O braço
em espiral, provido de uma haste com algo poroso na extremidade,
aparecia, fazia suas rotações lentas sobre o nariz, aspergindo
sempre um certo líquido, retirando-se depois. Então, era a vez dos
finos cabos de aço, percorrendo o rosto de Crest em constante
oscilação, para depois desaparecerem.
Que
estaria acontecendo entrementes com o Space-Jet? Será que os
estranhos de tromba já teriam conseguido penetrar no interior do
aparelho?
Crest
estava sendo esmagado por um grande peso na consciência. Lembrava-se
do que prometera a Rhodan. Mas como poderia sair daquela terrível
situação?
Não tinha
medo da morte. Era um homem experimentado e esclarecido, que sabia
medir bem suas possibilidades e agir com precisão. Quando foi para
aquele planeta, só tinha uma intenção: terminar seus dias na calma
e na solidão. E agora, como tudo indicava, a morte já estava ali,
junto dele, mas não com a calma e a solidão que desejava.
O
pensamento de que o Space-Jet podia ser roubado lhe deu forças fora
do comum. Crest iniciou uma batalha renhida contra a máquina.
Retesou os braços e fez um grande esforço, tentando romper as tiras
metálicas.
Não deu
certo.
“Pare
com isso!”,
ouviu a voz do seu cérebro lógico. “Poupe
suas forças.”
Apesar de
esgotado pelo grande esforço, Crest sorriu.
— Poupar?
— perguntou em voz alta. — Para quê?
Não houve
resposta. O braço espiralado volteava novamente diante de seus
olhos. Em pouco tempo ficaria noite e Crest se perguntava se os entes
de tromba viriam ou não antes do escurecer. Não era necessário ter
grande poder imginativo para prever o que ia acontecer quando eles
chegassem.
— Bizz...
bizz — fazia aquela coisa estranha, borrifando o arcônida com
gotas de um líquido malcheiroso que lhe cobriam o rosto.
Mas, com
toda certeza, chegaria a hora em que a força da máquina acabaria.
Será que seria possível acelerar o funcionamento do automático,
para que o ciclo todo terminasse mais cedo?
Crest
sondou seus conhecimentos de cibernética. O princípio básico de
todo e qualquer aparelho automático, mesmo o mais simples, repousa
na programação que recebeu de seu produtor inteligente. Todo robô
recebe uma determinada tarefa, que ele desempenha dentro de suas
possibilidades. Um robô em serviço não é outra coisa do que
informação que se tornou móvel. Seu funcionamento está na
dependência da informação que recebeu.
Crest
tinha que olhar para o singular mecanismo a partir deste ponto de
vista. Suas reações eram conseqüências das ordens que recebera.
Não cabia à máquina distinguir se realizava sua tarefa com ou sem
o devido acerto. Com os robôs, só ocorriam duas alternativas: parar
ou funcionar. Entre estes dois pólos opostos, não havia escala
intermediária.
E não
havia dúvida quanto ao pólo em que o robô estava, isto Crest
estava sentindo na própria carne. Funcionava de fato.
Existia,
porém, um método infalível para se escapar desta máquina. Tinha
apenas que desligá-la. Mas não sabia como, nem estava em condições
de saber como funcionava.
— Bizz...
bizz — continuava o funcionamento do estranho aparelho.
Para o
arcônida parecia até uma humilhação. Depois de algum tempo, Crest
atingira um estado tal de depressão que ansiava pela chegada dos
três seres que destruíram os dois robôs de combate. Rosto e
cabelos estavam encharcados e os olhos lhe ardiam. As partes de seu
corpo com faixas metálicas para prendê-lo ao cavalete já lhe
estavam muito doloridas. Os pés pendentes fora do estrado
pesavam-lhe mais do que chumbo.
“Você
não pode desistir agora”,
dizia-lhe a parte lógica do cérebro. “Você
tem que enfrentar os estrangeiros, em boas condições físicas e
psíquicas.”
Por que
não acolhera as sugestões de seu grande amigo Rhodan, que lhe tinha
proposto terminar tranqüilamente seus dias em lugares solitários
nas montanhas da Terra? Mesmo em Árcon encontraria um recanto
sossegado. Atlan, que substituíra o governo do cérebro positrônico,
poderia ajudá-lo muito. Queria mover um pouco a cabeça, mas aquela
espécie de almofada de carimbo o impedia.
Árcon não
era mais sua pátria, não iria se sentir bem lá, pois, com o correr
dos anos, se desligara inteiramente do Grande Império. Toda sua
dedicação fora para os terranos. Não sentia muita simpatia pelos
degenerados arcônidas, nem mesmo um sentimento de lealdade. Depois
da morte de Thora, esposa de Rhodan, Crest perdeu as últimas
ligações com seu povo. E as situações criadas por Thomas Cardif,
filho de Thora e de Perry Rhodan, que tiveram repercussões
negativas, foram também decisivas para a atitude de Crest: o digno
ancião se afastou completamente de sua pátria, Árcon.
Um barulho
o assustou. Se virasse bem o rosto para o lado, podia enxergar até
os degraus da escotilha.
Será que
os monstros estavam voltando? Por um momento, Crest se esqueceu do
automático que estava funcionando. Tudo dependia de aproveitar
qualquer oportunidade.
Na mesma
hora olhou para a direção de onde o inimigo devia vir. De uma coisa
estava certo: iria fazer tudo para salvar o precioso Space-Jet.
Passos e
sussurros chegaram até seus ouvidos. Passos pesados, cada vez mais
nítidos. Um calafrio percorreu o corpo do velho arcônida.
Provavelmente terminavam ali seus longos anos de vida... e de uma
maneira tão simples e... estúpida! Não estava absolutamente com
medo. Era importante que ele fosse corajoso? Ou era meramente uma
conseqüência da idade avançada, a quem a morte não assusta mais?
O barulho
mais forte anunciava a aproximação dos monstros.
— Bizz...
bizz... — continuava funcionando a exótica aparelhagem.
Sentia o
líquido lhe escorrendo pelas faces. Teve vontade de espirrar e para
isso fechou os olhos.
Quando os
abriu, já estavam diante dele.
