. No entanto eram terranos.
Os cabelos de Perry Rhodan apresentavam reflexos acobreados à luz da lâmpada. Sua pele era a de um índio. Os bioquímicos de seu comando especial haviam executado tarefa de mestre. Rhodan e seus companheiros viraram autênticos representantes da linhagem arcônida, pois os zalitas descendiam de antigos colonizadores do Império. E era, primordialmente, graças aos conhecimentos de seus bioquímicos que Rhodan podia misturar-se agora com os zalitas.
À sua direita, achava-se Reginald Bell; a despeito do físico um tanto atarracado, e da estatura baixa, passava por verdadeiro zalita. À esquerda, encontrava-se o Capitão Hubert Gorlat. Era agora um capitão zalita, que se apresentara voluntariamente para servir na frota do regente-robô.
Os outros três homens eram o teleportador africano Ras Tschubai, o telepata John Marshall e o professor Eric Manoli.
Rhodan dizia no momento:
...não pode demorar muito. O regente faz muita questão de que os soldados sejam treinados, e não os deixaria ficar ociosos em Zalit. No próximo transporte, no máximo na segunda leva, iremos com certeza.
É chato Calus não poder fazer nada — comentou Bell, piscando com os olhos. — Em todas as nossas ações, ele nos ajudou.
Rhodan lançou-lhe um olhar de censura. Totalmente sem razão, aliás, pois se um único de seus numerosos segredos fosse revelado, estariam perdidos. Porém o segredo sobre a personalidade de Calus era o maior e o mais valioso que possuíam.
Osega não pode despertar suspeitas — sussurrou Rhodan. — É nossa figura-chave nesta partida de xadrez galáctico. O rei, por assim dizer, se sofrer xeque-mate, fará nossa missão fracassar.
Estamos sem contato com ele desde ontem — objetou Gorlat. — Sua fala de hoje na televisão foi áspera. Calou fundo nos ânimos.
Osega representa muito bem o papel de almirante arcônida! — concordou Rhodan. — O verdadeiro Calus deve estar suando sangue debaixo da arena, neste tempo. Aposto que jamais lhe passou pela cabeça a idéia de ser substituído por um sósia.
Não passaria pela cabeça de ninguém — disse Bell. — Nem zalitas, nem arcônidas. O que é ótimo...
Algum dia os zalitas vão compreender uma porção de coisas, depois de saberem disso — declarou Gorlat. — Acho que é hora de ir, Ras.
Rhodan olhou para o relógio e acenou.
De fato, chegou a hora combinada. Pode ir visitar Calus agora, Ras. Gostaria de saber quando seremos transportados. A comunicação não pode ficar interrompida. Ele deve estar só em seu quarto agora, no palácio do Zarlt. Bem... você está mais do que familiarizado com o local.
O teleportador ergueu-se.
Mais alguma instrução, Sir? — perguntou a Rhodan.
Não, nenhuma. Ou melhor, talvez possa perguntar a Osega se o regente continua mantendo sigilo acerca de seus planos. Afinal, devia abrir-se ao menos com os oficiais dirigentes de sua frota. Isso é tudo.
Ras Tschubai acenou, procurou um canto da peça, e concentrou-se no salto. Os demais observavam-no atentamente. Sempre se sentiam fascinados pelo espetáculo proporcionado pelo salto de um teleportador. Para Ras, o processo nada tinha de impossível, porque conhecia bem seu alvo. Imaginou o quarto de Calus, visualizando-o com tal nitidez que parecia ao alcance da mão, enquanto se desmaterializava. E quase no mesmo instante, a visão se tornou realidade. Paredes, mesa, cama, o próprio Calus materializaram-se diante dele. Chegara, e no preciso segundo em que desaparecia do raio de visão de Rhodan.
Calus estremeceu ligeiramente, mas depois sorriu. Os bioquímicos tinham transformado o sargento terrano Roger Osega em autêntico arcônida. Pessoa alguma o reconheceria debaixo daquela máscara. O verdadeiro Calus passara por um susto mortal na ocasião em que defrontara-se com seu sósia, antes de ser seqüestrado e encerrado nas catacumbas.
É pontual, Ras — disse Osega, consultando o relógio. — No entanto, podia ter poupado o esforço. Nada de novo.
O transporte? Quando vai?
Mas que ânsia de chegar a Árcon! E nem sabem o que os espera lá. Talvez venham a lamentar esta pressa algum dia.
Ora, deixe de dizer tolices! — respondeu o africano, em tom rude. — O empreendimento está em andamento, e nada seria capaz de detê-lo agora. Sabe disso tão bem quanto eu. Que temos de novo, além disso? O chefe gostaria de saber se o regente deixou escapar alguma informação.
Não, nenhuma, Ras. Nos próximos dias devem chegar numerosas naves cargueiras, a fim de conduzir os recrutas para Árcon. As listas virão com elas. Não tenho influência sobre as relações. Nosso grupo deve seguir ainda esta semana, pelo que sei.
