segunda-feira, 29 de agosto de 2016

P-099 - Um Amigo da Humanidade - William Voltz [Parte 2]

O braço em espiral, provido de uma haste com algo poroso na extremidade, aparecia, fazia suas rotações lentas sobre o nariz, aspergindo sempre um certo líquido, retirando-se depois. Então, era a vez dos finos cabos de aço, percorrendo o rosto de Crest em constante oscilação, para depois desaparecerem.
Que estaria acontecendo entrementes com o Space-Jet? Será que os estranhos de tromba já teriam conseguido penetrar no interior do aparelho?
Crest estava sendo esmagado por um grande peso na consciência. Lembrava-se do que prometera a Rhodan. Mas como poderia sair daquela terrível situação?
Não tinha medo da morte. Era um homem experimentado e esclarecido, que sabia medir bem suas possibilidades e agir com precisão. Quando foi para aquele planeta, só tinha uma intenção: terminar seus dias na calma e na solidão. E agora, como tudo indicava, a morte já estava ali, junto dele, mas não com a calma e a solidão que desejava.
O pensamento de que o Space-Jet podia ser roubado lhe deu forças fora do comum. Crest iniciou uma batalha renhida contra a máquina. Retesou os braços e fez um grande esforço, tentando romper as tiras metálicas.
Não deu certo.
Pare com isso!”, ouviu a voz do seu cérebro lógico. “Poupe suas forças.”
Apesar de esgotado pelo grande esforço, Crest sorriu.
Poupar? — perguntou em voz alta. — Para quê?
Não houve resposta. O braço espiralado volteava novamente diante de seus olhos. Em pouco tempo ficaria noite e Crest se perguntava se os entes de tromba viriam ou não antes do escurecer. Não era necessário ter grande poder imginativo para prever o que ia acontecer quando eles chegassem.
Bizz... bizz — fazia aquela coisa estranha, borrifando o arcônida com gotas de um líquido malcheiroso que lhe cobriam o rosto.
Mas, com toda certeza, chegaria a hora em que a força da máquina acabaria. Será que seria possível acelerar o funcionamento do automático, para que o ciclo todo terminasse mais cedo?
Crest sondou seus conhecimentos de cibernética. O princípio básico de todo e qualquer aparelho automático, mesmo o mais simples, repousa na programação que recebeu de seu produtor inteligente. Todo robô recebe uma determinada tarefa, que ele desempenha dentro de suas possibilidades. Um robô em serviço não é outra coisa do que informação que se tornou móvel. Seu funcionamento está na dependência da informação que recebeu.
Crest tinha que olhar para o singular mecanismo a partir deste ponto de vista. Suas reações eram conseqüências das ordens que recebera. Não cabia à máquina distinguir se realizava sua tarefa com ou sem o devido acerto. Com os robôs, só ocorriam duas alternativas: parar ou funcionar. Entre estes dois pólos opostos, não havia escala intermediária.
E não havia dúvida quanto ao pólo em que o robô estava, isto Crest estava sentindo na própria carne. Funcionava de fato.
Existia, porém, um método infalível para se escapar desta máquina. Tinha apenas que desligá-la. Mas não sabia como, nem estava em condições de saber como funcionava.
Bizz... bizz — continuava o funcionamento do estranho aparelho.
Para o arcônida parecia até uma humilhação. Depois de algum tempo, Crest atingira um estado tal de depressão que ansiava pela chegada dos três seres que destruíram os dois robôs de combate. Rosto e cabelos estavam encharcados e os olhos lhe ardiam. As partes de seu corpo com faixas metálicas para prendê-lo ao cavalete já lhe estavam muito doloridas. Os pés pendentes fora do estrado pesavam-lhe mais do que chumbo.
Você não pode desistir agora”, dizia-lhe a parte lógica do cérebro. “Você tem que enfrentar os estrangeiros, em boas condições físicas e psíquicas.
Por que não acolhera as sugestões de seu grande amigo Rhodan, que lhe tinha proposto terminar tranqüilamente seus dias em lugares solitários nas montanhas da Terra? Mesmo em Árcon encontraria um recanto sossegado. Atlan, que substituíra o governo do cérebro positrônico, poderia ajudá-lo muito. Queria mover um pouco a cabeça, mas aquela espécie de almofada de carimbo o impedia.
Árcon não era mais sua pátria, não iria se sentir bem lá, pois, com o correr dos anos, se desligara inteiramente do Grande Império. Toda sua dedicação fora para os terranos. Não sentia muita simpatia pelos degenerados arcônidas, nem mesmo um sentimento de lealdade. Depois da morte de Thora, esposa de Rhodan, Crest perdeu as últimas ligações com seu povo. E as situações criadas por Thomas Cardif, filho de Thora e de Perry Rhodan, que tiveram repercussões negativas, foram também decisivas para a atitude de Crest: o digno ancião se afastou completamente de sua pátria, Árcon.
Um barulho o assustou. Se virasse bem o rosto para o lado, podia enxergar até os degraus da escotilha.
Será que os monstros estavam voltando? Por um momento, Crest se esqueceu do automático que estava funcionando. Tudo dependia de aproveitar qualquer oportunidade.
Na mesma hora olhou para a direção de onde o inimigo devia vir. De uma coisa estava certo: iria fazer tudo para salvar o precioso Space-Jet.
Passos e sussurros chegaram até seus ouvidos. Passos pesados, cada vez mais nítidos. Um calafrio percorreu o corpo do velho arcônida. Provavelmente terminavam ali seus longos anos de vida... e de uma maneira tão simples e... estúpida! Não estava absolutamente com medo. Era importante que ele fosse corajoso? Ou era meramente uma conseqüência da idade avançada, a quem a morte não assusta mais?
O barulho mais forte anunciava a aproximação dos monstros.
Bizz... bizz... — continuava funcionando a exótica aparelhagem.
Sentia o líquido lhe escorrendo pelas faces. Teve vontade de espirrar e para isso fechou os olhos.
Quando os abriu, já estavam diante dele.
Três figuras pesadonas, feias, com aquela horrenda tromba. Eram da mesma altura que Crest, mas duas vezes mais “fortes”.
Parados, como que estatelados de surpresa, olhavam-no atônitos
Alô! — tentou dizer Crest.