Três
figuras pesadonas, feias, com aquela horrenda tromba. Eram da mesma
altura que Crest, mas duas vezes mais “fortes”.
Parados,
como que estatelados de surpresa, olhavam-no atônitos
— Alô!
— tentou dizer Crest.
*
* *
Ao
penetrarem na escotilha, Golath teve o estranho pressentimento de
estar sendo observado. Agitou com força a pesada tromba. Zerft ficou
parado e Liszog deu um passo para trás.
— O que
está se passando? — perguntou Zerft.
Golath lhe
ficou devendo a resposta. O tempo todo, e mesmo agora, tinha de
seguir obediente atrás do espadaúdo Zerft. Seu ódio já estava
mais do que acumulado e podia explodir a qualquer momento.
— Não é
nada — disse com visível pouco-caso.
Zerft
ergueu os braços e Golath viu como sua tromba estava retesada. Os
olhares se cruzaram, olhares de fogo. Liszog se aproximou, mostrando
a mão ferida:
— Por
que ficamos parados aqui? Estou sentindo dores muito fortes na mão e
tenho que tratar dela.
A
excitação no semblante de Zerft pareceu abrandar-se um pouco,
enquanto Golath, em atitude de desafio, girava a tromba para cima.
Mas, sem dizer uma palavra, Zerft virou as costas. Passando pelo
corredor principal, chegaram à semidestruída sala de comando. Ao
atingirem a escotilha aberta, Zerft parou de repente. Golath e Liszog
foram se aproximando dele.
De repente
Golath estacou e ficou perplexo.
Um
estranho, deitado ali no limpador de trombas...
A
aparelhagem automática se esforçava inutilmente, procurando a
inexistente tromba do arcônida. O três unitros olhavam
estarrecidos.
Com voz
muito fraca, o velho soltou algumas palavras.
Para os
degredados aquelas palavras valeram por um sinal. Golath deu um passo
à frente, na direção do limpador de trombas. Liszog dava mostras
de nervosismo. Na mesma hora, Golath foi empurrado para o lado.
Zerft
avançou para o limpador, sacando a arma da cartucheira.
— Um
arcônida! — exclamou ele, cheio de ódio.
Com os
olhos arregalados apontava a pistola de raios térmicos contra o
homem indefeso a seus pés.
4
Terrânia
vivia um de seus raros dias de chuva. A cidade estava envolta num véu
cinza. As praças e os parques estavam vazios. Toda a população ou
estava em casa ou nos centros fechados de diversão.
Com o
pensamento distante, Perry Rhodan contemplava as curiosas figuras
desenhadas pelas gotas esparsas da chuva nos vidros das janelas.
Finalmente, virou-se para trás e voltou à sua mesa.
Muito bem
acomodado numa poltrona, Reginald Bell sorriu para o amigo. Conhecia
aquele homem alto tão bem, que pelos seus traços fisionômicos e
pelos menores detalhes podia saber o que lhe ia na alma.
— Você
se preocupa inutilmente, Perry — dizia ele. Era mais uma afirmação
do que uma pergunta, — E por quê? Não há no momento nenhum
motivo de apreensão. Gucky está ocupado em Marte em criar uma nova
pátria para os irmãos de raça que conseguiu salvar do planeta
Vagabundo. Os demais executam, em geral, serviços de rotina, como
nós dois aqui, por exemplo.
— Você
chama isto de rotina! — disse Rhodan censurando brandamente seu
amigo. — Eu o chamo de trabalho meticuloso e cansativo, mormente
esta seleção de todo o material acumulado. Em curto espaço de
tempo temos que testar estes motores de propulsão linear dos druufs,
naturalmente no campo prático. Teremos então muito mais trabalho do
que você imagina.
Bell, numa
desesperada tentativa, se esforçava para dar uma forma mais ajeitada
no seu cabelo à escovinha. Seria muito mais fácil pentear um cacto
espinhoso.
— Teremos
que esperar, pelo menos, uns cinqüenta anos até que a primeira
espaçonave esteja equipada com este tipo de motor linear. Até lá —
passou a mão no rosto para alisar uma barba imaginária — ...até
lá já estarei aposentado.
— Quer
dizer então que você vai desistir da próxima ducha celular? —
perguntou Rhodan um pouco irônico.
Bell olhou
firme para ele.
— Temos
ainda muita coisa importante para fazer — continuou o
administrador. — Primeiramente temos de confirmar nossa posição.
Atlan está muito preocupado com seus próprios problemas e não pode
nos auxiliar, em caso de necessidade.
O gorducho
sorriu.
— Sou de
opinião de que o Almirante Atlan cortou uma fatia grande demais do
nosso belo bolo cósmico, muito maior do que ele pode digerir.
— Embora
estime muito sua forma desinibida de falar, ser-lhe-ia grato se me
repetisse o pensamento de uma forma que um homem normal pudesse
compreender.
Rhodan
continuou olhando para seu interlocutor com muita curiosidade.
O Marechal
Reginald Bell, administrador-substituto do Império Solar,
levantou-se de sua poltrona, não muito esportivamente, e se dirigiu
para o atlas sideral na parede.
Seus
braços se movimentavam em gestos amplos.
— O
Grande Império de Atlan — disse ele — haverá de se esfacelar,
se não nos der oportunidade de ajudá-lo. Os arcônidas estão
degenerados, não podendo contar com eles.
— Você
se esquece da nave dos “adormecidos”.
Estes não eram degenerados.
Bell
mordeu a ponta do dedo:
— O que
representa este punhado de gente para estas dimensões quase
infinitas? Não, nosso grande amigo não conseguirá nada sem nosso
auxílio. É apenas uma questão de tempo, porque depois ele aparece
pedindo que os terranos corram para lá, para o Grande Império, para
tapar buraco.
Rhodan se
dirigiu de novo para a janela.
— Gostaria
de saber o que está acontecendo agora com Crest — disse, mudando
de assunto.
— Ah! É
dessa direção que sopra o vento... Era isto que o estava
atormentando o tempo todo. Você está sempre preocupado com o pobre
velho.
Rhodan
concordou.
— Não
deveríamos tê-lo deixado sozinho. Agimos sem muita
responsabilidade.