Obrigado — replicou Ras, sorrindo satisfeito. — Alguma coisa, pelo menos. Aliás, os passes com sua assinatura obram milagres; oh, desculpe! Afinal, a assinatura é do verdadeiro Calus. Ele trabalha espontaneamente, sem se opor a nada. O Dr. Linkmann deve ter-lhe administrado um medicamento bem eficiente. Calus assinaria até sua própria sentença de morte no atual estado.
Sem dúvida! — concordou Osega. — E eu seria o único Calus.
O africano caiu na gargalhada.
Que bem lhe fica a dignidade de almirante, sargento! — caçoou. — Dá licença de retirar-me? Até amanhã, à mesma hora. Passe bem, Almirante Calus, nobre arcônida por obra e graça do cérebro-robô...
E o falso Calus, que ajudava a aplainar o caminho de Rhodan para Árcon, estava novamente sozinho. Era um cordeiro em pele de lobo... pelo menos para os zalitas, que nem suspeitavam de que seu maior inimigo era na realidade seu melhor amigo.
2



O novo dia raiava ao leste. Imenso e rubro, o sol subiu no horizonte, tomando conta do céu claro. Dentro da caverna, o fogo se extinguira, exigindo que o vigia reavivasse as brasas. Logo após, a água ferveu na caçarola, e o estimulante odor do kagarak invadiu o ambiente.
Rhog só acordou quando foi sacudido.
De pé, meu amigo! — disse o barbudo, indicando o fogo. — Desjejum!
Rhog sentiu alívio. Sabia que estava em segurança, e que chegaria são e salvo a Tagnor. Só faltava lhe devolverem a pistola de raios. Sem arma, não haveria meio de realizar seu plano.
No decorrer do desjejum, Rhog não percebeu sinal algum da partida iminente.
Onde estariam as mercadorias que deviam carregar? Haveria assim tanto tempo disponível, pra não apressarem a refeição?
Pensou nos três homens ainda por chegar. De onde viriam, ali no meio do deserto entre as duas cidades?
Partilharam a comida com ele, para que não precisasse sacrificar suas parcas provisões. Aliás, todos o tratavam com extrema amabilidade. Atitude que não se modificou quando o barbudo lhe fez o convite de acompanhá-lo numa volta pelo acampamento, após terem comido. Os demais homens permaneceram na caverna.
Dirigiram-se para os veículos estacionados, cobertos com lonas. Pelas marcas no chão, Rhog reconheceu que estavam ali há menos de um dia. Portanto, as declarações do barbudo eram corretas. Porém os três homens anunciados continuavam a despertar o interesse de Rhog.
Quando chegam os três homens de que falou? — perguntou. — Virão num planador?
O barbudo olhou para o relógio.
Compreendo sua curiosidade, mas não posso dizer-lhe nada. E, para ser franco, sei tanto quanto você. Mandaram-me apenas aguardar os três homens aqui nesta caverna. Viu, sem dúvida, a esquisita máquina guardada lá dentro, não? Sabe o que é aquilo?
Não tenho a menor idéia — disse Rhog, esperando ver sua curiosidade ser satisfeita, finalmente. Porém sofreu nova decepção.
Também não sei, Rhog. Avisaram-nos de que ela estaria aqui. E que traria os três homens, e as mercadorias que deverão ser levadas a Tagnor.
Virão pela máquina? — perguntou Rhog, incrédulo. — Como é que alguém pode viajar numa máquina firmemente presa no piso da caverna?
O barbudo sorriu.
Pagaram-me bem para fazer o transporte, e além disso me forneceram documentos de vital importância para a sobrevivência. Por isso não faço tantas perguntas como você. Quando retornar a Larg, poderei aguardar sossegadamente a retirada dos arcônidas. Portanto, para que preocupar-me com a tal máquina?
Rhog percebeu que o empreendimento era patrocinado por uma organização bem maior do que supusera de início. Devia considerar-se feliz por ter topado com o grupo. Porém decidiu não revelar a ninguém seus planos pessoais.
Minha arma? — indagou. — Será devolvida quando atingirmos Tagnor?
O barbudo olhou-o de esguelha.
Para que precisa dela?
Para defender-me, mais nada. Meus papéis não são tão bons quanto os de vocês. Quero morrer lutando, caso os arcônidas me peguem, e não ser fuzilado por eles como prisioneiro indefeso. Pode compreender isso?
Sim, posso compreendê-lo — concordou o barbudo, enfiando a mão no bolso. Retirou-a com a pequena pistola de raios e passou-a a Rhog. — Aqui está ela. Mas nada de tolices, entendido? Como vê, confio em você.
Não somos todos zalitas, e, como tal, aliados?
O barbudo acenou. Tinham se distanciado quase duzentos metros da entrada da caverna, e estavam bem perto da estreita fenda que levava ao deserto. Rhog pensou consigo mesmo que os tratores de esteira teriam dificuldade em passar por ela.