* * *

Ao penetrarem na escotilha, Golath teve o estranho pressentimento de estar sendo observado. Agitou com força a pesada tromba. Zerft ficou parado e Liszog deu um passo para trás.
O que está se passando? — perguntou Zerft.
Golath lhe ficou devendo a resposta. O tempo todo, e mesmo agora, tinha de seguir obediente atrás do espadaúdo Zerft. Seu ódio já estava mais do que acumulado e podia explodir a qualquer momento.
Não é nada — disse com visível pouco-caso.
Zerft ergueu os braços e Golath viu como sua tromba estava retesada. Os olhares se cruzaram, olhares de fogo. Liszog se aproximou, mostrando a mão ferida:
Por que ficamos parados aqui? Estou sentindo dores muito fortes na mão e tenho que tratar dela.
A excitação no semblante de Zerft pareceu abrandar-se um pouco, enquanto Golath, em atitude de desafio, girava a tromba para cima. Mas, sem dizer uma palavra, Zerft virou as costas. Passando pelo corredor principal, chegaram à semidestruída sala de comando. Ao atingirem a escotilha aberta, Zerft parou de repente. Golath e Liszog foram se aproximando dele.
De repente Golath estacou e ficou perplexo.
Um estranho, deitado ali no limpador de trombas...
A aparelhagem automática se esforçava inutilmente, procurando a inexistente tromba do arcônida. O três unitros olhavam estarrecidos.
Com voz muito fraca, o velho soltou algumas palavras.
Para os degredados aquelas palavras valeram por um sinal. Golath deu um passo à frente, na direção do limpador de trombas. Liszog dava mostras de nervosismo. Na mesma hora, Golath foi empurrado para o lado.
Zerft avançou para o limpador, sacando a arma da cartucheira.
Um arcônida! — exclamou ele, cheio de ódio.
Com os olhos arregalados apontava a pistola de raios térmicos contra o homem indefeso a seus pés.
4

Terrânia vivia um de seus raros dias de chuva. A cidade estava envolta num véu cinza. As praças e os parques estavam vazios. Toda a população ou estava em casa ou nos centros fechados de diversão.
Com o pensamento distante, Perry Rhodan contemplava as curiosas figuras desenhadas pelas gotas esparsas da chuva nos vidros das janelas. Finalmente, virou-se para trás e voltou à sua mesa.
Muito bem acomodado numa poltrona, Reginald Bell sorriu para o amigo. Conhecia aquele homem alto tão bem, que pelos seus traços fisionômicos e pelos menores detalhes podia saber o que lhe ia na alma.
Você se preocupa inutilmente, Perry — dizia ele. Era mais uma afirmação do que uma pergunta, — E por quê? Não há no momento nenhum motivo de apreensão. Gucky está ocupado em Marte em criar uma nova pátria para os irmãos de raça que conseguiu salvar do planeta Vagabundo. Os demais executam, em geral, serviços de rotina, como nós dois aqui, por exemplo.
Você chama isto de rotina! — disse Rhodan censurando brandamente seu amigo. — Eu o chamo de trabalho meticuloso e cansativo, mormente esta seleção de todo o material acumulado. Em curto espaço de tempo temos que testar estes motores de propulsão linear dos druufs, naturalmente no campo prático. Teremos então muito mais trabalho do que você imagina.
Bell, numa desesperada tentativa, se esforçava para dar uma forma mais ajeitada no seu cabelo à escovinha. Seria muito mais fácil pentear um cacto espinhoso.
Teremos que esperar, pelo menos, uns cinqüenta anos até que a primeira espaçonave esteja equipada com este tipo de motor linear. Até lá — passou a mão no rosto para alisar uma barba imaginária — ...até lá já estarei aposentado.
Quer dizer então que você vai desistir da próxima ducha celular? — perguntou Rhodan um pouco irônico.
Bell olhou firme para ele.
Temos ainda muita coisa importante para fazer — continuou o administrador. — Primeiramente temos de confirmar nossa posição. Atlan está muito preocupado com seus próprios problemas e não pode nos auxiliar, em caso de necessidade.
O gorducho sorriu.
Sou de opinião de que o Almirante Atlan cortou uma fatia grande demais do nosso belo bolo cósmico, muito maior do que ele pode digerir.
Embora estime muito sua forma desinibida de falar, ser-lhe-ia grato se me repetisse o pensamento de uma forma que um homem normal pudesse compreender.
Rhodan continuou olhando para seu interlocutor com muita curiosidade.
O Marechal Reginald Bell, administrador-substituto do Império Solar, levantou-se de sua poltrona, não muito esportivamente, e se dirigiu para o atlas sideral na parede.
Seus braços se movimentavam em gestos amplos.
O Grande Império de Atlan — disse ele — haverá de se esfacelar, se não nos der oportunidade de ajudá-lo. Os arcônidas estão degenerados, não podendo contar com eles.
Você se esquece da nave dos “adormecidos”. Estes não eram degenerados.
Bell mordeu a ponta do dedo:
O que representa este punhado de gente para estas dimensões quase infinitas? Não, nosso grande amigo não conseguirá nada sem nosso auxílio. É apenas uma questão de tempo, porque depois ele aparece pedindo que os terranos corram para lá, para o Grande Império, para tapar buraco.
Rhodan se dirigiu de novo para a janela.
Gostaria de saber o que está acontecendo agora com Crest — disse, mudando de assunto.
Ah! É dessa direção que sopra o vento... Era isto que o estava atormentando o tempo todo. Você está sempre preocupado com o pobre velho.
Rhodan concordou.
Não deveríamos tê-lo deixado sozinho. Agimos sem muita responsabilidade.
Você acha, Rhodan? Eu já penso diferente. Acho que um homem do tipo de Crest, a gente deve deixar morrer do modo que ele escolheu. E o arcônida queria esperar a morte sozinho.
Estava fisicamente muito debilitado — disse Rhodan. — Se sofrer qualquer abalo, este pode lhe ser fatal.
Não se esqueça dos dois robôs — respondeu Bell. — Programamos um deles de tal forma que, em qualquer caso mais sério, ele entra automaticamente em contato com a Terra, mais exatamente com Terrânia. Nem o próprio Crest está a par dessa nossa medida de segurança. Deixemo-lo em sua bem merecida paz.
Alguns dias mais tarde, Bell seria capaz de um suicídio só por causa destas palavras.
Neste dia não se falou mais de Crest.
Nem no dia seguinte.
5