— Você
acha, Rhodan? Eu já penso diferente. Acho que um homem do tipo de
Crest, a gente deve deixar morrer do modo que ele escolheu. E o
arcônida queria esperar a morte sozinho.
— Estava
fisicamente muito debilitado — disse Rhodan. — Se sofrer qualquer
abalo, este pode lhe ser fatal.
— Não
se esqueça dos dois robôs — respondeu Bell. — Programamos um
deles de tal forma que, em qualquer caso mais sério, ele entra
automaticamente em contato com a Terra, mais exatamente com Terrânia.
Nem o próprio Crest está a par dessa nossa medida de segurança.
Deixemo-lo em sua bem merecida paz.
Alguns
dias mais tarde, Bell seria capaz de um suicídio só por causa
destas palavras.
Neste dia
não se falou mais de Crest.
Nem no dia
seguinte.
5
A
capacidade de reação de um unitro fica muito aquém da de um homem.
Paralelamente à sua estatura pesada, volumosa, os movimentos destes
seres de tromba também são vagarosos e, para nós homens, pesadões.
A
agilidade com que Zerft sacou da arma parecia contradizer esta
afirmação.
Mas Golath
foi tão rápido quanto ele. Quase no mesmo instante, sua tromba
rodopiou no ar, enrolando-se no braço de Zerft, atirando a pistola
para longe. Zerft perdeu o equilíbrio e cambaleou. Começou a
guinchar de ira e queria se atirar sobre ele.
— Você
não tem o direito de matá-lo — gritou Golath.
Mas o
enfurecido Zerft não ouviu mais nada. Com todo o peso e força bruta
dos seus cento e cinqüenta quilos, atirou-se contra Golath.
Chocaram-se os dois monstros: dois gigantes, donos de uma força
incrível. Liszog, aos gritos, pedia para que parassem com a luta.
Calado, o prisioneiro observava os acontecimentos.
A pistola
energética de Zerft estava próxima. Mas Golath com um pontapé
colocou-a fora de seu alcance. A tromba de Zerft se enroscou na
cabeça de Golath e começou a torcê-la. Golath cerrou os olhos,
gemendo de dor. Suas mãos apertavam o tórax do adversário. O
estrépito da luta enchia a sala de comando. O chão tremia. Aos
poucos, Zerft ia comprimindo cada vez mais o crânio de Golath. Este
sabia que seu adversário dispunha de uma força tremenda. Em poucos
segundos estaria inconsciente e incapaz de respirar, caso não
conseguisse escapar daquela tenaz mortífera.
Tentou
escapar... largou uma “canelada”
no joelho de Zerft. Mas o pesadão parecia já estar contando com o
golpe. Sua perna cedeu um pouco, mas continuou segurando firme
Golath. O espadaúdo Zerft parecia um rochedo, enquanto Golath
entrava numa fase de desespero. A tremenda compressão da tromba
começou a prejudicar a circulação do sangue. Veio-lhe um início
de tontura, causada pela ausência do sangue no cérebro. Os dois
braços de Zerft mantinham Golath preso pelo tórax, enquanto a
cabeça continuava no torniquete de sua possante tromba.
Assustado,
Golath percebeu que sua mente estava se tornando confusa. Num esforço
gigantesco, tentou livrar-se de Zerft, mas este se inclinou para
frente frustrando a tentativa.
Inesperadamente,
Golath se atirou para trás, obrigando Zerft a dar um passo para
frente. Tropeçou e, quase sem refletir, Golath o puxou contra si,
rolando os dois no chão. Eram duas feras engalfinhadas no soalho. A
luta estava no auge e a vantagem continuava com Zerft.
Mas quem
decidiu tudo foi Liszog. Temendo que Golath morresse, o subconsciente
do jovem foi mais rápido que seu medo. Sabia muito bem que Zerft
jamais estaria em condições de dirigir uma espaçonave e, assim,
chegarem até Unitro. Foi então que o jovem sacou a arma, olhou um
pouco indeciso para os lutadores, rolando no chão.
— Parem
com isso! — gritou ele. — Se não se separarem imediatamente, eu
vou atirar.
Os dois
monstros, resfolegando, sujos, levantaram-se.
— Que
significa isto? — gritou Zerft furioso. — Afaste esta arma da
minha direção.
A mão de
Liszog tremia. Porém permanecia de pistola em punho, apontada
principalmente para Zerft.
— Jogue-me
esta arma, Golath — exigiu ele.
Golath
sorriu zombeteiro. Arrancou sua arma da cartucheira e jogou-a próxima
de Liszog.
— Vamos
ter um novo chefe — disse para Zerft, com uma ponta de desprezo.
E antes de
concluir seu pensamento, afastou a arma para longe com o pé. Sua mão
não estava mais sangrando. O velho arcônida observava atento, sem
dizer uma palavra.
— Vou
transferir o comando novamente para Golath — disse Liszog com voz
autoritária.
A reação
de Zerft só pôde ser um palavrão, pois a arma engatilhada na mão
de Liszog o impediu de se precipitar contra o mais jovem dos
desterrados. Mas seus olhos faiscavam de ódio.
— Muito
bem! — disse Golath contente. — Dê-me agora sua arma, jovem.
Liszog
agitou energicamente a tromba.
— Não!
— respondeu.
Golath
olhou admirado para ele e, neste olhar, havia algo de respeitoso.
— Sem
arma não posso comandar. Que adianta dar ordens? Zerft só obedecerá
às instruções se forem sublinhadas pelo cano da pistola de raios
térmicos.
— Sei
disso — continuou Liszog. — Você vai conseguir o que deseja, mas
antes quero resolver uma coisa muito importante.
— O quê?
— indagou Golath.
Liszog
apontou com a tromba para o velho arcônida:
— Vou
matá-lo.
Zerft deu
um pulo e agarrou Golath pelas costas. Este sentiu a respiração
quente do espadaúdo unitro no dorso.
— Isso
mesmo, Liszog. Atire, que Golath não vai poder impedir seu trabalho.
Liszog, de
arma em punho, caminhou para o limpador de trombas. O pobre do
prisioneiro o observava com visível indiferença. Liszog desligou o
automático e o arcônida ficou livre das amarras.