Um grito prolongado ecoou pelas paredes rochosas. O barbudo estacou abruptamente, e olhou para trás. Diante da caverna, um homem lhes acenava freneticamente com os braços. O gesto era óbvio.
Vamos, Rhog. Creio que nossos amigos chegaram.
Rhog seguiu-o sem uma palavra. Não entendia coisa alguma. Como é que os três homens tinham ido parar na caverna sem passar por eles?
Três zalitas desconhecidos já estavam à espera do chefe da caravana. A despeito da aparência zalita, eram originários da Terra, e pertenciam a um dos comandos especiais de Rhodan. Gucky os teleportara individualmente até ali. Tinham surgido repentinamente no meio dos homens abrigados na caverna, deixando-os aterrorizados. Um por um, materializaram-se do nada. Ninguém chegou a ver Gucky, que tornava a saltar de volta para Tagnor, logo após ter depositado a respectiva “carga”.
O barbudo estendeu-lhe a mão.
Vim a mando de Hhokga, a fim de escoltá-los para Tagnor — disse ele, dando a senha combinada. — Onde estão os aparelhos que devemos transportar?
O sargento Miller retribuiu o aperto de mão.
Sou Thar, amigo. Estes são meus companheiros, Regul e Prezl — apontou para os cadetes Rodolfo e Kranolte. — Dentro de meia hora, segundo espero, podemos dar início ao carregamento.
O barbudo fitou-o espantado. Miller acenou.
Sim, ouviu bem, mas parece desconhecer o que seja um transmissor de matéria. No entanto, são bastante comuns em vários mundos. Lá na caverna encontra-se um exemplar deles, pronto para receber. A função deveria ter início dentro de alguns minutos...
Não existiam transmissores de matéria em Zalit, mas sabia-se de sua existência. O barbudo começou a compreender que gente poderosa se encontrava por trás de Hhokga. Transmissores de matéria...!
Alguém saiu correndo da caverna, aos gritos:
Bruxaria! O demônio está solto...! A máquina...!
O sargento Miller sorriu e olhou para o relógio.
Danados de pontuais, nossos amigos. No minuto cravado!
Passando pelo barbudo, encaminhou-se para a caverna. Seus dois companheiros seguiram-no.
Rhog apalpou o metal duro da arma no bolso. Transmissores de matéria ou não — sabia o que devia fazer. Daqui a três dias chegaria sua vez...

* * *

O General Deringhouse verificou que tudo estava em ordem.
Hora certa, coordenadas de salto, velocidade — tudo conforme o computador calculara. Faltava apenas acionar a derradeira alavanca. E esta tarefa fora reservada a Deringhouse.
A Califórnia captara as mensagens radiofônicas de Zalit. O material pedido já se encontrava nas cabinas dos cinco transmissores dispostos no porão de carga da Califórnia. Também ali um aperto de botão seria o suficiente — assim que materializassem sobre Zalit.
O cruzador ligeiro saltou e desapareceu do Universo normal; porém todo o processo de saltar através do hiperespaço durou apenas frações de segundo. Quando o General Deringhouse tornou a avistar o espaço que o rodeava, muitos anos-luz o distanciavam do ponto onde estivera há alguns segundos.
A frota de bloqueio dos arcônidas não dormia, mas faltou-lhe agilidade para obstar Deringhouse no cumprimento da tarefa. Ainda enquanto a nave esférica entrava, em alucinante velocidade, nas camadas superiores da atmosfera de Zalit, os cinco transmissores começaram a trabalhar. De um segundo para outro, as mercadorias acumuladas em seu interior desapareceram. Simultaneamente, a Califórnia tornou a disparar espaço a fora, em direção do ponto de transição previamente determinado pelo computador.
Quando as naves arcônidas perseguidoras abriram fogo, os robôs miravam apenas contra o vazio. A Califórnia desmaterializara, com os neutralizadores de freqüência ligados. Sem ter deixado qualquer pista, nunca poderia ser detectada.
O regente de Árcon recebeu apenas a lacônica comunicação de que uma nave de identidade ignorada havia sido avistada e perseguida.
Na caverna de Zalit, entretanto, o equipamento remetido chegou ao receptor em perfeitas condições. O processo fez o zalita pensar em bruxaria e artes do diabo!
De pé na entrada da caverna, Rhog contemplava o espetáculo boquiaberto.
A porta aberta da cabina despejava caixas e pacotes, como se mãos invisíveis as empurrassem para fora. Os três homens desconhecidos apreciavam sem fazer nada. Um deles exibia um largo sorriso. O barbudo preferiu calar-se.
Por fim, o porta-voz do grupo recém-chegado voltou-se.
Podem começar a carregar. Estejam de volta dentro de exatamente uma semana, ou enviem outros homens. Vamos precisar de uma segunda caravana.
O barbudo fez sinal a seus homens. Eles puseram mãos à obra.
Daqui a uma semana?
Miller acenou.