A capacidade de reação de um unitro fica muito aquém da de um homem. Paralelamente à sua estatura pesada, volumosa, os movimentos destes seres de tromba também são vagarosos e, para nós homens, pesadões.
A agilidade com que Zerft sacou da arma parecia contradizer esta afirmação.
Mas Golath foi tão rápido quanto ele. Quase no mesmo instante, sua tromba rodopiou no ar, enrolando-se no braço de Zerft, atirando a pistola para longe. Zerft perdeu o equilíbrio e cambaleou. Começou a guinchar de ira e queria se atirar sobre ele.
Você não tem o direito de matá-lo — gritou Golath.
Mas o enfurecido Zerft não ouviu mais nada. Com todo o peso e força bruta dos seus cento e cinqüenta quilos, atirou-se contra Golath. Chocaram-se os dois monstros: dois gigantes, donos de uma força incrível. Liszog, aos gritos, pedia para que parassem com a luta. Calado, o prisioneiro observava os acontecimentos.
A pistola energética de Zerft estava próxima. Mas Golath com um pontapé colocou-a fora de seu alcance. A tromba de Zerft se enroscou na cabeça de Golath e começou a torcê-la. Golath cerrou os olhos, gemendo de dor. Suas mãos apertavam o tórax do adversário. O estrépito da luta enchia a sala de comando. O chão tremia. Aos poucos, Zerft ia comprimindo cada vez mais o crânio de Golath. Este sabia que seu adversário dispunha de uma força tremenda. Em poucos segundos estaria inconsciente e incapaz de respirar, caso não conseguisse escapar daquela tenaz mortífera.
Tentou escapar... largou uma “canelada” no joelho de Zerft. Mas o pesadão parecia já estar contando com o golpe. Sua perna cedeu um pouco, mas continuou segurando firme Golath. O espadaúdo Zerft parecia um rochedo, enquanto Golath entrava numa fase de desespero. A tremenda compressão da tromba começou a prejudicar a circulação do sangue. Veio-lhe um início de tontura, causada pela ausência do sangue no cérebro. Os dois braços de Zerft mantinham Golath preso pelo tórax, enquanto a cabeça continuava no torniquete de sua possante tromba.
Assustado, Golath percebeu que sua mente estava se tornando confusa. Num esforço gigantesco, tentou livrar-se de Zerft, mas este se inclinou para frente frustrando a tentativa.
Inesperadamente, Golath se atirou para trás, obrigando Zerft a dar um passo para frente. Tropeçou e, quase sem refletir, Golath o puxou contra si, rolando os dois no chão. Eram duas feras engalfinhadas no soalho. A luta estava no auge e a vantagem continuava com Zerft.
Mas quem decidiu tudo foi Liszog. Temendo que Golath morresse, o subconsciente do jovem foi mais rápido que seu medo. Sabia muito bem que Zerft jamais estaria em condições de dirigir uma espaçonave e, assim, chegarem até Unitro. Foi então que o jovem sacou a arma, olhou um pouco indeciso para os lutadores, rolando no chão.
Parem com isso! — gritou ele. — Se não se separarem imediatamente, eu vou atirar.
Os dois monstros, resfolegando, sujos, levantaram-se.
Que significa isto? — gritou Zerft furioso. — Afaste esta arma da minha direção.
A mão de Liszog tremia. Porém permanecia de pistola em punho, apontada principalmente para Zerft.
Jogue-me esta arma, Golath — exigiu ele.
Golath sorriu zombeteiro. Arrancou sua arma da cartucheira e jogou-a próxima de Liszog.
Vamos ter um novo chefe — disse para Zerft, com uma ponta de desprezo.
E antes de concluir seu pensamento, afastou a arma para longe com o pé. Sua mão não estava mais sangrando. O velho arcônida observava atento, sem dizer uma palavra.
Vou transferir o comando novamente para Golath — disse Liszog com voz autoritária.
A reação de Zerft só pôde ser um palavrão, pois a arma engatilhada na mão de Liszog o impediu de se precipitar contra o mais jovem dos desterrados. Mas seus olhos faiscavam de ódio.
Muito bem! — disse Golath contente. — Dê-me agora sua arma, jovem.
Liszog agitou energicamente a tromba.
Não! — respondeu.
Golath olhou admirado para ele e, neste olhar, havia algo de respeitoso.
Sem arma não posso comandar. Que adianta dar ordens? Zerft só obedecerá às instruções se forem sublinhadas pelo cano da pistola de raios térmicos.
Sei disso — continuou Liszog. — Você vai conseguir o que deseja, mas antes quero resolver uma coisa muito importante.
O quê? — indagou Golath.
Liszog apontou com a tromba para o velho arcônida:
Vou matá-lo.
Zerft deu um pulo e agarrou Golath pelas costas. Este sentiu a respiração quente do espadaúdo unitro no dorso.
Isso mesmo, Liszog. Atire, que Golath não vai poder impedir seu trabalho.
Liszog, de arma em punho, caminhou para o limpador de trombas. O pobre do prisioneiro o observava com visível indiferença. Liszog desligou o automático e o arcônida ficou livre das amarras.
A voz de Golath soou com toda calma:
Se você o matar, nós nunca mais veremos Unitro.
Zerft aplicou-lhe um violento soco.
Cale a boca! Deixe que Liszog faça o que é certo.
O solitário arcônida havia permanecido tanto tempo naquele suplício, que se sentia demasiadamente fraco para se levantar sozinho. Liszog o olhava pensativo.
Espere, Liszog! — disse Golath depressa. — Este velho é o dono da pequena espaçonave. É o único que sabe e pode desativar a proteção magnética. Se você o matar, não nos poderá transmitir seus conhecimentos.