A voz de
Golath soou com toda calma:
— Se
você o matar, nós nunca mais veremos Unitro.
Zerft
aplicou-lhe um violento soco.
— Cale a
boca! Deixe que Liszog faça o que é certo.
O
solitário arcônida havia permanecido tanto tempo naquele suplício,
que se sentia demasiadamente fraco para se levantar sozinho. Liszog o
olhava pensativo.
— Espere,
Liszog! — disse Golath depressa. — Este velho é o dono da
pequena espaçonave. É o único que sabe e pode desativar a proteção
magnética. Se você o matar, não nos poderá transmitir seus
conhecimentos.
Liszog
olhava indeciso de um para o outro. Zerft murmurou qualquer coisa e
soltou Golath.
— Ele
naturalmente não vai nos dizer seu segredo espontaneamente — disse
Liszog céptico. — Repare: é muito idoso e os homens idosos não
têm medo da morte. Não conseguiremos convencê-lo a nos ensinar
como entrar no pequeno aparelho.
Embora não
o tivesse dito claramente, podia-se perceber que Liszog já havia
desistido do plano de matar o velho. Golath se abaixou e apanhou a
arma. Depois, pegou também a arma de Zerft.
— Ele
vai nos mostrar o caminho para seu aparelho particular — afirmou
Golath.
Sua tromba
pendia naturalmente para frente. Havia quase um brilho alegre no seu
olhar.
— Você
está vendo — soou a voz de Zerft, comandada pelo ódio — ele
ficou completamente doido, Liszog.
Golath fez
como se não tivesse ouvido.
— Vamos
prender o arcônida — disse ele. — Mas, durante a noite, ele deve
ter a oportunidade de fugir.
— Como
assim? — gritou Zerft fora de si. — Você o quer deixar escapar?
— Isso
mesmo — confirmou Golath. — O prisioneiro deve ter a impressão
de uma fuga muito difícil. Nós não o vamos impedir, nem mesmo
estaremos a bordo da Kaszill, quando ele fugir.
Nervoso,
Liszog piscou os olhos. Viam-se no seu rosto os primeiros indícios
de arrependimento por haver escolhido Golath para comandar as ações
do grupo. Mas o inteligente e experimentado unitro continuou falando.
— Vamos
nos esconder bem perto do pequeno aparelho. Quando o velho chegar,
deverá estar com muita pressa, pois tem que contar com uma
perseguição por nossa parte. Não terá, pois, muito tempo para
examinar tudo em volta. Sua maior e única preocupação será
penetrar na espaçonave e fugir deste planeta. Quando ele neutralizar
o envoltório de proteção, nós saltamos do esconderijo e nos
apossamos da espaçonave. O arcônida vai ficar tão perplexo, que
será uma brincadeira nos livrarmos dele. Depois de penetrarmos em
seu aparelho, resolveremos todos os outros problemas.
— Não
vai dar certo — disse Zerft com ressentimento. — E se ele
desligar o envoltório magnético por um tempo muito curto?
— Estaremos
escondidos bem próximos da pequena espaçonave — explicou Golath.
— Não se esqueçam de que será noite e estará bem escuro. Nem
mesmo os olhos arcônidas conseguem penetrar na escuridão da noite.
— O
plano é simples, mas parece muito inteligente — observou Liszog.
Golath
acenou contente com a cabeça.
— Importante
em tudo isto é que vocês dois não comecem a brigar durante a
operação — disse Liszog para Zerft e Golath. — Se vocês
começarem a discutir, perderemos tudo.
— Não é
de mim que vai depender isto — disse Golath em tom de conciliação.
Esticou
sua tromba na direção de Zerft, para o tradicional abraço de
confraternização.
— Estou
de acordo — falou Zerft ainda hesitante, sem mover, porém, a
tromba.
O rosto de
Golath se enrubesceu. Isto representava uma grande ofensa.
— Por
que razão você recusa a tromba a Golath? — perguntou Liszog, em
tom de censura.
Zerft
olhou para ele de soslaio. O ódio não desaparecera ainda de seus
olhos. Suas mãos se encrespavam numa fúria reprimida. Golath
retirou sua tromba, sem dizer mais nada.
Liszog se
encaminhou para o arcônida e o retirou do limpador de trombas,
deixando-o de pé. O velho prisioneiro estava muito fraco. Quase
caiu, quando Liszog o colocou de pé.
— Um
plano muito bonito, maravilhoso mesmo — interveio Zerft. — Quer
dizer que este pobre velho tem que desaparecer de noite e correr até
sua nave lá longe. Mas a minha opinião é de que ele vai morrer
antes... de fraqueza.
— Não o
despreze tanto assim — aconselhou Liszog. — Embora não seja
jovem e forte, certamente não é covarde. Não demonstrou sombra de
medo, quando nos viu. Merece nosso respeito, pois é um homem de
coragem.
— É um
arcônida — disse Zerft, resumindo tudo.
Liszog
conduziu o velho para uma poltrona, onde o coitado caiu extenuado.
Zerft observava tudo com cara de quem não estava gostando. Devia
estar preocupado com alguma coisa.
Golath
notava que dentro de si crescia a autoconfiança. Pela atuação
positiva de Liszog, assumira novamente o comando e Zerft estava,
momentaneamente, fora de circulação. Golath era inteligente demais
para perceber que seu verdadeiro inimigo não era o velho arcônida,
mas o mau elemento Zerft. Apesar de tudo, remavam os dois na mesma
canoa. O unitro valentão não tinha outro meio, senão ceder ao
desejo de seus dois colegas. O destino do velho arcônida não
interessava a Golath. Haveriam de deixá-lo tranqüilo no planeta, se
não se opusesse a seu plano de fuga.
Uma
sensação de ardência na tromba fez com que Golath voltasse à
realidade, às coisas concretas. Ligou o automático do limpador de
trombas e se deitou ali com todo conforto. As tiras metálicas o
envolveram suavemente. O compressor, semelhante a uma almofada de
carimbo, abaixou delicadamente sua cabeça, colocando-a na altura
certa para que as espirais de limpeza penetrassem com jeito tromba
adentro. Respirou mais aliviado.
Olhou
depois para Liszog, que continuava pensativo de pé ali ao lado.