Sim, segunda etapa, meu caro. Serão bem pagos pelo trabalho.
Enquanto o barbudo dirigia o embarque, os três terranos se retiraram para um canto da caverna.
Não adianta — disse Miller aos dois subordinados. — A caravana não vai dar conta do recado. Temos de ficar aqui, e nos revezar na guarda. É melhor do que ir com Rhodan para Árcon.
Pois eu preferiria a aventura — declarou o cadete Kranolte, sentando com um gemido sobre uma pedra. Esta evidentemente já fora usada com finalidade idêntica por outros. — Ficar empoleirado aqui como a galinha cega do provérbio.
Cada qual em seu lugar — disse o cadete Rodolfo, maliciosamente. — Talvez você acerte com o famoso grão.
Que tal de grão é este? — perguntou Kranolte, desconfiado. Não era muito versado em provérbios. — E o que faria eu com ele?
O sargento Miller sabia que tinha se desencadeado um daqueles intermináveis debates, durante os quais muito se falava mas pouco se dizia. Antes que pudesse interrompê-los, Rodolfo disse:
Uma galinha sem grão? Mas Kranolte...!
Faça o favor de usar meu nome de guerra. Chamo-me Prezl!
Não me soa mais atraente do que o verdadeiro — observou Rodolfo, sarcasticamente.
Calem a boca! — gritou Miller, encerrando a discussão. — Depois teremos uma semana inteirinha para bater papo.
Aguardem pelo menos até nossos amigos partirem com a caravana.
Repentinamente Rodolfo lembrou-se de algo.
Perceberam, aliás, que o grupo conta com onze zalitas, e não dez, conforme nos disse Toffner? Quem será o décimo primeiro?
Sabe contar muito bem, Rodolfo — louvou Miller. — Mas dez ou onze, que bem nos importa? Algum homem desejoso de viajar até Tagnor com a caravana... Hhokga deve ter tido a cautela de admitir apenas gente de confiança no grupo. Acho que não devemos preocupar-nos com isso.
No fundo, ele tinha razão. Mas se o sargento Miller tivesse podido adivinhar a desgraça resultante de seu descaso, não falaria com tanta tranqüilidade.
Porém nas circunstâncias dadas, a caravana se pôs em marcha três horas depois, deixando os três terranos na caverna. Ainda havia nela boa quantidade de material.
E Rhog seguiu com a caravana para Tagnor.

* * *

Dois dias mais tarde, enquanto a caravana ainda fazia a travessia do deserto, uma frota de carga aterrissou no espaçoporto de Tagnor. Seu comandante trazia o encargo de levar para Árcon todos os “voluntários” ainda à espera em Zalit. A hora decisiva chegara para Rhodan.
Em colaboração com seu pessoal, conseguira ocupar ultimamente muitas posições-chave. Os mutantes haviam desempenhado papel destacado nesta excelente operação. A maioria dos oficiais arcônidas sofrera hipnobloqueio, e já não representavam perigo. Além disso, o bloqueio fora condicionado de maneira a desaparecer espontaneamente assim que o grupo de terranos pousasse em algum planeta do sol Árcon.
No entanto, fora impossível prever que novos oficiais, com ordens diversas, viessem com a frota de carga. Não haveria tempo para influenciar igualmente estes arcônidas. Tinham sido destacados pelo regente, e vinham munidos com suas instruções. Não havia meio de rebelar-se contra estas instruções, sem despertar suspeitas. O próprio Almirante Calus era impotente no caso. E, nestas condições, de pouco valia a Rhodan o fato de que Calus era na verdade o sargento Osega.
A julgar pelos preparativos em andamento, era de supor que o transporte dos zalitas seria iniciado naquele mesmo dia. Os oficiais recém-chegados, arcônidas dos mais ativos, começaram imediatamente a fazer a distribuição dos recrutas, não admitindo que ninguém influísse em suas decisões. Porém, com muita habilidade, Rhodan conseguiu que seus cento e cinqüenta homens ficassem num só bloco, e fossem alojados num cargueiro esférico. No entanto, não pôde evitar que mais três mil zalitas autênticos viajassem na mesma nave. Portanto, continuava a possibilidade de serem descobertos.
Até o embarque, ainda lhes restavam algumas horas. O equipamento tinha sido completado, e os recrutas aguardavam nos alojamentos a ordem de ir para bordo do cargueiro.
Os ânimos estavam um tanto deprimidos. Diante deles estava a grande incerteza. Ninguém saberia dizer se por acaso o cérebro-robô já tomara conhecimento do ardil planejado, e os atraía para uma armadilha fatal. Certo, as máscaras eram perfeitas. Por obra de seus bioquímicos, Rhodan e seus homens eram agora zalitas genuínos; seus papéis estavam em ordem, e falavam sem o menor sotaque. No entanto, um acidente qualquer poderia delatá-los.
Rhodan acenou para o Capitão Hubert Gorlat.