Liszog olhava indeciso de um para o outro. Zerft murmurou qualquer coisa e soltou Golath.
Ele naturalmente não vai nos dizer seu segredo espontaneamente — disse Liszog céptico. — Repare: é muito idoso e os homens idosos não têm medo da morte. Não conseguiremos convencê-lo a nos ensinar como entrar no pequeno aparelho.
Embora não o tivesse dito claramente, podia-se perceber que Liszog já havia desistido do plano de matar o velho. Golath se abaixou e apanhou a arma. Depois, pegou também a arma de Zerft.
Ele vai nos mostrar o caminho para seu aparelho particular — afirmou Golath.
Sua tromba pendia naturalmente para frente. Havia quase um brilho alegre no seu olhar.
Você está vendo — soou a voz de Zerft, comandada pelo ódio — ele ficou completamente doido, Liszog.
Golath fez como se não tivesse ouvido.
Vamos prender o arcônida — disse ele. — Mas, durante a noite, ele deve ter a oportunidade de fugir.
Como assim? — gritou Zerft fora de si. — Você o quer deixar escapar?
Isso mesmo — confirmou Golath. — O prisioneiro deve ter a impressão de uma fuga muito difícil. Nós não o vamos impedir, nem mesmo estaremos a bordo da Kaszill, quando ele fugir.
Nervoso, Liszog piscou os olhos. Viam-se no seu rosto os primeiros indícios de arrependimento por haver escolhido Golath para comandar as ações do grupo. Mas o inteligente e experimentado unitro continuou falando.
Vamos nos esconder bem perto do pequeno aparelho. Quando o velho chegar, deverá estar com muita pressa, pois tem que contar com uma perseguição por nossa parte. Não terá, pois, muito tempo para examinar tudo em volta. Sua maior e única preocupação será penetrar na espaçonave e fugir deste planeta. Quando ele neutralizar o envoltório de proteção, nós saltamos do esconderijo e nos apossamos da espaçonave. O arcônida vai ficar tão perplexo, que será uma brincadeira nos livrarmos dele. Depois de penetrarmos em seu aparelho, resolveremos todos os outros problemas.
Não vai dar certo — disse Zerft com ressentimento. — E se ele desligar o envoltório magnético por um tempo muito curto?
Estaremos escondidos bem próximos da pequena espaçonave — explicou Golath. — Não se esqueçam de que será noite e estará bem escuro. Nem mesmo os olhos arcônidas conseguem penetrar na escuridão da noite.
O plano é simples, mas parece muito inteligente — observou Liszog.
Golath acenou contente com a cabeça.
Importante em tudo isto é que vocês dois não comecem a brigar durante a operação — disse Liszog para Zerft e Golath. — Se vocês começarem a discutir, perderemos tudo.
Não é de mim que vai depender isto — disse Golath em tom de conciliação.
Esticou sua tromba na direção de Zerft, para o tradicional abraço de confraternização.
Estou de acordo — falou Zerft ainda hesitante, sem mover, porém, a tromba.
O rosto de Golath se enrubesceu. Isto representava uma grande ofensa.
Por que razão você recusa a tromba a Golath? — perguntou Liszog, em tom de censura.
Zerft olhou para ele de soslaio. O ódio não desaparecera ainda de seus olhos. Suas mãos se encrespavam numa fúria reprimida. Golath retirou sua tromba, sem dizer mais nada.
Liszog se encaminhou para o arcônida e o retirou do limpador de trombas, deixando-o de pé. O velho prisioneiro estava muito fraco. Quase caiu, quando Liszog o colocou de pé.
Um plano muito bonito, maravilhoso mesmo — interveio Zerft. — Quer dizer que este pobre velho tem que desaparecer de noite e correr até sua nave lá longe. Mas a minha opinião é de que ele vai morrer antes... de fraqueza.
Não o despreze tanto assim — aconselhou Liszog. — Embora não seja jovem e forte, certamente não é covarde. Não demonstrou sombra de medo, quando nos viu. Merece nosso respeito, pois é um homem de coragem.
É um arcônida — disse Zerft, resumindo tudo.
Liszog conduziu o velho para uma poltrona, onde o coitado caiu extenuado. Zerft observava tudo com cara de quem não estava gostando. Devia estar preocupado com alguma coisa.
Golath notava que dentro de si crescia a autoconfiança. Pela atuação positiva de Liszog, assumira novamente o comando e Zerft estava, momentaneamente, fora de circulação. Golath era inteligente demais para perceber que seu verdadeiro inimigo não era o velho arcônida, mas o mau elemento Zerft. Apesar de tudo, remavam os dois na mesma canoa. O unitro valentão não tinha outro meio, senão ceder ao desejo de seus dois colegas. O destino do velho arcônida não interessava a Golath. Haveriam de deixá-lo tranqüilo no planeta, se não se opusesse a seu plano de fuga.
Uma sensação de ardência na tromba fez com que Golath voltasse à realidade, às coisas concretas. Ligou o automático do limpador de trombas e se deitou ali com todo conforto. As tiras metálicas o envolveram suavemente. O compressor, semelhante a uma almofada de carimbo, abaixou delicadamente sua cabeça, colocando-a na altura certa para que as espirais de limpeza penetrassem com jeito tromba adentro. Respirou mais aliviado.
Olhou depois para Liszog, que continuava pensativo de pé ali ao lado. Zerft mexia impaciente em sua roupa toda rasgada.
Fique de olho nele — avisou Golath.
Depois fechou os olhos e, descontraído, se entregou às benfazejas massagens do braço espiralado, que lhe friccionava com líquidos apropriados o interior da tromba.