Zerft mexia impaciente em sua roupa toda rasgada.
— Fique
de olho nele — avisou Golath.
Depois
fechou os olhos e, descontraído, se entregou às benfazejas
massagens do braço espiralado, que lhe friccionava com líquidos
apropriados o interior da tromba.
*
* *
Era
realmente uma sensação estranha viver constantemente no limiar da
morte, mais para lá do que para cá. Crest sabia que se estava vivo,
o devia somente à falta de união existente entre os unitros. Já
por duas vezes tivera o cano da pistola energética a poucos palmos
de sua cabeça. Por duas vezes sentira o fim de sua vida e... de uma
forma tão simples e... estúpida! Exatamente nestes momentos
extremos é que lhe ecoava na cabeça, como um trovão, a promessa
feita a Rhodan. Aceitava calmamente a morte, mas a perda do Space-Jet
não lhe permitia um momento de sossego.
Agora que
o maior perigo havia passado, Crest acreditava que haveria de ter uma
chance de salvar aquele milagre da tecnologia terrana e não permitir
que seus segredos fossem descobertos por povos inimigos. O simples
fato de os monstros de tromba terem aparecido novamente nos escombros
da nave já era uma prova de que não conseguiram quebrar o
envoltório de proteção. Certamente não iriam desistir. Teriam
forçosamente de se apoderar do jato para poderem sair do planeta.
Crest não
ignorava o que um ser inteligente pode fazer, quando se encontra numa
situação de desespero. Seus adversários estavam dispostos a tudo.
Eram fortes, jovens e, além disso, possuíam armas muito poderosas.
Cansado e
alquebrado, o velho arcônida começou a pensar no que um ancião
como ele poderia fazer, usando a inteligência. Seu corpo estava
quase enrijecido, pois ficara por longo tempo no suplício: o lavador
de trombas. Graças a Deus que o colocaram naquela poltrona. Aos
poucos a circulação sangüínea começou a voltar ao normal. A dor
de cabeça desapareceu.
A suposta
armadilha não era outra coisa senão uma aparelhagem automática
para lavagem e massagem das trombas daqueles seres estranhos. Quase
não acreditando no que via, presenciou como um deles se deitou
naquele estrado. Compreendeu a finalidade da instalação, e não
conseguiu livrar-se de um sorriso. Os três seres trombudos fizeram
uso da aparelhagem, um após outro. Crest os ficou observando. Não
se podia ainda pensar numa possibilidade de fuga. Tinha que ponderar
muito cada passo que desse. Não iria mais cometer nenhum erro.
Passou a mão pelo cabelo, que já estava quase seco.
O véu da
noite começou a envolver o planeta, que seria chamado por Perry
Rhodan e por toda a civilização terrana de planeta Crest.
A
claridade tornou-se rara na sala de comando da nave acidentada. Crest
se sentia muito cansado. Pela primeira vez em sua vida, lamentou ser
tão velho assim. Que lhe adiantavam suas armas espirituais, quando
seus adversários eram fisicamente muito superiores. A eterna
discussão entre a inteligência e a força bruta parecia pender
agora para o lado desta última.
O ser de
tromba, o mais alto deles, que por duas vezes salvara a vida de
Crest, chegou até o arcônida.
— Eu sou
Golath — disse ele num pesado intercosmo.
Crest
assentiu delicadamente.
— Meu
nome é Crest — na cabeça do velho havia um turbilhão de
pensamentos, sobre se os três degredados eram de alguma longínqua
colônia arcônida.
— Nós
de Unitro — explicou Golath, enquanto apontava para si e para os
dois colegas.
Depois
ergueu a tromba na direção de Crest.
— Você
arcônida?
“Ele
não tem nenhuma simpatia pelo meu povo”,
pensou Crest. “Eu
não o culpo por isso.”
Golath
continuou fitando o arcônida, muito pensativo. Crest gostaria de
saber quais os pensamentos existentes naquela cabeça disforme. Era
muito difícil tentar medir os sentimentos de um ser estranho pelos
traços de sua fisionomia.
— Você
nos dar objeto que voa pelo espaço das estrelas — exigiu Golath
sem mais rodeios.
Preocupado,
Crest perguntava a si mesmo o que aconteceria se os monstros
descobrissem a significação daquele pequeno transmissor de pulso.
— Ele me
pertence — disse Crest, com clareza. — Vocês não podem tocar
nele.
Golath
arrancou a arma, apontando-a para o peito de Crest. Os olhos
avermelhados do arcônida fitaram tranqüilos o estranho. No seu
rosto enrugado, nenhum músculo se mexeu.
— Você
agora entregar aparelho? — perguntou Golath já com mais esperança.
A pistola
continuava apontada para o velho arcônida.
A resposta
de Crest foi mais uma vez concisa e clara:
— Não!
O unitro
guardou novamente a arma. A tromba voltou à posição normal. Pelos
seus grandes olhos não se podia saber se estava irado ou não. Com
um leve toque de mão no ombro de Crest, disse brandamente:
— Você
agora prisioneiro.
Crest
dispensou qualquer resposta. Era mais do que lógico que os estranhos
não iriam soltá-lo sem mais nem menos. Certamente tentariam mais
vezes, com métodos menos suaves, fazê-lo mudar de opinião. Mas
Crest não queria se preocupar com isto agora. Tinha coisas mais
importantes.
Estava de
novo sozinho.
“Seu
transmissor de pulso”,
manifestou-se de novo a parte do seu setor lógico. “Não
chegaram a vê-lo.”
Crest se
levantou depressa. A arma escorregara para debaixo da aparelhagem de
limpeza das trombas. Apanhou-a e a escondeu no seu manto; isso feito,
voltou para sua poltrona. O aposento, isto é, a sala de comando,
tinha uma outra entrada, que também estava fechada. Esta entrada
devia levar para a parte traseira da nave. O arcônida lembrou-se de
que por lá havia uma fenda regular, dando passagem para um homem de
média estatura. Porém os unitros podiam ter conhecimento desta
abertura e, provavelmente, já a teriam fechado.