Tome o meu lugar, capitão. Ainda pretendo fazer uma breve visita a Rosberg, em companhia de Ras. Marshall, mantenha-se em contato telepático constante comigo. Avise-me assim que a coisa começar por aqui, e voltarei instantaneamente.
O teleportador africano segurou a mão de Rhodan, a fim de estabelecer o contato físico indispensável a um salto daquela natureza. Com um gesto, John Marshall deu a entender que compreendera a ordem de Rhodan. Gorlat evidenciava na fisionomia sua preocupação. Apesar de ser pouco provável, a aparição de algum arcônida no recinto onde esperavam, não era de todo impossível. Suspirou aliviado ao ver Ras Tschubai desaparecer com Rhodan.
Sob a arena, no esconderijo subterrâneo das catacumbas, a visita de Rhodan provocou grande alegria, apesar de representar a despedida definitiva. Gucky tentou mais uma vez, inutilmente, fazer o amigo mudar de opinião. Queria, por força, acompanhá-lo. Mas Rhodan foi inflexível.
Fora de cogitação, Gucky! Nem mesmo como animal doméstico! Os zalitas têm permissão apenas para levar alguns artigos de uso pessoal. Lembre-se também de que você não é totalmente desconhecido para alguns arcônidas. Caso tivesse desistido, em ocasiões passadas, de querer estar sempre em primeiro plano, o reconhecimento seria menos provável. Mas assim... Além disso, seus serviços vão ser muito necessários aqui. Que seria do Major Rosberg sem você?
Realmente, não podemos passar sem um teleportador — confirmou o major, gravemente. — Jamais poderíamos ter enviado o sargento Miller e seus dois acompanhantes para a caverna, se não contássemos com Gucky.
Viu? — disse Rhodan, sorrindo encorajadoramente para o rato-castor.
Depois mudou de assunto.
Ficaremos fora de contato, daqui por diante. Os arcônidas não nos proibiram o uso de nossos relógios, portanto levarei comigo o minúsculo transmissor de impulsos embutido na pulseira. Em caso de extrema necessidade, poderemos comunicar-nos por meio dele. Devido ao risco de uma possível detecção, devemos evitar ao máximo tal contato; porém é tranqüilizador para ambas as partes saber que existe a possibilidade de uma troca de mensagens. A freqüência é a habitual. Bem, a rigor, é tudo o que eu tinha a dizer. Como foi a ação da Califórnia?
Conseguiram depositar o material pedido na caverna anteontem, e escapar incólumes. Toffner organizou a caravana, que deve chegar aqui amanhã. Enviaremos um oficial ao encontro dela, para que possa entrar na cidade sem controles adicionais. Pode ficar tranqüilo, pois, Sir.
É o que desejo — replicou Rhodan. — Creio que seguiremos para Árcon ainda hoje. Boa sorte, Major Rosberg. Confio no senhor!
Boa sorte, igualmente, Sir! Que todos retornem a salvo.
Não esqueça de dar lembranças minhas ao cérebro-robô. E ele que se dê por satisfeito por eu não poder ter ido junto com vocês! — na voz de Gucky percebia-se nitidamente sua irritação. Parecia responsabilizar pessoalmente o regente por ter que ficar em Zalit. — Pouco a pouco vou me habituando a servir na retaguarda.
Sabe lá quanta coisa ainda pode vir a acontecer na retaguarda — replicou Rhodan, displicentemente, sem suspeitar que suas palavras eram proféticas. — Saltemos, Ras. O pessoal nos espera.
Acenou mais uma vez para os presentes, antes de segurar a mão do teleportador, e dar o sinal para a partida.
Gucky ficou olhando demoradamente para o ponto no qual os dois homens desmaterializaram-se. Depois voltou-se bruscamente, e foi para seu canto. No que lhe dizia respeito, a operação “Destruir Árcon” estava encerrada.

* * *

Mas ela mal começara! Oficiais e robôs arcônidas — ainda não reprogramados secretamente por especialistas de Rhodan — comboiaram os zalitas para as naves que os transportariam para Árcon. Os homens do grupo suicida não se sentiam nada bem em seu disfarce zalita, apesar de não precisarem recear uma descoberta iminente.
Antes de entrar na nave, cumpria exibir mais uma vez os passes. Os nomes eram conferidos numa lista. Medida esta que mal poderia preocupar Rhodan e sua gente. Os passes eram trabalhos precisos de técnicos terranos.
Porém permanecer juntos dali por diante seria mais difícil. Cada alojamento comportava cem homens. Então, o grupo dos 150 foi dividido. Acompanhado por 49 terranos, Rhodan entrou num compartimento. Durante as próximas horas, não haveria possibilidade de conversarem livremente. Podia existir algum espião ou delator entre eles, pronto a levar aos arcônidas qualquer palavrinha suspeita, a fim de amenizar a própria sina...