* * *

Era realmente uma sensação estranha viver constantemente no limiar da morte, mais para lá do que para cá. Crest sabia que se estava vivo, o devia somente à falta de união existente entre os unitros. Já por duas vezes tivera o cano da pistola energética a poucos palmos de sua cabeça. Por duas vezes sentira o fim de sua vida e... de uma forma tão simples e... estúpida! Exatamente nestes momentos extremos é que lhe ecoava na cabeça, como um trovão, a promessa feita a Rhodan. Aceitava calmamente a morte, mas a perda do Space-Jet não lhe permitia um momento de sossego.
Agora que o maior perigo havia passado, Crest acreditava que haveria de ter uma chance de salvar aquele milagre da tecnologia terrana e não permitir que seus segredos fossem descobertos por povos inimigos. O simples fato de os monstros de tromba terem aparecido novamente nos escombros da nave já era uma prova de que não conseguiram quebrar o envoltório de proteção. Certamente não iriam desistir. Teriam forçosamente de se apoderar do jato para poderem sair do planeta.
Crest não ignorava o que um ser inteligente pode fazer, quando se encontra numa situação de desespero. Seus adversários estavam dispostos a tudo. Eram fortes, jovens e, além disso, possuíam armas muito poderosas.
Cansado e alquebrado, o velho arcônida começou a pensar no que um ancião como ele poderia fazer, usando a inteligência. Seu corpo estava quase enrijecido, pois ficara por longo tempo no suplício: o lavador de trombas. Graças a Deus que o colocaram naquela poltrona. Aos poucos a circulação sangüínea começou a voltar ao normal. A dor de cabeça desapareceu.
A suposta armadilha não era outra coisa senão uma aparelhagem automática para lavagem e massagem das trombas daqueles seres estranhos. Quase não acreditando no que via, presenciou como um deles se deitou naquele estrado. Compreendeu a finalidade da instalação, e não conseguiu livrar-se de um sorriso. Os três seres trombudos fizeram uso da aparelhagem, um após outro. Crest os ficou observando. Não se podia ainda pensar numa possibilidade de fuga. Tinha que ponderar muito cada passo que desse. Não iria mais cometer nenhum erro. Passou a mão pelo cabelo, que já estava quase seco.
O véu da noite começou a envolver o planeta, que seria chamado por Perry Rhodan e por toda a civilização terrana de planeta Crest.
A claridade tornou-se rara na sala de comando da nave acidentada. Crest se sentia muito cansado. Pela primeira vez em sua vida, lamentou ser tão velho assim. Que lhe adiantavam suas armas espirituais, quando seus adversários eram fisicamente muito superiores. A eterna discussão entre a inteligência e a força bruta parecia pender agora para o lado desta última.
O ser de tromba, o mais alto deles, que por duas vezes salvara a vida de Crest, chegou até o arcônida.
Eu sou Golath — disse ele num pesado intercosmo.
Crest assentiu delicadamente.
Meu nome é Crest — na cabeça do velho havia um turbilhão de pensamentos, sobre se os três degredados eram de alguma longínqua colônia arcônida.
Nós de Unitro — explicou Golath, enquanto apontava para si e para os dois colegas.
Depois ergueu a tromba na direção de Crest.
Você arcônida?
Ele não tem nenhuma simpatia pelo meu povo”, pensou Crest. “Eu não o culpo por isso.”
Golath continuou fitando o arcônida, muito pensativo. Crest gostaria de saber quais os pensamentos existentes naquela cabeça disforme. Era muito difícil tentar medir os sentimentos de um ser estranho pelos traços de sua fisionomia.
Você nos dar objeto que voa pelo espaço das estrelas — exigiu Golath sem mais rodeios.
Preocupado, Crest perguntava a si mesmo o que aconteceria se os monstros descobrissem a significação daquele pequeno transmissor de pulso.
Ele me pertence — disse Crest, com clareza. — Vocês não podem tocar nele.
Golath arrancou a arma, apontando-a para o peito de Crest. Os olhos avermelhados do arcônida fitaram tranqüilos o estranho. No seu rosto enrugado, nenhum músculo se mexeu.
Você agora entregar aparelho? — perguntou Golath já com mais esperança.
A pistola continuava apontada para o velho arcônida.
A resposta de Crest foi mais uma vez concisa e clara:
Não!
O unitro guardou novamente a arma. A tromba voltou à posição normal. Pelos seus grandes olhos não se podia saber se estava irado ou não. Com um leve toque de mão no ombro de Crest, disse brandamente:
Você agora prisioneiro.
Crest dispensou qualquer resposta. Era mais do que lógico que os estranhos não iriam soltá-lo sem mais nem menos. Certamente tentariam mais vezes, com métodos menos suaves, fazê-lo mudar de opinião. Mas Crest não queria se preocupar com isto agora. Tinha coisas mais importantes.
Estava de novo sozinho.
Seu transmissor de pulso”, manifestou-se de novo a parte do seu setor lógico. “Não chegaram a vê-lo.
Crest se levantou depressa. A arma escorregara para debaixo da aparelhagem de limpeza das trombas. Apanhou-a e a escondeu no seu manto; isso feito, voltou para sua poltrona. O aposento, isto é, a sala de comando, tinha uma outra entrada, que também estava fechada. Esta entrada devia levar para a parte traseira da nave. O arcônida lembrou-se de que por lá havia uma fenda regular, dando passagem para um homem de média estatura. Porém os unitros podiam ter conhecimento desta abertura e, provavelmente, já a teriam fechado.
Já estava totalmente escuro. O silêncio em torno dele parecia ter vida. Tinha feito um esforço para guardar na memória todo o ambiente e agora poderia sair em qualquer direção, sem esbarrar em nenhum objeto, principalmente no aparelho de lavagem das trombas.
Seus ouvidos pareciam ter sensores especiais na escuridão. Mas, além da sua respiração, não ouvia mais nada. Levantou-se e caminhou para a segunda saída. De repente pisou num caco de vidro. O ruído diferente e mais forte lhe penetrou até a medula dos ossos. Parou assustado. Não o amarraram, portanto teria o direito de se locomover ali dentro, para olhar qualquer coisa. Depois continuou com todo cuidado.
Levou algum tempo para atingir seu objetivo. Sentiu o frio do metal da porta nas suas mãos. Na Kaszill tudo era silêncio. Passou a mão, apalpando pelo metal, até achar a maçaneta. Dobrou-a para baixo com o máximo cuidado e temeroso encostou o ombro para empurrar a porta. E ela abriu.
Não hesitou mais. Não podia perder sua oportunidade. Não abriu a porta de todo, só o necessário para ele passar. O lugar em que estava agora lhe era desconhecido, mas sabia a direção para onde devia fugir. Apressou mais o passo daí para frente. Como ponto de orientação serviu-se de uma parede que dava para a parte traseira do aparelho.
Crest sorria, embora fosse um sorriso nervoso, quase vizinho do calafrio. Será que seria tudo tão fácil assim? Será que seus adversários o julgavam tão fraco a ponto de dispensarem qualquer vigilância sobre ele?
Mas isto não vinha ao caso agora. O importante era sair dali. Assim que alcançasse o jato, estaria fora de perigo.
Logo em seguida, percebeu a grande fenda na fuselagem. Lá fora ainda não estava completamente escuro. Através da fenda entrava um pouco da claridade. Sem hesitar, pulou para a liberdade, já com a arma na mão. Mas ninguém o deteve.
Os unitros devem estar dormindo em algum lugar da velha nave. Azar deles!”, refletiu Crest, triunfante.
Disparou o mais depressa que lhe foi possível rumo ao seu precioso Space-Jet.