Já estava
totalmente escuro. O silêncio em torno dele parecia ter vida. Tinha
feito um esforço para guardar na memória todo o ambiente e agora
poderia sair em qualquer direção, sem esbarrar em nenhum objeto,
principalmente no aparelho de lavagem das trombas.
Seus
ouvidos pareciam ter sensores especiais na escuridão. Mas, além da
sua respiração, não ouvia mais nada. Levantou-se e caminhou para a
segunda saída. De repente pisou num caco de vidro. O ruído
diferente e mais forte lhe penetrou até a medula dos ossos. Parou
assustado. Não o amarraram, portanto teria o direito de se locomover
ali dentro, para olhar qualquer coisa. Depois continuou com todo
cuidado.
Levou
algum tempo para atingir seu objetivo. Sentiu o frio do metal da
porta nas suas mãos. Na Kaszill tudo era silêncio. Passou a mão,
apalpando pelo metal, até achar a maçaneta. Dobrou-a para baixo com
o máximo cuidado e temeroso encostou o ombro para empurrar a porta.
E ela abriu.
Não
hesitou mais. Não podia perder sua oportunidade. Não abriu a porta
de todo, só o necessário para ele passar. O lugar em que estava
agora lhe era desconhecido, mas sabia a direção para onde devia
fugir. Apressou mais o passo daí para frente. Como ponto de
orientação serviu-se de uma parede que dava para a parte traseira
do aparelho.
Crest
sorria, embora fosse um sorriso nervoso, quase vizinho do calafrio.
Será que seria tudo tão fácil assim? Será que seus adversários o
julgavam tão fraco a ponto de dispensarem qualquer vigilância sobre
ele?
Mas isto
não vinha ao caso agora. O importante era sair dali. Assim que
alcançasse o jato, estaria fora de perigo.
Logo em
seguida, percebeu a grande fenda na fuselagem. Lá fora ainda não
estava completamente escuro. Através da fenda entrava um pouco da
claridade. Sem hesitar, pulou para a liberdade, já com a arma na
mão. Mas ninguém o deteve.
“Os
unitros devem estar dormindo em algum lugar da velha nave. Azar
deles!”,
refletiu Crest, triunfante.
Disparou o
mais depressa que lhe foi possível rumo ao seu precioso Space-Jet.
*
* *
Zerft
afastou um pouco a ramagem e se ajeitou melhor no seu esconderijo.
Olhava impaciente escarpa acima. Estava escuro demais para se
enxergar alguma coisa.
— Ainda
é muito cedo... — observou Golath. — Não nos esqueçamos de que
ele é velho e vagaroso e certamente deve ter esperado um pouco, para
que todos dormissem.
Estavam
agachados num buraco cavado sob a orientação de Golath, quase
encostado ao jatinho. Quando o arcônida aparecesse, e assim que
neutralizasse o campo magnético de proteção, seria atacado
simultaneamente pelos três.
— Estou
com um pressentimento horrível — declarou Zerft, muito abatido. —
Alguma coisa não vai dar certo, tenho certeza disso.
— Não
fale tão alto — sussurrou Golath. — Ou você quer que ele nos
ouça?
Zerft
voltou novamente à carga.
— Por
que que vocês não me dão nenhuma arma? Dei-lhes minha palavra que
não haverei de estragar esta operação.
Golath
contemplava o “amplo
vulto”,
que estava sentado à sua frente. Hesitante, balançava uma pistola
de raios térmicos.
— Dê-lhe
a arma, Golath, isto aumenta também a nossa garantia.
A
contragosto, Golath cedeu ao pedido. Zerft apanhou a arma com a
tromba, soltando uma gargalhada esquisita que não agradou muito a
Golath.
— Você
só pode atirar, depois que ele desligar o envoltório magnético —
repetiu-lhe claramente Golath. — Se atirar antes, nosso plano irá
por água abaixo.
— Não
se preocupe — disse Zerft. — Que diferença faz se o desgraçado
do arcônida morrer uns momentos antes ou depois?
Liszog
estremeceu ao ouvir esta frase estúpida. Para Golath foi
simplesmente mais uma prova evidente de que Zerft não passava de um
grande tolo.
O chão em
torno deles estava frio e úmido. Golath sentia demais aquela
friagem. Para esquecer o frio, deu rédeas à sua fantasia. E,
instantes depois, ele se sentiu na sua terra, Unitro, quando ainda
não era ladrão, trabalhando decentemente. Foi quando apareceu
aquela mulher, com tromba esbelta e bem torneada, de olhos redondos,
transformando sua vida. A partir daí, a vida de Golath tornou-se um
inferno. Perdeu a noção de responsabilidade e começou a fazer
coisas que nunca tinha imaginado. Começou a roubar, com o intuito de
aumentar seus rendimentos, para poder dar tudo que a mulher lhe
pedia. Ela não queria saber de onde vinha o dinheiro. Golath
encontrou-se com ladrões profissionais e começou a agir com eles.
No dia
fatídico, estava com Zerft e Liszog. Foram presos e receberam o
maior castigo para um unitro: cassação da cidadania e expulsão da
comunidade social. Colocaram-lhe à disposição, para saírem para
sempre da nação, uma velha espaçonave, a Kaszill. Poderiam voltar
somente quando conseguissem realizar um feito de utilidade para seu
povo. Só então receberiam de volta a cidadania e o respeito de sua
nação.
Golath
mostrou no rosto uma contração de dor.
Como fora
possível perder a cabeça daquele jeito?
O que
estava acontecendo agora era uma felicidade que ele não merecia. O
destino parecia conduzido por mãos de fada, dando-lhes a
oportunidade de regressar à terra natal, levando uma grande
novidade: uma espaçonave tremendamente moderna. A única coisa que o
entristecia era a morte de um velho arcônida. Mas não havia como
evitar esta fatalidade. Por outro lado, as atrocidades dos arcônidas,
cometidas em Unitro, justificavam a morte do velho solitário.
Liszog
movia-se um pouco inquieto, perturbando os sonhos de Golath.
— Que há
de novo? — perguntou sussurrando, tentando inutilmente penetrar com
os olhos na escuridão.
Aguçou os
ouvidos. Silêncio total em volta. Certamente ouviriam o arcônida
antes de vê-lo. E isto lhes seria favorável, pois o fugitivo não
os haveria de ver.