Atlan teve mais sorte. Ficou no compartimento vizinho, com noventa e nove terranos. Com isso, podiam conversar em voz baixa, sem o perigo de serem escutados. Como John Marshall fazia parte do grupo, estava sempre a par do que se passava com Rhodan; este, por sua vez, possuía capacidade telepática suficiente para compreender o sentido das mensagens de Marshall.
Portanto, a separação não implicava em interrupção das comunicações.
No entanto, nenhum deles podia constatar o que se passava lá fora. O que, porém, não lhes parecia tão importante no momento.
Três horas após, passos apressados no corredor denotavam o início dos preparativos para a decolagem. John Marshall informou telepaticamente a Rhodan que o comandante da nave tivera uma derradeira entrevista com o Almirante Calus, transmitindo-lhe a ordem do regente de recrutar nas semanas vindouras novo contingentes de zalitas — à força, caso fosse necessário. E Calus divulgaria as novas disposições em seu discurso diário.
Dez minutos depois, levantavam vôo.
A pressão foi devidamente compensada, e não sentiram o efeito da tremenda aceleração. Rhodan verificou que os zalitas aparentavam estar conformados com seu irremediável destino. Isolados ou em grupos, recostavam-se nas paredes, com olhar ausente. Certamente já se viam a bordo de alguma nave de guerra, rumando vertiginosamente ao encontro de um feroz inimigo que os esperava em lugar ignorado. De boa vontade, Rhodan lhes diria palavras de conforto, porém seria por demais perigoso. Ninguém devia saber que era terrano — membro justamente da raça que Árcon pretendia combater.
A transição durou apenas segundos, e retomaram a velocidade normal. Da central de comando já se devia avistar o sistema Árcon, centro de um poderoso reino estelar que se precipitava ao encontro de seu imutável destino. Os três planetas principais contornavam seu sol em órbita idêntica, formando um triângulo eqüilátero. Rhodan acreditava firmemente que pousariam num destes planetas, se bem que não no principal. Pois era nele que se encontrava o cérebro-robô, regente de Árcon, objeto da arriscada ação dos terranos.
Três horas depois da partida de Zalit, nova movimentação na nave demonstrou que se aproximavam do local de chegada. Deviam ter saído da transição, já no interior da linha fortificada; não havia outra maneira de justificar o breve espaço de tempo percorrido à velocidade da luz.
A porta do compartimento foi aberta com um empurrão. Um robô anunciou com voz fria e metálica:
Deixarão a nave dentro de trinta minutos. Reúnam seus pertences, e aguardem a ordem do alto-falante.
Depois a porta foi novamente fechada. Rhodan estava sentado num canto.
John Marshall? Tudo bem com vocês?
A resposta foi imediata, e igualmente silenciosa:
Tudo bem. Procuraremos ficar juntos depois do desembarque.
Claro! — emitiu Rhodan.
No íntimo, sentia-se bem mais intranqüilo do que aparentava exteriormente. A tensão chegava ao auge agora. Certamente passariam por mais um controle, antes de pisar em Árcon. Rhodan ignorava que métodos seriam usados neste controle, Seria de natureza pessoal ou técnica? Ou médica...? Nesta hipótese, corriam grave perigo.
O cargueiro pousou com um leve solavanco. Quase ao mesmo tempo, o alto-falante ordenava estridentemente que permanecessem nos alojamentos, e obedecessem à risca às determinações dos robôs.
Rhodan sentiu-se invadido por estranha sensação. Não a conhecia, porém tratava-se de uma reação completamente normal. Via-se diante do desconhecido, sem ter influência alguma sobre os acontecimentos. Não tinha poder decisório algum sobre as decorrências dos próximos minutos; não poderia impedi-las, nem acelerá-las. Outros se encontravam no comando da situação. Por minutos ou horas, Rhodan se via isento de qualquer responsabilidade...
E era uma sensação que ele desconhecia!
Sobressaltou-se quando um robô irrompeu pela porta, ordenando:
Para fora, todos! Em fila, um por um!
Rhodan esperou a vez tranqüilamente. Primeiro os zalitas verdadeiros deixaram o alojamento, alinhando-se no corredor em filas de cinco. O robô começou a contar. Quando Rhodan saiu, ainda chegou a ver os outros cem integrantes do comando marchar em frente. Seu grupo foi o próximo a ser movimentado. Seguiram por extensos corredores até um amplo compartimento de carga. Os diversos grupos foram entregues a si mesmos, e Rhodan conseguiu reunir novamente seus homens. Formaram um bloco cerrado, firmemente dispostos a não se deixarem separar mais.
Vagarosamente o portão de carga abriu. Ar frio, não muito agradável, invadiu o recinto. Divisaram uma série de construções baixas, sob um céu azul-escuro, quase violeta.
Alguém tossiu.
Junto de Rhodan, Gorlat sussurrou em idioma zalita:
Este ar é muito seco... e pobre em oxigênio. Confere com o que sabe sobre os três planetas principais de Árcon?
Rhodan não respondeu. Refletia febrilmente. Nos três planetas de Árcon, a atmosfera era semelhante à da Terra. No entanto, o que respirava no momento mais parecia uma versão melhorada da atmosfera marciana.