* * *

Zerft afastou um pouco a ramagem e se ajeitou melhor no seu esconderijo. Olhava impaciente escarpa acima. Estava escuro demais para se enxergar alguma coisa.
Ainda é muito cedo... — observou Golath. — Não nos esqueçamos de que ele é velho e vagaroso e certamente deve ter esperado um pouco, para que todos dormissem.
Estavam agachados num buraco cavado sob a orientação de Golath, quase encostado ao jatinho. Quando o arcônida aparecesse, e assim que neutralizasse o campo magnético de proteção, seria atacado simultaneamente pelos três.
Estou com um pressentimento horrível — declarou Zerft, muito abatido. — Alguma coisa não vai dar certo, tenho certeza disso.
Não fale tão alto — sussurrou Golath. — Ou você quer que ele nos ouça?
Zerft voltou novamente à carga.
Por que que vocês não me dão nenhuma arma? Dei-lhes minha palavra que não haverei de estragar esta operação.
Golath contemplava o “amplo vulto”, que estava sentado à sua frente. Hesitante, balançava uma pistola de raios térmicos.
Dê-lhe a arma, Golath, isto aumenta também a nossa garantia.
A contragosto, Golath cedeu ao pedido. Zerft apanhou a arma com a tromba, soltando uma gargalhada esquisita que não agradou muito a Golath.
Você só pode atirar, depois que ele desligar o envoltório magnético — repetiu-lhe claramente Golath. — Se atirar antes, nosso plano irá por água abaixo.
Não se preocupe — disse Zerft. — Que diferença faz se o desgraçado do arcônida morrer uns momentos antes ou depois?
Liszog estremeceu ao ouvir esta frase estúpida. Para Golath foi simplesmente mais uma prova evidente de que Zerft não passava de um grande tolo.
O chão em torno deles estava frio e úmido. Golath sentia demais aquela friagem. Para esquecer o frio, deu rédeas à sua fantasia. E, instantes depois, ele se sentiu na sua terra, Unitro, quando ainda não era ladrão, trabalhando decentemente. Foi quando apareceu aquela mulher, com tromba esbelta e bem torneada, de olhos redondos, transformando sua vida. A partir daí, a vida de Golath tornou-se um inferno. Perdeu a noção de responsabilidade e começou a fazer coisas que nunca tinha imaginado. Começou a roubar, com o intuito de aumentar seus rendimentos, para poder dar tudo que a mulher lhe pedia. Ela não queria saber de onde vinha o dinheiro. Golath encontrou-se com ladrões profissionais e começou a agir com eles.
No dia fatídico, estava com Zerft e Liszog. Foram presos e receberam o maior castigo para um unitro: cassação da cidadania e expulsão da comunidade social. Colocaram-lhe à disposição, para saírem para sempre da nação, uma velha espaçonave, a Kaszill. Poderiam voltar somente quando conseguissem realizar um feito de utilidade para seu povo. Só então receberiam de volta a cidadania e o respeito de sua nação.
Golath mostrou no rosto uma contração de dor.
Como fora possível perder a cabeça daquele jeito?
O que estava acontecendo agora era uma felicidade que ele não merecia. O destino parecia conduzido por mãos de fada, dando-lhes a oportunidade de regressar à terra natal, levando uma grande novidade: uma espaçonave tremendamente moderna. A única coisa que o entristecia era a morte de um velho arcônida. Mas não havia como evitar esta fatalidade. Por outro lado, as atrocidades dos arcônidas, cometidas em Unitro, justificavam a morte do velho solitário.
Liszog movia-se um pouco inquieto, perturbando os sonhos de Golath.
Que há de novo? — perguntou sussurrando, tentando inutilmente penetrar com os olhos na escuridão.
Aguçou os ouvidos. Silêncio total em volta. Certamente ouviriam o arcônida antes de vê-lo. E isto lhes seria favorável, pois o fugitivo não os haveria de ver.
O velho está demorando demais — disse Zerft obstinado. — Talvez esteja desmontando a Kaszill, enquanto nós esperamos feito bobos aqui, morrendo de frio.
Mesmo que desmontasse a Kaszill toda, não perderíamos muita coisa com isto — respondeu Golath.