— O
velho está demorando demais — disse Zerft obstinado. — Talvez
esteja desmontando a Kaszill, enquanto nós esperamos feito bobos
aqui, morrendo de frio.
— Mesmo
que desmontasse a Kaszill toda, não perderíamos muita coisa com
isto — respondeu Golath.
Liszog
acrescentou pessimista:
— E se
ele não achar o caminho para a suposta liberdade?
— Não
irá ficar sem fazer nada, sentado na sala de comando da nave em
ruínas — disse Golath com convicção. Fez um movimento com o
corpo e um pequeno torrão de terra úmida rolou até seus pés. —
Acho que, em pouco tempo, ele encontrará a grande fenda que leva
para a parte traseira da nave. Irá então perceber que pode muito
bem sair por lá.
Ainda
enquanto estava falando, começou a chover. De início o chuvisco,
depois apertou. Zerft abotoou a roupa.
— Está
frio demais — disse Liszog, lamuriando-se.
— Tomara
que não tenhamos de ficar a noite toda aqui, apanhando chuva fria.
Golath não
tinha nada a reclamar, estava até gostando da chuva. A água lhe
escorria pelo rosto. Nas bordas do grande buraco escavado,
formavam-se pequenos sulcos por onde descia a água da chuva.
Durante
toda a noite, os três unitros ficaram ali, naquela cova, já agora
de barro mole. Esperavam e esperavam, enquanto o fundo da cavidade se
enchia de água. Estavam completamente molhados e ninguém mais abria
a boca para dizer coisa alguma. Liszog chegou até a cochilar um
pouco. Golath o acordou com um leve toque no ombro. Seus ouvidos
continuavam atentos à espera do arcônida. As trombas já estavam
ficando rígidas de frio, e até o próprio Golath estava quase
sucumbindo de cansaço.
E o velho
arcônida não chegava!
O plano de
Golath havia dado alma nova ao grupo dos degredados, mas não dera
certo. Quando começou a clarear o dia, Zerft saiu da grande cova,
tão cheia de barro, que escorregou diversas vezes.
Golath
estava cansado e abatido demais, por isso não saltou também para
fora daquela cova barrenta.
Zerft
sacou a arma e começou a jogá-la de uma para outra mão como se
fosse um mero brinquedo. Seu semblante denunciava ódio e desespero.
— Há
uma única maneira de se viver em paz com um arcônida — gritou ele
brandindo a arma. — É esta aqui!
E saiu
correndo sob a chuva. Rapidamente, aquela figura parda ia sumindo de
vista. Golath ficou olhando para ele pela borda da cova.
— O que
Zerft quer? — perguntou Liszog.
— Quer
matar o velho. Odeia tudo que é arcônida.
Suas mãos
se apoiaram na beira da cova toda enlameada, fazendo um grande
esforço para se levantar. Liszog o ajudou a sair. Golath estava
agora de pé, todo sujo de barro.
— Ajude-me
a sair também daqui — pediu Liszog, esticando os braços.
Golath
sacudiu a tromba.
— Não!
— disse ele. — Um de nós tem que ficar aqui. Pode ser que o
arcônida ainda chegue. E você não deve de maneira alguma pegar no
sono.
— Eu vou
ficar gelado aqui dentro — disse Liszog.
— É
melhor agüentar um pouco de frio, do que permanecer para sempre
neste planeta, meu jovem. Não se esqueça disso.
— Para
onde você vai, Golath?
— Para a
Kaszill. Vou tentar tirar os geradores. Não tenho dúvida de que
vamos precisar deles para entrarmos no pequeno aparelho do arcônida.
— Volte
logo — pediu Liszog.
O grande
unitro já desaparecera. Liszog ficou sozinho na chuva, cercado de
água e barro, sem ouvir o menor ruído. Seus olhos se esforçavam
para ver alguma coisa no lusco-fusco do dia chuvoso. A solidão era
total e o coitado começou a sentir-se isolado.
De repente
um pensamento tomou corpo em sua mente apavorada. Era uma idéia fixa
de que não se podia livrar: nos esforços malucos que estavam
fazendo para regressarem a Unitro, ele, Liszog, haveria de perder a
vida.
E ninguém
iria chorar por isto, ninguém se incomodaria se ele morresse. Nem
Zerft, nem Golath tinham sentimentos de amizade por ele. Estava de
qualquer maneira sozinho, ali naquele buraco cheio de barro, morrendo
de frio. A milhares de anos-luz de sua pátria.
Se
quisesse voltar para Unitro, teria realmente que matar um homem —
um homem velho. Quem lhe dava o direito de fazer isto?
Porém,
apesar de todos os escrúpulos, sabia que mataria o prisioneiro, caso
fosse necessário.
Tinham que
se apossar da pequena espaçonave.
*
* *
Crest
acreditava que se afastava do Space-Jet sempre com maior velocidade.
Na realidade, porém, sua fuga ia muito vagarosa. Constantemente
tinha que parar, pois sua respiração estava ofegante. Também suas
pernas não agüentavam mais.
Quando
caiu, não foi porque tropeçou. Seus joelhos é que cederam, de tão
fracos que estavam. Bateu duro no chão e ali ficou com a respiração
descompassada, de rosto colado na terra fria. Seu corpo estava tão
extenuado que só com o empenho de todas forças foi que conseguiu
pôr-se de pé. Sua maior preocupação era morrer de cansaço, antes
de poder salvar o jatinho.
Foi se
arrastando mais uns metros para frente, mancando, pois o tornozelo
lhe doía muito.
Será que
já sabiam de sua fuga? Talvez até os perseguidores já estivessem
em seu encalço... ou então escondidos perto do local onde estava o
Space-Jet, para depois que desligasse o envoltório de proteção,
atacá-lo e... matá-lo.
“É
isto mesmo”,
dizia seu setor lógico. “Sua
fuga foi fácil demais. Você iria levar seus inimigos exatamente
para o lugar onde você não quer vê-los: isto é, para dentro do
jato.”
Crest
parou por um instante.
— Será
que estava cego? — perguntou a si mesmo.
Ou eles
estavam escondidos bem perto dele, na escuridão, ou num bom
esconderijo ao lado do Space-Jet. Por um triz, não ia caindo na
armadilha.