Será...?
Seus pensamentos foram bruscamente Interrompidos. Da porta, um robô berrava:
Em fila de cinco, marchem!
Rhodan não viu motivo para maiores hesitações. Fazendo sinal para seus homens, o grupo foi o primeiro a desembarcar.
Uma larga rampa levava à superfície do planeta. À direita e à esquerda da porta, robôs faziam a contagem.
Rhodan avistou então um sol no firmamento, no setor direito. Devia tratar-se de Árcon, sem sombra de dúvida. Porém era menor do que a estrela da qual se recordava. Suas derradeiras dúvidas se dissiparam ao ver imensa esfera, de brilho opaco, um pouco à esquerda dos prédios — um planeta!
Como uma mão gélida, a decepção apossou-se de seu coração.
Não tinham aterrissado em nenhum dos três planetas.
Aliás, não haviam pousado em planeta algum, e sim numa lua com atmosfera no limite do respirável.
O cérebro-robô”, pensou Rhodan consternado, “se acautelou contra qualquer risco.
Antes de admitir alguém no solo arcônida, examinava-o de ponta a ponta. Restava saber se os terranos resistiriam a esta nova prova. E tudo dependia do resultado dela.

* * *

Laboriosamente a caravana enfrentava a tempestade. O vento surgira repentinamente, soprando do oeste. Impelia a areia seca à sua frente, formando novas dunas. Os onze zalitas haviam amarrado panos no rosto, a fim de protegerem-se da poeira que penetrava pelas menores frestas das cabinas dos veículos.
Rhog viajava com o barbudo, que dirigia um dos carros.
Espero que não nos desviemos da estrada, Murgo.
Ora, que diferença faria? — replicou o chefe da caravana. — De qualquer forma, ela mal se diferencia do deserto. Além disso, temos ótimos instrumentos de orientação. Rumando sempre para o oeste, acabaremos infalivelmente em Tagnor.
Depois de uma pausa, Rhog disse:
Quanto falta ainda?
O barbudo fitou-o com ar inquisitivo.
Por que tem tanta pressa em chegar à capital? Aqui no deserto, você não corre perigo, mas em Tagnor sim. Não compreendo sua afobação, meu amigo.
Rhog prometeu a si mesmo ser mais prudente, a fim de não despertar suspeitas. Tanto fazia Calus morrer um dia mais cedo, ou mais tarde.
O temporal me preocupa — alegou ele, tentando simultaneamente explicar sua inquietude. — Se ficarmos presos aqui na areia...
Totalmente impossível! — Murgo apontou, rindo, para as esteiras do veículo imediatamente atrás. Como as cabinas eram envidraçadas por todos os lados, tinha-se ampla visão circular. — Nem as mais altas dunas representam obstáculo para nós. E saiba que nenhum avião de patrulha arcônida levanta vôo com este tempo, fato que deveria contribuir bastante para sentir-se mais calmo. Viajaremos sem perturbações.
Rhog concordou com as suposições de Murgo. Pensou nos companheiros que deixara lá nas montanhas.
Que estariam fazendo naquele momento? Esperando? Aguardando a sensacional notícia que talvez não viesse nunca? Para Rhog, era fácil imaginar que os arcônidas mantivessem em segredo a morte de Calus, caso conviesse a seus planos.
Percebeu que Calus teria que ser assassinado em público, para todo mundo saber do fato. O que implicava em aumento do risco para ele próprio. A ponto, até, de cortar-lhe qualquer possibilidade de fuga.
Em que pensa? — perguntou Murgo. — Se pinta imagens róseas do futuro, saiba, Rhog, que não temos grandes chances. Para os arcônidas, nossa sorte é indiferente. Necessitam de soldados, e tomam-nos. Uma grande guerra está para ser desencadeada, ignoro contra quem. Porém o inimigo que ameaça Árcon deve ser poderoso. Até o presente, mesmo sem nossa ajuda, o regente foi capaz de enfrentar qualquer adversário. De repente, seus exércitos-robôs já não lhe bastam. Passou a usar gente.
Talvez possamos encarar isso como fato reconfortante, Murgo. Existe alguém mais forte do que os robôs de Árcon. Devíamos pensar nisso, quando nos preocupamos com o futuro. Há esperança.
Para nosso povo, sim! Mas para nós mesmos? Pessoalmente, o que podemos esperar? Mais dia, menos dia, seremos descobertos e recrutados. E Zalit não ficará semidespovoado antes que o reino arcônida desabe?
Rhog sorriu.
As montanhas e ermos de Zalit ocultam muitos homens, todos eles dispostos a reconstruir algum dia seu mundo. Os arcônidas não permanecerão entre nós por muito tempo mais.
Murgo seguiu com os olhos um turbilhonante pé-de-vento, carregado de areia, que dançava diante deles.