Liszog acrescentou pessimista:
E se ele não achar o caminho para a suposta liberdade?
Não irá ficar sem fazer nada, sentado na sala de comando da nave em ruínas — disse Golath com convicção. Fez um movimento com o corpo e um pequeno torrão de terra úmida rolou até seus pés. — Acho que, em pouco tempo, ele encontrará a grande fenda que leva para a parte traseira da nave. Irá então perceber que pode muito bem sair por lá.
Ainda enquanto estava falando, começou a chover. De início o chuvisco, depois apertou. Zerft abotoou a roupa.
Está frio demais — disse Liszog, lamuriando-se.
Tomara que não tenhamos de ficar a noite toda aqui, apanhando chuva fria.
Golath não tinha nada a reclamar, estava até gostando da chuva. A água lhe escorria pelo rosto. Nas bordas do grande buraco escavado, formavam-se pequenos sulcos por onde descia a água da chuva.
Durante toda a noite, os três unitros ficaram ali, naquela cova, já agora de barro mole. Esperavam e esperavam, enquanto o fundo da cavidade se enchia de água. Estavam completamente molhados e ninguém mais abria a boca para dizer coisa alguma. Liszog chegou até a cochilar um pouco. Golath o acordou com um leve toque no ombro. Seus ouvidos continuavam atentos à espera do arcônida. As trombas já estavam ficando rígidas de frio, e até o próprio Golath estava quase sucumbindo de cansaço.
E o velho arcônida não chegava!
O plano de Golath havia dado alma nova ao grupo dos degredados, mas não dera certo. Quando começou a clarear o dia, Zerft saiu da grande cova, tão cheia de barro, que escorregou diversas vezes.
Golath estava cansado e abatido demais, por isso não saltou também para fora daquela cova barrenta.
Zerft sacou a arma e começou a jogá-la de uma para outra mão como se fosse um mero brinquedo. Seu semblante denunciava ódio e desespero.
Há uma única maneira de se viver em paz com um arcônida — gritou ele brandindo a arma. — É esta aqui!
E saiu correndo sob a chuva. Rapidamente, aquela figura parda ia sumindo de vista. Golath ficou olhando para ele pela borda da cova.
O que Zerft quer? — perguntou Liszog.
Quer matar o velho. Odeia tudo que é arcônida.
Suas mãos se apoiaram na beira da cova toda enlameada, fazendo um grande esforço para se levantar. Liszog o ajudou a sair. Golath estava agora de pé, todo sujo de barro.
Ajude-me a sair também daqui — pediu Liszog, esticando os braços.
Golath sacudiu a tromba.
Não! — disse ele. — Um de nós tem que ficar aqui. Pode ser que o arcônida ainda chegue. E você não deve de maneira alguma pegar no sono.
Eu vou ficar gelado aqui dentro — disse Liszog.
É melhor agüentar um pouco de frio, do que permanecer para sempre neste planeta, meu jovem. Não se esqueça disso.
Para onde você vai, Golath?
Para a Kaszill. Vou tentar tirar os geradores. Não tenho dúvida de que vamos precisar deles para entrarmos no pequeno aparelho do arcônida.
Volte logo — pediu Liszog.
O grande unitro já desaparecera. Liszog ficou sozinho na chuva, cercado de água e barro, sem ouvir o menor ruído. Seus olhos se esforçavam para ver alguma coisa no lusco-fusco do dia chuvoso. A solidão era total e o coitado começou a sentir-se isolado.
De repente um pensamento tomou corpo em sua mente apavorada. Era uma idéia fixa de que não se podia livrar: nos esforços malucos que estavam fazendo para regressarem a Unitro, ele, Liszog, haveria de perder a vida.
E ninguém iria chorar por isto, ninguém se incomodaria se ele morresse. Nem Zerft, nem Golath tinham sentimentos de amizade por ele. Estava de qualquer maneira sozinho, ali naquele buraco cheio de barro, morrendo de frio. A milhares de anos-luz de sua pátria.
Se quisesse voltar para Unitro, teria realmente que matar um homem — um homem velho. Quem lhe dava o direito de fazer isto?
Porém, apesar de todos os escrúpulos, sabia que mataria o prisioneiro, caso fosse necessário.
Tinham que se apossar da pequena espaçonave.