Algumas
gotas de chuva lhe bateram na testa. Depois, os pingos engrossaram.
Crest se
sentia em péssimo estado. Perguntava a si mesmo de onde tirava as
energias para continuar lutando, a fim de salvar a nave.
Lutar?
Ele mesmo
achou engraçado a palavra lutar, pois até então não fizera outra
coisa a não ser fugir deles.
Que podia
fazer agora? A região em torno do jato tomar-se-ia muito perigosa
para ele, seria melhor não ir para lá. Só havia uma possibilidade
e, mesmo assim, pouco promissora. Devia se embrenhar na floresta.
Para um rapaz moço, isto não seria problema algum. Mas para um
velho arcônida, representava um esforço inaudito, lutar contra
plantas venenosas e principalmente contra animais perigosos. Se
penetrasse pelas florestas, talvez não voltasse mais.
Apesar de
tudo, e mesmo mancando, continuou sua marcha, parando a toda hora,
por falta de força. Virou a cabeça para trás e abriu a boca. Por
uns momentos deixou que a água da chuva corresse por sua garganta
ressecada. Isto lhe fez muito bem. Uma outra coisa que o ajudava um
pouco era também a menor gravidade. É verdade que a diferença era
bem pequena: um sexto menor que a da Terra. Mas esta pequena
diferença já ajudava.
Quando
chegou de volta aos escombros da nave dos unitros, a articulação do
pé doía-lhe demais. Tirou as sandálias e examinou o ferimento. O
tornozelo estava muito inchado e ao mesmo tempo muito quente. No
posto, perto de sua casa, tinha toda espécie de medicamento para o
caso. Mas não pensava em ir para lá. Rasgou uma tira de tecido do
seu capote. Umedeceu o pano numa poça de água de chuva e envolveu
com ele o pé, apertando bem. Era tudo que podia fazer no momento.
Havia o
maior silêncio em torno dos escombros da nave unitra. A chuva
tamborilava em seu exterior metálico. Crest estava certo de que os
seres de trombas esperavam por ele lá no Space-Jet de armas na mão.
Mas haveria de dificultar ao máximo as ações dos seqüestradores,
até poder salvar o jatinho. Queria provar aos unitros que um
arcônida era um arcônida, mesmo velho e alquebrado.
6
Chegou até
a margem da floresta sem ser molestado. Seu corpo estava mais pesado
do que chumbo, sua roupa totalmente encharcada, colando na pele. A
dor no pé cedeu um pouco. Pela chuva constante, o solo estava tão
amolecido, que seus pés se afundavam no barro, às vezes por muitos
centímetros. Surgiram as primeiras árvores.
E Crest
continuou cambaleando pela floresta adentro. Parou, se recostou grato
no tronco de uma árvore gigantesca. A densa copa, de ramagem
intensa, servia de abrigo contra a chuva. Crest sentia nas costas a
superfície irregular da casca, que emanava um cheiro desagradável.
Mais para dentro da mata, ouviu um estranho sussurrar, que o chamou à
realidade.
Não devia
esquecer que aquelas florestas eram muito perigosas. Os lançadores
de ácido, animais terríveis, só atacavam de dia. Mas os animais de
longos chifres, que viviam perto dos brejos ou junto dos lagos, eram
muito abundantes e só agiam à noite. Era na escuridão que estes
monstros cilíndricos, com muitos metros de comprimento, saíam de
suas tocas para se alimentar. E o interessante era que com suas patas
curtas estes anfíbios pesadões desenvolviam grande velocidade. As
duas patas dianteiras, mais espalmadas, agiam como ventosas,
dando-lhes melhor movimentação ou facilitando a captura de suas
vítimas. Revestidos de grandes e grossas escamas, podiam cavar tocas
com grande facilidade. Do focinho sobressaíam duas grandes presas,
terror de todos os demais animais da floresta e por que não, no
momento, do pobre Crest?
O arcônida
estava se lembrando do relatório de seu patrício Ufgar, descobridor
e primeiro explorador do planeta, que mais tarde recebeu seu nome.
Dois dos companheiros de Ufgar foram atacados por estes monstros. E
os lançadores de ácido chegaram a matar três exploradores. A
pistola energética, usada a tempo, poderia salvar Crest destes
perigos.
O
cientista sabia que precisava urgentemente dormir um pouco. Dormir
ali no chão equivaleria a um suicídio. Desprendeu-se da árvore
onde estava encostado e penetrou pela floresta adentro. Galhos e
plantas rasteiras, principalmente uma infinidade de cipós, lhe
dificultavam os movimentos. Ficou muitas vezes emaranhado, quase sem
se poder mexer. Finalmente, descobriu uma árvore, cujos galhos eram
suficientemente amplos para abrigar seu corpo em posição tolerável.
Levando em consideração sua idade e seu grande esgotamento, Crest
exibiu uma performance quase olímpica, quando trepou nos galhos da
árvore.
Ali
estaria protegido contra os anfíbios chifrudos, cavadores de terra,
cujos corpos não eram feitos para galgarem árvores mais altas.
Procurou um galho mais largo e deitou-se do melhor modo que pôde,
com as costas apoiadas no tronco. Não havia propriamente conforto,
mas dava para descansar. Ouviu por alguns momentos o sibilar do vento
nas folhas, caindo logo depois em sono profundo — sono de
esgotamento.
*
* *
Acordou
com o barulho da passarada, pulando e cantando por todos os lados. Já
era dia claro. A chuva terminara e a temperatura estava
agradavelmente quente. Crest esfregou os olhos. Contrariando sua
previsão, sentia-se refeito e bem-disposto. O descanso fizera bem
até para seu pé machucado. Tinha, porém, fome. Não longe dele, um
pássaro todo vermelho expandia sua queixa sonora contra a presença
de Crest naquela árvore. Assim que Crest fez um movimento com o
corpo, bateu asas.
Olhou para
baixo.
Sentiu um
calafrio. Acabou de despertar na mesma hora. Sua boa estrela estava
se apagando.
A poucos
metros do local de seu repouso, estava um dos monstros de tromba, já
com a mão na pistola de raios térmicos.

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