E por que acha isso, Rhog? Tem alguma razão especial para supor que Árcon desistirá em breve de nossa ajuda?
Não, claro que não. É apenas uma esperança que alimento.
Murgo fixou o olhar em frente, para as nuvens de areia.
Pois é... — disse apenas, calando-se depois.
Para Rhog, estava ótimo. O monótono zumbido dos motores parecia querer ajudá-lo a disfarçar seus pensamentos. Estava preocupado. Seu intento, aparentemente tão simples lá na caverna rochosa, transformava-se gradualmente em problema insolúvel. O Almirante Calus devia cercar-se de uma guarda poderosa, e talvez fosse impossível aproximar-se dele. Robôs deviam guardar a vida de seu senhor, não permitindo que ninguém rompesse a cadeia protetora.
Porém durante a tarde, quando Murgo ligou o televisor para escutar a fala diária do almirante arcônida, Rhog teve uma idéia. Olhando para o lado, fitou na pequena tela a fisionomia cruel e altiva de Calus.
E com seu ódio cresceu a certeza de ter achado um meio de eliminar o tirano.

* * *

O frio era cortante.
Formados diante das naves pousadas, os homens aguardavam as ordens dos robôs de guarda. Agora os arcônidas tinham deixado de lado qualquer consideração, dando a entender claramente aos zalitas que deviam considerar-se prisioneiros. Nenhum dos oficiais arcônidas postados em Zalit viera junto. Além do ambiente opressivo, Rhodan e seus homens se defrontavam também com adversários completamente desconhecidos.
Rhodan estava entre Atlan e Bell. Na ala esquerda da fileira de cinco, encontrava-se Gorlat; John Marshall ocupava a extremidade direita.
Onde estamos? — perguntou Rhodan, que desejava ver confirmada sua suposição. Duas opiniões iguais talvez representassem a verdade. — Bell, você conhece o sistema tão bem quanto eu. O tamanho de Árcon...
Eu diria... quinto planeta — replicou Bell, em voz igualmente abafada. — Numa lua do quinto planeta. De acordo com nossas informações, o planeta se chama...
Sei qual é — cortou Rhodan. — E pousamos em sua lua. O número cinco é um mundo gigante. Sua lua chama-se Naator. É quase do tamanho da Terra, atmosfera rarefeita, ambiente desértico, montanhas... Em suma, lugar nada hospitaleiro. Mas claro! Daqui ninguém sai sem naves ou sem consentimento do regente. Bela armadilha!
Eu não diria isso, Perry. Trampolim para Árcon soa muito melhor. Se pelo menos não fizesse tanto frio!
Atlan observou, baixinho:
Ali adiante estão os alojamentos. Se não me engano, Naator vem a ser uma espécie de campo de treinamento para soldados. Árcon possui uma academia de guerra cósmica para suas raças colonizadas. As turmas são treinadas aqui. Acho que acertamos em cheio, vindo para Naator.
O quinto planeta não é habitado? — perguntou Bell.
Rhodan acenou imperceptivelmente.
Os naats são ciclopes dotados de três olhos. De natureza completamente inofensiva, e submissos a Árcon. Os aras usam-nos como cobaias em suas experiências médicas.
Os aras — descendentes dos primitivos colonizadores arcônidas — eram uma raça bastante peculiar. Viviam da arte de curar os outros. E viviam excepcionalmente bem desta arte. Houvera até certa época em que provocaram a contaminação de planetas inteiros, a fim de tirar proveito das curas posteriormente efetuadas. Os aras eram magros, inteligentes e de disposição nada amistosa.
Os naats possuem inteligência?
Escassa, Bell. Da parte deles, dificilmente temos o que temer. Apesar de terem engajado alguns deles como oficiais de bordo.
No gigantesco espaçoporto estavam formados agora mais de cinqüenta mil zalitas, vigiados por patrulhas de robôs. O diminuto e distante sol Árcon fornecia luz escassa, e nenhum calor. Do lado do deserto sopravam ventos gélidos; secos e cortantes, que atravessavam pele e ossos. Rhodan felicitou-se pela circunstância de estar entalado na massa humana. Os zalitas das fileiras externas já deviam estar semicongelados.
Repentinamente se ouviu um murmúrio percorrendo a multidão. Na parede longitudinal do prédio maior, flamejou uma imensa tela de imagem. Um rosto surgiu — a face de um arcônida em uniforme de almirante. Ao mesmo tempo, uma bateria de alto-falantes entrou em ação, difundindo sonoramente a voz do arcônida, em volume bastante alto para ser ouvido por todos os presentes.
Zalitas!
Por instantes, Rhodan deteve-se em considerações acerca do comodismo dos arcônidas. Confortavelmente instalado em seu gabinete aquecido, o almirante se dirigia aos recrutas recém-chegados. Talvez fosse uma de suas obrigações diárias, e se transformara em hábito rotineiro. Mas pelo menos não sentia frio, sentado à sua mesa, diante do microfone e das câmaras de imagem.

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