* * *

Crest acreditava que se afastava do Space-Jet sempre com maior velocidade. Na realidade, porém, sua fuga ia muito vagarosa. Constantemente tinha que parar, pois sua respiração estava ofegante. Também suas pernas não agüentavam mais.
Quando caiu, não foi porque tropeçou. Seus joelhos é que cederam, de tão fracos que estavam. Bateu duro no chão e ali ficou com a respiração descompassada, de rosto colado na terra fria. Seu corpo estava tão extenuado que só com o empenho de todas forças foi que conseguiu pôr-se de pé. Sua maior preocupação era morrer de cansaço, antes de poder salvar o jatinho.
Foi se arrastando mais uns metros para frente, mancando, pois o tornozelo lhe doía muito.
Será que já sabiam de sua fuga? Talvez até os perseguidores já estivessem em seu encalço... ou então escondidos perto do local onde estava o Space-Jet, para depois que desligasse o envoltório de proteção, atacá-lo e... matá-lo.
É isto mesmo”, dizia seu setor lógico. “Sua fuga foi fácil demais. Você iria levar seus inimigos exatamente para o lugar onde você não quer vê-los: isto é, para dentro do jato.”
Crest parou por um instante.
Será que estava cego? — perguntou a si mesmo.
Ou eles estavam escondidos bem perto dele, na escuridão, ou num bom esconderijo ao lado do Space-Jet. Por um triz, não ia caindo na armadilha.
Algumas gotas de chuva lhe bateram na testa. Depois, os pingos engrossaram.
Crest se sentia em péssimo estado. Perguntava a si mesmo de onde tirava as energias para continuar lutando, a fim de salvar a nave.
Lutar?
Ele mesmo achou engraçado a palavra lutar, pois até então não fizera outra coisa a não ser fugir deles.
Que podia fazer agora? A região em torno do jato tomar-se-ia muito perigosa para ele, seria melhor não ir para lá. Só havia uma possibilidade e, mesmo assim, pouco promissora. Devia se embrenhar na floresta. Para um rapaz moço, isto não seria problema algum. Mas para um velho arcônida, representava um esforço inaudito, lutar contra plantas venenosas e principalmente contra animais perigosos. Se penetrasse pelas florestas, talvez não voltasse mais.
Apesar de tudo, e mesmo mancando, continuou sua marcha, parando a toda hora, por falta de força. Virou a cabeça para trás e abriu a boca. Por uns momentos deixou que a água da chuva corresse por sua garganta ressecada. Isto lhe fez muito bem. Uma outra coisa que o ajudava um pouco era também a menor gravidade. É verdade que a diferença era bem pequena: um sexto menor que a da Terra. Mas esta pequena diferença já ajudava.
Quando chegou de volta aos escombros da nave dos unitros, a articulação do pé doía-lhe demais. Tirou as sandálias e examinou o ferimento. O tornozelo estava muito inchado e ao mesmo tempo muito quente. No posto, perto de sua casa, tinha toda espécie de medicamento para o caso. Mas não pensava em ir para lá. Rasgou uma tira de tecido do seu capote. Umedeceu o pano numa poça de água de chuva e envolveu com ele o pé, apertando bem. Era tudo que podia fazer no momento.
Havia o maior silêncio em torno dos escombros da nave unitra. A chuva tamborilava em seu exterior metálico. Crest estava certo de que os seres de trombas esperavam por ele lá no Space-Jet de armas na mão. Mas haveria de dificultar ao máximo as ações dos seqüestradores, até poder salvar o jatinho. Queria provar aos unitros que um arcônida era um arcônida, mesmo velho e alquebrado.
6

Chegou até a margem da floresta sem ser molestado. Seu corpo estava mais pesado do que chumbo, sua roupa totalmente encharcada, colando na pele. A dor no pé cedeu um pouco. Pela chuva constante, o solo estava tão amolecido, que seus pés se afundavam no barro, às vezes por muitos centímetros. Surgiram as primeiras árvores.
E Crest continuou cambaleando pela floresta adentro. Parou, se recostou grato no tronco de uma árvore gigantesca. A densa copa, de ramagem intensa, servia de abrigo contra a chuva. Crest sentia nas costas a superfície irregular da casca, que emanava um cheiro desagradável. Mais para dentro da mata, ouviu um estranho sussurrar, que o chamou à realidade.
Não devia esquecer que aquelas florestas eram muito perigosas. Os lançadores de ácido, animais terríveis, só atacavam de dia. Mas os animais de longos chifres, que viviam perto dos brejos ou junto dos lagos, eram muito abundantes e só agiam à noite. Era na escuridão que estes monstros cilíndricos, com muitos metros de comprimento, saíam de suas tocas para se alimentar. E o interessante era que com suas patas curtas estes anfíbios pesadões desenvolviam grande velocidade. As duas patas dianteiras, mais espalmadas, agiam como ventosas, dando-lhes melhor movimentação ou facilitando a captura de suas vítimas. Revestidos de grandes e grossas escamas, podiam cavar tocas com grande facilidade. Do focinho sobressaíam duas grandes presas, terror de todos os demais animais da floresta e por que não, no momento, do pobre Crest?
O arcônida estava se lembrando do relatório de seu patrício Ufgar, descobridor e primeiro explorador do planeta, que mais tarde recebeu seu nome. Dois dos companheiros de Ufgar foram atacados por estes monstros. E os lançadores de ácido chegaram a matar três exploradores. A pistola energética, usada a tempo, poderia salvar Crest destes perigos.
O cientista sabia que precisava urgentemente dormir um pouco. Dormir ali no chão equivaleria a um suicídio. Desprendeu-se da árvore onde estava encostado e penetrou pela floresta adentro. Galhos e plantas rasteiras, principalmente uma infinidade de cipós, lhe dificultavam os movimentos. Ficou muitas vezes emaranhado, quase sem se poder mexer. Finalmente, descobriu uma árvore, cujos galhos eram suficientemente amplos para abrigar seu corpo em posição tolerável. Levando em consideração sua idade e seu grande esgotamento, Crest exibiu uma performance quase olímpica, quando trepou nos galhos da árvore.
Ali estaria protegido contra os anfíbios chifrudos, cavadores de terra, cujos corpos não eram feitos para galgarem árvores mais altas. Procurou um galho mais largo e deitou-se do melhor modo que pôde, com as costas apoiadas no tronco. Não havia propriamente conforto, mas dava para descansar. Ouviu por alguns momentos o sibilar do vento nas folhas, caindo logo depois em sono profundo — sono de esgotamento.

* * *

Acordou com o barulho da passarada, pulando e cantando por todos os lados. Já era dia claro. A chuva terminara e a temperatura estava agradavelmente quente. Crest esfregou os olhos. Contrariando sua previsão, sentia-se refeito e bem-disposto. O descanso fizera bem até para seu pé machucado. Tinha, porém, fome. Não longe dele, um pássaro todo vermelho expandia sua queixa sonora contra a presença de Crest naquela árvore. Assim que Crest fez um movimento com o corpo, bateu asas.
Olhou para baixo.
Sentiu um calafrio. Acabou de despertar na mesma hora. Sua boa estrela estava se apagando.
A poucos metros do local de seu repouso, estava um dos monstros de tromba, já com a mão na pistola de raios térmicos.

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